NOVAS TENDÊNCIAS EM ANÁLISE DO DISCURSO – Dominique Maingueneau

INTRODUÇÃO

Trata-se, geralmente, de escritos antigos, embora o método filológico também possa prestar-se a interpretação de documentos contemporâneos.” “Se a filologia se aplica a problemas verdadeiramente lingüísticos, como a fonética, a morfologia, a sintaxe ou a semântica, é apenas para assegurar uma interpretação exata.”

PRIMEIRA PARTE

A INSTITUIÇÃO DISCURSIVA

1. A CENA ENUNCIATIVA

OS ESTÓICOS COMO AGENTES DA PEQUENA-BURGUESIA (IRONIA): “Reatualiza-se (…) a velha metáfora estóica, segundo a qual a sociedade seria um vasto teatro onde um papel seria atribuído a cada um.”

(*) “A proxêmica propõe-se analisar as relações espaciais e o modo como os sujeitos utilizam-se do espaço para produzir significação.”

muitos trabalhos de inspiração pragmática repousam sobre as ‘intenções’ de falantes cuja consciência seria transparente e a identidade estável, ultrapassando os diversos ‘papéis’ que desempenham.”

pragmática textual alemã”

A redução das condições de produção do discurso às variáveis sócio-psicológicas da situação de comunicação, a importância das interpretações psicologizantes […] inspiradas na sociologia interacional (E. Goffman) são específicas da abordagem pragmática. Trata-se, do ponto de vista da AD, de uma perspectiva que se inclina a apagar a relação com o real da língua e com o real da história, com a base lingüística constitutiva de todo fato discursivo e com os efeitos de conjuntura em uma formação social determinada.”

Uma tal concepção opõe-se a qualquer concepção ‘retórica’: aquela que coloca dois indivíduos face a face e lhes propõe um repertório de ‘atitudes’, de ‘estratégias’ destinadas a atingir esta ou aquela finalidade consciente. Na realidade, para a AD, não é possível definir nenhuma exterioridade entre os sujeitos e seus discursos.”

Admitiu-se, com freqüência e de forma tácita, que os quadros da enunciação apenas duplicavam uma realidade anterior e exterior, que eram a ‘máscara’, o lugar da dissimulação de planos, de interesses inconfessáveis.”

“‘Estamos em um terreno onde a relação social é, desde o início, linguagem.’ Mas como pensar, a seu modo, a ordem do discurso, ao mesmo tempo que remete a posições não-discursivas, não os ‘reflete’ exatamente?” “É preciso admitir que a ‘encenação’ não é uma máscara do ‘real’, mas uma de suas formas, estando este real investido pelo discurso. Aliás, se fosse diferente, a AD não teria razão de existir, ela seria apenas um anexo da sociologia ou da historia, totalmente dedicada a mostrar como as conjunturas se traduzem em enunciados.”

sujeito lingüístico

sujeito genérico

sujeito da formação discursiva

não é possível ler um poema dadaísta em uma reunião do Conselho de Ministros”, mas certamente é possível ler uma ata ministerial numa reunião dadaísta.

por uma virada lógica, o depoimento ‘autêntico’ transforma-se em um texto que parece proceder diretamente de um romance de Céline:

…Sabe-se que é preciso colocar uma cavilha à esquerda, uma cavilha à direita. A gente xinga a chave inglesa quando não funciona. Praguejamos contra nós mesmos, quando nos ferimos, mesmo que não sejamos culpados. Os montes são mal-feitos, mas é assim mesmo.

…Quando a gente passa 8 horas calado, tem tanta coisa a dizer que não consegue mais falar, que as palavras, elas chegam todas juntas à boca.”

segundo o humanismo devoto, as práticas de sociabilidade mundana podem ser sublimadas através da literatura piedosa porque Deus governa a sociedade em todos os seus aspectos.”

(*) “No séc. XVIII, os homens da nobreza trajavam ‘culottes’, espécie de calções que iam até os joelhos, enquanto os homens do povo, que usavam calças comuns, passaram a identificar-se como os ‘sans-culottes’, os que não usavam ‘calções’.”

Na língua, a ‘deixis’ define as coordenadas espaço-temporais implicadas em um ato de enunciação, ou seja, o conjunto de referências articuladas pelo triângulo.

EU <–> TU —- AQUI—-AGORA”

(Pois isto me parece um quadrilátero!)

análise da deixis discursiva:

discurso escolar da III República”

locutor discursivo: III Rep.

destinatário discursivo: aluno cidadão III Rep.

cronografia: III Rep. (1870-1940)

topografia: III Rep. da FRANÇA

discurso da Frente Nacional”

locutor discursivo: “as forças sadias da nação” “o Ocidente”

destinatário discursivo: “as forças sadias da nação” “a direita nacional” “o Ocidente”

cronografia: “o processo de decadência intelectual, moral e física em que estamos engajados” “o Ocidente”

topografia: “a França” “a Europa Cristã” “o Ocidente”

deixis fundadora”

locução fundadora

cronografia fundadora

topografia fundadora

O discurso jansenista, p.ex., supõe uma deixis discursiva referente à corrupção que o humanismo pagão da Renascença impôs à Igreja, enquanto sua deixis fundadora é a Igreja dos primeiros tempos. Seu locutor discursivo, a comunidade de Port Royal, coincide, nos textos, com a locução fundadora, a da primeira comunidade cristã de Jerusalém.”

ethé [ethos] … as propriedades que os oradores se conferiam implicitamente, através de sua maneira de dizer: não o que diziam a propósito deles mesmos, mas o que revelavam pelo próprio modo de se expressarem.”

phronesis: moderação

arete: verdadeiro, “cínico”

O interesse manifestado nestes últimos anos pela oralidade, pelo ritmo, pela entonação, etc., apresenta-se como um retorno daquilo que o estruturalismo havia marginalizado através de suas exclusões epistemológicas.”

2. UMA “PRÁTICA DISCURSIVA”

A noção de ‘prática discursiva’ integra, pois, estes dois elementos: por um lado, a formação discursiva, por outro, o que chamaremos de comunidade discursiva, isto é, o grupo ou a organização de grupos no interior dos quais são produzidos, gerados os textos que dependem da formação discursiva.”

Enquanto a AD procura munir-se de uma teoria da discursividade, desinteressando-se pelas comunidades que constituem seu correlato, a sociologia da produção científica investiga os fundamentos institucionais, ignorando, muito freqüentemente, a dimensão textual.”

SEGUNDA PARTE

A HETEROGENEIDADE

1. A HETEROGENEIDADE MOSTRADA

polifonia quando é possível distinguir em uma enunciação dois tipos de personagens, os enunciadores e os locutores.”

se assino um formulário preparado pela Administração, o eu do locutor deste texto sou eu mesmo”

L é definido como o responsável pela enunciação e considerado apenas em função desta propriedade, enquanto lambda é uma pessoa que pode possuir outras propriedades além dessa.”

Na autocrítica, p.ex., L afirma-se ao desvalorizar lambda.”

Os ‘enunciadores’ são seres cujas vozes estão presentes na enunciação sem que se lhes possa, entretanto, atribuir palavras precisas; efetivamente, eles não falam, mas a enunciação permite expressar seu ponto de vista.” “O fenômeno da ironia poderia ser descrito nestes termos.”

marca de distanciamento”

As Provinciales,(*) p.ex., supõem uma distinção entre o falante (o autor, Pascal) e o locutor (o Amigo do Provincial, o personagem que diz eu)

(*) As Provinciales consistem em um conjunto de 18 cartas de Pascal, inicialmente publicadas anonimamente. Elas atacavam os jesuítas e a moral excessivamente indulgente dos casuístas, ao mesmo tempo que assumiam a defesa dos jansenistas de Port-Royal.”

2. DO DISCURSO AO INTERDISCURSO

Leitura interrompida

Deixe um comentário

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.

Descubra mais sobre Seclusão Anagógica

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continue lendo