A TRANSMIGRAÇÃO DA ALMA BUROCRÁTICA AD NAUSEAM

Todo órgão, toda coordenação, todo setor e toda salinha do funcionalismo, ou toda instituição, de qualquer natureza jurídica que ela seja, possui uma história e como que adquire uma espécie de “espírito”, como se fosse um ente vivo. Isso não é novo, todos conhecem, é chover no molhado de março. Mas proponho reconhecermos de forma um pouco mais aplicada esse – querido por uns, temido ou repudiado por outros – fenômeno social. Se Pitágoras estivesse vivo, diria que a transmigração das almas tem validade também no serviço público, e funciona não à morte do indivíduo, mas à morte do burocrata (sua aposentadoria ou qualquer outro tipo de evento que o afastou das atividades laborais). É, portanto, o reconhecimento de que a alma está compartimentada ou, pelo menos, que ao entrar no serviço público o indivíduo, de carne pele e osso, vai criando, até que esteja completa e crie autonomia, uma alma de burocrata. Todo burocrata tem uma alma de burocrata, é simples o silogismo. E quando este burocrata parte, na verdade foi-se apenas seu corpo material, ou a força de trabalho – permanece no ambiente, no recinto, no espírito de corpo dos colegas que sucederam suas funções (ainda que o lugar em que o burocrata trabalhasse tenha mudado e nem exista mais – digamos que a alma se desloca até a nova sede, ela tem essa capacidade cigana), sua alma, exercendo influência sobre as novas almas burocráticas ativas – i.e., se formos levar o raciocínio mais a fundo, em última instância a alma de um burocrata novato nada mais é que uma alma de um burocrata aposentado reciclada, ou uma mistura de várias delas condensada numa alma só. Nada se perde, tudo se transforma – órgãos se criam, órgãos se destroem por decreto, MPs, ECs, seja lá o quê for, mas o que eu queria dizer é que: uma coisa permanece estável, desde que o Estado é Estado: vivemos num ciclo infinito de transmigração de almas. O temperamento dos novos tempos adquire dos antigos, com que talvez nem tivesse contato (um entrou depois que o outro saiu), suas principais características. A cadeira em que se senta, e o jeito de sentar, de olhar para o nada e se espreguiçar, o documento que se assina, o humor com que se recebe o público, a piada que rola no horário de expediente, o montante de café consumido – nada é original, tudo já foi assim um dia, mais ou menos parecido, não exatamente igual, com outra turma de pessoas. Nenhum antropólogo pode viver 3 gerações de servidores (nenhum Lévi-Strauss o desejaria) para diagnosticar essas repetições sistematicamente, isto não é um artigo científico, longe disso! É apenas uma intuição, despertada em mim por uma anciã alma do bureau, não sei se tola ou sábia, mas pelo menos com seus momentos de insight e perspicácia. Assim me foi comunicada esta hipótese tão provável quanto nossa existência dual partícula-onda, carne-luz. Hoje ancestrais purificadas e renovadas, amanhã reencarnadas nos burocratas do futuro, dotando-os das manias e bizarrices de um urbanoide anos 2000…

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