OPEN LETTER TO “PROFESSOR” FREUD FOR HIS 75TH BIRTHDAY, from LOU ANDREAS-SALOMÉ // CARTA ABERTA A FREUD, por UMA CHARLATÃ (em tradução mais ou menos horrorosa de Lenis E. Gemignani de Almeida, sob péssima editoração de Antonio Daniel Abreu)

Quite out of the blue I recall the question that’s usually asked half-jokingly— though now and then by our opponents even somewhat seriously: <By whom and in what manner will the creator of psychoanalysis himself be analysed, seeing that he regards the procedure as imperative for all members of the Society?> Well now! it was by this very method that he became its creator: it resulted from his struggle with what we call ‘resistance’, that is, the resistance of his nature against the resistance of what that same nature had been happy to repress and cause him discomfort. And it was from this conflict with himself that there came forth a work of genius.”

Before you came, Professor, psychologists deemed people they treated healthy, or else interpreted the symptoms as verging on the mystical. More often than not it was as if they were sitting by a stretch of water exchanging opinions about fish swimming about below them that they couldn’t see. They either fantasised over them philosophically or alternatively proudly caught a fish and put its dead body with the others awaiting methodical dissection.”

One could consider the relatedness to the object—of the analyst, of the poet—as not being comparable, despite the fact that they both abstain from the photographer’s <smile please>, and despite the fact that both confidently empathise with a person’s inner situation and, irrespective of what that condition be, respond fittingly in every case; one could object to the opposition of the 2 methods: one bent on analysing, the other on synthesising. And yet, this opposition is crucial: for one thing it is the reverse side of the cloth that is being considered, the way the individual threads travel, the way they intertwine, knot, and lead off; and for another, it is how one gains a clear impression of how these threads come together neatly on the visible side to make a pattern.”

even then, if, meanwhile, the external reality has remained unchanged and the patient finds himself beset with difficulties just as before, then for the first time it will be one reality dealing with another reality, instead of one spectre dealing with another spectre.”

com o <isso> (ça), perde-se a imagem de uma fronteira da nossa identidade e se vai derivar a definições filosóficas: haverá, dentro em pouco, tantas definições do <isso> quantos filósofos há”

o narcisismo, conceito-limite, deve assumir uma dupla função ao longo da existência: ele aparece tanto como reservatório, o substrato de todas as manifestações do psiquismo, até a mais individualizada ou a mais sutil, assim como o lugar de toda recaída, de toda tendência à regressão (…) por fixação patológica, ao estágio infantil.”

não derrame o sangue do isso!

Esta relação equívoca ao ser corporal, esta <ambivalência> característica de nosso comportamento psíquico, tem sido bem-vista por nosso velho amigo e contraditor Bleuler, criador do termo esquizofrenia”

o sado-masoquismo, que associa curiosamente o nome de duas pessoas fundamentalmente opostas.”

Filho de recalcado, recalcadão é.

No primário eu fui um ator secundário.

Nosso viver infantil é lava e vulcão. A era do gelo é a idade adulta. O que quer que hoje me torne altivo, o que quer que seja essa angústia de fundo irreprimível e estilhaçadora nos meus piores dias, eu gostaria de saber do quê deveio, ou do que devieram, embora para a “primeira parte” eu esteja muito mais perto de obter uma resposta. É o abandono? Mas o gênio já não foi sempre de certa forma um abandonado? Um auto-abandonado? A falta de um público fiel e motivador no lugar da mãe onipotente?

o homoerotismo (para tomar a expressão de Ferenczi, em lugar do termo homossexualidade, que acabou por tomar uma ressonância atrozmente vulgar[???]) ou inversão (…) deve ser visto(a) como patológico(a), casualmente curável, se tomar os caracteres de uma neurose obsessiva – de uma oscilação entre o pólo masculino e o pólo feminino, com super-compensações no sentido da iteratividade [repetição] e da hiper-passividade.”

nisto que impede o homoerótico de dar o último passo para se unificar como sujeito heterossexual reconhece-se a marca do caráter erótico fundamental, que não se encontra senão no Eros infantil” “no homoerotismo [não consigo usar essa palavra, cof], este caráter [narcísico?] está concentrado, preservado, o que é impossível na infância, onde as atividades sexuais precoces se desenvolvem de maneira isolada.”

o homossexual leva suas atividades a um grau de maturidade particular, que será preciso abandonar de novo [?] se ele se tornar uma <metade> unissexuada.¹ Parece-me que, na homossexualidade, as manifestações primitivas perdem de tempos em tempos seu caráter de materialidade, revestimento necessário do temperamento infantil (passível de sublimação)”

¹ Um homossexual decidido (não-reprimido)? Quanta contradição!

Tem-se com freqüência chamado a atenção sobre o arrebatamento, a exaltação que caracteriza as uniões homossexuais”

A MOÇA LEU PLATÃO (SÓ FALTOU MESMO ENTENDER): “Observemos que este traço caracteriza também a natureza verdadeira da amizade, da qual se tem podido duvidar, com alguma razão, que possa se estabelecer entre pessoas de sexo oposto antes da velhice”

tanto uma paixão pelo esporte como o Bom Deus são suscetíveis de ser o mediador ou o terceiro termo que unifica.” Ou uma ópera wagneriana.

Imagine se o indivíduo místico aprendesse a procriar pondo ovos… A humanidade estaria salva, e o sexo seria interdito para todo e qualquer fim pela religião oficial!

Para metade da humanidade, quero dizer as mulheres, estas dificuldades se resolvem normalmente nelas mesmas, pela graça da natureza. (…) A mulher se liga por natureza, tanto sobre o plano biológico quanto sobre o plano psíquico, ao contrário do homem, ao elemento passivo, uma vez que é somente assim que ela, na sua especificidade, pode chegar à felicidade e seu pleno desabrochar erótico (ah! que bom é ver que também nós começamos a compreender que o destino do sexo feminino é a felicidade e não a resignação!)” Lou Salomé não tinha começado a entender porra nenhuma!

Nietzsche devia ter ressuscitado para dar-lhe umas boas bofetadas!

ERAM OS DEUSES PEDERASTAS: “A outra metade da humanidade, constituída pelos homens, não se libera por ela mesma do dilaceramento de querer ser mais que uma só metade; o homem que, inteiramente heterossexual, dá o último passo para penetrar o sexo estranho, seu complementar, se condena, assim, a não ser senão um homem, incompleto, tomado entre 2 exigências rivais: consagrar-se à família ou entregar-se a tarefas materiais, profissionais, altamente humanas.”

não é raro que o esmorecimento da relação amorosa tenha por corolário uma compreensão aumentada em relação ao parceiro abandonado.”

Mesmo no amor que devotamos às plantas, é puro <esteticismo> o que prevalece e a nossa sensibilidade não ocupa aí senão um lugar secundário.”

o homem [no sentido antropológico geral], quando é o objeto do nosso amor, manifesta exigências imensas; tendo-o como parceiro, está fora de questão que se possa sair tão bem com facilidade e que se possa ser tão parcimonioso como com as outras criaturas, as quais, satisfeitas com as migalhas do nosso amor, nos introduzem, em troca, nesse mundo mirabolante, complementário do nosso, fabuloso (e é aí que reside, em todo relacionamento com um animal, o grande, o verdadeiro acontecimento).” Os cachorros parecem ter se tornado muito mais complexo desde a época de Lou Salomé. Eles não ficam satisfeitos com ‘migalhas’, e obsequiam nosso amor e dedicação sinceros…

Não concedemos tampouco uma tão grande significação à passagem tirada de uma das cartas maravilhosas de Rosa Luxemburgo, na qual ela descreve a piedade apaixonada que a invadira diante do espetáculo dos besouros (ou outros insetos) devorados pelas formigas. Porque o besouro aqui está desmesuradamente favorecido pelo ódio reativo da revolucionária, e não se está longe de suspeitar aí uma tentativa de compensação do caráter neurótico confirmado, que é a vingança, em seu sentido oposto, contra todas as espécies de besourões.”

somente as relações que permanecem distanciadas e que não se ligam a um ser humano nos deixam a tranqüilidade necessária para vivê-las sem ódio, até o fim. Porque quando a nossa individualidade se encontra em jogo na relação amorosa e sujeita ao contato de uma outra individualidade, ela deve enfrentar o combate pela afirmação do seu eu, e a necessidade aí é tanto mais imperiosa quanto o caráter apaixonado e exclusivo da relação faz pesar uma ameaça sobre a conservação do eu.”

Nós preferimos tratar os objetos de nossa aversão com correção, vê-los com polidez, porque é assim que eles nos tomam menos tempo. Torturar cruelmente aquilo que não se ama mais não é senão angustiante e desvia o eu dos objetivos que ele persegue: é somente quando o objeto exerce um atrativo erótico que se desperta a crueldade, que a pulsão amorosa é devorada pela pulsão de poder e a perverte para fazer disso um meio de alegria.” Vocábulo nada técnico, descuidado. Ou seria descuidado justamente por ser, de alguma forma, muito esmerado e técnico? No seio da psicanálise banalizada, pervertida, já nem se sabe mais, e não interessa a distinção. Má assimilação da filosofia do séc. XIX e reiteração do erro, em efeito cascata, com a soma das décadas…

Décimo primeiro mandamento: Nunca serás indiferente ao teu cão, nem ele a ti.

Olhar alguma coisa como morta ou viva quer dizer apenas observá-la sob o ponto de vista do que nós temos transformado em mecânico ou em psíquico.”

qual é a origem da doença? É a solidez destas cascas da superfície, que o adulto, por seu poder (e as experiências da vida), tem forjado precocemente, para proteger o ser, deixando a parte mais íntima dele mesmo desamparada e sem proteção.”

Toda neurose simula o acordo desejado entre o mundo interior e o mundo exterior”

Esta inquietante estranheza esconde de todo o vivido do neurótico, até o momento em que isso se exprime numa vertigem e num desvario, onde o <o que é interior?> e o <o que é exterior?> se invertem.”

O perigo, mesmo no interior da normalidade, reside na vacilação entre a tendência a se superestimar e a crença de ser inferior, na oscilação do pólo ativo ao pólo passivo, que é muito natural à medida que o desejo imperioso das pulsões deve fazer frente às realidades ameaçadoras da vida.”

no homem mais evoluído [que o histérico, que nega o real], os sentimentos [de culpa] têm suas raízes, pelo simples fato de que o acesso à consciência põe diante dele o mundo real e dá eo ipso condenação a seus desejos. Nós procuramos então rejeitá-los e apaziguá-los, mas não conseguimos senão fazê-los enfraquecer, enterrar-se ainda mais. Ou então nós nos livramos lançando-nos num excesso de abstinência, de docilidade, e daí nossa agressividade se insurge, protesta vigorosamente, e nos faz entrar em conflito com a parte de nós que se liga aos instintos.” Meu corpo cotidiano se rebela contra meu eu, sempre oculto observando as cenas, o criador, encarnado em músculo esporadicamente.

para arbitrar entre os 2 pólos de oscilação [o meigo e o selvagem, mamãe e papai], uma mediação de caráter obsessivo foi elaborada.”

exacerbação da dúvida”

Hamlet: incapaz de formar um compromisso, de ignorar o ultraje à mãe e a honra do pai, e o ódio ao tio, mas incapaz também de vencer e continuar, ele escolhe vencer perdendo, i.e., vingar-se e morrer. Tipo decadente do herói.

HEADS OR TAILS: “A uma escala reduzida, tem-se observado uma forma de superstição nas crianças que, em casos de dúvida, preferem confiar-se ao acaso, aos presságios (escolha das calçadas sobre as quais andam, superstições com números, escolha da direita ou da esquerda [+ <jogos de velocidade>: se não chegar à porta ou ao microondas a tempo, serei punido, ficarei cego, etc.]), à necessidade de decidir.” Fé na ausência da barba mosaica.

Na religião, o sujeito pode encontrar um meio[-caminho] de superar as decepções, i.e., as aspirações insatisfeitas das suas pulsões, sem se expor, particularmente a tensões perigosas que conduziriam a uma neurose”

reserva natural protegida”

reverso da medalha [onipresente]”

Conseqüência da conversão do crente: “toda realidade que, em si, teria merecido ser vivida, teria podido ser amada, perde suas cores.” “realidade diabólica” “não existe nenhuma ressurreição na fé atrás da qual não se perfile uma crucificação.”

observam-se, em relação ao homem, tendências para um hábito mais histérico ou mais obsessivo. No primeiro caso, nada adquire um aspecto trágico para aquele que se encontrou agarrando-se à fé, simplesmente porque este recurso lhe estava sugerido pelo espírito do tempo e por sua educação, e porque se ajustava perfeitamente à linha do seu otimismo [Inato: sou pessimista de nascença] o fato de privilegiar sem dificuldades as verdades mais agradáveis e outorgar-lhes fé. São tais <sedentários> que constituem a comunidade de crentes numericamente mais importante do mundo. (…) A base de sua fé permanece muito banal.” Parasita.

estes medíocres felizes que têm sempre a tez florida” sua fé é muito mais mundana do que gostariam de admitir

um ícone bem simples de latão se põe a resplandecer quando revestido de roupa dourada ou ornamentado de jóias.” O verdadeiro criador religioso, legislador e escultor de deuses, é o neurótico.

Trata-se de compreender que o culto de Deus é já um nome para um vazio, para uma lacuna na piedade, onde residem, de antemão, a perda e a renúncia, uma necessidade de Deus, porque não há posse, à medida que Deus não poderia existir como Deus senão onde <não há necessidade> dele. Quem quisesse utilizá-lo, não teria mais <Deus> mas alguma coisa que se pode apontar com o dedo”

Nemo contra Deum nisi Deus ipse.”

De que profundezas tão grandes subiu a força que abalou o pensamento de Nietzsche? É o martírio de uma vida inteira passada em busca de um substituto de Deus. Eis a verdade que ele pôs a nu: o homem não faz senão começar, lentamente, a dar-se conta do ato que ele cometeu” deleuZzZzZe diZzZzZia que já estamos cansados de tudo isso, em verdade. Melhor deixar pra lá…

Como sempre, Nietzsche foi excessivo na conclusão” Ou você foi insuficiente, Salomé.

ela o induziu à profecia que constitui a idéia do Retorno.” Que você está misturando com a compulsão freudiana sem vênia!

Pode até ter razão em seus pressupostos fundamentais, mas não passa de uma existencialista má escrevinhadora e redundante. Espiralando quando podia tomar vias heideggerianas, sartreanas, até mesmo beauvoirianas; e olha que estamos falando de sujeitos já bem “enrolões” e elípticos… Um estilo estafante que não deve ser melhor no vernáculo do que na insegura tradução.

Decerto não é você que me dará lições sobre o deserto.

Se, nas religiões, são sempre as representações mais primitivas da divindade que têm mostrado o rosto mais terrível, o mais sombrio, o mais cruel, isto não é somente porque elas estão destronadas pelos deuses que lhes sucedem, e, portanto, rebaixadas, escarnecidas por eles; há mais: é lá que se lê toda a evolução do espírito que se volta sempre mais em direção à claridade na existência e em direção aos quadros da consciência, dos quais os deuses mais tardios tiram seu caráter próprio.”

o homem reduz sempre este espaço até fazer dele a porta estreita da morte”

é na margem do mesmo oásis que se reencontram os animais do deserto”

a arte confina com a magia e a religião, que são uma maneira de conjurar o que se acredita poder transformar em realidade.”

fuck daydreams

FUTURO SIM, PASSADO NÃO: “poder-se-ia dizer, ainda mais, que a criação provém de realizações, da força com que isso que não está ainda vinculado à pessoa é involuntária e imperiosamente levado a se realizar. É quanto a este aspecto que ela se opõe inteiramente ao patológico que <regressa ao infantil>”

Eis o que regulamenta a questão espinhosa de saber se o criador tem o direito de utilizar para sua obra tudo o que a humanidade encerra de duvidoso: esta reivindicação impede, efetivamente, a consagração a outros fins (…) o artista, do qual se poderia dizer que é um <obcecado pela perfeição>, sofre em dobro: seja por sua sensibilidade exacerbada, seja pelas imperfeições da vida e pelas suas próprias

a mais-valia conferida ao social na criação artística.” “Só se é criador sob o impulso jubiloso da obra (…) mesmo que nos interessemos por nossos semelhantes, estes fatores não participam do processo que conduz à obra”

DOUBLE DEEDS

o talento se desvia do fim sexual (…) é isto que faz sempre com que se veja o artista como alguém muito <narcísico>.” “Nessa relação estreita que liga o erotismo precoce à consciência do eu já orientada em direção ao espírito, há um elemento ascético importuno para o criador, ou seja, que, parcialmente, seu erotismo não busca realizar-se e evoluir na carne. (…) assim, o artista paga o preço da concorrência duvidosa que ele faz a Deus, fazendo-se criador de realidade. Estas riquezas (…) obrigam-no à renúncia, da mesma forma que um mergulhador vestido com um equipamento estanque apanha tesouros no fundo do mar para levá-los à superfície, não estando atado ao mundo, durante toda a sua atividade, senão pelo tubo que lhe permite respirar. Se o artista não chega a essa renúncia total, o que deveria tornar-se força produtiva recai na fase infantil do erotismo. Entre todo este processo se estende na sua teia a aranha da patologia, à espreita do esgotamento da mosca.”

A fragilidade desta fronteira que separa a criação artística da penetração na experiência do corpo se encontra de maneira impressionante no breve episódio do Duino (1913), escrito por Rilke [CARTA ABERTA A TODOS OS MEUS HOMENS] (publicado primeiramente no Almanach Insel, de 1919, com o título de Experiência vivida): <Ombros apoiados contra o tronco bifurcado de uma árvore>, ele teve a sensação de que o ser dessa árvore passava literalmente nele.” “experiência corporal num estado de quase-sonambulismo, experiência não-poética (…) [nela] o artista não desaparece” “acessos de misticismo”

Todos aqueles que desprezam a arte encontram aí os melhores argumentos contra o artista: este seria uma espécie de trapaceiro que se elevaria acima do mundo, mundo que nós nos esforçaríamos por colocar em ordem sob as perspectivas da prática e da lógica, em lugar de nos iludirmos – o que é mais confortável – como faz o artista. Mas essa objeção erra a sua pontaria em face da obra realizada: o artista colhe suas sensações de impressões arcaicas, onde, para ele, o mundo e o ser humano estavam ainda unidos para constituir a realidade, e é ela que se realiza de novo na obra.” Desaparecer não dói nem dá prazer. No, e não acima do, mundo.

Especializações (não exatamente, por exemplo, a de escritor, poeta ou ator, i.e., de ofício, mas as “de época” ou escolásticas, típico fenômeno modernista e anti-genial) encaradas de modo nefasto. Maior exemplo: as deficiências inerentes ao Romantismo. Obra moral é o cúmulo do absurdo.

transformação do destino humano na arte”

Não sei se fala de Rilke ou não: “Não se pode falar a não ser em voz baixa de coisas tão secretas como esta irrupção dolorosa das Elegias que se prolongou por 10 anos, como se o ser humano, forçado a se oferecer em sacrifício, opusesse uma resistência a esta constrição que se perverteu a si mesma: <Porque todo anjo é terrível>.” “a forma proclamava o Último – mas o homem foi quebrado. Uma obra de arte se mantém silenciosamente num mundo de paz e de desespero, mas o véu transparente (chamado <estética>) despregado sobre ela para dissimular as condições extremas do nascimento desta obra é muito fraco.

Quem disse que não se pode viver perigosamente sem ser um “macho hollywoodiano da aventura e da ação”? O dente-do-ser. O sedentário que rói o devir mais que o ciclista-maratonista que, em movimento, não sabe o que é deslocamento e alteridade. E que, portanto, não sabe nada.

Mostrando-se sob um aspecto muito severo, os pais não querem senão garantir, pelo menos em certa medida, o que é absolutamente indispensável. As linhas azuis traçadas no caderno do estudante estão destinadas a desaparecer posteriormente, ao serem rejeitadas todas as dependências quando o ser autônomo escolher seu itinerário. Se a autoridade, que, num primeiro tempo, tem sua razão de ser, não é destruída a tempo, não somente ela erra a sua pontaria, mas ainda, não dando importância a tudo o que já está executado com êxito na construção do nosso ser, ela conduz a inseguranças mais bizarras: o que, no começo, era influência que se exercia naturalmente do exterior, madeiramento do edifício ainda inacabado, se incrusta na construção terminada como um cogumelo de bolor, que não se sabe onde se esconde; as instâncias que operam no processo da consciência moral – o <supereu> que temos retomado como <eu ideal> – se agarram a um sentimento de culpa e a uma necessidade de castigo, que, vindos das origens do estágio infantil, conseguem ter um efeito mais místico justamente pelo fato de sua distância em relação à clareza racional do juízo pessoal.” Pais de messias não são – sempre – deuses nem divinos são os mortos…

o remorso não é reconhecido como tal a não ser quando ele sucede a atos ou a considerações <egoístas>, enquanto que um pesar tão forte pode se apresentar depois de uma ação supostamente <desinteressada>, quando esta quis se realizar no seu egoísmo pulsional, de maneira intempestiva, desenfreada, em detrimento de outras exigências pulsionais. Ou seja, um combate incessante se trava entre as exigências das diversas pulsões em nós, e, quanto mais um homem é dotado disso, mais a situação é crítica para ele, e, bem entendido, a Bíblia fala já, muito justamente, de nossos pensamentos que <se denunciam e se acusam reciprocamente>”

uma pulsão lesada se precipita sobre aquela que prevaleceu sobre ela, até que esta, gravemente ferida, esteja bem <arrependida>; mas tudo isto resulta da vida e da saúde, não das dívidas e dos prejuízos”

Quando imperativos morais por demais rigorosos e inaplicáveis ultrapassam nossa natureza pulsional, esta, se ela goza de uma saúde perfeita, pode, mesmo com o desafio de sua fé total na autoridade, decidir vitoriosamente o combate entre eles, como ela combateria as calúnias (que nos reportemos, sobre este ponto, aos velhos cantos sérvios, onde se faz o elogio do herói: embora ciente, depois que ele se tornou cristão, do castigo celeste como uma conseqüência natural inevitável, ele ama tanto seus pecados que menospreza o risco de continuar a cometê-los e <endossa> o castigo). Não é preciso esquecer que os discursos do <supereu> e do <ideal do eu> para nos insultar ou nos convencer são para ser assimilados aos vestígios de impressões e de angústias infantis que não foram ainda liquidados e que, quando se caminha para o sentimento de culpa ou de remorso, não produz senão muito facilmente uma mudança de direção que propulsa na neurose. Se a obediência à autoridade reconhecida é muito perfeita, é porque a fronteira do patológico não está muito afastada – o que quer dizer: a repressão das pulsões é já em si a manifestação, mesmo disfarçada, do retorno da dimensão pulsional recalcada, uma vez que mesmo a obediência não pode tirar sua energia de parte alguma, a não ser da força pulsional que ela tem contaminado com sua doença. (…) nós ficamos com as exigências que tínhamos no começo: nós não deixamos em nada nosso fundo, nosso solo, nós não podemos senão imaginá-lo, quando fugimos de nós mesmos de maneira patológica.”

DEAR FATHER: “Todo crente cuja evolução foi harmoniosa – i.e.: que permaneceu com boa saúde – tem sempre sido intimamente penetrado pelo fato de a exigência ética lhe colocar ante uma tarefa que não tem fim nem acaba, da qual ele jamais poderá se exonerar inteiramente dos limites da sua condição de homem, mas somente por intermédio do ‘dom da graça divina’.”

resulta que nós somos, inevitavelmente, lançados no turbilhão de toda realidade, com a única opção de consentir nisso. Se, sem dúvida, isto quer dizer atravessar um oceano num frágil barquinho, tal é a nossa condição humana”

Que importa agora que as tentativas de nossa consciência para emergir estejam maculadas de todos os erros possíveis? Se alguém tachar esse comportamento de imoralidade, de arbitrário e de presunção, nós estaríamos com maior razão autorizados a tachar de confortável desleixo moral a escravidão infantil daquele que se mantém no respeito das prescrições!

Com efeito, que fez, portanto, o homem, ao ousar decidir, escolher, colocar seus valores? Ele realizou o ato mais rigoroso, o mais determinado, porque era um ato autônomo, que não procedia de nenhum cálculo, apesar da maneira pela qual ele vinha, mas, ao contrário, era um ato erguido nele com a onda do entusiasmo criador, um ato consumado APESAR DE TUDO, ao aceitar todos os riscos. Um ato legitimado por seu caráter universal, um ato que acompanha uma transcendência e que quer dizer: eu pertenço a esta realidade, eu faço corpo com ela, eu não estou somente confrontado com ela num combate hostil. É muita insolência? Sim porque o cúmulo da insolência, que nós temos inventado para nós, é a nossa adesão à humanidade: nós temos colocado o homem que cria os seus valores como a aventura mais sublime da vida.”

nós escapamos desta realidade original ao erigir uma imagem intelectual do mundo, imagem que mantém a ficção de uma oposição entre ela e nós, mas que representa somente a margem reservada para a consciência no interior do campo global do inconsciente.”

Mesmo em relação àquele que qualificamos de <realista ingênuo>, permanece um pouco dessa atitude, o que explica que a dissolução da realidade numa aparência – que isto esteja no espírito de Berkeley, na representação que os hindus se fazem no <véu de Maya>, ou sob outra forma qualquer – não lhe quisesse entrar na cabeça, tão <absurdo manifesto> isto é.”

Enquanto olhamos a meia-lua, como poderíamos não sentir que ela está integrada na rotundidade da lua inteira?”

nós não somos apenas seres que fazem compromissos, como na neurose – nós não somos apenas, como na normalidade, seres que buscam acumular suas insuficiências com novas aquisições –, nós somos o homem em toda a sua contradição

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