[ARQUIVO] A PRAIA DO CERRADO

23/03/11

Havia um mar aqui no Planalto Central! Na realidade, o que costumava ser a calçada da zona comercial da 308 Norte se convertia em areia (se meu relato não é impreciso) e, poucos metros à frente, onde passariam os carros, apenas água, água até não poder mais, ondas muito agitadas… Aliás, fico inclinado a voltar atrás na minha descrição: não era areia, mas pedras. Lembro de testemunhar arrebentações pouco amistosas. Somente surfistas experimentados ousavam encarar essa parte da natureza brasiliense!

Portanto, para além do paredão de pedra vicejava um novo tipo de vida. Alguns com sua prancha arriscavam ir muito além, até que a borda fosse difícil de se enxergar. Poderia haver tubarões engolidores de pranchas e pernas. Mas o que realmente soava intrigante nisso tudo era uma ilhota a dada distância, uma ilhota de dunas de areia, talvez um pouco salpicada de vegetação, aqui e ali. Parecia um oásis, um lugar especial por alguma razão, e a travessia até lá era bastante complicada. Casais deviam gostar desse isolamento.

Sabrina havia me ensinado ou me motivado, me feito, enfim, chegar à ilhota. Depois que nossa curta relação de amizade foi bruscamente interrompida, perdi qualquer estímulo ou mesmo meios de repetir a façanha, porque a maneira como fiz isso me parecia agora nebulosa, irrecordável. Teria sido a nado, perigosamente podendo cansar antes de atingir as margens opostas? Ou teria sido em alguma embarcação, e de que tipo? Fato é que ela era um porto seguro necessário para arriscar minha vida, sem morrer. Doravante, eu e eu mesmo teríamos de encontrar a solução, ou simplesmente desistir. (Não era vital?)

Sabrina representava mais auto-confiança e mais risco, talvez mais risco do que eu podia tolerar. Eu era do tipo de homem disposto a me jogar no fogo (ou aos tubarões!) por mais uma tentativa desesperada, mas agora a prudência, por mais que parecesse um paralisante para a alma, falava mais alto. Eu tive a pachorra, a coragem e a necessidade, e agora não podia ou devia ter mais?

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