HEGEL, MARX E NIETZSCHE: ARISTÓTELES, PLATÃO E SÓCRATES DE CABEÇA PARA BAIXO

Texto originalmente publicado em 26 de março de 2009

Na Introdução à Crítica da Filosofia do Direito de Hegel, o Marx jovem lança os postulados da sua futura filosofia iconoclasta trans-moderna. A partir da página 108 (edição de A Questão Judaica que contém o excerto no apêndice) a covardia alemã e o estado de subserviência da cultura teutônica tornam-se palpáveis.

Quais são os principais sinais de que uma cultura começa a evaporar (entra em decadência)? Um inequívoco é a transformação do que foi trágico em Comédia. O Estado alemão do século XIX, comandado por kaisers que tentam ser ingleses, é a sátira do Antigo Regime. Segundo Karl Marx, tendemos a nos despedir de um processo histórico de modo alegre, rememorando suas facetas risíveis. O mesmo se sucede hoje, na Pós-Modernidade: todas as Artes e todas as Ciências são auto-comediantes. Chegou-se ao ponto de as comédias de comédias proliferarem: Guerra nas Estrelas, uma paráfrase cósmica dos combates épico-medievais (George Lucas bebe da fonte de Tolkien), é a série campeã de referências divertidas nos filmes e seriados americanos. No âmbito político, ver Chávez, o Carlitos do Socialismo, o último adeus da alternativa falha ao Capitalismo clássico.

Voltando à Alemanha, inscrevia-se o país em uma situação tão peculiar que se poderia defini-la no entreposto entre o esgotamento do mundo idealista e o não-saber-o-que-fazer. Isso implicava refutar qualquer filosofia e, tacitamente, aceitar o destino fatal, o cumprimento da mesma filosofia (de qualquer modo, a maneira mais ágil de transvalorar, se não fosse a única)! Se tudo por enquanto (anos 1840) fôra teoria (imaginação), amanhã o que faríamos não seria prática, mas tão-somente reflexo do que viemos a ser… Até que o movimento iniciado gere um colapso extraordinário e outro projeto renasça das cinzas – Holocausto? Por colapso sem proporções, certamente quer-se dizer o fracasso e a humilhação alemães, o débito pelo progressivismo tedesco no século em que a Inglaterra não queria guerrear.

A Alemanha havia cumprido sua função intelectual antes do mundo – Hegel é quem disso se apercebe, sendo simultaneamente aquele que arremata esta compreensão, assim como um protagonista de García Márquez fadado a desaparecer lendo um texto sobre si –, mas parou em 1900. Os dois filósofos de mais renome que sucederam Hegel são os pássaros do devir do mundo moderno.

Hegel percebeu que quando o homem se dava conta de que estava preso numa cadeia de fatos já projetados, aí nascia a História. Marx apenas reforçou esse juízo com sua pseudo-inversão. Talvez Nietzsche não tenha reforçado muito mais, porém foi categórico. O que é do futuro do projeto realmente autônomo é de lá e é apenas uma meta do observador daqui, QUE AINDA NÃO SUPEROU A SI MESMO. Marx se engana no derradeiro pingo de seu trabalho, quando, consciente de que o homem que ainda não se superou jamais teria respostas definitivas para problemas como esse (simplesmente o da auto-superação da humanidade!), ainda assim afirma que a chave da transvaloração é o proletário. Nietzsche não cita diretamente nenhuma fórmula capaz de subverter o Cristianismo, o espírito iluminista e os Estados-nações. Não há fórmulas. A fórmula é decidida pela própria existência a cada segundo transcorrido – a única menção mais clara de Friedrich Nietzsche ao atingimento do Übermensch consta do princípio de Vontade de Potência e é um duplo alerta: caso as categorias do niilismo se mostrem invencíveis, justo no momento em que o homem teria mais força e capacidade para ultrapassá-las, tendo chegado tão longe, isto significaria que ou os modos de produção não estão maduros o suficiente ou ainda não se encontrou o modo adequado. Talvez essa seja a linha mais enigmática do legado deste último filósofo, o Sócrates depois de Cristo. Provavelmente as duas coisas vêm juntas, e ainda que não se possa pressenti-las no horizonte o pensador do martelo, morto em 1900, nos envia preces otimistas (especialmente a nós): não importa o dia em que cheguem, os novos valores um dia vão chegar…

NOTA CONCLUDENTE: Por incapacidade total de que me entendam adotarei silêncio rotundo e constante sobre as coisas da vida em conversas. Lembre-se sempre: é melhor para a alma forte ser centrípeta que centrífuga, e aliás é o único pathos que ela conhece para si. Respirar o ar do crepúsculo e sê-lo, ser mais imperioso que qualquer jovem, que quaisquer pés sobre o asfalto. Auto-satisfação comigo mesmo e com minha majestade. A onda do mar navega milhas e milhas antes de arrebentar. Escolherei o pedregal.

Deixe um comentário

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.

Descubra mais sobre Seclusão Anagógica

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continue lendo