PALAVRINHAS SOBRE CONHECER DOSTOIEVSKI

Algumas pessoas, cientes de meus vícios, me dirigem perguntas como: Por onde devo começar a ler Nietzsche? São perguntas honestas e que eu mesmo faria, e aliás fiz, antes de “ter algum conhecimento” em alguma matéria que muito me interessava… Do tipo: quais marxistas do século XX devo ler primeiro?, uma questão para a qual nunca recebi respostas repetidas. E no entanto as respostas são mais difíceis, quão mais “especialista” na matéria me julgo, uma espécie de dilema socrático. Quanto ao próprio Nietzsche, podemos deixá-lo de lado até uma próxima oportunidade.

Hoje gostaria de responder à pergunta de um amigo: Por onde devo iniciar a apreciação de Fiodor Dostoievski (nunca censurem alguém por escrever um nome russo errado – só escrevemos certo quando usamos a língua e os caracteres russos – tudo o mais é convenção, até mesmo se Tolstoi leva acento ou nãoo, sem falar na grafia Tolstoy, preferida pelos anglos – sem falar, também, que não se pronuncia Tolstoi, mas tem uns “a”s e “r”s invisíveis na prosódia, o que muita gente se admira de saber, inclusive eu!)?

Dostoievski escreveu clássicos atrás de clássicos. Poderíamos nos aventurar a ranqueá-los em grupos (o que não faremos), mas seus livros “A-” talvez em nada devam aos “SS”. Vamos citar suas principais obras, e defender, no fim, por que eu pessoalmente não recomendo que o primeiro livro a se ler de Dostoievski sejam os seus mais icônicos, Crimes e Castigo e Irmãos Karamazovi, em primeiro lugar. Livros que eu já considerei perfeitos – mas todos os livros têm falhas, e até esses podem ser criticados com fundamento. Ainda que fossem perfeitos, poderia haver razões muito mundanas (e nem por isso incorretas) de recomendar que sejam leituras apenas posteriores… Enfrentemos o caso em vista!

Gente Pobre, A Vila de Spatchikovo, Humilhados e Ofendidos, O Jogador e O Eterno Marido eu classificaria como novelas menos densas, monotemáticas, por assim dizer: geralmente o foco é a pobreza ou comportamentos obsessivos (como o vício no jogo ou ciúmes patológicos). Embora sejam “simples e diretos” comparados a outros trabalhos de D., são por si só ricos e obras-primas em seu gênero. Talvez não dêem a impressão de estarmos lidando potencialmente com o maior escriba russo, no caso de ser a primeira leitura de alguém.

Dos escritos precoces de D., sem dúvida os mais interessante são O Duplo, Memórias do Subsolo e Memórias da Casa dos Mortos. Sempre achei O Duplo e Subsolo contos (são maiores que contos, embora não tenham nem de perto a espessura de Irmãos Karamazovi ou O Adolescente) que se misturavam, a ponto de, ao passar alguns anos que os havia lido, confundir cenas de um como se fossem do outro. Achava que isso podia se dar pelo fato de eu os ter comprado juntos, tendo o livro físico de ambos, da mesma editora e da mesma coleção (a 34). Tendo-os relido recentemente, confirmei minha impressão ancestral, porém: apesar dos anos que separam ambas as composições, tanto um livro como o outro tratam de um protagonista espiritualmente miserável que descreve aos leitores anódinos como acabou por se apartar dos homens, ao que tudo indica sem possibilidade de retorno. Não as recomendo como primeiras leituras, no entanto, especialmente O Duplo, por serem narrativas muito pesadas, capazes de assustar e voltar a assombrar, tamanha a perspicácia do pensamento dos protagonistas e seu descaro em resumir as hipocrisias da vida social, mesmo leitores veteranos do querido autor. No caso d’O Duplo o agravo é ainda maior, por tratar ao mesmo tempo da degeneração mental, da subserviência de um funcionário público sem perspectivas e do abismo infinito que separa a aristocracia russa dessa gente “classe média”, que tem renda para possuir seu próprio servo mas que precisa pegar empréstimos ou empenhar bens a fim de comprar roupas que a faria aceitável ou pelo menos tolerada em círculos mais refinados. Portanto, se fosse escolher uma primeira leitura dentre a trinca do “D. jovem”, optaria pela Casa dos Mortos, um relato semi-autobiográfico sobre os anos de Dostoievski no degredo siberiano, por razões políticas. Por ser um material menos fictício e mais historiográfico, e em primeira pessoa, vai interessar sobretudo os que buscam conhecer quem foi o homem D., e não só o que ele escrevia. Muitas reflexões sobre a culpa contidas neste tratado já antecipam os tormentos de Raskolnikov, de Crime e Castigo, um dos protagonistas mais conhecidos da literatura universal.

Talvez o próprio Crime e Castigo seja incensado demais. Fiquei com essa impressão à segunda leitura. Não acontece muita coisa, materialmente falando, na estória; o aspecto grotesco, entrecortado e febril dos capítulos se deve sobretudo à crise interior do personagem principal. Aos 20 anos eu podia me identificar muito mais com Raskolnikov. Talvez agora, e vendo o tema do crime e suas consequências mais bem-apresentado em outras obras de D., eu seja reticente em recomendar C&C – entre as novelas mais indispensáveis, pelo menos.

Irmãos Karamazovi é a obra mais ambiciosa de D., e sua última, enquanto novela. Consumiu 3 anos de sua velhice; foi publicada em vida. Mas era prometido um segundo volume. Como nunca ocorreu, tratamos o (já bojudo) tomo inicial como uma narrativa completa e autônoma. E com efeito a vida dos três irmãos não prescinde de três epílogos muito bem-elaborados. Alguém só pode pensar que tipo de desenvolvimentos D. planejava para essa trinca de personagens tão distintos uns dos outros. Há fortes indicações de que Aliocha, o “irmão santo”, desempenharia o papel principal. São feitas alusões proféticas a seu futuro, carregado de martírio, mas simultaneamente auspicioso, se ele se mantivesse na senda reta. Sem revelar detalhes minuciosos ou muito relevantes da trama, Aliocha teria de lidar com os pecados de outrem, se tornar um mártir; e como cristão ortodoxo sua relação amorosa, proto-desenvolvida no livro que D. pôde nos legar, provavelmente nunca se consumaria. O que temos do “projeto Karamazov” ainda contém passagens que representam, em minha opinião, o acme da literatura ocidental, mas acho que o leitor de D. pode conhecê-lo abrindo outras portas, e deixar este umbral maciço para depois!

Restam os clássicos que ainda não citei: O Idiota, Os Demônios (ou Os Possuídos) e O Adolescente. D. foi, ao que parece, diminuindo gradativamente a idade de seus protagonistas. O Adolescente era mais um degrau em sua escada como autor, que ele pretendia percorrer até o final, com uma novela focada na importância das crianças russas – projeto impossibilitado por sua morte. O Adolescente é sobre a relação de um jovem que não tem posição no mundo público petersburguês e após muito tempo recebe a notícia de que reencontrará seu pai, figura ambígua, da qual ele não sabe o que esperar. Ou talvez o protagonista seja muito impressionável, e não consiga definir seu pai a não ser recaindo em extremos ao longo das páginas da história. Está claro que sua irmã, uma pessoa bem mais simples, já amadureceu emocionalmente muito mais depressa nesta compreensão de laços de parentesco. Tudo em que o adolescente se baseia são em memórias longínquas da meninice, antes do pai abandonar a família. As razões não são claras. A mãe ainda ama o marido e nunca permitiu que o protagonista masculino e sua irmã falassem ou pensassem mal de seu progenitor ausente. Como é uma figura que, ainda quando presente, se mostra misteriosa e lacônica, o jovem terá de ser um detetive da alma até sacar uma conclusão final, em meio a relações com figuras nobres que se iniciam relações com sua família, tudo aparentemente por causa do retorno de seu pai, ou seria tudo uma grande coincidência – e o jovem começa a sentir que tanto se sua irmã for a noiva quanto se sua irmã for rejeitada como a noiva de um certo magnata imoral, o nome da família ficará manchado e na lama, o que fere seu orgulho e suas ambições como uma adaga afiada. É uma novela que li em tempo recorde, durante férias, e não vejo qualquer ressalva a estabelecê-lo como uma porta de entrada convidativa em todos os sentidos.

Os Demônios pode ser considerado o livro mais sombrio de D., se excluirmos o mal-estar que O Duplo e o tal “Homem do Subterrâneo”, apócrifo, podem causar a naturezas como a minha, pelo menos. Um grupo de niilistas terroristas quer estabelecer o caos numa cidade russa, com vários personagens se reencontrando após longas ausências. Suas relações interrompidas e recém-retomadas estão carregadas de antigos ressentimentos, mas também de muita empatia escondida e difícil de comunicar. E o protagonista é um mistério para o leitor e todos a sua volta até o grande final. Uma passagem desta obra que lida com um crime de pedofilia foi censurada no século XIX, mas reintroduzida em algumas traduções mais modernas, ainda que como anexo. Creio que o personagem principal deste longo conto foi o protótipo depois fendido ao meio para dois dos três irmãos Karamazovi. As reflexões dostoievskianas sobre a religião só são maiores n’O Idiota que n’Os Demônios.

O Idiota também supõe como um epiléptico retraído, “santo e ingênuo” subitamente tornado milionário se comportaria, jogado diante de uma das situações mais problemáticas ao iniciar sua vida na mais alta sociedade: se apaixona por uma mulher de má-fama, tem dó de seu destino, e por isso acha paradoxalmente que não tem o direito de possuí-la, não por egoísmo, mas porque não a merece, é-lhe inferior; pois só a piedade não é o suficiente para o amor autêntico. Natasha, a mulher co-protagonista, também é apaixonada pelo Príncipe Michkin, o “idiota” do caso, mas a sua maneira. Estabelece-se um esboço de triângulo amoroso. Eu ainda acho as duas novelas descritas mais acima mais apropriadas para um “primeiro passo”, se bem que O Idiota não está mal; o caso é que acho que só adquire o efeito desejado quando a relemos, para entender melhor o intrigante protagonista…

A estória curta mais fenomenal de D., muitos concordam, é O Sonho de um Homem Ridículo, e pode ser lida em algumas coletâneas de seus contos e ensaios.

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