“Até por volta de 1250, a música profana é, toda ela, canto. Por outro lado, não há poesia que não esteja associada a uma melodia (…) tal como na liturgia” “Música instrumental que independa do canto é inexistente. Só os poderes da palavra contam. Instrumento natural criado por Deus, a voz é considerada superior aos instrumentos feitos pela mão do homem”
“Daí se conclui que o canto profano não resultou de um vago sonho de retorno à Antiguidade, análogo ao que alimentarão os autores do Renascimento, mas de uma extensão, de uma expansão, à língua vulgar, da ética e da função do canto no interior da Igreja.”
“Os verbos trobar (troubadour, trovador) e trouver (trouvère, troveiro) vêm de Tropare e significam inventar, compor tropos.” “O amor, o louvor à mulher constituem, de fato, a substância essencial do canto, a motivação mais freqüente da escrita.”
“Os trovadores (troubadours) são originários do sul do Loire, das regiões de Langue d’oc: Auvergne, Limousin, Périgord, Bordeaux, Toulouse e, do outro lado do Ródano, Marselha e a Provença. Começam a compor por volta dos anos 1100, antecipando os troveiros (trouvères) em mais de meio século. Em sua maioria, são cavaleiros oriundos da alta, da média e da pequena nobreza.
O mais antigo dos trovadores é Guillaume, sétimo conde Poitiers, nono duque da Aquitânia, amante da dama Maubergeonne, de cuja filha nascerá Eleonora de Aquitânia. [ver abaixo]”
« Ferai un vers de dreyt rien »
Farei um verso sobre nada
“Sem falar no número mais reduzido de trobairitz (em francês troubadouresses, ‘trovadoras’) com seus nomes por vezes esplendorosos, como, p.ex.: a condessa de Dié, a mais famosa, mas também Tibor, irmã de Raimbaut d’Orange, Azalais de Porcairages, Maria de Ventadour, Alamanda, Garsenda de Forcalquier, Clara d’Anduze, etc.”
“Mas é preciso entender que são os próprios senhores que fundam a arte destinada a tornar-se o espelho de sua classe: ainda não confiam às penas alheias o encargo de cantar por eles.” Ou ainda conseguem criar, pois não chegamos à decadência burguesa, que já é pedir demais se sabe meramente consumir…
“Esses poucos decênios são sem dúvida os únicos momentos da história ocidental em que a elite no poder confunde-se com a elite artística.”
“Mais de uma vez afirmou-se que o amor era uma invenção do séc. XII. Essa fórmula expeditiva, criada pelo historiador Seignobos, significa, na verdade, que, com os trovadores, nasceu uma nova relação para com a mulher amada, o fin’amor.” A primeira ética de corno.
“mística profana paralela ao amor sagrado”
“Como se fosse uma divindade, a mulher torna-se objeto de adoração, de preces, nesse lugar de culto que é o espaço do poema, da cantiga.”
« Semblable à Perceval
Qui au temps où il vivait
Subit une telle fascination
Qu’il ne sut demander
A quoi servaient
la lance, le Graal,
je demeure interdit,
Mieux-que-Dame, à la vue de votre beauté. »
Rigaut de Barbezieux
“Com efeito, a soberana do coração do trovador era também, na realidade, superior a ele em termos hierárquicos, já que frequentemente ele celebrava em seus versos a mulher de seu senhor”
« Lanquem li jorn son lonc em mai
M’es bèlhs dous chans d’auzèlhs de lonh,
E quan me sui partitiz de lai
Remembra’m d’un’amor de lonh.
Vau de talen embroncs e clis
Si que chans ni flors d’albespis
No’m platz plus que l’iverns gelatz. »
“Quando os dias são longos em maio / É doce ouvir o canto dos pássaros ao longe / E quando de lá parti / Ficou-me na lembrança o amor à distância. / Sigo pensativo, triste, de cabeça baixa / E nem cantos nem flores de espinheiro / Me agradam mais que o inverno gelado.”
“A Vida – biografia romanceada de Jaufré Rudel – pretende que ele se tenha apaixonado pela princesa de Trípoli simplesmente à vista de um retrato dela: teria feito a viagem para ir ao seu encontro, morrendo nos braços dela ao chegar.”
“a Cansó ou cantiga de amor, a mais utilizada pelos trovadores”
“Essa teoria da adequação, que encontramos já exposta em Cícero e que será desenvolvida pelas retóricas medievais, Dante a retomará no De vulgari eloquentia a propósito da Cansó, que ele considera a forma perfeita”
“Das coisas feitas pela arte, a mais nobre é aquela que envolve a arte por inteiro; ora, uma vez que o que se canta em versos é sem dúvida obra de arte, e a arte só está envolvida por inteiro na canção, a canção é o mais nobre dos poemas, e sua figura é assim mais nobre do que qualquer outra.” D.
A canção popular era a arte total do período.
“Do ponto de vista da forma, a Cansó não se desenrola de maneira linear: compõe-se, o mais das vezes, de uma sequência de 5 a 7 estrofes, de 8 a 10 versos cada, que, nos manuscritos, inscrevem-se nas dimensões do quadrado ou do retângulo ideal. A notação da melodia faz-se acima das palavras da 1ª estrofe e deve ser retomada para cada uma das estrofes seguintes. É a estrofe que constitui, portanto, a unidade.”
“Languam lo dous temps s’esclaire
Et la novéla flora s’espan,
Et aug als auzèls retrain
Per los brondels lo dousset chan.”
Bernard Marti
“O Sirventès, da mesma forma que a Cansó, trata de maneira satírica a atualidade política (Bertrand de Born), a moral (sátira do clero, do papado), a crítica literária (Pierre Rogier, o monge de Montaudon), ou lança invectivas de caráter pessoal, às vezes de grande baixeza, a senhoras rivais. O Planh (pranto), que segue a forma da Cansó, é um canto de deploração, de melodia grave e queixosa, sobre a morte de um amigo ou da dama amada, inspirado tanto na deploração dos antigos como no Planctus em língua latina. A Salut d’amour (Saudação de amor) é uma epístola amorosa em versos octossilábicos, de rimas emparelhadas, em forma de saudação.”
“No que concerne às melodias, é de se lamentar que subsistam apenas 350, ao passo que 3500 poemas chegaram até nós. Muitas dessas melodias precisariam ainda ser transcritas em notação moderna”
“A música gregoriana dá o substrato das composições dos trovadores, que utilizam os modos eclesiásticos, com preferência pelos modos de ré e de sol, revelando porém uma tendência para a polimodalidade que torna delicada a busca do modo principal. O ambitus é mais extenso do que no canto gregoriano, chegando por vezes a intervalos de 12ª.”
“Nos anos 1180 apareceram na França setentrional e na língua d’oil, ancestral do moderno francês, as cantigas dos primeiros troveiros. Não há como conceber essas peças líricas fora do contexto das cantigas dos trovadores.” “É preciso levar em conta, sem dúvida, o mecenato, o mais brilhante dos quais foi o de Alienor (ou Eleonora) de Aquitânia, a neta do primeiro trovador, Guillaume IX. O mecenato dessa princesa aquinhoou, de início, a côrte de Poitiers, mas se exerceu ainda com mais largueza depois do casamento de Alienor, em 1152, com Henrique, duque da Normandia e futuro rei Henrique II da Inglaterra. As filhas que ela teve de seu 1º casamento com Luís VII, rei de França, Aelis de Blois e Marie de Champagne, tomaram a seu cargo a proteção dos trouvères em suas respectivas côrtes.”
“é forçoso incluir, para a 1ª geração, os nomes de: Blondel de Nesle, nascido por volta de 1155, de origem picarda e que, se for verdade a lenda, teria cantado uma canção de Ricardo Coração de Leão, filho de Alienor, diante da prisão onde Ricardo era mantido cativo; Guillaume de Ferrières, vidama de Chartres, [?] cuja carreira se situa nos anos 1180; Gauthier de Dargies, cujo canto, amplo e grave, é de grande perfeição formal [como sabem?], e seu amigo Gace Brulé (ca. 1160-1213), cavaleiro da Champagne, originário de Nanteuil-les-Meaux, perfeito amante cortês, no dizer de seus contemporâneos, e cujas composições atingiram um tal refinamento, uma tal harmonia, que dele fazem não somente o maior dos troveiros – os compiladores da época não se enganaram a respeito, nem o próprio Dante, que o celebra –, mas um dos melhores poetas líricos da língua francesa. Não esqueçamos o irônico e divertido Conon de Béthume que, como cruzado, esteve presente ao cerco de Constantinopla em 1204.” Guerreiros na acepção da palavra.
“Em fins do séc. XII e princípios do XIII surgem Richard de Semilli, de versos variados e, sobretudo, Regnault Coucy, mais conhecido como Châtelain de Coucy (‘Castelão de Coucy’), que, antes de partir para a cruzada de que não deveria retornar, escreveu uma bela cantiga de despedida à sua dama e é o autor de versos sempre marcados por uma doce melancolia.
Finalmente (…) Thibaut de Champagne, conde de Champagne e de Brie, depois rei de Navarra, neto de Marie de Champagne, o qual alguns pesquisadores precipitados quiseram fazer passar como apaixonado por Branca de Castela, mãe do rei São Luís.”
“Chanter m’estuet, preciso cantar; é assim que muitas vezes começa a cantiga dos troveiros.”
“diferentemente daquele que se apodera de Tristão e Isolda, como o escreveu Chrétien de Troyes numa de suas canções, pretende [o ethos do fin’amor] ser um amor de escolha. Em seu De amore, André le Chapelain, clérigo ligado à côrte de Marie de Champagne, fixa os seus 20 preceitos e evoca os julgamentos de amor que teriam ocorrido nas diferentes côrtes. Fictícios, provavelmente, tais julgamentos, ou cours d’amour, eles revelam o aspecto social e codificado do amor cortês. Mas isso não exclui a paixão, a violência dos sentimentos. Na França setentrional, a joie (júbilo) dos trovadores do sul, o êxtase luminoso para o qual estes tendem, cede, por vezes, à expressão de um sofrimento intenso que, como doença, arrasta o amante para uma morte lenta e voluntária.” Máquina de tortura eclesiástica.
“A tomada de consciência do paradoxo dessa escolha é muito mais viva entre os troveiros do que entre seus predecessores meridionais, com o pensamento dos clérigos a fazer sentir todo o seu peso sobre uma sociedade laica que pretende disciplinar e dominar. Assim se explica o aparecimento de atitudes frequentemente masoquistas, expressão do desejo de uma morte sacrificial”
“Com esses poetas-músicos, a Cansó toma o nome de Grant Chant. Cantiga de amor absoluto (…) Incapaz de sequer enfrentar o olhar da amada, de lhe falar [N-Naruto-kun…], sem escapatória entre uma lembrança obsessiva e um futuro em que não há esperança, o troveiro, para libertar-se, só acredita nos poderes da escrita e do canto.” “a tal ponto que cantar e amar tornam-se sinônimos” “as curvas do canto, a desenvoltura dos melismas permitindo às vozes trocar as carícias a que os corpos se recusam.” Não havia duplas homem-mulher performáticas? A Bela e a Fera antes do brega e sertanojo…
“Mais próximos da herança celta que os trovadores, os troveiros praticaram antes deles, e com maior frequência, um outro gênero erudito que tinha por tema o amor cortês: o lai. Não se deve confundir esses lais líricos com os lais narrativos, tais como os de Marie de France – que são novelas curtas versificadas sem qualquer ligação com a música.
A palavra lai vem, sem dúvida, do celta loid, que significa o canto do pássaro. (…) Umas 30 peças chegaram até nós vindas da França setentrional (do sul, há perto de uma dezena). (…) as estrofes, em número indeterminado, são sempre heterométricas, cada uma diferindo das outras não só por sua estrutura métrica como por sua melodia. Será preciso aguardar o surgimento de Guillaume de Machaut para ver fixar-se o lai como uma forma de 12 estrofes, com a última repetindo as rimas e a melodia da primeira. A alternância frequente de versos longos e de versos muito curtos dá às estrofes dos lais um aspecto serpentino, um desenho em arabescos que as aproxima das estampies poéticas e mostra certo parentesco com as curvas da escultura gótica.”
“Existem também lais que, por comodidade, são ditos lais arturianos: sequência de quadras monorrimas inseridas nos romances em prosa do séc. XIII, em especial no Roman de Tristan (Romance de Tristão). Essas cantigas são postas na boca das personagens como se elas mesmas as houvessem composto. Lai de plour [choro], Lai mortel d’Yseut (Lai da morte de Isolda), um dos mais belos (le soleil luit et clair et beau…) »
« cantigas para a Virgem » O auge da pau-molência!
“Afirmam os troveiros com vigor, nessas cantigas, sua disposição de arrancar-se à dama para partir em alto-mar, rumo aos lugares santos, com o fito de libertá-los dos pagãos e de não servir mais que a Jesus Cristo, seu único Senhor, prontos a morrer por Ele, abandonando – como havia pedido São Bernardo e como fazem os cavaleiros do Santo Graal – a cavalaria terrestre pela cavalaria celestial, que põe as armas a serviço de Deus. (…) Não se pode negar que a invenção melódica funciona como um suporte muito apagado para essa grande poesia.
Paralelamente a esses cantos de estilo elevado, que pertencem ao que hoje chamamos – e isso, depois dos trabalhos de Pierre Bec – de registro ‘aristocratizante’, os troveiros, bem mais que os trovadores, compõem peças mais leves, mais variadas, mais fáceis de escrever, executar e ouvir, e que, para fins de maior clareza, designam-se como pertences ao registro dito ‘popularizante’.” Os SELL-OUT da música pré-clássica!
“mas o difícil é apreciar a amplitude dessa contribuição e como se deu a passagem de uma tradição puramente oral a uma tradição erudita, das duas a única que foi transmitida por escrito.”
“O gênero lírico-narrativo que inaugurou a tradição mais duradoura é certamente o da pastorela [daqui em diante vou digitar pastoral por questões estéticas, urgh!]. (…) refrão frequentemente onomatopaico: Chiberala, chibele… Dorenlot… L’autre jour, je chevauchoie…, diz o cavaleiro que encontra uma pastora e decide seduzi-la.” E podia?????!?
“Todas as variantes são possíveis, desde o estupro até o abandono enternecido da pastora, que então parte para ir ao encontro de seu Robin. Gênero sem exigências, de fácil retenção” “Trata-se de uma pastoral dramática com personagens, em que um cavaleiro tenta em vão seduzir a pastora Marion, defendida por seu namorado Robin e por outros pastores, que, após o incidente, comem e se divertem.”
“pastorais dentro de pastorais, como se fazem filmes dentro do filme, romance dentro do romance”
“Se, no domínio literário, a pastorela [tive que voltar…] evolui para a tradição das pastorais dos sécs. XVII e XVII” [Agora sim a evidência de que se tratam de duas coisas distintas e não de português enfatuado!]
“chansons de mal mariées (cantigas de mal-casadas)”
“Também conhecidas como chansons d’histoire (cantigas de história), as chansons de toile pertencem, igualmente, ao gênero lírico-narrativo e a um conjunto denominado chansons de femmes (cantigas de mulheres), que inclui as chansons d’amis, as chansons de mal mariées, etc., cuja tipologia reproduz-se tanto nos refrões da época românica como nos muwashshahas hispano-árabes do séc. XI. Um certo aroma de arcaísmo paira em torno delas, e é bem difícil datá-las. Subsistiram até hoje cerca de 20, mas dessas apenas 4 têm uma melodia. 7 figuram inseridas em romances – no Roman de la rose, de Jean Renart, no Roman de la violette, de Gerbert de Montreuil –, as outras (inclusive as assinadas por Audefroi le Bastard) constam de coletâneas do séc. XIII.
Compõe-se tais cantigas de uma sequência de estrofes em que os versos se ligam por assonância ou são rimados, cada estrofe seguida de um refrão. Abre-se o 1º verso com a alusão a alguma mulher – Belle Aiglantine, Belle Aye, Belle Doette, Belle Erembourg – de cujos padecimentos trata a canção. Suportando o mais das vezes uma mãe autoritária, essa mulher chora o abandono por um amigo, uma gravidez mal-disfarçada, a morte do bem-amado.”
Não se sabe, porém suspeita-se que essas cantigas “sejam cantadas por mulheres ocupadas em trabalhos de costura, donde esse nome de chansons de toile (canções de tela). As melodias, de difícil execução, ornamentadas com numerosos melismas, revestem-se de um caráter litânico que acentua o seu arcaísmo”.
“as albas ou alvoradas são cantigas dialogadas, com muitos personagens. Têm como tema a separação dos amantes que, após uma noite de amor ilícito, são alertados para o amanhecer por um amigo ou pelo vigia noturno.”
“o legado musical dos troveiros é muito mais rico: 4 mil textos melódicos (se incluirmos variantes)”
“as antologias de suas canções – os manuscritos por isso mesmo denominados cancioneiros – não contêm mais que a linha melódica da cantiga, sem nenhuma outra indicação sobre o acompanhamento instrumental.” “Os trovadores se acompanhavam com a viela, com a pequena harpa ou ainda com um alaúde. (…) Admite-se em geral que o papel do instrumento era interpretar a linha melódica em uníssono com a voz, e que o executante, antes e depois do canto, incluía um prelúdio e um poslúdio instrumentais improvisados, de que não ficou vestígio algum (…) Mas pode-se aceitar a teoria do musicólogo Hendrick Van der Werf, segundo a qual o instrumento não era tocado durante o canto. Como se vê, os conhecimentos a respeito são de tal modo flutuantes que bem demonstram quanto se deve proceder com circunspecção ao reconstituírem essas melodias.”
“Com efeito, a maior parte dos manuscritos que consignaram as melodias data da 2ª metade do séc. XIII, momento de completa mutação do signo musical; são manuscritos que, inclusive, apresentam uma defasagem de várias décadas, e até mesmo de um século, em relação ao manuscrito original que se perdeu. As melodias revelam grandes divergências entre si, e, sobretudo no tocante à transcrição do ritmo, as incertezas que subsistem são consideráveis. Apenas 2 manuscritos do conjunto do repertório existente propõem uma notação mensurada, ou seja, dão indicações dos valores de tempo segundo o sistema adotado para a música polifônica (o que não impede que uma mesma peça possa ser medida diferentemente de uma cópia para outra). Em todos os demais manuscritos, as melodias estão escritas na notação quadrada, que determina tão-somente a altura das notas na pauta musical. Por muito tempo os musicólogos empenharam-se em fazer entrar as melodias de trovadores e troveiros no sistema mensurado dito sistema modal. Pierre Aubry, Jean Beck e seus êmulos procuraram dar a essas melodias valores de tempo correspondentes aos 6 modos rítmicos utilizados pela música polifônica muito depois dessas peças terem sido compostas.” O que era um segundo para um camponês ou (tanto faz!) um aristocrata feudal, afinal? Mera quimera utópica!
Cogitação dos modos de canto (em ordem provável de utilização do mais importante para o menos):
1º: 1 (sílaba) longa + 1 breve, em notação moderna ¾.
2º: 1 breve + 1 longa, ou seja, ¾.
3º: 1 longa + 1 breve + 1 breve valendo duas unidades (brevis altera), ou seja, ¾ que pode ser lido como 6/8.
4º: 2 breves + 1 longa, ou seja, ¾ ou 6/8.
5º: 3 longas perfeitas, ou seja, ¾.
6º: 3 breves, ou seja, ¾.
Do ponto de vista leigo o acima dito não faz qualquer sentido, mas como não sei ler notações musicais, não acho necessário incluir imagens dos símbolos que acompanham cada linha – o músico saberá do que estou falando!
“No espírito desses musicólogos, estabeleceu-se uma confusão entre os acentos da língua vulgar e os valores longos e breves da escansão latina. As contrafacta que volta e meia se faziam, e que consistiam em adaptar novas letras a melodias já existentes, bem demonstram que o ritmo não era pensado de acordo com esses critérios. Por outro lado, encerrar as frases musicais em compasso rigoroso significava quebrar-lhes o ritmo, falsificar-lhes o desenho”
Sinto-me constrangido: o que é um sarau de poetinhas e declamações em salões e grupos literatos perto de toda essa perfeição e redondeza lírica? Nunca saberia cantar ou mesmo entoar meus poemas à altura de sua apresentação gráfica!
“Que fique por conta do restaurador executante da melodia inventar o ritmo que melhor se adapte a ela. Há alguns que captam esse ritmo muito bem, sobretudo aqueles impregnados tanto das melodias gregorianas como das músicas da bacia mediterrânea. O que é preciso é reencontrar a sutileza da invenção num tempo musical perpetuamente aberto.”
“A dança é designada em latim pela palavra Chorea, em francês pelo termo Carole (verossimilmente de choraula, flautista de coro, donde chorolare, em francês caroler). As carolas são danças coletivas em que os dançarinos, de mãos dadas, formam correntes que se fecham em círculos.”
“Em que circunstâncias é dançada a carola? Antes de mais nada, deve-se mencionar o lugar das danças religiosas, que é o interior das abadias e das igrejas, por ocasião de certas festas. Ela é então manifestação de louvor pelo movimento.” “os movimentos dos dançarinos imitam as danças dos serafins em volta do trono de Deus. Havia ocasiões (…) em que se dançava no interior das igrejas, mas somente aos clérigos, em princípio, admitia-se que executassem os movimentos (como ainda em nossos dias, na Etiópia, os diáconos dançam no fundo da igreja).”
“Entretanto, do concílio de Vannes (465) ao concílio de Trento (1562), passando pelo de Toledo (599) e o de Avignon (1209), a Igreja não cessa de condenar as danças em geral e as que se realizavam dentro das igrejas em particular, por temor à lascívia”
“Chorea, corona diaboli!”
Até 2019 sua tradução seria “Dança, coroa do diabo!”. A partir do ano passado se tornou: “Vade retro, Coronga do diabo!”
“A dança inscreve-se no prolongamento dos divertimentos da vida cavalheiresca, quais sejam a caça e os torneios. É comum serem as carolas formadas exclusivamente por mulheres, objeto do olhar dos homens enquanto estes travam suas justas.”
Das carolas nasceriam 3 formas: o rondó (roundeau), a balada e o virelai.
“A estampie, que tira seu nome de stampare, ‘bater no chão com os pés’ (e que não se deve confundir com a estampie literária), é formada por seções curtas que se repetem, AA, BB,…, chamadas puncta. A mais antiga de que se tem registro é aquela para a qual o trovador Raimbaud de Vaqueiras, segundo se conta, escreveu, espontaneamente, assim que acabou de ouvi-las, as palavras Kalenda Maya, Ni fuelles de faya. 8 delas figuram num cancioneiro da Bibliothèque Nationale. São os 1os exemplos de música instrumental.”
“A influência dos trovadores [fenômeno francês] revelou-se marcante, em 1º lugar, na Itália. Infelizmente não ficou vestígio algum da música de um Cigada, de um Malaspina, de um Sordel, nem de todas aquelas cantigas corteses que se davam o prazer de compor os nobres toscanos e úmbrios, entre os quais aquele jovem patrício que não tardaria a renunciar a tais práticas, ardente de um outro amor, o futuro São Francisco de Assis, autor, mais tarde, do Hino ao sol. Graças a ele a cantiga italiana iria tomar uma orientação nova [e chata].”
“Por meio dos Minnesanger, a influência de trovadores e troveiros estender-se-ia até a Áustria. (…) em 1156, Béatrice de Bourgogne, protetora do troveiro Guillot de Provins, casa-se com o imperador Frederico I, o Barba Roxa.”
“O famoso manuscrito de Heidelberg inclui nada menos que 7 mil canções, obras de 140 poetas-compositores, entre os quais o célebre Walther von der Vogelweide (ca. 1170-1230), além de Friedrich von Hause, Reinmar der Alte, Heinrich von Mohrungen, etc.
A Barform – com sua estrutura constituída por um Aufgesang composto de um Stollen-Stollen, seguido de um Abgesang, ou seja, uma primeira parte de estrofe formada de 2 elementos idênticos, a que seguia-se uma 2ª parte, tal como a descreve com precisão Hans Sachs [!] em Die Meistersinger von Nürnberg (Os mestres-cantores de Nurenberg) de Wagner¹ – retoma o modelo de um bom número de canções de trovadores e de troveiros.”
¹ Ver também, sobre o assunto, em breve, as MONOGRAFÍAS MUSICALES de Theodor Adorno, a ser incluídas no Seclusão.
Outra menção a Wagner (Nibelungos). Até parece que ele foi a única coisa que a Alemanha produziu em Música Clássica…
“A Espanha é o lugar de encontro das músicas ocidentais e daquelas que pertencem à tradição islâmica. (…) Um dos manuscritos das Cantigas de Santa Maria mostra, lado a lado, um músico mouro e um músico cristão tocando alaúdes.
Os estudos nesse domínio são muito raros e não dá para entender por que misteriosas razões os pesquisadores ocidentais afastam-se de uma literatura e de uma música que não foram ignoradas pelo Ocidente, ao passo que os trabalhos dos epistemólogos e dos filósofos sobre a contribuição considerável dada pelas ciências e pelo pensamento árabe ao mundo ocidental avançaram muito mais.”
“a lírica profana em língua latina não deve ser esquecida.” “desde Venantius Fortunatus (530-609) (…) passando pelas canções de amor da época carolíngia, que foram condenadas no século IX por serem diabolica, amatoria e turpia (diabólicas, dissolutas e torpes), e prosseguindo para as transposições para a música dos poemas da obra De consolatione philosophiae de Boécio, das Odes de Horácio e da Eneida de Virgílio, hoje indecifráveis, [?] até, no séc. XII, as cantigas de Abelardo, sobre cuja autoria, no tocante a 6 planctus pelo menos, não pairam dúvidas.
Mas, de todas as coleções de lírica latina profana, a mais importante e a mais vasta é a dos Carmina Burana (Cantos de Beuron), manuscrito compilado e conservado até 1803 na abadia de Benediktbeuren (mosteiro beneditino de Beuron), na Baviera.”
“Primeiros entre os poetas malditos, os monges errantes celebram a embriaguez, propícia à inspiração poética, o amor brutal, venal, carnal: são violentos na sátira, chegando por vezes à revolta.”