septem. Sete. Os sete sábios (da Grécia). (Septem Stellae = Setentrião, as Plêiades; Septem Marĭa = os lagos junto à foz do rio Pó, onde Veneza foi mais tarde fundada; Septem Aquae = lago no território reatino).
september, septembris, (m.). (septem). O sétimo mês (no ano Romano, que se iniciava em Março). Setembro.
septemflŭus,-a,-um. (septem-fluo). Que possui sete embocaduras (epíteto do Rio Nilo).
septemgemĭnus,-a,-um. (septem-gemĭnus). De sete vezes, composto de sete.
septempedalis, septempedale. (septem-pedalis). De sete pés de altura.
septemplex, septemplĭcis. (septem-plico). De sete vezes, composto de sete.
septemuir,-i, (m.). (septem-uir). Setênviro (um dos sete membros do conselho encarregado da partilha das terras).
septenarĭus,-a,-um. (septem). Que contém sete, formado de sete elementos, setenário.
septendĕcim. (septem-decem). Dezessete.
septeni,-ae,-a. (septem). Em grupos de sete, de sete em sete. Sete. Sete vezes.
septentrionalis, septentrionale. (septentriones). Relativo ao norte, que se localiza ao norte.
septentriones, septentrionum, (m.). (septem-trio). As sete estrelas próximas ao Pólo Norte, a constelação da Ursa (denominada Ursa Maior e Ursa Menor). O Setentrião (vento norte). Território ao norte.
septĭe(n)s. (septem). Sete vezes.
septiflŭus,-a,-um. (septem-fluo). De sete braços.
septimani,-orum, (m.). (septem). Soldados da sétima legião.
septĭmus,-a,-um. (septem). Sétimo. (septĭmus casus = caso instrumental, caso adverbial sem preposição).
septingenti,-ae,-a. (septem-centum). Setecentos.
septiremis, septireme. (septem-remus). Que possui sete fileiras de remos.
septuageni,-ae,-a. (septuaginta). Em grupos de setenta, de setenta em setenta.
septuagesĭmus,-a,-um. (septuaginta). Setuagésimo.
septuaginta. Setenta. (irá interessar para os apreciadores do Velho Testamento que não sabem o hebraico!)
septuennis, septuenne. (septem-annus). De sete anos de idade.
septunx, septuncis, (m.). (septem-uncĭa). 7/12 de uma unidade. Sete onças (unidade de peso). Sete unidades, sete partes.
A família do sete, no Latim, ou seja, septum e os vocábulos dela derivados, nos oferece alguns esclarecimentos sobre nomenclaturas que nem imaginávamos ter relação etimológica com o número 7.
Primeiro recapitulemos que até hoje 7 é um nº muito ligado a superstições. Não me arriscaria a dizer que tem qualquer relação com sep-ultura, ou morte, no entanto, pois não teria condições de comprovar – seria cair no erro do lingüista empolgado e tosco, que devido a assonâncias começa a estipular etimologias e genealogias arbitrárias. Vide a genealogia incrivelmente fake da palavra aluno como despido de luz, uma piada de mau gosto que circulava muito antes de conhecermos o termo fake news e que não tem qualquer razão de ser, sendo o designativo aluno tão pouco (ou nada) pejorativo quanto seus sinônimos mais empregados, discente e estudante. Havia até campanhas de pedagogos (e alunos!) na internet (creio que nos anos 2000, quiçá até a década passada!) pedindo a remoção da palavra do uso cotidiano, o mesmo que se deu ou se dá agora com o verbo denegrir, o que está completamente equivocado no meu juízo (seria como estipular que em jogos de xadrez, a partir deste momento, as peças negras é que determinam o jogador que irá principiar o jogo – aspecto arbitrário completamente despido, até onde sabemos, de qualquer conotação racial). Tão ingênuo e deletério, outrossim, quanto crer que o quadro clínico da septicemia guarda qualquer relação com a palavra septem e se originaria do latim.
* * *
Como estudante intermediário do Latim e lingüista amador me atribuo a autoridade de desmistificar algumas noções que por aí circulam. Essa parte do primeiro parágrafo dissertativo, entretanto, foi apenas um bônus da postagem, concebido à última hora. Gostaria mesmo de apontar, dentre as palavras/verbetes dicionarizado(a)s mais acima, alguns nortes que recebemos sobre por que utilizamos tais e tais palavras no português hodierno. O trocadilho com norte, no sentido de rumo, direção, ficará logo esclarecido!
Começando pela alusão mais óbvia de todas: setembro, muita gente já sabe, se refere, na Roma Antiga, a nosso nono mês ser o sétimo do calendário daquela civilização, que não contava nem com janeiro nem com fevereiro. Até dezembro é mantida essa forma original de batizar os meses entre os romanos.
Algumas expressões foram completamente obliteradas na lenta transição ao português. Septempedalis não tem qualquer lugar num conjunto de países que adotou o sistema métrico, por exemplo!
Indo para o lado do cômico, já vi duplex(es?), triplex(ex), até quadriplexes, mas nunca chegaram a meu conhecimento “apartamentos” de cinco, seis ou até sete andares (já em si mesmo prédios de todo direito!). Um septe(m)plex, diferente de um septuagenário, seria dificílimo de encontrar no Brasil! Se bem que o mais provável seria chamar tal morada monstruosa de um multimilionário de heptaplex! A determinado ponto paramos de ser influenciados pelos latinos e tomamos de empréstimo denominações gregas (pentágono, hexágono…), como, aliás, os próprios latinos soíam fazer! Obs.: ao que consta, octa- é de influência latina, quebrando a seqüência, mas enea- e deca- regressam à tutela grega! Desenvolvimentos tortuosos…
Sempre me perguntei por que setentrional se chamava setentrional e meridional, meridional. Ora, meridional guarda relação com o meridiano, mas o meridiano seria a linha que separa os hemisférios. Então por que essa dissimetria bizarra? Seria por que nos trópicos bate mais sol, e meridiano é relativo ao meio-dia, quando bate mais sol em nossas cabeças? Bem, pouco importa, pois o objeto aqui é o setentrional: creio mesmo que descobri na astronomia-astrologia (então indistinguíveis) a causa de tamanhas superstições relativas ao número 7 e, de sobra, ao número 3, pois há uma palavra que reúne ambas as numerações e um pouco complicada de explicar, logo abaixo de septentrionalis no dicionário latim, embora este vocábulo já contivesse o “mistério”. 7-3-… Não é à toa, forçação de barra ou coincidência. Talvez uma coincidência dos astros, isso sim: é que do hemisfério norte podem-se ver 7 estrelas em conjunto. Trata-se da constelação da Ursa, para quem gosta de um horóscopo… O 3 associado e embutido no termo tem a ver com observações feitas por múltiplos autores latinos: sempre que se admira o conjunto de 7 estrelas, 3 parecem estar interconectadas no quadro menor, e pode-se mesmo permutar entre o trio de estrelas para obter a mesma impressão! Neste caso, uma só imagem vale mais do que todas estas entradas de dicionário, para me tornar mais compreensível. Veja quantos triângulos se pode traçar mentalmente olhando a disposição da Ursa:

Ao passo que um quadrilátero (à dir.) sempre implica a formação de 2 triângulos quaisquer que, somados, formam a primeira figura, na parte de cima ou à esq. visualizamos claramente outro triângulo, isolado. E, se chamássemos cada estrela, da esquerda para a direita, A, B, C, D, E, F e G, temos que ABD ou ACD, ou ADE, ou BDE, ou tantas outras combinações, como AFG ou AEG também formariam triângulos, dos mais variados ângulos internos. Antigamente havia mais tempo para apreciar o firmamento; nós, leitores de livros por excelência, temos de descobrir essas coisas, em nossas cidades poluídas (e principalmente nós, habitantes do hemisfério sul ou meridional), estudando sobre as observações dos contempladores e escritores daquele tempo remoto!
Vai saber se não tem a ver com isso o jogo do dominó parar nas pedras de número 6?! Nada cravo, só infiro bobamente… Essa pesquisa fica para outro dia!
Por fim, na ordem cronológica dos verbetes, percebemos como a “meia-dúzia” dos romanos, i.e., uma unidade de medida que lhes importava no dia a dia tanto quanto nossa principal maneira de comprar ovos no mercado ou enumerar “meio time” de futebol que joga mal (apesar de um time de futebol ser composto de 11, não 12!), era uma fração que nossos matemáticos chamariam de quantidade irracional ou dízima periódica simples, porque seu inusitado numeral é o 7, e o denominador, 12. Sete doze avos, em vez de, no fundo, o muito mais descomplicado ½. Apesar dos romanos também adotarem o sistema decimal na matemática, temos ainda em comum com eles o fato de que o dia e a noite (o relógio, o tempo, em suma) giram em torno de ciclos duodecimais, daí a importância de frações do número 12 para todos nós (12 é duodecim em latim) – tanto que transformamos o ano numa divisão por 12, o que nem estes antigos haviam pensado ainda em efetuar!
Sobreviver a mais um ano, para nós, é repetir os Doze Trabalhos de Hércules!
