DEVEMOS TODOS DORMIR AO RELENTO

Chomsky, doravante apenas Sr. Cho-chô, não tinha uma casa, nem era muito engraçado; mas tinha muito dinheiro. Ele pensou que já estava na hora: vou comprar um terreno e construir uma casa, tijolo por tijolo. Será uma mansão de três andares e sobrado pro cachorro. Terá jardim com violetas, piscina e teto solar na cozinha. O banheiro terá jacuzzi. O gato viverá no sótão junto com os objetos desusados e a mobília gasta. Acho que mandarei até instalar um curral junto com pasto, para ter meu leite sem depender do padeiro! Um galinheiro para não depender do açougueiro. E vou comprar muito milho para minhas galinhas! Ah, estou muito empoleirado, quero dizer, empolgado!

Sr. Cho-chô comprou o terreno, o cartório lavrou a certidão, ele estalou os dedos e as juntas e construiu sua suada e bela casa. Um retiro de vovô! Está pronta minha casa branca que reluz, ela é feito ouro, mas meu nome não é Midas! Agora, vou passear e resolver assuntos de gente grande; que meus animais zelem pela harmonia do recém-inaugurado lar!

O gato ficou de porteiro. Mas o gato dormiu de tédio. As sacas de milho empilhadas para alimentar as galinhas do amplo anexo do casarão do Sr. Chô-chô chamaram a atenção, quero dizer, despertaram o olfato, do senhor rato, um visitante esporádico.

– Nhãmi-nhãmi, estou com fome, acho que vou me banquetear. Da última vez isto era um terreno baldio. Agora eu quero, eu brado, eu exijo: MILHO, MILHO, MILHO!

Sem ruído o rato entrou, pelas frestas mais que largas do portão, sem acordar o gato. Hmmmmm, que delícia, de milho o armazenzinho esvaziou. BURP!

– Tive um mau pressentimento! Essa missa tá muito sossegada! O gato despertou assustado, depois de sonhos ronronantes com novelos. Hmmm, vou fazer a minha ronda! Opa, opa, o que é este sujeito descansado de bucho pra riba! Rato, meu algoz natural, cometeste um crime! Sabes para quantos meses era essa ração das galinhas?

– Ó! Se-senhor zelador! Mal tinha reparado… Acho que preciso fazer a digestão, meu sentido natural está desligado…

– E que tem isso, se comeste o que não lhe era facultado?

– Falava como que comigo mesmo… Quanto ao milho, ó, senhor gatuno, digo zelador… Temos que sobreviver da forma que dá, não é?!…

– Por falar nisso, estou com fome…

– Você não está pensando…

– Hm, sabe como é, é a lei natural!

GLUT! Duma bocada só o rato folgado foi morar na barriga do porteiro gato da bela casa do Sr. Cho-chô. Meu dono vai se orgulhar quando voltar (se bem vou conseguir me explicar pelo milho).

Acontece que guerras se travaram entre os bichos de estimação do Sr. Chô-chô: um de posse do sótão, o outro do terraço, cada um queria ser o dono absoluto do lugar. O gato, de barriga cheia, não tinha mais forças para ganhar do cachorro, que, embora não goste de quadrúpedes felpudos e miantes, prega peças nos outros, tem mania de autoridade e de despeito. Deu umas boas mordidas que deixaram marca, e o gato foi, tremendo, se esconder no tanque da pia.

E então o cachorro, espreguiçando-se no gramado da mansão do Sr. Chô-chô, deparou-se com uma sombra inesperada neste dia ensolarado sem nuvens no céu. É a vaca malhada do Sr. Chô-chô, que veio tomar as dores do seu amigo gato. Corre de cá, corre de lá, o bullying sempre passa adiante na casa do Sr. Chô-chô. Ai dos animais!

Uma rapariga triste que passava, vendo a porta aberta, se aproximou: estou sozinha nesse mundo e nem emprego tenho, hei de satisfazer meu bucho com o que estiver à mão! E ordenhou a vaca, antes que ela atazanasse ainda mais o cão em seu dia de cão. Estás prenha de leite quente, devias mesmo nos dar todo ele, espumante borbulhante, e deixar-te de egoísmos! Pois cá estou que encho já a terceira tigela e gotas ainda caem dos seus úberes rijos.

Mas, ah! Se não vamos perpetuar a raça de que vale toda essa abastança! Queria eu um alguém… E passava um homem mal-vestido pela praça. Ele parece ter adivinhado os pensamentos da moçoila, porque chegou a assobiar, apreciando a beleza da jovem, e pediu para entrar: Não precisa bater, estás em casa! (Foi a resposta.)

Ele não se fez de rogado. O homem, meio desenjeitado, bolsos furados, botões nas casas erradas da camisa e mangas amassadas, além do sapato encardido e do cabelo emaranhado, foi direto ao ponto: Vamos nos casar, dona! O padre nos espera!

A moça abriu um sorriso e disse que hoje o mar estava para peixe, e ela devia aproveitar e pegar o bonde andando. Sem nenhum dos três entender nada (eu, ela e ele, mas quem sabe tem um quarto, que é o leitor da história – quarto este que não está na planta original da casa do Sr. Nhô-nhô), já estavam diante do púlpito jurando sobre um livro grosso e esquisito, de capa-dura de couro. Prometeis? Então muito bem! Agora só falta o dote!

– Que dote?!? Repetiu cada um do casal entrosado, ao mesmo tempo.

– Ora, meus meninos, disse o padre: é claro, não está tudo explicado desde já?! Mas esta linda esposa é a filha do Sr. Nhô-nhô, que deve ao noivo o dote! Mandem chamar Sr. Nhô-nhô, que seu lugar no Céu ele tem de pagar!

* * *

E agora o que farei? Fui comprar tapetes para minha sala de estar, e descobri que preciso meu novíssimo genro dotar. Mui bem, pode ser em mercadoria?

– Sim, as Escrituras o permitem.

– E bens imóveis?!

– Não faz diferença. Que santo é do mesmo tanto.

– Então, não me resta alternativa, desprovido de liquidez, a não ser dar a meu genro esta casa suada que construí num dia muito alvissareiro (ontem). Delego-te poder sobre cada grão de milho de minha propriedade!…

– Mas onde vais, velhote?!

– Sr. Chô-chô não viveu todo esse tempo sem uma casa e sem modinhas e violões? Não há preocupação! Mando notícias!…

E saiu sem alarde pela porta da frente do templo do Sr. (outro Sr.).

* * *

(Sr. Nho-nhô, olhando para frente – e vendo você)

– O que eu diria aos jovens que cá lêem esta minha última aventura? Acordei pensando que já estava na hora de construir minha própria casa; mas da casa temos que cuidar, isso fui providenciar; meu gato ficou de sentinela; o rato apareceu, bisbilhoteiro, comeu o milho das galinhas, mas virou almoço do gato; o cão, possessivo, hostilizou o gato, deixou-o quase enxotado; até a vaca se dar conta do amigo em apuros; mas minha filha sabe que precisa de cálcio para ter ossos fortes, e ordenhou a vaca; o sujismundo apareceu, hoje o que é dele já foi meu; o padre, que não tinha nada melhor para fazer, estava contando as contas do seu colar no espaldar do altar, quando foi interrompido pela mocidade na flor da sensualidade. O dote é esta linda casa de três andares, terraço, jardim, curral e muito luxo. Parece que o Sr. Chô-chô finalmente vai completar a rima e virar vovô. É a instituição do casamento!

(longo suspiro)

– Construí minha casa, hoje não tenho nada; logo, devemos todos dormir ao relento.

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