CAPÍTULO 15. “SEM NORTE” E “DESTRUÍDA POR DENTRO”: A CAPES RUMO AO “ESTADO ZERO” – Monique Florencio de Aguiar. In: Assédio institucional no Brasil [livro eletrônico] : avanço do autoritarismo e descon[s]trução do Estado / organização José Celso Cardoso Junior…[et al.]. — Brasília, DF : Associação dos Funcionários do Ipea : EDUEPB, 2022.PDF.
“Cada instituição governamental tem a sua história e as suas particularidades, o que nos leva a repetir a consagrada ideia do Estado como um ente não-monolítico. Contudo, é possível sentir na atual estrutura estatal brasileira a influência de um modelo governamental de escopo internacional que vem sendo alvo de críticas por parte de certos líderes políticos e intelectuais devido às destruições que gera. Refiro-me aqui ao neoliberalismo autoritário, expressão usada para designar uma forma de governar que se alastrou por diversos países, a partir dos Estados Unidos, após a crise econômica mundial de 2008.”
“O discurso neoliberal impregna as instituições, que seguem um modelo internacional adaptando-o às condições nacionais. Por isso, pretendi abordar a temática do neoliberalismo autoritário mediante a análise de sua racionalidade em uma instituição estatal, na Capes. Relativo a este ambiente, elegi o seguinte problema de pesquisa: quais os principais sustentáculos do processo de reorientação política na Capes e que marcas têm produzido em sua dinâmica?” De certa forma pergunta inócua, sem resposta ou de resposta evidente (propositalmente).
“O que restará claro ao fim deste capítulo são as diferentes faces do Estado segundo o grupo com o qual seus representantes interagem.”
“A instituição escolhida para realizar tal análise foi a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior, conhecida por sua sigla como Capes. A Capes está vinculada ao Ministério da Educação (MEC) e foi instituída em 1951 com o propósito de promover a formação de ‘pessoal especializado’ que viesse a auxiliar empreendimentos públicos ou privados voltados para o desenvolvimento nacional (Nascimento et al., 2019:97). Segundo seu Regimento Interno, a Capes tem por finalidade: ‘subsidiar o Ministério da Educação na formulação de políticas e no desenvolvimento de atividades de suporte à formação de profissionais de magistério para a educação básica e superior e para o desenvolvimento científico e tecnológico do país’ (Portaria nº 105/2017). Posteriormente à sua criação, a Capes se consolidou como o principal ator do Sistema Nacional de Pós-Graduação (SNPG), fazendo com que alterações no seu funcionamento afetem, em cadeia, os demais atores desse sistema.”
“Para produzir conhecimento sobre a realidade desta instituição, realizei entrevistas online, no mês de agosto de 2021, com 6 funcionários públicos que nela atuam. [Feliz quase-aniversário de um ano da iniciativa!] A entrevista mais sucinta durou 1 hora e 15 minutos e as mais longas chegaram a 2 horas e 15 minutos. Obtive a primeira indicação para as entrevistas por meio de um representante da Associação de Funcionários do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Afipea). Os demais entrevistados foram indicados por meu primeiro interlocutor na Capes. Todos os colaboradores desse empreendimento textual iniciaram o seu trabalho na instituição entre os anos de 2008 e 2015, [no boomers!] além disso, nenhum deles possuía cargo comissionado. A fim de manter o sigilo quanto às identidades de meus interlocutores, farei poucas caracterizações sobre eles. Três entrevistados são do sexo masculino e 3 do sexo feminino. No decorrer do texto, eles serão nomeados como: Sônia, Iara, Bartira, Joaquim, Clóvis e Frederico.”
“optei por seguir o método de análise de discurso formulado por Michel Foucault (1999, 2008, 2014).”
“a atuação de um antigo grupo gestor que, mediante ações assediadoras ou autoritárias, mantém as possíveis reações de seus servidores sob estrito controle.”
“No quarto [subtítulo], trato do suposto comportamento de algumas antigas chefias intermediárias, que seriam promotoras de assédios contra servidores, transformando-os em seres obedientes e pacatos e, assim, contribuindo para a manutenção de uma intacta hierarquia.”
“um dos autores de maior repercussão nos últimos anos é o camaronês Achille Mbembe (2016), que formulou o conceito de necropolítica para se referir às atuais formas de gestão estatal.” Necropolítica como sinônimo de neoliberalismo a longo prazo.
“Em seu texto intitulado Três Etapas para uma Antropologia Histórica do Neoliberalismo Realmente Existente, Wacquant (2012) questionou qual seria o papel do Estado nessa forma neoliberal de governar.” Cargo Wacquant.
“O neoliberalismo é crítico ao Estado e, ao mesmo tempo, tem por objetivo principal capturá-lo e transformá-lo. […] o neoliberalismo pode sempre voltar a colocar a culpa no Estado e nas formações heterogêneas. E assim, como teoria da crise, pode se oferecer novamente como remédio para os males que ele próprio desencadeia, o que lhe permite seguir errando.” Andrade 2019
“Diante do aparelhamento estatal, Wacquant (2012:510) salientou que o neoliberalismo não é exatamente um projeto econômico, mas um projeto político, envolvendo uma reengenharia ou reestruturação do Estado e não o seu desmantelamento ou retirada. Para ele, teríamos um Estado-centauro <que exibe rostos opostos nos 2 extremos da estrutura de classes: ele é edificante e ‘libertador’ no topo (…); mas é penalizador e restritivo na base>.”
“Bruff (2013) identificou o crescimento do autoritarismo neoliberal nos países europeus por meio do qual se estabelece um insulamento que protege as ações dos governantes do conflito social e político, acarretando um Estado forte com fraca legitimidade política. O autoritarismo aqui não seria meramente o exercício da força bruta, mas uma tentativa, dentro da reconfiguração do Estado, de insular certas políticas e práticas institucionais das ações de dissidentes ou opositores políticos e sociais, por vezes, fazendo uso de instrumentos legais.” A legal-literalpolítica.
“Saad-Filho considerou as variações do neoliberalismo durante o governo do Partido dos Trabalhadores (PT), nomeando como inclusivo o neoliberalismo empregado entre 2003 e 2006 e como desenvolvimentista o empregado entre 2006 e 2013.” Se o governo do PT foi neoliberal, não há nada o que fazer e esse artigo é inútil e meramente desconsolador ou até manipulador, incitando a ações inúteis que só trariam dano a seus autores (os contragolpistas).
“E se for por esses crimes, de colocar pobre na universidade, negro na universidade, pobre comer carne, pobre comprar carro, pobre viajar de avião, pobre fazer sua pequena agricultura, ser microempreendedor, ter sua casa própria. Se esse é o crime que eu cometi eu quero dizer que vou continuar sendo criminoso nesse país porque vou fazer muito mais. Vou fazer muito mais.”
Quando o Pai vai falar, calamos a boca e prestamos muita atenção. Depois damos o destaque merecido.
“Os termos desdemocratização (Brown, 2019, 2021) e pós-democracia (Crouch apud Andrade, 2010:116; Rancière apud Athanasiou, 2021:188) passaram a constar em muitas bibliografias.”
“após o 1o semestre de governo, o grupo neoconservador impôs algumas derrotas à ala militar, retomando o controle sobre o Ministério da Educação. O primeiro ministro, Ricardo Vélez Rodríguez, foi indicado pelo mentor da ala conservadora, Olavo de CaVEIRA, falecido recentemente e que residia nos Estados Unidos. Mas Ricardo Vélez permaneceu no cargo por apenas 3 meses, sendo substituído pelo economista Abraham Weintraub, conhecido por sua postura negacionista e extravagante. Weintraub esteve no cargo de abril de 19 a junho de 20, sendo sucedido por Milton Ribeiro, pastor evangélico formado em direito e em educação. Desse modo, consolidou-se a preeminência da ala evangélica no Ministério, que possui também uma pequena ala militar e outra olavista. [O INFERNO NA TERRA] (Revista Piauí, ago/2021. O Apagão: a obra do pastor que comanda o MEC. In: https://piaui.folha.uol.com.br/materia/o-apagao/)”
“como diria Bourdieu (1996), a administração pública é um campo de forças.” NÃO DIGA!
“Para escrever sobre a Capes, é necessário antes explicitar a sua estrutura. A Capes é formada por 5 grupos de ‘órgãos’, assim temos: i) órgãos de assistência direta e imediata ao Presidente; ii) órgãos colegiados; iii) órgão executivo; iv) órgãos específicos singulares;¹ e v) órgãos seccionais. Existem 3 órgãos colegiados: o Conselho Superior (CS), o Conselho Técnico-Científico da Educação Superior (CTC-ES) e o Conselho Técnico-Científico da Educação Básica (CTC-EB). O órgão executivo é formado pela Diretoria Executiva que congrega o presidente e os 7 diretores existentes.”
¹ Um estranho nome para se referir justamente às Diretorias e coordenações, i.e., a CAPES em si.
“Após o golpe jurídico-parlamentar contra a presidente Dilma Rousseff, realizado em 2016, a Capes teve como presidentes: Abílio Baeta Neves (2016–2019), Anderson Ribeiro Correia (2019–2020), Benedito Guimarães Aguiar Neto (2020–2021) e Cláudia Mansani Queda de Toledo (2021–atual). Para Sônia, minha entrevistada, após a gestão de Abílio Neves, as gestões seguintes foram ‘anti-Capes’ ou, de outro modo, ‘de Bolsonaro para cá: a destruição’.”
“BELO PORTUGUÊS”: “Anderson é formado em engenharia civil, com doutorado pela Universidade de Calgary, situada no Canadá. Em fevereiro de 20, ele se afastou da presidência para assumir o cargo de reitor do Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), no qual já havia ocupado este cargo de 2016 a 19, bem como diversos outros cargos de gestão.”
“Benedito sofreu críticas[,] ao ser empossado na Capes[,] por defender o criacionismo, ou seja, a teoria de que o universo é uma criação divina. É possível observar no currículo de Benedito tanto a influência de movimentos religiosos quanto da iniciativa privada. Por exemplo, ele foi presidente e vice-presidente da Associação Brasileira de Instituições Educacionais Evangélicas (2016–20) e membro do Conselho de Estudos Avançados da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo – FIESP (2017–20).
Posteriormente a essa inflexão com tons religiosos, assumiu a presidência da Capes Cláudia Toledo. Cláudia é doutora pela Instituição Toledo de Ensino (ITE), situada em Bauru, no interior de São Paulo.¹ Esta universidade privada foi fundada por sua família e atualmente é nomeada como Centro Universitário de Bauru.”²
¹ Eu sou doutor em Games & Animes pela Universidade Aguiar. Bom, melhor do que se autodenominar Ciranha!
² CUB – mais um pouco e seria comunista, p.ex., Centro Universitário de Bauru Autônomo (ou Ampliado) – CUBA!
“O próprio ministro Milton Ribeiro, que a empossou, fez sua graduação no Instituto Toledo, bem como o advogado-geral da União, André Mendonça.” Trágico. Pior ainda quando o AGU já virou STF!
Até a VEJA (!!!) questionou o conflito de interesses na nomeação da Toledo – que fase!
“oportuno destacar que uma das pós-graduações do Grupo Toledo de Ensino, a de Sistema Constitucional de Garantia de Direitos, pela qual Claudia (sic) Toledo se doutorou, obteve nota 2 na avaliação realizada pela Capes em 2017, o que não permitiria o seu funcionamento.” Meus parabéns pela façanha!
“Em junho de 2020, esta pós conseguiu alcançar nota 4, após recurso junto à presidência da agência.” Quem disse que 2 + 0 não pode ser 4?! Orwelliano…
“A Capes apoia a formação de profissionais principalmente por meio da concessão de bolsas de estudo (atuação que vem sofrendo restrições devido aos cortes de recursos realizados nos últimos anos) e do acompanhamento e avaliação da qualidade dos programas de pós-graduação (ação que atualmente vem sendo dificultada por questionamentos, realizados pelo Ministério Público, quanto ao processo avaliativo).”
“Os cortes de recursos, que materializam as medidas de austeridade fiscal, vêm rebaixando progressivamente o orçamento da Capes desde 2015. Segundo Nascimento et al., dentro de 5 anos (2015 a 2020) ocorreu ‘uma redução de cerca de 50% dos recursos disponíveis’.”
“De acordo com o expresso na Plataforma Sucupira, mantida pela Capes, em 2021 o país tem 2443 cursos de doutorado e 3687 de mestrado, bem como 58 doutorados profissionais e 861 mestrados profissionais.”
“Salientando a crise ou a desorganização gerada, em 14 de dezembro de 21, após a divulgação de uma Carta Aberta assinada pelos diretores da Capes em apoio à presidência, o diretor de Avaliação, Flávio Anastácio de Oliveira Camargo, mesmo tendo assinado a tal Carta, pediu exoneração do cargo.”
“É oportuno citar uma das mais contestadas indicações para cargos realizada por Claudia Toledo na Capes. Ela nomeou como Diretora de Relações Internacionais, Lívia Pelli Palumbo, estudante de doutorado do Centro Universitário de Bauru e sua orientanda.”
“Nos últimos anos, a própria busca por qualificação empreendida por servidores tem sido obstaculizada mediante medidas administrativas que impedem o afastamento das atividades funcionais ou a redução de carga horária para a realização de estudos pós-graduados.”
“Outro sustentáculo da reengenharia estatal na Capes seriam algumas chefias intermediárias, que manteriam uma rígida hierarquia por meio da qual exerceriam um poder de caráter mais perene do que o assumido pelos indicados políticos de alto escalão. Segundo relatos, essas chefias praticariam junto aos seus subordinados ‘assédios’ que os fariam incorporar uma postura de obediência e não questionamento. O assédio pode ser entendido aqui como repetidos atos de desqualificação, em período de tempo estendido, que causam prejuízos psíquicos, físicos e sociais. Sua principal característica seria o desequilíbrio de poder entre as partes, que espelha justamente a estrutura de poder formal das instituições.”
“Sônia explicou-me que, ‘organizacionalmente, a Capes tem um funcionamento por feudos’ e ‘dentro de cada feudo, a lei funciona (de forma) diferente’’”
“Em concordância com Sônia, Clóvis argumentou que para assumir um cargo comissionado é preciso obedecer a uma série de requisitos, no entanto pareciam (sic) haver ocasiões em que pessoas foram nomeadas sem cumpri-los. Consequentemente, concluiu [cacofonia] que a ‘legislação é só para a gente’ e acrescentou: ‘sempre fica o grupinho de DAS’, ‘ficam 20 anos mantendo DAS’, enquanto ‘gente qualificada é pouco aproveitada’. Independente da veracidade, este era o imaginário predominante entre os entrevistados.
Os ‘feudos’ teriam lugar nas diretorias de atividades finalísticas, segundo Sônia e Clóvis. De acordo com Sônia, ‘há muita continuidade’, pois tais chefias intermediárias estavam nos cargos durante os governos do PT (2003–16) e mantêm seu poder institucional ainda hoje.”
“Além de gritar ou humilhar mais explicitamente, as chefias podem cumprimentar todo mundo e não falar com você, dar presentinho para um e para outro não. Certas chefias teriam influência na contratação de terceirizados e, por vezes, eles provêm de uma mesma área geográfica.”
“para mudar de setor seria preciso realizar uma ‘troca’ de posições com um funcionário do local para o qual ele deseja ser removido. Como certos locais podem [acho que quis dizer ‘tendem a’] ser evitados, pelo menos em determinados períodos, a dificuldade em conseguir uma transferência seria grande.”
“Soares ressaltou a dificuldade em usar estratégias de resistência ‘quando o assédio provém do superior hierárquico ou de várias pessoas’ e seria esta incapacidade de se defender que levaria as vítimas ao desespero.”
“Com a chegada de Jair Bolsonaro à presidência, ‘o grupo não foi tão afetado’ e, por ele aparentemente ter colaborado com o governo, [ele quem?] Iara sentenciou: ‘a Capes cedeu para o governo como nunca’. Dessa forma, os integrantes do ‘poder localizado’ teriam cooperado para efetivar a reengenharia estatal almejada pelos atuais governantes.”
“os diretores não aparecem para a ralé, vivem no espaço próprio, não interagem com o servidor” Iara – mais ou menos, mais ou menos…
“fazem ‘festinha’ periodicamente para ‘criar confiança’ entre eles e seus obedientes subordinados.”
“hoje te cativo, amanhã…”
“criou-se uma cultura em que ‘nosso servidor é muito pacato’: ‘a palavra que define o servidor é obediência’, ‘você cria uma turma de súditos’.”
“muita gente já entendeu que cargo é um preço muito alto, ter cargo é penoso”
“Em nossa conversa sobre assédio, Iara citou algumas conseqüências desta prática e a elegeu como o maior problema da Capes. Como o assédio envolve ‘muita sutileza’, ‘o assediado passa de doido’, ele ‘se afasta, se individualiza’, ‘o trabalho vai perdendo a graça’ e sua produtividade é atacada. A instituição ‘vira o caos, com muita gente adoecendo’.”
“não vou nem culpar governo”, “o maior problema da gente, somos nós mesmos” Um bando de brasilienses almofadinhas e carreiristas, o que você queria que desse?
“Nesta seção, trarei narrativas sobre o espraiamento dos ideais conservadores e neoliberais na instituição por meio do caso de uma ex-diretora da Capes e por meio da percepção dos meus colaboradores sobre o perfil da categoria de servidores da agência. Ambas as lógicas, conservadora e neoliberal, unem-se na criação e na ampliação da desigualdade socioeconômica.” “Para descrever o estilo de gestão que teria vigorado por um ano e meio na diretoria tomada como exemplo da mescla de comportamentos autoritários e conservadores, baseio-me nas informações disponibilizadas por Bartira.” “Por diversas vezes, Bartira usou as palavras ‘destruição’ e ‘desmonte’ referindo-se a programas, parcerias e cooperações.” “O ataque a parcerias teria sido deliberado, reorientando a política para promover alianças afinadas ideologicamente com o governo. Para Bartira, tais medidas gerariam uma desqualificação que traria demérito à instituição, principalmente por conter imperícia e ‘uma visão deturpada do que é C&T’.” E afinal, o que é C&T? Isso já foi importante para a CAPES?
“Minha interlocutora afirmou: ‘uma relação abusiva a toda a equipe; demissão em massa, perseguição em massa’. Os funcionários terceirizados teriam sofrido mais abusos e, em geral, ‘são colocados em conflito com o servidor’. Conseqüentemente, estariam ‘esgotado(s)’, pois partiriam ‘de uma lógica de trabalho que é irracional’.”
“A relação abusiva teria consistido em gritos, ligações antes do horário de trabalho, horas extras, humilhações de viés racial, classista e de gênero, entre outras. Seriam abusos diários e estímulos a conflitos, baseados em ‘pequenas coisas’. Logo, Bartira salientou a existência de servidores ‘tomando remédios controlados’, com ‘medo de represália’ e em estado de desânimo e tristeza. Muitos ‘estão doentes e não sabem’, enquanto outros pedem licença ou afastamento.”
“Para Brown, teria sido a instrumentalização da raiva por parte daqueles que perderam a supremacia, vendo as suas rendas decrescerem, que contribuiu para configurar esta nova forma política em que há uma extensão do privado no espaço público, uma desconfiança da política e uma rejeição do social.” Muito abstrato.
QUEM DISSE QUE AS COSMOVISÕES MORRERAM? “os abusos se ancorariam em ‘grandes narrativas’ que revelam pautas conservadoras. Por exemplo, funcionários teriam sido chamados de ‘comunistas’ e Bartira recordou a seguinte fala: ‘eu sei que você é esquerdinha, só que você não vale nada’. Já Joaquim lembrou da seguinte frase: ‘com Marielle aqui não’.(*)
(*) Marielle Franco foi uma vereadora do Rio de Janeiro assassinada em março de 2018. Era filiada ao Partido Socialismo e Liberdade (PSOL), situado na esquerda do espectro político, e, sendo uma mulher negra, lésbica e proveniente de uma favela carioca, representava os interesses das minorias.”
“os novos despossuídos [os camisa verde-amarela] se levantam em uma rebelião política contra usurpadores sombrios imaginários. [fantasma do comunismo]”
Brown, ressuscitando o linguajar de Dostoievski!
“o declínio da soberania e segurança dos homens, dos brancos, do cristianismo e dos Estados-nação (sic)”
“Em agosto de 2021, o próprio ministro [presidiário] Milton Ribeiro afirmou a uma emissora de rádio: ‘nós não queremos o inclusivismo, criticam essa minha terminologia, mas é essa mesmo que eu continuo a usar’.” Personagem saído de uma novela de Graciliano.
“Como bem lembrou Clóvis, os programas voltados ao nordeste, considerada a região mais empobrecida do país, têm sido finalizados.”
“espero a destruição, guerra de todos contra todos; qualquer coisa passa pelo fim do governo Bolsonaro” Sônia
“Para Sônia, a destruição do serviço público passaria pela incorporação da razão neoliberal pelos próprios servidores da Capes.” Quanto auto-intitulado esquerdinha não é extremo-centro neste lugar!
“a dificuldade é a própria categoria, oriunda da classe média brasiliense.”
DA SÍNDROME DE CÍNTIA: “Seguindo as formulações de Sônia, uma fração de classe média que tem lugar na Capes seria parte do problema, já que tais servidores seriam ‘contra o Estado’. Na medida em que aderem ao ideário do Estado mínimo e ao mito do Estado inchado, aprovam a privatização e possuem uma perspectiva mais individualista. Evocando os 2 lados opostos nesta balança, o social e o individual, Sônia afirmou que a ‘veia de nossos problemas’ seria ‘com o social, o privado é (visto como) melhor’.”
“Segundo Sônia, os servidores que seriam contra o Estado teriam ido às ruas pelo Fora Dilma, pelo Estado mínimo e chegaram a criar ‘plena identificação com os fa[s]cistas’.”
“para minha interlocutora, o serviço público estaria ‘destruído pela indústria do concurso’.” Precisa mesmo sair entrevistando pessoas com um mínimo de bom senso para descobri-lo?
“Diante da magnitude dos problemas, a banalidade se referiria tanto à naturalização de posturas assediadoras quanto ao foco de alguns servidores em assuntos menores, como vanglória pessoal ou disponibilização de pequenos brindes em datas comemorativas.” KKKKKK. Ascapes in a nutshell.
“Logo, Iara metaforicamente colocou: <O mano tocando violino – ‘você toca à beça, mas o barco está afundando’>, com referência ao filme Titanic.” Já gostei da Iara!
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“A UFFS foi criada em 2009, unindo as reivindicações populares e o projeto de expansão da educação pública sob o governo de Luiz Inácio Lula da Silva (2003–10). Em 2005, mediante associação de entidades públicas, ONGs e movimentos sociais[,] foi criado, no local, o Movimento Pró-Universidade Federal. O projeto para a criação da universidade envolveu ‘a Federação dos Trabalhadores na Agricultura Familiar da Região Sul (Fetraf-Sul), a Via Campesina, a Central Única dos Trabalhadores (CUT), entre outros movimentos sociais’.(*)
(*) https://www.uffs.edu.br/institucional/a_uffs/a_instituicao/historia”
“Com o projeto de criação concluído, o primeiro semestre letivo iniciou-se em março de 2010 em 5 campi: 2 deles situados no Paraná, 2 no Rio Grande do Sul e 1 em Santa Catarina. O caráter popular e democrático da Universidade foi ressaltado com a reserva de aproximadamente 90% das vagas para estudantes provindos de escolas públicas.
Talvez por feitos como este em seu governo, de apoiar a criação de uma universidade concebida por movimentos sociais e que atende prioritariamente alunos provindos de escolas públicas, o ex-presidente Lula tenha sido chamado de ‘guerreiro do povo brasileiro’ durante o discurso que antecedeu a sua prisão em 2018. Tal ‘povo’ volta a ser hoje mais fortemente excluído dos processos democráticos, conduzindo-nos, como afirmou Athanasiou, a uma democracia sem o demos.
De agosto de 2019 até o presente, a UFFS está sendo gerida por um reitor-interventor. [Mais ditadura militar impossível] A eleição para escolha dos gestores foi realizada pela comunidade universitária em 29 de abril de 2019, quando os 2 nomes mais votados iniciaram suas campanhas para o 2º turno das eleições. O vencedor foi o candidato Anderson André Genro Alves Ribeiro (54,1%) e na 2a colocação ficou o candidato Antônio Inácio Andrioli (45,9%). No entanto, o candidato que alcançou a 3ª colocação, não indo para a disputa de 2º turno, foi escolhido pelo MEC e pelo presidente da República para gerir a instituição pelos 4 anos seguintes. Desse modo, em 30 de agosto de 2019, o presidente Jair Bolsonaro assinou o decreto de nomeação de Marcelo Recktenvald para a reitoria da UFFS.”
“O BRASILEIRO TEM DE SAIR ÀS RUAS!”, ELES DISSERAM E AINDA DIZEM: “Várias mobilizações foram realizadas para efetivar a posse do candidato eleito pela comunidade científica, como atos, greves, ocupações e assembleias, mas nenhuma decisão coletiva ou reivindicação surtiu efeito.” Nota de repúdio a céu aberto.
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Não entendi o passeio à questão da Universidade Federal da Fronteira Sul, para depois voltar à CAPES, sem qualquer suavidade ou sinalização nas transições, mas sigamos à conclusão.
“Segundo os interlocutores, as marcas produzidas na dinâmica institucional por parte de algumas chefias intermediárias seriam a pouca autonomia na execução dos trabalhos internos, a desigualdade na aplicação de normas, o amedrontamento como política de gestão. e uma espécie de servidão como regime de trabalho que, por fim, sustenta o funcionamento do neoliberalismo.”
“A UFFS concebida por movimentos sociais e criada em 2009, na fase do neoliberalismo classificado por Saad-Filho como desenvolvimentista, sofreu uma intervenção, por parte do governo federal, na escolha de seu reitor.” Me diz no que ajuda chamar o Lula de neoliberal desenvolvimentista, hahaha?! Bom, foi o que eu disse mais acima, não irei me repetir.
Textinho fraco. Pelo menos utilizou O Processo de Kafka na bibliografia! Só não lembro mais onde…