PLATÃO, ARISTÓTELES E A INFLUÊNCIA PITAGÓRICA NO “TRATADO SOBRE A MÚSICA”, DE PLUTARCO – Roosevelt Rocha (UFPR), 2013.

Um primeiro aspecto interessante a destacar aqui é o fato de Plutarco acrescentar o adjetivo ‘agudo’ (oxeia) para caracterizar a harmonia lídia que Platão não usa. É possível que essa predicação tenha origem num comentário da República que não chegou até nós ou mesmo num tratado de um musicólogo que tivesse estudado a questão do valor ético das harmonias.” Não precisa ir tão fundo: ele apenas conhecia a música lídia.

Desse modo, para Plutarco, a harmonia lídia, aparentemente, corresponde à lídia tensa de Platão. Para explicar essa diferença, Gevaert (1881: 154) diz que Plutarco teria cometido uma omissão no seu texto. Salazar (1954: 426), por outro lado, afirma que o termo syntonolydisti, usado por Platão, não era mais usado na época de Plutarco. Mas é possível também que a caracterização diversificada já estivesse presente numa fonte intermediária que o queronense pode ter usado para tratar das concepções musicais do discípulo de Sócrates.

Em seguida, no capítulo 16, Plutarco trata da harmonia mixolídia. Segundo nosso autor, essa harmonia era patética (pathētikē) e, por isso, apropriada para as tragédias. Ela seria o contrário da chamada lídia ‘relaxada’ ou ‘distendida’ (epaneimenē). Depois, no capítulo 17, Plutarco diz que a mixolídia era lamentosa e a outra relaxada. Quanto à primeira harmonia, as palavras de Plutarco estão de acordo com o que Platão diz. Porém, no que diz respeito à lídia distendida, cabe examinar o que significa exatamente o adjetivo epaneimenē.”

ESQUEMA DA OITAVA NA ESCOLA PITAGÓRICA

A mesma relação, invertida, entre 12/8 e 8/6

Como Plutarco, no seu comentário, apresenta um raciocínio eminentemente musical, inclusive empregando os nomes das notas (hípate, nete, mese e parámese), podemos supor que tivesse sob os olhos um outro livro, além do próprio Timeu, de Platão, que dava um relevo maior à presença da teoria harmônica de raiz pitagórica na obra do filósofo ateniense. Que obra era essa, nós não sabemos. Segundo Lasserre (1954: 168), essa fonte levaria a explicação mais além, já que os intervalos de terça e de sexta ou de sétima e de um tom também cumpririam as condições estabelecidas.

A partir do que discutimos até aqui, parece ficar a impressão de que Plutarco não consultou o próprio texto de Platão para redigir o seu tratado. Aparentemente, ele estava usando uma fonte intermediária onde se dedicava uma atenção especial ao tema da música na obra do filósofo. Isso pode ser a explicação para a ausência da harmonia frígia no texto de Plutarco e também para a interpretação especial acerca do Timeu.” Neste último parágrafo eu acho que a dedução vai longe demais: em busca da originalidade no artigo, o autor palpita algo inverossímil (Plutarco não ter acesso ao hiper-disseminado texto de Platão!). Hipérbole acadêmica.

Mas faltava [em Aristóteles] tratar ainda do intervalo de um tom, chamado ‘epógdoon’ na tradição pitagórica. Ele é representado pela proporção 9/8 que resulta da diferença ou excesso da quinta em relação à quarta. O tom ou epógdoon é o espaço localizado entre a parámese e a mese. Ele separa os dois tetracordes que formam a oitava e é numericamente encontrado através da operação seguinte: 3:2 (quinta) : 4:3 (quarta) = 3/2 x 3/4 = 9/8.

O capítulo 23 é importante, porque reforça a percepção de que Aristóteles estava interessado na música, não só nos seus aspectos éticos e pedagógicos, mas também nas discussões acerca da teoria harmônica. Não chegou até nós nenhum tratado musical de sua autoria. Mas há muitas partes de suas obras em que trata de questões musicais, como no livro VIII da Política. Há ainda os livros XI e XIX dos Problemas, que parecem ter sido redigidos por algum aristotélico, que tratam de temas musicais. Além disso, sabemos que o pensamento de Aristóteles exerceu uma influência determinante sobre as concepções teóricas de Aristóxeno de Tarento, o maior musicólogo da Antiguidade Clássica, que foi discípulo do estagirita e aproveitou algumas de suas idéias para construir sua teoria musical baseada na percepção e não no cálculo matemático.”

Essa influência pitagórica pode dever-se ao fato de que Aristóteles, no trecho citado por Plutarco, estaria tratando especificamente da teoria harmônica pitagórica. Ou, por outro lado, a influência pode ser resultado de uma interferência por uma fonte intermediária, ou seja, um tratadista cuja visão seria marcada pelo pitagorismo e que teria sido utilizado por Plutarco no trecho em exame.” Ótimo, mas sem essa fonte, nada se conclui.

É possível que a fonte desse capítulo seja Aristóxeno, já que o fragmento 73 Wehrli apresenta um texto muito semelhante ao que encontramos no nosso tratado.” Forçando a barra até onde pode!

nosso autor lembra que a visão e a audição são geradas através da harmonia. Elas são celestes e divinas e permitem que os homens percebam e manifestem em si próprios a harmonia com o auxílio da luz e do som.”

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