MATRIZES DO PENSAMENTO PSICOLÓGICO – Luís Cláudio Figueiredo

I. A CONSTITUIÇÃO DO ESPAÇO PSICOLÓGICO

PEIRCE, O que é o pragmatismo. Em: PEIRCE, Semiótica. DEWEY, The development of American pragmatism. Em: RUNES, D.D. (org.) Living schools of philosophy.

II. A OCUPAÇÃO DO ESPAÇO PSICOLÓGICO

Os vitalistas tomam partido: são a favor da ‘vida’ e contra a razão.” “a inteligência conceitual deve ser substituída pela intuição, pela apreensão imediata da natureza ‘naturante’ [capaz de autocriação] das coisas” “mística da vivência autêntica” “No lugar do interesse tecnológico domina aqui o interesse estético” “a obra da decrepitude de W. Reich (…) a terapia gestáltica e outras técnicas corporais”

Os estruturalismos são de fato reações anti-românticas de índole tendencialmente cientificista, enquanto a fenomenologia é um dos coroamentos da tradição filosófica racionalista, iluminista e, portanto, anti-romântica.” “as três matrizes se inscrevem n…a problemática da expressão.”

O problema de difícil solução para o historicismo ideográfico é o do método.”

operacionalização de uma antecipação de compreensão.”

círculo hermenêutico”

A grande preocupação dos estruturalismos é a de elaborar métodos e técnicas de interpretação que conquistem o mesmo grau de segurança e objetividade que o obtido pelas ciências da natureza.”

estruturas profundas da vida simbólica”

Finalmente, encontramos na fenomenologia uma tentativa de superação tanto do cientificismo como do historicismo.”

DESDE KANT, O TEMPO ESTÁ EM NÓS: “A legitimação naturalista do conhecimento – como ocorre no empirismo – é inadequada porque as formas do mundo se apresentar à consciência não são oriundas da própria experiência, senão que a precedem e estabelecem suas condições de possibilidade.”

É necessário supor, para não cair no ceticismo, que todo conhecimento ou juízo empírico retire sua certeza de uma estrutura cognitiva apriorística que defina as formas, as categorias e os mecanismos da cognição de acordo com os quais as evidências possam se constituir e validar.”

O fundamento deve ser procurado do lado da consciência pura, do sujeito transcendental que determina as condições de existência para a consciência de todos os objetos da vida espiritual.”

A fenomenologia (ciência eidética)”—por causa do “de”: consciência (de algo). Consciência disso e daquilo…

Eidética no dicionário: “[Filosofia] Pertencente à essência abstrata das coisas, dos sentidos idealizados, por oposição ao que existe realmente.” Ironicamente, o que existe realmente é somente a essência abstrata das coisas.

Significado de Noese

substantivo feminino

[Filosofia] Na fenomenologia, aspecto subjetivo da vivência, constituído por todos os atos tendentes a apreender o objeto: o pensamento, a percepção, a imaginação etc.”

Não podemos admitir a completa irredutibilidade das épocas” Bem como seu inverso (estruturalismo).

O paradoxo de todo historicismo é negar-se à época que lhe sucede. “Em outras palavras, o ceticismo seria a conseqüência direta do relativismo radical historicista.”

A fenomenologia da consciência transcendental, confluindo com outras tradições filosóficas, e literárias, está na origem dos existencialismos, cujas repercussões no pensamento psicológico são mais profundas que as diretamente provenientes da filosofia fenomenológica.”

A antropologia fenomenológica existencialista dá o quadro de referências (os elementos e a norma, o ‘modelo’ de sujeito) que será investigado pelas ciências humanas empíricas.”

o que há de mais subjetivo, i.e., o projeto”

ideologias pararreligiosas”

Se nada me prende e minha vida é meu projeto, a solução é minha e para mim.”

retraimento do sujeito sobre si mesmo numa inflação inconseqüente da subjetividade”

Do behaviorismo tosco de J.B. Watson ao sofisticado de B.F. Skinner, à Psicanálise e a toda a obra de Jean Piaget reflete-se a mesma intenção.”

grandes tentativas de síntese, gestaltismo.”

psicologia social… recentemente … Harré e Hecord” + S. Koch + Nuttin + Howarth “senso comum”

Harré, Making social psychology scientific. Em: GILMOUR, DUCK (org.), The development of social psychology, 1980.

KOCH, Psicologia e ciências humanas. Em: GADAMER, VOGLER (org.), Nova antropologia, 1977.

NUTTIN, O comportamento humano: o homem e seu mundo fenomenal. EM: GADAMER, VOGLER (org.) op. cit.

Este texto de Nuttin é extremamente claro e penetrante. O que, somado ao seu fácil acesso ao leitor brasileiro, o torna uma indicação obrigatória para leitura”

HOWARTH, The structures of effective psychology. Em: CHAPMAN, JONES (org.) Models of man, 1980.

Wundt naturalmente listado como impressionante pioneiro do ecletismo epistemológico maduro e atual.

(*) “A irrelevância dos objetos e resultados de grande parte da pesquisa básica em psicologia é um dos principais alvos de seus detratores.” “função crítica da irrelevância” “O leigo acaba vendo no difícil de entender [hermético] um sinal de profunda sabedoria e alta ciência. Para uma boa aparência de cientificidade, quanto mais irrelevante melhor.”

(*) “A duplicidade e a complexidade do projeto de Wundt, durante muito tempo confundido com o de E.B. Titchener, vem sendo recentemente o tema de vários trabalhos, entre os quais se recomendam: BLUMENTAHL, A reappraisal of Wilhelm Wundt, American psychologist, 1975. … DANZIGER, The positivist repudiation of Wundt, Journal of the History of the Behavioral Sciences, 1979. LEAHEY, The mistaken mirror: on Wundt’s and Titchener’s psychologies, Journal of the History of the Behavioral Sciences, 1981.

III. MATRIZ NOMOTÉTICA E QUANTIFICADORA

BACON: “A emergência da ‘metodologia científica’ corresponde exatamente a um estágio em que a auto-reflexão das práticas produtivas já permite que a estrutura do trabalho seja posta a serviço da produção e validação de conhecimentos. As idéias de caráter preditivo chamar-se-ão hipóteses, e suas origens serão atribuídas a processos denominados indução, abdução ou invenção; as práticas produtivas serão os procedimentos de observação controlada e, em especial, os procedimentos experimentais de teste; o resultado obtido será confrontado com o resultado esperado – que, na medida do possível, deve ser rigorosamente [palavra que não combina] deduzido das hipóteses iniciais; a finalidade deste processo é a de, com base neste confronto, aceitar ou refutar as hipóteses.”

O positivismo foi concebido e desenvolvido não pelos filósofos do séc. XIII mas pelos astrônomos gregos que, tendo elaborado e aperfeiçoado o método do pensamento científico – observação, teoria hipotética, dedução e, finalmente, verificação por novas observações –, encontraram-se na incapacidade de penetrar no mistério dos movimentos verdadeiros dos corpos celestes e que, conseqüentemente, limitaram suas ambições à salvação dos fenômenos, isto é, a um tratamento puramente formal dos dados da observação. Tratamento que lhes permitia previsões válidas, mas cujo preço era a aceitação de um divórcio definitivo entre a teoria matemática e a realidade subjacente” KOYRÉ, Les étapes de la cosmologie scientifique. + Do mundo fechado ao universo infinito

As hipóteses descritivas e explicativas, como pretendem representar a essência dos fenômenos naturais, devem convergir para um sistema e, de preferência, ser dedutíveis de alguns poucos axiomas – o que foi finalmente alcançado no séc. XVIII por Isaac Newton.”

Quando as grandes conquistas da física moderna, nos sécs. XIX e XX, revelaram-se como meras hipóteses que exigiam correções radicais, abateu-se sobre a comunidade um certo descrédito diante da atitude realista que vê nas funções matemáticas expressões objetivas da ordem natural. Reanimaram-se, então, as posições instrumentalistas

Em momento algum, todavia, deixou de progredir a matematização da física e o distanciamento entre a experiência científica e a experiência leiga.”

A química enterrou definitivamente a alquimia quando Lavoisier – versado em lógica, matemática, física e astronomia – trouxe para a nova ciência o espírito de exatidão, da mensuração e da análise experimental. Os estudos biológicos, a partir da fisiologia, diretamente tributária da mecânica e da química, e dos empreendimentos taxonômicos de Lineu, também avançaram na direção da biologia científica.”

o cálculo de probabilidades e os procedimentos estatísticos em geral que, no campo das ciências não-exatas, asseguram a ligação entre o domínio empírico – marcado por uma certa margem de variabilidade intrínseca – e o domínio racional.”

A possibilidade de submeter os fenômenos psíquicos aos procedimentos matemáticos, de forma a criar-se uma psicologia empírica, foi expressamente negada por Kant com a alegação de que estes fenômenos não se prestavam à análise e à observação e só tinham uma dimensão, a temporal, quando a mensuração de um processo exige duas dimensões, a temporal e a espacial. Não obstante, o projeto de uma psicometria apareceu já no séc. XVIII na obra do filósofo alemão Christian Wolff, que esperava desta nova ciência a mensuração dos graus de prazer e desprazer, perfeição e imperfeição, certeza e incerteza.”

o mesmo fizeram outros autores como De Maupertuis, Buck, Mendelssohn, Ploucquet, Mérian e Lambert. (…) Nenhum deles, porém, dedicou ao tema mais que algumas páginas marginais de suas obras de matemáticos, filósofos e naturalistas. No séc. XVIII apenas Hagen, Krüger e Körber trataram com mais detalhe do assunto.”

a psicofísica de Weber e Fechner … Ebbinghaus”

O modelo de Herbart se propõe a representar a estática e a dinâmica dos processos mentais a partir da idéia de conflito entre representações (todos os fenômenos, conscientes ou inconscientes, são denominados representações).”

Hoje a construção de modelos matemáticos e lógicos não encontra a resistência que a partir do final do séc. XIX o positivismo opôs à pretensão de apreender os mecanismos, indo além das leis empíricas. Ainda assim, a prática da construção de modelos é apenas um dos momentos do procedimento científico, momento aliás subordinado ao de teste: a partir de um modelo devem-se atribuir valores plausíveis às variáveis quantitativas nele implicadas para em seguida – freqüentemente através de simulação computadorizada em que se variam parametricamente estes valores – deduzir os comportamentos do modelo nas diferentes condições programadas. Finalmente, confrontam-se os comportamentos do modelo com os do organismo nele representado. Convém assinalar que dificilmente o comportamento do modelo será idêntico ao do seu original, o que conduzirá a um processo infinito de ajuste com a introdução de novas variáveis e/ou com a postulação de novas relações funcionais entre elas. A psicologia matemática de Herbart carece completamente desta possibilidade de autocorreção” “É necessário que se mencione, a propósito, a semelhança entre o modelo de Herbart e o que veio a ser proposto por Freud.”

a dinâmica herbartiana é puramente mecanicista e a análise se orienta para a identificação das relações de causalidade eficiente; já na dinâmica freudiana há presença da intencionalidade.” Conversão para as ciências humanas, para nunca sair da preferência – tão prejudicial! – dos cientistas sociais…

O estudo dos limiares diferenciais – diferenças apenas perceptíveis – foi a área pioneira na concretização do ideal de quantificação em psicologia.”

dR/R=C, em que R é o estímulo-padrão com o que os outros devem ser comparados, dR é o incremento mínimo de R para que a diferença seja percebida, e C é uma constante.”

S=ClogR, em que S é a sensação, R o estímulo e C uma constante a ser obtida empiricamente. Esta função descreve os desvios sistemáticos da subjetividade em relação às mudanças do mundo exterior”

O estudo experimental das sensações permaneceu na segunda metade do séc. XIX e continua até hoje uma área de pesquisa muito ativa e rigorosa, aonde (sic) a matriz nomotética e quantificadora tem produzido alguns de seus melhores resultados.”

Com freqüência esta psicologia das diferenças individuais – ou psicologia diferencial – [McKeen Cattel, Galton, Binet, Thorndike] estava claramente empenhada em tarefas práticas no âmbito da escola, da indústria e da burocracia civil e militar, classificando a situando os sujeitos em escalas numéricas de acordo com medidas de inteligência geral, capacidades cognitivas específicas, velocidade de aprendizagem e desempenho de diferentes tipos de tarefas.”

não arrefeceu em momento algum o impulso nomotético e quantificador.”

GARRET, Grandes experimentos da psicologia, 1979.

IV. MATRIZ ATOMICISTA E MECANICISTA

A física do impetus ao final da Idade Média havia crescido a ponto de desalojar a física de Aristóteles, explicando em termos de impulso impresso também os movimentos ‘naturais’.”

A lei da inércia [de Galileu] atribui o mesmo valor e as mesmas propriedades ao repouso e ao movimento e libera este último da dependência de qualquer motor externo.”

Na química a análise elementar foi uma constante desde os trabalhos pioneiros de Priestley e Cavendish até a sistematização de Lavoisier. A subdivisão dos elementos em átomos progrediu no século XIX sob a direção de Dalton e Mendeleiev.”

a química é testemunha das transformações de qualidade produzidas por diferenças estruturais. Contudo, ao final do século passado, ainda era o procedimento analítico da química, e não seus resultados[,] que punham em questão o atomicismo físico, que servia de guia e exemplo para as demais ciências, entre as quais a psicologia.”

Os estudos de Pavlov, principalmente, são a contraparte fisiologizante e mais rigorosa dos estudos experimentais da associação iniciados por Ebbinghaus.”

Não se pode assim concordar com a idéia, amplamente divulgada, que associa o behaviorismo, fundamentalmente, ao mecanicismo e ao atomicismo. De qualquer forma, a sobrevivência de vestígios elementaristas e mecanicistas na psicologia behaviorista exigirá que no próximo capítulo uma atenção especial seja dada às combinações das duas matrizes.”

V. MATRIZ FUNCIONALISTA E ORGANICISTA NA PSICOLOGIA AMERICANA

A referência inicial e obrigatória é a chamada psicologia funcional8 que se desenvolveu nos EUA no final do século XIX e início do XX. Representantes notáveis desta corrente são J. Dewey (1859-1952), J. Angell (1869-1949), J.M. Baldwin (1861-1934) e, como grande precursor, William James (1842-1910).”

O estudo do comportamento animal com o objetivo de ‘conhecer o desenvolvimento da vida mental na escala filogenética e buscar a origem da inteligência humana’, tal como se expressa Thorndike em 1898, foi iniciada por Darwin e continuada por Romanes (1848-1894), Morgan (1852-1936), Thorndike (1874-1949) e Jennings (1868-1947), para ficar apenas com os pioneiros.”

Dois autores modernos assumiram integralmente, embora de formas muito diversas, o legado funcionalista: E.C. Tolman (1886-1959) e B.F. Skinner (1904-[1990]).”

Tolman, além de condensar e elevar a um nível superior todo o movimento da psicologia funcional, antecipou o movimento cognitivista americano.”

A solução mais original, contudo, foi elaborada por Skinner e batizada por ele de behaviorismo radical. Não me proponho aqui dar conta do conjunto desta obra que, pela extraordinária riqueza e penetração, é uma das mais notáveis realizações intelectuais da nossa época.”

VI. MATRIZ FUNCIONALISTA E ORGANICISTA NA PSICOLOGIA EUROPÉIA, NA PSICANÁLISE E NA PSICOSSOCIOLOGIA

Na obra de Jean Piaget—um dos mais completos, consistentes e articulados representantes da matriz funcionalista e organicista em psicologia—ficam dissolvidos os limites entre filosofia, psicologia e biologia, mas serão os métodos e conceitos da última que dominarão ao longo de toda a sua fecundíssima carreira.”

<A psicanálise é uma ciência natural—o que mais poderia ser?>, diz Fraud em 1925.”

VII. SUBMATRIZES AMBIENTALISTA E NATIVISTA NA PSICOLOGIA

(…)

VIII. MATRIZ VITALISTA E NATURISTA

Talvez seja necessário novamente esclarecer que não há relações diretas entre Bergson e os autores que serão nomeados neste capítulo. Na filosofia bergsoniana estão reunidos, isto sim, temas e atitudes que caracterizam muito do senso comum psicológico e que se encontram dispersos em várias orientações, escolas e seitas contemporâneas. Nenhuma delas, todavia, pode ser apresentada como uma ‘psicologia bergsoniana’ e em muitas há também vestígios de outras matrizes.”

IX. MATRIZES COMPREENSIVAS: HISTORICISMO IDIOGRÁFICO E SEUS IMPASSES

Hegel e Marx, cujas contribuições para o desenvolvimento da psicologia e das demais ciências empíricas foram negligenciáveis”

esta maneira dissecadora de lidar com a natureza provavelmente não atrai o leigo. Eu argúo que esta maneira pode ser inadequada mesmo para os iniciados e que, talvez, haja lugar para um outro método, um que não ataque a natureza dissecando e particularizando, mas a mostre viva e operante, manifestando se em sua totalidade em cada parte do seu ser.” Goethe

… devo-lhe confidenciar que estou muito perto de descobrir o segredo da criação e organização das plantas… A Urpflanze é a mais extraordinária criatura do mundo; a própria natureza a invejará. A partir deste modelo será possível inventar plantas ad infinitum e todas serão consistentes, isto é, todas poderiam existir, ainda que de fato não existam; elas não seriam meros sonhos ou sombras poéticas ou figuradas, mas possuiriam uma verdade interna e uma necessidade.” Goethe a Herder

A verdade é uma revelação que emerge no ponto em que o mundo interno do homem encontra a realidade externa”

Os românticos opõem-se fundamentalmente a todo revolucionarismo progressista que pretenda subverter a ordem natural da sociedade, rompendo com suas origens e tradições. A filosofia de Schelling condensa toda a temática romântica, e todas as soluções românticas e anti-racionalistas numa grande cosmovisão e numa teoria do conhecimento. Schelling constrói uma filosofia da totalidade, que é aí dotada de um movimento próprio, criativo e autônomo no qual o espírito, através da intuição, reconhece sua própria atividade criadora. O motor deste movimento é o conflito.”

a natureza desta totalidade (organismo, comunidade, nação, espírito popular, ou que outro nome receba) é tal que não a subordina às leis da sobrevivência e da adaptação, antes exibindo um caráter essencialmente produtor e criativo.”

O romantismo, de fato, é antes de tudo uma filosofia da expressão, da representação simbólica. Assim, enquanto a intuição de Bergson se move numa imediaticidade natural que visa unir o sujeito à vida pré-simbólica, dissolver o indivíduo no élan vital, a intuição romântica procura apreender a imediaticidade simbólica estabelecendo uma relação empática entre formas expressivas e comunicativas. Ora, esta apreensão imediata de uma forma expressiva, esta compreensão dos símbolos exige um esforço intelectual desconhecido tanto de Bergson como de todas as matrizes cientificistas: o esforço de interpretação.”

A preocupação em definir uma metodologia para as ciências morais manifestou-se durante todo o séc. XIX, sobressaindo as contribuições de Schleiermacher para a arte da compreensão—a hermenêutica—aplicada à filosofia e à teologia e as de historiadores como Ranke e Droysen. Foi, entretanto, o filósofo Wilhelm Dilthey (1833-1911) quem se propôs a desempenhar em relação às ciências morais o papel que Kant havia representado no âmbito das ciências naturais do séc. XVIII”

A preocupação com a verdade não costuma ser muito acentuada em vários arraiais psicológicos, e, desta maneira, variantes do discurso diltheyano aparecem com freqüência na psicologia clínica. Os chamados humanistas, p.ex., usam e abusam desta terminologia (compreensão, significado, etc.), reduzindo quase sempre estes conceitos ao nível de Bergson, ao vitalismo pré-crítico.”

A afirmação de Spranger de haver encontrado as leis universais da produção e da interpretação do sentido não encontrou muito eco no desenvolvimento posterior da psicologia.”

(*) “Convém, talvez, assinalar que embora use o termo com esta acepção ampla e acompanhe os autores em muitos pontos da análise, não encampo o enfoque pessimista, aterrorizante e algo obscurantista de Horkheimer e Adorno.” HAHAHA

HELLER, E. The Disinherited mind

(*) “Acerca da ideologia política romântica, ver ROMANO, R. Conservadorismo romântico. Origem do totalitarismo. São Paulo, Brasiliense, 1981.

X. MATRIZES COMPREENSIVAS: OS ESTRUTURALISMOS

A grande dificuldade era encontrar para estas ciências critérios positivos cuja aplicação discriminasse o verdadeiro do falso. Os estruturalismos nasceram no contexto desta problemática e formam o conjunto de soluções mais rigoroso, do ponto de vista metodológico. As totalidades simbólicas são submetidas a uma investigação imanente que as objetiviza e desprende tanto das conexões subjetivas, que as constituíram (intenções comunicativas), como das que as interpretam (intenções compreensivas). A neutralização do sujeito caracteriza o ideal científico dos estruturalismos e os coloca como uma espécie de positivismo das ciências humanas.”

Há assim dois níveis de organização: um, empírico, em que a organização aparece nas interconexões das ocorrências do mundo fenomenal, nas formas que se oferecem à consciência; um outro, teórico e construído (jamais vivenciado) em que a organização se manifesta no processo de dotação de forma e sentido. E a este nível – profundo e inconsciente – que se voltam preferencialmente os estruturalismos, ainda quando, como ocorre na psicologia da gestalt, as formas fenomenais da vivência espontânea dão o fio da meada para a investigação científica.”

Nas origens da matriz estruturalista encontramos movimentos intelectuais que no final do século XIX e no início do XX revolucionaram a psicologia, a teoria da literatura e a lingüística. No campo da psicologia foi a chamada psicologia da forma, ou da gestalt, que ofereceu a mais consistente alternativa européia à velha psicologia elementarista, associacionista e introspeccionista (nos EUA coube ao funcionalismo e ao behaviorismo esta missão).”

Ampliando ainda mais o foco de suas preocupações, o gestaltismo se projetou como uma filosofia geral das ciências e como uma fundamentação da ética e da estética. Grande parte desta imensa contribuição foi sistematizada nos Princípios da psicologia da gestalt, redigidos por K. Koffka (1886-1941) na década de 30. Outros nomes de primeiro plano são os do pioneiro Max Wertheimer (1880-1943), o de Wolfgang Koehler (1887-1949) e o de Kurt Lewin (1890-1947).”

O dado básico da psicologia da forma é a experiência imediata. Só que, ao contrário de Wundt, ao invés de dissecar esta experiência para identificar as suas unidades mínimas e, em seguida, reconstituir os fenômenos complexos, tratava-se para os gestaltistas, antes de mais nada, de descrever e compreender os fenômenos que espontaneamente se ofereciam na experiência dos sujeitos e dos seus observadores.”

Os psicólogos da forma, contudo, estão convencidos de que é possível superar o nível da pura compreensão e elaborar leis gerais explicativas.”

Enquanto a noção de forma contemplada pelos gestaltistas exerceu notável influência sobre a teoria das artes plásticas, simultaneamente desenvolvia-se na Rússia uma teoria da literatura também formalista e estruturalista. Para os formalistas russos colocava-se a tarefa de proceder a uma leitura das obras literárias que, pondo de parte o psicologismo e o sociologismo, visasse a obra mesma de maneira a captar nela, não as intenções do autor ou o efeito das pressões sociais, mas a sua estrutura imanente e os seus procedimentos constitutivos.”

(*) “Uma ótima apresentação e crítica do gestaltismo é encontrada em MERLEAU-PONTY, M. A estrutura do comportamento. Belo Horizonte, Inter livros, 1975.

XI. MATRIZ FENOMENOLÓGICA E EXISTENCIALISTA

(…)

XII. CONSIDERAÇÕES FINAIS E PERSPECTIVAS

Este livro nasceu das aulas que dava na disciplina História da psicologia. Convinha, então, no término do semestre, justificar o porquê de, no final das contas, não ter oferecido nada que parecesse com a história da psicologia. Tenho para mim que história da psicologia, como talvez também a de outras disciplinas que visam a vida em sociedade, não se pode nortear pelos modelos disponíveis de historiografia das ciências naturais. No conjunto da disciplina não encontramos, seja a acumulação regular de fatos e teorias, seja as revisões radicais e revolucionárias dos paradigmas dominantes, seja o confronto crítico de enfoques alternativos em condições de testes cruciais.”

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