Originalmente publicado em 12 de outubro de 2010
A familiaridade da sua cidade.
“Caminhava cantando (…) como qualquer homem feliz que não tenha amigos, nem conhecidos, e que nos seus momentos de felicidade não tem com quem compartilhar a sua alegria.”
Será que é isso? Quando a paixão passa do estágio 1, eu como um todo passo a me comportar como minhas mãos quando tenho o que escrever, ou seja, de modo soberano e automático? Porventura nunca eu tinha pisado nesta estranha lua? Inventei-me uma nova casca, tornou-se possível um jeito todo diferente de gostar de alguém? Meio desdenhoso, frio, retardado nas reações? Inveja de alguns casais menos apegados… Inveja, e não ciúme.
Um jeito de sempre ter algo pra falar com alguém é eleger um terceiro funesto, i.e., escolher alguém pra Cristo. Não são poucos os casos da minha vida, em retrospectiva, em que a primeira ou única via para o meu flerte era o mexerico, falar mal de fulano. Risadas e entendimento.
Não há nenhum personagem que não possamos interpretar, independentemente da nossa idade. Ou sexo.
“Dir-se-ia que vivo num sonho, mas mesmo em sonhos nunca acreditei que poderia um dia falar com uma mulher, fosse ela quem fosse…”
“Quando o meu coração fala, a minha boca não se sabe calar.”
“Criei, nos meus sonhos, romances completos!”
“sei que o senhor é inflamável como a pólvora.”
“não é na rua que se deve procurar conselheiro”—atenção às exceções!
Aparentemente, um pré-Homem do Esgoto.
“e ele procede de tão modo que, a pouco e pouco, os seus amigos acabam todos por desaparecer.”
“neste momento, abriram-se no meu cérebro milhares de válvulas e tenho de deixar as palavras afluírem em torrente, pois, caso contrário, sufocaria.”
“o livro em que distraidamente pegara cai das mãos do meu sonhador, que nem sequer leu até à terceira página.”
O supérfluo que é vital!
Tá comigo,
Tá com Deus,
Deus Morreu,
Deus agora é seu Umbigo
“enquanto não chega essa temível hora, não deseja nada”
“Mas como pode falar de algo que não te aconteceu?” Do mesmo modo que posso silenciar sobre tantas coisas que com efeito me sucederam!
“após as minhas noites fantásticas passei por pavorosos momentos de abatimento!”
“Sabe que me vejo obrigado a celebrar o aniversário dos meus sentimentos”
“gosto de edificar o meu presente de harmonia com o irreversível passado” o antanho mais antanho que volta à baila… “…e, muitas vezes, vagueio como uma sombra, sem objetivo, sombrio e triste, por sítios afastados.”
Agora pense: o mais cruel é ser o segundo eu! Porque decidi vir depois de mim…
“sentia, apesar de tudo [da sensação de déjà vu e de eterna reprise], que a vida era mais fácil e tranqüila, não existindo nela esta idéia negra que agora a mim se apegou; nada desses problemas de consciência, sombrios e severos remorsos, que nem de dia nem de noite me deixam descansado.”
Dias perfeitos são estragados. São ilhas afundadas sem deixar vestígios. E para os martírios, moldura e verniz serão sempre recordados. Feriado desgraçado.
Se o “pai médio” na Rússia guarda(va) qualquer semelhança com o meu pai, não há a menor dúvida de que, desse ângulo, o alcoolismo é uma bênção purificadora.
“Mas, Deus meu, como posso ter acreditado em tal coisa? [que ela—ou que alguém—me amasse]”
“porque (sic) não somos todos uns para os outros como irmãos e irmãs?”
O doce da mulher: essa é uma reflexão infinita.
