CAPITALISMO, MODERNISMO E PÓS-MODERNISMO – Terry Eagleton

O pós-modernismo é, portanto, uma terrível paródia da utopia socialista, tendo abolido, de um só golpe, toda alienação. Ao considerar a alienação como potência secundária, alienando-nos mesmo de nossa própria alienação, ele nos persuade a reconhecer essa utopia não como algum telos remoto mas, surpreendentemente, como nada mais que o presente em si mesmo, repleto como é em sua própria positividade bruta e sem o mais leve traço de ausência.”

O dilema de David Hume é suplantado por uma simples fusão: fato é valor. A utopia não pode pertencer ao futuro porque o futuro, sob a forma de tecnologia, já está aqui, em exata sincronia com o presente.”

O eschaton, aparentemente, já está aqui sob nossos narizes, mas tão penetrante e imediato a ponto de ser invisível àqueles que ainda têm os olhos teimosamente voltados para o passado ou para o futuro.”

Não é difícil enxergar uma relação entre a filosofia de J.L. Austin e a IBM, ou entre os vários neo-nietzschianismos de uma era pós-estruturalista e a Standard Oil.”

nem sempre é fácil distinguir assaltos politicamente radicais à epistemologia clássica (entre os quais o próprio jovem Lukács pode ser citado, ao lado da vanguarda soviética) de ataques flagrantemente reacionários.”

Lyotard não tem dúvidas de que ‘as lutas socialistas e seus instrumentos foram transformados em reguladores do sistema’ em todas as sociedades avançadas, uma certeza olímpica que, no momento em que escrevo, a sra. Thatcher poderia, a um só tempo, invejar e questionar. (Lyotard sabiamente silencia sobre a luta de classes fora das nações capitalistas avançadas.)”

as sutilíssimas meditações de Benjamin sobre a história desarranjam qualquer esquema binário pós-estruturalista dessa espécie”

Um sentido nietzschiano do ‘moderno’ também informa a obra do mais influente dos desconstrucionistas americanos, Paul De Man, embora com uma pitada adicional de ironia. Pois o ‘esquecimento ativo’, argumenta Paul De Man, nunca pode ser completamente bem-sucedido: o ato caracteristicamente moderno, que procura eliminar ou suspender a história, vê-se submetido nesse exato momento à linhagem que procura suprimir, perpetuando-a ao invés de aboli-la. Com efeito, a literatura para De Man nada mais é que essa tentativa constantemente predestinada e ironicamente autodissolvente de fazer o novo, essa incapacidade incessante de enfim despertar do pesadelo da história”

Somos todos, simultânea e inextricavelmente, modernos e tradicionais, termos que para De Man não designam nem movimentos culturais, nem ideologias estéticas, mas a própria estrutura desse fenômeno duplo, sempre simultaneamente dentro e fora do tempo, chamado literatura, em que esse dilema comum representa a si mesmo com retórica autoconsciência.”

O desafiante recurso ‘radical’ a Nietzsche, por assim dizer, acaba por plantar-nos em uma posição maduramente democrata avançada (liberal democrat), obliquamente cética mas genialmente tolerante com as relíquias radicais da juventude.”

O marxismo de Louis Althusser aproxima-se desse nietzschianismo: a prática é um assunto ‘imaginário’ que se alimenta da repressão do entendimento verdadeiramente teórico, a teoria uma reflexão sobre a ficcionalidade necessária de tal ação. As duas, tal como em Nietzsche e De Man, são ontologicamente distintas, necessariamente não-sincrônicas.”

Todas as eras históricas são modernas para si mesmas, mas nem todas vivem sua experiência desse modo ideológico.”

e são Deleuze e Guattari, com toda sua insistência sobre as manifestações difusas e perversas do desejo, os verdadeiros metafísicos, ao aderir a tal essencialismo velado. Ainda uma vez, teoria e prática estão ontologicamente em disputa, uma vez que o herói esquizóide do drama revolucionário é, por definição, incapaz de refletir sobre sua própria condição, necessitando de intelectuais parisienses para fazê-lo em seu lugar. A única ‘revolução’ concebível, dado tal protagonista, é a desordem; e Deleuze e Guattari, significativamente, usam os dois termos como sinônimos, na mais banal retórica anarquista.”

o místico positivismo do primeiro Wittgenstein, para o qual o mundo – caso se acredite nele – é apenas o que é e não outra coisa qualquer.”

O pós-modernismo persuade-nos a renunciar a nossa paranóia epistemológica para abraçar a rude objetividade da subjetividade aleatória; o modernismo, de forma mais produtiva, está dilacerado pela contradição entre um humanismo ainda inelutavelmente burguês e as pressões de uma racionalidade bastante diferente, a qual, ainda emergente, não é sequer capaz de dar um nome a si própria.”

A realidade fenomenológica do sujeito coloca em questão a ideologia humanista formal, enquanto a persistência dessa ideologia é precisamente o que habilita a realidade fenomenológica a ser caracterizada como negativa.”

Mas o sujeito humanista burguês não é, na verdade, simplesmente parte de uma história esgotada que podemos, prazerosa ou relutantemente, deixar para trás: se ele constitui um modelo crescentemente inapropriado a certos níveis de subjetividade, permanece potencialmente relevante em outros.”

“‘O ecletismo’, escreve Lyotard, ‘é o grau zero da cultura geral contemporânea: as pessoas escutam reggae, assistem a um western, almoçam McDonald’s e jantam cozinha local, usam perfume de Paris em Tóquio e roupas retro em Hong Kong; o conhecimento é um assunto de jogos de TV’.”

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