Muito se fala sobre esperteza, inteligência e sabedoria. O povo é bom em apreender imediatamente qualidades, mas ruim em definir conceitos.
A esperteza está associada à imediatidade da memória e ao egoísmo. Seu contrário é a lerdeza.
A inteligência, ao acúmulo da memória, tendente à paralisia se o uso da memória se aproxima do máximo, como com uma caixa de e-mail e seu espaço de armazenamento cada vez mais curto sem a manutenção do usuário. Tendem também a inteligência e seu constante cultivo a uma espécie de desinteresse, embora existam outras (espécies de desinteresse). Seu oposto é a burrice clássica.
Esperteza e inteligência são termos relativamente intercambiáveis no uso do dia a dia, e esse fato não é acidental. Há um pressentimento de que alguém é “um dos dois”, mas não ambos em conjunto. É até quase impossível ser inteligente sendo esperto. Ou ser esperto sendo inteligente, graças à natureza de “depósito da memória” da faculdade da inteligência. Do ângulo da mundanidade, o esperto e o inteligente são como água e óleo. A sabedoria é transcendental e ainda não entrou na conversa.
É que do sábio e da sabedoria nada se pode afirmar. A sabedoria é tão instável e flutuante quanto o humor e, para todos os efeitos, todo homem é instável de humor, caso essa simples analogia não tenha bastado para estabelecê-lo diante do leitor. Estamos em uma aporia. Precisaremos da ajuda de um filósofo consagrado neste momento:
“SÓ SEI QUE NADA SEI” (Sócrates) nunca foi uma afirmação irônica ou falsa modéstia. Sempre significou no seu mais profundo aquilo que diz literalmente (em modo alongado, para melhor compreensão), quer seja, “Cheguei a saber o que vem a ser a sabedoria, mas me é impossível determinar se sou ou não sábio, exatamente em virtude da própria descoberta, visto que nenhum homem neste mundo pode dizê-lo e ter esperança de atingir a verdade da questão. Pode ter a mais plena convicção de ser sábio e no entanto estar errado. Normalmente está, quando tem certeza. Somente o que se pode afirmar é: sou ‘mais sábio’ do que era outrora; e quem haveria de afirmar que é ‘menos sábio’? É bem possível (a situação de se tornar menos sábio ao longo do tempo), mas o ego não admitiria, seria uma chaga profunda. Talvez possamos dizer que nosso ego nunca é sábio. Enfim, sou mais sábio do que já fui antes, mas quão mais sábio me torno mais vejo o quanto sou ignorante, e posso prever uma situação em que sou dez vezes mais sábio que agora, e teria dez vezes mais dúvidas sobre minha própria sabedoria, pois me sentirei, neste caso, o possuidor do décuplo da ignorância. Portanto, como posso dizer, se as coisas são assim, que isto – meu eu atual – é a detenção da sabedoria? Decerto que ANTES não era sábio, se é que agora o sou; aí termina todo meu conhecimento.”
É isso que significa a transcendentalidade da sabedoria. Ela é indeterminável por discursos mundanos. Pela nossa capacidade de observação empírica. Não só nunca poderemos avaliar se somos sábios como nenhum homem poderá emitir este juízo sobre qualquer de seus semelhantes.
Também salta aos olhos que a ética é matéria transcendental, assunto para a metafísica. É por isso que seguirá para sempre indeterminada, porque o ser-ético depende sempre do contexto. O “SOU BOM?” e o “SOU SÁBIO?” caminham de mãos dadas.
Há uma imensidão de espertos, mas pode-se, sem dúvida, ser lerdo, burro e ignorante (este último o contrário de sábio), tudo ao mesmo tempo. Nem água, nem óleo. O esperto costuma ser arrogante e depreciar a esperteza alheia. Uma conduta demasiado inesperta.
Ao sábio, figura intangível, tanto se lhe dá: se é lerdo ou atento, precavido ou desprotegido, se tem a cabeça ‘cheia’ ou ‘vazia’, se é o cume do egoísmo ou o cume do heroísmo altruísta. Isso são valores humanos, inúteis no reino da sabedoria, e é por isso que, se um sábio houver, ele ainda assim não passa de um homem, porque chega o instante em que estes valores lhe são muito caros; todo desprezo é afetação ou estratégia conscientemente temporária. Sempre voltamos ao mesmo lugar. Talvez essa seja a tragédia do sábio, que sendo cotidiana e se repetindo ad nauseam se torna por fim uma comédia: ele deve ser o mais esperto e inteligente que jamais vimos, mesmo sem querer sê-lo! Está sempre correndo de e atrás de si mesmo. E o homem – qualquer homem – pode ele ficar parado?
O próprio Sócrates, na opinião de muitos homens, tinha a pior das mulheres. Mas talvez fosse a melhor, a que mais lhe convinha. Dela mesmo, podemos dizer que não fosse sábia? Assumindo que tudo que a historiografia machista nos deixou seja fidedigno, ainda assim ela foi casada com o homem que em seu tempo era considerado pelos outros homens (ou pelo menos pelos cidadãos atenienses) o mais sábio. Quem mais podia se jactar de tamanha sorte? A isto aceito a objeção de que com família é como com dinheiro: nem esperteza, nem inteligência, nem sabedoria atuam, é questão de sorte. Mas o que resta saber é se no caso de Xantipa o único móvel, a única causa, em sua biografia, para ter se tornado a esposa de Sócrates foi mesmo a sorte.
No entanto, Sócrates, além de cunhar a frase definidora da sabedoria (ou melhor: definidora da indefinibilidade prática da sabedoria, no limiar mais mestiço entre ignorância e saber jamais registrado), e de ter tido uma “esposa interessante” (porque gera muito debate entre os estudiosos até hoje) conforme a historiografia (e devemos suspeitar do fato de que Platão, o maior biógrafo ou romancista de Sócrates, jamais se preocupara com esta personagem), completou sua vida do modo lendário que mais depõe a favor da hipótese de que Sócrates era um sábio (como mártir ou inaugurador de religiões ou doutrinas): se não podemos afirmar quem foi sábio e ter certeza de acertar, podemos dizer que quem tem medo da morte¹ não pode ser um sábio (e veja: para complicar, até para isso, para o morrer, existe a capacidade do simulacro; que homem de aspecto valente diante do cadafalso podemos dizer com certeza que não está no fundo apenas representando um papel? que covarde não nos poderia estar secretamente pregando uma peça, talvez pregando uma peça até a si mesmo?).
¹ Afirmação arbitrária? Se a morte é justamente incompreensível para nós, inevitável e uma incógnita que define nosso modo ético de ser, como capítulo importante da vida! Como o sábio teria medo da morte, este acontecimento sem testemunhos, se forçosamente ignora este fenômeno como todos os ainda vivos, e se a sabedoria é justamente ter consciência perfeita de sua imensa ignorância? Se ‘tanto se lhe dá’ isso como aquilo, como dito acima?
Nenhuma flecha mergulha com mais ímpeto rumo a seu alvo do que o sábio rumo à morte, esta é a única certeza. Que ele será bem-sucedido no mergulho, disso tampouco podemos falar, não podemos cravar nada! Sócrates foi soldado na guerra e viveu por sete décadas. Não morreu uma morte precoce de Alexandre Magno, como não morreu uma morte tísica de poeta romântico.
