AS OPINIÕES E AS CRENÇAS – Gustave Le Bon, 1911.

APRESENTAÇÃO (Nelson Jahr Garcia)

Dificilmente se poderia estudar temas como: teoria do conhecimento, ideologia, religiões, superstições, comportamento das massas, propaganda, persuasão sem estudar e se apoiar em Le Bon.” “É uma obra de incrível atualidade; talvez tenham conseguido aprofundá-la, superar ainda não.” Digamos que seja uma mescla de preciosidades muito relevantes em assuntos como a gênese das crenças com as pérolas mais grotescas sobre movimentos sociais!

LIVRO I. OS PROBLEMAS DA CRENÇA E DO CONHECIMENTO

1. OS CICLOS DA CRENÇA E DO CONHECIMENTO

O domínio da crença sempre pareceu repleto de mistérios. É por isso que os livros sobre as origens da crença são tão pouco numerosos, ao passo que são inúmeros os que se referem ao conhecimento.”

Aceitando a velha opinião de Descartes, os autores repetem que a crença é racional e voluntária. Um dos objetivos desta obra será precisamente mostrar que ela não é voluntária nem racional.”

Por que se observam, simultaneamente, em certos espíritos, ao lado de elevadíssima inteligência, superstições muito ingênuas? Por que é tão fraca a razão para modificar as nossas convicções sentimentais? Sem uma teoria da crença, essas questões e muitas outras ficam insolúveis.”

Se o problema da crença tem sido tão mal-compreendido pelos psicólogos e pelos historiadores, é porque eles têm tentado interpretar com os recursos da lógica racional fenômenos que ela jamais regeu. Veremos que todos os elementos da crença obedecem a regras lógicas muito seguras, porém inteiramente alheias às que são empregadas pelo sábio nas suas investigações.”

Tribos nômades, perdidas no fundo da Arábia, adotam uma religião que um iluminado lhes ensina, e graças a ela fundam, em menos de 50 anos, um império tão vasto quanto o de Alexandre, ilustrado por uma esplêndida manifestação de maravilhosos monumentos.

Poucos séculos antes, povos semibárbaros se convertiam à fé pregada por apóstolos que vinham de obscuros lugares da Galiléia, e sob a luz regeneradora dessa crença, o velho mundo desabava, substituído por uma civilização inteiramente nova, de que cada elemento permanece impregnado da lembrança do Deus que o originou.

Cerca de vinte séculos mais tarde, a antiga fé é abalada, estrelas luminosas surgem no céu do pensamento, um grande povo se subleva, pretendendo romper os elos do passado. A sua fé destruidora, porém possante, confere-lhe, a despeito da anarquia em que essa grande Revolução o submerge, a força necessária para dominar a Europa armada e atravessar vitoriosamente todas as suas capitais.”

Compreende-se, por exemplo, sem dificuldade, que o Cristianismo se haja propagado facilmente entre os escravos e todos os deserdados, aos quais prometia uma felicidade eterna. Mas, que forças secretas podiam determinar um cavalheiro romano, um personagem consular, a despojar-se dos seus bens e afrontar vergonhosos suplícios, para adotar uma religião nova e vedada pelas leis?”

Facilmente concebemos que Newton, Pascal, Descartes, vivendo num meio social saturado de certas convicções, sem discussão aí tenham admitido, como admitiam as leis inelutáveis da natureza. Mas como, nos nossos dias, em meios sobre os quais a ciência projeta tanta luz, não se acham essas mesmas crenças inteiramente desagregadas? Por que as vemos nós, quando por acaso se desagregam, originar outras ficções, maravilhosas, como prova a propagação das doutrinas ocultas, espirituais etc., entre sábios eminentes?”

Tudo quanto é aceito por um simples ato de fé deve ser qualificado de crença. Se a exatidão da crença é verificada mais tarde pela observação e a experiência, cessa de ser uma crença e torna-se um conhecimento.”

Um mistério é a alma ignorada das coisas.”

Claramente se qualifica a civilização, dando-lhe o nome da fé que a inspirou. Civilização búdica, civilização muçulmana, civilização cristã são designações muito justas, porquanto, ao tornar-se um centro de atração, a crença se transforma num centro de deformação.

As únicas verdadeiras revoluções são as que despertam as crenças fundamentais de um povo. Têm sido sempre muito raras. Ordinariamente, só o nome da convicção se transforma; a fé muda de objeto, mas nunca morre.

Não poderia morrer, pois a necessidade de crer constitui um elemento psicológico tão irredutível quanto o prazer ou a dor. A alma humana tem aversão à dúvida e à incerteza. O homem atravessa, por vezes, fases de ceticismo, mas nelas não se detém longamente; sente a ânsia de ser guiado por um credo religioso, político ou moral que o domine e lhe evite o esforço de pensar. Os dogmas, que se dissipam, são sempre substituídos. A razão nada pode contra essas indestrutíveis necessidades.

A idade moderna contém tanta fé quanto tiveram os séculos precedentes. Nos novos templos pregam-se dogmas, tão despóticos quanto os do passado, e eles contam fiéis igualmente numerosos. Os velhos credos religiosos que outrora escravizavam a multidão são substituídos por credos socialistas ou anarquistas, tão imperiosos e tão pouco racionais como aqueles, mas não dominam menos as almas. A igreja é substituída muitas vezes pela taverna, mas aos sermões dos agitadores místicos que aí são ouvidos atribui-se a mesma fé.” O problema: o pós-moderno matou o socialismo e o anarquismo, restou apenas o liberalismo de mãos dadas com a velha e boa religião ecumênica – absorveram a parte religiosa (durkheimiana) do social, e agora essa neo-crença dá sinais de ser realmente indestrutível…

A fé num dogma qualquer é, sem dúvida, de um modo geral, apenas uma ilusão. Cumpre, contudo, não a desdenhar. Graças à sua mágica pujança, o irreal torna-se mais forte do que o real. Uma crença aceita dá a um povo uma comunhão de pensamentos de que se originam a sua unidade e a sua força.”

As opiniões representam geralmente pequenas crenças, mais ou menos transitórias.”

Crença e conhecimento não são opostos, como parece crer o autor. O conhecimento é apenas a crença sedimentada, e ainda não erodida. Resquício positivista, embora seja bem mais cético do que Comte, por exemplo. Tampouco deixam as opiniões de ser conhecimentos – recém-nascidos, é verdade, fetos ou bebês num mundo de alto morticínio.

2. OS MÉTODOS DE ESTUDO DA PSICOLOGIA

O mais antigo método psicológico, o único praticado durante muito tempo, foi o que se denomina de introspecção. Encerrado no seu gabinete de estudos e ignorando voluntariamente o mundo exterior, o pensador refletia em si mesmo e com os resultados das suas meditações fabricava grossos volumes. Hoje, já não acham leitores.” EXCELENTE DESCRIÇÃO DO ERUDITO! PORÉM, os primeiros “psicólogos” eram homens que viviam ao ar livre e não sabiam o que era o papel…

Lady Macbeth é uma alucinada, Otelo um histero-epilético, Hamlet um alcoólico perseguido por fobias, o rei Lear um maníaco melancólico, vítima de loucura intermitente. Cumpre, aliás, reconhecer que, se todos esses ilustres personagens tivessem sido individualidades normais, ao invés de possuírem uma patologia alterada e instável, a literatura e a arte não teriam tido necessidade de ocupar-se deles.”

A psicologia dos animais, mesmo superiores, está ainda no começo. Para compreendê-los, cumpre examiná-los de muito perto, e a essa tarefa ninguém se entrega.

Facilmente aprenderíamos a adivinhá-los, contudo, mediante um exame atento. Consagrei outrora muitos anos à observação dos animais. Os resultados que colhi foram expostos numa memória sobre a psicologia do cavalo, publicada na Revue Philosophique. Dali deduzi regras novas para a educação desse animal. Essas pesquisas foram-me úteis quando redigi o meu livro atinente à Psicologia da Educação.” [!] Tentador, objeto curioso, mas eu não leria tal livro…

A enumeração precedente permite pressentir que nenhum dos métodos psicológicos clássicos, nem os inquéritos, nem a psicofísica, nem as localizações, nem a própria psicopatologia podem revelar a gênese e a evolução das opiniões e das crenças.”

Veremos ilustres físicos afirmarem que desdobraram seres vivos e viveram com fantasmas materializados; um célebre professor de filosofia evocar os mortos e conversar com eles; outro, não menos eminente, declarar que viu um guerreiro, armado de capacete, sair do corpo de uma mulher, com os seus órgãos completos, como provava o estado da sua circulação e o exame dos produtos da sua respiração.” As Paralógicas em Psicologia: desafiando Aristóteles!

Os mais eminentes psicólogos modernos, principalmente William James, viram-se forçados a reconhecer ‘a fragilidade de uma ciência que poreja a crítica metafísica por todas as suas articulações Ainda esperamos o primeiro clarão que deve penetrar na obscuridade das realidades psicológicas fundamentais’.” “a psicologia clássica não contém ‘uma única lei, uma só fórmula de que possamos deduzir uma consequência, como se deduz um efeito da sua causa’.”

LIVRO II. O TERRENO PSICOLÓGICO DAS OPINIÕES E DAS CRENÇAS

1. OS GRANDES FATORES DA ATIVIDADE DOS SERES: O PRAZER E A DOR

Prazer e dor (…) são efeitos, como os sintomas patológicos são as conseqüências de uma moléstia.” Bom, Le Bon! Esse é o caminho…

A fome é a dor mais temida; o amor, o prazer mais procurado, e pode-se repetir o que disse o grande poeta Schiller, isto é, que a máquina do mundo se sustenta pela fome e pelo amor.”

2. CARACTERES DESCONTÍNUOS DO PRAZER E DA DOR

O único prazer um pouco durável é o (…) desejo.”

O tique-taque do relógio mais ruidoso acaba, no fim de algum tempo, por não ser mais ouvido, e o moleiro não será despertado pelo ruído das rodas do seu moinho, mas pela sua parada.”

A felicidade paradisíaca sonhada pelos crentes deixaria logo de possuir atrativos (…) [em relação ao] inferno.”

A dor de hoje torna-se o prazer de amanhã e inversamente.”

O prazer do operário que bebe e vocifera na taverna sensivelmente difere do prazer do artista, do sábio, do inventor, do poeta, ao comporem as suas obras. O prazer de Newton, ao descobrir as leis da gravitação, foi, sem dúvida, mais vivo do que se ele houvesse herdado as numerosas mulheres do rei Salomão.”

Do pólipo aos homens, todos os seres são movidos pelo desejo. Inspira a vontade, que não pode existir sem ele, e depende da sua intensidade.” Por que separar vontade e desejo? Como que antecipando minha objeção: “Cumpre, no entanto, não confundir vontade e desejo, como fizeram muitos filósofos, tais como Condillac e Schopenhauer. Tudo quanto é querido é, evidentemente, desejado; mas desejamos muitas coisas que, sabemos, não podíamos querer.” Falta CLAREZA!

A vontade traduz deliberação, determinação e execução, estados de consciência que não se observam no desejo. O desejo estabelece a escala dos nossos valores, variável, aliás, com o tempo e as raças. O ideal de cada povo é a fórmula do seu desejo.” Mera questão de semântica. Não entendeu a Vontade schopenhaueriana-nietzschiana.

Não existindo em si mesmo o valor das coisas, ele é apenas determinado pelo desejo e proporcionalmente à intensidade desse desejo. A variável apreciação dos objetos de arte fornece desse fato uma prova diária.”

Somente o grande reformador Buda compreendeu que o desejo é o verdadeiro dominador das coisas, o fator da atividade dos seres. Para libertar a humanidade das suas misérias e conduzi-la ao perpétuo repouso ele tentou suprimir esse grande móvel das nossas ações. A sua lei submeteu milhões de homens, mas não subjugou o desejo.” Perigo: o budismo europeu!

Buda vs Realpolitik

A esperança é filha do desejo, mas não é o desejo.” “Toda gente deseja a fortuna, muito poucos a esperam. Os sábios desejam descobrir a causa primitiva dos fenômenos; eles não têm nenhuma esperança de consegui-lo.”

O desejo aproxima-se algumas vezes da esperança, a ponto de confundir-se com ela. Na roleta, eu desejo e espero ganhar.

A esperança é uma forma de prazer em expectativa que, na sua atual fase de espera, constitui uma satisfação freqüentemente maior do que o contentamento produzido pela sua realização.”

Ela constitui uma espécie de vara mágica que transforma tudo. Os reformadores nunca fizeram mais do que substituir uma esperança por outra.”

O hábito é o grande regulador da sensibilidade; ele determina a continuidade dos nossos atos, embota o prazer e a dor e nos familiariza com as fadigas e com os mais penosos esforços. O mineiro habitua-se tão bem à sua dura existência que dela se recorda saudoso quando a idade o obriga a abandoná-la e o condena a viver ao sol.”

A dificuldade para um povo consiste, primeiramente, em criar hábitos sociais, depois em não permanecer muito tempo neles. Quando o jugo dos hábitos pesou muito tempo num povo, ele só se liberta desse jugo por meio de revoluções violentas. O repouso na adaptação, em que o hábito consiste, não se deve prolongar.” Por que não?

Povos envelhecidos, [Europa] civilizações adiantadas, indivíduos idosos tendem a sofrer demasiado o jugo do costume, isto é, do hábito.”

A existência de um indivíduo ou de um povo ficaria instantaneamente paralisada se, por um poder sobrenatural, ele se visse subtraído à influência do hábito. É ele que diariamente nos dita o que devemos dizer, fazer e pensar.”

Não é o pensamento, mas a sensibilidade, que nos revela o nosso ‘eu’. Se dissesse: ‘Sinto, logo existo’ ao invés de: ‘Penso, logo existo’, Descartes estaria muito perto da verdade.”

Fornecem uma resposta segura à eterna pergunta tão repetida desde o Eclesiastes: por que tanto trabalho e tantos esforços, já que a morte nos espera e o nosso planeta se resfriará um dia?

Por quê? Porque o presente ignora o futuro e no presente a Natureza nos condena a procurar o prazer e evitar a dor.” Último homem (primeiro homem).

O operário, curvado sob o peso do trabalho, a irmã de caridade, a quem não repugna nenhuma chaga, o missionário torturado pelos selvagens, o sábio que procura a solução de um problema, o obscuro micróbio que se agita no fundo de uma gota d’água, todos obedecem aos mesmos estimulantes de atividade: o atrativo do prazer, o receio da dor.” Uma meia-verdade

Não poderíamos mesmo imaginar móveis diferentes desses. Só os nomes podem variar.” Sim, e o mais correto seria vontade de no lugar de prazer.

2. AS VARIAÇÕES DA SENSIBILIDADE COMO ELEMENTOS DA VIDA INDIVIDUAL E SOCIAL

Para que a sensação aumente em progressão aritmética, cumpre que a excitação cresça em proporção geométrica. Segundo Fechner, a sensação cresce segundo o logaritmo da excitação. Assim, para dobrar a sensação produzida por uma excitação, a de um instrumento de música, por exemplo, seria necessário decuplar o número dos instrumentos; para triplicá-la, dever-se-ia centuplicar esse número.”

A placa fotográfica pode, com uma ‘pose’ suficiente, reproduzir estrelas sempre invisíveis à vista desarmada, precisamente porque a retina não possui a propriedade de acumular as pequenas impressões.”

É vantajoso que assim seja. Se o organismo se achasse constituído de modo a acumular as pequenas dores, a vida tornar-se-ia logo insuportável.” Sobre um acidente de trem com 300 vítimas chocar muito mais que uma doença, por exemplo, que leve essas mesmas 300 pessoas no decorrer de um ano ou, para deixar o exemplo simétrico, 300 pessoas que morrem em acidentes individuais de trem no mesmo período alongado. Torna-se evidente que isso se aplica à pandemia: 400 mortos diários na Itália chocaram os brasileiros; 2 mil mortes diárias em solo nacional, pela centésima vez, 1 ano depois, já não têm o poder de chocar.

Certos fatores das opiniões podem igualmente limitar as oscilações da sensibilidade. Tal é o contágio mental, criador de maneiras susceptíveis de estabilizar um pouco a nossa mobilidade. As sensibilidades coletivas, momentaneamente fixas, traduzem-se, então, em obras diversas, que são o espelho de uma época.”

Comparai, por exemplo, os pesados desenhos de Daumier com esses sóbrios esboços modernos, em que só se guardou o traço saliente dos personagens, deixando à vista o cuidado de completá-los. Do mesmo modo, em literatura, as longas descrições de paisagens são hoje substituídas por algumas linhas breves, porém evocadoras.

Apurando-se, a sensibilidade se embota também. A música simples de Lulli, que encantava nossos pais, nos enfastia. As operações de há 50 anos nos parecem, na maioria, muito envelhecidas. A harmonia tem cada vez mais dominado a melodia, e agora é necessário, para excitar sensibilidades fatigadas, o emprego de certas dissonâncias que os antigos compositores teriam considerado como erros.

Só as obras de uma época, sobretudo, artísticas e literárias, permitem conhecer a sensibilidade dessa época e as suas variações.

É precisamente porque elas são a verdadeira expressão da sensibilidade de uma época que as obras de arte são facilmente datadas. Pela mesma razão, são muito mais instrutivas do que metódicos livros de história. O historiador julga o passado com a sua sensibilidade moderna. A sua interpretação, forçosamente falsa, pouco nos ensina. O menor conto, romance, quadro, monumento da época considerada, encerra um ensinamento mais exato e interessante.”

As sensibilidades não se transportam no espaço nem no tempo. Uma obra arquitetônica formada de uma mescla de elementos de épocas afastadas ou procedentes de raças diversas nos causará, necessariamente, má impressão, porque se origina de sensibilidades dissemelhantes da nossa.

Se, em virtude da evolução da nossa espécie, a nossa sensibilidade se transformasse, todas as obras do passado, as que são mais admiradas hoje: o Partenon, as catedrais góticas, os grandes poemas, as pinturas célebres, seriam consideradas como produções indignas de atrair a atenção.”

Bastaria que a educação persistisse na sua tendência atual especialista e técnica, e continuasse a rápida ascensão ao poder das multidões. Todas as formas da arte representam para elas apenas um luxo desprezível. A Comuna, expressão bastante fiel da alma popular, não hesitou em incendiar os mais belos monumentos de Paris, como a Municipalidade e as Tuileries. Unicamente por acaso o Louvre, com as suas coleções, escapou a esse vandalismo.”

Sem esses elementos de informação, fornecidos pela literatura e pela arte, a sensibilidade de uma época permaneceria tão ignorada quanto a dos habitantes de Júpiter.”

Uma nação sem ideal desaparece rapidamente da história.”

3. AS ESFERAS DAS ATIVIDADES VITAIS E PSICOLÓGICAS: A VIDA CONSCIENTE E A VIDA INCONSCIENTE

É errôneo deixar de lado o exame dos fenômenos vitais como fazem os psicólogos, que o abandonam aos fisiologistas.”

Os sentimentos só entram na consciência após uma elaboração automática praticada nessa obscuríssima zona do inconsciente, qualificada hoje de subconsciente e cuja exploração apenas se acha iniciada.”

MAIS PARA JUNG QUE PARA FREUD: “O inconsciente é em grande parte um resíduo ancestral. A sua força é devida à circunstância de ser o inconsciente a herança de uma longa série de gerações, a que cada uma juntou alguma coisa.

O seu papel, outrora ignorado, tornou-se tão preponderante hoje que certos filósofos, principalmente W. James e Bergson, nele procuraram a explicação da maior parte dos fenômenos psicológicos.”

A prática de um ofício ou de uma arte facilmente se exerce, desde que os dirija o inconsciente, educado de um modo satisfatório. Uma moral sólida é o inconsciente bem-educado.”

Acima do inconsciente orgânico vemos o inconsciente afetivo. É de formação mais recente, é um pouco menos estável, conquanto ainda o seja muito. Por isso, quando podemos mudar o assunto no qual se exercem os nossos sentimentos, a nossa ação nele influi de maneira muito fraca. No alto dessa escala acha-se o inconsciente intelectual, que muito tarde surgiu na história do mundo e não possui profundas raízes ancestrais. Ao passo que o inconsciente orgânico e o afetivo acabaram por criar instintos transmitidos pela hereditariedade, o inconsciente intelectual só se manifesta ainda sob a forma de predisposições e de tendências, e a educação deve completá-lo em cada geração.”

ANTI-JUSSARA PR*DO: “A educação influi grandemente no inconsciente intelectual, precisamente porque ele é menos fixo do que as outras formas do inconsciente. Ela exerce, ao contrário, uma influência diminuta nos sentimentos, que são os elementos fundamentais do nosso caráter, fixos desde muito tempo. O inconsciente afetivo é, freqüentemente, um dominador imperioso, indiferente às decisões da razão. É por isso que tantos homens, muito sensatos nos seus escritos e nos seus discursos, tornam-se, na sua maneira de proceder, simples autômatos, dizendo o que não queriam dizer e fazendo o que não queriam fazer.”

A educação, já disse em outro livro, é a arte de fazer passar o consciente para o inconsciente.”

A biologia moderna baniu, há muito tempo, e com razão, a finalidade do universo; os fatos ocorrem, no entanto, como se ela dominasse o seu encadeamento. Todas as nossas explicações racionais deixam a natureza repleta de manifestações impenetráveis. A julgar pelos seus resultados, poderia parecer que o inconsciente — forma moderna da finalidade — abriga gênios sutis, desejosos de cegar-nos, fazendo-nos sacrificar, incessantemente, os nossos interesses em favor da espécie. Os gênios da finalidade inconsciente são, sem dúvida, simples necessidades selecionadas que o tempo fixou.

Qualquer que seja a razão, o inconsciente muitas vezes nos domina e sempre nos cega. Não o lamentemos demasiado, porquanto uma clara visão da sorte futura tornaria a existência muito triste. O boi não comeria tranqüilamente a erva do caminho que o conduz ao matadouro, e os entes, na sua maioria, estremeceriam de horror perante o seu destino.”

4. O EU AFETIVO E O EU INTELECTUAL

PREFIGURAÇÕES DO FASCISMO: “Legiões de políticos quiseram assentar em raciocínios o que só se pode basear em sentimentos.”

Ilustres filósofos foram vítimas da mesma confusão entre a lógica afetiva e a lógica racional. Kant pretendia edificar a moral sobre a razão. Ora, entre as duas diversas origens, a razão quase nunca figura.”

qualquer ciência seria impossível se não tivéssemos aprendido a criar uma parte descontínua no contínuo.”

O eu afetivo, evolvendo a despeito da nossa vontade e muitas vezes contra nós, torna a vida cheia de contradições.” “Assim, não temos razão quando censuramos alguém por ter mudado. Essa censura subentende a idéia muito falsa de que a inteligência pode modificar um sentimento. Erro completo. Quando o amor, por exemplo, se torna indiferença ou antipatia, a inteligência assiste a essa mudança, mas não é ela que a causa. As razões que são imaginadas para explicar tais transformações não têm relação alguma com os seus verdadeiros motivos. Nós os ignoramos.”

Freqüentemente imagina-se sentir por uma pessoa uma dedicação profunda e sólida (amor, amizade); a ausência ou a necessidade de uma ruptura demonstra a real fragilidade dessa dedicação.” Ribot

É, pois, impossível, como justamente observa o mesmo autor, julgar com o eu intelectual a maneira de agir do eu afetivo.” “Todo o nosso sistema de educação latina é uma prova dessa asserção. A persuasão de que o desenvolvimento da inteligência pela instrução desenvolve também os sentimentos, cuja associação constitui o caráter, é um dos mais perigosos preconceitos da nossa Universidade. Os educadores ingleses sabem há muito tempo que a educação do caráter não se faz por meio dos livros.

Sendo distintos o eu afetivo e o eu intelectual, não pode surpreender que uma inteligência muito elevada coexista com um caráter muito baixo.” “[Como muito bem o demonstra] o ilustre chanceler Bacon. Nenhum homem do seu tempo possuiu uma inteligência mais elevada, mas muito poucos revelaram uma alma tão baixa. Começou, na esperança de obter um emprego da rainha Isabel, por trair o seu único benfeitor, o conde d’Essex, que foi decapitado. Teve de esperar, contudo, o reino de Thiago I [James? Que tradução escrota!], para conseguir, recomendado pelo duque de Buckingham, que ele igualmente logo traiu, o lugar de solicitor geral, depois o de chanceler. Revelou-se nesse ponto cortesão humilde e ladrão impudente. As suas concussões [corrupções ao Erário] foram de tal ordem que se tornou preciso processá-lo. Em vão tentou enternecer os seus juízes por uma humílima confissão escrita, na qual confessava as suas faltas e ‘renunciava a defender-se’. Foi condenado à perda de todos os postos que ocupava e à prisão perpétua.” O que Le Bon omite é que a sentença foi revogada depois de poucos dias, e a multa a que também havia sido condenado foi paga pelo rei! “Subsequently, the disgraced viscount devoted himself to study and writing.” Parece que foi para o nosso bem. Pelo verbete do Wikipédia, não está claro que ele tivesse uma personalidade tão sórdida!

Mas, voltando: premissa irretocável. Conclusão interessante, porém é a partir dela que eu e Le Bon discordamos. Não se trata de uma inteligência muito elevada, quando é esse o caso – apenas na aparência vulgar (ou que o sujeito seja um traste, isso é um engano, se for inteligente)! Popularmente se diz que a sabedoria é individualmente rara, e que o bom caráter é-o mais ainda, ou o contrário: o bom caráter raro, a sabedoria raríssima. Porém, quem avalia a ambos está distante das condições requeridas para fazer uma avaliação correta: ambos são raros em igual medida – assim que se depara com a verdadeira sabedoria, esbarra-se também com o verdadeiro e genuíno caráter elevado. Tão raro como se apresenta, ainda há aqueles que não são reconhecidos como tais em seu próprio tempo por ninguém. Homens sábios e bons (homens sábios; homens bons – é indiferente aqui a escolha do qualificativo) que passam incógnitos pelo mundo. Pode haver a “canonização” póstuma se este homem lega obras ou tem sorte o bastante.

Mme. de Stael observava que entre os alemães o sentimento e a inteligência ‘não têm aparentemente relação alguma; uma não pode admitir limites, o outro se submete a todos os jugos’.” Cada vez mais vejo citações de De Stael. Nação de filisteus: nenhum era realmente sábio, e os estouvados foram engolfados no – quando não autores do – fascismo. É paradoxal e contra-intuitivo, mas deve ser aceita a possibilidade de uma nação burra onde floresce a filosofia. Ademais, via de regra, todo povo é burro; a sabedoria e o bom caráter devem ser procurados sempre nos indivíduos singulares.

a inteligência, variando consideravelmente de um assunto para outro e, não sendo contagiosa como os sentimentos, nunca pode revestir uma forma coletiva. Os indivíduos de uma mesma raça possuem, ao contrário, certos sentimentos comuns, que facilmente se fundem quando se acham agrupados.” A busca pelos privilegiados cosmopolitas…

O eu afetivo constitui o elemento fundamental da personalidade. Mui lentamente elaborado por aquisições ancestrais, ele evolve nos indivíduos e nos povos muito menos depressa que a inteligência.”

Um sentimento primeiramente refreado torna-se preponderante numa época e domina de maneira mais ou menos durável os outros estados afetivos. O homem em sociedade vê-se certamente forçado a submeter os seus sentimentos às sucessivas necessidades que lhe são impostas pelas circunstâncias e, sobretudo, pelo ambiente social.”

A emoção é um sentimento espontâneo, mais ou menos efêmero. Nasce de um fenômeno súbito: acidente, anúncio de uma catástrofe, ameaça, injúria, etc. A cólera, o medo, o terror são emoções.

O sentimento representa um estado afetivo durável, como a bondade, a benevolência, etc.

A paixão é constituída por sentimentos que adquirem grande intensidade e podem momentaneamente anular outros: ódio, amor, etc.”

A transformação em sentimento ou em pensamento de um processo químico-orgânico é agora completamente inexplicável.

Os sentimentos e as emoções variam conforme o estado fisiológico da pessoa ou segundo a influência de diversos excitantes: café, álcool, etc.

O sentimento mais simples é sempre muito complexo; desde, porém, que se torna irredutível a outro pela análise, devemos, para facilidade da linguagem, tratá-lo como se fosse simples. Também o químico denomina corpos simples aqueles que ele não sabe decompor.

Os psicólogos referem-se, por vezes, a sentimentos intelectuais. ‘Esse termo’, diz Ribot, ‘designa estados afetivos agradáveis ou mistos, que acompanham o exercício das operações da inteligência’.

Eu não poderia admitir essa teoria, que confunde uma causa com o seu efeito. Um sentimento pode ser produzido por influências tão diversas quanto a ação de um alimento agradável ou a de uma descoberta científica, mas resta sempre um sentimento. Quando muito poder-se-ia dizer que as nossas idéias têm um equivalente emocional.”

Os psicólogos não conseguiram ainda definir nem classificar as paixões. Spinoza admitia três: o desejo, a alegria e a tristeza, das quais deduzia todas as outras. Descartes admitia seis primitivas: a admiração, o amor, o ódio, o desejo, a alegria e a tristeza. São, evidentemente, meras formas de linguagem que nada podem explicar e que não resistem à discussão.”

As paixões que duravam muito tempo são paixões que se reavivam, como, por exemplo, os ódios políticos.”

A inteligência só influi numa paixão quando a representação mental de um sentimento é oposta a outro. A luta existe, então, não entre representações intelectuais e representações afetivas, mas unicamente entre representações afetivas postas em presença pela inteligência.”

A memória dos sentimentos [memória afetiva] existe como a da inteligência, mas num grau muito menor. O tempo muito depressa a enfraquece.” Perfumes e canções como máquinas do tempo voláteis.

Na época em que os livros eram raros e custosos, por exemplo, no século XIII, os estudantes sabiam reter os cursos que lhes eram ditados. Atkinson assegura ‘que se os clássicos chineses viessem a ser hoje destruídos, mais de 1 milhão de chineses poderiam reconstituí-los de memória’.”

Um ódio que não se entretém não subsiste. O ódio dos alemães contra os franceses teria desaparecido desde muito tempo se os jornais germânicos não o atiçassem incessantemente.” Ódio intelectual a pobre, eis tudo que a elite brasileira lega uma geração após a outra… Retórica do intelectualismo mais bárbaro, entretanto.

A aversão que os holandeses votam aos ingleses, que outrora lhes tomaram as colônias, persiste somente porque fatos numerosos, principalmente a guerra contra os colonos holandeses do Transvaál, vêm reavivá-la, e porque a Holanda se julga sempre ameaçada.

A aliança russa e o acordo franco-inglês mostram com que rapidez povos, outrora inimigos, esquecem os ódios que não são alimentados. Quando a Inglaterra se tornou a nossa amiga, nós não nos achávamos longe da terrível humilhação de Fashoda [1898, símbolo do fim da era colonialista].”

Nas associações por semelhança, a impressão atual reaviva as impressões anteriores análogas. Nas associações por contigüidade, a impressão nova faz reviver outras, ressentidas ao mesmo tempo, mas sem analogia entre elas.”

5. OS ELEMENTOS DA PERSONALIDADE: COMBINAÇÕES DE SENTIMENTOS QUE FORMAM O CARÁTER

O caráter é constituído por um agregado de elementos afetivos aos quais se sobrepõem, mesclando-se muito pouco a eles, alguns elementos intelectuais. São sempre os primeiros que dão ao indivíduo a sua verdadeira personalidade.

Sendo numerosos os elementos afetivos, a sua associação formará os elementos variados: ativos, contemplativos apáticos, sensitivos, etc.

COMO UM GATO LÍQUIDO NUM RECIPIENTE: “Aos agregados sólidos correspondem às individualidades fortes, que se mantêm não obstante as variações de meio e de circunstâncias. Aos agregados mal-cimentados correspondem às mentalidades moles, incertas e mutáveis. Elas se modificariam a cada instante sob as influências mais insignificantes se certas necessidades da vida quotidiana não as orientassem, como as margens de um rio canalizam seu curso.

Por mais estável que seja o caráter, permanece sempre ligado, no entanto, ao estado dos nossos órgãos. Uma nevralgia, um reumatismo, uma perturbação intestinal, transformam o júbilo em melancolia, a bondade em maldade, a vontade em indolência. Napoleão, doente em Warteloo, já não era Napoleão. César, dispéptico, não teria, sem dúvida, transposto o Rubicon.”

Depois de uma conversão, o amor profano se tornará amor divino. O clerical fanático e perseguidor acabará, por vezes, como livre-pensador, igualmente fanático e não menos perseguidor.”

A TSUNAMI CHINESA VEM AÍ: “Admito facilmente, com Faguet, que a Europa, ao tornar-se pacifista, será conquistada ‘pelo último povo que permaneceu militar e ficou relativamente feudal’. Esse povo reduzirá os outros à escravidão e fará trabalhar em seu proveito pacifistas muito inteligentes, mas destituídos da energia que a vontade proporciona.” Interessante também notar como os europeus, nem mesmo na segunda década do século XX, enxergavam os Estados Unidos, tão auto-suficientes se crêem.

Cada povo possui caracteres coletivos, comuns à maioria dos seus membros, o que faz das diversas nações verdadeiras espécies psicológicas.”

Consideremos os ingleses, por exemplo. Os elementos que orientam a sua história podem ser resumidos em poucas linhas: culto do esforço persistente, que impede de recuar diante do obstáculo e de considerar uma desgraça como irremediável; respeito religioso dos costumes e de tudo o que é validado pelo tempo; necessidade de ação e desdém das vãs especulações do pensamento; desprezo da fraqueza, muito intensa compreensão do dever, vigilância de si mesmo julgada como qualidade essencial e entretida cuidadosamente por especial educação.

Certos defeitos de caráter, insuportáveis nos indivíduos, tornam-se virtudes quando são coletivos; por exemplo, o orgulho.” “A inquebrantável coragem dos japoneses, na sua última guerra, provinha de um orgulho idêntico.” Quebrar o orgulho em nível subatômico…

Desde que uma nação se convence da sua superioridade, ela leva ao máximo os esforços necessários para mantê-la. [ou conquistá-la, quando ela se convence de que é superior mas não o é; no entanto, seu esforço apenas acelerará sua própria decadência]”

COMMUNISM IS THE END, WINTER IT WILL SEND: “O amor da família, depois da tribo, da cidade e, enfim, da pátria são adaptações de um sentimento idêntico a agrupamentos diferentes, e não a criação de sentimentos novos. O internacionalismo e o pacifismo representam as últimas extensões desse mesmo sentimento.”

Há apenas um século, o patriotismo alemão era desconhecido, a Alemanha se achava dividida em províncias rivais. Se o pangermanismo atual constitui uma virtude, essa virtude é unicamente a extensão de sentimentos antigos a categorias novas de indivíduos.”

Para adquirir, por exemplo, um pouco — muito pouco — essa forma de altruísmo, qualificada de tolerância, foi preciso, disse justamente o Sr. Lavisse, ‘que morressem mártires por milhares em suplícios e o sangue corresse em ondas nos campos de batalha’.

É um grande perigo para um povo querer criar, por meio da razão, sentimentos contrários aos que a natureza lhe fixou na alma. Semelhante erro pesa sobre o povo desde a Revolução. Ele provocou o desenvolvimento do socialismo, que pretende mudar o curso natural das coisas e refazer a alma das nações.” O mundo pede a criação de um SOCIALISMO IRRACIONAL.

São poderosas essas influências econômicas. A difusão da propriedade, por exemplo, tem como conseqüência a diminuição da natalidade, pois surge o egoísmo familiar do proprietário, pouco desejoso de ver divididos os seus bens. Se todos os cidadãos de um país se tornassem proprietários, a população diminuiria provavelmente em enormes proporções.”

se, atualmente, o futuro se apresenta muito sombrio, é porque os sentimentos das classes populares tendem a sofrer uma nova orientação. Sob o impulso das ilusões socialistas, cada qual, do operário ao professor, se tornou descontente da sua sorte e persuadido de que merece outro destino. Todo o trabalhador julga-se explorado [correção: é explorado] pelas classes dirigentes e ambiciona apoderar-se das suas riquezas por meio de um golpe de força. No domínio do afetivo, as ilusões têm uma força que as torna muito perigosa, porque a razão não as influencia.” Sociologia de época. Não podia ir além dessa compreensão escrevendo nos 1910s… Ou podia, mas ainda era possível ser bem-intencionado e “liberal” ao mesmo tempo, ainda que a História estivesse galgando o caminho da desolação a passos de guepardo…

6. A DESAGREGAÇÃO DO CARÁTER E AS OSCILAÇÕES DA PERSONALIDADE

TUDO QUE É SÓLIDO DESMANCHA NO AR: “A noção de equilíbrio entre o meio em que vivemos e os elementos que nos compõem é capital. Sem que seja absolutamente especial à psicologia, ela domina a química, a física e a biologia. Um ente qualquer, matéria bruta ou matéria viva, resulta de certo estado de equilíbrio entre ele e o seu meio. O primeiro não poderia mudar sem que logo se transformasse o segundo. Uma barra de aço rígida pode, sob a influência de uma modificação conveniente de meio, tornar-se um leve vapor.”

A diminuição de sensibilidade dos caracteres, no tocante à influência de certas ações exteriores por diversos processos, tem o nome, como se sabe, de imunização. O futuro estudo da patologia dos caracteres compreenderá também o da sua imunização.”

Vamos ver o que Le Bon oferece como contraponto (ou em concordância com a?) falida teoria da degenerescência. Provavelmente, ele apenas a ignora em toda a sua obra.

O verdadeiro homem de Estado possui a arte, ainda misteriosa, de saber modificar, se for necessário, o equilíbrio dos elementos do caráter nacional, fazendo predominar os elementos úteis nas necessidades do momento.”

É inútil objetar que a personalidade dos seres parece, em geral, bastante estável. Se ela nunca varia, com efeito, é porque o meio social permanece mais ou menos constante. Se subitamente esse meio se modifica, como em tempo de revolução, a personalidade de um mesmo indivíduo se poderá transformar inteiramente. Foi assim que se viram, durante o Terror, bons burgueses reputados pela sua brandura tornarem-se fanáticos sanguinários. Passada a tormenta e, por conseguinte, representando o antigo meio e o seu império, eles readquiriram sua personalidade pacífica. Desenvolvi, há muito tempo, essa teoria e mostrei que a vida dos personagens da Revolução era incompreensível sem ela.” O que limita muito o poder de análise da teoria é que vivemos numa longa revolução (de coisa de 2 ou 3 séculos), então não existe nenhum contraste com um “mundo exterior estável” em que apoiemos e testemos a validação de nossas conclusões.

Excitações emocionais violentas, certos estados patológicos observáveis nos médiuns, nos extáticos, nos indivíduos hipnotizados, etc., fazem variar essas combinações e, por conseguinte, determinam, pelo menos momentaneamente, no mesmo ente, uma personalidade diversa, inferior ou superior à superioridade ordinária. Todos possuímos possibilidades de ação que ultrapassam a nossa capacidade habitual e que certas circunstâncias virão despertar.”

PUBLIC ENEMY N. 1: “Aquele que se quer diferenciar do seu grupo tem-no inteiramente por inimigo.”

OS COROAS DO GUARÁ, AUTÔMATOS: “Se os homens não tivessem por guia as opiniões e a maneira de proceder daqueles que os cercam, onde achariam a direção mental necessária à maior parte? Graças ao grupo que os enquadra, eles possuem um modo de agir e de reagir quase constante. Graças ainda a ele, naturezas um pouco amorfas são orientadas e sustentadas na vida.”

Assim canalizados, os membros de um grupo social qualquer possuem, com uma personalidade momentânea ou durável, porém bem-definida, uma força de ação que jamais sonharia qualquer dos indivíduos que a compõem. As grandes matanças da Revolução não foram atos individuais. Os seus autores atuavam em grupos: girondinos, dantonistas, hebertistas, robespierristas, termidorianos, etc. Esses grupos, muito mais do que indivíduos, então se combatiam. Deviam, portanto, empregar nas suas lutas a ferocidade furiosa e o fanatismo estreito, característicos das manifestações coletivas violentas.”

Sendo variável o nosso eu, que é dependente das circunstâncias, um homem jamais deve supor que conhece outro. Pode somente afirmar que, não variando as circunstâncias, o procedimento do indivíduo observado não mudará. O chefe de escritório que já redige há 20 anos honestos relatórios, continuará sem dúvida a redigi-los com a mesma honestidade, mas cumpre não o afirmar em demasia. Se surgirem novas circunstâncias, se uma paixão forte lhe invadir a mente, se um perigo lhe ameaçar o lar, o insignificante burocrata poderá tornar-se um celerado ou um herói.

As grandes oscilações da personalidade observam-se quase exclusivamente na esfera dos sentimentos. Na da inteligência, elas são muito fracas. Um imbecil permanecerá sempre imbecil.

As possíveis variações da personalidade, que impedem de conhecer a fundo os nossos semelhantes, também obstam a que cada qual conheça a si próprio. O adágio Nosce te ipsum dos antigos filósofos constitui um conselho irrealizável. O eu exteriorizado representa habitualmente uma personalidade de empréstimo”

Cada qual só se conhece um pouco depois de ter observado a sua maneira de agir em circunstâncias determinadas. Pretender adivinhar como procederemos numa situação dada é muito quimérico. O marechal Ney, quando jurou a Luís XVIII que lhe traria Napoleão numa gaiola de ferro, estava de muito boa fé, mas não se conhecia; um simples olhar do Imperador bastou para mudar a sua resolução; o infortunado marechal pagou com a vida a ignorância da sua própria personalidade. Se estivesse mais familiarizado com as leis da psicologia, Luís XVIII lhe teria provavelmente perdoado.”

Quanto mais se aprofunda o assunto, tanto mais firmemente se reconhece que a educação e as instituições políticas desempenham um papel bastante fraco no destino dos indivíduos e dos povos. Essa doutrina, contrária, aliás, às nossas crenças democráticas, parece, por vezes, contrariada também pelos fatos observados em certos povos modernos, e é isso que sempre a impedirá de ser facilmente admitida.

Na introdução que escreveu para a tradução japonesa das minhas obras, um dos mais eminentes estadistas do Extremo-Oriente, o barão Motono, embaixador em São Petersburgo, me objeta com várias mudanças realizadas na mentalidade japonesa, sob a influência das idéias européias. Não creio, entretanto, que isso prove uma modificação real dessa mentalidade. As idéias européias simplesmente entram na armadura ancestral da alma japonesa, sem modificar as suas partes essenciais. A substituição do canhão pela funda mudaria completamente o destino de um povo, sem transformar por isso os seus caracteres nacionais.”

LIVRO III. AS DIVERSAS FORMAS DE LÓGICA QUE REGEM AS OPINIÕES E AS CRENÇAS

1. CLASSIFICAÇÃO DAS DIVERSAS FORMAS DE LÓGICA

A lógica tem sido considerada até aqui como a arte de raciocinar e demonstrar. Mas viver é agir e, na maior parte das vezes, não é a demonstração que faz agir.” “Constituindo a ação, no nosso modo de ver, o único critério de uma lógica, consideraremos como diversas as lógicas que conduzem a resultados dessemelhantes.”

Há ações virtuosas ou criminosas, hábeis ou inábeis, não as há ilógicas. Elas procedem, simplesmente, de lógicas distintas e nenhuma pode exclusivamente servir no julgamento das outras.”

Pode-se, julgamos, estabelecer cinco formas de lógica: 1º. lógica biológica; 2º. lógica afetiva; 3º. lógica coletiva; 4º. lógica mística; 5º. lógica racional.”

a lógica biológica (…) não traz nenhum traço de influência das nossas influências, mas produz adaptações, dirigidas em determinado sentido, por forças que não conhecemos. Essas forças parecem agir como se possuíssem uma razão superior à nossa e nada têm de mecânicas, porquanto a sua ação varia a cada instante, conforme o objetivo a satisfazer.

A adjunção às outras formas de lógica da lógica biológica, que domina grandemente a maioria das outras, preencherá uma lacuna dissimulada pelas velhas teorias metafísicas.”

as associações intelectuais podem ser conscientes, ao passo que as dos estados afetivos permanecem inconscientes.”

Mostramos, há já muitos anos, que o homem em multidão procede diferentemente do homem isolado. Ele é, pois, guiado por uma lógica especial [a terceira]”

Para as mentalidades místicas o encadeamento das coisas não oferece nenhuma regularidade, mas depende de seres ou de forças superiores, cujas vontades nos são simplesmente impostas.” A lógica que Freud converteu no seu horrendo conceito de compulsão à repetição, patologizando a nomenclatura inutilmente, doravante.

LÓGICA RACIONAL: “Desde Aristóteles, inumeráveis livros lhe têm sido consagrados.”

A lógica afetiva levava um general, invejoso dos seus rivais, a declarar-lhes a guerra. A lógica mística fazia [com] que ele consultasse os oráculos relativamente à data útil das operações a empreender. A lógica racional guiava a sua tática. Durante todos esses atos, a lógica biológica o fazia viver.” Kira do Death Note é um general que sofre de uma hipertrofia da lógica racional. Frio e calculista (risos). Diria o PSDB que faltou a Kira fazer a sua autocrítica…

A existência das diversas formas de lógica só é demonstrada pelos seus resultados. Elas representam postulados que só se verificam pelas conseqüências decorrentes. As ciências mais exatas, a física, por exemplo, são igualmente obrigadas a colocar na sua base puras hipóteses, transformadas em verdades prováveis quando se demonstra a sua necessidade.” O gato de Schrödinger é um “reconhecimento tácito” de que outras lógicas operam, também nesse nível…

Todas as explicações da luz, do calor, da eletricidade, isto é, a física quase integral, repousam na hipótese do éter. A essa substância totalmente desconhecida foi preciso atribuir propriedades incompreensíveis e mesmo inconciliáveis, como, por exemplo, uma rigidez superior à do aço, conquanto os corpos materiais nela se movam sem dificuldade. Um fenômeno novo obriga os físicos a darem ao éter propriedades novas contrárias às que já estão admitidas. Assim, depois de lhe haver atribuído uma densidade infinitamente mais fraca que a dos gases, agora se lhe concebe uma que é milhões de vezes superior à dos mais pesados metais.” Excelente insight. E Le Bon parece não ter sobrevivido até a refutação final do éter e a fragmentação da física.

O físico não afirma que o éter existe. Diz simplesmente que as coisas se passam como se o éter existisse e que todos os fenômenos ficariam incompreensíveis sem essa suposta existência.”

2. A LÓGICA BIOLÓGICA

o que escrevi sobre esse assunto no meu livro A Evolução da Matéria:

Os edifícios atômicos que células microscópicas conseguem fabricar compreendem não só as mais sábias operações dos nossos laboratórios: eterificação, oxidação, redução, polimerização, etc., como também muitas outras mais difíceis, que não poderíamos imitar. Por meios insuspeitos, as células vitais constroem esses compostos complicados e variados albuminóides, celulose, gorduras, amido, etc., necessários para a conservação da vida. Elas sabem decompor os corpos mais estáveis, como o cloreto de sódio, extrair o azoto dos sais amoniacais, o fósforo dos fosfatos, etc. Todas essas obras tão precisas, tão admiravelmente adaptadas a um objetivo, são dirigidas por forças de que não temos nenhuma idéia e que atuam exatamente como se elas possuíssem uma sagacidade muito superior à nossa razão. A obra que elas executam a cada momento da existência, paira muito acima do que pode realizar a ciência mais adiantada. O sábio capaz de resolver com a sua inteligência os problemas resolvidos a cada instante pelas humildes células de uma ínfima criatura seria de tal modo superior aos outros homens que se poderia considerá-lo como um deus.”

Se um corpo inútil ou perigoso for introduzido no organismo, será neutralizado ou rejeitado. O elemento útil é, ao contrário, expedido a órgãos diferentes e sofre transformações físicas muito sábias. Esses milhares de pequenas operações parciais se emaranham sem se contrariar, porque são orientadas com uma precisão perfeita. Desde que a rigorosa lógica diretriz dos centros nervosos se detém, é a morte.”

Quando uma célula evolve para certa forma, quando o animal regenera inteiramente um órgão amputado, com nervos, músculos e vasos, verificamos que a lógica biológica funda, para esses acidentes imprevistos, uma série de fenômenos que nenhum esforço da lógica racional poderia imitar ou mesmo compreender.” As manifestações mais cruas da Vontade.

As espécies parecem desaparecer quando, muito estabilizadas por uma pesada hereditariedade ancestral, já não se podem adaptar às variações do meio. Essa história do mundo vegetal e animal foi também a de muitos povos. § A infância de uma espécie, de um indivíduo ou de um povo caracteriza-se por uma plasticidade excessiva, que lhe permite adaptar-se a todas as variações de meio.”

Tendo os sentimentos por sustentáculo a vida, concebe-se que a lógica biológica não somente influa na lógica afetiva, como também possa parecer confundir-se, por vezes, com ela. Não permanecem ambas, por isso, menos nitidamente separadas, pois a vida biológica é simplesmente o terreno no qual a vida afetiva vem germinar. § É, portanto, inexplicável que os psicólogos ignorem a lógica biológica. Ela é a mais importante de todas as formas de lógica, por ser a mais imperiosa.”

Bergson tem razão quando separa o instinto da inteligência, mas só parcialmente tem razão nesse ponto. Uma multidão de instintos constituem hábitos intelectuais ou afetivos acumulados pela hereditariedade. Para os fenômenos biológicos, não somente os mais simples, a fome ou o amor, como também os muito complicados, que se observam nos insetos, a separação entre eles e a inteligência parece completa.”

Uma ameba, isto é, um simples glóbulo de protoplasma formado de granulações vivas, quando se quer apoderar de uma presa, executa atos adaptados ao fim que tem em mira, variando segundo as circunstâncias como se esse esboço de ser pudesse ter certos raciocínios. Observando os minuciosos cuidados de certos insetos na proteção dos ovos de que sairão larvas de uma forma muito diferente da sua e que, na maioria dos casos, eles jamais verão, Darwin declarava ‘que é infrutífero especular sobre esse assunto’.”

O seu mecanismo permanece ignorado, mas o sentido do seu esforço é acessível.”

Numerosos naturalistas, Blanchard, Fabre, etc., mostraram a perfeição dos atos dos insetos, como também o seu discernimento e a sua aptidão para mudar de proceder segundo as circunstâncias. Eles sabem, por exemplo, modificar a qualidade das matérias alimentares preparadas para as suas larvas, conforme devem ser machos ou fêmeas. Certos insetos que não são carnívoros, mas cujas larvas só se podem nutrir de presas vivas, paralisam-nas de modo que elas possam esperar, sem decomposição, o nascimento dos seres que as hão de devorar. Determinar uma paralisia semelhante seria uma operação difícil para um anatomista hábil. Ela não embaraça, entretanto, o inseto. Ele sabe atacar os únicos coleópteros cujos centros nervosos se aproximem até tocar-se, o que permite provocar a paralisia com um só golpe de aguilhão. Na considerável quantidade de coleópteros, somente dois grupos, os charanções e os buprestes, satisfazem a essas condições. Fabre reconhece que ao instinto geral do inseto que o dirige nos atos imutáveis da sua espécie se sobrepõe alguma coisa de ‘consciente e de perceptível pela experiência. Não ousando chamar inteligência a essa aptidão rudimentar, pois aquela denominação seria muito elevada para ela. Eu a denominarei’, diz ele discernimento (…) ‘o inseto nos maravilha e nos apavora pela sua alta lucidez’”

Numerosos fatos da mesma ordem, observados nas formigas e nas abelhas por um sábio acadêmico, Gaston Bonnier, conduziram-no a atribuir aos insetos uma faculdade por ele denominada raciocínio coletivo.” “Se, por exemplo, a comissão manda buscar água a uma bacia, em vão se espalhariam ao lado gotas de xarope ou de mel, o inseto não tocará nisso. Aqueles que estão prepostos à colheita do néctar não se ocuparão de recolher o pólen, etc.” “É o ideal do coletivismo realizado.”

Esses fatos, multiplicados pela observação, embaraçam cada vez mais os adeptos da velha psicologia racionalista. Tinha-se, outrora, para interpretá-los, um termo precioso, o instinto; mas é preciso reconhecer que, sob esse vocábulo gasto, se abriga uma ordem completa de fenômenos profundamente desconhecidos.” “Outrora, o instinto era considerado como uma espécie de faculdade imutável, concedida pela natureza aos animais no próprio momento da sua formação, para guiá-los através dos atos da vida, como o pastor conduz o seu rebanho.”

Tendo os animais sido mais bem-estudados, foi preciso reconhecer a variabilidade desses pretensos instintos imutáveis. A abelha, por exemplo, sabe perfeitamente transformar a sua colméia, desde que isso se torne necessário. Numa nota intitulada gradação e aperfeiçoamento do instinto nas vespas solitárias da África, inserta nas atas da Academia das Ciências, de 19 de outubro de 1908, o sr. Roubaud mostra entre as espécies do gênero sinagris ‘diferenças das mais notáveis, a tal ponto que se podem aí seguir as fases principais de uma insuspeita evolução do instinto dos solitários para o das vespas sociais’. Os ninhos, primeiramente solitários, antes de se aproximarem, representam sem dúvidas a forma primitiva das colônias de vespas sociais.”

A seguir, a exposição de que o pássaro não é “tão burro como o homem”: conheceu antes de seu próprio Newton a gravidade! Terá sempre conhecido (princípios antagônicos dos instinto estático x instinto dinâmico)? Pode ser até que não, mas então não era ainda pássaro!

Renunciar às explicações puramente mecânicas como as de Descartes é compreender, ao mesmo tempo, que existe uma esfera imensa da vida física, completamente inexplorada, e de que apenas entrevemos a existência.” “Quando analisarmos os fatores das nossas opiniões e das nossas crenças, não nos deveremos esquecer de que, sob a superfície das coisas, se oculta um mundo de forças inacessíveis à nossa razão, mais pujantes do que essa razão, e que muitas vezes a conduzem.”

Se a sua ação se interrompesse, o nosso planeta se tornaria um triste deserto, submetido às forças cegas da natureza, isto é, às forças ainda não-organizadas.” Abandono da concepção do instinto como força cega da natureza!

3. A LÓGICA AFETIVA E A LÓGICA COLETIVA

Antes de conhecer, todos sentiram.”

E se a transmutação de todos os valores a um além-homem fosse não um upgrade de qualquer forma do Homo sapiens sapiens, mas apenas aquele ponto histórico irreversível (point of no return) em que enquanto coletividade decidimos conscientemente abandonar este que é o mais central de todos os preconceitos, i.e., toda a nossa fonte de amor-próprio: “Não somos aquele que sabe que sabe! Demo-nos de uma vez por todas um outro nome que corresponda melhor a nossa essência!”? Que é o Homem, perguntou Drácula: perguntou, porque ele já não era um Homem!

As Luzes da Emoção

MUITO ALÉM DA LINGUAGEM: “As palavras, por meio das quais tentamos representar os sentimentos, muito mal os traduzem. Só o consentem um pouco por associação. O hábito de ligar os sentimentos ao som de certos vocábulos dá a estes últimos o poder de evocar representações mentais afetivas.” “A música, verdadeira linguagem dos sentimentos, evoca-os melhor do que as palavras, mas, pela falta de precisão, só permite relações muito vagas entre os seres.”

Não podendo as regras da lógica afetiva serem universais como as da lógica racional, um tratado de lógica afetiva, verdadeiro para um indivíduo ou para certa categoria de indivíduos, não o seria para os outros. Um livro de lógica racional possui, ao contrário, um valor invariável para todos.”

Percebe-se, todavia, o caminho percorrido, quando se vê, pelo estudo dos selvagens, o que foram os primitivos dominados pela sentimentalidade pura.” Aqui sou obrigado a refutar qualquer presença de sentimentalidade pura.

A lógica afetiva é um dos sustentáculos da lógica coletiva. Não estudaremos agora esta última, porquanto nos devemos ocupar dela no capítulo consagrado às opiniões e às crenças coletivas.”

4. A LÓGICA MÍSTICA

A lógica mística, de que nos vamos ocupar agora, corresponde a uma fase superior da vida mental. Os animais não a conhecem, conquanto possuam grande número dos nossos sentimentos.” “Semelhante à lógica afetiva, a lógica mística aceita as contradições; não é, porém, inconsciente como a primeira e traduz, freqüentes vezes, uma deliberação.”

Desfazendo alguns mal-entendidos do míope século XIX: “O ateu pode ser tão místico quanto um perfeito devoto; freqüentemente ele o é ainda mais.”

O misticismo muda incessantemente de forma, porém conserva como fundo imutável o papel atribuído a poderes misteriosos. O tempo, que faz variar o objeto do misticismo, mantém a intangibilidade daquele elemento.” O tempo: último misticismo, aliás.

Muitos homens que se qualificam de livres-pensadores porque rejeitam os dogmas religiosos, firmemente crêem nos pressentimentos, nos presságios, na força mágica da corda do enforcado ou do número 13.” “Não há jogador cuja convicção nesse ponto não esteja solidamente estabelecida.” Quem tem cu tem superstição, já diria o outro (Mestre Zagallo).

Os progressos da razão não hão de poder, sem dúvida, abalar o misticismo, porquanto ele terá sempre como refúgio o domínio do além-túmulo, inacessível à ciência. Os espíritos curiosos desse além-túmulo são, naturalmente, inumeráveis.”

A credulidade do verdadeiro crente é geralmente ilimitada, e nenhum milagre o poderia surpreender, porquanto é infinito o poder do Deus que ele invoca. Vê-se na catedral de Orviedo um cofre que, diz a notícia distribuída aos visitantes, foi instantaneamente transportado de Jerusalém através dos ares. Encerra: ‘o leite da mão de Jesus Cristo, os cabelos com que Maria Madalena enxugou os pés do Salvador, a vara com que Moisés separou as águas do mar Vermelho, a carteira de S. Pedro, etc.’.”

A Lógica de Pandora

A época literária chamada romântica é disso uma manifestação. Os artistas têm somente convicções místicas. Os métodos da análise racional são, geralmente, ignorados por eles.” A unio mystica entre mim e o eu-escritor.

PURO ZEITGEIST DE LE BON: “Mas é principalmente em política que se observa a influência do espírito místico. Radicais, anticlericais, maçons e todos os sectários de partidos extremos vivem em pleno misticismo. A classe operária é, igualmente, dominada por um misticismo intenso.” A mania do intelectual de até 100 anos atrás de enxergar o liberalismo como a-místico. Não leu Marx e sua análise do fetichismo econômico.

Lógica mística, lógica sentimental e lógica racional representam 3 formas da atividade mental irredutíveis uma na outra. Seria, portanto, inútil pô-las em conflito.”

5. A LÓGICA INTELECTUAL

A lógica intelectual tem sido o assunto de inúmeros escritos de uma utilidade, aliás, medíocre. Se a ela aludimos aqui, é, primeiramente, porque representa certo papel na gênese das opiniões e, em seguida, para precisar os pontos em que ela difere das outras formas de lógica”

A vontade é a faculdade de resolver-se a praticar um ato; compreende, geralmente, 3 fases: deliberação, determinação, execução. Uma determinação chama-se volição, uma resolução tem também o nome de decisão.”

A vontade é, ao mesmo tempo, de origem afetiva e racional. É de origem afetiva porque todos os móveis dos nossos atos têm um substratum afetivo.”

Descartes, imitado nisso por muitos filósofos modernos, fazia da vontade uma espécie de entidade aposta à inteligência” “Aristóteles se aproximava muito mais do que Descartes das idéias aqui expostas, quando fundava a sua psicologia na distinção entre as faculdades sensitivas e as faculdades intelectuais. Da combinação das duas resultava, no seu juízo, a vontade”

A atenção é o ato pelo qual, sob a ação de um excitante ou da vontade, o espírito se concentra num objeto, com exclusão dos outros, ou na representação mental desse objeto, ou ainda nas idéias que ele suscita.”

A criança e o selvagem possuem muito diminuta atenção voluntária. Quanto mais suscetível de atenção e, por conseguinte, de reflexão, for o homem, tanto mais considerável será a sua força intelectual. Um Newton sem grande capacidade de atenção não é concebível.”

A aptidão para refletir implica sempre a aptidão para a atenção. A capacidade de atenção fácil comporta a faculdade de reflexão medíocre.”

O seu domínio é o da matéria bruta, isto é, momentaneamente estabilizada pela morte ou pelo tempo. Sobre os fenômenos que representam um movimento constante, como a vida, ela projetou luzes muito incertas.”

Para mover, cumpre comover.”

Esse imenso poder [de tudo que não é lógico-racional] é talvez maior ainda do que a ciência o supõe. Nós estamos sujeitos à natureza, mas não se acha ela também submetida, segundo as palavras atribuídas por Ésquilo a Prometeu, acorrentada ao seu rochedo, às necessidades que regem o destino e às quais os próprios deuses devem obedecer?” Mas a necessidade é a natureza.

LIVRO IV. OS CONFLITOS DAS DIVERSAS FORMAS DE LÓGICA

1. O CONFLITO DOS ELEMENTOS AFETIVOS, MÍSTICOS E INTELECTUAIS

O equilíbrio que acabamos de indicar não é uma fusão, porém uma superposição das diversas formas de lógica, cada uma das quais mantém independente a sua ação.”

Nas suas concepções científicas, esses espíritos são guiados pela lógica racional. Nas suas crenças, obedecem às leis da lógica mística ou da lógica afetiva. § Um sábio passa da esfera do conhecimento à da crença, como mudaria de habitação. O erro de que é vítima muitas vezes consiste em querer aplicar às interpretações das lógicas místicas ou afetiva os métodos da lógica intelectual, a fim de basear cientificamente as suas crenças.

Destruído o equilíbrio entre as várias formas de lógicas, elas entram em luta. Raramente nesse conflito vence a lógica racional, que se deixa facilmente torturar, aliás, a fim de colocar-se ao serviço das concepções mais infantis. Por isso, em matéria de crença religiosa, política ou moral, toda a contestação é inútil. Discutir racionalmente com outrem uma opinião de origem afetiva ou mística só terá como resultado exaltá-lo. Discuti-la consigo mesmo também não a abala, salvo quando ela chegou a um grau de enfraquecimento tal que a sua força inteiramente se dissipou.

Os resultados de uma luta entre a lógica mística e a lógica racional não poderiam ser postas mais em evidência do que pelo exemplo de Pascal, examinado minuciosamente em outro capítulo desta obra.”

Nós nos limitaremos, portanto, no que se vai seguir, a estudar o conflito entre a lógica afetiva e a lógica racional.”

A idéia só é, geralmente, a conclusão de um sentimento, cuja evolução permanece inconsciente e, portanto, ignorada.”

Uma palavra, um gesto, quase insignificantes em determinado momento, podem, com o tempo, transformar a amizade em indiferença e, algumas vezes, mesmo em antipatia.

O verdadeiro papel da inteligência no agregado de sentimentos que formam o caráter consiste em isolar alguns, torná-los mais intensos por meio de uma contínua representação mental, dando-lhes a força necessária para dominar certas impulsões. Ela pode chegar, por esse predomínio de um estado afetivo relativamente a outro, a elevar o indivíduo acima de si mesmo, pelo menos momentaneamente.”

se os sentimentos são muito intensos, a inteligência perde todo o poder. A força de certos sentimentos pode tornar-se tal que, não só a inteligência, como também os interesses mais evidentes do indivíduo perdem a influência.”

Se os sentimentos não se transformam diretamente em idéias, são, contudo, criadores de idéias, evocadoras, por seu turno, de outros sentimentos. Mantendo assim a sua independência, essas duas esferas da atividade mental atuam constantemente uma na outra.”

Como as idéias surgem dos sentimentos, as lutas entre idéias não são, na realidade, mais do que lutas entre sentimentos. Os povos que combatem aparentemente por idéias, lutam por sentimentos dos quais essas idéias se derivam.”

Assim, as funções outrora exercidas pelas nobrezas inglesa e francesa apresentavam qualidades de caráter que desapareceram com a cessação das funções. Tendo essas classes sociais perdido as suas qualidades de ordem moral, sem adquirir a inteligência, que elas não tinham tido ensejo de exercer, tornaram-se inferiores às classes outrora dominadas. Era, pois, inevitável que a influência da nobreza, depois de haver sido destruída em França pela Revolução, ficasse hoje muito abalada na Inglaterra.

Essa lei, ignorada pelos nossos educadores, de que um sentimento não praticado se atrofia, parece ter uma aplicação geral.” “Os nossos instintos guerreiros, tão desenvolvidos na época da Revolução e do Império, acabaram por dar lugar a um pacifismo e a um antimilitarismo cada dia mais divulgados, não somente nas massas, como também entre os intelectuais. Daí resulta este estranho contraste: à medida que as nações se tornam mais pacíficas, os seus governos não cessam de aumentar os armamentos.”

Os indivíduos obedecem ao seu egoísmo pessoal, ao passo que os governantes são obrigados a preocupar-se do interesse coletivo. Mais esclarecidos do que as multidões e os retóricos, eles sabem, por experiências seculares, que toda a nação que se enfraquece é logo invadida e saqueada pelos vizinhos.

As nações modernas não escaparam mais a essa lei do que as suas predecessoras das civilizações antigas. Polacos, turcos, egípcios, sérvios, etc., só evitaram as invasões destruidoras deixando-se despojar do todo ou de parte dos seus territórios.”

Os códigos civis ou religiosos sempre tiveram por objetivo principal exercer uma ação inibidora nas manifestações de certos sentimentos.”

Aprendendo, sob a rigorosa lei das primeiras obrigações sociais, a dominar um pouco as suas impulsões, o primitivo desprendeu-se da animalidade pura e chegou à barbárie. Forçado a refrear-se mais, ele se elevou até à civilização. Esta só se mantém enquanto persiste o domínio do homem sobre si mesmo.”

Os sentimentos nos conduzirão sempre, mas nenhuma sociedade pode subsistir sem que os membros aprendessem a mantê-los nos limites abaixo dos quais começam a anarquia e a decadência.”

2. O CONFLITO DAS DIVERSAS FORMAS DE LÓGICA NA VIDA DOS POVOS

O seu primeiro sintoma é um rápido acréscimo da criminalidade, tal como o que hoje se observa em França. É favorecido, aliás, pelo desenvolvimento do humanitarismo, que paralisa a repressão e tende, por conseguinte, a destruir todos os freios.

A nossa democracia atual sofre cada vez mais as conseqüências da supressão dessas ações inibidoras, as únicas que podiam contrabalançar os sentimentos antissociais.” Grande paradoxo da democracia.

O ódio das superioridades e a inveja, que se tornaram os flagelos da democracia e ameaçam a sua existência, derivam de sentimentos muito naturais para que não tivessem subsistido sempre.

Tendo adquirido hoje livre impulso, incessantemente alentados por políticos ávidos de popularidade e universitários descontentes da sua sorte, esses sentimentos exercem constantemente a sua desastrosa tirania.” Bolsonarismo e jovem periférico reacionário (o preto que acessou a universidade e depois se tornou antipetista) in a nutshell.

Uma sociedade subsiste graças ao fator de manter a convicção hereditária de que cumpre respeitar religiosamente as leis em que se funda o organismo social. § A força que os códigos possuem para impor a obediência é, sobretudo, moral. Nenhuma potência material conseguiria tornar respeitada uma lei que toda a gente violasse.”

Se um gênio malfazejo quisesse destruir uma sociedade em poucos dias, bastar-lhe-ia sugerir a todos os seus membros a recusa de obedecer às leis. O desastre seria muito maior do que uma invasão a que se seguisse a conquista. Um conquistador limita-se geralmente, com efeito, a mudar o nome dos senhores que dispõem do poder, mas é seu interesse conservar cuidadosamente os quadros sociais cuja ação é sempre mais eficaz do que a dos exércitos.” Alexandre é o melhor exemplo disso. Portugal, um dos piores.

Os monumentos saqueados rapidamente se reconstroem, mas para refazer a alma de um povo, são necessários, em muitos casos, alguns séculos.”

Combatendo a tradição em nome do progresso e sonhando destruir a sociedade para apoderar-se das suas riquezas, como Átila sonhava saquear Roma, os sectários não vêem que a sua vida é um estreito tecido de aquisições ancestrais, sem as quais não viveriam um só dia.”

só a experiência repetida instrui.” Nem isso!

Se só tratarmos dos tempos modernos, não ouvimos repetir, por toda parte, que a Revolução teve por origem as dissertações dos filósofos e que o seu principal objetivo foi obter que triunfassem as ideias racionais?

Em nenhuma época, com efeito, a razão foi tão invocada. Chegou-se mesmo a deificá-la e a construir-lhe um templo. Na realidade, não existe período em que ela haja representado um papel menos importante. Isso se verificará seguramente quando, dissipados os atavismos que nos cegam, for possível escrever uma psicologia da Revolução Francesa.”

Os burgueses, que foram os seus primeiros instigadores, eram, sobretudo, guiados por um sentimento de intensa inveja contra uma classe que eles supunham ter igualado. O povo não pensava, a princípio, em invejar certas situações, tão longe dele que jamais esperaria alcançá-la; acolheu, todavia, com entusiasmo o movimento revolucionário. Sentimento muito natural, pois a destruição legal das peias sociais e as promessas que se fazia luzir aos seus olhos lhe desvendavam a perspectiva de ser igual aos seus antigos senhores e de apoderar-se das suas riquezas. Na divisa revolucionária, recordada nas nossas moedas e nas nossas muralhas, um único vocábulo, igualdade, apaixonou os espíritos, como ainda os apaixona. De fraternidade não se fala mais hoje, pois a luta das classes se tornou a divisa dos novos tempos. Quanto à liberdade, as multidões jamais perceberam seu sentido e sempre a recusaram.”

A guerra de 1870, por exemplo, é repleta de ensinamentos desse gênero. O imperador, doente, e o rei da Prússia, idoso, queriam, a todo o custo, evitar o conflito. Nesse intuito, o rei da Prússia tinha, finalmente, renunciado à candidatura de seu parente ao trono da Espanha, e a paz parecia firme.

Atrás, porém, desses espíritos incertos e de vontade fraca, um cérebro possante, dotado de uma vontade enérgica, tinha nas mãos os fios do destino. Suprimindo habilmente algumas palavras de um telegrama, soube exasperar até ao furor a sentimentalidade de um povo demasiado sensível e obrigou-o a declarar, sem preparo militar, a guerra a inimigos preparados desde muito tempo. Utilizando, em seguida, os sentimentos de cada nação, conseguiu manter a neutralidade que convinha aos seus desígnios. Cega pelos sentimentos que esse profundo psicólogo fizera vibrar, a Inglaterra recusou associar-se a um projeto de congresso, sem prever o que, mais tarde, lhe custaria a formação de uma potência militar preponderante, seu pesadelo atual.”

Do conflito das várias formas da lógica resulta a maior parte das oscilações da história. Quando predomina o elemento místico, são as lutas religiosas com a sua imperiosa violência. Quando sobressai o elemento afetivo, notam-se, conforme o fator sentimental mais evidente, ou os grandes empreendimentos guerreiros ou, ao contrário, a florescência do humanitarismo e do pacifismo, cujas consequências finais não são menos mortíferas.”

Nos nossos dias, as multidões e os seus agitadores mostram-se, como já dissemos, tão saturados de misticismo quanto os seus mais remotos antepassados. Palavras e fórmulas dotadas de um poder mágico herdaram a força atribuída às divindades que nossos pais adoravam.”

Sendo consideráveis os progressos que ela tem realizado nas ciências, tomou-se natural supor que métodos suscetíveis de produzir tais resultados podiam transformar as sociedades e criar a felicidade universal.”

A própria Inglaterra, tradicional, começa a assistir a esse conflito. As instituições políticas que fizeram a sua grandeza estão agora em luta com os ataques racionalistas de partidos adiantados, os quais pretendem reconstruir o edifício em nome da razão, isto é, da sua razão.”

3. A BALANÇA DOS MOTIVOS

Esses móveis de ação podem, algumas vezes, ser razões, mas aos móveis conscientes de ordem intelectual juntam-se, as mais das vezes, os móveis inconscientes já descritos, que pesam grandemente em um dos pratos. Em última análise, os motivos são energias em luta. Vencem os mais fortes. § Quando as energias contrárias têm, mais ou menos, a mesma intensidade, os pratos oscilam muito tempo antes de fixar-se numa posição definitiva. Caracteres incertos, hesitantes.”

Não é com as multidões, cegos joguetes dos seus instintos, que as civilizações progridem, mas com a pequena elite que sabe pensar por elas e orientá-las. Procurando pôr a lógica intelectual ao serviço da lógica coletiva para justificar todos os seus impulsos, a terrível legião dos políticos não fez mais do que criar uma profunda anarquia.”

Uma lógica afetiva demasiada leva a ceder sem reflexão a impulsos freqüentemente funestos. Uma lógica mística excessiva suscita as exigências religiosas, dominadas pela preocupação egoísta da sua salvação, e sem utilidade social. Uma lógica coletiva exagerada promove a predominância dos elementos inferiores de um povo e o conduz à barbárie. Uma lógica racional em demasia provoca a dúvida e a inação.”

LIVRO V. AS OPINIÕES E AS CRENÇAS INDIVIDUAIS

1. OS FATORES INTERNOS DAS OPINIÕES E DAS CRENÇAS: O caráter, o ideal, as necessidades, o interesse, as paixões, etc.

O jornal inglês Comentator escrevia recentemente, a propósito da psicologia política: ‘Nascerá, talvez, um dia, um livro maravilhoso sobre a arte de persuadir. Se supusermos que a psicologia chega a ser uma ciência tão adiantada quanto a geometria e a mecânica, será possível predizer os efeitos de um argumento sobre o espírito do homem tão seguramente quanto podemos agora predizer um eclipse de lua. Uma psicologia desenvolvida até esse ponto possuirá uma série de regras que permitem converter um indivíduo a uma opinião qualquer. O mecanismo de um espírito será, então, comparável a máquina de escrever, em que basta apoiar numa alavanca para ver sair imediatamente a letra desejada. Uma ciência tão pujante e, por conseguinte, tão perigosa, tornar-se-á necessariamente um monopólio do governo’.”

O mais refletido dos filósofos não escapa à sua influência. As suas doutrinas otimistas ou pessimistas resultam muito mais do seu caráter que da sua inteligência. W. James assegura, pois, com razão, que ‘a história da filosofia é, em grande parte, a do conflito dos temperamentos humanos. Essa diferença particular dos temperamentos’, acrescenta ele, ‘sempre entrou em linha de conta no domínio da literatura, da arte, do governo e dos costumes, tanto quanto no da filosofia.’

Compenetrados dessa influência do caráter individual nas opiniões, facilmente conceberemos por que certos homens são conservadores e outros revolucionários. Estes últimos tendem sempre a revoltar-se, unicamente por temperamento, contra o que os cerca, qualquer que seja a ordem das coisas estabelecidas. Encontram-se, geralmente, entre caracteres cuja estabilidade ancestral foi dissociada por influências diversas. Eles já não se acham, por conseguinte, adaptados ao seu meio. Muitos dentre eles pertencem à grande família dos degenerados, que estão sobretudo no domínio da patologia.” HAHAHAHAHA!

O exército dos revolucionários se recruta, principalmente hoje, nessa multidão de degenerados, com que o alcoolismo, a sífilis, o paludismo, o saturnismo, etc., povoam as grandes cidades. É um resíduo cujo número os progressos da civilização diariamente aumentam. Um dos mais temíveis problemas do futuro será subtrair as sociedades aos furiosos ataques desse exército de inadaptados.” Toma sintoma por causa. Filósofo de província.

Semi-alienados [?!] como Pedro o Ermitão [?] e Lutero subverteram o mundo.”

[?] Ou Eremita. Um dos promotores das Primeiras Cruzadas.

Se tantos homens se mostram hoje hesitantes nas suas opiniões, nas suas crenças e obedecem às impulsões mais contrárias é porque, com uma inteligência por vezes muito elevada, possuem um ideal muito fraco.” O problema hoje é o contrário…

A força dos fanáticos reside precisamente na rigorosa obediência ao seu ideal perigoso. É o que se pode observar hoje no tocante ao ideal socialista, o único que ainda seduz as multidões. Ele pesa inteiramente na nossa vida nacional e suscita numerosas leis destruidoras da sua prosperidade.

Um ideal não é, absolutamente, portanto, uma concepção teórica, cuja ação possa ser negligenciada. Quando se generaliza, exerce uma influência preponderante nas minúcias mais insignificantes da vida. Mesmo aqueles que ignoram a sua influência, a elas se submetem.”

Já disse, com razão, que o socialismo é uma questão de estômago.” Ninguém pode dizer que diz com razão: deve apenas dizer, e deixar arrazoamentos para os outros.

A evolução científica da indústria promoveu necessidades novas, que se tornaram logo, como os caminhos de ferro e o telefone, necessidades indispensáveis. Infelizmente, essas necessidades aumentaram mais depressa do que os meios de satisfazê-las. Representam uma das fontes do descontentamento que desenvolve o socialismo.”

O germano de há 50 anos, modesto comedor de ‘choucroute’, era pacífico, porque não tinha desejos. Tendo subitamente crescido as suas necessidades, tornou-se guerreiro e ameaçador. Aumentando, além disso, rapidamente, a sua população e ultrapassando logo o número de indivíduos que o país pode nutrir, aproxima-se o momento em que, sob um pretexto qualquer, e mesmo sem outro pretexto a não ser o direito do mais forte, a Alemanha invadirá, para viver, as nações vizinhas. Só essa razão podia decidi-la a fazer as esmagadoras despesas exigidas pelo aumento da sua marinha e do seu exército.”

2. OS FATORES EXTERNOS DAS OPINIÕES E DAS CRENÇAS: A sugestão, primeiras impressões, necessidade de explicações, palavras e imagens, ilusões, necessidade, etc.

Convencer não é absolutamente sugerir. Uma sugestão faz obedecer. Um raciocínio pode persuadir, mas não obriga a ceder.” Conceituação complicadinha de sugestão, já que exige muito… Uma hipnose!

repetir a afirmação com ardor é levar ao seu máximo a ação sugestiva.” E no entanto aqui está a boa e velha acepção de sugestão…

Os efeitos da sugestão são de uma intensidade muito variável. Ela se estende desde a ação diminuta do vendedor que se procura desfazer de uma mercadoria, até a que é exercida pelo hipnotizador no espírito do neuropata, o qual cegamente obedece a todas as suas vontades. Na política, o hipnotizador se chama agitador; sua influência é considerável.

Os efeitos de uma sugestão dependem do estado mental do indivíduo que a recebe. Sob uma influência pessoal intensa: ódio, amor, etc., que limita o campo da sua consciência, ele será muito sugestionável e as suas opiniões facilmente se transformarão.”

Questões escandalosas, tais como a de Mme. Humbert e de Dupray de la Mahérie, provaram que banqueiros hábeis, advogados e homens de negócios experientes podiam ser sugestionados, a ponto de abandonar a fortuna a vulgares velhacos, que só tinham ao seu favor a força fascinadora.”

O FASCISMO É FASCINANTE… “Essa fascinação é uma irresistível forma de sugestão. O homem a ela se submete como o pássaro diante da cobra.”

Muitos crimes tiveram como origem essa ação fascinadora. A formosa condessa Tarnowska sugeria sem dificuldade assassinatos aos seus adoradores. A sua força era tal que se tornou preciso mudar muitas vezes os carabineiros que a acompanhavam, assim como os guardas da sua prisão.”

Tornando-se cada vez mais preponderante o papel das multidões e sendo estas unicamente influenciadas pela sugestão, a influência dos agitadores cresce dia a dia. Um governo supostamente popular é, na realidade, uma oligarquia de agitadores, cuja influência tirânica se manifesta a cada instante. Eles ordenam as greves, obrigam os ministros a obedecer-lhes e impõem leis absurdas.”

Sendo de ordem afetiva, a sugestão só pela sugestão pode ser combatida. Ceder aos agitadores, como sem cessar se procede, é fortalecer a sua influência.” Dente por dente? Fake News por fake news?

O principal inconveniente das opiniões baseadas em explicações errôneas é que, admitindo-as como definitivas, o homem não procura outras. Supor que se conhece a razão das coisas é um meio seguro de não a descobrir. A ignorância da nossa ignorância tem retardado de longos séculos os progressos das ciências e ainda, aliás, os restringe.”

Certas palavras, como precisamente observou a propósito o sr. Barrès, são dotadas de uma sonoridade mística. Gozam dessa propriedade as expressões favoritas dos políticos: capitalismo, proletariado, etc.” E quem é este senhor Barres?

O inacessível elétron sucedeu ao não menos inacessível átomo. Essas expressões baseadas no desconhecido concedem suficiente satisfação à nossa necessidade de explicações.”

Diante da rápida diminuição dos alistamentos voluntários na cavalaria, um sensato psicólogo militar teve, há alguns anos, a idéia de mandar colar, por toda parte, cartazes ilustrados coloridos que representavam elegantes cavaleiros, fazendo várias sortes de exercícios. Na parte inferior figurava a enumeração das vantagens outorgadas aos que se alistavam pela primeira e pela segunda vez. Os resultados foram tais que, em muitos regimentos, os coronéis recusaram os candidatos por falta de lugar.”

Uma inteligência que possui o poder atribuído aos deuses de abranger, num golpe de vista, o presente e o futuro, a nada mais se interessaria e os seus móveis de ação ficariam paralisados para sempre.”

Conquanto muito breve, a enumeração dos fatores de opiniões e de crenças precedentemente exposta basta para provar como são pesadas as fatalidades de que está carregada a alma humana.” Realmente Le Bon prima pela concisão. Prima até demais.

3. POR QUE DIFEREM AS OPINIÕES E POR QUE A RAZÃO NÃO AS CONSEGUE RETIFICAR

Aperfeiçoando os homens, a civilização não os transformou, portanto, igualmente. Longe de caminharem para a igualdade, como as nossas ilusões democráticas procuram persuadir, eles tendem, ao contrário, para uma desigualdade crescente. A igualdade, que foi a lei dos primeiros tempos, não poderia ser a do presente e ainda menos a do futuro.

Assim, só pelo fato da sua ascensão progressiva, a civilização realizou a façanha de um mágico que ressuscitasse, no mesmo momento, no mesmo solo, homens das cavernas, senhores feudais, artistas da Renascença, operários e sábios modernos.”

A árdua tarefa dos governos modernos é fazer viver, sem excessivo desacordo, todos esses herdeiros de mentalidades tão desigualmente adaptadas ao seu meio. Inútil seria pensar em nivelá-las. Isso não é possível pelas instituições, pelas leis nem pela educação.

Um dos maiores erros do nosso tempo é supor que a educação iguala os homens. Ela os utiliza, mas não os nivela nunca. Numerosos políticos ou universitários, carregados de diplomas, possuem mentalidade de bárbaros e somente podem, portanto, ter por guia na vida uma alma de bárbaro.”

Uma mulher culpada de grave crime, porém cercada de filhos lacrimosos que a reclamem, está certa da indulgência do júri. A mulher formosa que, num acesso de ciúme, matou o amante, pode estar ainda certa disso. Um júri inglês a condenaria à forca; um júri francês a absolve quase sempre.”

Um pouco acima dessa categoria, dominada por mera sentimentalidade, acham-se os juízes dos tribunais de primeira instância. São ainda bastante jovens e os argumentos de ordem afetiva podem-nos comover. O prestígio de um advogado célebre sempre os impressiona. Pode-se, entretanto, exercer influência nos seus espíritos por meio de provas racionais, unicamente, porém, se elas não tiverem de lutar contra interesses pessoais. A esperança de promoção, as pressões políticas, exercem, por vezes, uma influência preponderante nas suas opiniões. Eles formulam julgamentos bastante incertos, porquanto os magistrados do Tribunal de Apelação reformam cerca de um terço desses julgamentos. Eles se iludem, portanto, mais ou menos 1 vez em 3.

Os magistrados de Tribunais de Apelação formam um grau superior ao da classificação precedente. Mais idosos e mais instruídos, são menos subordinados à lógica afetiva do que à lógica racional.

No vértice, finalmente, surgem os juízes do Tribunal Supremo. Envelhecidos, um pouco decrépitos, nada mais tendo a esperar, desprovidos de toda sentimentalidade, tão indiferentes ao interesse individual quando à compaixão, ignoram os casos particulares e permanecem confinados no direito estrito. Nenhum advogado procuraria invocar um ar sentimental diante deles. Só a prova racional os pode impressionar. As meticulosas precauções da lei inteiramente os dominam. Ela tornou-se para eles uma espécie de entidade mística, isolada dos homens. Esse excesso de racionalismo não é destituído de perigo, pois o direito, eqüitável no momento em que acaba de ser fixo, cessa logo de o ser em virtude de evolução social, que rapidamente o excede. É então que se deve interpretá-lo, a fim de preparar a sua transformação, como fazem alguns magistrados cujas sentenças formam uma jurisprudência, [ou um calhamaço de jurisprudências…] filha de novos costumes e mãe de novas leis. O duelo passou, assim, do estado de crime ao de delito não-condenável; o adultério, acarretando outrora anos de prisão para os culpados e julgado pelo código como um crime tão grave que ao marido se desculpava matar a mulher, acabou por ser incluído entre os delitos de tal modo secundários que um novo projeto de lei propôs, como única punição para o adultério, uma insignificante multa.”

Assembléias: “Os votos são unicamente sugeridos pelos interesses do partido ou pelos dos eleitores, aos quais devem agradar.” Se houver resquícios do segundo, dêem-se por satisfeitos!

Sem dúvida, a razão é constantemente invocada nas assembléias parlamentares, mas, na realidade, é o menos importante dentre os fatores suscetíveis de influenciá-la.”

As divergências de opinião não resultam, como por vezes supomos, das desigualdades de instrução daqueles que as manifestam. Elas se notam, com efeito, em indivíduos dotados de inteligência e de instrução equivalentes.” Bourdieu pesquisou temperamentos e caracteres em sua nascida-defasada-teoria social dos gostos? Tudo o que vale para esses mentes-vazias é a erudição e a classe econômica!

A história da Alemanha e a da França nestes últimos 50 anos fornece numerosas provas das vantagens inconvenientes destes dois métodos: a tirania individual e a tirania coletiva.” Infelizmente o conhecimento político de Le Bon parece se limitar ao século XIX de dois ou três países vizinhos, o que é teoricamente um nada.

4. A RETIFICAÇÃO DAS OPINIÕES PELA EXPERIÊNCIA

Todas as nações verificam, desde as origens do mundo, que a anarquia termina pela ditadura. Mas dessa eterna lição elas não tiram nenhum proveito.”

A experiência mostra, igualmente, que, por seguros motivos de ordem psicológica, todo o produto fabricado pelo Estado ultrapassa sempre os preços da indústria particular, não obstante essa prova, os socialistas obrigam o Estado a monopolizar constantemente alguma fabricação nova.” Que coisa! Israel devia terceirizar sua indústria bélica, então!

SIM, ESSE É UM DOGMA DO CAPITALISMO: “Os socialistas aprenderam, assim, experimentalmente, porém à custa dos seus administradores, que as leis econômicas desdenhadas, quando não são compreendidas, tornarão sempre impossível o estabelecimento de uma taxa qualquer numa classe única de cidadãos. Por incidência, ela se reparte logo entre todas as outras classes, e quem paga não é aquele contra o qual o imposto foi votado.”

LIVRO VI. AS OPINIÕES E AS CRENÇAS COLETIVAS

1. AS OPINIÕES FORMADAS SOB INFLUÊNCIAS COLETIVAS: A raça, o meio, o costume, os grupos sociais, etc.

Já não existem hoje raças puras, no sentido antropológico da expressão; mas, quando povos da mesma origem ou origens diversas, sem que sejam muito afastadas, estiveram submetidos durante muitos séculos às mesmas crenças, às mesmas instituições, às mesmas leis, e falam a mesma língua, constituem o que denomino uma raça histórica.” “A alma de um povo não é, portanto, uma concepção metafísica, mas uma realidade palpitante. É formada de uma estratificação atávica, de tradições, modos de pensar e mesmo preconceitos. Da sua solidez depende a força de uma nação.” “Destruir as influências do passado na alma de um povo teve sempre como invariável resultado conduzi-lo à barbárie.” “Os tchecos e os húngaros na Áustria, os irlandeses na Inglaterra, etc., confirmaram a exatidão dessa lei. A pretensão de impor os nossos códigos aos indígenas das nossas colônias prova que ela é mal-compreendida.”

Um povo de mestiços é ingovernável. A anarquia em que vivem as repúblicas latinas da América é uma prova dessa asserção.”

As violentas revoluções por meio das quais os povos procuram então, por vezes, subtrair-se ao jugo opressor de um passado demasiadamente penoso, não têm uma ação durável. Podem destruir as coisas, porém modificam muito pouco as almas. Assim, as opiniões e as crenças da velha França pesam sobre a nova de um modo irresistível. Só as fachadas mudaram.” Tanto criticam a ineficácia das revolução nos séculos XVIII e XIX e se esquecem do advento do Cristianismo: teria mudado o homem? Não, em absoluto!

Um perfeito socialista revolucionário facilmente se torna um conservador intransigente, desde que chegue ao poder. Sabe-se com que facilidade Napoleão transformou em duques, camaristas e barões, os terríveis convencionais que ainda não tinham tido tempo de matar-se uns aos outros.” Pouco se fala, no entanto, do estranho fenômeno dos comunistas na velhice ou maturidade: FhC, Mandetta, Mark Zuckerberg, se bobear até o Musk… Todos xingados de comunistas pelos “cérebros de gelatina” que ajudaram a destruir o Brasil elegendo Bolsonaro.

QUE AZEDO E ULTRAPASSADO! “Imaginando, segundo a afirmação dos seus agitadores, que eles são os criadores únicos da riqueza, não suspeitam absolutamente o papel que o capital e a inteligência representam. Considerando-se muito mais compatriotas dos operários estrangeiros do que dos burgueses franceses, eles se tornaram internacionalistas e antimilitaristas. A sua verdadeira pátria é o grupo de homens do seu ofício, a qualquer nação que pertençam.”

2. OS PROGRESSOS DA INFLUÊNCIA DAS OPINIÕES COLETIVAS E AS SUAS CONSEQÜÊNCIAS

O ponto mais essencial, talvez, da psicologia das multidões é a nula influência que a razão exerceu nelas. (…) Tais verdades deveriam ser banais desde muito tempo, mas a maneira de agir dos políticos de raça latina indica que eles não as compreendem ainda. Eles só se libertarão da anarquia depois de a terem compreendido.” Mas de que adianta compreender, se continuarão sentindo e sendo mistificados, Le Bon?

As mais revolucionárias multidões latinas mantêm um espírito muito conservador, muito tradicionalista. E isso explica por que os regimes que ela destrói são logo restaurados sob novas designações.”

A ação das opiniões populares, que hoje se tornou preponderante, igualmente se exerceu nas diversas épocas da História. Ela não é sempre percebida, porque a crônica das nações não foi, durante muito tempo, mais do que a dos soberanos. Todos os atos dos reinados pareciam resultar meramente da vontade dos reis.”

Quando, depois de haver terminado a história dos soberanos, o cronista se ocupar da história dos povos, claramente se verá que as multidões foram as verdadeiras criadoras de acontecimentos memoráveis: cruzadas, guerra de religião, matança de S. Bartolomeu,¹ revogação do edito de Nantes, restauração monárquica e napoleônica, etc. Nenhum déspota teria jamais tido a força de ordenar a matança de São Bartolomeu e, a despeito do seu poder absoluto, Luís XIV não haveria podido revogar o edito de Nantes.”

¹ wiki: “O massacre da noite de São Bartolomeu ou a noite de São Bartolomeu foi um episódio da história da França na repressão ao protestantismo, engendrado pelos reis franceses, que eram católicos. [Pelos reis, no plural, se foram somente em duas noites?] Esses assassinatos aconteceram em 23 e 24 de agosto de 1572, em Paris, no dia de São Bartolomeu. Estima-se que entre 5 e 30 mil pessoas tenham sido mortas, dependendo da fonte atribuída.”

Os acontecimentos provocados pelas multidões são, na maioria, os que têm na História o papel mais funesto. As catástrofes de origem popular foram, felizmente, pouco numerosas, graças à ação das elites que, tão fracas hoje, conseguiam, então, na maior parte das vezes, limitar os caprichos e os furores do número.” Que coisa, não? Como envelheceste mal!

Se tudo é permitido para muitos ou quase todos, nada é permitido a ninguém.

Se um povo aspira à liberdade, o que raramente lhe acontece, ou se ele se arremessa à servidão, tendência muito mais freqüente, sempre achará professores e advogados que dêem uma forma intelectual às suas impulsões, por mais perigosas que possam ser.”

As opiniões da multidão ditam sempre hoje aos legisladores leis que eles devem votar e, como essas leis correspondem a efêmeras fantasias e não a necessidades, o seu resultado final é a desorganização da vida industrial, social e econômica do país.” Se assim o é, poderia me explicar como e por que a maconha e o aborto não são ainda legais? E por que não existe um programa de renda mínima consolidado no Brasil?

Que saudades do que não vivi (as greves sendo realmente temidas!)…

Isso é apenas, cumpre notar, um começo. [!!!] Os operários, aos quais são propostas pensões de 200 ou 300 francos já não se contentarão com isso, desde que se certificarem de que, mediante violência, os seus colegas das estradas de ferro obtêm 2 ou 3 mil. Depois do voto do Senado, os pedidos de aposentadorias proporcionais principiaram a aparecer, naturalmente, em avultado número: cantoneiros, operários dos arsenais, da manufatura do fumo reclamaram energicamente. Mas tudo isso é o futuro, um temível futuro, que só as preocupações eleitorais impedem de ver. Que sinistra cegueira!”

Sem os pesquisadores solitários, jamais haveria civilização ou progresso; mas a obra individual somente adquire toda a força pela sua absorção na alma coletiva.”

3. A DISSOLUÇÃO DA ALMA INDIVIDUAL NA ALMA COLETIVA

Essa desagregação de uma sociedade em fragmentos sem elos comuns constitui o que se denominou movimento sindicalista. Longe de permanecer, como o socialismo, um produto de puros teóricos, alheios às realidades, ele representa uma criação espontânea, devida a necessidades econômicas, que por toda a parte se impuseram, como prova a sua generalização, sob formas diversas, em povos de mentalidades distintas. As únicas diferenças são que o sindicalismo, revolucionário em alguns países, é pacífico em outros.” Que distinção absurda é essa???

A evolução industrial, que provocou esse movimento, conduz as grandes pátrias modernas a se subdividirem em pequenas pátrias, que só respeitam as próprias leis e desdenham as da coletividade geral que as contém.” Intui (mas articula mal) o reacionarismo e a fragmentação pós-modernos subseqüentes à falência do socialismo…

Desde que o antigo bloco social tiver sido inteiramente dissolvido em pequenos fragmentos solidamente constituídos, as suas divergências de interesses fatalmente os conduzirão a incessantes lutas. Se cada grupo for, com efeito, composto de elementos homogêneos, dotados de interesse e opiniões semelhantes, ele se achará em conflito com outros grupos, tão pujantes, mas que encerrem interesses nitidamente opostos.

É possível pressentir desde já essas futuras lutas entre interesses contrários, pois assim nos revela a história das antigas repúblicas italianas, principalmente a de Siena e a de Florença. Governadas por sindicatos operários, estes ensangüentaram com as suas dissensões intestinas, durante séculos, todas as cidades em que se exerceu o seu domínio. § Não objetemos que se trata de tempos muito remotos. As grandes leis sociais não são numerosas e sempre se repetem. § As lutas de grupos apenas começam porque o poder central, ainda forte, refreia as suas rivalidades, mas esse poder perde cada vez mais a sua ação. Desde que ele a tiver perdido inteiramente contra ele, [ele contra ele quem?] como em Narbona, depois entre eles, como na Champagne, onde os sindicatos rivais de dois departamentos de interesses contrários encarniçadamente lutaram um contra o outro.” Alusão a fenômenos sociais hoje ininteligíveis para quem não conhece os episódios com muita especificidade!

Nos capítulos consagrados ao estudo das opiniões individuais, tivemos, muitas vezes, dificuldade em precisar, entre os fatores que podiam agir, aqueles que desempenham um papel preponderante. Nada é, porém, mais fácil quando se trata de grupos muito homogêneos, muito circunscritos, tais como aqueles cuja formação acabamos de indicar.

Eles são, efetivamente, compostos de indivíduos que possuem unicamente as opiniões do seu pequeno meio. Para conservar a sua força, o grupo é obrigado a não tolerar nenhuma dissidência. Pela opinião de um dos seus membros, conhece-se a de todos os outros.”

Caiam as sociedades futuras sob o jugo do socialismo, do sindicalismo ou dos déspotas, suscitados pelas anarquias precedentes dessas doutrinas, elas serão, de qualquer modo, mentalmente escravizadas.” HAHAHA!

A evolução moderna tende, como acabamos de ver, a desagregar as sociedades em pequenos grupos distintos, que possuem sentimentos, idéias e opiniões idênticas, isto é, uma alma comum. É inútil discutir o valor dessa evolução, porquanto a razão não altera os fatos. § Mas, sem que os julguemos, é possível, pelo menos, tentar interpretá-los. Ora, é fácil mostrar que essa fusão das almas individuais em almas coletivas constitui um retrocesso a fases extremamente remotas da história, observadas ainda no estado de sobrevivência entre os povos primitivos inferiores.” Interessante. Simplesmente enuncia o conceito de aldeia global ou “tribos urbanas”! “e é por isso que todos os membros de uma mesma tribo são considerados como responsáveis pelos atos de um só.”

Um administrador da Indochina, o Sr. Paul Giran, observa justamente que ‘o direito coletivo desse país parece incompreensível aos magistrados europeus que aí são enviados, porquanto eles consideram como indiscutível evidência que somente o autor de um delito tem a responsabilidade do ato cometido. A idéia de que uma pessoa alheia a um crime possa, pelo fato desse crime, sofrer uma pena qualquer, parece-lhes monstruosa’.

Ela não o é, entretanto, para o anamita.¹ Em numerosos casos, os parentes, que pertencem ao grupo familiar do culpado, são executados. E por quê? Pela razão psicológica acima indicada, isto é, que não estando diferenciados os elementos de cada grupo social, são considerados como tendo apenas uma alma coletiva.” Mas se está falando da individualização do crime?!?

¹ Antigo povo autóctone do território atual do Camarões (melhor resultado na pesquisa)? Ininteligível…

Os próprios europeus empregam esse direito primitivo em tempo de guerra, quando fuzilam os reféns, apoiando-se no princípio da responsabilidade coletiva,”

A não-diferenciação psicológica dos diversos membros de uma tribo, entre os primitivos, é também acompanhada de uma não-diferenciação anatômica. Provei, outrora, por investigações feitas em milhares de crânios, que a homogeneidade anatômica de um povo é tanto maior quanto mais alto se remonta às suas origens, e os crânios dos seus diversos membros se diferenciam gradualmente, à medida que esse povo progride.” Difícil provar algo em arqueologia, amigo!

A alma individual, que só em séculos conseguira desprender-se um pouco da alma coletiva, atualmente se volta para ela.” Oxalá!

LIVRO VII. A PROPAGAÇÃO DAS OPINIÕES E DAS CRENÇAS

1. A AFIRMAÇÃO, A REPETIÇÃO, O EXEMPLO E O PRESTÍGIO

O hábito de louvar a virtude teria acabado, talvez, por tornar virtuoso o próprio Tartufo.”

Mais forte que o hábito é o enjôo, a náusea. É o que vem depois de dois mil anos de “ele morreu por nós”…

Enquanto na Alemanha a mocidade universitária, a mocidade burguesa, inteligente e letrada, outrora atraídas pelo socialismo, hoje se afastam dele e voltam a sentimentos de patriotismo exclusivo e exaltado, a tal ponto que a social-democracia alemã já não obtém, por assim dizer, adeptos entre eles; em França, ao contrário, é moda alistar-se entre os estudantes coletivistas e internacionalistas. O exemplo vem de cima, dos professores de filosofia, dos normalistas. A Escola Normal se transforma numa escola do socialismo.” Que bom, Le Bon: evitastes o fascismo francês – orgueil! Estranho poder místico possuído por esses professores… Os do século XXI não conseguem mais influenciar seus alunos e pensarem por si mesmos!

A autoridade do mestre é hoje soberana, inteiramente como no tempo em que reinava Aristóteles. Ela se torna mesmo cada vez mais onipotente à medida que a ciência mais se especializa.” Defina mestre. Hoje ele é o bobo-da-côrte.

CLOROQUINERS IN A NUTSHELL: “O completo imbecil, entretanto, alcança êxito, algumas vezes, porquanto, não tendo consciência da sua imbecilidade, jamais hesita em afirmar com autoridade.” “O mais vulgar dos ‘camelos’, quando energicamente afirma a imaginária superioridade de um produto, exerce prestígio na multidão que o circunda.” Seja lá o que for camelo, está correto…

2. O CONTÁGIO MENTAL

Minha sensação é que Le Bon – logo ele! – subestima a inteligência da sua própria massa; ignaro em sua própria psicologia! Ele pressupõe que seu público não sabia das verdades imorredouras (as obviedades, melhor dizendo) que ele elenca com sua automática, sua metralhadora verbal. Tudo isso (o que é uma opinião, o que é uma crença, seu poder absoluto) o populacho sempre soube, sempre saberá.

2014- : “Na vida ordinária, o contágio pode ser limitado pela ação inibidora da vontade, mas, se uma causa qualquer — violenta mudança de meio em tempo de revolução, excitações populares, etc. — vêm paralisá-la, o contágio exercerá facilmente a sua influência e poderá transformar seres pacíficos em ousados guerreiros, plácidos burgueses ou terríveis sectários. Sob a sua influência, os mesmos indivíduos passarão de um partido para outro e empregarão tanta energia em reprimir uma revolução quanto em fomentá-la.” PARADOXO DE SININHO, a “esquerdista” que ajudou a acordar o Gigante e derrubar o Partido dos Trabalhadores…

Quanto mais se multiplicam os meios de comunicação tanto mais se penetram e se contagiam. A cada dia estamos mais ligados àqueles que nos cercam. A mentalidade individual facilmente reveste uma forma coletiva.”

UM HOMEM DE ÉPOCA (E PÕE ÉPOCA NISSO!): “Os magistrados são, com efeito, indulgentes em demasia para com todos os criminosos, e bons filantropos, um pouco imbecis, constroem para eles elegantes prisões bem-aquecidas e providas de todo o conforto moderno.”

O contágio criminal produz-se, muitas vezes, assim, graças às narrações de assassinatos profissionais, referidos pelos jornais.” Engraçado que nunca ninguém imitou Pelé! Uma teoria de contágio com partido (se for ruim, é contagiante…). Típica do reacionarismo fim-de-milênio.

O terror do último cometa, que devia, segundo se afirmava, encontrar a Terra, provocou a morte voluntária de muitas pessoas.”

O rol de exemplos eqüestres é invejável! Mas não terei saco para ler sua obra sobre equinos…

Se um dos cães ladra, os outros imediatamente o imitam.” Será mesmo uma imitação, ou apenas um ato contíguo e inédito, impossível de ser distinguido de uma reação instintiva pelo homem?

Tem-se muitas vezes repetido a história dos 15 inválidos que se enforcaram no mesmo gancho de um corredor e a dos soldados que se suicidaram na mesma guarita.” É mesmo? Diga-me o nome de 3 deles, por favor.

O Sr. Stohoukine cita um caso de uma fogueira que devorou 2500 indivíduos que se sacrificavam na esperança de uma vida melhor.”

O contágio mental pode, portanto, escravizar todas os inteligências. À semelhança do contágio pelos micróbios, ele poupa apenas naturezas muito resistentes e pouco numerosas.” Imagina quanta tolice não foi reverberada graças às passagens mais histriônicas do seu livro?

TOUCHÉ: “As opiniões propagadas por contágio só se destroem por meio de opiniões contrárias propagadas do mesmo modo. Aplicada por estadistas, essa regra de ordem psicológica lhes permitiria, graças aos meios de que dispõem, combaterem o contágio pelo contágio.” Meu país sempre será vermelho, etc.

3. A MODA

Com a vida mais rápida, a mulher teve de se masculinizar exteriormente para seguir o homem nas suas vertiginosas corridas pelas grandes estradas. O vestido tailleur, primeiramente reservado a certos esportes, generalizou-se em tudo quanto tinha de cômodo e de adequado. Quanto aos outros vestidos, as mangas largas dos corpetes tornaram-se estreitas para deslizarem facilmente nos paletós. Mas, então, a vista sentiu-se impressionada desagradavelmente pelo busto assim estreito. Para corrigir esse defeito e porque uma transformação determina outra, diminuiu-se a amplitude das saias, para que ficassem mais largas as espáduas e se afinasse a silhueta, modificação que suscitou a supressão dos bolsos e, depois, as saias inferiores. A mulher, na sua necessidade de sentir em torno de si uma atmosfera de desejo, sublinhou essa simplicidade por uma estreiteza excessiva. Ela mostrou tudo quanto era possível e deixou adivinhar o resto. Saias, rendas e roupa branca cederam o lugar às peças inferiores, chamadas combinaisons, que preservam do pó e do frio.”

A moda é tão poderosa entre as mulheres que elas suportam, em obediência aos seus ditames, os mais terríveis enfados, como as obrigações, há alguns anos, de manter constantemente erguido, por uma das mãos, um vestido de cauda, sendo a outra mão ocupada em carregar a bolsa, destinada a encerrar o conteúdo dos bolsos; é análogo o suplício no andar, determinado pelos vestidos chamados entraves e aceito há longos meses. Nesse ponto, as civilizadas rivalizam com as selvagens, que suportam a tortura de um anel espetado no nariz, em obediência à moda.”

A moda não conhece revoltadas; só a extrema pobreza lhe recusa escravas. Nenhum dos deuses do passado foi mais respeitosamente obedecido.”

4. OS JORNAIS E OS LIVROS

Alguns foram, contudo, bastante poderosos pela sua influência sugestiva para provocar a morte de milhares de homens. Tais são as obras de Rousseau, verdadeira bíblia dos chefes do Terror, ou A Cabana do Pai Tomás, que contribuiu muito para a sanguinolenta guerra de secessão na América do Norte.”

A leitura da Bíblia no tempo de Cromwel criou na Inglaterra um número avultado de fanáticos. Sabe-se que na época em que foi escrito Dom Quixote, os romances de cavalaria exerciam uma ação tão perniciosa em todos os cérebros que os soberanos espanhóis vedaram, finalmente, a venda desses livros.”

A simples repetição de uma fórmula breve só é útil para um produto já conhecido. Ela atua, então, por uma espécie de obsessão, mas, para um produto novo, será necessariamente preciso enumerar todas as suas qualidades.”

A dificuldade de lutar contra o hábito, que combate a influência psicológica do anúncio, ficou muito bem provada pela história da adaptação dos pneumáticos aos carros. Tendo os alugadores recusado a compra desse artigo, o inventor o distribuiu gratuitamente a uma pequena companhia. O êxito foi tão rápido que, não somente essa empresa fez fortuna, como, diante das reclamações dos que tomavam carro, todas as outras companhias se viram obrigadas, com grandes despesas, a munir da borracha, primeiramente desdenhada, os seus veículos.”

A batalha de Iena para os alemães, a guerra de 1870 para os franceses, foram necessárias para que criassem correntes de opiniões suscetíveis de impor o serviço militar obrigatório universal.(*) Só uma corrente de opiniões análoga, resultante de decisivos sucessos marítimos, podia permitir ao governo japonês aumentar de mais de um bilhão por ano as despesas da sua marinha de guerra.

(*) O chanceler do Império da Alemanha exprimiu muito bem essa verdade num discurso proferido em março de 1911 no Reichstag, e de que damos um resumo: ‘A questão do desarmamento é, para todo o observador sério, insolúvel enquanto os homens forem homens e os Estados forem Estados. Por mais que façam, os fracos serão sempre a presa dos fortes. O povo que não quer despender com o seu armamento, decai, e um povo mais forte toma o seu lugar’. [Carniça!] Como muito bem disse o mesmo estadista, ‘as disposições de que podem hoje surgir a guerra têm as suas raízes em sentimentos populares, que se deixam facilmente influenciar’.”

Os mais temíveis tiranos nunca foram bastante fortes para lutar muito tempo contra correntes de opiniões. Observa Juvenal que Domiciano pôde matar impunemente personagens ilustres, porém ‘pereceu quando os sapateiros começaram a ter medo dele’.”

Essas explosões de opiniões populares, muito perigosas porque a razão não exerce nelas nenhuma influência, são felizmente pouco duráveis. Resistir-lhes diretamente é excitá-las ainda mais. Entre os diversos fatores das explosões de furor provocadas pela questão Dreyfus, um dos mais ativos foi a obstinação do Estado-maior em afrontar a opinião, contestando a evidência de certos documentos. Um simples erro judiciário não teria produzido mais efeito do que tantos outros, cotidianamente cometidos, e logo se teria cessado de pensar nisso.”

LIVRO VIII. A VIDA DAS CRENÇAS

1. CARACTERES FUNDAMENTAIS DE UMA CRENÇA

Se os romanos aceitaram as divindades de todos os povos estrangeiros, foi porque elas constituíam para eles uma hierarquia de seres poderosos, que cada qual devia atrair em seu favor pela adoração.

Conquanto animado de princípios diferentes, o budismo triunfante não foi mais perseguidor. Ensinando a indiferença ao desejo e considerando os deuses e os entes como vãs ilusões sem importância, ele não tinha nenhuma razão para ser intolerante.”

Os sectários modernos da deusa Razão são tão violentos, tão intolerantes, tão sequiosos de sacrifícios quanto os seus predecessores. A regra de todo o verdadeiro crente será sempre a que foi ensinada na Suma de S. Tomás: ‘A heresia é um pecado pelo qual se merece ser excluído do mundo pela morte’.”

Todos os progressos da civilização procedem, evidentemente, desses espíritos superiores, mas não se pode desejar a sua multiplicação sucessiva. Inapta a adaptar-se imediatamente a progressos rápidos e profundos em demasia, uma sociedade se tornaria logo anárquica. A estabilidade necessária à sua existência é precisamente estabelecida graças ao grupo compacto dos espíritos lentos e medíocres, governados por influências de tradições e de meio.”

A mediocridade de espírito pode, pois, ser benéfica para um povo, sobretudo associada a certas qualidades de caráter. Instintivamente, a Inglaterra o compreendeu, e é por isso que nesse país, embora seja um dos mais liberais do universo, o livre-pensamento sempre foi bastante mal-visto.”

A mentalidade dos mártires de toda a espécie, política, religiosa ou social, é idêntica. Hipnotizados pela fixidez do seu sonho, sacrificam-se alegremente a fim de estabelecer a vitória da sua idéia, sem mesmo nenhuma esperança de recompensa neste mundo ou no outro. A história dos niilistas e dos terroristas russos é abundante em ensinamentos que demonstram este último ponto. Não é sempre a esperança do céu que faz os mártires.” “O estudo dos mártires pertence, sobretudo, ao domínio da patologia mental. Os alucinados das crenças mais variadas apresentam tal analogia que, depois de examinados dois ou três, todos os outros ficam conhecidos.” HAHAHAHAHAAHA!

Eles podem ter como tipo o exemplo de Vivia Perpétua, venerada pelos cristãos sob o nome de santa Perpétua, e que vivia no reinado de Sétimo Severo. Filha de um senador três vezes cônsul, presidente do Senado de Cartago, a bela e rica patrícia, [afinal ela era cartaginesa ou romana?] secretamente convertida ao Cristianismo, preferiu ser exposta nua diante do povo e devorada viva pelos animais ferozes a fazer o simulacro de queimar um pouco de incenso no altar do gênio do Imperador. Os crentes consideraram tais atos como provas do poder dos seus Deuses. É, evidentemente, uma pura ilusão, porquanto os mártires foram igualmente numerosos em todas as religiões e em todas as seitas políticas.”

Os povos jamais sobreviveram muito tempo à morte dos seus deuses.”

2. AS CERTEZAS DERIVADAS DAS CRENÇAS: A natureza das provas com que se contentam os crentes

Lutero tinha certeza de que o papa era o Anti-Cristo, que não existia purgatório e, em nome de verdades dessa ordem, a Europa foi posta a fogo e sangue, durante muitos séculos. Os padres da Inquisição tinham certeza de que Deus queria ver queimados os hereges, e eles despovoaram a Espanha com as suas fogueiras.”

A leitura das obras relativas aos meios de descobrir os feiticeiros, descritos por doutos magistrados outrora qualificados de eminentes, é, nesse ponto de vista, extremamente instrutiva. Os documentos dessa natureza, tanto quanto os livros dos teólogos, mostram o abismo que separa a prova exigida pelo sábio da que satisfaz o espírito encerrado no ciclo da crença.

É inútil dar aqui exemplos. Todos seriam análogos aos que foram revelados no processo que se intentou contra o escritor italiano d’Albano. Provou-se claramente que havia aprendido ‘as 7 artes liberais’ com o auxílio de 7 demônios, por se ter descoberto em sua casa uma garrafa que continha 7 drogas diferentes, cada uma das quais representava um demônio. A despeito dos seus 80 anos, ia ser queimado vivo, quando, protegido sem dúvida pelos 7 demônios captados, morreu subitamente. Os juízes tiveram de limitar-se a desenterrá-lo e a queimar o cadáver numa praça pública.

No reinado de Luís XIV, só excepcionalmente os feiticeiros foram queimados, mas ninguém duvidava do poder que eles possuíam. O processo da feiticeira Voisin revelou que as maiores personalidades da época, o marechal de Luxembourg, o bispo de Langres, primeiro capelão da rainha e outros, tinham recorrido à força mágica que lhe atribuíam. O bispo Simiane de Gorges se dirigira a ela, a fim de obter, por influência do diabo, a fita azul do Espírito Santo!

Se as cartomantes e as pitonisas modernas referissem as visitas que recebem, ver-se-ia que a credulidade humana não tem diminuído. Eu poderia citar um ex-ministro, conhecido pelo seu rígido anticlericalismo, que nunca sai sem ter no bolso o pedaço de uma corda de enforcado. Um dos nossos mais eminentes embaixadores imediatamente se levanta de uma mesa em que se acham 13 convivas. É o fetichismo desses ilustres homens de Estado verdadeiramente superior às crenças religiosas que eles proscrevem com tanto vigor?”

Uma doutrina deve ser julgada verdadeira, dizia ele, desde que todos os homens assim pensam. No juízo de Bossuet, um único ente não poderia ter razão contra a totalidade dos outros. Foram necessários os progressos das ciências modernas para provar que muitas descobertas se realizaram, precisamente porque um único homem teve razão contra todos os outros.”

Uma mentalidade religiosa indestrutível nos fará voltar sempre os olhos para o sobrenatural, mas o estudo atento dos fatos milagrosos sempre mostrará também que eles são apenas alucinações criadas pelo nosso espírito.”

3. PAPEL ATRIBUÍDO À RAZÃO E À VONTADE NA GÊNESE DE UMA CRENÇA

O exemplo de Pascal mostra o que podem ser os resultados dessa luta entre a lógica afetiva e mística de um lado e a lógica racional do outro. O ilustre pensador escrevia numa época em que as verdades religiosas eram aceitas sem contestação, e só um gênio como o seu podia ousar submeter as suas certezas a uma discussão racional. O completo insucesso da sua tentativa demonstra, ainda uma vez, a fraqueza da razão perante a crença.

Pascal era dotado de muita sagacidade para não perceber o ilogismo racional de uma lenda que supõe um Deus a vingar em seu filho uma injúria cometida na origem do mundo por uma das suas criaturas, e não hesita em qualificá-la de ‘tolice’.” “Impressionado pelo receio do inferno (…) ele chega a considerar a vida futura como o objeto de uma temível aposta.” O e se… ético da vida aqui e agora, só que mal-aplicado…

Todo o homem pode fazer o que fez Maomé, porquanto este não fez milagres e não foi predito. Nenhum homem pode fazer o que fez Jesus Cristo.”

4. COMO AS CRENÇAS SE MANTÊM E SE TRANSFORMAM

uma crença que não é continuamente defendida logo se desagrega. A história está repleta de destroços de crenças que, por essa razão, tiveram apenas uma existência efêmera.” Mas pode-se reavivar crenças há séculos perdidas.

Confinado num deserto, privado de qualquer símbolo, o crente mais convicto veria rapidamente declinar a sua fé. Se, entretanto, anacoretas e missionários a conservam, é porque incessantemente relêem os seus livros religiosos e, sobretudo, se sujeitam a uma multidão de ritos e de preces. A obrigação para o padre de recitar diariamente o seu breviário foi imaginada pelos psicólogos que conheciam bem a virtude sugestiva da repetição.”

Os iconoclastas eram guiados por um instinto seguro, quando quebravam as estátuas e os templos das divindades que eles queriam destruir.”

O bramanismo, por exemplo, só tem muito vaga relação com os livros védicos que o inspiraram. O mesmo se diria do budismo.” Não existem dois brâmanes iguais, diria Heráclito.

Uma crença triunfante acaba sempre por fragmentar-se em seitas, cada uma das quais mantém apenas os elementos fundamentais da crença primitiva.”

Considerar a Reforma, como freqüentemente se faz, como uma vitória da liberdade do pensamento é não compreender absolutamente a natureza de uma crença. O protestantismo foi, primeiramente, mais rígido do que o catolicismo, e se ele evolveu, em seguida, para formas por vezes um pouco liberais, não ficou, por isso, menos intolerante. Lutero e os seus sucessores professavam doutrinas muito decisivas, destituídas de todo o espírito filosófico e impregnadas de uma intransigência absoluta. Tendo dividido os homens em eleitos e réprobos, Calvino julgava que os primeiros não devem ter nenhuma consideração para os segundos. Tendo-se tornado senhor de Genebra, impôs à cidade a mais terrível tirania e organizou um tribunal tão sanguinário quanto o Santo Ofício. O seu contraditor, Michel Servet, foi queimado a fogo lento.

Na época da matança de S. Bartolomeu, resultado de todas essas querelas em França, os protestantes foram os massacrados; mas, em todos os países em que eles eram os mais fortes, tornaram-se massacradores. A intolerância era a mesma dos dois lados.

A perpétua subdivisão das crenças é devida à circunstância de que cada qual adota os elementos que o impressionam com mais força e não é influenciado pelos outros. Certos fiéis que possuem o temperamento de apóstolos procuram logo formar uma pequena igreja. Se o conseguem, funda-se um cisma ou uma heresia e o contágio mental logo intervém para propagá-la. A divisão de uma crença em seitas foi sempre favorecida pela extrema imprecisão dos livros sacros. Cada teólogo pode, desde então, interpretá-los ao seu modo.

É útil percorrer obras como as que foram consagradas às discussões sobre a graça, entre tomistas e congruístas, jansenistas e jesuítas, etc., a fim de ver a que grau de aberração podem descer mentalidades influenciadas pela fé.

Os próprios espíritos mais eminentes parecem estar tomados de vertigem, desde que penetram no domínio da crença. Como exemplo, citaríamos as Meditações do célebre Malebranche. O êxito desse livro foi tal que, ao ser publicado em 1684, 4 mil exemplares foram vendidos em uma semana.”

Se há mal no mundo, é porque Deus negligenciou um pouco a sua obra; assim era, aliás, preciso, porquanto o mundo é a morada dos pecadores.”

Os crentes de todos os tempos têm procurado racionalizar a sua fé, sem compreender que a sua força era devida justamente à circunstância de não ser influenciada pelo raciocínio.”

A desagregação de uma crença em seitas rivais perpetuamente em luta não se poderia produzir nas religiões politeístas. Elas também evolveram, mas por simples anexação, depois por fusão de deuses novos, todos considerados como muito poderosos e, conseguintemente, muito respeitados. Eis por que as guerras de religião que devastaram a Europa ficaram mais ou menos ignoradas na antiguidade pagã.

Foi, pois, um grande benefício para os povos terem começado pelo politeísmo. Considero, contrariamente a uma opinião muito generalizada, que eles lucrariam muito se permanecessem nesse terreno. Longe de favorecer o progresso, o monoteísmo os atrasou, pelas lutas sanguinolentas com que encheu o mundo. Moderou durante séculos a evolução das artes, da filosofia e das letras, desenvolvidas pelos gregos politeístas a um ponto tal que eles são tidos como nossos mestres.” “O culto da pátria tinha bastado para dotar os romanos politeístas, na época da sua grandeza, de uma identidade de sentimentos que nunca foi ultrapassada.”

Se, conforme o juízo de tantos historiadores e de meios-filósofos como Renan, o monoteísmo houvesse constituído uma superioridade, seria preciso colocar acima de todas as outras religiões o islamismo, a única mais ou menos monoteísta.

Digo ‘mais ou menos’ porquanto as religiões realmente monoteístas só existiram nos livros. O cristianismo, por exemplo, logo anexou legiões de anjos, santos e demônios, que correspondem exatamente às divindades secundárias do mundo antigo e são venerados ou temidos como aquelas.

Essa multiplicidade de deuses secundários nas crenças monoteístas e a divisão rápida destas últimas em seitas mostram claramente que o monoteísmo é um conceito teórico, que não satisfaz às nossas necessidades afetivas e místicas.”

5. COMO MORREM AS CRENÇAS

Exato no sentido histórico, o título deste capítulo é muito menos preciso no sentido filosófico. Semelhantes à energia física moderna, as crenças se transformam algumas vezes, mas nunca perecem. Mudam, contudo, de nome, e é esse fenômeno que pode ser considerado como a sua morte.”

Essa fase, na qual o ceticismo e a fé se aproximam, produz-se quando o tempo ou outros motivos abalaram as crenças antes que estejam ainda nitidamente formuladas aquelas que as devem substituir. Os últimos defensores dos dogmas desfeitos a eles se prendem desesperadamente, sem que neles acreditem muito. Parece recearem ‘esse incurável tédio’, segundo Bossuet, ‘que constitui o fundo da vida dos homens, desde que perderam o gosto de Deus’.”

Atravessamos precisamente um desses períodos de instabilidade em que os povos se sentem vacilantes entre as influências das divindades antigas e as que se acham em via de formação. A nossa época constitui um dos pontos críticos da história das crenças. Enquanto se espera a adoção de uma grande fé nova, a alma popular flutua entre pequenos dogmas momentâneos, sem duração, mas não sem força. Defendidos por grupos, comissões ou partidos, eles exercem, muitas vezes, um poder considerável.” “Os imperativos categóricos gerais de outrora tornaram-se pequenos imperativos de seitas, tendo de comum apenas um ódio intenso contra a ordem de coisas estabelecidas.”

Robespierre, encarnação típica da estreita mentalidade religiosa do seu tempo, julgava-se um apóstolo que recebera do céu a missão de estabelecer o reino da virtude. Muito deísta, muito conservador e grão-sacerdote infalível de uma nova teocracia, supunha um dever sagrado imolar implacavelmente ‘os inimigos da virtude’ e, como outrora os pontífices da Inquisição, não excluía ninguém. Os seus discursos faziam incessantemente apelo ao Ente Supremo. O seu agente Couthon invocava também a cada instante o Altíssimo.”

O DEUS DO SOCIALISMO É O TRABALHO RESTITUÍDO AO HOMEM: “Se o socialismo possuísse alguma divindade precisa que cumprisse adorar, o seu êxito seria muito mais rápido. Os seus apóstolos reconhecem instintivamente essa necessidade, mas, não ousando oferecer à adoração popular a cabeça do principal teórico da doutrina, o judeu Karl Marx, eles se voltaram para a deusa Razão.” Qual é a necessidade de designá-lo como judeu neste contexto? Eu mesmo respondo: anti-semitismo.

Infelizmente, as divindades abstratas nunca seduziram as multidões, e é por isso que a religião socialista possui dogmas, mas ainda espera o seu deus. Ele não se fará esperar muito tempo. Os deuses surgem quando se tornam necessários.” Erro crasso ou acertou por tabela ao chutar o vento, acertando na Mãe-Rússia?

É inútil recriminar.” Dessa perspectiva, seu livro inteiro foi inútil.

Pilatos, hoje, já não formularia sem dúvida a pergunta, à qual nenhum filósofo jamais respondeu definitivamente. Ele diria que, sendo a verdade o que se crê, toda a crença estabelecida constitui uma verdade.”

LIVRO IX. PESQUISAS EXPERIMENTAIS SOBRE A FORMAÇÃO DAS CRENÇAS E SOBRE FENÔMENOS INCONSCIENTES DE QUE ELAS DERIVAM

1. INTERVENÇÃO DA CRENÇA NO CICLO DO CONHECIMENTO. GÊNESE DAS ILUSÕES CIENTÍFICAS.

Um dos mais flagrantes é a aventura de que foram vítimas, há mais ou menos 40 anos, a quase totalidade dos membros da Academia das Ciências, e que inspirou a Daudet o seu célebre romance O imortal. Acreditando num eminente geômetra, aureolado de grande prestígio, a ilustre assembléia inseriu, como autênticas, nas suas atas, uma centena de cartas atribuídas a Newton, Pascal, Galileu, Cassini, etc. Fabricadas, inteiramente, por um falsário pouco letrado, encerravam numerosos erros e vulgaridades, mas os nomes dos supostos autores e do sábio que as apresentava fizeram aceitar tudo. Os acadêmicos, na sua maioria, e principalmente o secretário perpétuo, não conceberam nenhuma dúvida no tocante à autenticidade desses documentos, até ao dia em que o falsário confessou a fraude. Dissipado o prestígio, declarou-se que era miserável o estilo das cartas, que, ao princípio, se afirmara ser maravilhoso e digno dos escritores de gênio considerados como os seus autores.

RAIOS N: “Durante 2 anos, as atas da Academia de Ciências publicaram inúmeras notas de vários físicos profissionais: Broca, J. Becquerel, Bichot, etc., sobre as propriedades, cada dia mais maravilhosas, desses raios. O Sr. Jean Becquerel anunciava mesmo tê-los cloroformizado. Sábios distintos, notavelmente o sr. D’Arsonval, faziam a respeito deles entusiásticas conferências. A Academia de Ciências, julgando necessário recompensar tão importante descoberta, encarregou vários dos seus membros, entre os quais o físico Marcart, de verificarem na residência do autor a exatidão das suas pesquisas. De lá voltaram maravilhados, e um prêmio de 50 mil francos foi concedido ao inventor.(*)

(*) Esse prêmio devia, primeiramente, ser conferido exclusivamente pelos raios N, mas, no último momento, por um excesso de prudência, que se afigurou excessivo a alguns membros da comissão, no relatório se declarou que o prêmio seria atribuído ao sr. Becquerel pelo conjunto dos seus trabalhos, sem especificação.

Durante esse tempo, sábios estrangeiros, para os quais os físicos franceses são destituídos de prestígio, repetiam em vão as experiências, sem o menor resultado. Muitos se decidiram, então, a ir observá-las na residência do inventor, e rapidamente se certificaram de que este era vítima das mais completas ilusões e continuaram a medir, por exemplo, os desvios dos raios N sob a influência de um prisma, conquanto se houvesse retirado sorrateiramente esse prisma na escuridão, etc.

A Revue Scientifique encetou, então, um vasto inquérito junto a todos os físicos do universo. Os seus resultados foram desastrosos para os raios N. Foi preciso reconhecer que eles constituíam um mero produto da sugestão mental e do contágio, e nunca tinham tido existência.

Dissipada a sugestão, nenhum dos físicos franceses persuadidos de terem visto os raios N conseguiu uma só vez vê-los de novo. As comunicações sobre esse assunto, outrora tão abundantes nas atas da Academia de Ciências, subitamente e totalmente cessaram.”

Nas ciências em via de formação, como é a medicina, [!] na qual são extremamente difíceis as verificações — porquanto jamais se sabe que resultados cumpre atribuir à sugestão e ao remédio —, os erros se perpetuam muito mais. Enumerá-los seria relatar a história da medicina e mostrar que teorias, remédios e raciocínios mudam todos os quartos de século.”

Há 50 anos, mais ou menos, o tratamento da pneumonia pela sangria era considerado como uma das belas conquistas da arte médica. O seu valor parecia fartamente provado por estatísticas, as quais indicavam que, graças a esse tratamento, só morriam 30 doentes em 100. (…) Os médicos matavam, pois, pela sangria, 25 por 100 dos seus doentes.”

2. A FORMAÇÃO MODERNA DE UMA CRENÇA: O ocultismo

Queimados por milhares, os feiticeiros reapareciam sempre. Essa potência rival da Igreja foi vencida pelo tempo muito mais do que pelos suplícios.”

Se inúmeros testemunhos, afirmações obstinadamente repetidas, mesmo à custa da vida, bastassem para estabelecer a existência de um fato, nada seria mais incontestavelmente provado do que a existência do sabbat. Incalculável é, com efeito, o número de indivíduos que confessaram tê-lo visitado através dos ares, montados numa vassoura, e haver tido aí relações sexuais com os demônios.”

O papel da sugestão e do contágio mental aí se manifesta em grande escala. Os testemunhos ouvidos no decurso dos processos de feitiçaria em vários países são concordes, as descrições de satã idênticas, o modo de ir ao sabbat é o mesmo em toda parte. Nenhum interesse pessoal parece ter influenciado a alma desses alucinados. O diabo lhes dava, verdadeiramente, muito pouco em troca da sua salvação eterna”

Raramente havia, aliás, necessidade de recorrer às torturas para obter a confissão dos seus supostos crimes. Os inculpados descreviam, sem resistência alguma, as cenas do sabbat. O diabo aí os esperava sob formas variadas: sapo, gato, cão preto, bode, etc. Oferecia aos seus fiéis refeições geralmente compostas de fragmentos de cadáveres e distrações mui pouco numerosas. Afora as danças e as relações sexuais com feios demônios ou velhas feiticeiras, as mais freqüentes ocupações consistiam em fustigar vigorosamente grandes sapos para que segregassem um líquido esverdeado e pegajoso, destinado a fabricar unguentos e pós mágicos.”

A magia antiga devia, ainda uma vez, reaparecer, mudando de nome sem sofrer notável modificação. Chama-se hoje ocultismo de espiritismo, os áugures se denominam médiuns, os deuses inspiradores de oráculos se intitulam espíritos, as evocações dos mortos têm o nome de materialização. Durante muito tempo a nova crença foi desdenhada pelos sábios; mas, há uns 20 anos que assistimos a este fenômeno muito imprevisto: eminentes professores tornam-se convencidos adeptos de todas as formas de magia.

Assim, reputados antropologistas, como Lombroso, [só um racista de merda] afirmam que evocaram as sombras dos mortos e com elas conversaram; ilustres químicos, tais como Crookes, dizem ter vivido meses com um espírito que diariamente se materializava e desmaterializava, professores de filosofia célebres, como Richet, [enxame de perfeitos anônimos] declaram ter visto um guerreiro de capacete surgir espontaneamente do corpo de uma menina, físicos distintos, como d’Arsonval, referem que um ‘médium pode fazer variar, à vontade e de um modo considerável, o peso de um objeto’. Vemos, enfim, ilustres filósofos, como o sr. Boutroux, dissertarem em brilhantes conferências sobre os espíritos, as comunicações sobrenaturais, e afirmarem que ‘a porta subliminal é a abertura pela qual o divino pode penetrar na alma humana’.”

A palavra materialização significa que um espírito, o de um morto ou mesmo o de uma pessoa viva, pode subtrair ao organismo do médium, o ‘fluido’, isto é, uma substância imponderável, suscetível, entretanto, de condensar-se e tornar-se matéria. Essa substância se agrega em matéria e se apresenta sob formas diversas, conforme a vontade da inteligência que a manipula. Ordinariamente é um corpo análogo a um corpo vivo que essa inteligência fabrica; lembra a forma que tinha, quando vivo, o defunto, se se trata de um morto. Tais corpos têm a denominação de materializados.” “Dr.” Maxwell

Além do nosso corpo material, possuímos em duplicata, um corpo astral, por vezes separável do primeiro depois da morte. Ele se pode materializar, servindo-se dos elementos materiais de um corpo vivo, o do médium, por exemplo.

Naturalmente, as explicações dos espíritas sobre tal assunto são bastante confusas e variam com a imaginação de cada autor. Cumpre unicamente reter que do corpo de um ente vivo poderia instantaneamente surgir outro ser, possuindo os mesmos órgãos e não o seu simples aspecto.

A famosa Katy King, de Williams Crookes, tinha, com efeito, um coração muito regular, e os pulmões do fantasma de capacete, materializado em presença do professor Richet, segregavam ácido carbônico como os de um ente ordinário, como se pode verificar, mediante a insuflação de ar num tubo banhado em água de barita.” HAHAHA?!

O sr. Bottazi e os seus auxiliares estavam persuadidos de que do corpo de Eusápia podiam sair um braço e uma mão invisíveis, que lhe permitiam levantar uma mesa de 22 quilos e deslocar numerosos objetos.”

Outros sábios conhecidos, o Dr. Venzano, o professor Morselli, etc., anunciam ter observado com o mesmo médium fenômenos análogos, principalmente ‘um vulto de mulher que tinha nos braços uma criança de cabelos muito curtos’.”

Os povos de todas as raças adoraram, sob nomes diversos, uma única divindade: a Esperança.” Menos os gregos.

3. MÉTODOS DE EXAME APLICÁVEIS AO ESTUDO EXPERIMENTAL DE CERTAS CRENÇAS E DE DIVERSOS FENÔMENOS SUPOSTAMENTE MARAVILHOSOS

As pessoas um pouco familiarizadas com a psicologia das multidões sabem como é diminuta a utilidade dos inquéritos coletivos. Os observadores transmitem sugestão uns aos outros e perdem inteiramente o espírito crítico; o nível de sua credulidade aumenta e eles chegam apenas a conclusões incertas. Não creio que uma só grande descoberta haja sido feita por uma coletividade.”

Todos os inquéritos relativos ao ocultismo empreendidos na Inglaterra, na França e na Itália, nada adiantaram e amplamente justificaram as reflexões precedentes. Conforme a mentalidade dos assistentes e o seu grau de sugestibilidade, o mesmo médium foi considerado como um vulgar embusteiro ou, ao contrário, como possuidor de poderes tão maravilhosos quanto os que foram outrora atribuídos ao diabo pela feitiçaria.

O mais importante desses inquéritos, tanto pelo tempo e pelo dinheiro despendido quanto pela qualidade dos observadores, foi o que organizou o Instituto Psicológico de Paris. Os resultados não foram brilhantes, apesar dos 25 mil francos sacrificados e das 43 sessões consagradas às experiências.”

Seria preciso imaginar um Mulder que não consegue provar a farsa ou embuste de nenhum autor de fenômenos paranormais!

Não se podia objetar às condições precedentes que os fenômenos de levitação somente se produzem na obscuridade, [os médiuns] tinham renunciado a essa exigência. O sr. Maxwell não cessa de insistir, no seu livro, na possibilidade de obter os fenômenos de levitação em plena luz. O sr. Boirac, reitor da Academia de Dijon, afirma também ter, por várias vezes, à luz, atraído uma mesa, sem tocar. Por que, gozando de tão curiosa propriedade, não quis obter o prêmio de 2 mil francos?

O anúncio desse prêmio valeu-me, naturalmente, a recepção de muitas centenas de cartas, porém somente 5 médiuns se apresentaram para ganhá-lo. Referi-lhes as condições acima indicadas prometendo, aliás, o número de sessões que quisessem. Disseram-me que voltariam. Não os tornei a ver.”

O fenômeno da levitação das mesas representa o ABC do espiritismo. Nesse particular, já não há dúvida possível! A mesa se levanta inteiramente só, sem estratagemas nem embustes, e fica suspensa até 78 segundos… Aqui em Gênova um jovem poeta, excelente médium, imprimiu movimento a uma caixa que pesava 180 quilos.” Prof. Morseff

por que os médiuns, capazes, há 40 anos, de erguer 75 quilogramas, já não podem levantar hoje alguns gramas?”

Um erro muito generalizado é o que consiste em imaginar que um sábio, distinto na sua especialidade, possui por essa única razão uma aptidão particular na observação dos fatos alheios a essa especialidade, principalmente aqueles em que a ilusão e a fraude desempenham um papel preponderante. Vivendo na sinceridade, habituados a crer no testemunho dos seus sentidos, completados pela precisão dos instrumentos, os sábios são, na realidade, os homens mais facilmente iludíveis.”

Os fenômenos do espiritismo não poderiam, portanto, ser eficazmente observados por sábios. Os únicos observadores competentes são os homens habituados a criar ilusões e, por conseguinte, a desvendá-las, isto é, os prestidigitadores. É muito lamentável que o Instituto Psicológico não o tenha compreendido.”

Não sendo os verdadeiros crentes influenciáveis por um raciocínio, seria inútil discutir com eles. Mas, ao lado desses agita-se a imensa legião dos simples curiosos, dos meio-convencidos.” Cético pero no mucho.

4. ESTUDO EXPERIMENTAL DE ALGUNS FENÔMENOS INCONSCIENTES GERADORES DE CRENÇAS

Está hoje mais ou menos demonstrado que as peregrinações, levando milhares de crentes tanto a Meca quanto a Lourdes, ou às margens do Ganges, não lhes foram sempre inúteis. As forças misteriosas do inconsciente, postas em jogo por uma fé ardente, muitas vezes se revelam mais pujantes que os meios de que dispõe a terapêutica.

Julgo que é do mais elevado interesse, porquanto pode desvendar imprevistos horizontes à fisiologia, pôr nitidamente em evidência os limites das influências que consegue determinar no organismo a sugestão produzida pelas preces, pelas relíquias, pelos amuletos, etc.

Sem dúvida, durante muito tempo ainda, esse estudo capital não poderá ser seriamente iniciado. As curas, qualificadas de milagrosas, só foram até aqui examinadas por céticos intransigentes ou crentes irredutíveis. Ora, essas duas formas de mentalidade paralisam, igualmente, a faculdade de observar. E como o cético nesses assuntos se torna facilmente um crente, por vezes sem consciência disso, vê-se que não é fácil chegar a conclusões muito nítidas.”

O QUERIDINHO DE FRAUD, O PRESTIDIGITADOR: “A cura pela fé foi numerosas vezes utilizada nos nossos dias pelo célebre médico Charcot.”

Eusápia, diz o relator, pede ao sr. D’Arsonval que tente erguer uma pequena mesa, o que ele facilmente faz; veda-lhe, em seguida, que o faça o sr. D’Arsonval não consegue deslocar o objeto. ‘Parecia pregado ao solo.’ Eusápia coloca de novo o cotovelo sobre a mesa, e o Sr. D’Arsonval ergue a mesa sem dificuldade. Alguns instantes, após, Eusápia diz ao objeto: ‘Sê leve’ e o Sr. D’Arsonval mais facilmente ainda o levanta. Essa experiência, que os magnetizadores profissionais facilmente conseguem nas feiras, escolhendo os seus ‘motivos’ entre os neuropatas da assistência, demonstra simplesmente o poder sugestionante de certos médiuns.”

É infinitamente provável que o sr. d’Arsonval, supondo, sob a influência da vontade de Eusápia, observar as variações de peso de um corpo, teve uma ilusão análoga à que se deu com os raios N, à qual lhe inspirou uma conferência entusiástica, e à qual afirmou a realidade de todos os fenômenos anunciados.”

OUIJA? “Está desde muito tempo provado que os movimentos dessas mesas são devidos às impulsões inconscientes dos operadores. Mas por que gira a mesa sempre num sentido determinado, sem ser contrariada por impulsões diferentes? Por que, tocando no solo, de um modo que corresponda a certas letras do alfabeto, e colocada sob as mãos dos diversos indivíduos que a cercam, pára a mesa no momento necessário, como se obedecesse a uma vontade única?” A hipótese da “alma coletiva” transitória.

É inútil insistir nesse esboço de explicação. O fenômeno constituído pelo nascimento, pela evolução e pela dissolução de uma alma coletiva é um dos enigmas da psicologia. Ela pode apenas afirmar que essa alma coletiva sempre desempenhou um papel essencial na vida dos povos.”

5. COMO O ESPÍRITO SE FIXA NO CICLO DA CRENÇA: Tem limites a credulidade?

É por essas fases diversas, começando por uma incredulidade total para chegar a uma credulidade completa, que têm passado muitos sábios modernos, tais como o célebre Lombroso. Muito cético no começo das suas investigações, adquiriu, finalmente, uma fé ingênua, de que fornece triste testemunho o seu último livro.”

A ciência se nega a discutir o que ela denomina o incognoscível, e é precisamente nesse incognoscível que a alma humana coloca o seu ideal e as suas esperanças. Com uma paciência que seculares insucessos não puderam fatigar, ela encontra, incessantemente, um obstáculo no mundo sempre inviolado do mistério, a fim de descobrir aí a origem das coisas e o segredo do seu destino. Não tendo aí podido penetrar, acabou por povoá-lo dos seus sonhos.”

o ocultismo, último ramo da fé religiosa, que nunca morre.” O cadáver fétido de Deus.