I. A CONSTITUIÇÃO DO ESPAÇO PSICOLÓGICO
“PEIRCE, O que é o pragmatismo. Em: PEIRCE, Semiótica. DEWEY, The development of American pragmatism. Em: RUNES, D.D. (org.) Living schools of philosophy.”
II. A OCUPAÇÃO DO ESPAÇO PSICOLÓGICO
“Os vitalistas tomam partido: são a favor da ‘vida’ e contra a razão.” “a inteligência conceitual deve ser substituída pela intuição, pela apreensão imediata da natureza ‘naturante’ [capaz de autocriação] das coisas” “mística da vivência autêntica” “No lugar do interesse tecnológico domina aqui o interesse estético” “a obra da decrepitude de W. Reich (…) a terapia gestáltica e outras técnicas corporais”
“Os estruturalismos são de fato reações anti-românticas de índole tendencialmente cientificista, enquanto a fenomenologia é um dos coroamentos da tradição filosófica racionalista, iluminista e, portanto, anti-romântica.” “as três matrizes se inscrevem n…a problemática da expressão.”
“O problema de difícil solução para o historicismo ideográfico é o do método.”
“operacionalização de uma antecipação de compreensão.”
“círculo hermenêutico”
“A grande preocupação dos estruturalismos é a de elaborar métodos e técnicas de interpretação que conquistem o mesmo grau de segurança e objetividade que o obtido pelas ciências da natureza.”
“estruturas profundas da vida simbólica”
“Finalmente, encontramos na fenomenologia uma tentativa de superação tanto do cientificismo como do historicismo.”
DESDE KANT, O TEMPO ESTÁ EM NÓS: “A legitimação naturalista do conhecimento – como ocorre no empirismo – é inadequada porque as formas do mundo se apresentar à consciência não são oriundas da própria experiência, senão que a precedem e estabelecem suas condições de possibilidade.”
“É necessário supor, para não cair no ceticismo, que todo conhecimento ou juízo empírico retire sua certeza de uma estrutura cognitiva apriorística que defina as formas, as categorias e os mecanismos da cognição de acordo com os quais as evidências possam se constituir e validar.”
“O fundamento deve ser procurado do lado da consciência pura, do sujeito transcendental que determina as condições de existência para a consciência de todos os objetos da vida espiritual.”
“A fenomenologia (ciência eidética)”—por causa do “de”: consciência (de algo). Consciência disso e daquilo…
Eidética no dicionário: “[Filosofia] Pertencente à essência abstrata das coisas, dos sentidos idealizados, por oposição ao que existe realmente.” Ironicamente, o que existe realmente é somente a essência abstrata das coisas.
“Significado de Noese
substantivo feminino
[Filosofia] Na fenomenologia, aspecto subjetivo da vivência, constituído por todos os atos tendentes a apreender o objeto: o pensamento, a percepção, a imaginação etc.”
“Não podemos admitir a completa irredutibilidade das épocas” Bem como seu inverso (estruturalismo).
O paradoxo de todo historicismo é negar-se à época que lhe sucede. “Em outras palavras, o ceticismo seria a conseqüência direta do relativismo radical historicista.”
“A fenomenologia da consciência transcendental, confluindo com outras tradições filosóficas, e literárias, está na origem dos existencialismos, cujas repercussões no pensamento psicológico são mais profundas que as diretamente provenientes da filosofia fenomenológica.”
“A antropologia fenomenológica existencialista dá o quadro de referências (os elementos e a norma, o ‘modelo’ de sujeito) que será investigado pelas ciências humanas empíricas.”
“o que há de mais subjetivo, i.e., o projeto”
“ideologias pararreligiosas”
“Se nada me prende e minha vida é meu projeto, a solução é minha e para mim.”
“retraimento do sujeito sobre si mesmo numa inflação inconseqüente da subjetividade”
“Do behaviorismo tosco de J.B. Watson ao sofisticado de B.F. Skinner, à Psicanálise e a toda a obra de Jean Piaget reflete-se a mesma intenção.”
“grandes tentativas de síntese, gestaltismo.”
“psicologia social… recentemente … Harré e Hecord” + S. Koch + Nuttin + Howarth “senso comum”
Harré, Making social psychology scientific. Em: GILMOUR, DUCK (org.), The development of social psychology, 1980.
KOCH, Psicologia e ciências humanas. Em: GADAMER, VOGLER (org.), Nova antropologia, 1977.
NUTTIN, O comportamento humano: o homem e seu mundo fenomenal. EM: GADAMER, VOGLER (org.) op. cit.
“Este texto de Nuttin é extremamente claro e penetrante. O que, somado ao seu fácil acesso ao leitor brasileiro, o torna uma indicação obrigatória para leitura”
HOWARTH, The structures of effective psychology. Em: CHAPMAN, JONES (org.) Models of man, 1980.
Wundt naturalmente listado como impressionante pioneiro do ecletismo epistemológico maduro e atual.
(*) “A irrelevância dos objetos e resultados de grande parte da pesquisa básica em psicologia é um dos principais alvos de seus detratores.” “função crítica da irrelevância” “O leigo acaba vendo no difícil de entender [hermético] um sinal de profunda sabedoria e alta ciência. Para uma boa aparência de cientificidade, quanto mais irrelevante melhor.”
(*) “A duplicidade e a complexidade do projeto de Wundt, durante muito tempo confundido com o de E.B. Titchener, vem sendo recentemente o tema de vários trabalhos, entre os quais se recomendam: BLUMENTAHL, A reappraisal of Wilhelm Wundt, American psychologist, 1975. … DANZIGER, The positivist repudiation of Wundt, Journal of the History of the Behavioral Sciences, 1979. LEAHEY, The mistaken mirror: on Wundt’s and Titchener’s psychologies, Journal of the History of the Behavioral Sciences, 1981.”
III. MATRIZ NOMOTÉTICA E QUANTIFICADORA
BACON: “A emergência da ‘metodologia científica’ corresponde exatamente a um estágio em que a auto-reflexão das práticas produtivas já permite que a estrutura do trabalho seja posta a serviço da produção e validação de conhecimentos. As idéias de caráter preditivo chamar-se-ão hipóteses, e suas origens serão atribuídas a processos denominados indução, abdução ou invenção; as práticas produtivas serão os procedimentos de observação controlada e, em especial, os procedimentos experimentais de teste; o resultado obtido será confrontado com o resultado esperado – que, na medida do possível, deve ser rigorosamente [palavra que não combina] deduzido das hipóteses iniciais; a finalidade deste processo é a de, com base neste confronto, aceitar ou refutar as hipóteses.”
“O positivismo foi concebido e desenvolvido não pelos filósofos do séc. XIII mas pelos astrônomos gregos que, tendo elaborado e aperfeiçoado o método do pensamento científico – observação, teoria hipotética, dedução e, finalmente, verificação por novas observações –, encontraram-se na incapacidade de penetrar no mistério dos movimentos verdadeiros dos corpos celestes e que, conseqüentemente, limitaram suas ambições à salvação dos fenômenos, isto é, a um tratamento puramente formal dos dados da observação. Tratamento que lhes permitia previsões válidas, mas cujo preço era a aceitação de um divórcio definitivo entre a teoria matemática e a realidade subjacente” KOYRÉ, Les étapes de la cosmologie scientifique. + Do mundo fechado ao universo infinito
“As hipóteses descritivas e explicativas, como pretendem representar a essência dos fenômenos naturais, devem convergir para um sistema e, de preferência, ser dedutíveis de alguns poucos axiomas – o que foi finalmente alcançado no séc. XVIII por Isaac Newton.”
“Quando as grandes conquistas da física moderna, nos sécs. XIX e XX, revelaram-se como meras hipóteses que exigiam correções radicais, abateu-se sobre a comunidade um certo descrédito diante da atitude realista que vê nas funções matemáticas expressões objetivas da ordem natural. Reanimaram-se, então, as posições instrumentalistas”
“Em momento algum, todavia, deixou de progredir a matematização da física e o distanciamento entre a experiência científica e a experiência leiga.”
“A química enterrou definitivamente a alquimia quando Lavoisier – versado em lógica, matemática, física e astronomia – trouxe para a nova ciência o espírito de exatidão, da mensuração e da análise experimental. Os estudos biológicos, a partir da fisiologia, diretamente tributária da mecânica e da química, e dos empreendimentos taxonômicos de Lineu, também avançaram na direção da biologia científica.”
“o cálculo de probabilidades e os procedimentos estatísticos em geral que, no campo das ciências não-exatas, asseguram a ligação entre o domínio empírico – marcado por uma certa margem de variabilidade intrínseca – e o domínio racional.”
“A possibilidade de submeter os fenômenos psíquicos aos procedimentos matemáticos, de forma a criar-se uma psicologia empírica, foi expressamente negada por Kant com a alegação de que estes fenômenos não se prestavam à análise e à observação e só tinham uma dimensão, a temporal, quando a mensuração de um processo exige duas dimensões, a temporal e a espacial. Não obstante, o projeto de uma psicometria apareceu já no séc. XVIII na obra do filósofo alemão Christian Wolff, que esperava desta nova ciência a mensuração dos graus de prazer e desprazer, perfeição e imperfeição, certeza e incerteza.”
“o mesmo fizeram outros autores como De Maupertuis, Buck, Mendelssohn, Ploucquet, Mérian e Lambert. (…) Nenhum deles, porém, dedicou ao tema mais que algumas páginas marginais de suas obras de matemáticos, filósofos e naturalistas. No séc. XVIII apenas Hagen, Krüger e Körber trataram com mais detalhe do assunto.”
“a psicofísica de Weber e Fechner … Ebbinghaus”
“O modelo de Herbart se propõe a representar a estática e a dinâmica dos processos mentais a partir da idéia de conflito entre representações (todos os fenômenos, conscientes ou inconscientes, são denominados representações).”
“Hoje a construção de modelos matemáticos e lógicos não encontra a resistência que a partir do final do séc. XIX o positivismo opôs à pretensão de apreender os mecanismos, indo além das leis empíricas. Ainda assim, a prática da construção de modelos é apenas um dos momentos do procedimento científico, momento aliás subordinado ao de teste: a partir de um modelo devem-se atribuir valores plausíveis às variáveis quantitativas nele implicadas para em seguida – freqüentemente através de simulação computadorizada em que se variam parametricamente estes valores – deduzir os comportamentos do modelo nas diferentes condições programadas. Finalmente, confrontam-se os comportamentos do modelo com os do organismo nele representado. Convém assinalar que dificilmente o comportamento do modelo será idêntico ao do seu original, o que conduzirá a um processo infinito de ajuste com a introdução de novas variáveis e/ou com a postulação de novas relações funcionais entre elas. A psicologia matemática de Herbart carece completamente desta possibilidade de autocorreção” “É necessário que se mencione, a propósito, a semelhança entre o modelo de Herbart e o que veio a ser proposto por Freud.”
“a dinâmica herbartiana é puramente mecanicista e a análise se orienta para a identificação das relações de causalidade eficiente; já na dinâmica freudiana há presença da intencionalidade.” Conversão para as ciências humanas, para nunca sair da preferência – tão prejudicial! – dos cientistas sociais…
“O estudo dos limiares diferenciais – diferenças apenas perceptíveis – foi a área pioneira na concretização do ideal de quantificação em psicologia.”
“dR/R=C, em que R é o estímulo-padrão com o que os outros devem ser comparados, dR é o incremento mínimo de R para que a diferença seja percebida, e C é uma constante.”
“S=ClogR, em que S é a sensação, R o estímulo e C uma constante a ser obtida empiricamente. Esta função descreve os desvios sistemáticos da subjetividade em relação às mudanças do mundo exterior”
“O estudo experimental das sensações permaneceu na segunda metade do séc. XIX e continua até hoje uma área de pesquisa muito ativa e rigorosa, aonde (sic) a matriz nomotética e quantificadora tem produzido alguns de seus melhores resultados.”
“Com freqüência esta psicologia das diferenças individuais – ou psicologia diferencial – [McKeen Cattel, Galton, Binet, Thorndike] estava claramente empenhada em tarefas práticas no âmbito da escola, da indústria e da burocracia civil e militar, classificando a situando os sujeitos em escalas numéricas de acordo com medidas de inteligência geral, capacidades cognitivas específicas, velocidade de aprendizagem e desempenho de diferentes tipos de tarefas.”
“não arrefeceu em momento algum o impulso nomotético e quantificador.”
GARRET, Grandes experimentos da psicologia, 1979.
IV. MATRIZ ATOMICISTA E MECANICISTA
“A física do impetus ao final da Idade Média havia crescido a ponto de desalojar a física de Aristóteles, explicando em termos de impulso impresso também os movimentos ‘naturais’.”
“A lei da inércia [de Galileu] atribui o mesmo valor e as mesmas propriedades ao repouso e ao movimento e libera este último da dependência de qualquer motor externo.”
“Na química a análise elementar foi uma constante desde os trabalhos pioneiros de Priestley e Cavendish até a sistematização de Lavoisier. A subdivisão dos elementos em átomos progrediu no século XIX sob a direção de Dalton e Mendeleiev.”
“a química é testemunha das transformações de qualidade produzidas por diferenças estruturais. Contudo, ao final do século passado, ainda era o procedimento analítico da química, e não seus resultados[,] que punham em questão o atomicismo físico, que servia de guia e exemplo para as demais ciências, entre as quais a psicologia.”
“Os estudos de Pavlov, principalmente, são a contraparte fisiologizante e mais rigorosa dos estudos experimentais da associação iniciados por Ebbinghaus.”
“Não se pode assim concordar com a idéia, amplamente divulgada, que associa o behaviorismo, fundamentalmente, ao mecanicismo e ao atomicismo. De qualquer forma, a sobrevivência de vestígios elementaristas e mecanicistas na psicologia behaviorista exigirá que no próximo capítulo uma atenção especial seja dada às combinações das duas matrizes.”
V. MATRIZ FUNCIONALISTA E ORGANICISTA NA PSICOLOGIA AMERICANA
“A referência inicial e obrigatória é a chamada psicologia funcional8 que se desenvolveu nos EUA no final do século XIX e início do XX. Representantes notáveis desta corrente são J. Dewey (1859-1952), J. Angell (1869-1949), J.M. Baldwin (1861-1934) e, como grande precursor, William James (1842-1910).”
“O estudo do comportamento animal com o objetivo de ‘conhecer o desenvolvimento da vida mental na escala filogenética e buscar a origem da inteligência humana’, tal como se expressa Thorndike em 1898, foi iniciada por Darwin e continuada por Romanes (1848-1894), Morgan (1852-1936), Thorndike (1874-1949) e Jennings (1868-1947), para ficar apenas com os pioneiros.”
“Dois autores modernos assumiram integralmente, embora de formas muito diversas, o legado funcionalista: E.C. Tolman (1886-1959) e B.F. Skinner (1904-[1990]).”
“Tolman, além de condensar e elevar a um nível superior todo o movimento da psicologia funcional, antecipou o movimento cognitivista americano.”
“A solução mais original, contudo, foi elaborada por Skinner e batizada por ele de behaviorismo radical. Não me proponho aqui dar conta do conjunto desta obra que, pela extraordinária riqueza e penetração, é uma das mais notáveis realizações intelectuais da nossa época.”
VI. MATRIZ FUNCIONALISTA E ORGANICISTA NA PSICOLOGIA EUROPÉIA, NA PSICANÁLISE E NA PSICOSSOCIOLOGIA
“Na obra de Jean Piaget—um dos mais completos, consistentes e articulados representantes da matriz funcionalista e organicista em psicologia—ficam dissolvidos os limites entre filosofia, psicologia e biologia, mas serão os métodos e conceitos da última que dominarão ao longo de toda a sua fecundíssima carreira.”
“<A psicanálise é uma ciência natural—o que mais poderia ser?>, diz Fraud em 1925.”
VII. SUBMATRIZES AMBIENTALISTA E NATIVISTA NA PSICOLOGIA
(…)
VIII. MATRIZ VITALISTA E NATURISTA
“Talvez seja necessário novamente esclarecer que não há relações diretas entre Bergson e os autores que serão nomeados neste capítulo. Na filosofia bergsoniana estão reunidos, isto sim, temas e atitudes que caracterizam muito do senso comum psicológico e que se encontram dispersos em várias orientações, escolas e seitas contemporâneas. Nenhuma delas, todavia, pode ser apresentada como uma ‘psicologia bergsoniana’ e em muitas há também vestígios de outras matrizes.”
IX. MATRIZES COMPREENSIVAS: HISTORICISMO IDIOGRÁFICO E SEUS IMPASSES
“Hegel e Marx, cujas contribuições para o desenvolvimento da psicologia e das demais ciências empíricas foram negligenciáveis”
“esta maneira dissecadora de lidar com a natureza provavelmente não atrai o leigo. Eu argúo que esta maneira pode ser inadequada mesmo para os iniciados e que, talvez, haja lugar para um outro método, um que não ataque a natureza dissecando e particularizando, mas a mostre viva e operante, manifestando se em sua totalidade em cada parte do seu ser.” Goethe
“… devo-lhe confidenciar que estou muito perto de descobrir o segredo da criação e organização das plantas… A Urpflanze é a mais extraordinária criatura do mundo; a própria natureza a invejará. A partir deste modelo será possível inventar plantas ad infinitum e todas serão consistentes, isto é, todas poderiam existir, ainda que de fato não existam; elas não seriam meros sonhos ou sombras poéticas ou figuradas, mas possuiriam uma verdade interna e uma necessidade.” Goethe a Herder
“A verdade é uma revelação que emerge no ponto em que o mundo interno do homem encontra a realidade externa”
“Os românticos opõem-se fundamentalmente a todo revolucionarismo progressista que pretenda subverter a ordem natural da sociedade, rompendo com suas origens e tradições. A filosofia de Schelling condensa toda a temática romântica, e todas as soluções românticas e anti-racionalistas numa grande cosmovisão e numa teoria do conhecimento. Schelling constrói uma filosofia da totalidade, que é aí dotada de um movimento próprio, criativo e autônomo no qual o espírito, através da intuição, reconhece sua própria atividade criadora. O motor deste movimento é o conflito.”
“a natureza desta totalidade (organismo, comunidade, nação, espírito popular, ou que outro nome receba) é tal que não a subordina às leis da sobrevivência e da adaptação, antes exibindo um caráter essencialmente produtor e criativo.”
“O romantismo, de fato, é antes de tudo uma filosofia da expressão, da representação simbólica. Assim, enquanto a intuição de Bergson se move numa imediaticidade natural que visa unir o sujeito à vida pré-simbólica, dissolver o indivíduo no élan vital, a intuição romântica procura apreender a imediaticidade simbólica estabelecendo uma relação empática entre formas expressivas e comunicativas. Ora, esta apreensão imediata de uma forma expressiva, esta compreensão dos símbolos exige um esforço intelectual desconhecido tanto de Bergson como de todas as matrizes cientificistas: o esforço de interpretação.”
“A preocupação em definir uma metodologia para as ciências morais manifestou-se durante todo o séc. XIX, sobressaindo as contribuições de Schleiermacher para a arte da compreensão—a hermenêutica—aplicada à filosofia e à teologia e as de historiadores como Ranke e Droysen. Foi, entretanto, o filósofo Wilhelm Dilthey (1833-1911) quem se propôs a desempenhar em relação às ciências morais o papel que Kant havia representado no âmbito das ciências naturais do séc. XVIII”
“A preocupação com a verdade não costuma ser muito acentuada em vários arraiais psicológicos, e, desta maneira, variantes do discurso diltheyano aparecem com freqüência na psicologia clínica. Os chamados humanistas, p.ex., usam e abusam desta terminologia (compreensão, significado, etc.), reduzindo quase sempre estes conceitos ao nível de Bergson, ao vitalismo pré-crítico.”
“A afirmação de Spranger de haver encontrado as leis universais da produção e da interpretação do sentido não encontrou muito eco no desenvolvimento posterior da psicologia.”
(*) “Convém, talvez, assinalar que embora use o termo com esta acepção ampla e acompanhe os autores em muitos pontos da análise, não encampo o enfoque pessimista, aterrorizante e algo obscurantista de Horkheimer e Adorno.” HAHAHA
HELLER, E. The Disinherited mind
(*) “Acerca da ideologia política romântica, ver ROMANO, R. Conservadorismo romântico. Origem do totalitarismo. São Paulo, Brasiliense, 1981.”
X. MATRIZES COMPREENSIVAS: OS ESTRUTURALISMOS
“A grande dificuldade era encontrar para estas ciências critérios positivos cuja aplicação discriminasse o verdadeiro do falso. Os estruturalismos nasceram no contexto desta problemática e formam o conjunto de soluções mais rigoroso, do ponto de vista metodológico. As totalidades simbólicas são submetidas a uma investigação imanente que as objetiviza e desprende tanto das conexões subjetivas, que as constituíram (intenções comunicativas), como das que as interpretam (intenções compreensivas). A neutralização do sujeito caracteriza o ideal científico dos estruturalismos e os coloca como uma espécie de positivismo das ciências humanas.”
“Há assim dois níveis de organização: um, empírico, em que a organização aparece nas interconexões das ocorrências do mundo fenomenal, nas formas que se oferecem à consciência; um outro, teórico e construído (jamais vivenciado) em que a organização se manifesta no processo de dotação de forma e sentido. E a este nível – profundo e inconsciente – que se voltam preferencialmente os estruturalismos, ainda quando, como ocorre na psicologia da gestalt, as formas fenomenais da vivência espontânea dão o fio da meada para a investigação científica.”
“Nas origens da matriz estruturalista encontramos movimentos intelectuais que no final do século XIX e no início do XX revolucionaram a psicologia, a teoria da literatura e a lingüística. No campo da psicologia foi a chamada psicologia da forma, ou da gestalt, que ofereceu a mais consistente alternativa européia à velha psicologia elementarista, associacionista e introspeccionista (nos EUA coube ao funcionalismo e ao behaviorismo esta missão).”
“Ampliando ainda mais o foco de suas preocupações, o gestaltismo se projetou como uma filosofia geral das ciências e como uma fundamentação da ética e da estética. Grande parte desta imensa contribuição foi sistematizada nos Princípios da psicologia da gestalt, redigidos por K. Koffka (1886-1941) na década de 30. Outros nomes de primeiro plano são os do pioneiro Max Wertheimer (1880-1943), o de Wolfgang Koehler (1887-1949) e o de Kurt Lewin (1890-1947).”
“O dado básico da psicologia da forma é a experiência imediata. Só que, ao contrário de Wundt, ao invés de dissecar esta experiência para identificar as suas unidades mínimas e, em seguida, reconstituir os fenômenos complexos, tratava-se para os gestaltistas, antes de mais nada, de descrever e compreender os fenômenos que espontaneamente se ofereciam na experiência dos sujeitos e dos seus observadores.”
“Os psicólogos da forma, contudo, estão convencidos de que é possível superar o nível da pura compreensão e elaborar leis gerais explicativas.”
“Enquanto a noção de forma contemplada pelos gestaltistas exerceu notável influência sobre a teoria das artes plásticas, simultaneamente desenvolvia-se na Rússia uma teoria da literatura também formalista e estruturalista. Para os formalistas russos colocava-se a tarefa de proceder a uma leitura das obras literárias que, pondo de parte o psicologismo e o sociologismo, visasse a obra mesma de maneira a captar nela, não as intenções do autor ou o efeito das pressões sociais, mas a sua estrutura imanente e os seus procedimentos constitutivos.”
(*) “Uma ótima apresentação e crítica do gestaltismo é encontrada em MERLEAU-PONTY, M. A estrutura do comportamento. Belo Horizonte, Inter livros, 1975.”
XI. MATRIZ FENOMENOLÓGICA E EXISTENCIALISTA
(…)
XII. CONSIDERAÇÕES FINAIS E PERSPECTIVAS
“Este livro nasceu das aulas que dava na disciplina História da psicologia. Convinha, então, no término do semestre, justificar o porquê de, no final das contas, não ter oferecido nada que parecesse com a história da psicologia. Tenho para mim que história da psicologia, como talvez também a de outras disciplinas que visam a vida em sociedade, não se pode nortear pelos modelos disponíveis de historiografia das ciências naturais. No conjunto da disciplina não encontramos, seja a acumulação regular de fatos e teorias, seja as revisões radicais e revolucionárias dos paradigmas dominantes, seja o confronto crítico de enfoques alternativos em condições de testes cruciais.”
