HISTORIOGRAFIA MARXISTA: Um intróito

Dando continuidade ao post de 17 de abril último, “SINOPSES DE (ALGUNS) LIVROS INDISPENSÁVEIS PARA A FORMAÇÃO DO HISTORIADOR – Episódio I”,¹ com 11 sinopses de importantes obras de introdução ao estudo da História, e conforme combinado àquela altura, dedicaremos outro post somente a sinopses de obras ligadas à historiografia da esquerda marxiana num segundo episódio das SINOPSES DE CLÁSSICOS DA HISTORIOGRAFIA. Antes, porém, uma ligeira tradução do início do verbete Marxist Historiography (https://en.wikipedia.org/wiki/Marxist_historiography) do wikipedia, para situar o leitor e aprendiz.

¹ https://seclusao.art.blog/2023/04/17/sinopses-de-alguns-livros-indispensaveis-para-a-formacao-do-historiador-episodio-i/

A historiografia marxista, ou historiografia materialista histórica, é uma escola muito influente da historiografia. Os pontos-chaves da historiografia marxista incluem a centralidade do conceito de classe social, as relações sociais de produção em sociedades divididas em classes em incessante conflito entre si e o estudo das limitações econômicas na determinação de resultados históricos (materialismo histórico). Os historiadores marxistas estudam o desenvolvimento da divisão de classes, especialmente nas sociedades moderno-capitalistas.

A historiografia marxista se expandiu de uma tal forma que deu lugar a ramificações regionais e políticas as mais díspares. É diferente falar de uma historiografia marxista ocidental e de uma historiografia marxista soviética, ou indiana, ou pan-africanista ou ainda de tradição afro-americana,¹ havendo sempre a adaptação a circunstâncias geográficas e políticas dos objetos de estudo.

¹ Chama a atenção o artigo wikia não citar sequer a China!

Com as lentes da historiografia marxista estabeleceram-se histórias do proletariado e uma metodologia para a história social ou popular.[1][2][3]

A historiografia marxista é criticada por seus adversários como sendo de veio determinista,[4][5][6] supostamente apontando uma direção futura e inevitável da História, incluindo, nessa premissa, o fim do Estado e uma sociedade sem-classes. A historiografia marxista nos círculos marxistas mais fiéis ao ideário original do autor é vista, honestamente, o que nega essa crítica acerba acima, mais como ferramenta de estudo histórico que como ideologia ou ambição política (o que o marxismo, sem o prefixo historiografia, sem dúvida é). É notável que há classes oprimidas pelos que até hoje criaram a História e até hoje não foram agentes de sua própria narrativa, entre outros fatores graças à ausência da consciência de classe, liberdade no sentido estrito. A História que precede a descoberta da luta de classes não deixa de ser uma história mecanicista ou “natural”, pseudo-história, destino ou fado, em que as reais questões ainda não foram colocadas e se encontravam inconscientes. De qualquer modo, para o marxista e, em geral, para o historiador marxista, a historiografia marxista conduzirá naturalmente a movimentos de liberação mundo afora.

Nem toda historiografia marxista é socialista ou comunista no senso acima apresentado. Métodos de historiografia marxista, como análise das classes, podem estar divorciados de interesses do espectro da esquerda. Historiadores podem usar sua metodologia ainda que discordem pessoalmente dos resultados ou do projeto político como um todo. Criou-se, devido a essa complexidade e ambigüidade, a nomenclatura “marxiano” para se diferenciar de “marxista”. A historiografia marxiana usa os métodos historiográficos inaugurados por Karl Marx e Friedrich Engels para analisar a sociedade, sem aderirem conscientemente a ideais revolucionários.[7]¹

¹ Acho essa tese da dicotomia –ista –iana bem fraca! Coisa de americano…

Enfim, essa tradução nos serve mais para nos pormos desconfiados e prevenidos quanto a “discursos neutros” nos círculos conservadores da História enquanto disciplina acadêmica do que como fonte informativa, e este foi meu intuito momentâneo! Não estaremos escavando material bem-vindo ou amigável aos senhores deste planeta no próximo post…

Referências

[1] BEN FINE; ALFREDO SAAD-FILHO; MARCO BOFFO (jan/2012). The Elgar Companion to Marxist Economics. Edward Elgar Publishing. p. 212. ISBN 9781781001226.

[2] O’ROURKE, J.J. (06/12/12). The Problem of Freedom in Marxist Thought. Springer Science & Business Media. p. 5. ISBN 9789401021203.

[3] STUNKEL, Kenneth (23/05/12). Fifty Key Works of History and Historiography. Routledge. p. 247. ISBN 9781136723667.

[4] = 1

[5] = 2

[6] = 3 [Curioso! Utilizavam-se 3 adversários do marxismo para conceituá-lo na “enciclopédia livre”! Interessante…]

[7] “Encyclopædia Britannica: Historiography – Marxist historiography”

SINOPSES DE (ALGUNS) LIVROS INDISPENSÁVEIS PARA A FORMAÇÃO DO HISTORIADOR – Episódio I

HERÓDOTO, Histórias

Histórias, ou simplesmente História ou A História, de Heródoto de Halicarnasso, é considerado o primeiro trabalho no campo do que hoje entendemos pela disciplina história ou historiografia no Ocidente, fundador por excelência, portanto, de uma ampla e milenar tradição. Escrita por volta de 430 a.C. no dialeto jônico, aquele mais rico em produções culturais no mundo helênico durante a vida do “pai da História”, esta é uma obra de valor e repercussões inestimáveis a fim de compreender as sociedades grega, médio-oriental e africana setentrional, raio geográfico do berço das civilizações. Heródoto viajou extensamente para colher boa parte de seus relatos, inaugurando, portanto, ademais da historiografia, a etnografia e o estudo de campo, fundamentos da disciplina antropológica.

Através da pena de Heródoto as gerações futuras obtiveram, por exemplo, seus primeiros esclarecimentos acerca do surgimento do império persa e das causas e do desenrolar das guerras pérsicas (travadas contra os próprios gregos no mesmo século de Heródoto). Para o autor, tratava-se da luta decisiva entre os bárbaros, a representar a escravidão, e a liberdade, bandeira levantada pela confederação das cidades-Estados helenas capitaneadas pela democracia ateniense. Post mortem os escritos de Heródoto, indivisos, passaram a ser transmitidos em 9 livros ou partes, compartimentação que persiste na atualidade, cada qual tendo como subtítulo uma das nove Musas do Olimpo.

Controvérsias

Hecateu, estudioso que precedeu Heródoto, é segundo algumas fontes o verdadeiro pai da História, sendo, portanto, retrospectivamente, rival de Heródoto em fama. Os críticos dessa visão asseveram que Hecateu, a despeito de dotado de respeitável espírito crítico, comparável ao moderno, pré-requisito para a boa historiografia, pecava por não ter logrado se libertar das correntes representadas pelo discurso mitológico. Onde Heródoto utilizava a mitografia como elemento entre outros de seu método histórico inovador, cujas regras estritas levavam a primazia sobre narrações fantásticas, Hecateu seria seu antípoda ideal: contaminado pelos mitos, subordinava o relato da História a essas fontes mais tradicionais e impossíveis de delimitar no tempo. O próprio Heródoto critica em Hecateu suas genealogias ingênuas e a falsa imagem que teria pintado dos atenienses. O que deve ser cedo aprendido pelo historiador neófito, entretanto, é que “atacar” um predecessor nem sempre significa rejeitá-lo por completo ou deixar de admirá-lo, pois é patente que Hecateu tem sua parcela de contribuição como influenciador de Heródoto, por sinal um assunto ainda muito espinhoso e de árdua deglutição entre nossos acadêmicos. Porfírio e Eusébio, autores da Antiguidade, acusam Heródoto de haver tomado as descrições naturalistas de Hecateu do crocodilo, do hipopótamo e da fênix sem citar a Circunavegação do Mundo Conhecido/Periegesis como sua verdadeira fonte (Histórias 2:78).

Outra distinção marcante entre Hecateu e Heródoto, que compartilham a primeira sílaba do nome e o ofício, é que Hecateu não contava com o presente como fonte de informações para sua história, ao contrário de Heródoto, que ensina que sem verificações no tempo atual o passado estará perdido e o historiador se confinará ao mero reino das conjeturas. Heródoto antecipou em muitos séculos uma tendência em voga: a revalorização da história oral, método praticamente olvidado pelo cânone da historiografia européia clássica.

Com efeito, o caráter sui generis de Heródoto é seu maior trunfo e, igualmente, a razão de ser vilipendiado e incompreendido por certa parcela de seus pósteros. Sendo o “Hipócrates da História”, posto não pouco invejado, a dificuldade em determinar qualquer fonte principal para a forja de seu método, em termos de nomes célebres, torna-o alvo fácil do menosprezo e exageros retóricos dos historiadores mais oportunistas e pedantes. Pois nenhum outro autor partícipe da formação intelectual do grego precursor teve importância hegemônica em sua obra, como acabamos de ver por Hecateu, que o influenciou marginalmente ou, pelo menos, acabou por ser completamente ofuscado pelas realizações mais impressionantes do discípulo indireto. Como não há, em várias instâncias, como atribuir identidade às inspirações empíricas de Heródoto, historiadores de um espectro extremado contestam o valor de seus achados históricos e põem em dúvida sua boa-fé em seguir o próprio método investigativo que consolidou. De fato, não é possível verificar uma por uma as referências de Heródoto colhidas em entrevistas e testemunhos em suas viagens. Seria fácil desqualificar qualquer autor antigo usando o mesmo argumento, incluindo filósofos e tragediógrafos. E não obstante os séculos XX e XXI estão repletos de fraudes em trabalhos de história, o que não significa que o historiador médio seja um ficcionista sem ética.

Dentre alguns raciocínios atemporais de Heródoto hoje ratificados encontramos sua afirmação de que os continentes então conhecidos não possuíam aproximadamente a mesma extensão, como costumava-se pensar a respeito da Europa, da Ásia e da África, noção hoje sem qualquer sustentação.

E, gostando-se ou não, Heródoto ainda é a única fonte para um sem-número de episódios históricos dos mundos grego e persa, do século VII ao V a.C. Não só: a arqueologia dos sécs. XIX e XX elevou o status do sábio de Halicarnasso em mais de um episódio desconectado da Grécia e da Pérsia. Um deles foi a descoberta, um tanto recente, aliás, de vestígios de Gelonus, cidade da Cítia, em 1975. Heródoto descreveu Gelonus como milhares de vezes maior que Tróia, juízo por muito tempo ridicularizado. O mesmo se sucedeu com Heracleion, cidade egípcia, que Heródoto afirmou ter sido fundada durante o novo reino do Egito, informação posta em dúvida até que achados empíricos (a estela de Naucratis) lhe prestassem renovada credibilidade.

Como dito, Heródoto nunca desprezou as fontes mitológicas, embora tenha lidado com elas de forma inédita. Em que pese os deuses nunca apareçam nos relatos de Heródoto (se pensarmos na freqüência desse expediente em Homero e Ésquilo, alguns de seus espíritos formadores), ele teve a sensibilidade dificilmente pueril de afirmar: “Muitas coisas me provam que os deuses participam dos negócios do homem” (9:10). Tal sentença deve ser encarada no contexto da interpretação filosófica da História por Heródoto, que não prescindia do importante, por mais que sujeito a intermináveis debates, conceito de destino.

A última grande polêmica em torno de Heródoto – se é que de fato vale a pena um tal questionamento “comezinho” – seria determinar quem foi um historiador mais completo: se ele ou se Tucídides, que lhe foi parcialmente contemporâneo, apesar de mais jovem, e afigura-se como rival muito mais competitivo para a obtenção do título de progenitor da disciplina histórica que Hecateu. Hoje o valor epistemológico daqueles dois autores, os maiores historiadores da Antiguidade, está fora de dúvida entre os mais reputados dos especialistas; mas qual levaria a palma num fabricado concurso, já que falamos de personalidades helênicas, regidas pelo agon?

Tucídides sem dúvida pertence a uma outra escola historiográfica em relação a Heródoto, que poderíamos chamar, grosso modo, de história bélica ou militar, e muito mais ligada à retórica e à psicologia interior das personalidades que movem a História. Sendo assim, é muito mais difícil comparar a ambos, dado que todo historiador terá a princípio uma predileção por uma das duas abordagens, e acabará tomando cada autor pela disciplina ou ramificação da disciplina que ajudou a fundar e desenvolver. Felizmente, não precisamos responder à pergunta que encerra o último parágrafo, e não deixaremos de falar mais detidamente de Tucídides em seu próprio espaço, mais abaixo, o que muito ajudará quem estiver interessado neste tira-teima – haja vista que no mínimo uma das obras tucidídicas também vem a ser um clássico indispensável da historiografia.

Legado e Legado, Inspiração e Inspiração

Heródoto utilizou Os Persas de Ésquilo como fonte bibliográfica. A derrota da frota da Pérsia em Salamina teria sido necessária para determinar a derrota que se deu também em terra firme diante de Atenas, conforme seu livro oitavo, e ele absorveu este ensinamento da peça do escritor trágico. Em contrapartida, o sucessor de Ésquilo no teatro grego, Sófocles, utilizou os conhecimentos de Heródoto em seus escritos. Caso exemplar seria a cena da morte de Intafernes na Antígona, replicada de História volume III.

TUCÍDIDES, História da Guerra do Peloponeso

HGP é obviamente um relato do conflito homônimo, transcorrido entre 431 e 404 antes de Cristo, envolvendo a liga de cidades-Estados espartanas contra a liga de cidades-Estados lideradas por Atenas, com vitória desta última. Tucídides foi ele mesmo ator daquilo que narra, uma vez que foi general do exército vencedor. Sua História é dividida em 8 tomos. A questão central, se podemos extrair alguma, está na ambígua sobreposição entre poder bruto e justiça em nível nacional.

Em geral, os historiadores contemporâneos julgam Tucídides um escritor mais “objetivo” e rigoroso que Heródoto, com um estilo conciso e preciso (“mais pesado e menos prazeroso” que o herodótico, dirão outros). Dialeticamente, entretanto, Tucídides sofrerá das mesmas críticas de falta de critério e invenção de fatos direcionadas a seu colega imediato, o Pai da História, como seria inevitável. Destaque-se, porém, que Tucídides procura transmitir o conhecimento do período assinalado acima muitas vezes através de diálogos “ficcionalizados”, que ele não presenciou e não se deram literalmente, que carregam grande dose de verossimilitude e probabilidade, i.e., bem podiam ter mesmo acontecido assim, baseados que estão na bem-constituída personalidade dos interlocutores. A boa-fé de Tucídides está em que ele nunca esconde o quanto seus diálogos “imaginados” não passam de artifício para ensinar o leitor acerca da realidade grega. Talvez o fragmento mais famoso do autor a seguir este método para nós um tanto inusual seja não um diálogo, mas o monólogo ou discurso de Péricles, governante de Atenas, sua oração fúnebre, no segundo tomo.

Também em oposição a Heródoto Tucídides prima pela transcrição cronológica dos fatos, preferindo dividir os acontecimentos da guerra ano a ano (ou mais precisamente estação a estação, já que durante o inverno havia tréguas entre os soldados devido ao clima), em vez de proceder a um relato que chamaríamos hoje de holístico ou global.

SIMA QIAN & al., Registros do grande historiador

O Shiji (chinês para o título acima) só está disponível em inglês entre as línguas mais faladas e lidas pelos brasileiros, por isso é a leitura mais inacessível dentre estas três primeiras apresentadas; mas ao menos não precisamos aprender mandarim para apreciâ-la. Foi publicado pela primeira vez aproximadamente em 91 antes de Cristo, mas provavelmente não há qualquer chance de intercâmbio de conhecimentos entre a tradição grega da fundação da História e esta magnum opus do Império Chinês, o que nos leva a enveredar por uma segunda proposição da disciplina, uma vertente ou etimologia alternativa para o conhecimento do passado dos povos, ou, particularmente, de um povo ou nação, neste caso. Trabalho monumental por si só, os Registros do Grande Historiador (RGH) são apenas a história da primeira das 24 dinastias de imperadores. Sima Qian na verdade empreendeu a continuação do trabalho de seu pai, também historiador (à época, ‘escriba’), Sima Tan (Qian SIMA e Tan SIMA na notação ocidental).

A abrangência do tratado também é espantosa, se considerarmos os empreendimentos mais modestos dos gregos Heródoto e Tucídides: 2500 anos, desde o lendário Imperador Amarelo até o reinado de Wu Han, contemporâneo de Qian (há uma gradual transição entre lendas e história de facto). O foco do trabalho é a dinastia Han, que controlava a China. Na verdade poderíamos dizer que, dada a complexa e rica história chinesa, aqui entra-se em pormenores somente sobre a dinastia Han do Ocidente (da China). Não quer dizer que houve em simultaneidade uma dinastia Han do Oriente. Esta, com efeito, viria a surgir apenas séculos mais tarde, e alegadamente seus imperadores descendiam dos Han do oeste. Atrás apenas de Confúcio, que está mais para um teólogo ou filósofo em nossa classificação, e do primeiro imperador de Qin, Qian pode ser considerada a figura mais importante para a formação da China como hoje a entendemos, isto é, uma nação unificada. Poderíamos ser mais ousados, todavia, e dizer que sem Qian não haveria primeiro imperador Qin nem Confúcio: o próprio autor do livro que aqui nos interessa narrou a biografia destas duas personalidades no monumental tratado de História, ajudando a consolidar suas reputações. Desnecessário afirmar que RGH é o modelo para todas as subseqüentes histórias de dinastias chinesas e redações de biografias, gênero nascente. Será possível diagnosticar que a própria noção de tempo histórico no Oriente diverge muito da nossa própria tradição.

Uma obra de várias mãos

É sábido que não recebemos a obra na sua forma original, pois já no primeiro século depois de Cristo outro historiador, Chu Shaosun, adicionou interpolações ao texto mais antigo. É reportado que, pela escassez de exemplares da obra e as condições de degradação física do material, em algum ponto entre os sécs. II e III d.C., já durante a dinastia Han Oriental, historiadores da côrte tiveram de reescrever porções irremediavelmente perdidas de alguns capítulos (10 dos 130 legados por Qian). Como se vê, diferentemente da Grécia Antiga, a própria vida intelectual era basicamente restrita a funcionários do governo; portanto, quando se fala em escribas ou historiadores desta época e lugar, são sempre funcionários públicos trabalhando para o monarca absoluto – são histórias oficiais.

Do séc. V ao X (atravessando 500 anos de História), muitos escribas de novas dinastias trabalharam em Comentários do Shiji ou RGH, não mais modificando a obra já então clássica, mas aumentando seu cânone e, de certo modo, facilitando sua compreensão. Um dos volumes de comentários mais famosos é o Sanjiazhu (Comentários dos Três Sábios).

Somente nos anos 1930 os Registros foram preparados para disseminação moderna e passaram a estar ao alcance dos historiadores profissionais e amadores estrangeiros interessados, bem como se tornaram legíveis para grande fatia da população da própria China. Nesta nova edição, os Comentários dos Três Sábios estão em apêndice. Subsistem, ainda, blocos de madeira antigos com trechos do manuscrito original, guardados em museus.

As circunstâncias especiais da produção de livros na China Antiga

Em volume, trata-se de uma obra quatro vezes maior que a História da Guerra do Peloponeso que, recordemos, é hoje dividida em 8 livros separados, para comodidade do leitor! O próprio Antigo Testamento é menor que os Registros. Com os materiais de madeira usados por Qian (antes que ele finalizasse a obra e a disponibilizasse para copistas que utilizaram suporte papel), estima-se que ela, do início ao fim, contida em centenas de toras de bambu (estima-se que entre 600 e 700), pesaria de 40 a 60kg, dificultando bastante seu transporte para outros escribas ou interessados em consultá-la. Lembre-se que, ademais, essa “economicidade” em bambus (pois deviam ser necessárias bem mais toras) só foi possível graças ao caráter bastante sintético dos caracteres chineses, que contém muito mais informações que nossas letras do alfabeto. A conta acima, entretanto, que coloca os Registros acima da Bíblia em espessura, considera palavras utilizadas, não espaço ocupado, considerando quantas caberiam numa página normal, e mesmo com uma notação diferente na escrita o trabalho da vida de Qian permanece mais comprido e capaz de ocupar mais páginas que o Velho Testamento, sobretudo nas traduções ocidentais.

Conteúdo

Em muitos aspectos, sobretudo nos primeiros capítulos, RGH se assemelha a relatórios públicos da Administração, pois diversos acontecimentos e decisões do governo centralizado constam de crônicas, no sentido oriental desta palavra (semelhante a relatórios, notas técnicas, dossiês). Para períodos anteriores a registros escritos e antes da vida de Qian, ele obviamente se fiou nas tradições para remontar a dois milênios atrás. O curioso é que, como com Heródoto, excavações recentes têm confirmado muitas das informações contidas nos Registros, embora tantos elementos permaneçam obscuros ou em suspenso, dada a limitação de materiais à disposição para fazer inferências e atestar a veracidade dos discursos. Mesmo inscrições funerárias, quando descobertas, representam um fantástico achado para a ciência, mas seu alcance interpretativo em termos de refutar ou confirmar um tratado histórico de envergadura colossal permanece irrisório.

Outra parte do livro se devota aos Tratados, narrativas de grande fôlego, mais congruentes com o método ocidental de registrar a história, e narram a evolução dos rituais, da música, dos artefatos tecnológicos, do calendário da astronomia, da geografia e hidrografia (principalmente rios e canais) e administração das finanças ou economia ao longo do maciço tempo enfocado por Qian.

A quarta parte estabelece as árvores genealógicas de diferentes casas ou dinastias. Para os Han foram também escritas biografias, de menor porte, inscritas no próprio estudo da dinastia como um todo.

É a quinta parte a mais relevante e também a responsável por quase metade do tamanho da obra, e ela é voltada exclusivamente para amplas biografias de figuras destacadas da História chinesa. O peso dessa seção do livro é o que faz com que até mesmo exegetas ocidentais mais rigorosos ou preconceituosos avaliem este Shiji como um livro de História propriamente dita, sem deixar a dever, em rigor, às nossas próprias obras fundacionais. Essas biografias não são elitizadas, do ponto de vista de que só contemplassem indivíduos da família real ou altos funcionários (como nas poucas biografias da parte precedente), consistindo numa verdadeira radiografia da sociedade chinesa, dos grupos ou trabalhadores mais humildes, que tiveram o privilégio de preservarem suas famas, a todo tipo de intelectual ou governante, incluindo desde figuras de proa da escola dos confucionistas (os primeiros grandes reformadores culturais da China de que se tem notícia) até artistas, assassinos e oficiais do exército. O impacto dessas biografias da quinta parte ainda pode ser sentido na China contemporânea, através da adoção de provérbios retirados dos Registros usados persistentemente nas conversas cotidianas.

E a despeito da inscrição dessa obra na “história oficial” da dinastia reinante, a verdade é que Qian foi mais imparcial que os historiadores do período pós-confuciano que endeusaram os imperadores e tentaram apagar das crônicas todos os postulantes ao trono que fracassaram. Podemos chamar Qian de um escritor liberal avant la lettre, muito mais dissociado de dogmas ancestrais e inscrito numa modalidade de historiografia social. Sua charmosa prosa influenciou novelistas e poetas do país. O relato da tentativa de Jing Ke de assassinar o rei de Qin foi escorado em declarações de uma testemunha ocular do evento, Xia Wuju, médico do rei, que estava presente na cerimônia diplomática em que sucedeu o ataque. Xia contou a história a conhecidos, esses entrevistados por Sima Qian. Mesmo hoje há muitos trabalhos históricos considerados isentos e científicos que só utilizam fontes muito mais indiretas.

IBN KHALDUN, Os Prolegômenos ou Filosofia Social

Os Prolegômenos – palavra erudita para Introdução – ou Muqaddimah em árabe são a grande obra de Ibn Kaldhun, raro filósofo, jurista e historiador medieval que segue relevante, publicada em 1377. Com efeito, muitos epistemólogos a vêem como a primeira obra de filosofia da história e das ciências sociais, séculos antes de Comte e Durkheim fundaram tal ciência. Será enriquecedor para o discípulo de História que ainda não teve qualquer contato com autores muçulmanos. Outros ainda enxergam Khaldun, não sem alguma controvérsia, como precursor de Malthus, por já incluir uma análise ecológica e demográfica em seus escritos, e da corrente do darwinismo social, que não tem relação com Darwin, mas é a aplicação de sua lei natural às ciências sociais a partir do fim do século XIX (além de que, numa famosa passagem do primeiro capítulo da Muqaddimah, Khaldun tece a conjetura de que os grupamentos humanos devieram do macaco, embora reconheça a insuficiência de dados empíricos à disposição para referendar sua tese). É verdade que, como entrega o nome, Khaldun desejava que este livro já extenso (dividido atualmente em 3) fosse uma mera introdução a sua grande obra sobre a História, mas morreu antes de realizar esta outra meta mais ambiciosa. Podemos dizer que os Prolegômenos são, sim, auto-suficientes e sua leitura não deve ser evitada pelo seu caráter de intróito (inclusive, se fôssemos aplicar este critério Tucídides não poderia ser recomendado, já que deixou de fora 6 anos da Guerra do Peloponeso de sua obra-mor).

Durkheim formularia muitos conceitos que se tornariam instrumentos obrigatórios da análise da sociedade. A asabiyyah pode ser lida, neste contexto, como uma primeira versão do termo mais famoso coesão social. Como Khaldun expunha a asabiyyah de uma determinada civilização ao longo do tempo, prescrevendo que ela funciona como um organismo, nascendo, se desenvolvendo, entrando em ocaso e eventualmente se dissipando, ao lado de outras, há certos ecos de sua teoria na obra de Oswald Spengler. Desde Ibn Khaldun já não seria possível dizer, no mundo moderno, que a história segue leis do progresso, sem com isso se defrontar com uma escola inteira da historiografia. Por estas linhas, torna-se óbvio que Khaldun, mesmo podendo ter sido uma influência para a biologia do século XIX, já reconhecia o papel da decadência em contraposição ao da evolução, sobretudo quando se passava da história natural para o estudo das culturas. Numa famosa citação, demonstra seu anti-maquiavelismo, pré-Maquiavel: se o governante tiver de optar entre ser temido ou amado, sempre deverá eleger a segunda alternativa, pois é contra a lei de Deus (Alá) subjugar o povo de forma violenta e não-consensual, ainda que pudesse ser materialmente lógico perseguir determinados fins por meio da força.

Outro aspecto antevisto por Khaldun em relação à sociologia durkheimiana ou mesmo o marxismo é a divisão do trabalho: quão mais complexa é a sociedade, mais as formações econômicas exigem a divisão e especialização do trabalho. Ele também relaciona esse raciocínio com o crescimento populacional e o supérfluo criado numa economia em expansão, que explica os bens de consumo inessenciais e a necessidade de mais mão-de-obra para expandir o ciclo de produção. Também em antecipação ao otimismo dos liberais do iluminismo europeu, Khaldun dirá que o preço é regulado pela lei de oferta e demanda, raciocínio, pelo visto, já velho antes do aparecimento de figuras celebradas do pensamento econômico hegemônico. Pode parecer incrível que até mesmo um estudo do avanço tecnológico tenha sido possível na época de Ibn Khaldun, mas é necessário lembrar que o autor vivia numa civilização até então próspera, antes do recuo e entrincheiramento moral e civilizatório experimentado pelo Islã, o que realçava o contraste com as forças paralisadas da Europa do século XIV, que dificilmente se poderia dizer depender essencialmente das urbes, sendo ainda uma conformação campesina. Outros ainda vêem certos comentários de Khaldun como keynesianos, antes de Keynes, principalmente quando ele culpa Estados que não investem em aspectos vitais a longo prazo pela decadência econômica da sociedade. Não só isso, mas Khaldun já advogava por reformas tributárias que não sufocassem as classes médias, embora elas sequer tivessem esse nome. Para não dizer que a análise econômica do autor seria perfeita, um dos vários pontos cegos de Khaldun foi não perceber que bens como o ouro e a prata apresentam valor relativo, o que já era óbvio no tempo de Montesquieu, por exemplo.

Embora de profissão de fé islâmica, e não um autor secular ou ateu, como seria mais comum encontrar na França a partir da Revolução, Khaldun defendia desde sua época a separação formal dos estudos em teologia e em filosofia. Sua posição enquanto jurista num país que aplicava o Alcorão era que mudanças culturais e relativizações ético-morais eram inevitáveis no decorrer das gerações, de forma que mesmo a letra sagrada se obsolescia na agonia de uma asabiyyah. Em um dos capítulos dos Prolegômenos, Khaldun também se preocupou em refutar a então ‘ciência’ da alquimia, tanto do ponto de vista moral quanto utilizando seu método científico. Aqui cabe a observação: acusando os alquimistas de charlatães, Khaldun diz que se todos fossem capazes de transformar metais não-nobres em ouro da noite para o dia, isso geraria uma súbita desvalorização da substância, o que colapsaria a economia (em outros termos, embora na sociedade vigente Khaldun não reconhecesse a flutuação do padrão-ouro, ele era engenhoso o suficiente para vislumbrar essa possibilidade num cenário hiperbólico, de superabundância do material – decerto ele teria captado outras leis do Capital se pudesse testemunhar a rapina européia nas minas americanas).

Em síntese, o grau de maturidade do modelo de historiografia proposto por Ibn Khaldun pode ser chamado de sem paralelos até o surgimento do Idealismo Alemão, tornando a consulta a seus escritos visionários algo mandatório.

DAVID HUME, História da Inglaterra

Já transportados para a Europa moderna deparamo-nos com Hume. Apesar de sua notável contribuição filosófico-epistemológica, o trabalho do escocês que permanece mais atual é no ramo da História, em que formula a primeira história da Inglaterra (mais propriamente falando, da Grã-Bretanha, por incluir ainda o País de Gales, a Escócia e a Irlanda, ainda não-dividida pelos cismas da Igreja) de leitura considerada obrigatória. A obra antecede a Revolução Francesa em cerca de três décadas. Coincide, portanto, com os primórdios da Revolução Industrial. Como as outras obras que aqui listamos, talvez para infelicidade dos leitores e historiadores incipientes com disposição de mergulhar de cabeça nos clássicos da disciplina, porém temerosos de calhamaços, está dividida em alguns volumes (seis). Como antecipa a capa acima, da editora Unesp, o período retratado vai das campanhas bretãs de César, com a colonização do território mais ao norte de Roma sendo levada a efeito, ao período da irreversível perda do poder absoluto pela família real e a conseqüente constitucionalização do regime político da Ilha (eventos anteriores ao nascimento do próprio David Hume).

Obviamente o renome desta história da Inglaterra em detrimento de outras que poderiam ser igualmente recomendadas em listas que-tais, além da excelência da escrita de Hume, se deve ao período privilegiado de sua produção, especialmente conturbado para os Estados europeus. Os intelectuais conservadores desejavam sedimentar o regime constitucionalista em meio a um ambiente propenso a revoluções e derrubadas de dinastias, de forma que a política do século XVII inglês, conforme estudamos hoje, é sobretudo uma antecipação local das reflexões mais amplas do Século das Luzes francês, i.e., uma série de eventos que os próprios britânicos foram capazes de dimensionar com propriedade apenas retrospectivamente. Não é estranho que um escocês tenha captado o momento, mais de meio século depois, melhor que qualquer inglês propriamente dito – a rigor mais distanciado, embora sem deixar de estar implicado na narrativa, sua História nacional tornou-se um parâmetro de objetividade atingível.

A primeira controvérsia que Hume tenta resolver (ou gera, para seus comentadores) é se a adoção de uma Bill of Rights teria sido uma reforma ou evolução previsível da organização política ou uma ruptura ou revolução em relação ao passado monárquico. E ao longo dos volumes que tratam deste período mais recente seu posicionamento será em favor da segunda hipótese. O principal defensor da carta de direitos inglesa como mera evolução legal dada sem sobressaltos e, portanto, rival ideológico de Hume, seria Edmund Burke, outro autor importante para entender os 1600 ingleses. Incrível como toda essa discussão essencialmente política e jurídica está totalmente fundada nos surtos de guerra civil transcorridos no território por conta da Reforma Protestante, que, na Inglaterra, tomou um rumo diferente de toda a Europa continental. Talvez ainda surpreenda alguns leitores que execuções de reis fossem “lugar-comum” nestes tempos na (hoje batizada como) Terra da Rainha (Elizabeth II, morta em 2022), e que a tendência regicida não tenha sido inaugurada pelos franceses. Talvez a historiografia – não a de Hume, mas outras fontes mais próximas de nós – tenha também muito a dizer sobre como foi que o mito do jacobino radical (a extrema esquerda francesa) como sendo a primeira e maior “peste” daqueles tempos adquiriu tanta dominância.

Hume sustenta que o absolutismo foi inaugurado na Inglaterra com Henry VII, o primeiro rei da dinastia Tudor. Antes disso o monarca era eleito pela aristocracia, prática semelhante à, e talvez importada da, Polônia. Também nessa região o tipo de governo, mais próximo de uma aristocracia ou oligarquia que de uma monarquia, cairia em desuso, sendo substituído pelas autocracias dos Hohenzollern, Habsburgo e Romanov. A dinastia Bourbon na França também foi importante para a centralização e consolidação de várias monarquias pela Europa. No período anterior ao que estudamos como monarquias clássicas das nações européias dificilmente havia a sucessão do trono por critérios hereditários. A aristocracia, vale lembrar, foi definida pelos gregos como sendo “o governo dos melhores”. Como tais, eles escolhiam entre si seu representante máximo. A Escócia, nos períodos em que se conservou independente da Inglaterra, jamais aderiu ao absolutismo. No tocante à lenta porém segura transição entre o direito consuetudinário ligado ainda ao que podemos chamar de evoluções de clãs bárbaros, i.e., gentios originários do território, e o direito moderno dos reis, associado com a influência do Império Romano, as conclusões de Hume muito se assemelham às de Montesquieu, jurista e historiador igualmente bastante estudado, senão mais, graças a sua doutrina dos pesos e contrapesos. Outra figura associada à Hume, inclusive na vida pessoal, foi Adam Smith, desta vez no campo do liberalismo econômico.

Desde os primórdios, porém, os autocratas ingleses tiverem menos prerrogativas que em outras partes, vide a necessidade de consultar o parlamento a fim de aprovar aumentos de impostos, o que ajuda a explicar a tendência natural de evolução do absolutismo bretão a um regime constitucionalista ou de monarquia decorativa.

Num posicionamento que entendemos salutar e engrandecedor do legado humeano, David afirmou que Thomas Hobbes, outro dos historiadores bretões mais reputados por seu povo, enquanto pensador político não passa de um promotor da tirania e da licenciosidade ético-moral. E ainda que inimigo da religião – como não foi Hume –, Hobbes nada tinha de cético (enquanto Hume é com mais justiça do que injustiça conhecido hoje sobretudo pelo epíteto de “O Cético”. Ainda comentando Hobbes, Hume dirá que este filósofo é sobretudo repulsivo por ser um dogmático e fanático secular, levando o racionalismo aos últimos limites, quase inumanos. E que só um homem de temperamento muito cruel poderia mostrar-se tão seguro de si em suas afirmações. Em termos biográficos, curiosamente Thomas Hobbes parece ter sido celebrado como homem virtuoso; seu sistema parecia uma projeção de todo um conteúdo reprimido em seus assuntos pessoais. Por outro lado, outro autor fundador da ciência política nesta nação é muito elogiado por David Hume: trata-se de Harrington, que só não incluo nesta série de livros introdutórios recomendados por, confesso, ainda não ter lido sua magnum opus Oceana, ligada às tendências democráticas, uma espécie de Thomas More evoluído. Contudo, o homem de letras que Hume mais admirou talvez tenha sido Francis Bacon, mais até que o próprio Shakespeare. Talvez tão moralista quanto Hobbes, embora num outro sentido, Hume é célebre por ter advogado a pena de morte a John Milton por haver exprimido idéias regicidas. E no entanto, ironicamente, Hume faleceu entusiasta da Independência Americana, então em curso.

GIBBON, História do Declínio e Queda do Império Romano

Continuando na tradição inglesa, Edward Gibbon escreveu uma história do Império Romano em 6 volumes, desde o auge de Roma (quando em seus territórios incluíam-se civilizações islâmicas e mongólicas) até seu definhamento e derrocada final (da parte ocidental do Império Romano, de quem somos “herdeiros culturais”), à queda de Bizâncio, Mégara (para os gregos antigos) ou simplesmente Constantinopla, como somos ensinados na escola como o marco para o fim da Antiguidade Clássica. O projeto iniciou sua publicação em 1776 (quatro séculos após os eventos narrados) e o último tomo apareceu em 1789, data simbólica, outrossim, para a instituição da modernidade européia.

O Império Romano é o alvo completo da historiografia, com os tempos da República Romana sendo deixados de fora. Isso representa uma abrangência cronológica de 98 depois de Cristo a 1590, ainda com as lentas repercussões da tomada de Constantinopla pelos turcos. Obviamente, dentro deste escopo, não poderia faltar a história do Cristianismo dentro do período. Com efeito, podemos considerar esta obra como a primeira historiografia de grande porte em que a religião ocupa o papel central, a despeito de ser uma narrativa civil e secular de um poder político de sua apoteose à extinção.

Ao invés de apenas anotar ou registrar a seqüência linear dos fatos, Gibbon é um dos primeiros¹ que se arrisca a determinar a causa da decadência romana como formação geopolítica. Sua tese primordial é a perda da virtude política dos romanos, pari passu as invasões bárbaras, cada vez mais significativas diante do enfraquecimento interno do regime imperial. Diferentemente de outros autores, Gibbon não atribui essa perda da virtude cívica do cidadão romano ao advento e propagação do Cristianismo, fosse por autocensura ou convicção própria, embora ele situe o governo de Constantino (o primeiro imperador declaradamente cristão) como um ponto-chave para a irreversível recessão do Império Romano, sobretudo do ponto de vista militar. Ainda segundo Gibbon, a História “foi sustada” entre a Queda de Constantinopla e os ideais iluministas da Europa, significando que nada de proveitoso adveio desta corrosão e destruição imperial.

¹ Bibliografia para esse período não era tão profusa como hoje (e hoje ela ainda existe aquém do desejável), então muitos dos dados apresentados por Gibbon foram extraídos de duas fontes, Montesquieu e Bossuet, predecessores seus nas especulações sobre como o maior poder político da Terra sucumbiu ao longo dos séculos.

O estilo desapaixonado de Gibbon foi confundido por muitos com um pessimismo invencível. É possível, tirando suas afirmações de contexto, argumentar que o autor britânico chamava a História Universal de “nada além do registro dos crimes, loucuras, tolices e tragédias dos mortais”. Com efeito, Gibbon destaca que descobertas para o mal agem de forma muito mais ágil sobre o espírito humano – como a descoberta da pólvora – que descobertas construtivas – o espírito pacificador, o método científico, o cultivo das artes e da filosofia.

Gibbon também denuncia o genocídio dos judeus em inúmeras oportunidades: no Egito, no Chipre, em Cirene (atual Líbia). Razões da diáspora judia e da associação da etnia com o espírito de rebelião, mero reflexo do instinto de sobrevivência, podem ser apuradas em suas pesquisas, o que ajuda os historiógrafos sucedâneos a determinar fontes e raízes do antissemitismo do Velho Continente.

Uma das maiores críticas à abordagem gibboniana é como deixou de lado a continuidade do Império Romano Oriental, desprezando toda a cultura bizantina, como que de propósito. De modo a corroborar uma maior neutralidade de Gibbon em relação à expansão do Cristianismo, sobretudo na forma do Catolicismo (afinal, conta da era pré-Reforma), ele que foi acusado de herege por autoridades eclesiásticas de seu tempo, cabe a ressalva de que Gibbon se opunha de modo geral às grandes crenças monoteístas, e chega a acusar o Islamismo e Maomé de atrasarem a condição da mulher por onde quer que promovessem revoluções.

Gibbon também foi um refutador de hagiografias (biografias de santos promovidas pela Igreja), questionando a validade de milagres ou de detalhes das vidas de vários dos mais famosos pregadores da fé cristã. Se havia algo que Gibbon mais reprovava no Cristianismo era seu dogma monástico, tentativas hipócritas ou infrutíferas de “se distanciar dos problemas temporais”, enclausurando-se em instituições exclusivamente religiosas, como se fôra possível tal abandono da história. Esse espírito ascético, migrando para a mentalidade dos plebeus e mesmo oligarcas do Império, era o que sem dúvida mais prejudicava a clássica visão de domínio e de Grande Política cultivada pelos romanos de gerações anteriores.

Como com Hume, a publicação de seu trabalho, necessariamente em fragmentos devido a suas dimensões, suscitou a cada tempo reações divergentes do clero ou dos historiadores contemporâneos. Sempre que suas conclusões iam contra um grupo social, o autor era rechaçado por esta parcela da sociedade com a mesma segurança com que era enaltecido caso as conclusões viessem a corroborar suas visões de mundo. Uma das qualidades que Gibbon viu no Cristianismo foi o “amolecimento” do espírito bélico e desregrado das diversas populações setentrionais européias, os então considerados “bárbaros”, o que teria favorecido uma assimilação intercultural. Obviamente, o que à primeira vista poderia parecer um indicativo de fortalecimento do Império a longo prazo acabou significando que a identidade latina do Império Romano foi-se perdendo mais e mais, conforme ia-se instalando uma maioria de “bárbaros convertidos ao cristianismo”.

Algumas edições modernas possuem o título Ascensão e Queda no lugar de Declínio e Queda, já que o período estudado por Gibbon começa no apogeu do Império e não retrata apenas os anos de derrocada. Autores como Piers Brendon (1940-) vêem no trabalho de Gibbon uma alegoria do Império Britânico, ou uma tentativa de ensinar aos governantes do “novo império mundial” lições para não repetir os erros dos poderosos do passado.

CARLYLE, História da Revolução Francesa

Thomas Carlyle é o terceiro inglês (escocês, em verdade) consecutivo desta lista. Não há dúvida que devemos muito à historiografia inglesa deste período pós-Revolução Constitucional da “Terra da Rainha”. Nesta ocasião, em vez de uma avaliação da própria história recente ou de um povo extinto e remoto, trata-se de investigar um grande evento transcorrido ao sul do Canal da Mancha, entre os vizinhos franceses. Em conformidade com todas as obras anteriores, esta está dividida em fascículos, mas talvez seja a mais curta de todas: são 3 exemplares para lê-la na íntegra. A pesquisa, desenvolvida à segunda metade do séc. XIX, debruça-se sobre os poucos anos que vão de 1789 a 1795, principalmente em Paris, com repercussões para toda a Europa (quase o “mundo” de então, para a historiografia de nossa cultura etnocêntrica no seu ápice). É a análise de um acontecimento revolucionário, adianta-se, de uma ótica conservadora.

Uma anedota interessante que se conta é que uma faxineira de John Stuart Mill, amigo pessoal de Carlyle que receberá a primeira versão integral do primeiro volume, cópia única, teria destruído o trabalho usando-o para alimentar a lareira, confundindo-o com lixo comum. Carlyle procederá então a uma apaixonada reescritura de todo este tomo em poucas semanas.

Carlyle não é um historiador por vocação, sendo mais um filósofo, poeta e moralista, então seu trabalho é visto como distanciando-se da narrativa historiográfica metodológica mais aceita. Enquanto alguns vêem nisso um mérito, evidentemente a maioria cita-o como crítica. Carlyle toma posição evidente nos episódios narrados. Acontece que um estilo de escrita “perfeitamente impessoal” poderia ser muito mais tendencioso, embora mascarasse sua opinião com ajuda da técnica de maneira superior. Podemos acusar Carlyle de imprecisão muito mais do que de má-fé ou desonestidade intelectual. O relato da execução de Robespierre é um exemplo máximo do estilo carlyleano e mediante sua leitura o estudioso poderá instantaneamente simpatizar com o autor ou compreender que seria melhor deixá-lo de lado, tamanha a ambivalência suscitada pelas escolhas de Thomas Carlyle no registro dos acontecimentos revolucionários.

Outras anedotas, bem-vindas neste caso, tratando-se de um autor tão emocional e controverso, incluem, por exemplo, a observação de que Charles Dickens andava para cima e para baixo com este livro (ou um dos exemplares) nos braços. Oscar Wilde chama Carlyle de “Tácito britânico”. Se uma terceira figura greco-latina tivesse de ser selecionada para estas sinopses, creio que Tácito seria o escolhido. Um terceiro escritor, Mark Twain, teria lido por último este livro antes de falecer. O filósofo americano Waldo Emerson disse que escritor mais imaginativo só apareceu antes nas peças e poemas de Shakespeare. Jules Michelet pode ser considerado o antípoda de Carlyle em termos de escrita da Revolução Francesa. Some-se a isso o fato de que este posicionou-se explicitamente contra aquele e que Michelet é um ícone da historiografia francesa; temos, neste par, além de uma rivalidade acadêmica, uma verdadeira rixa nacional. Taine, outra figura de igual ou senão maior peso que Michelet, também destroça o trabalho de Carlyle, segundo ele mero puritanismo especulativo, que desprezou o movimento iluminista e a importantíssima figura de Voltaire. É de fato um livro polêmico, que merece ser lido acima de tudo para se entender como a produção de uma História nunca poderá ser hegemônica nem consensual, mas apenas uma versão dos fatos dentre outras, aprendendo-se a filtrar desde cedo o joio do trigo da pena de um escritor clássico.

BURKE, Reflexões Sobre a Revolução na França

Diferentemente do trabalho do quase-compatriota Carlyle, Reflexões é assumidamente panfletário e escrito por um homem de Estado, um político, publicado pouquíssimo tempo após a própria Declaração dos Direitos do Homem, ainda durante o furacão da Revolução no país vizinho (a família real francesa sequer tinha sido submetida a julgamento popular àquela altura). Pode ser interpretado, portanto, como um relato ainda mais crítico e ferrenho que o de Carlyle, mas talvez um que tenha envelhecido menos. O irlandês Edmund Burke é um escritor que deve ser lido por todo estudioso da aristocracia, da monarquia e, portanto, do conservadorismo modernos. Mais do que ícone da historiografia, este tratado é onipresente nas ementas de ciência política e sociologia do século XX. Muito desse renome, entretanto, podemos atribuir ao mccharthismo e anticomunismo imperantes no mundo acadêmico ocidental, fomentado antes, durante e ainda posteriormente a todo o período da Guerra Fria (um ilustre apoiador das teses burkianas, que não hesitava em distorcê-las, ou simplesmente não era capaz de compreendê-las, é o infame Friedrich Hayek, que provavelmente se alterava mais ao ver a cor vermelha que um touro no cio). O que torna o “revanchismo contra-revolucionário” de Burke complexo de analisar é que ele foi um entusiasta, do início ao fim, da própria Revolução Americana, evento quase simultâneo e primo-irmão deste primeiro, tendo isso em comum com Hume. O crítico Alfred Cobban declara, sobre Burke e suas Reflexões: ‘Burke estava muito bem-informado sobre os Estados Unidos, a Irlanda e a Índia, [de quem também desejava a independência] mas suas fontes de informação sobre a situação na França eram escassas e contestáveis; como resultado, suas teses não são pertinentes em relação ao que sucedia realmente no alvorecer da Revolução, quando e onde estava claro para os nativos que as instituições francesas que lhes eram contemporâneas tinham se tornado insustentáveis e não havia a possibilidade de uma reforma de cunho gradual. Como literatura, teoria política e qualquer outra coisa que não seja História, as Reflexões são magníficas.’’

BURCKHARDT, A Cultura do Renascimento Italiano

Abandonando a exaustiva polêmica franco-inglesa em tempos revolucionários, dirigimo-nos agora à renomada historiografia alemã, mais especificamente ao grande estudioso da cultura e arte Jacob Burckhardt e sua exemplar A Civilização da Renascença Italiana (CRI) (ambos os títulos citados até aqui já foram escolhidos em diferentes traduções), de 1860. Primeiro, um merecido excurso pela biografia do autor. Burckhardt foi um suíço que viveu durante nove das dez décadas do século XIX. Hoje é considerado o pai da historiografia cultural e o primeiro grande redescobridor moderno do período do Renascimento Italiano, analisando a estética do período através de inéditas lentes sociais. Dois de seus grandes mestres foram os historiadores von Ranke e Franz Kugler. Na Universidade de Basel, onde lecionou, conheceu Friedrich Nietzsche, então professor de Filologia. Ambos se tornaram amigos e trocaram cartas pelo resto de suas vidas, as quais podemos hoje ler. Tendo sido o livro que aqui nos interessa escrito na meia-idade do autor – e Burckhardt pertencendo a uma geração anterior à de Nietzsche –, CRI mais influenciou este último (até pela especificidade do campo daquele) do que qualquer obra relevante de Nietzsche chegaria a influenciar Burckhardt, uma vez que a produção acadêmica de Nietzsche na filosofia continental enceta apenas na década posterior (os anos 1870). Ambos são figuras históricas que já superaram, por exemplo, as pretensões positivistas – ou de qualquer outra “escola” ou “sistema” fechado e dogmático, incluindo o Hegelianismo, com que ainda conviveram – no campo do conhecimento e representam uma nova hermenêutica ou cosmovisão da ciência, da arte e da história. Outra coincidência entre ambos é que encerraram suas contribuições intelectuais ao mundo em anos próximos e nunca deram aula em universidades alemãs propriamente ditas, embora o Alemão fosse a primeira língua dos dois; ambos são equivocadamente tratados como “pessimistas sobre o papel do Ocidente no futuro”, muito pelo fato de serem complicados e nuançados; não é de se estranhar que acabem defendendo posições políticas semelhantes. O pai de ambos, para finalizar, foi pastor protestante.

A Cultura do Renascimento Italiano ainda é a obra de referência da perspectiva artístico-cultural da história para esta época e inclusive há indícios de que J.B. foi o inaugurador do termo “modernidade” em seu sentido atual e influenciou nosso conceito de “homem moderno” como talvez nenhum outro escritor. A Renascença era uma totalidade fechada em si mesma (isto o que ele quereria dizer com Kultur), sem que sua arte, filosofia, religião e política possam estar subordinadas a outras disciplinas ou outros períodos (não são mero efeito ou emulação ou reação à Europa Medieval ou à Antiguidade Clássica, de onde, decerto, os grandes artistas italianos se nutriram a fim de gerar obras novas e ‘universais’). Os principais discípulos ou continuadores diretos de Burckhardt foram Kenneth Clark e Desmond Seward. No século XX, podemos associar as contribuições de Werner Kaegi e Johan Huizinga ao legado de Burckhardt.

É importante esclarecer que A Cultura do Renascimento Italiano é em verdade uma metade de um todo maior, que engloba a “obra-gêmea” História do Renascimento Italiano. Para mergulhar ao máximo na historiografia burckhardtiana seria necessário estudar os dois volumes. Dado que os títulos se parecem e que o primeiro deles tem duas traduções em Português, vários estudantes são induzidos a erro, pensando se tratar o par de um só livro.

TOYNBEE, Um Estudo da História

Voltamos aos tomos enciclopédicos, i.e., livros que na verdade são uma série de exemplares, de tão extensos: o Estudo da História de Arnold Toynbee consiste em 12 volumes separados. Já falamos aqui de um autor que publicou do Entre-Guerras ao Pós-II Guerra, bem mais próximo de nós. Incrivelmente popular nos anos 60 e 70, é também surpreendente que hoje seja necessário citar a obra em introduções sinópticas como esta para muitos leitores que, embora algo versados em Humanidades, a ignoram por completo. A História toynbeeana é uma de decadências e tem um quê de Ibn Khaldun: destina-se a explicar como várias civilizações pereceram no globo ao longo de milênios. Segundo Toynbee, toda civilização perpassa pelos seguintes estágios: gênese, expansão, tempos de crise, Estado universal (congelamento artificial) e desintegração. Em outras palavras, ele sugeriu um modelo estrutural explicativo do ciclo das civilizações. Seu modelo não é tão rígido a ponto de não aceitar exceções, o que chamará de desenvolvimentos civilizatórios abortados, citando como exemplo a civilização Escandinava, Otamana, Judaica e Polinésia, entre outras.

As 7 mil páginas escritas tratam cada etapa do ciclo na ordem cronológica necessária; em seguida ele se dedica às interações entre diferentes civilizações nos volumes oitavo e nono; e os últimos volumes vão dedicados à metodologia do historiador. Existe uma famosa edição abreviada, a de Oxford, que possui 3 volumes (25% do tamanho original).

Os sintomas de Toynbee para uma sociedade em sua desintegração final podem ser todos diagnosticados no Ocidente: arcaísmo (idealização do passado), futurismo (idealização do futuro), dessensibilização ou busca da impessoalidade (fuga da realidade imediata da decadência), o que inclui uma forte onda de individualismo, e por fim transcendência, a mais criativa das soluções adotadas (contrapondo os desafios aparentemente insolúveis do esgotamento de um modo de vida e de uma cultura com criações de novos valores, sejam espirituais, sejam materiais). Com restrições, podemos chamar Samuel Huntington um continuador ou ampliador das idéias de Toynbee.

MCNEILL, A Ascensão do Ocidente: Uma História da Comunidade Humana

O último livro que selecionamos por ora neste princípio de série (posts relacionados por vir). Numa perspectiva ora antitética, ora suplementar à de Toynbee, o norte-americano William McNeill dá ênfase às interações entre as civilizações para contar a História do mundo, principalmente as interações promovidas pela hegemonia da civilização ocidental nos últimos 500 anos. Grosso modo, na dinâmica historiografia proposta por McNeill, em cada era “unipolar” ou com dominância de uma civilização ou império podemos dividir o mundo ou as culturas em “a central ou dominante” e “as periferias”, isto é, a nação ou conjunto de nações que lideram o mundo vs. todo o resto – a história representaria a disseminação gradual dos valores do centro, que iriam modificando os ‘influenciados’. Obviamente, as revoluções políticas e industrial e a prevalência de valores da Europa branca nos últimos 250 anos merecem uma análise especial, diferente dos ciclos pregressos, dado seu caráter expansionista e tecnológico inauditos, potencialmente sem limite, tendo contaminado, por exemplo, a virtual totalidade da superfície do planeta, pelo menos do ponto de vista estritamente geográfico. O que nos deixa reticentes quanto ao livro, que – confessamos – ainda precisamos ler na íntegra é que ele foi incensado pelo liberal epistemologicamente descompromissado Trevor-Roper. Seja como for, as conclusões de McNeill fundamentam hoje as pesquisas nas escolas das teorias dos sistemas-mundo, não necessariamente confinadas a um só espectro (liberal ou marxista, por exemplo), e da teoria da dependência, situada algo entre o reconhecimento da culpa dos países ex-colonizadores e a crítica, a partir das zonas subdesenvolvidas, dos preceitos da globalização unipolar, sem uma proposição clara para o problema, no entanto (como fará a escola marxista). De certa forma, ao contrário de clássicos antigos ainda legíveis, um forte contra-argumento que já podemos tecer a McNeill é que ele pensa os Estados Unidos da América e a Europa Ocidental ainda em seu auge, premissa que envelheceu terrivelmente nos últimos 30 anos (e, não estranhamente, a última edição de Uma História da Comunidade Humana data de 1991, época do Consenso de Washington).

Devido ao espaço já ocupado pelas demais resenhas (e me esforcei para incluir apenas 11!), e sendo indesculpável a falta de múltiplas obras inscritas na historiografia marxista, dedicaremos outro post somente a sinopses de obras ligadas à historiografia da esquerda marxiana logo no segundo episódio de SINOPSES DE CLÁSSICOS DA HISTORIOGRAFIA.