A CONDIÇÃO PÓS-MODERNA – Jean François de Lyotard

Musil, O homem sem qualidades

Broch, Sonâmbulos

Esta lógica do melhor desempenho (…) quer, simultaneamente, menos trabalho (para baixar os custos de produção) e mais trabalho (para aliviar a carga social da população inativa). Mas a incredulidade resultante é tal que não se espera destas contradições uma saída salvadora, como pensava Marx.” Não há uma resposta lógica para o dilema do “mais robôs e mais desemprego” ou “sociedade informatizada do desemprego zero”. O trabalho cria a robótica; a robótica cria trabalho não-robótico.

NEM O FIM DO MUNDO TAL COMO O CONHECEMOS NEM UM PALCO ESPETACULAR PARA ATORES: “A condição pós-moderna é, portanto, tão estranha ao desencanto [desistência, niilismo] como à positividade cega da deslegitimação. [lei da selva, frenesi da ação pura]”

INOVAÇÃO, INOVAÇÃO, INOVAÇ…: “E a invenção se faz sempre no dissentimento. (…) O saber pós-moderno não encontra sua razão de ser na homologia dos experts, mas na paralogia dos inventores.”

O Estado começará a aparecer como um fator de opacidade e de ‘ruído’ para uma ideologia da ‘transparência’ comunicacional, que se relaciona estritamente com a comercialização dos saberes.”

A idéia de que a sociedade forma um todo orgânico, sem o que deixa de ser uma sociedade (e a sociologia não tem mais objeto), dominava o espírito dos fundadores da escola francesa; torna-se mais precisa com o funcionalismo; assume uma outra modalidade quando Parsons, nos anos 50, compara a sociedade a um sistema auto-regulável. O modelo teórico e mesmo material não é mais o organismo vivo [Durkheim]; ele é fornecido pela cibernética que lhe multiplica as aplicações durante e ao final da II Guerra.”

mesmo quando suas disfunções, como as greves, as crises, o desemprego ou as revoluções políticas podem fazer acreditar numa alternativa e levantar esperanças, não se trata senão de rearranjos internos e seu resultado só pode ser a melhoria da ‘vida’ do sistema, sendo a entropia a única alternativa a este aperfeiçoamento das performances, i.e., o declínio.”

(*) “A bibliografia da teoria marxista da sociedade contemporânea ocuparia mais de 50 páginas. Pode-se consultar a útil catalogação feita por P. Souyri, Le marxisme après Marx, 1970.”

Uns e outros são julgados ‘bons’ porque estão de acordo com os critérios pertinentes (respectivamente, de justiça, beleza, verdade e eficiência) admitidos no meio formado pelos interlocutores daquele que sabe (sachant). Os primeiros filósofos chamaram de opinião este modo de legitimação dos enunciados.”

a preeminência da forma narrativa na formulação do saber tradicional.”

Antes de se chegar à inversão que alguns chamam de positivismo, o saber científico pesquisou outras soluções.”

Este retorno do narrativo [ideologias, pré-positivismo] ao não-narrativo [positivismo, e ao mesmo tempo empiria pura do homem primata ideal, i.e., antes mesmo das mitologias!] não deve ser considerado como ultrapassado para sempre.”

que fazem os cientistas entrevistados após alguma ‘descoberta’? Eles contam a epopéia de um saber que, entretanto, é totalmente não-épica.” “O Estado pode despender muito para que a ciência possa figurar como uma epopéia: através dela ele ganha credibilidade, cria o assentimento público de que seus próprios decisores têm necessidade.” Não existe colisor de partículas sem Newton e a maçã.

Desde os seus inícios, o jogo de linguagem apresenta o problema de sua própria legitimidade, como em Platão. (…) O jogo do diálogo, com suas exigências específicas, resume a pragmática da ciência, incluindo em si mesmo a dupla função de pesquisa e ensino.”

PRESSUPOSTOS DO “JOGO DE PLATÃO:

  • Homologia (a argumentação visa a um consenso)

  • O referente é uma unidade que não se questiona (ou as palavras seriam jogadas ao vento – já que o objetivo é alcançado via homologia) – em outras palavras: ambos (mesmo que sejam mais de dois, um diálogo é sempre dual) concordam em discordar apenas, no fundo, concordando com os conceitos-base.

  • Os participantes são isonômicos (ambos podem chegar à verdade, não há hierarquia, ambos ensinam e aprendem; até mais do que ‘ambos podem chegar à verdade’, a verdade é uma obra conjunta e somente conjunta).

  • Derivado do 2º e do 3º ponto, principalmente: é uma justa, uma disputa, um jogo. Regras idênticas para 2 jogadores, sem vantagem para qualquer lado, e exclusão dos que não aceitarem a homologia, a unidade do referente e a isonomia. Como em todo jogo, o final está em aberto.

Que a história do debate seja mais mostrada do que relatada, mais encenada do que narrada, e assim refira-se mais ao trágico que ao épico, importa pouco aqui.” Não há dúvida que é um formato preferível aos relatórios da Royal Society.

Discurso do Método como um (chato) Bildungsroman.

Aristóteles sem dúvida foi um dos mais modernos [bem no sentido latouriano] isolando a descrição das regras às quais é preciso submeter os enunciados que se declaram como científicos (o Organon) da pesquisa de sua legitimidade num discurso sobre o Ser (a Metafísica). E mais ainda sugerindo que a linguagem científica, inclusive em sua pretensão de definir o ser do referente, não é feita senão de argumentações e de provas, i.e., de dialética.” // Coaduna com o que li hoje mesmo em Schopenhauer, A Raiz Quádrupla do Princípio de Razão Suficiente.

Este apelo explícito ao relato na problemática do saber é concomitante à emancipação dos burgueses em relação às autoridades tradicionais.”

A TRAGÉDIA DE PLATÃO, O ARISTOCRATA, QUE AO VENCER, PERDEU: “o nome do herói [desta epopéia chamada ciência] é o povo, o sinal da legitimidade seu consenso, a deliberação seu modo de normativação.”

o povo acumula as leis civis, como os cientistas acumulam as leis científicas”

Não deve causar espanto que os representantes da nova legitimação pelo ‘povo’ [Ocidente] sejam também os destruidores ativos dos saberes tradicionais dos povos, percebidos de agora em diante como minorias ou como separatismos potenciais cujo destino não pode ser senão obscurantista.”

herói do conhecimento vs. herói da liberdade

(política universitária do auge do Idealismo Alemão) vs. (política escolar da III República francesa)

(fim em si mesmo) vs. (pelo progresso da nação)

(Fichte, Schleiermacher, von Humboldt) vs. (Kant) [sempre alemães!!]

Reencontra-se o recurso ao relato das liberdades cada vez que o Estado toma diretamente a si o encargo da formação do ‘povo’ sob o nome de nação e sua orientação no caminho do progresso.”

O OUTRO LADO (heroísmo elitista): “É o que se deu quando da fundação da Universidade de Berlim, entre 1807 e 1810.”

metanarração racional. A Enciclopédia de Hegel”

essa organização universitária serviu de modelo para a constituição ou a reforma dos cursos superiores nos sécs. XIX e XX em muitos países, a começar pelos Estados Unidos.”

O famoso discurso de Heidegger de maio de 33: “A ciência especulativa tornou-se o questionamento do ser.” “destino” [oposto de Platão]

Esta inserção do relato da raça e do trabalho no relato do espírito é duplamente infeliz: teoricamente inconsistente, bastaria, contudo, para encontrar no contexto político um eco desastroso.”

Ora, Gödel estabeleceu de maneira efetiva a existência, no sistema aritmético, de uma proposição que não é nem demonstrável nem refutável no sistema; donde se segue que o sistema aritmético não satisfaz à condição da completude.”

Basta que esta mais-valia seja realizada, quer dizer, que o produto da performance seja vendido. E pode-se bloquear o sistema da seguinte maneira: uma parte do produto desta venda é absorvida pelo fundo de pesquisa destinado a melhorar ainda mais a performance. É neste momento preciso que a ciência torna-se uma força de produção, i.e., um momento na circulação do capital.”

No modelo humboldtiano de universidade, cada ciência ocupa seu lugar num sistema dominado pela especulação. A invasão de uma ciência no campo de uma outra não pode provocar senão confusões, ‘ruídos’, no sistema.”

Pode-se encontrar uma repercussão dos trabalhos de Thom nas pesquisas da escola de Palo Alto, notadamente na aplicação da paradoxologia ao estudo da esquizofrenia, que é conhecida com o nome de Double Bind Theory.”

não parece possível, nem mesmo prudente, orientar, como faz Habermas, a elaboração do problema da legitimação no sentido da busca de um consenso universal em meio ao que ele chama o Diskurs, i.e., o diálogo das argumentações.”

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