PREFÁCIO À EDIÇÃO PORTUGUESA (Inês Duarte)
“KL [o acrônimo do título original] foi escrito em 1984 e publicado em 1986.” “é o livro em que ele faz o balança de 30 anos de investigação.” E exatamente por isso é o único seu que lerei.
“Numa época em que a Genética e as Ciências Neuronais davam os primeiros passos, a teoria padrão foi criticada por defender uma faculdade da linguagem inata, específica da espécie humana”
Resultados pífios da epistemologia chomskyana apurados pela própria epistemologia chomskyana já no fim dos anos 60: “finalmente, a <maquinaria> usada tinha demasiado poder descritivo, [só mesmo um epistemólogos ‘de exatas’ – um anti-epistemólogo por definição – poderia entender tal característica como negativa!] permitindo soluções <ad hoc> [mais conhecido como REMENDÃO] que contrariavam a procura de generalizações translingüísticas e de princípios universais e revelando-se pouco satisfatória para enfrentar os problemas da variação entre línguas e da mudança linguística.”
“O vendaval pós-teoria padrão que varreu o campo generativista deu origem à proliferação de modelos alternativos (normalmente reunidos sob as etiquetas de sintaxe abstrata e semântica generativa). A paciente e persistente [intransigente, turrona, casmurra] resposta chomskyana, que levou alguns anos a tornar-se dominante, consistiu na formulação da hipótese lexicalista, na redução do poder descritivo das regras e (…) sob o nome de teoria padrão alargada.” Nem lexicamente essa teoria satisfaz (pun intended)!
“convenção X-barra”
“O trabalho desenvolvido no quadro da teoria padrão alargada preparou o caminho para aquilo que Ch. designa em KL a segunda mudança conceitual da gramática generativa: uma concepção modular da gramática, encarada como um sistema de princípios e parâmetros.”
“a teoria encaminhou-se para uma <flexibilização controlada> dos princípios de GU, sem os custos de perda de poder explicativo e de irrealismo do processo de aquisição imputáveis à teoria padrão.
Neste novo quadro teórico, conhecido sob o nome de teoria da regência e da ligação (government-binding theory) – ou, mais ao gosto de Ch., de modelo de princípios e par. [doravante PP] –, a faculdade da linguagem é vista como um sistema muito diferenciado e restritivo parcialmente especificado – i.e., com parâmetros por fixar. Por outras palavras, este módulo específico da mente inclui princípios <absolutos>, invariantes (p.ex. o Princípio de Projeção), mas inclui igualmente princípios <abertos>, denominados parâmetros, que admitem uma escolha entre 2 valores (p.ex., o Parâmetro do Sujeito Nulo).”
“Aceitando a forma da gramática proposta inicialmente em CHOMSKY & LASNIK 77 [o difícil é aceitar], assume-se que a mesma está organizada num conjunto de módulos independentes mas interativos.”
“uma vez que os PP são concebidos como hipóteses empíricas sobre as propriedades da faculdade da linguagem e dos estados de conhecimento atingidos como resultado do processo de aquisição da linguagem, na análise de qualquer fenômeno de uma dada língua, torna-se tarefa essencial isolar propriedades imputáveis a PP e procurar a justificação destes em amostras cada vez mais ricas e diversificadas das línguas.”
“Dez anos após a publicação de KL, o modelo aí apresentado sofreu, como é natural, alterações.”
1. CONHECIMENTO DA LÍNGUA COMO OBJETO DE INVESTIGAÇÃO
A Gramática Universal de Chomsky é um Evangelho que enferrujou em muito, mas muito menos de um século! Um pífio e(v)ang(elhinho)…
“Além disso, aquilo que estou a descrever representou, por toda a parte, uma posição minoritária, e provavelmente ainda representa, embora, do meu ponto de vista, seja a correta.”
Uma primeira dica para quem pensa poder fundar uma nova ciência: não se preocupar conscientemente com a genealogia dos elementos deste saber, muito menos com qualquer apocatástase ou escatologia deles mesmos! É o que Saussure fez, e por isso obteve êxito.
“Embora adotando basicamente este ponto de vista [do aprendizado linguístico como um processo analógico], Quine argumentou que há um problema grave e insuperável de indeterminação, que afeta todos os aspectos da língua e da gramática, e, de um modo mais geral, da psicologia (Quine, 1960, 1972). (…) não parece haver razão para distinguir a linguística ou a psicologia das ciências naturais”
Ainda bem que Chomsky não tentou sua vida como mecânico, ou estaria até hoje desmontando o primeiro motor de carro quebrado que foi guinchado à sua oficina, perguntando-se: O que essa peça faz ou deveria fazer? Mais importante: por que ela faz isso? Não estaríamos enganados a esse respeito?? Por que os carros andam? Não deveríamos entender que há um motor metafísico até hoje não discutido por nenhum engenheiro automotivo, embora esteja claro que TODOS OS MOTORES DAS MAIS DÍSPARES FABRICANTES consigam o prodígio de fazer os carros andarem ao mero comando humano e injeção de combustível fóssil?!
2. OS CONCEITOS DA LÍNGUA
“É claro que não há garantias de que esta maneira de abordar os problemas apresentados em (1), no Capítulo 1, [como se origina nossa aptidão para aprender uma língua, etc.] seja a correta. Esta abordagem pode tornar-se completamente disparatada, mesmo que obtenha um sucesso substancial – tal como uma teoria das valências, ou outra, pode ter acabado por ficar completamente fora do caminho, apesar do seu grande sucesso na química do século XIX. É sempre razoável considerar abordagens alternativas, se elas puderem ser delineadas”
“A língua-E que foi objeto de estudo na maior parte das gramáticas tradicionais ou estruturalistas ou na psicologia comportamental é agora encarada como um epifenômeno, na melhor das hipóteses.” Uma teoria da língua em que a língua (língua-E) é inútil!
“É errado acreditar que a noção de língua-E [língua] é completamente clara ao passo que a de língua-I [hipótese de trabalho de Chomsky] ou de gramática levanta sérias questões, talvez problemas filosóficos que não podem ser tratados. O oposto é que é verdadeiro.”
“Ainda que se soubesse tudo acerca da mente/cérebro, diria um adepto de Platão, continuaríamos a não ter bases para determinar as verdades da aritmética ou da teoria dos conjuntos, mas não há a mínima razão para se supor que há verdades da linguagem que ainda assim nos escapariam.” Clássico entendimento grosseiro de Platão que na verdade o inverte: é Chomsky quem está sendo completamente platônico no sentido que aqui ele atribui a “o que diria um adepto de Platão”. A verdade em si é inatingível, constituindo a jornada do filósofo rumo à verdade na verdadeira descrição do “filósofo no Reino das Idéias” (formas conceitualizáveis do mundo sensível). Dessa forma, o conhecimento, em Platão, está muito mais associado à tal língua-I chomskyana, e não à língua-E que Chomsky sem dúvida atribuiria, se tivesse menos pudor, a “Saussure e seus sequazes”. A fé chomskyana no completo êxito de seu empreendimento significa entender que alcançaria o próprio Sol ou Idéia platônicos, o que extrapola e denigre toda noção honesta e bem-concebida de platonismo. Ao tentar ridicularizar o passado, Chomsky se tornou o próprio bobo da côrte no presente. Destarte, o “Problema de Platão” é na verdade o “Problema de Chomsky”!
“a questão aqui é a de saber se este estudo cabe ou não no âmbito daquilo a que decidimos chamar <linguística>” A resposta é não: o que Chomsky tenta fundar é uma contra-linguística.
“Uma vez que a evidência fornecida pelo Japonês pode obviamente apoiar-se na correção de uma teoria de E0, ela pode ter influência indireta – mas muito poderosa – na escolha de gramática que tenta caracterizar a língua-I atingida por um falante do Inglês.”
“Atualmente, [na época de Platão, na época de Gengis-Khan, na época de Napoleão, na de Saussure, hoje e sempre] sabe-se tão pouco acerca dos aspectos relevantes do cérebro que mal podemos especular sobre o que possam ser essas conexões [com o aprendizado da língua].”
“eventos físicos do discurso”
Se fala muito em “melhor teoria”, está diagnosticado – é um charlatão! “representações léxico-fonológicas. Estas não são derivadas dos sons do discurso por meio de procedimentos analíticos de segmentação, classificação, extração de traços físicos, etc., mas são estabelecidas e justificadas como parte da melhor teoria para dar conta da relação geral existente entre som e significado na língua-I.” Com efeito, se se preocupa com teoria, já se fracassou também na prática. Quem dirá quem é obcecado pela teoria…
Lewis, 1975 (crítico)
Katz também deveria ser lido, de tanto que é “refutado” por Chomsky nas notas de rodapé (tudo tem um porquê).
Notas:
“Se se quiser considerar a questão do realismo, a psicologia e a linguística parecem ser escolhas pobres; a questão devia colocar-se relativamente às ciências mais avançadas, onde há muito mais esperança de se conseguir descobrir algo sobre essa matéria.” Não é viável que a linguística continue cindida dessa forma entre pseudo- ou paralinguística (linguística chomskyana) e linguística propriamente dita. Os chomskyanos devem achar um departamento nas exatas que os acolha e cair fora do atual departamento, para não atrapalharem os sérios esforços dos linguistas genuínos.
3. ENFRENTANDO O PROBLEMA DE PLATÃO
Para salvar sua hipótese da “aprendizagem instantânea”, o que depauperaria qualquer componente empírico ou cultural na aquisição da linguagem pelo homem, Ch. chega às raias do absurdo de dizer que a morte é um processo genético e basicamente a-social! É uma conta ou equação que eternamente não fecha, que ficará sempre desequilibrada. Uma verdadeira hecatombe epistemológica!
“Teoria da ligação: [lei] Um pronome não pode ter como antecedente um elemento que pertença ao seu domínio.”
“teoria dos nós-fronteira” Isso não é Fringe, não é entretenimento puro e acéfalo, e por isso é imensamente chato! Normalmente, coisas “chatas” podem ser interessantes ao especialista, ex: filosofia heideggeriana, quando há uma forte intuição da corretude do pensamento escrito. Não é o caso aqui. É chato não porque é “complexo”, mas porque está errado!
“expressões-R”
O que se diz por aí é exato – O que se diz por aí? Que Chomsky passou meio século empreendendo uma tragicômica “gramática universal do Inglês” somente! Parágrafos como esse abundam na obra: “Além disso, é uma propriedade geral da linguagem, e não uma propriedade específica do Inglês, que um N’ [substantivo] se construa com um determinante, ainda que o fato de este determinante poder ser um SN [sintagma nominal] pleno seja específico do Inglês. Daí que quase nenhuma opção que diga respeito a estes exemplos necessite de ser especificada nas regras sintagmáticas do Inglês.”
Notas:
“Hyams (1983) argumenta que estados infantis da aquisição da linguagem procedem com base na hipótese de que a língua é como o Italiano ou como o Espanhol no que se refere ao fato de não ser exigida a presença de um sujeito explícito, decisão que é alterada mais tarde na aquisição do Inglês.”
4. QUESTÕES ACERCA DAS REGRAS / QUESTÕES SOBRE REGRAS (sic)(*)
(*) O título do capítulo é diferente da marcação no índice.
“problemas de Descartes”
“problemas de Wittgenstein”
“Não entrarei na questão textual sobre se a versão que Kripke dá de Witt. é a versão correta.”
“doravante, para referir Witt. segundo Kripke utilizarei <Wittgenstein>”
“Das várias críticas que, ao longo dos anos, têm sido feitas ao programa e ao enquadramento conceitual da gramática generativa esta parece-me ser a mais interessante.”
“Kripke sugere que a nossa compreensão da noção de <competência> depende da nossa compreensão da idéia de <obedecer a uma regra>, de maneira que o paradoxo cético de Witt. no que se refere à obediência a regras se relaciona crucialmente com as questões centrais tratadas pela gramática generativa.”
“parece que o uso das idéias de regras e de competência em lingüística tem de ser seriamente reconsiderado, mesmo se estas noções não se tornaram <sem significado>.”
“a gramática generativa parece dar uma explicação de um tipo que Witt. não permitiria”
“O paradoxo cético de Witt. é, em poucas palavras, o seguinte: dada uma regra R, não há nenhum fato relativamente a minha experiência passada que justifique a minha crença de que a aplicação seguinte de R é ou não conforme com as minhas intenções. Não existe – argumenta W. – qualquer fato acerca de mim que me diga se eu estou seguindo R ou R’, que coincide com R em situações do passado mas não em situações do futuro. Especificamente, não existe modo de saber se estou obedecendo à regra de adição ou a uma outra regra (envolvendo <pais> e não <mais>[??]) que dê 5 como resposta a todos os pares, para além dos números para os quais dei anteriormente somas; <nada havia acerca de mim que constituísse a minha retenção de usar mais e não mais>, e, de forma mais geral, <querer dizer algo através de uma palavra qualquer é coisa que não existe>. Cada aplicação de uma regra é <um salto no escuro>. (…) O argumento não se confina ao uso de conceitos, mas alarga-se a qualquer tipo de aplicação de regras.
Resumidamente, se eu sigo R, faço-o sem qualquer razão. Acontece que sou assim constituído. Até agora, estas conclusões não constituem um desafio sério a [minha teoria] (…). Sigo R porque E0 projeta os dados apresentados em EL, que incorpora R; então, <aplico a regra R às cegas>. Não há resposta para o cético W. e nem é preciso haver. O meu conhecimento, neste aspecto, é não-fundamentado. (…) nem tenho razões para obedecer às regras: limito-me a fazê-lo.” Ch. não entendeu o sentido da objeção de W. sobre as regras serem arbitrárias: se não fossem úteis aos advogados da GU, cada qual ‘falaria de um jeito’; mas como animais sociais sempre ‘engolimos as regras’.
“A comunidade atribui um conceito (regra) a um indivíduo desde que ele atue em conformidade com o comportamento da comunidade, com a sua <forma de vida>.” Ora, ora, parece que você não é tão tolo quando não o quer!
“Parece então que o quadro da <psicologia individual> da gramática generativa fica enfraquecido.” Óbvio.
“de maneira que as asserções da gramática generativa, que parecem considerar uma pessoa em estado de isolamento, não podem ter nenhum conteúdo significativo.”
“condições de asseribilidade”
Ch. parece querer insinuar que “tirando a parte filosófica”, W. está correto. Tirando o bebê e a água, a tina está vazia!
5. NOTAS SOBRE O PROBLEMA DE ORWELL [O BOM BÔNUS]
“Em maio de 1983, teve lugar em Moscou um acontecimento notável. Um jornalista corajoso, Vladimir Danchev, denunciou a guerra russa no Afeganistão em 5 programas da Rádio de Moscou, durante mais de uma semana, apelando aos rebeldes para <não deporem as armas> e para lutarem contra a <invasão> soviética do seu país. A imprensa do Ocidente ficou espantada com este afastamento surpreendente da <linha de propaganda oficial soviética>. No New York Times, um comentador escreveu que Danchev se tinha <revoltado contra os padrões do pensamento dissimulado e do discurso noticioso>.”
“Em dezembro, Danchev voltou ao trabalho, após tratamento psiquiátrico. Na altura, foi citada a seguinte afirmação de um funcionário soviético: <Ele não foi punido, porque um homem doente não pode ser punido.>
Considerou-se que o acontecimento tinha permitido entrever o mundo de 1984 e o ato de Danchev foi considerado, com justiça, como um triunfo do espírito humano, uma recusa em ser intimidado pela violência totalitária.”
“Na teologia soviética, não existe qualquer acontecimento denominado <a invasão russa do Afeganistão>. Existe, pelo contrário, uma <defesa soviética do Afeganistão> contra os terroristas apoiados pelo exterior.” E veja quem estava certo, afinal!
“Os Mujahidin operam a partir de <santuários> no Paquistão, onde a CIA e os agentes chineses controlam a circulação de armas, e diz-se que os guerreiros destruíram escolas e hospitais para além de muitos atos considerados <atrozes> pelos invasores, que declararam retirar-se quando o Afeganistão estiver livre dos ataques do Paquistão. Esta posição é repudiada pelo Ocidente, com a justificação de que os agressores se deveriam retirar incondicionalmente, tal como insistiu o Conselho de Segurança das Nações Unidas, com um apoio simulado dos EUA, que cessou rapidamente quando Israel invadiu o Líbano, em 1982. O Ocidente também tem ficado justamente indignado quando os soviéticos denunciam cinicamente o <terrorismo> da resistência, ou quando alegam, absurdamente, estarem a defender o Afeganistão de bandidos que matam inocentes, ou ainda quando o mais odioso do Partido chama a atenção para a violência e para a repressão que teriam lugar – como teriam – se a União Soviética <renunciasse às suas responsabilidades> e abandonasse os afegãos ao seu destino, nas mãos dos rebeldes.” “Só no Newspeak orwelliano se pode caracterizar tal agressão como <defesa contra o terrorismo apoiado pelo exterior>.”
“1984 de Orwell foi, em grande parte, inspirado na prática da sociedade soviética existente, que tinha sido retratada com grande precisão por Maximov, Souvarine, Beck e Godin, e muitos outros. Foi apenas em meios culturais estagnados, como Paris, que os fatos foram, durante muito tempo, negados, de tal modo que as exposições de Khruschev e o desenvolvimento da história na obra posterior de Solzhenitsyn constituíram uma revelação –o último numa altura em que os intelectuais ansiavam por marchar numa parada diferente. O que houve de notável na visão de Or. não foi o seu retrato do totalitarismo existente, mas a sua advertência de que poderia existir aqui. § Até agora, pelo menos, isto não chegou a acontecer.” “As sociedades industriais capitalistas têm poucas semelhanças com a Oceânia de Orwell – ainda que os regimes capitalistas de terror e tortura que impuseram e mantiveram noutras partes do mundo alcancem níveis de crueldade que O. nunca descreveu, sendo a América Central o exemplo atual mais óbvio.”
“aqui não há Danchevs: os jornalistas e outros intelectuais são de tal modo subservientes em relação ao sistema doutrinal que não conseguem sequer perceber que <um invasor é um invasor, a não ser que tenha sido convidado por um governo com algum grau de legitimidade>, quando são os Estados Unidos o invasor. Esta seria uma fase que ultrapassa o que O. imaginou, uma fase posterior que o totalitarismo soviético [não] alcançou [ou ‘uma fase posterior que aquela que o total. sovié. alcançou’].”
“Em 1962, a Força Aérea dos EUA começou os ataques diretos contra a população rural do Vietnam do Sul, com bombardeamentos pesados e desfolhação, o que fazia parte de um programa que pretendia conduzir milhões de pessoas para acampamentos, onde, cercadas de arame farpado e de guardas armados, seriam <protegidas> dos guerrilheiros que apoiavam, os <Vietcongs>, ramo sulista da antiga resistência anti-francesa (Os Vietminh).” “Oficiais e analistas americanos reconheceram que o governo instalado no Sul (o GVN) não era legítimo e tinha pouco apoio popular. De fato, sua chefia era derrubada regularmente por golpes apoiados pelos próprios EUA, quando se temia que carecesse do entusiasmo adequado para intensificar a agressão americana e que pudessem mesmo negociar um acordo com o inimigo sul-vietnamita. Cerca de 70 mil Vietcongs tinham já sido mortos numa campanha terrorista dirigida pelos EUA, antes da invasão total em 1962; este número elevou-se talvez para o dobro, por volta de 1965, quando a invasão territorial americana começou em larga escala, a par do bombardeamento sistemático e intensivo do Sul e do bombardeamento do Vietnã do Norte (com 1/3 da intensidade). Depois de 1962, os invasores americanos continuaram a bloquear todas as tentativas de acordo político e de neutralização do Vietnã do Sul e, em 1964, iniciaram os preparativos para intensificarem a guerra contra o Sul no início de 1965, em simultâneo com um ataque contra o Vietnã do Norte, Laos e, mais tarde, o Cambodja.
Durante os últimos 22 anos, tenho procurado, em vão, encontrar nos principais jornais e trabalhos de investigação americanos, uma ÚNICA referência a uma <invasão americana do Vietnã do Sul> ou a uma <agressão> americana ao Vietnã do Sul. No sistema doutrinal dos EUA não existe tal acontecimento. Não existe nenhum Danchev, embora, neste caso, não fosse necessário ter coragem para dizer a verdade, mas apenas honestidade. Mesmo no auge da oposição à guerra, só um número ínfimo de intelectuais organizados objetou contra ela por uma questão de princípios – a agressão é ilegítima –, enquanto a maioria só se opôs à guerra, muito depois de os círculos principais de negócios o terem feito, com base na questão <pragmática> de que os custos eram demasiado elevados. Por acaso, as atitudes populares foram muito diferentes. Mesmo anos mais tarde, em 82, 70% da população (mas uma percentagem muito menor de <líderes de opinião>) consideravam que a guerra não tinha sido apenas um erro, mas sim que era <fundamentalmente ilegítima e imoral>, um problema conhecido por <síndrome do Vietnã> no discurso político americano.”
“Embora os ataques americanos contra Laos e Camboja tenham realmente sido abafados pela comunicação social, por muito tempo – fato que continua a ser abafado ainda hoje – a guerra americana contra o Vietnã do Sul foi relatada, desde o início, com uma exatidão razoável” “Teses, manuais escolares e meios de comunicação, salvo raras exceções, adotam a assunção de que a postura americana era defensiva, uma reação, talvez imprudente, à <agressão apoiada pela União Soviética> ou à <agressão interna> – expressão usada por Adlai Stevenson para designar <a agressão> da população NATIVA contra o invasor ESTRANGEIRO e seus aliados.”
“Os <falcões> eram os que, como o jornalista Joseph Aslop, sentiam que, com dedicação suficiente, a guerra podia ser ganha. As <pombas> concordavam com Arthur Schlesinger em que, provavelmente, não podia, embora, tal como ele, admitissem que <todos nós rezamos para que o Sr. Aslop tenha razão>”
“A mesma posição é hoje freqüentemente reiterada quanto ao apoio dos EUA a vários rufiões e assassinos da América Central e à guerra por procuração que mantém contra a Nicarágua.”
“Este comentário bastante típico ilustra o caráter dos sistemas democráticos de controle do pensamento. Num sistema baseado na violência, exige-se apenas que se obedeça à doutrina oficial. A propaganda é facilmente identificada: a sua origem é um Ministério da Verdade visível e podemos ou não acreditar nela, desde que não a rejeitemos abertamente.” “Os sistemas democráticos de controle do pensamento têm um caráter radicalmente diferente. A violência é rara, pelo menos contra os setores mais privilegiados, mas exige-se uma forma de obediência muito mais profunda.” “As doutrinas da religião oficial são, muitas vezes, omitidas, sendo antes pressupostas como enquadramento da discussão entre os indivíduos bem-intencionados” “A idéia de que os EUA estão envolvidos numa agressão e de que essa agressão é ilegítima deve continuar a ser impensável e omitida, com referência ao Santo Estado. Os <críticos responsáveis> dão um contributo apreciável a esta causa, pelo que são tolerados e mesmo respeitados. Se até os críticos adotam tacitamente as doutrinas da religião oficial, quem pode questioná-las?”
“Por uma questão de <vantagem estratégica>, os EUA estão interessados na criação de um Estado de Israel poderoso e expansionista. Tudo o que contribua para este objetivo é, por definição, o <processo de paz>. O próprio termo elimina qualquer hipótese de discussão: quem pode estar contra a paz?” Novilíngua.
“Os fuzileiros americanos no Líbano eram a <força de manutenção da paz>”
“Quando Israel bombardeia as cidades perto de Baalbek, provocando 500 feridos, na sua maioria civis, incluindo 150 crianças, como o fez no início de janeiro de 84, ou quando seqüestra navios em águas internacionais e rapta os passageiros, não se trata de <terrorismo>, mas de <retaliação>”
“A agressão indonésia a Timor, apoiada pelos EUA, que levou à morte de 200 mil pessoas e a uma fome ao estilo da do Biafra, foi quase totalmente silenciada durante 4 anos.” “Atualmente, as atrocidades contínuas mal são noticiadas e, quando se faz algum comentário, após muitos anos de silêncio, o papel crucial e intencional dos EUA é propositadamente ignorado.”
“Muitas vezes, os desmentidos oficiais são um guia útil para se conhecerem acontecimentos não noticiados, fato de que estão conscientes os leitores atentos da imprensa independente.”
