NOTAS SOBRE MARK TWAIN – Alexandre Barbosa de Souza

Quando publicou As aventuras de Tom Sawyer (1876), Mark Twain tinha 41 anos, e quando da publicação de As aventuras de Huckleberry Finn (1885), 50. Porém, ambos se passavam ‘30 ou 40 anos atrás’ — quando o autor era um menino pobre como seus personagens —, assim como as 2 sequências, As viagens de Tom Sawyer (1894) e Tom Sawyer, detetive (1896). A Guerra Civil Americana, entre os estados escravagistas do Sul — como o Missouri natal do autor, onde se passa o primeiro livro — e os estados abolicionistas do Norte — como Illinois, para onde os protagonistas do 2º livro tentam fugir pelo rio Mississippi —, duraria de 1861 a 1865, encerrada com a abolição da escravatura em todos os Estados Unidos.

Autodidata, tipógrafo, piloto de vapor, mineiro, jornalista, Twain se mudou para São Francisco depois da guerra, foi às Ilhas Sandwich (atual Havaí) e passou a escrever cartas para jornais, fazer palestras e viajar pelo mundo (Europa, Oriente Médio, Índia). Casado, mudou-se para Buffalo, em Nova York, e depois para Hartford, em Connecticut, onde escreveria seus principais livros (1874-1891). Quatro anos antes de morrer, em sua Autobiografia de Mark Twain (1906), o próprio autor explicaria sua perspectiva infantil da escravidão:

Nos meus tempos de menino, eu não tinha aversão à escravidão. Eu não me dava conta de que havia algo de errado naquilo. Ninguém a denunciava aos meus ouvidos; os jornais locais não falavam nada contra ela; no púlpito da igreja local nos ensinavam que Deus a aprovava, que era uma coisa sagrada e que quem duvidasse bastava procurar na Bíblia, se quisesse tranquilizar sua consciência — e depois as escrituras eram lidas em voz alta para termos certeza; se os próprios escravos tinham aversão à escravidão, eram prudentes e não diziam nada.”

Termos como nigger, injun e half-breed, usados no original, são pejorativos que designam geralmente personagens ‘não-brancos’ ou mestiços pobres nos estados do Sul. No Brasil, último país da América a abolir a escravidão, o substantivo ‘negro’ não reproduz o grau de desprezo social da expressão especificamente norte-americana quando utilizada por falantes brancos; já o substantivo ‘preto’, embora fosse comum no século XIX como pejorativo da elite escravocrata para se referir aos escravos e negros em geral, foi retomado no século XX pelo movimento negro brasileiro como forma preferível de autorreferência. Optou-se, portanto, na maioria dos casos, pela tradução ‘escravo’ para ‘nigger’, exceto nas falas do personagem mais racista de todos: o ignorante pai de Huckleberry no segundo livro (ver nota do tradutor sobre os dialetos em As aventuras de Huckleberry Finn) e no terceiro e quarto, quando Jim já não é mais escravo.”

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