CURSO DE LINGUÍSTICA GERAL II (módulo parcial): https://seclusao.art.blog/2018/04/16/saussureal/ Podemos retomar, portanto, da página 148 (SEGUNDA PARTE, cap. VI), salvo o que já houver sido explorado ainda antes, no
CURSO DE LINGUÍSTICA GERAL I: https://rafazardly.wordpress.com/2020/11/16/curso-de-linguistica-geral-saussure/
O curso I foi “redigido” com base num exemplar físico, cuja editora me escapa no momento;
O curso II foi “redigido” (e imagens foram aproveitadas) com base no PDF da edição Cultrix, com prefácio de Isaac Nicolau Salum (USP). Trad.: Antônio Chelini, José Paulo Paes e Izidoro Blikstein. ISBN 978-85-316-0102-6, 34ed., 2013.
Sou proprietário de um exemplar da obra e informo que os trechos por aqui veiculados têm intuitos tão-somente educativos.
PREFÁCIO À EDIÇÃO BRASILEIRA (PRINCÍPIO DA DÉCADA DE 70) – Isaac Salum
“A 1ª edição do Cours é de 1916, e é, como se sabe, ‘obra póstuma’, pois Saussure faleceu a 22 de fevereiro de 1913. A versão portuguesa sai com ‘apenas’ 54 anos de atraso. Mas nesse ponto não somos só nós que estamos atrasados. O Cours de linguistique générale não foi um best-seller, mas foi em francês mesmo que ele se tomou conhecido na Europa e na América. A 1ª edição francesa, de 1916, tinha 337 paginas; as seguintes, de 1922, 1931, 1949, 1955, 1962… e 1969, têm 331 paginas. Note-se, porém, como crescem os intervalos entre as edições até a 4ª, de 1949, e depois se reduzem à constante de 7 anos, o que mostra que até a edição francesa teve a sua popularidade aumentada nestas duas ultimas décadas.
Uma vista de olhos sobre as traduções é bastante elucidativa. A primeira foi a versão japonesa de Kobayashi, de 1928, reeditada em 1940, 1941 e 1950. Vem depois a alemã de Lommel, em 1931, depois a russa, de H.M. Suhotin, em 1933. Uma divulgou-o no Oriente, e a outra no mundo germânico ( e nórdico) e a terceira no mundo eslavo. A versão espanhola, de Amado Alonso, enriquecida com um excelente prefácio de 23 páginas, saiu em 1945, sucedendo-se as edições de 1955, 1959, 1961, 1965 e 1967, numa cerrada competição com as edições francesas.” “A versão inglesa de Wade Baskin, saída em Nova Iorque, Toronto e Londres, de 1959. A polonesa é de 1961, e a húngara, de 1967. Em 1967 saiu a notável versão italiana de Tullio De Mauro, tradução segura e fiel, mas especialmente notável pelas 23 páginas introdutórias e por mais 202 páginas que se seguem ao texto, de maior rendimento, em virtude do corpo do tipo usado, ostentando extraordinária riqueza de informações sobre Saussure e sobre a sorte do Cours, com 305 notas ao texto e uma bibliografia de 15 páginas (cerca de 400 títulos).”
“Mas a freqüência das reedições e traduções do Cours nesta década de 60 que acaba de expirar mostra que já era tempo de fazer sair uma versão portuguesa dessa obra cujo interesse cresce com o extraordinário impulso que vêm tomando os estudos lingüísticos entre nós e em todo o mundo. Já se tem dito, e com razão, que a Lingüística é hoje a ‘vedette’ das ciências humanas. Acresce que o desenvolvimento dos currículos do nosso estudo médio nestes últimos anos impede que uma boa percentagem de colegiais e estudantes do curso superior possam ler Saussure em francês.” Retiraram o Francês da grade curricular do ensino médio. Malditos milicos!
“O Cours é um clássico. Não é uma ‘bíblia’ da Lingüística moderna, que dê a ultima palavra sobre os fatos, mas é ainda o ponto de partida de uma problemática que continua na ordem do dia.”
“É bem certo que a Lingüística americana moderna surgiu sem especial contribuição de Saussure; não deixa, porém, de causar espécie a onda de silêncio da quase totalidade dos lingüistas americanos com relação ao Cours. Bloomfield, fazendo em 1922 a recensão da Language de Sapir, chama o Cours ‘um fundamento teórico da mais recente tendência dos estudos lingüísticos’, repete esse juízo ao fazer a recensão do próprio Cours. em 1924, fala em 1926, do seu ‘débito ideal’ a Sapir e a Saussure, mas não inclui o Cours na bibliografia de sua Language, em 1933.”
“hoje não se pode deixar de reconhecer que o Cours levanta uma série intérmina de problemas. Porque, no que toca a eles, Saussure – como Sócrates e Jesus – é recebido ‘de segunda mão’. Conhecemos Sócrates pelo que Xenofonte e Platão escreveram como sendo dele. O primeiro era muito pouco filósofo para entendê-lo, e o segundo, filósofo demais para não ir além dele, ambos distorcendo-o. Jesus nada escreveu senão na areia: seus ensinos são os que nos transmitiram os seus discípulos, alguns dos quais não foram testemunhas oculares.”
COINCIDÊNCIA OU DESTINO? “foram três os Cursos de Lingüística Geral que ele ministrou na Universidade de Genebra” “Saussure várias vezes se mostra insatisfeito com os pontos de vista a que tinha chegado.” “Os editores do Cours – Charles Bally, Albert Sechehaye, com a colaboração de A. Riedlinger – só tiveram em mãos as anotações de L. Caille, L. Gautier, Paul Regard, Mme. A. Sechehaye, George Dégallier, Francis Joseph, e as notas de Riedlinger. E, tal qual ele foi editado, com a sistematização e organização dos 3 ilustres discípulos de Saussure, apresenta vários problemas críticos.”
Godel, Les sources manuscrites du Cours de linguistique générale de Ferdinand de Saussure, Genebra-Paris, Droz, 1957.
Benveniste, Saussure après um demi-siècle
“Vejo-me diante de um dilema: ou expor o assunta em toda a sua complexidade e confessar todas as minhas dúvidas, o que não pode convir para um curso que deve ser matéria de exame, ou fazer algo simplificado, mais bem-adaptado a um auditório¹ de estudantes que não são lingüistas. Mas a cada passo me vejo retido por escrúpulos.”
¹ Falando assim nem parece que seus cursos agora clássicos jamais ultrapassaram a dúzia de estudantes simultâneos!
“Ajunte-se como traço anedótico que a frase final do Cours tão citada – a Lingüística tem por único e verdadeiro objeto a língua encarada em si mesma e por si mesma – não é de Saussure, mas dos editores.
Aí está um problema crítico com tríplice complicação. Problema crítico grave como o da exegese platônica ou o problema sinótico dos Evangelhos. Naturalmente, as notas dos discípulos de Saussure foram apanhadas ao vivo na hora, como cada um podia anotar.”
“Saussure destruía os seus rascunhos apressados em que ia traçando dia a dia o esboço da sua exposição.”
“Godel não se mostra muito entusiasta com essas pesquisas. Eis o que ele diz: ‘Na época em que Saussure se ocupava de mitologia gêrmânica, apaixonou-se também por pesquisas singulares. (…) Os cadernos e os quadros em que ele consignou os resultados dessa longa e estéril investigação formam a parte mais considerável dos manuscritos que ele deixou” “É curioso notar que Tullio De Mauro, tão rico de informações, e que cita e usa tanto o Recueil como Les sources manuscrites, não os tenha incluído no seu inventário bibliográfico final, de cerca de 400 títulos.”
“Os Souvenirs de F. de Saussure concernant sa jeunesse et ses études atrás mencionados (Ms. fr. 3957) são ricos de informações acerca das suas relações com os lingüistas alemães e sobre a famosa Mémoire sur le système primitif des voyelles dans les langues indo-européenes, Leipzig, Teubner, 1879, 302 pp., escrita aos 21 anos.”
“Se a isso se acrescentar o conjunto de obras editadas em 1922 por Charles Bally e Léopold Gautier sob o título de Recueil des publications scientifiques de Ferdinand de Saussure, num grosso volume de 8 tomos e 641pp., teremos tudo o que Saussure publicou ou esboçou ou escreveu.”
“O estudo sincrônico dum estado atual de língua, especialmente na sua manifestação oral, atenua, quase dispensando, o trabalho filológico. Mas, paradoxalmente, a obra do lingüista que insistiu na sincronia constitui-se agora um notável problema filológico: o do estabelecimento do seu texto.
A edição crítica saiu em 1968 (ed. Rudolf Engler), num primeiro volume de grande formato, 31×22 cm, e de 515+515 páginas. É uma edição sinó(p)tica [simultânea, global, contextual], que dá as fontes lado a lado em 6 colunas. A primeira coluna reproduz o texto do Cours, da 1ª edição de 1916, com as variantes introduzidas na 2ª e na 3ª (de 1922 e 31). As colunas 2, 3 e 4 trazem as fontes usadas por Charles Bally e Albert Sechehaye. As colunas 5 e 6 trazem as fontes descobertas e publicadas por Robert Godel”
Assim como “a Synopse des quatre évangiles en français de Benoit e Boismard, o famoso livro de Saussure ‘que ele não escreveu’ poderá ter também o seu interesse pedagógico: será uma fotografia fiel de como é apreendido diversamente aquilo que é transmitido via oral.”
“A edição a ser oferecida a um público mais amplo só pode ser a que consagrou a obra: a edição crítica, de leitura pesada, será obra de consulta de grande utilidade para os especialistas e para os mais aficionados.” Poooxa…
“Mas êste prefácio já se alongou demais. Além disso, os trabalhos de análise da Lingüística moderna como As grandes correntes da Lingüística Moderna, de Leroy, As novas tendências da Lingüística, de Malmberg, Lingüística Románica, de lorgu Iordan, em versão espanhola de Manuel Alvar (pp. 509-601), os estudos de Meillet em Linguistique historique et linguistique générale II (pp. 174-183) e no Bullettin de la Société de Linguistique de Paris, o de Benveniste em Problèmes de linguistique générale (pp. 32-45), o de Lepschy, em La linguistique structurale (pp. 45-56), o prólogo da edição de Amado Alonso, a excelente edição de Tullio De Mauro, são guias de grande valor para o interessado. A estes acrescente-se o excelente trabalho de divulgação de Georges Mounin, Saussure ou le structuraliste sans le savoir – présentation, choix de textes, bibliographie, que, a nosso ver, tem [de] defeituoso apenas o título, pois Saussure foi antes ‘estruturalista antes do termo’, que Mounin poderia dizer à francesa le structuraliste avant la lettre.”
S., (tese de doutorado) De l’emploi du genitif absolu en sanskrit
PREFÁCIO À 1a EDIÇÃO
“Lecionou três cursos de Lingüística Geral, em 1906-1907, 1908-1909 e 1910-1911; é verdade que as necessidades do programa o obrigaram a consagrar a metade de cada um desses cursos a uma exposição relativa às línguas indo-européias, sua história e sua descrição, pelo que a parte essencial do seu tema ficou singularmente reduzida.”
“Que iríamos fazer desse material? Um trabalho crítico preliminar se impunha: era mister, para cada curso, e para cada pormenor de curso, comparando todas as versões, chegar até o pensamento do qual tínhamos apenas ecos, por vezes discordantes. Para os dois primeiros cursos, recorremos à colaboração do Sr. A. Riedlinger, um dos discípulos que acompanharam o pensamento do mestre com o maior interesse; seu trabalho, nesse ponto, nos foi muito útil. No que respeita ao terceira curso, A. Sechehaye levou a cabo o mesmo trabalho minucioso de colação e arranjo.”
“A ausência de uma Lingüística da fala é mais sensível. Prometida aos ouvintes do 3º curso, esse estudo teria tido, sem dúvida, lugar de honra nos seguintes; sabe-se muito bem por que tal promessa não pôde ser cumprida. Limitamo-nos a recolher a situar em seu lugar natural as indicações fugitivas desse programa apenas esboçado: não poderíamos ir mais longe.”
* * *
INTRODUÇÃO. I. VISÃO GERAL DA HISTÓRIA DA LINGÜÍSTICA
“os trabalhos de Ritschl acerca de Plauto podem ser chamados lingüísticos; mas nesse domínio a crítica filológica é falha num particular: apega-se muito servilmente à língua escrita e esquece a língua falada; aliás, a Antiguidade grega e latina a absorve quase completamente.”
“Bopp não tem, pois, o mérito da descoberta de que o sânscrito é parente de certos idiomas da Europa e da Ásia, mas foi ele quem compreendeu que as relações entre línguas afins podiam tornar-se matéria duma ciência autônoma.”
Curtius, Princípios de Etimologia Grega, 1879
Schleicher, Breviário de Gramática Comparada das Línguas Indo-Germânicas, 1816
(modelo seminal da escola comparatista)
“A Lingüística propriamente dita, que deu à comparação o lugar que exatamente lhe cabe, nasceu do estudo das línguas românicas e das línguas germânicas. Os estudos românicos, inaugurados por Diez – sua Gramática das Línguas Românicas data de 1836-38 –, contribuíram particularmente para aproximar a Lingüística do seu verdadeiro objeto. Os romanistas se achavam em condições privilegiadas, desconhecidas dos indo-europeístas; conhecia-se o latim, protótipo das línguas românicas; além disso, a abundância de documentos permitia acompanhar pormenorizadamente a evolução dos idiomas. Essas duas circunstâncias limitavam o campo das conjecturas e davam a toda a pesquisa uma fisionomia particularmente concreta. Os germanistas se achavam em situação idêntica; sem dúvida, o protogermânico não é conhecido diretamente, mas a história das línguas que dele derivam pode ser acompanhada com a ajuda de numerosos documentes, através de uma longa seqüência de séculos. Também os germanistas, mais próximos da realidade, chegaram a concepções diferentes das dos primeiros indo-europeístas.”
“Graças aos neogramáticos, não se viu mais na língua um organismo que se desenvolve por si, mas um produto do espirito coletivo dos grupos lingüísticos. Ao mesmo tempo, compreende-se quão errôneas e insuficientes eram as idéias da Filologia e da Gramatica comparada.”
INTRODUÇÃO. VII. A FONOLOGIA
“os primeiros lingüistas, que nada sabiam da fisiologia dos sons articulados, caiam a todo instante nessas ciladas; desapegar-se da letra era, para eles, perder o pé; para nós, constitui o primeiro passo rumo à verdade, pois é o estudo dos sons através dos próprios sons que nos proporciona o apoio que buscamos. Os lingüistas da época atual terminaram por compreendê-lo; retomando, por sua própria conta, pesquisas iniciadas por outros (fisiologistas, teóricos do canto etc.), dotaram a Lingüística de uma ciência auxiliar que a libertou da palavra escrita.”
“A Fonética é uma ciência histórica; analisa acontecimentos, transformações e se move no tempo. A Fonologia se coloca fora do tempo, já que o mecanismo da articulação permanece sempre igual a si mesmo.”
“O lingüista exige, antes de tudo, que lhe seja fornecido um meio de representar os sons articulados que suprima qualquer equívoco. De fato, inúmeros sistemas gráficos foram propostos.”
“Haveria razões para substituir por um alfabeto fonológico a ortografia usual? Essa questão tão interessante pode apenas ser aflorada aqui; para nós, a escrita fonológica deve servir apenas aos lingüistas. Antes de tudo, como fazer ingleses, alemães, franceses etc., adotarem um sistema uniforme! Além disso, um alfabeto aplicável a todos os idiomas correria o risco de atravancar-se de signas diacríticos; sem falar do aspecto desolador que apresentaria uma página de um texto que tal, é evidente que, à força de precisar, semelhante escrita obscureceria o que quisesse esclarecer e atrapalharia o leitor. Esses inconvenientes não seriam compensados por vantagens suficientes. Fora da Ciência, a exatidão fonológica não é muito desejável.”
“os gramáticos gregos designavam as sonoras (como b, d, g) pelo nome de consoantes ‘médias’ (mesai) e as surdas (como p, t, k) pelo nome de psilai, que os latinos traduziam por tenues.”
“não sabemos exatamente qual era o valor do ç sânscrito, mas como ele é continuação do k palatal indo-europeu, esse dado delimita claramente o campo das suposições.”
“Os textos poéticos são documentos preciosos para o conhecimento da pronúncia: conforme o sistema de versificação se baseie no nº de sílabas, na quantidade, ou na conformidade dos sons (aliteração, assonância, rima), tais monumentos nos fornecem informações sobre esses diversos pontos. Se o grego distingue certas longas pela grafia, em outras descura tal precisão; é nos poetas que devemos buscar informações sobre a quantidade de a, i e u. No antigo francês, a rima permite conhecer, p.ex., até que época eram diferentes as consoantes finais de gras e faz (latim facio, ‘eu faço’) e a partir de que momento se aproximaram e se confundiram. A rima e a assonância nos ensinam ainda que no francês antigo os ee provenientes dum a latino (p.ex.: père de patrem, tel de talem, mer de marem) tinham um som totalmente diverso dos outros ee. Jamais esses termos rimam ou fazem assonância com ele (de illa), vert (de viridem), belle (de bella), etc.”
“em gótico, kawtsjo nos informa a pronúncia de cautio em baixo latim.”
APÊNDICE À INTRODUÇÃO – PRINCÍPIOS DE FONOLOGIA
“Muitos fonologistas se aplicam quase exclusivamente ao ato de fonação, vale dizer, à produção dos sons pelos órgãos (laringe, boca etc.), e negligenciam o lado acústico. Esse método não é correto: não somente a impressão produzida no ouvido nos é dada tão diretamente quanto a imagem motriz dos órgãos, como também é ela a base de toda teoria.
O dado acústico existe já inconscientemente quando se abordam as unidades fonológicas; pelo ouvido, sabemos o que é um b, um t etc. Se se pudessem reproduzir por meio do cinematógrafo todos os movimentos da boca e da laringe ao executarem uma seqüência de sons, seria impossível descobrir subdivisões nessa seqüência de movimentos articulatórios; não se sabe onde um som termina e outro se inicia. Como afirmar, sem a impressão acústica, que em fal, por exemplo, existem três unidades, e não duas ou quatro? É na cadeia da fala ouvida que se pode perceber imediatamente se um som permanece ou não igual a si próprio; enquanto se tenha a impressão de algo homogêneo, este som é único. O que importa não é sua duração em colcheias e semicolcheias, mas a qualidade de impressão. A cadeia acústica não se divide em tempos iguais, mas em tempos homogêneos, caracterizados pela unidade de impressão, e esse é o ponto de partida natural para o estudo fonológico. Nesse sentido, o alfabeto grego primitivo merece nossa admiração. Cada som simples é nele representado por um único signo gráfico, e, reciprocamente, cada signo corresponde a um som simples, sempre o mesmo. É uma descoberta de gênio, que os latinos herdaram. Na escrita da palavra bárbaros, ‘bárbaro’, cada letra corresponde a um tempo homogêneo (…) No alfabeto grego primitivo, não se encontram grafias complexas coma o ‘ch’ francês p[ara uma modalidade do ‘s’], nem representações duplas de um som único como no francês o ‘s’+‘s’ por ‘s’, nem um signo simples para um som duplo, como o u ‘x’ por ks. Esse princípio, necessário e suficiente para uma boa escrita fonológica, os gregos o realizaram quase integralmente.
É verdade que escreviam [caracteres específicos] por kh, th, ph (…) mas é uma inovação posterior (…) As mesmas inscrições oferecem dois signos para o k, o kappa e o koppa, mas o fato é diferente: tratava-se de consignar dois matizes reais da pronúncia, pois o k era umas vezes palatal, outras velar; além disso, o koppa desapareceu mais tarde. Enfim – ponto mais delicado –, as inscrições primitivas gregas e latinas costumam consignar freqüentemente uma consoante dupla com uma letra simples; assim a palavra latina fuisse era escrita FUISE; portanto, infração do princípio, pois esse duplo s dura dois tempos que, como veremos, não são homogêneos e dão impressões distintas; erro desculpável, porém, pois esses dois sons, sem se confundirem, apresentam uma característica comum.”
“Os semitas só assinalavam as consoantes: um termo como bárbaros teria sido escrito por eles BRBRS.”
“o fonema é a soma das impressões acústicas e dos movimentas articulatórios da unidade ouvida e da unidade falada, das quais uma condiciona a outra; portanto, trata-se já de uma unidade complexa, que tem um pé em cada cadeia.”
“A glote, formada por dois músculos paralelos ou cordas vocais, se abre ou se fecha conforme elas se separam ou se juntam. A oclusão completa não entra, por assim dizer, em linha de conta; quanto à abertura, ela pode ser mais larga ou mais estreita. No primeiro caso, o ar passa livremente e as cordas vocais não vibram; no segundo, a passagem do ar determina as vibrações sonoras. Não há outra alternativa na emissão normal dos sons.
A cavidade nasal é um órgão completamente imóvel; a passagem do ar pode ser impedida pelo levantamento da úvula, nada mais; é uma porta aberta ou fechada.”
“a expiração, elemento positivo, mas que intervém em todo ato fonat6rio, não tem valor diferenciador; ao passo que a ausência de ressonância nasal, fator negativo, servira, do mesmo modo que sua presença, para caracterizar os fonemas.”

Excerto p. 55 – A matéria de fonologia é muito técnica e fisiológica para que eu me detenha apenas em parágrafos. “[]” denota ausência do fator na fala. Não existe fala sem expiração ou articulação bucal (o que não significa que inexista som). A letra c faz referência à intervenção da laringe, que ocorre nos cenários II e IV. A letra d diz respeito à ressonância nasal, que interfere no som emitido nos cenários III e IV. Essas são todas as combinações possíveis grosso modo (já que ainda falta comentar sobre as ‘n’ possibilidades de articulações bucais; a expiração é uniforme e não possui variações).
ESCALA DE OCLUSÃO-ABERTURA DA ARTICULAÇÃO:
(fechada) 0 (mín.) 1 2 3 4 5 6 (máx.)
0. OCLUSIVAS
3 subtipos: labial (p, b, m); dental (t, d, n); gutural (k, g, n com notação de ponto em cima).
1. FRICATIVAS OU EXPIRANTES
genericamente podemos subdividir este ponto da escala em palatais e velares conforme capta o ouvido humano na maioria das línguas.
Ex (cada exemplo exige movimento diferente da língua): Ing – thing, then; Fr – si, rose, chant, génie; Ale – ich, Bach; Alemão do Norte – liegen, Tage.
“ouve-se um v nasal no francês inventor; mas em geral a fricativa nasal não é um som de que a língua tenha consciência.”
2. NASAIS
3. LÍQUIDAS
2 subtipos: lateral e vibrante.
Lateral: Sobretudo no l francês.
Vibrante: Sobretudo no r francês.
4. SEMIVOGAIS (I, U, Ü)
Primeiro grau de oclusão para as vogais.
“Passado um certo grau de abertura, a boca funciona principalmente como ressoador. (…) Quanto mais a boca se fecha, mais o som laríngeo é interceptado; quanto mais se abre, mais diminui o ruído. É assim que, de modo totalmente mecânico, o som predomina na vogal.”
“O i se pronuncia com os lábios retraídos (signo ¯) e articulação dianteira; o u com os lábios arredondados sinal º) e articulação posterior, ü com a posição dos lábios de u articulação de i.”
5. E, O, Ö
Fr: pin, pont, brun.
dé, dos, deux.
mer, mort, meurt.
6. A NASAL & A ABERTO
A nasal: o nosso ã.
Fr: grand
* * *
“O lingüista não tem necessidade alguma de ser um fonologista consumado; ele pede simplesmente que lhe seja fornecido certo nº de dados necessários para o estudo da língua.”
“não é nunca uma unidade simples que cria embaraços em Lingüística: se, por exemplo, em dado momento, numa determinada língua, todo a se transformou em o, nada resulta daí; podemos limitar-nos a assinalar o fenômeno, sem procurar explicá-lo fonologicamente. A ciência dos sons não adquire valor enquanto dois ou mais elementos não se achem implicados numa relação de dependência interna (…) somente o fato de que haja dois elementos engendra uma relação e uma regra”
“no antigo alto alemão, hagl, balg, wagn, lang, donr, dorn, se tornaram mais tarde, hagal, balg, wagan, lang, donnar, dorn (…) ora uma vogal se desenvolve entre duas consoantes; ora o grupo permanece compacto. Como, pois, formular a lei?” R: Com base nos grupos consonantais. Ou seja, gn e ng possuem valores silábicos diferentes na pronúncia, etc.
“Para nos darmos conta do que se passa nos grupos, necessário se faz fundar uma Fonologia onde eles seriam considerados como equações algébricas; um grupo binário implica certo número de elementos mecânicos e acústicos que se condicionam reciprocamente; quando um varia, essa variação tem, sobre os outras, uma repercussão necessária, que poderá ser calculada.”
“Sem dúvida, num grupo como appa, distingue-se, além da implosão e explosão, um tempo de repouso no qual a oclusão se prolonga ad libitum, e, tratando-se de um fonema de abertura maior, como no grupo alla, é a emissão do próprio som que se prolonga na imobilidade dos órgãos.”
“o w inglês, o j alemão e amiúde o y francês (em yeux, etc.) representam sons que se abrem, em oposição a u e i somente. Mas num grau maior de abertura (e e o), a implosão e a explosão, teoricamente concebíveis (aeea, aooa) são bastante difíceis de se distinguirem na prática. (…) o a já não apresenta mais nem implosão nem explosão, pois para este fonema a abertura desfaz qualquer diferença desse gênero.”
“Pela primeira. vez, saímos da abstração; pela primeira vez, aparecem elementos concretos, indecomponíveis, ocupando um lugar e representando um tempo na cadeia falada. Pode-se dizer que P não era mais que uma unidade abstrata reunindo as características comuns do P implosivo e do P explosivo, as únicas que se encontram na realidade, exatamente como B, P, M se reúnem numa abstração superior, as labiais. Fala-se de P como se se falasse duma espécie zoológica; existem exemplares machos e fêmeas, mas jamais um exemplar ideal da espécie. São essas abstrações que até agora temos distinguido e classificado; é necessário, porém, ir mais longe e chegar ao elemento concreto.” “Vê-se porque bastam dois elementos para confundir a Fonologia tradicional [anglo-saxônica, particularmente a inglesa da época de S.], e assim fica demonstrada a impossibilidade de proceder, como ela o faz, por unidades fonológicas abstratas.”
“em prix, enquanto se pronuncia o p, os órgãos se encontram já na posição do r. Mas é impossível pronunciar em cadeia contínua a série inversa rp; não que seja mecanicamente impossível adotar a posição de p enquanto se articula um r que se abre, mas porque o movimento desse r, encontrando a abertura menor do p, não poderá ser percebido.”
“try forma uma cadeia explosiva perfeita”
“Os termos vogal e consoante designam espécies diferentes; soante e consoante indicam, ao contrário, funções na sílaba. Essa dupla terminologia permite evitar uma confusão que reinou por longo tempo.” Ex: “i” cumpre função de soante em fidalgo e de consoante em piegas. “A análise mostra que as soantes são sempre implosivas e as consoantes ora implosivas (boy), ora explosivas (pied).”
“Na prática, são os fonemas de abertura 2, 3 e 4 (nasais, líquidas, semivogais) que desempenham um ou outro papel [implosão ou explosão]”
“O ouvido percebe, em toda cadeia falada, a divisão em sílabas, e em toda sílaba uma soante.”
“o hiato, de emprego tão freqüente, não é outra coisa senão um elo implosivo rompido”
“Por que fac é medido como longo em factus? Responde-se: por causa do grupo ct; mas se isso se deve ao grupo em si, qualquer sílaba iniciada por 2 consoantes terá também quantidade longa; no entanto, não é assim (cliens)…” “A verdadeira razão está em que a explosão e a implosão são essencialmente diversas no que respeita à duração.” “Sabe-se, por outro lado, que as vogais colocadas diante de um grupo formado de oclusivas ou fricativa + líquida, são tratadas de dois modos: em patrem, o a pode ser longo ou breve”, conforme se pronuncia o tr de forma implosiva, o que dá a sensação de que o a, mesmo não tendo sido a sílaba tônica, fôra mais “longo”, ou se o pronuncia de forma explosiva, o que “encurta” o a.
“O ditongo constitui apenas um caso especial do elo implosivo” Exemplo que dá S.: art. A pronúncia de arte, artista nos soa bem natural. Acontece que o sistema articulatório se comporta da mesma maneira pronunciando autista. Falsos ditongos: “não se pode pronunciar uo como implosiva + implosiva sem rompimento da cadeia, a menos que, por via de um artifício, se imponha a esse grupo a unidade que ele não tem por natureza.”
“não podemos, p.ex., fazer distinção alguma entre newo e neuo”
“vogais protéticas” – aquele s incômodo do francês que não temos certeza se se pronuncia ou não, pois está sucedido de uma consoante.
“todo caráter fonológico pouco sensível tende a aumentar quando se insiste em conservá-lo.” (até decair o uso do s). Scole iscole, escole école
“É ainda o mesmo caso que se encontra na pronúncia popular da preposição de, que se transcreve por ed: un oiel ed tanche. Por síncope, de tanche se tornou d’tanche”
“Basta apenas relembrar a questão das soantes indo-européias, e perguntar, p.ex., por que o antigo alto alemão hagl se transformou em hagal, enquanto balg permaneceu intacto. O l desta última palavra, segundo elemento de um elo implosivo [balg, o alg é perfeitamente contínuo, ou seja, é uma sílaba só, com três implosões sucessivas, o que é sempre possível quando o som seguinte é mais fraco que o anterior], faz o papel de consoante e não tinha razão alguma para trocar de função. Ao contrário, o l, igualmente implosivo, de hagl fazia ponto vocálico.”
“Por outro lado, [essa evolução] se obscureceu com o tempo, pois hoje Hagel se pronuncia novamente hagl [g explosivo]. É isto mesmo que faz a diferença entre a pronúncia dessa palavra e a do francês aigle [é-gle, somente o e é explosivo].”
Este é o ponto ideal para ler o https://seclusao.art.blog/2018/04/16/saussureal/, que eu chamei de CURSO GERAL II no cabeçalho (PRIMEIRA PARTE + cinco primeiros capítulos da SEGUNDA PARTE). Agora empreende-se o fechamento do módulo da Lingüística Sincrônica e vai-se mais além:
SEGUNDA PARTE. VI. MECANISMO DA LÍNGUA
“Se o mecanismo da língua fosse inteiramente racional, poderíamos estudá-lo em si mesmo; mas como não passa de uma correção parcial de um sistema naturalmente caótico, adota-se o ponto de vista imposto pela natureza mesma da língua, estudando esse mecanismo como uma limitação do arbitrário.”
SEGUNDA PARTE. VII. A GRAMÁTICA E SUAS SUBDIVISÕES
“Lingüisticamente, a morfologia não tem objeto real e autônomo; não pode constituir uma disciplina distinta da sintaxe.”
“Tudo o que compõe um estado de língua pode ser reduzido a uma teoria dos sintagmas e a uma teoria das associações. Primeiramente, certas partes da Gramática tradicional parecem agrupar-se sem esforço numa ou noutra dessas ordens: a flexão é evidentemente uma forma típica da associação das formas no espírito do falante; por outro lado, a sintaxe, vale dizer, segundo a definição mais corrente, a teoria dos agrupamentos de palavras, entra na sintagmática, pois esses agrupamentos supõem sempre pelo menos duas unidades distribuídas no espaço. Nem todos os fatos da sintagmática se classificam na sintaxe, mas todos os fatos de sintaxe pertencem à sintagmática.”
TERCEIRA PARTE. LINGÜÍSTICA DIACRÔNICA
II. AS MUDANÇAS FONÉTICAS
“Em alemão, todo i se tornou ei, depois ai: win, triben, lihen, zit deram Wein, treiben, leihen, Zeit; todo u se tomou au: hus, zun, ruch Haus, Zaun, Rauch; assim também ü se converteu em eu: hüsir Hauser etc. Pelo contrário, o ditongo ie passou a i, que se continua a escrever ie: cf. biegen, lieb, Tier. Paralelamente, todos os uo se transformaram em u: muot Mut etc. Todo z deu s (escrito ss): wazer Wasser, fliezen fliessen etc. Todo h interior desapareceu de entre vogais: lihen, sehen leien, seen (escritos leihen, sehen). Todo w se transformou em v lábio-dental (escrito w): wazer wasr (Wasser).”
“O mais grave erro de método que recordamos aqui consiste em formular uma lei fonética, no presente, como se os fatos que abrange existissem de uma vez para sempre, em vez de nascerem e morrerem numa porção do tempo. É o caos, porque assim se suprime toda sucessão cronológica dos acontecimentos. (…) Quando se diz: ‘s se toma r em latim’, dá-se a entender que o rotacismo é inerente à natureza da língua e fica-se embaraçado diante de exceções como causa, risus etc. Somente a fórmula: ‘s intervocálico se tomou r em latim numa certa época’ autoriza a pensar que no momento em que s passava a r, causa, risus etc., não tinham s intervocálico e estavam ao abrigo da mudança; com efeito, dizia-se ainda caussa, rissus.”
“Disse-se que a raça teria predisposições que traçariam de antemão a direção das mudanças fonéticas. Existe aí uma questão de Antropologia comparada: o aparelho fonatório varia de uma raça para outra? Não, não mais que de um indivíduo para outro; um negro transplantado desde seu nascimento para a França fala o francês tão bem quanto os indígenas. Ademais, quando se utilizam expressões como ‘o órgão italiano’ ou ‘a boca dos germanos não admite isso’, arrisca-se a transformar em caráter permanente um fato puramente histórico”
“ao lado dos idiomas escandinavos, tão carregados de consoantes, os dos lapões e dos finlandeses são mais vocálicos que o próprio italiano.”
“Fez-se intervir a lei do menor esforço, que substituiria duas articulações por uma só, ou uma articulação difícil por outra mais cômoda. Esta idéia, diga-se o que se disser, merece exame: ela pode elucidar a causa do fenômeno em certa medida, ou indicar pelo menos a direção em que cumpre investigar.” “Só que se poderiam mencionar outros tantos casos em que se passa exatamente o contrário.” Meu exemplo: mor virou maior.
“Se é verdade que o abreviamento corresponde a um menor esforço no sentido da duração, é igualmente verdade que as pronunciações negligenciadas caem e recaem na sílaba longa e que a breve exige maior vigilância.”
“nada autoriza a admitir que às épocas agitadas da história de uma nação correspondam evoluções precipitadas dos sons de um idioma.”
III. CONSEQÜÊNCIAS GRAMATICAIS DA EVOLUÇÃO FONÉTICA
“As formas simpes hunc, hanc, hac, etc., do latim clássico, que remontam a hon-ce, han-ce, há-ce, conforme o mostram as formas epigráficas, são o resultado da aglutinação do pronome com a partícula –ce; podia-se, outrora, aproximar hon-ce etc., de ec-ce; mais tarde, porém, tendo –e caído foneticamente, isto não mais foi possível; o que equivale a dizer que não se distinguem mais os elementos de hunc, hanc, hac etc.”
“Por si mesma, a evolução dos sons não tem a virtude de criar duas formas em lugar de uma.”
“Se agora se pretende que o pronome latino me é representado em francês por duas formas: me e moi (cf. il me voit e c’est moi qu’il voit), responderemos: Foi o lat. me átono que se tornou me; me acentuado deu moi; ora, a presença ou ausência do acento depende, não de leis fonéticas que fizeram com que me passasse a me e moi, mas do papel dessa palavra na frase; trata-se de uma dualidade gramatical.” “De fato, não se registram parelhas fonéticas em parte alguma. A evolução dos sons não faz mais que acentuar as diferenças existentes antes dela.”
“Em francês, todo o latino situado em sílaba aberta se tornou eu com o acento ou ou em posição pretônica; daí parelhas como pouvons : peuvent, oeuvre : ouvrier, nouveau : neuf etc., nas quais se distingue sem esforço um elemento regular de diferença de variação.”
“A alternância pode ser assim definida: uma correspondência entre dois sons ou grupos de sons determinados, que se permutam regularmente entre duas séries de formas coexistentes.”
“É um erro, partilhado por numerosos lingüistas, acreditar que a alternância seja de ordem fonética, simplesmente porque os sons lhe formam a matéria, e porque suas alterações intervêm na gênese. De fato, quer a tomemos em seu ponto de partida ou em seu ponto de chegada, ela pertence sempre à gramática e à sincronia.”
“O ablaut (alemão), ou variação vocálica radical coincidente com uma oposição gramatical, é um exemplo capital da alternância; todavia, não se distingue do fenômeno geral por nenhum caráter particular.”
IV. A ANALOGIA
Mecanismo compensatório do fenômeno fonético.
Ex: “A princípio se disse honos : honosem, depois, por rotacismo do s, honos : honorem. O radical tinha, desde então, uma forma dupla; tal dualidade foi eliminada pela nova forma honor, criada sobre o modelo de orator : oratorem.”
“não se pode dizer de antemão até onde irá a imitação de um modelo, nem quais são os tipos destinados a provocá-la. Dessarte, não são sempre as formas mais numerosas que desencadeiam a analogia.”
“Honor e honos coexistiram durante certo tempo e era possível usar uma pela outra. Entretanto, como repugna à língua manter dois significantes para uma só idéia, as mais das vezes a forma primitiva, menos regular, cai em desuso e desaparece. É esse resultado que faz crer numa transformação: uma vez terminada a ação analógica, o estado antigo (honos : honorem) e o novo (honor : honorem) estão, em aparência, na mesma oposição que a que resulta da evolução dos sons. Todavia, no momento em que nasce honor, nada mudou, pois não se substitui nada; o desaparecimento de honos não é mais uma mudança, de vez que se trata de um fenômeno independente do primeiro.”
“A analogia é inteiramente gramatical e sincrônica.”
“Carteiro não foi engendrado por carta; foi criado pelo modelo de prisioneiro : prisão. Do mesmo modo, encartar deve sua existência à analogia com enfaixar, enquadrar, encapuzar, etc., que contêm faixa, quadro, capuz, etc. Existem, pois, em toda língua, palavras produtivas e palavras estéreis, mas a proporção de umas e outras varia. Isso se reduz à distinção já feita entre as línguas lexicológicas e as línguas gramaticais. Em chinês, em sua maioria, as palavras são indecomponíveis; ao contrário, numa língua artificial, são quase todas analisáveis.”
“Nossas gramáticas européias operam com a quarta proporcional [fenômeno do honos honorem honor transformado em procedimento-padrão]; elas explicam, p.ex., a formação de um pretérito alemão partindo de palavras completas; dizem aos alunos: sobre o modelo de setzen : setzte formem o pretérito de lachen, etc. Ao contrário, a gramática hindu estudaria num capítulo determinado as raízes (setz-, lach-, etc.), em outro as terminações do pretérito (-te…); daria os elementos resultantes da análise, e os alunos teriam de recompor as palavras completas. Em todo dicionários sânscrito, os verbos estão classificados na ordem que lhes consigna a raiz.
Conforme a tendência dominante de cada grupo lingüístico, os teóricos da gramática se inclinarão para um ou outro desses métodos.”
“O latim antigo tinha, portanto, em alto grau, o sentimento das peças da palavra (radicais, sufixos, etc.) e de sua combinação. É provável que nossas línguas modernas não o tenham de maneira tão aguda, mas parece que o alemão o tem mais que o francês.”
V. ANALOGIA E EVOLUÇÃO
“pag-anus, formado sobre pag-us, basta para mostrar como os latinos analisavam Rom-anus [em detrimento do mais antigo Roma-nus]” Ou seja, ‘pagão’ tinha tudo para ser ‘pago’, ou pelo menos ‘paganos’.
“Um exemplo particularmente curioso mostrará como a analogia trabalha de época para época com novas unidades. Em francês moderno, somnolent é analisado somnol-ent, como se fosse um particípio presente; a prova disso é que existe um verbo somnoler. Mas em latim dividia-se somno-lentus, como succu-lentus, etc., e mais antigamente ainda, somn-olentus (‘que cheira a sono’), de olere, como vin-olentus, ‘que cheira a vinho’).”
“As inovações da analogia são mais aparentes que reais. A língua é um traje coberto de remendos feitos de seu próprio tecido. Quatro quintos do francês são indo-europeus, se se pensa na substância de que se compõem suas frases, ao passo que as palavras transmitidas na sua totalidade, sem mudança analógica, da língua-mãe ao francês moderno, caberiam no espaço de uma página (p.ex.: est = esti, os nomes dos números, certos vocábulos como ours, nez, père, chein, etc.). A imensa maioria das palavras constitui, de um modo ou de outro, combinações novas de elementos fônicos arrancados a formas mais antigas. Nesse sentido, pode-se dizer que a analogia, precisamente porque utiliza sempre a matéria antiga para as suas inovações, é eminentemente conservadora.”
“O latim agunt se transmitiu quase intacto desde a época pré-histórica (quando se dizia agonti) até o limiar da época romana. Durante esse intervalo, as gerações sucessivas o retomaram sem que nenhuma forma concorrente viesse suplantá-lo. A analogia não teve nada a ver com essa conservação? Pelo contrário (…) Agunt (…) é solidário de formas como dicunt, legunt, etc. e de outras como agimus, agitis, etc. Sem essa vizinhança, teria muitas possibilidades de ser substituído por uma forma composta de novos elementos. O que se transmitiu não foi agunt, mas ag-unt; a forma não muda, porque ag- e –unt se verificavam regularmente em outras séries”
“Por conseguinte, as formas se mantém porque são refeitas analogicamente sem cessar; uma palavra é simultaneamente compreendida como unidade e como sintagma e perdura enquanto seus elementos não mudam.”
“Veja-se o que ocorre em francês com dites e faites, que correspondem diretamente ao latim dic-itis, fac-itis, mas que não têm mais ponto de apoio na flexão verbal atual; a língua procura substituí-las; ouve-se dizer disez, faisez, sobre o modelo de plaisez, lisez, etc. e essas novas desinências são já usuais na maioria dos compostos contredisez, etc.).”
“As únicas formas sobre as quais a analogia não tem poder nenhum são naturalmente as palavras isoladas, tais como os nomes próprios, especialmente os nomes de lugares”
VI. A ETIMOLOGIA POPULAR
“estropiar palavras”
“Existe, em primeiro lugar, o caso em que a palavra recebe uma interpretação nova sem que sua forma mude. Em alemão, durchbläuen, ‘moer de pancadas’, remonta etimologicamente a bliuwan, ‘fustigar’; todavia, a palavra é associada a blau (azul) devido às equimoses produzidas pelas pancadas. Na Idade Média, o alemão tomou emprestado do francês aventure, de que fez regularmente abentüre, depois Abenteuer; sem deformar a palavra, foi ela associada com Abend (‘o que se conta no serão’) de tal maneira que no século XVIII se escrevia Abend-teuer.”
“Mais comumente, entretanto, deforma-se a palavra ‘para acomodá-la aos elementos que se acreditam reconhecer nela; é o caso de choucroute (de Sauerkraut) [Sauer, rato]; em alemão, dromedarius se tornou Trampeltier, ‘o animal que pateia’; o composto é novo, mas encerra palavras que já existiam, trampeln e Tier.”
“Eis um caso particularmente instrutivo: o latim carbunculus, ‘carvãozinho’, deu em alemão Karfunkel (por associação com funkeln, ‘cintilar’) e em francês escarboucle, ligado a boucle. Calfeter, calfetrer se tornou calfeutrer por influência de feutre.”
“A analogia nada tira dos signos que substitui. Contrariamente, a etimologia popular se reduz a uma interpretação da forma antiga; a recordação, mesmo [que] confusa, é o ponto de partida da deformação”
“A etimologia popular não age, pois, senão em condições particulares, e não atinge mais que as palavras, raras, técnicas ou estrangeiras, que as pessoas assimilam imperfeitamente. A analogia, ao contrário, é um fato absolutamente geral, que pertence ao funcionamento normal da língua.”
VII. A AGLUTINAÇÃO
“ausência de vontade”
“Em francês, disse-se a princípio ce ci em duas palavras, e mais tarde ceci (…) tous jours toujours, ao jour d’ ui aujourd’hui, dès jà dejà, vert jus verjus.” Em decorrência, o acento antigo (vért-jús) também transformou-se (verjús).
“A aglutinação opera unicamente na esfera sintagmática; sua ação incide num grupo dado; não considera outra coisa. Ao contrário, a analogia faz apelo às séries associativas tanto quanto aos sintagmas.”
“em latim, possum não é mais que a soldadura de duas palavras potis sum, ‘eu sou dono’: é um aglutinado”
Grosso modo:
aglutinação lexicológica
analogia sintática
“Os lingüistas discutiram interminavelmente acerca das formas es-mi, es-ti, ed-mi, etc., do indo-europeu. Foram os elementos es-, ed-, etc., numa época muito recuada, palavras verdadeiras, aglutinadas a seguir com outras: mi, ti, etc., ou então resultam es-mi, es-ti, etc., de combinações com elementos extraídos de outras unidades complexas da mesma ordem, o que faria remontar a aglutinação a uma época anterior à formação das desinências em indo-europeu? À falta de testemunhos históricos, a questão é provavelmente insolúvel.”
VIII. UNIDADES, IDENTIDADES E REALIDADES DIACRÔNICAS
“O indo-europeu não conhecia as preposições; as relações que estas indicam eram indicadas por numerosos casos, providos de grande força significativa. Não existiam tampouco verbos compostos por meio de preverbos, mas apenas partículas, palavrinhas que se acrescentavam à frase para precisar e matizar a ação do verbo. Assim, nada que correspondesse ao latim reo b mortem, ‘ir diante da morte’, nem a obire mortem; ter-se-ia de dizer ire mortem ob. Esse é ainda o estado do grego primitivo”
“é a mesma substância com outras funções”
“Somente a solução do problema da unidade diacrônica nos permitirá ultrapassar as aparências do fenômeno de evolução e atingir-lhe a essência.”
“Com efeito, para que eu possa dizer que uma unidade persistiu idêntica a si mesma, ou que, persistindo como unidade distinta, mudou de forma ou de sentido – pois todos esses casos são possíveis – cumpre que eu saiba em quê me fundo para afirmar que um elemento tomado a uma época, p.ex. o francês chaud, é a mesma coisa que um elemento tomado a outra época, p.ex. o latim calidum.”
“é impossível que o som dê conta, por si só, da identidade.”
ADEMAIS, ERA O MAR PARA O ROMANO O MESMO QUE O MAR PARA O FRANCÊS? “Tem-se, sem dúvida, razão em dizer que o latim mare deve aparecer em francês sob a forma de mer porque todo a se tornou e em certas condições, porque o e átono final cai, etc.; afirmar, porém, que são essas relações a e, e 0 (zero), que constituem a identidade, é inverter os termos, pois, ao contrário, é em nome da correspondência mare : mer que eu julgo que o a se tornou ie, que o e final cai, etc.”
APÊNDICES DA TERCEIRA E QUARTA(?) PARTES
(?) Os editores foram muito afobados, colocando a carruagem antes dos bois!
“A escola antiga divida as palavras em raízes, temas, sufixos, etc., e dava a essas distinções um valor absoluto. Lendo Bopp e seus discípulos, acreditar-se-ia que os gregos tinham trazido consigo, desde um tempo imemorial, uma bagagem de raízes e sufixos, e que se dedicavam a confeccionar suas palavras ao falar, que pater, p.ex., era para eles raiz pa + sufixo ter, que doso, em sua boca, representava a soma de do + so + uma desinência pessoal, etc.”
“A escola nova [neogramáticos], após ter reconhecido os defeitos da antiga doutrina, o que era fácil, contentou-se em rejeitar a teoria, ao passo que, na prática, ficava como que embaraçada por um aparato científico que, apesar de tudo, não podia dispensar. Quando se raciocina sobre essas ‘abstrações’, vê-se a parte de realidade que representam, e um corretivo muito simples basta para dar a tais artifícios do gramático um sentido legítimo e exato. Foi o que tentamos fazer mais acima, ao mostrar que, unida por um vínculo interior à análise subjetiva da língua viva, a análise objetiva tem um lugar legítimo e determinado no método lingüístico.”
Como diria o filósofo (não necessariamente o filósofo – nem mesmo o filólogo, com perdão do trocadilho!), a raiz é relativa! Ou a r-aiz é hell-ativa!
“Em certos idiomas, caracteres precisos assinalam a raiz para os falantes. É o caso do alemão, em que tem um aspecto assaz uniforme; quase sempre monossilábica (streit-, bind-, haft-, etc.), ela obedece a certas regras de estrutura: os fonemas não aparecem nela numa ordem qualquer; certas combinações de consoantes, tais como oclusiva + líquida, estão proibidas em posição final: werk- é possível, wekr- não o é; encontram-se helf-, werd-; não se encontram hefl-, wedr-.”
“A etimologia não é nem uma disciplina distinta nem uma parte da Lingüística evolutiva; é somente uma aplicação especial dos princípios relativos aos fatos sincrônicos e diacrônicos [nem sequer é um método]. Ela remonta o passado [processo obviamente finito – ainda que fôra infinito, poderíamos dizer que seu limite é bem claro: a palavra, limite do sentido]” Pode-se falar, embora soe mais esquisito, em etimologia sincrônica. Ex: “matador”, cuja etimologia é o verbo “matar”. Ou pode-se prosseguir a análise até um radical indecomponível. E depois remontar à árvore ou família de radicais do Português presente (enquanto se quiser continuar nos limites da etimologia sincrônica).
QUARTA PARTE. LINGÜÍSTICA GEOGRÁFICA
I. DA DIVERSIDADE DAS LÍNGUAS
“O termo idioma designa com muita precisão a língua como algo que reflete os traços próprios de uma comunidade (o grego idioma já tinha o sentido de ‘costume especial’).”
“a Lingüística moderna reconheceu sucessivamente as famílias indo-européia, semítica, banto”
“O fino-úgrio, que compreende entre outros o finês propriamente dito ou suomi, o mordvino, o lapão, etc., é uma família de línguas faladas na Rússia setentrional e na Sibéria, e que remonta certamente a um idioma primitivo comum; tais línguas se relacionam com o grupo muito vasto das línguas ditas uralo-altaicas, cuja comunidade de origem não está provada, malgrado certos traços que se encontram em todas.”
“Cumpre não confundir o que pode ser com o que é demonstrável. O parentesco universal das línguas não é provável, mas se fosse verdadeiro – como o crê um lingüista italiano, Trombetti [próximas leituras] –, não poderia ser provado, devido ao excessivo número de mudanças ocorridas.”
“Dois idiomas podem diferir em todos os graus; assemelharem-se espantosamente, coma o zenda e o sânscrito; ou parecerem inteiramente dissemelhantes, como o sânscrito e o irlandês; todos os matizes intermediários são possíveis: assim, o grego e o latim estão mais perto um do outro que respectivamente do sânscrito etc. Os idiomas que divergem entre si somente em pequeno grau sio chamados dialetos; contudo, não se deve dar a esse termo um sentido rigorosamente exato”
II. COMPLICAÇÕES DA DIVERSIDADE GEOGRÁFICA
“na África do Sul, ao lado de diversos dialetos negros, comprova-se a presença do holandês e do inglês, resultado de duas colonizações sucessivas; foi da mesma maneira que o espanhol se implantou no México. Não se deve acreditar, porém, que as usurpações lingüísticas desse gênero sejam específicas da época moderna.”
“na Irlanda, fala-se o céltico e o inglês; muitos irlandeses possuem as duas línguas. Na Bretanha, emprega-se o bretão e o francês; na região basca, utilizam-se o francês ou o espanhol ao mesmo tempo que o basco. Na Finlândia, o sueco e o finês coexistem há muito tempo; o russo veio juntar-se a eles recentemente; na Curlândia e na Livônia falam-se o letão, o alemão e o russo; o alemão, importado por colonos chegados, na Idade Média, sob os auspícios da liga hanseática, pertence a uma classe especial da população; o russo foi a seguir importado por via de conquista. A Lituânia viu implantar-se, de par com o italiano, o polonês, conseqüência de sua antiga união com a Polônia, e o russo, resultado da incorporação ao império moscovita. Até o século XVIII, o eslavo e o alemão estavam em uso em toda a região oriental da Alemanha, a partir do Elba. Em certos países, a confusão de línguas é ainda maior; na Macedônia, encontram-se todas as línguas imagináveis: o turco, o búlgaro, o sérvio, o grego, o albanês, o rumeno etc., misturados de diversas maneiras, conforme as regiões.”
“Acontece, por exemplo, que, de duas línguas, uma é falada nas cidades e a outra nos campos; tal repartição, contudo, nem sempre é clara.”
“Se possuíssemos o mapa lingüístico do Império Romano, ele nos mostraria fatos em tudo semelhantes aos da época moderna. Assim, na Campanha, ao fim da República, falavam-se: o osco, como o testemunham as inscrições de Pompéia; o grego, língua dos colonos fundadores de Nápoles etc.; o latim; talvez até mesmo o etrusco, que imperara nessa região antes da chegada dos romanos. Em Cartago, o púnico ou fenício persistira de par com o latim (existia ainda na época da invasão árabe), sem contar que se falava certamente o númida em território cartaginês. Quase se pode admitir que na Antiguidade, à volta da bacia do Mediterrâneo, os países unilíngües constituíam a exceção.”
“os ciganos, fixados sobretudo na Hungria, formavam vilas compactas; o estudo de sua língua mostrou que devem ter vindo da Índia, numa época ignorada. Na Dobrudja, às bocas do Danúbio, encontram-se vilas tártaras esparramadas, pintalgando o mapa lingüístico daquela região.”
“Por ‘língua literária’ entendemos não somente a língua da literatura como também, em sentido mais gerai, toda espécie de língua culta, oficial ou não, ao serviço da comunidade inteira. Abandonada a si mesma, a língua conhece apenas dialetos, nenhum dos quais se impõe aos demais, pelo que ela está destinada a um fracionamento indefinido. Mas coma a civilização, ao se desenvolver, multiplica as comunicações, escolhe-se, por uma espécie de convenção tácita, um dos dialetos existentes para dele fazer o veículo de tudo quanto interesse à nação no seu conjunto.”
“dessarte, no francês literário, reconhece-se bem o dialeto da Ilha de França, e o toscano no italiano comum. Seja como for, a língua literária não se impõe do dia para a noite, e uma grande parte da população passa a ser bilíngüe, falando simultaneamente a língua de todos e o patuá local. É o que se vê em muitas regiões da França, como a Savóia, em que o francês é uma língua importada e não logrou sufocar ainda o patuá da terra.”
“Os mesmos fatos ocorreram em todos os tempos, nos povos que chegaram a certo grau de civilização. Os gregos tiveram o seu koiné, nascido do ático e do jônio, de par com o qual subsistiram os dialetos locais. Mesmo na antiga Babilônia, acredita-se poder estabelecer que houve uma língua oficial ao lado dos dialetos regionais.” Que ironia: uma Torre de Babel não logra sequer a ‘unidade nacional’!
“Uma língua geral supõe forçosamente o uso da escrita? Os poemas homéricos parecem provar o contrário; conquanto tenham surgido numa época em que mal se fazia uso da escrita, sua língua é convencional e acusa todos os caracteres de uma língua literária.”
III. CAUSAS DA DIVERSIDADE GEOGRÁFICA
“Esquece-se o fator tempo, porque é menos concreto que o espaça; na realidade, porém, é dele que releva a diferenciação lingüística. A diversidade geográfica deve traduzir-se em diversidade temporal.”
“Um u se toma ü num dado momento, num dado meio; por que se modificou nesse momento e nesse lugar, e por que se tomou ü e não o por exemplo? Eis o que ninguém poderia dizer.”
“em todo o norte da França, exceto na Picardia e numa parte da Normandia, o c e g latinos antes de alguns sons se transformaram (cantum chant; virga verge). Na Normandia e Picardia esse registro permaneceu intacto (cf. picardo cat por chat, rescapé por réchappé, que passou recentemente, aliás, para o francês; vergue de virga, etc.)”
“Se, num momento dado, uma mesma língua reina por toda a extensão de um território, ao cabo de 5 ou 10 séculos os habitantes de 2 pontos extremos não se entenderão mais, provavelmente; em compensação, os de um ponto qualquer continuarão a compreender o falar das regiões circunvizinhas.”
“A pesquisa dos caracteres dialetais foi o ponto de partida dos trabalhos de cartografia lingüística cujo modelo é o Atlas Linguistique de la France, de Gilliéron; cumpre citar também o da Alemanha, de Wenker. A forma do atlas é a mais indicada, pois somos obrigados a estudar o país região por região e para cada uma delas um mapa não pode abranger senão um pequeno número de caracteres dialetais; a mesma região deve ser retomada um grande número de vezes para que se possa ter uma idéia das particularidades fonéticas, lexicológicas, morfológicas, etc., que ali se superpõem. Investigações que tais supõem toda uma organização, inquirições de correspondentes locais, etc. Convém citar, aqui, a inquirição acerca dos patuás da Suíça romana. Uma das vantagens dos atlas lingüísticos é a de fornecer materiais para os trabalhos de dialetologia”
“Freqüentes vezes, um dialeto tem o nome de língua porque produziu uma literatura; é o caso do português e do holandês.”
“Assim como não se poderia dizer onde termina o alto alemão e onde começa o plattdeutsch, assim também é impossível traçar uma linha de demarcação entre o alemão e o holandês, entre o francês e o italiano. (…) uma zona compacta mais restrita, imaginada para servir de transição entre as duas línguas, como p.ex. o provençal entre o francês e o italiano, não tem realidade.”
“Pelos seus caracteres, o eslavo se sobrepõe ao iraniano e ao germânico, o que está de acordo com a repartição geográfica dessas línguas; de igual maneira, o germânico pode ser considerado como um anel intermediário entre o eslavo e o céltico, o qual, por sua vez, tem relações muito íntimas com o itálico (…) E, contudo, quando se considera uma fronteira entre 2 grupos de idiomas, p.ex., a fronteira germano-eslava, comprova-se um salto brusco (…) É que os dialetos intermediários desapareceram.” “Hoje, o francês literário vem chocar-se, na fronteira, com o italiano oficial (toscano generalizado), e é uma sorte que se possam ainda encontrar patuás de transição nos Alpes ocidentais, enquanto em tantas outras fronteiras lingüísticas se apagou toda lembrança de falares intermediários.”
IV. PROPAGAÇÃO DAS ONDAS LINGÜÍSTICAS
Quase poético: “a linha isoglossemática é como a orla extrema de uma inundação que se expande e que pode também refluir.”
“O foneticista distinguirá, pois, cuidadosamente os focos de inovação em que um fonema evolui unicamente sobre o eixo do tempo, e as áreas de contágio que, relevando simultaneamente do tempo e do espaço, não terão que intervir na teoria dos fatos fonéticos puros. No momento em que um ts, vindo de fora, substitui o t, não se trata da modificação de um protótipo tradicional, mas da imitação de um falar vizinho, que não leva em conta esse protótipo; quando uma forma herza, ‘coração’, vinda dos Alpes, substitui na Turíngia um herta mais arcaico, não se deve falar de mudança fonética, mas de empréstimo de fonema.”
“a teoria das ondas não nos dá somente uma visão mais justa da pré-hist6ria do indo-europeu; ela nos instrui acerca das leis primordiais de todos os fenômenos de diferenciação e das condições que regem o parentesco das línguas. Entretanto, essa teoria das ondas se opõe à das migrações sem a excluir necessariamente. (…) e isso nos leva aos problemas da evolução de um idioma em territórios separados. É o caso do antigo inglês.”
“o que o isolamento pode fazer, a continuidade geográfica o faz igualmente bem; se existe uma diferença entre essas duas ordens de fenômenos, não podemos discerni-la.”
QUINTA PARTE. QUESTÕES DE LINGÜÍSTICA RETROSPECTIVA. CONCLUSÃO.
I. AS DUAS PERSPECTIVAS DA LINGÜÍSTICA DIACRÔNICA
“O método da lingüística diacrônica prospectiva consiste unicamente em criticar os documentas de que se dispõe. Mas num grande número de casos, essa maneira de praticar a ciência é insuficiente ou inaplicável. Com efeito, para poder fixar a história de uma língua em todos os seus detalhes, acompanhando o curso do tempo, seria mister possuir uma infinidade de fotografias da língua, tomadas momento após momento. Ora, tal condição nunca se verifica: os romancistas, por exemplo, que têm o privilégio de conhecer o latim, ponto de partida de sua pesquisa, e de possuir uma massa imponente de documentas pertencentes a uma longa série de séculos, verificam, a cada instante, lacunas enormes em sua documentação. Cumpre então renunciar ao método prospectivo, ao documento direto, e proceder em sentido inverso, remontando o curso do tempo pela retrospecção. Nesse segundo modo de ver, colocamo-nos numa época dada para pesquisar não o que resulta de uma forma, mas qual é a forma mais antiga que lhe pode dar origem.
Enquanto a prospecção se reduz a uma simples narração e se funda inteiramente na crítica dos documentos, a retrospecção exige um método reconstrutivo, que se apóia na comparação. Não se pode estabelecer a forma primitiva de um signo único e isolado, ao passo que 2 signos diferentes, mas da mesma origem, como o latim pater, sânscrito pitar-, ou radical do latim ger-o e o de ges-tus, deixam já entrever, por via de sua comparação, a unidade diacrônica que os vincula ambos a um protótipo suscetível de ser reconstituído pela indução. Quanto mais numerosos forem os termos de comparação, mais precisas serão tais induções, e elas rematarão – se os dados forem suficientes – em verdadeiras reconstruções.”
“Se, p.ex., numerosos idiomas germânicos são atestados diretamente por documentos, o germânico comum de onde esses diversos idiomas saíram só é conhecido indiretamente, pelo método retrospectivo. É ainda da mesma maneira que os lingüistas pesquisaram, com variável êxito, a unidade primitiva de outras famílias.”
“Destarte, a história prospectiva do latim começa somente no séc. III ou IV a.C.; todavia, a reconstituição do indo-europeu permitiu que se tivesse uma idéia do que deve ter ocorrido no período que se estende entre a unidade primitiva e os primeiros documentos conhecidos, e foi só então que se pôde traçar o quadro prospectivo do latim.
“Ora, em teoria, pode-se conceber uma Geologia prospectiva, mas na realidade, e com maior freqüência, uma vista de olhos só pode ser retrospectiva; antes de relatar o que aconteceu num ponto da Terra está obrigada a reconstituir a cadeia dos acontecimentos e averiguar o que levou essa parte do globo ao seu estado atual.”
“Se estudarmos, p.ex., (retrospectivamente), as origens do sufixo de particípio francês em –é, remontaremos ao latim –atum; este, por suas origens, se relaciona primeiramente com os verbos denominativos latinos em –are (sílaba tônica -a-), os quais, por sua vez, remontam em grande parte aos substantivos femininos em –a| (cf. plantare : planta, grego timao : tima, etc.); por outro lado, -atum não existiria se o sufixo indo-europeu -to- não tivesse sido, por si mesmo, vivo e produtivo (cf. grego klu-to-s, latim in-clu-tu-s, sânscrito çru-ta-s, etc.): -atum encerra ainda o elemento formativo –m do acusativo singular. Se, inversamente, perguntarmos (prospectivamente) em quais formações francesas se encontra o sufixo primitivo -to-, poderíamos mencionar não somente os diversos sufixos, produtivos ou não, do particípio passado (aimé = latim amatum, fini = latim finitum, clos = latim clausum por *claudtum, etc.), mas também muitos outros como –u = latim –utum (cf. cornu = cornutum), -tif [sufixo erudito] = latim –tivum (cf. fugitif = fugitivum, sensitif, négatif, etc.) e uma porção de palavras que não se analisam mais, tais como point = latim punctum, dé = latim datum, chétif = latim captivum, etc.”
I. A LÍNGUA MAIS ANTIGA E O PROTÓTIPO
“como os documentos do sânscrito são os mais antigos do indo-europeu, tais foram erroneamente promovidos à dignidade de protótipo. Uma coisa é supor o indo-europeu engendrando o sânscrito, o grego, o eslavo, o céltico, o itálico, e outra é colocar uma dessas línguas no lugar do indo-europeu. (…) Bopp, p.ex., escrevia que ‘não acreditava que o sânscrito pudesse ser a fonte comum’, como se fosse possível formular, mesmo dubitativamente, semelhante suposição.”
primeiro dogma: não se pode dotar uma língua de idade.
“Não acontece à linguagem o mesmo que à Humanidade: a continuidade absoluta de seu desenvolvimento impede distinguir nela gerações, e Gaston Paris se insurgia, com razão, contra a concepção de línguas-filhas e línguas-mães, porque tal concepção supõe interrupções. Não é, pois, nesse sentido que se pode dizer que uma língua é mais velha que outra.”
segundo dogma: se se o fizer, condicionalmente, o tempo no qual o idioma foi falado não importa, mas sua originalidade. Ex: “poder-se-ia dizer que o lituano do século XVI [descoberta nova, língua mais ‘preservada’ ou ‘pura’] é mais antigo que o latim do séc. III a.C. [que se sabe ser apenas uma modificação de latins mais antigos dos quais não temos registros diretos].”
“Como conseqüência dessa idéia assaz confusa de antiguidade, que faz do sânscrito algo de anterior a toda a família, aconteceu mais tarde que os lingüistas, mesmo curados da idéia de uma língua-mãe, continuaram a dar importância excessiva ao testemunho que ele fornece como língua colateral.”
“em vez de falar do germânico, não se tinha escrúpulo em citar muito simplesmente ‘o gótico’, porque é anterior de vários séculos aos outros dialetos germânicos; ele se tornava, por usurpação, o protótipo, a fonte dos outros dialetos. No tocante ao eslavo, os lingüistas se apoiavam exclusivamente no eslavônico ou páleo-eslavo, conhecido no séc. X, porque os outros são conhecidos a partir de data mais recente.”
“remontando do francês ao latim, encontramo-nos bem na vertical; o território dessas línguas resulta ser, por acaso, o mesmo que aquele em que se falava o latim, e cada uma delas não é senão o latim evoluído. Vimos também que o persa das inscrições de Dario é o mesmo dialeto que o persa da Idade Média. Mas o inverso é bem mais freqüente: os testemunhos das diversas épocas pertencem a dialetos diferentes da mesma família.”
III. AS RECONSTRUÇÕES
“a comparação resultará sempre numa reconstrução de formas.”
“[mas] pode-se chegar a um fato morfológico geral, deduzido de um conjunto [de quantidade indeterminável] de verificações isoladas”
“Uma forma reconstruída não é um todo solidário, mas uma soma sempre decomponível de raciocínios fonéticos, e cada uma de suas partes é revogável e fica submetida a exame. Por conseguinte, as formas restituídas foram sempre o reflexo fiel das conclusões gerais que lhes são aplicáveis. [testagem e retestagem gradual de novos casos isolados observados] Para ‘cavalo’ em indo-europeu foram sucessivamente supostos os termos *akvas, *ak1vas, *ek1vos e por fim *ek1wos; só o s e o nº de fonemas não sofreram contestação”
(Usa-se a notação do * em geral quando a reconstrução de idioma pré-histórico – o suposto indo-europeu – é altamente segura.)
“O objetivo das reconstruções não é, portanto, restituir uma forma por si mesma, o que seria aliás bastante ridículo, mas cristalizar, condensar um conjunto de conclusões que se crêem acertadas,, segundo os resultados que foi possível obter a cada momento; numa palavra, registrar o progresso de nossa ciência. Não há porque justificar os lingüistas pela idéia assaz extravagante que se lhes atribui de restaurar de cabo a rabo o indo-europeu, como se pretendessem utilizá-lo. Nem sequer nutrem tal idéia quando abordam as línguas historicamente conhecidas (não se estuda o latim lingüisticamente a fim de falá-lo bem)”
“Trata-se de um instrumento indispensável para representar, com relativa facilidade, grande número de fatos gerais, sincrônicos e diacrônicos. As grandes linhas do indo-europeu se aclaram imediatamente pelo conjunto das reconstruções: p.ex., que os sufixos eram formados de certos elementos (f, s, r, etc.) com exclusão de outros , que a variedade complicada do vocalismo dos verbos alemães (cf. werden, wirst, ward, wurde, worden) oculta, na regra, uma mesma alternância primitiva: e-o-(valor-zero).”
“Existem formas reconstruídas que são completamente seguras, outras que permanecem discutíveis ou francamente problemáticas.”
“Em *ek1wos é inútil determinar a qualidade absoluta do e, perguntar se era aberto ou fechado, articulado mais ou menos adiante, etc.; enquanto não tenham sido reconhecidas diversas espécies de e, isso não terá importância, desde que não os confundamos com outros dos elementos distinguidos da língua (a, o, e, etc.). Isso equivale a dizer que o primeiro fonema de *ek1wos não diferia do 2º de *medhyos, do 3º de *age, etc., e que se poderia, sem especificar-lhe a natureza fônica, catalogá-lo e representá-lo pelo seu nº respectivo no quadro dos fonemas indo-europeus. Ou seja: a reconstrução de *ek1wos quer dizer que o correspondente indo-europeu do latim équos, sânscrito açva-s etc. era formado de 5 fonemas determinados, tomados à gama fonológica do idioma primitivo.”
IV. O TESTEMUNHO DA LÍNGUA EM ANTROPOLOGIA E EM PRÉ-HISTÓRIA
“seria um erro supor que pela comunidade de línguas se possa inferir a consangüinidade; que uma família de línguas encubra uma família antropológica.”
“Durante longo tempo, acreditou-se que as línguas fossem uma fonte inesgotável de documentos acerca dos povos que as falavam e de sua pré-história. Adolphe Pictet, um dos pioneiros do celtismo, é conhecido sobretudo pelo seu livro As Origens Indo-Européias (1859-63). Esta obra serviu de modelo a muitas outras; continua a ser a mais atraente de todas. Pictet quer encontrar, nos testemunhos fornecidos pelas línguas indo-européias, os traços fundamentais da civilização dos ‘árias’, e acredita poder fixar-lhe os aspectos mais diversos: coisas materiais (ferramentas, armas, animais domésticos), vida social (tratava-se de um povo nômade ou agrícola?), família, governo; intenta conhecer o berço dos árias, que situa em Bactriana; estuda a fauna e a flora da região que habitavam. É este o ensaio mais considerável que já se fez nessa direção; a ciência que assim inaugurou recebeu o nome de Paleontologia lingüística.”
“Uma das tentativas mais recentes é a de Hermann Hirt (Die Indogermanen, 1905-1907).(*) Ela se funda na teoria de Schmidt para determinar a região habitada pelos indo-europeus (…) fatos de vocabulário mostraram-lhe que os indo-europeus eram agricultores, e ele se recusa a situá-los na Rússia meridional, mais adequada à vida nômade; a freqüência dos nomes de árvores, e, sobretudo, de certas essências (pinho, bétula, faia, carvalho), o leva a pensar que a região dos árias era arborizada e situada entre o Harz e o Vístula, mais especialmente na região de Brandemburgo e Berlim. Recordemos também que, mesmo antes de Pictet, Adalbert Kuhn e outros haviam utilizado a Lingüística para reconstruir a mitologia e a religião dos indo-europeus.
(*) Cf. também Arbois de Jubainville: Os Primeiros Habitantes da Europa (1877); O. Schrader: Sprachvergleichung und Urgeschichte [Mesclas de língua e Pré-história]; S. Feist: Europa im Lichte der Vorgerschichte [A Europa à Luz da Pré-História] (1910).”
Ora, não parece que se possa pedir a uma língua ensinamentos desse gênero”
“compreendeu-se pouco a pouco como são raras as palavras cuja origem está bem-estabelecida, e o linguista se tornou mais circunspecto.”
“a palavra para designar ‘arar’ falta nos idiomas asiáticos; isso, porém, não significa que tal ocupação fosse desconhecida no princípio: o arar pode muito bem ter caído em desuso ou ter sido levado a cabo através de outros procedimentos, designados por outras palavras.”
“o cânhamo só veio a ser conhecido na bacia do Mediterrâneo muito tardiamente, mais tardiamente ainda que nos países do Norte; em cada ocasião, o nome do cânhamo passava com a planta.”
“Em Homero, einateres quer dizer <concunhadas> no sentido de <mulheres de vários irmãos>; e galooi <cunhadas> no sentido de <mulher e irmã do marido entre si>; ora, o latim janitrices corresponde a einateres pela forma e pela significação. Do mesmo modo, o <cunhado, marido da irmã> não tem o mesmo nome que os <concunhados, maridos de várias irmãs, entre si>. Aqui se pode, portanto, verificar um pormenor minucioso, mas em geral temos de contentar-nos com uma informação geral. O mesmo acontece com animais: no caso de espécies importantes, como a espécie bovina, não apenas se pode contar com a coincidência do grego bous, do alemão Kuh, do sânscrito gau-s, etc., e reconstituir um indo-europeu *g2ou-s, como também a flexão tem os mesmos caracteres em todas as línguas, o que não seria possível se se tratasse de uma palavra tomada de empréstimo, posteriormente, a outra língua.”
“A despeito de tudo quanto se disse sobre o vínculo de dominus com domus, os linguistas não se sentem plenamente satisfeitos, pois é coisa das mais extraordinárias ver um sufixo –no- formar derivados secundários; nunca se ouviu falar de uma formação como seria em grego *oiko-no-s ou *oike-nos-s de oikos, ou em sânscrito *açva-na- de açva-. Mas é precisamente tal rareza que dá ao sufixo de dominus sem valor e seu relevo. [Aqui, Saussure elenca uma série de semelhanças em idiomas, em que uma mesma raiz gerou as palavras para senhor ou deus e povo ou servo, submisso.]”
Por inferência e analogia, pode-se concluir que tribunus é uma derivação de tribus significando “chefe da tribo”.
“Dominus, com seu singular sufixo, nos parece uma prova dificilmente refutável não apenas de uma comunidade lingüística mas também de uma comunidade de instituições entre o etnismo italiota e o etnismo germânico. Cumpre, todavia, lembrar, uma vez mais, que as comparações de língua a língua RARAS VEZES proporcionam índices tão característicos.”
V. FAMÍLIAS DE LÍNGUAS E TIPOS LINGÜÍSTICOS. CONCLUSÃO.
“Embora reconhecendo que Schleicher violentava a realidade ao ver na língua uma coisa orgânica, que trazia em si própria a sua lei de evolução, continuamos, sem vacilar, a querer fazer dela uma coisa orgânica em outro sentido, ao supor que o ‘gênio’ de uma raça ou de um grupo étnico tende a conduzir a língua incessantemente por caminhos determinados.”
