QUEM FOI O IDIOTA QUE COMEÇOU O MITO DE QUE GRACILIANO RAMOS NÃO ADJETIVA SUA PROSA? // MEMÓRIAS DO CÁRCERE: Vol. I – Graciliano Ramos
PRIMEIRA PARTE – VIAGENS
“Também me afligiu a idéia de jogar no papel criaturas vivas, sem disfarces, com os nomes que têm no registro civil. Repugnava-me deformá-las, dar-lhes pseudônimo, fazer do livro uma espécie de romance; mas teria eu o direito de utilizá-las em história presumivelmente verdadeira? Que diriam elas se se vissem impressas, realizando atos esquecidos, repetindo palavras contestáveis e obliteradas?
Restar-me-ia alegar que o DIP, a polícia, enfim, os hábitos de um decênio de arrocho, me impediram o trabalho. Isto, porém, seria injustiça. Nunca tivemos censura prévia em obra de arte. Efetivamente se queimaram alguns livros, mas foram raríssimos esses autos-de-fé. Em geral a reação se limitou a suprimir ataques diretos, palavras de ordem, tiradas demagógicas, e disto escasso prejuízo veio à produção literária.
Certos escritores se desculpam de não haverem forjado coisas excelentes por falta de liberdade – talvez ingênuo recurso de justificar inépcia ou preguiça. Liberdade completa ninguém desfruta: começamos oprimidos pela sintaxe e acabamos às voltas com a Delegacia de Ordem Política e Social, mas, nos estreitos limites a que nos coagem a gramática e a lei, ainda nos podemos mexer.”
“Não caluniemos o nosso pequenino fascismo tupinambá: se o fizermos, perderemos qualquer vestígio de autoridade e, quando formos verazes, ninguém nos dará crédito. De fato ele não nos impediu escrever. Apenas nos suprimiu o desejo de entregar-nos a esse exercício.”
“De alguma forma nos acanalhamos. Por que foi que um dos meus livros saiu tão ruim, pior que os outros? pergunta o crítico honesto. E alinha explicações inaceitáveis. Nada disso: acho que é ruim porque está mal escrito. E está mal escrito porque não foi emendado, não se cortou pelo menos a terça parte dele.”
“Quem dormiu no chão deve lembrar-se disto, impor-se disciplina, sentar-se em cadeiras duras, escrever em tábuas estreitas.”
“Fisicamente estamos em repouso. Engano. O pensamento foge da folha meio rabiscada. Que desgraças inomináveis e vergonhosas nos chegarão amanhã?”
“O receio de cometer indiscrição exibindo em público pessoas que tiveram comigo convivência forçada já não me apoquenta.”
“Omitirei acontecimentos essenciais ou mencioná-los-ei de relance, como se os enxergasse pelos vidros pequenos de um binóculo; ampliarei insignificâncias, repeti-las-ei até cansar, se isto me parecer conveniente.”
“Mas que significa isso? Essas coisas verdadeiras podem não ser verossímeis. E se esmoreceram, deixá-las no esquecimento: valiam pouco, pelo menos imagino que valiam pouco.”
“Desgosta-me usar a primeira pessoa. Desculpo-me alegando que ele me facilita a narração.”
“NO COMEÇO de 1936, funcionário na Instrução Pública de Alagoas, tive a notícia de que misteriosos telefonemas, com veladas ameaças, me procuravam o endereço. Desprezei as ameaças: ordinariamente o indivíduo que tenciona ofender outro não o avisa. Mas os telefonemas continuaram. Mandei responder que me achava na repartição diariamente, das nove horas ao meio-dia, das duas às cinco da tarde.”
“Algum tempo depois um amigo me procurou com a delicada tarefa de anunciar-me, gastando elogios e panos mornos, que a minha permanência na administração se tornara impossível. Não me surpreendi. Pelo meu cargo haviam passado em dois anos oito sujeitos. Eu conseguira agüentar-me ali mais de três anos, e isto era espantoso.”
“não tivera a habilidade necessária de prestar serviços a figurões, havia suprimido nas escolas o Hino de Alagoas, uma estupidez com solecismos, e isto se considerava impatriótico. O aviso que me traziam era, pois, razoável, e até devia confessar-me grato por me haverem conservado tanto tempo.”
“Findo o expediente, sucedia retardar-me ali, a escrever, esquecia-me do tempo, e às vezes, meia-noite, o guarda vinha dizer-me que iam fechar o portão do Palácio. Parte do meu último livro fora composto no bureau largo, diante de petições, de números do Literatura Internacional.”
“Rubem me explicava que Osman Loureiro, o governador, se achava em dificuldade: não queria demitir-me sem motivo, era necessário o meu afastamento voluntário. Ora, motivo há sempre, motivo se arranja. Evidentemente era aquilo início de uma perseguição que Osman não podia evitar”
“Os integralistas serravam de cima, era o diabo. Demissão ninguém me forçaria a pedir. Havia feito isso várias vezes, inutilmente; agora não iria acusar-me. Dessem-na de qualquer jeito, por conveniência de serviço.
Despedi-me de Rubem Loureiro e deixei sobre o bureau os volumes do Literatura Internacional. Essa matéria, na safadeza e na burrice dominantes naquela época, render-me-ia talvez um processo. Iriam dr. Sidrônio e Luccarini, meus companheiros de trabalho, passar vexames por minha causa? Não. Dr. Sidrônio era católico, não escrevia, como eu, livros perigosos nem se gastava em palestras inconvenientes nos cafés. Provavelmente me substituiria. Luccarini tinha sido meu inimigo. Apanhado certa vez em falta e censurado, replicara-me:
– Eu também já mandei. Mas quando queria dizer isso que o senhor está dizendo, chamava o sujeito particularmente. – Ora essa! O senhor chega tarde, larga a banca e vive passeando pelas seções alheias em público.
Luccarini voltara ao seu lugar e durante três meses fôra de uma pontualidade irritante. Era o primeiro a chegar, o último a sair, não se levantava nem para ir ao mictório. Também não fazia nada, inércia completa.”
“E dera graças a Deus quando Luccarini se ausentara, passara seis meses no Recife, curando uma sinusite, com todos os vencimentos. Ao voltar, agradecera-me um obséquio não-feito, apresentara-me um relatório não-encomendado, insinuara-me a compra de um fichário e o abandono daqueles horríveis calhamaços onde o registro das professoras se fragmentava e confundia. Agora trabalhava demais, em poucos meses corrigira aquela balbúrdia.”
“Sentia desgosto e vergonha, desejava ausentar-me para muito longe, não pensar em despachos e informações. Andei pelas ruas, tomei o bonde. Transeuntes e passageiros pareciam conhecer o desagradável sucesso, ler-me no rosto a inquietação. Evitava considerar-me vítima de uma injustiça: deviam ter razão para repelir-me. Seria bom que ela se publicasse no jornal, isto desviaria comentários maliciosos. Esforçava-me por julgar aquilo uma insignificância. Já me havia achado em situação pior, sem emprego, numa cama de hospital, a barriga aberta, filhos pequenos, o futuro bem carregado. Tinha agora uns projetos literários, indecisos. Certamente não se realizariam, mas anulavam desavenças conjugais intempestivas, que se vinham amiudando e intensificando sem causa. A lembrança dessas querelas, somada aos telefonemas e à demissão, azedou-me a viagem a Pajuçara. Indispensável refugiar-me no romance concluído, imaginá-lo na livraria, despertando algum interesse, possibilitando ainda uma vez mudança de profissão. A última, encerrada meia hora antes, tinha sido um horror: o regulamento, o horário, o despacho, o decreto, a portaria, a iniqüidade, o pistolão, sobretudo a certeza de sermos uns desgraçados trambolhos, de quase nada podermos fazer na sensaboria da rotina. Se não me houvessem despedido assim de chofre, com um recado, humilhantemente, poderia até julgar aquilo um benefício.”
“Necessário meter-me no interior, passar meses trancado, riscando linhas, condensando observações espalhadas. Não, porém, no interior de Alagoas: indispensável fugir a indivíduos que me conhecessem. Era pouco não tornar a pôr os pés no Palácio dos Martírios: queria evitar indiscretos que me houvessem visto manuseando os horríveis papéis sujos.”
“O emburramento era necessário. Sem ele, como se poderiam agüentar políticos safados e generais analfabetos? Necessário reconhecer que a professora mulata não havia sido transferida e elevada por mim: fôra transferida por uma idéia, pela idéia de aproveitar elementos dignos, mais ou menos capazes. Isso desaparecia. E os indivíduos que haviam concorrido para isso desapareciam também. Excelente que Osman, em cima, e Luccarini, embaixo, continuassem. Não continuariam muito tempo.”
“Ouviram do Ipiranga as margens plácidas. Para que meter semelhante burrice na cabeça das crianças, Deus do céu?”
“De certo modo as ameaças dos telefonemas me agradavam: embora indeterminadas, indicavam mudanças, forçar-me-iam a azeitar as articulações perras. Conservara-me regulamentar e besta mais de 3 anos, numa cadeira giratória, manejando carimbos, assinando empenhos, mecânico, a deferir e indeferir de acordo com as informações de seu Benedito, realmente obedecendo a seu Benedito.”
“Osman me perguntara certa vez:
– Você anda desarmado? Em que é que você confia, criatura?
Depois disso José Auto me emprestara um revólver, mas o revólver tinha apenas três balas e de ordinário ficava nas gavetas, era difícil encontrá-lo. Fôra um alívio a restituição. Ia fazer-me falta quando me agredissem. Foi o que imaginei: uma agressão pública, muitos integralistas atacando-me, furando-me, partindo-me as costelas, os braços e a cabeça. Recolhi-me.”
“Na casinha de Pajuçara fiquei até a madrugada consertando as últimas páginas do romance. Os consertos não me satisfaziam: indispensável recopiar tudo, suprimir as repetições excessivas. Alguns capítulos não me pareciam muito ruins, e isto fazia que os defeitos medonhos avultassem. O meu Luís da Silva [Angústia] era um falastrão, vivia a badalar à toa reminiscências da infância, vendo cordas em toda a parte. Aquele assassinato, realizado em vinte e sete dias de esforço, com razoável gasto de café e aguardente, dava-me impressão de falsidade. Realmente eu era um assassino bem chinfrim. O delírio final se atamancara numa noite, e fervilhava de redundâncias. Enfim não era impossível canalizar esses derramamentos. O diabo era que no livro abundavam desconexões, talvez irremediáveis. Necessário ainda suar muito para minorar as falhas evidentes. Mas onde achar sossego? Minha mulher vivia a atenazar-me com uma ciumeira incrível, absolutamente desarrazoada. Eu devia enganá-la e vingar-me, se tivesse jeito para essas coisas. Agora, com a demissão, as contendas iriam acirrar-se, enfurecer-me, cegar-me, inutilizar-me dias inteiros, deixar-me apático e vazio, aborrecendo o manuscrito. Largara-o duas vezes, estivera um ano sem vê-lo, machucara folhas e rasgara folhas. As interrupções e as discórdias sucessivas deviam ser causa daqueles altos e baixos, daquelas impropriedades. Conveniente isolar-me, a idéia da viagem continuava a perseguir-me. De que modo realizá-la? Havia uma penca de filhos, alguns bem miúdos. E restava-me na carteira um conto e duzentos. Apenas.”
“NO DIA seguinte, 3 de março, entreguei pela manhã os originais a d. Jeni, datilógrafa. Ao meio-dia uma parenta me visitou – e este caso insignificante exerceu grande influência na minha vida, talvez haja desviado o curso dela. Essa pessoa indiscreta deu-me conselhos e aludiu a crimes vários praticados por mim. Agradeci e pedi-lhe que me denunciasse, caso ainda não o tivesse feito. A criatura respondeu-me com quatro pedras na mão e retirou-se. Minha mulher deu razão a ela e conseguiu arrastar-me a um dos acessos de desespero que ultimamente se amiudavam. Como era possível trabalhar em semelhante inferno? Nesse ponto surgiu Luccarini. Entrou sem pedir licença, atarantado, cochichou rapidamente que iam prender-me e era urgente afastar-me de casa, recebeu um abraço e saiu.
Ótimo. Num instante decidi-me. Não me arredaria, esperaria tranqüilo que me viessem buscar.”
“Expliquei em voz alta que não valia a pena. Entrei na sala de jantar, abri uma garrafa de aguardente, sentei-me à mesa, bebi alguns cálices, a monologar, a dar vazão à raiva que me assaltara. Propriamente não era monólogo: minha mulher replicava com estridência. Escapava-me a significação da réplica, mas a voz aguda me endoidecia, furava-me os ouvidos. Não conheço pior tortura que ouvir gritos.”
“Naquele momento a idéia da prisão dava-me quase prazer: via ali um princípio de liberdade.” Realmente: o que não é uma mulher que não nos compreende, e com quem somos forçados a conviver!
“Que diabo ia fazer, perseguido, a rolar de um canto para outro, em sustos, mudando o nome, a barba longa, a reduzir-me, a endividar-me?”
“Além disso eu estava curioso de saber a argüição que armariam contra mim. Bebendo aguardente, imaginava a cara de um juiz, entretinha-me em longo diálogo, e saía-me, perfeitamente, como sucede em todas as conversas interiores que arquiteto. Uma compensação: nas exteriores sempre me dou mal. Com franqueza, desejei que na acusação houvesse algum fundamento.”
“A cadeia era o único lugar que me proporcionaria o mínimo de tranqüilidade necessária para corrigir o livro. O meu protagonista se enleara nesta obsessão: escrever um romance além das grades úmidas e pretas. Convenci-me de que isto seria fácil: enquanto os homens de roupa zebrada compusessem botões de punho e caixinhas de tartaruga, eu ficaria largas horas em silêncio, a consultar dicionários, riscando linhas, metendo entrelinhas nos papéis datilografados por d. Jeni. Deixar-me-iam ficar até concluir a tarefa? Afinal a minha pretensão não era tão absurda como parece. Indivíduos tímidos, preguiçosos, inquietos, de vontade fraca habituam-se ao cárcere.”
“É desagradável representarmos o papel de vítima.
– Coitado!
É degradante.”
“ambicionara com fúria ver a desgraça do capitalismo, pregara-lhe alfinetes, únicas armas disponíveis, via com satisfação os muros pichados, aceitava as opiniões de Jacob.”
“Tinha o direito de insurgir-me contra os depoimentos venenosos? De forma nenhuma. Não há nada mais precário que a justiça. E se quisessem transformar em obras os meus pensamentos, descobririam com facilidade matéria para condenação. Não me repugnava a idéia de fuzilar um proprietário por ser proprietário. Era razoável que a propriedade me castigasse as intenções.
Fui ao banheiro, tomei um longo banho. Tolice vivermos a apurar responsabilidades. Muitas coisas nos acontecem por acaso, e às vezes nos chegam vantagens por acaso. Julgava é que não me deteriam nem uma semana. Dois ou três dias depois me mandariam embora, dando-me explicações. Um engano. Findo o banho, preparei-me para sair. Em seguida meti alguma roupa branca na valise, mandei comprar muito cigarro e fósforo.”
– O senhor tem coragem de me dar a mão? Estou suja. Desde a manhã aqui pegando os pés destes moleques!
Quatro dessas criaturinhas arrebanhadas nesse tempo, beiçudas e retintas, haviam obtido as melhores notas nos últimos exames.
– Que nos dirão os racistas, d. Irene?
“Afinal, cerca de sete horas, um automóvel deslizou na areia, deteve-se à porta – e um oficial do exército, espigado, escuro, cafuz ou mulato, entrou na sala.”
– Vai apenas essa maleta? Aqui entre nós posso dizer: acho bom levar mais roupa. É um conselho.
– Obrigado, tenente.
“Beijei as crianças, sossegadas. Procurei na cara de minha mulher sinal de medo. Em vão: nem dessa vez nem de outras lhe percebi nenhum receio. Nos momentos mais difíceis sempre a vi corajosa, e isto a diferençava dos parentes, em geral pusilânimes. Depois do conflito da manhã serenara, assistira calada aos preparativos, sem acreditar talvez na realização”
“por que vinha prender-me o sujeito que um mês antes me fôra amolar com insistências desarrazoadas?” “Certo, ele não havia determinado a minha prisão, mas era curioso encarregar-se de efetuá-la. Sem me incomodar com essa pequena vingança, pensei noutras, vi o país influenciado pelos tenentes que executam piruetas, pelas sobrinhas dos tenentes que executam piruetas. Desejariam os poderes públicos que eu mandasse aprovar com dolo a sobrinha do tenente, em Penedo?”
“energúmenos microcéfalos vestidos de verde a esgoelar-se em discursos imbecis, a semear delações.”
“tínhamos a impressão de viver numa bárbara colônia alemã. Pior: numa colônia italiana. Mussolini era um grande homem, e escritores nacionais celebravam nas folhas as virtudes do óleo de rícino. A literatura fugia da terra, andava num ambiente de sonho e loucura, convencional, copiava figurinos estranhos, exibia mamulengos que os leitores recebiam com bocejos e indivíduos sagazes elogiavam demais. O romance abandonava o palavrão, adquiria boas maneiras, tentava comover as datilógrafas e as mocinhas das casas de quatro mil e quatrocentos. Uma beatice exagerada queimava incenso defumando letras e artes corrompidas, e a crítica policial farejava quadros e poemas, entrava nas escolas, denunciava extremismos. Um professor era chamado à delegacia: – Esse negócio de africanismo é conversa. O senhor quer inimizar os pretos com a autoridade constituída.”
“e vivíamos de fato numa ditadura sem freio. Esmorecida a resistência, dissolvidos os últimos comícios, mortos ou torturados operários e pequeno-burgueses comprometidos, escritores e jornalistas a desdizer-se, a gaguejar, todas as poltronices a inclinar-se para a direita, quase nada poderíamos fazer perdidos na multidão de carneiros.”
“Se todos os sujeitos perseguidos fizessem como eu, não teria havido uma só revolução no mundo. Revolucionário chinfrim. Desculpava-me a idéia de não pertencer a nenhuma organização, de ser inteiramente incapaz de realizar tarefas práticas. Impossível trabalhar em conjunto. As minhas armas, fracas e de papel, só podiam ser manejadas no isolamento.”
“Logo ao chegar, notei que me despersonalizavam. O oficial de dia recebera-me calado. E a sentinela estava ali encostada ao fuzil, em mecânica chateação, como se não visse ninguém.”
“Nada afinal do que eu havia suposto: o interrogatório, o diálogo cheio de alçapões, alguma carta apreendida, um romance com riscos e anotações, testemunhas sumiram-se. Não me acusavam, suprimiam-me. Bem. Provavelmente seria inquirido no dia seguinte, acareado, transformado em autos. Que horas seriam? Estirei-me no colchão, vestido, o livro de José Geraldo aberto sobre o estômago vazio.”
“Sentava-me, acendia um cigarro. Naturalmente não havia cinzeiro, esses luxos de civilização tinham desaparecido. Burlesco.”
“E ali estava com sentinela à vista. Para quê? Não era mais simples trancarem a porta? Aquele dispêndio inútil de energia corroborava o desfavorável juízo que eu formara da inteligência militar.” “O sujeito firme, encostado ao fuzil. Iria passar ali a noite, dormir em pé?” “Pretenderiam manifestar-me deferência, considerar-me um sujeito pernicioso demais, que era preciso vigiar, ou queriam apenas desenferrujar as molas de um recruta desocupado? Compreenderia ele que era uma excrescência, ganhava cãibras à toa, equilibrando-se ora numa perna, ora noutra? Se não fosse obrigado a desentorpecer-se e dar-me um tiro em caso de fuga, aquela extensa vigília só tinha o fim de embrutecê-lo na disciplina.” “Seria o mesmo do começo ou teria vindo outro durante os cochilos? Havia-me escapado a substituição. Também me escapavam próximos rumores possíveis: gemidos do vento nas árvores do pátio, a marcha lenta da ronda.”
“Ter-me-ia revelado inquieto? Pouco me importava o conceito que a sentinela pudesse ter dos meus movimentos excessivos, nem me ocorria que o infeliz, tão parado, tivesse conceitos. Mas na verdade a inquietação era puramente física: difícil permanecer num lugar; precisão de levantar-me, sentar-me, deitar-me. fumar; a ligeira sonolência perturbada vezes sem conta e a leitura das mesmas páginas de José Geraldo Vieira. Parecia-me faltar a um dever.”
“Picadas no estômago. Fome. Não, não era fome: nem conseguiria mastigar qualquer coisa. Só pensar em comida me dava enjôo. Interiormente achava-me tranqüilo. Ou antes, achava-me indiferente. Sumia-se até a curiosidade inicial. Que peça me iriam pregar no dia seguinte?”
“E não me espantei quando, manhãzinha, me vieram tirar de uma leve modorra:
– Prepare-se para viajar.
Saltei da cama; utilizando o copo e a moringa, escovei os dentes, lavei o rosto, molhei os cabelos; penteei-me, agarrei a valise e os três volumes:
– Está bem.”
“À SAÍDA encontrei o Tavares, conhecido velho do tempo de rapaz, agora investigador da polícia. Disse-me que tinha ordem de levar-me ao Recife e perguntou-me se queria um carro. A pergunta revelava estranha sovinice: pareceu-me que, preso, não me cabia pagar transporte; e, se fôssemos a pé, não alcançaríamos o trem. Senti-me lesado, mas respondi afirmativamente – e foi esta a última relação que tive com os poderes públicos de Alagoas.”
“Outro conhecido, também visto de relance numa estação, foi o deputado José da Rocha. Ao ter conhecimento da infeliz notícia, recuou, temendo manchar-se, exclamou arregalado: – Comunista!” 100 anos e nada mudou…
“ESCRITOR APOLÍTICO”: “Absurdo: eu não podia considerar-me comunista, pois não pertencia ao Partido; nem era razoável agregar-me à classe em que o bacharel José da Rocha, usineiro, prosperava. Habituara-me cedo a odiar essa classe, e não escondia o ódio. Embora isto não lhe causasse nenhum prejuízo, era natural que, em hora de paixões acirradas, ela quisesse eliminar-me.”
“Uma palavra apenas, e nela indignação, asco, uma raiva fria manifesta em rugas ligeiras:
– Comunista!
Este resumo aniquilava-me. Ingrato. E qualquer acréscimo, gesto ou vocábulo era redundância.”
“em 1936 esse desrespeito podia considerar-se uma espécie de comunismo.”
“Fumava sem descontinuar, a provisão do tabaco sumia-se rapidamente na valise.”
“e se Tavares não fosse da polícia, agradar-me-ia conversar com ele, recordar as sobrinhas do padre Raul, Pontal-da-Barra, casos da mocidade. O que fiz foi confiar-lhe um bilhete para minha mulher. Na atrapalhação da partida, esquecera-me de um aviso importante.”
“Quais seriam os meus crimes? Não havia reparado nos enxertos em 1935 arrumados na constituição. Num deles iria embrulhar-me.”
“Bem, os célebres mocambos que José Lins havia descrito em Moleque Ricardo. Conheceria José Lins aquela vida? Provavelmente não conhecia. Acusavam-no de ser apenas um memorialista, de não possuir imaginação, e o romance mostrava exatamente o contrário. Que entendia ele de meninos nascidos e criados na lama e na miséria, ele, filho de proprietários? Contudo a narração tinha verossimilhança. Eu seria incapaz de semelhante proeza: só me abalanço a expor a coisa observada e sentida.”
“Temos a impressão de que apenas desejam esmagar-nos, pulverizar-nos, suprimir o direito de nos sentarmos ou dormir se estamos cansados. Será necessária essa despersonalização? Depois de submeter-se a semelhante regime, um indivíduo é absolvido e mandam-no embora. Pouco lhe serve a absolvição: habituado a mover-se como se o puxassem por cordéis, dificilmente se libertará. Condenaram-no antes do julgamento, e nada compensa o horrível dano. Talvez as coisas devam ser feitas assim, não haja outro meio de realizá-las. De qualquer modo isso é uma iniqüidade – e a custo admitiremos que uma iniqüidade seja indispensável. Aonde me transportariam? Aquela hora muitos indivíduos suspeitos estavam sendo paralisados, rolavam sobre pneumáticos silenciosos, navegavam do norte para o sul e do sul para o norte, resvalavam como sombras em longos corredores úmidos. E as autoridades resvalavam também, abafando os passos, oblíquas, tortuosas, com aparência de malfeitores.”
“Na verdade me achava num mundo bem estranho. Um quartel. Não podia arrogar-me inteira ignorância dos quartéis, mas até então eles me haviam surgido nas relações com o exterior, esforçando-se por adotar os modos e a linguagem que usávamos lá fora. Aparecia-me de chofre interiormente, indefinido, com seu rígido simbolismo, um quadro de valores que me era impossível recusar, aceitar, compreender ao menos.”
“Habituara-me cedo a considerar o exército uma inutilidade. Pior: uma organização maléfica. Lembrava-me dos conquistadores antigos, brutos, bandidos, associava-os aos generais modernos, bons homens, excelentes pais de família, em todo o caso brutos e bandidos teóricos, mergulhados numa burocracia heróica e dispendiosa. Mais tarde, numa prefeitura da roça, percebera que os melhores trabalhadores, os mais capazes, tinham sido soldados – e aquele ninho de parasitas se revelara incongruente. Uma idéia preconcebida, rigorosa, esbarrava com a observação. Nada mais besta que as generalizações precipitadas. A antipatia que os militares me inspiravam com certeza provinha de nos separarmos. Eu achava as fórmulas deles, os horríveis lugares-comuns, paradas, botões, ordens do dia e toques de corneta uma chatice arrepiadora; se algum deles atentasse nas minhas ocupações, provavelmente as julgaria bem mesquinhas.”
“Como era possível em tão grande estabelecimento não haver cela onde se alojassem dois indivíduos? Não se tratava disso, foi o que me pareceu: não se procurava uma cela, mas uma determinada espécie de cela.”
– Obrigado, tenente.
– Não senhor, sou apenas sargento.
– Perdão. Com essa luz tão fraca, difícil notar.
“Iria qualquer informação doida transformar-me em delator, levar à cadeia rapazes inofensivos que tencionavam eliminar a burguesia distribuindo às escondidas nos cafés papéis mimeografados? Um deles, Jacob, figurava no meu último livro, com o nome de Moisés.”
“É desses pequeninos grãos que a polícia constrói os seus monumentos de misérias. Qual seria a minguada contribuição que exigiriam de mim? Esforçava-me por adivinhá-la e guardá-la com avareza: no interrogatório, desviar-me-ia das ciladas, referir-me-ia com ar culposo, misteriosamente, a casos diversos e inofensivos. Difícil era descobrir aonde me queriam levar, que valor me atribuíam. Inadmissível achar-me ali por vingança de um energúmeno qualquer: isto seria antieconômico, disparatado, e sem dúvida o país ainda não chegara a tal grau de estupidez e malandragem.”
“Quando me viesse calma, aventurar-me-ia a fazer um livro, lentamente, livre das aporrinhações normais. Viria a calma? E quantos dias ou meses me deixariam naquela situação?”
“a certeza de que o meu trabalho de indivíduo solitário, na ditadura mal-disfarçada por um congresso de sabujos, seria pouco mais ou menos inútil. Preferível o cativeiro manifesto ao outro, simulado, que nos ofereciam lá fora.” “Até certo ponto podia considerar-me uma espécie de revolucionário, teórico e chinfrim. Sorria-me a perspectiva de olhar de perto revolucionários de verdade, que ultimamente eram presos em magotes.”
– Enfim, como os senhores estão aqui de passagem, podem agüentar uns dias de maus tratos.
Aludiu outra vez, num vago oferecimento, às coisas que nos faltavam, despediu-se e retirou-se. Bem. Tínhamos uma indicação: estávamos ali de passagem. Para onde?
“Indispensável estarem os sapatos cuidadosamente engraxados, os fuzis brilhantes à custa de lixa e azeite, os colarinhos mais ou menos limpos, todos os botões metidos nas casas, os espinhaços tesos. As pernas direitas devem mover-se simultaneamente, depois as pernas esquerdas, e nenhum dedo se afasta dos outros na continência. É preciso olhar vinte passos em frente, e os passos, em conformidade com a marcha, têm o mesmo número de centímetros. Certo, há outros deveres, mas desse gênero, tendentes à mecanização do recruta. Decoradas certas fórmulas, aprendidos os movimentos indispensáveis, pode o soldado esquecer obrigações, até princípios morais aprendidos na vida civil. O essencial é ter aparência impecável. Desapareceu-lhe o cinturão? Falta grave, embora ele em vão remexa os miolos para saber como a desgraçada correia se sumiu. É obrigado a apresentar-se com ela na formatura. Com ela ou com outra qualquer. Nesse ponto convém desapertar, isto é, agarrar o cinturão do vizinho, que, sendo inábil, será punido, pois o maior defeito do soldado é ser besta. Desenvolvem-se a dissimulação, a hipocrisia, um servilismo que às vezes oculta desprezo ao superior, se este se revela incapaz de notar a fraude ou tacitamente lhe oferece conivência. As minhas observações foram completadas pelos informes do capitão Mata, que, percebendo-me a ignorância, desvendava paciente mistérios simples. Divergimos à hora do almoço, mas logo chegamos a acordo. Diante da bandeja, recuei: diabo, a comida era pavorosa, o comandante tinha razão.”
– Respeito as suas idéias. Não concordo com elas, mas respeito-as.
– Quais são as minhas idéias? sorri. Ainda não me expliquei. Estamos a comentar as suas.
– Ora! ora! ora! resmungou o capitão num tom indefinível.
E nada acrescentou. Escusavam-se explicações. A minha estada ali marcava-me. Sem alegar motivos, emprestavam-na certo número de qualidades e tendências.
“O meu companheiro Mata ia muito além: confessava-me a sua ignorância em revolução (fora preso injustamente, não se cansava de afirmar isto), considerava-me um técnico neste assunto e pedia-me que o instruísse com rapidez. Se me acontecia alegar incompetência, achava-me discreto e modesto. Um fato nesse dia 6 abalou-me, o único de que tenho lembrança clara. À hora do café abri um jornal do Recife e li, em telegrama do Rio, a notícia arrasadora: Prestes havia sido preso na véspera.
– Com todos os diabos!”
“Que significava aquilo? Um protesto, nada mais. Se por milagre a coluna alcançasse vitória, seria um desastre, pois nem ela própria sabia o que desejava. Sabia é que estava tudo errado e era indispensável fazer qualquer coisa. Já não era pouco essa rebeldia sem objetivo, numa terra de conformismo e usura, onde o funcionário se agarrava ao cargo como ostra, o comerciante e o industrial roíam sem pena o consumidor esbrugado, o operário se esfalfava à toa, o camponês agüentava todas as iniqüidades, fatalista, sereno. Com certeza essa gente arregalava os olhos espantada – e nos de cima o espanto se mudava em ódio, nos de baixo começava a surgir uma indecisa esperança. Às portas das farmácias, nas vilas, discutia-se com entusiasmo o caso extraordinário.”
“Seria possível uma associação, embora contingente e passageira, entre as duas classes? Isso me parecia jogo perigoso. Os interesses da propriedade, grande ou pequena, a lançariam com certeza no campo do fascismo, quando esta miséria ganhava terreno em todo o mundo. Em geral a revolução era olhada com medo ou indiferença. Os habitantes da cidade contentavam-se com discursos idiotas, promessas irrealizáveis e artigos safados, animavam-se à toa e depressa desanimavam, seriam capazes de aplaudir demagogos como os que, no princípio do século, defendiam a peste bubônica, a febre amarela e a varíola; as populações da roça distanciavam-se enormemente do litoral e animalizavam-se na obediência ao coronel e a seu vigário, as duas autoridades incontrastáveis.”
“Lembrava-me de um desses conselhos, negro, a piche: <índios, uni-vos>. Nunca vi maior disparate, pois naquele arrabalde de capital pequena não vivia nenhum índio.” “E para que nos serviria a união dos índios, santo Deus? Absurdos semelhantes pressupunham desorientação.”
“A divisão da terra, por exemplo, seria um desastre na zona de criação do nordeste. Aí a terra vale pouco e praticamente não tem dono; a riqueza é constituída por açudes, casas, currais, gado. O espaço que um animal necessita para alimentar-se na vegetação rala de cardo e favela que veste a planície queimada é enorme. E a madeira indispensável para estabelecer limites escasseia: as raras cercas são de ordinário feitas de ramos secos ou de pedras soltas. Quase nenhuma lavoura: apenas touceiras de milho peco, um triste feijoal e aboboreiras amarelando na vazante dos rios periódicos.”
“Esperava enfim um triunfo casual. Viera a derrota – e agora queria persuadir-me de que findara um episódio e a luta ia continuar. Certamente haveria mais precaução no desempenho do segundo ato. E aquele revés tinha sido conveniente, pois não existia probabilidade de se agüentar no Brasil uma revolução verdadeira. Se ela vencesse internamente, os nossos patrões do exterior fariam a intervenção.”
“Realmente não me envolvera em nenhum barulho, limitara-me a conversas e escritas inofensivas, e imaginara ficar nisso. A convicção da própria insuficiência nos leva a essas abstenções; um mínimo de honestidade nos afasta de empresas que não podemos realizar direito. Mas as circunstâncias nos agarram, nos impõem deveres terríveis.”
“Anos perdidos. E se a agressão fascista continuasse lá fora, teríamos aqui medonhas injustiças e muita safadeza.”
“O faxina trouxe-me as encomendas, entre elas cuecas ordinárias, provavelmente iguais às usadas na caserna, duras como pau. Como vestir aquele suplício? Resignei-me.”
“O cigarro era insuficiente. Vivia a encher-me de fumaça e arrancava a custo algumas linhas por dia, em letrinhas acavaladas, economizando papel, utilizando o espaço todo, para que o manuscrito fizesse um volume pequeno e pudesse esconder-se em momento de busca. A atenção se desviava do trabalho moroso, buscava o abscesso que se desenvolvia debaixo da unha do indicador.”
“A secura da boca e a dormência do estômago desapareciam, o aspecto desagradável da comida já não me provocava náuseas. Tentei alimentar-me, venci a tontura, a memória ressurgiu, o nevoeiro mental se adelgaçou e as figuras em redor se destacaram. Mas a deficiência interior persistia, desânimo, indecisão e a certeza de que os papéis laboriosamente rabiscados não teriam préstimo.”
“Dizia a significação dos toques de corneta, explicava-me que, para fixá-los, os recrutas decoravam versos grotescos. Estes correspondiam à meia-volta:
Quantos dentes tem sagüi
Na boca?
E também estes:
Nunca vi mulher parir
Sem homem.”
“Mata receava o aparecimento de um general no quartel. Apenas. Estranhei ver homem tão loquaz, tão alegre, amofinar-se à toa. Não havia razão, supus. Em seguida modifiquei o juízo. Para um capitão de polícia a vista de um general, em carne e osso, deve ser caso importante demais.” “Essa autoridade invisível, remota, com um rápido mandado nos cortara a vida social, nos trancara, a nós e a Sebastião Hora, que a alguns passos mofava numa prisão de sargentos, com vários outros. Começávamos a perceber que dependíamos exclusivamente da vontade desse cavalheiro.” “Um tribunal safado sempre vale qualquer coisa, um juiz canalha hesita ao lançar uma sentença pulha: teme a opinião pública, em última análise o júri razoável. É esse medo que às vezes anula as perseguições. Não davam mostra de querer submeter-nos a julgamento. E era possível que já nos tivessem julgado e cumpríssemos pena, sem saber. Suprimiam-nos assim todos os direitos, os últimos vestígios deles. Desconhecíamos até o foro que nos sentenciava. Possivelmente operava nisso uma cabeça apenas: a do general. E capitão Mata, ouvindo a corneta, se alvoroçava.”
“No desembarque fôramos recebidos por um subalterno – e eu o tomara por oficial, tão cortês se revelara. Todas as manhãs recebíamos a visita do comandante e escutávamos, com ligeiras alterações, as mesmas palavras de amabilidade fria. Capitão Lobo continuava a divergir das minhas idéias, que nunca cheguei a mencionar. Também não consegui entender bem as dele. Agradava-me, porém, vê-lo, sentir-lhe a franqueza meio rude, a voz clara, o gesto rápido e incisivo, no olhar agudo uma faísca a indicar tendência para descarrilamentos e doidices necessárias.”
– Muito grave. Na sua chegada eu lhe disse que usasse o banheiro dos oficiais. O senhor ontem tomou banho no banheiro dos sargentos.
Era verdade, mas achei graça na repreensão e sosseguei:
– Ora, capitão! Foi essa a falta grave? Julguei que se tratasse de coisa séria, assustei-me.
O oficial acolheu minha resposta com indignação muda, repetiu depois o que havia dito, enérgico. Tentei justificar-me:
– Encontrei um banheiro ocupado e entrei noutro.
“De fato o que mais nos choca não é a sinceridade, às vezes impertinente: é a arranhadela feita com mão de gato, a perfídia embrulhada num sorriso, a faca de dois gumes, alfinetes espalhados numa conversa. Agora não podia molestar-me.”
“Ofereciam-me na verdade uma cela confortável, mas isto era casual e, para ser franco, nunca desejei conforto: suponho até que ele nos prejudica.”
“PELA manhã, de volta do banheiro, atravessando um corredor, avistamos o comandante em companhia de um homem alto, magro, sério. Enviamos-lhe um cumprimento, e ele nos deteve, nos apresentou:
– General, estes senhores…
Finda a apresentação, o homem alto pregou-me um olho irritado:
– Comunista, hem?
Atrapalhei-me e respondi:
– Não.
– Não? Comunista confesso.
– De forma nenhuma. Não confessei nada.
Espiou-me um instante, carrancudo, manifestou-se:
– Eu queria que o governo me desse permissão para mandar fuzilá-lo.
– Oh! General! murmurei. Pois não estou preso?”
“Estava ali um período conveniente, dos que devemos emitir num quartel. Não me aventuraria a semelhante declaração. Poderia julgar-me um bom patriota? Realmente nem me considerava patriota, seria desonestidade falar daquela maneira. Mas determinadas palavras acalmam determinados espíritos, sem que seja necessário demonstrar a veracidade delas.”
“Não, ninguém tinha interesse em fuzilar-me. Além disso quando um vivente quer extinguir outro, não lhe vai revelar este desejo: extingue-o, se pode. Recurso ingênuo ameaçar as pessoas à toa, sem saber se elas se apavoram. No Brasil não havíamos atingido a sangueira pública. Até nos países inteiramente fascistas ela exigia aparência de legalidade, ainda se receava a opinião pública. Entre nós execuções de aparato eram inexeqüíveis: a covardia oficiai restringia-se a espancar, torturar prisioneiros, e de quando em quando se anunciavam suicídios misteriosos. Isso se aplicava a sujeitos mais ou menos comprometidos no barulho de 1935. Mas que diabo tinha eu com ele? Certamente não me pregariam agulhas nas unhas nem me fariam saltar de uma janela de andar alto. Quanto a mim achava-me tranqüilo. E não me recordava de haver piado uma sílaba que ofendesse a autoridade.”
“Era uma história repisada, com voltas infinitas em redor do mesmo ponto, literatura de peru. Como arte e como política valia bem pouco, mas talvez enxergassem nela dinamite. A crítica policial era tão estúpida que julgava a produção artística não pelo conteúdo, mas pelo nome do autor. Eu vivera numa sombra razoável, quase anônimo: dois livros de fôlego curto haviam despertado fraco interesse e alguma condescendência desdenhosa. Era um rabiscador provinciano detestado na província, ignorado na metrópole. Iriam analisar-me os romances, condená-los, queimá-los, chamar para eles a atenção da massa? Ou lançar-me-iam, tacitamente culpado, no meio de criminosos, indivíduos que sempre desejei conhecer de perto? O mais provável era jogarem-me entre rebeldes de Natal, do 3° Regimento, da Escola de Aviação. De qualquer jeito me apresentariam sociedade nova, me proporcionariam elementos para redigir qualquer coisa menos inútil que os dois volumes chochos encalhados nas prateleiras dos editores. Essa afirmação presunçosa esbarrava com as dificuldades imensas que me surgiam quando buscava utilizar o papel trazido pelo faxina.”
“Prosa de noticiarista vagabundo. Tropeços horríveis para alinhavar um simples comentário.”
“Excetuando-se a ameaça de fuzilamento, reduzível, com esforço e boa vontade, a um conselho enérgico, fórmula viva para nos reeducar, tudo corria numa chateação razoável. As caretas da sentinela, o serviço do faxina, o alimento desenxabido na hora certa, idas e vindas de oficiais no alpendre, os toques da corneta, as vozes de comando.”
“o bacharel Nunes Leite não suportava a cadeia. Horrível sujeitar-se ao mesmo regime naturezas diversas. Capitão Mata nada sofria.” “A administração pública não atenta nessas ninharias, tende a uniformizar as pessoas. Somos grãos que um moinho tritura – e ninguém quer saber se resistimos à mó ou se nos pulverizamos logo.”
“Certo, as ordens sempre tinham sido aparentes: a judicatura servia de espantalho, e na farda havia muque bastante para desobediência. Apenas isto não convinha. E os atores representavam seus papéis, às vezes se identificavam com eles. A repetição de minúcias, a sisudez, a lentidão, a redundância, a língua arcaica davam àquilo um ar de velhice e estabilidade. E Nunes Leite se sentia bem requerendo ao poder competente, ao colendo tribunal, ao meritíssimo juiz. Se essas coisas se houvessem dissolvido aos poucos, ele se acomodaria a novas formalidades legais, dirigir-se-ia a forças diversas, meritíssimas e colendas. Isto não se dera. Nunes Leite se movera entre firmes pedregulhos, julgara-os eternos; esses blocos não se haviam liquefeito: tinham-se evaporado – e ele se achava num deserto.” “Impossível defender o direito de alguém. Propriamente, já não havia direito. A lei fôra transgredida, a lei velha e sonolenta, imóvel carrancismo exposto em duros volumes redigidos em língua morta. Em substituição a isso, impunha-se uma lei verbal e móvel, indiferente aos textos, caprichosa, sujeita a erros, interesses e paixões. E depois? Que viria depois? O caos, provavelmente. Se os defensores da ordem a violavam, que devíamos esperar? Confusão e ruína. Desejando atacar a revolução, na verdade trabalhavam por ela.”
– Sou forçado a pedir-lhe que abra o envelope na minha presença.
– Estou satisfeito. Desculpe. É uma formalidade.
“Era realmente levar muito longe o ramerrão obrigar um sujeito a fazer qualquer coisa e logo afirmar que aquilo não tinha valor, era uma exigência à-toa. Desperdício de tempo. Com semelhante proceder, chegaríamos a supor que ali não havia ocupação e se desmandavam inutilmente.” “Sou forçado a pedir-lhe … Desculpe. É uma formalidade. Aquilo não me entrava no entendimento. Poderiam julgar que no quadrilátero de vinte centímetros, de espessura insignificante, houvesse armas, dinamite ou veneno, disfarçados numa escrita e em pedaços de cartão?”
“De fato ainda não me assaltara o medo, faltava razão para isto; vinha-me, porém, às vezes o receio de experimentá-lo. Sensação angustiosa e absurda: medo de sentir medo.”
“O conto, vagabundo e mal escrito, havia sido enviado a Benjamin Garay, que, francamente, eu nem sabia quem era. Um indivíduo que se oferecera para lançar na Argentina negócios do Brasil. Quem diabo seria Benjamin Garay?” “Referia-se a tradutores qualificados, supondo-me talvez bicho razoável, propenso à glória, à Academia.”
“Estava ali apenas para dar ao burguês a impressão de que havia muitos elementos perniciosos e o capital corria perigo.”
– Não lhe estou oferecendo dinheiro, bradou capitão Lobo, adivinhando-me talvez o sentimento infeliz. Não se oferece dinheiro a homem. Estou facilitando-lhe um empréstimo. E não é lá grande coisa, as minhas reservas são pequenas. Se aceita, o senhor mesmo determina, vê quanto lhe posso emprestar. Naturalmente não há prazo: paga-me lá fora quando se libertar. Sai logo, isso não há de ser nada. Também já estive preso e vivi no exílio: viajei num porão de São Paulo à Europa.
“Gostamos de um gato, de um cachorro, de um papagaio, mas não suportaríamos esses bichos se eles pensassem de maneira diferente da nossa. Sei bem que sou ilógico, pois o pensamento é conseqüência; a conseqüência tornou-se causa, leva-me a proceder desta ou daquela maneira, desejar mortandades. Se o capitalista fosse um bruto, eu o toleraria. Aflige-me é perceber nele uma inteligência, uma inteligência safada que aluga outras inteligências canalhas.”
“Infelizmente não havia a pena de morte – e o general se lastimava por não conseguir usá-la a torto e a direito.”
“Afinal capitão Lobo devia ser muito mais revolucionário que eu. Tinha-me alargado em conversas no café, dissera cobras e lagartos do fascismo, escrevera algumas histórias. Apenas. Conservara-me na superfície, nunca fizera à ordem ataque sério, realmente era um diletante.”
“Realmente a desgraça nos ensina muito: sem ela, eu continuaria a julgar a humanidade incapaz de verdadeira nobreza. Eu passara a vida a considerar todos os bichos egoístas e ali me surgia uma sensibilidade curiosa, diferente das outras, pelo menos uma nova aplicação do egoísmo, vista na fábula, mas nunca percebida na realidade.”
“Por que à direita? Por que à esquerda? O sargento não sabe: indicou uma direção por ser preciso variar: fazia dois minutos que marchávamos em linha reta e não devíamos continuar assim, indefinidamente.”
“Permaneceremos civilizados vestindo pijama, calçando chinelos, deixando a barba crescer, palitando os dentes com fósforo? Pouco a pouco vamos caindo no relaxamento. Erguemos a voz, embrutecemos, involuntariamente expomos a rudeza natural. Ignoramos que isto acontece, suprimem-nos meios de comparação – e quando voltarmos estaremos transformados. Afinal a transferência não era ruim: quebrava a monotonia.”
“Um governador de Alagoas me dissera anos atrás:
– Você, escrevendo literatura de ficção, morre de fome. Os romances lhe renderão 200 mil réis por mês. Faça artigos sobre economia e ganhará contos.”
“Duzentos mil-réis por mês, bela perspectiva. Dois romances quase desconhecidos, o terceiro inédito, um conto, vários produtos inferiores – de fato isso me daria duzentos mil-réis mensais. E não me sentia capaz de progresso; talvez nem chegasse a fazer coisa igual.”
“O que eu desejava era a morte do capitalismo, o fim da exploração. Ideal? De forma nenhuma. Coisa inevitável e presente: o caruncho roía esteios e vigas da propriedade, de pouco serviam os meus livros e as divagações de Xavier.”
“E assim decorreu o dia: bilhetes de um lado para o outro. A sentinela se distraía observando a inofensiva brincadeira. Se um intruso surgisse no alpendre, ela daria aviso. Evidentemente a proibição só se fizera para ser violada.”
– Quando a nossa revolução triunfar, ateus assim como o senhor serão fuzilados.
“Homem de religião, homem de fanatismo, desejando eliminar ateus, preso como inimigo da ordem. Contra-senso.”
“Aquelas pessoas urinavam no chão, a um canto; o mijo corria, alagava tudo, arrastando cascas de frutas, vômitos, outras imundícies. Com as oscilações da infame arapuca, a onda suja não descansava, dificilmente se acharia um lugar enxuto.”
“Espantava-me conseguir uma pessoa mastigar qualquer coisa diante das imundícies que se agitavam e decompunham na vaga de mijo. O fedor horrível, confusão de cheiros com predominância de amoníaco, já não me afligia: habituara-me a ele e envenenava-me sem perceber isto. Fumava sem descanso, e temia que me chegasse o momento de abandonar o vício.
No escotilhão estabelecera-se um pequeno comércio. Foi ali com certeza que achei meio de renovar a minha provisão de fósforos e cigarros. Não me recordo. Também não sei como nos forneciam água.”
“Queria atordoar-me, sem dúvida. As letras se acavalavam, miúdas, para economizar espaço, e as entrelinhas eram tão exíguas que as emendas se tornavam difíceis. Realmente nem me lembrava de corrigir a prosa capenga.”
“Fumava o dia todo e assaltavam-me às vezes ligeiras vertigens. Encaminhei-me ao lugar onde bebíamos e não achei água, fiz demoradas buscas inutilmente. A lembrança da noite, do pesadelo extenso, do calor, do negro a coçar as pelancas nojentas, afligiu-me. Naquele estado, o estômago vazio, a garganta seca, ia estirar-me novamente na tábua suja, asfixiar-me, ouvir gemidos, roncos, pragas, borborigmos, delirar, avizinhar-me outra vez da loucura. À medida que o tempo se passava os meus receios cresciam. Tentava iludir-me: ambientado, não experimentaria as ânsias da véspera; na verdade as causas do tormento haviam sido o colarinho, a gravata, a roupa grossa de lã”
“Na véspera outro desconhecido, negro também, me havia encostado um cano de arma à espinha e à ilharga; e qualquer gesto de revolta ou defesa passaria despercebido. Esquisito. Os acontecimentos me apareciam desprovidos de razão, as coisas não se relacionavam. A violência fôra determinada apenas pela grosseria existente no primeiro negro; o ato caridoso pela bondade que havia no coração do segundo. Ausência de motivo fôra isso, eu não merecia nenhum dos dois tratamentos.”
– Ilusão pequeno-burguesa.
“A porcaria aumentava consideravelmente. Se não viessem fazer baldeação, dentro em pouco não teríamos um pedaço de tábua limpa.”
“O sujeito que me ficara a dever 5 mil-réis desapareceu, não sei como achou meio de ocultar-se. Às vezes eu o enxergava de longe. Aproximava-me, e o focinho escuro, carrancudo, se desviava, baixava, tinha jeito de farejar-me para dissimular-se nos grupos.”
“Despertara-me a curiosidade uma família de mulatos, cinco irmãos de cores variadas: havia um sujeito mascavo, de carapinha, beiçudo, e uma louraça bonita, perfeitamente branca.”
“estava ali um negrinho bem-vestido a espiar-nos, curioso, a beiçorra contraindo-se num sorriso infantil. Não nos trazia nenhum aviso, claro: afastei a possibilidade remota e vacilante. Certifiquei-me, porém, de que ele poderia mostrar lá fora pedaços da nossa existência no sepulcro. Aferrei-me à convicção e, não sei por que extravagância, imaginei-o próximo de Edison Carneiro, capaz de se avistar no mesmo dia com este amigo, com quem me correspondia. Depois de muitos acenos, gritei com toda a força dos pulmões débeis:
– Conhece Edison Carneiro?
A interrogação abafada perdeu-se; repeti-a diversas vezes, até julgá-la compreendida. O tipinho balançou a cabeça afirmativamente. Considerei absurdo jogar semelhante frase numa cidade populosa e sobrestive; passados minutos, inquiri novamente:
– Sabe onde fica a Rua dos Barris?
Outra afirmação, o risinho inexpressivo colado nos beiços grossos. Bem. Nenhum disparate: pisávamos o terreno firme das probabilidades: andar nas vias públicas, olhar as placas, era exercício de qualquer transeunte. Do navio para a terra estabeleceu-se um diálogo que supus bastante claro: berros de um lado, gestos, aprovações silenciosas do outro. Perguntei ao sujeito se ele queria ser portador de uma carta. Consentiu. Sem dúvida: agitava o crânio mirim com doçura a tudo quanto ouvia, e nem me vinha a suspeita de não me fazer entender. Fui abrir a valise, retirei o bloco de papel, escrevi a lápis um bilhete narrando o miserável estado em que nos achávamos. Evitava pensar que o escrito não chegaria ao destino; e caso chegasse, o meu distante camarada nenhum recurso tinha para auxiliar-nos; contudo afligia-me a necessidade urgente de enviar-lhe aquela exposição. Rabisquei à pressa, interrompendo-me a cada instante para examinar o negrinho, receando que ele se ausentasse. Falava-lhe nesses intervalos, embaralhava explicações. Descasquei em seguida uma laranja, cuidadosamente. Lancei na água o fruto, e a casca, uma longa fita em espiral, foi enrolada com jeito, afinal se tornou uma esfera oca. No interior pus a folha dobrada. Fiz algumas recomendações ao negro, medi atento a distância que nos separava, meti o braço pela vigia, arremessei a bola com vigor desesperado. Atingiu o cais, rolou, estacou a dois metros da borda. Apesar de haver traçado o endereço bem nítido, em caracteres graúdos, comecei a esgoelar-me, repetindo com insistência:
– Edison Carneiro. Rua dos Barris – 68
O rapaz olhava-me perplexo e interrogava-me sacudindo a cara chata. Só então me veio a certeza de que ele não havia percebido as minhas falas. Expliquei-lhe aos berros que ali havia um papel e continuei a dar-lhe as indicações precisas: o nome e a residência do escritor baiano. Mas já não tinha nenhuma confiança no resultado: ou a minha voz fraca desfalecia no burburinho, nos rumores da carga e da descarga, ou me achava diante de uma estupidez maciça.
Trabalho perdido. Inúteis os brados e os acenos. Calei-me zangado comigo, por me haver iludido à toa, furioso com o animal, que não me entendera e, alheio ao guindaste, aos visitantes, aos passageiros, aos carregadores, continuava a farejar o porão, como um rato, erguendo o focinho, dirigindo-nos os bugalhos claros.”
“Numa das viagens encontrou no caminho o objeto dos meus cuidados. Parou, deu-lhe um pontapé, jogou-o na água. Durante algum tempo o bilhete e o invólucro meio desfeito boiaram na onda, sacudiram-se, bateram no muro esverdeado. E desapareceram.”
“Excelente padre Falcão. Durante o resto da viagem notei-o mais de uma vez em ronda ao nosso curral. O olhar grave se adoçava, os lábios firmes se entreabriam num sorriso bom, exibindo enormes dentes. Era pouco mais ou menos o que poderíamos desejar, ver alguém interessar-se por nós, demonstrar-nos uma solidariedade comprometedora. Isso lá fora passaria despercebido; ali tinha valor imenso: é de coisas semelhantes que fazemos as nossas construções subterrâneas.”
“A verdade é que não consegui escrever. Deitei-me cedo, sem tirar os sapatos, como no dia anterior. Realmente não havia lugar onde colocá-los: se os largasse no chão, amanheceriam com certeza molhados de mijo; ou talvez o gatuno de cara enferrujada os levasse. Necessário vigiar a maleta, a calça e o paletó bem visíveis na ponta do estrado. A chavezinha estava comigo, dentro do porta-moedas; nos bolsos da roupa não havia nada suscetível de furto. Apesar disso, a bagagem não me parecia segura. Se não fosse o receio de molestar os companheiros, tê-la-ia levado para dentro da rede. Ser-me-ia então possível dormir livre de cuidados. A vigilância pouco a pouco se tornava maquinal: embrenhando-me em pensamentos confusos, às vezes despertava erguendo-me sobre o cotovelo, curvando-me sobre a varanda para examinar os troços, a esquina da tábua suja.”
“Quel pays, mon Dieu!” “provavelmente argentinas e polacas airadas já não vinham cavar a vida no Brasil.”
“Fumei o último cigarro, lembrei-me de haver esgotado o sortimento da valise. Calculara mal as exigências do vício e achava-me em dificuldade. Passaria o resto da noite sem fumar, não me chegaria o sono. Levava a mão ao bolso, mecanicamente, irritava-me, quando vi, por cima da minha cabeça, o negro que me havia matado a sede. Sem refletir, fiz o pedido:
– O senhor me arranja, por obséquio, três maços de cigarros e fósforos?
– Que marca? perguntou o soldado.
– Qualquer uma.
Pareceu-me que indicar a marca era demasiada exigência. Quis designar a que habitualmente usava; talvez não fosse achada, e acanhar-me-ia ver o rapaz ir duas vezes ao bar por encargo tão insignificante. Julgava-me sem direito de escolher, temia que o homem se impacientasse. Era um acaso feliz encontrar quem me valesse em tal dificuldade. Retirei uma cédula da carteira, segurei-me à corda, alcancei os varões de ferro, como na véspera, entreguei o dinheiro ao polícia, jurando no íntimo não tornar a incomodá-lo, voltei a estirar-me, cansado. Em conseqüência da inércia obrigatória, ou por falta de alimentação, qualquer esforço me abatia. Ao cabo dez minutos o misericordioso preto ressurgiu:
– Abra a rede.
Afastei as varandas, recebi em cima do peito os objetos da encomenda, as pratas e os níqueis do troco.
– Muito obrigado.
Pus-me a fumar, embalado por uma doce tontura. Com o navio atracado, as oscilações que experimentávamos eram quase insensíveis. Sentia-me realmente bem. As pessoas e as coisas em redor esmoreciam na fumaça do cigarro, as idéias escassas decompunham-se, volatizavam-se, e afinal eu já nem sabia se aquela tênue neblina estava dentro ou fora de mim. Adormecia, acordava, a brasa do cigarro cobria-se de cinza e avivava-se. As pálpebras uniam-se, descerravam-se penosamente, nos vaivéns dos cochilos a figura do negro desaparecia, reaparecia, e isto me reconciliava com a humanidade. Uma grande paz me envolvia, ausência completa das complicações que me aperreavam. A dorzinha aguda que o abscesso da unha me causava extinguia-se, era apenas um leve torpor. Nem picadas no estômago nem contrações nos intestinos: era como se estes órgãos não existissem. Nada havia ingerido ultimamente, impossível até pensar em comer. Ia com certeza prolongar-se a medonha sitiofobia, mas a perspectiva de nenhum modo me assustava. Indiferença. Tanto rendia estar ali como acolá, viver de uma forma como de outra, ou não viver. Não me desgostava acabar suavemente, escorregar aos poucos na eternidade, envolto em sentimentos generosos, levar comigo a recordação do negro que velava a minha fraqueza, firme e sério, de braços cruzados. A visão benigna desmaiou e sumiu-se, as trevas do sono cobriram-me, foram-se adensando.”
“da coberta jogavam no porão cascas de tangerina, que me vinham cair dentro da rede. Procediam exatamente como se as lançassem num chiqueiro. Protestei furioso, mas o protesto e a fúria desanimaram, a voz fraca deve ter morrido a poucos metros. Resignei-me em seguida. Inútil gritar. Um chiqueiro, evidentemente. Era como se fôssemos animais.”
“Tais desencontros amargam em demasia, enchem-nos de fel: queremos expressar agradecimento sincero – e verificamos que o nosso salvador é um patife.”
“Enojava-me ter as mãos sujas e não poder lavá-las: o suco da manga colava-me os dedos, a umidade pegajosa me desagradava em excesso.” Seu humor rabugento me desagrada em excesso. E é assim tanto fora quanto enjaulado, tanto em dias “felizes” quanto na pior, sr. Graciliano! Me lembra até um colega de repartição que tudo desaprova… com ou sem razão!
“A mudança daquele dia nos agravou o desassossego. A gente da primeira classe matava o tempo rondando no convés, agrupava-se, estacionava; enchia-me de vergonha, imaginava estarmos a servir de motivo à pasmaceira; com certeza olhares oblíquos, gestos de rancor e desprezo, se dirigiam a nós. Achavam-me objeto de análise e cotejos humilhantes: viam-me nos olhos baços, na cara pálida, na magreza, no encolhimento, sinais de criminosos. O desespero de Manuel Leal por não se poder manifestar, declarar-se vítima, dizer aos passageiros bem vestidos que gostava deles e abominava revoluções devia ser tremendo.”
“E não avistávamos faixa de praia, ave ou barco. A imensidão vazia, o alto céu azul, as plantas invariáveis, vermelhas, ferrugentas, espalhando na água o estranho lençol cheio de rasgões.
Duas horas de compridos bocejos. E obrigaram-nos a descer. Recebemos então uma agradável surpresa: durante a nossa ausência haviam feito baldeação na cafua, as porcarias tinham desaparecido, esgotara-se o poço de mijo, nas tábuas úmidas espalhava-se uma camada fina de areia. Bem. Alargava-se o espaço transitável, conseguíamos agora mexer-nos sem receio da onda pútrida. Acomodaram-se as bagagens, corpos fatigados estenderam-se com desafogo no chão limpo. E destravaram-se as línguas. Já não nos sufocávamos respirando amoníaco, estávamos quase alegres. Um operário de Rio Grande pôs-se a cantar uma lengalenga chatíssima que findava neste pavoroso estribilho:
Chenhenhen, chenhenhen, chenhenhen, chenhenhen.”
“Mas foi um breve intervalo. À hora do almoço novos resíduos se acumularam no chão. E como havia sempre alguns homens de costas junto ao camarote do padeiro, o líquido marejou, filetes engrossaram na areia.”
“O mundo se tornava fascista. Num mundo assim, que futuro nos reservariam?” “desejaríamos enlouquecer, recolher-nos ao hospício ou ter coragem de amarrar uma corda ao pescoço e dar o mergulho decisivo.” “Afligia-me especialmente supor que não me seria possível nunca mais trabalhar; arrastando-me em ociosidade obrigatória, dependeria dos outros, indigno e servil.”
“27 dias de esforço para matar uma personagem, amarrar-lhe o pescoço, elevá-la a uma árvore, dar-lhe aparência de suicida.”
“O maço de cigarros ao alcance da mão, o café e a aguardente em cima do aparador. Estirava-me às vezes pela madrugada, queria abandonar a tarefa e obstinava-me nela, as idéias a pingar mesquinhas, as mãos trêmulas.”
“Seria melhor que ele se calasse, mas na verdade a tagarelice não me perturbava a recordação”
“Abrira-me com o editor: afirmara-lhe, em carta, que ele não venderia cem exemplares da história.”
“TIVE uma forte hemorragia intestinal, coisa rápida, imprevista. Nenhuma dor, nenhum indício de que um vaso fosse rebentar. O estômago e a barriga não funcionavam desde a minha chegada: provavelmente estavam secos, as glândulas preguiçosas recusando-se ao trabalho. Era como se esses órgãos não existissem: admirava-me de achá-los entorpecidos, de não sentir neles um movimento, uma ligeira contração. Insensibilidade completa. Ainda se mexiam no começo, uma picada me fazia pensar no alimento, ocasionava a repulsa invencível; estavam agora em repouso de morte. Havia em mim, do tórax ao abdômen, uma sepultura. A boca estava queimada, as gengivas ardiam, o cigarro colava-se aos beiços, arrancava películas, deixando marcas de sangue; necessário escovar os dentes com muito cuidado: o dentifrício, chegando-me às feridas, semelhava cautério. A falta de salivação produzia-me a necessidade freqüente de molhar a língua e as mucosas: refrescava-as com bochechos de água, depois gargarejava.”
“De pé, encostado ao umbral, confundindo pessoas e acontecimentos do Rio Grande, as pernas abertas para evitar alguma cambalhota, distraía-me olhando a escada, as viagens incessantes dos companheiros à latrina. Foi a curiosidade que me fez imitá-los. Isso e também a lembrança de viver entre eles cinco ou seis dias, sem ter ido ali uma só vez. A imobilidade esquisita das vísceras começava a alarmar-me.
Subi, entrei num quarto imundo. Paredes nojentas, papéis sujos a amontoar-se, a espalhar-se no chão, ausência de água, o ambiente mais sórdido que se possa imaginar. Difícil tratar desse ignóbil assunto, nunca em livro se descerram certas portas. Arrisquei-me a abrir aquela porta por me haver surgido o acidente: quando menos esperava, um jato de sangue. Num minuto estancou; mas o líquido viscoso, os coágulos, provocaram-me a necessidade urgente de banhar-me.”
“Dois volumes publicados e um inédito eram mesquinhos, o primeiro um horror, o último precisando emendas e cortes, o bom-senso me afirmava isto”
“Tencionava experimentar-me, saber se a máquina combalida suportaria segunda carga de álcool A prova falhou. Distribuí, como da primeira vez, uma parte da aguardente com várias pessoas, tomei porção razoável e escondi a garrafa debaixo do colchão do padeiro. Uma hora depois achei-a vazia: Mário Paiva, aquele ingrato, abusando torpemente da minha hospitalidade, tinha bebido o resto.”
“Apesar da indiferença, espantava-me ignorarem completamente onde ficaríamos, andarem à toa em busca de cárceres para nós. Essa desordem me causou vago prazer.”
– Religião.
– Pode inutilizar esse quesito.
– É necessário responder, engrolou, na sua língua avariada, o homem trigueiro.
– Bem. Então escreva. Nenhuma.
– Não posso fazer isso. Todos se explicam.
De fato muitos companheiros se revelavam católicos, vários se diziam espíritas.
“Percorrendo o sertão, muitas vezes, quando a noite descia, amarrei o cavalo a uma árvore, envolvi-me na capa, estirei-me na terra e dormi, tranqüilo e só. Não seriam piores que as cobras e outros bichos do mato os habitantes da prisão.”
“Onde estaria o sem-vergonha carrancudo que me furtara 5 mil-réis e estivera uma semana a esconder-se?” Um obsessivo-compulsivo idiota…
“Exposição humilhante era a sórdida latrina, completamente visível. Sobre o vaso imundo havia uma torneira; recorreríamos a ela para lavar as mãos e o rosto, escovar os dentes. As dejeções seriam feitas em público. A ausência de porta, de simples cortina, só se explicava por um intuito claro da ordem: vilipendiar os hóspedes.”
“Fulano, Beltrano, Sicrano estiveram aqui presos, em tal data, como comunistas.” O exército brasileiro tem sérios traumas libidinais com o “comunismo”.
“A segunda idéia que me veio foi uma pergunta: como haviam conseguido escrever a tão grande altura, onde o braço não chegava? No compartimento nem vestígio de mobília.”
O MULATO DE GRACILIANO É SEMPRE O ESTEREÓTIPO DO BANZO PREGUIÇOSO: “Acerquei-me, vi no corredor um mulato claro vestido no uniforme de riscas, a zebra dos penitenciários. Tinha um dente de ouro, ar de suficiência e pimponice. Ao ver-me, declarou, a fala branda, mole, viscosa” “As mulheres fugiriam à triste carne do pulha, ao canino amarelo, à voz cantada e bamba.” As mulheres prefeririam o sedutor Graciliano “Gable” Ramos…
“longa reserva encolhia os nordestinos suspeitosos. Não nos fiaríamos em gente desconhecida.”
“Todos se enganavam, só a criatura estigmatizada me via por dentro; o hábito de examinar minúcias, em permanência longa na prisão, certamente lhe desenvolvera a sagacidade.”
– Faz favor de me dizer para onde vamos?
– Pavilhão dos Primários, informou o sujeito.
– Melhor ou pior que isto aqui?
– Melhor, melhor. Vivem lá cantando e berrando como uns doidos.
SEGUNDA PARTE – PAVILHÃO DOS PRIMÁRIOS
“Quem seria o monstro familiar à teoria da relatividade, aos horrores onde a minha escassa inteligência naufraga?” “E decidir afastar-me cuidadoso de Sérgio, bruxo amigo de Einstein e do infinito: a presença dele seria um alfinete para minha ignorância.”
– Sérgio de quê? perguntei. Qual é o seu sobrenome?
– Isto é pseudônimo. Eu me chamo Rafael Kamprad.
– Alemão? Pelo jeito de falar, parece alemão.
– Russo, do Cáucaso.
Ainda criança, perdera a família na Guerra Civil, conseguira chegar à Alemanha, onde estranhara o silêncio, a falta dos tiros de canhão. Estudante de filosofia e matemática numa universidade, fugira perseguido pelo nazismo, fôra terminar o curso na Estônia. Daí o expulsaram. Tinha parentes na China e no Brasil: uma avó no Rio de Janeiro, um tio em Cantão, rico em negócios de petróleo com os americanos.
Optara pelo Brasil. E vivia de ensinar quando rebentara a bagunça de 1935. Previdente, desviara de casa objetos nocivos, confiara a um aluno cartas de Trotski, mas com tanta infelicidade que num instante haviam caído os papéis nas mãos da polícia. No interrogatório quisera defender-se:
– Por essa correspondência, os senhores vêem a minha posição, nada tenho com o barulho daqui.
Que sujeito agourado!
“Na brancura doentia de nata, no olho azul cinzento, serenidade completa. Indiquei figuras que divisávamos dali; algumas já me haviam provocado a atenção. O sujeito de blusa russa e cachimbo era José Medina, com certeza o mencionado na inscrição vista na parede, em cima da barra. O rapaz simpático e franzino, de cueca e tamancos, era Rodolfo Ghioldi.
– Italiano?
– Argentino, Secretário do Partido Comunista Argentino.
Sim senhor, achava-me entre indivíduos importantes, que me espicaçavam a curiosidade. Percebi um moço alto, magro, de cabeça pequena, vago feitio de pernalta, escrevi o nome dele: Benjamin Schneider. Sérgio corrigiu a grafia: Snaider. Achei esquisita a emenda:
– Não é alemão?
– É um judeu romeno.”
– Em quê é que vocês se ocupavam lá fora?, indaguei.
– Eu trabalhava com ele, respondeu Newton designando o outro.
– E ele?
– Ele trabalhava comigo.
– Sim. Mas que é que faziam?
– Ah! Não fazíamos nada.
“Deitava-me afinal como gente, na aparência. O colchão era tão delgado que não me deixava em sossego, um varão do lastro magoava-me o espinhaço. Virei-me para um lado e para outro, avancei, recuei, e sempre a infeliz haste de metal a chocar-me os ossos. Alojei-a por fim entre as últimas costelas e o ilíaco, adormeci ouvindo a esfrega nas camisas do capitão, o esguicho da torneira.”
“os nervos dóceis” Acaso jamais fará sentido que um dia chamem este prosador de cáustico em adjetivos? Essa compreensão de Graciliano Ramos é ainda inferior à da antropologia de um Sérgio Buarque… Quem chamaria nervos de dóceis senão o maior adjetivador da língua? Não satisfeitos? Vamos destacar os adjetivos de uma passagem mais larga e nos convencer, enfim: “O gesto de prestidigitador firme [aqui um combo!] no seu ofício. Conservou-nos atentos meia hora, o prazo marcado para a conferência. Tê-la-ia, como depois notei, desenvolvido em sessenta minutos ou resumido em quinze, expondo a matéria toda, sem esquecer um ponto. Capaz de, com destreza, analisar ou sintetizar.” Talvez não seja maior adjetivador que ninguém, não se enganem, mas o menor é que não é!
“o Hino do Brasileiro Pobre:
Do norte, das florestas amazônicas,
Ao sul, onde a coxilha a vista encanta…”
“E resmungara chateado:
– Fui oficial de Bela Kun. Iam fazer aqui revolução com estas bestas?”
“Jornalista, desenfastiava-se na prisão redigindo novelas. Exibiu-me um conto bem chocho, amostra das suas possibilidades literárias.” Bem chocho.
“– A Beatriz não vai querer cantar? disse alguém.
Ir querer, fala estranha, feriu-me o ouvido nordestino.”
Para um narrador cáustico, é muito refinado e cheio de fita.
“um surdo rumor de máquina zumbia monótono.” Por que não um rumor de máquina zumbia? Porque Cagliostro tem que adjetivar, adjetivar tudo em dobro!
“De ordinário a expressão me fugia, decompunha-se o pensamento, e era uma tortura vencer a estupidez, procurar dizer qualquer coisa gaguejando um vocabulário escasso, miserável. Na manhã luminosa, olhando postes e fios, prédios cinzentos, arvoredo e morro, ainda uma vez me aniquilei no pasmo que a palavra falada sempre me causa.”
“Desprezando a Europa, detinha-se em louvores minuciosos à sabedoria asiática. Não se julgava europeu. Nascido no Cáucaso, mestiço de eslavo e tártaro, só achava firmeza e vida no Oriente. Quando me falou pela primeira vez nos canados, não o entendi: a pronúncia gutural deformava inteiramente a palavra.”
“Desdenhando gramáticas e dicionários, entrava na sintaxe e enriquecia o vocabulário por meio de leituras e consultas. O que entrava ali ficava, não repetia perguntas. Fez uma síntese da filosofia de Hegel, num caderno, a lápis, o começo em alemão, o fim em português.”
“Esforçava-se por trasladar-me versos de Puchkine, desistia:
– É inútil. Só podemos sentir e compreender esta balada em russo.”
“meu novo amigo vinha de grandes culturas, não iria fingir apreço às miudezas nacionais.”
– Ainda não conheço o Brasil. Leviandade manifestar-me sobre ele.
– Sem dúvida, somos bichos de espécies diferentes. Faço um livro, gasto meses a espremer os miolos, compondo, eliminando, consertando, fico a remoer cada frase com paciência de boi, e consumo para entender isso o duplo do tempo necessário a você. É inacreditável.
Afirmava-me não ser difícil percorrermos um texto, apreendendo a essência e largando o pormenor. Isso me desagradava. São as minúcias que me prendem, fixo-me nelas, utilizo insignificâncias na demorada construção das minhas histórias.
Sem dúvida isso o ajudou a ler Hegel.
“Julguei Sérgio isento de emoção, e isto me aterrou. Comovo-me em excesso, por natureza, e por ofício, acho medonho alguém viver sem paixões. Imaginei-me diante de um cérebro, cérebro enorme. O resto do corpo minguava, tinha fracas exigências, funcionava para levar um pouco de sangue à poderosa máquina.”
“Ouvindo isso, falei no ódio que ele devia experimentar. Olhou-me atônito:
– Ódio? A quem?
– Aos indivíduos que o supliciaram, já se vê.
– Mas são instrumentos, sussurrou a criatura singular.
– Aos que os dirigem. Aos responsáveis por isso.
– Não há responsáveis, todos são instrumentos.
Na verdade ele tinha razão. Contudo, se me houvessem atormentado, não me livraria da cólera, pediria todas as desgraças para os meus carrascos.”
– (…) Você é civilizado, civilizado até demais. Diga-me cá. Admitamos que o fascismo fosse pelos ares, rebentasse aí uma revolução dos diabos e nos convidassem para julgar sujeitos que nos tivessem flagelado ou mandado flagelar. Você estaria nesse júri? Teria serenidade para decidir?
– Por que não? Que tem a justiça com os meus casos particulares?
– Se você acaso chegasse ao poder, conservaria os seus inimigos nos cargos, Sérgio?
– Não tenho inimigos. Conservaria os que se revelassem úteis.
– Bem. Essa impassibilidade me assusta. Apesar de sermos antípodas, fizemos boa camaradagem. Mas suponho que você não hesitaria em mandar-me para a forca se considerasse isto indispensável.
– Efectivamente, respondeu Sérgio carregando com força no c. Boa noite. Vou dormir.
Estendeu-se na cama agreste, enfileirada com a minha junto ao muro, cruzou as mãos no peito. Ao cabo de um minuto ressonava leve, a boca descerrada a exibir os longos dentes irregulares. Nunca vi ninguém adormecer daquele jeito. Conversava abundante, sem cochilos nem bocejos; decidia repousar e entrava no sono imediatamente.
“Deixando a Alemanha, Sérgio casara e enviuvara, na Estônia. Não lhe notei saudade, era como se casamento e viuvez se referissem a outra pessoa.” “A moça da Estônia fôra colega de universidade, e Emilie, suponho, dera-lhe as primeiras lições de português. No começo presumi Sérgio indiferente à beleza física, só interessado nas relações intelectuais, a carecer de sexo. Depois modifiquei o juízo. Também comigo se passava qualquer anormalidade. Surgiu-me de repente anafrodisia completa. Súbita desaparição dos desejos eróticos e um resfriamento geral, espécie de anestesia (…) Deram-me um princípio de esclarecimento, e não liguei importância a ele. Eu abusava do café.
(…)
o faxina me proporcionou este aviso:
– Se o senhor soubesse o que há nisto, não bebia tanto.
Indaguei, o tipo encolheu os ombros e ficou por aí. Desatento ao conselho, não me abstive do líquido enjoativo, adocicado. E nem de longe suspeitei que o gostinho de formiga tivesse ligação com o prolongado esmorecimento.”
“Correram semanas. Repetidamente ouvi Apporelly desenvolver o seu projeto, modificá-lo, narrando minúcias. Não se resolvia, porém, a iniciar a obra, coordenar as ironias abundantes que fervilhavam no interior. Absorvia-se na improvisação, exibia fragmentos já lançados no hebdomadário. Impossível dedicar-se a tarefa longa, julguei. Depois imaginei-o vítima de incapacidade transitória. Na extensa inércia, o pensamento esmorecia, os desígnios murchavam. Raros ali conservavam a lucidez e a firmeza de Sérgio, de Rodolfo Ghioldi. Trabalhos descontínuos, aulas vagas falhando, recomeçando sem programa, tudo me fazia supor que desejávamos atordoar-nos. Tentei aprender russo com Benjamin Snaider: peguei o alfabeto e meia dúzia de palavras. Exigiram de mim uma conferência a respeito do nordeste. Alarmei-me:
– Estão doidos?”
“As folhas e os lápis dormiam na valise. O abscesso da mão secou e cicatrizou, a unha caiu, veio outra: findava o pretexto com que me iludia para ficar inativo.”
“VALDEMAR BIRINYI introduziu o jogo de xadrez no Pavilhão dos Primários. Vivia num isolamento profundo, necessitava comunicar-se. Por desgraça menoscabara os hinos e largara a frase inconveniente à chegada: ‘Querem fazer revolução com essas bestas?’ Em conseqüência o antigo oficial de Bela Kun fôra posto de banda. Tentava conversar e ninguém o compreendia direito.” “referiu-me que na polícia lhe haviam tomado oito malas, 25 mil francos suíços e, perda irremediável, uma preciosa coleção de selos, a terceira do mundo. Fora anos atrás à Inglaterra exibir essa maravilha ao rei, também filatelista. Narrou-me a viagem com segurança, a visita, bastante vaidoso. Certo dia traçou numa folha de almaço um tabuleiro de xadrez, fabricou peões, torres, cavalos, bispos, reis e rainhas com miolo de pão, coloriu de azul as peças e as casas pretas. Desde então aquele divertimento nos encheu as horas, venceu as lições, as cantigas da Rádio Libertadora. Ao cabo de algum tempo houve um desastre.”
“Concluímos facilmente que as baratas haviam estragado as figuras. Esse contratempo não causou prejuízo sério.”
“Prestes e Berger estavam no isolamento, e o segundo perdia a razão sob torturas multiplicadas.”
“Aqui no Brasil há uma birra como a sua: ninguém quer ser literato, não sei porquê. [sic] Eu me confesso literato, literato ordinário.” Graciliano a Ghoeldi
– Você acha que Birinyi foi realmente oficial de Bela Kun, Rodolfo?
– Talvez. Quem sabe? Os oficiais de Bela Kun não deviam ser muito diferentes daquilo.
– Zangado? Não. Por quê?
– Está sim. Por causa do xadrez.
– Que idéia, Birinyi! Quem lhe falou nisso?
– Snaider.
– É brincadeira dele.
O colosso ficou um momento indeciso, estendeu-me o braço peludo:
– A mão.
Apertei-lhe os dedos, rindo.
– Agora, exclamou desanuviado. Agora sim. Amigo.
– A terceira do mundo. Verdade, verdade. – Naquele tempo ele não era rei.
“OS PERCEVEJOS da Detenção eram na verdade uma praga, e em vão tentávamos saber onde se escondiam. No prédio novo, de muros lisos, chão encerado, parecia não haver ambiente para a medonha proliferação. Deviam alojar-se nos ferros das grades, nas juntas das camas, nas gretas dos guarda-ventos. Examinávamos pacientemente os lugares suspeitos, esmiuçávamos a roupa, as cobertas, os colchões, os travesseiros. Nenhum sinal dos miseráveis; durante o dia era possível esquecê-los, jogar xadrez, ler, escrever, ouvir discursos, lições, hinos, sambas. À noite deixavam-nos repousar alguns minutos: era como se calculassem o tempo, soubessem a hora de atormentar-nos.”
“A trave de ferro já não me incomodava: habituara-me depressa a arrumar os ossos no colchão.”
“E a luz era escassa, a lâmpada muito alta iluminava fracamente a página. Sem dúvida a leitura me arruinaria a vista. Assim me conservava, bocejando, fumando, até não resistir ao sono.” “despertava coberto de salpicos vermelhos. § Os médicos do Pavilhão, atentos à higiene, muito se preocuparam com o flagelo: Valdemar Bessa, Isnar Teixeira, Sebastião Hora, Campos da Paz novo e Campos da Paz velho, magro e taciturno, que se assinava Campos da Paz M.V.” “Ainda não estavam secos os tamancos deixados a aquecer numa faixa de sol, e uma lancetada rija nos despertava. A indignação nos enchia de raiva. Trabalho perdido. Como se incêndio, ao dilúvio? Patifes. Zombavam dos nossos desgraçados esforços e vingavam-se. Iriam assanhar-se, não nos deixariam tranqüilos. Canseiras inúteis, aniquilados os desígnios mortíferos de Valério Konder.”
“Admirei Ivan. E, enquanto não lhe soube o nome, ele foi, para mim, apenas o tenente que sabia sintaxe.”
“Estremeci, apertei as mãos com raiva. Anos atrás encolerizava-me facilmente, cegava, fazia imenso esforço para não me perceberem a zanga, a violência interior, movimentos dos punhos contraídos no desespero. Freqüentemente explodia a fúria bestial e desmandava-me em desatinos que me enchiam de vergonha. Sentia-me fraco, bicho inferior, invejava as pessoas calmas, não conseguia iludir-me com a manifestação parva de coragem falsa. Às vezes me dominava, recompunha-me, a tremura desaparecia, os dedos se estiravam. Sinais de unhas nas palmas suadas, as juntas a doer; a respiração era um sopro cansado. Naquele dia a ira velha, recalcada nos subterrâneos do espírito, veio à luz e sacudiu-me: desejei torcer o pescoço do insolente. Na surpresa, recusei o testemunho dos olhos e dos ouvidos.”
“Sou um espião, tornou Lauro Fontoura. É o que esses moços espalham por aí. Não lhe disseram? Pois fique sabendo. Um sujeito andou cochichando nos cubículos e encheu as cabeças desses idiotas. Reparou no oficial da venta grande?”
– É claro, respondeu Lauro Fontoura. Você o conhece? Nem eu. Ninguém o conhece. Não entrou em nenhum barulho. Donde veio? Apareceu de repente, semeou brigas e escapuliu-se. Nem sabemos se o excluíram do exército. Excluir, tinha graça. Veio aqui desempenhar uma tarefa e será promovido.
“Impossível conjeturar se a explicação era verdadeira ou falsa; de qualquer modo o homem se mostrava leviano fazendo comentários imprudentes a um desconhecido.”
“Consideravam-nos trotskistas, ofensa máxima imputável a qualquer de nós. Sem se examinar idéia ou procedimento conferia-se o labéu a torto e a direito, apoiado em motivos frívolos ou sem nenhum apoio. Difamavam-se os caracteres arredios, infensos ao barulho, às cantigas, às aulas interrompidas, recomeçadas, ao jogo de xadrez; as índoles solitárias, propensas à leitura, à divagação, inspiravam desconfiança.”
“Entretanto não nos era possível suprimir a monogamia. Onde achar remédio contra as mesquinharias pingadas na rotina como gotas de azeite? Numa sucessão de estados monogâmicos, talvez. Os norte-americanos estavam certos. Um basbaque nos ouvia atento, no fim da conversa intrometeu-se nela:
– Mas isso não é dialético.”
– Quem falou em trotskismo? Internacionalismo foi o que eu disse.
– É a mesma coisa.
– Está bem.
“Quase todos se julgavam revolucionários, embora cantassem o Hino Nacional e alguns descambassem num patriotismo feroz.”
“materialistas de meia-tigela, camada flutuante, sem nenhuma consistência”
“Sebastião Félix realizava sessões espíritas.”
“Ouvidas as excelentes conferências de Rodolfo, limitar-me-ia a parolar com duas ou três pessoas, encaracolar-me-ia depois.”
“Mas quando Pais Barreto chegou, achei-me diante de uma realidade, caso concreto, insofismável. Era um rapaz alto, desempenado, falador, transbordante. Veio ocupar a célula fronteira à minha. Vi-o dias inteiros curvado sobre papéis, escrevendo. Escrevendo informações à polícia, cochicharam-me – e não disseram em que se baseavam, nenhum fato mencionaram.”
“ofereciam-nos avisos sibilinos” “só me restava guardar silêncio e suspender qualquer juízo.” “Sentia-me enervado, propenso a aceitar qualquer boato. Preguiça de refletir. Em conseqüência, afirmei a mim mesmo o contrário do que me diziam: Pais Barreto não era traidor. Mas em nada me baseava para assim pensar. De fato não pensava, faltavam-me recursos indispensáveis a uma conclusão, desconhecia os antecedentes daqueles homens e era forçado a orientar-me pelas aparências.”
MAIS OU MENOS COMO NO TRABALHO: “Em tal situação invade-nos um mal-estar desconhecido cá fora, vivemos à espera de ameaças indeterminadas e, reconhecendo ser impossível conjurá-las, não nos resignamos a capacitar-nos disto: buscamos isolar-nos na multidão, permanecemos de sobreaviso, reduzimos o vocabulário e estudamos as caras e os gestos.”
“jogando xadrez, remoendo as conseqüências de um lance arriscado, estamos sem querer a observar os movimentos do parceiro. Com certeza ele notará isso e nos julgará indiscretos, fará conosco o jogo que fazemos com ele.”
“A recordação de um nariz bicudo persegue-nos, a toda hora esperamos vê-lo ressurgir, farejando.” “Ignorando até que ponto os carrascos estão seguros, os padecentes se desnorteiam nessa brincadeira de gato com rato, deixam escapar um gesto, uma imprudência necessária à clareza do processo. E o embuste avança, pouco a pouco se fabricam as malhas de uma vasta rede, outras pessoas vêm complicar-se nela, trazer novos subsídios ao inquérito.”
SOB TORTURA: “A palavra solta entre o suplício material e o suplício moral tem semelhança de voluntária, e se prejudicou alguém, podemos julgá-la delação.” “Teria dito realmente aquilo? Jura que não. Mas a frase foi composta, redigida com bastante veneno, alguns acusados a ouviram” “Se, com desesperado esforço, em arrecuas violentas, dá alguns passos, consegue chegar-se ao ponto de partida, os antigos camaradas o empurram. Está de costas voltadas para eles, não se equilibra, forçam-no a descer, em pouco tempo se acha longe.” “Antes de se arvorar em dirigente, devia balancear as suas forças, avaliar se elas eram suficientes para guardar um segredo em qualquer circunstância. Teve a desgraça de ser fraco e isto o inutiliza. É um desertor, tem de asilar-se no campo inimigo; aí lhe darão as tarefas mais repugnantes.”
“As pessoas que se demoraram junto de nós cochichando expressões cabalísticas aparecem-nos grandes em excesso.”
“estamos de olhos e ouvidos muito bem abertos para fechá-los às mais simples inconveniências.” Ambíguo.
“De qualquer forma, é indispensável guardarmos reserva. O que antigamente nos seduzia agora é motivo de calafrios.” “E nem é preciso usarem conosco rigores de técnica: não ficaremos três dias pisando em cima de alçapões: em menos de uma hora largaremos diversas incongruências, esvaziar-nos-emos por inteiro, soltaremos a frase de relance ouvida, que não compreendemos bem e talvez vá causar a ruína de outras pessoas.” “mas o pior é não sabermos se isso aconteceu, ignorarmos as nossas ações, sermos um joguete das circunstâncias. … estamos incomunicáveis e ninguém nos diz se mostramos covardia ou bravura.”
“Um entusiasmo de fogo de palha às vezes me levava a retirar os papéis da valise, insinuava-me a esperança de arrumar observações razoáveis sobre a vida na cadeia, mas o trabalho avançava lento demais, o jogo de xadrez e a vagabundagem nos cubículos me absorviam.”
“Quando nos abrirem as portas, chegaremos à rua machucados, bambos, secos, acharemos a vida amarga, cansar-nos-emos facilmente, qualquer esforço nos parecerá vão. Se alguma coisa nos prender, serão resquícios dessa estranha solidariedade. Certamente eles nos acompanharão sempre.”
Pelo menos Graciliano Ramos reconhecia que não escrevia bem.
“Esqueci a presença de Hora e Sérgio, num instante as crianças me apareceram vivas e fortes: tinham deixado a praia, a areia branca de Pajuçara, feito longa viagem, transposto diversas grades – e estavam no cubículo 35.”
“Nem selo nem carimbos do correio: alguém da minha família arriscara-se a meter a mão na engrenagem policial e deixara na secretaria aqueles retratos, sem nenhuma indicação. Quem teria sido o intermediário? Não atinei com amigo ou parente capaz de aceitar a incumbência.” Tu não confias na tua mulher, ó imbecil?
– Que diabo vem fazer no Rio essa criatura?
Era uma quinta-feira, princípio de maio: algumas letras e algarismos me trouxeram de relance a noção do tempo esquecido. Minha mulher chegara e prometia visitar-me na segunda-feira, entre dez e onze horas.
– Que estupidez!
NÓS FUMANTES TEMOS UM ESTILO DE VIDA CARO! “E dela me chegariam decerto preocupações insolúveis, novas cargas de embaraços. Alarmava-me sobretudo o esgotamento dos recursos guardados no porta-níqueis. As vezes retirava as notas escondidas no compartimento mais secreto, desamassava-as, contava-as, recontava-as e nessas operações assustava-me com freqüência a falta de alguns mil-réis.”
“Movia-me talvez menos a certeza de não poder auxiliá-la nas dificuldades e tropeços que o desaparecimento inexplicável dos desejos sexuais. Para nada, para nada. Repetia esta convicção obtusa. Nenhuma recordação amável.”
– É que a artéria femural está descoberta, meu filho. Se metessem o canivete, você era um homem perdido. Horrível saber anatomia. Se Afrânio não me tivesse dito aquilo, deixar-me-ia tranqüilamente operar, morreria ou viveria, confiado na ciência. Não morrera. Dr. José Carneiro fôra pago, indevidamente, na minha opinião. Quarenta dias numa cama, um tubo de borracha atravessando-me o ventre, o coração fatigado a subir, a descer
“Depois a convalescença, a vida estreita, a composição de um romance na sacristia de uma igreja do interior. A garota que ali estava no cartão, de pernas à mostra e fita no cabelo, nascera quando se findava essa história rude e agreste.
Dois filhos gêmeos – uma criança viva, de olhos claros, e um fazendeiro rijo, assassino e ladrão. Rememorar isso não me dava prazer.”
“Regressar àquilo, afundar outra vez na água espessa, amarga.
– Que estupidez!”
“Egoísta, ingrato, idéias deste gênero, pouco mais ou menos. Percebi-lhe no rosto uma longa censura e não tentei desculpar-me.”
“E desgostava-me expor aos outros as minhas desgraças interiores, ver nas fisionomias traços de piedade superficial. Encolhi-me, sentado na cama, a acender cigarros, verrumando o futuro, revolvendo o passado, numa confusão. Impossível dormir.”
“A criatura tinha vendido os móveis e o resto, cedera tudo às cegas e naturalmente se embrulhara. As suas contas andavam sempre numa complicação. O dinheiro tinha para ela uma significação muito relativa. Ouvindo-a, inteirava-me daquele negócio. Compreendia que estávamos pelados, reduzidos à penúria. Bem. Não valia a pena discutir. As nossas desavenças não tinham base econômica: a causa ordinária delas era um ciúme desarrazoado que a levava ao furor.”
“Hospedara-se em casa de uns tios, no Méier. Estivera no Ministério da Guerra, no Ministério da Justiça, no Palácio do Catete, na Chefatura de Polícia, falara a deputados e a generais, largava rápido a língua do nordeste e começava a adotar uma gíria burocrática singular, enganando-se às vezes no sentido de algumas expressões.” “Entendera-se com José Olímpio e combinara com ele mandar buscar por via aérea uma das cópias do romance. Aquela hora a papelada estava decerto voando para o Rio.”
“Agildo Barata e outros andavam sempre a redigir misteriosos resumos das longas discussões murmuradas nos fundos do cubículos”
“A correspondência com pessoas insuspeitas lá fora engordava debaixo dos colchões; emagrecia à hora das visitas: cartas e relatórios, escondidos em bolsas de mulheres, passavam as grades, espalhavam-se em ônibus e bondes, chegavam à Câmara dos Deputados. Nova balela, novo escarcéu, baldava a matéria semanal dessa fadiga sub-reptícia: papéis queimados, carvões leves pulverizando-se no chão vermelho. As minhas notas difíceis acumulavam-se na valise. Não me resolvera a inutilizá-las. Pouco me importava que as vissem. Indiferença. Resistira, esperara que as viessem descobrir e inutilizar; persistiam, mal escritas, a lápis, em cima do guarda-vento, narrando a figura burlesca do general (…) Preguiça. Não me arriscaria a trazer para o cubículo, por intermédio de minha mulher, o romance falho. (…) O original e a outra cópia recomendada existiriam? Afinal o romance valia pouco. Ser-me-ia talvez possível, com dificuldade, fazer outro menos ruim.”
“Remoí a proposta de José Olímpio. O conserto do romance, no futuro, estava excluído, pois ele nunca se reeditaria: a convicção de que não se venderiam cem exemplares cada vez mais se firmava.”
“Recomendei a minha mulher que procurasse os editores Schmidt e Gastão Cruls, recebesse o dinheiro relativo aos direitos autorais dos meus dois primeiros romances.”
“Nem tive tempo de pensar. Entrei na célula, apanhei o jantar nojento, arremessei-o por cima do parapeito. Mais tarde uma pergunta me verrumou: como sucedeu que, tendo sido tão rápida a minha ação – entrar no cubículo, apanhar a bóia, num instante jogada no andar térreo – diversas criaturas houvessem feito o mesmo anteriormente? Acompanhei durante um minuto a ruidosa manifestação. Figuras ativas apareciam nas soleiras; de toda a parte, em cima, embaixo, projéteis saíam, rebentavam com fragor no cimento. Avolumaram-se depressa as ruínas; houve silêncio – e fiquei longo tempo debruçado à viga negra do parapeito a indagar como o excessivo estrago se tinha realizado e quais seriam as conseqüências dele. Estranho contágio: a inesperada proposta se erguera, breve, firme, crespa, aceita sem exame, por unanimidade.”
“Andava entre nós, imperceptível, mesquinho, e revelava-se de chofre, dominador. Por quê? Revolvi os miolos indagando a causa do poder tão inesperadamente revelado, julguei enxergar uma clareira no fato obscuro. Segundo imaginei, Agildo conseguia discernir a alma alheia. Individualmente isso não constitui nenhum dom especial. Em convivência prolongada, as caras das pessoas, uma ruga, piscadelas, sobressaltos, lábios contraídos, sorrisos, palidez, rubor, ligeiros sinais quase indistintos, conjugam-se, combinam-se com situações anteriores, oferecem-nos a instantânea percepção de sentimentos e pensamentos. Não se tratava disso. Pareceu-me que o sujeitinho moreno e exíguo possuía a qualidade rara de apreender num instante as disposições coletivas; rancores indeterminados, esperanças, receios, desejos, comprimidos nos subterrâneos das consciências, chegavam-lhe às antenas. Esse radiotelegrafista recebia estranhas comunicações, relacionava-as, concluía, marchava direito a um fim desconcertante: ignorávamos tudo e, surpresos, executávamos ordens, mas isto era tão normal, tão razoável, como se nos dirigíssemos pelas nossas cabeças.”
“Debruçado ao parapeito, descuidava-me a observar os faxinas que recolhiam destroços no rés-do-chão. As vassouras chiavam no cimento, os cacos tiniam. Dançavam-me na mente as conseqüências da nossa brutalidade. Com certeza nos iriam dar comida em horríveis marmitas de folha, como as do porão do Manaus. Privar-nos-iam das visitas, da correspondência, do banho de sol. E os estrangeiros seriam os mais lesados; transferência de Rodolfo Ghioldi, Sérgio, Birinyi, Benjamin Snaider para as galerias.” Que nada: “patriota” gosta mesmo é de se vingar em patriota!
“à hora do almoço, a grade se descerrou como se o acontecimento da véspera não tivesse nenhuma importância; a refeição, menos ruim que as habituais, surgiu em louça nova. As colheres velhas e ordinárias haviam desaparecido. Junto aos sacos de laranjas e bananas percebi uma grande caixa. Abriram-na. E na distribuição da comida ofereceram-nos talheres decentes.”
“As unhas de Benjamin Snaider tinham caído, nasciam outras: sabíamos a causa e guardávamos silêncio. Assunto realmente desagradável. Ninguém se inferiorizava lembrando as violências animais; seria absurdo, porém, imaginar uma pessoa vangloriar-se com elas. Víamos agora um sujeito alardear os sinais do vilipêndio, tão satisfeito que supus achar-se entre nós um profissional da bazófia.” “Enjoei num instante a nossa piedade, fácil e imaginosa: estivéramos a conceber suplícios longos, requintes de malvadez, agulhas penetrando carnes, nádegas queimadas a maçarico, e aparecia-nos uma criatura jovial, buliçosa, a envaidecer-se de pequenas manchas azuis, traços insignificantes na pele clara.”
“A impressão que Miranda me deixou persistiu e acentuou-se no correr de dias: inconsistência, fatuidade, pimpanice. Vivia a mexer-se, a falar demais, numa satisfação ruidosa, injustificável. Incrível haver ganho fama, inspirado confiança e admiração. Com o tempo deixei de espantar-me, julguei entrever o mecanismo que impulsiona esquisitas celebridades vazias.”
“O singular dirigente achava que, para ser um bom revolucionário, lhe bastava conhecer o ABC de Bukharin. Solecismos e silabadas também se originavam de um preconceito infantil em voga naquele tempo: deformando períodos e sapecando verbos, alguns tipos imaginavam adular o operário, avizinhar-se dele.” “Esnobismo de algum modo semelhante ao dos nossos modernistas, vários anos no galarim, a receber encômios deste gênero: – ‘Como eles sabem escrever mal!’”
“Dissidente, considerado trotskista, fugia às discussões, aos banhos de sol, ao jogo de xadrez, simulava não perceber remoques e grosserias.”
“A entrega dos envelopes exigia prestidigitação: ligeiros, diante de funcionários, deixavam as mangas dos presos, mergulhavam entre páginas de revistas, escondiam-se por baixo de lenços pequenos caídos no cimento. É possível que os guardas percebessem esses manejos e encolhessem os ombros com indiferença, não sendo obrigados a intervir; em alguns achei mais tarde cegueira voluntária e conselhos oportunos.”
“A minha situação não melhorava nem piorava. Ausência de processo, nenhuma testemunha; adiava-se, provavelmente não se realizaria o interrogatório longamente esperado.”
“Já um fanático me havia chamado trotskista.”
“éramos cupim no edifício burguês e aplicavam-nos inseticida.”
“Um mês antes, de passagem pelo Rio, padre José Leite perdera alguns dias procurando avistar-se comigo; tentara vencer a resistência da autoridade jurando que eu não era comunista. Essa imprudência me comoveu e assustou. Se o meu excelente amigo tentasse de novo aproximar-se da ratoeira, arriscar-se-ia a ficar nela.”
“O mal existia, sem dúvida, mas era abstrato. O comunismo, um fato mau, idéia má, desligava-se dos homens, criaturas de Deus, pelo menos das pessoas conhecidas”
“Mas o Presidente da República era um prisioneiro como nós; puxavam-lhe os cordões e ele se mexia, títere, paisano movido por generais.”
– Isso é crime! vociferava o militar. Não faz nada? O senhor é um monstro. Deixa uma pessoa a perder sangue, à míngua.
Julguei perceber a réplica: os nossos receios eram exagerados e, além disso, não estava na hora de fazer exigências. Isso me arrepiou: o burocrata se mecanizava, cumpria funções mínimas, entrincheirado no regulamento.
– Vai sair? esganiçava-se Agildo. Abandona a criatura esvaindo-se? Nem uma injeção!
A farmácia estava fechada, foi a última desculpa.
– O senhor é um assassino, bradou o oficial.
Diversas invectivas se seguiram, enérgicas, inúteis. O indivíduo, impassível, deu as costas, alcançou o fim da plataforma, desceu a escada, sumiu-se. Ranger de chave na porta da frente foi o sinal para um charivari louco.
“Isso me atraía. Às vezes não queremos saber se nos comportamos bem ou mal; procedemos assim por não nos ser possível proceder de outra maneira; a violência animal nos impele e domina.”
“Em conseqüência duas ou três fechaduras rebentaram, e surgiram rebeldes no passadiço e no rés-do-chão, a animar a desordem. As portas avariadas, desengonçadas, começaram a bater rijo nos umbrais, faziam depois de abertas um estrondo horrível.”
“O locutor da Rádio Libertadora indicava os novos prisioneiros, advogados, médicos, oficiais do exército, e salvas de palmas acolhiam essa gente”
“Hermes Lima foi a pessoa mais civilizada que já vi. Naquele ambiente onde nos movíamos em cuecas, meio nus, admitindo linguagem suja e desleixo, vestia pijama – e parecia usar traje rigoroso. Amável, polido, correto, de amabilidade, polidez e correção permanentes.”
“Eram engraçadas as suas indiscrições. Revelou-me que se havia metido a conspirar estupidamente com dois figurões do exército. No dia da revolta se dirigira ao ponto combinado para receber ordens dos chefes. Um estava inteiramente bêbedo, o outro chorava como um desgraçado.”
“Não me sentia lesado no porão do Manaus. Apesar daquela miséria, o jejum completo, a asfixia, o calor do inferno, a imundície, não percebera ali nenhum dolo: a desgraça atingia todos como praga ou inundação. Ninguém se revolta contra essas forças brutas. A dispnéia, a escuridão leitosa, o horrível cheiro de amoníaco, o soldado negro empurrando-me com a pistola, ao descer a escada, eram coisas fatais, no medonho pesadelo. Na verdade éramos bichos. Regressávamos à condição humana, impunham-nos um castigo – e percebíamos que ele era embuste. Esse procedimento insidioso me atormentava mais que as humilhações e o desconforto.”
– Donde diabo vem você, homem? Ainda acredita nessas bobagens? Vai sair daqui marcado. E lá fora, quando houver uma greve de barbeiros, agarram-no.
– Pois sim. Eu embrulhar-me no sindicato dos barbeiros. Tem graça.
– Por que não? Antes que você prove que não é barbeiro, corre o tempo.
– É um tipo escrachado.
Depois de ligeira dúvida, o nome estranho se definiu: o ladrão estava nas fichas da polícia, tinha deixado lá o retrato e as marcas digitais, de nenhum modo chegaria a livrar-se disso. Escrachado. Bem.
“Exclui-se a idéia de arranjar outro ofício – Em primeiro lugar nada sabe fazer além de abrir portas ou embromar otários repisando velhas, estafadas parolagens; valoriza enormemente as suas pequenas habilidades, gosta delas, aos íntimos agrada-lhe referi-las com vaidade e exagero. E depois, ainda que desejasse trabalhar, não o conseguiria: negam-lhe a mínima confiança, ninguém lhe aceita os propósitos de regeneração, em qualquer parte julga perceber olhares suspeitosos. Cumprida a sentença, verrumam-lhe o espírito esses desajustamentos, a liberdade chega a apavorá-lo.”
“Os gritos daquela noite eram de um garoto violado. Essa declaração me estarreceu. Como podia suceder tal coisa sem que atendessem aos terríveis pedidos de socorro? Muitos guardas eram cúmplices, ouvi dizer, e alguns vendiam pequenos delinqüentes a velhos presos corrompidos – vinte, trinta, cinqüenta mil-réis, conforme a peça.” “Na ausência de mulheres, consente-se o homossexualismo tacitamente.”
“Os assassinos, criminosos fortuitos, em geral os sujeitos chegados maduros, conseguem livrar-se do contágio: têm a preservá-los costumes diversos, princípios, a repugnância que nos leva a desviar os olhos se vemos uma dessas criaturas, lavar as mãos se a tocamos. Esse nojo e esses escrúpulos esmorecem com o tempo: refletindo, alinhando motivos, inclinamo-nos a uma indecisa piedade, afinal até isto míngua e desaparece: achamos aqueles invertidos pessoas vulgares submetidas a condições especiais: semelhantes aos que perderam em acidente olhos ou braços.”
“têm voz dulçurosa, gestos lânguidos e caminham rebolando os quadris. Nem todos são assim, de ordinário não se distinguem por nenhum sinal particular. Nada que mereça desprezo. Como se iniciaram? Os angustiosos e inúteis apelos noturnos davam a resposta.”
“Preliminarmente lançamos opróbrio àqueles indivíduos. Por quê? Porque somos diferentes deles. Seremos diferentes, ou tornamo-nos diferentes? Além de tudo ignoramos o que eles têm no interior. Divergimos nos hábitos, nas maneiras, e propendemos a valorizar isto em demasia. Não lhes percebemos as qualidades, ninguém nos diz até que ponto se distanciam ou se aproximam de nós.” “Será um nojo natural ou imposto? Quem sabe se ele não foi criado artificialmente, com o fim de preservar o homem social, obrigá-lo a fugir de si mesmo?”
“Tinham sido eliminados do exército, mas ainda vestiam fardas, guardavam hábitos da caserna.” Olha só! Quando é por comunismo, eles expulsam mesmo da corporação!
“Moésia Rolim, Walter Pompeu e Lauro Fontoura, expulsos da Escola Militar em 1922 ou 1924, tinham-se metido em leis e eram advogados. Com o movimento de 1930 haviam regressado ao exército. Insatisfeitos, embrulhados em nova conspiração, outra vez eram demitidos.”
“Picolés, milicos. Não se ofendiam com esses epítetos. Milico no extremo sul é qualquer soldado. Aplicando-lhes a designação de picolés, talvez quisessem dizer que eles tinham na caserna a resistência do sorvete, iam derreter-se depressa. Alguns, como Agildo, eram considerados mortos para a vida militar; Maria Barata recebia no tesouro o dinheiro das viúvas, e visitava o defunto uma vez por semana.”
“De repente veio a degringolada metódica, primeira de uma série que nos iria causar graves inquietações. As mudanças até então se faziam sem alarde, quase sub-reptícias: pareciam atos ilegais, determinados e executados na sombra por malfeitores. Os cubículos enchiam-se, esvaziavam-se moderadamente, e às vezes nem percebíamos a ausência de algum hóspede incolor; em conversas, lembrávamos o sumiço de indeterminadas feições; e com freqüência nos causava espanto o regresso desses fantasmas. A retirada em massa nos surpreendeu, nos mergulhou em presságios escuros.”
“Pertencíamos a essa camada fronteiriça, incongruente e vacilante, a inclinar-se para um lado, para outro, sem raízes. Isso determinava opiniões inconsistentes e movediças, fervores súbitos, entusiasmos exagerados, e logo afrouxamentos, dúvidas, bocejos.”
– Em comuna aqui ninguém toca.
Alongou o braço, indicou uma linha indecisa, a limitar os dois campos:
– Este pedaço é dos comunas, o resto é nosso. Aqui ninguém bole com eles. Agora se algum passar para lá, não garanto nada.
“As mais altas autoridades lá de cima não teriam meio de fazer-se respeitar assim. Capoeiragem sábia, um gesto – e a resolução clara.”
“Na verdade Moleque Quatro não bazofiara ao condenar friamente o delator: se o tivesse liquidado, não lhe viriam pedir contas, pois a eliminação de uma vida pouco influiria no cadastro policial: uma ficha a menos. E as sindicâncias não teriam resultado: o crânio partido e o cérebro exposto serviam de exemplo, atavam as línguas, a indicar as represálias em caso de traição. Ninguém se arriscaria a depor. Insignificância. Iriam remeter o corpo ao necrotério ou jogá-lo na água?”
“A idéia de moscas tontas a desfalecer no inseticida, batendo as asas lânguidas, vinha-me com insistência.”
“Conseguiria um sujeito livre, em casa, diante de uma folha de papel, adivinhar como nos comportávamos entre aquelas paredes escuras? Tipos iguais a mim seriam incapazes disso. Não se tratava, porém, da minha incapacidade; outros dispensariam exames e sondagens, criariam mentiras de vulto, superiores ao que me caía na pena, mentiras também, povoadas de minúcias rigorosas, exatas.
– Seu Quatro, pelo amor de Deus, tenha pena de meus filhos.”
“Sentia-me duramente ofendido – e arreliava-me em despropósitos cegos. Esforçara-me longos anos por vencer esses impulsos; conseguira abafar a voz estridente e coibir o pestanejar excessivo; a obrigação de escrever levara-me a expressar-me com atenção, analisar as frases antes de largá-las. Os efeitos custosos da paciência demorada num instante se perdiam.”
“Já me haviam feito andar em três estados e conhecer cinco prisões. Novas mudanças arbitrárias, inexplicáveis, chegariam.”
“Em que mês nos achávamos? Esquecia-me às vezes. Mas contando as laranjas era-me possível saber quantos dias mediavam entre duas turmas que vinham da Colônia Correcional.”
“Dois bichos de pensamento não se deviam casar, refleti mais de uma vez notando pedaços da conversa longa.”
“aqui os modos afáveis e protetores de Adolfo; ali a brutalidade rija do estivador Desidério. Isso me excitava a desconfiança, levava-me a examinar as pessoas com frieza, e qualquer mostra de solidariedade me surpreendia.”
“Alarmava-me a esquisitice do rapaz. Como diabo se desperdiçavam momentos preciosos debatendo a questão social com uma pessoa tão bonita? Se ele tivesse bom senso, limitar-se-ia a admirar pedaços da moça: um olho brilhante, uma nesga de bochecha corada, os beiços muito vermelhos.”
FIM DO VOLUME I
GLOSSÁRIO
capiongo = piongo: triste, melancólico
casquete: tipo de gorro
charivari: tumulto
colendo: respeitável
engrolar: pronunciar imperfeitamente; enganar.
esbrugado = esburgado: descascado, desossado
esgrouviado: esguio e alto, parecido com um grou!
galarim: opulência, grandeza
infenso: adverso
niquice: ninharia
prognata: “adjetivo, substantivo masculino e feminino. Que ou aquele que tem as maxilas alongadas e proeminentes. adjetivo. Forma de crânio que apresentam certas raças humanas da África e Austrália.” Deixa fora de dúvida o racismo de Graciliano Ramos ao descrever as pessoas – e enterra esse mito idiota de que ele “não usa adjetivos”. É o que ele mais usa.
prosápia: vaidade
#3de5estrelas #Autobiografia #CríticaLiterária #Integralismo #LiteraturaBrasileira #serviçoPúblico
O ALIENISTA – Machado de Assis
“As crônicas da vila de Itaguaí dizem que em tempos remotos vivera ali um certo médico, o Dr. Simão Bacamarte, filho da nobreza da terra e o maior dos médicos do Brasil, de Portugal e das Espanhas. Estudara em Coimbra e Pádua. Aos trinta e quatro anos regressou ao Brasil, não podendo el-rei alcançar dele que ficasse em Coimbra, regendo a universidade, ou em Lisboa, expedindo os negócios da monarquia.”
“Aos quarenta anos casou com D. Evarista da Costa e Mascarenhas, senhora de vinte e cinco anos, viúva de um juiz de fora, e não bonita nem simpática. Um dos tios dele, caçador de pacas perante o Eterno, e não menos franco, admirou-se de semelhante escolha e disse-lho. Simão Bacamarte explicou-lhe que D. Evarista reunia condições fisiológicas e anatômicas de primeira ordem, digeria com facilidade, dormia regularmente, tinha bom pulso, e excelente vista; estava assim apta para dar-lhe filhos robustos, sãos e inteligentes. Se além dessas prendas,—únicas dignas da preocupação de um sábio, D. Evarista era mal composta de feições, longe de lastimá-lo, agradecia-o a Deus, porquanto não corria o risco de preterir os interesses da ciência na contemplação exclusiva, miúda e vulgar da consorte.
D. Evarista mentiu às esperanças do Dr. Bacamarte, não lhe deu filhos robustos nem mofinos. A índole natural da ciência é a longanimidade; o nosso médico esperou três anos, depois quatro, depois cinco. Ao cabo desse tempo fez um estudo profundo da matéria, releu todos os escritores árabes e outros, que trouxera para Itaguaí, enviou consultas às universidades italianas e alemãs, e acabou por aconselhar à mulher um regímen alimentício especial. A ilustre dama, nutrida exclusivamente com a bela carne de porco de Itaguaí, não atendeu às admoestações do esposo; e à sua resistência,—explicável, mas inqualificável,—devemos a total extinção da dinastia dos Bacamartes.
Mas a ciência tem o inefável dom de curar todas as mágoas; o nosso médico mergulhou inteiramente no estudo e na prática da medicina. Foi então que um dos recantos desta lhe chamou especialmente a atenção,—o recanto psíquico, o exame de patologia cerebral. Não havia na colônia, e ainda no reino, uma só autoridade em semelhante matéria, mal explorada, ou quase inexplorada. Simão Bacamarte compreendeu que a ciência lusitana, e particularmente a brasileira, podia cobrir-se de ‘louros imarcescíveis’, — expressão usada por ele mesmo, mas em um arroubo de intimidade doméstica; exteriormente era modesto, segundo convém aos sabedores.
—A saúde da alma, bradou ele, é a ocupação mais digna do médico.
—Do verdadeiro médico, emendou Crispim Soares, boticário da vila, e um dos seus amigos e comensais.
A vereança de Itaguaí, entre outros pecados de que é argüida pelos cronistas, tinha o de não fazer caso dos dementes. Assim é que cada louco furioso era trancado em uma alcova, na própria casa, e, não curado, mas descurado, até que a morte o vinha defraudar do benefício da vida; os mansos andavam à solta pela rua. Simão Bacamarte entendeu desde logo reformar tão ruim costume; pediu licença à Câmara para agasalhar e tratar no edifício que ia construir todos os loucos de Itaguaí, e das demais vilas e cidades, mediante um estipêndio, que a Câmara lhe daria quando a família do enfermo o não pudesse fazer. A proposta excitou a curiosidade de toda a vila, e encontrou grande resistência, tão certo é que dificilmente se desarraigam hábitos absurdos, ou ainda maus. A idéia de meter os loucos na mesma casa, vivendo em comum, pareceu em si mesma sintoma de demência e não faltou quem o insinuasse à própria mulher do médico.
—Olhe, D. Evarista, disse-lhe o Padre Lopes, vigário do lugar, veja se seu marido dá um passeio ao Rio de Janeiro. Isso de estudar sempre, sempre, não é bom, vira o juízo.
D. Evarista ficou aterrada. Foi ter com o marido, disse-lhe ‘que estava com desejos’, um principalmente, o de vir ao Rio de Janeiro e comer tudo o que a ele lhe parecesse adequado a certo fim. Mas aquele grande homem, com a rara sagacidade que o distinguia, penetrou a intenção da esposa e redargüiu-lhe sorrindo que não tivesse medo.”
“A matéria do imposto não foi fácil achá-la; tudo estava tributado em Itaguaí. Depois de longos estudos, assentou-se em permitir o uso de dois penachos nos cavalos dos enterros. Quem quisesse emplumar os cavalos de um coche mortuário pagaria dois tostões à Câmara, repetindo-se tantas vezes esta quantia quantas fossem as horas decorridas entre a do falecimento e a da última bênção na sepultura. O escrivão perdeu-se nos cálculos aritméticos do rendimento possível da nova taxa; e um dos vereadores, que não acreditava na empresa do médico, pediu que se relevasse o escrivão de um trabalho inútil.”
“Era na Rua Nova, a mais bela rua de Itaguaí naquele tempo; tinha cinqüenta janelas por lado, um pátio no centro, e numerosos cubículos para os hóspedes. Como fosse grande arabista, achou no Corão que Maomé declara veneráveis os doidos, pela consideração de que Alá lhes tira o juízo para que não pequem. A idéia pareceu-lhe bonita e profunda, e ele a fez gravar no frontispício da casa; mas, como tinha medo ao vigário, e por tabela ao bispo, atribuiu o pensamento a Benedito VIII, merecendo com essa fraude aliás pia, que o Padre Lopes lhe contasse, ao almoço, a vida daquele pontífice eminente.
A Casa Verde foi o nome dado ao asilo, por alusão à cor das janelas, que pela primeira vez apareciam verdes em Itaguaí. (…) D. Evarista, contentíssima com a glória do marido, vestiu-se luxuosamente, cobriu-se de jóias, flores e sedas. Ela foi uma verdadeira rainha naqueles dias memoráveis; ninguém deixou de ir visitá-la duas e três vezes, apesar dos costumes caseiros e recatados do século, e não só a cortejavam como a louvavam; porquanto,—e este fato é um documento altamente honroso para a sociedade do tempo, —porquanto viam nela a feliz esposa de um alto espírito, de um varão ilustre, e, se lhe tinham inveja, era a santa e nobre inveja dos admiradores. § Ao cabo de sete dias expiraram as festas públicas; Itaguaí, tinha finalmente uma casa de orates.”¹
¹ Casa em que “se poderia falar com deus”.
“De todas as vilas e arraiais vizinhos afluíam loucos à Casa Verde. Eram furiosos, eram mansos, eram monomaníacos, era toda a família dos deserdados do espírito. Ao cabo de 4 meses, a Casa Verde era uma povoação. Não bastaram os primeiros cubículos; mandou-se anexar uma galeria de mais 37. O Padre Lopes confessou que não imaginara a existência de tantos doidos no mundo, e menos ainda o inexplicável de alguns casos. Um, por exemplo, um rapaz bronco e vilão, que todos os dias, depois do almoço, fazia regularmente um discurso acadêmico, ornado de tropos, de antíteses, de apóstrofes, com seus recamos de grego e latim, e suas borlas de Cícero, Apuleio e Tertuliano. O vigário não queria acabar de crer. Quê! um rapaz que ele vira, 3 meses antes, jogando peteca na rua!”
“Não falo dos casos de monomania religiosa; apenas citarei um sujeito que, chamando-se João de Deus, dizia agora ser o deus João, e prometia o reino dos céus a quem o adorasse, e as penas do inferno aos outros; e depois desse, o licenciado Garcia, que não dizia nada, porque imaginava que no dia em que chegasse a proferir uma só palavra, todas as estrelas se despegariam do céu e abrasariam a terra; tal era o poder que recebera de Deus.”
“Ilustre dama, no fim de dois meses, achou-se a mais desgraçada das mulheres: caiu em profunda melancolia, ficou amarela, magra, comia pouco e suspirava a cada canto. Não ousava fazer-lhe nenhuma queixa ou reproche, porque respeitava nele o seu marido e senhor, mas padecia calada, e definhava a olhos vistos.”
“Enquanto ela comia o ouro com os seus olhos negros, o alienista fitava-a, e dizia-lhe ao ouvido com a mais pérfida das alusões:
—Quem diria que meia dúzia de lunáticos…
D. Evarista compreendeu, sorriu e respondeu com muita resignação:
—Deus sabe o que faz!”
“Conquanto as lágrimas de D. Evarista fossem abundantes e sinceras, não chegaram a abalá-lo. Homem de ciência, e só de ciência, nada o consternava fora da ciência; e se alguma coisa o preocupava naquela ocasião, se ele deixava correr pela multidão um olhar inquieto e policial, não era outra coisa mais do que a idéia de que algum demente podia achar-se ali misturado com a gente de juízo.”
“A loucura, objeto dos meus estudos, era até agora uma ilha perdida no oceano da razão; começo a suspeitar que é um continente.”
“Assim, apontou com especialidade alguns personagens célebres, Sócrates, que tinha um demônio familiar, Pascal, que via um abismo à esquerda, Maomé, Caracala, Domiciano, Calígula, etc., uma enfiada de casos e pessoas, em que de mistura vinham entidades odiosas, e entidades ridículas. E porque o boticário se admirasse de uma tal promiscuidade, o alienista disse-lhe que era tudo a mesma coisa, e até acrescentou sentenciosamente:
—A ferocidade, Sr. Soares, é o grotesco a sério.”
“Naquele tempo, Itaguaí, que, como as demais vilas, arraiais e povoações da colônia, não dispunha de imprensa, tinha dois modos de divulgar uma notícia; ou por meio de cartazes manuscritos e pregados na porta da Câmara, e da matriz;—ou por meio de matraca.
Eis em que consistia este segundo uso. Contratava-se um homem, por um ou mais dias, para andar as ruas do povoado, com uma matraca na mão.”
“De quando em quando tocava a matraca, reunia-se gente, e ele anunciava o que lhe incumbiam,—um remédio para sezões, umas terras lavradias, um soneto, um donativo eclesiástico, a melhor tesoura da vila, o mais belo discurso do ano, etc. O sistema tinha inconvenientes para a paz pública; mas era conservado pela grande energia de divulgação que possuía. Por exemplo, um dos vereadores,—aquele justamente que mais se opusera à criação da Casa Verde,—desfrutava a reputação de perfeito educador de cobras e macacos, e aliás nunca domesticara um só desses bichos; mas, tinha o cuidado de fazer trabalhar a matraca todos os meses. E dizem as crônicas que algumas pessoas afirmavam ter visto cascavéis dançando no peito do vereador; afirmação perfeitamente falsa, mas só devida à absoluta confiança no sistema.”
—Com a definição atual, que é a de todos os tempos, acrescentou, a loucura e a razão estão perfeitamente delimitadas. Sabe-se onde uma acaba e onde a outra começa. Para que transpor a cerca?
Sobre o lábio fino e discreto do alienista rogou a vaga sombra de uma intenção de riso, em que o desdém vinha casado à comiseração; mas nenhuma palavra saiu de suas egrégias entranhas.
“Quatro dias depois, a população de Itaguaí ouviu consternada a notícia de que um certo Costa fora recolhido à Casa Verde.
—Impossível!
—Qual impossível! foi recolhido hoje de manhã.
— Mas, na verdade, ele não merecia… Ainda em cima! depois de tanto que
ele fez…
Costa era um dos cidadãos mais estimados de Itaguaí, Herdara 400 mil cruzados em boa moeda de El-rei Dom João V, dinheiro cuja renda bastava, segundo lhe declarou o tio no testamento, para viver ‘até o fim do mundo’. Tão depressa recolheu a herança, como entrou a dividi-la em empréstimos, sem usura, mil cruzados a um, 2 mil a outro, 300 a este, 800 àquele, a tal ponto que, no fim de 5 anos, estava sem nada. Se a miséria viesse de chofre, o pasmo de Itaguaí seria enorme; mas veio devagar; ele foi passando da opulência à abastança, da abastança à mediania, da mediania à pobreza, da pobreza à miséria, gradualmente.”
“Um dia, como um desses incuráveis devedores lhe atirasse uma chalaça grossa, e ele se risse dela, observou um desafeiçoado, com certa perfídia: —Você suporta esse sujeito para ver se ele lhe paga.
Costa não se deteve um minuto, foi ao devedor e perdoou-lhe a divida.
—Não admira, retorquiu o outro; o Costa abriu mão de uma estrela, que está no céu.”
“Ninguém queria acabar de crer, que, sem motivo, sem inimizade, o alienista trancasse na Casa Verde uma senhora perfeitamente ajuizada, que não tinha outro crime senão o de interceder por um infeliz.”
“Crispim Soares derretia-se todo. Esse interrogar da gente inquieta e curiosa, dos amigos atônitos, era para ele uma consagração pública. Não havia duvidar; toda a povoação sabia enfim que o privado do alienista era ele, Crispim, o boticário, o colaborador do grande homem e das grandes coisas; daí a corrida à botica. Tudo isso dizia o carão jucundo e o riso discreto do boticário, o riso e o silêncio, porque ele não respondia nada; um, dois, três monossílabos, quando muito, soltos, secos, encapados no fiel sorriso constante e miúdo, cheio de mistérios científicos, que ele não podia, sem desdouro nem perigo, desvendar a nenhuma pessoa humana.
—Há coisa, pensavam os mais desconfiados.”
—A Casa Verde é um cárcere privado, disse um médico sem clínica.
Nunca uma opinião pegou e grassou tão rapidamente. Cárcere privado: eis o que se repetia de norte a sul e de leste a oeste de Itaguaí,—a medo, é verdade, porque durante a semana que se seguiu à captura do pobre Mateus, vinte e tantas pessoas,—duas ou três de consideração,—foram recolhidas à Casa Verde.
“Sucediam-se as versões populares. Vingança, cobiça de dinheiro, castigo de Deus, monomania do próprio médico, plano secreto do Rio de Janeiro com o fim de destruir em Itaguaí qualquer gérmen de prosperidade que viesse a brotar, arvorecer, florir, com desdouro e míngua daquela cidade, mil outras explicações, que não explicavam nada, tal era o produto diário da imaginação pública.”
“O momento em que D. Evarista pôs os olhos na pessoa do marido é considerado pelos cronistas do tempo como um dos mais sublimes da história moral dos homens, e isto pelo contraste das duas naturezas, ambas extremas, ambas egrégias. D. Evarista soltou um grito,—balbuciou uma palavra e atirou-se ao consorte—de um gesto que não se pode melhor definir do que comparando-o a uma mistura de onça e rola. Não assim o ilustre Bacamarte; frio como diagnóstico, sem desengonçar por um instante a rigidez científica, estendeu os braços à dona que caiu neles e desmaiou. Curto incidente; ao cabo de dois minutos D. Evarista recebia os cumprimentos dos amigos e o préstito punha-se em marcha.”
“Ela era a esposa do novo Hipócrates, a musa da ciência, anjo, divina, aurora, caridade, vida, consolação; trazia nos olhos duas estrelas segundo a versão modesta de Crispim Soares e dois sóis no conceito de um vereador. O alienista ouvia essas coisas um tanto enfastiado, mas sem visível impaciência. Quando muito, dizia ao ouvido da mulher que a retórica permitia tais arrojos sem significação. (…) Um dos oradores, por exemplo, Martim Brito, rapaz de 25 anos, pintalegrete acabado, curtido de namoros e aventuras, declamou um discurso em que o nascimento de D. Evarista era explicado pelo mais singular dos reptos. Deus, disse ele, depois de dar o universo ao homem e à mulher, esse diamante e essa pérola da coroa divina (e o orador arrastava triunfalmente esta frase de uma ponta a outra da mesa), Deus quis vencer a Deus, e criou D. Evarista.”
“Verdade é que, se todos os gostos fossem iguais, o que seria do amarelo? Esta idéia fê-la tremer outra vez, embora menos; menos, porque o alienista sorria agora para o Martim Brito e, levantados todos, foi ter com ele e falou-lhe do discurso.”
“D. Evarista ficou estupefata quando soube, três dias depois, que o Martim Brito fora alojado na Casa Verde. Um moço que tinha idéias tão bonitas! As duas senhoras atribuíram o ato a ciúmes do alienista. Não podia ser outra coisa; realmente, a declaração do moço fora audaciosa demais.”
“Positivamente o terror. Quem podia emigrava. Um desses fugitivos chegou a ser preso a 200 passos da vila. Era um rapaz de 30 anos, amável, conversado, polido, tão polido que não cumprimentava alguém sem levar o chapéu ao chão; na rua, acontecia-lhe correr uma distância de 10 a 20 braças para ir apertar a mão a um homem grave, a uma senhora, às vezes a um menino, como acontecera ao filho do juiz de fora.” “Pois o Gil Bernardes, apesar de se saber estimado, teve medo quando lhe disseram um dia que o alienista o trazia de olho; na madrugada seguinte fugiu da vila, mas foi logo apanhado e conduzido à Casa Verde.”
“note-se que o Porfírio, desde que a Casa Verde começara a povoar-se tão extraordinariamente, viu crescerem-lhe os lucros pela aplicação assídua de sanguessugas que dali lhe pediam; mas o interesse particular, dizia ele, deve ceder ao interesse público. E acrescentava:—é preciso derrubar o tirano! Note-se mais que ele soltou esse grito justamente no dia em que Simão Bacamarte fizera recolher à Casa Verde um homem que trazia com ele uma demanda, o Coelho.”
—É falso! interrompeu o presidente.
—Falso?
—Há cerca de duas semanas recebemos um ofício do ilustre médico em que nos declara que, tratando de fazer experiências de alto valor psicológico, desiste do estipêndio votado pela Câmara, bem como nada receberá das famílias dos enfermos.
“Para acrescentar ao mal um dos vereadores que apoiara o presidente ouvindo agora a denominação dada pelo barbeiro à Casa Verde—‘Bastilha da razão humana’—achou-a tão elegante que mudou de parecer.”
“Já não eram 30 mas 300 pessoas que acompanhavam o barbeiro, cuja alcunha familiar deve ser mencionada, porque ela deu o nome à revolta; chamavam-lhe o Canjica—e o movimento ficou célebre com o nome de revolta dos Canjicas.” Ora, se o Professor José não faz uma equivalência muito falsa ao chamar os bolsolóides de canjicas…
“e os trezentos que caminhavam para a Casa Verde,—dada a diferença de Paris a Itaguaí,—podiam ser comparados aos que tomaram a Bastilha.” Incendiaram alguma carruagem, pelo menos?
—Não é patuscada, não, senhora; eles estão gritando: — Morra o Dr. Bacamarte!!! o tirano! dizia o moleque assustado.
—Cala a boca, tolo! Benedita, olha aí do lado esquerdo; não parece que a costura está um pouco enviesada? A risca azul não segue até abaixo; está muito feio assim; é preciso descoser para ficar igualzinho e…
— Morra o Dr. Bacamarte!!! morra o tirano! uivaram fora trezentas vozes. Era a rebelião que desembocava na Rua Nova.
“D. Evarista, se não resistia facilmente às comoções de prazer, sabia entestar com os momentos de perigo. Não desmaiou; correu à sala interior onde o marido estudava. Quando ela ali entrou, precipitada, o ilustre médico escrutava um texto de Averróis; os olhos dele, empanados pela cogitação, subiam do livro ao reto e baixavam do reto ao livro, cegos para a realidade exterior, videntes para os profundos trabalhos mentais.”
“Levantou-se da cadeira de espaldar em que estava sentado, fechou o livro, e, a passo firme e tranqüilo, foi depositá-lo na estante. Como a introdução do volume desconsertasse um pouco a linha dos dois tomos contíguos, Simão Bacamarte cuidou de corrigir esse defeito mínimo, e, aliás, interessante. Depois disse à mulher que se recolhesse, que não fizesse nada.”
“O alienista sorriu, mas o sorriso desse grande homem não era coisa visível aos olhos da multidão; era uma contração leve de dois ou três músculos, nada mais.”
“Foi nesse momento decisivo que o barbeiro sentiu despontar em si a ambição do governo; pareceu-lhe então que, demolindo a Casa Verde e derrocando a influência do alienista, chegaria a apoderar-se da Câmara, dominar as demais autoridades e constituir-se senhor de Itaguaí.”
“Infelizmente a resposta do alienista diminuíra o furor dos sequazes.” Também absolutamente incompatível com qualquer paralelo que se faça com os neofascistas amarelos.
“Nada mais imprudente do que essa resposta do barbeiro; e nada mais natural. Era a vertigem das grandes crises. Talvez fosse também um excesso de confiança na abstenção das armas por parte dos dragões; confiança que o capitão dissipou logo, mandando carregar sobre os Canjicas. O momento foi indescritível.” Outra situação sem qualquer paralelo político contemporâneo.
“A derrota dos Canjicas estava iminente quando um terço dos dragões,—qualquer que fosse o motivo, as crônicas não o declaram,—passou subitamente para o lado da rebelião. Este inesperado reforço deu alma aos Canjicas, ao mesmo tempo que lançou o desanimo às fileiras da legalidade. Os soldados fiéis não tiveram coragem de atacar os seus próprios camaradas, e um a um foram passando para eles, de modo que, ao cabo de alguns minutos, o aspecto das coisas era totalmente outro. O capitão estava de um lado com alguma gente contra uma massa compacta que o ameaçava de morre. Não teve remédio, declarou-se vencido e entregou a espada ao barbeiro.”
“Toda a gente advertiu no absoluto silêncio desta proclamação acerca da Casa Verde; e, segundo uns, não podia haver mais vivo indício dos projetos tenebrosos do barbeiro. O perigo era tanto maior quanto que, no meio mesmo desses graves sucessos, o alienista metera na Casa Verde umas 7 ou 8 pessoas, entre elas duas senhoras e sendo um dos homens aparentado com o Protetor.” Agora sim: o verdadeiro rapace-marajá que hipnotiza gado nas horas vagas (e ele só tem horas vagas!) bem-caracterizado!
Machado não faz boas transições em sua estória um tanto corrida, e seu estilo é cru, conjugando mal os verbos, como aqui: “O barbeiro faz expedir um ato declarando feriado aquele dia, e entabulou negociações com o vigário para a celebração de um Te-Deum, tão conveniente era aos olhos dele a conjunção do poder temporal com o espiritual; mas o Padre Lopes recusou abertamente o seu concurso.” Incensado além da conta, não era o melhor de sua geração.
“a tortura moral do boticário naqueles dias de revolução excede a toda a descrição possível. Nunca um homem se achou em mais apertado lance:—a privança do alienista chamava-o ao lado deste, a vitória do barbeiro atraía-o ao barbeiro. Já a simples noticia da sublevação tinha-lhe sacudido fortemente a alma, porque ele sabia a unanimidade do ódio ao alienista; mas a vitória final foi também o golpe final.”
—Engana-se Vossa Senhoria, disse o barbeiro depois de alguma pausa, engana-se em atribuir ao governo intenções vandálicas. Com razão ou sem ela, a opinião crê que a maior parte dos doidos ali metidos estão em seu perfeito juízo, mas o governo reconhece que a questão é puramente científica e não cogita em resolver com posturas as questões científicas.. Demais, a Casa Verde é uma instituição pública; tal a aceitamos das mãos da Câmara dissolvida. Há entretanto—por força que há de haver um alvitre intermédio que restitua o sossego ao espírito público.
“A generosa revolução que ontem derrubou uma Câmara vilipendiada e corrupta, pediu em altos brados o arrasamento da Casa Verde; mas pode entrar no ânimo do governo eliminar a loucura? Não. E se o governo não a pode eliminar, está ao menos apto para discriminá-la, reconhecê-la? Também não; é matéria de ciência.”
—Onze mortos e vinte e cinco feridos, repetiu o alienista depois de acompanhar o barbeiro até a porta. Eis aí dois lindos casos de doença cerebral. Os sintomas de duplicidade e descaramento deste barbeiro são positivos. Quanto à toleima dos que o aclamaram, não é preciso outra prova além dos onze mortos e vinte e cinco feridos.—Dois lindos casos!
“Só vos recomendo ordem. E ordem, meus amigos, é a base do governo…
—Viva o ilustre Porfírio bradaram as trinta vozes, agitando os chapéus.
—Dois lindos casos! murmurou o alienista.”
“Dentro de cinco dias, o alienista meteu na Casa Verde cerca de 50 aclamadores do novo governo. O povo indignou-se. O governo, atarantado, não sabia reagir. João Pina, outro barbeiro, dizia abertamente nas ruas, que o Porfírio estava ‘vendido ao ouro de Simão Bacamarte’, frase que congregou em torno de João Pina a gente mais resoluta da vila.”
“Duas horas depois caía Porfírio ignominiosamente e João Pina assumia a difícil tarefa do governo!”
“Nisto entrou na vila uma força mandada pelo vice-rei e restabeleceu a ordem. O alienista exigiu desde logo a entrega do barbeiro Porfírio e bem assim a de uns 50 e tantos indivíduos que declarou mentecaptos; e não só lhe deram esses como afiançaram entregar-lhe mais 19 sequazes do barbeiro, que convalesciam das feridas apanhadas na primeira rebelião.”
“O alienista, desde que lhe falaram da momentânea adesão de Crispim Soares à rebelião dos Canjicas, comparou-a à aprovação que sempre recebera dele ainda na véspera, e mandou capturá-lo. Crispim Soares não negou o fato, mas explicou-o dizendo que cedera a um movimento de terror ao ver a rebelião triunfante, e deu como prova a ausência de nenhum outro aro seu, acrescentando que voltara logo à cama, doente. Simão Bacamarte não o contrariou; disse, porém, aos circunstantes que o terror também é pai da loucura, e que o caso de Crispim Soares lhe parecia dos mais caracterizados.”
“Um homem não podia dar nascença ou curso à mais simples mentira do mundo, ainda daquelas que aproveitam ao inventor ou divulgador, que não fosse logo metido na Casa Verde. Tudo era loucura. Os cultores de enigmas, os fabricantes de charadas, de anagramas, os maldizentes, os curiosos da vida alheia, os que põem todo o seu cuidado na tafularia, um ou outro almotacé enfunado, ninguém escapava aos emissários do alienista. Ele respeitava as namoradas e não poupava as namoradeiras, dizendo que as primeiras cediam a um impulso natural e as segundas a um vício. Se um homem era avaro ou pródigo, ia do mesmo modo para a Casa Verde; daí a alegação de que não havia regra para a completa sanidade mental. Alguns cronistas crêem que Simão Bacamarte nem sempre procedia com lisura, e citam em abono da afirmação (que não sei se pode ser aceita) o fato de ter alcançado da Câmara uma postura autorizando o uso de um anel de prata no dedo polegar da mão esquerda, a toda a pessoa que, sem outra prova documental ou tradicional, declarasse ter nas veias duas ou três onças de sangue godo. Dizem esses cronistas que o fim secreto da insinuação à Câmara foi enriquecer um ourives amigo e compadre dele; mas, conquanto seja certo que o ourives viu prosperar o negócio depois da nova ordenação municipal, não o é menos que essa postura deu à Casa Verde uma multidão de inquilinos; pelo que, não se pode definir, sem temeridade, o verdadeiro fim do ilustre médico. Quanto à razão determinativa da captura e aposentação na Casa Verde de todos quantos usaram do anel, é um dos pontos mais obscuros da história de Itaguaí; a opinião mais verossímil é que eles foram recolhidos por andarem a gesticular, à loa, nas ruas, em casa, na igreja. Ninguém ignora que os doidos gesticulam muito. Em todo caso, é uma simples conjetura; de positivo, nada há.”
“Um dia de manhã—dia em que a Câmara devia dar um grande baile,—a vila inteira ficou abalada com a notícia de que a própria esposa do alienista fora metida na Casa Verde. Ninguém acreditou; devia ser invenção de algum gaiato. E não era: era a verdade pura. D. Evarista fora recolhida às duas horas da noite. O Padre Lopes correu ao alienista e interrogou-o discretamente acerca do fato.
—Já há algum tempo que eu desconfiava, disse gravemente o marido. A modéstia com que ela vivera em ambos os matrimônios não podia conciliar-se com o furor das sedas, veludos, rendas e pedras preciosas que manifestou logo que voltou do Rio de Janeiro. Desde então comecei a observá-la. Suas conversas eram todas sobre esses objetos; se eu lhe falava das antigas côrtes, inquiria logo da forma dos vestidos das damas; se uma senhora a visitava na minha ausência, antes de me dizer o objeto da visita, descrevia-me o trajo, aprovando umas coisas e censurando outras.”
“Ninguém mais tinha o direito de resistir-lhe—menos ainda o de atribuir-lhe intuitos alheios à ciência. § Era um grande homem austero, Hipócrates forrado de Catão.”
“E agora prepare-se o leitor para o mesmo assombro em que ficou a vila ao saber um dia que os loucos da Casa Verde iam todos ser postos na rua.
—Todos?
—Todos.
—É impossível; alguns sim, mas todos…
—Todos. Assim o disse ele no ofício que mandou hoje de manhã à Câmara.
De fato o alienista oficiara à Câmara expondo: — § 1º: que verificara das estatísticas da vila e da Casa Verde que 4/5 da população estavam aposentados naquele estabelecimento; § 2º que esta deslocação de população levara-o a examinar os fundamentos da sua teoria das moléstias cerebrais, teoria que excluía da razão todos os casos em que o equilíbrio das faculdades não fosse perfeito e absoluto; § 3º que, desse exame e do fato estatístico, resultara para ele a convicção de que a verdadeira doutrina não era aquela, mas a oposta, e portanto, que se devia admitir como normal e exemplar o desequilíbrio das faculdades e como hipóteses patológicas todos os casos em que aquele equilíbrio fosse ininterrupto; § 4º que à vista disso declarava à Câmara que ia dar liberdade aos reclusos da Casa Verde e agasalhar nela as pessoas que se achassem nas condições agora expostas; § 5º que, tratando de descobrir a verdade científica, não se pouparia a esforços de toda a natureza, esperando da Câmara igual dedicação; § 6º que restituía à Câmara e aos particulares a soma do estipêndio recebido para alojamento dos supostos loucos, descontada a parte efetivamente gasta com a alimentação, roupa, etc.; o que a Câmara mandaria verificar nos livros e arcas da Casa Verde.”
“Não descrevo as festas por não interessarem ao nosso propósito; mas foram esplêndidas, tocantes e prolongadas. E vão assim as coisas humanas! No meio do regozijo produzido pelo ofício de Simão Bacamarte, ninguém advertia na frase final do § 4º, uma frase cheia de experiências futuras.”
“O barbeiro Porfírio, ensinado pelos acontecimentos, tendo ‘provado tudo’, como o poeta disse de Napoleão, e mais alguma coisa, porque Napoleão não provou a Casa Verde, o barbeiro achou preferível a glória obscura da navalha e da tesoura às calam idades brilhantes do poder; foi, é certo, processado; mas a população da vila implorou a clemência de Sua Majestade; daí o perdão. João Pina foi absolvido, atendendo-se a que ele derrocara um rebelde. Os cronistas pensam que deste fato é que nasceu o nosso adágio:—ladrão que furta ladrão tem cem anos de perdão;—adágio imoral, é verdade, mas grandemente útil.”
“Dizem as crônicas que D. Evarista a princípio tivera idéia de separar-se do consorte, mas a dor de perder a companhia de tão grande homem venceu qualquer ressentimento de amor-próprio e o casal veio a ser ainda mais feliz do que antes.
Não menos íntima ficou a amizade do alienista e do boticário. Este concluiu do ofício de Simão Bacamarte que a prudência é a primeira das virtudes em tempos de revolução e apreciou muito a magnanimidade do alienista, que ao dar-lhe a liberdade estendeu-lhe a mão de amigo velho.”
“O próprio Martim Brito, recluso por um discurso em que louvara enfaticamente D. Evarista, fez agora outro em honra do insigne médico—‘cujo altíssimo gênio, elevando as asas muito acima do sol, deixou abaixo de si todos os demais espíritos da terra’.”
“O vereador Freitas propôs também a declaração de que, em nenhum caso, fossem os vereadores recolhidos ao asilo dos alienados: cláusula que foi aceita, votada e incluída na postura apesar das reclamações do vereador Galvão. O argumento principal deste magistrado é que a Câmara legislando sobre uma experiência científica, não podia excluir as pessoas dos seus membros das conseqüências da lei; a exceção era odiosa e ridícula. Mal proferira estas duas palavras, romperam os vereadores em altos brados contra a audácia e insensatez do colega; este, porem, ouviu-os e limitou-se a dizer que votava contra a exceção.
Simão Bacamarte aceitou a postura com todas as restrições. Quanto à exclusão dos vereadores, declarou que teria profundo sentimento se fosse compelido a recolhê-los à Casa Verde; a cláusula, porém, era a melhor prova de que eles não padeciam do perfeito equilíbrio das faculdades mentais. Não acontecia o mesmo ao vereador Galvão, cujo acerto na objeção feita, e cuja moderação na resposta dada às invectivas dos colegas mostravam da parte dele um cérebro bem-organizado; pelo que rogava à Câmara que lho entregasse. A Câmara sentindo-se ainda agravada pelo proceder do vereador Galvão, estimou 0 pedido do alienista e votou unanimemente a entrega.”
“O Padre Lopes, por exemplo, só foi capturado 30 dias depois da postura, a mulher do boticário 40 dias. A reclusão desta senhora encheu o consorte de indignação. Crispim Soares saiu de casa espumando de cólera e declarando às pessoas a quem encontrava que ia arrancar as orelhas ao tirano. Um sujeito, adversário do alienista, ouvindo na rua essa noticia, esqueceu os motivos de dissidência, e correu à casa de Simão Bacamarte a participar-lhe o perigo que corria. Simão Bacamarte mostrou-se grato ao procedimento do adversário, e poucos minutos lhe bastaram para conhecer a retidão dos seus sentimentos, a boa-fé, o respeito humano, a generosidade; apertou-lhe muito as mãos, e recolheu-o à Casa Verde.”
“E, parecendo-lhe vantajoso reuni-los, porque a astúcia e velhacaria do marido poderiam de certo modo curar a beleza moral que ele descobrira na esposa, disse Simão Bacamarte:
—O senhor trabalhará durante o dia na botica, mas almoçará e jantará com sua mulher, e cá passará as noites, e os domingos e dias santos.
A proposta colocou o pobre boticário na situação do asno de Buridan. Queria viver com a mulher, mas temia voltar à Casa Verde; e nessa luta esteve algum tempo, até que D. Evarista o tirou da dificuldade, prometendo que se incumbiria de ver a amiga e transmitiria os recados de um para outro. Crispim Soares beijou-lhe as mãos agradecido. Este último rasgo de egoísmo pusilânime pareceu sublime ao alienista.”
“Desenganados da legalidade, alguns principais da vila recorreram secretamente ao barbeiro Porfírio e afiançaram-lhe todo o apoio de gente, de dinheiro e influência na corte, se ele se pusesse à testa de outro movimento contra a Câmara e o alienista. O barbeiro respondeu-lhes que não; que a ambição o levara da primeira vez a transgredir as leis, mas que ele se emendara, reconhecendo o erro próprio e a pouca consistência da opinião dos seus mesmos sequazes; que a Câmara entendera autorizar a nova experiência do alienista, por um ano: cumpria, ou esperar o fim do prazo, ou requerer ao vice-rei, caso a mesma Câmara rejeitasse o pedido. Jamais aconselharia o emprego de um recurso que ele viu falhar em suas mãos e isso a troco de mortes e ferimentos que seriam o seu eterno remorso.
—O que é que me está dizendo? perguntou o alienista quando um agente secreto lhe contou a conversação do barbeiro com os principais da vila. Dois dias depois o barbeiro era recolhido à Casa Verde.
—Preso por ter cão, preso por não ter cão! exclamou o infeliz.”
“O desfecho deste episódio da crônica itaguaiense é de tal ordem e tão inesperado, que merecia nada menos de dez capítulos de exposição; mas contento-me com um, que será o remate da narrativa, e um dos mais belos exemplos de convicção científica e abnegação humana.”
“Era a vez da terapêutica. Simão Bacamarte, ativo e sagaz em descobrir enfermos, excedeu-se ainda na diligência e penetração com que principiou a tratá-los. Neste ponto todos os cronistas estão de pleno acordo: o ilustre alienista faz curas pasmosas, que excitaram a mais viva admiração em Itaguaí.”
“Suponhamos um modesto. Ele aplicava a medicação que pudesse incutir-lhe o sentimento oposto; e não ia logo às doses máximas,—graduava-as, conforme o estado, a idade, o temperamento, a posição social do enfermo. Às vezes bastava uma casaca, uma fita, uma cabeleira, uma bengala, para restituir a razão ao alienado; em outros casos a moléstia era mais rebelde; recorria então aos anéis de brilhantes, às distinções honoríficas, etc. Houve um doente poeta que resistiu a tudo. Simão Bacamarte começava a desesperar da cura, quando teve a idéia de mandar correr matraca para o fim de o apregoar como um rival de Garção e de Píndaro.”
“Outro doente, também modesto, opôs a mesma rebeldia à medicação; mas, não sendo escritor (mal sabia assinar o nome), não se lhe podia aplicar o remédio da matraca. Simão Bacamarte lembrou-se de pedir para ele o lugar de secretário da Academia dos Encobertos, estabelecida em Itaguaí. Os lugares de presidente e secretários eram de nomeação régia, por especial graça do finado Rei Dom João V, e implicavam o tratamento de Excelência e o uso de uma placa de ouro no chapéu. O governo de Lisboa recusou o diploma; mas, representando o alienista que o não pedia como prêmio honorífico ou distinção legitima, e somente como um meio terapêutico para um caso difícil, o governo cedeu excepcionalmente à súplica; e ainda assim não o faz sem extraordinário esforço do ministro da marinha e ultramar, que vinha a ser primo do alienado. Foi outro santo remédio.”
“Casos houve em que a qualidade predominante resistia a tudo; então o alienista atacava outra parte, aplicando à terapêutica o método da estratégia militar, que toma uma fortaleza por um ponto, se por outro o não pode conseguir.”
“No fim de cinco meses e meio estava vazia a Casa Verde; todos curados! O vereador Galvão, tão cruelmente afligido de moderação e eqüidade, teve a felicidade de perder um tio; digo felicidade, porque o tio deixou um testamento ambíguo, e ele obteve uma boa interpretação corrompendo os juízes e embaçando os outros herdeiros. A sinceridade do alienista manifestou-se nesse lance; confessou ingenuamente que não teve parte na cura: foi a simples vis medicatrix da natureza.”
“Plus ultra! era a sua divisa. Não lhe bastava ter descoberto a teoria verdadeira da loucura; não o contentava ter estabelecido em Itaguaí o reinado da razão. Plus ultra! Não ficou alegre, ficou preocupado, cogitativo; alguma coisa lhe dizia que a teoria nova tinha, em si mesma, outra e novíssima teoria.”
“…a moderação e a singeleza, virtudes tão ajustadas à pessoa de um sábio.”
—Mas deveras estariam eles doidos, e foram curados por mim,—ou o que pareceu cura não foi mais do que a descoberta do perfeito desequilíbrio do cérebro?
“A de gozo foi por ver que, ao cabo de longas e pacientes investigações, constantes trabalhos, luta ingente com o povo, podia afirmar esta verdade:—não havia loucos em Itaguaí. Itaguaí não possuía um só mentecapto. Mas tão depressa esta idéia lhe refrescara a alma, outra apareceu que neutralizou o primeiro efeito; foi a idéia da dúvida. Pois quê! Itaguaí. não possuiria um único cérebro concertado? Esta conclusão tão absoluta, não seria por isso mesmo errônea, e não vinha, portanto, destruir o largo e majestoso edifício da nova doutrina psicológica?
A aflição do egrégio Simão Bacamarte é definida pelos cronistas itaguaienses como uma das mais medonhas tempestades morais que têm desabado sobre o homem. Mas as tempestades só aterram os fracos; os fortes enrijam-se contra elas e fitam o trovão.”
“Isso é isto. Simão Bacamarte achou em si os característicos do perfeito equilíbrio mental e moral; pareceu-lhe que possuía a sagacidade, a paciência, a perseverança, a tolerância, a veracidade, o vigor moral, a lealdade, todas as qualidades enfim que podem formar um acabado mentecapto. Duvidou logo, é certo, e chegou mesmo a concluir que era ilusão; mas, sendo homem prudente, resolveu convocar um conselho de amigos, a quem interrogou com franqueza. A opinião foi afirmativa.
—Nenhum defeito?
—Nenhum, disse em coro a assembléia.
—Nenhum vício?
—Nada.
—Tudo perfeito?
—Tudo.
—Não, impossível, bradou o alienista. Digo que não sinto em mim essa
superioridade que acabo de ver definir com tanta magnificência. A simpatia é que vos faz falar. Estudo-me e nada acho que justifique os excessos da vossa bondade.”
—Sabe a razão por que não vê as suas elevadas qualidades, que aliás todos nós admiramos? É porque tem ainda uma qualidade que realça as outras:—a modéstia.
Era decisivo. Simão Bacamarte curvou a cabeça juntamente alegre e triste, e ainda mais alegre do que triste. Ato continuo, recolheu-se à Casa Verde. Em vão a mulher e os amigos lhe disseram que ficasse, que estava perfeitamente são e equilibrado: nem rogos nem sugestões nem lágrimas o detiveram um só instante.
“Reúno em mim mesmo a teoria e a prática.”
“Fechada a porta da Casa Verde, entregou-se ao estudo e à cura de si mesmo. Dizem os cronistas que ele morreu dali a 17 meses no mesmo estado em que entrou, sem ter podido alcançar nada. Alguns chegam ao ponto de conjeturar que nunca houve outro louco além dele em Itaguaí, mas esta opinião, fundada em um boato que correu desde que o alienista expirou, não tem outra prova senão o boato”
“Seja como for, efetuou-se o enterro com muita pompa e rara solenidade.”
DICIONÁRIO:
almotacé: atual almotacel: “Oficial municipal encarregado da fiscalização das medidas e dos pesos e da taxação dos preços dos alimentos e de distribuir ou regular a distribuição dos mesmos em tempos de maior escassez”
almude: “é o nome de uma antiga medida de capacidade, correspondente à 12 canadas (VIDE CANADA), ou cerca de 32 litros.” O presidente da Câmara havia pedido 30 almudes de sangue dos Canjicas, o que resultaria em 960L!
#0070c0 #4de5estrelas #92d050 #AforismosSábios #ff0000 #LiteraturaBrasileira
HENFIL NA CHINA (antes da Coca-Cola): releitura, 14 anos depois.
URUPÊS – Contos e Preciosidades Antropológicas de Monteiro Lobato
23 de junho de 2018
A BAGACEIRA
4 de fevereiro de 2018
IRACEMA, Uma excursão a antes da infância – José de Alencar
10 de julho de 2017 – Incluindo um inusitado DICIONÁRIO (SEMI-)TUPINIQUIM E ILUSTRADO com 128 expressões!
O QUINZE – Rachel de Queiroz
29 de junho de 2017
O GUARANI – José de Alencar
29 de janeiro de 2017
LAÇOS DE FAMÍLIA – Clarice Lispector
13 de janeiro de 2017
ESCRAVA ISAURA – Guimarães, B.
25 de junho de 2016
