Os segredos por trás da Ilha

LOST é uma alegoria do mal representado pelo desenvolvimento tecnológico. A série retrata quem levaria a melhor caso um embate entre duas forças antagônicas acontecesse em dado tempo e lugar: a força do progresso cego da técnica versus o potencial da humanidade de se redimir dos males que ela mesma criou. Em Lost, essa luta é encarnada por semi-deuses e homens.

O princípio da técnica pura e levada a seus extremos (dominação diabólica da natureza) é representado pelo monstro da fumaça. O princípio do homem harmonizado com a natureza é representado pelo invisível Jacob. Esses são apenas dois dos avatares sob os quais essas “formas de vida” surgem na tela ao longo de vários episódios e temporadas. O que causou muita dissensão e desinteresse do público que acompanhava a série em seus começos é a famosa “trilha de mistérios”, que se acumulava e complexificava, e parecia não levar o espectador a lugar algum. Os mais céticos chegaram a pensar que a série não passaria de uma bola de neve que arrolaria mistério pós-mistério sem coerência ou inter-relação, com o fito de prender a audiência o máximo possível, sem resolver qualquer enigma satisfatoriamente, até ficar escancarado, ao final, que tudo não passava de uma “pegadinha gigante” ou do maior golpe de marketing da história recente de Hollywood.

De fato, a paciência é uma virtude quando se trata de absorver o que Lost tem a oferecer. Podemos dizer que a compreensão de todas as 4 primeiras temporadas só advém posteriormente a ver e rever a quinta e a sexta, onde os eventos mais arcaicos, os catalisadores de todos os outros, que envolvem os personagens mais consagrados e os favoritos do público, são finalmente revelados.


Por mais versátil e aberto a interpretações que permaneça até os dias de hoje, Lost, que encerrou em 2010, não transcende, na essência, a dualidade com que eu abri este ensaio: yin-yang, branco x preto, bem x mal (num sentido muito menos maniqueísta do que o apreciador de séries ocasional gostaria de digerir)…

As duas entidades em conflito, cuja infância é mostrada quase no “sopro final” das mais de 100 horas de teledramaturgia, são dois irmãos gêmeos nascidos em tempos imemoriais na mesma Ilha onde tudo em Lost acontece (e para onde convergem todas as ações até de quem ainda não chegou à Ilha, mas cujo destino está atrelado a ela). Um é Jacob e representa a luz; o segundo não foi batizado (no sentido estritamente lingüístico do termo), talvez porque quem DEU-LHE A LUZ não o esperava, e representa as trevas, embora seus papéis ainda não estejam CLAROS até os incidentes de suas vidas adultas que irão antagonizá-los de uma vez por todas. É clara a evocação do relato bíblico de Esaú e Jacó, embora este Esaú não tenha nome. Eles têm uma mãe, adotiva, cujo favorito é sem dúvida “Esaú”. Mas ele perderá os seus direitos de primogenitura assim que der vazão a seu excesso de curiosidade pelo mundo exterior e se tornar obcecado por uma só idéia: escapar da Ilha.

O santuário paradisíaco-mágico que contém uma espécie de manancial de energia de potencial ilimitado (conhecida pelos espectadores mais simplesmente como a “luz dourada”), sendo o núcleo aparente do milagre da vida na Terra, que é o lar destes dois irmãos, só ocasional e involuntariamente recebe visitas. Quando um navio cheio de arquitetos e engenheiros naufraga na Ilha, o homem de preto, alcunha usada para “Esaú” na série, a eles se alia e tenta construir uma espécie de Torre de Babel, até ser frustrado pela própria mãe adotiva, que já o havia prevenido. Ela incendeia toda a construção; o homem de preto se vinga matando-a. Jacob, pouco antes, havia dela recebido o dom da imortalidade ao beber da água que ficava próxima da fonte principal da luz dourada, o “coração da Ilha”. Ao descobrir o matricídio do irmão, ele quebra o tabu que lhes fôra imposto, o de não pisar neste coração, que ao mesmo tempo que é sagrado está ligado a uma maldição. Na verdade, irado com seu gêmeo, Jacob faz algo ainda mais insidioso: joga seu irmão inconsciente no córrego que transporta o corpo ao Coração. Desse modo, ele faz seu irmão cometer o interdito, e não ele próprio, assim como pune-o pela ofensa de sangue que ele cometera, sem sujar as mãos da mesma maneira. O homem de preto também obtém, por esse método, a imortalidade, mas ele dificilmente se teria sentido abençoado: ele ficou preso no que os visitantes póstumos da Ilha chamam de monstro da fumaça, ou em cadáveres, por uma dada quantidade de tempo, que ele tem a faculdade de reanimar, incorporando também as lembranças do falecido. É esta a maldição para quem cai no poço da água dourada.

Podemos interpretar os acontecimentos da juventude de Jacob e do “monstro” como a continuidade, em ares mais sérios, de seus jogos de infância. Havia um jogo de tabuleiro, de pedras brancas e pretas, que eles sempre jogavam, obviamente com Jacob representado pelas peças brancas e seu irmão sombrio pelas peças negras. Não fica claro se eles conheciam as regras e se realmente sua primeira partida já teve um fim – provavelmente não. Como semi-deuses (ou seres que, embora não onipotentes, não podem morrer), eles podem “criar o próprio jogo”, estabelecer regras que devem ser iguais para ambos, a fim de determinar um vencedor justo. Como tampouco eles podem se ferir mutuamente, tiveram de imaginar soluções para esse impasse, para que sua desavença não fosse eterna. Os fiéis da balança seriam os seres exteriores. A eles caberia decidir a cor das peças vitoriosas. Ficou estabelecido que qualquer um de fora poderia matar Jacob. Que, em compensação, o monstro da fumaça não poderia matar os “candidatos” (tanto quanto eles não podem causar qualquer dano ao monstro). Que a única forma do monstro ganhar o jogo seria se os “candidatos”, trazidos à Ilha para escolher-se o sucessor de Jacob, acabassem, em conseqüência de suas próprias ações, se matando, até não sobrar mais nenhum. Jacob estaria proibido de explicar essas regras a qualquer candidato até bem perto do fim. O monstro da fumaça só poderia realizar seus objetivos – assassinar um por um dos forasteiros de sua Ilha – de modo indireto, falando pela boca dos outros, alimentando complôs, mostrando-se convincente. Mais do que um jogo entre as duas deidades, é acima de tudo uma aposta: Jacob acredita que, apesar de todas as suas debilidades, o homem seja capaz de se responsabilizar por seus atos e de agir heroicamente, sem pedir nada em troca, quando a situação o exigir; o monstro da fumaça acha que o ser humano tem a natureza corrompida e está por isso condenado à extinção; e tudo o que o homem de preto enfeitiçado quer é desabitar a Ilha e privá-la de sucessores em potencial para o cargo de guardião da luz. O que ele faria do lado de fora, uma vez liberto, nunca é mais do que aludido na série, mas essa possibilidade é de alguma forma encarada por personagens-chave como o fim prático da civilização ou o Apocalipse.

A aposta dos irmãos prossegue sem grandes novidades até os séculos XX e XXI. Embora a Ilha sempre receba visitas, nenhuma delas até lá pertence à geração dos “candidatos”, e aqueles que pisam no santuário ou se tornam parte permanente do povo que habita a Ilha e serve a Jacob, ou acabam por satisfazer a sede de sangue do monstro, que adora aparecer diante de quem se perde na selva.


Um resumo da quinta temporada poderia ser o seguinte:

Na era dos satélites, na Guerra Fria, os americanos mapeiam a superfície terrestre e conseguem encontrar a Ilha, em algum lugar não-especificado do Pacífico Sul. O exército americano a utiliza como armazém para descarte de material nuclear, incluindo uma bomba de hidrogênio. O lugar também se torna a sede de um experimento social de vanguarda chamado Iniciativa Dharma, patrocinado por magnatas de ideário utópico. Eles chegam a compreender a singularidade do local e reunir cientistas da mais alta estirpe, gente que acredita em fontes de energia limpa e eternamente renovável (muitas décadas à frente de seu tempo!), em propriedades medicinais do eletromagnetismo e também no conceito (mais do que manjado para a ficção científica de nosso tempo) chamado “viagem no tempo”. A aparição súbita de alguns indivíduos “estranhos”, que não surgiram como os outros – sorteados e trazidos do “mundo civilizado” para viver uma “vida alternativa” -, mas que pareciam ter se infiltrado na Dharma com uma agenda própria, desencadeia a explosão do artefato da bomba H que estava aterrado no acampamento do “povo do Jacob”, que não se confunde com a Iniciativa Dharma. Esses “estranhos” eram alguns dos “candidatos”, que na realidade, propriamente falando, ainda estavam a 27 anos de pisar pela primeira vez na Ilha (por intermédio das “ocorrências fabulosas” explicadas a seguir) – Ilha que cada um deles só pôde conhecer porque quisera o destino que ali caísse um avião, no meio do vôo comercial nº 815 da Oceanic Airlines, que ia de Sidney a Los Angeles, em 2004.

Nenhuma explosão de bomba nuclear aconteceu de fato, mas desencadeou-se um gatilho energético para que os candidatos, perdidos no tempo, pudessem voltar à época presente – todo o plano fôra teorizado por um físico brilhante, que, em meio aos descaminhos da vida, fôra parar na mesma Ilha, poucos meses depois do desastre aéreo, ainda em 2004, como membro de uma “expedição científica”, tendo ele, que não era um dos candidatos de Jacob, viajado no tempo junto com o grupo. A teoria desse físico, Daniel Faraday (o Daniel Faraday de LOST, não o Daniel Faraday da Física real), mostrou-se parcialmente correta: embora aqueles que se encontravam fora de seu fluxo temporal tenham sido devolvidos à “linha do tempo de origem (já em 2007)”, sua concepção de que “a explosão por fusão liberaria tanta energia que cancelaria todos os eventos que haviam levado à queda do Oceanic 815, tornando possível que a viagem terminasse no aeroporto de Los Angeles com todos a salvo, apagando da história do universo as memórias e lembranças de qualquer laço criado entre aqueles passageiros a partir da queda do avião” estava crassamente equivocada. Não só não “se cancelou nada”, porque a linha do tempo é uma só, e tudo que os candidatos fizeram na década de 70 realmente impactou no estado das coisas de 2004-2007, sendo inclusive determinante para sua própria queda na Ilha, como Faraday pagou pelo erro de cálculo com a própria vida de uma maneira um tanto sofocliana: morrera nos braços de uma versão bastante jovem da própria mãe, Heloise Hawking, proferindo a frase: “Você sabia!… Você sabia e mesmo assim você me mandou… para morrer aqui!”.

Heloise e Charles Widmore eram dois jovens ingleses que haviam se incorporado aos discípulos de Jacob. Seu conhecimento da “aposta” devia ser algo limitado, mas eles sabiam que deviam dedicar suas vidas à causa de Jacob, que contava com o auxílio de pessoas abnegadas para realizar sua sucessão na hora certa. Heloise estava grávida quando matou a versão envelhecida de seu filho Daniel, que para ela não passava de um estranho quando fôra baleado. Daniel trazia consigo um diário. Este diário explicava todos os princípios da viagem no tempo e continha anotações pessoais dos últimos anos da vida de Daniel. Sem dúvida a viagem no tempo era real, e aquele era o filho de Heloise e Charles. Através do diário, de forma privilegiada, o casal veio a conhecer partes do plano de Jacob que ainda não haviam se consumado, até 2004. Dentre as informações coletadas, havia uma intrigante: “Se algo der errado, Desmond é a minha constante”.


Por razões que não são inteiramente descobertas, Heloise e Charles se separam. Desde a “explosão” da bomba H, nenhuma gravidez na Ilha conseguia ser levada até o fim. Heloise volta à Inglaterra para dar a luz a Daniel. Algum tempo depois, Benjamin Linus (que também havia crescido na Ilha, tornando-se um dos seguidores de Jacob de mais alta hierarquia) expulsa Charles, seu desafeto, da Ilha. Apesar disso, tanto Heloise quanto Charles continuam, cada um a sua maneira, se devotando ao futuro da Ilha e aplainando o terreno para a chegada dos candidatos. Isso incluía, naturalmente, a educação do próprio filho de ambos, Daniel. Desde muito novo ele, que possuía talento musical, foi forçado a estudar para desenvolver seu gênio matemático e em seguida se formar com excelência em Física na Universidade de Oxford. Heloise comprou-lhe um diário, idêntico ao diário que Daniel lhe havia deixado quando morreu. Daniel lecionou por alguns anos na cadeira de física da universidade. Foi num desses dias que ele recebeu a visita de um homem chamado Desmond Hume, que alegava estar transitando entre dois tempos, ora na mente do seu eu-atual, ora na mente de uma versão dele mesmo envelhecida cerca de dez anos. A princípio, Daniel pensou que fosse um trote aplicado por alguns de seus alunos descrentes de suas teorias, até que ele pôde comprovar a veracidade do que Desmond dizia e ajudá-lo a sair de seu transe, que acabaria levando-o a um derrame cerebral se durasse mais tempo. Daniel nunca mais viu Desmond no mundo exterior. Charles, tornado um bilionário, financiou anonimamente a carreira do filho, recrutando-o para se juntar à população da Ilha em 2004. Embora fosse um ato doloroso e estapafúrdio, Heloise e Charles compreenderam que o mundo dependia de que tudo sucedera, dali em diante, de forma que a viagem no tempo dos candidatos e de seu próprio filho fosse tornada possível, para que os eventos que eles viveram no passado ocorressem tais e quais. A razão é que sem uma coisa não poderia haver a outra, e os candidatos de Jacob morreriam presos em viagens temporais e deixados à mercê das maquinações do monstro da fumaça.

Outra coisa que o industrial Widmore sabia era que uma hora ele e um homem chamado Desmond cruzariam seus destinos. Desmond se tornou o namorado de Penelope, a filha de Charles de um segundo casamento. Ele procurou Widmore para pedir a mão de sua filha em casamento. Sabendo que uma questão bem maior estava em jogo, Charles tratou Desmond friamente, induzindo-o a abandonar Penelope (Penny), até que ele provasse a seu sogro, a sua amada e a ele mesmo que ele, um reles desempregado, era digno da fortuna de Penny Widmore. Sem falar que Desmond, enquanto ainda se preparava para oficializar seu noivado com Penny, antes de ter sido completamente desencorajado por Charles e de tomar sua drástica resolução, foi surpreendido por uma enigmática e soturna Heloise, recepcionista de joalheria, que lhe predicou: “Seu destino não é ficar com ela, é ir parar numa Ilha onde apertará um botão para salvar o mundo”. Ele intuía o peso da veracidade dessas palavras, embora isso não tornasse seu conteúdo menos absurdo. Sua sensação de culpa se intensificou, e isso ajudou Desmond a dar seu salto de fé: terminar o relacionamento com Penny para “se provar” diante dos olhos do mundo, e provar para si mesmo que poderia alterar o seu destino, que até ali tinha sido o de “um homem covarde”.

Levado a pensar que a enorme disparidade de classes era o real motivo da aversão de Charles a si mesmo, Desmond não tinha elementos para desconfiar que seu quase-sogro agira teatralmente. Quem acompanha LOST também só conhece os reais fundamentos desta “profunda antipatia” nos últimos capítulos. Os conglomerados empresariais de Widmore patrocinam uma corrida de regatas ao redor do mundo. Desmond se prepara para participar da competição com o objetivo de vencê-la para pedir a mão de Penny e ser aceito. Ele consegue que lhe doem um veleiro e começa a treinar. Não surpreendentemente, dadas as circunstâncias, ele acaba ficando à deriva durante uma tempestade e vai parar na Ilha.

Ele acorda dentro de uma escotilha e é avisado pelo seu salvador que fôra encontrado na areia, que “o mundo acabou” e que só sobrou este pedaço de terra em que estavam. Que ele devia tomar regularmente uma vacina, pois infelizmente foi exposto por alguns minutos às toxinas do ar da superfície, que se tornou irrespirável. Toda vez que um dos dois precisasse sair – o que só acontecia de 3 em 3 meses, para reabastecer os suprimentos da despensa, lançados de pára-quedas num ponto muito próximo à escotilha, por um avião, que sobrevoava aquela área, pontualmente e todas as vezes, conforme o cronograma do reabastecimento de suprimentos -, deveria usar uma roupa própria para evitar ser infectado. Para evitar o acúmulo e a descarga do excedente de energia eletromagnética represada num bolsão, era necessário digitar um código numérico a cada 108 minutos num terminal de computador. Como a tarefa é ingrata e sempre interrompe o sono do digitador, ela era feita em duplas, até que o parceiro anterior do homem que resgatou Desmond, Radzinsky, se suicidou. Radzinsky fizera parte da Iniciativa Dharma e testemunhara “o incidente”: após perfurações mal-feitas, esse reservatório energético de eletromagnetismo se tornou permanentemente instável, e no mesmo dia em que estruturas começaram a desabar e implodir, uma bomba H foi detonada, sem que se detectasse uma explosão. Além disso, vários dos envolvidos, que descobriram ser clandestinos no projeto Dharma, desapareceram por completo após a detonação. De alguma forma, a bomba H ajudou a estabilizar a situação e a escotilha para administrar a liberação em pequenas doses da energia eletromagnética pôde ser construída antes de um novo desastre.

Com o passar do tempo, os seguidores de Jacob terminaram o expurgo dos membros da Dharma, mas Radzinsky e seu parceiro, que deviam cuidar desta estação eletromagnética em especial, continuaram trancados executando seu serviço, saindo apenas para repor a despensa. Radzinsky ficou louco e atirou na própria cabeça enquanto seu colega dormia. Este homem, que depois de anos conseguia um substituto para seu colega morto, ensinou mais uma coisa a Desmond: “Se você não quiser passar a vida inteira apertando botões, e também não quiser que o mundo desapareça por sua causa, existe uma alternativa: girar a chave de segurança que cessará a instabilidade do bolsão, mas desintegrará aquele que girar a chave”. O homem tinha dito a Desmond que “não havia veleiro”, que ele devia ter sido feito em pedaços, pois Desmond foi encontrado já na praia. Secretamente, porém, ele se ausentava durante os turnos em que Desmond digitava o código no computador para continuar reparando o veleiro, que ele usaria em pouco tempo para tentar escapar da Ilha. Um dia Desmond viu um rasgão na roupa de quarentena de seu companheiro e decidiu segui-lo, descobrindo o segredo. Os dois brigaram do lado de fora da escotilha. Desmond se sentia enganado ao constatar que não havia contaminação do ar nem quarentena. Mas Desmond empurrou o colega, que bateu a cabeça num rochedo pontiagudo, matando-o acidentalmente. Sem tempo para chorar a morte de seu único companheiro ou enterrá-lo, Desmond correu de volta à escotilha para digitar o código no prazo de 108 minutos, que estava no fim; ele cumpriu a operação com retardo de alguns segundos. O acúmulo de energia começou a torcer as estruturas metálicas, mas a inserção do código foi lida pelo computador e a distribuição da energia pelo bolsão foi normalizada. A sobrecarga foi aliviada; no entanto, o acúmulo de energia por aqueles breves segundos foi o suficiente para derrubar um avião que sobrevoava a Ilha no exato instante da anomalia energética: o vôo da Oceanic 815.

Desmond ainda permanece digitando o código sozinho por algumas semanas; quando está prestes a sucumbir e suicidar-se, abre o livro de Dickens que levava sempre consigo, e que devia ser sua última leitura antes de morrer, e encontra uma carta de Penny, que nunca lera antes, em que se lia: “Para seguir vivendo, alguém só precisa ter uma pessoa no mundo que o ame”. Ele desiste de tirar a própria vida. Mais algum tempo passa e os sobreviventes da queda do vôo 815 conseguem abrir a escotilha, que não tem portas por fora, usando dinamites. Desmond se aproveita para fugir, ensinando o código para seus “sucessores”; ele embarca em seu veleiro, que ainda o aguardava na costa, mas algumas semanas depois reaparece no mesmo litoral. Ele diz aos sobreviventes acampados na praia que navegou o tempo todo numa só direção. O que corroboraria a visão de seu ex-companheiro de escotilha de que o mundo já havia acabado, e que a única coisa sobre as águas era a Ilha.

Enquanto se embriagava, desconsolável, na noite em que voltara à terra firme, Desmond é interrogado por John Locke, um dos candidatos e tripulante do vôo. John acha que toda a história de apertar o botão para salvar o mundo era um experimento psicológico da Iniciativa Dharma. Desmond aceita ir com ele até a escotilha no dia seguinte, render o homem que havia ficado para digitar o código e esperar a contagem regressiva zerar para ver o que aconteceria. Nos segundos finais, lembrando o que aconteceu no dia em que o avião caiu, Desmond desiste do plano de John; mas John destrói o computador que era usado para inserir o código. Desmond sabe que existe um bolsão eletromagnético que irá explodir e que a única forma de salvar os demais será se sacrificando: ele gira a chave de segurança, que guardava dentro de seu livro de Dickens, o céu muda de cor, depois um intenso clarão e um zunido de alta freqüência deixam todos na Ilha desorientados e incapacitados por alguns instantes. Desmond não morre, apesar de ter suas roupas desintegradas e de a escotilha ser totalmente implodida, deixando uma enorme depressão no solo, como se uma construção jamais tivesse existido naquele lugar. O que nem Desmond percebeu naquela hora é que ao girar a chave ele se tornara uma verdadeira chave de segurança humana, o único ser humano imune aos efeitos de radiação eletromagnética, não importa a intensidade – exatamente o plano de Jacob desde o início (e conseqüentemente o de Heloise Hawking e Charles Widmore também) -, além de adquirir com isso um senso singular da coexistência de seu passado, presente e futuro fundidos a sua consciência, “dom” que seria potencializado a cada nova exposição a correntes magnéticas.


E embora este ensaio não se destine a resumir todo o enredo e saturar o leitor com todos os spoilers imagináveis, faz-se necessário, ainda, contar apenas alguns eventos imediatamente subseqüentes, para aparar as arestas do tema viagem no tempo.

A velha rixa pessoal entre Benjamin Linus e Charles Widmore sobre quem seria o líder humano do time de Jacob estoura no momento em que o segundo desvenda as coordenadas da Ilha e ancora um navio nas suas proximidades. Enquanto isso, os sobreviventes do vôo 815 se preparam para sua chegada, dividindo-se em dois grupos: o daqueles que crêem que quem está no navio são assassinos que querem exterminar a população da ilha (capitaneados por John Locke, influenciado por Benjamin) e o daqueles que querem desesperadamente ser resgatados e acreditam que, bem-intencionados ou não, os tripulantes do navio são sua melhor chance de escapar da Ilha desde a queda do avião (liderados por Jack Shephard, que apesar de não ter nome de filósofo ou cientista tem um sobrenome bem sugestivo). Nêmese ou resgate? Na realidade, nenhum dos extremos: o único objetivo da expedição dos mercenários pagos por Widmore era arrancar Benjamin Linus da Ilha; mas seus meios não eram nem um pouco comedidos. Encurralado, Benjamin decide usar um último recurso ensinado por Jacob: “girar o eixo da Ilha”, um mecanismo imemorial instalado num poço capaz de transportar a Ilha para novas coordenadas, a fim de ocultá-la novamente dos radares do mundo exterior. O preço a pagar é que quem gira a “manivela subterrânea” é automaticamente exilado, ressurgindo num dos portais que servem como saídas, espalhados pelos continentes da Terra. Benjamin desloca a Ilha e volta ao mundo exterior, mas nesse momento ela começa a viajar temporalmente também (além de fisicamente), como um cavalo fora de controle ou um disco que quica sobre a vitrola e que não se permite ser lido, o que deixa todos os seus habitantes num estado pânico de viajantes do tempo à deriva, sem um referencial que os possa salvar. Assim como Desmond era a constante de Faraday (que veio no navio de Widmore, embora nada tivesse a ver com o esquadrão armado cuja missão era procurar e trazer Benjamin sob custódia) – e Penny a de Desmond -, a menos que cada um encontrasse sua própria constante (uma referência situada no mundo exterior que realocasse sua consciência no espaço-tempo devido ou de origem, o único em que se poderia sobreviver), após um certo número de viagens no tempo estaria fadado a morrer. O intervalo das viagens se tornava cada vez mais curto, inviabilizando qualquer tentativa dos “viajantes à deriva” manterem a calma ou entenderem o que se passava, muito menos de acessar uma suposta constante. Sobrou a John Locke, o único que sabia o que Benjamin havia feito, a última cartada, da qual no entanto ele não estava muito seguro: girar a manivela da Ilha uma vez mais. Ele também acaba exilado, e a Ilha, por fim, pára de saltar para trás e para frente no tempo, i.e., fixa seus “passageiros” num tempo; este tempo, porém, é a Guerra Fria, 1977, durante as experiências da Iniciativa Dharma…

versações L O S T tergi

Naturalmente, contém spoilers…

Nada mais é que um compêndio de cabeças-duras e obstinações, longas neuroses em processo de cura…

A parricida que se torna mãe dedicada e é salva pelo cavalo preto da vida -Yin-Yang- versus o cavalo branco da Redroom de TP;
A vítima vingativa que se torna herói altruísta;
O javali preto que…
O protagonista que tem de aprender a ser só mais uma peça no tabuleiro;
A peça no tabuleiro – o rei, eu diria, a peça mais especial – que tem de se conformar em ser o bode expiatório marginal do jogo, sem decidir diretamente o ganhador (versus o jogo de xadrez de TP);
E, em contraposição ao objeto que cumpre um destino, o azarado que faz a própria sorte. Mas que também peleja até aprender a fazê-la.
O homem que morre tantas vezes e ainda encontra um significado no autossacrifício…