O GUARANI

DIC – fanqueiro: comerciante de tecidos

urutau: ave noturna de rapina

ananás: abacaxi

librar: suspender; equilibrar.

sofrer, o: (Brasil) ave cujo canto imita a pronúncia so-frer (anàlogamente ao bem-te-vi)

pequiá: pequi (derivado do Tupi)

viuvinha: (Portugal) jogo popular; (Portugal) dança de roda; (Portugal) peixe; (Brasil) planta (quando no singular); (Portugal) planta (quando no plural); pássaro; corda (coloquial).

viúva-alegre: camburão; (Moçambique) pássaro.

corrupio: rodopiar ou andar em círculos; atividade frenética; (Brasil) cata-vento.

chuço: lança; (Portugal) peixe; (Portugal) guarda-chuva); (Portugal) o gentio em relação ao judeu; tamanco ou bota de má qualidade.

bugre: rústico, primata; sujeito intratável. “Brinco de ouro do Bugre.”

carocha: inseto, mormente a barata; chapéu depreciativo que recebiam os condenados à fogueira na Idade Média; chapéu depreciativo (a.k.a. carapuça) para humilhar os piores alunos da classe; fogão de funileiro; (Portugal) mulher horrível; mentira (quando no plural); bruxaria (quando no plural); sexo oral no ânus ou beijo grego (apenas no Nordeste do Brasil); (Portugal) o mesmo que Fusca para nós.

endecha: poesia ou canção fúnebre

coleóptero: inseto de 4 asas, das quais 2 são especialmente duras

dédalo: labirinto; confusão; florido.

alçácar: alcácer, palácio-fortaleza

montante: enchente da maré; lado de cima da nascente; a montante – o que precede de imediato; alabarda (espada pesada que necessitava ser empunhada com as duas mãos).

anime: resina

íris: membrana ocular interna; borboleta diurna; planta.

* * *

o cupim, esse roedor eterno, que antes do dilúvio já se havia agarrado à arca de Noé, e pôde assim escapar ao cataclisma.”

uma dessas guitarras espanholas que os ciganos introduziram no Brasil quando expulsos de Portugal”

A habitação que descrevemos pertencia a D. Antônio de Mariz, fidalgo português de cota d’armas e um dos fundadores da cidade do Rio de Janeiro.” “Em 1567 acompanhou Mem de Sá ao Rio de Janeiro, e depois da vitória alcançada pelos portugueses, auxiliou o governador nos trabalhos da fundação da cidade e consolidação do domínio de Portugal nessa capitania.” “Homem de valor, experimentado na guerra, ativo, afeito a combater os índios, prestou grandes serviços nas descobertas e explorações do interior de Minas e Espírito Santo.” “A derrota de Alcácer-Quibir, e o domínio espanhol que se lhe seguiu, vieram modificar a vida de D. Antônio de Mariz. Português de antiga têmpera, fidalgo leal, entendia que estava preso ao rei de Portugal pelo juramento da nobreza, e que só a ele devia preito e menagem. Quando pois, em 1582, foi aclamado no Brasil D. Felipe II como o sucessor da monarquia portuguesa, o velho fidalgo embainhou a espada e retirou-se do serviço. Por algum tempo esperou a projetada expedição de D. Pedro da Cunha, que pretendeu transportar ao Brasil a coroa portuguesa, colocada então sobre a cabeça do seu legítimo herdeiro, D. Antônio, prior do Crato. Depois, vendo que esta expedição não se realizava, e que seu braço e sua coragem de nada valiam ao rei de Portugal, jurou que ao menos lhe guardaria fidelidade até a morte. Tomou os seus penatos, o seu brasão, as suas armas, a sua família, e foi estabelecer-se naquela sesmaria que lhe concedera Mem de Sá.”

Naquele tempo dava-se o nome de bandeira a essas caravanas de aventureiros que se entranhavam pelos sertões do Brasil, à busca de ouro, os brilhantes e esmeraldas, ou à descoberta de rios e terras ainda desconhecidas. A que nesse momento costeava a margem do Paraíba, era da mesma natureza”

nada é mais natural a quem viaja, do que o desejo de chegar.”

continuava a assobiar entredentes uma cançoneta de condottiere, de quem ele apresentava o verdadeiro tipo.”

“– Em que quereis que um homem gaste seu tempo neste sertão, senão a olhar para seus semelhantes, e ver o que eles fazem?

Com efeito é uma boa distração.”

“– Sabeis uma coisa, Sr. Loredano?

Saberei, cavalheiro, se me fizerdes a honra de dizer.”

Tinha então, sempre em sonho, um desses assomos de cólera de rainha ofendida, que fazia arquear as sobrancelhas louras, e bater sobre a relva a ponta de um pezinho de menina. Mas o escravo suplicante erguia os olhos tão magoados, tão cheios de preces mudas e de resignação, que ela sentia um quer que seja de inexprimível, e ficava triste, até que fugia e ia chorar. (…) mas conservava sempre uma sombra de melancolia, que só a pouco e pouco o seu gênio alegre conseguia desvanecer.”

“– É para veres! Tudo cansa neste mundo.

Ah! compreendo! estás enfastiada de viver aqui nestes ermos.

Já me habituei tanto a ver estas árvores, este rio, estes montes, que quero-lhes como se me tivessem visto nascer.

Então o que é que te faz triste?

Não sei; falta-me alguma coisa.”

(…)

Olha, respondeu Isabel; ali está a tua rola esperando que a chames, e o teu veadinho que te olha com os olhos doces; só falta o outro animal selvagem.

Peri! exclamou Cecília rindo-se da idéia de sua prima.

Ele mesmo! Só tens dois cativos para fazeres as tuas travessuras; e como não vês o mais feio, e o mais desengraçado, estás aborrecida.

(…)

Ora, Cecília, como queres que se trate um selvagem que tem a pele escura e o sangue vermelho? Tua mãe não diz que um índio é um animal como um cavalo ou um cão?

Estas últimas palavras foram ditas com uma ironia amarga, que a filha de Antônio de Mariz compreendeu perfeitamente.

Isabel!… exclamou ela ressentida.”

“– Sim! e isto me causou um prazer, que tu não imaginas. Se eu fosse tua irmã!…”

imediatamente a rola saltou dos galhos da acácia, e veio aninhar-se no seu seio, estremecendo de prazer ao contato da mãozinha que alisava a sua penugem macia.”

“– Não achas que voltaram muito depressa? perguntou Isabel sem reparar na perturbação de sua prima.

Muito; quem sabe se houve alguma coisa!

19 dias apenas… disse Isabel maquinalmente.”

(…)

Nos trazem, sim; porque eu encomendei um fio de pérolas para ti. Devem ir-te bem as pérolas, com tuas faces cor de jambo! Sabes que eu tenho inveja do teu moreninho, prima?

E eu daria a minha vida para ter a tua alvura, Cecília.”

Cometestes uma ação má assassinando uma mulher, uma ação indigna do nome que vos dei; isto mostra que ainda não sabeis fazer uso da espada que trazeis à cinta.”

“– Tratais esse filho sempre com excessivo rigor, Sr. D. Antônio!

E vós com extrema benevolência, D. Lauriana. Assim, como não quero que o vosso amor o perca, vejo-me obrigado a privar-vos da sua companhia.

(…)

Quem vos fala em desterro, senhora? Quereis que D. Diogo passe toda a sua vida agarrado ao vosso avental e à vossa roca?”

D. Antônio desejava saber notícias do Rio de Janeiro e de Portugal, onde se haviam perdido todas as esperanças de uma restauração, que só teve lugar 40 anos depois com a aclamação do duque de Bragança.”

Como é solene e grave no meio das nossas matas a hora misteriosa do crepúsculo, em que a natureza se ajoelha aos pés do Criador para murmurar a prece da noite!” “O urutau no fundo da mata solta as suas notas graves e sonoras, que, reboando pelas longas crastas [claustros] de verdura, vão ecoar ao longe como o toque lento e pausado do ângelus.” “Todas as pessoas reunidas na esplanada sentiam mais ou menos a impressão poderosa desta hora solene, e cediam involuntariamente a esse sentimento vago, que não é bem tristeza, mas respeito misturado de um certo temor. De repente, os sons melancólicos de um clarim prolongaram-se pelo ar quebrando o concerto da tarde; era um dos aventureiros que tocava a Ave-Maria.”

Loredano foi o único que conservou o seu sorriso desdenhoso, e seguia com o mesmo olhar torvo [terrível] os menores movimentos de Álvaro, ajoelhado perto de Cecília e embebido em contemplá-la, como se ela fosse a divindade a quem dirigia a sua prece.”

Os aventureiros e seus chefes viviam num lado da casa inteiramente separados da família; durante o dia corriam os matos e ocupavam-se com a caça ou com diversos trabalhos de cordoagem e marcenaria. Era unicamente na hora da prece que se reuniam um momento na esplanada, onde, quando o tempo estava bom, as damas vinham também fazer a sua oração da tarde.” “o domingo era consagrado ao repouso, à distração e à alegria; então dava-se às vezes um acontecimento extraordinário como um passeio, uma caçada, ou uma volta em canoa pelo rio. Já se vê pois a razão por que Álvaro tinha tantos desejos, como dizia o italiano, de chegar ao Paquequer em um sábado, e antes das seis horas; o moço sonhava com a aventura desses curtos instantes de contemplação e com a liberdade do domingo, que lhe ofereceria talvez ocasião de arriscar uma palavra.”

“– Brincava com uma onça como vós com o vosso veadinho, D. Cecília.

Meu Deus! exclamou a moça soltando um grito.”

viam-se aos cantos do alpendre, grossas talhas cheias de vinho de caju e ananás, onde os aventureiros podiam beber à larga. O vício tinha suprido os licores europeus pelas bebidas selvagens; afora uma pequena diferença de sabor, havia no fundo de todas elas o álcool que excita o espírito, e produz a embriaguez.”

“– E vós, Loredano, nada dizeis? Estais aí que não há modo de vos ouvir uma palavra!

Certo, acudiu outro, Bento Simões diz verdade; se não é a fome que vos traz mudo, algo tendes, misser italiano.

Voto a Deus, Martim Vaz, disse um terceiro, que são penares por alguma moçoila que andou reqüestando em São Sebastião.

Tirai-vos lá com os vossos penares, Rui Soeiro; achais que Loredano seja homem de se amofinar com coisa de tal jaez?

E por que não, Vasco Afonso? Todos calçamos pelo mesmo sapato, em que o aperte mais a uns do que a outros.

Não julgueis os mais por vós, dom namorado; homens há que trazem seu pensamento empregado em coisa de mor valia do que requebros e galanteios.

O italiano conservava-se taciturno, e deixava que os outros o trouxessem à baila, sem dar-se por achado: era fácil ver que ele seguia com afinco uma idéia que lhe trabalhava no espírito.”

Loredano, levantando-se, fez um gesto a Rui Soeiro e a Bento Simões; e os 3 seguiram juntos até ao meio do terreiro; o italiano murmurou-lhes ao ouvido uma simples palavra:

Amanhã!”

É que as paixões no deserto, e sobretudo no seio desta natureza grande e majestosa, são verdadeiras epopéias do coração.”

As cortinas da janela cerraram-se; Cecília tinha-se deitado. Junto da inocente menina adormecida na isenção de sua alma pura de virgem, velavam 3 sentimentos profundos, palpitavam 3 corações bem diferentes. Em Loredano, o aventureiro de baixa extração, esse sentimento era um desejo ardente, uma sede de gozo, uma febre que lhe requeimava o sangue; o instinto brutal dessa natureza vigorosa era ainda aumentado pela impossibilidade moral que a sua condição criava, pela barreira que se elevava entre eles, pobre colono, e a filha de D. Antônio de Mariz, rico fidalgo de solar e brasão. Para destruir esta barreira e igualar as posições, seria necessário um acontecimento extraordinário, um fato que alterasse completamente as leis da sociedade naquele tempo mais rigorosas que hoje; era preciso uma dessas situações em face das quais os indivíduos, qualquer que seja a sua hierarquia, nobres e párias, nivelam-se; e descem ou sobem à condição de homens. O aventureiro compreendia isto; talvez que o seu espírito italiano já tivesse sondado o alcance dessa idéia; em todo o caso o que afirmamos é que ele esperava, e esperando vigiava o seu tesouro com um zelo e uma constância a toda a prova; os 20 dias que passara no Rio de Janeiro tinham sido verdadeiro suplício. Em Álvaro, cavalheiro dedicado e cortês, o sentimento era uma afeição nobre e pura, cheia de graciosa timidez que perfuma as primeiras flores do coração, e do entusiasmo cavalheiresco que tanta poesia dava aos amores daquele tempo de crença e lealdade. Sentir-se perto de Cecília, vê-la e trocar alguma palavra a custo balbuciada; corarem ambos sem saberem por quê, e fugirem desejando encontrar-se; era toda a história desse afeto inocente, que se entregava descuidosamente ao futuro, librando-se nas asas da esperança. Nesta noite Álvaro ia dar um passo que na sua habitual timidez, ele comparava quase com um pedido formal de casamento; tinha resolvido fazer a moça aceitar, malgrado seu, o mimo que recusara, deitando-o na sua janela; esperava que encontrando-o no dia seguinte, Cecília lhe perdoaria o seu ardimento, e conservaria a sua prenda. Em Peri o sentimento era um culto, espécie de idolatria fanática, na qual não entrava um só pensamento de egoísmo; amava Cecília não para sentir um prazer ou ter uma satisfação, mas para dedicar-se inteiramente a ela, para cumprir o menor dos seus desejos, para evitar que a moça tivesse um pensamento que não fosse imediatamente uma realidade. Ao contrário dos outros ele não estava ali, nem por um ciúme inquieto, nem por uma esperança risonha; arrostava a morte unicamente para ver se Cecília estava contente, feliz e alegre; se não desejava alguma coisa que ele adivinharia no seu rosto, e iria buscar nessa mesma noite, nesse mesmo instante. Assim o amor se transformava tão completamente nessas organizações, que apresentava 3 sentimentos bem distintos; um era uma loucura, o outro uma paixão, o último uma religião. Loredano desejava; Álvaro amava; Peri adorava. O aventureiro daria a vida para gozar; o cavalheiro arrostaria a morte para merecer um olhar; o selvagem se mataria, se preciso fosse, só para fazer Cecília sorrir. Entretanto nenhum desses 3 homens podia tocar a janela da moça, sem correr um risco iminente; e isto pela posição em que se achava o quarto de Cecília.”

O que havia dentro desta redoma, de tão poderoso, de tão forte, que justificasse aquela exclamação, e o olhar brilhante que iluminava a pupila negra de Isabel? (…) Era o pó sutil do curare, o veneno terrível dos selvagens.”

“– Isto não é razão, continuou ela; porventura um animal feroz é a mesma coisa que um pássaro, e apanha-se como uma flor?

Tudo é o mesmo, desde que te causa prazer, senhora.

Mas então, exclamou a menina com um assomo de impaciência, se eu te pedisse aquela nuvem?…

(…)

Peri ia buscar.

A nuvem? perguntou a moça admirada.

Sim, a nuvem.

Cecília pensou que o índio tinha perdido a cabeça; ele continuou:

Somente como a nuvem não é da terra e o homem não pode tocá-la, Peri morria e ia pedir ao Senhor do céu a nuvem para dar a Ceci.

(…)

A sua fingida severidade não pôde mais resistir; deixou pairar nos seus lábios um sorriso divino.

Obrigada, meu bom Peri! Tu és um amigo dedicado; mas não quero que arrisques tua vida para satisfazer um capricho meu; e sim que a conserves para me defenderes como já fizeste uma vez.”

A moça e o índio nem se olharam; odiavam-se mutuamente; era uma antipatia que começara desde o momento em que se viram, e que cada dia aumentava.

Agora, Peri, Isabel e eu vamos ao banho.

Peri te acompanha, senhora?

Sim, mas com a condição de que Peri há de estar muito quieto e sossegado.

(…)

Peri, com o seu arco, companheiro inseparável e arma terrível na sua mão destra, sentava-se longe, à beira do rio, numa das pontas mais altas do rochedo ou no galho de alguma árvore, e não deixava ninguém aproximar-se num raio de 20 passos do lagar onde as moças se banhavam.

(…)

Entretanto Cecília e sua prima tinham o costume de banhar-se vestidas com um trajo feito de ligeira estamenha que ocultava inteiramente sob a cor escura as formas do corpo, deixando-lhes os movimentos livres para nadarem. Mas Peri entendia que apesar disto seria uma profanação consentir que um olhar de quem quer que fosse visse a senhora no seu trajo de banho; nem mesmo o dele que era seu escravo, e por conseguinte não podia ofendê-la, a ela que era o seu único deus.

(…)

Cecília podia ser ofendida pelo tronco que a correnteza carregava, pela fruta que caía; podia assustar-se com o contato do limo julgando ser uma cobra; e Peri não perdoaria a si mesmo a mais leve mágoa que a moça sofresse por falta de cuidado seu. Enfim ele estendia ao redor dela uma vigilância tão constante e infatigável, uma proteção tão inteligente e delicada, que a moça podia descansar, certa de que, se sofresse alguma coisa, seria porque todo o poder do homem fôra impotente para evitar. Eis pois a razão por que Cecília recomendava a Peri que estivesse quieto e sossegado; é verdade que ela sabia que essa recomendação era sempre inútil, e que o índio faria tudo para que uma abelha sequer não viesse beijar os seus lábios vermelhos confundindo-os com uma flor de pequiá.”

Descendo a escada de pedras da esplanada Cecília perguntava à sua prima:

Dize-me uma coisa, Isabel; por que é que tu não falas ao Sr. Álvaro?

Isabel estremeceu.

(…)

Confessa que não gostas dele. Tens-lhe antipatia?

A moça calou-se.

Não falas?… olha que então vou pensar outra coisa! continuou Cecília galanteando.

Isabel empalideceu; e levando a mão ao coração para comprimir as pulsações violentas, fez um esforço supremo e arrancou algumas palavras que pareciam queimar-lhe os lábios:

Bem sabes que o aborreço!…

(…)

Quanto a Isabel, temendo trair o seu segredo, tinha arrancado do seu coração cheio de amor, essa palavra de ódio, que para ela era quase uma blasfêmia. Mas antes isso do que revelar o que se passava em sua alma; esse mistério, essa ignorância que envolvia o seu amor, e o escondia a todos os olhos, tinha para ela uma voluptuosidade inexprimível. Podia assim fitar horas e horas o moço, sem que ele o percebesse, sem o incomodar talvez com a prece muda do olhar suplicante; podia rever-se em sua alma sem que um sorriso de desdém ou de zombaria a fizesse sofrer.

O sol vinha nascendo.

(…)

Era a hora em que o cacto, a flor da noite, fechava o seu cálice cheio das gotas de orvalho com que destila o seu perfume, temendo que o sol crestasse a alvura diáfana de suas pétalas.”

Mas quando o corpinho da anágua caindo, descobriu suas alvas espáduas e seu colo puro e suave, a menina quase morreu de pejo e de susto. Um passarinho, escondido entre as folhas, um gárrulo travesso e malicioso, gritava distintamente: – Bem-te-vi! Cecília riu-se do susto que tivera, e acabou o seu vestuário de banho que a cobria toda, deixando apenas nus os braços e o pezinho de menina.”

Por diferentes vezes a dama tinha procurado persuadir seu marido a expulsar o índio que ela não podia sofrer, e cuja presença bastava para causar-lhe um faniquito. Mas todos os seus esforços tinham sido baldados; o fidalgo com a sua lealdade e o cavalheirismo apreciava o caráter de Peri, e via nele embora selvagem, um homem de sentimentos nobres e de alma grande.”

É natural, minha filha, as lágrimas são um bálsamo que Deus deu à fraqueza da mulher, e que negou à força do homem.”

Toda a noite rondaram em torno da habitação, e nessa manhã vendo sair as duas moças, resolveram vingar-se com a aplicação dessa lei de talião que era o único princípio de direito e justiça que reconheciam. Tinham morto sua filha, era justo que matassem também a filha do seu inimigo; vida por vida, lágrima por lágrima, desgraça por desgraça.” “Agora é fácil conhecer a razão por que Peri perseguia a índia, resto da infeliz família. Sabia que ela ia direto ter com seus irmãos, e que à primeira palavra que proferisse, toda a tribo se levantaria como um só homem para vingar a morte do seu cacique e a perda da mais bela filha dos Aimorés. Ora, o índio conhecia a ferocidade desse povo sem pátria e sem religião, que se alimentava de carne humana e vivia como feras, no chão e pelas grutas e cavernas; estremecia com a idéia de que pudesse vir assaltar a casa de D. Antônio de Mariz.” “Aquela morte, pensava ele, não podia ter sido feita senão por uma criatura humana; qualquer outro animal usaria dos dentes ou das garras, e deixaria traços de ferimento. O cão pertencia à índia; fora ela pois quem o havia estrangulado há bem poucos momentos, porque a fratura do pescoço era de natureza a produzir a morte quase imediatamente.”

“– E nesse papel escrevestes que o pretendeis assassinar a ele e a sua mulher, e lançar fogo à casa se preciso for para a realização de vossos intentos?

Escrevi tudo!

Tivestes o arrojo de confessar que tencionais roubar sua filha e fazer dela, nobre moça, a barregã [concubina, amásia] de um aventureiro e réprobo como vós?

Sim!

E dissestes também, continuou Rui no auge da desesperação, que a outra sua filha nos pertencerá, a nós que jogaremos a sorte para decidir a qual deverá tocar?

Não me esqueci de nada, e menos desse ponto importante, respondeu o italiano com um sorriso; tudo isso está escrito em um pergaminho, nas mãos de D. Antônio de Mariz. Para sabê-lo, basta que o fidalgo rompa os pingos de cera preta com que mestre Garcia Ferreira, tabelião do Rio de Janeiro, o cerrou na minha penúltima viagem.

Loredano pronunciou estas palavras com a maior calma, contemplando os dois aventureiros pálidos e humilhados diante dele.

(…)

…Quando uma vez se pôs o pé sobre o precipício, amigos, é preciso caminhar por cima dele, para não rolar e ir ao fundo.

Aqui tendes, disse ele lentamente, o tesouro de Robério Dias; pertence-nos. Um pouco detento, e seremos mais ricos que o sultão de Bagdá, e mais poderosos que o doge de Veneza.”

“– Mais alguns dias, amigos, continuou Loredano, e seremos ricos, nobres, poderosos como um rei. Tu, Bento Simões, serás marquês de Paquequer; tu, Rui Soeiro, duque das Minas; eu… Que serei eu, disse Loredano com um sorriso que iluminou a sua fisionomia inteligente. Eu serei…

Uma palavra partiu do seio da terra, surda e cavernosa, como se uma voz sepulcral a houvesse pronunciado:

Traidores!…

Os três aventureiros ergueram-se de um só movimento, hirtos e lívidos: pareciam cadáveres surgindo da campa.”

Roteiro verídico e exato em que se trata da rota que fez Robério Dias, o pai, em o ano da graça de 1587 às paragens de Jacobina, onde descobriu com o favor de Deus as mais ricas minas de prataria que existam no mundo; com a suma de todas as indicações de marcos, balizas e linha equinocial onde demoram aquelas ditas minas; começado em 20 de janeiro, dia do mártir São Sebastião, e terminado na primeira dominga de Páscoa em que chegamos com a mercê da Providência nesta cidade do Salvador.”

Que pensava ele?… Não pensava; delirava. Diante de seus olhos, a imaginação exaltada lhe apresentava um mar argênteo, um oceano de metal fundido, alvo e resplandecente, que ia se perder no infinito. As vagas desse mar de prata, ora achamalotavam-se, ora rolavam formando frocos de espumas, que pareciam flores de diamantes, de esmeraldas e rubins cintilando à luz do sol. Às vezes também nessa face lisa e polida desenhavam-se como em um espelho palácios encantados, mulheres belas como as huris do profeta, virgens graciosas como os anjos de Nossa Senhora do Monte Carmelo. Assim decorreu meia hora, em que o silêncio era apenas interrompido pelo estertor do moribundo, pelo trovão que rugia; depois houve uma calma sinistra; o pecador expirava impenitente.”

O carmelita teve uma vertigem; lembrou-se da cena da tarde, do tremendo castigo que ele próprio havia evocado na sua hipocrisia, e se realizara tão prontamente. Mas o deslumbramento passou; estremecendo ainda e pálido de terror, o réprobo levantou o braço como desafiando a cólera do céu, e soltou uma blasfêmia horrível:

Podeis matar-me; mas se me deixardes a vida, hei de ser rico e poderoso, contra a vontade do mundo inteiro!”

O carmelita acompanhado pelo selvagem partiu: vagou pela floresta e pelo campo em todas as direções; alguma coisa procurava. Ele avistou depois de duas horas a touça de cardos junto da qual se passou a última cena que narramos; examinou-a por todos os lados e sorriu de satisfeito.” “Era um aventureiro destemido e audaz, em cuja fisionomia se reconheciam ainda os traços do carmelita Fr. Ângelo di Luca. Este aventureiro chamou-se Loredano. Deixava naquele lugar e sepultado no seio da terra um terrível segredo; isto é, um rolo de pergaminho, um burel de frade e um cadáver. Cinco meses passados, o vigário da ordem participava ao geral em Roma que o irmão Fr. Ângelo di Luca morrera como santo e mártir no zelo de sua fé apostólica.”

ouviu-se um grito vibrante e uma palavra de língua estranha: Iara! É um vocábulo guarani: significa a senhora.

Quanto ao sentimento que ditara esse proceder, D. Antônio não se admirava; conhecia o caráter dos nossos selvagens, tão injustamente caluniados pelos historiadores; sabia que fora da guerra e da vingança eram generosos, capazes de uma ação grande, e de um estímulo nobre.”

“– De que nação és?, perguntou-lhe o cavalheiro em guarani.

Goitacá, respondeu o selvagem erguendo a cabeça com altivez.

Como te chamas

Peri, filho de Ararê, primeiro de sua tribo.

Eu sou um fidalgo português, um branco inimigo de tua raça, conquistador de tua terra; mas tu salvaste minha filha; ofereço-te a minha amizade.

Peri aceita; tu já eras amigo.

Como assim? perguntou D. Antônio admirado.”

As mulheres chegaram e disseram: <Peri, primeiro de todos, tu és belo como o sol, e flexível como a cana selvagem que te deu o nome; as mulheres são tuas escravas>.”

Na casa da cruz, no meio do fogo, Peri tinha visto a senhora dos brancos; era alva como a filha da lua; era bela como a garça do rio. Tinha a cor do céu nos olhos; a cor do sol nos cabelos; estava vestida de nuvens, com um cinto de estrelas e uma pluma de luz. O fogo passou; a casa da cruz caiu. De noite Peri teve um sonho; a senhora apareceu; estava triste e falou assim: <Peri, guerreiro livre, tu és meu escravo; tu me seguirás por toda a parte, como a estrela grande acompanha o dia>.” “Viu passar o gavião. Se Peri fosse o gavião, ia ver a senhora no céu. Viu passar o vento. Se Peri fosse o vento, carregava a senhora no ar. Viu passar a sombra. Se Peri fosse a sombra, acompanhava a senhora de noite. Os passarinhos dormiram três vezes. Sua mãe veio e disse: <Peri, filho de Ararê, guerreiro branco salvou tua mãe; virgem branca também>. Peri tomou suas armas e partiu; ia ver o guerreiro branco para ser amigo; e a filha da senhora para ser escravo.”

“– …O vinho é o licor que dá a força, a coragem, a alegria. Beber por um amigo é uma maneira de dizer que o amigo é e será forte, corajoso e feliz. Eu bebo pelo filho de Ararê.

E Peri bebe por ti, porque és pai da senhora; bebe por ti, porque salvaste sua mãe; bebe por ti, porque és guerreiro.”

Em Isabel o índio fizera a mesma impressão que lhe causava sempre a presença de um homem daquela cor; lembrara-se de sua mãe infeliz, da raça de que provinha, e da causa do desdém com que era geralmente tratada.”

Homens mercenários que vendem a sua liberdade, consciência e vida por um salário, não têm dedicação verdadeira senão a um objeto, o dinheiro; seu senhor, seu chefe e seu amigo é o que mais lhe paga.”

Toda a continência de sua vida monástica, todos os desejos violentos que o hábito tinha selado como uma crosta de gelo, todo esse sangue vigoroso e forte da mocidade, passada em vigílias e abstinências, refluíram ao coração e o sufocaram um momento. Depois um êxtase de voluptuosidade imensa embebeu essa alma velha pela corrupção e pelo crime, mas virgem para o amor. O seu coração revelava-se com toda a veemência da vontade audaz, que era o móvel de sua vida. Sentiu que essa mulher era tão necessária à sua existência, como o tesouro que sonhava; ser rico para ela, possuí-la para gozar a riqueza, foi desde então o seu único pensamento, a sua única idéia dominante.”

À vista do roteiro era impossível que não sentissem a febre da riqueza, a auri sacra fames que se havia apoderado dele próprio, no momento em que vira abrir-se diante de seus olhos um mar de prata fundida em que os seus lábios podiam matar a sede ardente que o devorava.”

A nação Goitacá dominava todo o território entre o Cabo de São Tomé e o Cabo Frio; era um povo guerreiro, valente e destemido, que por diversas vezes fizera sentir aos conquistadores a força de suas armas. Tinha arrasado completamente a colônia da Paraíba fundada por Pero de Góis; e depois de um assédio de 6 meses conseguira destruir igualmente a colônia de Vitória, fundada no Espírito Santo por Vasco Fernandes Coutinho.”

Ver aquela alma selvagem, livre como as aves que planavam no ar ou como os rios que corriam na várzea; aquela natureza forte e vigorosa que fazia prodígios de força e coragem; aquela vontade indomável como a torrente que se precipita do alto da serra; prostrar-se a seus pés submissa, vencida, escrava!… Era preciso que não fosse mulher para não sentir o orgulho de dominar essa organização e brincar com a força obrigando-a a curvar-se diante do seu olhar. As mulheres têm isso de particular; reconhecendo-se fracas, a sua maior ambição é reinar pelo ímã dessa mesma fraqueza, sobre tudo o que é forte, grande e superior a elas: não amam a inteligência, a coragem, o gênio, o poder, senão para vencê-los e subjugá-los. Entretanto a mulher deixa-se bastantes vezes dominar; mas e sempre pelo homem que, não lhe excitando a admiração, não irrita a sua vaidade e não provoca por conseguinte essa luta da fraqueza contra a força. Cecília era uma menina ingênua e inocente, que nem sequer tinha consciência do seu poder, e do encanto de sua casta beleza; mas era filha de Eva, e não podia se eximir de um quase nada de vaidade.”

“– Peri é escravo da senhora.

Mas Peri é um guerreiro e um chefe.

A nação Goitacá tem cem guerreiros fortes como Peri, mil arcos ligeiros como o vôo do gavião.

Assim, decididamente queres ficar?

Sim; e como tu não queres dar a Peri a tua hospitalidade, uma árvore da floresta lhe servirá de abrigo.

Tu me ofendes, Peri! exclamou o fidalgo; a minha casa está aberta para todos, e sobretudo para ti que és amigo e salvaste minha filha.

Não, Peri não te ofende; mas sabe que tem a pele cor de terra.

E o coração de ouro.”

<Na guerra os guerreiros combatem; há sangue. Na paz as mulheres trabalham; há vinho. A estrela brilhou; é hora de partir. A brisa soprou; é tempo de andar.> A pessoa que modulava esta canção selvagem era uma índia já idosa; encostada a uma árvore da floresta ela vira por entre a folhagem a cena que passava na esplanada.”

“– Peri não voltará!

Sua mãe fez um gesto de espanto e desespero.

O fruto que cai da árvore, não torna mais a ela; a folha que se despega do ramo, murcha, seca e morre; o vento a leva. Peri é a folha; tu és a árvore, mãe. Peri não voltará ao teu seio.

(…)

…Uma mãe sem seu filho é uma terra sem água; queima e mata tudo que se chega a ela.

Estas palavras foram acompanhadas de um olhar de ameaça, em que se revelava a ferocidade do tigre que defende os seus cachorrinhos.”

CECI N’EST PAS UNE PIPE

Ceci era o nome que o índio dava à sua senhora, depois que lhe tinham ensinado que ela se chamava Cecília.”

“– Por que me chamas tu Ceci?

O índio sorriu tristemente.

Não sabe dizer Cecília?

Peri pronunciou claramente o nome da moça com todas as sílabas; isto era tanto mais admirável quanto a sua língua não conhecia quatro letras, das quais uma era o L.

Mas então, disse a menina com alguma curiosidade, se tu sabes o meu nome, por que não o dizes sempre?

Porque Ceci é o nome que Peri tem dentro da alma.

Ah! é um nome de tua língua?

Sim.

O que quer dizer?

O que Peri sente.

Mas em português?

Senhora não deve saber.

A menina bateu com a ponta do pé no chão e fez um gesto de impaciência. D. Antônio passava; Cecília foi ao seu encontro.

Meu pai, dizei-me o que significa Ceci nessa língua selvagem que falais.

Ceci?… disse o fidalgo procurando lembrar-se. Sim! É um verbo que significa doer, magoar.

A menina sentiu um remorso; reconheceu a sua ingratidão; e lembrando-se do que devia ao selvagem e da maneira por que o tratava, achou-se má, egoísta e cruel.”

Mas Álvaro sabia que só um homem podia lutar com ele, e levar-lhe vantagem em qualquer arma, e esse era Peri; porque juntava à arte a superioridade do selvagem habituado desde o berço à guerra constante que é a sua vida. Loredano tinha pois razão de hesitar em atacar de frente um inimigo desta força; mas a necessidade urgia, e o italiano era corajoso e ágil também. Endireitou para o cavalheiro, resolvido a morrer ou a salvar a sua vida e a sua fortuna.”

Não é ódio que me inspirais, é desprezo; é mais do que desprezo; é asco. O réptil que se roja pelo chão causa-me menos repugnância do que o vosso aspecto.”

Álvaro tinha recebido de D. Antônio de Mariz todos os princípios daquela antiga lealdade cavalheiresca do século XV, os quais o velho fidalgo conservava como o melhor legado de seus avós; o moço moldava todas as suas ações, todas as suas idéias, por aquele tipo de barões portugueses que haviam combatido em Aljubarrota ao lado do Mestre de Avis, o rei cavalheiro.” “Álvaro fitou no índio um olhar admirado. Onde é que este selvagem sem cultura aprendera a poesia simples, mas graciosa; onde bebera a delicadeza de sensibilidade que dificilmente se encontra num coração gasto pelo atrito da sociedade? A cena que se desenrolava a seus olhos respondeu-lhe; a natureza brasileira, tão rica e brilhante, era a imagem que produzia aquele espírito virgem, como o espelho das águas reflete o azul do céu. Quem conhece a vegetação de nossa terra desde a parasita mimosa até o cedro gigante; quem no reino animal desce do tigre e do tapir [anta], símbolos da ferocidade e da força, até o lindo beija-flor e o inseto dourado; quem olha este céu que passa do mais puro anil aos reflexos bronzeados que anunciam as grandes borrascas; quem viu, sob a verde pelúcia da relva esmaltada de flores que cobre as nossas várzeas deslizar mil répteis que levam a morte num átomo de veneno, compreende o que Álvaro sentiu. Com efeito, o que exprime essa cadeia que liga os dois extremos de tudo o que constitui a vida? Que quer dizer a força no ápice do poder aliada à fraqueza em todo o seu mimo; a beleza e a graça sucedendo aos dramas terríveis e aos monstros repulsivos; a morte horrível a par da vida brilhante? Não é isso a poesia? O homem que nasceu, embalou-se e cresceu nesse berço perfumado; no meio de cenas tão diversas, entre o eterno contraste do sorriso e da lágrima, da flor e do espinho, do mel e do veneno, não é um poeta? Poeta primitivo, canta a natureza na mesma linguagem da natureza; ignorante do que se passa nele, vai procurar nas imagens que tem diante dos olhos, a expressão do sentimento vago e confuso que lhe agita a alma. Sua palavra é a que Deus escreveu com as letras que formam o livro da criação; é a flor, o céu, a luz, a cor, o ar, o sol; sublimes coisas que a natureza fez sorrindo. A sua frase corre como o regato que serpeja, ou salta como o rio que se despenha da cascata; às vezes se eleva ao cima da montanha, outras desce e rasteja como o inseto, delicada e mimosa.”

“– Peri só ama o que a senhora ama; porque só ama a senhora neste mundo: por ela deixou sua mãe, seus irmãos e a terra onde nasceu.

Mas se Cecília não me quisesse como julgas?

Peri faria o mesmo que o dia com a noite; passaria sem te ver.

E se eu não amasse a Cecília?

Impossível!

Quem sabe? disse o moço sorrindo.

Se a senhora ficasse triste por ti!… exclamou o índio cuja pupila irradiou.

Sim? o que farias?

Peri te mataria.

(…)

Escuta, Peri é filho do sol; e renegava o sol se ele queimasse a pele alva de Ceci. Peri ama o vento; e odiava o vento se ele arrancasse um cabelo de ouro de Ceci. Peri gosta de ver o céu; e não levantava a vista, se ele fosse mais azul do que os olhos de Ceci.

(…)

…Antes que me matasses, creio que me mataria a mim mesmo se tivera a desgraça de fazer Cecília infeliz.

Tu és bom; Peri quer que a senhora te ame.

O índio contou então a Álvaro o que se tinha passado na noite antecedente; o moço empalideceu de cólera, e quis voltar em busca do italiano; desta vez não lhe perdoara.”

Aqui era uma casa de marimbondos, que ele assanhava com o chapéu, e o faziam bater em retirada honrosa, correndo a todo o estirão das pernas; ali era um desses lagartos de longa cauda que pilhado de improviso se enrolara pelas pernas do escudeiro com uma formidável chicotada. Isto sem falar das urtigas, e das unhas-de-gato, cabeçadas e quedas, que faziam o digno escudeiro arrenegar-se, e maldizer da selvajaria de semelhante terra! Ah! quem o dera nos tojos e charnecas de sua pátria!”

Quando eu digo que não é possível, é como se a nossa madre igreja… Que diabo ia rezar-lhe? Ai! que chamei sem querer a madre igreja de diabo! Forte heresia! Quem se mete a tagarelar dos santos com esta casta de pagão… Tagarelar dos santos!… Virgem Santíssima! Estou incapaz! Cala-te, boca! não me pies mais!” “por força ainda ninguém levou o filho de meu pai, que bom é que saibas, foi homem de faca e calhau.”

Cecília não compreendia essa luta do amor com os outros sentimentos do coração, luta terrível em que quase sempre a paixão vitoriosa subjuga o dever, e a razão. Na sua ingênua simplicidade acreditava que podia ligar perfeitamente a veneração que tinha por seu pai, o respeito que votava à sua mãe, o afeto que sentia por Álvaro, o amor fraternal que consagrava a seu irmão e a Isabel, e a amizade que tinha a Peri. (…) Enquanto pudesse beijar a mão de seu pai e de sua mãe, receber uma carícia de seu irmão e de sua prima, sorrir a seu cavalheiro e brincar com o seu escravo, a existência para ela seria de flores.” “era uma esperança, um desses lindos coleópteros verdes que a poesia popular chama lavandeira-de-deus. A alma nos momentos supremos de aflição suspende-se ao fio o mais tênue da esperança; Cecília sorriu-se entre as lágrimas, tomou a lavandeira entre os seus dedos rosados e acariciou-a.” “A caixinha continha um simples bracelete de pérolas; mas estas eram do mais puro esmalte e lindas como pérolas que eram; bem mostravam que tinham sido escolhidas pelos olhos de Álvaro, e destinadas ao braço de Cecília. A menina admirou-as um momento com o sentimento de faceirice que é inato na mulher, e lhe serve de sétimo sentido.”

“– Tenho uma filha natural: a estima que voto a minha mulher e o receio de fazer essa pobre menina corar de seu nascimento, obrigaram-me a dar-lhe em vida o título de sobrinha.

Isabel?… exclamou D. Diogo.”

O fidalgo abriu os braços e deu em Peri o abraço fraternal consagrado pelos estilos da antiga cavalaria, da qual já naquele tempo apenas restavam vagas tradições.”

“– Não recusais o que vos peço, disse ele afetuosamente, aceitai-me por vosso irmão.

Assim deve ser, respondeu Isabel tristemente. Cecília me chama sua irmã; vós deveis ser meu irmão. Aceito! Sereis bom para mim?

Sim, D. Isabel!

Um irmão não deve tratar sua irmã pelo seu nome, simplesmente? perguntou ela com timidez.

Álvaro hesitou.

Sim, Isabel.

A moça recebeu essa palavra como um gozo supremo; parecia-lhe que os lábios do cavalheiro, pronunciando assim familiarmente o seu nome, a acariciavam.

Obrigada! Não sabeis que bem me faz ouvir-vos chamar-me assim. É preciso ter sofrido muito para que a felicidade esteja em tão pouco.

Contai-me as vossas mágoas.

Não; deixai-as comigo; talvez depois as conte; agora só quero mostrar-vos que não sou tão culpada como pensais.

Culpada! Em quê?

Em querer-vos, disse Isabel corando.

Álvaro tornou-se frio e reservado.

Sei que vos incomodo; mas é a primeira e a última vez; ouvi-me, depois ralhareis comigo, como um irmão com sua irmã.

A voz de Isabel era tão doce, seu olhar tão suplicante, que Álvaro não pôde resistir.

Falai, minha irmã.

Sabeis o que eu sou; uma pobre órfã que perdeu sua mãe muito cedo, e não conheceu seu pai. Tenho vivido da compaixão alheia; não me queixo, mas sofro. Filha de duas raças inimigas devia amar a ambas; entretanto minha mãe desgraçada fez-me odiar a uma, o desdém com que me tratam fez-me desprezar a outra.

Pobre moça! murmurou Álvaro lembrando-se segunda vez das palavras de D. Antônio de Mariz.

Assim isolada no meio de todos, alimentando apenas o sentimento amargo que minha mãe deixara no meu coração, sentia a necessidade de amar alguma coisa. Não se pode viver somente de ódio e desprezo!…

Tendes razão, Isabel.

(…)

Isto me bastava. Quando vos tinha olhado horas e horas, sem que o percebêsseis, julgava-me feliz; recolhia-me com a minha doce imagem, e conversava com ela, ou adormecia sonhando bem lindos sonhos.

O cavalheiro sentia-se perturbado; mas não ousava interromper a Isabel.

Não sabeis que segredos tem esse amor que vive só de suas ilusões, sem que um olhar, uma palavra o alimente. A mais pequenina coisa é um prazer, uma ventura suprema. Quantas vezes não acompanhava o raio de lua que entrava pela minha janela e que vinha a pouco e pouco se aproximando de mim; julgava ver naquela doce claridade o vosso semblante, e esperava trêmula de prazer como se vos esperasse. Quando o raio se chegava, quando a sua luz acetinada caía sobre mim, sentia um gozo imenso; acreditava que me sorríeis, que vossas mãos apertavam as minhas, que vosso rosto se reclinava para mim, e vossos lábios me falavam…

Isabel pendeu a cabeça lânguida sobre o ombro de Álvaro; o cavalheiro palpitando de emoção passou o braço pela cintura da moça e apertou-a ao coração; mas de repente afastou-se com um movimento brusco.

Não vos arreceeis de mim, disse ela com melancolia, sei que não me deveis amar. Sois nobre e generoso; o vosso primeiro amor será o último. Podeis-me ouvir sem temor.

Que vos resta dizer-me ainda? perguntou Álvaro.

Resta a explicação que há pouco me pedíeis.

Ah! enfim!

Isabel contou então como apesar de toda a força de vontade com que guardava o seu segredo, se havia traído; contou a conversa de Cecília e o modo por que a menina lhe fizera aceitar o bracelete.

Agora sabeis tudo; o meu afeto vai de novo entrar no meu coração, donde nunca sairia se não fosse a fatalidade que fez com que vos aproximásseis de mim, e me dirigisse algumas palavras doces. A esperança para as almas que não a conheceram ainda, ilude tanto e fascina, que devo merecer-vos desculpa. Esquecei-me, meu irmão, antes que lembrar-vos de mim para odiar-me!

(…)

Estava convencido que Cecília não o amava, e nunca o havia amado; e esta descoberta tinha lugar no mesmo dia em que D. Antônio de Mariz lhe dava a mão de sua filha! Sob o peso da mágoa dolorosa, como é sempre a primeira mágoa do coração, o cavalheiro afastou-se distraído, com a cabeça baixa; caminhou sem direção, seguindo a linha que lhe traçavam os grupos de árvores, destacados aqui e ali sobre a campina. Estava quase a anoitecer: a sombra pálida e descorada do crepúsculo estendia-se como um manto de gaza sobre a natureza; os objetos iam perdendo a forma, a cor, e ondulavam no espaço vagos e indecisos. A primeira estrela engolfada no azul do céu luzia a furto como os olhos de uma menina que se abrem ao acordar, e cerram-se outra vez temendo a claridade do dia: um grilo escondido no toco de uma árvore começava a sua canção; era o trovador inseto saudando a aproximação da noite.”

“– Tu dás a Peri as tuas cores, senhora? disse o índio.

Não tenho, respondeu a menina; mas vou tomar umas para te dar; queres?

Peri te pede.

Quais achas mais bonitas?

A de teu rosto, e a de teus olhos.

Cecília sorriu.

Toma-as; eu tas dou.

Desde este dia, Peri enramou todas as suas setas de penas azuis e brancas; seus ornatos, além de uma faixa de plumas escarlates que fora tecida por sua mãe, eram ordinariamente das mesmas cores.”

O fidalgo era amado e respeitado por todos os aventureiros; nunca durante dez anos que o moço o acompanhava, se tinha dado na banda um só ato de insubordinação contra a pessoa do chefe; havia faltas de disciplina, rixas entre os companheiros, tentativas de deserção; mas não passava disto. O índio sabia que Álvaro duvidaria do que se passava; e por isso se obstinava em guardar parte do segredo, receando que o moço com seu cavalheirismo não tomasse o partido dos três aventureiros.”

“– Tu não amas Ceci!

Álvaro estremeceu.

Se tu a amasses, matarias teu irmão para livrá-la de um perigo.”

sacrificaria o mundo se possível fosse; contanto que pudesse, como o Noé dos índios, salvar uma palmeira onde abrigar Cecília.”

“– Olha, continuou a menina; Ceci vai te ensinar a conhecer o Senhor do Céu, e a rezar também e ler bonitas histórias. Quando souberes tudo isto, ela bordará um manto de seda para ti; terá uma espada, e uma cruz no peito. Sim?

A planta precisa de sol para crescer; a flor precisa de água para abrir; Peri precisa de liberdade para viver.

Mas tu serás livre; e nobre como meu pai.

Não!… O pássaro que voa nos ares cai, se lhe quebram as asas. o peixe que nada no rio morre, se o deitam em terra; Peri será como o pássaro e como o peixe, se tu cortas as suas asas e o tiras da vida em que nasceu.”

<Tu és mouro; eu sou cristã>:

Falou

A formosa castelã.

<Mouro, tens o meu amor;

Cristão,

Serás meu nobre senhor.>

(…)

<Antes de ver-te, senhora,

Fui rei;

Serei teu escravo agora.

Por ti deixo meu alçácar

Fiel”

Para que sorrisse era necessário que alguma inspiração infernal tivesse subido do centro da terra a essa inteligência votada ao crime.”

É coisa singular como a melancolia inspira! Seja por uma necessidade de expansão, seja porque a música e a poesia suavizem a dor, toda a criatura triste acha no canto um supremo consolo.”

“– Se Peri fosse cristão, e um homem quisesse te ofender, ele não poderia matá-lo, porque o teu Deus manda que um homem não mate outro. Peri selvagem não respeita ninguém; quem ofende sua senhora é seu inimigo, e, morre!

Cecília, pálida de emoção, olhou o índio, admirada não tanto da sublime dedicação, como do raciocínio”

Lembrava-se de suas palavras, e perguntava a si mesma como tivera a coragem de dizer aquilo, que antes nem mesmo os seus olhos se animavam a exprimir silenciosamente.” “era preciso que não fosse homem para não se sentir profundamente comovido pelo amor de uma mulher bela, e pelas palavras de fogo que corriam dos lábios de Isabel”

Matando-a, para que a mesma cova receba nossos dois corpos; não sei por quê, mas parece-me que ainda cadáver, o contato dessa mulher deve ser para mim um gozo imenso.”

Sois menos que escravos, menos que cães, menos que feras! Sois traidores infames e refeces!… Mereceis mais do que a morte; mereceis o desprezo.”

É preciso amar para compreender essa voluptuosidade do olhar que se repousa sobre o objeto amado, que não se cansa de ver aquilo que está impresso na imaginação, mas que tem sempre um novo encanto.”

O instinto selvagem supria a indústria do homem civilizado; a primeira das artes foi incontestavelmente a arte da guerra, – a arte da defesa e da vingança, os dois mais fortes estímulos do coração humano.” “tacapes, espécie de longas espadas de pau que cortavam como ferro” “Então encostou-se a uma lasca de pedra que descansava sobre uma ondulação do terreno, e preparou-se para o combate monstruoso de um só homem contra 200.” “Peri abaixou o seu montante e esperou; seu braço direito fatigado desse enorme esforço não podia mais servir-lhe e caía inerte; passou a arma para a mão esquerda. Era tempo. O velho cacique dos Aimorés se avançava para ele sopesando a sua imensa clava crivada de escamas de peixe e dentes de fera; alavanca terrível que o seu braço possante fazia jogar com a ligeireza da flecha. Os olhos de Peri brilharam; endireitando o seu talhe, fitou no selvagem esse olhar seguro e certeiro, que não o enganara nunca. O velho aproximando-se levantou a sua clava e imprimindo-lhe o movimento de rotação, ia descarregá-la sobre Peri e abatê-lo; não havia espada nem montante que pudesse resistir àquele choque. O que passou-se então foi tão rápido, que não é possível descrevê-lo; quando o braço do velho volvendo a clava ia atirá-la, o montante de Peri lampejou no ar e decepou o punho do selvagem; mão e clava foram rojar pelo chão. O velho selvagem soltou um bramido, que repercutiu ao longe pelos ecos da floresta, e levantando ao céu o seu punho decepado atirou as gotas de sangue que vertiam, sobre os Aimorés, como conjurando-os à vingança. Os guerreiros lançaram-se para vingar o seu chefe; mas um novo espetáculo se apresentava aos seus olhos. Peri, vencedor do cacique, volveu um olhar em torno dele, e vendo o estrago que tinha feito, os cadáveres dos Aimorés amontoados uns sobre os outros, fincou a ponta do montante no chão e quebrou a lâmina. Tomou depois os dois fragmentos e atirou-os ao rio. Então passou-se nele uma luta silenciosa, mas terrível para quem pudesse compreendê-la. Tinha quebrado a sua espada, porque não queria mais combater; e decidira que era tempo de suplicar a vida ao inimigo. Mas quando chegou o momento de realizar essa súplica, conheceu que exigia de si mesmo uma coisa sobre-humana, uma coisa superior às suas forças. (…) Finalmente a lembrança de Cecília foi mais forte do que a sua vontade. Ajoelhou.” “Os selvagens abaixaram as armas e não deram um passo; esse povo bárbaro tinha seus costumes e suas leis; e uma delas era esse direito exclusivo do vencedor sobre o seu prisioneiro de guerra, essa conquista do fraco pelo forte. Tinham em tanto conta a glória de trazerem um cativo do combate e sacrificá-lo no meio das festas e cerimônias que costumavam celebrar, que nenhum selvagem matava o inimigo que se rendia; fazia-o prisioneiro. Quanto a Peri, vendo o gesto do cacique e o efeito que produzia, a sua fisionomia expandiu-se; a humildade fingida, a posição suplicante que por um esforço supremo conseguira tomar, desapareceu imediatamente.”

Havia nos olhos da menina tanto fogo, tanta lubricidade no seu sorriso; as ondulações mórbidas do seu corpo traíam tantos desejos e tanta voluptuosidade, que o prisioneiro compreendeu imediatamente qual era a missão dessa enviada da morte, dessa esposa do túmulo, destinada a embelezar os últimos momentos da vida! O índio voltou o rosto com desdém; recusava as flores como tinha recusado os frutos; repelia a embriaguez do prazer como havia repelido a embriaguez do vinho. A menina enlaçou-o com os braços, murmurando palavras entrecortadas de uma língua desconhecida, da língua dos Aimorés, que Peri não entendia; era talvez uma súplica, ou um consolo com que procurava mitigar a dor do vencido.” “Contudo Peri sentia o hálito ardente da menina que lhe requeimava as faces: entreabriu os olhos, e viu-a na mesma posição, esperando uma carícia; um afago daquele a quem a sua tribo mandara que amasse, e a quem ela já amava espontaneamente. Na vida selvagem, tão próxima da natureza, onde a conveniência e os costumes não reprimem os movimentos do coração, o sentimento é uma flor que nasce como a flor do campo, e cresce em algumas horas com uma gota de orvalho e um raio de sol. Nos tempos de civilização, ao contrário, o sentimento torna-se planta exótica; que só vinga e floresce nas estufas, isto é, nos corações onde o sangue é vigoroso, e o fogo da paixão ardente e intenso. Vendo Peri no meio do combate, só contra toda a sua tribo, a índia o admirara: contemplando-o depois quando prisioneiro, o achara mais belo do que todos os guerreiros. Seu pai a destinara para esposa do inimigo que ia ser sacrificado; e portanto ela que começara por admirá-lo, acabava por desejá-lo, por amá-lo, algumas horas apenas depois que o tinha visto.”

Chegando em face do prisioneiro, a fisionomia do velho esclareceu-se com um sorriso feroz, reflexo dessa embriaguez do sangue, que dilata as narinas do jaguar prestes a saltar sobre a presa.

Sou teu matador! disse em guarani.

Peri não se admirou ouvindo a sua bela língua adulterada pelos sons roucos e guturais que saíam dos lábios do selvagem.”

Guerreiro goitacá, tu és forte e valente; tua nação é temida na guerra. A nação Aimoré é forte entre as mais fortes, valente entre as mais valentes. Tu vais morrer.”

Segundo as leis tradicionais do povo bárbaro, toda a tribo devia tomar parte no festim: as mulheres moças tocavam apenas na carne do prisioneiro; mas os guerreiros a saboreavam como um manjar delicado, adubado pelo prazer da vingança; e as velhas com a gula feroz das harpias que se cevam no sangue de suas vítimas.”

Ele os puniria a todos com a morte ou com o desprezo, essa outra morte moral; mas o castigo na sua opinião elevava a morte à altura de um exemplo; enquanto que a vingança a fazia descer ao nível do assassinato.” “Fincaram no meio do terreiro um alto poste e o cercaram com uma grande pilha de madeira e outros combustíveis; depois sobre essa pira ligaram o frade, que sofria todos os insultos e todas as injúrias sem proferir uma palavra. Uma espécie de atonia se apoderara do italiano desde o momento em que os aventureiros o haviam arrastado da sala de D. Antônio de Mariz; ele tinha a consciência do seu crime e a certeza de sua condenação. (…) O que o consolava na sua última hora era a idéia de que esse segredo que possuía, e do qual não pudera utilizar-se, ia morrer com ele, e ficaria perdido para todos; que ninguém gozaria do tesouro que lhe escapava. Por isso apenas o aventureiro tirou-lhe a cinta onde guardava o roteiro; soltou um rugido de cólera e de raiva impotente; seus olhos injetaram-se de sangue, e seus membros crispando-se feriram-se contra as cordas que os ligavam ao poste. Era horrível de ver nesse momento; se aspecto tinha a expressão brutal e feroz de um hidrófobo; seus lábios espumavam, silvando como a serpente; e seus dentes ameaçavam de longe os seus algozes como as presas do jaguar. (…) A raiva do italiano redobrou quando Martim Vaz atou a cinta ao corpo, e disse-lhe sorrindo:

Bem sabeis o provérbio: <O bocado não é para quem o faz>.”

Para quem conhecia, como D. Antônio, os costumes desses povos bárbaros, para quem sabia quanto era ativa, agitada, ruidosa esta existência nômada, o silêncio em que estava sepultada a margem do rio era um sinal certo de que os Aimorés já ali não estavam. Contudo o fidalgo, demasiadamente prudente para se fiar em aparências, recomendara aos seus homens que redobrassem de vigilância para evitar alguma surpresa.”

É que o prazer e o sofrimento não passam de um contraste; em luta perpétua e contínua, eles se acrisolam um no outro, e se deparam: não há homem verdadeiramente feliz senão aquele que já conheceu a desgraça.”

A esperança, esse anjo invisível, essa doce amiga dos que sofrem, tinha vindo pousar no seu coração, e murmurava-lhe ao ouvido palavras confusas, cantos misteriosos, que ela não compreendia, mas que a consolavam e vertiam em sua alma um bálsamo suave.”

enquanto a natureza sorria, o seu coração chorava. No meio dessa festa esplêndida do nascer do dia, a sua dor, só, isolada, não achava uma simpatia, e repelida pela criação voltava a recalcar-se em seu seio.”

Tudo estava deserto: não se viam mais no campo os vasos de barro, as peças de caça suspensas aos galhos da árvore, e as redes grosseiras”

Peri trazia nos seus ombros o corpo inanimado de Álvaro; e no rosto uma expressão de tristeza profunda.” “o amor, mesmo em face de um cadáver, tem o seu pudor e a sua castidade” “Julgou que se iludia, mas não; Álvaro estava vivo, realmente vivo, suas mãos apertavam as dela convulsamente; seus olhos, brilhando com um fogo estranho, se tinham fitado no rosto da moça; um sopro reanimou seus lábios, que exalaram uma palavra quase imperceptível:

Isabel!…

A moça soltou um grito débil de alegria, de espanto, de medo; entre as idéias confusas que se agitavam na sua cabeça desvairada, lembrou-se com horror que era ela quem matava seu amante, quem o ia sacrificar por causa de um engano fatal. Fazendo um esforço extraordinário, conseguiu erguer a cabeça e ia precipitar-se para a janela, abri-la e dar entrada ao ar livre; sabia que a sua morte era inevitável; mas salvaria Álvaro. No momento, porém, em que se levantava, sentiu as mãos do moço que a apertavam as suas, e a obrigavam a reclinar-se sobre o leito; seus olhos encontraram de novo os olhos de seu amante. Isabel não tinha mais forças para resistir e realizar o seu heróico sacrifício; deixou cair a cabeça desfalecida, e seus lábios se uniram outra vez num longo beijo, em que essas duas almas irmãs, confundindo-se numa só, voaram ao céu, e foram abrigar-se no seio do Criador.”

Os Aimorés tinham voltado, depois do combate em que os aventureiros venderam caro a sua vida; e cada vez mais sequiosos de vingança, esperavam que anoitecesse para assaltar a casa.”

“– Se tu fosses cristão, Peri!…

O índio voltou-se extremamente admirado daquelas palavras.

Por quê?… perguntou ele.

Por quê?… disse lentamente o fidalgo. Porque se tu fosses cristão, eu te confiaria a salvação de minha Cecília, e estou convencido de que a levarias ao Rio de Janeiro, à minha irmã.

O rosto do selvagem iluminou-se; seu peito arquejou de felicidade; seus lábios trêmulos mal podiam articular o turbilhão de palavras que lhe vinham do íntimo da alma.

Peri quer ser cristão! exclamou ele.

D. Antônio lançou-lhe um olhar úmido de reconhecimento.

A nossa religião permite, disse o fidalgo, que na hora extrema todo o homem possa dar o batismo. Nós estamos com o pé sobre o túmulo. Ajoelha, Peri!”

A canoa, vogando sobre as águas do rio, abria essas flores de espuma, que brilham um momento à luz das estrelas, e se desfazem como o sorriso da mulher.”

Por que interrogava ela assim os dias que tinha vivido no remanso da felicidade? Por que o seu espírito voltava ao passado, e procurava ligar todos esses fatos a que na descuidosa ingenuidade dos primeiros anos dera tão pouco apreço? Ela mesma não saberia explicar as emoções que sentia; sua alma inocente e ignorante tinha-se iluminado com uma súbita revelação; novos horizontes se abriam aos sonhos castos do seu pensamento. Volvendo ao passado admirava-se de sua existência, como os olhos se deslumbram com a claridade depois de um sono profundo; não se reconhecia na imagem do que fôra outrora, na menina isenta e travessa.” “É ao mesmo tempo o nada com o seu vácuo profundo, imenso, infinito; e o caos com a sua confusão, as suas trevas, as suas formas incriadas; a alma sente que falta-lhe a vida ou a luz em torno.” “a menina admirou-se da beleza inculta dos traços, da correção das linhas do perfil altivo, da expressão de força e inteligência que animava aquele busto selvagem moldado pela natureza. Como é que até então ela não tinha percebido naquele aspecto senão um rosto amigo? Como seus olhos tinham passado sem ver sobre essas feições talhadas com tanta alegria? (…) dantes via com os olhos do corpo, agora via com os olhos da alma.”

Peri não sofreria que uma vespa e uma mosca sequer ofendesse a cútis de sua senhora, e sugasse uma gota desse sangue precioso” “Apesar de sua fé cristã, não pôde vencer essa inocente superstição do coração: pareceu-lhe, olhando o íris, que já não estava só e que a alma de Peri a acompanhava. Qual é o seio de dezesseis anos que não abriga uma dessas ilusões encantadoras, nascidas com o fogo dos primeiros raios do amor? Qual é a menina que não consulta o oráculo de um malmequer, e não vê numa borboleta negra a sibila fatídica que lhe anuncia a perda da mais bela esperança? Como a humanidade na infância, o coração nos primeiros anos tem também a sua mitologia; mitologia mais graciosa e mais poética do que as criações da Grécia; o amor é o seu Olimpo povoado de deusas ou deuses de uma beleza celeste e imortal. Cecília amava; a gentil e inocente menina procurava iludir-se a si mesma, atribuindo o sentimento que enchia sua alma a uma afeição fraternal, e ocultando, sob o doce nome de irmão, um outro mais doce que titilava nos seus lábios, mas que seus lábios não ousavam pronunciar.”

Pensava no passado que não voltaria; no presente que devia escoar-se rapidamente; e no futuro que lhe aparecia vago, incerto e confuso.”

A MURCHA MARCHA

a flor que Peri te deu já murchou porque saiu de sua planta; e a flor estava no teu seio. Peri na taba dos brancos, ainda mesmo junto de ti, será como esta flor”

Quero que apanhes muito algodão para mim e me tragas uma pele bonita. Sim? Assim, disse a menina sorrindo, tu me deixarás acompanhar-te, os espinhos não me farão mal.” “Peri não pode viver junto de sua irmã na cidade dos brancos; sua irmã fica com ele no deserto, no meio das florestas.”

Peri havia lutado com o tigre, com os homens, com uma tribo de selvagens, com o veneno; e tinha vencido.” “De repente um rumor surdo e abafado, como de um tremor subterrâneo, propagando-se por aquela solidão, quebrou o silêncio profundo do ermo.” “Logo todo o leito do rio cobriu-se com esse delgado sendal que se desdobrava com uma velocidade espantosa, rumorejando como um manto de seda. Então no fundo da floresta troou um estampido horrível, que veio reboando pelo espaço; dir-se-ia o trovão correndo nas quebradas da serrania. Era tarde. Não havia tempo para fugir; a água tinha soltado o seu primeiro bramido, e, erguendo o colo, precipitava-se furiosa, invencível, devorando o espaço como algum monstro do deserto.” “Dir-se-ia que algum monstro enorme, dessas jibóias tremendas que vivem nas profundezas da água, mordendo a raiz de uma rocha, fazia girar a cauda imensa, apertando nas suas mil voltas a mata que se estendia pelas margens.” “As árvores estalavam, arrancadas do seio da terra ou partidas pelo tronco, prostravam-se vencidas sobre o gigante, que, carregando-as ao ombro, precipitava para o oceano.” “Em face desses transes solenes, desses grandes cataclismas da natureza, a alma humana sente-se tão pequena, aniquila-se tanto, que se esquece da existência; o receio é substituído pelo pavor, pelo respeito, pela emoção que emudece e paralisa.” “Tudo era água e céu. A inundação tinha coberto as margens do rio até onde a vista podia alcançar; as grandes massas de água, que o temporal durante uma noite inteira vertera sobre as cabeceiras dos confluentes do Paraíba, desceram das serranias, e, de torrente em torrente, haviam formado essa tromba gigantesca que se abatera sobre a várzea.” “Cecília esperava o seu último momento com a sublime resignação evangélica, que só dá a religião do Cristo; morria feliz; Peri tinha confundido as suas almas na derradeira prece que expirara dos seus lábios. Podemos morrer, meu amigo! disse ela com uma expressão sublime. Peri estremeceu; ainda nessa hora suprema seu espírito revoltava-se contra aquela idéia, e não podia conceber que a vida de sua senhora tivesse de perecer como a de um simples mortal.”

“– Que importa! Peri vencerá a água, como venceu a todos os teus inimigos.

Se fosse um inimigo, tu o vencerias, Peri. Mas é Deus… É o seu poder infinito!”

Foi longe, bem longe dos tempos de agora. As águas caíram, e começaram a cobrir toda a terra. Os homens subiram ao alto dos montes; um só ficou na várzea com sua esposa. Era Tamandaré; forte entre os fortes; sabia mais que todos. O Senhor falava-lhe de noite; e de dia ele ensinava aos filhos da tribo o que aprendia do céu. Quando todos subiram aos montes ele disse: <Ficai comigo; fazei como eu, e deixai que venha a água.> Os outros não o escutaram; e foram para o alto; e deixaram ele só na várzea com sua companheira, que não o abandonou. (…) A água veio, subiu e cresceu; o sol mergulhou e surgiu uma, duas e três vezes. A terra desapareceu; a árvore desapareceu; a montanha desapareceu. A água tocou o céu; e o Senhor mandou então que parasse. O sol olhando só viu céu e água, e entre a água e o céu, a palmeira que boiava levando Tamandaré e sua companheira. (…) Desceu com a sua companheira, e povoou a terra.”

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