CÁRMIDES (OU ‘DA CRÍTICA DE CRÍTIAS’): Comparação de traduções

Tradução comentada de trechos de “PLATÓN. Obras Completas (trad. espanhola do grego por Patricio de Azcárate, 1875), Ed. Epicureum (digital)”

Além da tradução ao português, providenciei notas de rodapé, numeradas, onde achei oportuno abordar pontos polêmicos ou obscuros. Quando a nota for de Azcárate (tradutor) ou de Ana Pérez Vega (editora), um (*) antecederá as aspas.

(*) “O Cármides é um diálogo de Platão em que Sócrates é introduzido ao jovem Cármides e continua a conversação com Crítias – o tema é o sentido de sophrosyne, palavra grega para <temperança>, <prudência>, <autocontrole>, <restrição>, havendo sido traduzida pelo escólio como sabedoria. Como é habitual nos diálogos platônicos de juventude, os contendores não chegam a uma definição satisfatória, mas ao menos promovem, através do método maiêutico, uma profunda reflexão.” – A.P.V.

Aproveito ainda a ocasião para fazer comparações entre duas traduções independentes, de fontes que divergem, pois traduzi novamente o texto – dessa vez outra tradução espanhola – em 2023 (note-se que este post é original de 2019, e o estou republicando com alterações). Obviamente minha própria experiência de vida fez-me recorrer à tradução de trechos diferentes e de formas diferentes, mas nos casos em que traduzi as mesmas passagens podemos avaliar, em parte, o êxito de minhas escolhas e, em parte, a própria felicidade dos tradutores espanhóis, que me induziram a localizar ao português de forma alternativa já pelo fato de haverem feito suas seleções vocabulares sobre o grego original! A “nova tradução” constará na cor azul claro, além de em fonte diferente, para não confundir o leitor.

O primeiro contraste, já bastante sobressaltante, é que CÁRMIDES também é chamado, por sua matéria de “CÁRMIDES OU DA SABEDORIA”, mas eu intitularia facilmente o diálogo como “CÁRMIDES OU DA IMPOSSIBILIDADE DO SABER”, pelo menos a partir desta opção por uma segunda tradução 4 anos depois, já “denunciando” o caráter de aporia do diálogo!

SÓCRATES – Efetivamente, pouco antes da minha partida teve lugar uma batalha em Potidéia,¹ da qual, justo agora, soube-se aqui.”

¹ Colônia de Corinto, integrante da liga espartana.

-…quem vem vindo é Cármides, filho de meu tio Glauco e portanto meu primo.

– Sim, por Zeus! Noutro tempo, ainda que muito jovem, já não parecia mal; hoje deve ser um bem-formado adulto!

– Já, já poderás julgar de seu talhe e disposição.

Enquanto pronunciava essas palavras, Cármides entrou.

– Não é a mim, querido amigo, a quem é preciso consultar para esta avaliação. Se devo ser sincero, sou a pior pedra-de-toque em matéria de beleza dos jovens; porque na idade em que está nem um só me parece menos que formoso.

Sem dúvida me pareceu admirável por suas proporções e figura, e adverti também que todos os demais jovens encontravam-se como que apaixonados por ele, como assinalavam sua turbação e emoção, que lhes notei no rosto assim que Cármides entrou. Entre os que o seguiam, contemplei mais de um erastes. Que o seguinte sucedera a homens como nós, mais velhos, nada de espantoso: mas observei que entre os jovens não havia um que nele não fixasse os olhos, e não falo só dos mais jovens dentre eles, mas de todos do local – Cármides era contemplado como um ídolo. Querefonte, interpelando-me, disse:

– E então, Sócrates, que nos dizes? Não tem uma bela fisionomia?

– Ó, sim.

– E no entanto, se se despojasse de suas vestes, não te fixarias no seu corpo, se te conheço.¹ Ah, tão belas suas formas!…

Todos subscreveram as palavras de Querefonte.

– Por Hércules! Falais-me de um homem irresistível se, evidente, em acréscimo a todos estes dotes possui um atributo bem pequeno.²

– E qual é?

– Que a natureza tenha-o tratado com a mesma generosidade quanto a sua alma; creio que assim será, posto que o jovem pertence a tua família.”³

SÓCRATES – Quem é? E é filho de quem?

CRÍTIAS – Provavelmente o conheces. Porém, quando te ausentaste da cidade ele ainda não estava em idade. É Cármides,4 filho de nosso tio5 Glauco, primo meu, portanto.

SÓCRATES – Claro que o conheço. Já então não fazia má impressão, e isso sendo só uma criança. Imagino agora então, que já é um rapaz!”

Comparados a mim, todos os adolescentes são belos.” “Tive a impressão, quando o vi entrar, de que todos os outros rapazes estavam dele enamorados, tão atônitos e confusos se mostraram. Outros muitos admiradores o seguiam. Estes sentimentos, entre homens maduros como nós, eram menos invulgares, e, não obstante, entre os jovens, dei-me conta, nenhum, por mais tenro em idade que fôra, deixava de olhar na direção de Cármides, como se fôra a imagem de um deus que se aproximava.”

QUEREFONTE6 – Então, que te parece, Sócrates? Não tem um belo rosto?

SÓCRATES – Extraordinário!

QUEREFONTE – Decerto que, se ele se pusera nu, a ti já nem pareceria belo de rosto, tão bela e perfeita sua figura.”¹

¹ A segunda tradução diverge, e provavelmente é a menos confiável.

² Não sei se há no original este matiz de ironia pícara que parece querer comentar sobre o tamanho do pênis de um homem, se essa matiz foi acrescida nas traduções ou se eu mesmo vi o texto sem a devida inocência – mas na segunda tradução não há qualquer conotação que possa ser levada para um lado ambíguo, pelo palavreado escolhido. Eu traduziria, hoje, da seguinte forma: “se, é evidente, em acréscimo a todos estes dotes me satisfizesse também num outro detalhe.”

³ Como o diálogo é diferente de muitos mais tardios, em que só Sócrates fala, como se contasse uma história passada a não sabemos quem, e interpõe os discursos da cena apenas com o travessão, há, em determinados trechos, confusão sobre com quem ele dialoga no banho, se com Querefonte ou Crítias.

4 Tanto Cármides quanto Crítias participaram do Governo dos Trinta Tiranos e morreram no mesmo ano, em batalhas contra os democratas atenienses.

5 Informação importante: Glauco parece ser tio-avô de Crítias, e no entanto Cármides é mais novo, i.e., Crítias é neto do irmão de Glauco e nasceu muito antes. Além do fato de que Glauco teve um filho já em idade avançada (o que não tem qualquer interesse fundamental para nós), só gostaria de chamar a atenção para o vínculo familiar entre ambos – mais tarde outra nota de rodapé tocará no assunto e legitimará uma adaptação feita na segunda tradução.

6 Presente no diálogo A Apologia de Sócrates, um de seus melhores amigos.

(*) “Como quando Lísias é apresentado no diálogo homônimo, Cármides é introduzido com os melhores epítetos que se pode dedicar a um homem: é kalos kai agathos. A fórmula, que expressa um ideal supremo de equilíbrio entre beleza física e superioridade psicológica se encontra num domínio mais amplo que o da mera tradução literal no contexto moderno.”

– E que motivos teríamos para não pôr primeiro em evidência sua alma, e não a contemplaremos antes que a seu corpo? Na idade em que se acha, está já em posição de sustentar dignamente uma conversa?¹

– Perfeitamente – respondeu Crítias. – Já nasceu filósofo.² E se podemos crer nele mesmo e naqueles que o cercam, é também um poeta.

– Talento que, vejo, é-lhe hereditário, meu querido Crítias. Deve-o sem dúvida a vosso parentesco com Sólon! Mas que tanto esperas para me introduzir a este jovem promissor? Ainda que fôra mais jovem do que é, nenhum inconveniente teria em conversar conosco diante de ti, seu primo e tutor.³

– Nada mais justo, Sócrates. Iremos chamá-lo.”

SÓCRATES – Que tal então se o pomos a nu, não por fora, mas por dentro, analisando sua alma em detrimento de sua aparência? Na idade em que se encontra com certeza amará o diálogo.”¹

¹ Na primeira versão é uma pergunta sincera, não-retórica. Na segunda versão é uma afirmação em forma de indagação – mas Sócrates demonstra ter certeza de que tal jovem gostará de conversar.

² Sentido vulgar de filósofo: sociável, e aparentando inteligência aos demais.

³ Esta frase coincide nas duas versões, e é o que me leva a crer que neste ponto Azcárate operou mal: Sócrates está tão convicto de que Cármides já passou e muito da idade em que já pode sustentar uma conversação profunda que chega a afirmar que mesmo se ele fosse alguns anos mais novo talvez ainda houvesse a mesma possibilidade, estando ali alguém da família, a guardar intimidade com o potencial púbere (é de se admitir que, na Grécia Antiga, a fase da revolta na puberdade se desse bem mais tardiamente do que em nossa cultura, e a fase inicial da puberdade viesse acompanhada, no homem grego livre – o não-escravo, i.e., criado de forma autenticamente ateniense –, de certo pudor e introspecção exagerados, perdidos depois naturalmente, o mesmo comportamento que passamos a exibir, talvez, dos 10 aos 12, já muito menos travessos que aos 6-8, e muito mais conformados com nossa situação do que o adolescente genuíno do século XX, de 14-18 anos).

– Cármides se queixa de que há algum tempo lhe pesa e lhe dói sua cabeça, sobretudo quando acaba de acordar. Que inconveniente há em indicá-lo, pois sei que conheces, um bom remédio para este mal?”

CRÍTIAS – Há não muito Cármides me disse que pelas manhãs, ao despertar, pesava-lhe a cabeça. Por que não te lhe apresento como médico, pois que deves conhecer um remédio para seu mal?”

Assim sucedeu, com efeito. Cármides veio a nós e deu ocasião a uma cena bastante divertida. Cada um de nós, todos sentados num mesmo banco, empurrou seu vizinho, espremendo-se a fim de dar lugar a nosso conviva, para que se sentasse de seu próprio lado. Como resultado, cada um empurrando seu próximo, os dois que estavam nas extremidades do assento – um deles teve de se levantar de golpe, e o outro caiu de bunda no chão. Não obstante, Cármides adiantou-se e sentou entre Crítias e eu mesmo. Mas então, ó amigo, me senti um tanto turbado e perdi repentinamente aquela serenidade que conservara antes, com a qual contava a fim de conversar sem esforço com o jovem. Depois, Crítias fez questão de cortar o embaraço relatando que eu era aquele que sabia de um bom remédio para suas dores de cabeça. Ele se voltou para mim com o olhar interrogativo e perscrutador, um gesto que me é impossível descrever o suficiente. Todos que estavam na academia se apressaram em sentar em círculo a nossa volta. Neste momento, meu querido, minha vista penetrou as dobras de sua túnica; meus sentidos se excitaram, e em meu transporte compreendi até que ponto Cídias¹ é inteligente nessas coisas do amor: uma vez, falando da beleza de um jovem, com um terceiro, disse: Ó, inocente gamo, vê se não te vais apresentar à boca do leão, se não desejas ser despedaçado!

¹ Poeta do qual provavelmente só restam fragmentos ou citações em outros autores.

Respondi que meu remédio consistia em certa erva, mas que era preciso acrescentar certas palavras mágicas; que pronunciando as palavras e tomando o remédio ao mesmo tempo recobraria inteiramente a saúde; mas que as ervas sem as palavras não surtiriam qualquer efeito. Cármides me respondeu:

– Vou, pois, escrever as palavras de teu encanto para não as esquecer.

– Dir-tas-ei a uma petição tua ou sem precisar de uma?

– Ao meu rogo, Sócrates – respondeu o jovem espirituoso, a rir.

– Que assim seja. Mas sabes meu nome?

– Seria vergonhoso se o ignorasse; no círculo de jovens és tu quase o principal tema de nossas conversas. Quanto a mim, recordo vivamente tê-lo visto, ainda muito criança, muitas vezes, em companhia de meu querido primo¹ Crítias.”

CÁRMIDES – De que remédio se trata?

SÓCRATES – O remédio é uma espécie de erva, à qual deve ser acrescentado um encantamento cem por cento eficaz para trazer de volta a saúde; a tal ponto que, consumindo-se somente a erva, sem o ritual que a acompanha, não há possibilidade da cura.”

¹ A diferença de idade é tamanha que achei melhor modificar a relação entre primo de meia-idade e primo mancebo para uma de tio-sobrinho a partir daqui na segunda tradução.

SÓCRATES – (…) O poder deste remédio é tal que não cura somente as dores de cabeça. Já deves ter ouvido falar de médicos hábeis. Se são consultados por alguém com doenças oculares, dizem que não podem empreender a cura dos olhos sem estender o tratamento à cabeça inteira. Analogamente, não se pode curar a cabeça desprezando o restante do corpo. Seria uma tolice. Seguindo este raciocínio, tratam o corpo inteiro e se esforçam por cuidar do paciente e sanar a parte juntamente com o todo. Não crês tu que é assim como falam e como realmente acontece?

CÁRMIDES – Não duvido.

SÓCRATES – E tu aprovas este método?

CÁRMIDES – Como não?”

Dizem os médicos que para curar os olhos deve-se curar também a cabeça, que os envolvem. E que para curar a cabeça deve-se cuidar do corpo inteiro. E de nada adianta cuidar do corpo, se não se presta atenção à própria alma.”

Zamolxis,(*)¹ nosso rei, e por conseguinte um deus, defende que não se deve tentar efetuar a cura dos olhos sem a cura da cabeça, nem a da cabeça sem a do corpo; e tampouco deve-se tratar o corpo sem tratar a alma; se muitas doenças resistem aos esforços dos médicos gregos, isto vem de que desconhecem este sistema. Pois indo mal o todo, seria impossível que fosse bem a parte.

(…)

Trata-se da alma valendo-se de algumas palavras mágicas. Estas palavras mágicas são os belos discursos. Graças a eles, a sabedoria se enraíza nas almas e, uma vez arraigada e viva, nada mais fácil que se procurar a saúde à cabeça e a todo o corpo.”

Ocorre, Cármides, que aprendi este encantamento no exército, de um dos médicos trácios de Zalmoxis,(*) ouvindo-o proferir que é capaz de ressuscitar os mortos.

(*) “Referem Zamolxis como escravo de Pitágoras que obteve sua liberdade, viveu três anos num subterrâneo [!!] e de lá saiu para fazer-se grande legislador, além de filósofo que ensinava sobre a imortalidade da alma. (Heródoto, 4:95)” – P.A.

(*) (outra nota, subsecutiva) “Talvez tenha sido discípulo e não escravo de Pitágoras. Seu nome possui diferentes grafias, conforme a fonte apurada. Zalmoxis, Salmoxis, Zamolxis, Samolxis. É hoje tido mais como figura lendária, reformador social e religioso, endeusado pelos trácios da Dácia e pelos getas (povos do baixo Danúbio). Ainda com referência a Heród. 4:95-ss., os getas tinham a crença de que ao morrerem se reuniam com Zamolxis.” – A.P.V.

¹ Para uma interpretação moderna do mito de Zamolxis ou Zalmoxis, vd. Mircea Eliade.

(*) “Zalmoxis é, segundo Heródoto, História IV, um deus reverenciado na Trácia. Era cultuado como a divindade da medicina e da imortalidade. No mesmo livro, Heródoto cita Zalmoxis como um escravo de Pitágoras, proveniente da própria Trácia; daí então admitirmos que falava da mesma pessoa em ambas as circunstâncias, e que o “deus” dos trácios era um deus pessoal, vivente. Diógenes Laércio descreve este último como um dos primeiros filósofos dentre os povos bárbaros, o que para eles deve ter tido o mesmo efeito de acompanhar um deus em vida.”

– Cármides me parece superior aos jovens de sua idade, não só pela beleza de suas formas, mas também por essa coisa mesma pela que tu aprendeste e que contém referências a essas <palavras mágicas>. Afinal, o que queres dizer é que discutamos sobre a sabedoria, não é verdade?

– Exatamente.”¹

A alma é tratada com encantamentos, e os encantamentos são os belos discursos. Dos belos discursos nasce a sensatez,¹ amiga da alma sadia. (…) O maior erro é tentar ser médico da alma e do corpo em separado. Se não acreditas no remédio, ele não te serve.”

¹ A palavra sabedoria demora muito mais a entrar em jogo na segunda tradução. Trata-se da sophrosyne, que pode ser traduzida com outros vocábulos dependendo do contexto.

Anacreonte, Sólon e os demais poetas foram infatigavelmente celebrados pela família de teu pai que se liga a Crítias, filho de Drópidas. Tua família é famosa por sobressair na beleza e na virtude de suas gerações, afora todas as demais vantagens que constituem a felicidade. (…) Jamais se conheceu no continente um homem mais belo nem mais excelente que teu tio Pirilampo,(*) embaixador de reis e príncipes diversos. (…) Pois bem: com tais antepassados, tu não podes menos que ser o melhor em tudo.”

(*) “Pirilampo, filho de Antifonte, casado em segundas núpcias com sua sobrinha Perictíona e, portanto, também padrasto de Platão.”

se és suficientemente sábio, nada tens que ver com as palavras mágicas de Zamolxis ou de Ábaris, o Hiperbóreo¹ (…) A ti, te toca unicamente dizer-me se concordas com a opinião de Crítias, se crês que tua sabedoria² é completa, ou ainda incompleta.”

¹ Outra figura “excêntrica” relatada pelo historiador Heródoto. Digamos que personagem folclórica, posto que ali se diz que voava pelos céus.

² Vide a – na minha opinião – monumental diferença de vocábulo, decorrente das diferentes acepções do grego sophrosyne.

Cármides ruborizou, e com isso pareceu ainda mais belo, porque a modéstia quadra bem com sua juventude. Depois, ao recobrar-se, disse, não sem certa dignidade, que não lhe era fácil responder de chofre <sim> ou <não> a semelhante pergunta.

– Porque se nego que sou sábio, acuso-me a mim mesmo, o que não é razoável; e assim fazendo emito um desmentido às palavras de Crítias e tantos outros, que tanto me exaltam, ao que parece. Mas, na mão contrária, se faço-me eu mesmo meu próprio elogio, não me ponho em situação menos inconveniente. Simplesmente não sei o que responder-te!”

CÁRMIDES – Estou aqui em situação bastante difícil. Por um lado, se digo que não sou sensato, estaria bastante fora de lugar que alguém diga tal coisa de si mesmo; ademais, farei com que Crítias, que é inclusive nossa testemunha, pareça diante dos outros um embusteiro, aliás, não só ele como muitos que afiançam que pareço sensato. Por outro lado, aquele que se diz sensato corre o risco de se tornar insuportavelmente arrogante. Então antes de que me examines, Sócrates, nada tenho a dizer.”

SÓCRATES – Para que saibamos se a sabedoria reside ou não em ti, diz-nos: que é a sabedoria em tua opinião?

CÁRMIDES – (…) Sócrates, a sabedoria parece consistir, para mim, em fazer todas as coisas com moderação e comedimento; andar, falar e agir em tudo dessa maneira; numa palavra, a sabedoria seria uma certa medida ou justeza.”

SÓCRATES – Diz-se por aí, querido Cármides, que os que procedem com medida são sábios. Mas há razão nessa sentença?”

Não seria a sensatez tudo que se faz de modo ágil?”

SÓCRATES – E que é mais belo para um mestre de escola, escrever agilmente ou com medida?

CÁRMIDES – Agilmente.

SÓCRATES – Ler rápido ou devagar?

CÁRMIDES – Rápido.

SÓCRATES – E tocar a lira com desenvoltura e lutar com agilidade não é mais belo que fazer todas essas coisas com mesura e lentidão?¹

CÁRMIDES – Sim.

SÓCRATES – E então? No pugilato e nos combates de todo gênero, não é sempre assim?

CÁRMIDES – Absolutamente.”

Por exemplo, ensinar algo a alguém, não é melhor fazer com rapidez e fluidez que com lentidão e pesadez?”

E a agudeza de raciocínio, não é algo assim como agilidade, e seu contrário a torpeza da mente?”

¹ Na tradução de Azcárate perde-se todo o gradiente, os matizes que a cada nova sentença Sócrates vai colocando nas expressões, para fazer seu interlocutor cair em contradição, ou melhor, já que Sócrates não é um sofista barato: para fazê-lo ver que, ao definir assim a sabedoria, qualquer homem cai em contradição.

SÓCRATES – É a sabedoria bela?

CÁRMIDES – Sim.

SÓCRATES – Logo, pelo menos no que concerne ao corpo, não é a mesura ou a medida, mas a velocidade que constitui a sabedoria, posto que a sabedoria é uma coisa bela.”

Então a sensatez não pode ser algo tranqüilo. Dir-se-ia que a sensatez é contrária ao repouso e à serenidade. (…) Mas se as ações calmas e prudentes não são em si mais valiosas, necessariamente, que as ações intrépidas e veementes, na verdade a sensatez seria algo indiferente ao tranqüilo e ao intranqüilo. Pois no andar e no falar não é prudente ser apressado sempre. Só o que sabemos é que a sensatez é muito bem-avaliada, destarte. E há coisas vagarosas que são bem-avaliadas!”

CÁRMIDES – Me parece, agora que tu o disseste, me corrigindo, que o próprio da sabedoria é produzir o rubor, fazer do homem mais modesto e timorato; a sabedoria seria, então, o pudor.

SÓCRATES – Que seja, então. Não confessaste antes que a sabedoria era uma coisa bela?

CÁRMIDES – Sim.

SÓCRATES – E os homens sábios são igualmente bons?”

CÁRMIDES – A sensatez também pode ser algo que torna o homem mais tímido e desperta-lhe o pudor.”

Mas o que dizes de Homero? Crês que ele está errado quando afirma

<Não é boa a companhia do pudor para o homem indigente>(*)?

(*) Odisséia XVII”

– Se o pudor pode ser tão bom quanto mau, não é sensatez, pois esta é sempre boa.

– De acordo.”

a sabedoria consiste em fazer o que nos é próprio.”¹

¹ Em que pese preferir, no todo, a versão de Azcárate, novamente encontro neste ponto específico maior felicidade na segunda tradução. Ver abaixo, quando reaparece, qual foi a escolha da 2ª tradução para “fazer o que nos é próprio”.

Que é o <ocupar-se>?”

SÓCRATES – Ó, pícaro! Foi Crítias ou algum outro filósofo que te sugeriu esta idéia?”

se descobrirmos o que isto significa, não me surpreenderei pouco; é um verdadeiro enigma!”

CÁRMIDES – Eu não sei de nada, por Zeus! Mas não seria impossível que quem falou desta forma se compreendesse a si próprio.

Ao dizer isso, Cármides me sorria e dirigia o olhar a Crítias, que se encontrava visivelmente vermelho já há algum tempo. (…) Percebi que jamais me enganara: Crítias era o autor da última resposta que me dera Cármides acerca da definição de sabedoria.”

não menos colérico contra o jovem que um poeta contra o ator que desempenha mal seu papel”

Via-se que Crítias, que, já fazia um tempo, sentia-se atacado e demonstrava vontade de sobressair em relação a Cármides e os presentes, incapaz de conter-se por muito mais, estava prestes a se manifestar. Tanto mais, então, me pareceu que meu palpite acertara em cheio: Cármides escutara justo de Críticas aquela definição de sensatez. Assim, Cármides, em apuro na defesa da definição, não querendo se associar ao que Crítias dissera, parecia querer que o tio percebesse como fôra por mim refutado. Foi depois da última fala do sobrinho que Crítias, sem poder se segurar, visivelmente chateado, exatamente como o autor que vê o artista representar mal suas obras, declarou finalmente:

CRÍTIAS – Quer dizer então, Cármides, que se tu mesmo não sabes o que tinha na cabeça quem definiu a sensatez como <ocupar-se daquilo que é seu> atribuis a este alguém automaticamente a qualidade que desconheces, isto é, asseveras que quem definiu assim a sensatez não sabia, tampouco, que é que lhe passava pela própria cabeça quando a definiu?”

Trabalhar com vistas ao belo e ao útil, eis aqui o que se chama ocupar-se; e os trabalhos deste gênero são para Hesíodo ocupações¹ e o autêntico agir.”

¹ Neste sentido, Hesíodo divide os trabalhos em dois: aquele indigno, que mal mereceria o nome de “trabalho”, e o trabalho digno em si, que ele também equivale a estar ocupado, à ação íntegra e excelente.

CRÍTIAS – Eu jamais disse que <ocupar-se de> é o mesmo que <fazer>. Segundo Hesíodo, nenhum trabalho é desonroso. E o artesão faz o que é dos outros, embora se ocupe só do seu.”

SÓCRATES – (…) Que assim seja. Dá às palavras o sentido que mais te agrade; basta-me que as definas simultaneamente a seu emprego. (…) Fazer o bem ou trabalhar por ele, ou como queiras chamá-lo, é isso que tu chamas sabedoria?”

CRÍTIAS – Não pestanejo, Sócrates.

SÓCRATES – Sábio é aquele que faz o bem, não o que faz o mal?

CRÍTIAS – Tu mesmo, querido amigo, não és deste parecer?

SÓCRATES – Não importa; o que agora temos de examinar não é o que eu penso, mas o que tu dizes.

CRÍTIAS – Pois bem; o que não faz o bem mas o mal, declaro que não é sábio; o que não faz o mal, mas o bem, este eu declaro sábio. (…)

SÓCRATES – Poderá suceder que tenhas razão. Não obstante, uma coisa me chama a atenção, e é que admites que um homem possa ser sábio e não saber que o é.

CRÍTIAS – Não há nada disso, Sócrates. Não o admito!

(…)

CRÍTIAS – Não, Sócrates, isto não é possível. Se crês que minhas palavras conduzem necessariamente a esta conseqüência, prefiro retirá-las. Prefiro antes confessar sem nenhum constrangimento que me expressei inexatamente, a conceder que se possa ser sábio sem conhecer-se a si mesmo. Não estou distante de definir a sabedoria como o conhecimento de si mesmo, e de fato sou da mesma opinião daquele que gravou no templo de Delfos uma inscrição deste gênero: Conhece-te a ti mesmo. Esta inscrição é, a meu ver, um cumprimento que o deus dirige aos que entram, em vez de ser uma fórmula ordinária, conforme muitos, tal qual <Sê feliz!>Creio que o deus julgou que uma mensagem mais direta como esta última não seria conveniente, e que aos homens deve-se desejar não a felicidade, mas a sabedoria. Eis aqui em que termos tão distintos dos nossos fala o deus aos que entram em seu templo, e eu compreendo bem o pensamento do autor da inscrição (…) linguagem um pouco enigmática, sim, como a do adivinho. ‘Conhece-te a ti mesmo’ e ‘sê sábio’ são a mesma coisa, no fundo, pelo menos é o meu parecer. Há outros homens que gravaram inscrições mais recentes nos templos, inscrições bem mais simplórias: Nada em demasia; dá-te em caução e não estarás longe da ruína, etc. Isso é coisa de gente que tomou a sentença conhece-te a ti mesmo por uma simples afirmação, digo, conselho, e não pelos cumprimentos do deus aos verdadeiramente sábios que ali entravam. (…) Ora, Sócrates, quiçá estejas certo ao final, quiçá eu o esteja. Em todo caso, nada de sólido firmamos aqui.”

SÓCRATES – Ah, Crítias! Assim que começaste a falar, entrevi por onde encaminharias teu discurso; ou seja, que chamarias as coisas próprias de alguém boas, e a criação (poiesis) de coisas boas de atividades (praxeis). Também de Pródico(*) ouvi ilimitadas distinções de palavras acerca disso. Fica à vontade para determinar o sentido que queres às palavras, contanto que bem justifiques tuas escolhas ao final. Agora, sugiro que comecemos então a definir as coisas com clareza desde um princípio que nos seja mútuo. É a <ocupação com> (praxeis) coisas boas que tu chamas de sensatez? E também a criação ou produção (poiesis), ou como mais queiras chamá-las, tu também chamas de sensatez, correto?

CRÍTIAS – Perfeito, Sócrates. Ambas as coisas são sensatas, ou antes ambos os verbos se referem àquilo que é sensato.

(*) Para mais sobre Pródico de Ceos, sofista, cientista político e gramático que atuou na Atenas socrática, cf. principalmente o Protágoras [https://seclusao.art.blog/2018/03/02/protagoras-outros/] e o Eutidemo [https://seclusao.art.blog/2018/08/31/eutidemo-ou-do-disputador-ou-da-mentira-sofistica-frente-a-verdade-dialetica/].”

CRÍTIAS – …de modo que defino quem se ocupa do seu como quem se ocupa de boas obras.”

SÓCRATES – Pode ser que um médico, tendo ou não curado o paciente (tendo ou não feito um bom trabalho), ignore se tratou de modo eficaz o paciente? Segundo tua definição, Crítias, tendo o médico curado o paciente, ignorando-o ou não se realmente o fez, ele obrou bem, isto é, sensatamente. Estou certo?

CRÍTIAS – Sim, Sócrates. Foi o que eu afirmei. (…) Inclusive equiparo o ser sensato ao Conhece-te a ti mesmo² da inscrição em Delfos. (…) De modo que o Conhece-te a ti mesmo não é em verdade um conselho do deus, como querem os homens que interpretam a inscrição demasiado à letra. A frase é antes uma saudação aos homens sensatos que qualquer outra coisa. Mas os homens mais se satisfazem com exortações diretas que com enigmas complicados.”

¹ “Sensato”, na 2ª tradução.

² Na tradição, frase provinda de Apolo. Na doxografia, muito associada a Sócrates, a frase é no entanto mais atribuída como original de Tales de Mileto, um dos Sete Sábios da Grécia Antiga, de geração anterior a sua.

CRÍTIAS – A sabedoria não é semelhante às outras ciências; estas não são semelhantes entre si, e tu supões em teu raciocínio que todas se parecem”

A sensatez é então um saber, ou um saber-de-algo?”

Não é a medicina um saber sobre a saúde?”

SÓCRATES – E a estática é a ciência do pesado e do leve; o pesado e o leve diferem da estática mesma. Não crês?

CRÍTICAS – Sim.

SÓCRATES – Pois bem; diz-me: qual é o objeto da ciência da sabedoria, que seja distinto da sabedoria ela mesma?”

O saber sobre si mesmo, que nome teria? E que obra gera de diferente de si mesma (a própria sensatez)? Pois que o matemático gera o saber sobre os números pares e ímpares e suas correlações, como o arquiteto gera o saber sobre edificações. A sensatez e o autoconhecimento mesmos devem gerar o saber sobre algo.”

CRÍTIAS – (…) Esta semelhança não existe. Enquanto todas as demais ciências¹ são ciências de um objeto particular e não do todo delas próprias, só a sabedoria é a ciência de outras ciências e de si mesma. (…) propões-te apenas a me combater e refutar, Sócrates, sem fixares-te na essência da questão!

SÓCRATES – Mas como, Crítias? Podes crer que se eu te pressiono com minhas perguntas seja por outro motivo além de que assim eu me obrigaria a dirigir-me a mim próprio a fim de examinar minhas palavras? Quero dizer, o temor de me enganar a respeito das coisas pensando saber e na verdade constatar que não sei não é aquilo que sempre me moveu e continua a me mover?”

CRÍTIAS – Sócrates, todos os outros saberes são saberes-sobre-algo, porém a sensatez se diferencia por ser um saber sobre todos os outros e também sobre si. Vejo que estás mais preocupado em refutar-me que em seguir o tema da discussão!(*)

(*) A partir desta definição de sensatez por Crítias entra-se na parte mais original do diálogo Cármides. Os trechos que seguem são justamente objeto de várias investigações recentes, como as de E. MARTENS; B. WITTE, Die Wissenschaft vom Guten und Bösen. Interpretationen zu Platons ‘Charmides’, Berlim, 1969; T.B. EBERT, Meinung und Wissen in der Philosophie Platons. Untersuchungen zum ‚Charmides‘, ‚Menon‘ und Staat, Berlim, 1974, pp. 55-82. Pioneiro no tema do Cármides foi o valioso estudo de CARL SCHIRLITZ, publicado no final do século XIX: «Der Begriff des Wissen vom Wissen in Platons ‚Charmides‘ und seine Bedeutung für das Ergebnis des Dialogs», em Neue Jahrbücher für Philologie und Paedagogik 155 (1897), 451-476 e 513-537.”

SÓCRATES – Mas como podes supor algo assim? Pensas que, ao refutar-te, faço-o por alguma causa distinta que a que me leva a me investigar a mim mesmo e aquilo que digo, talvez por temor de que me escape aquilo que penso que sei, sem sabê-lo? Digo-te, pois, Crítias, que é isto que trato de fazer agora: analisar nosso discurso, sobretudo por mim mesmo, mas também, acessoriamente, em prol de meus outros amigos. Não crês que tornar transparente a estrutura de cada um dos seres seja um bem comum para quase todos os homens?

CRÍTIAS – Creio, Sócrates, e muito!”

¹ A segunda tradução inteira se exime do emprego da palavra ciência. Como designadora das matemáticas, medicina, da arte do artesão, seria mais fácil empregá-la para nós, leitores modernos, mas realmente entendo a intenção de não usar o termo para a sabedoria (como a ciência da própria ciência), o que confundiria o leitor “empírico” moderno, tendente ao positivismo metodológico. Não é ciência no sentido baconiano aquela que aqui se discute. Tanto que aqui se trata mais do saber de um ofício, quando se fala das ciências particulares: o médico entende de medicar, o sapateiro de fazer sapatos. Seria espúrio para o cientista contemporâneo chamar o artesão de “seu colega” (cientista), para não falar também que na contemporaneidade a matemática não é mais considerada uma hard science.

Ânimo, amigo! Responde a minhas perguntas, segundo teu próprio juízo, sem inquietar-te se é Crítias ou Sócrates aquele que leva a melhor ao final. Aplica todo teu espírito no objeto que nos ocupa agora, e que seja uma só coisa tua preocupação: a conclusão a que nos conduzirão nossos próprios esforços.”

A ti não te importes se é de Sócrates ou de Crítias o discurso que está sendo refutado. Mas atua com diligência para que, quando parecer que estás em apuros, vejas uma saída plausível com o auxílio de teus argumentos.”

CRÍTIAS – Penso que, única entre todas as demais ciências, a sabedoria é a ciência de si mesma e de todas as demais ciências.

SÓCRATES – Logo, será também a ciência da ignorância, se o é da ciência?

CRÍTIAS – Sem dúvida.

SÓCRATES – Portanto, só o sábio se conhecerá a si mesmo, e estará em posição de julgar daquilo que sabe e daquilo que não sabe. De igual modo, só o sábio é capaz de reconhecer, quanto aos demais, o quê cada um sabe crendo sabê-lo, assim como o quê cada um crê saber, sem contudo saber. Nenhum outro pode fazer esse juízo. Numa palavra, ser sábio, a sabedoria, o conhecimento de si mesmo, tudo isso se reduz a saber o quê se sabe e o quê não se sabe. Não pensas tu idem?

CRÍTIAS – Em absoluto.”

A sensatez é também um saber do não-saber?”

Só o sensato, portanto, saberá aquilo que crê saber e na verdade não o sabe.”

SÓCRATES – (…) examinemos (…) primeiro se é possível ou não saber que uma pessoa sabe o quê sabe e não sabe o quê não sabe. Em segundo, supondo isto possível, que utilidade pode resultar deste saber?

É possível o saber que sabe o que sabe e que não sabe o que não se sabe?”

Concebes uma vista que não visse nenhuma das coisas que vêem as demais vistas, mas que seja a vista de si mesma e das demais vistas, e até do que não é visto? Concebes uma vista que não visse a cor, apesar de ser vista, mas que se visse ela mesma e as demais vistas? Crês que semelhante vista existe?

CRÍTIAS – Por Zeus, Sócrates, claro que não!

SÓCRATES – Concebes um ouvido que não ouvisse nenhuma voz, mas que se ouvisse a si mesmo e aos outros ouvidos, e até ao que não é ouvido?

CRÍTICAS – Tampouco.

SÓCRATES – Considerando todos os sentidos de uma só vez, parece-te possível que haja um que seja o sentido de si mesmo e dos outros sentidos, mas que não sinta nada do que os outros sentidos sentem?

Por conseguinte, uma coisa seria ao mesmo tempo maior que si mesma e menor que si mesma; mais pesada e mais leve; mais velha e mais nova, e assim com todo o demais. Não é indispensável que a coisa, que possui a propriedade de referir-se a si mesma, possua ademais a qualidade a que tem a propriedade de se referir?”

Estou em uma aporia. (…) Não parece que esse saber ora sabe mais, ora sabe menos do que ele sabe?”

Se é verdade que sou um dobro, não é verdade que sou também a metade? Que se o dobro de algo é 2x, o dobro é tanto o 2 quanto o x?”¹

¹ Sócrates não o diz recorrendo a símbolos aritméticos, que inclusive são criação muito posterior do espírito (da razão humana), mas achei que não faria mal em condensar assim seu pensamento.

Seria possível uma ciência da ciência? Eu sou incapaz de afirmá-lo; e ainda que haja, eu de minha parte não poderia admitir que esta ciência seja a sabedoria antes de haver examinado se, isto pressuposto, tal conhecimento nos seria útil ou não; porque me atrevo a declamar que a sabedoria é uma coisa boa e útil. Mas tu, filho de Calescro, que estabeleceste que a sabedoria é a ciência da ciência e igualmente da ignorância, prova-me, antes de qualquer coisa, que isto é possível”

Crítias, como aqueles que bocejam ao ver alguém bocejar, pareceu-me tão desconcertado quanto eu. Habituado ele a se ver coberto de elogios, constrangia-se à mera olhada dos circunstantes; teimava em não confessar ser incapaz de esclarecer as questões que eu formulei, falava, falava, e nada dizia – apenas disfarçava sua impotência aos menos perspicazes. Eu, que não queria abortar a discussão, me interpus novamente:”

E Crítias se via tão atônito e confinado à aporia quanto eu, agora; mas tinha vergonha de ceder diante dos demais. Nesse impasse, ele tampouco dizia nada que avançasse a discussão do problema.”

SÓCRATES – (…) Sem dúvida, se alguém possui aquilo que conhece a si mesmo, reconhecerá, logicamente, também a si mesmo. Mas o que interessa saber é se quem possui esta ciência deva necessariamente saber o quê sabe e também aquilo que não sabe!

CRÍTIAS – Sem dúvida, Sócrates, porque trata-se da mesma coisa.”

Como pode o saber do saber ser igual o saber da ignorância?”

Em medicina e política, é fácil saber que se sabe algo em medicina e política.”

Mas quanto ao saber do saber, como saberá que sabe? A sensatez não parece ensinar nada.”

O sensato não sabe o que o médico sabe ou não sabe, nem o que o político sabe ou deixa de saber.”

É através da medicina que conhecemos o que é são, não através da sabedoria; e através da música, o que é harmonioso (não através da sabedoria); através da arquitetura, o que é necessário para se construir (não da sabedoria). Concorda que é assim sucessivamente com todas as demais artes e ciências?”

Aquele que ignora essas coisas não sabe o quê ele sabe, só sabe que sabe.” Esta expressão é a formulação mais extensa e elaborada do aforismo mais célebre de Sócrates-Platão: o só sei que nada sei. Ao contrário do que vulgarmente se diz em torno desta frase, Sócrates não abdica do conhecimento, abraçando um ceticismo e um niilismo teórico absolutos. O sábio não sabe a medicina, o sábio não sabe a música, o sábio não é arquiteto, nem piloto de navio, nem estratego militar, nem a sibila. Mas, seu cognome o indica, ele possui uma sabedoria, a mais especial das sabedorias, a sabedoria em si. Sem referências às outras, é uma sabedoria inócua, vazia, despida de conteúdo. Somente com referência às outras sabedorias é a sabedoria do sábio (do filósofo) a ciência da ciência. Isto já é algo mais que o niilismo fundamental do conhecimento vulgar da expressão. Mas implica que o sábio pode ou deve ser útil? Não sem a devida humildade e a visão do todo que este conhecimento exige se não for apenas Retórica (ou seja, o diálogo se chama Cármides porque foi ele que deu a principal lição, no início, em sua fala discreta): “Só” sei que nada sei: o só representa mais do que uma partícula “secundária” da frase-síntese do método maiêutico: é o conhecimento positivo, mas que não se atreve a usurpar o lugar de cada um dos outros especialistas (nas demais sabedorias técnicas), de que sem o conhecimento natural cumulativo, da experiência, seu saber de nada vale ou adianta; ainda assim, é o primeiro passo necessário, a primeira certeza no sentido objetivo da filosofia moderna, até os dias da nossa Filosofia. Não sei “o quê” (conteúdo) posso saber ou não, mas sei qual é o critério da busca da verdade. Nasce aqui a epistemologia atemporal. Admite que não existe uma modalidade de sabedoria que esgote a própria sabedoria, a ponto de eliminar a ignorância, que é sempre a estrada do filósofo. E nenhuma filosofia se faz sem um chão firme sob os pés. Em suma, Sócrates entendeu a condição humana: o limite dinâmico da própria capacidade do saber. (A possibilidade d)O auto-conhecimento (do homem e das coisas pelo próprio homem que pode se entender e entender as coisas, como são, apenas a partir desse parêntese – de que o quê ele sabe sobre si mesmo condiciona e limita seu conhecimento atual do todo, sem que essa regra seja jamais passível de quebra, embora seu conhecimento atual varie com o tempo).

Logo, a sabedoria e o ser sábio consistem não em saber o quê se sabe e o quê não se sabe, mas unicamente em saber que se sabe e (outrossim) que não se sabe.” Reiteração do dito acima: o saber não pode ser sem a ignorância, e vice-versa.

Logo, a sabedoria não nos põe em posição de reconhecer no outro, que alega sempre saber alguma coisa, se este outro sabe o quê diz saber, ou se porventura não o sabe de verdade. Toda a virtude da verdadeira sabedoria (a ciência das ciências) se limita a nos ensinar que possuímos uma certa ciência. Qual é a matéria desta ciência, não é a ciência das ciências quem nos dirá.”

O médico não sabe nada sobre a medicina, pois a medicina é sabedoria do saudável e do doente, não de si mesma. O sábio reconhecerá que o médico possui uma sabedoria; mas que sabedoria é essa, só se o pode saber com referência aos objetos da medicina.”

Afora o médico, ninguém é competente para isso, nem o próprio sábio, aliás, muito menos ele. Não fosse assim, teríamos um médico-sábio, ou um sábio-médico, figura quimérica.”

E bem, querido Crítias, reduzida a sabedoria a estes termos, qual pode ser sua utilidade? Ah! Se, como supusemos de início, o sábio soubesse o quê sabe e o quê não sabe; se soubesse que sabe certas coisas e não sabe outras certas coisas… Se pudesse, além disso, julgar aos demais homens quanto ao que ele julga na própria pessoa, aí então, eu o declaro, ser-nos-ia INFINITAMENTE ÚTIL o sermos sábios! Passaríamos a vida, inclusive, isentos de falha enquanto possuíssemos a sabedoria, e o mesmo se aplicaria a quem agisse conforme nossas prescrições.” Há uma tão infinitesimal ironia nessa fala de Sócrates que nós não a captaríamos como ironia, sem o contexto do diálogo e sem expertise em filosofia não fosse por recursos modernos como o colocar em CAIXA ALTA, por exemplo. A verdade é que a sabedoria no sentido de Crítias não existe, daí então Sócrates considerá-la inútil, ainda que existisse. Pois que é a vida, senão sucessivos erros misturados com acertos? E que sabedoria, sendo sabedoria, negligenciaria esse dado tão importante (o de que é impossível ser sábio, onisciente, perfeito)?

O médico sabe sobre saúde, mas não sobre o saber, já que isso está só para os sensatos. Porém, resulta que o médico nada sabe de medicina, pois a medicina é o saber sobre a saúde. Ou não será assim?”

O sensato não é um médico, ou não tem de ser um médico.”

O sensato não pode distinguir o bom médico do mau médico, o charlatão. Só um médico poderia fazê-lo.”

Que proveito há, portanto, na sensatez, Crítias?”

Talvez que o objeto de nossa indagação seja absolutamente inútil! O que me faz ter esses pressentimentos acerca da sabedoria (a que definimos) são coisas que me vêm ao espírito. (…) Creio que excede meus poderes. Mas quê importa? Quando algo se nos coça cá no espírito não há remédio senão examinar tal coisa! Não deixeis que escape ao acaso, por pouco amor que tenhas por ti mesmo!”

ao vivermos em prol da sabedoria, viveremos por isso melhor e mais felizes?”

SÓCRATES – (…) me parece que só tomas por felizes aqueles que vivem segundo certas sabedorias. Talvez só concedas este privilégio ao que designei previamente, isto é, àquele que sabe tudo o que deve suceder: falo do adivinho.

CRÍTIAS – Não só a esse sábio, Sócrates.

SÓCRATES – Quais outros então? Poderias estar falando daquele que une o conhecimento do futuro, do passado e do presente? Supondo que um tal homem existe, claro. Creio que confessarás que nenhum outro senão este possa viver segundo a sabedoria.

CRÍTIAS – Confesso.

SÓCRATES – Mais uma pergunta: Qual destas ciências é a que faz deste homem feliz? Ou são todas de uma vez, cada uma em sua proporção?

CRÍTIAS – Nada disso.

SÓCRATES – Então, qual é a ciência que eleges? A dos acontecimentos passados, presentes e futuros? A do xadrez?¹

CRÍTIAS – Ah, a do jogo de xadrez!! Que absurdo!

SÓCRATES – A dos números?

CRÍTIAS – Essa também não.

SÓCRATES – A do que é saudável?

CRÍTIAS – Hm, talvez, mas não de todo.

SÓCRATES – Mas diz de uma vez, qual é a ciência que mais contribui para a felicidade do sábio?

CRÍTIAS – Ora, a ciência do bem e do mal.

SÓCRATES – Ah, pícaro! Depois de tanto caminharmos faz-me agora rodar em círculos!”

Mas o suposto saber do saber, que não ignora o que ignora, saberia saber mais do que sabe atualmente…”

CRÍTIAS – A sensatez é saber sobre o bem e o mal.”

SÓCRATES – …Porque nosso (mau) pressuposto diz que se sabem aquelas coisas que não se sabem, ainda que, em minha opinião, não houvesse nada que nos parecesse mais absurdo do que isso!”

¹ “Damas” na segunda tradução.

E esta ciência, me parece, não é a sabedoria, senão aquela cujo objeto é o ser útil;¹ porque não é a ciência da ciência e da ignorância, mas a do bem e do mal.”

¹ No fundo, a ética é a mais importante das sabedorias, mas é também a mais difícil, e a mais imprecisa e volátil de todas.

Supusemos, pois, que existe uma ciência da ciência, apesar de que a razão não permite nem autoriza semelhante concepção. Depois, admitimos que esta ciência conhece os objetos das outras ciências, e isso é contrário à razão! Desejaríamos que o sábio pudera saber que ele sabe o quê sabe e o quê não sabe. Na verdade fomos generosos em excesso fazendo esta última concessão, uma vez que consideramos, neste exercício, que é possível saber, de certa maneira, o que absolutamente não se sabe. Admitimos, por fim, que ele sabe e que ele não sabe, ao mesmo tempo – o que é o mais irracional que se possa imaginar. (…) qualquer que seja a definição da sabedoria que tenhamos inventado, de comum acordo, essa ou aquela definição sempre nos fez ver, com naturalidade, que nenhuma delas pode-nos ser útil.”

ao fim, amigo Cármides, me ressinto de haver aprendido com tanto afã as palavras mágicas daquele trácio, para depois de tudo concluir que nenhum valor possuem! Mas não, não posso crer que assim seja, e é mais adequado pensar que eu é que não sei buscar a verdade! A sabedoria é, sem dúvida, um grande bem; e se tu a possuis, és um mortal feliz. Mas examina atentamente se a possuis verdadeiramente, a fim de que não necessites de palavras mágicas”

Mas o que mais me irrita nisso tudo é o encantamento que havia aprendido do trácio e que, depois de tanto esforço, descubro agora ser algo quimérico e fútil.”

CÁRMIDES – Sócrates, sei lá eu se sou sensato ou não! Como nada me impede, não vejo também por que não haveria de me submeter ao seu encantamento, por quantos dias forem precisos! Até o dia em que tu me digas que tenho bastante sensatez, ao menos.”

CRÍTIAS – A maior prova que podes dar-me de tua sabedoria, meu querido Cármides, é entregar-te aos encantos¹ de Sócrates e não afastar-te dele nem um só minuto.¹

CÁRMIDES – Estarei sempre com ele, seguirei seus passos; porque eu me tornaria um réprobo ao não te obedecer, ó primo, tu que és meu tutor.”

¹ “Entregar-te aos encantos” é bastante ambíguo, e nos remete obviamente a uma cena romântica. Encantamentos já modificaria consideravelmente nossa compreensão da frase, e é isso que torna Platão tão rico e polissêmico. Entregar-se às “palavras mágicas” do discurso sábio de Sócrates é o sentido leal à epistemologia que aqui buscamos.

SÓCRATES – Ah, e que é que vós dois tramais agora?

CRÍTIAS – Absolutamente nada, Sócrates. Só isto: que tens-nos as tuas ordens.

SÓCRATES – Como?! Empregais então a força, sem deixar-me a liberdade da escolha?!”¹

Sócrates, serei teu discípulo. E meu tio Crítias está com isso de acordo.”¹

Vais obrigar-me assim, sem prazo nenhum para preparar-me?”¹

¹ Aqui o que transforma bastante o sentido da segunda tradução foi minha própria opção de tradutor, não o texto-fonte. Nos dois textos em espanhol o que se obtém de Sócrates, o que a dupla de parentes Crítias-Cármides dele consegue, é que ele recite o encantamento (o diálogo termina antes, porque ‘não existe’ este encantamento), mas este é o que menos importa e só serve de pretexto para todo o diálogo. Nesse tocante, queriam, portanto, que Sócrates admitisse Cármides como paciente. Mas Sócrates não é médico no sentido habitual; seria no máximo um médico da alma do homem; daí que na verdade inaugura-se aqui uma relação de professor-aluno ou mestre-discípulo. Como sabemos entretanto, Sócrates não procurava expressamente por discípulos, pois em verdade morrera sendo o discípulo número 1 da própria sabedoria, e não aceitava ser chamado de mestre, mesmo sendo visivelmente o homem mais sábio de seu tempo.

S&S EM 3 ATOS

SIMULACROS & SIMULAÇÃO 1.0

Jean Baudrillard – Ed. Relógio D’Água, omite-se o tradutor.

subtítulo imaginário:

A TROCAÇÃO SIMBÓLICA E A MORTE – DO LUTADOR DE M&MA

HISTÓRIA

P. 17: “a pretexto de preservar o original, se proíbe o acesso de visitantes às grutas de Lascaux [aí lascô], mas que se construiu a réplica exata a 500m de distância, para que todos possam vê-las (dá-se uma olhadela à gruta autêntica pelo postigo e depois visita-se o todo reconstruído).”

toda a ciência e a técnica se mobilizaram recentemente para salvar a múmia de Ramsés II, depois de a terem deixado apodrecer durante algumas dezenas de anos no fundo de um museu. O Ocidente foi tomado de pânico, perante a idéia de não poder salvar o que a ordem simbólica tinha sabido conservar durante 40 séculos, mas longe do olhar e da luz. Ramsés não significa nada para nós, apenas a múmia é de um valor incalculável, pois é ela que garante que a acumulação tem um sentido.” “Estamos fascinados com Ramsés como os cristãos da Renascença estavam com os índios da América, esses seres (humanos?) que nunca tinham conhecido a palavra de Cristo.” “Então das 2 1: ou se admitia que essa lei não era universal ou se exterminavam os índios para apagar as provas. (…) Deste modo terá bastado exumar Ramsés para o exterminar ao museificar”

COMUNISMO

a esquerda dá muito bem conta de si própria e faz espontaneamente o trabalho da direita.”

Todas as hipóteses de manipulação são reversíveis num torniquete sem fim.”

Makarius, A estratégia da catástrofe (em francês)

Com o esgotamento da esfera política, o presidente torna-se cada vez mais parecido com esse manequim de poder que é o chefe nas sociedades primitivas (Clastres).”

Por uma ironia é da morte do social que surgirá o socialismo, como é da morte de Deus que surgem as religiões.” Deus morreu, e finalmente obedeceu-o o judeu.

Acabou o valor de uso ou o prestígio do automóvel (use menos gasolina, cuide da sua segurança, ultrapassou a velocidade, etc.), ao qual as características dos automóveis fingem adaptar-se. É pelo mesmo deslizar do <direito> de voto para <dever> eleitoral que se assinala o desinvestimento da esfera política.” Ter carro é uma boa idéia, o ruim é ter o carro!

Pp. 51-2: “Que sentido teve esta guerra, e a sua evolução não terá sido a de consolidar o fim da história no acontecimento histórico fulminante e decisivo da nossa época? Por que motivo esta guerra tão dura, tão longa, tão feroz, se dissipou de um dia para o outro como por encanto? Por que esta derrota americana (o maior revés da história dos EUA) não teve qualquer repercussão interna na América? (…) Nada aconteceu.” “normalização das relações Pequim-Washington: era isso a questão fulcral da guerra do Veitname e os EUA abandonaram o Veit. mas ganharam a guerra.”

Desassinei CartaCapital e nada mudou…

Os comunistas atacam os socialistas como se quisessem quebrar a união da esquerda. Dão crédito à idéia de que estas resistências viriam de uma exigência política mais radical. De fato, é porque não querem o poder. [Paradigma PCO] Mas não o querem nesta conjuntura, desfavorável para a esquerda em geral, ou desfavorável para eles no interior da União da Esquerda – ou já não o querem por definição? Quando Berlinguer declara: <Não há que ter medo de ver os comunistas tomar o poder na Itália>, isto significa ao mesmo tempo:

  • que não há que ter medo porque os comunistas, se chegarem ao poder, não mudarão nada ao seu mecanismo capitalista fundamental;

  • que não existe qualquer risco de eles alguma vez chegarem ao poder (pela razão de eles não o quererem);

  • e mesmo se o alcançarem nunca farão mais que exercê-lo por procuração;

  • que, de fato, o poder, o verdadeiro poder, já não existe e portanto não há qualquer risco de que alguém o tome ou o retome;

  • mais ainda: eu, Berlinguer, não tenho medo de ver os comunistas tomar o poder na Itália – o que pode parecer evidente mas não tanto como isso já que

  • isso pode querer dizer o contrário (não é preciso psicanálise para tal): tenho medo de ver os comunistas tomar o poder (e existem boas razões para isso, mesmo para um comunista).

Tudo isto é verdade simultaneamente. (…)

E esta lógica não é nem de um partido nem de outro. Ela atravessa todos os discursos independentemente da sua vontade.”

só o capital goza, dizia Lyotard, antes de pensar a partir de agora que nós gozamos no capital.”

O poder pode encarnar a sua própria morte para reencontrar um vislumbre de existência: os Kennedy morriam por terem ainda uma dimensão política. Os outros, Johnson, Nixon, Ford, não tiveram direito senão a atentados-fantoches, a assassínios simulados.”

CINEMA

#semiofftopic Chinatown, Os Três Dias do Condor (Three Days of The Condor), Barry Lyndon, 1900, Os Homens do Presidente (All The President’s Man), Last Picture Show, China Syndrome, “Mulholland Drive, the masterpiece of David Lynch”, Dr. Mabuse (jetrotal), Nosferatu, Nashville.

RESCALDO DAS RECOMENDAÇÕES:

Guépard [The Leopard] (1); Senso [Sedução da Carne] (2).

(1) retrato da aristocracia decadente;

(2) quando affairs internacionais afetam na política interna.

Diretor: Visconti, Luchino

Filme relacionado: Sunset Boulevard (Crepúsculo dos Deuses) (1950)

Fala-se de voltar a fazer filmes mudos, melhores, sem dúvida também eles que os da época. Ergue-se uma geração de filmes que são, para os que conhecemos, o que o andróide é para o homem: artefatos maravilhosos, sem falhas, simulacros geniais aos quais não falta senão o imaginário, e esta alucinação própria que faz o cinema. A maior parte dos que vemos hoje [1980!] (os melhores) são já dessa categoria. Barry Lindon é o melhor exemplo: nunca se fez melhor, nunca se fará melhor… em quê?”

Prazer cool, frio, nem sequer estético no sentido rigoroso do termo: prazer funcional, prazer equacional, prazer de maquinação.”

Em Visconti há sentido, história, uma retórica sensual, tempos mortos, um jogo apaixonado, não só nos conteúdos históricos mas na encenação. Nada disto em Kubrick, que manobra o seu filme como um jogo de xadrez, que faz da história um cenário operacional.”

Já desconfiava da notoriedade sobre-comum de Sergio Leone

O cinema plagia-se, recopia-se, refaz os seus clássicos, retroativa os mitos originais, refaz o mudo mais perfeito que o mudo de origem, etc.: tudo isto é lógico, o cinema está fascinado consigo próprio como objeto perdido, tal como está (e nós estamos) fascinado(s) pelo real como real em dissipação.”

A “economicidade” do discurso é, então, boa? – Prof. Marco Aurélio, CEUB

HOLOCAUSTO

A televisão. Verdadeira solução final para a historicidade de todo o acontecimento. O esquecimento, o aniquilamento alcança assim, por fim, a sua dimensão estética (…) a partir de agora <toda a gente sabe>, toda a gente vibrou e choramingou perante a exterminação – indício certo de que <isso> nunca mais ocorrerá. (…) não ocorrerá de fato nunca mais porque desde sempre tem vindo (…) E querem-nos fazer crer que a televisão vai levantar a hipoteca de Auschwitz fazendo irradiar uma tomada de consciência coletiva”

O RESTO

As pessoas têm vontade de tomar tudo, pilhar tudo, comer tudo, manipular tudo. Ver, decifrar, aprender não as afeta. (…) Nunca esperam esse fascínio ativo, destruidor, resposta brutal e original”

O próprio cenário da cidade subterrânea – versão chinesa [X-Men; Teenage Mutant] de enterro das estruturas – é ingênuo.”

Nós éramos uma cultura da violência libertadora (a racionalidade). (…) Uma outra violência completamente diferente que não sabemos analisar aparece hoje: violência implosiva “Esta violência é-nos ininteligível porque todo o nosso imaginário está centrado na lógica dos sistemas em expansão.” “Os sistemas estelares também não deixam de existir, uma vez dissipada sua energia de radiação” “Deve-se evitar tomar a implosão por um processo negativo, inerte, regressivo, como a língua no-lo impõe ao exaltar os termos opostos de evolução, de revolução. (…) O Maio de 68 foi sem dúvida uma primeira reação violenta à saturação social (…) de resto em contradição com a ideologia dos próprios participantes, que pensavam ir mais longe no domínio do social (…) esta implosão tem conseqüências mais sérias que a própria revolução.”

Talvez hoje notássemos a diferença entre os homens se todos andassem com uniformes iguais. Mas como estão, individualizados, são não as vestimentas, é lógico, mas a carne e o espírito todos iguais.

Un livre, ma oeuvre!, appellé « Provérbios de Cila ou Sentenças de Caribde », avec tous mes jeux de mots de ces derniers ans au blog!

Ninguém se suicida pelo passado vergonhoso que tem nas costas; mas pelo futuro vergonhoso que sabe que terá.

a pornografia é ficção hipertrofiada de sexo consumido na sua irrisão, para a sua irrisão, espetáculo coletivo da inanidade do sexo na sua assunção barroca”

Uma sociedade de que o sexo fosse banido e só houvesse clones de clones de clones da última geração de humanos nascidos sexuadamente.

ser filho de si próprio é ainda ser o filho de alguém”

O homem é o câncer do homem.

Ballard, Crash

Philip Dick, Simulacres

Spinrad, Jack Barron ou L’éternité

Brunner, Stand on Zanzibar

(póst. a este livro) Viviane Forrester, O horror econômico (~20% nos favoritos: google books)

P. 173: “Os animais não têm inconsciente, porque têm um território. Os homens não têm um inconsciente senão desde que já não têm território. O território e as metamorfoses foram-lhes tiradas ao mesmo tempo – o inconsciente é a estrutura individual de luto onde se volta a representar, sem cessar e sem esperança, esta perda – os animais são a sua nostalgia.” [negrito meu]

SOBRE BAUDRILLARD: Seria preciso uma 3ª perspectiva. A 1ª é ele mesmo; a 2ª a “wikipedianesca”: que ele é um pensamento datado, tão incorreto quanto as escolas anteriores e as próximas, pertencente aos pós-estruturalistas, como um quadrinho na sucessão imagética do gibi. E então… sejamos IMPARCIAIS? Eis que o câmbio engancha e trava na troca de march…ops!

Eu sou um dado de 6 lados e você só acessa uma face…

O ISMO DO TERROR

E em seguida virá o CAOSISMO

O ACASISMO

O CONTINGENCIALISMO

A violência teórica é o único recurso que nos resta.”

niilismo chapa branca como a névoa

um niilista na conferência da UnaSul

tudo vermelho

Lipovetski, A Era do Vazio

Sexo e morte são os dois grandes temas reconhecidos pela sua capacidade de desencadear a ambivalência e o riso. (…) por que nos rimos? Só nos rimos da reversibilidade das coisas, e o sexo e a morte são figuras eminentemente reversíveis.”

Todo o real é residual, e tudo o que é residual está destinado a repetir-se indefinidamente no fantasmal.”

Mas quando tudo é recalcado já nada o é. Não estamos longe desse ponto absoluto do recalcamento (…) ponto de saturação crítica (…) então as energias já não têm de ser libertadas, gastas, economizadas, produzidas: é o próprio conceito de energia que se volatilizará por si próprio. (…) É preciso levar ao consumo insensato da energia para lhe exterminar o conceito. É preciso chegar ao recalcamento máximo (…) Quando o último litro de energia tiver sido consumido (pelo último ecologista), quando o último indígena tiver sido analisado (pelo último etnólogo), (…) quando a última fantasia tiver sido elucidada pelo último analista (…) dar-nos-emos conta de que esta gigantesca espiral da energia e da produção é apenas uma metafísica do resto e será resolvida de repente”

S&S REVISITED CONTRA O HOMEM QUE CONTRARIOU A DIALÉTICA [entreato]

Simulacra & Stimulation

estimulaxante

I can’t retreat all this meat from my teeth.

Reluctant as though you(r) may be…

trance&dance

transe&dane-se

The east, at least.

viragem voraz

virose rosa as a rose

whip! zás-trás

la vie en… zéro

varo a noite vingada

da traição armada

inútil escapar da fenda

There in the sun a dead start,

cogumelo rosa venenoso de Hiroshimario

postumo póst-humor, pós-tumor

* * *

aos-cílios de cuscuzteio para a mulher mulamanca máquiada

com quiabo

et laquê

o’melet’e me be an egg!

Eu sou Bill Microsoft, ou Windows Gate? Todos os portões se abrem, mas um vírus entra em Tróia. Juíndous do Mundo MicroSolar. Ploft! Versão Final 0.0

O dia que o mais miserável banguela chinês será mais rico que todas as ações da Nike. Corre atrás do tênis!

sou dinâmica e velocidade tão puras que inerciam… Na vida do artista tudo é glacial e nunca muda.

O futuro do mundo é um grande Já(la)pão. Do mundo, i.e., deste mundo. Velho e negativo. Fraturado e sorridente; e, pensando bem, não há engraxates, e os sapatos permanecem limpos! Ah, deixa eu me esticar na minha quase-cama…

uh, a garota tem cílios

man também tem cílios

se eu não tivesse olhos eu não veria os cílios

os filhos das filhas

só o cego extirpa sua própria linhagemfamília

sou cego no sossego?

ou morcego das noites atribuladas sigo na agitação dos mares broncos?

rumo a novos continentes negrotons

trabalho demente do operário trabalho elementar do operário trabalho demente do elemento trabalho de mão de mente do erário demento ele mente

O capitalismo irá acabar quando eu todos os meus livros resolver queimar retardado a fazer elucubrações braçais embaraçosas

poços viçosos de muita angústia

preto poço do conhecimento

A fala é uma falta, a escrita é uma estria. A cirurgia foi um sucesso, a marca é atroz e produz orgulho, será mostrada e demonstrada para todo o sempre no corpo anti-perene do ser-sendo comendo e sendo comido devorado pelas próprias estrias magnetiquespirituais subliminares de primeira plana. Chama que arde poética sem cicatrizar nem ferir morais preexistentes e quentes.

Doidivanitas subsolus

O papel do dólar não deixa nunquinha de ser uma expressão assaz irônica!

O nada do papel & o papel do nada

a flutuação e afogamento das moedas veladas pelos fardas-pretas

* * *

SIMULACRA & SIMULATION (S&S 2.0)

Anotações de 31/01/16 a 14/10/16

Tradução inglesa de Sheila Faria Glaser – an effort to fulfill the trilogy of the 2015 Baudrillard&Deleuze-thematic posts on this blog! A linguistical and comparative work, also. Maria de Costa Pereira havia sido a tradutora portuguesa que lemos acima!

DIC:

shred: pedaço; rasgo; traço.

Overwhelming versatility of desire in Deleuze, an enigmatic reversal that brings desire ‘revolutionary in itself, and as if involuntarily, wanting what it wants’, to desire its own repression and to invest in paranoid and fascist systems? A malign torsion that returns this revolution of desire to the same fundamental ambiguity as the other, the historical revolution.”

this fable has now come full circle for us, and possesses nothing but the discrete charm of 2nd order simulacra.”

It is all of metaphysics that is lost.”

it is genetic miniaturization that is the dimension of simulation.” “The real no longer needs to be rational, because it no longer measures itself against either an ideal or negative instance.” “Never will again the real have the chance to produce itself” “the orbital recurrence of models and the simulated generation of differences.”

One can see that the iconoclasts, whom one accuses of disdaining and negating images, were those who accorded them their true value, in contrast to the iconolaters [who – oh! – arrive so late!] who only saw reflections in them and were content to venerate a filigree God.”

This was the approach of the Jesuits, who founded their politics on the virtual disappearance of God and on the worldly and spectacular manipulation of consciences – the evanescence of God in the epiphany of power – the end of transcendence.

Whereas representation attempts to absorb simulation by interpreting it as a false representation, simulation envelops the whole edifice of representation itself as a simulacrum.” “no longer a Last Judgement to separate the false from the true, the real from its artificial resurrection, as everything is already dead and resurrected in advance.”

Carlos Castaneda, The Teachings of Don Juan: A Yaqui Way of Knowledge & the 2 sequences…

They no longer walk, but they go jogging, etc.”

O conceito de eterno no que tem limite ou de contível ou contável no que na verdade não tem fim: transfinito. Conceito meramente pós-euclidiano?

Sinu-site não vai, vai no papel mesmo!

I lea(r)n (fr)on(n) you

FLÁVIO & OS ECO-CHATOS DO ÚLTIMO BARRIL DE PETRODÓLARES: “it is the social itself that is organized along the lines of a disaster-movie script.” Dois idiotas bebendo no bar.

TRANS-TRANSLATION

META-TRANS-ACTION

TRANS-ITO

TRANS-CADO EM CASA

UMA TRANSMA ELABORADA

Sou imanentossexual!

Saturno Toguro Sartori Saqueio fumo e trago anéis de Saturno. Disco platinado. Efeito foguesfumaçado mato italiano cópia do renasço.

the only weapon of power is to reinject the referential everywhere, to persuade us of the reality of the social, of the gravity of the economy and the finalities of production. To this end it prefers the discourse of crisis, but also, why not? that of desire. ‘Take your desires for reality!’ can be understood as the ultimate slogan of power since in a non-referential world even the confusion of the reality principle and the principle of desire is less dangerous than contagious and hyperreality [here we are now, entertain us].” Nothing is real but pain now… Donnez-moi mon pain. bagueta baqueta é a lights out of tie tá?! QUE DEDÊ! Sai, R.! Beleuze… Paraneud & eud. Para n’ode to victory zero.

Quem eu estou lendo mesmo??? “Capital was the first to play at deterrence (…) deterritorialization (…) exterminating all use value, all real equivalence of production and wealth (…) disastrous spiral”

Mansão Engendrar de Amigos Imaginados

What every society looks for in continuing to produce, and to overproduce, is to restore the real that escapes it.”

Maquinaquiavel

Quem procura a crise na verdade assume a roupagem da crise da procuração. Eu escrevo é para esquecer, se eu escrevesse para lembrar este blog seria mínimo. E bem polido.

in a society that cannot terminate its mourning.”

Madil Boo Rousseff

the new presidents are nothing but caricatures and fake film” Não há um segundo Collor, macaco marionete do poder. Oozaru de cauda cortada.

annual annulation

Nirvanaxon “Nixon arrived at the goal of power: to be taken seriously enough to be denounced, and liquidated.”

Ford is immunized by his impotence, which infuriates him.” which in fury eats him

Bill Clinton paga a conta do clitóris não perfeitamente redondo ou elíptico ou branco ou limpo. Pagar boquete para o homem mais poderoso do mundo – todos os canais de TV e audiência chupando, na verdade, o sêmen e o gérmen da Terra – parece conosco mesmo, foi menos que uma compulsão ao auto-sexoral. …An(d) oral(B)for all…

before all the breakfasts…

legitimate mating

Então fica entalada na garganta a pergunta: Monica Lewinsky engoliu ou não a porra toda? Bill gozou? Hillary já se masturbou pensando nisso, imaginando a cena? Cada americano agiu na cabecinha da secretária – em nome de todos, ela não podia recusar.

Um homem da sua posição não pode…”

Não pode ser um homem.

Tem que ser um manequim, sem pau…

Para que não cheguem a quebrar o pau…

E especular sobre a impotência e a infelicidade do sonho americano…

No Texas e aposentado, Bush pode ser o depravado…

Que situação chata! superação da crise…

&fall

fomentou a fome no mundo, já dizia Mastruz.

TRANSCAMAERATURA

FhC é um coxinho, porque todas as suas viúvas são coxinhas.

a typical ideal American Family, California home, 3 garages, 5 children, assured social and professional status, decorative housewife, upper-middle-class standing. In a way it is this statistical perfection that dooms it to death, it is, as in ancient sacrifices, chosen in order to be glorified and to die beneath the flames of the medium, a modern fatum. Because heavenly fire no longer falls on corrupted cities, it is the camera lens that, like a laser, comes to pierce lived reality in order to put it to death. ‘The Louds: simply a family who agreed to deliver themselves into the hands of television, and to die by it’, the director will say.” “sacrificial spectacle offered to 20,000,000 Americans.”

You no longer watch TV, it is TV that watches you” “A switch from the panoptic mechanism of surveillance (Discipline and Punish) to a system of deterrence, in which the distinction between the passive and the active is abolished.”

YOU are the model!” “YOU are the majority!”

We are no longer in the society of the spectacle, of which the situationists spoke, nor in the specific kinds of alienation and repression that it implied.”

That discourse ‘circulates’ is to be taken literally: that is, it no longer goes from one point to another, but it traverses a cycle that without distinction includes the positions of transmitter and receiver, now unlocatable as such.”

power is something that circulates and whose source can no longer be located” “an endless reversion that is also the end of power in its classical definition.” “one can always ask of the traditional holders of power where they get their power from. Who made you duke? The king. Who made you king? God. Only God no longer answers. But to the question: who made you a psychoanalyst? the analyst can well reply: You.

power is resolved in perfect manipulation.”

HORIZON AT DUSK:Anti-Copernican revolution: no transcendental instance either of the sun or of the luminous sources of power and knowledge – everything comes from the people and everything returns to them.”

dissolution of TV in life, dissolution of life in TV – indiscernible chemical solution”

a collapse of the 2 traditional poles into each other: implosion (…) That is where simulation begins.

Atomic war, like the Trojan War, will not take place”

EGG-SMASHING… A SALAD OF IDEAS

A vida ou o DNA, qual é o preeminente?

A balança do terror é o terror da balança.

Um reality show com a Família Silva não daria muito certo…

Quem te fez Deus? Meu procurador, o mendigo.

Pra infelicidade das bandas punk, nada sucederá…

A sacola plástica tampouco irá nos assassinar…

Mas O PNB armamentista sem hesitar se multiplicará…

Daqui, na selva, até o extra-civilizado Japão – o jornalista é o único bobinho crente no final das contas. O resto pode se entregar à flutuação dos juros e ao sexo de cada dia; é o que conta no último dia do mês: estar com tudo em dia.

changed, change the world

(chan)ta(ge)m d(o) (mundo)

No longer can any revolt, any story be deployed according to its own logic because it risks annihilation.” “Because if the law, with its aura of transgressions, if order, with its aura of violence, still taps a perverse imaginary, the norm fixes, fascinates, stupefies, and makes every imaginary involute.” “The vertigo of a world without <<f>>laws.”

all bombs are clean”

misfortunes are even more numerous (…) But, subtly, they no longer have any meaning, they are no longer anything but the duplex effect of simulation at the summit.”

A bomba. A ilha. A bomba. Um mundo. Deterrência. A song. Uma música. Uma música… Estouro d’Os Tímpanos.

all ‘newsreel’ footage thus gives the sinister impression of kitsch, of retro and porno at the same time – doubtless everyone knows this, and no one really accepts it. The reality of simulation is unbearable – crueler than Artaud’s Theater of Cruelty.”

precisely only the Americans, as they did in Hiroshima, have a right to this ‘use value’ of the bomb: all of those who have acquired it since will be deterred from using it by the very fact of possessing it.” “Responsibility, control, censure, self-deterrence always grow more rapidly than the forces or the weapons at our disposal: this is the secret of the social order.” “the whole myth of the total and revolutionary strike crumbles at the very moment when the means are available – but alas precisely because those means are available. Therein lies the whole process of deterrence.”

Energies freeze in their own fire, they deter themselves.”

The illusion would be to congratulate oneself on this ‘awareness of history on the part of cinema’, as one congratulated oneself on the ‘entrance of politics into the university’.” “at least there was history, at least there was violence (albeit fascist) (…) this void, the leukemia of history and of politics

it is naïve to conclude that the evocation of fascism signals a current renewal of fascism (…) it is for this reason that fascism can again become fascinating in its filtered cruelty”

History is a strong myth, perhaps, along with the unconscious, the last great myth.”

Fascism itself, the mystery of its appearance and of its collective energy, with which no interpretation has been able to come to grips (neither the Marxist one of political manipulation by dominant classes, nor the Reichian one of the sexual repression of the masses, nor the Deleuzian one of despotic paranoia)”

Harrisburg is a sort of 2nd-order simulation. There is certainly a chain reaction somewhere, and we will perhaps die of it, but this chain reaction is never that of the nuclear, it is that of simulacra, and of the simulation where all the energy of the real is effectively swallowed” “an explosion is always a promise, it is our hope: (…) the whole world waits for something to blow up” “unhappiness is when there is no nuclear spectacle (Hiroshima is over) (…) substantial food for our messianic libido.” “But that is precisely what will never happen. No more energy in its spectacular and pathetic form – all the romanticism of the explosion which had so much charm, being at the same time that of revolution – but the cold energy of the simulacrum and of its distillation in homeopathic doses in the cold system of information.” “In the film, also, real fusion would be a bad argument: the film would regress to the level of a disaster movie – weak by definition (China Syndrome, 1979)”

in its inspired moments, it is God who through his cataclysms unknots the equilibrium of terror in which humans are imprisoned. Closer to us, this is what terrorism is occupied with as well: making real palpable violence surface in opposition to the invisible violence of security.”

the Molochian joy of filming the sacrificial joy of so many millions spent, of such a holocaust of means”

the war in Vietnam ‘in itself’ perhaps in fact never happened, it is a dream, a baroque dream of napalm and of the tropics” “perhaps waiting for nothing but consecration by a superfilm” “this is the brutal quality of this film – not being rotten with the moral psychology of war.”

clownish effect in overdrive”

how is such a horror possible?”

if the Americans (seemingly) lost the other one, they certainly won this one. Apocalypse Now is a global victory.”

the film is a phase of this war without end”

One has not understood nothing, neither about the war nor about cinema, if one has not grasped the reversibility of both destruction and production, of the immanence of a thing in its very revolution, of the organic metabolism of all the technologies.”

Simulados & Liaisons

Sila und siLa

careforbde the entrance

Homecaribde medical centre of eternity

Vaginaltura

momento pelado vendo a crueza do momento-estátua nádega

nada a negar às danadas nadadeiras p/ q. +- ñ qro v.

na adega a gnt vê

agarradinho

sa(liv)at(e)

the pizza

eu te (de)texto no meu jogo de Romeu

rogo a Deus

louco rasga dinheiro mas são rasga bilhete azul

receitazul

a veritable cultural mourning for which the masses are joyously gathered”

any operation meant to put an end to culture only serves, as one knows, to resurrect it.”

O meio é a massagem do ego.

O mundo moderno, sólido como é, é convexo, e não côncavo, porque somos o eterno “deslizar da maçaneta da descoberta”, encarnamos a queda do centro para a periferia, de dentro para fora, somos expulsos do paraíso e não quaisquer escravos da gravidade, de um miolo magnético. Cada vez mais expansivos e claros, rolando sobre nós mesmos. Não há buraco ou mistério. A borda do precipício é o horizonte infinito. Não investigamos, escorregamos.

O jogo da batata cada vez mais gelada.

eu não repouso eu redecolo

inertia e sóbrinha violenta e rápida ao mesmo tempo

Não querendo ser freudiano, mas como não ver sexo na descida de um toboágua? cupidez estupidez 10 estampidos de cupins despe o cu no caixão

Talião tal filho

Tal leão tal simbazinho

fetishy não se mostra fácil

Fat’n’roll

Shynese democracy

Me tira de dentro do espelho, eu que te coloquei aí.

The dream of seeing all that explode by dint of contradictions is precisely nothing but a dream. What is produced in reality is that the institutions implode of themselves, by dint of ramifications, feedback, overdeveloped control circuits. Power implodes, this is its current mode of disappearance.” This text

all the philosophies of the release of energy, of the irradiation of intensities and of the molecularization of desire [!] go in the same direction, that of a saturation as far as the interstitial and the infinity of networks. The difference from the molar to the molecular is only modulation, the last perhaps, in the fundamental energetic process of expanding systems.”

CREMATÍSTICA SOLAR: “the solar myth of an inexhaustible radiation, on which Bataille founds his sumptuary anthropology: it is the last explosive and radiating myth of our philosophy.”

where everybody conceal their interests, the aggreegate!

conscious zeal

im-plant a new forestal order

Nem só de perucas brancas se faz a aristocracia.

Monod, Chance and necessity (a monadologia em xeque)

CAMINHO DO DESTINO

Cada um escolho seu caminho

cada um tem um destino

apesar do mau-olhado

eu não desafino

mesmo rouco entoo o hino

talvez que meu destino

seja a desafinação

seguir torto é o meu caminho

* * *

information produces meaning (…) We are all complicitous in this myth. It is the alpha and omega of our modernity”

the integrated circuit of the negative”

Myth exists, but one must guard against thinking that people believe in it”

VICENTES & FAZENDAS: “media are producers of the implosion of the social and this is only the macroscopic extension of the implosion of meaning at the level of the sign.”

CAMPAINHA DA LIQUIDARIEDADE: Descrição de uma crise de pânico no trabalho

Eu sou o ponto da minha sala onde a comunicação se perde e o chiado aparece. O mudo sabe-tudo. Aquele que mais pode e menos muda o mundo. O único que vai fundo e ainda assim não pesca nada, só dissabores de garganta. Baque–teria como desligar o ar?–do coração engasgadopusoprimido. Me dói muito saber. “O homem que derruba o café” “O ateu que suja a mesa” “O excêntrico que irá se casar” “O músico que não dá espetáculo” “O gênio que não quer trabalhar” “O esforçado que vive doente” O subjugado arrogante. A quina da minha cela. Sente na minha sela – cavalo que dá coice e come doce.

24/07/16

But it would be useful to posit the opposite hypothesis”

the term catastrophe itself only signifies the curvature, the winding down to the bottom of a cycle that leads to what one could call the <horizon of the event>

B., Requiem for The Media

O TÍTERE MANIPULADOR:¹ “the media make themselves into the vehicle of the moral condemnation of terrorism and of the exploitation of fear for political ends, but simultaneously, in the most complete ambiguity, they propagate the brutal charm of the terrorist act, they are themselves terrorists, insofar as they themselves march to the tune of seduction.”

¹ Nome alternativo: Paradoxo de Eddie – para denotar a posição intermediária de Satã na capa do Number of The Beast (1982).

insoluble double bind”

the practices of the masses – that we bury under the derisory terms of alienation and passivity.”

the current argument of the system is to maximize speech, the maximum production of meaning. Thus the strategic resistance is that of the refusal of meaning and of the spoken word – or of the hyperconformist simulation of the very mechanisms of the system

See what surplus value of the social each advertisement tries to produce: Werben werben (advertise advertise) – the solicitation of the social everywhere, present on walls, in the hot and bloodless voice of female radio announcers, in the accents of the sound track” “If at a given moment the commodity was its own publicity (there was no other) today publicity has become its own commodity.” “The social as a script, whose bewildered audience we are.”

since today advertising has escaped the social and moral dramaturgy that it still represented 20 years ago.” this excerpt is from 40 years ago – o que houve? precessão da implosão?! somos muito mais moralistas, embora a formula siga relativamente inalterada…

It is information that is putting an end to the reign of advertising. That is what inspires fear, and what is thrilling.”

miniaturization of everyday life by computer science.”

the autoerotic index of a system that does nothing but designate itself – whence the absurdity of seeing in it an <alienation> of the female body.”

the social must be saved just as nature must be preserved: the social is our niche” “it has fallen into the register of supply and demand”

Folklore dances in the metro, innumerable campaigns for security, the slogan <tomorrow I work> accompanied by a smile formerly reserved for leisure time”

<I don’t let anyone choose for me> an Ubu-esque slogan, one that rang so spectacularly falsely, with a mocking liberty, that of proving the social while denying it.”

Disaffected, but saturated. Desensitized, but ready to crack.”

Everywhere there are 3 or 4 paths, and you are at the crossroads.”

the stupefied hyperreal euphoria that we would not exchange for anything else, and that is the empty and inescapable form of seduction.” “it is useless to analyze advertising as language, because something else is happening there: a doubling of language (and also of images), to either linguistics nor semiology correspond”

fixing the disappearance of the religious in the orgasm of statues.”

The commodity is buried, like information is in archives, like archives are in bunkers, like missiles are in atomic silos.” “a culture that chose to bury itself in order to definitely escape its own shadow, to bury its seductions and its artifices”

heimlich/umheimlich

Monocellular utopia which, by way of genetics, allows complex beings to achieve the destiny of protozoas.”

GEG (GÊNESE DA ESPIRAL GENÉTICA)

Eu fui meu pai. Eu me eduquei. Eu fui Édipo, eles me cegaram. Minha mãe me levou ao médico. Não me arrependi. Não estou sereno. Ou será que meus pais são meus avós, ou será que meus avós são meus pais? Não é essa a questão mas eu senhor e bebê, adulto e escravo? Que responsável abominável e inocente?

a sacred fascination of the Two” “The individual is no longer anything but a cancerous metastasis of its base formula.”

Richard Pinhas, ‘Notes synoptiques à propos d’un mal mystérieux’

The closer one gets to the perfection of the simulacrum the more evident it becomes how everything escapes representation” “there is no real: the 3rd dimension is only the imaginary of a 2-dimensional world, the 4th that of a 3-dimensional universe… Escalation in the process of a real that is more and more real through the addition of successive dimensions.” “only what plays with 1 less dimension is true, is truly seductive.” “What is exact is already too exact.”

A sombra do holograma.

as if all truths swallowed its own criteria of truth as one <swallows one’s birth certificate> and lost all its meaning.” “Meaning, truth, the real cannot appear except locally, in a restricted horizon” “even the exact sciences come dangerously close to pataphysics.”

pathosphysics

Kafka, Colônia Penal

Death, wounds, mutilations are no longer metaphors of castration, exactly the opposite – not even the opposite.”

Kafka’s machine is still puritan, repressive, <a signifying machine>, Deleuze would say”

THE WHOLE HOLE

Tatuados são pan-sexuais. Fura-fura-dores. Costura o apêndice, engole o bandeide e a camisinha. Alça. Metal coçante, marca d’água marca-passo-na-rocha. Umbigo foradentro e do avesso. Ombroburacomanchagrande – pintassilgo. Pêlos pelos ê mais pelos. Semifinalmose. Cútis vermelha do cu. Ouro derretido na saliva lírica. Pino e(x)torsões. Tirar titica fresco de inseto galinha. Bafo antes do café da manhã – abafa. Faca. Manteiga. Tragar cocô frito. Tosse tuberculosa. Fiapo. Desdém. Dor ósseo-muscular. Espasmo. Alergorítimo do alergorritmo. Dança caipira pira pora nossa senhora roxa que xoxa. Organograma fungacional. A meretriz e a filial da putaria.

a work of death that is never a work of mourning”

Não se chega a lugar nenhum – felizmente, que PARADA mas s a critica….

The functionalism of Crash devours its own rationality, because it does not know dysfunction.” “Few books, few films reach this resolution of all finality or critical negativity, this dull splendour of banality or of violence, Nashville, Clockwork Orange.”

caerotic care and rot errático aero arroto carrot ambulância ambivalente

The most likely answer is that the good old imaginary of science fiction is dead and that something else is in the process of emerging (not only in fiction but in the theory as well)”

1. “transcendent sphere” dream is still the individualized form of utopia, in which transcendence is outlined in depth, even in unconscious structures” “the island”

2. “unbounded projection” “speed, and power increase to the nth power” “metallurgy, etc. Projected hypostasis of the robot.” “science fiction adds the multiplication of its own possibilities.”

3. “The models no longer constitute either transcendence or projection” “they’re immanent” “The field opened is that of simulation in the cybernetic sense” “(scenarios, the sitting up of simulated situations, etc.)” “there is no more fiction.”

Reality could go beyond.” “The imaginary was the alibi of the real in a world dominated by the reality principle. Today, it is the real that has become the alibi of the model, in a world controlled by the principle of simulation.” “fiction will never again be a mirror held toward the future, but a desperate re-hallucination of the past.” “The conquest of space that follows that of the planet is equal to de-realizing (dematerializing) human space”

HALO-SE-NAÇÃO

Dragon Ball Z implode em Supernova, recidiva de velhos problemas, sensação de vazio, reciclagem noutra cor. Vilões divertidos – Goku trabalhador. Supermáquina dourada de tempos opacos-sombrios, dancinha e docinho da careta. Gordos em multiversos paralelo-integrados do combate zerozenal vital – tudo pretexto para fugir da mulher. A conveniência de Goten. Fusão de kis discrepantes e mimados. Só namekusei que nada rosazul eu sinto que, divino, eu sei. Super-shang tsung, hello, desire, long long time no see. I long for this re-visit.

A outra dimensão te deixa intacto no mesmo lugar.

Parar é que é voar.

simulation is insuperable, unsurpassable, dull and flat” – Alice trancada no quarto sem [se] toca[r e] sem espelho.

<One cannot simply do whatever one wants with nature.> The problems having become serious enough to damage the profitability of business, this drop in profitability may lead the breeders to return the animals to more normal living conditions.”

In the same way one rediscovers psychology, sociology, the sexuality of prisoners as soon as it becomes impossible to purely and simply incarcerate them (1)

(1) Thus, in Texas, 400 men and 100 women experiment with the sweetest penitentiary in the world. A child was born there last June and there were only 3 escapes in 2 years. The men and women take their meals together and get together outside of group therapy sessions. Each prisoner possesses the only key to his individual room. Couples are able to be alone in the empty rooms. To this day, 35 prisoners have escaped, but for the most part they have returned of their own accord.”

Animals somatize! Extraordinary discovery! Cancers, gastric ulcers, myocardial infarction in mice, pigs, chickens!”

The worker also needs responsibility, self-management, in order to better respond to the imperative of production.”

Once animals had a more sacred, more divine character than men.” “Only the animal is worth being sacrificed; as a god, the sacrifice of man only comes afterward, according to a degraded order.” “The structural opposition is diabolic, it divides and confronts distinct identities” “the cycle, itself, is symbolic” “(Does Deleuze envision something like that in his becoming-animal and when he says <Be the rose panther!>?)”

must not be confused with the status of the domestic pet – the only type of animals that are left to us outside reserves and breeding stations – dogs, cats, birds, hamsters, all packed together in the affection of their master.” “In particular, our sentimentality toward animals is a sure sign of the disdain in which we hold them. It is proportional to this disdain. It is in proportion to being relegated to irresponsibility that the animal becomes worthy of the human ritual of affection and protection” “Sentimentality is nothing but the infinitely degraded form of bestiality, the racist commiseration, in which we ridiculously cloak animals to the point of rendering them sentimental themselves.”

The violence of sacrifice, which is one of <intimacy> (Bataille), has been succeeded by the sentimental or experimental violence that is one of distance.” “Making animals speak, as one has made the insane, children, sex (Foucault) speak.” “It is not the ecological problem of their survival that is important, but still and always that of their silence. In a world bent on doing nothing but making one speak, in a world assembled under the hegemony of signs and discourse, their silence weighs more and more heavily on our organization of meaning.” “Thus spoke the moral discourses of man in fables. They supported structural discourse in the theory of totemism. Every day they deliver their <objective> – anatomical, physiological, genetic – message in laboratories. They served in turns as metaphors for virtue and vice, as an energetic and ecological model, as a mechanical and formal model in bionics, as a phantasmatic register for the unconscious and, lastly, as a model for the absolute deterritorialization of desire in Deleuze’s <becoming-animal> (paradoxical: to take the animal as a model of deterritorialization when he is the territorial being par excellence).” “…animals maintain a compulsory discourse.” “One never escapes the reversion that follows any kind of exclusion.” “Such was the silence of madmen that it forced us to the hypothesis of the unconscious – such is the resistance of animals that it forces us to change hypotheses. For if to us they are and will remain unintelligible, yet we live in some kind of understanding with them.”

(3) That animals wander is a myth, and the current representation of the unconscious and of desire as erratic and nomadic belongs to the same order. Animals have never wandered, were never deterritorialized (…) freedom to <fulfill all needs>, today <of realizing all his desires> – because modern Rousseauism has taken the form of the indeterminacy of drive, of the wandering of desire and of the nomadism of infinitude (…) free, virgin nature, without limits or territory, where each wanders at will, never existed, except in the imaginary of the dominant order of which this nature is the equivalent mirror. We project the very schema of deterritorialization that is that of the economic system and of capital as ideal savagery. Liberty is nowhere but in capital, it is what produced it, it is what deepens it. (…) the radicality of <desire>, one sees this in current theories, increases at the same rate as civilized abstraction, not at all antagonistically, but absolutely according to the same movement, that of the same form always more decoded, more decentered, <freer>, which simultaneously envelops our real and our imaginary. (…) they dream of total deterritorialization where the system never imposes anything but what is relative: the demand of <liberty> is never anything but going further than the system, but in the same direction.”

[territory is] the morsel of space in immediate contact with the organism” “the notion of territory is also opposed in some way to that of the unconscious. The unconscious is a <buried> repressed, and circumscribed structure. The territory is open and circumscribed. The unconscious is the site of the indefinite repetition of subjective repression and fantasies. The territory is the site of a completed cycle of parentage and exchanges”

O MUNDO DO NÃO-DESEJO: “The obligations are absolute therein – total reversibility – but no one knows death there, since all is metamorphosed.” “don’t we live now and already, beyond the effects of the linearity and the accumulation of reason, beyond the effects of the conscious and unconscious, according to this brute, symbolic mode? (…) don’t we dream of implosion rather than of explosion, of metamorphosis rather than energy, of obligation and ritual defiance rather than of liberty?”

O TEMA DA SOMBRA E DO REFLEXO DO EU:

Peter Schlemihl, The Man Who Lost his Shadow

The Student from Prague (movie)

Hans Christian Andersen, The Shadow

Psychoanalysis itself is the first great theorization of residues (lapses, dreams, etc.). It is no longer a political economy of production that directs us, but an economic politics of reproduction” “the return of the repressed as a powerful moment, of the return of the remainder as surplus of meaning

VÃ PIRO DOIDÃO

Não agüentou meus detritos! Ou amo-os só como detritos.

It is the Left that secretes and desperately reproduces power, because it wants power, and therefore the Left believes in it and revives it precisely where the system puts an end to it. The system realizes one by one all the objectives of the historical and revolutionary Left that sees itself constrained to revive the wheels of capital in order to lay siege to them one day.”

Diplomas are worthless: why would it [academia] refuse to award them? in any case it is ready to award them to everybody!”

By rotting, the university can still do a lot of damage. But for this to be the case it is necessary to start with this very rotting, and not to dream of resurrection. (…) the death of university as a model of decomposition of the whole of society, a contagious model of the disaffection of a whole social structure, where death would finally make its ravages, which the strike tries desperately to avert, in complicity with the system, but succeeds, on top of it all, only in transforming the university into a slow death, a delay that is not even the possible site of a subversion” “the challenge of a deterritorialization even more intense than the one that came from the system (…) this total lack of a need to gather in a given place (…) not the crisis of the university, that is not a challenge, on the contrary, it is the game of the system, but the death of the university – to that challenge, power has not been able to respond, except by its own dissolution in return”

They were not there to save the Sorbonne, but to brandish its cadaver in the face of the others, just as black people in Watts and in Detroit brandished the ruins of their neighborhoods to which they had themselves set fire.” Thus, there are no buses.

1968 is dead, repeatable only as a phantasm of mourning.” “All around us there are nothing but dummies [manequins; chupeta(!)] of power, but the mechanical illusion of power still rules the social order” “Yet it is there that one must fight, if even fighting has any meaning anymore.” “it is in this tactical universe of the simulacrum that one will need to fight – without hope, hope is a weak value, but in defiance and fascination.”

The challenge capital directs at us in its delirium – liquidating without shame the law of profit, surplus value, productive finalities, structures of power – must be raised to an insanely higher level. Capital, like value, is irresponsible, irreversible, ineluctable.” “only the vertiginous seduction of a dying system remains, in which work buries work, in which value buries value” “Surrounded by the simulacrum of value and by the phantom of capital and of power, we are much more disarmed and impotent than when surrounded by the law of value and of the commodity” “This supreme ruse [astúcia; falcatrua; estratagema] of the system only a superior ruse can stop, only a pataphysics of simulacra can remove us from the system’s strategy”

This is why there are still good days left to fascist and authoritarian methods, because they revive something of the violence necessary to life. The violence of ritual, the violence of work, the violence of knowledge, the violence of blood, the violence of power and of the political is good! This is lacking today, and the need for it makes itself felt.”

it is necessary to recreate the professor either as a mannequin of power and knowledge, or to invest him with a modicum of legitimacy derived from the ultra-Left – if not the situation is intolerable for everyone.” “it is based on the phantom scenario of pedagogy that things continue and this time can last indefinitely. Because there is an end to value and to work, there is none to the simulacrum of value and of work. The universe of simulation is transreal and transfinite: no test of reality will come to put an end to it”

let the world get evil and get old

get hOLD of it

I always kNEW

niilismo do teoria da niilismo

When God died, there was still Nietzsche to say so (God is not dead, he has become hyperreal)” “in a bizarre fashion, nihilism has been entirely realized no longer through destruction, but through simulation and deterrence.”

Não em vão, mas num vão, por um vão! Vão!

there is no longer an apocalypse”

Alice nunca vai acabar de desaparecer.

Betaform

Now, fascination is a nihilistic passion par excellence” “He who strikes with meaning is killed by meaning.” “revenge of speed on inertia.”

it would be our own mode of destroying finalities: going further, too far in the same direction” “is it not the obscene secret of cancer?”

O MUNDO EM CANTADO DO BARULHO

impermeável a terapias

irreversibilidade irreversível

there is no longer even pathos – that mythical energy that is still the force of nihilism (…) dramatic anticipation. It is no longer even disenchantment, with the seductive and nostalgic, itself enchanted”

P. 162: o papel crucial de Benjamin & Adorno no “3º niilismo”.

melancholia is the fundamental tonality of functional systems, of current systems of simulation, of programming and information.”

Against this hegemony of the system, one can exalt the r[e]uses of desire, practice revolutionary micrology of the quotidian, exalt the molecular drift or even defend cooking. This does not resolve the imperious necessity of checking the system in broad daylight.”