septem. Sete. Os sete sábios (da Grécia). (Septem Stellae = Setentrião, as Plêiades; Septem Marĭa = os lagos junto à foz do rio Pó, onde Veneza foi mais tarde fundada; Septem Aquae = lago no território reatino).
september, septembris, (m.). (septem). O sétimo mês (no ano Romano, que se iniciava em Março). Setembro.
septemflŭus,-a,-um. (septem-fluo). Que possui sete embocaduras (epíteto do Rio Nilo).
septemgemĭnus,-a,-um. (septem-gemĭnus). De sete vezes, composto de sete.
septempedalis, septempedale. (septem-pedalis). De sete pés de altura.
septemplex, septemplĭcis. (septem-plico). De sete vezes, composto de sete.
septemuir,-i, (m.). (septem-uir). Setênviro (um dos sete membros do conselho encarregado da partilha das terras).
septenarĭus,-a,-um. (septem). Que contém sete, formado de sete elementos, setenário.
septendĕcim. (septem-decem). Dezessete.
septeni,-ae,-a. (septem). Em grupos de sete, de sete em sete. Sete. Sete vezes.
septentrionalis, septentrionale. (septentriones). Relativo ao norte, que se localiza ao norte.
septentriones, septentrionum, (m.). (septem-trio).As sete estrelas próximas ao Pólo Norte, a constelação da Ursa (denominada Ursa Maior e Ursa Menor). O Setentrião (vento norte). Território ao norte.
septĭe(n)s. (septem). Sete vezes.
septiflŭus,-a,-um. (septem-fluo). De sete braços.
septimani,-orum, (m.). (septem). Soldados da sétima legião.
septĭmus,-a,-um. (septem). Sétimo. (septĭmus casus = caso instrumental, caso adverbial sem preposição).
septingenti,-ae,-a. (septem-centum). Setecentos.
septiremis, septireme. (septem-remus). Que possui sete fileiras de remos.
septuageni,-ae,-a. (septuaginta). Em grupos de setenta, de setenta em setenta.
septuagesĭmus,-a,-um. (septuaginta). Setuagésimo.
septuaginta. Setenta. (irá interessar para os apreciadores do Velho Testamento que não sabem o hebraico!)
septuennis, septuenne. (septem-annus).De sete anos de idade.
septunx, septuncis, (m.). (septem-uncĭa). 7/12 de uma unidade. Sete onças (unidade de peso). Sete unidades, sete partes.
A família do sete, no Latim, ou seja, septum e os vocábulos dela derivados, nos oferece alguns esclarecimentos sobre nomenclaturas que nem imaginávamos ter relação etimológica com o número 7.
Primeiro recapitulemos que até hoje 7 é um nº muito ligado a superstições. Não me arriscaria a dizer que tem qualquer relação com sep-ultura, ou morte, no entanto, pois não teria condições de comprovar – seria cair no erro do lingüista empolgado e tosco, que devido a assonâncias começa a estipular etimologias e genealogias arbitrárias. Vide a genealogia incrivelmente fake da palavra aluno como despido de luz, uma piada de mau gosto que circulava muito antes de conhecermos o termo fake news e que não tem qualquer razão de ser, sendo o designativo aluno tão pouco (ou nada) pejorativo quanto seus sinônimos mais empregados, discente e estudante. Havia até campanhas de pedagogos (e alunos!) na internet (creio que nos anos 2000, quiçá até a década passada!) pedindo a remoção da palavra do uso cotidiano, o mesmo que se deu ou se dá agora com o verbo denegrir, o que está completamente equivocado no meu juízo (seria como estipular que em jogos de xadrez, a partir deste momento, as peças negras é que determinam o jogador que irá principiar o jogo – aspecto arbitrário completamente despido, até onde sabemos, de qualquer conotação racial). Tão ingênuo e deletério, outrossim, quanto crer que o quadro clínico da septicemia guarda qualquer relação com a palavra septem e se originaria do latim.
* * *
Como estudante intermediário do Latim e lingüista amador me atribuo a autoridade de desmistificar algumas noções que por aí circulam. Essa parte do primeiro parágrafo dissertativo, entretanto, foi apenas um bônus da postagem, concebido à última hora. Gostaria mesmo de apontar, dentre as palavras/verbetes dicionarizado(a)s mais acima, alguns nortes que recebemos sobre por que utilizamos tais e tais palavras no português hodierno. O trocadilho com norte, no sentido de rumo, direção, ficará logo esclarecido!
Começando pela alusão mais óbvia de todas: setembro, muita gente já sabe, se refere, na Roma Antiga, a nosso nono mês ser o sétimo do calendário daquela civilização, que não contava nem com janeiro nem com fevereiro. Até dezembro é mantida essa forma original de batizar os meses entre os romanos.
Algumas expressões foram completamente obliteradas na lenta transição ao português. Septempedalis não tem qualquer lugar num conjunto de países que adotou o sistema métrico, por exemplo!
Indo para o lado do cômico, já vi duplex(es?), triplex(ex), até quadriplexes, mas nunca chegaram a meu conhecimento “apartamentos” de cinco, seis ou até sete andares (já em si mesmo prédios de todo direito!). Um septe(m)plex, diferente de um septuagenário, seria dificílimo de encontrar no Brasil! Se bem que o mais provável seria chamar tal morada monstruosa de um multimilionário de heptaplex! A determinado ponto paramos de ser influenciados pelos latinos e tomamos de empréstimo denominações gregas (pentágono, hexágono…), como, aliás, os próprios latinos soíam fazer! Obs.: ao que consta, octa- é de influência latina, quebrando a seqüência, mas enea- e deca- regressam à tutela grega! Desenvolvimentos tortuosos…
Sempre me perguntei por que setentrional se chamava setentrional e meridional, meridional. Ora, meridional guarda relação com o meridiano, mas o meridiano seria a linha que separa os hemisférios. Então por que essa dissimetria bizarra? Seria por que nos trópicos bate mais sol, e meridiano é relativo ao meio-dia, quando bate mais sol em nossas cabeças? Bem, pouco importa, pois o objeto aqui é o setentrional: creio mesmo que descobri na astronomia-astrologia (então indistinguíveis) a causa de tamanhas superstições relativas ao número 7 e, de sobra, ao número 3, pois há uma palavra que reúne ambas as numerações e um pouco complicada de explicar, logo abaixo de septentrionalis no dicionário latim, embora este vocábulo já contivesse o “mistério”. 7-3-… Não é à toa, forçação de barra ou coincidência. Talvez uma coincidência dos astros, isso sim: é que do hemisfério norte podem-se ver 7 estrelas em conjunto. Trata-se da constelação da Ursa, para quem gosta de um horóscopo… O 3 associado e embutido no termo tem a ver com observações feitas por múltiplos autores latinos: sempre que se admira o conjunto de 7 estrelas, 3 parecem estar interconectadas no quadro menor, e pode-se mesmo permutar entre o trio de estrelas para obter a mesma impressão! Neste caso, uma só imagem vale mais do que todas estas entradas de dicionário, para me tornar mais compreensível. Veja quantos triângulos se pode traçar mentalmente olhando a disposição da Ursa:
Ao passo que um quadrilátero (à dir.) sempre implica a formação de 2 triângulos quaisquer que, somados, formam a primeira figura, na parte de cima ou à esq. visualizamos claramente outro triângulo, isolado. E, se chamássemos cada estrela, da esquerda para a direita, A, B, C, D, E, F e G, temos que ABD ou ACD, ou ADE, ou BDE, ou tantas outras combinações, como AFG ou AEG também formariam triângulos, dos mais variados ângulos internos. Antigamente havia mais tempo para apreciar o firmamento; nós, leitores de livros por excelência, temos de descobrir essas coisas, em nossas cidades poluídas (e principalmente nós, habitantes do hemisfério sul ou meridional), estudando sobre as observações dos contempladores e escritores daquele tempo remoto!
Vai saber se não tem a ver com isso o jogo do dominó parar nas pedras de número 6?! Nada cravo, só infiro bobamente… Essa pesquisa fica para outro dia!
Por fim, na ordem cronológica dos verbetes, percebemos como a “meia-dúzia” dos romanos, i.e., uma unidade de medida que lhes importava no dia a dia tanto quanto nossa principal maneira de comprar ovos no mercado ou enumerar “meio time” de futebol que joga mal (apesar de um time de futebol ser composto de 11, não 12!), era uma fração que nossos matemáticos chamariam de quantidade irracional ou dízima periódica simples, porque seu inusitado numeral é o 7, e o denominador, 12. Sete doze avos, em vez de, no fundo, o muito mais descomplicado ½. Apesar dos romanos também adotarem o sistema decimal na matemática, temos ainda em comum com eles o fato de que o dia e a noite (o relógio, o tempo, em suma) giram em torno de ciclos duodecimais, daí a importância de frações do número 12 para todos nós (12 é duodecim em latim) – tanto que transformamos o ano numa divisão por 12, o que nem estes antigos haviam pensado ainda em efetuar!
Sobreviver a mais um ano, para nós, é repetir os Doze Trabalhos de Hércules!
LATINĬTAS: Uma introdução à língua latina através dos textos: VOLUME ÚNICO: Fábulas mitológicas e esópicas, epigramas, epístolas, elegias, poesia épica, odes, 2ª ed. revista – José Amarante, Salvador, EDUFBA, 2018.
Livro vencedor do PRÊMIO CAPES DE TESE LETRAS E LINGUÍSTICA 2014.
Material didático de uso público. Eu selecionei apenas trechos que me auxiliaram a desenvolver meu LATIM (neste momento me considero de nível intermediário). Recomendo aos interessados em aulas inaugurais acessar o site da iniciativa do Prof. Amarante, discriminado mais abaixo.
PREFÁCIO – VOL. 1 – 1ª ed. (Milton Marques Júnior)
“AINDA SE ENSINA LATIM? Eis aí uma pergunta frequente quando alguém sabe que ensino latim. Depois de séculos mostrando sua pujança, o latim é ainda visto com admiração, sendo recorrentes as perguntas mais descabidas com relação a essa língua, cuja importância, muitas vezes, por enfadonho, evitamos explicar. O assunto aqui se impõe – latim, não necessariamente a explicação de sua importância –, tendo em vista a minha participação em uma banca sobre a língua latina.”
“Sabemos que nem sempre há uma relação exata e estreita entre ser professor e preocupar-se com a aprendizagem. Amarante demonstra ser esse professor. Esta preocupação revela-se através do método de latim que ele apresenta como um dos produtos de sua tese de doutoramento.
A palavra método me é muito cara por expressar que algo se faz através de um caminho, evidência que nos indica a sua etimologia, proveniente do grego meta, através, entre, conforme, e odos, caminho.”
“O desafio do professor é duplo [triplo!]: percorrer um caminho, em seguida ensinar como se percorrer e, por último, mas não por fim, ir além.”
“Na vida, em geral, e na do professor, em particular, o que existe é sempre infectum. É sempre aprendizagem.”
“Trabalho alentado, digno realmente de um doutorado, tanto que foi aprovado com distinção, mas se alguém tinha alguma dúvida quanto a sua importância, elas foram dirimidas, desde o momento em que ganhou o prêmio CAPES de teses 2014.”
“O primeiro volume [da tese] faz a revisitação da história do latim no Brasil, passando pelos métodos empregados, chegando à elaboração de um método próprio; os dois outros volumes são o próprio método em si, a partir de textos, com a gramática fluindo do contato direto com a língua. Dentre os dois volumes que compõem o método, o primeiro aborda fábulas mitológicas e esópicas, epigramas e epístolas; o segundo, elegias, poesia épica e odes.
Como se pode ver, o professor Amarante tomou o cuidado de abarcar o maior número possível de gêneros do latim clássico, incluindo outros latins, não só o costumeiro dos cursos de graduação, fazendo um escalonamento, a partir de textos considerados mais fáceis e, sobretudo, mais palatáveis, até chegar aos mais difíceis, no volume dois, como a atípica épica das Metamorfoses ovidianas e as odes horacianas. O resultado é que, tendo caminhado de acordo com o método, o estudante não terá grandes problemas com Horácio, Virgílio ou Ovídio, tendo em vista que, ao longo do processo, ele foi internalizando a estrutura essencial da língua latina, o que é importante ressaltar. Não se trata de repetir a velha cantilena das declinações ou de verbos decorados, mas de um método cuja base se erige na estrutura do vocábulo e na sua internalização, sem o sacrifício inútil de tentar memorizar listas enormes de casos e flexões verbais. A preocupação sempre deve ser outra. A preocupação com a estilística, pois cada autor tem o seu estilo próprio e, embora na sua estrutura o latim seja o mesmo, cada autor impõe a sua marca pessoal, com determinados usos, que lhes são próprios.”
“Conhecendo perfeitamente bem a dificuldade de se aprender uma língua com uma infinidade de documentos escritos, mas sem um registro falado que acompanhe a quantidade e a qualidade, sobretudo, dos documentos escritos, o professor Amarante começa o seu estudo com Higino, esse maravilhoso bibliotecário de Augusto que escreveu o Liber Fabularume De Astronomia.[único livro completo de Higino que temos – ver mais adiante] Desse modo, o estudante é seduzido pelos textos menos dados a torneios linguísticos e com um assunto sempre envolvente. Após esse início, que reputamos essencial e inteligente, Amarante faz suas incursões no mundo das fábulas de Fedro, terreno não menos atraente para os iniciantes na língua.
Com uma boa quantidade de exercícios e de vocabulário, cuja apresentação vai diminuindo à medida que se avança no estudo da língua, um outro mérito de seu método é o fato de que alguém que resolva estudar sozinho conseguirá ter êxito, caso se aplique.”
“Com uma tese que deságua num método de latim, o professor Amarante reabre a discussão do ensino de Latim, reabre a reflexão sobre essa língua e evidentemente sobre a sua importância para nós. Muitos há que são professores de latim e seus cultores, poucos há que se interessam verdadeiramente pela discussão de como e por que ela deve ser ensinada. (sic)”
PREFÁCIO – VOL. 2 – 1ª ed. (Patrícia Prata)
“Parece, num primeiro momento, inusitado o lançamento de um método de ensino de latim em pleno século XXI e em terras brasileiras: poderíamos nos indagar se ainda se estuda essa língua em nosso país e por que ainda se estuda, já que ela não aparece como disciplina do currículo do ensino fundamental e médio e, nas Universidades, só consta do currículo de alguns cursos, em especial o de Letras. Contudo, observamos hoje no Brasil um avivamento do interesse pelo estudo do latim (diga-se de passagem, das línguas clássicas em geral), e o mais curioso é o que o tem motivado: a possibilidade de ter acesso aos textos latinos no original e, por meio deles, à cultura literária romana que tanto influenciou a nossa ocidental e, em muitos casos, de poder desenvolver pesquisas na área. A motivação não se dá mais apenas, como se poderia pensar, porque o conhecimento do latim auxiliaria o aprendizado da língua portuguesa (o que poderia assegurar um uso mais ‘correto’ de nossa língua)¹ e de sua história, já que o português proveio do latim.”
¹ Motivação mesquinha típica de um Pasquale.
“procedeu-se a um levantamento dos textos latinos que circulavam em terras brasileiras, em especial nos primeiros séculos após o descobrimento, tornando-nos possível conhecer o rol das obras e autores latinos costumeiramente lidos e estudados no Brasil e entender o porquê de sua escolha”
“o conhecimento gramatical está a serviço do ensino do texto, de sua leitura e tradução, e, consequentemente, também da literatura.”
“Interessante que, mesmo recorrendo a autores canônicos, os textos escolhidos, ao contrário, muitas vezes não são considerados canônicos no que diz respeito à representatividade do gênero em livros didáticos, em especial no Brasil. Como é o caso da escolha de passagens do livro Metamorfoses do autor Ovídio como representante do gênero épico, e não, p. ex., a Eneida de Virgílio – essa escolha demonstra coragem de ousar frente a uma tradição já consolidada de textos utilizados em métodos produzidos no Brasil, e possibilita que outros textos sejam lidos e estudados, ampliando, assim, o repertório de autores e obras da Antiguidade romana a que temos acesso e pesquisamos. O gênero elegíaco também é representado por Ovídio, fato também não muito comum, (sic) esperaríamos encontrar elegias de Propércio, ou mesmo de Tibulo. Também chama a atenção a escolha das obras ovidianas, os Amorese os Tristĭa, esta última não muito conhecida e divulgada no Brasil.”
“Não podemos deixar de retomar e destacar a importância da feliz escolha metodológica de se trabalhar com textos originais. Esse procedimento faz com que o aluno entre em contato o mais cedo possível com textos não adaptados dos autores latinos, capacitando-o a ler, interpretar e traduzir os textos com maior rigor, e, consequentemente, tornando-o mais habilitado a realizar pesquisas na área.”
“O autor teve a possibilidade de aplicar sua proposta metodológica a um privilegiado grupo de professores da UFBA, bem como a algumas turmas regulares de alunos dessa mesma Universidade. Simultaneamente a sua aplicação, o autor procedia a alterações no material.”
INTRODUÇÃO: Concebendo uma abordagem para o ensino e a aprendizagem do Latim
“Mantivemos exercícios que, à primeira vista, teriam objetivos que não se direcionam à aquisição da competência leitora. Embora as atividades de falar latim ou de escrever em latim possam parecer úteis apenas para um período em que se utilizava a língua em contexto pragmático, essas atividades se mostram oportunas também para o desenvolvimento da leitura. Exercícios dessa natureza, contudo, se em quantidade excessiva, exigem uma quantidade razoável de horas-aula, um luxo de que as diretrizes curriculares atuais nos privam, razão pela qual aparecem em menor número. Os principais exercícios propostos, então, são exercícios de leitura, interpretação e versão para o português.”
“Na primeira unidade textual, ainda que os alunos não tenham conhecimento de elementos gramaticais do latim, a eles é indicado um texto para leitura, antes mesmo de qualquer discussão de noções gramaticais. O vocabulário tem, então e inicialmente, a função de, além de atribuir sentidos, explicitar aspectos gramaticais que permitam a leitura. Nas demais lições, cada texto traz elementos gramaticais já conhecidos pelos alunos e novos elementos que se converterão em objeto de estudo na própria unidade ou nas unidades subsequentes. Assim, ao iniciar o trabalho com um texto novo de uma unidade, o aluno deve ter a noção do funcionamento da proposta, pois cada unidade traz um conjunto de aspectos gramaticais já conhecidos, vistos nas unidades anteriores, e introduz novos conteúdos, todos devidamente didatizados no vocabulário, de acordo com as características especiais do vocabulário de que tratamos.”
“É importante que os alunos percebam que os textos antigos vêm de uma tradição de edições diversas, umas mais outras menos confiáveis.”
“Não se conserva nenhum texto antigo autógrafo; subsistem muito poucos textos tardo-antigos; de muitos autores, alguns assaz importantes, não subsistem manuscritos anteriores ao século XIV, ou até o século XV. Para alguns textos, por vezes importantes, só se conservou um manuscrito, ao passo que, para outros, subsistem centenas deles. Muitos textos de extrema importância estão totalmente perdidos.”
Citroni et al. 2006
“os manuscritos que chegaram até nós derivam-se dos originais através de um número desconhecido de cópias intermediárias, e, consequentemente, são de integridade questionável.”
Maas 1958
“Em materiais didáticos de latim, é comum que os textos apresentados (quando é o caso) não venham com a indicação da fonte utilizada que restabeleceu o texto. O estudante precisa entender que aquele texto que irá ler foi estabelecido a partir de manuscritos diversos, num trabalho de crítica textual que busca ‘localizar os erros dos copistas, as interpolações posteriores, o estabelecimento das cópias disponíveis, a crítica da proveniência, fixação da data, identificação da origem, busca das fontes’ (FUNARI, 2003, p. 27).”
“A seção ‘Salvar como’ apresenta uma lista de palavras, por classe gramatical, que devem ser memorizadas, arquivadas, guardadas. As palavras registradas na seção não aparecem na lista do vocabulário da unidade. Em geral, são palavras com mais de um significado ou com especificidades de uso. Nas unidades subsequentes, certamente elas aparecerão registradas com novos significados. Aqui, o aluno ‘salva a palavra como’, ou seja, guarda o significado adequado ao contexto do texto lido.”
“O LATIM E O PORTUGUÊS§ Atendendo a demandas de muitos estudantes pela discussão de elementos latinos interessantes para o entendimento de determinados aspectos do português, apresentam-se, nesta seção, elementos comparativos, de diferentes ordens, entre o latim e o português.”
“Registro, nesta segunda edição, os meus agradecimentos aos professores de todo o Brasil que nos enviaram suas considerações e propostas de aprimoramento do material. Certamente, esta versão que agora vem publicada revê alguns problemas da primeira edição. Contudo, dada a complexidade de um material didático, não o consideraremos nunca acabado”
UNIDADE A. ASPECTOS HISTÓRICOS DA LÍNGUA E DA LITERATURA LATINAS
“Estabelecemos as distinções entre latim clássico e latim vulgar e definimos a modalidade da língua com que iremos trabalhar. Também iremos conhecer as diferentes fases históricas do latim e sobre a formação dos gêneros na Antiguidade.”
“embora declarado morto, o latim recusou-se a ser enterrado” Peter Burke, 1993
“Da mesma forma, podemos chegar a uma outra unidade linguística anterior ao latim, se analisarmos as semelhanças existentes entre o latim e os dois antigos idiomas falados na Península Itálica, o osco e o umbro. Trata-se do que se convencionou chamar de ‘itálico’.”
“o latim (…) não se prende diretamente ao primitivo indo-europeu, mas dele está separado por outras unidades linguísticas subsequentes, como o itálico e o ítalo-céltico.”
“Para Faria (1970, p. 14-17), em relação à unidade ítalo-céltica, como também não há documentação, a probabilidade de sua existência se deve às comparações e à observação de particularidades comuns à gramática das línguas itálicas (como o latim, o osco e o umbro) e à gramática das línguas célticas (como o bretão, irlandês e o gaulês). Da unidade itálica, ao que se pode concluir, há, apesar de curtos, numerosos textos epigráficos dos seus dialetos: o latim, que nos legou uma vasta literatura; o osco, conhecido através de inscrições, sendo a mais extensa a chamada Tabula Bantina (encontrada em Bântia, na Apúlia); e o umbro, através de moedas e curtas inscrições supérstites, [sobreviventes] além de uma longa epígrafe: as tábuas eguvinas, nas quais há a gravação do ‘ritual dos chamados frates Atiedii, colégio sacerdotal de Igúvio, hoje Gubbio’ (idem, ibidem).”
Descrição da “Fig. 1 – Árvore genealógica das línguas indo-europeias”: O hipotético indo-europeu deu origem a três grandes famílias que conhecemos também por inferência (o indo-iraniano, o balto-eslávico e aquele que daqui se trata, o ítalo-céltico). Além disso, deu origem às famílias germânica e helênica. Do helênico, só conhecemos uma língua: o grego. Do germânico, três: alemão, holandês e inglês. Do indo-iraniano, derivam o persa e o sânscrito. Do balto-eslávico, o polonês e o russo. Do ÍTALO-CÉLTICO, diretamente duas famílias: o ITÁLICO e o CÉLTICO. O Céltico deu origem ao bretão, ao gaulês e ao irlandês. O ITÁLICO teria originado mais uma família, a latina; além dos idiomas osco e umbro comentados. Do latim, nosso objeto de estudo, nós conhecemos o latim clássico, aquele que ‘morreu’ na Antiguidade; e o latim vulgar, que deu origem a todos os idiomas românicos. Para o romeno, o italiano, o francês e o espanhol a derivação é direta. Para o Português, curiosamente, ainda há mais uma mediação: nossa língua, bem como a galega, vem de uma família ou dialeto prévio que reunia a medula espinhal destas duas: o GALEGO—PORTUGUÊS. Defendo que o termo “idade média” só existe por deficiência de conhecimentos sobre a cultura da Europa após a queda do Império do Ocidente, ignorância essa que se reflete na dificuldade de apurar as mudanças regionais das falas românicas que foram brotando até nascerem os idiomas contemporâneos a nós.
“Mas o latim que dará origem às línguas românicas não será o latim clássico, uma língua literária, trabalhada artisticamente pelos grandes escritores que nos legaram uma literatura que até hoje influencia o mundo ocidental. O latim que deu origem às línguas românicas é o chamado latim vulgar, ou o latim falado pelos diversos estratos sociais, em diferentes situações, tempos, lugares, e que não deve ser pensado como uma língua uniforme.” Somos o substrato do substrato do substrato do substrato!
“Certamente o latim levado à península ibérica, por ocasião da segunda guerra púnica (contra os cartagineses, de 219 a 201 a.C), não será o mesmo latim das conquistas tardias, como a da Dácia, na atual Romênia, em 106 d.C.”
“A designação de latim vulgar (DIEZ, 1836-1844), no singular, é apenas uma convenção para se referir às diferentes formas de latim, opondo-se ao latim literário (e – pensando com Maurer Jr. (O problema do latim vulgar, 1962), talvez pudéssemos afirmar – aos usos extremamente monitorados da língua em situações mais formais).
As fontes de que dispomos para o conhecimento do latim vulgar são as comédias de Plauto (séc. III–II a.C.), os poemas de circunstância de Catulo (séc. I a.C.), algumas cartas de Cícero dirigidas a familiares (séc. I a.C.), inscrições cristãs, feitas sem preocupações literárias, ou outros tipos de inscrições, bilhetes jocosos, o Appendix Probi, uma lista de correções explicitando as formas que poderiam ser consideradas corretas: socrus non socra, speculum non speclum, auris non oricla, por exemplo (CARDOSO, 1997).”
“LATIM PRÉ-HISTÓRICO: Falado entre os séculos XI e VII ou VI a.C. A fase é anterior ao aparecimento de documentos escritos. Em meados do século VIII a.C., Roma é fundada.
LATIM PROTO-HISTÓRICO: Aparece nos primeiros documentos escritos. Inscrições: fibula prenestina (séc. VII ou VI a.C.), Vaso de Duenos (séc. IV a.C.)
LATIM ARCAICO: Utilizado entre o séc. III a.C. e o início do séc. I a.C., está presente em antigos textos literários (Névio, Plauto, Ênio, Catão), em epitáfios e textos legais. Inicialmente pobre, de vocabulário reduzido, enriquece-se com o desenvolvimento da literatura e com a influência da cultura helênica. É do início do período uma compilação do código do Direito Romano por uma comissão composta por dez cidadãos (decemviri). Publicada em 451-450 a.C., a lei das Doze Tábuas,¹ de que se conservam fragmentos, era utilizada nas escolas romanas até o período de Cícero e sua influência se estende sobre o pensamento e o estilo literário dos romanos (HARVEY, 1987).
LATIM CLÁSSICO: Séc. I a.C. a I d.C. (…)
LATIM PÓS-CLÁSSICO: Sécs. I a V d.C. A língua começa a perder a pureza e a perfeição do período clássico. Diminui a distância entre a língua literária e a falada. Já se prenuncia a dialetação que dará origem às línguas românicas.
USOS DO LATIM POSTERIORES (…): Os tabeliães utilizaram o latim até o século XII em documentos oficiais; a Igreja toma o latim como sua língua oficial e, até 1961, o uso do idioma era obrigatório na redação dos documentos eclesiásticos e na realização de cultos e cerimônias religiosas;(*) a ciência, até o início do séc. XX, vê no latim uma linguagem universal e na língua foram escritos tratados filosóficos e científicos.(**)
(*) No Vaticano, até nossos dias, os documentos oficiais são emitidos principalmente em latim. Ao que se pode depreender dos documentos disponíveis no site do Vaticano, a língua oficial ainda é o latim, embora só seja utilizada nos documentos oficiais e nos rituais cerimoniais. Até mesmo os caixas eletrônicos do Vaticano oferecem o latim como opção de língua. Em 2003, o Vaticano public[ou] um dicionário com traduções de 13 mil expressões inexistentes no tempo dos romanos da Antiguidade. O seu próprio site pode ser lido completamente em latim (http://www.vatican.va/latin/latin_index.html), além de existir a possibilidade de leitura nas línguas modernas. [https://www.vatican.va/roman_curia/institutions_connected/latinitas/documents/rc_latinitas_20040601_lexicon_it.html]
(**) Como em boa parte da Europa a língua ainda é estudada nas escolas, há traduções de textos modernos para o latim, como os volumes da série Harry Potter: Harrius Potter et Philosophi Lapis (‘Harry Potter e a pedra filosofal’), Harrius Potter et camera secretorum (‘Harry Potter e a câmara secreta’); ou Regulus (O pequeno príncipe), ou, entre tantas outras, Arbor alma (do original em inglês The giving tree, de Shel Silverstein, traduzido para o português, por Fernando Sabino, com o título A árvore generosa). Totalmente na língua são, também, sites com jornais que noticiam em latim (veja, por exemplo, http://ephemeris.alcuinus.net/ ou http://www.scorpiomartianus.com/, com arquivos em áudio de notícias na língua latina) ou sites que proporcionam espaços de interação entre seus membros, interessados em treinar o uso da língua. Veja-se, por exemplo, http://schola.ning.com/. Até mesmo existe uma Wikipedia em latim, a Vicipaedia: http://la.wikipedia.org/wiki/Pagina_prima. No Facebook, a língua latina é uma das opções de língua para a configuração da página.”
“Em geral há divergências na definição do período clássico e do período pós-clássico. Quando nos referimos ao fato de que estudaremos o latim ‘clássico’, estamos adotando o mesmo conceito de ‘clássico’ que se registra na abrangência sugerida por Aulo Gélio (Noites Áticas, XIX, 15)”
“A poesia (carmen para os latinos, com o sentido de composição em verso; o mesmo sentido tinha em latim a palavra poema, tomada do grego) é dividida de acordo com a imitação que se propõe de homens melhores, de homens piores, ou de homens nem melhores nem piores. Em sua divisão, estabelecem-se 3 grandes gêneros: o épico, o lírico e o dramático. No gênero épico, imitam-se as ações dos homens considerados melhores. É o gênero dos grandes heróis e das grandes ações. O gênero dramático, por sua vez, pode apresentar bons caracteres (a tragédia) ou maus caracteres (a comédia). O gênero lírico comporta a imitação de homens iguais a nós, nem melhores, nem piores.”
“Entre os romanos, temos a Arte poética de Horácio (conhecida como Epistula ad Pisones), um tratado sobre a poesia. Dirigida aos irmãos Pisões, apresenta alguns preceitos que refletem a Poética aristotélica: ‘Eu o aconselharei a, como imitador ensinado, observar o modelo da vida e dos caracteres e daí colher uma linguagem viva.’”
“Plauto, por exemplo, seria cronologicamente do período arcaico, mas pensando a partir do critério permanência é um autor clássico; basta observar a influência do teatro plautino na posteridade.”
“Os autores da literatura romana irão se dedicar a boa parte dos gêneros desenvolvidos pelos gregos (alguns surgidos antes mesmo dos gregos; a própria fábula, por exemplo, tem origem anterior, provavelmente oriental). Dos clássicos gêneros descritos por Aristóteles, escrevem-se e desenvolvem-se subgêneros. Em alguns casos, o espírito romano trará vieses novos a gêneros já conhecidos. Como criação romana, Quintiliano(séc. I d.C.) cita a sátira: ‘Satura quidem tota nostra est’.”
“A partir de 81 a.C., quando ocorre o primeiro pronunciamento de Cícero como orador, começa a chamada fase clássica, com duas épocas distintas: a chamada época de Cícero ou de César, com grandes prosadores num momento de grandes lutas políticas, nos momentos finais do sistema republicano; a outra época é a chamada época de Augusto, com grande desenvolvimento da poesia latina através do surgimento de seus mais expressivos poetas, em momento de apoio oficial à arte poética (CARDOSO, 2003).
Após a morte de Augusto, a literatura começa a dar sinais de perda de sua força. É a época dos imperadores júlio-claudianos (Tibério, Calígula, Cláudio e Nero), que conta ainda com autores que se destacam em sua produção literária. Mas os maiores sinais da pouca vitalidade da literatura ocorrerão no chamado período pos-clássico, a partir da morte de Nero (68 d.C.). Essa época conta com dois períodos: o neo-clássico (de 68 até final do século II) e a época cristã (do final do século II até o século V).”
“Segundo Cardoso, a obra Metamorfoses de Apuleio(conhecida como O asno de ouro) é ‘mais um curioso exemplo de narrativa novelística’, também de difícil classificação.”
UNIDADE B. ALFABETO E PRONÚNCIA DO LATIM
“Segundo McMurtrie,(*) é consenso entre os especialistas a origem grega do alfabeto adotado pelos povos antigos que habitaram a península da Itália.
(*) McMURTRIE, Douglas. O livro: impressão e fabrico. Trad. Maria Luísa Saavedra Machado. 2 ed. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1982.”
“O primitivo alfabeto latino não era formado pelas 23 letras utilizadas no período clássico. Não possuía o G, nem o Y e o Z. Nos primeiros documentos escritos, empregava-se o C tanto para representar a oclusiva velar surda /k/ quanto a sua homorgânica sonora /g/. O surgimento do G, para diferenciar as duas oclusivas velares, se dá em função de, posteriormente, acrescentar-se uma pequena barra horizontal à haste inferior do C.” “Como o Z era pouco utilizado, passou a ocupar a última posição no alfabeto.”
“O uso da letra K, primitivamente, restringia-se a sua posição antes de A e de consoantes. Praticamente em desuso depois, se manteve utilizada em poucas situações: geralmente em palavras estrangeiras e, especialmente, em abreviaturas, como se sugere para os nomes Caeso abreviado em K. [É nome próprio! Antes eu achava que era queijo!], ou para a palavra calendae ou kalendae (‘calendas’, o 1º dia do mês entre os romanos) abreviada em kal., ou ainda para termos como castra (‘acampamento’), abreviado em KK. Quanto ao Q, manteve-se em latim em antigas inscrições, no contexto antes das vogais o e u, mas o C viria a assumir generalizadamente todas as posições, no lugar do K e do Q, sendo que este último se manteve no grupo qu [que inclusive é a pronúncia de Q].”
“Como vimos, o Y e o Z não eram propriamente letras latinas. Usadas para a transcrição de palavras gregas em latim, dada a influência do helenismo em Roma (…)”
“As minúsculas surgirão mais tarde com alterações operadas paulatinamente nas maiúsculas, como resultado da tendência, bem natural, dos escribas para escreverem mais fácil e rapidamente do que se poderia fazer com as formas convencionais das letras monumentais.” MAIÚSCULAS não são o Partido dos Trabalhadores mas DÃO TRABALHO!
“É no Renascimento que ocorrerá a incorporação dessas letras [J e V] ao alfabeto latino por Pierre de la Ramée (Ramus), daí serem conhecidas por letras ramistas.”
“Para se estabelecer as características da pronúncia reconstituída do latim, utilizam-se os seguintes tipos de fontes: as informações diretas dos gramáticos latinos e escritores romanos, como Cícero, Quintiliano, Aulo Gélio, e muitos outros; a grafia das inscrições e dos manuscritos latinos; a métrica latina, principalmente para o estudo da quantidade; a transcrição de palavras latinas em línguas estrangeiras e vice-versa; a pronúncia do latim vulgar e das línguas românicas; o estudo da fonética histórica do latim, antigas etimologias, etc.; a gramática comparada das línguas indo-européias.”
“Como ao estudante iniciante é difícil perceber quais vogais são longas ou quais são breves, é costume o uso dos sinais mácron (como em vidēre, indicando que se trata de uma vogal longa) e braquia (como em legĕre, indicando que se trata de uma vogal breve).”
“incĭdo, eu caio
incīdo, eu golpeio”
“cără, cara, face, rosto
cāră, nome de uma planta”
“mălŭm, perigo, risco, desventura
mālŭm, maçã” A mais do que provável razão para se atribuir à maçã a fama de ‘fruto do pecado original’, já que isso não é dito ora alguma no Gênese.
“ăvě é um adjunto circunstancial: com a ave, pela ave
ăvē é uma forma verbal do imperativo de avere (estar com boa saúde) e funciona como fórmula de saudação: Bom dia! Passe bem! Até mais!”
“Conforme veremos, uma vogal pode ser originariamente breve, mas a sílaba onde se encontra pode ser longa.” A verdade é que a visão geral do latim é desencorajante para qualquer um!
“Considerando a intensidade, o acento em latim só ocorre até a antepenúltima sílaba, assim como no português. Entretanto, em latim o acento não ocorre na última, como o faz o português. Assim sendo, serão paroxítonos todos os dissílabos.”
“Segundo a regra da penúltima sílaba, se a vogal da penúltima sílaba for longa, o acento recairá sobre essa sílaba (vidēre, Neptūnus); se ela for breve, o acento recuará para a antepenúltima (prodĭgus, legěre).
Como não há nenhum sinal para marcar o acento em latim, costumamos marcar a penúltima sílaba quando for breve. Não havendo nenhuma marcação na vogal de penúltima devemos considerá-la longa. É com o tempo e com o contato sistemático com a língua que teremos segurança na definição do acento em uma palavra.”
“É sempre breve a sílaba constituída por uma vogal breve, ou por uma vogal breve precedida de uma ou mais consoantes. Ex.: a-la-crĭ-tas (alegria, entusiasmo), re-plĭ-co. Se a sílaba, contudo, terminar por consoante e for seguida imediatamente de outra consoante na sílaba seguinte, embora a vogal seja breve, a sílaba será longa. Ex.:
agěr (campo) e a-gel-lus (campo pequeno)
Nesse caso, embora o ě seja breve em ager e em agellus, a penúltima sílaba em agellus será longa. [mas não no a de ager, isto é, a enquanto sílaba?]”
“Há raras exceções de palavras oxítonas, em função de alterações fonéticas, como, por exemplo, palavras que perderam um fonema em seu final: illuc(e) (ali), istac(e) (por aí).”
AUXÍLIO NAS PRONÚNCIAS
VOGAIS
ă: [a] como em “pato”
ē: como em musée (fr.)
ĕ: como em “teto”
ī: como em sheep (ing.)
ĭ: [i] como em “mico”
ō: como em niveau (fr.)
ŏ: como em “toca”
ū: como em goose (ing.)
ŭ: como em “mula”
SEMIVOGAIS
i: [y]
ocorre em: iacěo, jacěo
pronunciar como: praia
u: [w]
ocorre em: pauĭdus, pavĭdus
pronunciar como: quatro
ou como v mesmo, pois ninguém merece – somos ramistas!
CONSOANTES
“pronunciam-se da mesma forma que no português as consoantes b, d, f, k, p, q, t”
Se for verdade, o sujeitinho cuja vídeo-aula (uídeo-aŭla!) vi no youtube falou merda (em sua aula introdutória, citou BÉ, DÉ, ÉF, QU, TÉ! Se é que ainda não mandou um PÉ (não me recordo) – nota zero! Porém, não sei se confio mesmo nesse LATINĬTAS, pois não avisam das dentais como em deep e titillation, e não como em dia e tio em grande parte das regiões centro-oeste e sudeste do país, como aqui em Brasília entre os não-nordestinos e nem nortistas.
“As consoantes geminadas (mm, pp, ll, etc.) devem ser pronunciadas alongadas. Veja que o fato de uma consoante ser simples ou geminada é um traço distintivo no latim:
[se não tiver tato, digo, palato, acaba se complicando!]
ānnŭs (ano) e ānŭs (ânus)”
Os gringos estão ainda mais fŭdīdŭs, já que falam ênnãs!
“ATENÇÃO!
No caso das palavras ānŭs (ânus) e ănŭs (mulher velha) a distinção é feita pela duração da vogal /a/.”ã-nus; ános.
“Em cŏmă (cabeleira) e cōmmă (vírgula), além da distinção pela consoante geminada /mm/, temos a duração da vogal /o/.”
Estou em ,
, of souls
n: [n] como em cone“Em Quintus, deve ser pronunciada com seu valor consonantal, não apenas nazalizando(sic – erro horroroso [rōrōrōso]!) a vogal anterior.”
você está ss? pois eu já estou gritando!
ch: só o c, como em “coca”.
deus eks má quina
assim como no ph = p.
metápora
pilozópia
pilipe
FÁBULAS MITOLÓGICAS
“A fábula, ainda tão presente no mundo de hoje, principalmente em edições escolares, tem suas origens remotas na Mesopotâmia, e sua transmissão se dá por testemunhos em textos de uma civilização geralmente considerada a mais antiga da humanidade: a civilização suméria. Como forma de sabedoria popular, portanto distante na forma e no conteúdo das poesias mais elevadas gregas, terá a atribuição de sua invenção justamente a um escravo estrangeiro, Esopo (séc. VI a. C.). O gênero é, pois, de tradição humilde.”
“É fato que a narrativa mítica se presentifica na literatura grega desde suas origens, seja em micronarrativas, como encontramos nos poemas homéricos; seja como explicação da origem do cosmos grego, como o fez Hesíodo em sua Teogonia; seja como elemento essencial para a elaboração de peças dramáticas, do qual se serviram os 3 grandes tragediógrafos (Ésquilo, Sófocles e Eurípides). Acrescente-se a isso o papel que o mito desempenhou nas artes plásticas gregas através das cenas mitológicas que foram esculpidas nos frontões e métopas dos templos ou nas inúmeras pinturas em cerâmica.
Com o objetivo de instruir estudantes de Humanidades do mundo antigo, além de poetas e tratadistas, surgem as compilações de mitos, sendo a chamada Biblioteca de Apolodoro, a única que chegou praticamente completa até nossos dias.”
“Nesse sentido, veremos, por exemplo, em Higino, alguns aspectos do mito de Hércules que só existem na sua versão, ou ainda ausências de elementos do mito que aparecem em outros mitógrafos.”
UNIDADE UM:
Alcmena (Fabŭlae, XXIX)
HIGINO
“Basicamente, o que nos chegou sobre o suposto autor das Fabŭlae nos foi transmitido por Suetônio(De grammatĭcis et rhetorĭbus, XX, 1)”
“Foi amigo íntimo do poeta Ovídio e de Clódio Licínio, o antigo cônsul e também historiador; este informa que Higino morreu muito pobre e que foi sustentado por sua própria bondade enquanto estava vivo.”
“Para Hoyo e Ruiz (2009), não há consenso sobre a veracidade dos dados apresentados por Suetônio. Afirmam, contudo, como certo, o fato da obra ter sido traduzida para o grego em 207 d.C., um fato peculiar na história da literatura latina, uma vez que se trata de um dos poucos exemplos de tradução ao grego de um texto latino; o inverso seria o mais comum.”
“Se dessas obras temos apenas notícia ou pequenos fragmentos, chegou completa até nós uma obra de caráter mítico-científico: De astronomĭa. Fato ainda em discussão, a atribuição de uma mesma autoria às Fabŭlae e ao tratado De astronomĭa se dá devido ao fato de se observarem certas semelhanças entre as obras.”
* * *
O BOM ANFITRIÃO QUE À CASA TORNA…
obs: Não estou transcrevendo todos os mácrons e braquias!
“Amphitryon maritus erat Alcmenae et suo a domo abĕrat [estava ausente] cum expugnabat Oechalĭam. Iupĭter Amphitryonem simulavit, quia dormire cum Alcmena volebat. Tunc Alcmena Iovem thalămis recepit, quia dolum nesciebat.
Iupĭter, cum in thalamos venit, Alcmenae retulit res gestas quas in Oechalĭa gessit. [realizado] Ea, credens Iovem coniugem esse, cum eo concubuit. Deus tam delectatus cum ea concubuit ut unum diem usurparet, duas noctes congeminaret. Ita Alcmena tam longam noctem admirata est. Ita Alcmenam tam longa nox tetĭgit.[?]
Postea cum verus venit maritus ad domum, minĭme [quase nada] eum curavit [se preocupava] Alcmena, quod iam putabat se coniugem suum vidisse.[ver] Amphitryon in regĭam [palácio] intravit et eam vidit securam. [indiferente] Tunc mirari coepit [começou a estranhar] et queri, [queixou-se] quia uxor eum comĭter [amavelmente] non excepit. [não o recebeu] Marito Alcmena respondit: ‘Iam pridem[antes]venisti et mecum concubuisti et mihi narrasti res gestas in Oechalĭa tuas’.
Alcmena omnes res domi factas dixit. Tunc factum sensit dolum maritus: deus alĭqui fuit pro se. [em seu lugar] Ex qua die cum ea non concubuit. [Nesse dia não consumaram relação] Alcmena, ex Iove compressa, [violentada] pepĕrit [pariu] Herculem.”
(*) “Alcmena, então, ficaria grávida de dois homens: do deus Júpiter, que será o pai de Hércules, e de seu marido, que será o pai de Íficles. Como Hércules será gerado primeiro, ele será chamado, inclusive em Higino, conforme veremos na Unidade II, de primogênito.”
Minha tradução completa:
“Anfitrião, marido de Alcmena, deixou seu lar para lutar em Ecália.¹ Zeus se metamorfoseou em Anfitrião para satisfazer oportunamente seu anseio libidinoso de dormir com Alcmena. Alcmena, enganada pela artimanha do deus, recebeu Zeus de bom grado em sua cama e em seus braços, pensando que procedia apenas à virtuosa união do tálamo conjugal.
¹ [Futura Cálcis. Curiosamente, seria destruída por Hércules quando adulto.]
Zeus tanto gozou dessa união que, não só uma, mas duas noites inteiras tomou no ato de a possuir. Isso ele fez com artifício sobrenatural, para que a longa noite não fosse interrompida, transformando a duração normal em seu dobro. Alcmena bem se admirou da longa duração de suas núpcias de boas-vindas a seu esposo guerreiro.
Quando o verdadeiro Anfitrião enfim vitorioso da guerra regressou, vendo que Alcmena não o recebeu da forma apropriada, dando a sua chegacda somenos importância, questionou a indiferença de sua amada. Alcmena assim respondeu, com naturalidade e certo enfado categórico: ‘Ora, se viestes mais cedo e me enlaçaste, celebrando a vitória em Ecália!… Que esperavas agora? O mesmo entusiasmo?’.
Alcmena disse apenas a verdade que vivera. Constatou-se então a verdade maior, para ela e Anfitrião, até então oculta: um deus com ela jazeu na cama, fazendo-se passar por quem não era. Estuprada pelo Rei do Olimpo, o produto da semente daquela dupla noite capciosa seria parido nove meses mais tarde, sendo esta a estória de como o bebê Hércules nasceu.”
GLOSSÁRIO
concubuit: deitar-se
dixit: narrar (além de narrar, contar, o verbo significa cantar, celebrar, recitar, predizer; chamar, designar, apelidar, nomear, eleger; fixar, estabelecer; ordenar, avisar)
LEMBRETES DO PORTUGUÊS
congeminar: multiplicar
congeminar-se: cismar, matutar
Este é o lugar oportuno para citar as 3 principais recomendações com que me deparei em pesquisas que exorbitam este livro do LATINITAS para dicionários, seja para iniciantes ou usuários avançados, com o idioma de partida seja em português ou inglês:
FARIA. Dicionário Escolar Latino-Português (para usuários novatos e avançados)
GLARE. Oxford Latin Dictionary (melhor opção para quem já domina o inglês)
REZENDE & BIANCHET. Dicionário do latim essencial(para consultas breves)
permutabilidade plena das palavras na frase sem perda de sentido:
factum sensit dolum maritus
maritus factum sensit dolum
factum maritus dolum sensit
dolum sensit factum maritus
maritus sensit factum dolum (melhor para perceber a concordância de sujeito e verbo conector)
“Daqui por diante, ao verificar no vocabulário ou no dicionário uma palavra, observe que ela virá no nominativo e no genitivo singular, separados por vírgula:
ALCMENA , ALCMENAE ou ALCMENA , -AE” (detector da declinação)
“ATENÇÃO: A palavra nox tem genitivo noctis. Assim, o seu genitivo simplificado não será formado apenas com a terminação –is (nox, -is), pois daríamos a impressão que o genitivo é noxis. Os dicionários costumam enunciar a palavra assim: nox, -ctis.”
QUAL A UTILIDADE DE COLOCAR NOMES PRÓPRIOS EM DICIONÁRIOS? NENHUMA, A NÃO SER QUE A LÍNGUA OS DECLINE!“Percebemos que a palavra Amphitryon é nominativo não por sua terminação, mas por sabermos que é uma palavra da 3ª declinação e, ao conferirmos sua entrada em dicionários, como se vê abaixo, nos certificarmos de que Amphitryon é a forma que antecede a vírgula. Veja:
Amphitryon, Amphitrionis”
MNEMÔNICOETIMOLOGIA(?)“Puella est secura.” Curiosamente, as pessoas mais secas no tratamento com as outras são-no às vezes por serem mais seguras. Stultus? Sed utilis!
“Tempos do infectum são aqueles que exprimem ações não concluídas, não acabadas (presente – eu julgo, pretérito imperfeito – eu julgava e futuro imperfeito – eu julgarei). Os tempos do perfectum, por sua vez, são aqueles que exprimem ações concluídas, acabadas (pretérito perfeito – eu julguei, pretérito mais-que-perfeito – eu julgara ou tinha julgado, futuro perfeito – eu terei julgado).”
“Em geral, os dicionários costumam mostrar 5 formas do verbo, conhecidas como tempos primitivos. Por enquanto, vamos nos concentrar em 4 dessas cinco formas.”a terceira posição no dicionário, ou seja, a 2ª terminação à direita da palavra (do verbo) é o infinitivo.
puto, -as, -are, putavi
1. (ego) puto 1ª pessoa do presente do indicativo ou infectum (imperfectivo)
2. 2ª pessoa
3. declinação (1ª) – infinitivo – PUTARE
4. 1ª pessoa do pretérito perfeito (perfectivo)
O 1 e o 4 se fazem necessários pois dão origem a conjugações um tanto diferenciadas. Os verbos do imperfectivo se estruturarão pela partícula –ba–.
humani nihil a me alienum puto
nada humano julgo estranho
“Há verbos que são irregulares e que são reconhecidos pela sua forma de infinitivo, não apresentando as terminações em -are, -ere, –ĕre e -ire. É o caso, por exemplo, de verbos como referre, esse e posse.”
“Chamamos o verbo no latim pelo seu infinitivo (esse – ser, estar) ou pela primeira pessoa do presente do indicativo (sum – sou, estou). Assim, quando dizemos verbo sum, entendemos tratar-se do verbo ser; da mesma forma ocorre quando dizemos verbo esse. No dicionário, esse verbo aparece assim: sum, es, esse, fui.”
ego sum
tu es
ea est
nos sumus
vos estis
illo(*) sunt
eram
eras
erat
eramus
erātis
erant
fui
fuisti
fuit
fuĭmus
fuistis
fuērunt ou fuēre
possum, potes, posse, potŭi
possum
potes
potest
possumus
potestis
possunt
poteram
poteras
poterat
poterāmus
poterātis
poterant
potui
potuisti
potuit
potuimus
potuistis
potuerunt ou potuēre
(*) CURIOSIDADE
O elo perdido entre a preposição latina e o artigo português:
ĭllu > elo > lo > o
“Se observarmos bem algumas palavras de nossa língua em determinados registros, vamos perceber que há ainda certas alternâncias, umas mais outras menos formais, entre pronúncias com b ou v: sobaco/sovaco, vassoura/bassoura, travesseiro/trabesseiro”
UNIDADE DOIS:
Hercŭlis athla duodĕcim ab Eurysthĕo imperata (Fabŭlae, XXX)
HIGINO
“In infantĭa, dracones duos duabus manĭbus necavit, quos dea Iuno misĕrat, unde poetae primigenĭum dixerunt puĕrum.
1. Leonem Nemeae, quem Luna nutriĕrat in antro amphistŏmo, [caverna de duas entradas] atrotum [invencível] necavit. Postea Hercŭles pellem leonis pro tegumento [capa] habŭit.
2. Hydram Lernae – Typhonis filĭam cum capitĭbus novem [nove cabeças] – ad fontem Lernaeum interfecit [matou]. Hydra tantam vim veneni habŭit. Ea afflatu [bafo] potĕrat homĭnes necare et si persona eam dormientem transiĕrat, vestigĭa personae afflabat [bafejava] et maiori cruciatu [maior sofrimento] interibat [matava]. Postquam hydram Hercŭles interfecit et exinteravit [estripou] et eius felle [em veneno] sagittas suas tinxit. Ităque sagittae Hercŭlis letales erant.
3. Aprum [javali] Erymanthi occidit. [matou]
4. Cervum ferocem in Arcadĭa cum cornĭbus aureis [áureo] vivum in conspectum [em presença] Eurysthei regis adduxit.
5. Aves Stymphalĭdes in insŭla Martis, quae emissis pennis [penas] suis sauciabant, sagittis interfecit.
6. Augeae regis stercus bovile uno die purgavit, maiorem partem Iove adiutore [ajudante]; Iupĭter flumen immisit et totum stercus ablŭit. »
GLOSSÁRIO
necavit: matar
propter : perto, por causa
in + subst. => uso do ablativo
Tendo a crer que esse método não levará a nada – veja só o caráter abstrato e distante do aprendiz: “Acusativo antecedido por preposição § Ao estudarmos as funções dos casos, constatamos que o acusativo é o caso do objeto direto. Observe estes dois exemplos do texto em que as palavras no acusativo exercem funções diferentes”…
“O caso ablativo é o caso por excelência do adjunto ou complemento circunstancial, já que, mesmo não regido por preposição, pode assumir essas funções. Mas nem sempre o ablativo sozinho será suficiente para marcar todos os tipos de circunstâncias”
“As palavras da 1ª declinação são, em sua grande maioria, femininas. Algumas, contudo, são masculinas: nomes de profissões comuns a pessoas do sexo masculino: nauta, -ae (marinheiro), poeta, -ae (poeta); nomes de pessoas do sexo masculino, como Galba, -ae (Galba); nomes de rios: matrŏna, -ae (Mátrona, rio da Gália, hoje Marne); e os substantivos formados com o auxílio dos sufixos -cola e -gena: agricŏla, -ae (agricultor), incŏla, -ae (habitante), indigěna, -ae (indígena).”
“Há, assim, no latim, algumas palavras utilizadas somente no plural (chamadas pluralia tantum).”
“Assim como divitiae, são pluralia tantum da 1ª declinação, além de outras, as seguintes palavras: feriae (férias), nuptiae (núpcias), Athenae (Atenas). Veja que, no português, algumas dessas palavras só são, também, utilizadas no plural. Em outras declinações, há também palavras só utilizadas no plural. Elas serão vistas nas lições em que detalharmos cada uma das declinações.”
Palavras especiais em –er da 2ª declinação
Observe a seguinte oração do texto:
Aprum Erymanthi occidit.
(Matou o javali de Erimanto)
A palavra em destaque na oração aparece assim dicionarizada: aper, -pri. Observe que, no exemplo acima, com a palavra no caso acusativo, ocorre a síncope da vogal ‘e’:aprum e não aperum. Veja, agora, duas palavras que têm nominativo em –er e que se comportam de maneira diferente ao serem declinadas.
PUER / APER
(…)
Podemos conferir que, na palavra puer, a vogal e se mantém em todos os casos do singular e do plural. Na palavra aper, por outro lado, ocorre a síncope do e em todos os casos do singular e do plural (exceto no nominativo singular). Em função dessas diferençasna declinação das palavras em –er, os dicionários e vocabulários costumam mostrar no genitivo, além da terminação, uma parte da palavra, indicando que ocorre síncope ali”
“É o caso de lenha, no português, que é uma forma singular (oriunda de um neutro plural latino) e mantém uma ideia de plural: uma porção de gravetos ou pedaços de madeira para ser queimada.”
(cont.)
“7. Taurum, cum quo Pasiphaa concubuit, ex Creta insula Mycenas vivum adduxit.
8. Diomedem, Thracĭae regem, et equos quattuor eius, qui carnem humanam edebant, cum Abdero famulo interfecit; equorum autem nomĭna: Podargus, Lampon, Xanthus, Dinus.
9. Hippolytam Amazonam, Martis et Otrerae reginae filĭam, cui reginae Amazonis baltĕum detraxit; [arrancou o cinturão] tum Antiopam captivam Thesĕo donavit.
10. Geryonem, Chrysaoris filĭum trimembrem, uno telo interfecit. [matou com uma flecha]
11. Draconem immanem [inumano] Typhonis filĭum, qui mala aurĕa [maçã de ouro] Hesperĭdum servare solĭtus erat, [soía guardar] ad montem Atlantem interfecit, et Eurystheo regi mala attŭlit.
12. Canem Cerbĕrum, Typhonis filĭum, ab infĕris regi in conspectum adduxit.”
(*) “As Hespérides eram as filhas de Héspero que habitavam perto do monte Átlas, num jardim com árvores de pomos de ouro e guardado por um dragão”
UNIDADE TRÊS:
Nessus (Fabŭlae, XXXIV);
Iŏle (Fabŭlae, XXXV)
HIGINO
“Quando Hércules foi enviado pelo rei Euristeu até o cão de três cabeças, e Lico, filho de Netuno, acreditou que aquele tinha morrido, quis matar sua esposa Mégara, filha de Creonte, e seus filhos Terímaco e Ofites, e apoderar-se do trono. Hércules aparece e mata Lico, mas, mais tarde, vítima de um ataque de loucura provocado por Juno, matou Mégara e seus próprios filhos. Quando recobrou o seu juízo, solicitou de Apolo que lhe desse uma resposta sobre como devia expiar o crime. Como Apolo não quis oferecer-lhe resposta alguma, Hércules, irado, arrebatou de seu templo o trípode, que depois teve que devolver por ordem de Júpiter. Júpiter também ordenou a Apolo que lhe concedesse a resposta, ainda que não quisesse. Por isso, Hércules foi entregue como escravo por Mercúrio a Ônfale, rainha da Lídia.
Em algumas versões, como em Apolodoro (Bibl., II 5, 5), a morte de Mégara ocorre antes dos 12 trabalhos e teria sido o motivo de Euristeu ter ordenado a Hércules as suas provas. Na versão de Higino e também na de Eurípides (Hérc., 359-435), a matança é posterior às provas.”
“Deianira Nessum – Ixionis et Nubis filium – Centaurum rogavit ut se flumen Euhenum transferret. Deianiram sublatam [nas costas, no dorso do minotauro] in flumine ipso violare volŭit. Hercŭles cum intervenisset et Deianira cum fidem eius implorasset, Nessum sagittis confixit. Hercules sagittas hydrae Lernaeae felle tinxerat, itaque quantam vim habebant veneni. Cum Centaurus hoc sciret, [saber] moriens sanguinem suum exceptum Deianirae dedit. Postea Deianirae dixit: ‘Sanguis philtrum [loção] est. Vestem eius perungere sanguinis debes, si maritum ardentem amore vis’ [força]. Centauri verba Deianira credidit et conditum diligenter servavit sanguinem.”
As fake news matam os velhos brochas desde o começo dos tempos…
“Hercŭles cum Iŏlen Euryti filiam in coniugium petiisset, virginis pater eum repudiasset, Oechaliam expugnavit. Hercŭles – ut virgo rogaret – parentes eius coram ea interficere velle coepit. Illa animo pertinacior [ânimo firme] videre parentum suorum mortem ante se sustinuit. Postea, Hercŭles Iŏlen captivam ad Deianiram praemisit.”
GLOSSÁRIO
conditum: escondido
coram: em frente de
“Júpiter, sabendo por Juno das investidas de Ixião, formou uma nuvem com o aspecto e a forma de Juno. Ixião possuiu a nuvem, acreditando estar com Juno. Daí vem a expressão ‘tomar a nuvem por Juno’. Dessa ‘união’, nasceram os Centauros. O castigo na roda a girar eternamente deveu-se ao fato de que Ixião, mandado de volta à Terra, tinha se gabado de ter dormido com a esposa de Júpiter.”
* * *
“Observando as terminações da 3ª declinação, perceberemos que a palavra felleestá no caso ablativo singular (com o fel), que a palavra vim está no acusativo singular, assim como a palavra sanguinem.”
“Em geral, para sabermos se uma palavra da 3ª declinação é de tema em –i (ou tema sonântico), isolamos, do genitivo plural, o seu radical. Assim, se a palavra é volpes, volpis (raposa), detectamos seu radical (volp-) a partir do genitivo singular. Ao tomarmos o genitivo plural, volpium, e retirarmos o radical, observamos que a palavra é de tema em –i. Num outro caso, princeps,principis, detectamos o radical pelo genitivo singular. Com o genitivo plural sendo principum, retirando o radical, vemos que a palavra não é de tema em –i, mas é de tema consonântico.
Para a leitura dos textos latinos, não é necessário saber se o genitivo plural de uma palavra é em –um ou –ium”
“O acusativo plural em –is das palavras masculinas e femininas (substantivos e adjetivos) de temas sonânticos ocorre até o século de Augusto, embora, segundo Faria (1958), a forma em –es já ocorresse desde os fins do século II a.C. Em Virgílio, a palavra feminina puppis apresenta o acusativo singular puppim e o plural puppis.
Algumas palavras que aparentemente não apresentam tema sonântico, como urbs (cidade), mors (morte), gens (família), dos (dote), são fruto de perda da sonante –i– quando precedida de uma consoante oclusiva: urb(i)s; mort(i)s > morts > mors; gent(i)s > gents > gens; dot(i)s > dots > dos. Essas palavras farão, pois, o genitivo plural em –ium (FARIA, 1958).”
“Em latim, os tempos imperfectivos do subjuntivo são o presente e o pretérito imperfeito. Quanto ao futuro imperfeito, utilizam-se as mesmas formas tanto para o indicativo quanto para o subjuntivo”
“O pretérito imperfeito do subjuntivo terá a raiz dos tempos imperfeitos e é marcado com o morfema –re–(*) em todas as pessoas do singular e do plural. Poderíamos também raciocinar assim: para fazermos o pretérito imperfeito do subjuntivo, consideramos o infinitivo do verbo e a ele acrescentamos os morfemas de pessoa: amarem (amare + m) = se eu amasse.
(*) Aqui também um fenômeno de rotacismo do sufixo –se-. No mais-que-perfeito do subjuntivo, esse sufixo, como veremos, é mantido.”
“Observe aqui o uso das formas sincopadas: petiisset por petiviisset e repudiasset por repudiavisset.”
Deianira
(Fabŭlae, XXXVI)
(continuação da unidade III)
“Deianira – Oenĕi filia et Hercŭlis uxor – cum vidit Iŏlen – virginem captivam eximiae formae – accedere, timŭit ne se coniugio privaret. Itaque, memor Nessi praecepti – vestem tinctam Centauri sanguine Hercŭli qui ferret – nomine Licham famŭlum misit. Inde paulum, quod in terra decidĕrat et sol attiigit, [vizinho, contíguo] ardere coepit. Quod Deianira ut vidit, dolum sensit: Nessus eam fefellĕrat. Et qui revocaret eum, cui vestem dedĕrat, misit. Vestem Hercŭles iam induĕrat, statimque flagrare coepit. Iovis filius cum se in flumen coniecisset ut ardorem extingueret, maior flamma exibat. Vestem demere autem cum vellet, viscĕra veniebant. Tunc Hercŭles Licham, qui vestem attulĕrat, rotatum in mare iecit. Servus quo loco cecidit, petra surrexit, quam Licham appellamus. Tunc Philoctetes, Poeantis filius, pyram in monte Oetaeo construxit Hercŭli, qui ascendit immortalitatem. Ob beneficium Philocteti Hercŭles arcus et sagittas donavit. Deianira autem ob fa(c)tum Herculis ipsa se interfecit.”
GLOSSÁRIO
affero: trazer // fero: levar
coniicio: lançar
fallo: enganar
flagro: arder, estar em chamas
forma, formae: “pode significar forma, molde, moldura, mas também significa moeda cunhada, moeda, além de significar figura, imagem, representação. No texto desta unidade, o significado é beleza, formosura)”
Lichas: escravo de Hércules
paulum: pequena quantidade
FÁBULAS ESÓPICAS
“A conservação da obra de Fedro [compilador de Esopo] é parcial. Dos 5 livros que conhecemos, alguns têm um número muito menor de fábulas que outros. Enquanto os livros II e V têm, respectivamente 8 e 10 fábulas, os livros I, III e IV têm, por sua vez, 31, 19 e 25. Ainda são atribuídas a Fedro, hoje fato já aceito, 32 fábulas de uma compilação do humanista italiano Nicollò Perotti.(*) Essas fábulas, colocadas após o Livro V, aparecem reunidas no Appendix Perottina.
(*) Perotti (1429–1480) escreveu uma das primeiras gramáticas escolares modernas de latim (1473).”
“De extensão variada, as fábulas de Fedro podem apresentar a lição de moral ora nos dois primeiros versos (promitio) ora nos dois últimos (epimitio).”
“Quanto à forma, Fedro escreve suas fábulas com o mesmo metro utilizado pelos cômicos, o senário jâmbico, formado por 6 pés. Os pés são medidas ou grupos de sílabas de vários tempos.”
“é bom lembrar que nós usamos o gracejo nestas fábulas fictícias”
UNIDADE QUATRO:
Serpens ad fabrum ferrarĭum (IV, 8);
Rana rupta et bos (I, 24);
Canes familĭci (I, 20)
FEDRO
“A cidade mais importante da Trácia é Istambul, antiga Constantinopla, capital do Império Romano do Oriente.”
“Alguns dos assuntos das fábulas de Fedro eram já conhecidos e muitos já tinham sido apresentados por Esopo. Mas há também composições originais em sua obra. Apesar de sua inspiração em fábulas gregas e de sua adaptação delas para o latim, Fedro imprime sua originalidade, escrevendo em versos, diferentemente de Esopo, que escreveu suas fábulas em prosa.”
“Apesar de publicar num tempo do ‘gosto novo’ que caracteriza esse período (artificialismos na linguagem, exageros), Fedro escreve com a concisão e precisão dos clássicos, num estilo limpo e elegante.”
“Na fábula ‘Ranae ad Solem’, as rãs questionam o fato de o Sol querer casar-se, preocupando-se com a possibilidade de o Sol vir a ter filhos e sua morada, o lago, ficar ainda mais seca. Em ‘Lupus et Agnus’, a moral evidencia a crítica ao opressor: ‘Haec propter illos scripta est homĭnes fabŭla / qui fictis causis innocentes opprimunt’”
“A partir desta unidade do curso, os textos não mais se encontram adaptados. Todas as fábulas de Fedro utilizadas seguem a edição de Les Belles Lettres, cujos textos foram estabelecidos por Alice Brenot. (PHÈDRE. Fables. Texte établi et traduit par Alice Brenot. Sixième tirage. Paris: Les Belles Lettres, 2009 – baixar e ler 1º se a compreensão do latim estiver difícil!).”
Serpens ad fabrum ferrarium (IV, 8)
“Mordaciorem qui inprŏbo dente adpětit,
hoc argumento se describi sentĭat.
In officinam fabri vēnīt vipěra.
Haec cum temtaret si ecqua [alguma] res esset cibi,
limam momordit. Illa contra contŭmax: [orgulhosa]
<Quid me> inquit <stulta, dente captas laeděre
omne adsuevi ferrum quae conroděre
………………………………………………………..?>”
Rana rupta et bos (I, 24)
“Inops, potentem dum vult imitari, perit.
In prato quondam rana conspexit bovem,
et, tacta invidĭa tantae magnitudinis,
rugosam inflavit pellem. Tum natos suos
interrogavit an bove esset latĭor.
Illi negarunt. Rursus intendit cutem
maiore nisu, et simĭli quaesivit modo
quis maĭor esset. Illi dixerunt bovem.
Novissĭme indignata, dum vult validĭus
inflare sese, rupto iacŭit corpŏre. »
Canes familici [famélico] (I, 20)
“Stultum consilĭum non modo effectu caret,
sed ad pernicĭem quoque mortalis devocat. [arrasta]
Corĭum depressum in fluvĭo viderunt canes.
Id ut comesse extractum possent facilĭus,
aquam coepere ebibĕre, sed rupti prius
periere quam, quod petiĕrant, contingĕrent.”
GLOSSÁRIO:
pratum: prado
três prados cheios de trigo em que rondam três tigres felizes…
“a preposição in com acusativo dá idéia de movimento em direção a algum lugar, com a idéia de lá ficar; a preposição ad dá ideia de direção a algum lugar”
“coepere: começaram
(o verbo é defectivo e aparece dicionarizado apenas com as formas de perfeito: coepi, coepisti, coepisse. Conforme veremos nesta unidade, coepere não é infinitivo, mas uma forma da 3ª pessoa do plural do pretérito perfeito equivalente a coeperunt. No período clássico, usam-se apenas as formas dos tempos perfeitos e supino, conforme veremos, diferentemente do que ocorre no período arcaico)”
“depressus:submerso, mergulhado
(também aparece dicionarizada como um adjetivo de 1ª classe – depressus, -a, -um –, mas se trata de um particípio passado do verbo deprĭmo, -is, -ěre, -pressi)”
“rupta:arrebentada
(dicionarizada como um adjetivo de 1ª classe – ruptus, -a, -um – arrebentado(a), trata de um particípio passado do verbo rumpo, -is, -ěre, rupi)”
* * *
“poderemos ter problemas ao encontrar num texto a palavra itiněris, pois seu nominativo (caso no qual os substantivos aparecem no vocabulário) é iter”
SOBRE DECLINAÇÕES E COMO ACHAR CERTAS PALAVRAS IRREGULARES DE TERCEIRA DECLINAÇÃO NO DICIONÁRIO:
consoante dental dentis -ti desaparece no nom. dens
consoante labial hiemis -i desaparece no nom. hiems
consoante gutural ducis converte-se em –x dux
regis rex
“Há um outro grupo de adjetivos em latim que segue a 3ª declinação. São os chamados adjetivos de 2ª classe. Diferentemente dos adjetivos de 1ª classe, que são sempre triformes, os de 2ª classe podem ser triformes, biformes ou uniformes (classificação que se baseia pelo nominativo singular).”
“Inops, potentem dum vult imitari, perit.”
(O fraco, querendo imitar o forte, perece.)
Ex 1: acer, acris, acre (masc., fem., neut.)
áspero, cruel
Ex 2: atrox (m, f, n)
GLOSSÁRIO:
fleo: chorar
COMPARATIVO & SUPERLATIVO
“Assim como no português, em latim, o adjetivo tem 3 graus: o positivo, o comparativo e o superlativo. No grau positivo, estudado anteriormente, menciona-se uma qualidade sem outra idéia complementar qualquer: bonus (‘bom’); fortis (‘forte’); celer (‘célere’).”
“Conforme veremos, o comparativo de igualdade e de inferioridade só se faz em latim analiticamente, por meio de perífrases com advérbios (minus ou tam) mais o adjetivo. Já o comparativo de superioridade pode ser feito analiticamente, com o advérbio magis seguido do adjetivo, e pode ser feito sinteticamente, com os morfemas –ĭor e –ĭus.”
Ex 1: mordaciorem – mais mordaz que. Lembrar que ainda há o sufixo das declinações!
raiz mordax
Ex 2: altioris
“Rana lata non erat magis quam bos.”
(A rã não era maior que o boi.)
ABLATIVO DE COMPARAÇÃO: “Rana latior non erat bove (abl. 3ª).”
“a. Fons purĭor quam flumen est.
b. Fons purĭor flumine est.”
« Se se usar a partícula de comparação —quam—, o termo comparado fica no mesmo caso do outro termo a que se está comparando. »
“Para a formação do grau superlativo dos adjetivos, temos como regra geral o acréscimo do morfema –issim- à raiz do adjetivo. Em seguida, ele se declina como um adjetivo de 1ª classe do tipo bonus, -a, -um. Altus, por exemplo, no grau superlativo, fica altissimus, altissima, altissimum.
Já para os adjetivos terminados em -er, como pauper, a regra será acrescentar o morfema -rim- e decliná-los como um adjetivo de 1ª classe. Assim: pauper ficará pauperrimus, pauperrima, pauperrimum.
Alguns adjetivos terminados em –ĭlis (como facilis, facile: biforme da 3ª declinação) terão como regra o acréscimo do morfema -lim- à raiz da palavra, declinando-se, a partir daí, como um adjetivo de 1ª classe. São os seguintes: facilis, dificilis, similis, dissimilis, gracilis, humilis, a cujos radicais acrescentamos –lĭmus. Facĭlis, por exemplo, ficará assim: facillimus, facillima, facillimum. Os demais adjetivos terminados em –ĭlis seguirão a regra geral: nobilis será nobilissimus, -a, -um; utilis será utilissimus, -a, -um assim como os demais.”
“Alguns adjetivos só são utilizados nos graus comparativo e superlativo. Veja alguns deles:
“Adjetivos em cujo tema a vogal final vem precedida de outra vogal, como os terminados em -eus, -ius, -uus (idoneus, exiguus, regius), não possuem formas comparativas nem superlativas sintéticas. Usamos, nesses casos, os advérbios magis ou plus para o comparativo; e maxime (maximamente), multum, valde (muito), e outros de significação semelhante, para o superlativo.”
Perfeito sincopado
“É comum alguns verbos apresentarem síncopes no tema do perfeito, razão pela qual os dicionários costumam registrar duas formas de perfeito entre os tempos primitivos de certos verbos. Reveja um trecho de uma fábula de Fedro e observe atentamente os pretéritos perfeitos dos verbos interrogare e negare
(…)
Veja como os verbos destacados aparecem dicionarizados: interrogo, -as, -are, interrogavi e nego, -as, -are, negavi.”
VERBO ESSE NO PRESENTE DO MODO SUBJUNTIVO
“Analisaremos o verbo esse (sum, -es, esse, fui) separadamente, já que não seguirá a lógica de uso dos sufixos de subjuntivo dos verbos regulares.”
Presente do subjuntivo
sim
sis
sit
simus
sitis
sint
* * *
“Da forma datum formamos, pois, o particípio passado datus, data, datum, que se declina como um adjetivo de 1ª classe (tipo bonus, bona, bonum).” isto-não-está-datum
o rrato arrombou a rrã do rrei de rroma
De vitĭis homĭnum (IV, 10)(A ORIGEM DA COLUNA VERTEBRAL!)
“Peras [alforje/alforge¹] imposŭit [impôs] Iuppĭter nobis duas;
proprĭis repletam vitĭis post tergum [costas] dedit,
alienis ante pectus suspendit gravem.
Hac re videre nostra mala [dessa vez não é maçã, mas mal mesmo!] non possŭmus;
alĭi simul [assim que os outros] delinquunt, [erram] censores sumus.”
¹ “Etimologia (origem da palavra alforje). Do árabe al-khur, saco levado junto à sela, ao lado.”
GLOSSÁRIO:
cogo: forçar
vulpes: raposa
UNIDADE CINCO:
De vulpe et uva (IV, 3);
Cornu fractum (App. Per., 22);
Vulpes et simius (App. Per., 1).
FEDRO
De vulpe et uva (IV, 3)
“Fame coacta vulpes alta in vinĕa
uvam adpetebat, summis saliens virĭbus.
Quam tangĕre ut non potŭit, discedens ait:
<Nondum matura es; nolo acerbam sumĕre.>
Qui facĕre quae non possunt verbis elĕvant [desdenhar no sentido abstrato – grande exemplo de falso cognato! / porém, em outros sentidos pode ser realmente elevar/tirar, física, concretamente.]
“Barbam capellae [de capri] cum impetrassent ab Iove,
hirci maerentes indignari coeperunt
quod dignitatem femĭnae aequassent suam.
<Sinĭte,>[concordância, sim] inqŭit, <illas glorĭa vana frui
et usurpare vestri ornatum munĕris,
pares dum non sint vestrum fortitudĭne.>
Hoc argumentum monet ut sustinĕas tibi
habĭtu esse simĭles qui sint virtute impăres.”
GLOSSÁRIO:
aequo: igualar
assuesco: habituar-se
dum: desde que/enquanto durar/até que
habitus: aparência
maerens: triste (lembrar de mareado)
modius: alqueire
múnus: cargo, função
ovis: ovelha; homem estúpido, simplório.
triticum: trigo
(A raiz de usurpação não denota ou conota crime, mas mero uso, diferente de rapio, rapto, p.ex.)
“o latim mantém alguns verbos com duplo acusativo: um acusativo que funciona como o que conhecemos como objeto direto e outro acusativo como objeto indireto.”
CUIDADO COM QUEM É SUJEITO ATIVO E PASSIVO!
pueros docere grammaticam
Ovem rogabat cervus modium tritici (quem pede trigo é o veado)
parentes pretium poscere (não são os pais que exigem o preço ou paga; exige-se-lhes)
livrum flagitavi magistrum (solicitei o livro ao professor)
Careo virtute
Auxilio egeo (mar Egeu: o mar sempre necessitado!)
Vescor lacte (bebo leite; mas pode ser usado para comida, nutrição em geral)
Abundo pecunia.
Verbos que em português necessitam em geral “de” ou outro complemento, pelo menos na norma culta.
Hoc argumentum monet ut sustineas tibi habitu esse similes qui sint virtute impares.
Tal argumento demonstra o quanto deves sustentar uma aparência igual à daqueles de que
Este lembra como de quem …
que
és diferente em qualidades invisíveis
… virtudes.
caráter
Basicamente o provérbio da mulher de César.
Luminibus orbus
Privado da vista
Dives templum donis
Templo rico em oferendas
Parvo contentus.
Contente com pouco – e não: Tolo contente!! Nesse caso seria parvuscontentum.
Verbos no presente do modo imperativo
sine: consinta
sine qua non – consinta que não…?
O sine qua non da filosofia n. é o eterno retorno – consinta que não existe filosofia nietzschiana sem o eterno retorno. = AQUILO SEM O QUE NÃO
At ille murem [rato] pepĕrit. Hoc scriptum est tibi,
qui, magna cum minaris, [prometes] extricas nihil.”
prometes grandes coisas mas nada entrega /
Às vezes terremotos anunciam grandes coisas, mas nada sucede de relevo (tum dum!).
Tanto barulho por nada! etc.
Como grandes montanhas cujo parto ou tremor não era hecatombe, mas sim apenas obra dum rato em suas entranhas… tu, ladras e não mordes!
Vulpes ad personam [máscara] tragĭcam (I, 7)
“Personam tragĭcam forte vulpes vidĕrat:
<O quanta specĭes>[beleza] inqŭit <cerĕbrum non habet!>
Hoc illis dictum est quibus honorem et glorĭam
fortuna tribŭit, sensum communem abstŭlit.”
A raposa viu casualmente uma máscara de tragédia
Quão bela, e no entanto nada carrega! Inanimada.
O que a sorte dá, o senso comum tira.
Particípio presente
“Já que, em português, o particípio presente latino formou adjetivos e substantivos (amante, ouvinte, falante, parturiente, etc.), podemos muitas vezes traduzir o particípio presente como um gerúndio, como no verso acima.”
A voz passiva sintética
Personam tragicam vulpes videt
A raposa vê a máscara da tragédia
Persona tragica a vulpe(*) videtur
A máscara da tragédia é vista pela raposa
(*) Caso ablativo – “A função que tradicionalmente conhecemos como agente da passiva aparece, na oração em latim, no caso ablativo, antecedido por preposição, por se tratar de um ser animado (a raposa).” Caso sem preposição: Iniuriis non moveor tuis (Suas injúrias não me comovem – em português também caberia dizer não comovem a mim). Iniuriis tuis é o ‘agente da passiva’.
Em latim a voz passiva pode ser escrita de forma mais lacônica do que no português, cuja praxe é o contrário (alonga a voz ativa!).
Os verbos depoentes
“Chamam-se verbos depoentes aqueles verbos que apresentam terminações de voz passiva, mas que têm sentido ativo.”
verbo depono: abandonar (mesma coisa do port. de-pôr)
No dicionário:
Tempos primitivos do verbo dare (não-depoente):
do, -as, -are, dedi, datum
Tempos primitivos do verbo minari (depoente):
minor, -aris, minari, minatus sum (eu prometi, eu ameacei) – não existe o supino (correlato a datum)
Lembrando que normalmente os infinitivos apresentam sufixo:
-re (voz ativa) dare (dar)
-ri (voz passiva) dari (ser dado)
GLOSSÁRIO:
abdo: esconder
abdômen: provavelmente porque o ventre está destinado a esconder nossas feias tripas.
EPIGRAMAS
“O termo epigramma, em grego, significa inscrição. Originariamente, designava qualquer tipo de inscrição, ou seja, referia-se a textos escritos gravados ou pintados sobre objetos votivos, monumentos, estátuas, medalhas, moedas e também sobre monumentos celebrativos ou funerários, com o objetivo de fazer lembrar um acontecimento memorável, uma vida de destaque.” “o epigrama nasce com a característica da brevidade, da concisão. E essa característica se mantém quando adquire status de texto literário.”
“Entre os latinos, mantém inicialmente a característica de uma poesia sentimental, subjetiva, herdada da influência helenística, e o tom de poema de ocasião, tendo, entre seus temas, o erotismo, a jocosidade, a polêmica, desenvolvendo-se como um instrumento para a difamação pessoal e a crítica social e até mesmo política.
Utilizado por Ênio (239 a.C–169 a.C) em monumento celebrativo, terá, com Catulo (87 a.C?–54 a.C?), repercussão e status literário e será identificado com o nome de Marcial (38/41 d.C–102/104 d.C).”
“Após o Renascimento, contudo, volta a ser apreciado, inicialmente na Europa e depois nas Américas. Seu auge ocorrerá no século XVII, e ainda encontramos poetas que mantêm acesa a chama do gênero”
UNIDADE SETE: EPIGRAMAS – PARTE I – MARCIAL
“Nasce Marcial por volta dos anos 38 e 41 d.C, na região conhecida por Hispânia Tarraconense, em um povoado chamado Bílbilis. De família provavelmente não muito modesta, deve ter recebido formação de ótimo nível na própria região da Hispânia (certamente não em Bílbilis, por se tratar de um pequeno povoado). Muda-se para Roma por volta do ano de 64 e aí desenvolverá sua atividade literária em boa parte dos 34 anos em que permaneceu longe de sua terra natal. Será acolhido por Sêneca e, renunciando à possibilidade de carreira no Foro, irá se dedicar à carreira poética. É na Hispânia também que ocorrerá o seu falecimento entre os anos de 102 e 104.”
“Da obra de Marcial, chegou até nós uma coletânea que se abre com o Liber de spectaculis, tendo na sequência os livros de epigramas do I ao XII e os livros XIII e XIV (Xenĭa e Apophoreta), apesar de estes dois últimos terem surgido anteriormente ao livro I. Os epigramas apresentam, em sua maioria, entre 2 e 10 versos, sendo encontrados muitos outros que ultrapassam os 20 versos.”
“Marcial influenciará autores como Quevedo (Espanha), Bocage (Portugal) e Gregório de Mattos (Brasil).”
“Por ocasião da inauguração dos espetáculos no Anfiteatro Flávio, o Coliseu, no ano de 80, sob o domínio de Tito, Marcial publicará o Epigrammăton liber, conhecido por Liber de spectacŭlis. A partir dessa obra, que celebra um acontecimento público de tal dimensão, Marcial receberá de Tito o benefício ius trium liberorum, passando a contar com amparos legais destinados originalmente a progenitores de no mínimo três filhos, o que não era o caso de Marcial.”
“Escritos em dísticos elegíacos, serviam para acompanhar os presentes aos amigos (xenĭa, presente em latim) ou para acompanhar os presentes que os convivas levavam para casa (apophoreta, presentes oferecidos aos convivas nos dias das Saturnais).”
“Os epigramas utilizados nesta unidade foram os estabelecidos por H.-J. Izaac, conforme edição consultada: MARTIAL. Épigrammes.Tome I. Livres I-VII. Texte établi et traduit par H.-J. Izaac. Quatrième tirage. Paris: Les Belles Lettres, 2003.”
“Cum [Já que] tua non edas, carpis mea carmĭna, Laeli. [sobrenome]
Carpěre vel [ou] noli nostra vel ede tua.”
(III, 8)
“<Thaida Quintus amat.><Quam Thaida?> <Thaida luscam.>[Qual Thaís? A Thaís caolha.]
Unum ocŭlum Thais non habet, ille duos.”
(III, 13)
“Dum non vis pisces, dum non vis carpěre [não quis destrinchar as escamas] pullos
et plus quam putri, Naevia, parcis apro,
accusas rumpisque cocum, [não quis incomodar nem acusar o cozinheiro] tamquam omnĭa cruda [como se a comida estivesse crua…]
attulěrit.¹ Numquam sic ego crudus ero.” […pois grosso não sou!]
¹ Se ele houvera trazido, verbo affero. Como se ele tivesse trazido uma comida crua da cozinha.
Minha primeira interpretação estava errada: o tanquam muda tudo: “Acusaste e quiseste bater no cozinheiro COMO SE ele tivesse trazido uma comida crua, porém a verdade é que és um grosseirão!”
GLOSSÁRIO:
Taís/Thaida: “Não tem a terminação -em de acusativo singular da 3ª declinação por ser uma palavra grega e seguir as formas gregas de declinação”
crudus: cru (comida) ou grosso(a) (pessoa!)
edas: tornar conhecido
numquam: “Não confundir com nunc, que quer dizer agora, e com nusquam, que quer dizer em nenhuma parte, em nenhuma ocasião, em nada, para nada”
tribus: alerta – 3 declinado!
Numerais
(cont.)
“As centenas declinam-se como adjetivos de 1ª classe, no plural. Os ordinais declinam-se todos como adjetivos de primeira classe (primus, -a, -um; secundus, -a, -um; duodevicesĭmus, -a, -um)”
O verbo memĭni
“Alguns verbos não apresentam tempos do infectum e/ou a forma do supino. Deixarão de apresentar também as formas derivadas desses tempos. São os verbos defectivos, que já havíamos começado a estudar.”
Comparação com dare no dicionário:
GLOSSÁRIO:
licet = quamuis: ainda que
Introdução ao imperativo negativo
ede: publique
Para dizer no negativo…
“A forma em negrito (carpere noli) é uma forma perifrástica de se construir o imperativo negativo dos verbos. Nesse tipo de construção, coloca-se o verbo nolo (não querer) no imperativo (noli) e o verbo principal no infinitivo presente (carpere):
noli carpere: não queira você censurar (não censure)
nolite carpere: não censurem
Frase do epigrama acima:
Carpěre vel noli nostra [carmina] vel ede tua.
(Não censure nossa canção nem publique a tua.)
Vel… …vel…
* * *
I, 32
“Non amo te, Sabidi, [Sabidius, nome próprio masculino] nec possum dicere quare:
hoc tantum possum dicere, non amo te.”
IV, 58
In tenebris luges amissum, Galla, maritum [Nas sombras chora teu falecido, Gala]
nam plorare pudet te, puto, Galla, virum. [O chorar viril não devia te envergonhar, Gala]
I, 63
“Ut recĭtem tibi nostra rogas epigrammata. Nolo:
non audire, Celer, sed recitare cupis.”
I, 64
“Bella es, novĭmus, [conhecemos] et puella, verum est,
et dives, quis enim potest negare?
Sed cum te nimĭum, [excessivamente] Fabulla, laudas,
nec dives neque bella nec puella es.”
II, 7
“Declamas belle, causas agis, Attĭce, belle;
historĭas bellas, carmĭna bella facis;
componis belle mimos, epigrammata belle;
bellus grammatĭcus, bellus es astrologus,
et belle cantas et saltas, Attĭce, belle;
bellus es arte lyrae, [lírica, da lira] bellus es arte pilae [de bola – baile?].
Nil bene cum facĭas, facĭas tamen omnĭa belle,
vis dicam quid sis? Magnus es ardalĭo. [intrometido]”
Verbos impessoais
“São considerados verbos impessoais aqueles cuja ação não épropriamente atribuída a um sujeito animado ou inanimado. Apenassão conjugados na 3ª pessoa do singular e na 3ª do plural. Em funçãodisso, esses verbos aparecem dicionarizados com as formas de 3ªpessoa (-t) e infinitivo. Veja os tempos primitivos do verbo pudere (tervergonha de)…”
plorare pudet te: tu tens vergonha de chorar / chorar te envergonha
me pudet tui: tenho vergonha de ti
eos infamĭae suae non pudet: eles não têm vergonha de sua infâmia
“Os verbos impessoais podem apresentar algumas especificidades,daí a necessidade de, sempre que necessário, consultar um bomdicionário ou uma boa gramática, até que o contato com eles nostextos nos dê segurança em sua leitura.” Os famosos verbos de tempo ou de ocorrências naturais (sem sujeito) do português, mas não só (diria que sem dúvida os verbos mais religiosos têm essa tendência): fulget (relampejar), ningit (nevar), pluit (chover), tonat (trovejar), lucescit (amanhecer), vesperascit (entardecer), libet/lubet (agradar, ter vontade de), misĕret (ter compaixão de, compadecer-se de/por), piget (lamentar), paenitet (arrepender-se), licet (ser lícito, ser permitido, caber a), oportet (convir, ser preciso).
UNIDADE OITO: EPIGRAMAS – PARTE II – MARCIAL
(I, 75)
“Dimidĭum[metade] donare Lino quam credĕre totum
qui mavolt,[prefere, magis+volo]mavolt perdĕre dimidĭum.”
(III, 63)
“Cotĭle, bellus homo es: dicunt hoc, Cotĭle, multi.
Audĭo: sed quid sit, dic mihi, bellus homo?
[…]”
(IV, 36)
“Cana [branca, grisalha] est barba tibi, nigra est coma: [cabeleira] tinguĕre barbam
non potes – haec causa est – et potes, Ole, comam.”
(I, 33)
“Amissum non flet [chora] cum sola est Gellĭa patrem,
si quis adest [está presente] iussae [ordenar] prosilĭunt [jorrar] lacrĭmae.
[Não se chora só, pois quem está presente ordena que jorrem as lágrimas…]
Non luget quisquis laudari, Gellĭa, quaerit,[Gélia, não está de luto quem quer que procure ser louvado]
ille dolet vere qui sine teste dolet.” [a dor verdadeira é aquela que dói sem testemunhas]
Os elogios precisam de testemunhas, a dor não?! Ou o contrário?
(III, 28)
“Auriculam Mario gravĭter miraris olere.
Tu facis hoc: garris, Nestor, in auriculam.”
Mário sabe sentir o odor das orelhas; é assim que se faz: Nestor, tagarele muito para elas.
(I, 110)
“Scribĕre me querĕris, Velox, epigrammata longa.
Ipse nihil scribis: tu breviora facis.”
[Tu, Véloce, te queixas de que eu escrevo epigramas compridos.
Tu mesmo, Véloce, nada escreves: e com isso fazes rápido.] ???
(VI, 90)
“Moechum[Devasso]Gellĭa non habet nisi unum.
Turpe [feio, sujo, indecente, vergonhoso] est hoc magis: uxor est duorum.”
1 Quod potĭus est: dimidĭum donare Lino aut credere totum?
O que é melhor: Lino dar metade ou emprestar tudo?
2 Quid de Cotilo dicunt multi?
3 Cur cana est barba Olo?
4 Quid non flet cum sola est Gellia?
5 Quis non luget? Quis dolet vere?
6 Cur iussae prosiliunt lacrimae si quis adest? si quis = …?
7 Cur auricula Mario gravĭter olet?
8 Cur Velox epigrammăta breviora facit?
9 Quot moechos Gellia habet? Quid turpe est magis?
10 Verte epigrammăta lusitane.
Quem prefere dar metade a emprestar tudo prefere perder essa metade.
…
Porque barba não se pinta.
…
O que dói de verdade?
…
…
…
Unum. …
Difícil!
LEMBRETE:
amare: amar
amari: ser amado
amavisse: ter amado
“ATENÇÃO:
Apesar de o infinitivo perfeito apresentar a desinência –isse, que também ocorre no mais-que-perfeito do subjuntivo (por exemplo, amavissem = se eu tivesse amado), o fato não é motivo de confusão, já que o infinitivo não apresenta desinências pessoais:
“Mavolt ou mavult é a 3ª pessoa do presente do indicativo.”
“Nos tempos de ação completa (os tempos do perfectum) esses verbos são formados regularmente, a partir do tema do perfeito e as desinências já estudadas.
volo, vis, velle, volui
nolo, non vis, nolle, nolui
malo, mavis, malle, malui
³ “Lembre-se de que utilizamos o imperativo presente de nolo para fazer o imperativo negativo dos outros verbos: noli amare = não queira amar ou não ame.”
VII, 77
Exigis ut nostros donem tibi, Tucca, libellos.
Non facĭam: nam vis vendĕre, non legĕre.
II, 49
Uxorem nolo Telesinam ducĕre: quare?
Moecha [puta] est. Sed puĕris dat Telesina: volo.
Nenhuma esposa agrada Telesina. Por quê?
Porque ela é uma puta. São os solteiros (moços, escravos) que a dão prazer!
I, 57
Qualem, Flacce, velim quaeris nolimque puellam?
nolo nimis facĭlem difficilemque nimis.
Illud quod medĭum est atque inter utrumque probamus:
nec volo quod crucĭat [atormenta] nec volo quod satĭat.
I, 23
Invitas nullum nisi cum quo, Cotta, lavaris
et dant convivam balnĕa [balneário] sola tibi.
Mirabar, quare numquam me, Cotta, vocasses:
Iam scio, me nudum displicuisse tibi.
Só convida para tua casa aqueles com quem te sentirias à vontade nua.
I, 77
Pulchre valet Charinus, et tamen pallet.= Tem valor Carino, tem medo.
Parce bibit Charinus, et tamen pallet.= Bebe pouco Carino, mas tem medo.
Bene concoquit[digere] Charinus, et tamen pallet.= Digere bem Carino, mas tem medo.
Sole utĭtur Charinus, et tamen pallet.=
Tingit cutem Charinus, et tamen pallet.= pinta a pele?…
Cunnum Charinus lingit, et tamen pallet.= Carino chupa bocetas, e também empalidece (tem medo).
I, 83
Os et labra tibi lingit, Manneia, catellus:[filhote, cachorrinho]
Non miror, merdas si libet esse cani.
Teu cãozinho lambee tua boca e teus lábios, Manéia:
Não te admires, cães até merda comem.
II, 88
Nil recĭtas et vis, Mamerce, poeta videri:
quidquid vis esto, dummodo nil recĭtes.
III, 71
Mentula [membro] cum dolĕat puĕro, tibi, Naevole, culus,
non sum divinus, sed scĭo quid facĭas.
Já que (o homem) tem um pênis que coça e tu, Névolo, um cu que dói,
Não tenho dons divinos, mas sei o que fazes.
O imperativo futuro dos verbos
“O imperativo futuro se faz em latim morfologicamente. Muitas vezesé de difícil tradução e uma das opções é se traduzir pelo imperativopresente. Observe um exemplo retirado de um dos epigramas:
…quidquid vis esto, dummodo nil recites.
Seja (lá) o que quiser, contanto que nadarecite.
IMPERATIVO PRESENTE (esse, ser)
2ª pessoa: es, este
IMPERATIVO FUTURO
2ª p: esto, estote
3ª p: esto, sunto
IMPERATIVOS DIVERSOS
Ex1: dare, datum
IMP. PRESENTE
2ª pessoa: da, date
IMP. FUTURO
2ª pessoa: dato, datote
3ª pessoa: dato, danto
Ex2: tenere (sempre 2ª pessoa para presente, 2ª e 3ª para futuro)
PRESENTE tene, tenete
FUTURO teneto, tenetote / teneto, tenento
Ex3: dicere
PRESENTE dic, dicite
FUTURO dicito, dicitote / dicito, dicunto
Ex4: facere
PRESENTE cape, capite
FUTURO capito, capitote / capito, capiunto
Ex5: audire
PRESENTE audi, audite
FUTURO audito, auditote / audito, audiunto
Concentrar-se em memorizar os significados dos termos abaixo:
atque: e
audio: ouço
breviora: menor que…
causa: —
credere: crer
cum: com
dat: dá
dicunt: dizer
donare: dar
ducere: agradar
duorum: dobro, dois
es: é
et: e
facis: fazes
facilem: fácil
graviter: gravemente, severamente, seriamente
habet: tem (ele/ela)
homo: homem
iam: agora
in: em
legere: ler
longa: larga, comprida
magis: mais
mihi: meu, pronome me.
nam: nem
nihil: nada
nil: não
nisi: só
nolo: não quero
non: não
nostros: os nossos (idéia de coletividade)
nudum: nu, nudez
nullum: nenhum
os: boca
patrem: pai
perdere: perder
potes: podes
probamus: aprovamos
puellam: meninas
pueris: meninos
quaerit: quer saber, pergunta
qualem: de que tipo ou qualidade
quam: como = quomodo
quare: por quê
quereris: queixas-te
scio: sei
scribere: escrever
sed: vós sois
si: se
sine: sem o que não / sem o qual
sola: só, sozinha
tamen: porém, mas
tibi: teu, te, a ti.
totum: tudo
turpe: torpe
valet: vale, valor
vis: queres
unum: um
vocasses: convidaste-me
volo: quero
ut: assim como
utor: uso
uxor: esposa
EPÍSTOLAS
“O termo epístola vem do grego epistole, pelo latim epistula. Entre osantigos romanos, significava uma composição poética que se dirigiaaos amigos e também aos mecenas. Tratando de variados assuntos(filosóficos, literários, morais, políticos, amorosos, sentimentais), ascartas podem apresentar uma linguagem mais cotidiana,diferentemente dos gêneros poéticos, erigidos em uma linguagemmais trabalhada, mais artística, portanto (MOISÉS, 2004, p. 160). Há, contudo, alguns textos do gênero que, escritos à maneira de epístolas, mantêm elementos da poesia. Na Antiguidade romana, destaca-se a figura de Horácio, com sua Epistula ad Pisones, com os conselhos sobre a arte de fazer poesia a um certo Pisão e a seus filhos, mais tarde traduzida como Ars Poetica, termo que já aparece em
Quintiliano e nos manuscritos horacianos (CITRONI et al., 2006, p. 543).
No gênero epistolar, também na Roma antiga, se aventura Ovídio com Tristiae Ex Ponto, além das Heroides. Entre outros autores do gênero, registram-se: Plínio, o jovem e Sêneca (Epistulae ad Lucilium).
Em Cícero, conhecemos muito da vida política romana do final da República, com suas quase 900 cartas. Segundo Citroni, em relação à Antiguidade são conhecidas as publicações de cartas privadas reais, como as de Cícero, e textos destinados ao público, como os breves tratados filosóficos, científicos ou as composições poéticas. Nas próximas unidades, analisaremos cartas cotidianas de Cícero e cartas filosóficas de Sêneca.”
“De Plínio, temos uma coletânea de 10 livros. A partir de sua obra, muito se conhece dos comportamentos, das atitudes, dos valores e excessos da elite social do Império (finais do século I e inícios do século II). Para saber mais, conferir Citroni et al. (2006)”
UNIDADE NOVE: EPÍSTOLAS
Fam. XVI, 13 e XIV, 14
CÍCERO
“O primeiro pronunciamento judiciário de Cícero ocorre em 81 a.C, quando ele estava com 25 anos, numa defesa de Quíncio (Pro Quinctio) num processo de espoliação, tendo como opositor Hortênsio, o maior advogado da época (HARVEY, 1987, p. 113).
Filósofo, orador, escritor, advogado e político romano, Cícero nos legou uma obra de considerável extensão e importância documental. Deixa também um acervo considerável de cartas, organizadas em 4 coleções:
Ad Atticum, 68-44 a.C. Publicadas pelo próprio Ático, amigo íntimo de Cícero / 16 livros
Ad Familiares, 62-43 a.C. Provavelmente publicadas por Tirão, liberto de Cícero / 16 livros¹
Ad Quintum Fratrem, 60-54 a.C. / 3 livros
Ad Brutum, 43 a.C. É controversa a autenticidade dessas cartas. Atualmente se aceita a autenticidade da maior parte delas. / 2 livros
¹ CICERÓN. Cartas III – Cartas a los familiares (cartas 1 – 173). Introducción, traducción y notas de José A. Beltrán. Madrid: Editorial Gredos, 2008; ou
CICÉRON. Correspondance. Tome III – Lettres CXXII-CCIV. (55-51 avant J.-C.). Texte établi et traduit par L.-A. Constans. 7e tirage. Paris: Les Belles Lettres, 2002.
Das 864 cartas, 744 foram escritas por Cícero e 90 foram a ele dirigidas. O valor histórico e documental do epistolário de Cícero é inestimável.” “É graças, sobretudo a estas cartas que a última fase da República constitui o período da História da Antiguidade de que possuímos um conhecimento mais aprofundado” Citroni
“Tirão foi muito mais que um escravo. A liberdade a Tirão é concedida por Cícero em 54 a.C e, em sinal de gratidão ao seu senhor, adota o seu praenomen e nomen gentile, conforme costume romano, e mantém o próprio nome como cognomen: Marcus Tullius Tiro.”
M. TVLLI CICERONIS EPISTVLARVM AD FAMILIARES
LIBER SEXTVS DECIMVS
Ad Tironem
(Fam., XVI, 13)
Scr. in Cumano IV. Id. a.(u. c.) 701/53
“Omnia a te data mihi putabo, si te valentem videro. Summa cura exspectabam adventum Menandri, quem ad te miseram. Cura, si me diligis, ut valeas et, cum te bene confirmaris, adnos venias. Vale.”
“A carta que se segue foi escrita no dia 11 de abril de 53 a.C. Nela, Cícero elogia a atividade literária de Tirão.
(Fam., XVI, 14)
Scr. in Cumano III. Id. Apr. a.(u.c.) 701/53.
TVLLIVS TIRONI SAL.
“Andricus postridie ad me venit quam exspectaram; itaque habui noctem plenam timoris ac miseriae. Tuis litteris nihilo sum factus certior quomodo te haberes, sed tamen sum recreatus. [Suas cartas não traziam fatos verossímeis, mas serviram para entreter-me] Ego omni delectatione litterisque omnibus careo, quas antequam te videro, attingere non possum. Medico mercedis quantum poscet promitti iubeto: id scripsi ad Ummium.
Audio te animo angi et medicum dicere ex eo te laborare. [Seu médico me falou do seu sofrimento presente] Si me diligis, excita ex somno tuas litteras humanitatemque, propter quam mihi es carissimus. Nunc opus est te animo valere, ut corpore possis. Id cum tua, tum mea causa facias a te peto. Acastum retine, quo commodius tibi ministretur. [Mantenha Acasto por perto para que ele possa lhe servir.] Conserva te mihi. [Não se aflija por mim] Dies promissorum adest, quem etiam repraesentabo, si adveneris. [Melhores dias virão, se você se empenhar em trazê-los] Etiam atque etiam vale.”
GLOSSÁRIO
adest: esta-aí
attingo: ocupar-se
careo: perder ou não ter
confirmo: venço a doença (com+firmar, eNFeRMidade de mnemônico)
cura: metafisicamente relevante (vd. Ser e Tempo): inquietação, ansiedade
curo: idem port.
diligo: estimo
excito: acordo!
III Idus h. VI = 10 de abril
III Idus (III Idus = 3 dias antes dos idos do mês correspondente – no caso de abril, os idos são em 13); nesta carta o remetente não informa o mês, convicto de que não será necessário.
h. VI = hora sexta ou meio-dia. “(o dia romano era dividido em 12 horas, contadas do nascer do sol até o crepúsculo. Para medir as horas, podiam utilizar relógios de sol e, não muito comum, relógios de água. Referiam-se às horas por numerais ordinais: hora prima, hora sexta. A hora sexta marcava o meio-dia. A noite era dividida em 4 partes, que se chamavam vigilia e que tinham duração diferente, a depender da época do ano)”
laboro: sofro
merces: salário (mnemônico: mercês… sua senhoria, vossa mercê… os outros que tratamos com respeito são ou o patrão ou aqueles de quem podemos auferir $lucros$)
ministro: servir
opus est: é necessário
repraesento: realizo imediatamente
sal. = salutat
Scr. a.u.c. 701. = scripta ab urbe conditia 701, ou seja, escrita no ano 701 depois de fundada a cidade. A data mais aceita para a fundação de Roma é 753 a.C.
si: QUANDO (! LEMBRETE !)
Vale: Adeus(imperativo do verbo valeo – estar bem de saúde, passar bem – utilizado como interjeição nas despedidas ou nos finais de cartas)
4ª DECLINAÇÃO
“Pertencem à 4ª declinação nomes masculinos e femininos que terminam em -us no nominativo (fructus, -us) e alguns nomes neutros que terminam, no nominativo, em -u (genu, -us). Os neutros do plural têm os três casos iguais em –ua (nom. voc. e acus.).”
Lembre-se de que não devemos nos basear na terminação do nominativo para sabermos a declinação a que pertence uma palavra. Veja, por exemplo, o nominativo em –us, que pode ser da 2ª, 3ª ou 4ª declinações.”
GLOSSÁRIO:
frango: quebrar
5ª DECLINAÇÃO
Ex: dies (praticamente todas as outras palavras da 5ª são femininas, ao contrário desta – MAS ATENÇÃO: dies só é masculino quando significar 24h, o dia cheio, e não o dia claro ou dia figurado, p.ex., ‘tal dia está chegando’! Além disso, o dia de 24h se feminiza quando a palavra é composta de uma preposição+die: antedie(m), postdie(m), addie(m) nom/gen)
dies diei
nominativo genitivo
“Res e dies são os dois únicos nomes de flexões completas na 5ª declinação; os outros nomes, geralmente, não possuem plural”
“ATENÇÃO:
Assim como a 4ª declinação se assemelha, em alguns casos, à 2ª declinação, o mesmo ocorre com a 5ª declinação em relação à 3ª.”
VOZ PASSIVA SINTÉTICA
“Confira o quadro com as desinências de pessoa e de número (DPN) da voz ativa e da voz passiva:”
Acastum retine, quo commodius tibi ministretur. – ministretur, voz passiva da 3ª.
“Para a formação do que conhecemos como agente da passiva, o caso latino mais adequado é o ablativo, antecedido ou não por preposição”
GLOSSÁRIO:
cinis: defunto
in: até
medicina: remédio
scelus: crime
A coordenação dos tempos (consecutĭo tempŏrum)
“Em latim, o tempo de uma subordinada no subjuntivo serádeterminado pelo tempo do verbo da oração principal. Chamamos aisso de consecutiio temporum (ligação apropriada dos tempos oucoordenação dos tempos). A regra geral indicada abaixo pode serconsiderada para se entender o uso do subjuntivo na coordenação dos tempos, embora uma ou outra especificidade possa ocorrer,fazendo com que recorramos a alguma gramática para entender umou outro uso específico.”
Opto ut scribat, ut scripserit. : Desejo que ele escreva ou tenha escrito.
Optabo ut scribat, ut scripserit. : Desejarei que ele escreva ou tenha escrito.
Optaveram ut scriberet. : Tinha desejado que ele escrevesse.
Optaveram ut scripsisset. : Tinha desejado que ele tivesse escrito.
Philosophi ignorabant quam pulchra esset [era]virtus : Os filósofos não sabiam quão bela é a virtude.
Cura, si me diligis, ut valeas… : Se gostas de mim, cuida para que estejas bem… ???
“Observe que a forma verbal cura é presente do imperativo.” CUIDA, MENINO!
É só pensar na forma de condicional aceita em espanhol: Creo que estuviese/estuviera bien.
O calendário romano
“Numa carta da Antiguidade, nos deparamos com algumas marcações temporais que exigem uma certa atenção para que consigamos associá-las aos marcos temporais atuais. No início da carta de Cícero vista nesta unidade, observamos a abreviatura “Scr. a.u.c 701” (scripta ab urbe condĭta 701, ou seja, escrita no ano 701 depois de fundada a cidade). Nesse caso, considera-se, como vimos, a data mais aceita para a fundação de Roma: 753 a.C.”
“Kalendae (calendas) – é o primeiro dia do mês (daí a palavra calendário)
Nonae – (nonos) podia ser o 5º ou o 7º dia, a depender do mês (o dia que correspondia, tradicionalmente, à fase lunar de quarto crescente)
Idus – (idos) dependendo do mês, podia ser o 13º ou o 15º dia(tradicionalmente, o dia de lua cheia)”
“Nonos no 5º dia e Idos ao 13º dia – Janeiro, fevereiro, abril, junho, agosto, setembro, novembro e dezembro.
Nonos no 7º dia eIdos ao 15º dia – Março, maio, julho e outubro.”
Convenção romana dos nomes
“Catarina Gaspar (2010, p. 153-178), analisa obras dos gramáticos latinos (grammatici latini) e, a partir delas, estabelece algumas notas sobre a onomástica romana. Eis as suas conclusões:
O praenomen é quase sempre definido como o elemento onomástico queprecede o nomen. A sua representação sob a forma de abreviaturas tambémé transmitida pela maioria dos gramáticos. É interessante verificarmos quealgumas das abreviaturas indicadas, para os praenomina mais comuns, sãobem conhecidas nos textos epigráficos; contudo, outras não são comuns nostextos epigráficos que hoje conhecemos, como por exemplo, a abreviaturade PM para Pompeius (esta forma aparece quase sempre abreviada comoPOMP).
Quanto ao nomen, é ponto comum na sua definição a sua ligação à família.Nos séculos I a.C. e I d.C., encontramos uma noção de família genética:pertencem à mesma família todos os que partilham o sangue de umantepassado comum […]. A palavra familia era utilizada em alguns casoscom um significado mais alargado, como equivalente a gens (…) [h]á a partilha de espaço e de cargos importantes na estrutura social, política e religiosa da cidade.”
(*) “Para uma visão e discussão do conceito de gens romana veja-se C.J. Smith, The Roman Clan. The Gens form Ancient Ideology to Modern Anthropology, Cambridge, 2006.”
“Os cognomina são definidos pela maioria dos autores como os nomes que individualizavam a pessoa, isto é, de acordo com o seu uso clássico, que implicava que a sua transmissão de pai para filhos não fosse regular e a sua escolha fosse bastante variável.” “Kajanto (Onomastic Studies in the Early Christian Inscriptions of Rome and Carthage, 1963) refere a tendência para a transmissão dos cognomes de pais para filhos como um traço característico da onomástica na epigrafia cristã.”
“O uso do agnomen tem raízes no Oriente, tendo começado a ser utilizado no Ocidente a partir da época imperial. Inicialmente, não terá existido muita diferença entre o uso do agnomen e o uso de dois nomes ou cognomes, segundo Kajanto. Os gramáticos latinos referem-no sempre como um nome que é adicionado ao cognomen, extrinsecus. Muitos autores realçam ainda o facto de este não ser um elemento tão comum como os outros três, nos antropônimos romanos, pois era geralmente indicado por causa de um feito relevante — notável ou vergonhoso.”
* * *
Senta que lá vem história…
“No início de 58, Clódio apresenta aos comícios populares um projeto de lei que condena ao exílio os responsáveis pela execução de cidadãos romanos sem julgamento. A proposta visa claramente a Cícero, mentor do combate à conjura de Catilina e da punição dos seus cúmplices.
Cícero procura apoio junto dos cidadãos mais influentes, mas todos o aconselham a deixar Roma voluntariamente, para evitar o derramamento de sangue. Nestas circunstâncias, parte para o exílio. Na seqüência da aprovação da lei, a sua mansão no Palatino é saqueada e destruída. Clódio manifesta o desejo de erigir, no seu lugar, um templo à Liberdade. Para transformar o exílio voluntário de Cícero num ato de força jurídica, leva à aprovação outra lei que considera ilegal a decisão do senado, proíbe, sob pena de morte, a concessão de asilo ao exilado num raio de 400 milhas de Roma e, finalmente, inibe a revisão e a revogação destas deliberações.
Cícero parte de Brundísio, no extremo sul da península itálica, para a Macedônia e de lá, em finais de novembro, para Dirráquio. As cartas desta altura mostram o desgosto do afastamento da pátria, da família e dos amigos (Att. 3.4).”
“Durante a ausência de Cícero, são várias as tentativas dos seus aliados para o fazerem voltar a Roma. Na sessão de 1º de junho de 58, a que Clódio não assiste, o senado aprova o seu regresso, por proposta de Nínio, um tribuno da plebe, mas o decreto é vetado por outro tribuno chamado Élio Liga. Em outubro, o tribuno Séstio prepara um novo projeto de lei, logo vetado por outro tribuno. Na primeira sessão de 57, a 1º de janeiro portanto, o cônsul Lêntulo fala do regresso de Cícero e é apoiado pelo colega Metelo.”
“LXXXVII – AD ATTICVM.
(Att., III, 26).
Scr. Dyrrachi medio fere Ian. a. 697/57.
Litterae mihi a Q.[de Quinto]fratre cum s. c.[senatus-consultum]quod de me est factum allataesunt[foi trazida – allatae ganha a declinação singular de litterae, mas o verbo da passiva permanece no plural]. Mihi in animo est legum lationem[de uma lei] expectare et, siobtrectabitur, utar auctoritate senatus[recorrerei à autoridade do senado]et potius[de preferência]vita quam patriacarebo. Tu, quaeso, festina[se apressar] ad nos venire.”
“LXXXIX – AD ATTICVM.
(Att., III, 27).
Scr. Dyrrachi in. m. Febr. 697/57.
Ex tuis litteris, ex re ipsa nos funditus[inteiramente]perisse[ter perdido]video. Te oro [te oro, te rogo] ut quibus in rebus tui mei indigebunt [indigente] nostris miseriis ne desis [não abandonasse]. Ego te,ut scribis, cito[rápido]videbo.”
A voz passiva analítica
“A voz passiva analítica (aplicada aos verbos nos tempos do perfectum:pretérito perfeito, pretérito mais-que-perfeito e futuro perfeito) éfeita através do particípio passado do verbo principal acompanhadodo verbo auxiliar sum.”
scripta est
Ao falante do português parece evidente escrita está, afinal é essa a tradução letra a letra. Porém dada a característica da voz passiva analítica, significa foi escrita. O francês constrói alguns de seus passados com base nesse sistema de regras.
Litterae … allatae sunt.
Uma carta … foi trazida (para mim)
cum s.c. quod de me est factum.
com um decreto do senado que foi emitido sobre mim ou sobre mim que fôra emitido
Recapitulação do subjuntivo do verbo ser:
amatus sum: eu fui amado
amati sumus: nós fomos amados
amatus eram: eu fôra amado / eu tinha sido amado
amatus ero: eu terei sido amado
“Lembre-se:
Sou amado em latim diz-se amor, com a terminação -or da passiva sintética.”
Ou nunca use na passiva – mais fácil! Me amam.
GLOSSÁRIO
alea: jogo de dados
clarus: dentre outros, possui o sentido de famoso. clarus poeta
deleo, deletum: destruir
VOCABULÁRIO RELEVANTE DA UNIDADE 9:
a
ad
animo
atque
audio
bene
careo
causa
certior
cito
corpore
cum
cura
dicere
dies
ego
et
ex
exspecto
facias
haberes
habui
ipsa
itaque
legum
mihi
miseram
noctem
non
nunc
omni
omnia
opus est
patria
perisse
plenam
poscet
possum
potius
promitti
propter
quam
quem
re
retine
scripsi
sed
senatus
si
tamen
timor
valentem
venias
videro
ut
utar (?)
UNIDADE DEZ:
Epistulae ad Lucilium (I, 1)
SÊNECA
“Lúcio Aneu Sêneca, o Filósofo, era filho de Sêneca, o Antigo, ou Sêneca, o Retórico. Nasceu em Córdova, na Espanha, provavelmente entre os anos de 4 e 1 a.C. Foi um intelectual de grande prestígio por ocasião dos principados de Calígula e de Cláudio. Tendo sido preceptor de Nero, foi uma das principais figuras intelectuais também em seu governo.
Sabemos de sua vida tanto através de suas próprias obras, quanto a partir das obras de seu pai, além dos relatos sobre sua atividade pública em Tácito e em Suetônio e Cássio Díon.
Ainda pequeno, Sêneca se dirige a Roma, como era de costume, para continuar seus estudos gramaticais e retóricos, mas seu interesse maior foi a Filosofia. Conta-se que Sêneca, já autor de obras filosóficas e científicas, teria atraído a inveja de Calígula, por seus dotes como orador no senado. Sêneca, então, se afasta da advocacia.
Por acusação de adultério com Livila, irmã mais nova de Nero, já com Cláudio no poder, o senado o condena à morte, mas o imperador o obriga a se exilar. Sêneca, tendo perdido um filho, se dirige à Córsega, em 41 d.C. e por lá fica por oito anos. Durante o exílio, escreve a Consolatĭo ad Helvĭam matrem, com o objetivo de confortar sua mãe pela dor da separação. Escreve também a Consolatĭo ad Polibĭum, numa tentativa de conseguir de Políbio, um liberto poderoso da côrte de Cláudio, o apoio para que ele regressasse do exílio. Com a morte de uma irmã de Políbio, a escrita de uma obra consolatória dedicada a ele se convertia num excelente momento para o pedido de apoio.
Retorna do exílio em 49 d.C., por insistência de Agripina, para ser preceptor de Nero. Mais tarde, em 65, o imperador o obrigará a se matar por conta de ser considerado cúmplice na conspiração de Pisão. O fracasso da revolta fará com que sejam condenados à morte tanto Sêneca quanto o seu sobrinho Lucano, o autor do poema épico De bello civili, conhecido como Farsália, sobre a guerra civil entre César e Pompeu.”
Obras sobreviventes:
“De providentia
Dedicada a Lucílio, é um tratado que desfaz a ideia de que a providência divina é a causa das desventuras que atingem o homem bom.
De constantia sapientis
Obra filosófica dedicada a um funcionário equestre chamado Aneu Sereno, caracterizado como simpatizante do epicurismo.
De tranquilitate animi
Também dedicada a Sereno, aqui já maisconhecedor do estoicismo.
De otio
Uma defesa do direito do sábio de viver umavida retirada das obrigações civis e a dedicar-seà pura contemplação.
De ira
Dedicada a seu irmão Novato, foi escrita logoapós a morte de Calígula. Trata sobre a ira eseus efeitos e sobre educar os jovens para evitá–la.
(…)
De consolatione adMarciam
Dirige-se à filha do historiador Cremúcio Cordo,consolando-a pela perda de um filho.
(…)
De clementia
Obra de filosofia política, relacionada à sua função como conselheiro de Nero, a quem dedica a obra.
De beneficiis
Tratado dedicado a seu amigo Ebúcio Liberal que apresenta duras críticas ao comportamento tirânico dos monarcas.
(…)
Epistulae ad Lucilium (extratos à frente)
Considerada a obra-prima de Sêneca enquanto filósofo. É composta por 124 cartas dirigidas a seu amigo Lucílio, a quem Sêneca vai ensinando elementos da filosofia estóica. Discute-se, ainda, se seriam cartas autênticas e que deveriam ser adaptadas para publicação ou se se trata de um uso do gênero para a escrita de tratados literários e filosóficos.
Escrita em prosa e verso, numa espécie de satyra anippeae, trata-se de um panfleto político mordaz, ironizando a morte e a divinização de Cláudio, a quem Sêneca bajulou em De consolatione ad Polybium.
(…)
Como veremos, algumas das sentenças famosas de Sêneca direcionadas a Lucílio são conhecidas e bem-difundidas até hoje.”
“L. ANNAEI SENECAE AD LVCILIVM EPISTVLAE, I, 1
I. SENECA LVCILIO SVO SALVTEM
[1] Ita fac, mi Lucili: vindica te tibi, et tempus, quod adhuc[até aqui] aut auferebatur aut subripiebatur aut excidebat, collige et serva [lembre-se e atente-se]. Persuade tibi hoc sic esse ut scribo: quaedam tempora [algum tempo] eripiuntur nobis, quaedam subducuntur, quaedam effluunt. [se esvai] Turpissima tamen est iactura, [gasto, dispêndio – fatura, hehe!] quae per neglegentiam fit. Et si volveris attendere, magna pars vitae elabitur male agentibus, maxima nihil agentibus, tota vita aliud agentibus. [toda a vida regido por outros]
[2] Quem mihi dabis, qui aliquod pretium[algum preço] tempori ponat, qui diem aestimet, qui intellegat se cotidie mori? In hoc[Sobre isso] enim fallimur, quod mortem prospicimus; magna pars eius [grande parte dela] iam praeterit. [Excede]Quicquidaetatis[tempo de vida] retro est mors tenet. Fac ergo, mi Lucili, quod facere te scribis, omnes horas complectere [apodere-se de todas as horas – carpe diem]. Sic fiet ut minus ex crastino pendeas, si hodierno manum inieceris.
[3] Dum differtur, vita transcurrit. Omnia, Lucili, aliena sunt, tempus tantum nostrum est. In huius[genitivo de hic] rei unius fugacis ac lubricae [escorregadio – lubricidade – coisa de gente molhadinha!] possessionem natura nos misit, ex qua[da qual] expellit quicumque vult. Et tanta stultitia mortalium est ut quae minima et vilissima sunt, certe reparabilia, imputari sibi, cum impetravere, patiantur; nemo se iudicet quicquam [algo] debere, qui tempus accepit, cum interim[no entanto] hoc unum est quod ne gratus quidem[seguramente] potest reddere. [citar, replicar]
[4] Interrogabis fortasse[talvez, por acaso] quid ego faciam qui tibi ista praecipio. Fatebor ingenue: [Declarado com sinceridade] quod apud luxuriosum sed diligentem evenit, ratio mihi constat[concorda] impensae. Non possum me dicere nihil perdere, sed quid perdam et quare et quemadmodum[como – palavra grande só pra meter medo, mesmo que ut] dicam; causas paupertatis meae reddam, sed evenit mihi quod plerisque, non suo vitio, ad inopiam[miserável] redactis: omnes ignoscunt, nemo succurrit.
[5] Quid ergo est? Non puto pauperem cui, quantulumcumque[por menor que, tão pequeno que…] superest, sat est [é bastante]. Tu tamen malo serves tua, et bono tempore incipies. Nam, ut visum est maioribus nostris, ‘sera parsimonia in fundo est’.(*) Non enim tantum minimum in imo, sed pessimum remanet. Vale.
(*) Hesíodo [parcimônia do que há no fundo é coisa vã – o ébrio que economiza a borra do vinho não engana nem a si mesmo]” Não faz cera, vai ficar tarde. Sera = tarde
Não é engraçado que o agente seja aquele que sofre a ação?
GLOSSÁRIO:
ignotum:tanto desculpado quanto a raiz de ignorado. Aquele que se desculpa não nos pode mais fazer mal?
mi: “o pronome possessivo meus, mea, meum, além de significar meu, minha significa, junto a nomes de pessoas e a pronomes pessoais, querido, amigo, que me é caro”
“Amigo, …” qualquer estranho na rua
“Meu amigo, …” Aí sim tem meu carinho!
O paulista é muito afetuoso: Fala, meu! Fala, querido!
plerusque: abundante
O GENITIVO PARTITIVO
“Na epístola desta unidade, Sêneca faz uso da seguinte construção:
…magna parsvitae elabitur male agentibus…
(…grande parteda vida escapa aos que agem mal…)”
“grande parte” como subconjunto de “vida”.
O VERBO FIO (TORNAR-SE, SER FEITO)
“Turpissima tamen est iactura quae per neglegentiam fit.” (se produz)
“Sic fiet ut minus ex crastino pendeas…”
Fiat!
“fio, fis, fiěri, factus sum: (passiva de facio) ser feito, ser criado, fazer-se, dar-se; ser nomeado, ser considerado; (com significação própria) tornar-se, acontecer, dar-se, resultar”
(lembrete: o infinitivo é o terceiro termo dicionarizado.)
(cont.)
neque = nec
neve = neu = et ne
velim nolim…: queira ou não…
“Com verbos no indicativo, uma conjunção pode ter um valor diferente do que ela tem com verbos no subjuntivo: ut, por exemplo, com indicativo é conjunção temporal (logo que) ou explicativa (como); com subjuntivo pode ser: uma conjunção integrante (que, que não), ou final (para que), ou consecutiva (que, de tal maneira que), ou ainda concessiva (ainda que).
Algumas conjunções são também advérbios, por exemplo, ut, ne, ubi.”
QUE LÍNGUA DES(GRAM)ENT(A)[TICA]]!“Sempre que preciso, você poderá consultar a seção Apêndice deste material, em que sistematizamos os aspectos gramaticais mais complexos que estamos estudando.” É, meu amigo, vou precisar bastante!
“L. ANNAEI SENECAE AD LVCILIVM EPISTVLAE, I, VI
VI. SENECA LVCILIO SVO SALVTEM
[1] Intellego, Lucili, non emendari me tantum sed transfigurari. Nec hoc promitto iam aut spero, [ao menos espero] nihil in me superesse, quod mutandum sit. Quidni multa habeam, quae debeant colligi, quae extenuari, quae attolli? [elevar][Por que eu não teria muitas coisas em mim, tanto dignas de censura quanto de elogio?]Et hoc ipsum argumentum est in melius translati animi, quod vitia sua, quae adhuc ignorabat, videt. Quibusdam aegris gratulatio fit, cum ipsi aegros se esse senserunt.
[2] Cuperem[Eu desejaria] itaque tecum [contigo] communicare tam subitam mutationem mei; tunc amicitiae nostrae certiorem fiduciam habere coepissem, [nossa firme amizade começaria] illius verae, quam non spes, [esperança] non timor, non utilitatis suae cura [busca] divellit, [dilacera] illius, cum qua homines moriuntur, pro qua moriuntur.
[3] Multos tibi dabo, qui non amico, sed amicitia caruerint. [carecer] Hoc non potest accidere, cum animos in societatem honesta cupiendi par voluntas trahit. Quidni non possit? [E por que não?] Sciunt enim ipsos omnia habere communia, et quidem magis adversa.
[4] Concipere animo non potes, quantum momenti adferre mihi singulos dies videam. ‘Mitte’ inquis ‘et nobis ista’ quae tam efficacia expertus es. Ego vero omnia in te cupio transfundere, [transmitir] et in hoc aliquid gaudeo discere, ut doceam. Nec me ulla res delectabit, licet sit eximia et salutaris, quam mihi uni sciturus sum. Si cum hac exceptione detur sapientia, ut illam inclusam[naquela limitação] teneam nec enuntiem, reiciam. Nullius boni sine socio iucunda possessio est.
[5] Mittam itaque ipsos tibi libros et ne multum operae inpendas, dum passim profutura sectaris, imponam notas, ut ad ipsa protinus, [desde já] quae probo et miror, accedas. Plus tamen tibi et viva vox et convictus [não é convicto, mas convivência!] quam oratio proderit. In rem praesentem[Pessoalmente,] venias oportet, primum, quia homines amplius oculis quam auribus credunt; deinde, quia longum iter est per praecepta, breve et efficax per exempla.
[6] Zenonem Cleanthes[estóico, discípulo de Zenão] non expressisset, si tantummodo audisset; [se apenas escutasse] vitae eius interfuit, [participei, compartilhei] secreta perspexit, observavit illum, an ex formula sua viveret. Platon et Aristoteles et omnis in diversum itura[e todos os que vieram e ainda virão depois deles] sapientium turba plus ex moribus quam ex verbis Socratis traxit;¹Metrodorum et Hermarchum et Polyaenum[Metrodoro, Hermarco e Polieno] magnos viros non schola Epicuri sed contubernium[camaradagem] fecit. Nec in hoc te accerso[chamar] tantum, ut proficias, sed ut prosis; plurimum enim alter alteri[um ao outro] conferemus.²
¹ [Até ou já Platão e Aristóteles interpretaram e discordaram entre si acerca de muitos dos ensinamentos de Sócrates, pois se atinham a seus modos, não a suas palavras, o que não está mal.]
² [Não é preciso ser epicurista para seguir certos preceitos do epicurismo, nem ser estóico para seguir preceitos corretos do estoicismo; tudo tem sua medida, etc.]
[7] Interim quoniam diurnam tibi mercedulam debeo, quid me hodie apud Hecatonem[Hecatão, estóico] delectaverit dicam. ‘Quaeris’ inquit ‘vid profecerim? Amicus esse mihi coepi.’ Multum profecit; numquam erit solus. Scito hunc amicum omnibus esse. Vale.”
esperança espezinhada
à procura do que procurar
agora vejo que estava cego!
“Conservação de raízes gerúndias no português:
morituro (homem morituro = homem que está para morrer);
nascituro (bebê nascituro = bebê que está para nascer).”
Essa turba e essa caterva maldita de filósofos!
VOCABULÁRIO BÁSICO DA UNIDADE:
accedas
accepit
adhuc
aetatis
aliena
aliquod
animos
apud
audisset
auferebatur
aut
causas
certe
certiorem
coepi/coepissem
constat
credunt
cum
cuperem [desejar]
cura
dabis/dabo
debeo
deinde [depois]
dicere
diem/dies
discěre [aprender] DISCENTE
doceam/doceo [ensinar] DOCENTE
eripiuntur [jogado fora, desperdiçado]
fac/faciam
fit [fazer-se]
habeam
homines
horas
iam
impetravere
interim
ita [então] = itaque
iter
iudicet [judiciar, julgar; adjudicar: atribuir publicamente, dizer a justiça…]
longum
manus
mi
mihi
minus
misit [(ele) enviou]
mitte
mori
mortem
nam
nobis
oportet [(ele) deve]
oratio
par
pars
patiantur [sofrer]
per
perděre
plus
potest
pro
probo
puto
quaeris
quare
quia
ratio
reddere
rei
sciunt [(eles) sabem]
scribo
senserunt [sentido]
serva [ministra, ministrar]
si
sibi
sic
socius [companhia]
spero
spes
tam
tamen
tantum
te
teneam/tenet
tibi
timor
tota
turpissima
vale
venias
verae
vero
videt [ver no sentido de compreender]
viros [os homens, os machos, os varões]
vitio
volueris
voluntas
vox
ut
vult
ELEGIAS
“A elegia é uma forma literária do gênero lírico e tem origem controversa. Acredita-se que tenha surgido no Oriente, uma vez que era cantada com acompanhamento do som da flauta, um instrumento que deve ter sido proveniente da Ásia (CARDOSO, 2003, p. 69).
Apesar de seu longo percurso literário na Grécia, chegou até nós muito pouco da elegia helenística. O que conhecemos dela é por meio de fragmentos e por via indireta. Propércio, por exemplo, um dos cultivadores da elegia em Roma, credita parte de sua inspiração aos gregos Filetas de Cós e Calímaco (séc. III a.C.)”
“Para os gregos e romanos antigos, a característica maior da elegia era a sua composição formal, em versos que chamamos de dísticos elegíacos. Segundo Oliva Neto (1996, p. 34), ‘a designação era formal, sem vínculo necessário entre gênero e assunto, que, assim como no epigrama, era variado’.”
“Pouco conhecemos da produção dos primeiros autores elegíacos (Licínio Calvo, Varrão de Átax e Cornélio Galo). De Catulo, chegaram até nós algumas elegias, muitas das quais se situam entre epigrama e elegia. Como nos diz Oliva Neto, ‘não é sempre fácil saber se é um longo epigrama ou uma elegia breve’. Os nomes de Tibulo e de Propércio, autores dos quais nos chegou um número significativo de elegias, nos remetem imediatamente ao gênero. Ainda se destaca o nome de Ovídio, que se aventurou em diversos tipos de composição poética.
Segundo Massaud Moisés (1974/2004, p. 138), ‘após um interregno milenar, ao fim da Idade Média, a poesia elegíaca é ressuscitada por Villon, Jorge Manrique e Petrarca’, tendo retornado à circulação, no século XVI, devido ao classicismo, influenciando poetas de diversas línguas.”
UNIDADE ONZE:
Elegia (I, 7)
PROPÉRCIO
PROPERTIUS. Elegies. Edited and translated by G.P. Goold. Cambridge/Massachusetts/ London/England: Harvard University Press, 2006.
“Escreveu 4 livros de elegias, cuja cronologia é desconhecida: i) uma coletânea dedicada a Cíntia, um nome fictício provavelmente decorrente de uma experiência amorosa. Cíntia é, nas elegias de Propércio, como uma das jovens mulheres inteligentes, elegantes e de espírito independente que atraem a atenção dos possíveis amantes nas altas-rodas de Roma; ii) uma coletânea já mais extensa, sob a influência de Mecenas; iii) uma coletânea que apresenta, além da despedida de Cíntia, temas cívicos, discussões sobre poesia e aspectos morais de natureza diversa; iv) um quarto livro com composições de tema religioso e sobre a história romana, além de novas elegias amorosas.”
“[A] influência de Calímaco se faz presente, numa aceitação dos gêneros menores, sem a rigidez da grande poesia (a épica). No texto que vamos ler nesta unidade, Propércio estabelece sua meta em relação às escolhas poéticas, dirigindo-se ao autor da Tebaida, um poema épico anterior à Eneida de Virgílio, e explicitando suas preferências.”
(sint modo fata tuis mollia[favorável, flexível] carminĭbus),
nos, ut consuemus, [consuetudinário – estar acostumado a] nostros agitamus[dedicamo-nos a] amores,
atque alĭquid [algo] duram[duro, a se queixar] quaerĭmus in domĭnam; [dona, amante]
nec tantum ingenĭo quantum servire dolori
cogor[premido, obrigado] et aetatis tempora dura queri.
hic mihi conterĭtur vitae modus, haec mea famast,¹
hinc cupio[querer] nomen carmĭnis ire mei.”
¹ “Em textos em verso, o e- da forma verbal est pode ser elidido, por questões de métrica (fama est).
GLOSSÁRIO:
eo, is, ire, ivi ou ĭi, itum: caminhar, andar, marchar, espalhar-se.
! peguinha abaixo !
quaerĭmus: buscamos (do verbo quaero, -is, -ere, quaesivi ou quaesii, quaesitum ou quaestum, que significa procurar, buscar): outro sinônimo de cura – etimologia do quest saxão
queri: lamentar (do verbo depoente queror, -eris, queri, questus sum, que significa lastimar, lamentar, queixar-se judicialmente, daí querela: queixa, reclamação, acusação)
mnemônico: mulher: procuramos e depois nos lamentamos.
Tecnicamente, existe sim, sim! Ita.
TABELA DE DECLINAÇÃO PRONOMINAL
MAIS GLOSSÁRIO:
calamus: pena de escrever, do cálamo.
deridere: ser escarnecido
disparare : partior (depoente) : dividir
rima: fenda, racha
soleo, -es, -ere, solitus sum: ter por costume, estar habituado
Família do ALIQUIS:
RETORNO AO TEXTO:
“nec tantum ingenĭo quantum servire dolori
cogor et aetatis tempora dura queri”
(sou obrigado a servir não tanto à minha inspiração
como à minha dor, e a lamentar os dias penosos de minha juventude)
“…cupio nomen carmĭnis ire mei”
(…desejo de meus versos a fama espalhar-se) ou
(…desejo que a fama de meus versos se espalhe)
“Oração principal: cupio
Oração infinitiva: nomen carminis ire mei”
REVISÃO DA UNIDADE
“Os pronomes em geral apresentam formas especiais de declinação em alguns casos, principalmente no nominativo singular. Veja o caso de hic, haec, hoc, sem as habituais terminações –us, –a, –um de nominativo masculino, nominativo feminino e nominativo neutro. O mesmo ocorre com o pronome aliquis, aliqua, aliquid.”
“Dos 6 casos latinos, um deles é considerado o caso lexicogênico do português, ou seja, o caso que deu origem aos nomes de nossa língua. Trata-se do caso acusativo.” “Vimos, por exemplo, o pronome aliquis, que está na forma masculina do caso nominativo. Seu acusativo masculino é aliquem. Qual das 2 formas você acredita que nos deu o pronome indefinido alguém?”
“Na passagem do latim para o português, observamos duas regras que podem auxiliar numa busca de resposta: as consoantes surdas simples intervocálicas passam a suas sonoras equivalentes (-q- -g-) e a vogal postônica não-final cai (aliquemaliguem alguém).”
“O acusativo sujeito da oração infinitiva é uma construção muito empregada no latim. Em português, embora ocorra com maior freqüência uma oração desenvolvida, temos também esse tipo de construção: Eu vi Sônia fazer o exercício, em que Sônia fazer o exercício é uma oração que funciona como objeto direto do verbo ver (eu vi algo), no infinitivo (equivale a Eu vi que Sônia fez o exercício). Alguns verbos permitem essa dupla construção em português (os causativos: mandar, deixar, fazer,…; e os sensitivos: ver, ouvir,…), outros, não.”
Propércio, I, 7, 21-26
“[…]
tum me non humilem[humilde, não humilhar – falso cognato]mirabere [admirar, depoente]¹ saepe poetam, [= a imodéstia é admirável no poeta?]
tunc ego Romanis praeferar ingeniis.
nec poterunt iuvenes nostro reticere sepulcro[silenciar/silêncio sepulcral]
‘ardoris nostri magne poeta, iaces.’
tu cave nostra tuo contemnas [acautela-te de desprezar ou de teu desprezo pela nossa…] carmina fastu: [por orgulho]
saepe venit magno faenore [juro, -n] tardus Amor.”
¹ Macete: mir- de mirror, admirar-se no espelho.
Vocabulário importante da unidade:
aetatis
agitamus
alĭquid
atque
cogor : coagido
cupio : mnemônico: cupido
dicuntur : cantado
haec
hic
hinc
mollia : mole, FLEXÍVEL
nec
nomen
poterunt
quaerĭmus
queri
saepe : freqüentemente
sim/sint : deixar
tum : então
tunc
UNIDADE DOZE:
Elegia (III, 18 | = IV 12)
SULPÍCIA
(Corpus Tibullianum)
“Pouco sabemos sobre a vida do poeta oriundo do Lácio, Álbio Tibulo. Deve ter nascido entre os anos de 55 a 50 a.C., e a data provável de sua morte se situa em 19 a.C. (pouco depois de Virgílio).
Consegue-se acompanhar alguns fatos de sua vida através da relação que manteve com M. Valério Messala Corvino,(*) um nobre e poderoso amigo e seu protetor.
(*) Messala participou como combatente da causa republicana em Filipos, embora tenha se aliado, posteriomente, a Marco Antônio e, em seguida, a Otávio, o futuro Augusto. A batalha de Filipos (42 a.C) ocorreu entre as forças do triunvirato formado por Otávio, Marco Antônio e Lépido e as forças republicanas, que tinham como líderes os principais envolvidos no assassinato de Júlio César. Nessa batalha, Bruto e Cássio perdem a vida, e suas tropas perdem a batalha.”
“Acredita-se serem de sua autoria dois livros de elegias, havendo um terceiro que, na época do Humanismo, recebeu uma divisão em Livro III e Livro IV, com composições heterogêneas em uma coletânea que se conhece por Corpus Tibullianum.
“É praticamente consensual que as curtas elegias em que a voz feminina de Sulpícia fala (el. 13-18 do livro III) sejam da autoria da própria Sulpícia, uma sobrinha de Messala, que, tendo ficado órfã, foi por ele acolhida e protegida. Sulpícia era neta de Sérvio Sulpício Rufo, um jurista famoso, amigo e correspondente de Cícero.”
Elegia (III, 18)
“Ne tibi sim, mea lux, aeque [justamente] iam fervĭda [ardente] cura [nesse contexto, tormentos do amor]
ac viděor paucos ante fuisse dies,
si quicquam tota commisi [conmitto, committo, começar] stulta iuventa,
se eu, insensata que sou, cometi alguma burrice…
cuius me fatěar [confesso, vb. depoente] paenituisse magis,
da qual confesso ter me arrependido (mais que de qualquer outra fase da vida)…
hesterna quam te solum quod nocte [na noite passada] reliqui, [abandonada]
ardorem cupiens dissimulare meum.”
GLOSSÁRIO:
amasius: tanto amante quanto amado (que confusão!)
amata: sempre a amada (e pelo que entendi feminino, já que a mulher era uma ‘coisa’ na antiguidade e não se concebia o masculino também como objeto)
poetria: poetisa
Pronome indefinido (quisquam, quaequam, quidquam e quicquam ou quodquam)
“O pronome quisquam deriva-se, como veremos mais à frente, do interrogativo-indefinido quis. Significa alguém, alguma coisa, algum, com valor de substantivo. É geralmente usado em frases negativas. Declina-se quis, e a forma enclítica –quam permanece invariável.”
Pronome relativo (qui, quae, quod)
“Esse pronome aparece dicionarizado como um adjetivo de primeira classe, com o nominativo masculino (qui), o nominativo feminino (quae) e o nominativo neutro (quod).”
GLOSSÁRIO:
opertus: escondido (falso cognato do caralho!)
opertet: é preciso
Pronome anafórico (is, ea, id)
“O pronome is, ea, id tem valor anafórico (ele, ela, o, a, lhe) e também antecede o relativo: o, a, aquele, aquela, aquilo (que).”
DIC (português!)
tugúrio: cabana
Visita vineam.
Vinde visitar a vinha (Salmos)
Amittit merito proprium [is] qui alienum adpetit.
(Phaed.)
Perde merecidamente o próprio [aquele] que cobiça o alheio
amitto: perder sua metade
GLOSSÁRIO:
vetus: antigo, arcaico
sinus: peito
sino dourado BLÉM-BLÉM
sinusite deveria ser inflamação no peito!
Infinitivo perfeito ativo
“A partir do radical do perfeito (amav-), formamos o infinitivo perfeito ativo com a desinência –isse. Assim: amavisse (ter amado). No texto desta unidade, a partir do verbo sum, es, esse, fui, temos o infinitivo perfeito fuisse:
…ac viděor paucos ante fuisse dies…
(…como parecia ter sido há poucos dias…)
No mesmo texto, vimos, a partir do verbo impessoal paenitet, paenitui, o infinitivo perfeito paenituisse:
…me fatěar paenituisse magis…”
* * *
“Do pronome relativo qui, quae, quod (que, o qual, quem), temos em português uma forma derivada do genitivo cuius. Trata-se do relativo cujo, que praticamente desapareceu da língua oral, permanecendo em textos escritos formais.”
Elegia 20, III
(Corpus Tibullianum)
“Rumor ait [afirma] crebro [amiúde] nostram peccare puellam:
nunc ego me surdis auribus esse velim [volo]. [gostaria de pôr-me surdo às maledicências]
Crimina [injúria] non haec sunt nostro sine facta dolore:
quid miserum torques, [atormenta] rumor acerbe [cruel]? Tace. [Cala]”
Moral da história: fica caladinho, irmão!
UNIDADE TREZE:
Amores (III, 14)
OVÍDIO
“Sabemos sobre a vida de Ovídio através de seus próprios textos, especialmente através de uma elegia dos Tristia (Cantos Tristes), escrita durante seu exílio.(*) Na elegia IV, 10, Ovídio, numa espécie de autobiografia, busca se defender e nos deixa registros sobre sua própria vida.
(*) … Apesar de não supor a confiscação dos bens, esta relegatio tornava-se um duro castigo, porquanto obrigava o poeta a residir num lugar de clima rigoroso, quase incivilizado, habitado por bárbaros que de romanos só tinham o nome, banhado por águas insalubres. [atual Romênia]”
“Como muitos outros escritores contemporâneos seus, Ovídio, apesar de ter iniciado a magistratura, irá se dedicar ao ofício da poesia, desiludindo seu pai.”
“Segundo Citroni, é admitido no círculo dos literatos que se reuniam em torno de Messala Corvino, podendo, dessa forma, entrar em contato e se relacionar com muitos poetas de seu tempo, como Horácio, Tibulo e Propércio. Virgílio, segundo nos conta o próprio Ovídio, só o conhecera de vista (Vergilium vidi tantum).”
“O caráter multifacetado de Ovídio é demonstrado pela produção das seguintes obras:
Amores: coletânea de elegias em 3 livros (a primeira edição, não-conservada, teve 5 livros). O poeta-amante, nessas elegias, canta a paixão por Corina, uma antiga poetisa lírica grega.
Heroides: 21 epístolas poéticas, escritas em dísticos elegíacos, de heroínas famosas que escrevem a seus amados após terem sido, por eles, abandonadas: de Dido a Enéias, de Medéia a Jasão, de Ariadne a Teseu, e assim por diante, incluindo até mesmo uma figura não-retirada de mitos, a poetisa Safo, que escreve a Faón.
Ars amatoria: um tratado em dísticos elegíacos, <construído espirituosamente sobre os módulos do poema didascálico ‘sério’> (CITRONI et al., 2006, p. 592), em que a relação de amor se converte em objeto de ensino técnico (ars). Provavelmente por conta dessa obra Ovídio será exilado por Augusto para a longínqua cidade de Tomos (atual Constança, na Romênia).
Medicamina faciei feminae (Cosméticos da beleza feminina): trata-se de um livro de didática elegíaca com o ensinamento de truques para disfarçar qualquer tipo de defeito ou para melhorar o aspecto exterior. Desse poema, são supérstites apenas os cem primeiros versos.
Remedia amoris (Remédios contra o amor): trata-se de um pequeno poema que objetiva ensinar a pessoa amada a curar-se da paixão.
Metamorfoses: buscando um novo rumo para a épica, Ovídio compõe um poema de difícil classificação. Escrito em hexâmetros e com feições épicas (com invocação, proposição e narração), as Metamorfoses são um longo poema de 15 livros em que são narradas cerca de 250 histórias mitológicas que envolvem algum tipo de transformação. Segundo o próprio Ovídio, nos Tristia (Cantos Tristes), seu poema, por conta do exílio em Tomos, ficou sem a revisão que gostaria de fazer.
Fastos:escrito em dísticos elegíacos, trata-se da explicação da origem das festividades religiosas, um calendário do ano litúrgico romano. Nos Tristia (II, 549-552), Ovídio diz ter escrito 6 livros e outros tantos dos Fastos.
Tristia (Cantos Tristes): 5 livros de poesia elegíaca da época do exílio, enviados a Roma. Seus destinatários, evidentemente, não são identificados, exceto a sua esposa, que pode ser reconhecida claramente. (…)
Epistulae ex Ponto (Cartas do Ponto): obra composta de 3 livros (e um 4º, póstumo) de cartas poéticas (epístolas elegíacas), com a explicitação do nome do destinatário, numa tentativa de persuadir seus amigos a intercederem por ele. [Algo extremamente comum entre os poetas antigos, por sinal.]
Ovídio ainda escreveu Ibis (uma espécie de poesia como arma, em tom agressivo), Halieutica (pequeno poema didático sobre peixes e a pesca) e, provavelmente, uma Medea (de que nos restam apenas 2 versos).
OVID. Heroides – Amores. Translated by Grant Showerman and revised by G.P. Goold. Cambridge, Massachusetts, London: Harvard University Press, 1977.
“Non ego, ne pecces, cum sis formosa, recuso,
sed ne sit misero scire necesse mihi;
nec te nostra iubet fieri censura pudicam,
sed tamen, ut temptes [tentar] dissimulare, rogat.
Non peccat, quaecumque potest peccasse negare,
solaque famosam culpa professa facit.
Quis furor est, quae nocte latent, in luce fateri,
et quae clam [ocultamente] facias facta referre palam? [publicamente]
Ignoto meretrix corpus iunctura Quiriti
opposĭta popŭlum summovet ante sera; [fechadura]
tu tua prostitues [exposta] famae peccata sinistrae
commissi [crime] perăges indiciumque tui?
Sit tibi mens melior, saltem[-]ve [ue: ou; saltem: ao menos] imitare pudicas,
teque probam, quamuis [quando muito] non eris, esse putem.”
GLOSSÁRIO:
iunctura: que está para unir (do verbo iungo, -is, -ere, iunxi, iunctum: unir. Do tema do supino se forma o particípio futuro: iuncturus, -a, -um: que está para unir) [juntura, conjuntura]
opposita: colocada (diante) (particípio passado do verbo oppono, -is, –ere, posŭi, -positum: colocar diante, formado pela preposição ob, diante de, e pelo verbo pono)
submovet: afasta (do verbo submoveo ou summoveo, -es, -ere, -movi, -motum: afastar, formado pela preposição de acusativo e ablativo sub + verbo moveo)
Dupla negação
“No início da elegia que traduzimos nesta unidade, ocorre uma dupla negação. Veja:
Non ego, ne pecces, cum sis formosa, recuso”
(Já que és formosa, não me oponho a que me traias) CUCK!
“Em eu não me oponho a que não me traias, entende-se, em latim, eu não me oponho a que me traias, de forma que a dupla negação, aqui, se lê como uma afirmação.(*)
(*) Paulo Sérgio de Vasconcellos, em sua Sintaxe do Período Subordinado Latino (2013), apresenta exemplos, a partir de Plauto, Ovídio, Cícero, Catulo e Petrônio, de dupla negação que continua negando. Para ele, ‘a presença, na língua popular, desde Plauto, da dupla negação que continua negando mostra que a dupla negação das línguas românicas não é uma criação nova: estava no latim desde muito cedo e, de quando em quando, aparece nos textos que a nós nos chegaram.’(p. 57)”
Verbo sum
“No texto desta unidade, em alguns versos, o verbo sum aparece nos tempos do subjuntivo:
Non ego, ne pecces, cum sis formosa, recuso,
sed ne sit misero scire necesse mihi;
(Já que sejas formosa, eu não me oponho a que me traias
mas que não seja necessário a mim, desgraçado, ter conhecimento)
…sit tibi mens melior, saltemue imitare pudicas,
teque probam, quamuis non eris, esse putem.
(A ti seja uma mente melhor, ou ao menos imita as pudicas
e logo, ainda que não fores, que eu te repute virtuosa)
quando muito não o sejas, tenha a aparência.
A enclítica –ve (ou)
“A enclítica –ve é uma conjunção coordenativa, unindo termos equivalentes. Também é coordenativa a conjunção vel (‘ou’). Outra conjunção coordenativa já muito vista por nós é a conjunção et (‘e’). Devemos ter atenção ao analisar textos, verificando se essas conjunções (vel e et) unem termos equivalentes. Quando isso não ocorre, trata-se na verdade de advérbios: et (‘até’, ‘também’) e vel (‘até’, ‘também’, ‘talvez’).”
Pronome interrogativo
Origem do nosso ‘né’? De qualquer modo, até o japonês possui um mecanismo muito similar em sua gramática ou oralidade.
Verbos semidepoentes
“Já estudamos e aprendemos a reconhecer um verbo depoente: verbo que apresenta terminações de voz passiva, mas que tem sentido ativo. Conforme vimos, são verbos que originalmente apresentavam terminações de ativa e de passiva e que abandonaram as formas ativas, passando as formas passivas a assumir o sentido ativo. Um verbo depoente é reconhecido nos vocabulários e dicionários por apresentar as terminações de passiva, diferentemente dos demais verbos, que apresentam as terminações de ativa. Os semidepoentes são verbos que têm, nos tempos de ação inacabada (infectum), as formas ativas, seguindo, nos tempos de ação acabada (perfectum), a conjugação dos depoentes.”
“Diferentemente dos depoentes, que são em maior número, os semidepoentes são poucos, mas podem também ser identificados em dicionários: audĕo, -es, -ere, ausus sum (ousar); fido, fidis, fidĕre, fisus sum (fiar-se); gaudĕo, -es, -ere, gavisus sum (regozijar-se); solĕo, -es, -ere, solitus sum (estar habituado).
O verbo fieri (‘tornar-se’), apesar de se apresentar à maneira dos semidepoentes, possui algumas particularidades, funcionando, por exemplo, como passiva de facere (‘ser feito’, ‘ser criado’), razão pela qual costuma ser incluído entre os irregulares.
nec te nostra iubet fiĕri censura pudicam
(nem a nossa censura ordena tu te tornares pudica/que tu te tornes pudica)”
Particípio futuro
“.. ignoto meretrix corpus iunctura Quiriti…
(… a meretriz que está para unir o corpo ao desconhecido cidadão romano…)
Concordando com meretrix (feminina da 3ª) está a forma iunctura (forma feminina do particípio futuro iuncturus, -a, -um, do verbo iungo, -is, –ere, iunxi, iunctum, que significa unir, daí o particípio futuro ser traduzido por que está para unir).”
Elegia III, 14 (Ovídio, Amores)
“Tunc amo, tunc odi frustra quod amare necesse est;
tunc ego, sed tecum, mortuus esse velim!
Nil equĭdem inquiram, nec quae celare [calar] parabis
insequar, et falli muneris instar [como; analogamente a] erit.
Si tamen in media [meio ou duvidoso] deprensa tenebere culpa,
et fuerint oculis probra [traição] videnda [que será vista] meis,
quae bene visa mihi fuerint, bene visa negato
concedent verbis lumina nostra tuis.
Prona tibi vinci cupientem vincere palma est,
sit modo [contanto que (neste contexto)]‘non feci!’ dicere lingua memor.
Cum tibi contingat verbis superare duobus,
etsi [ainda que] non causa, iudice [julgar, julgamento] vince tuo!”
GLOSSÁRIO:
moecha: mulher adúltera
VOCABULÁRIO ESSENCIAL
-que
amo
ante
bene
causa
concedent
contingat
cum
cupientem
dicere
duobus
facit/facias/feci
famae
fateri
fiĕri : a ser feito, a se tornar
furor
ignoto
in
iubet : ordena
latent
luce
lumina
media
mens
mihi
misĕro
modo
munĕris
nec
necesse
negare
nocte
ocŭlis
parabis
popŭlum
potest
putem
quis
rogat
scire : saber
sed
si
sis/fuĕrint/sit/esse/eris – sis sit fui, foi
sola
superare
tamen
tunc
velim : volo, subj.
verbis
vince
ut
UNIDADE CATORZE:
Tristĭa (I, 7)
OVÍDIO
“Na elegia escolhida para esta unidade, Ovídio lamenta não ter podido revisar as suas Metamorfoses (Carmina mutatas hominum dicentia formas) e sugere alguns versos que podem ser colocados no frontispício do primeiro livro da obra, advertindo o leitor quanto a [seu] caráter inacabado.”
OVIDE. Tristes. Texte établi et traduit par Jacques André. Quatrième tirage. Paris: Les Belles Lettres, 2008.
Tristia (I, 7)
“Grata tua est pietas, sed carmina maior imago [memória]
Sunt mea quae mando qualiacumque legas,
Carmina mutatas hominum dicentia formas,
Infelix domini [autor] quod fuga rupit opus.
Haec ego discedens, sicut bene multa meorum,
Ipse mea posui maestus[muito aflito] in igne manu;
Utque cremasse suum fertur sub stipite [tição] natum
Thestias, et melior matre fuisse soror,
Sic ego non meritos, mecum peritura, libellos
Imposui [impor] rapidis, viscera nostra [vísceras ou nossas criações], rogis, [piras ou túmulos]
Vel quod eram Musas, ut crimina[pretextos, neste contexto] nostra, perosus, [avesso a]
Vel quod adhuc crescens et rude carmen erat.
Quae quoniam non sunt penitus [completamente]sublata, [removido, destruído, tollo] sed extant
– Pluribus exemplis scripta fuisse reor [eu acho] –,
Nunc precor ut vivant et non ignava [preguiçosa, insegura] legentem [leitor]
Otia delectent admoneantque mei.
Nec tamen illa legi poterunt patienter ab ullo,
Nesciet his summam si quis abesse manum;
Ablatum [arrancar à força] mediis opus est incudibus [bigornas, peso] illud
Defuit [Falta] et scriptis ultima lima [retoque] meis,
Et veniam pro laude peto, laudatus abunde, [suficientemente]
Non fastiditus si tibi, lector, ero. [Fazer o possível para não desprezar o leitor]
Hos quoque sex versus, in prima fronte libelli
Si praeponendos esse putabis, habe:
‘Orba parente suo quicumque volumina tangis,
His saltem vestra detur [dado] in urbe locus;
Quoque magis faveas, haec non sunt edita ab ipso,
Sed quasi de domini funere rapta sui.
Quicquid in his igitur [portanto] vitii rude carmen habebit,
Emendaturus, si licuisset, eram.’”
Tudo falsa modéstia.
GLOSSÁRIO:
perĭto, -as, -are: (freq. de pereo) morrer
reor, -eris, -eri, ratus sum: (depoente) pensar, julgar, crer (constrói-se com proposição infinitiva, com dois acusativos e é usado em frases parentéticas)
autem: além disso, outrossim
spiro: soprar – spyro the dragon, quão original!
ascia: enxada
crus, cruris: perna
fingo: imaginar (finGir), formar, vencer, dominar… que gradação!
impingo: espetar (impingir)
lectum: escolhido (de lego, legere) se eu delego, eu também lego (escolho)
olla: panela
necnon, nec non ou neque non: (adv.): e também
nunc…nunc…: ora… ora… (ora isso, ora aquilo) ag-ora
Danai, -orum ou –um: os gregos
ter: 3x
quater: 4x
“Altéia é uma Testíade. Diz-se Testíade por ser filha de Téstio. Altéia era esposa de Eneu, rei de Cálidon, e mãe de Dejanira e Meleagro. Passados 7 dias do nascimento de seu filho, as Moiras a visitaram e fizeram uma predição sobre o seu futuro, dizendo que a criança morreria se o tição que queimava na lareira se consumisse inteiramente.”
“carmina dicentia = os versos que cantam”
dicência
mando : recomendo
ILLE, ILLA, ILLUD (cont.)
“At ille murem peperit.
(Mas aquela pariu um rato.)
O pronome ille, no nominativo masculino singular, é sujeito de peperit. Veja que ille é masculino e nós o traduzimos por feminino. É que ille, na fábula Mons parturiens, de Fedro, retoma a palavra mons, que é masculina em latim. Em português, a palavra montanha é feminina.”
“O pronome ille, illa, illud também antecede o relativo (ille qui = aquele que) e também pode ser empregado em construção com hic, em que hic se refere à última pessoa citada e ille, à primeira”
“Galli et Romani pugnant; hi vincunt; illi vincuntur.
(Gauleses e romanos lutam; estes vencem, aqueles são vencidos)
Os pronomes hic e ille também se empregam juntos, significando um e outro:
Laborant; hic legit, ille scribit
(Trabalham; um lê, o outro escreve)”
Verbos derivados
“Conforme vimos na unidade 8, em latim, do verbo sum se derivam outros tantos verbos, mediante a junção de um prevérbio (um prefixo) ao verbo.”
(recapitulação!)
absum: estar ausente, faltar = desum
possum: poder
prosum: ser útil, somar
intersum: participar (etimologia de interesse)
insum: estar dentro
ex+stare
Quae quoniam non sunt penitus sublata, sed extant
(Porque estes não foram destruídos completamente, mas subsistem)
É como se survive no Inglês tivesse um sinônimo ex-stand. Ficar-para-além, permanecer mais…
Gerundivo
“O gerundivo é uma forma nominal do verbo latino que corresponde a um adjetivo. Ele se diferencia do gerúndio por ser passivo. Além disso, tem todos os casos, além de ter os 3 gêneros e os 2 números. Apresenta dois valores: exprime a idéia de destinação, quer ativa, quer passiva, e exprime a idéia de obrigação.”
magister discipulo libros legendos dedit [legere*]
os livros foram dados pelo professor, COM O EXPRESSO FIM DE QUE ELE LESSE
= PARA SEREM LIDOS
delenda est Carthago [delere*]
Cartago deve ser destruída
(*) “A partir do radical do infectum dele- ou lege-, acrescenta-se o morfema –(e)nd- mais as terminações -us, -a, -um, de adjetivos de 1ª classe.”
“No texto desta unidade, observamos o uso de um gerundivo do verbo praeponěre (colocar à frente). Como a construção é de gerundivo, a tradução indica uma obrigação na ação, ou melhor, uma destinação, já que, nesse caso, o verbo putabis (julgares) retira a ideia de obrigação:
…in prima fronte libelli
Si praeponendos esse putabis…
(…se julgares (que) eles devem ser postos no frontispício do livro…)”
“Na unidade seguinte, observaremos algumas particularidades do uso do gerúndio e do gerundivo.”
Voz passiva analítica (cont.)
“Quae quoniam non sunt penitus sublata, sed extant
(Porque estes não foram destruídos completamente, mas subsistem…)
…ablatum mediis opus est incudibus illud…
(…aquela obra foi arrancada do(s) meio(s) da(s) correção(ões)…)
Olhando muito rapidamente essas construções, somos inclinados a traduzi-las por são destruídas e é arrancada, respectivamente. Trata-se, contudo, da voz passiva analítica do latim, que se faz para os tempos do perfectum.”
“amatus, -a, um sum: eu fui amado (a)
amati, -ae, -a sumus: nós fomos amados (as)
amatus eram: eu fora amado (ou tinha sido amado)
amatus ero: eu terei sido amado
amatus sim: eu tenha sido amado
amatus essem: eu tivesse sido amado
Lembre-se: Sou amado em latim diz-se amor, com a terminação -r da passiva sintética.”
“O gerundivo não passa ao português com forma morfológica. A idéia de destinação e de obrigação é feita em português com perífrases verbais. Algumas formas de gerundivo passaram, contudo, ao português como substantivos: agenda (as coisas que devem ser feitas); Amanda (a que deve ser amada); corrigenda (as coisas que devem ser corrigidas); legenda > lenda (as coisas que devem ser lidas).”
Elegia I, 7 (Ovídio, Tristia)
vv. 35-40
“Orba parente [autor, pai da obra] suo quicumque volumina tangis, [mexer na obra]
His saltem vestra detur in urbe locus;
Quoque magis faveas, [E para que fosse mais favorável] haec non sunt edita ab ipso, [publicadas sem mim]
Sed quasi de domini funere rapta sui. [morte inesperada, morte/vida ‘raptada’]
Quicquid in his igitur vitii rude carmen habebit,
Emendaturus, si licuisset, [se é lícito… foram corrigidas] eram.”
POESIA ÉPICA
UNIDADE QUINZE:
Metamorfoses, I, 1-14
O proêmio e a narração sobre o caos
OVÍDIO
“In nova fert anĭmus mutatas dicěre formas
corpora; Di, [deuses no vocativo] coeptis, [empreendeis, cooptais] nam [de fato] vos mutastis et illas, [transformastes aquelas]
adspirate meis primaque ab origĭne mundi
ad mea perpetuum deducĭte tempora carmen.
Ante mare et terras et, quod tegit omnia, caelum
unus erat toto naturae vultus in orbe,
quem dixere chaos, rudis indigestaque moles [massa]
nec quicquam nisi pondus iners [inerente] congestaque eodem
non bene iunctarum discordia semĭna rerum.
Nullus adhuc mundo praebebat lumĭna Titan,
nec nova crescendo reparabat cornua Phoebe,
nec circumfuso pendebat in aere tellus [terra]
ponderĭbus librata suis, nec bracchia [braço] longo
margĭne terrarum porrexerat [atingira, dera, apresentara] Amphitrite.
[…]”
“a palavra deus apresenta o mesmo radical que origina a forma divos ou divus, que quer dizer ‘deus’, ‘divindade’ e também é utilizada como adjetivo, com o sentido de ‘divino’. Em sua declinação veremos algumas particularidades.”
“As Titânides eram: Febe, a da coroa de ouro, Titânide da lua (…) Phoebe: Febe (Diana ou a Lua, irmã de Febo, Phoebus, que é Apolo, o Sol)” Mas Diana não era filha de Zeus? Bom, no Olimpo tem de tudo mesmo… Pode ser irmã e tia de Apolo ao mesmo tempo…
“o verbo dico, -is, dicere, dixi, dictum, além de significar dizer, consagrar, proferir, também quer dizer cantar; cantar como trabalho do poeta, daí os livros serem chamados também de cantos (…) o verbo dico, -is, dicere, dixi, dictum tem [ainda] o sentido de chamar, designar. Traduz-se dixere da mesma forma que dixerunt, ou seja, pela 3ª pessoa do plural do pretérito perfeito”
Os cantos são diferentes do centro, que é silencioso.
Como mudou? Ora, mudou mudando!
Declinação de deus, dei
“A palavra deus, da 2ª declinação, apresenta algumas particularidades de declinação.”
“O vocativo singular de deus se registra após a época cristã, e a sua forma no chamado período da decadência é igual ao nominativo (deus). No período clássico, o vocativo utilizado é dive (de divus).” Fora com deus daqui!
“As palavras em –ĭus da 2ª declinação terão geralmente vocativo em –i. Isso ocorre com nomes próprios (à exceção daqueles de origem grega, como Darīus, com o ī, que fará o vocativo em –e: Darie) e com palavras como filius (voc. fili), genius (voc. geni). Também fará vocativo em –i o pronome meus.”
GLOSSÁRIO
alvus: ventre
publĭce: (adv.) às custas do Estado
satis: (adv.) satisfatoriamente
tueri: defender – em francês tuer é praticamente a antonomásia!
Síncopes verbais
“A 3ª pessoa do plural do pretérito perfeito, além da terminação em –erunt, pode também ser em -ere:
… quem dixere chaos
(… a qual chamaram caos)
X vs. C: Aparentemente, imaginamos se tratar de um infinitivo, pela terminação -ere, mas o infinitivo do verbo é dicere.
dico, -is, dicěre, dixi, dictum
dixerunt = dixere”
(espécie de síncope ainda mais elaborada)
Gerúndio
“O gerúndio pode se construir com um objeto direto, em função da sua regência:
a) Cupidus legendi fabulam (desejoso de ler a fábula)
Nesse tipo de construção, o gerúndio pode ser substituído pelo gerundivo e não haverá alteração de sentido:
b) Cupidus fabulae legendae(desejoso de ler a fábula)”
“Nesse caso, o gerundivo não indica uma idéia de obrigação.”
desejoso de ver a cidade:
cupidus videndi urbem
cupidus urbis videndae
“A substituição não deve ocorrer quando o complemento do gerúndio é um adjetivo ou pronome neutro:
Cupidĭtas discendi alĭquid(Desejo de aprender algo)”
“Em algumas situações, torna-se obrigatória a substituição do gerúndio pelo gerundivo:
1. Quando o gerúndio deveria estar no dativo: Impar fami ferendae (incapaz de suportar a fome), e não impar ferendo famem. Nesse caso, o adjetivo impar se constrói com dativo, de forma que o gerundivo e seu complemento vão para esse caso, em concordância de gênero e número.
2. Quando o gerúndio está no acusativo com ad: Magister tacuit ad voces audiendas (O professor se calou para ouvir as vozes) e não ad audiendum voces.
3. Quando o gerúndio está no ablativo com preposição: deterruit eum a bello faciendo (dissuadiu-o de travar a guerra) e não a faciendum bellum.”
Heranças do português
“Em português, em certos registros lingüísticos, também ocorrem síncopes de toda ordem: paralepípedo[dessa eu ainda não tinha ouvido falar] por paralelepípedo; bebo por bêbado; cosca por cócega; chacra por chácara.”
“O gerúndio no português manteve apenas sua forma de ablativo, como um adverbial. Os usos dos demais casos foram substituídos por preposições seguidas do verbo na sua forma de infinitivo.” O que é, convenhamos, 300x mais conveniente!
A separação dos elementos (I, vv. 15-27)
“Utque erat et tellus illic et pontus [oceano] et aer,
Sic erat instabilis tellus, innabilis unda,
Lucis egens [extraindo] aer; nulli sua forma manebat
Obstabatque aliis aliud, quia corpore in uno
Frigida pugnabant calidis, umentia siccis,
mollia cum duris, sine pondere habentia pondus.
Hanc deus et melior litem natura diremit;
Nam caelo terras et terris abscidit undas
Et liquidum spisso [denso] secrevit ab aere caelum.
Quae postquam evoluit caecoque exemit acervo,
Dissociata locis concordi pace ligavit.
Ignea convexi vis et sine pondere caeli
Emicuit [irrompeu] summaque locum sibi fecit in arce. [de arx, nas alturas]”
GLOSSÁRIO:
coeptis: começar
cornua: corno ou meia-lua, dependendo do contexto
eodem: igualmente
habentia: tendo
vultus: rosto (LEMBRE-SE!)
Deuses brigando:
– Foi você que começou!
– Não, foi você!
– Parem de brigar, meninos! (Essa é Gaia.)
A que pontus chegamos!
UNIDADE DEZESSEIS:
Metamorfoses, I, 69-81
A criação dos animais e o surgimento do homem
OVÍDIO
“Vix [Mal, no sentido de logo que] ita limitĭbus dissaepserat [separada] omnia certis
cum, [neste contexto, quando] quae pressa [comprimido] diu [de dia] massa latuere [escondida] sub illa,
[Mal havia o caos sido separado e a terra e os céus organizados distintamente, quando…]
siděra [constelação] coeperunt toto effervescěre caelo.
[as constelações começaram a se espalhar, criando novas coisas]
Neu [E não] regio foret [estivesse, do sum, fuisse] ulla suis animalibus orba, [privado de]
astra tenent caeleste solum formaeque deorum,
[O céu se espalhou/estendeu para que a terra não estivesse privada de animais]
[quer seja fortuito que a terra, recentemente separada do céu, tenha mantido o germe divino – ou seja: casual ou voluntariamente, o fato é que o homem, animal superior, existe.]
GLOSSÁRIO:
aether, -ěris ou ěros: “(m) éter, região superior do ar que envolve a atmosfera; parte do céu, sede do fogo; fogo; o céu, a mansão dos deuses; o ar; o mundo dos vivos (por oposição aos infernos)”
evenio: evento
tenent: “do verbo teneo, -es, -ere, tenui, tentum, que quer dizer ter, segurar, atingir, obter, dirigir, compreender, perceber, adquirir, saber, manter, perseverar, conter. Também significa governar, comandar”
Palavras compostas
“As palavras compostas são formadas por mais de um elemento sendo o primeiro uma partícula ou um tema nominal. Nos compostos nominais, o primeiro elemento é um tema nominal que se apresenta geralmente sem desinências, tomando um –i final. Veja uma palavra que apareceu no texto desta unidade:
opĭfex, -ĭcis: (m e f)
Do substantivo opus (obra) + -fex (do verbo facio, fazer, criar) significando: criador, autor, artista”
fazedor de obra, aquele que faz obra
pontifex: aquele que possui autoridade, aquele que faz a ligação (espiritual)
“O primeiro elemento de um composto nominal pode tomar um –u final se o segundo elemento começar por uma consoante labial:
locuples, -etis:
Do substantivo locu (terras) + -ples (do verbo pleo, encher) significando: rico em terras”
me locupleto. repleto.
“Os compostos verbais são formados quase que exclusivamente por meio de partículas prepositivas, originando verbos derivados:
abest:
partícula prepositiva ab- (ideia de afastamento) + est (estar) significando: está ausente
adest:
partícula prepositiva ad- (ideia de aproximação) + est (estar) significando: está presente
Alguns prefixos ou partículas podem sofrer alterações por conta de assimilações fonéticas:
affero:
partícula prepositiva ad- (ideia de aproximação) + fero (levar, trazer) significando: trago, levo para ou contra, anuncio
oppono:
partícula prepositiva ob- (em face de) + pono (pôr) significando: oponho”
Estruturas correlativas
sive…sive
AB-HORTO & AD-OPÇÃO:“Muitos dos compostos latinos passam ao português com a perda do sentido dos elementos da composição. Assim, um falante do português dificilmente percebe em uma palavra como aborto a formação a partir da partícula prepositiva ab- (negação, afastamento) e do substantivo ortus (nascimento), significando negação do nascimento. O contrário também ocorre com adoção, em que os elementos da composição (ad-, idéia de aproximação, e optio, significando opção) não são mais percebidos.”
“Quam satus [gerado, plantado] Iapěto [pai de Prometeu, portanto praticamente nosso pai também] mixtam pluvialĭbus undis
finxit [modelou, esculpiu] in effigĭem moderantum cuncta deorum;
pronăque [inclinado] cum spectent animalĭa cetěra terram,
os [boca, rosto, fisionomia…] homĭni sublime dedit caelumque tueri
iussit [ordenasse] et erectos ad siděra tollěre vultus. [levantar o rosto]
Sic, modo quae fuěrat rudis et sine imagĭne, tellus
“No exercício, ao final desta unidade, analisaremos os versos de 113 a 124, que tratam da idade de prata, momento em que reina Júpiter, após a expulsão de Saturno para os tártaros tenebrosos.”
Ida de dela tá
Metamorfoses (I, 89-107)
“Aurěa prima sata est aetas, quae vindĭce nullo,
sponte sua, sine lege fidem rectumque colebat.
Poena metusque aberant nec verba minantia fixo
aere legebantur, nec supplex turba timebat
iudicis ora sui, sed erant sine vindice tuti.
Nondum caesa [esverdeada] suis, peregrinum ut viseret orbem,
Nondum praecipĭtes cingebant oppĭda fossae; [nenhuma cidade precisava de muros]
non tuba directi non aeris cornua flexi,
non galeae, non ensis erat; sine militis usu
mollia securae peragebant otĭa gentes.
Ipsa quoque immunis rastroque intacta nec ullis
saucia vomerĭbus per se dabat omnia tellus;
contentique cibis nullo cogente creatis [a terra dava de comer a todos os homens]
arbuteos fetus montanaque fraga legebant
cornaque et in duris haerentia mora rubetis
et quae deciderant patula [abundante] Iovis arbore glandes.
ver erat aeternum…”
Uso do dicionário
“A partir deste momento, trabalharemos na direção do uso mais freqüente do dicionário, razão pela qual os vocabulários passarão a contar com um número cada vez mais reduzido de palavras.” Já estava na hora, amiguinho… Você vinha repetindo o léxico sem dó!
GLOSSÁRIO:
“aes, aeris: (n) bronze, dinheiro, moeda, fortuna” “Não confundir com aer, aĕris, palavra masculina também da 3ª declinação que significa ar, ar atmosférico)”
fazer serão é passar a madrugada plantando na horta, semeando a vagem, mamando a glande do jardim profícuo, até ficar, sensata, saciada.
“spontis: vontade, desejo, voluntariamente, por si mesmo, por sua própria vontade (sponte sua); sponte (abl.)”
desponta um feto um fato um novo dia de livre volição
“vindex, -ĭcis: (m e f) fiador, vingador, protetor”
glande do carvalho – mostrando como a natureza era viril na idade de ouro!
“Poderia ser uma palavra de difícil localização no dicionário, já que em seu nominativo ocorre a perda da consoante dental <t>. Em casos de palavras como essas, para localizá-las no dicionário, consideramos seu genitivo spontis e levamos em conta que a dental que antecede a terminação -is do genitivo não aparece no nominativo (spons, spontis). O mesmo ocorre com dens, dentis ou cupiens, cupientis.”
Os tradutores disponíveis hoje em português, mesmo os sumos, são horrendos. Nenhum sentido de beleza, nenhuma harmonia com o vernáculo!
“Os dicionários costumam informar se se trata de um verbo depoente.”
!recordar é viver!“Os verbos semidepoentes são aqueles – poucos – que apresentam, nos tempos do infectum, as formas ativas, e, para os tempos do perfectum, seguem a conjugação dos depoentes. audĕo, -es, -ere, ausus sum: ousar”
o usar da língua
o ousar da língua
levanto o braço e mostro a ingua
“em alguns verbos, ocorrem síncopes, algumas das quais são registradas”
“Atenção aos pluralia tantum
Palavras que só são utilizadas no plural (ou que no plural podem ter outro significado) aparecem registradas no nominativo e genitivo plural: fraga, -orum”
Fragrâncias do Nordeste
“Atenção a palavras com particularidades morfológicas
Algumas palavras em latim apresentam diferenças temáticas significativas entre o nominativo e o genitivo, o que pode ocasionar alguma dificuldade para sua localização no dicionário.
iter, itiněris: (n) viagem
Iuppĭter, Iovis: (m) Júpiter
os, ossis: (n) osso [afirmativo, mestre Wing!]
cor, cordis: (n) coração [Pelé tricordiano – violão de 7 cordas tem muita emoção – coração de escorpião cordissimulado]
caro, carnis: (f) carne [no Brasil 2016-2022, muito fácil associar!]
bos, bovis: (m) boi [chefe é tudo gado – Madame Vacary; Simone de Boo Vwa]
sus, suis: (m) porco [je suis suíno suinócuo suicídio que emporcalhou tudo, era neurônio espalhado que nem merda pra todo lado! Among us, no sistema único de saúde mais próximo…]
iusiurandum, iurisiurandi:(n) juramento
respublica, reipublicae:(f) o Estado”
quero colônia de exploração, vou fugir de casa
* * *
FINALMENTE TERCEIRO (JÁ ESTAVA DANDO TRABALHO FICAR NO ALTO DO PÓDIO)
“Postquam, Saturno tenebrosa in Tartara misso,
sub Iove mundus erat, subiit argentea proles, [BICAMPEÃ DO MUNDO!]
auro deterior, fulvo pretiosior aere.
Iuppiter antiqui contraxit tempora veris
perque hiemes aestusque et inaequalis autumnos
et breve ver spatiis exegit quattuor annum.
tum primum siccis aer fervoribus ustus [incendiar, urânio]
canduit, et ventis glacĭes adstricta pependit;
tum primum subiere domos; domus antra fuerunt
et densi frutices et vinctae [vincular] cortice virgae. [com vara curta]
semina tum primum longis Cerealia sulcis
obruta sunt, pressique iugo gemuere iuvenci.”
ACABOU A GENEROSIDADE! VEM O GENERAL, NEM DA TERRA NEM DOS MARES!
O ablativo absoluto
“Tomando a estrutura em destaque nos versos abaixo, perceberemos uma construção especial em latim, o ablativo absoluto, formado por um nome no ablativo acompanhado por um particípio também no ablativo. Como resulta numa oração completamente independente sintaticamente da oração principal a construção é chamada de ablativo absoluto:
Postquam, Saturno tenebrosa in Tartara misso,
sub Iove mundus erat, subiit argentea proles…”
Exatamente como se fosse um epíteto, fixado, solidificado. Quer algo mais absoluto que o tempo que eu te dedico?
a província cis-platina é –a mas é transfóbica!
Caesar, dux, Rubiconem flumen transit
VERTA: “Hostibus victis, civibus salvis, re placida, pacibus perfectis, bello exstincto, re bene gesta, integro exercitu et praesidiis, cum bene nos, Iuppiter, iuvisti, dique alii omnes caelipotentes, eas vobis habeo gratis atque ago, quia probe sum ultus meum inimicum.”
“Após os inimigos vencidos, os cidadãos salvos, tudo em paz, a paz consumada, a guerra terminada, as coisas bem-conduzidas, todos do exército em de suas guarnições vivos, com a bênção de Júpiter, e sabeis ó vós outros deuses onipotentes do firmamento, tenho vossa graça, e por isso realizei minha vingança.”
Plauto, Persas, vv. 753-56
GLOSSÁRIO:
eo, is, ire, ivi ou ĭi, itum: ir (futuro imperfeito, ibo)
proelium: batalha
UNIDADE DEZOITO:
Metamorfoses, I, 125-136
A idade de bronze e a idade de ferro
OVÍDIO
“Nesta unidade, analisaremos os versos de 125 a 136, que tratarão sobre a idade de bronze (cruel, mas não criminosa) e a idade de ferro (atroz e criminosa). Ao final desta unidade, analisaremos os versos de 141 a 150, continuando a leitura sobre a idade de ferro, com o surgimento das guerras e das traições de toda ordem.” Que beleza!
Metamorfoses (I, 125-36)
“Tertĭa post illam successit aeněa proles,
saevĭor [mais indomáveis, revoltosos] ingenĭis et ad horrĭda promptĭor arma, [a qualquer hora prontos para pegar em armas]
non scelereta tamen. [mesmo os que não eram criminosos] De duro est ultĭma ferro;
Protĭnus [De súbito] inrupit venae peioris in aevum [age]
omne nefas; fugere pudor verumque fidesque,
in quorum subiere [sucederam-se] locum fraudesque dolique
insidiaeque et vis et amor sceleratus habendi. [a vontade criminosa de tudo possuir, a sede insaciável de se apoderar das coisas – cobiça, sanha]
Vela dabat ventis neque adhuc bene nověrat illos
navĭta quaeque diu stetěrant in montĭbus altis
fluctĭbus ignotis insultavere carinae [fez saltar a quilha, i.e., deixou todas as embarcações ‘morais’ de ponta-cabeça]
communemque prius, ceu lumĭna solis et auras,
cautus humum [terreno] longo signavit limĭte mensor.”
GLOSSÁRIO:
armas: “Com o sentido de armas defensivas, pode ser oposto a tela (telum,–i), armas ofensivas. Também pode significar guerra, combate, homens armados, exército)”
promptior: “mais disposta (do adjetivo promptus, -a, -um, no grau comparativo de superioridade. Pode significar tirado para fora, exposto, que está à mão. Próximo a esse último sentido, também significa disposto, inclinado a, pronto, ativo)”
nefas: “atrocidade (palavra indeclinável, que pode significar o que é proibido pela lei divina, o que é ímpio, injusto ou criminoso. (…) Nefas é uma palavra formada pela negação ne + fas, que quer dizer expressão da vontade divina, o que é lícito, o destino. A expressão fas est traduz-se por é permitido, é lícito)”
steterant: “estiveram imóveis (o verbo stare em latim significa estar de pé, estar levantado; é o contrário de iacere, jazer, estar deitado. O sentido estar, como temos no português, é dito pelo verbo esse. No contexto trabalhado, pode-se traduzir o verbo stare por estar imóvel)”
noverat: “conhecera (o verbo do texto é o verbo nosco, -is, -ere, novi, notum, que quer dizer conhecer, saber; em latim, há também o verbo novo, -as, -are, novavi, novatum, com o sentido de renovar)”
diu: “aqui deve ser traduzido por há muito tempo, durante muito tempo”
“em alguns verbos, como o verbo subire, o perfeito pode ter uma outra forma, com uma síncope do –v–” subivi subii
Quando o verbo é de 1ª conjugação a síncope é da partícula –ra–: amaravi amavi
subiveram subieram
subivero subiero
subiverim subierim
subivissem subiissem
“Ernesto Faria (1958) divide o tema do perfectum em 3 tipos distintos: perfectum de tipo em –v–, de tipo radical e de tipo sigmático.”
Ex:
1.
subeo
insulto: saltar sobre ou contra, saltar, pular, dançar (mais genérico impossível)
“isto é um insulto!” = aí você saltou longe demais!
sto, -as, -are, steti, statum:estar de pé, estar levantado, estar imóvel, ficar firme, fixar-se, persistir –estoicismo: filosofia da persistência, do manter-se incólume
fugio, -is, -ere, -fūgi, -fugitum
irrumpo, -is, -ere, -rupi, -ruptum
3.
succedo, -is, -ere, -cessi, -cessum = SUBEO na conotação
tuxedo
“Protĭnus inrupit venae peioris in aevum
omne nefas
(Imediatamente irrompeu tudo o que é atrocidade na idade do pior filão…)”
“Nesta atividade, trabalharemos com os versos de 141 a 150 do Livro I das Metamorfoses, que tratam sobre a idade de ferro, com a narração do surgimento das guerras e a indicação dos diversos tipos de traições.” (Ainda não estávamos nela???)
A idade de ferro (continuação)
“Iamque nocens ferrum ferroque nocentius(*) aurum
prodiěrat; prodit bellum, quod pugnat utroque,
sanguineaque manu crepitantia concutit [tremer, vibrar] arma.
Vivitur ex rapto; non hospes ab hospĭte tutus,
non socer a geněro; fratrum quoque gratia rara est.
Imminet exitio vir coniugis, illa mariti; [dissolvera-se a força dos laços conjugais]
Victa iacet pietas [vencida jazeu a piedade; a piedade jaz vencida] et virgo caede madentis[úmidos, mas também cheios, repletos, como aqueles que se enchem de tanto beber],
ultima caelestum, terras Astraea reliquit. [os deuses abandonaram a terra e os mares aos homens, confinando-se nos céus]
(*) Preste atenção ao morfema –ius de grau comparativo de superioridade para palavras neutras. Comparam-se aqui os neutros aurum e ferrum.”
Ironia das ironias, quando enferruja o coração humano produz muito mais ouro!
Acusativo plural em -is
“Observando os últimos versos trabalhados nesta unidade, nos deparamos com a palavra madentis, um adjetivo que segue a 3ª declinação (madens, gen.: madentis). A princípio, poderíamos pensar que se trata de uma palavra no genitivo singular, mas a terminação –is é também de acusativo plural (–is ou –es) (…) Assim, o adjetivo madentis concorda com o substantivo terras, também no acusativo plural (1ª declinação).”
tradução mais perfeita que a minha tentativa acima:
“…e a virgem Astréia, última dos deuses, abandonou
as terras umedecidas (pelo sangue)”
UNIDADE DEZENOVE:
Metamorfoses, I, 318-55
Deucalião e Pirra após o dilúvio
OVÍDIO
“Depois do dilúvio, restam apenas um homem, Deucalião, e uma mulher, Pirra.”
“Nos versos que iremos ler ao final desta unidade, Deucalião e Pirra resolvem consultar o oráculo para saber sobre como repovoar a terra.” O oráculo não tem genitais? Se for Tirésias, poderá engravidar Pirra e ao mesmo tempo engravidar de Deucalião!
Metamorfoses (I, 318-355)
“Hic ubi Deucalĭon, nam cetěra texerat aequor,
cum consorte tori parva rate vectus adhaesit,
Corycĭdas nymphas et numĭna montis adorant
fatidĭcamque Themin, quae tunc oracla tenebat.
Non illo melĭor quisquam nec amantĭor aequi
vir fuit, aut illa metuentĭor ulla deorum.
[…]
Reddĭtus orbis erat; quem postquam vidit inanem
et desolatas agěre alta silentĭa terras,
Deucalĭon lacrĭmis ita Pyrrham adfatur [fala a Pirra – quem fala, fala algo a alguém] obortis:
‘O soror,(*) o coniunx, o femĭna sola superstes,
quam commune mihi genus et patruelis origo,
deinde torus iunxit, nunc ipsa pericŭla iungunt,
terrarum, quascumque vident occasus et ortus,
nos duo turba sumus; possedit cetěra pontus.
[…]”
(*) “Como Prometeu e Epimeteu eram irmãos, Deucalião e Pirra eram primos. Todos eles descendem de Jápeto, filho de Urano e Gaia.”
GLOSSÁRIO:
alta: “profundos, elevados (do adjetivo altus, -a, -um – alto, profundo, elevado. Acusativo plural neutro, alta concorda com silentia: altos silêncios ou profundos silêncios)”
Eu sou alto, em todos os sentidos.
ortus: “nascente (do substantivo masculino ortus, -us: nascimento, origem, o nascer dos astros; antônimo de occasus)” Ortus e occasus também podem ser usados para se referir a sol nascente e poente.
Caiu no horto, nasceu.
tenebat: “presidia (o verbo teneo, -es, -ere, tenŭi, tentum, além de significar ter, segurar, também significa dirigir, comandar, presidir, governar)”
Acusativo de pessoa e acusativo de coisa (duplo acusativo)
“No texto que lemos nesta unidade, encontramos uma construção com o verbo adfatur (affatur), do verbo depoente affor”
“Certos verbos latinos que em português se estruturam com argumentos internos objeto direto e objeto indireto são construídos em latim com acusativo de pessoa e acusativo de coisa. Em geral, resultariam de construções com duas frases nas quais o mesmo verbo teria objetos diretos distintos, do tipo:
Hoc rogo [Rock Howard](peço isto)
Te rogo (te peço)
Hoc te rogo (peço-te isto) (acc.+acc.)
“O duplo acusativo ocorre com verbos que apresentam o sentido geral de:
“flagitare (solicitar, rogar, implorar): me cibum flagitabat”
“rogare (perguntar, interrogar; pedir, rogar): te pauca rogabo”
inter-rogar
b) “ensinar (docere) e ocultar (celare):
docŭi discipŭlos eam[aquela] artem
Celabo te res Romanas”
“Bassus me de hoc libro celavit
(Basso não me deu notícia deste livro, não deu notícias deste livro a mim)”
c) “aconselhar, exortar (hortor, cohortor, exhortor),¹ advertir (monĕo, admonĕo):
Eos pacem hortabatur.
Milĭtes ad ultionem exhortatur”
¹ Daí o sentido original de côrte ou conselho dos sábios governantes.
A consulta ao oráculo
“[…] ‘O utĭnam possim popŭlos reparare paternis
artĭbus atque anĭmas formatae infunděre terrae!
Nunc genus in nobis restat mortale duobus,
sic visum supěris: homĭnumque exempla manemus.’
Dixěrat et flebant. Placŭit caeleste precari
numen et auxilĭum per sacras quaerěre sortes.
Ut templi tetigere gradus, procumbit uterque
pronus humi gelĭdoque pavens dedit oscŭla saxo
atque ita: ‘Si precibus’ dixerunt ‘numina iustis
victa remollescunt, si flectitur ira deorum,
dic, Themi, qua generis damnum reparabĭle nostri
arte sit et mersis fer [consentir] opem, mitissima, rebus!’
Mota dea est sortemque dedit: ‘Discedite templo
et velate caput cinctasque resolvite vestes
ossaque post tergum [voltar] magnae iactate parentis!’”
[voltarão já como contentes pais]
Verbos impessoais
“Conforme o que já estudamos, os verbos impessoais são empregados na 3ª pessoa do singular de todos os tempos e no infinitivo. É comum esses verbos serem construídos tendo um infinitivo ou uma oração infinitiva como sujeito. Veja o uso do verbo placere (parecer bem, agradar) no texto lido na atividade:
placuit caeleste precari
numen et auxilĭum per sacras quaerěre sortes.
verbos de clima;
decet, decere, decuit: convir, ser conveniente, ficar bem;
libet ou lubet, -ere, libuit ou libĭtum est: agradar, dar prazer, achar bem;
licet, -ere, licuit ou licĭtum est: ser permitido, ser lícito, poder, ter o direito;
oportet, -ere, oportuit: é preciso, é bom, convém, é necessário, é útil.”
“Eos infamiae suae non pudet.
(Eles não têm vergonha de sua infâmia)”
miseret, miserere, miseruit: compadecer-se
paenitet, paenitere, paenituit
constat, -are, constĭtit: é certo, é evidente, é reconhecido;
patet, -ere, patuit: estar patente, estar evidente;
expedit, -ire, expedivit: ser útil; rapaz expedito!
iuvat, -are, iuvit: agradar; agradar a Jove
praestat, -are, praestitit: ser melhor, valer mais, ser preferível. em suma, prestar!
“além de construções com proposição infinitiva, há construções com subjuntivos, com ou sem conjunção: ad me redeas oportet (Cíc.: convém que venhas para junto de mim / …vir para…).”
GLOSSÁRIO:
compono, -is, -ere, -posui, -posĭtum: acalmar
no fio da navalha feita e afiada
fluctus, -us: (m) onda
prosum, prodes, prodesse, profui: ser útil (profuisse é o infinitivo perfeito)
utor, -eris, uti, usus sum: (dep.) empregar, utilizar (com ablativo)
O locativo
“O locativo é um antigo caso do indo-europeu que servia para indicar o lugar em que se está e, por extensão, o tempo. Em latim, ficaram alguns vestígios, especialmente no singular da 1ª e da 2ª declinação. Segundo Ernesto Faria, foi, de modo geral, substituído pelo ablativo. No texto que lemos, ocorre o locativo da palavra humus (chão, terra). Veja:
pronus humi
(inclinado no chão)
Terminações do locativo:
1ª declinação (-ae): conserva-se nos nomes de cidades do singular.
Romae: em Roma
2ª declinação (-i): conserva-se também no singular em nomes de cidades e de pequenas ilhas.
Lugduni:em Lião; humi:no chão; domi:em casa (2ª e 4ª declinações)
3ª declinação (-i): conserva-se apenas em ruri (do substantivo rus, ruris, campo) e em alguns nomes de cidades.
Ruri:no campo”
UNIDADE VINTE:
Metamorfoses, I, 388-402
Ponderações sobre o oráculo e o lançamento das pedras
OVÍDIO
Metamorfoses (I, 388-402)
Ponderações sobre o oráculo e o lançamento das pedras
“Interěa repětunt caecis obscura latebris
verba datae sortis secum inter seque volutant.
Inde Promethiădes [Prométida ou Prometíade, i.e., Deucalião, filho de Prometeu] placĭdis Epimethĭda [Pirra, filha de Epimeteu]¹ dictis
mulcet [acalmar] et: ‘Aut fallax’ ait ‘est sollertĭa nobis,
aut pia sunt nullumque nefas oracŭla suadent.
Magna parens terra est; lapĭdes in corpŏre terrae
ossa reor dici; iacĕre hos post terga iubemur.’
[¹ Ou seja: derivamos dos titãs, e não nos deuses. Derivamos dos deuses primevos que geraram os deuses; os deuses são apenas nossos irmãos. Somos de uma hierarquia até pré-celestial, vindos diretos do caos e do primeiro relógio organizador do movimento dos astros e da matéria. Perto dos imortais que reinam, somos, quem podê-lo-ia dizer?, gigantes.]
O raciocínio de Deucalião agrada a Pirra.
Entre esperanças e dúvidas, decidem seguir a predição
Discedunt velantque caput tunĭcasque recingunt [circundam]
et iussos lapĭdes sua post vestigĭa mittunt.
Saxa [Os seixos] (quis hoc credat, nisi sit pro teste vetustas?)
poněre duritiem coepere suumque rigorem
mollirique mora mollităque ducěre formam.”
Ora, o homem não é pedra, senão barro, i.e., terra molhada.
Palavras de mais de uma declinação
“Algumas palavras em latim podem ser flexionadas por mais de uma declinação. Nesta unidade, por exemplo, observamos a palavra duritiem, pela 5ª declinação. Trata-se de uma palavra que pode ser declinada pela 1ª (duritia, -ae) ou pela 5ª (durities, -ei). Muitas palavras da 5ª declinação apresentam esses doublets na 1ª (materia, -ae ou materies, -ei; mollitia, -ae ou mollities, -ei; laetitia, -ae ou laetities, -ei).
“Os dicionários costumam mostrar essas especificidades. Veja-se, por exemplo, o caso da palavra vas:
vas, vasis: (n) no plural vasa, -orum (o sing. vasum caiu em desuso).
1. Vaso, vasilha, recipiente, pote;
2. Utensílios de cozinha, móveis;
3. (Pl.) bagagens, equipamento (dos soldados).”
Verbos freqüentativos
“volvo, -is, -ěre, volui, volutum: rolar, fazer rolar, fazer dar voltas, revolver; revolver no espírito, refletir, meditar.
voluto, -as, -are, -avi, -atum:(freq. de volvo) rolar por várias vezes; revolver no espírito, meditar, discutir, examinar, debater.”
“Freqüentativos são verbos que se derivam do particípio (vide supino sublinhado) e indicam uma ação repetida, podendo ser puramente intensivos.”
Herança portuguesa: resoluto, resolvido…
“Interěa¹ repětunt caecis obscura latěbris²
verba datae sortis secum³ inter seque volutant.4
(Nesse meio tempo,¹ repetem consigo as palavras obscuras,² com significados ocultos, da predição concedida,³ e entre si meditam)4” voltam-se para dentro de si mesmos
“Aqui, o uso do freqüentativo voluto indica a intensidade da meditação de Deucalião e Pirra, tentando, a qualquer custo e repetidamente, entender a predição oracular.”
Verbos incoativos
“O latim também tem verbos conhecidos como incoativos. São verbos que indicam o início da ação e apresentam o sufixo –sco, como cresco, crescer, aumentar, engrandecer-se (incoativo de creo, criar, fazer crescer, produzir). Outra forma de fazer construções incoativas é através de uma perífrase verbal.”
NO PORTUGUÊS:
“Há também casos, poucos, em que palavras de um determinado grupo, por razões externas à língua, passam a assumir características de outro grupo: presidente (do grupo de palavras em –e), presidenta (assumindo terminação do grupo de palavras em –a).”
A metamorfose das pedras
Uma Pirra e um Deucalião muito mais formosos…
“Mox, ubi creverunt naturăque mitĭor illis
contigit, ut quaedam, sic non manifesta, videri
forma potest homĭnis, sed uti de marmŏre coepta
non exacta satis rudibusque simillima signis. [signo, figura, estátua neste contexto]
[…] saxa
missa viri manĭbus facĭem traxere virorum
et de feminěo reparata est femĭna iactu.
Inde genus durum sumus experiensque laborum
et documenta damus qua simus origĭne nati. »
Genitivo complemento de adjetivo
Inde genus durum sumus experiensque laborum.
(Por essa razão, somos uma natureza dura e experientedos esforços/habituada aosesforços.)
ODES
“A palavra ode, de origem grega (canto), nos chega pelo latim tardio. Entre os romanos, a palavra carmen era o seu equivalente, com o sentido de canto, som de voz ou dos instrumentos, composição em verso, poesia e, ainda, divisão dum poema, canto.
Para os antigos, o termo ‘lírica’, do gênero a que pertence a ode, tem um caráter técnico, referindo-se a uma composição para ser cantada com o acompanhamento da lira ou de outros instrumentos de corda.”
“Estariam, assim, fora dos limites da lírica, diferentemente do que se concebe como lírica nos dias de hoje e no período helenístico, conforme veremos, a poesia elegíaca e a iâmbica (executadas com acompanhamento de instrumento de sopro) e o epigrama (cuja origem remonta a inscrições, vinculada à materialidade do escrito, não sendo, portanto, destinada ao acompanhamento musical).”
“na época helenística, à excepção da lírica coral destinada às festas e ao culto, todos estes géneros deixaram de ser executados com acompanhamento musical e passaram a ser poesia destinada à leitura.”
CITRONI
“Ou seja, na sua origem, era nas diversas modalidades de execução musical que se dava a distinção entre os gêneros, e essa distinção, a partir do período helenístico, se circunscreve exclusivamente à diversidade dos metros.
Apresentando composições líricas de tom normalmente solene e entusiasta, as odes podem tratar de temas variados.”
“Segundo Martins (2009), se as ações superiores (heróicas e divinas) estariam ligadas à tragédia e à épica e as ações inferiores (pautadas pelo vício), à comédia, à sátira ou à inventiva jâmbica:
por sua vez, as ações do homem comum são aquelas que nos diferem por não serem unicamente viciosas ou virtuosas, então elas não teriam outro lugar para serem representadas senão a poesia da subjetividade lírica…” Eis o nascimento da poesia moderna. O coração doído e machucado de gente como a gente.
“A ode seria, pois, um subgênero do gênero lírico, podendo apresentar, como se pode ver em Horácio, uma diversidade de temas e esquemas métricos. Horácio se inspira nos efeitos impressivos especiais dos metros eólicos e, em suas Odes, busca a compatibilidade entre forma e conteúdo (PENNA, 2007). Basicamente, estão, pois, entre suas fontes de inspiração os líricos eólicos de Lesbos, do séc. VI a.C.: Alceu, Safo e Anacreonte.”
“A ode, após ter ficado praticamente abandonada durante a Idade Média, irá reflorescer a partir do Humanismo, no séc. XV. Continuará a ser cultivada, ainda que sem o mesmo fascínio, durante o período do Romantismo, mas com novos matizes, mais subjetivista (MASSAUD MOISÉS).”
“No Brasil, surge no séc. XVIII, tendo sido experimentada, em períodos distintos, por poetas como Cláudio Manuel da Costa, Castro Alves, Mário de Andrade e Carlos Drummond de Andrade, para ficar com os principais nomes.”
UNIDADE VINTE E UM:
Carmen I, 11
HORÁCIO
“Apesar de ter origem humilde, Horácio é enviado por seu pai a Roma para continuar seus estudos, tendo sido aluno de um certo Orbilius, descrito por ele como plagosus (aquele que gosta de bater) [!]. Conseguiu até mesmo ir se aperfeiçoar na Grécia, um privilégio para poucos. Por lá, se dedicava à filosofia e tomava conhecimento da poesia grega, dois aspectos fundamentais em sua obra.
Horácio é apresentado a Mecenas pelos consagrados poetas Virgílio e Vário. Mas recusa-se a escrever a poesia épica encomendada por Mecenas, tendo ficado Virgílio com a incumbência de fazer a epopéia latina.”
“Horácio escreveu 4 livros de odes, 1 livro de epodos, 2 livros de sátiras, 2 livros de epístolas, a Epístola aos Pisões (com 476 versos, conhecida como Arte Poética), o Canto secular, com 76 versos.”
(*) “Todos os textos de Horácio utilizados no Latinitas seguem a edição de Les Belles Lettres: HORACE. Odes. Texte établi et traduit par François Villeneuve. Introduction et notes d’Odile Ricoux. Deuxième tirage. Paris: Les Belles Lettres, 2002.”
Carmen (I, 11)
“Tu ne quaesiěris (scire nefas [sabe mal]) quem mihi, quem tibi
finem di deděrint, Leuconŏe, nec Babylonĭos
temptaris numěros. Ut melĭus quicquid erit pati!
Seu pluris hĭemes seu tribŭit Iuppĭter ultĭmam,
quae nunc opposĭtis debilĭtat pumicĭbus mare
Tyrrhenum, sapĭas, vina liques et spatĭo brevi
spem longam resěces. Dum loquĭmur, fugěrit invĭda
aetas: carpe diem, quam minĭmum credŭla postěro.”
“Metro utilizado:
Asclepiadeu maior:
Formado por: um espondeu ( ¯ ¯ ), um coriambo ( ¯ ˘ ˘ ¯ ), uma cesura, um coriambo ( ¯ ˘ ˘ ¯ ), outra cesura, um coriambo ( ¯ ˘ ˘ ¯ ) e um jambo ( ˘ ˘ ) com uma sílaba ancípite (que pode ser breve ou longa).”
GLOSSÁRIO:
sapias: “tenhas discernimento (o verbo sapio, -is, -ěre, -ivi, -ii ou -ui significa ter gosto, ter sabor de, exalar um perfume, ter gosto, mas também significa ter discernimento, ter inteligência, ser prudente, ser sensato, saber, conhecer, compreender)”
“fugěrit invĭda aetas
(o invejoso tempo terá fugido)”
“A palavra aetas poderia ser, conforme já estudamos, uma palavra de difícil localização no dicionário, já que em seu nominativo ocorre a perda da consoante dental <t>. Como a palavra já aparece no texto no caso nominativo, não temos problema em localizá-la no dicionário. Em casos de palavras como essas, estando no texto em outros casos (aetate, abl., por exemplo), para localizá-las no dicionário, consideramos seu genitivo (aetatis) e levamos em conta que a dental que antecede a terminação -is do genitivo não aparece no nominativo (aetas, aetatis).”
“quae nunc opposĭtis debilĭtat pumicĭbus [pumex no dicionário]mare Tyrrhenum
(…que agora quebra o mar Tirreno nos opostos rochedos…)”
“Seu pluris hiemes …. tribŭit Iuppĭter…
(quer Júpiter nos dê numerosos invernos…)”
“Em palavras da 3ª declinação que fecham seu tema com consoante labial, essa consoante é mantida no nominativo (hiems).”
Palavras gregas em latim
1ª declinação
“As palavras de origem grega seguem, praticamente em todos os casos, a declinação latina. Algumas formas gregas, contudo, são conservadas pelos poetas. No texto lido, ocorre uma palavra que, pela forma como aparece dicionarizada, não se assemelha a nenhuma forma de enunciar uma palavra de declinação latina, cujos genitivos são: -ae, -i, -is, -us, -ei. A palavra Leucônoe aparece dicionarizada com o genitivo em –es.”
Leuconŏē , -ēs: Leucônoe (nome de mulher)
“A palavra cometa, -ae, por exemplo, pode aparecer dicionarizada assim: cometes, -ae. Vemos que se trata de uma palavra da 1ª declinação (genitivo em –ae), mas que, sendo tomada ao grego, se declina com algumas particularidades.” cometes uma injúria olhando tanto para o céu
Outros exemplos:epitŏme, Aeneas, Anchises
“O plural, quando existe, segue regularmente a 1ª declinação latina. O genitivo plural pode apresentar, em nomes terminados em –ădes e –ĭdes, ao lado da terminação -arum, a terminação -um.”
2ª declinação
“Seguem a 2ª declinação os nomes gregos (geralmente nomes próprios) terminados em –os, -on (ou –um) e em –eus (ou –eos), como mythos (m), Ilion, palavra neutra que quer dizer Ílio (Tróia) e Androgeus (ou Androgeos), Androgeu, filho de Minos.”
3ª declinação
“Algumas palavras gregas da 3ª declinação não foram incorporadas à 3ª declinação latina, tendo algumas passado para a 1ª e outras, para a 2ª.”
basis – bases, tigris – tigres, herōs – herōēs[vemos que o português utilizou a declinação do plural para construir seus próprios vocábulos – plurais ou singulares. I.e., caiu o “i” em base, o “i” em tigre e o “e” em herói]
lampas – lampades, crater – crateres (daí ser cratera e não crátera para nós), poēma – poemăta
Socrătēs, Paris (como o genitivo é Parĭdes, decidiu-se por Páris em pt.)
Didō, Simoīs, Orpheus (o vocativo é Orpheǖ)
Resquícios do sentido dual de saber na língua:
“O licor tinha a mais bela cor de topázio, fina e transparente. E sabia gostosamente a frutos e a doce.” (Maria Archer, Fauno Sovina, p. 98)
“Era uma infusão descorada que sabia a malva e a formiga.” (Eça de Queirós, A Cidade e as Serras, p. 162)
“Livros como vinhos: quanto mais velhos mais sabem.” (Guilherme Figueiredo, Despropósitos, p. 37)
“Nesta unidade, nossa atividade se centrará em comparação de traduções. Até este momento, vínhamos trabalhando com propostas da chamada tradução de estudo, uma espécie de versão do texto latino para a língua portuguesa com o objetivo de conhecermos o latim empregado em cada gênero. Num curso de leitura de textos em língua latina, que é o que se propõe neste material, o foco dado manteve-se mesmo nas estratégias de leitura do texto latino. Em estudos mais avançados do latim, que têm a tradução como meta, há que se debruçar sobre teorias e concepções de tradução. Assim, entre o texto de partida, em nosso caso, o texto em latim, e o texto de chegada, em português, há uma série de reflexões que devem ser feitas.”
“Apresentamos a seguir 3 traduções da ode de Horácio lida nesta unidade, uma de Filinto Elísio, do séc. XVIII, outra de Ariovaldo Augusto Peterlini, de 1992, e uma outra, mais recente, de Paulo Henriques Britto. Ao comparar essas traduções com a tradução de estudo que você fez no início desta unidade, você observará que os tradutores que apresentamos a seguir fizeram determinadas escolhas, certas adaptações, permitindo que o texto de Horácio viva de outras formas para outros leitores de outros tempos.”
Horácio: ode I, 11 por Filinto Elísio (séc. XVIII)
“Tu não trates (que é mau) saber, Leucônoe,
Que fim darão a mim, a ti os Deuses;
Nem inquiras as cifras Babilônias,
Por que melhor (qual for) sofrê-lo apures.
Ou já te outorgue Jove invernos largos,
Ou seja o derradeiro o que espedaça
Agora o mar Tirreno nos fronteiros
Carcomidos penhascos. Vinhos coa:
Encurta em trato breve ampla’sperança.
Foge, enquanto falamos, a invejosa
Idade. O dia de hoje colhe, e a mínima
No dia de amanhã confiança escores.
(FONTE: TREVIZAM, Matheus. Camena entre Brasil e Portugal. Belo Horizonte: FALE/UFMG, 2008)”
Mais arcanos que dois tucanos.
Horácio: ode I, 11 por Ariovaldo Augusto Peterlini (1992)
“Não buscarás, saber é proibido [fica mal, eu traduziria agora – ou: não inventes de…], ó Leucônoe,
que fim reservarão a mim, a ti os deuses;
nem mesmo os babilônios números perscrutes…
Seja lá o que for, melhor é suportar!
Quer Júpiter nos dê ainda mil invernos,
quer venha a conceder apenas este último,
que agora estilhaça o mar Tirreno nos penhascos,
tem siso, os vinhos vai bebendo, e a esperança,
de muito longa, faz caber em curta vida.
Foge invejoso o tempo, enquanto conversamos.
Colhe o dia de hoje e não te fies nunca,
um momento sequer, no dia de amanhã…
(FONTE: NOVAK, Maria da Gloria; NERI, Maria Luiza (org.). Poesia lírica latina. 2 ed. São Paulo: Martins Fontes, 1992)”
A regra nº 1 da boa tradução foi respeitada: há mais versos em português. Vejamos na 3ª!
Horácio no Baixo (Odes I, 11), por Paulo Henriques Britto
“Tentar prever o que o futuro te reserva
não leva a nada.Mãe de santo, mapa astral
e livro de autoajuda é tudo a mesma merda. [Hahaha, sensacional!]
A terceira tradução, embora a mais enxuta, sem dúvida é a melhor. Infelizmente sofro da doença e preconceito chamados espírito do tempo!
UNIDADE VINTE E DOIS:
Carmen III, 30
HORÁCIO
“Exegi monumentum aere perennius
regalique situ pyramidum altius,
quod non imber* edax, [voraz] non Aquilo impotens
possit dirvere [dirigir] aut innumerabilis
annorum series et fuga temporum.
Non omnis moriar multaque pars mei
vitabit Libitinam; usque ego postera
crescam laude recens, dum Capitolium
scandet cum tacita virgine pontifex.
Dicar, qua violens obstrepit Aufidus
et qua pauper aquae Daunus agrestium
regnavit populorum, ex humili potens
princeps Aeolium carmen ad Italos
deduxisse modos. Sume superbiam
quaesitam meritis et mihi Delphica
lauro cinge volens, Melpomene, comam.”
GLOSSÁRIO:
imber: “(a chuva que cai) (do substantivo masculino imber, imbris, que quer dizer aguaceiro, nuvem de chuva, chuva, água ou líquido em geral. Uma outra palavra, pluvia, tem o sentido de chuva, água da chuva. Imber tem o sentido mais próximo de a chuva que cai)”
Aquilo: “Aquilão (do substantivo Aquĭlo,-onis, Aquilão, vento do norte, filho de Éolo e da Aurora. É possível que seu nome derive de aquila, águia, por se tratar de um vento rápido, ou de aquilus, escuro, por escurecer o céu quando soprava¹)
¹ Cf. Spalding, Tassilo Orpheu. Dicionário da mitologia latina. São Paulo: Cultrix, 1999.”
Libitinam: “Deusa Libitina (do substantivo Libitina, -ae, deusa dos mortos e da morte, que presidia os funerais. Em seu templo, depositava-se tudo o que fosse necessário para as pompas fúnebres, a fim de que pudesse ser vendido ou alugado nessa situação.)
Aufidus: “Áufido (do substantivo Aufidus, -i, rio da Apúlia)”
Daunus: “Dauno (do substantivo Daunus, -i, Dauno, avô de Turno, rei da Apúlia)”
Ver ainda GRIMAL, Pierre. Dicionário da mitologia grega e romana. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1997.
Genitivo partitivo (cont.)
“Non omnis moriar multaque parsmei vitabit Libitinam…
(Não morrerei de todo e boa partede mim há de escapar à deusa Libitina…)
O genitivo mei representa a totalidade (de mim) da qual se considera uma parte (multa pars).”
Genitivo partitivo para:
a) substantivos: una pars eorum (uma parte deles)
b) adjetivos (em grau superlativo): miserrŭmus homĭnum vivum (viverei como o mais
infeliz dos homens)
c) pronomes: quem nostrum ignorare arbitraris? (quem dentre nós julgas que ignora?)
d) advérbios (quantidade, lugar e tempo): ubi terrarum esses? (em que terras estavas?)
e) certos verbos: eos infamiae suae non pudet (eles não se envergonham de sua infâmia)
Figuras de linguagem
elipse
quod non imber edax, non Aquilo impotens
possit dirvere aut innumerabilis
annorum series et fuga temporum.
(…nem possa destruí-loo Aquilão desenfreado, nem a chuva voraz, ou a série inumerável dos anos e a fuga rápida dos tempos.)
Observe que a locução verbal possit dirvere está no singular, concordando com o núcleo do sujeito mais próximo (Aquilo impotens), mas outros núcleos funcionam como sujeito para a mesma locução, sem a necessidade de sua repetição.”
aliteração
Non omnis moriar multaque pars mei
assonância
et qua[por onde] pauper aquae Daunus agrestium
superbiam … quaesitam meritis et mihi Delphica
A poesia e a ordem de substantivos, adjetivos e verbos
Adjetivos > substantivos
“O mais comum, numa construção poética latina, é que se coloque um termo entre o adjetivo e o substantivo com o qual concorda, com o adjetivo aparecendo primeiro para efeito de ênfase:
Dicar, qua violensobstrepitAufidus (serei celebrado, por onde o impetuoso Álfidoestrondeia)”
et qua … Daunus agrestium
regnavit populorum
(e por onde … Dauno foi o senhor deagrestes povos)
princeps Aeolium carmen ad Italos
deduxissemodos.
(o primeiro a ter levado aos italianos costumes o eólio canto/canto eólio)
Verbos > sujeitos
“Os verbos em relação a seus sujeitos costumam vir antes, podendo haver vários elementos entre eles:
…scandet cum tacita virgine pontifex.
(…subirá, com a silenciosa virgem, o pontífice)”
Análise de traduções
“Continuaremos, nesta unidade, nos centrando em comparações de traduções. Conforme dissemos, consideramos as atividades que se seguem como uma etapa preparatória para o desenvolvimento posterior de estratégias tradutórias em momentos mais avançados de estudo do latim.”
“Apresentamos a seguir duas traduções da ode de Horácio lida nesta unidade, uma de Elpino Duriene, de 1807, e outra de Ariovaldo Augusto Peterlini, de 1992.”
Horácio, Ode III, 30 – Tradução 1 por Elpino Duriene (1807)
“O poeta a si mesmo
Hum monumento mais que o bronze eterno,
E que as Reaes Pyramides mais alto
Arrematei; que nem voraz diluvio,
Áquilo iroso, ou serie immensa d’annos
Nem dos tempos a fuga estragar possa.
Eu não morrerei todo; grande parte
De mim se salvará da morte: sempre
Crescerei novo co’louvor vindouro,
Em quanto ao Capitolio o grão Pontifice
Subir co’ a virgem taciturna,Aonde
Sôa o violento Aufído, e aonde o Dauno
Pobre de aguas regeo agrestes póvos,
Dir-se-há, que eu de humilde poderoso
Fui o primeiro, que o Eolio carme
Trouxe á Italica cithara. Melpómene,
Com soberba por meritos ganhada,
Eleva-te, e de boamente cinge
Co’ Delphico laurel os meus cabellos.”
Tradução 2: por Ariovaldo Augusto Peterlini (1992)
“Um monumento ergui mais perene que o bronze,
mais alto que o real colosso das pirâmides.
Nem a chuva voraz vingará destruí-lo,
nem o fero Aquilão, nem a série sem número
dos anos que se vão fugindo pelos tempos…
[Achei que ousou muito pouco. Estou decepcionado…]
Não morrerei de todo e boa parte de mim
há de escapar, por certo, à Deusa Libitina.
Crescerei sempre mais, remoçando-me sempre,
No aplauso do futuro, enquanto ao Capitólio
silenciosa ascender a virgem e o pontífice.
[Enquanto houver Estados e religiões
pontífice e virgem são duas palavras inócuas para nós – e já o eram em 1992…]
Celebrado serei, lá onde estrondeia
o impetuoso Áufido e onde Dauno reinou
sobre rústicos povos, em áridas terras,
como o primeiro que, de humilde feito ilustre,
o canto eólio trouxe às cadências da Itália.
O justo orgulho por teu mérito alcançado,
ó Melpômene, assume e, propícia, dispõe-te
a cingir-me os cabelos com délficos louros.”
A tradução 1 é mais competente por larga margem!
LENDO…
Repositórios literários
poesiaitaliana.it
Vozes do mundo antigo
mqdq.it
Musisque Deoque. Un archivio digitale di poesia latina, dalle origini al Rinascimento italiano
Charlton T. Lewis, Charles Short, A Latin Dictionary
APÊNDICE (PARA CONSULTA RÁPIDA)
P. 523
[+]
Tuus, tua, tuum (não tem vocativo)
Suus, sua, suum (não tem vocativo)
OBS.: Declinam-se como o adjetivo de 1ª classe bonus, bona, bonum
Noster, nostra, nostrum
“(Não confundir nostri e vestri (de nós, de vós), genitivo singular ou nominativo plural dos pronomes pessoais nos e vos, com nostri e vestri, genitivo singular ou nominativo plural dos possessivos noster e vestri (de nosso, de vosso ou os nossos, os vossos). O mesmo vale para tui (gen. de tu) e tui (de tuus, tua, tuum), sui (gen. da 3ª pessoa) e sui (de suus, sua, suum); a própria oração indica se essas formas são de pronomes pessoais ou de possessivos.”
Vester, vestra, vestrum (não tem vocativo)
OBS.: Noster e vester declinam-se como o adjetivo de 1ª classe pulcher, -chra, -chrum
Repare na similitude das duas tabelas.
Conjugações verbais a partir da p. 527, incluindo principais irregulares e depoentes.
VOCABULÁRIO GERAL p. 547
Por ordem de freqüência, 591 (fonte: Dictionnnaire fréquentiel et Index inverse de la langue latine)
Amostra das 20 palavras mais comuns nos textos latinos:
e, sou, que, em, que (id.), não, este, é, aquilo, até, és, tu, seja, tudo/todos, ser, qual, se, eu, de, como/assim.
REFERÊNCIAS
Gramáticas, manuais literários, estudos
(Seleção pessoal)
ARAÚJO, Sônia Regina Rebel de; ROSA, Cláudia Beltrão da; JOLY, Fábio Duarte (orgs.), Intelectuais e política na Roma Antiga. RJ: NAU/FAPERJ, 2010.
BRUNA, Jaime. A poética clássica. SP: Cultrix, 2005.
CAIO VALÉRIO CATULO, Livro de Catulo (trad. João Angelo Oliva Neto), SP: USP, 1996.
ERNOUT, Morphologie historique du Latin, Lille, Taffin-Lefort, 1953.
FARIA, Fonética histórica do latim, RJ: Livraria Acadêmica, 1970.
FURLAN, Língua e Literatura latina e sua derivação portuguesa. Petrópolis, Vozes, 2006.
Tendi a negritar ou “avermelhar” os verbetes mais relevantes, mais difíceis (distintos do Português) ou os mais polissêmicos e complexos. Mas já a presença do próprio verbete nessa seleção muito limitada indica sua relativa importância, uma vez que foi necessário em algum ponto deste livro.
crudus,-a,-um. (cruor). Sangrento, ensanguentado. Cru, não processado. Não digerido, que digere mal. Que faz sangrar, violento, cruel, áspero. Vigoroso, impiedoso. Novo, recente, imaturo, inexperiente.
opertum,-i, (n.). (opertus/operĭo). Lugar secreto. Segredo. Resposta ambígua, oráculo obscuro.
perosus,-a,-um. (perodi). Que detesta, que odeia intensamente. Muito odiado, odioso.
praeceps, praecipĭtis. (prae-caput).Que coloca a cabeça na frente. Rápido, veloz, violento, arrebatador. Impetuoso, apressado, precipitado, impaciente, ansioso, abrupto. Íngreme, muito inclinado, em declive. Perigoso, crítico.
praestans, praestantis. (praesto). Que se destaca, superior, excelso, excelente, extraordinário, preeminente.
Advérbios
aegre. (aeger). De modo aflitivo, com dificuldade, penosamente, de má vontade.
aeque. Igualmente, da mesma maneira. Justamente, equitativamente.
cito. Depressa, rapidamente. Facilmente.
clam, prep./acus. e abl., também advérbio. Às escondidas, secretamente, às ocultas.
crebro. (creber). Frequentemente, sempre, sem interrupção. = PROTINUS
diu. Durante muito tempo, há muito tempo. Também usado como antigo locativo de dies: durante o dia, de dia. = PRIDEM
eo.I – Adv.: Para lá, para aquele lugar. A este ponto, a tal estado. II – Por causa disto, a fim de que, para que. Tanto que, tanto mais que, tanto menos que. De tal modo, assim, a tal ponto. obs: ver eo como verbo “vou lá assim” do português coloquial em latim poderia ser traduzido como “eo eo eo”.
fortasse também fortassis. (forte). Talvez, acaso. Possivelmente, provavelmente. Aproximadamente, mais ou menos, quase.
fundĭtus. (fundus). Desde os alicerces, radicalmente, inteiramente. No fundo, nas profundezas. = PENITUS
hesternus,-a,-um. (heri). De ontem, de véspera.
hic. Ver PRONOMES.
interĕa. (inter-ea). Durante este tempo, enquanto isso, no intervalo.
nitĭde. (nitĭdus). Claramente, nitidamente. Com brilho, em esplendor, magnificamente.
numquam. Nunca, jamais. De modo algum.
palam.I- Em público, publicamente, abertamente, claramente. De domínio público. II- Diante de, perante. = CORAM
paulo. (paulus). Pouco. De alguma maneira.
penĭtus. No fundo, até o fundo, profundamente. Internamente. = FUNDITUS
potĭus. (potis). Antes, melhor, preferivelmente, de preferência.
pridem. (prae). Há muito tempo, de longa data. Antes, antigamente, outrora. = DIU
protĭnus. (pro-tenus). Para frente, para diante, avante. Diretamente, constantemente, continuamente, sem parar, ininterruptamente. Logo em seguida, sem demora, imediatamente. = CREBRO
quantuluscumque,-tulacumque,-tulum-cumque. (quantŭlus-cumque). Por menor que, independentemente do tamanho que.
quidem. De fato, realmente, na verdade. Também, igualmente. Mas, contudo, ainda mais. Pelo menos, mas ao menos. Por exemplo, tal como. (ne…quidem = nem mesmo, nem sequer. Et/ac…quidem = e ainda por cima, e o que é melhor).
saepe. Muitas vezes, frequentemente, com frequência. (saepe numĕro = repetidas vezes).
secure. (securus). De modo despreocupado, com tranquilidade, sem cuidado. Em segurança.
simul. Ao mesmo tempo, de uma só vez, juntamente, simultaneamente. (simul et = e também, assim que, tão logo; simul…simul… = de uma parte… de outra parte, não só…mas também…; simul ac/atque/ut/ubi = assim que, tão logo).
Conjunções:
(Para outras conjunções, ver tabela nas pp. 77-8.)
atque, conj. E por outro lado, e o que é mais. E entretanto, e contudo. E.
autem, conj.(adversativa atenuada que não vem no início de frase). Por outro lado, ora, no entanto.
donec. I – com indicativo: enquanto, durante todo o tempo que. Até o momento que. II – com subjuntivo: Até que, até que finalmente, até o momento que.
ergo.I – Conj.: Pois, portanto, por conseguinte, logo. II – posposto a um genitivo = por causa de, graças a, em honra de.
ita. Assim, desta maneira, como dizes, nestas condições. Tal, do mesmo modo. Pois, portanto, por consequência. Sim (como resposta).
itaque. (ita-que). E assim, desta maneira. Pois, assim pois, por consequência. Por exemplo.
neque/nec. E não, nem.
neue/neu. E que não, e não, nem.
si. Se, se por acaso. Já que, visto que, uma vez que. (si modo = se pelo menos; si… tamen…= ainda que, mesmo se, embora).
sicut/sicŭti. (sic-ut/uti). Assim como, exatamente como. Visto que, já que. Como se fosse, tal qual. Como por exemplo, assim como. (sicut est/erat = Como é/era de fato, como realmente é/era)
tamen. Todavia, contudo, entretanto, ainda que. (claro caso de falso homônimo)
ue (-ue).Partícula aglutinante: I – como prefixo: indica privação – uesanus. II – como enclítica: corresponde a ou, nas expressões alternativas. = VEL
ut.I – Adv.: como, de modo que, de que maneira. Assim como, do mesmo modo que. II – conj.: que, a fim de que, para que. Quando, como.
uel. Ou, ou se, ou mesmo, ou então. Talvez, mesmo. = UE
Numerais
quater. (quattŭor). Quatro vezes.
ter. Três vezes. É utilizado ainda como elemento de ênfase, de indicação de que algo se repete.
Preposições
coram, prep./abl., também advérbio. Perante, em presença de, diante. Face a face, defronte. Publicamente, abertamente. = PALAM
deinde. Depois, em seguida, a seguir (no tempo e no espaço).
dum. I – com indicativo: Enquanto, durante o tempo em que. Até que, até o momento em que. II – com subjuntivo: até que, contanto que, desde que.
iam. Já, agora, neste momento. Desde agora, deste momento em diante. Ora, daí, então.
igĭtur. Portanto, pois, nestas circunstâncias. Em resumo, em suma. Então, sendo assim, por conseguinte.
licet. Embora, ainda que.
nisi. Se não. Exceto se, senão, somente se. (nisi ut = a menos que).
propter. (prope). prep./acus. Perto (de), ao lado (de), junto (a/de), ao alcance (de). Por causa de, em função de. Através de, por meio de.
rursus/rursum. (reuerto). Para trás. Pelo contrário, por outro lado, por sua vez. Novamente, pela segunda vez.
saltem/saltim. Pelo menos, ao menos, de qualquer maneira.
uix. Com custo, com dificuldade, dificilmente. Mal, apenas. Enfim, em suma.
Pronomes
(flexões às pp. 90-1 / explicação dos interrogativos à p. 97.)
an ou anne. Partícula interrogativa que traduz grande dúvida ou uma restrição. Será possível que…? Por ventura? Acaso?
eodem. (idem). Para o mesmo lugar, ao mesmo ponto. Ao mesmo fim.
hic, haec, hoc. Este, esta, isto.
hic. Aqui, neste lugar. Neste momento, agora.
ille, illa, illud. Aquele, aquela, aquilo. Usado enfaticamente: o famoso, “aquele”, célebre; para caracterizar desprezo, distanciamento: aquele, aquela.
is, ea, id. Elemento de valor anafórico: Ele, ela. O, a. Este, esta.
iste, ista, istud. Pronome demonstrativo de segunda pessoa: Esse, essa, isso. Tal, semelhante. Às vezes se emprega com sentido pejorativo.
qua. (qui). De que lado, em que lugar, em que direção, por onde. Até o ponto em que, o máximo que, pelo meio que, do lado que. Como, de que maneira, através de que meio. De qualquer maneira. (qua…qua = tanto…quanto, por um lado…por outro).
quisquam, quaequam, quicquam/quidquam. (quis-quam). Qualquer um, qualquer coisa, alguém, alguma coisa
ubi. No lugar em que, onde. Onde, em que lugar? Quando, em tal momento. Quando? Em que momento?
uter, utra, utrum. Um dos dois, não importa qual dos dois. Qual dos dois? (obs. também há um adjetivo e um substantivo uter). Provavelmente a origem ou correlacionado com other do inglês.
Substantivos
adiutor, adiutoris, (m.). (ad-iuuo). O que ajuda. Auxiliar, assistente, ajudante. Substituto.
adiutrix, adiutricis, (f.). (ad-iuuo). A que ajuda. Auxiliar, assistente, ajudante.
aes, aeris. (n) bronze, dinheiro, moeda, fortuna.
aestas, aestatis, (f.). Verão, estio. Calor do verão.
aetas, aetatis, (f.). Idade. Duração de uma vida. Geração, século.
aether, -ěris ou ěros. (m)éter, região superior do ar que envolve a atmosfera; parte do céu, sede do fogo; fogo; o céu, a mansão dos deuses; o ar; o mundo dos vivos (por oposição aos infernos).
cornu,-us, (n.). Chifre, corno. Objeto feito de ou em forma de chifre. Casco do pé de animais. Bico de aves. Dente de elefante. Antena de insetos. Cornos da lua. Braço de rio. Arco. Penacho, cumeeira de capacete. Formação do exército.Vasilha de guardar azeite. Funil. Coragem, energia. Corno como símbolo da resistência e da hostilidade.
cornum, -i. Pilrito (fruta avermelhada)
cras. Amanhã.
crastĭnus,-a,-um. (cras). De amanhã. Posterior, futuro.
crus, cruris, (n.). Pernas. Pilastras. Parte inferior de um tronco.
decor, decoris, (m.). (decet). Beleza física, formosura, encanto, graça. O que fica bem, o que convém. Ornamento, elegância. (Opõe-se a DECUS = beleza moral).
disciplina,-ae, (f.). (disco). Ensino, instrução, educação, ciência, disciplina. Disciplina militar. Matéria ensinada. Método, sistema, doutrina. Organização política. Princípios de moral.
fauces, faucĭum, (f.). Garganta, desfiladeiro. Entrada de uma caverna, de um porto. Boca, cratera. Goela.
fel, fellis, (n.). Bílis, fel. Amargor. Cólera, inveja, veneno.
forma, formae:Pode significar forma, molde, moldura, beleza, formosura, mas também significa moeda cunhada, moeda, além de significar figura, imagem, representação. Ver VULTUS.
fraga, -orum (n. pl.). morangos
habĭtus,-us, (m.). (habĕo). Condição, estado, aspecto exterior, conformação física. Aparência, postura, situação, posição, atitude. Maneira de ser ou de agir, hábito. Veste, traje (= roupas características).
herctum,-i, (n.) Herança.
hereditarĭus,-a,-um. (heres). Relativo a uma herança, de herança. Recebido por herança, hereditário.
heredĭtas, hereditatis, (f.). (heres). Herança, ação de herdar. Sucessão.
instar, (n.) – indeclinável. Peso que se colocava num dos pratos da balança. O equivalente, o valor de, mais ou menos, do tamanho de. Valor igual, imagem, semelhança.
modo. Só, somente, apenas. Neste momento, imediatamente. Ainda há pouco, ainda agora. Pouco depois. (modo + subjuntivo/ut = contanto que, sob a condição de; modo…modo… = ora…ora…, sucessivamente).
rapĭdus,-a,-um. (rapĭo). Que arrebata, que toma à força, que arrasta violentamente. Rápido, veloz, ligeiro. Impetuoso, precipitado, impaciente.
regĭa,-ae, (f.). (rex). Residência do rei, palácio real. Tenda do rei. Trono, corte real. Reino, realeza. Cidade real, capital. Salão, varanda, pórtico. Basílica.
reticentĭa,-ae, (f.). (reticĕo). Silêncio, ação de silenciar. Pausa no meio do discurso.
rima,-ae, (f.). Fenda, rachadura, fissura, greta. Sulco. Órgão sexual feminino.
riuus,-i, (m.). Pequeno fluxo de água, córrego, riacho, ribeirão. Canal de irrigação, vala. Rego, calha. Corrente, torrente, fluxo. (e riuo flumĭna magna facĕre = supervalorizar uma situação, fazer tempestade em copo d’água).
scelus, scelĕris, (n.).Crime, atitude abominável, ato infame. Má qualidade, natureza viciosa. Vilania, atitude de salafrário. Velhaco, patife (adj.). Azar, infelicidade, calamidade, infortúnio. Catástrofe natural.
sera,-ae, (f.). (sero). Barra de madeira (usada para trancar portas). Fechadura, ferrolho.
sidus, sidĕris, (n.). Grupo de estrelas, constelação. Céu, firmamento. Noite. Estrela, astro. Brilho, beleza, ornamento. Orgulho, glória. Estação do ano. Clima, tempo. Tempestade, temporal, tormenta.
sinus,-us, (m.). Curva, cavidade, sinuosidade, concavidade. Rosca, espiral. Prega da parte superior da toga, parte superior de uma vestimenta. Bolso, porta-moeda. Roupa, vestimenta. Seio, peito. Regaço, colo. Esconderijo, asilo. Parte mais íntima, interior, cerne, centro. Baía, enseada, golfo. Ponta de terra que avança sobre o mar. Terreno recurvado, vale. (sinu laxo ferre = ser descuidado, não prestar atenção).
spes,-ei, (f.).Esperança, expectativa, perspectiva. Temor, mau pressentimento, receio.
tergum,-i, (n.). Pele (das costas), dorso, costas. Lombo. Pele, couro, objetos feitos de couro. Face posterior das coisas, retaguarda. Superfície (de águas, por exemplo).
tergus, tergŏris, (n.). Pele, costas. Couro de um tambor, couraça, escudo de couro.
tribus,-us, (m.). Tribo (divisão inicial do povo romano). Povo, classe pobre, multidão, massa. Classe, categoria.
tritĭcum,-i, (n.). Trigo (beneficiado).
usurpatĭo, usurpationis, (f.). (usus-rapĭo). Uso, emprego. Uso ilícito, abuso, usurpação.
vindex, -ĭcis. (m e f) fiador, vingador, protetor.
uir, uiri, (m.). Homem. Marido, esposo. Macho. Indivíduo, pessoa, companheiro, colega. Virilidade. família importante de palavras, com desinências abaixo.
uirga,-ae, (f.). Ramo flexível e delgado, rebento, vergôntea. Vara, chibata. Vara mágica. Caduceu (de Mercúrio). Vara com visgo para apanhar pássaros. Raios.
agĭto,-as,-are,-aui,-atum. (ago). Impelir com força, fazer avançar. Agitar. Perseguir, atormentar, censurar. Pensar, refletir.
agnascor,-ĕris,-nasci,-natus sum. (ad-gnascor). Nascer junto, ao lado de. Nascer depois do testamento.
ago,-is,-ĕre, egi, actum. Empurrar para frente, impelir, conduzir à frente. Dirigir-se para. Fazer sair, expulsar. Agir, fazer, ocupar-se de, tratar. Viver, passar a vida. Cumprir um ritual, interpretar, representar um papel.
cedo,-is,-ĕre, cessi, cessum. Ir, andar, dar um passo adiante. Tocar a, caber a. Retirar-se, ir-se embora. Ceder a, não resistir. Entrar em acordo. Passar, decorrer. Conceder, entregar.
celo,-as,-are,-aui,-atum. Esconder, ocultar.
coepi, coepisse, coeptum – somente perfectum. Ter começado, principiado. Estabelecer. Começar.
coepto,-as,-are,-aui,-atum. (coepi). Começar, empreender, tentar. Estar no início.
cogo,-is,-ĕre, coegi, coactum. (cum-ago). Levar junto, conduzir juntamente. Reunir em um mesmo lugar, congregar. Condensar, resumir.Conduzir à força, obrigar a reunir. Coagir, forçar, obrigar. Coagular. Fechar a marcha. Concluir, inferir.
committo,-is,-ĕre,-misi,-missum. (cum-mitto). Pôr juntamente, juntar, reunir. Comparar, confrontar. Confiar, entregar. Começar, empreender, travar combate. Cometer uma falta, infringir uma lei. Merecer um castigo, ser culpado.
comprĭmo,-is,-ĕre,-pressi,-pressum. (cum-premo). Comprimir, apertar, contrair. Reter, suspender, conter, reprimir. Guardar, ocultar. Forçar, violentar. Ter prisão de ventre.
coniicĭo,-is,-ĕre,-ieci,-iectum, ou conicĭo, também coicĭo. (cum-iacĭo). Lançar juntamente, lançar em massa, reunir. Lançar, arremessar, atirar. Presumir, calcular, conjeturar, concluir, inferir.
consto,-as,-are,-stĭti,-statum. (cum-sto).Estar seguro, estar firmemente estabelecido. Ser evidente, ser composto de, consistir em. Custar, ser posto à venda, ter o valor de. Existir, subsistir, permanecer, durar. Estar de acordo, em harmonia. Constar.
constupro,-as,-are,-aui,-atum. (cum-stupro). Desonrar, atentar contra o pudor, violar. Manchar, poluir, sujar.
contingo,-is,-ĕre,-tinxi,-tinctum, ou contingŭo. (cum-tingo). Tingir completamente, cobrir de tinta, untar, impregnar.
cupĭo,-is,-ĕre,-iui/-ĭi,-ítum. Desejar, ter vontade de, desejar ardentemente, cobiçar. Ter desejos, paixão.
curo,-as,-are,-aui,-atum. (cura). Cuidar, olhar por, tratar, velar. Curar. Governar, dirigir, administrar. Comandar. Fazer por, ter em conta. Vigiar, zelar, proteger.
debĕo,-es,-ere, debŭi, debĭtum. (de-habĕo). Dever (dinheiro ou qualquer outra coisa), ser devedor. Ter obrigação de. Ser forçado a. Estar obrigado a. Ser destinado a.
delinquo,-is,-ĕre,-liqui,-lictum. (de-linquo). Faltar, ausentar-se. Cometer uma falta, delinquir, pecar.
depono,-is,-ĕre,-posŭi,-posĭtum. (de-pono). Pôr no chão, pousar. Depor. Guardar em segurança, depositar, confiar a. Abandonar, largar, renunciar, deixar de lado.
diuello,-is,-ĕre,-uelli/-uulsi,-uulsum. (dis-uello).Puxar em sentidos diversos, separar à força, rasgar, arrancar, dilacerar. Perturbar. Afastar, separar. (parece não ter o sentido de desvelar.)
duro,-as,-are,-aui,-atum. (durus). Tornar duro, endurecer, fortificar.Tornar-se insensível, ser cruel. Tornar forte, durar, resistir.
edo, edis, edĕre, edĭdi, edĭtum. (e-do). Fazer sair, publicar, dar à luz. Produzir, causar. Expor, fazer ver. Escolher, nomear, declarar, fazer conhecer oficialmente.
egĕo,-es,-ere, egŭi. Estar na pobreza, na indigência, ser pobre, carecer de. Estar privado de. Procurar, desejar.
emĭco,-as,-are,-micŭi,-atum. (e-mico). Lançar-se para fora, atirar-se para fora, sair com força, romper, brotar. Aparecer, surgir, irromper, manifestar-se.
eo, is, ire, iui/ĭi, itum. Ir. Dirigir-se, caminhar para, andar. Recorrer, procurar, Passar, transformar-se, correr de, espalhar-se. obs: ver EO como advérbio.
excepto, -as, -are. (ex-capĭo). Retirar a todo instante, recolher habitualmente, recolher, apanhar.
fio, fis, fiěri, factus sum. (passiva de facio) ser feito, ser criado, fazer-se, dar-se; ser nomeado, ser considerado; (com significação própria) tornar-se, acontecer, dar-se, resultar.
flagro,-as,-are,-aui,-atum. Arder, estar em chamas, estar abrasado. Estar dominado por, ser devastado, destruído. Arder de amor.
fleo,-es,-ere, fleui, fletum. Ato físico de chorar, derramar lágrimas. Lamentar, deplorar.
nescĭo,-is,-ire,-iui/-ĭi,-itum. (ne-scio). Desconhecer, ignorar, não saber.
nouo,-as,-are,-aui,-atum. (nouus). Tornar novo, renovar, inovar. Mudar, alterar, inventar.
obĕo,-is,-ire,-iui/-ĭi,-itum. (ob-eo). Ir ao encontro de, encontrar. Opor-se (ir de encontro a!), ir contra, afrontar. Percorrer, rodear. Empreender, executar. Pôr-se, acabar, perecer, morrer.
repraesento,-as,-are,-aui,-atum. (re-praesento). Mostrar, exibir, colocar diante de, manifestar. Retratar, representar. Pagar imediatamente, pagar à vista. Fazer imediatamente, executar sem demora.
retundo,-is,-ĕre, re(t)tŭdi, retu(n)sum. (re-tundo). Embotar, tirar o fio de uma faca. Mitigar, enfraquecer, atenuar. Restringir, reprimir, fazer parar.
sapĭo,-is,-ĕre,-ĭi/-iui. Saborear, provar. Ter o gosto/sabor de. Cheirar a, ter o mesmo odor de. Ser inspirado por, imitar. Ser discreto/prudente/sábio, ter discernimento. Saber, conhecer, compreender, entender
secludo,-is,-ĕre,-clusi,-clusum. (se-claudo). Trancar em local separado, isolar. Separar, remover, romper, partir. Excluir, segregar.
sino,-is,-ĕre, siui/sĭi, situm. Pôr, colocar, depositar, estender. Deixar, permitir, conceder, admitir. Desistir, interromper, deixar de fazer. (Sine! = Muito bem! De acordo!; sine modo = se pelo menos).
solĕo,-es,-ere, solĭtus sum. Estar acostumado/habituado, costumar. Ter relações sexuais. = CONSUESCO
spiro,-as,-are,-aui,-atum. Soprar, exalar. Respirar, inalar. Viver, estar vivo. Ser favorável a, favorecer. Estar inspirado poeticamente. Mostrar, expressar, manifestar. Aspirar, estar ávido por.
stabilĭo,-is,-ire,-iui,-itum. (stabĭlis). Tornar firme/constante/estável. Fixar, estabelecer. Fortalecer, apoiar, sustentar.
tenĕo,-es,-ere, tenŭi, tentum. Segurar, reter, manter, ter. Possuir, ocupar, ser senhor de, obter. Alcançar, atingir. Conservar, guardar, preservar. Durar, persistir.
tollo,-is,-ĕre, sustŭli, sublatum. Erguer, levantar, elevar, apanhar. Levar, transportar, embarcar. Tirar, tomar. Destruir, suprimir, abolir. Lançar, impelir. Exaltar, celebrar. Suportar, sofrer. Tollĕre filĭum: gesto simbólico de “tomar o filho” em reconhecimento da paternidade.
torquĕo,-es,-ere, torsi, tortum. Torcer, fazer o movimento de torção, dar volta. Revolver, fazer rolar. Torcer os membros, torturar, atormentar. Fazer o giro que antecede ao lançamento de uma arma. Experimentar, sondar. Sustentar, suportar.
ualĕo,-es,-ere, ualŭi, ualĭtum. Ser forte, ser vigoroso, ter boa saúde, estar fisicamente bem. Prevalecer, exceder, ser influente. Ter a força, o poder. Valer, ter o valor de.
voluto, -as, -are, -avi, -atum.(freq. de volvo) rolar por várias vezes; revolver no espírito, meditar, discutir, examinar, debater.
volvo, -is, -ěre, volui, volutum. rolar, fazer rolar, fazer dar voltas, revolver; revolver no espírito, refletir, meditar.
usurpo,-as,-are,-aui,-atum. (usus-rapĭo). Tomar posse pelo uso. Apropriar-se de, tomar posse ou conhecimento, usurpar. Fazer uso, empregar, usar, praticar. Designar, denominar.
A CURIOSA ETIMOLOGIA LATINA DE ALGUMAS PALAVRAS DE NOSSO IDIOMA
agenda: de agenda, forma verbal que denota o que temos obrigação de fazer.
bêbado: é comum se pensar que as palavras apenas encolhem com o tempo, mas muitas do português são maiores que as originais do latim. Bêbado vem de bebo. Há mais casos de “síncopes aditivas” abaixo.
calar: do verbo celo.
chácara: de chacra, que pouco tem a ver com ninjutsu ou atributo hindu!
cócega: de cosca. No diminutivo informal usamos cosquinha.
consuetudinário: termo que sói-se encontrar prefixado por “direito”, sua raiz é consuemus, estar habituado a, daí o direito consuetudinário ser o direito dos costumes, da tradição, i.e., direito ou lei avant la lettre.
côrte: de cohortor, aconselhar ou exaltar.
cujo: do pronome quod, que flexiona para cuius, quase caído em desuso entre nós.
derrisão: de deridere, ridicularizar.
insumo: aquilo que compõe uma substância composta, de insum, prevérbio in+sum, dentro estar.
interesse: de interesse, préverbio inter+verbo esse (ser), estar entre, participar, estar envolvido.
legenda: de legenda, forma verbal que denota obrigação de ler.
nefasto: o que não se faz, o que não deveria ser permitido pelo destino (ne+fas). Fas também aportuguesado com o tempo para fado.
o (e demais flexões, artigo): de illo (eles)
ocidente: aquilo que declina, occĭdo.
paralelepípedo: por alguma razão, cresceu com cacofonia do –le– de paralepipedo.
público: o que hoje chamamos de público, principalmente com referência ao Estado, advém do advérbio publice, “às custas do Estado”. É como se publicamente, ao longo de muitas gerações, tivesse se contraído e se transformado num substantivo/adjetivo.
pueril: de puer, infantil.
querela: de queror, reclamar.
racha (lésbica) (inf.): de rima, tanto rachadura quanto vagina, clitóris. // o “racha” no sentido de disputa não tem correlação.
sinusite: “Etimologia (origem da palavra sinusite). Do latim sinus+ite.” Sinus é polissêmico, mas pode querer dizer peito ou centro, por exemplo.
suíno: de suis, que significa porcos.
tutela: de tueri, proteger, defender.
vídeo: de vejo, conjugação da 1ª pessoa do presente de ver, videre.
vulto: de vultus, rosto, aspecto, aparência, se tornou para nós uma aparência desconhecida ou impossível de determinar (sentido mais restrito).