[post híbrido] mercenaries 2: world in flames (360/pc/ps2/ps3) [RESENHA]

! recomendado para menores de 18 anos !

! alerta de jogo de propaganda imperialista americana !

PC, PlayStation2, PlayStation3 & Xbox 360

Mercenaries 2:

World in Flames

F I C H A   T É C N I C A

Developers Pandemic Studios (360/PC/PS3), Artificial Mind and Movement (PS2)

Publisher EA

Estilos Third-Person Shooter > Arcade involuntário! / GTA rip-off

DATAS DE LANÇAMENTO

360

31/08/08 (EUA), 05/09/08 (EUR), 11/09/08 (OCE), 20/11/08 (JP), 15/06/10 (EUA, EUR, Games on Demand)

PS3

31/08/08 (EUA, CAN), 01/09/08 (Ásia), 05/09/08 (EUR), 11/09/08 (OCE), 20/11/08 (JP), 26/11/09 (JP, EA Best Hits)

PS2

31/08/08 (EUA), 05/09/08 (EUR), 11/09/08 (OCE), 20/11/08 (JP), 26/11/09 (JP, EA:SY! 1980)

PC

04/09/08 (EUA), 05/09/08 (EUR), 11/09/08 (OCE), 20/11/08 (JP), 14/05/09 (EUR, EA Classics), 10/09 (EUA, Jewel Case)

NOTAS DA IMPRENSA + CONSUMIDORES

6.9 (PS2)

7.3 (PS3)

7.1 (PC)

7.5 (360)

NOTA PESSOAL

4

Este jogo é pra…

(X) passar longe  (  ) dar uma jogadinha de leve  (  ) dar uma boa jogada  (  ) jogar freneticamente  (  ) chamar a rua toda pra jogar  (X) um tipo específico de jogador. Qual? Psicopatas. (  ) incógnita

Chávez zicou, e o jogo “anti-com.” flopou!

DROP EXPECTATIONS, NOT BOMBS!

Imagine um jogo com mundos gigantescos cheios de power-ups incríveis que permitam ao gamer dar vazão total a seu instinto primordial (principalmente no caso dum shooter), que é a destruição pura e simples, catarse tão gratuita quanto bem-vinda… Porém, agregue alguns ingredientes antes que pense ter finalizado sua sopinha antes de nanar: glitches que podem interromper a ação, inteligência artificial digna de zumbis (e não, você não enfrenta zumbis em Mercenaries 2, pelo menos não enquanto gente morta não começar a reviver das cinzas!), armas em abundância mas terríveis de manusear, enredo pífio e uma incorrigível falta de variedade. O mundo está em chamas, só não sabemos se dentro da sua TV ou na sua cabeça, após se irritar com algumas das (várias) falhas… Contenha-se, não incendeie seu console por algo tão bobo: há muitas outras opções no mercado, mesmo para esse tipo de detonação em terceira pessoa em ambientes abertos, como a franquia onipresente Grand Theft Auto e Mercenaries “1” (Xbox, PS2). Por que recomendaríamos o próprio Mercenários? Porque a primeira versão é muito mais gratificante!

Versão PS2

O ESTADO ZERO DA CINEMATOGRAFIA DE “GUERRA” (CIVIL)

Escolhe-se entre três mercenários – cada um deles com uma biografia muito similar. A narrativa diz respeito a uma vingança de proporções absurdas contra um homem que o(s) contratou e não pagou (ora, tudo isso faz parte de ser um mercenário, por isso eles cobram um preço tão alto!). A quem se pergunta, o jogo não é um licenciamento da trilogia – ou sei lá quantas continuações mais – com Schwarzza e Stallone, mas na minha franca opinião usar o roteiro do filme não melhoraria nem pioraria este game… Não há dúvidas de que o enredo é fraco como o do longa, mesmo não sendo o do longa, que aliás só é Mercenários no Brasil, o que exigiu essa minha nota explicativa. Outro elemento de má qualidade no produto é o trabalho de dublagem dos personagens poligonais. A vantagem é que o jogador não terá de se preocupar com a storyline ou mesmo suportá-la: as cutscenes entre as missões são tão inconseqüentes que podem ser tranqüilamente puladas.

MODO TREINO, OK

As primeiras missões são especialmente para que se acostume com a mecânica de jogo de tiro em terceira pessoa. Esse não é daqueles títulos em que você pensa antes de atirar (Rainbow Six) ou nem atira se puder evitar (Metal Gear Solid), ou bola (não a tecla O) uma estratégia antes da fase começar (podendo levar consigo apenas 2 ou 3 armas): num intervalo de 30 minutos, o protagonista escolhido experimentará uma miríade de armas, granadas e C4, dirigirá carros, barcos e jipes enquanto defende o que será, eventualmente, daqui em diante, sua base militar. Depois disso, ainda haverá um razoável lote de missões divertidas, enquanto o modus operandi continuar fresco.

MODO PRA VALER, UH! SÓ DETONAÇÃO… E DA PIOR.

É depois da primeira hora de jogo que se vai começar a notar que algo ficou pelo caminho. Para um jogo que faz todas as suas apostas no arsenal à disposição, executar soldados inimigos não é tão satisfatório. As armas soam fracas, é difícil acertar alvos em movimento, e o dano causado é inconsistente. É simplesmente mais fácil tomar um tanque ou se chocar contra um helicóptero do que tentar destruir um dos dois. Armas mais pesadas, como as granadas com propulsão de foguete, apesar de poderem esmigalhar praticamente tudo que estiver no raio da explosão, não contam, obviamente, com muita munição, o que tornaria o game fácil em demasia. É entediante, ainda, a peculiaridade de ter de ir à loja, reservar a arma, sair, telefonar para confirmar a compra e a chegada da arma à loja e aguardar (enquanto leva e dá muitos tiros pelas ruas) até ser, finalmente, capaz de sacá-la. Por que não apenas entrar na loja, comprar a maldita gun no balcão e sair atirando sem delongas, que nem nas vendinhas dos Estados Unidos?

Versão PS3 – o fogo parece um raio laser de um Star Fox rodando no GameCube!

A versão virtual da Venezuela contida nesta mídia é imensa, porém isso traz pontos negativos na esteira. Os desenvolvedores não incluíram muita coisa para se fazer nas estruturas com bastante potencial espalhadas pela capital Caracas (que no game não chamam de Caracas por motivos óbvios), então o gamer será tentado, quase que exclusivamente, a estabelecer seus próprios critérios de desafios, não-raro explodir edificações, transformar carros em carcaças ou aterrorizar civis pilotando um tanque no meio das principais vias. (Ah, o sonho americano: detonar países autoproclamados socialistas… Nojento!) Pode ser um hobby especialmente afeito aos destruidores e revoltados de carteirinha, porém é uma péssima notícia para quem espera aquela clássica relação com um jogo em que ele possa ser “zerado”. É-se penalizado por machucar ou matar cidadãos normais, que não têm nada a ver com suas brigas de facções – o que mostra que os mercenários são muito mais éticos que a Casa Branca –, mas além disso uma simples bala perdida durante uma de suas rodadas de diversão aloprada no meio urbano pode enfurecer uma facção inteira. As facções são a principal fonte de novos trabalhos e podem ser essenciais para progredir, mas quando uma em específico está indignada com o jogador, pararão de oferecer serviços sujos e começarão a abordá-lo de forma “pouco amistosa” a cada esquina (elemento copiadíssimo de GTA2 em diante).

A extensão incomum das fases oferece outro problema: a não ser que conte com a opção do transporte instantâneo, vai demorar uma eternidade para passar de uma zona da cidade à vizinha, quanto mais de uma ponta à outra do mapa! É fácil se perder nos afluentes das ruas; o GPS incorre em erros que fazem um Waze desregulado parecer a melhor bússola do mundo; soldados aliados abrirão fogo de súbito enquanto você tenta se localizar; (!!) se estiver de helicóptero, ele é freqüentemente derrubado dos céus por mísseis que tem acurácia quase perfeita e mal se anunciam no radar. Para tornar as coisas ainda piores, quando se é morto depois de ter atingido um checkpoint em um ponto diferente da fase, é, ainda assim, necessário voltar ao marco zero (à base) para ser re-incumbido da missão e só em seguida voltar (é como se o check/save point não servisse pra nada!).

PS3

Três personagens não-selecionáveis surgem para suprir o jogador de veículos/serviços sem os quais ele não poderia cumprir todas as missões: uma mecânica, um piloto de helicóptero e um piloto de jatinho. O piloto de helicóptero talvez seja o mais útil dentre eles. Servirá para jogar suprimentos (que podem ser inclusive soldados) e transportá-lo, desde que o jogador disponha de dinheiro para gasolina e munição. O piloto do avião, um russo bêbado rei-dos-estereótipos, joga bombas à menor solicitação. Porém, esses bombardeios aéreos são muito menos eficazes do que transparecem: é muito raro que o veículo esteja próximo o bastante para causar estrago significativo, além do que é terrível se concentrar em um alvo por mais do que alguns segundos, porque o adversário agredirá com muito mais perspicácia e precisão e estar-se-á correndo o risco de explodir com o russo e sua vodca, todos juntos, de um segundo para o outro! Se pelo menos ele enfiasse toda aquela vodca no c…omplemento de combustível do veículo!

Apesar das missões terem algum tipo de enfoque (proteger tal objeto ou agredir tal porção das forças inimigas), o método mais fácil para cumpri-las é explodir tudo que houver à frente e que esteja atrapalhando. Táticas específicas seriam perda de tempo, porque não funcionam. A mecânica é consideravelmente inútil, uma vez que tudo o que ela pode oferecer é um carrinho novo, o que não satisfaz as ambições do mercenário apelão, e custa um preço anormal: sucata encontrada em caixas espalhadas pela cidade inteira, que não valem o suor dos polegares do jogador.

Na prática, Mercenários, em sua segunda versão gamística, funciona como um Grand Theft Auto cadeirante: promete muito, realiza pouco. Para quem não gosta de sair pela cidade causando pandemônios aleatórios, quase nada sobra no fundo da panela. Quanto às diferentes facções com que se pode entrosar ou rivalizar, é uma só, tipicamente, que oferecerá todos os contratos importantes para se avançar na narrativa. Houvesse maior preocupação com variedade, o jogador teria de intercambiar favores entre os times envolvidos em rixas, tornando-se um verdadeiro camaleão maquiavélico, o que não é o caso. Maioria dos objetivos é tomar um prédio para servir de novo entreposto mercenário. [bocejos]

Quando se foge muito dessa premissa, é para pior: escoltas ou duelos de corrida sem muito sentido (Need for Speed Underground agora, família?). Há ainda tarefas secundárias optativas, como os high value targets, ou cabeças premiadas, naquele esquema “vivo ou morto”. Nos casos mais simples, basta capturar a vítima e fotografá-la para ser financeiramente remunerado. Não obstante, e de novo, não vale a pena correr atrás de esmolas quando fazer barbaridades e promover o caos de modo pouco inteligente rendem muito mais doletas! Mesmo que se tentasse bancar o bom samaritano e eliminar os cartazes com o rosto dos mais cobiçados estampados nas paredes do seu escritório (dentre eles não vi a cara do Shanks!), soldados do próprio time do jogador podem acabar matando aqueles que ele desejaria ter vivos sob seu poder, no meio do bangue-bangue!

O CONSOLO É QUE SÓ PIORA: ASSIM VOCÊ PÁRA LOGO DE JOGAR!

Os problemas mais graves, que DEVERIAM EXPLICAR uma avaliação numérica baixa para Mercenaries 2 (mas as notas da crítica e dos fãs foram e são boas, e o game vendeu bem, o que é o mais incrível!), começam pela IA deprimente. Correr para trás de um edifício fora do alcance dos disparos dos mercenários rivais salvará a pele do seu personagem (graças à regeneração automática da life bar), visto que eles não o perseguirão até pontos distantes do mapa. E na hora de destruir um veículo ou equipamento, o mais fácil é se aproximar ou mesmo entrar no local e esperar que os próprios imbecis que querem enterrá-lo façam o serviço sujo no lugar de impedirem que o gamer o faça. Brilhante!!!

PS3

Segure-se, porque a lista de deficiências apenas começou: helicópteros sumirão do espaço aéreo, como num malfadado tilt; ou os suprimentos que eles deviam deixar num bom lugar vão parar em telhados, inacessíveis sob qualquer circunstância; faróis flutuarão no meio do nada (uma ode a Super Mario 64?); pessoas que você deveria resgatar talvez se afoguem sozinhas ou apenas uma parte do corpo delas entre no helicóptero (defeitos poligonais de primeira geração dos consoles caseiros, como venho dizendo!); aliados se rebelarão contra o jogador sem motivação aparente (talvez por mal-entendidos anteriores em suas biografias? – coisa que o enredo infelizmente não se esforça para esclarecer); atirar é tão complicado que correr até os oponentes e socá-los pode ser mais interessante; soldados mortos renascem nas torres de comando e retomam postos que você já havia roubado para si (o que é isso, fizeram um trato escuso com Mefistófeles?); balas atravessam paredes; pedestres entram na frente do seu carro buscando o suicídio simples e rápido; o game pode travar durante uma tela de loading; o personagem pode sofrer morte súbita com energia restante para combater; e sequer será estranho caso os dados salvos sumam sem aviso prévio!…

Pararei por aqui, mas é um relato categórico de erros inaceitáveis para qualquer deep 3D game do século XXI, ou qualquer jogo divertido desde a era Pong. Quando falamos em 3D profundo, falo dos open-world de proporções épicas que começamos a ver desde o PlayStation3 e o Xbox 360 (com Red Dead Redemption como o template-referência na temática faroeste), mas nem por isso fazemos vista grossa à versão PS2, que apresenta limitações equiparáveis, só que sentidas como se fossem maiores, dadas as limitações naturais de hardware.

PS2

FLIP THE COIN, VEJA AS GOTAS DO COPO VAZIO!

Há um modo cooperativo online para 2 jogadores que ajuda a elevar um pouco a nota final. É possível reviver o colega para evitar o interrompimento da ação. Normalmente, ter o dobro do poder de fogo tornará as missões muito mais fáceis, contudo um parceiro imprudente vai direcionar as milícias e gangues rivais também para cima de você (o que, agora, pelo menos é engraçado)! Continua a haver uma série de bugs, talvez maior, devido à interface via internet, propícia a uma menor fluidez. Considerando-se o montante de erros do single player, não é uma possibilidade desprezível ter seu dia arruinado, mesmo sendo o modo mais divertido do DVD!

ASPECTOS TÉCNICOS: PREGOS FINAIS DO CAIXÃO & RESSALVA (DUVIDOSA) PARA CONSUMIDORES MICROSOFT

Os gráficos estão longe da solidez. As versões do X360 e do PS3 são praticamente idênticas, com exceção de problemas de aliasing mais comuns nas máquinas da Sony, desde a primeira geração do PlayStation: texturas mais embaçadas do que o normal (Lembrem-se, meus caros, que o próprio Nintendo 64 já vinha com um recurso chamado anti-aliasing? Pois é, mas o grau de limpeza das texturas continuou progredindo marginalmente século XXI adentro…). Como se pode ver pelas imagens, os carros possuem rodas patéticas, dificilmente aprovadas por Pitágoras. Inimigos parecem ter sempre o mesmo rosto e apresentam uma animação de morte das mais estúpidas e rocambolescas! Por último, a paleta de cores é apagada, cinzenta demais (parecida com a de Gears of War), defeito quase inescapável para jogos do gênero na segunda metade da década 2000. Mesmo os tributos (obviamente involuntários) a sucessos da indústria dos anos 90 (Mario, GTA bidimensional, Need for Speed) não são o bastante para capturar a atenção dos gamers em 2023. Alguém que tenha experimentado a versão de Xbox 360 poderia me dizer por que ela é tão boa (aparentemente melhor que a dos “vizinhos”) – se é que já jogou as demais para comparar pessoalmente?

CURIOSIDADE: DESSA NOS LIVRAMOS!

A Pandemic Studios (mas que nome!) faliu pouco depois de Mercenaries 2, e a Electronic Arts, rainha dos jogos overrated, chegou a iniciar a produção de uma continuação pelo selo EA Los Angeles. Felizmente perceberam a tempo que a franquia era uma bosta e cancelaram o projeto!

CEREJA DO BOLO: UM JOGO NÃO EXISTE NO VÁCUO

(TUDO É POLÍTICA, ATÉ EXPLOSÕES INSOSSAS SEM-SENTIDO – aliás, quer mais política que isso?)

“Eu acho que o governo americano sabe como preparar campanhas de terror psicológico a fim de realizar futuras ações, ainda mais ligadas a reservas de petróleo.”

Ismael García, congressista venezuelano do partido PODEMOS à época. Interessantíssimo observar que o Podemos, de esquerda, já havia rompido com Hugo Chávez, então presidente venezuelano, em 2007, antes de Mercenaries 2, e hoje (2023) Ismael é do Primero Justicia, de centro-direita (trajetória parecida com a de ex-petistas não-bolsonaristas, embora este assunto por si só merecesse um artigo dedicado). Portanto, sua declaração não reflete sequer qualquer interesse em concordar com o governo venezuelano da época, mas demonstra que todo político responsável do Executivo de um Estado pode se sentir ameaçado quando um jogo produzido pelo maior mercado de games e incidentalmente maior superpotência militar do planeta “passa uma péssima imagem” do próprio país contemplado no jogo que criou – para dizer o mínimo – com fins de puro entretenimento (essa nós não engolimos!). E, assim, legitimamente protesta em nome do povo venezuelano. Exercício mental para programadores brasileiros ousados: criem um jogo em que o objetivo seja matar Biden ou Trump e vejamos o que não lhes acontece (a vocês, não aos velhinhos bilionários)!

Agradecimentos a Aaron Thomas do gamespot, à notícia em gamedeveloper.com/pc/venezuela-upset-at-message-sent-by-i-mercenaries-2-i- e a imgflip.com pelo meme acima.

Por Rafael de Araújo Aguiar

versão 2 – 2012: criação original. 2023: resenha ampliada e articulada politicamente.

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Este post está sendo excepcionalmente publicado em simultâneo nos dois blogs do autor devido à intercessão de assuntos (games & política), rafazardly.com e seclusao.art.blog. (versões de fundo negro ou branco, conforme preferência do leitor)