Tese de doutorado apresentada à banca examinadora da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo como parte dos requisitos para obtenção do título de doutor em educação. / Área de concentração: Cultura, Organização e Educação. / Orientadora: Profª. Drª. Maria do Rosário Silveira Porto
“AUTORIZO A REPRODUÇÃO E DIVULGAÇÃO TOTAL OU PARCIAL DESTE TRABALHO, POR QUALQUER MEIO CONVENCIONAL OU ELETRÔNICO, PARA FINS DE ESTUDO E PESQUISA, DESDE QUE CITADA A FONTE.” Cumprimos aqui com o acordado!
Qualquer inconsistência (p. ex. erros tipográficos e ortográficos) com relação ao texto da tese original (sempre indicado entre aspas) são de minha responsabilidade, uma vez que digitei os trechos de meu interesse abaixo (PDF protegido de cópia). Meus comentários, quando houver, dentro das aspas, estão sempre entre colchetes. Grifos são meus quando informo-o. Cores são sempre minhas. As notas de rodapé da autora que eu incluo neste “best of pessoal” (às vezes “worst of”) estão representadas numericamente (¹, ². ³… às vezes sem correspondência numérica com a tese propriamente dita); se a observação for minha e não couber no corpo do texto, entre colchetes, eu assinalo minhas próprias notas sempre com um asterisco (*).

Naruto (KISHIMOTO) #23, p. 7 de NORONHA, 2013.
APRESENTAÇÃO
“a pesquisa (…) pretende realizar uma análise figurativa do mangá shonen [‘Menino, garoto’, por extensão ‘para meninos’ ou, mais genericamente, ‘para o sexo masculino’, categorização, aliás, que já está um tanto batida tendo em vista a evolução dos mangás e do público-alvo da nona arte nipônica – a autora explica o termo shonen em nota de rodapé própria, porém eu contribuo aqui com minha definição.] Naruto no âmbito de um campo de reflexão sobre os estudos do Imaginário. Tal perspectiva busca contribuir para uma pedagogia do psiquismo imaginante, na acepção que Bruno Duborgel (1995) dá ao tema, a saber: uma pedagogia na qual a gestão escolar das imagens permita, nas palavras do autor, ‘que a percepção realista dê lugar ao realismo da irrealidade’. ou seja, que a escola constitua-se num espaço de aprendizagem da prática e do respeito pelo imaginário.
Em contraste com um quadro de desinteresse da escola básica pelos mangás, observa-se que nas últimas décadas o mundo acadêmico tem apresentado um crescente interesse por esse gênero literário e, em conseqüência, pela cultura pop japonesa. No Brasil, pesquisas de pós-graduação, geralmente circunscritas ao âmbito dos estudos de comunicação e arte, têm se dedicado ao tema como uma forma de alargar o entendimento sobre o gênero literário HQ.
Com efeito, as pesquisas realizadas por Sonia Biben Luyten (2000) são precursoras dos estudos sobre os mangás no país e têm servido de base para uma ampla frente de estudos sobre o tema.” [O negrito é meu]
“No cenário internacional, merece[m] destaque os trabalhos de Frederik Schodt (1983) e Johnson-Woods (2010), o primeiro pelo pioneirismo no tema e o segundo pela amplitude da publicação, que traz ensaios de pesquisas realizadas na Austrália, na Europa e nos Estados Unidos, evidenciando o interesse da academia internacional por este tema.”
“Tal análise [de que o mangá é uma forma de entrada à cultura japonesa em geral, e por isso desperta o interesse tanto da criança – para não falar do adulto – japonês quanto do homem ocidental e da academia em todo o planeta] é compartilhada pelo também pesquisador Jean-Marie Bouissou (2011), um conhecido historiador francês da cultura japonesa em cujo artigo ‘L’Apocalypse japonaise expliquée à l’Occident’, publicado em abril de 2011 no jornal Le Monde Diplomatique, defende que a vertente pop dessa cultura tem contemporaneamente, no mangá, um componente importante, uma vez que se trataria de ‘um produto de massa capaz de se adaptar às novas tendências do mercado global’.”
O pop japonês é visivelmente subterrâneo e weirdo!
“Em dezembro de 1999 (…) o Ministério da Educação Japonês expressou concretamente essa orientação ao aprovar na Kyoto Seika University (Kyoto Japan) a criação da faculdade de ‘desenho animado e comic art’, que começou a operar em abril de 2000. Além disso, em 2000, o Ministério da Educação (…) também admitiu pela 1ª vez que o mangá é uma forma muito importante de comunicação contemporânea (BOUISSOU, 2010).” [O primeiro itálico é meu]
Reconhecimento formal incrivelmente tardio.
“Não obstante o interesse crescente (…) observa-se (…) a quase inexistência (…) dos temas tratados pelos estudos do imaginário.” Segundo Fernanda Noronha, maioria dessas teses se concentram em estudos de gênero. Que desperdício!
“Uma exceção é o artigo de Ângela Drummond-Mathews (2010) que – tendo como base os estudos sobre a saga do herói de Joseph Campbell (1993) – realiza uma leitura dos mangás shonen a partir do mangá Dragon Ball. Embora a preocupação da pesquisadora neste artigo encontre-se centrada na estruturada seqüência narrativa (a chamada para a aventura – a recusa da chamada – a travessia dos limites – a iniciação e o retorno), a autora não chega a realizar uma leitura densa que dê conta da análise dos conteúdos e dos cenários míticos presentes na HQ. Dessa maneira, a lacuna que apontamos acima (…) permanece.” [O negrito é meu]
Irônico é a autora achar que ela fez uma leitura densa de Naruto (continue comigo e perceberá o que digo)!
“Trata-se, em resumo, de um estudo simbólico das imagens veiculadas na 1ª temporada do mangá Naruto e nas produções imagéticas de meninos e meninas estudantes das escolas públicas paulistanas. Pretende-se, assim, entender em que medida o mangá é apropriado por jovens leitores como um texto iniciático.”
“Por que, ao se relacionarem com o mundo fantástico dos heróis dos mangás, as crianças demonstram domínio das difíceis regras dos jogos de cards e dos games, criam complexas narrativas (escritas ou orais), desenham e expressam corporalmente conhecimentos acerca das personagens, mas, muitas vezes, do ponto de vista mais tradicional da instituição, fracassam em seus estudos?”
A partir do ponto em que a academia se pergunta isso seriamente, e se propõe a responder com uma pesquisa elaborada, já fracassou. A resposta é o sumo do simples.
“Ao contrário do ‘duelo’ de cards, que exige um mínimo de cartas e o conhecimento das regras propostas pelo fabricante, o ‘bafo’ pode ser utilizado rapidamente, com qualquer tipo e quantidade de cartas. Em qualquer cantinho, na fila ao final do recreio e, às vezes, ‘escorregando’ entre as fileiras de carteiras para o chão da sala de aula, vemos as crianças ‘batendo’ cards. Um bom motivo é a vontade de aumentar a própria coleção desses brinquedos.”
“Com este propósito, deter-nos-emos de forma mais aprofundada na interpretação do símbolo da raposa, figura constante dos mangás, notadamente os mais populares entre as crianças, nossas interlocutoras nesta pesquisa. (…) parte-se da hipótese de que o interesse dos meninos e meninas pelos mangás estaria relacionado com o substrato arquetípico do qual a figura do herói Naruto é um suporte contemporâneo.”
“Entende-se o conceito de psique a partir da acepção de Carl Gustav Jung” Era o que eu mais temia!
“Jadiel (14 anos) e Danilo (14 anos): ambos foram nossos colaboradores durante a pesquisa de mestrado sobre jogos e brincadeiras (NORONHA; 2008) e, hoje, estudam em escolas municipais distintas na região de Cidade Ademar. Ambos os adolescentes, não obstante terem passado a frequentar escolas diferentes, continuam amigos: possuem uma banda de rock e criam histórias sobre suas personagens de mangá (e alter ego!) Trix e Counter. Com relação a esses 2 colaboradores, a pesquisa realizada durante este estudo se deu fora do ambiente escolar e por meio da rede social Facebook, de ligações telefônicas e trocas de e-mails.
A pesquisa com os estudantes do ensino fundamental II [o que quer dizer ensino fundamental 2 atualmente?] da Escola Estadual de Ensino Fundamental e Médio Emygdio de Barros, localizada na região do Butantã Wilian (12 anos), Clayton (12 anos), Renan (14 anos), Ana Carolina (14 anos), Graciele (15 anos), Érika (14 anos), José (14 anos), Vinícius (14 anos), Gustavo (14 anos) e Pedro (15 anos) se deu no espaço institucional e contou com a colaboração da equipe pedagógica e dos professores de Artes, Patrícia e Danilo. Após apresentar a proposta à direção pedagógica, foram distribuídos questionários (anexo 01) para as turmas do 5º ao 8º anos, com o intuito de identificar um grupo leitor dos mangás interessado em participar da pesquisa. Identificado o grupo, ao longo de um semestre realizaram-se encontros quinzenais com os estudantes durante o período de aula dos professores de Artes. A cada encontro, o grupo expunha suas impressões sobre as séries de animês e mangás, e as características de suas próprias personagens. Como, via de regra, os desenhos são feitos nas capas dos cadernos e em papéis avulsos – uma vez que não existe uma preocupação por parte das crianças em registrar todas as histórias criadas –, nesse momento da pesquisa, foi solicitado ao grupo de estudantes que cada um produzisse uma narrativa com suas personagens.
A pesquisa contou também com a colaboração de André Margarida, um menino português de 14 anos, que possui um blog (http://monsterspirits.blogspot.com.br/2010/11/andre-margarida-hate-and-pain.html)(*) para divulgar seus mangás. Com ele, foi realizada uma entrevista online sobre mangás, além de conversas por meio da rede social facebook.”
(*) Interessante – e raríssimo em teses de mais de 5 anos de idade – constatar que a URL ainda está operante em 29/01/2021. Irei explorá-la juntamente com NORONHA. Na verdade, o link remete a um post específico. Suprimindo o sufixo “2010/11…” chega-se à home do autor. A última postagem monta a 27 de outubro de 2013. Buscarei mais tarde no google por André Margarida para procurar algum novo espaço do autor na rede. Até onde pude verificar pelas últimas postagens, de momento, o autor se concentra em desenhos à la carte, muito bem-feitos; ou seja, não é no formato HQ, mas cada arte é auto-suficiente, e possui um estilo marcado (alta originalidade – não necessariamente, mas majoritariamente no âmbito da estética dos mangás e animes). Ele cria do zero várias personagens e também retrabalha designs de personagens conhecidos, como Jigsaw de Jogos Mortais (Saw). Se comunica bastante com seus seguidores e leitores/apreciadores e atende pedidos seus (quais serão os temas de seus próximos desenhos). No último post, ele linka seu canal no Youtube, de games: http://www.youtube.com/user/PTGamersRevolution). No menu à direita também há links para outras redes sociais, Devianart e Tumblr. O Devianart é como uma galeria ou exposição de artes plásticas digital, com espaço aberto para interação dos navegantes. Sua última arte data de 02/04/2017, ou seja, este endereço foi usado pelo artista ainda até cerca de 3 anos e meio após não mais postar conteúdo novo no blog Monster Spirits. O Tumblr possui uma funcionalidade algo semelhante, embora se aproxime mais de um “facebook para um público específico”, pois permite repostagens de outros usuários, e imagens .gif (animadas) são ali notórias. A última interação dele pelo Tumblr data praticamente de 2 anos em relação à data em que escrevo (janeiro de 2019). Aparentemente, ele usa o Tumblr tanto para posts casuais quanto para divulgar sua arte, com a diferença de que se comunica em inglês neste outro espaço de divulgação, em contraste com a língua portuguesa do blogspot e do devianart. Interessante observar a evolução dos jovens em sua rotina digital: eu peguei a era dos blogs, mas não a do Tumblr; e não sou familiarizado até hoje (aos 32) com a produção de vídeos caseiros, não possuindo tampouco canal no YT, embora, como a maioria massacrante dos internautas, eu utilize bastante essa outra rede/maior repositório do mundo para vídeos. Numa rápida olhada, o canal PTGamersRevolution se dedica a fazer walkthroughs de games, entre outras atividades (um walkthrough significa um detonado para a geração dos anos 80 ou 90, i.e., um guia para detonar ou zerar um jogo – enquanto que na minha época isso era muito comum em revistas especializadas, com algumas imagens e muito texto, atualmente esse expediente é bem mais avançado e completo: com toda a gravação da gameplay do jogo e, potencialmente, narração do autor complementando a ajuda ao gamer-espectador com informações úteis ou com descontração, etc.). No entanto, tal espaço também carece de atualização por aproximadamente 6 anos. Ao googlar André Margarida, a referência mais atual que encontrei foi um Instagram (rede do momento) dedicado à dança. Como é de Portugal, me parece muito provável que seja a mesma pessoa, hoje na casa dos 20 anos. Parece que se tornou dançarino profissional.
“Soma-se ao grupo de colaboradores o estudante Ângelo, 9 anos, aluno do 4º ano do ensino fundamental da Escola Municipal de Ensino Fundamental José Olímpio Pereira Filho, região de Campo Limpo.”
“A hermenêutica figurativa durandiana tem como aspecto essencial o fato de rejeitar os princípios saussurianos da arbitrariedade do signo e da linearidade significante; ao invés de entender o símbolo como mero código, essa metodologia busca identificar os dinamismos sistêmicos que evidenciem as estruturas universais do imaginário. Esse conceito metodológico será mais bem-elaborado […]” O negrito é meu. Minha primeira impressão desse Durand é que não compreendeu Saussure, apenas repetindo-o de forma pior, e verborrágica/logorréica.
BENEDICT, O Crisântemo e a Espada (sobre o Japão no final da II Guerra)
“é importante deixar claro que esta pesquisa não se confunde com um estudo comparativo entre a ‘cultura japonesa’ e a cultura brasileira”
“Ainda neste capítulo, apresentamos algumas produções imagéticas e textuais das crianças e discorremos sobre a dificuldade da escola em lidar com o humor jocoso constitutivo dos mangás. A temática do humor e da orfandade – temas recorrentes nos mangás e nas produções das crianças – serão retomados nos próximos capítulos a partir (…) [de] Campbell”
PARTE I
DE COMO LER MANGÁS: A ARTE FIGURATIVA E O TRAÇO CÔMICO COMO IMPORTANTES REFERENCIAIS PARA AS PRODUÇÕES IMAGÉTICAS DE MENINOS E MENINAS
“explicitaremos o objeto de estudo (…) a saber: a 1ª temporada do mangá Naruto (material que corresponde (…) [a]os volumes 01 ao 33…)”
CAPÍTULO 1 – “DA DIREITA PARA A ESQUERDA E DE CIMA PARA BAIXO”: MANGÁS COMO GÊNERO LITERÁRIO JAPONÊS.
“De origem japonesa, o termo mangá resulta da junção de outros 2 vocábulos do nihongo (a língua japonesa): man (involuntário) e gá (imagem); significa (…) uma ‘forma livre’ de se desenhar. A origem do emprego do termo mangá,¹ assim como a idéia de que esta narrativa em quadrinhos constitui um gênero literário/artístico ‘genuinamente’ japonês, são pontos controversos que mereceram destaque entre os estudiosos do tema (GRAVETT 2006; JOHNSON-WOODS, 2010; LUYTEN, 2004; GAUMER, 2002; FURUYAMA, 2008; ITO, 2004).
¹ Segundo Luyten (2004), a palavra mangá deve ser grafada com acento agudo para não ser confundido (sic) com a fruta manga ou com a manga de camisa. A palavra animê, com acento circunflexo, para garantir a entonação semelhante à da fonte, criada no Japão, que é uma corruptela de animation e denota as versões animadas dos mangás.”
Discordo frontalmente de LUYTEN. Nenhuma palavra precisa de diferenciação tônica para evitar equívoco contextual. Fôra assim e não teria havido a última reforma ortográfica do português (percebe a ironia?). Quanto à ‘entonação correta’, além de ser uma noção questionável, a entonação original é com sílaba tônica no a-, ou, antes, mesmo sem entender de fonética japonesa, mas sucessivamente submetido a escutar e reescutar dublagens nipônicas, diria que a sílaba tônica jamais é a última, ou seja, justamente tornar anime oxítona seria o mais disparatado dos procedimentos!
“empregaremos o termo mangá tal qual a ‘categoria nativa’ utilizada pelo público jovem leitor brasileiro, ou seja, termo que designa um gênero literário que tem por base a produção contemporânea de HQ oriunda do Japão (notadamente um estilo de se desenhar característico do período ‘pós-Osamu Tezuka’).” “os quadros nem sempre são retângulos puros alinhados e equidistantes; pode haver 1, 2 ou 7 quadros em 1 página[, p.ex.]”
“Mangá tem causado pânico moral em função de sua violência e conteúdo sexual, mesmo que(*) lidando com questões filosóficas profundas, como a essência do mal que é tema do mangá Death Note,(**) do mangaká Tsugumi Oba, publicado no Brasil, que conta a história de um estudante do ensino médio que descobre um caderno sobrenatural (…) Na trama, as pessoas que têm o nome escrito (…) são mortas.”
(*) Eu substituiria por “já que” ou “porque”: impossível ser profundo e não tratar de temas humanos essenciais como sexualidade e violência.
(**) Discordo que a essência do mal seja o tema de DN. Um de múltiplos temas, e mesmo assim tocado de forma apenas indireta, alusiva; não há diálogos explícitos utilizando as palavras “bem” e “mal” ou tanta ênfase nesse aspecto. Trata-se de um ponto de vista moralista sobre a obra. Diria, se fosse para encontrar palavras-chave para a temática de DN, que morte, justiça, niilismo, totalitarismo, jogos psicológicos, maquiavelismo, crítica da mídia e religiões, e mesmo amor estariam à frente de “bem/mal”… A presença da figura mitológica dos Shinigami, que seria o equivalente à Kurama de Naruto, só reafirma minha convicção: a Morte não está interessada no caráter daqueles que irá levar, ou daqueles com que fará pactos, está atrás apenas de “diversão” ou de “métodos para afastar o tédio”, sendo humanos apenas joguetes para si. Ocidentalizando a questão, se parece muito mais com uma adaptação do Fausto e seu contrato com Mefistófeles para atingir o conhecimento absoluto – a um preço elevado, na verdade impagável, ao longo do tempo – ou com qualquer outra tragédia desde os gregos até nós. Nesse sentido, a discussão ética neste universo se refere muito mais à satisfação pessoal e sentido da vida do que a uma discussão de bem contra mal. Pode-se até mesmo dizer que DN não passa de uma parábola do adolescente no capitalismo tardio: ambicioso, competitivo, impiedoso o mais das vezes, envolvido em inúmeras crises que, bem ou mal, sabe superar e, por fim, a inclusão no mundo adulto, a “morte da persona do púbere enquanto púbere”, que inclui o abandono de seus antigos ideais, vistos a partir de uma nova luz como megalomaníacos após um breve porém profundo amadurecimento, e envolve facetas como a troca ou a perda de antigas amizades e a hostilidade racional ou irracional do próximo. Mais se aproximaria de uma sátira dos neo-yuppies, categoria sabidamente prolífica no Japão, país que exige demais dos jovens e em que o índice de depressivos é assustador. Os mangakás são alguns dos críticos sociais mais aguçados da sociedade japonesa. Mesmo num “inocente shounen” essa tendência se torna palpável.
“ainda existe no Japão alguma ‘essência’ que somente eles conhecem e que torna os mangás japoneses únicos. Essa singularidade talvez seja um dos motivos do sucesso em outros países.” Furuyama
“Lançando mão de grandes rolos de papel de arroz como suportes de suas obras, os artistas japoneses produziram durante a Idade Média japonesa, sécs. XI e XII, as primeiras seqüências de narrativas visuais. A pesquisadora Sonia Luyten destaca que neste período um estilo de desenho de origem sacra, denominado chojugiga – literalmente, desenhos humorísticos de pássaros e animais –, estruturou-se a partir de uma narrativa dividida em duas partes, que traziam estereótipos e caricaturas de ‘animais humanizados’, com o intuito de satirizar as relações sociais da época.
O representante mais conhecido da arte chojugiga foi o monge budista Kakuyu Toba, (FURUYAMA, 2008). Pertence a ele as seqüências imagéticas que ilustram os 6 mundos do budismo,(*) a saber: o inferno Gaki Zôshi (rolo dos fantasmas famintos), o Jogoku Zôshi (rolo dos infernos) e o Yamai Zôshi (rolo de doenças e deformidades). [Onde estão os demais mundos? O quarto é o dos eternos guerreiros; o quinto a Terra; o sexto a mão de Buda, o Nirvana.]”
(*) Decerto um número mí(s)tico no Japão: essa divisão em 6 mundos encontra-se no foco da batalha épica Ikki de Fênix vs. Shaka de Virgem, a reencarnação de Buda (Saint Seiya). E sem dúvida deve ser o pano de fundo para o próprio “Sábio dos 6 Caminhos”…
“Frederik Schodt sustenta que o humor presente no budismo influenciou sobremaneira a arte japonesa e se faz presente ainda hoje no humor dos mangás.”
“Hokusai (…) o primeiro artista a empregar os termos mangá e sketches” Ver as 36 vistas do monte Fuji
“Patrick Gaumer (…) defende que o termo mangá teve origem em 2 caracteres chineses que significam literalmente ‘imagem ridícula’.”
“foi somente após ter viajado para o Ocidente e retornado à (sic) Nagoya que Hokusai desenhou as composições às quais chamou de ‘Hokusai-Manga’ (GONCOURT, 2009).”

Arte de Hokusai à p. 36 da tese.
“[Na mitologia] Você percebe que a imagem é símbolo de algo, e que você está distante disso. Mas em nossa religião tudo é tedioso e muito sério. Você não pode brincar com Jeová.” Campbell, 1990
“Ao contrário da arte judaico-cristã, a influência do budismo possibilitou que o séc. XIX se tornasse uma época áurea para um estilo que ficou conhecido como o ‘baixo humor’ da arte japonesa, quando vários artistas (…) – entre eles Tsukioya Yoshitoshi (1839-1892), Kawanabe Kyosai (1831-1889) e Utagawa Kuniyoshi (1798-1861) – criaram xilogravuras cômicas, mostrando grandes escrotos de maneiras criativas (figuras abaixo), revelando a ausência de comprometimento desses artistas (…) com os padrões (…) ocidentais.”

NORONHA p. 40: as duas gravuras se chamam Kuntama Chikaramochi e Namazu Hyôtan Kintama respectivamente. São de aproximadamente 1842. Os humanos retratados são guaxinins antropomorfizados. A tradução dos títulos dos quadros se aproxima de “Mais divertido com os guaxinins!”.
“o mangá contemporâneo apresenta o tema da sexualidade sem tabu, enquanto os quadrinhos ocidentais parecem ignorar que a sexualidade é uma grande preocupação para os adolescentes e adultos.” Bouissou, 2011
“o desenhista Rakuten Kitazawa (1926-1989)(*) empregou pela primeira vez o termo mangá como…” o formato-base que hoje conhecemos. Só faltava mesmo uma das características fundamentais: o signo do “balão”, embora já houvesse o texto dos personagens. Eram tiras curtas. Podemos dizer que estão mais para Calvin & Haroldo do que para Naruto – o que não é dizer pouca coisa, ainda mais para a primeira década do século passado!
(*) Grave erro da tese: a data correta de nascimento e morte é: 1876-1955. Como NORONHA cita na sequência, o 1º mangá propriamente dito data de 1901, por isso é impossível que antecedesse em 25 anos a existência de seu autor.
Uma das influências ocidentais de Kitazawa: “Os Katzenjammer Kids é uma HQ norte-americana criada pelo alemão Rudolph Dirks e desenhada por Harold H. Knerr, entre 1912-49. A obra é inspirada em uma história infantil da década de 1860 do autor alemão Wilhelm Busch. O Katzenjammer conta a história de Hans e Fritz, gêmeos que se rebelam contra algumas figuras de autoridade, especialmente a de sua mãe.” [negrito meu] ]Os Stewie Griffin da primeira metade do XX?
“Talvez, mais do que criar personagens regulares e divulgar a palavra mangá, o passo mais importante de Kitazawa – que resultou na constituição do atual cenário de produção e de consumo dos mangás em todo [o] mundo – tenha sido a fundação, em 1905, da revista japonesa Tokyo Punch, publicação determinante para a formação de um mercado editorial de quadrinhos.”
“Foi somente no pós-guerra que o artista Osamu Tezuka (1926-1989) [aqui vemos que esta é a data que a autora atribuiu por confusão à vida de Kitazawa], conhecido entre os fãs de mangá como o ‘Walt Disney japonês’, desenvolveu uma forma própria de fazer mangás. (…) a opção pelo uso de olhos grandes e brilhantes nos seus personagens para dar maior expressividade e bocas desenhadas de maneira bastante exagerada, quando a intenção é dar ênfase a uma narrativa mais cômica. Tezuka uniu o desenho de narrativa seqüencial cômica às técnicas do cinema, sendo pioneiro na adaptação dos desenhos em quadrinhos para o desenho animado. Foi a arte de Tezuka que popularizou o mangá no mundo todo”
Surpreendentemente, Tezuka criou o shoujo antes mesmo do shounen: “A estética mangá de Osamu Tezuka se desenvolveu principalmente depois de 1967, com a criação de A Princesa e o Cavaleiro (…) um mangá shojo. Essa história se passa no reino fictício da ‘Terra de Prata’ durante a idade média japonesa, e conta as aventuras da princesa Safiri, herdeira do trono que, por um erro de um anjo atrapalhado, Ching, teria recebido por engano 2 corações: um masculino e outro feminino. Por ser menina, Safiri não poderia assumir o trono de seu reino, por isso seu pai a apresenta aos súditos como menino. Quando o anjo que cometeu o erro desce a (sic) Terra para tentar repará-lo e Safiri se apaixona pelo príncipe do reinado vizinho, os personagens se envolvem em muitas aventuras. Somente recentemente, ano de 2002, é que o primeiro título de Osama Tezuka foi traduzido para o português pela editora JBC.”
“No Brasil, muito antes de Frank Miller ‘descobrir os mangás’, estes já eram fartamente lidos pela comunidade dos descendentes de japoneses. Eles eram importados por distribuidoras – normalmente localizadas no bairro da Liberdade, em SP – que enviavam para o interior de SP ou do Paraná para as comunidades nipônicas. O mesmo aconteceu com os animês e os filmes japoneses que eram veiculados em alguns cinemas, especialmente o Cine Niterói, no bairro da Liberdade.”
“O texto a seguir, no qual Danilo fala da personagem de suas histórias, apresenta claramente as características próprias do herói mangá shonen e ilustra bem a relação que as crianças estabelecem com este gênero literário.
Estudando mais sobre a marca de Trix
‘Trix veio ter essa marca depois da última luta com Counter no céu ele deu seu golpe leigum e o counter O cólera do dragão o golpe foi tão forte que foi equivalente a 900 (…) exclamações de Atenas. Pense bem se uma exclamação é capaz de destruir as estrelas, pilares, e, milhões de pessoas.
Imagine então 900, é, é muito não é.
(…)
Trix depois de ter o cabelo grande igual os tempos medievais Trix resolveu entrar no mundo da moda. Mais não foi bem assim. Depois de ter sido capturado por caminhois cortaram o cabelo dele para fazer tira gestos e deixou o cabelo dele cheio de caminho de rato.
(…)
Ele foi e comprou um óculos escuros meios arrendondinhos e aí sim que ficou no estilo da moda.
Vamos parar com Trix porque eu quero desenhar.’”
CAPÍTULO 2 – OS LEITORES DE MANGÁS: OS OTAKUS, AS REDES SOCIAIS, O CIRCUITO OTAKU, A ESCOLA E O IMAGINÁRIO INFANTIL
“Na pesquisa anterior (NORONHA, 2008), vimos que o termo otaku designa os jovens fanáticos por animês, mangás e jogos eletrônicos, que apresentam um tipo de socialidade marcada pelo seu caráter etário.”
“É muito comum observar jovens otakus sentados, em turmas, nas escadarias da estação de metrô Liberdade ou passeando pelo Shopping Sogo Plaza, localizado na Rua Galvão Bueno. Nesse shopping, existe uma grande quantidade de boxes, onde é possível encontrar edições especiais de mangás que não são encontradas nas bancas e livrarias de outros bairros, DVDs com as séries animês, bonecos dos personagens dos animês e mangás, CDs de J.Rock (SIC – forma abreviada de japan rock, as bandas musicais que fazem sucesso compondo e interpretando o rock japonês para as trilhas sonoras dos animês), conhecer outros otakus, trocas (sic) cards, obter cópias de jogos eletrônicos ou encomendar roupas e acessórios para cosplayers.”
“se antes o termo era utilizado apenas por jovens, digamos, mais fidedignos a um ‘estilo de vida’ praticado pelos amantes dos gêneros mangás, animês e jogos eletrônicos, hoje, com uma modificação no comportamento virtual das redes sociais no Brasil e a ampliação das comunidades virtuais pelos sites de relacionamento (uma migração do orkut para o facebook e twitter), observa-se que o termo otaku perdeu sua acepção original e tem sido utilizado na rede virtual como sinônimo de ‘fãs de personagens dos mangás e animês’; sem que isso implique, necessariamente, que o jovem conheça o circuito otaku (….) ou frequente os demais espaços ‘reais’ da cidade.”
“disseminação de memes. Esse termo é utilizado para identificar um fenômeno da comunicação que diz respeito à disseminação de pensamentos, ideias e produtos culturais que se espalham rapidamente por meio da internet. O termo meme (que será empregado aqui como uma categoria na[rra?]tiva de humor da internet, ou seja, um tipo de humor praticado pelos jovens usuários das redes …) tem por base o conceito de que, no ‘território virtual’, global, algumas informações são transmitidas e replicam-se quase que automaticamente. Boa parte dos memes se propaga sem seus disseminadores saberem de onde vieram, ou seja, tem o poder de mobilizar pessoas de fora do círculo original da brincadeira. Segundo Bia Granja, editora do YouPix, em entrevista concedida ao (…) G1:
‘(…) há uma diferença clara entre a ‘piada interna’ e o ‘meme’: a participação de terceiros. O meme nasce a partir de um contexto e se espalha fora do contexto. (…)’”
“Segundo Johnson-Woods (2010), uma das questões mais controversas tem sido o uso de títulos honoríficos sama, sensei, kun e chan, entre outros – palavras japonesas que dão aos leitores sutis pistas quanto aos relacionamentos entre as personagens.”
“O volume 56 da edição brasileira [Panini Comics], p.ex., traz a seguinte informação sobre o ‘termo nativo’ edo tensei: <do japonês, ‘reencarnação nas terras impuras’>. No mangá, tipo de kuchiyose no jutsu (técnica de invocação …) que permite invocar almas de pessoas mortas de volta para o mundo dos vivos. Na tradição budista, ao morrer e antes de reencarnar as almas ficam no ‘mundo puro’ ou ‘terras puras’; o mundo dos mortais é chamado de ‘mundo impuro’ ou ‘terras impuras’.”

NORONHA, 2013, p. 76. À esq., tradução americana; à dir., trad. brasileira, dita “conservadora” ou “hardcore”, por respeitar elementos do original como onomatopéias. Minha opinião pessoal? Para que traduzir então? Perde todo o sentido se você não puder ler kanjis… É mais que fan service, é tolice. Além disso vejo que os balões ficaram muito econômicos (em inglês há mais informações).
“Em 12/03/11, logo após um tsunami devastar o norte do Japão, o cartunista do jornal Folha de SP João Montanaro, na época com 14 anos, causou polêmica ao realizar uma charge sobre a tragédia, lançando mão de uma releitura da xilogravura A Grande Onda de Kanaguwa, de Katshushika Hokusai (…). Nela o garoto incluía destroços, carros, fogo e uma usina nuclear.
Na ocasião, a pesquisadora Sonia Luyten, em reportagem veiculada na mesma edição do jornal, chegou a considerar a charge de Montanaro um erro, pois, nas suas palavras: ‘Os japoneses prezam muito seus ícones. Além disso, não é hora de tocar nesse assunto. Acho inoportuno’.”
“Com efeito, podemos interpretar que as críticas que pesam sobre a charge de Montanaro representam uma incompreensão à recepção do cômico e perda da capacidade de apreender a potência simbólica e criadora existente na ambivalência da charge.”
“o espirituoso, o humorista – e, nesse caso, o chargista – demonstram vigor intelectual ao lançar um olhar estrangeiro sobre sua própria realidade, mecanismo que lhe permite rir de si mesmo.”
Não poder dissociar humor de complexo de castração deve ser horrível (referência a algumas leituras ‘psicanalíticas’ da coisa…).
“No Brasil – (…) a maior colônia de japoneses e descendentes de japoneses fora do Japão – uma polêmica envolveu o animê Naruto, quando exibido pela TV aberta (SBT) e pelo canal pago (Cartoon Network), de 2007 a 2011.
Esse canal aberto veiculou uma versão editada do animê Naruto, reduzindo-lhe os elementos violentos e cortando abruptamente as cenas nas quais o animê exibia muito sangue, agressão física ou verbal.”
“Ao longo desta pesquisa, observou-se que os animês, se comparados aos mangás, exploram muito mais as lutas que estes últimos. Um bom exemplo é a cena na qual Naruto se descontrola, quase libera a raposa selada em seu umbigo e chega a se cortar diante da frustração do fracasso em um combate. Presente tanto no mangá quanto no animê, a cena de ‘autoflagelação’ da personagem no animê impressiona mais. Enquanto a cena retratada no mangá apenas sugere que a personagem está em vias de perder o autocontrole e liberar o animal selado em seu umbigo, no animê a personagem Naruto chega a se transformar na kitsune (a raposa de 9 caudas que se apresenta em sua imagem teriomórfica, ou seja, com semblante de ogro devorador).
A seguir, vemos frames, ou quadros de animação, da cena na qual Naruto corta a própria mão com uma kunai e, logo abaixo, a mesma cena retratada na edição japonesa do mangá. Observem-se à esq. 2 frames extraídos do animê Naruto veiculado pelo canal Cartoon Network norte-americano e, à dir., a mesma sequência da versão original veiculada pela tevê japonesa.
Nos frames da dir. é possível ver a personagem Naruto cortar a própria mão com uma kunai, ao passo que, na versão norte-americana, esses frames são substituídos por um close fechado no punhal. Já no 2º quadro, toda a imagem adquire uma tonalidade vermelha e o recurso de um ângulo mais fechado apenas sugere o sangue.
A literatura antropológica tem mostrado a dimensão de suporte de escrita social que o corpo adquire em algumas sociedades.”

NORONHA, 2013, p. 84. No mangá, evidentemente, a cena é idêntica à da direita.
“qual a simbologia dos rituais que incluem cortes e escarificações no corpo dos iniciados em algumas sociedades ameríndias e mesmo em religiões de matrizes africanas como o candomblé ([n]esta última (…) a simbologia dos cortes (…) ou (…) kuras [grifo meu] (…) relaciona-se ao objetivo de ‘fechar’ o corpo do iaô, palavra yorubá, que denomina os filhos-de-santo já iniciados e que ainda não completaram o período de 7 anos de iniciação)” Qual a simbologia de circuncidar bebês de 7 DIAS??!?
“como pensar os rituais de iniciação em nossa sociedade? (…) como os cortes praticados por alguns jovens (automutilações ligadas a distúrbios psicológicos) se diferenciam dos rituais iniciáticos e em que medida podem se relacionar com imagens primitivas esquecidas em nosso inconsciente coletivo do homem ‘civilizado’?
(…) tais questionamentos devem ser considerados por parte de uma pedagogia do imaginário que deseja se afastar de uma perspectiva etnocêntrica e de uma leitura apressada sobre as cenas que os mangás e animês veiculam. Antes de simplesmente categorizá-las no rol de imagens violentas que devem ser banidas do ‘universo infantil’, a escola precisa se perguntar quais imagens iniciáticas e quais matrizes culturais estão sendo reivindicadas.”
“Figura 31 [p. 88]: Quadrinho do episódio 16 do mangá Naruto no qual Iruka [sic – trata-se do Kakashi Hatake!] sensei explica à personagem da Equipe 7 Sakura o trabalho de um ‘apagador de corpos’. Segundo Iruka, (SIC-2) os apagadores de corpos mascarados têm como função ‘se livrar completamente dos corpos dos ninjas sem deixar vestígios’. Isso se faz necessário porque os corpos dos ninjas guardam aprendizagens e segredos importantes sobre as vilas.”

Fragmento da figura supra – somente o quadrinho esquerdo.
PARA ALÉM DO MEME & DO MAL – VERSÃO BRASILEIRA, ÁLAMO: “Alexandre Pereira BARBOSA (2010) (…) destaca que, não obstante a ludicidade e o cômico se associarem em diferentes momentos nas zoeiras que os jovens empreendiam, ambos apresentam-se como uma dificuldade para o educador, uma vez que a zoeira ‘não pertence ao domínio da moral, não sendo, portanto, nem bo[a], nem m[á]. (…) gozações racistas e homofóbicas’’” “formas de (…) impor o tempo livre”
Nunca vou esquecer quando meu professor de História (um tal “Tenente Galo”!) da sexta série (atual sétimo ano) confiscou meus 2 gibis dos X-Men por uma semana, por ler escondido debaixo da carteira durante a aula!
“Ilka Mota (2010) (…) revelou que os livros didáticos [adotados nas escolas públicas paulistas] tendem a apagar os efeitos cômicos dos quadrinhos que ilustram os textos.”
Ao se debruçar sobre os mangás, cuidado para não amassá-los e criar orelhas nas páginas!
“as instituições pedagógicas dos séculos XII ao XX (igrejas, escolas, instituições científicas, etc.) estruturaram um intenso controle pedagógico sobre verdades iconoclastas.”
Lendo a sinopse da tese de BARBOSA PEREIRA, lembrei instantaneamente do fenômeno tamagotchi (1996), que deixou a coordenação pedagógica da Escola Classe 106 Norte com as mãos puxando os cabelos sem saber o que fazer com os alunos diante de um aparelhinho inusitado que continha uma “vida em sprites” que não podia esperar para ser colocada para comer, brincar, dormir e tomar banho; em que cada aluno era o pai do seu bichinho, em que quase toda a sala tinha o seu bichinho, e em que o aparelho – sem uma “manha” que nem todos conheciam, aliás, poucas crianças conheciam – não podia sequer ser desligado, pausado ou resetado, i.e., aparelhinho barato, comprado em liquidações histéricas de feira, literalmente morreria, com o bichinho que representava, caso seu usuário – ou melhor dizendo “dono” ou “pai” – fosse negligente no seu cuidado. A propósito, vejo que o “bichinho” (bem simplesinho, uma espécie de Game Boy tijolão, só que do tamanho de uma calabresa, só um pouco mais grossa, como que a fatia final de um salame) ainda é vendido aos borbotões no MercadoLivre – os mais simples por R$25,00. Bem condizente com o preço na época, coisa de R$2 a R$5.
“Durand opõe as ‘imagens enlatadas’ (…) às imagens literárias” Grosso modo, lavagem cerebral totalitária X consumo-criação de arte
“observa-se um atraso de cerca de 70 a 80 anos da pedagogia dos sistemas de ensino europeus em relação às tecnologias, talvez um dos motivos pelos quais a difusão de informação icônica que as técnicas da imprensa, o vídeo, o cinema e a televisão(*) tenham criado um verdadeiro ‘boom’ da imagem no cotidiano que escapa totalmente ao controle pedagógico da família ou da escola.” O que veio primeiro, o ovo ou a galinha? A mídia criou o atraso pedagógico ou o atraso pedagógico deu azo à vanguarda da mídia? Não interessa, é indiferente saber. É indiferente perguntar binariamente.
(*) Trecho esdrúxulo – está faltando alguma coisa na frase.
“Figura 32 [p. 92]: Quadrinho do capítulo 03 do mangá Naruto, Naruto – após tropeçar no pé de outro estudante da academia para iniciantes genins – beija acidentalmente o colega Sasuke. Na versão do anime exibida pelo Cartoon Network, essa cena foi suprimida por meio do artifício de paralisar a animação no frame anterior (neste frame é possível ver as garotas da sala de aula ‘em choque’ e ouvir o som do beijo).”

Óleo sobre tela. Versão em pintura da escultura clássica de Rodin, “O beijo” (1889). Brincadeirinha, pessoal.
“A conclusão a que o antropólogo Marcos Vinicius Malheiros chegou foi a de que concepções de infâncias pautam tanto as regências das professoras quanto as das crianças, sendo que estas últimas costumam agir de acordo com as expectativas que a instituição escolar espera delas.
Segundo MALHEIROS (2012), isso pode ser confirmado em situações de sala nas quais as professoras, durante suas regências, esperavam que as crianças desenhassem de maneira ‘correta’ (não-rabiscado) e ‘corrigiam’ aqueles trabalhos que não correspondiam às expectativas do adulto (‘Volte que isso aqui não está bem pintado!’).”
“Aqui, a engenhosidade das crianças é observada na forma como estas realizam um arranjo entre a lógica do cardgame (que, no caso do jogo inspirado no desenho animado yu-g-ioh, (sic) apresenta regras bem complexas) e a lógica de brincadeiras infantis que se prolongam no tempo como o ‘bafo’ e o ‘joqueipô’.” (NORONHA, 2008) Comigo eram as figurinhas (termo raiz para cards) dos jogadores do campeonato brasileiro ’99: quem não cuspia nas próprias mãos e as atritava para conseguir vantagem no jogo do bafo era um tolo! Aqui era o subterfúgio ideal para os menos favorecidos economicamente, pela malemolência e esperteza ‘extra-oficialmente reconhecida no bando’, surrupiar figurinhas compradas pelos ‘barões’ (o estereótipo do ‘riquinho da turma’).
“Cabe, portanto, à pedagogia do psiquismo imaginante (DUBORGEL, 1995) favorecer a regência das crianças [o que raios é ‘regência’ em pedagogia?], de modo que estas possam superar a relação positivista com as imagens que lhes é (sic – são) ensinada[s] por meio dos inúmeros dispositivos (…)”
“pregnância simbólica” Termos horrorosos…
“No contexto dos estudos do imaginário, tal superação envolve necessariamente uma transmutação, uma mudança radical do status ontológico da situação do homem no mundo (VIERNE, 2000; CAMPBELL, 1993; ELIADE, 1986)” Isso é uma tese de pedagogia ou hermenêutica nietzschiana? Puta que pariu!
“Cleyton (…) p.ex., ao falar de suas personagens, tinha necessidade de realizar todos os gestos, golpes e saltos, que ele imaginava particularizar Sukaru.” (Ver desenhos no final do post.)
“Ao observarmos o próprio autor relatar sua personagem, notamos que a narrativa em si é menos importante do que a ação; todo o foco da aventura encontra-se no gestual e nas dificuldades que pouco a pouco vão sendo superadas. Por isso, o traço empregado por Clayton é ágil, quase um esboço sem cor, que busca retratar a virtuosidade da luta.”
“Interessante notar o recurso da sombra bem marcada da personagem, o que pode ser interpretado como uma estratégia da criança de simbolizar a ambiguidade dessa que, embora pratique o bem e realize sua jornada contra o mal, revela-se impiedosa e sarcástica com seus inimigos” Dessa o quê?
CAPÍTULO 3 – LER MANGÁS A PARTIR DE UMA HERMENÊUTICA FIGURATIVA
Se Naruto é cheio de fillers, essa tese também é. E perde muito tempo com a “recapitulação do capítulo anterior”.
Também começa a falar de “iconoclastia cultural” como se eu fosse obrigado a saber a que conceito ela se refere sem qualquer indicação. Ódio a imagens? Protestantismo? De onde deriva? O mundo parece ter começado com Descartes para alguns pseudofilósofos… Minto: começou com Aristóteles.
“Boaventura de Sousa Santos (1998) realiza uma reflexão (…) sobre a necessária transição de um conhecimento científico moderno caracterizado pela lógica matemática (…) para um novo modelo de ciência”
“conceitos quentes” Começou a gororoba sociológica pseudointerdisciplinar…
“Max Weber, inspirando-se em Nie., pôde formular o dinamismo do politeísmo dos valores no desenvolvimento das sociedades. O orgiasmo resume bem essa união do estático e da dinâmica; suas figurações eróticas integram, com efeito, a invariância dos instintos e a esfera dos afetos.” (MAFFESOLI, 2005)
“Vimos, p.ex., que o tema da orfandade e a temática do herói estão presentes em praticamente todas as produções aqui analisadas. Identificaram-se, (sic) ainda (…) uma bricolagem de temas e imagens que remetem à simbologia própria de matrizes africanas.”
“A análise dos desenhos aqui apresentados e de sua matriz figurativa mangá exige de nós um olhar que supere o modelo iconográfico escolar, que se guia pelos princípios saussurianos de arbitrariedade [mesmo?] (a arbitrariedade do signo não ocorre na imaginação)(*) e linearidade significante (não sendo de natureza linguística, o significante não se desenvolve em uma única dimensão).”
(*) Uma afirmação um tanto repentina e arbitrária! Acho que a autora está indevidamente considerando Saussure alguma espécie de pragmático da comunicação, última coisa que ele seria.
“Durand nos dá um panorama de autores que se distanciaram do signo arbitrário e optaram por trabalhar com o símbolo arquetípico, [A coisa em si? Pois seria isso o que significa abandonar o axioma da arbitrariedade do signo!] mediador de oposições e elemento de uma linguagem simbólica universalizável.” Achei o culpado – é esse tal Durand, que eu já havia criticado anteriormente. Grande erro usar um universal de homem branco do séc. XX (me parece que ele é um discípulo de Jung), ainda mais considerando que essa é uma tese que buscou referências no campo da Antropologia. Enfim, um DESASTRE!
“Na medida em que buscaram entender o símbolo em sua função de reunião de contrários, de equilíbrio, as obras de Kant, Cassirer, Jung, Eliade e, sobretudo, Bachelard foram chamadas de hermenêuticas instauradoras por Durand.”
“um laborioso inventário classificatório dos dinamismos imaginários.” Parece que infelizmente tudo de arbitrário (he, he!) que Jung tiver dito vai poder justificar qualquer conclusão que a autora teça. Mas paremos de reclamar e sigamos, porque não teria fim…
“Já de início é preciso explicar o que Durand entende por isomorfismo, a saber: uma potência fundamental dos símbolos de ligar os elementos inconciliáveis, as compartimentações sociais e as segregações dos períodos da história.” Ok, agora explique o que Durand entende por potência fundamental, símbolo (sim, porque cada autor tem seu símbolo de símbolo, ao que parece, não é?), elementos inconciliáveis (no junguismo!), etc.
O ruim dos pós-modernistas é achar que eles estão sendo os primeiros a “desconstruir” Descartes, entre outros autores…
E que merda é CONSTELAÇÃO para Jung (vou assumir que Durand é só uma voz para Jung neste âmbito)?
Suspenderei o juízo e fingirei que acredito que um arquétipo tem necessariamente de ser sempre uma e a mesma coisa para todos a fim de continuar a leitura.
“Durand parte (…) de uma ‘concepção simbólica da imaginação, quer dizer, de uma concepção que postula o semantismo das imagens, o fato de elas não serem signos, mas sim conterem materialmente (grifo nosso [da autora, não meu]), de algum modo, os (sic) seu sentido’”
“Veremos que os símbolos constelam porque são desenvolvidos de um mesmo tema arquetipal, porque são variações”
“Nesse sentido, a imaginação não se confunde com a mera ilustração do real, pois ‘tomar a imagem como um símbolo significa remetê-la para uma anterioridade cronológica e ontológica, ou seja, afirmar que antes de tudo há imagens, que elas são o começo de todo o pensamento, de toda a vida espiritual humana.’ (Durand).”
GERADOR DE LERO-LERO: “Com efeito, vemos que o método de convergência simbólica, cuja dinâmica passa pelo isomorfismo semântico presente no símbolo polívoco, deve atentar também para a sua natureza estática e cinemática, pois, enquanto a dimensão arquetípica garante a estabilidade e a universalidade das representações imaginárias (aspecto estático), a dimensão sociocultural permite que os símbolos, enquanto variações culturais dos arquétipos, modifiquem-se culturalmente, sendo, portanto, sempre manifestações de uma intencionalidade sociocultural (aspecto cinemático).”
“ponto nevrálgico”
“discussão cara às ciências sociais” Cara porque custa tempo, espaço, energia e dinheiro que não dão nenhum retorno…
“passagem profundamente elucidativa, na qual Gilbert Durand é bastante enfático em sua posição contra ‘essencialismos’ [o cara que acabou de dizer que o mundo nasce de imagens!!!] que possam vir a desembocar em análises etnocêntricas”
“As imagens do mito, por isso, jamais podem ser uma representação direta do segredo total da espécie humana, mas apenas o protótipo de uma atitude, o reflexo de uma posição, uma postura de vida, uma maneira de jogar o jogo.” Campbell
“reflexologia dethereviana” “teoria reflexológica do psicólogo russo Vladimir Betcherev” E o que é que psicólogo entende de reflexo?
“Empregaremos neste trabalho o termo original da língua inglesa schème [sic – com certeza ela quis dizer ‘língua francesa’!] para designarmos não apenas a forma ou a estrutura própria às dinâmicas das imagens (o que seria traduzido por esquema), mas um conceito antropológico que abrange a junção entre os gestos inconscientes da sensoriomotricidade e as dominantes reflexas que resulta[m] na figuração ou imagem.”
“Recordemos que o termo schème foi utilizado de forma diferente por autores como Kant e Bergson.” Mas é claro! A filosofia kantiana parte de um princípio de honestidade, e não de um charlatão.
“pulsões objetivas” “intimidações objetivas que emanam do meio cósmico”
Existe uma enorme diferença entre relativismo cultural e autocrítica da civilização europeia e pós-modernidade, o que muitos autores franceses da segunda metade do séc. XX têm a maior dificuldade em entender.
“grandes arquétipos (substantificações dos schèmes).”
“fator geral de equilibração”
“3 schèmes que manifestam a energia biopsíquica”
“Escola de Leningrado (Betcherev, Oufland, Oukhtomsky)”
“despojando-se de sua pregnância simbólica, o símbolo tende a tornar-se um simples signo, tende a emigrar do semantismo para o semiologismo: o arquétipo da roda dá o simbolismo da cruz que, ele próprio, transforma-se no simples sinal da cruz utilizado na adição e na multiplicação, simples sigla ou simples algoritmo perdido entre os signos arbitrários dos alfabetos”
“os símbolos isomórficos constelam” “estruturas esquizomórficas” “esquemas diairéticos e verticalizantes”
SOCORRO! ESSA TESE É RUIM DEMAIS!
levantar da cama = empunhar uma espada = verticalidade (zzzzz)
O problema é que a espada corta melhor na horizontal. Axioma de Snorlax.
“…a eufemização da morte (toda morte é um renascimento!).”
Parece eu postando no meu blog há 13 anos…
“Nesse regime [noturno], a figura masculina é paulatinamente (…) substituída por símbolos femininos (…) da deglutição, pois é preciso que a descida não se transforme em queda.” “negação da negação” Ah, por favor!
“Veremos na 2ª parte deste trabalho, quando nos detivermos na análise da personagem do mangá Naruto…” É pra isso que eu vim! E não obstante estou na p. 117 (de 273) e nada ainda!
“O herói Naruto, ao longo de sua jornada, recebe o chamado num cenário onde predomina a esquizomórfica heróica (ritos de entrada); desce, então, às entranhas da baleia (passa, portanto, por uma morte simbólica regida pelo simbolismo do redobramento, caro à dominante digestiva da estrutura mística) para, finalmente, renascer como o herói dramático.”
Existe vida após a morte acadêmica do mito?
DOUTORADO EM EDUCAÇÃO COM LICENÇA MULTIDISCIPLINAR PARA FALAR GROSELHA: “É como se (…) o processo de expansão progressiva do Universo, que ocorre há 13,7 bilhões de anos, chegasse a um ponto limite de afastamento, a partir do qual esse se desagregaria. Como um Big Rip (um grande rasgo), a dinâmica do distanciamento dos grupos de transformação pode levar os mitos ao esfriamento e à sua morte.”
“Talvez se Lévi-Strauss fosse questionado sobre a literatura de quadrinhos japoneses e acerca da origem das histórias que envolvem estas raposas, pudesse identificar nesse gênero literário elementos daquilo que outrora se constituiu como mito.” Talvez.
Deveria ser cobrado um pedágio para utilizar a expressão “eterno retorno” em monografias.
“Vemos, então, que, não obstante o mito desgaste-se, ele nunca desaparece” Se você diz, eu acredito…
“Não existe o momento zero do mito, o início absoluto. Existem inflações e deflações.” Durand
É O QUÊ? “Durand utiliza o termo mitema como a menor unidade com sentido que compõe um mito. (…) dada à (sic) fragilidade dos cenários míticos dessas HQs, trabalharemos não os mitemas, mas os mitologemas, os quais designam uma organização de elementos, motivos ou temas mitológicos e que constituem unidades menos significativas e menos redundantes do que o mitema.” [ambos os negritos são meus] Se o mitema é a menor unidade, como raios outro conceito pode ser ainda menos em qualidade? Abordagem completamente furada.
“a história se limita a uma vasta ‘realização simbólica’ de aspirações arquetípicas frustradas.” (Durand) [itálico nosso]
“Uma ‘jornada’ do devir imaginário seria de mais ou menos duas gerações de 36 anos cada, uma diurna, ‘idealista’, a outra ‘noturna’, ‘realista’, notadas pela utilização mais freqüente num e noutro caso recíproco do ‘tema da noite’ e do ‘tema do meio-dia’. É o mecanismo da frustração-imitação, constitutiva do recalcamento, que em última análise explicaria esta regularidade das fases imaginativas na história literária: de meia-geração em meia-geração um tema teria de passar do estádio de descompressão (défoulement) de uma frustração ao estágio de pressão pedagógica devidamente imitada pelo grupo social, e de se tornar assim opressivo por seu turno. A dialética das épocas históricas reduz-se assim ao duplo movimento, mais ou menos agravado pelos incidentes ocorrenciais, da passagem teórica de um regime de imagens a outro e da mudança prática, medida pela duração média da vida humana, de uma geração adulta a outra: uma pedagogia põe fora a outra, poder-se-ia dizer, e a duração de uma pedagogia apenas é limitada pela duração temporal da vida do pedagogo.” Durand, 2002
Lévi-Strauss, Mitológicas “L.-S. concluirá, a partir da leitura sincrônica e diacrônica das diferentes versões do mito sobre as esposas dos astros, que o porco-espinho representa a periodicidade sazonal no âmbito dessas populações [ameríndias], uma vez que a periodicidade de seus espinhos reproduz a dos grandes ciclos cósmicos”
Durand apresentado como aquilo que é: parasita que monta às costas de quem fez todo o trabalho: “não obstante o estruturalismo levistraussiano (sic) tenha apresentado valor heurístico para o próprio Durand pensar as transformações do mito, entendemos que apenas a hermenêutica durandiana tornará possível a análise simbólica dos mangás quanto aos aspectos míticos desse material literário.”
ME CONTEM!
vou (me) con(ten)tar (com) uma estória.
“uma interpretação sobre o mito cosmogônico japonês de Amaterasu, a deusa xintoísta do sol que mergulhou em um mundo de trevas antes de dar a luz ao mundo.” Com certeza a autora não imaginava que Kishimoto usaria este conceito para ilustrar a queda de Sasuke nas trevas…
P. 126: Paupérrima análise sociológica do Japão, “segunda maior economia do mundo”! Duas páginas à frente quererá dar lições em Translation Studies!
“Não é raro encontrar, tanto nos mangás e animês (…) como em outras representações artísticas japonesas, referências à divindade xintoísta da fertilidade Amaterasu, representada sob a forma de uma raposa branca.
Na cosmogonia japonesa, Amaterasu é apresentada como a filha mais velha dos deuses Izanagi e Izanami. Ela teria nascido tão radiante que seus pais enviaram-na para o céu, de onde ela projetava sua luz sobre a Terra. Suas roupas eram cobertas de joias e seu colar de luz formava a Via Láctea. Depois de ter aquecido o mundo com seus raios e criado as condições ideais para o desenvolvimento da vida, Amaterasu desceu à Terra. Ensinou os japoneses a cultivar o arroz e o trigo, bem como a criar o bicho-da-seda e a produzir tecidos com seus fios (WILKINSON, 2010).”
“No mangá Naruto, porém, Amaterasu apenas nomeia uma técnica utilizada pelas personagens Sasuke e Itachi, ambas pertencentes ao clã uchiha. A técnica Amaterasu no mangá consiste na evocação de uma chama negra muito potente, capaz de queimar tudo o que se encontra ao alcance de seu executor.”
Cheio de notas de rodapé com promessas (“nos próximos capítulos…”): um bom estudo cheio de fillers para fazer jus ao anime!
“Na versão do Nihonshoki, Susanoo é encarregado de governar Nonokuni, ou seja, o reino das profundezas. Trata-se de um personagem mítico extremamente complexo, muitas vezes identificado como o deus das tormentas, como herói nacional, como revoltoso político etc. Originariamente Susanoo é considerado uma divindade de humo e seu nascimento a partir de Izanagi, assim como Amaterasu, foi uma tentativa de inseri-lo no quadro da mitologia oficial. Existem inúmeras interpretações acerca da não obediência de Susanoo e de seu comportamento no restante da narrativa, sugerindo que esse mito é um paradigma para a superação de problemas na corte referentes à sucessão imperial.”
“Amaterasu e Tsukuyomi governavam seus domínios, de acordo com os desígnios de Izanagi, mas Hayasusanoo no Mikoto não governava o reino a ele confiado, pranteando e lamentando profundamente até sua longa barba finalmente atingir a altura do peito. Este seu pranto foi tal que as verdejantes montanhas mirraram e todos os rios e mares secaram. Em todos os lugares ouvia-se o brado dos deuses malevolentes, abundantes como moscas, ocorrendo toda a sorte de calamidades. Então Izanagi dirigiu-se a Hayasusanoo no Mikoto e perguntou-lhe: ‘Por que não governas os domínios que vos confiei, mas somente pranteias?’, ao que Hayasusanoo responde: ‘Meu pranto é por desejar ir a Nenonatasukuni, a terra onde jaz minha mãe’; mas, ao ouvir tais palavras, o grande deus Izanagi disse, enfurecido: ‘Se é assim, já não mais habitarás esta terra (Nakatsukuni)’; e, com tais palavras, baniu-o dali. Este grande deus Izanagi encontra-se guardado em Tagaw em Azumi.
(…)
– Não oculto nenhuma outra intenção.
Após ouvir isso a deusa Amaterasu perguntou-lhe:
– Como poderei saber se tendes o coração puro?
Neste momento, Hayasusanoo respondeu:
– Vociferemos aos deuses e geremos filhos então.
(…)
Então, sob estas circunstâncias, ficaram com o rio Amenoyasu separando-os e, quando chegou o momento de vociferarem, Amaterasu pediu pela espada de deztsuka carregada por Takehayasusanoono (sic) Mikoto e, partindo-a em 3 pedaços, purificou-os chapinhando-os nas águas de Amenomanai, mastigou-os e, quando os expeliu na forma de uma fina névoa, veio à existência a divindade chamada Takiribimeno Mikoto, também chamada Okitsushimahimeno (…)
veio à existência a divindade conhecida como Masakatsuakatsukachihayahiarne-nooshohomimino Mikoto. (…)
– Estas 5 crianças recém-nascidas do sexo masculino foram geradas a partir de objetos (jóias) de minha propriedade. Portanto, são naturalmente meus filhos. As 3 crianças do sexo feminino, nascidas primeiro, foram geradas a partir de um objeto (a espada) de vossa propriedade. Portanto, naturalmente que são vossas filhas. (…)
– Meu coração é puro. Por esta razão gerei filhas graciosas. Desta forma, a vitória sem dúvida a mim pertence.
Assim, exultante com a vitória, destruiu os canteiros dos campos (arrozais) de Amaterasu, soterrou suas valas e, além disso, defecou na sala onde se ofertavam os primeiros frutos. (…)
– Aquilo, semelhante a fezes, deve ser o vômito de meu irmão, que estava embriagado.
(…)
Quando a deusa Amaterasu se encontrava na sala sagrada de tecelagem observando a tecedura das vestes divinas, Hayasusanoo abriu um buraco na porção central mais alta do forro da sala de tecedura divina e atirou um cavalo que fôra empalado a partir da cauda; as tecelãs divinas, ao verem-no, assustaram-se, bateram seus genitais contra a lançadeira e, assim, vieram a morrer.
Neste tempo, a deusa Amaterasu, receosa, abriu a entrada da gruta celeste e entrou (…) Por esta razão as trevas reinavam intermitentes. (…) as 800 miríades de deuses reuniram-se em assembléia divina nas margens do rio Ameno Yasu, pedindo à divindade Omoikane, filho de Takamimusubi, que refletisse acerca disso (…) procuraram pelo ferreiro Amatsumara, encarregaram Ishikoridomeno (sic) Mikoto de construir um espelho; Tamanoyano (sic) Mikoto de fazer uma jóia adornada com uma miríade de filamentos de contas de magatama; chamaram Amenokoyaneno (sic) Mikoto e Futotamano (sic) Mikoto, pedindo-lhes que removessem os ossos escapulares de um cervo macho do monte Ameno Kagu; apanharam a hahaka (árvore) do monte Ameno Kagu para iniciarem as adivinhações (…)
enquanto isso, Amenouzumeno (sic) Mikoto prendia as mangas de suas vestes com ramos da hikage celeste (…) esvaziou uma tina em frente à entrada da gruta celeste, pôs-se a retumbá-la com os pés, expôs seus seios e baixou suas vestes expondo seus genitais. Neste momento, Takamagahara ressoou efusivamente com a miríade de deuses gargalhando e rindo em uníssono. Amaterasu (…) abriu parcialmente a entrada de Ameno Iwayato e, de dentro, disse:
– Amenohara encontra-se em trevas, pois me escondi e, assim também, Ashiham-nonakatsukuni deve estar em completa escuridão; mas então, qual o motivo de Amenott-zume dançar e cantar e da miríade de deuses gargalharem e rirem em uníssono?
(…)
enquanto Amaterasu observava sua imagem refletida no espelho, Amenotajikaraono (sic) Kami, que se escondera, agarrou suas mãos e a puxou para fora. Imediatamente, Futodamano (sic) Mikoto estendeu a corda atrás dela e disse:
– Já não podeis retornar! (…)
Hayasusanoo pediu à deusa Ôgetsuhimem alimentos. Ela tirou diversas comidas de seu nariz, de sua boca e de seu ânus, preparando depois diversas iguarias, mas, quando as presenteou a Hayasusanoo, ele, ciente de todos os seus movimentos, achou que ela sujara a comida antes de lha oferecer, e a matou. Do corpo da deusa morta brotaram várias coisas: da cabeça cresceram bichos-de-seda, dos olhos, brotos de arroz; dos ouvidos, painços; do nariz, feijões; da genitália, trigo; e do ânus, soja. Então Kamimusuhino Mioyagarmino Mikoto apanhou-os todos, usando-os como sementes.” Redação melhorada por nós para fins estilísticos (e com “nós”, quero dizer “mim”!).
“Conforme relatados nos livros Kojiki (Anais das coisas antigas), 712 d.C., e Nijonshoki (Crônicas do Japão), 720 d.C.” [todos os itálicos meus] Do Wikipédia: “O Kojiki (古事記), o documento mais antigo sobre a história do Japão não usava pronomes ou gêneros. Alguns livros, tais como o Hotsuma Tsutae, descreviam a divindade como homem.” Isso torna o relato anterior ainda mais interessante e transgressor!
A noção de que estrelas são a matéria-prima de espelhos não está equivocada – kudos aos japas!
Durand diz que a reiteração mítica significa que o mito em questão se tornou estéril, porém tudo o que ele faz é esterilizar todos os mitos ao enxergar todos como idênticos estruturalmente. E a “doutora” vai na onda… P. 138: incursão desnecessária pela mitologia grega.
“O pensamento xintoísta ensina que é preciso celebrar a vida (por isso os deuses se divertem durante a festa orgiástica!)” Ó, sério?! Ainda bem que você explicou…
“transcender a condição humana” blá, blá, blá…
Aposto que tudo isso era só pra encher lingüiça e deixar as duas partes simétricas!
PARTE II
DO MITO: O MANGÁ NARUTO COMO UMA LEITURA INICIÁTICA
P. 140: “Imagem do volume 01 do mangá Naruto no qual a kitsune de 9 caudas luta contra os quatro hokages (…) da Vila da Folha.” É complicado quando você não estuda nem o BÁSICO do seu tema de doutorado! Neste caso em especial: ler o mangá com um MÍNIMO de atenção – porra! Qualquer das crianças entrevistadas pela pesquisadora dar-lhe-ia uma aula sobre o enredo de Naruto…
“Na Parte II, iremos investigar se o enredo do mangá Naruto pode ser entendido como uma leitura iniciática que remonta à tradição oral e iconográfica japonesa.” Vamos fingir que a autora ainda não sabe a resposta, e que não sabe que é “sim”, com todas as suas inevitáveis ressalvas para agradar a banca…
NAÏVETÉ BRUTE: “Tendo como base a idéia de que o cenário iniciático comporta a passagem pelos (sic) 3 atitudes do imaginário, o capítulo (sic) propõe a seguinte discussão: em que medida o mangá Naruto (…) atualiza a crença intuitiva de que o homem não está fadado à aniquilação, mas pode ultrapassar a sua condição e erguer-se contra o tempo?
Da maneira como é formulada a pergunta, dá-nos a impressão de que qualquer Bambuluá é um mito durandiano, ou seja, basta com que “o Édipo não se cegue”… Cof, cof… Em outros termos, o que esse charlatão chamado Durand propõe é que um mito só é um mito quando ele não é mais um mito, i.e., quando ele se historiciza… Poucas vezes na vida lerei algo tão desastrosamente autocontraditório!
CAPÍTULO 4 – SOBRE MENINOS E RAPOSAS
“Constantemente retomada ao longo dos capítulos do mangá, a trama introdutória informa ao leitor…” Filler = mito! TÃ-DÃ…
“Nesta pesquisa, delimitamos nosso escopo de análise à 1ª temporada do mangá Naruto, o que compreende os primeiros 35 episódios da série.” Ou seja: a menos de 5% da história…
“Trata-se de um período que retrata a fase pré-adolescente das personagens (…) o enredo gira em torno do cotidiano de provas da Equipe Sete (formada pelos estudantes Naruto, Sasuke e Sakura) e da temática do trabalho em equipe.
A 2ª temporada (SIC) do mangá, por sua vez, terá como título Naruto Shippuuden¹ (SIC) e as personagens serão jovens (…) (…agora … com seus 16 anos) (…) cumprir as provas ninjas individualmente. (…) não obstante a mudança de idade (…) permanece o tema iniciático da superação de desafios.
¹ Os episódios de Naruto Shippuuden (SIC) tratam das missões que Naruto e seus colegas devem cumprir antes de passarem para o 2º nível ninja, o nível chuunnin.(*)”
(*) Se essa tese fosse impressa eu a teria rasgado nesse exato momento!
De onde essa mulher tirou esses erros boçais? Me deu até uma dor no iniCIÁTICO aqui, rapaz… A imbecil da mulher transformou o Shippuden (é só 1 “u”, é fácil de verificar no google a grafia!) num dos arcos do Naruto clássico. Quão preparada estava a banca para avaliar a total invalidez desse trabalho?
P. 145: tabela PORCA
De que cor é a raposa branca de Napoleão?
Através da análise etimológica do sufixo –posa podemos determinar a origem do termo como uma espécie de demonização da mulher oriental (esposa).
#ironia
“Um maior número de caudas indica uma raposa mais velha e mais poderosa, por isso, (sic) quando uma kitsune recebe sua nona cauda, ela adquire sabedoria infinita, sua pele torna-se prateada ou dourada e ela passa a ser denominada kyuubi.” Que PENA que nada disso tem qualquer relação com Naruto!
“a arte japonesa teria herdado da China muitos de seus motivos simbólicos, como a representação de certas plantas e animais como pares fixos, tais como o tigre e o bambu, o rouxinol japonês e a ameixa, e as aves galináceas. (…) Sendo a forma mais comum de transformação aquela das raposas em mulheres com a finalidade de seduzir os homens [finalmente a compreensão teórica do jutsu sexy!] e depois abandoná-los, e a capacidade desse animal de se transformar em objetos inanimados, como chaleiras.” Na história da concepção de Yusuke Urameshi há uma curiosa inversão (mãe humana, feiticeira, ‘esotérica’, pai youkai).
“o mangá Pokémon, que também apresenta 2 personagens kitsunes: Vulpix (raposa de 6 caudas) e Ninetales (raposa de 9 caudas)” HAHAHA!
“a série Digimon Tamers, que traz a personagem Kyuubimon, ser que tem a aparência de uma raposa amarela de 9 caudas, com uma juba branca e chamas azuis” … Nossa… Legal…
“e o mangá xxxHolic, cuja kitsune ora se apresenta sob a forma de uma serpentina peluda e branca, ora com a aparência da kyuubi tradicional, que protege o protagonista da história, o garoto Kimihiro Watanuki.” Tem certeza que esse mangá (qual mesmo?) é mais popular que Yu Yu Hakusho? Hm, faça sua pesquisa direito na próxima oportunidade!
No cinema (…) a referência mais conhecida é o conto A raposa, do filme Sonhos, do cineasta e pintor japonês Akira Kurosawa.”
“Segundo Karen Smyers (1999) nenhum ponto de vista sobre a figura da raposa (…) pode ser apontado como (…) correto (…) Talvez por isso (…) não haja um consenso a respeito do verdadeiro significado da palavra kitsune”
P. 149: um estranho shifting para o lado zoofílico da coisa!
“Com efeito, os habitantes do Japão esposam simultaneamente as duas crenças principais: o xintoísmo (religião autóctone do Japão) e o budismo, que coexistiram e se influenciaram mutuamente nos últimos 1500 anos.”
Não quer mudar de assunto e abordar o Tails de Sonic The Hedgehog no lugar?!
“Observa-se que esculturas de divindades religiosas no Japão são excepcionalmente ricas em (…) [retratar a] união entre seres humanos e animais.”
“A associação com a divindade da fertilidade e o rompimento com sua ‘condição humana’ justificariam a imagem das raposas como figuras de machos dom-juans ou de fêmeas provocadoras”
“Debruçar-emo-nos”
“A pobreza de ambas as ‘versões míticas’ (ausência de mitemas e conteúdos simbólicos) não nos permite avançar na análise propriamente mitocrítica da narrativa canônica, capaz de nos revelar a questão ontológica por detrás da disputa entre homens e raposas.” Rompante de sinceridade.
“Nessa versão [dos mitos Bororo], aparecem uns urubus que comem as nádegas do herói, o que nos faz pensar, evidentemente, no fígado de Prometeu”
Não se pode lograr uma raposa.
“apresentaremos a seguir uma leitura simbólica da HQ norte-americana Sandman, os Caçadores de Sonhos, de Neil Gaiman (2001)”
“Assim como (…) mestres mangakás foram influenciados pela estética e narrativa ocidental, a produção imagética ocidental também foi profundamente impactada pela (…) japonesa. Prova disso é a presença da figura da raposa e de muitos elementos oriundos da arte figurativa japonesa” E só tem raposa na Ásia, caralho?!
“Na ocasião do 10º aniversário da série Sandman, Neil Gaiman publicou o livro em prosa Caçadores de Sonhos, ilustrado pelo japonês Yoshitaka Amano.” [primeiro itálico meu]
“Sandman (…) conta a história do amor impossível entre uma raposa e um monge budista.”
Por favor, autora: aprenda a escrever TRICKSTER!
“A trama se passa em um Japão antigo e fantástico, onde criaturas mitológicas andavam sobre a terra, nadavam pelo mar e cruzavam o ar, animais falavam e sonhos podiam ser devorados por estranhas criaturas. Nessa mesma época, animais e humanos tinham algumas habilidades em comum, como a capacidade de falar e andar sobre duas pernas.” “Morpheus, o Senhor dos Sonhos, interfere na paixão proibida” “Morpheus (…) [é] uma enorme raposa negra.”
“a raposa (…) investe sobre ele, furando seus olhos a mordidas”
“O peixe é símbolo do continente redobrado [recipiente e conteúdo] (…) <‘encaixado’ (gigone) por excelência, desde o minúsculo até o enorme(…)> DURAND” [itálico meu]
“diante da eminente morte”
“a tradição oral japonesa relaciona o aparecimento da lua à possibilidade de a raposa gerenciar sua forma e transformar-se em mulher” Hmmm… Um pouco de desvios, mas aí temos o Pesadelo Infinito e a ardilosa Kagura…
Qualidade deprimente dos scans da HQ na tese…
“Na cultura japonesa, quando um ator Kyogen (conhecido como teatro tradicional e cômico) realiza a transição de aprendiz a mestre, ele o faz no papel da raposa. Por isso, no entendimento de Smyers (1999), o povo japonês de uma forma talvez inconsciente [você acha???], tem na raposa o símbolo cultura da ambiguidade e da transição.”
“Agora trataremos de analisar o modo como a figura hermesiana da raposa trikster [SIC – ESCREVEU TRICKSTER ERRADO UMAS 300X NA TESE] se relaciona à temática do menino-herói-órfão do mangá Naruto.” – página 175/273…
“Naruto é um herói que se assemelha, em muitos aspectos, à figura de Kintaro. Herói cultuado na cultura japonesa, o menino de ouro das histórias infantis japonesas está presente em livros infantis, estátuas, santuários, bonecos. Em datas comemorativas japonesas, que equivaleriam ao nosso dia de Cosme e Damião ou ao dia das crianças, balas com a figura de Kintaro são distribuídas às crianças japonesas ‘para que os meninos possam se tornar fortes e valentes como Kintaro’.”
Nossa, mas que comparação estruturalista à americana chamar uma festividade japonesa de Cosme e Damião, hu hu hu!
A autora parece ter lido o que quis durante a tese – um livro de Durand, Sandman, “Histórias Preferidas das Crianças Japonesas” (JBC), entre outros gibizinhos e livrinhos provavelmente pertencentes aos filhos e… infelizmente não leu Naruto! Meu problema não é com teses mal-fundamentadas – é com a total ausência de um fundamento num suposto trabalho de doutoramento em E D U C A Ç Ã O!
“Kintaro é uma espécie de ‘Mogli, o menino lobo’, pois (…) quando era bebê, foi raptado por um urso” “Ao contrário de outros meninos, Kintaro, que cresceu sozinho nas montanhas selvagens, fez amizade com todos os animais e aprendeu a se comunicar com eles.” Ecce Gon
“com 8 anos de idade foi capaz de cortar as árvores tão rapidamente quanto os lenhadores e, por isso, recebeu de sua mãe um grande machado.”
CAPÍTULO 5 – AS AVENTURAS DO MENINO RAPOSA: PROCESSOS INICIÁTICOS NA NARRATIVA DO MANGÁ NARUTO
“5.1 – As provas iniciáticas de Naruto” P. 196 e ATÉ AGORA N A D A!
“No mangá, a orfandade das personagens Naruto, Iruka, Sasuke e Inari expressam o tema do exílio infantil”
“Campbell (1993) nos lembra que o herói, enquanto permanece na condição de criança, tem de enfrentar um longo período de obscuridade, que corresponde a uma época de perigo, de impedimento ou desgraça extrema.”
“As histórias de Naruto se passam no ambiente escolar, a maior parte do tempo”
Onde, no primeiro volume? HAHAHAHA!
“Muitos dos episódios da saga Naruto são, efetivamente, provas iniciáticas” Com efeito, Jiraiya, Sarutobi e Orochimaru, idosos, não fazem nada senão iniciar… Cof, cof…
“professor Iruka Sansei”
SEnsei não é sobrenome, ô burra!
“Detalhe do mangá no qual o primeiro hokage da Vila da Folha presencia uma conversa entre seu neto, Inari,(*) e Naruto.”
ERROOOOOOOOOOOOOOOOOU
(*) Konohamaru – Inari é o neto de Tazuna, o construtor da Grande Ponte Naruto…
E na tradução da tirinha, anCiosamente… Cof, cof… No meu tempo eu não tinha que me deparar com erros maiores que os “L” do Cebolinha…
“interrompe a sua vida escolar quase normal e descobre sua origem e seu destino: conter a raposa-demônio e ser filho de Minato Namikaze, o quarto Hokage”
NÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃAÃÃÃÃÃÃÃÃO, VÉI! INACREDITÁVEL! Se essa tese fosse um exame genin, essa mulher não teria conseguido criar meio clone das sombras, hahaha!
“Segundo o mangá, a palavra Hokage é formada pela junção das palavras ‘fogo’ e ‘silhueta’ e denomina o título dado ao líder da vila, o melhor e mais sábio ninja da Vila da Folha.”
“Naruto só terá acesso a sua história e a história da vila quando for reprovado no exame final da Academia”
MIL ANOS DE MORTE, CHARLATÃ! Acertou com uma margem de erro de uns 500 episódios…
“guiso” Guizo – ou você está com tanta fome que só pensa na comida?
“Sasuke, assim como o mestre Kakashi, pertence ao clã UCHIHA”
CONSEGUIU INVERTER COM PERFEIÇÃO O ENREDO – BATO PALMAS PELA FAÇANHA SEM PRECEDENTES! “Tendo a história do pai como exemplo, Kakashi tenta conduzir a sua vida rigorosamente pelo código de ninja. Torna-se um jovem professor muito severo, seguindo todas as regras ao pé da letra, ao mesmo tempo em que demonstra apatia em relação aos outros ninjas.” “opta por salvar seu amigo Obito: Mas não obtém sucesso: seu amigo morre e ele termina com o olho esquerdo gravemente ferido. Embora o desfecho da história tenha sido trágica, a morte de Obito operará um enorme impacto sobre a personalidade de Kakashi, tornando-o mais alegre e mais próximo dos seus companheiros de equipe e estudantes.” “A máscara simboliza a tragédia na vida da personagem (a perda do amigo e a cegueira de um olho).”
HAHAHAHAHAHA! Explique-me por que ele usava máscara antes de qualquer tragédia e por que ele estaria cego se pode ver mais do que com um olho comum…
NÃO VIAJA, DATTEBAYO! “A imagem do umbigo, um redemoinho no qual o monstro feminino gulliverizado(*) aguarda silencioso, remete-nos ao caráter iniciático da descida ao centro da grande mãe ctônica.”
(*) Seria bom explicar ao leitor da sua tese o que entende por GULLIVERIZADO, que tal?
— fim do tratamento pseudoacadêmico nefasto — fique com meus anexos para não abandonar este post traumatizado(a)!
ANEXO I – POEMA, COSMO .17
Depressa,
Faz preces aos deuses!
Exclama que queres ver tudo destruído,
Em dilúvio,
Perpétua sombra chamejante.
Quantos andares tem sua casa, cavalheiro?
Cavaleiro.
Quantos casados possui seu condomínio de 12
Escassas casas gregas,
Meu coveiro?
Coluna de fumaça,
Colunas de galáxias,
Quasares
Insignificantes
Diante
Dos milionésimos de pós
de meus soco-estrelas
ANEXO II – BÔNUS PICTÓRICO: OS MANGÁS DE AUTORES INFANTIS
Trechos de mangás feitos por alguns dos estudantes citados na APRESENTAÇÃO por NORONHA:


Ana Carolina, Mary, a Surpresa Estranha
Clayton, Sukaru


