POR QUE A PROSTITUIÇÃO JAMAIS ESTEVE TÃO PRESENTE APÓS A CRISE DA INSTITUIÇÃO DO CASAMENTO NO OCIDENTE HODIERNO

Este texto foi originalmente redigido e publicado em meu primeiro (e extinto) blog, em 07/10/08. Eu tinha 20 anos. Hoje, mesmo que ainda concorde com maioria do que foi dito, não me expressaria da mesma forma.


Artigo dedicado a

colegas de discussão, em especial o Thomas

qualquer um que discorde dos métodos do professor Luiz Gusmão

os fãs de artigos bem-escritos

e, finalmente, às corajosas namoradas de quem primeiro ler (obviamente, homens)


Na página 8 de Filosofia do Amor, Georg Simmel nos brinda com a seguinte passagem: “(…) é fatal que um aumento de cultura acarrete uma necessidade maior de prostituição”, no que foi desqualificado peremptoriamente pelo cânone do magistério de Sociologia da UnB, Gusmão, em sala de aula repleta de alunos. O professor defende que a variável “flexibilidade da moral”, em 100 anos, tornou a afirmação obsoleta. Não é verdade. Ela jamais foi tão válida e referendada pelo quadro social. O “empirismo neo-platônico” gusmoniano falhou mais uma vez. Em sua decadência que recrudesce, o Ocidente continua sendo unidimensional neste aspecto. Jessé Souza, autor da Introdução a Simmel e a Modernidade, me inspirou a contra-atacar  minha cátedra, pois palpavelmente compartilha de meu ponto de vista.

Até que haja rupturas galopantes da moral (“bons costumes”) e da justiça (e respectivos “tribunais imparciais”) haverá crescimento de prostituição e elevação de crimes.

Há visivelmente um paralelo que elucida a compreensão da massificação da sujidade feminina, que é a correspondente explosão da criminalidade, sobretudo de crimes periféricos, como é o caso do roubo de um pote de margarina. Há crimes brandos e crimes graves; bem como há a prostituta clássica e a fêmea de hoje em dia (uma “mulher da vida em doses homeopáticas”).

Quando Simmel fala que homicídios eram tributados com módicas multas, subentende-se que “crimes não eram valorizados em uma sociedade arcaica”. Essa leitura ocidental despreocupada com a desconstrução de categorias é nefasta, erro crasso. Matar não era considerado crime, eis o sensato. Todo crime tribal é hediondo. Quem praticar o incesto ou cozinhar um animal-totem será castigado com a morte. O crime era sempre grave. Mas era episódico. Hoje um ato ilegal é coibido de maneira mais macia – o que não evita a pecha de marginal – e sua prática se alastrou bastante.

Hoje, aceita-se muitas “depravações leves”, contra o quadro anterior¹ em que poucas ações (ou se se quiser mulheres) eram depravadas porém estas eram notórias e suportavam a carga apenas entre elas. Houve então uma “democratização” da vadiagem, o que está longe de simbolizar o afrouxamento moral.

¹ Sociedades ágrafas, Antiguidade e idade média.

O tabu é tão vigoroso que na sala de aula é benquisto ao professor homem disfarçar suas opiniões sobre o assunto. A mulher negará até o último momento ou mesmo não compreende o panorama.

Quanto mais fervilha a economia especulativa, mais se enxergam essas vicissitudes. A questão dos relacionamentos sexuais precoces que serviriam para evitar que o mancebo recorresse a prostitutas antes do casamento é um incidente que não atrapalha a teoria – muito pelo contrário: com a instituição do matrimônio em crise irreversível, sobra má-fama para todas. Inexiste qualquer pureza de espírito na mulher contemporânea em sua infinidade de sub-moldes.

Antes, a fogueira como punição da desonra. Hoje, cochichos. Quanto mais dinheiro, maior a força da propriedade. Mais sórdido é o caráter da exclusão social – os status de marginal/trombadinha e mulher que se vende tornam-se insuportáveis. Acirra-se o contraste. E ao mesmo tempo é impossível para cada homem não ser ladrão de vez em quando ou para cada mulher não agir feito puta. Isso não sou eu quem inventou: está nas ruas. Nunca a palavra de quatro letras foi tão empregada. Na sociedade das prostitutas, a mãe daquela que esqueceu por segundos de ser pudica é fortemente coagida pelo verbo. A proliferação da categoria das fêmeas que rodam a bolsa as está tornando sinônimo do grupo social, mais abrangente, “mulher” – engolindo o gênero feminino tal qual buraco negro. A castidade passou a ser encarada como mito. Houve a ampliação descomunal do conceito. O pote de margarina, banal, disseminado, me evoca a não menos freqüente menina-sabão. “Menina” que é de nítido caráter inocente, conjugado com o instrumento básico de limpeza nos lares e cuja função é escorregar, de mão em mão se for preciso. A limpeza vira sujeira quando se ensaboa os homens. Estranha palavra híbrida ocidental pós-moderna…

Se nem todas chegam a tanto (ser uma “menina-sabão”), pelo menos se diz que “tem cara de”, “se parece com uma”, “está agindo feito uma”, ou é insinuante em algo, se veste de maneira que provoca. Seja como for, algum pecado a moça tem! Obviamente, ele é produzido pelas relações de dinheiro. Certo é que o fenômeno não desapareceu, mas se fortaleceu. Quanto mais dinheiro, mais os valores da dignidade humana se degradam.

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