FREUD/FLIESS: Mito e quimera da auto-análise – Erik Porge (trad. Vera Ribeiro), 1996 (1998).

INTRODUÇÃO

“É em nome da auto-análise de Freud que a auto-análise é hoje reconhecida por alguns como uma prática completa. Num livro recente, um autor alemão, Karl König, escreveu: <Freud fez a primeira auto-análise (1900). Quando de sua auto-análise, Freud dirigiu-se a um parceiro, Fliess, e talvez o tenha imaginado durante a auto-análise; pelo menos, sempre o trouxe em seus pensamentos.> O autor expôs em seguida a técnica da auto-análise: a análise dos próprios sonhos e o que ele denominou de <micro-sintomas>: esquecimentos momentâneos, dores de cabeça, dores de barriga. estados depressivos e, acima de tudo, coincidências temporais que criam um vínculo causal. Veremos que a atenção dada a este último aspecto foi um dos pilares do método de interpretação de Fliess.”

“essa auto-análise que prolonga a análise pode ser considerada, por uma curiosa inversão, como o começo da análise.”

1. A CORRESPONDÊNCIA FREUD/FLIESS, UM QUEBRA-CABEÇA TRUNCADO

“Algumas cartas de F. a Fliess foram publicadas pela 1ª vez no começo de 1906, durante a vida de F., mas sem sua autorização, no panfleto de Richard Pfennig intitulado Wilhelm Fliess e seus descobridores imitadores, O. Weininger e H. Swoboda, que acusava Weininger e Swoboda de haverem, por intermédio de Fr., plagiado Fl..” “Uma 2ª reprodução dessas 4 cartas (com diferenças mínimas de citação) saiu em junho de 1906, na brochura de Fl. denominada Em minha causa própria, que retomava as acusações de Pfennig.” “Fr., muito afetado pela publicação maldosa de suas cartas particulares ao amigo, decidiu, depois de 1904, destruir todas as cartas que recebera de Fliess, de modo que, hoje em dia, dispomos apenas de metade da correspondência.”

“A ascensão do nazismo obrigou os Fliess a emigrar e a se separar de parte dos arquivos de Fl., ao mesmo tempo que tentavam certificar-se de que esse material não seria destruído pelos nazistas. Após refletir sobre o assunto, Charles Fliess achou que a solução mais segura seria dirigir-se a um negociante de livros, pois sua profissão o punha em contato com o exterior e, desse modo, ele teria mais facilidade em fazer com que saíssem documentos da Alemanha. Foi assim que Charles vendeu as cartas de Fr., depois de fazer uma triagem prévia”

“O livreiro que comprou 250 das cartas de Fr. entrou em contato com Marie Bonaparte para lhe vender o conjunto a 12 mil francos.”

“Depois da guerra, Bonaparte, Anna Freud e Ernst Kris decidiram publicar as cartas, mas fazendo previamente uma triagem e censurando boa parte delas. O livro foi lançado em 50, sob o título de Aus den Anfängen der Psychoanalyse. Briefe an Wilhelm Fliess, Abhandlungen und Notizen aus den Jahren 1887-1902, Londres, Imago. A versão francesa saiu em 1956. Até hoje, início de 95, esse é o único texto das cartas de Fr. a Fl. de que o público francês dispõe! Graças ao trabalho de Michael Schröter, Gerhard Fichtner e Jeffrey Moussaieff Masson, a S. Fischer lançou, em 86, o volume Sigmund Freud Briefe an Wilhelm Fliess 1887-1904, que contém quase a íntegra não-censurada. A edição inglesa, de 85, traz erradamente o título The Complete Letters of (…).”

“Em 1895, época em que a correspondência atingiu um 1º pico, Fliess descobriu a solução para a concepção, i.e., as cifras referentes aos períodos masculinos e femininos – 23 e 28 –, os quais, segundo ele, regiam, entre outras coisas, a determinação do sexo e das datas de fecundidade.” “Um segundo pico foi atingido em 1897. A curva atingiu seu ápice em 1899, ano em que Fr. mandou publicar, no outono, A interpretação (…), depois de um momento de pressa de concluir ocorrido no verão, corrigindo com Fl. as provas dos primeiros capítulos (…) Depois a correspondência diminuiu muito rapidamente.”

“Essas cartas são bem-escritas, sempre em caracteres góticos. Vez por outra, Fr. utiliza palavras iídiche (Meschugge), ou do dialeto vienense (Knetscher), ou expressões em francês.”

“A importância da clientela de Fr. varia ao longo dos meses. Pode ir de 11 clientes/dia (em 1898) até 3 e ½ (!) (em 20/05/1900). Fr. não quer ter pacientes em demasia – eles lhe são um tormento quando está deprimido, o que não é raro”

“Como indica nos Estudos sobre a histeria, depois Fr. abandonou a hipnose, a fim de praticar a busca de idéias e lembranças através da pressão das mãos sobre a fronte. Mais adiante vem a técnica das associações livres, à qual ele certamente faz alusão em sua carta de 07/07/1897.”

“metapsicologia, termo surgido em 13/02/1896.”

“O Sr. E.: o ataque de angústia diante de um escaravelho (Käfer), aos 10 anos de idade, continuara inexplicado até o momento em que ele descobriu que essa palavra devia ser escutada como Que faire?, índice da perplexidade de sua mãe na hora de se casar.”

“Muitos desses manuscritos não foram preservados. Esse foi o caso, em especial, de uma série que ele batizou com o nome grego de Drekkologie (merdologia). Em consonância com seu nome, nenhum desses manuscritos foi conservado. Numerados 1, 2, 3,…, eles foram remetidos entre o fim de 1897 e o começo de 1898. Fliess os devolveu, depois de fazer algumas correções. Um desses textos da Drekkologie continha, provavelmente, um grande sonho de Fr., que ele tencionava inserir em lugar de destaque na Traumdeutung, mas que retirou a conselho de Fliess, porque dizia respeito a Martha. (…) Fr. também corrigia os manuscritos de Fl. – principalmente até a publicação de As relações entre o nariz e os órgãos genitais femininos, do fim de 1896 – e utilizava os trabalhos do amigo em suas pesquisas.”

“eles começaram por fazer o projeto de um livro a 2, versando sobre a neurastenia e a neurose de angústia. Esse projeto alimentou boa parte de sua correspondência entre 1892 e meados de 1893, momento em que o ritmo de suas cartas se acelerou. (…) Esse projeto tinha um objetivo nosográfico (a distinção entre as neuroses atuais e as psiconeuroses)”

SUJEITO NARIGUDO: “Fl. havia escrito um artigo preparatório para o estudo comum: Nova contribuição para a clínica e a terapia das neuroses nasais reflexas.”

Fl. A neurose nasal reflexa, abril de 1893 (conferência)

“Muito mais tarde, quando os 2 já haviam se afastado, Fr. renovaria a Fl. a proposta de escrever um livro conjunto sobre a bissexualidade. O projeto não foi além dessa proposta.”

“Fl., que até então só se ocupara das neuroses nasais reflexas, iria desenvolver, a partir dessa data (maio de 1895), um sistema delirante de interpretação, baseado na existência de períodos masculinos e femininos de 23 a 28 dias, aplicáveis com a mesma regularidade aos acontecimentos normais e patológicos que sucedem ao ser humano, assim como aos animais e às plantas. Esse sistema entrou em vigor a partir de As relações. Freud desconheceu o caráter delirante do sistema fliessiano e não tardou a se interessar por seus cálculos. Alimentou-os, fornecendo listas de datas de acontecimentos ocorridos com seus pacientes ou em sua família, procurando verificar a teoria de Fl. em si mesmo e integrando-a em sua própria teoria das neuroses – p.ex., na distinção entre as fases sexuais e as fases psíquicas que fossem múltiplas, respectivamente, de 23 e 28 dias.”

58 84 112 140 168 196 224 252 280 308 336 364

—————(gravidez de 36 semanas)——–

46 69 92 115 138 161 184 207 230 253 276 299 322 345 368

“Reconheceu não estar certo de poder retribuir na mesma moeda no que concernia à grande obra que Fl. estava preparando, O curso da vida: Fundamento para uma biologia exata, que só viria a ser publicado em 1906, embora Fr. desejasse vê-lo lançado ao mesmo tempo que a Traumd..”

“Anna receberia o nome de Wilhelm, se o filho esperado fosse um menino, como era previsto (pelos cálculos de Fliess).”

“Martin era atacado, segundo palavras do pai, de <Dichteritis (‘poesite’) periódica>.” Aos 8 anos de idade? Difícil acreditar…

“Fala pouco da mãe, mencionando com maior freqüência Martha e Minna, que vai morar em sua casa, e o pai, falecido em 23/10/1896, dia do aniversário de Fliess (…) Fr. responsabiliza seu pai pela histeria de seu irmão [??].”

Dora, fragmento da análise de um caso de histeria estava pronto desde 1901, mas Fr. renunciou a publicá-lo, ao se dar conta de haver perdido Fl. como público.”

“Ao longo da correspondência, Fr. também modificou sua maneira de falar de si mesmo. Até 95, queixava-se muito da saúde e apelava para o médico que havia em Fl., o qual viera substituir Breuer nesse papel. Consultava-o sobre seu catarro nasal, suas enxaquecas e seus distúrbios cardíacos (dores, arritmia, etc.), que ele supunha estarem ligados a uma miocardite. Fliess aconselhou Fr. a parar de fumar charutos e, achando que se tratasse também de uma neurose nasal reflexa [hahaha], praticou em Fr. a cocainização do nariz. Fl., por sua vez, queixava-se sistematicamente de enxaquecas fortíssimas.”

“Ida ocupa um lugar de destaque em As relações, sob o nome de Sra. A., havendo Fr. desaconselhado que ela fosse chamada pelo nome verdadeiro.”

“Fr. observa ao amigo (no Manuscrito O) o quanto ele tem sorte por contar com uma mulher que é, ao mesmo tempo, sua paciente e sua secretária (ela retranscrevia os manuscritos do marido).”

“Aliás, sucedeu a Fr. pedir que Fl. lhe devolvesse esta ou aquela carta, por precisar dela para alguma publicação.” E um homem tão precavido não as copiava antes?!

“Como dizia Montaigne, mesclavam-se <na amizade outra causa e meta e fruto que não a amizade em si>.”

“o que conheces de melhor não pode ser dito aos meninos” Goethe

“Assim como as cartas de Fr. a Fl. não contam uma história, elas também não formam um todo. Constituem, antes, um quebra-cabeça no qual faltam diversas peças.”

“A falta das cartas de Fl. desequilibra a correspondência e induz a sua leitura no sentido de uma história na qual um dos personagens – no caso, Fl. – ocupa o lugar do ausente, do Outro silencioso, que não responde. É muito fácil, a partir daí, dar um passo a mais e dizer que Fl. encarnou a posição do analista para Fr., e que Fr. fez uma auto-análise com Fl.. Esse foi o passo dado pela maioria dos psicanalistas, que erigiram a auto-análise de Fr. com Fl. num mito fundador. Ainda hoje, estamos a tal ponto impregnados desse mito que nem sequer avaliamos a sua amplitude ou seus efeitos. Ele constitui uma versão das origens da psicanálise que prevalece tanto entre os lacanianos quanto entre os não-lacanianos. Octave Mannoni contribuiu para forjá-la em seu livro sobre Fr., notável sob outros aspectos.” “É sobretudo a Didier Anzieu que devemos, na França, a propagação do mito da auto-análise de Fr., que ele construiu nas 3 edições revistas de seu livro L’auto-analyse de Freud et la découverte de la psychanalyse.”

2. O CASO DA AUTO-ANÁLISE DE FREUD, NÃO SEM UM ITALIANO CULTO

“Cada tornar-se analista é determinado, em parte, pelo desejo que movia Fr. e Lacan como analistas.” Acho que já sei por que nunca me tornei um.

“O livro de Anzieu contribuiu para fabricar um mito da auto-análise, na medida em que equivaleu a uma reconstituição de uma espécie de <Diário de minha auto-análise> escrito por Fr., uma espécie de autobiografia analítica. Seu método consistiu em ligar, pela trama do que é sabido sobre a história de Fr., os sonhos, formações do inconsciente e ditos deste último a Fl..”

“no encontro no lago de Achen, em julho de 1900, Fl. afastou-se voluntariamente de Fr. e espaçou a remessa de suas cartas.” “Em 1901, Fl. censurou-o por <só ler nos pensamentos dos outros seus próprios pensamentos>.”

“A convicção de que seu pai, que morreu de erisipela após longos anos de supuração nasal, poderia ter sido salvo fez dele um médico, e até direcionou sua atenção para o nariz. A morte súbita de sua única irmã, 2 anos depois, no 10º dia de uma pneumonia pela qual ele não pôde responsabilizar os médicos, inspirou-lhe a teoria fatalista das datas predestinadas para a morte – como que para se consolar. Esse fragmento de análise, contrário ao desejo dele, foi o motivo interno do rompimento, que ele empregou de maneira sumamente patológica (paranóica).”

“Fl. sabia que seu pai não havia morrido de erisipela, e sim que se havia suicidado. O fato de ele não ter dito nada a Fr. a esse respeito mostra sua desconfiança, anterior a qualquer interpretação procedente de outrem.”

MEIO LENTO O DOUTOR, NÃO? “Foi preciso esperar pela divulgação da acusação de plágio, em 1906, para que Fr. começasse a conceber a idéia de que o amigo havia ultrapassado os limites do que ele esperava de uma amizade.”

“De aparecimento relativamente recente e de contornos imprecisos, a biologia era um campo que Fr. esperava que trouxesse uma certa garantia ou confirmação para o caminho que ele ia abrindo.”

“estou 10 a 15 anos à frente”  01/01/00 – de qualquer modo não foi muito…

“Uma vez que a biologia era uma ciência relativamente nova, havia margem para esse tipo de esperança. (…) Ele não hesitou em qualificar Fliess de Kepler da biologia, coisa de que o próprio Fl. estava convencido. Assim, a certeza megalomaníaca de que este dava mostras habilitou-o a desempenhar o papel que Fr. esperava dele.”

“Em sua carta de 22/09/98 a Fl., escreveu: Endlich erfuhr ich den Namen: Signorelli – <Finalmente aprendi o nome: Signorelli>, o que foi impropriamente traduzido, em La Naissance de la psychanalyse, como <Finalmente, lembrei-me do nome: Signorelli>. Depois, em seu artigo de 1898 intitulado O mecanismo psíquico do esquecimento, Fr. foi mais explícito: <Dado que, durante a viagem, eu não tinha nenhum acesso a livros de consulta, tive que aceitar, por vários dias, essa perda da lembrança e o tormento interno que lhe estava ligado, o qual retornava diversas vezes por dia, até que encontrei um italiano culto que me libertou, através da comunicação do nome: Signorelli.> Por último, no 1º capítulo da Psicopatologia da vida cotidiana, lemos: <Quando o nome correto me foi comunicado por uma fonte externa (vom fremder Seite), reconheci-o imediatamente e sem hesitação.> Anzieu cometeu um erro, portanto, ao atribuir à auto-análise de Fr., sozinho, o retorno do nome, porquanto ele não chegou à solução por si mesmo – apesar, justamente, de sua obstinação, ou seja, dos vários dias de tentativas repetidas e tormentosas –, e foi preciso um encontro com um italiano culto para que ele fosse liberto de seu tormento. É claro que Anzieu se apoiou numa tradução ruim da carta de 22/09/98. Mas não se pode imputar sua leitura unicamente a essa tradução, pois ele faz referência também ao texto alemão, e as versões do artigo de 1898 e da Psicopatologia são inequívocas quanto à intervenção do terceiro.”

gebildeten Italiener

ele era cultivado como uma planta!

o italiano ilustrado

Retirem o Édipo e a psicanálise em extensão fica inteiramente sujeita ao delírio do presidente Schreber

Lacan

encontrou o que estava procurando? encontrou-se ao menos?

a cultura é um peido estrondoso ou silencioso?

me dei (bem) comigo mesmo no espelho

Definitivamente Freud não compreenderia Lacan.

3. UM RESTO NÃO-ANALISADO DE FREUD PARA LACAN, EM 1964

“Hoje em dia, talvez vejamos menos lacanianos do que em 1979, e as divisões entre eles favorecem um recuo, mas ainda é fato que o lacanismo é hoje um elemento de nossa cultura. Isso é conseqüência da crise que abalou o movimento analítico francês nos anos 60 e que foi resolvida através da suspensão, por Lacan, de seu seminário sobre os nomes do pai, e de sua criação da Escola Freudiana de Paris. Ao proceder desse modo, Lacan quis romper com o corporativismo da sociedade de psicanálise a que pertencia e criar, por meio do fato cultural, interligações entre a psicanálise e o conjunto da sociedade.” blábláblá…

“A Escola que ele fundou, aliás, foi aberta aos não-analistas, que ali deveriam exercer uma função.”

“Em 20/11/63 realizou-se a primeira sessão desse seminário. Lacan anunciou que ela seria também a última. [?]” “Voltando a falar desse seminário nos anos seguintes, Lacan manteria o suspense, em vez de confirmar a suspensão definitiva. A suspensão do seminário constituiu uma reação às medidas discriminatórias da IPA que a SFP ratificou em relação e ele, em 11/63, e que Lacan assimilou a uma excomunhão, tal como a que atingira Espinosa. Essa história havia começado em 1959, com o pedido de adesão da SFP à IPA. Este foi acompanhado, durante 4 anos, por uma sucessão de inquirições e negociações, cujo pivô era o afastamento de Lacan e que, no fim de 07/63, levaram à chamada Diretriz de Estocolmo, que estipulava que ele fosse riscado da lista de didatas”

O homem que não acabava nada… “Em seguida deveria vir um livro de L., intitulado Questionamento do psicanalista, mas este nunca veio à luz. Em 65, porém, L. leu em seu seminário excertos de um livro que estava escrevendo, intitulado Vias da psicanálise verdadeira, mas que também ficaria inacabado.”

“Em 01/64, um mês depois da suspensão do seminário Os nomes(…), Lacan começou um outro”

“Depois de fundar sua Escola, em 21/06/64, L. pôde prevalecer-se de ter os pés em 3 Escolas: a ENS, com respeito ao lugar geográfico, a EPHE, como lugar social que se abria para o meio científico, e a Escola Freudiana de Paris, como lugar de transmissão formado por ele e seus alunos.”

“Na virada que se efetuou para Lacan em 1963-4, o encontro com Althusser foi decisivo.”

“Lacan tencionava não se deixar encerrar nos impasses de uma transmissão religiosa da psicanálise, impasses dos quais não bastava sair da IPA para escapar.”

“Uma escola, quando merece esse nome, no sentido em que esse termo é empregado desde a Antiguidade, é uma coisa onde se deve formar um estilo de vida”

L. 27/01/65 (por que é tão importante datar tudo?)

“Quanto ao seminário, ele deve ter um valor de ação para os que o acompanham”

“Chegou até a intitular um seminário de Les non-dupes errent [Os não-tapados erram]” “a descoberta do nó borremeano” “sujeito suposto saber”

ESSA TERMINOLOGIA ME DÁ ENGULHO

“Fl. teria encarnado, para Fr., uma imagem do Nome do pai sujeito suposto saber, no ideal científico que representava aos olhos dele, e essa imagem ter-se-ia transmitido para a psicanálise, sem que Fr. se apercebesse.”

“a distinção estabelecida por Pascal entre o Deus de Abraão, Isaac e Jacó e o Deus dos filósofos. Essas duas versões de D. de modo algum são incompatíveis num mesmo sujeito.”

“Na ciência, a forclusão [inclusão fora] da verdade como causa a faz aparentar-se com a paranóia, na qual existe uma forclusão do Nome-do-Pai. Como conciliar, sendo assim, a idéia da psicanálise – paranóia bem-sucedida – com o fato de ela reintroduzir o Nome-do-Pai na consideração científica?” Metafísica ela não é. Não que fosse possível de qualquer forma…

“podemos ver desatar-se em algum lugar o QUIASMA que lhe parece criar obstáculos.”

“Ora, o princípio da verdade como causa resulta da divisão forclusiva de Descartes, que, ao remeter a garantia das verdades eternas a Deus-sujeito suposto saber, permitiu que a ciência deslanchasse como acumulação de saber.”

“a publicação de Emílio correspondeu ao desencadeamento de um delírio em Rousseau. Alguns atrasos na impressão levaram-no a crer que os jesuítas se haviam apoderado do texto e tinham armado um conluio para lhe acrescentar suas próprias idéias, usando seu nome.” “A ficção do aio deve ser considerada como um Nome-do-Pai para Rousseau.”

“A continuação de Emílio, Emílio e Sofia ou Os solitários, encerra-se num drama, bem ao estilo de Rousseau. Emílio perde tudo: separa-se de Sofia, seus filhos e seus sogros morrem. <Tudo me anunciava uma vida agradável, tudo me prometia uma doce velhice e uma morte tranqüila nos braços de meus filhos. Ai de mim!>”

4. FLIESS, UM ARTISTA DA CIÊNCIA

“Swoboda era um jovem doutor em direito e filosofia, que entrou em análise com Fr. em 1900 e se lançou em estudos de psicologia, depois publicados em seu livro sobre os períodos. Afirmava ele que a emergência espontânea das lembranças sobrevinha ao cabo de um período de horas ritmado pelas cifras 23 e 18, e por seus múltiplos.”

“O livro de Weininger saiu em maio de 1903. Wei. suicidou-se em outubro do mesmo ano, na mesma casa em que morreu Beethoven. Antes de morrer, escreveu: <Mato-me para não matar um outro>.”


*POH4, FDI6, BIP6, FL6

“POH4, anterior à briga, teve como ambição fundar uma nova psicologia, emancipada da psicologia experimental e de sua instrumentação, que levasse em conta o conhecimento da psique individual e casos tomados em suas condições de vida habituais [psicologia da vida cotidiana].” Swoboda: “Se nos queimarem um quadro de Böcklin, se perderem a partitura dos Mestres Cantores, poderemos falar numa perda insubstituível. Na ciência, porém, não passamos de soldados rasos. Enquanto estivermos produzindo o individual, não teremos a menor relação com a ciência. Não existe na ciência o splendid isolation. Por aí se explica também o fato de as descobertas científicas serem, muitas vezes, feitas ao mesmo tempo.”

FID6: “É justamente o contrário que sucede: o desempenho científico de alta classe traz uma marca tão individual quanto qualquer desempenho artístico, e não é menos raro nem menos precioso do que este.”

“contrastar o artista com o cientista equivale a refutar a teoria dos períodos”

BIP6, a tréplica: “Quanto mais artista alguém é, menos precisa temer por sua prioridade.” “Existe um desenvolvimento contínuo e histórico da ciência, enquanto, na arte, qualquer realização, seja qual for sua época, pode continuar a ser admirável.” Um dos últimos anos em que se podia ser ingênuo o bastante para afirmar isso sem uma chuva de vaias.

Kuhn: “Os cientistas dirigem-se a um público restrito, uma <platéia>, e os artistas a um público amplo e em lugares diversos: leitores críticos, museus, galerias, etc. [uau, que multidão!] “a ciência destrói seu passado (…) nesse aspecto, K. aproxima-se de Lacan” “a arte cultiva seu passado”

“A nova concepção fliessiana da dupla sexuação permanente lançava na obscuridade, segundo seu autor, todas as concepções da bissexualidade que a haviam precedido.”

“os <alunos> de Fl. não parecem haver transmitido a teoria fliessiana a uma nova geração.”

Vol quatre du Banque Sabbath

“Fl. não discutia seu método; expunha seus resultados como a transcrição de uma lei da Natureza.”

Nesse mesmo dia há exatos 4700 anos um ancestral meu pegou um forte resfriado!

“A simultaneidade significativa dos acontecimentos era o zero necessário ao cálculo e do qual provinha a seqüência dos números.”

0 4 8 15 16 23 42

. . .

A nosso ver [NÓS LACANIANOS], o sistema teórico de Fl. constituiu-se como uma defesa contra a transmissão de pensamento”

“Em O curso da vida, Fl. comparou a duração da vida do príncipe de Orange, Guilherme IV, e de sua irmã, Charlotte Amalie von Nassau Dietz, com a da vida de Bismarck e de Goethe, para constatar que, reduzidas a fórmulas escritas unicamente com os nos. 23 e 28, essas durações eram formalmente vizinhas.

Em O ano no ser vivo, comparando entre si os intervalos de nascimento de um certo n. de famílias e comparando-os com os intervalos nas datas de floração de uma planta, Fl. chegou a enunciar uma equação entre a família Fr. e a família Fl.: Freud 1 = Fliess 1 – (2Å [0,2 nanômetros?] – 23), onde Å representa o ano (365 dias), e o n. 1 indica os intervalos de nascimento entre os dois primeiros filhos de Fr. e de Fl..” “Essa fórm. evidencia o que Fl. chamava de Tipo D acrescido de 1 ano (os nos. entre parênteses), também encontrado em outras famílias e até em plantas.”

Guilherme PREMONIÇÃO Fliess

“Em Vom Leben und vom Tod (Da vida e da morte), Fliess relatou que, em 1886, morreram de tuberculose 34,19 homens em cada 10 mil, e 28,2 mulheres em cada 10 mil. A relação é igual a 28/23.” “A natureza escolhe, tanto entre os homens quanto entre as mulheres, grupos de 23 ou 28 seres, e os liga todos a um mesmo destino. Nesses grupos, todas as oscilações são equilibradas, e é por isso que cada um representa a mesma soma de substância viva.” “Um pouco mais adiante, ele observa que a mortalidade entre 1867 e 1907 oscilou entre 19 e 31,1 por cada mil habitantes. O quociente obtido é igual a 2,23/28. (…) enquanto a taxa de natalidade foi de 1872/1907 = 28/23.”

CONCLUSÃO

Não me venha “explicar” a “auto”análise de Freud (sem explicar!) relacionando-a com erros e omissões e a incompreensibilidade de Lacan! Stop at the flop – Inclusive esta conclusão poderia ter sido logo redigida à p. 2 – um dos livros mais desnecessários que já li!

“Esse ideal pseudocientífico contribuiria também para sustentar uma prática da análise selvagem na qual tendem a cair alguns analistas, o que não facilita as relações entre eles.”

APÊNDICES (mais ¼ do livro!)

Do mesmo sangue – Fl.

“Um dos meus colegas e amigos relatou ter sido atingido por dores apendiculares na mesma hora em que sua irmã começou a sentir as dores do parto. Isso ocorreu no dia do aniversário de um terceiro irmão.”

“Nos haras, é sabido que freqüentemente o potro adoece quando a égua fica no cio.” “No sul do Brasil, os bambus florescem a cada 13 anos; na costa ocidental das Índias, a floração acontece a cada 32 anos, e se dá simultaneamente num vasto território.”

Direita e esquerda – Fl. (tradução de Patricia Barouky)

O LADO DA VONTADE (O LADO ESCURO DA LUA): “Na casa de Goethe, em Weimar, há uma máscara pendurada cujo molde foi feito por Schadow, e que representa Goethe aos 60 anos, aproximadamente. Como a fotografia ainda não tinha sido inventada na época, essa máscara constitui o único documento autêntico sobre o rosto de Goethe, pois os quadros concordam tão pouco entre si que é impossível saber que aparência teria Goethe na realidade. Se estudarmos a máscara de Schadow um pouco mais de perto, observaremos uma extrema acentuação da metade esquerda do rosto. Do lado esquerdo, a fronte é mais recurvada, à esquerda a bossa da fronte é mais saliente, a arcada superciliar esquerda é mais alta, o osso malar é mais forte, a dobra nasal do lábio é muito mais pronunciada e, do mesmo modo, as outras partes do rosto são nitidamente mais desenvolvidas à esquerda do que do lado direito. Goethe, que sabia tudo, também havia reparado nisso. <A natureza golpeou-me do lado esquerdo>, disse certa vez. E quando se observa a máscara de Beethoven – não a máscara mortuária, com os traços emagrecidos, mas o conhecido molde do rosto de Beethoven vivo, que costuma ser adornado por louros –, nota-se a mesma coisa, a despeito de toda a diferença na realização e na forma. Também em Bee. a parte esquerda do rosto é maior e muito mais pronunciada do que a direita.”

Schopenhauer pisara ali antes. Você entrou com o pé esquerdo nessa celeuma!

Quem será meu mascareiro? Uma impressora-scanner, talvez…

“Para compreender a natureza desse fenômeno, é necessário termos uma nova percepção, qual seja, a de que os homens canhotos são mais propensos à feminilidade [eu diria ao fascismo], e as mulheres canhotas à masculinidade, ou seja, mais propensos no sentido de o serem mais intensamente do que se observa nos destros do mesmo sexo.”

“Normalmente, todo homem tem seios rudimentares e deles, nos meninos recém-nascidos, com freqüência até escorre leite, o chamado <leite de feiticeira>. E a penugem do bigode é igualmente própria das mulheres.” “Existe um nº excessivamente maior de falsos canhotos do que de canhotos. Basta observar de maneira suficientemente precisa para descobrir o mundo dos falsos canhotos: com qual mão o homem se barbeia, assoa o nariz, leva o copo à boca, segura o cigarro, distribui as cartas, tira a rolha das garrafas, em qual mão apóia sua cabeça e com qual delas abotoa o sobretudo.” “esse é, antes de mais nada, o artista. Portanto, o homem que tem um dom particular.”

“Compreendemos como o poeta dos Niebelungen, Wilhelm Jordan, pôde aprender, em tempo ínfimo, a escrever com a mão esquerda, e como Frederico, o Grande, depois de um ataque de gota na mão direita, pôde imediatamente escrever com a mão esquerda a carta enviada a sua irmã favorita, a baronesa de Bayreuth.”

“quando a natureza dá um excedente, ela também tem que criar uma carência, um vazio do qual o excedente tenha sido extraído. No interior de uma família com uma substância que forma uma unidade, uma entidade homogênea, da qual cada um dos que a ela pertencem constitui um fragmento, deve ser possível encontrar esse vazio.” $destrezaboemiaTALENTO

“o ser realmente sinistro”

Eu seria, teleologicamente, aquele que teria de advir.

all o’ them are 5 letter-words…

“eles não sabem que a natureza compensa essa sombra com uma abundância de luz.”

“O que foi dito dos eslavos é igualmente válido em relação aos franceses, com seu gosto refinado e suas mulheres autoritárias. Entre eles, os ferrolhos se fecham no sentido inverso e os bicos de gás fecham-se com o movimento contrário. (…) Na China, quase tudo é feito para a esquerda, e os homens usam cabelos compridos, presos em tranças.”

A idiotia do “cabelo feminino”… Ó, devem ser meus genes!!

Matar um dos irmãos gêmeos ou AMBOS? Qual destas superstições seria a mais aceitável?

“as famílias geniais nunca persistem.” Que honra que uma nulidade como a família que me gerou seja por isso chamada de GENIAL!

“Os Goethe, os Schiller, os Mozart, os Beethoven, nem mesmo os Bismarck existem – apenas, de fato, os Dupont e os Durand, em grande número. O gênio aparece na terra – segundo as palavras de Moebius – não para aumentar o número de homens: somente as obras imortais são seus filhos.”

NOTAS

“Lacan se considerava instigador do trabalho de Anzieu e o acusou de plágio por seu comentário do sonho da injeção de Irma: <Assim, será preciso que eu o publique (seu comentário do sonho de injeção, de 1955), e, se não o publiquei, foi por ter ficado absolutamente enojado com a maneira como isso foi retomado num certo livro que saiu com o título de Auto-análise: era meu texto, mas remetendo a ele de maneira a que ninguém compreendesse nada> (Lacan, …Ou pire, sessões de 14 e 21 de junho de 1972, inédito). A acusação de L. representa uma homenagem involuntária a Fl. [VAI TOMAR NO CU, PORGE!], que sabemos haver desencadeado uma acusação de plágio contra Fr.. Por outro lado, ela assinala que os lacanianos não têm como não se sentir interessados no problema da autoanálise de Fr. em sua relação com Fl..” Só assinala que vocês são um bando de mexeriqueiros.

“O termo <biologia> só foi introduzido no alvorecer do XIX, na França, num contexto científico (Xavier Bichat), e na Alemanha, onde fez parte do vocabulário romântico (G.R. Treviranus). A introdução desse termo destinava-se a dar lugar a uma ciência distinta da fisiologia, que levasse em conta a especificidade da força vital (Lebenskraft) imanente à matéria orgânica e incluísse o microcosmo e o macrocosmo no campo unitário de uma inteligibilidade universal [de micróbios a baleias, mas sobre vírus¿¿¿].” “A biologia romântica da Naturphilosophie propôs um novo modelo de saber, do qual não estava ausente o matematismo, sob a forma de números que regeriam a economia interna de um organismo total.”

Porge cita Roudinesco.

“Por trás de Ulisses, ausente, perfila-se o Pai oculto e esquivo, o Pai, talvez cruel, que deu às tentativas de cristologia féneloniana seu caráter trágico” (Fénelon, Télémaque)

IDÉIA FUTURA

PARA UMA HISTÓRIA DO PLÁGIO

De Hipócrates a Paulo Coelho, passando por Cervantes¿¿¿

DICIONÁRIO:

automaton (grego): acaso cego (pura sorte, gratuito)

das trifft sich gut (alemão) :  isso vem a calhar;

                            isso se encontra bem

maten (grego): em vão, à toa. Pode-se dizer que o automaton é a sorte com este atributo, em oposição à tique (abaixo).

tique (grego): acaso que contribui para um fim ou propósito “Aristóteles cita o exemplo de alguém que vai à ágora tratar de negócios e que, sem haver pensado nisso, depara com uma pessoa que lhe devia dinheiro.”