Originalmente postado em 10 de outubro de 2009, aos 21 anos. Apenas acrescentei uma nota de rodapé ao 4º parágrafo e negritei alguns trechos.
Detesto o contraste promovido pelas visitas à casa dos outros. Entender minha superioridade é trabalhoso para mim. Não achar minha franqueza algo espantoso, só mesmo por estar na minha carne e saber o quanto eu sou constante. O viajante cansado parece um saco de bosta para os outros. Seu esforço não deixa de ser a regularidade da sua alma por isso. Imprevisível só para quem está longe de efetuar minha compreensão… Os jovens não percebem que sempre são mais burros que pessoas de 40 anos, por mais que se tenham por gênios. Acham que é fácil ser o que eu sou!
Querer só as vantagens de ser bem-dotado – já passei dessa fase. Se não posso acreditar o quão longe cheguei, as braçadas que dei, os canais e abismos que atravessei, as chamas que transpus… Meu instinto não falha quando me dou conta da facilidade da vida dos outros. Como são lisos e reclamões! Deveriam entender o que implica ser eu.
Bandejas cheias de uva, sala de estar abarrotada de balões, dias repletos de paparicos, família desprovida de dinamite. Carta branca para deitar e rolar, fazer da vida o que quiser. Não conviver com pressões. Não estar à beira de um colapso, não saber o que é conviver com a morte, fazer pouco caso dela (inúmeras vezes)!
A única coisa que deveria me deixar boquiaberto: estar vivo. E tão bem. Estou tão sozinho e em posição desprivilegiada em casa, acuado, o bode perfeito para o ataque, que até o irmão é apenas um episódio a mais, um algoz a mais. Não é outra vítima preferencial. Não se trata de alguém que atingiu a independência. Quem dirá um alienado. É um pai fracassado – no sentido em que é mais jovem, bruto, estúpido, preguiçoso, débil e imprevidente que o primeiro (mas o molde é o mesmo). Nem se pode dizer que essa vontade de ser golpista, essas espertezas irrisórias, cheiram à ambição. É antes de tudo um sujeito que quer passar a perna em meio mundo, mas é o primeiro a se dar uma rasteira. Em suma, um estagnado. Aquele tipo de membro, de zero, de estorvo, que não é “o primogênito”; fica até difícil de defender o ponto de vista de que os outros vêm tomar o que é dele. É uma existência tão mesquinha, que eu, o caçula, posso dizer: a única função, a única característica de peso, o singular traço de relevo desta presença, é que ele me atrapalha. Por isso passa a ser considerado. O inexpressivo que consegue ser um incômodo. Idade de marmanjo, vivência de moleque. Um mau vigarista, conquanto experiente, porque não consegue encontrar outro ofício.¹ Um corpo anômalo. Uma perfeita aberração. O lado da balança que deveria me favorecer, equilibrar a equação, nivelar a disputa. Mas esse empatar é diferente! Trata-se de um lixo que deveria ser removido. Só que é tão degradante, sem propósito, um amontoado de ridículo… Um sugador de energia, esta que é tão necessária!
¹ Hoje, aos 35 anos, percebo mais do que nunca, mais do que àquela época, o quanto meu pai biológico e meu irmão mais velho são almas gêmeas. Nenhuma dessemelhança de caráter e temperamento entre ambos.
Caso semelhante eu não averigüei. Uma mortalha que arrisca me assombrar até a hora da minha partida, “outro pai”, dessa vez um que necessita ser sustentado, espécime mais aproveitador, vil, dissimulado que o anterior. Vendo o quanto eu produzi, os picos em que finquei bandeira… E o pensamento de que se não tivesse tantas camisas-de-força para me desperdiçar eu não poderia sonhar com as coisas que faço sobrevém – o supremo consolo!
Nos céus límpidos ao lado… Nada perturba, nada machuca, nem existem marimbondos sobrevoando. Apenas uma cegueira disfarçada de azar. A culpa é sempre dos outros, eles próprios não precisam melhorar, maturar, insistir, eles só têm de esperar… Eu sou o que vocês chamam de milagre. Mas não passo de um acontecimento tão banal quanto as suas lamentações. Uma condição óbvia, embora diferente.
