RÁDIO 1
Primeiro Solilóquio
Eu acho tudo igual,
porque dessemelhante permanece, e só um fraco feixe de luz cai. Sabes tu, o raio alumia meu tempo minha vida, aponta o caminho ao Mundo de Alexandre. Esse mundo me promete a volta do mal, assim como a penumbra dos tumultuados tijolos é um louvor à existência.
Cômico. O papel de parede não volta a seu lugar…
Sabes tu, o mundo vem sempre com esse deslocamento do papel de parede no jogo. O raio de luz evanescente acompanha todo o jogo. E então os Arcanjos Gabriel e Micael me apontam coisas, com mórbida fascinação. Embora abstrato, absurdo até, é, digo-te, a mais clara e completa claridade.
A claridade se consuma em cada homem, sobretudo na morte! Eu sei, creia-me! É toda uma canção humana e patética. Mas aqui não se trata de humanidade, mas do papel de parede jamais voltar a seu lugar! Do umbral eu antevejo,
talvez me espere alguém. Gabriel, quem sabe? Logo saberei. Estranho. Tudo que era ruidoso e barulhento está agora em calmaria. Ah, naturalmente… – ela dirá! Mas não, isso não extingue nosso angustiante tormento. Ah, diga, diga… não há nada como uma extravagante canção! Deixe estar…
Eu me pergunto se a estática do rádio e essa sensação de chiado silêncio e solidão tem algum significado, isto é, pode ser um diálogo. Por favor, guardem para si vossos comentários, pois eu só busco minha própria atenção.
Muito obrigado.
Segundo Solilóquio
Merda! Devo eu retornar à monótona noite e quem sabe com cicatrizes palpitantes me render à própria realidade de Mammon?
Onde é nu esta bosta de rádio? Ontem eu contemplei outra vez o espetáculo deplorável do louco, aquela dança horrenda de sapatilhas que deslizavam como trenós. Seja como for, senti aquela sensação banal, como se ele procurasse algo no rádio. Vou pensar naquele estranho quartinho de menina na casa. Finalmente eu encontrei os diários em capa dura das três garotinhas.
Intitulados “Sombras do Mundo de Alexandre”. Eis o homem… Estranho!
RádiŒpílogo 1
Eu cavalgo a cobra e acho o chacal.
E Jesus Cristo come, ávido, sua barra de Milka.
Deus gosta dessa música, é o que eu acho.
Deus, vai pro inferno! vão todos vocês juntos!
Preciso pensar na lagosta e não em isso-cantar.
