PRIMEIRA PARTE
1. TEORIZANDO O PÓS-MODERNO: RUMO A UMA POÉTICA
“o que quero evitar são aquelas generalizações polêmicas – muitas vezes realizadas pelos adversários do pós-modernismo: Jameson (1984a), Eagleton (1985), Newman (1985) –, que nos fazem perguntar o que se está exatamente chamando de pós-modernista, embora não deixe dúvidas quanto ao fato de que ele é indesejável.”
“é sempre uma reelaboração crítica, nunca um ‘retorno’ nostálgico.”
“este livro vai privilegiar o gênero romance, especialmente uma de suas formas, que quero chamar de ‘metaficção historiográfica’.” A mulher do tenente francês, A lenda de “Legs”, G., Famous Last Words.
Salman Rushdie, Shame / [As crianças / Os filhos] da meia-noite
“O conceito de não-identidade alienada dá lugar ao conceito de diferenças, ou seja, à afirmação não da uniformidade centralizada, mas da comunidade descentralizada”
“A Cultura se transformou em culturas (…) E isso parece estar ocorrendo apesar – (…) talvez até por causa – do impulso homogeneizante da sociedade de consumo do capitalismo recente”
“precisamos é de uma ‘poética’, uma estrutura teórica aberta, em constante mutação” “Não seria uma poética no sentido estruturalista da palavra”
Ray Bradbury, Fahrenheit 451
“O artista ou o escritor pós-moderno está na posição de um filósofo: em princípio, o texto que ele escreve, a obra que produz não são governados por regras preestabelecidas, e não podem ser julgados segundo um julgamento determinante, pela aplicação de categorias comuns ao texto ou à obra. São essas regras e categorias que a própria obra de arte está buscando.” Lyotard
“É simplesmente errada a opinião segundo a qual o pós-modernismo relega a história à ‘lixeira de uma episteme obsoleta, afirmando euforicamente que a história não existe a não ser como texto’ (Huyssen 1981).”
O Hotel Branco
Maxine Hong Kingston, China Men
Eagleton, (artigo) Capitalismo, Modernismo e Pós-modernismo: “creio que seu pensamento binário absolutista nega grande parte da complexidade dessa arte.”
“O que Eagleton (assim como Jameson, seu precedente) parece não perceber é o potencial subversivo da ironia, da paródia e do humor na contestação das pretensões universalizantes da arte ‘séria’.”
“Grande parte do que foi escrito sobre o assunto assumiu fisicamente a forma de colunas opostas, normalmente intituladas ‘modernismo versus pós-modernismo’ (Hassan 1975; Lethen 1986). Mas essa é uma estrutura que, implicitamente, nega a natureza híbrida, plural e contraditória do empreendimento pós-moderno.”
Fowles, Um Verme ou um Capricho
“o que ainda não se abordou foi o paradoxo que é o fato de romances como A Mulher do Tenente Francês, e O Nome da Rosa serem, ao mesmo tempo, best-sellers populares e objetos de profundo estudo acadêmico.”
“o que parecemos estar precisando é de uma forma de falar sobre nossa cultura que não seja ‘unificadora’ nem ‘contradicionista’ num sentido dialético marxista (Ruthven 1984).”
2. MOLDANDO O PÓS-MODERNO: A PARÓDIA E A POLÍTICA
“O paradoxo da paródia pós-modernista é o fato de não ser essencialmente destituída de profundidade, de não ser um kitsch comum, conforme acreditam Eagleton (1985) e Jameson (1984a), mas sim de poder conduzir, e fazê-lo de fato, a uma visão de interligação”
“nem mesmo as obras contemporâneas mais autoconscientes e paródicas tentam escapar aos contextos histórico, social e ideológico nos quais existiram e continuam a existir, mas chegam mesmo a colocá-los em relevo.”
“o debate, hoje abominado, entre Lyotard (1984a), Habermas (1983) e Rorty (1984a).”
“A virulência por muitos adotada, a exemplo de Adorno, contra a cultura de massa como simples força negativa pode ser, conforme observou um arquiteto/crítico, ‘uma simples continuação do emprego de um ponto de vista aristocrático, sem que se saiba como captar o resultado liberador e a carga igualitária dessa profanação do mito’ da originalidade elitista romântica/modernista e do gênio inigualável (Portoghesi 1983).”
“O ‘inevitável’ não era eterno, e sim aprendido.”
“Aqui, quando falo em ‘paródia’, não estou me referindo à imitação ridicularizadora das teorias e das definições padronizadas que se originam das teorias de humor do século XVIII. A importância coletiva da prática paródica sugere uma redefinição da paródia como uma repetição com distância crítica que permite a indicação irônica da diferença no próprio âmago da semelhança.”
“o prefixo grego para- pode tanto significar ‘contra’ como ‘perto’ ou ‘ao lado’.”
“Ó terra bela por teus vastos céus, por tuas ondas de areia que têm a cor do âmbar, será que algum dia houve sobre a Terra outro lugar onde tantos donos da riqueza e do poder suportaram e pagaram tantas obras arquitetônicas por eles odiadas quanto no interior de tuas atuais fronteiras abençoadas?” Tom Wolfe
“Embora tenham projetado habitações para trabalhadores, nem Gropius nem Le Corbusier parecem ter sentido a necessidade de consultar aqueles que lá iriam morar: deve ter havido uma pressuposição tácita de que as pessoas intelectualmente subdesenvolvidas permitiriam que os arquitetos lhes organizassem as vidas.”
“Embora Le Corbusier se julgasse como sendo o tecnocrata apolítico, poder-se-ia considerar que os pressupostos ideológicos ocultos por trás de suas teorias estéticas da racionalidade purista tiveram influência em sua colaboração com o governo de Vichy”
“Já em 1974, em Le inibizioni dell’architettura moderna (A Inibição da Arquitetura Moderna), Portoghesi defendeu o retorno da arquitetura a suas raízes, que estariam nas necessidades práticas e na noção estética e social de continuidade e comunidade.”
“Desprezar a memória coletiva da arquitetura é arriscar-se a cometer os erros do modernismo e de sua ideologia do mito da reforma social por meio da pureza da estrutura.”
3. LIMITANDO O PÓS-MODERNO: OS FRUTOS PARADOXAIS DO MODERNISMO
“Já existem histórias detalhadas sobre o termo pós-moderno que investigam sua utilização ao longo do século passado (ver Köhler 1977; Bertens 1986; McHale 1987).”
“Ortega y Gasset propôs a idéia de que cada época prefere um determinado gênero, e o romance (juntamente com a arquitetura) parece ser o gênero pós-moderno mais discutido nos últimos tempos.”
“na ficção o termo pós-modernismo deve ser reservado para descrever a forma mais paradoxal e historicamente complexa que venho chamando de ‘metaficção historiográfica’.”
“A metaficção autoconsciente está entre nós há muito tempo, provavelmente desde Homero e certamente desde Dom Quixote e Tristram Shandy.”
“dentro de pouco tempo, a categoria do pós-moderno vai incluir Homero.” Umberto Eco
“Douwe Fokkema afirmou que o pós-modernismo está ‘sociologicamente limitado a uma maioria de leitores acadêmicos, interessados em textos complicados’. Porém, se isso é verdade, como se explica o fato de que O Nome da Rosa, A Mulher do Tenente Francês, Ragtime, Midnight’s Children, O Papagaio de Flaubert e tantas outras metaficções historiográficas tenham se destacado nas listas dos mais vendidos na Europa e na América do Norte?”
“A estrutura da trama de A Mulher do Tenente Francês encena a dialética de liberdade e poder que constitui a resposta existencialista moderna, e até marxista, ao determinismo vitoriano ou darwiniano.”
“Se quero dirigir minha arte ao mundo, devo fazê-lo através do sistema, como todos devem fazer. Se isso tem um aspecto suspeito no sentido de parecer liberalismo e concessão, então que assim seja: com exceção da espada, o liberalismo e a concessão sempre foram a única forma de atuação de qualquer revolucionário autêntico.” Douglas Davis
“o pós-moderno segue a lógica do ‘e/e’, e não do ‘ou/ou’.”
“Jameson considera o modernismo como oposicional e marginal – atributos que considero como importantes características definitórias do pós-moderno.”
Os radicais (pós-moderno como ruptura) vs. Os intensos (pós-moderno como extensão do modernismo)
“Embora os nomes de Lacan, Lyotard, Barthes, Baudrillard e Derrida tendam a ser os mais citados nas discussões sobre pós-modernismo, as outras perspectivas enumeradas têm a mesma importância para qualquer consideração sobre o discurso teórico contemporâneo e sua interseção com a arte. Não podemos ignorar as teorias marxista, neopragmatista e feminista – isso para acrescentar à lista apenas as três teorias importantes.”
PERSPECTIVA IGUALMENTE PERIGOSA: “Se admitimos que tudo é provisório e historicamente condicionado, não vamos parar de pensar, como temem alguns; na verdade, essa admissão será a garantia de que jamais pararemos de pensar – e repensar.”
“lembremo-nos da escrita feminina extática de Hélène Cixous, ou da mistura que Lyotard faz entre crítica literária e experimentação literária em Le Mur du Pacifique (1979), ou ainda a combinação entre crítica de arte e filosofia em seu trabalho com artistas como Adami (1983), Francken (1983) e Arakawa (1984).”
“Philip Lewis (1982) já considerou Glas, de Derrida, como um texto exemplar do pós-modernismo, e sem dúvida toda a encenação que Derrida faz com a teoria no nível da linguagem é ‘arte’.”
Graham Swift, Waterland
Doctorow, O Livro de Daniel
4. DESCENTRALIZANDO O PÓS-MODERNO: O EX-CÊNTRICO
Pynchon, Gravity’s Rainbow
“Em chinês existe uma palavra para o eu feminino – essa palavra é ‘escrava’.”
5. CONTEXTUALIZANDO O PÓS-MODERNO: A ENUNCIAÇÃO E A VINGANÇA DA PAROLE
“Conforme Terry Eagleton chega a verificar, não é nada por acaso que Saussure e Husserl estão escrevendo ‘quase ao mesmo tempo’ que Joyce, Eliot e Pound, com a mesma preocupação pelos sistemas simbólicos fechados.”
6. HISTORICIZANDO O PÓS-MODERNO: A PROBLEMATIZAÇÃO DA HISTÓRIA
“E a conclusão que se tira é a de que não pode haver um conceito único, essencializado e transcendente de ‘historicidade autêntica’ (conforme deseja Fredric Jameson: 1984a), não importa qual seja a nostalgia (marxista ou tradicionalista) existente em relação a uma entidade desse tipo.”
“No séc. XX a disciplina da história tem sido tradicionalmente estruturada por pressupostos positivistas e empiricistas que atuaram no sentido de separá-la de tudo o que tenha o sabor do ‘meramente literário’. Em seu habitual estabelecimento do ‘real’ como presença não-problemática a ser reproduzida ou reconstruída, a história suplica que a desconstrução questione a função da própria redação da história.”
“Cassandra, de Christa Wolf, reconta o épico histórico de Homero sobre os homens, sua política e suas guerras, em termos da história, que não foi contada, das mulheres e da vida cotidiana.”
SEGUNDA PARTE
7. METAFICÇÃO HISTORIOGRÁFICA: “O PASSATEMPO DO TEMPO PASSADO”
“No séc. XIX, pelo menos antes do advento da ‘história científica’ de Ranke, a literatura e a história eram consideradas como ramos da mesma árvore do saber, uma árvore que buscava ‘interpretar a experiência, com o objetivo de orientar e elevar o homem’. Então veio a separação que resultou nas atuais disciplinas distintas, a literatura e os estudos históricos, apesar de o romance realista e o historicismo de Ranke terem em comum muitas convicções semelhantes em relação à possibilidade de escrever factualmente sobre a realidade observável.”
“As obras de Defoe diziam ser verídicas e chegaram a convencer alguns leitores de que eram mesmo factuais”
Foe: “Coetzee apresenta a instigante ficção de que Defoe não escreveu Robinson Crusoe a partir de informações dadas por um homem náufrago histórico, Alexander Selkirk, ou provenientes de outros relatos de viagem, mas a partir de informações que lhe haviam sido prestadas por uma mulher subseqüentemente ‘silenciada’, Susan Barton, que também fôra náufraga na ilha de ‘Cruso’. Foi Cruso quem sugeriu que ela contasse sua estória a um escritor, que acrescentaria ‘uma pitada de cor’ a seu relato. A princípio ela resistiu porque queria ver revelada a ‘verdade’, e Cruso admitia que a profissão do escritor ‘é com os livros, e não com a verdade’.”
“Frustrada, ela começa seu próprio relato: ‘A mulher Náufraga. Relato Verídico de um Ano numa Ilha Deserta. Com muitas Circunstâncias Estranhas Jamais Contadas até Hoje’, mas descobre que os problemas da escrita da história são semelhantes aos da escrita da ficção: ‘Será que essas circunstâncias são suficientemente estranhas para formarem uma estória? Quanto tempo se passará até que eu seja forçada a inventar circunstâncias novas e mais estranhas: o resgate de ferramentas e mosquetes da embarcação de Cruso; a construção de um barco […] um desembarque de canibais […]?’ Contudo, sua decisão final é a de que ‘aquilo que aceitamos na vida não podemos aceitar na história’—isto é, mentiras e invenções.”
8. A INTERTEXTUALIDADE, A PARÓDIA E OS DISCURSOS DA HISTÓRIA
“ao propor uma versão americana do pós-modernismo, Charles Newman abandona essa definição intertextual metaficcional e considera a literatura americana como uma ‘literatura sem influências básicas’, ‘uma literatura cujos pais não são conhecidos’, que sofre da ‘angústia da não-influência’. Neste capítulo eu gostaria de concentrar minha discussão basicamente sobre a ficção americana, com o objetivo de responder às afirmações de Newman por meio do exame dos romances de autores como Toni Morrison, E.L. Doctorow, John Barth, Ishmael Reed, Thomas Pynchon, sendo que todos lançam sobre quaisquer declarações desse tipo o que considero como uma dúvida razoável.”
Leitura interrompida
