A POLIFONIA, DESDE SEUS PRIMÓRDIOS ATÉ O FIM DO SÉC. XIII – Capítulo 6 de “História da música ocidental”, de Brigitte, Massin & al.

Tanto do ponto de vista do etnólogo como do musicólogo, a superposição de duas ou várias linhas melódicas simultâneas que se desenrolam de maneira homogênea – guardando, cada uma delas, seu caráter particular – é vista como uma tendência espontânea a procurar a consonância de duas ou mais vozes. De acordo com as pesquisas e as conclusões de Marius Schneider, a heterofonia por intervalos de quinta – tal como se define nossa 1ª polifonia – é localizável em 3 regiões muito afastadas umas das outras: na Europa oriental, desde o sul do Cáucaso até a Sicília, na África meridional e em certas partes da Ásia.”

Não estamos, portanto, interessados em fechar um círculo em torno do nascimento da polifonia na música ocidental”

Será preciso esperar a Summa musicae do XIV para encontrar o termo polifonia usado como designação da escrita vertical, uso que só se deverá impor no séc. XVIII. Aparentemente, o princípio da consonância harmônica já era conhecido desde muito. Santo Agostinho faz-lhe alusão em seu Contra academicos; Boécio menciona-o em diversos dos seus escritos.”

Não resta dúvida de que a polifonia só conseguiu se desenvolver verdadeiramente na música erudita ocidental depois de bem-assimilado, pelos cantores, o canto gregoriano imposto por Carlos Magno e uma vez criadas as escolas necessárias à aprendizagem do canto a muitas vozes, ou seja, na época de Carlos, o Calvo. Os primeiros testemunhos de utilização da polifonia figuram nos escritos teóricos do século IX: p.ex., no De institutione musica de Hucbald de Saint-Amand, no manuscrito de Reginon de Prüm (?-915), no De divisione naturae naturae, de Johannes Scotus Erígena (ca. 876-?), e sobretudo na Musica enchiriadis, atribuída a Ogier de Laon

organum: esta palavra designa inicialmente qualquer instrumento de música, para, mais tarde, restringir-se ao instrumento natural que é a voz humana, por ocasião aos outros, ditos ‘artificiais’; e terminar designando o órgão, instrumento de teclado.” “no grego e no latim, uma única e mesma palavra (phone em grego e vox em latim) é usada para designar tanto a voz humana quanto o instrumento que a acompanha.”

a quarta aumentada, o trítono fá-si, o famoso diabolus in musica.”

não chegou até nós nenhuma música polifônica anterior aos raros volumes de tropos que datam do séc. XI, como a coleção de Winchester, estabelecida, sem dúvida, sobre um modelo de Fleury, que contém 50 organa, ou ainda a dos Aleluias de Chartres, onde se observa o emprego de intervalos de terças, na época considerados dissonantes.”

Com o nome de tenor (do latim tenere, sustentar), passa a caber à voz principal o registro grave do canto. (…) voz litúrgica” O início do fim do canto gregoriano.

A Escola de Saint-Martial de Limoges abriu caminho para o amplo movimento musical da Escola de Notre-Dame (…) seus reflexos atingiram fortemente a Inglaterra e sobretudo a Espanha.

O que se vê na Espanha é a flexibilidade e a liberdade de invenção prevalecerem sobre a estreiteza dos quadros teóricos, em Santiago de Compostela, cidade que, juntamente com Roma e Jerusalém, constituía um dos 3 grandes locais de peregrinação da Cristandade.”

a Igreja, outrora tão ardorosa na imposição do canto gregoriano, deixou que se passasse um século antes de se deixar mobilizar por essas formas de escrita que o relegavam ao segundo plano.”

A bela e inteligente cidade de Paris, como também os centros urbanos em seu redor num raio de 150km, estavam destinados a viver conjuntamente 3 grandes surtos de criação: o desenvolvimento do pensamento escolástico (…); a construção das catedrais pelos arquitetos góticos; e a floração das magníficas polifonias dos 2 grandes mestres da Escola de Notre-Dame, Léonin e Pérotin.”

Coussemaker, Anonymus IV (que porra é essa, uma espécie de Vol. 4 cristão?)

Tudo está pronto, a essa altura, para o advento do moteto, o mais complexo, o mais bem-resolvido e o mais surpreendente, também, de todos os gêneros polifônicos.” “Voltou-se a prestigiar o procedimento adotado nos tropos: encaixar palavras (mot petit mot motet) nas melodias preexistentes. Foi assim que nasceu o moteto.”

Todo o esforço consistirá em organizar com clareza a escrita do conjunto das vozes. Resolver-se-á a questão diferenciando-se o ritmo de cada uma delas: lento para a voz tenor, mais rápido para o duplum, acelerado para o triplum. A ‘letra’ do triplum é em geral um terço mais longa que a do duplum. (…) Pode-se acrescentar-lhe ainda um quadruplum [terceira voz de apoio ao tenor].”

Em 1260 começa-se a espalhar uma notação para maior coordenação (nota a nota) das vozes entre si: a franconiana.

Franco de Colônia, Ars cantus mensurabilis

O sistema é ternário: a unidade é constituída pela breve, a que corresponde um tempo. A longa perfeita vale 3 tempos; a imperfeita, 2 – e assim por diante.”

canto de amor” “Jean de Grouchy observa que, enquanto os rondós podem chegar às camadas populares, o mesmo não acontece com os motetos”

As 2 ou 3 vozes acima da voz tenor têm, a essa altura, ‘letras’ em francês, e a voz tenor ora é latina e litúrgica, ora latina e não-litúrgica, ou pode mesmo ter texto francês, como é o caso da famosa voz tenor de um moteto do manuscrito de Montpellier: ‘Fraise nouvelle!’ (São os primeiros morangos!), que é um pregão de Paris.”

yeratica” em latim é “verdadeira”, bem diferente do falso cognato!

Erwin Panofsky, o eminente historiador da imaginação criadora da Id. Média e do Renascimento, demonstrou claramente como a organização tripartida, às vezes quadripartida, torna-se um princípio de edificação tanto do pensamento como da arquitetura.”

a organização do gótico clássico prevê ‘uma nave tripartida, um transepto igualmente tripartido que se funde no antecoro quinquepartido…’”

Por outro lado, um dos grandes aspectos do pensamentos escolástico, que haveria de constituir uma aquisição duradoura na organização do saber, consiste em reunir todos os elementos do conhecimento sobre um mesmo assunto em sumas e, em seguida, distribuí-los, classificando-os por ordem de importância decrescente em capítulos, subcapítulos, seções, subseções, etc.”

Na arquitetura, o princípio da divisão dos elementos é identificável, p.ex., na divisão dos suportes em pilares principais, colunetas maiores, colunetas menores – subdivisíveis, por sua vez – ou ainda na divisão dos mainés em perfis primários, secundários, terciários. Ora, na esfera da notação do ritmo musical, a divisão dos valores de duração em longas, breves, semibreves, mínimas, que surge na mesma época, corresponde a uma preocupação semelhante, manifesta um mesmo hábito mental.”

Substituir a duração indeterminada dos melismas do cantochão por polifonias com tempo contado é introduzir, no templo de Deus, o tempo do mercador. Essa a razão pela qual os cirtercienses e os dominicanos rechaçaram energicamente de seus ofícios as polifonias compassadas.”

Os monges, em seu anonimato desinteressado, deixam de ter o monopólio da arte sacra, e os cavaleiros já não compõem, eles próprios, as obras que idealizam seu modo de viver.” “é o preciso momento em que a música, de ciência, passa a ser uma arte.”