A ÉTICA PROTESTANTE E O “ESPÍRITO” DO CAPITALISMO 2.0

Originalmente publicado em 10 de dezembro de 2008

[Com múltiplas alterações]

GLOSSÁRIO INTRODUTÓRIO

ANABATISTAS

Ana – outra vez; i.e., de novo um batista (protestante). Vertente radical, atiçava camponeses a se revoltarem e pregava um retorno ao cristianismo primitivo, considerado por outras ordens cristãs como pagão. O “ana” foi acrescido pejorativamente pelos rivais, uma vez que esta seita extrema se caracteriza por permitir o batismo de – e só de – adultos. Como um adulto é geralmente um bebê que um dia fôra batizado por um padre católico, tem-se um re-batismo.

ANGLICANOS

Hibridismo entre a Igreja Católica e o protestantismo (os pastores têm autoridade sobre o rebanho, como o padre). Criticados pelos demais protestantes graças à suntuosidade cerimonial recorrente.

ARIANOS

De Arius (séc. III d.C.), que era contra o dogma da Santíssima Trindade. Jesus não era Filho de Deus, mas um homem mortal que não ressuscitou. Testa-de-ferro do antissemitismo (utilizada por outras seitas que não queriam essa mancha). Curiosamente, um judeu diria o mesmo sobre o Espírito Santo, Maria e Jesus… A diferença está somente em que cada qual pensa que é o povo eleito. Mas não percamos tempo tentando adivinhar ou interpretar o porquê de tantas sutilezas absurdas… O cristianismo não é coerente, como nenhuma religião apresenta elevada coerência interna fundamental.

BATISTAS

Bastante descentralizados em suas paróquias. Seguem o texto da Confissão de Westminster (1647). Alcunhas: “os independentes”, “congregacionalistas”.

CALVINISMO

Predeterminação do destino da alma. Calvino condena a grande maioria ao inferno de antemão.

CONFISSÃO DE AUGSBURGO

Rompimento formal com o papado.

CONFISSÃO DE WESTMINSTER

Melhor síntese da fé calvinista.

LUTERANOS

Pouco tratados em Weber. Um traço essencial que os distingue dos calvinistas: são mais ecumênicos e hierárquicos, estando mais próximos do catolicismo. Após o séc. XVI os luteranos recusaram em geral o epíteto de “reformadores” ou de “religião reformada”.

METODISTAS

Luteranos dissidentes dos luteranos ortodoxos. Americanos.

O PROBLEMA DA TEODICÉIA OU DIREITO DIVINO

A tentativa de explicar a injustiça do mundo, que emana de um Deus Bom e Todo-poderoso. Cerne da contradição lógica das religiões monoteístas. Recorre-se à retração da onipotência de Deus para que o livre-arbítrio torne-se possível, o que gera outros problemas derivados.

PIETISTAS

Surgidos do luteranismo, um século depois. Maior ênfase na interpretação da Bíblia, para a qual tendem a chegar a conclusões (não deixar versículos com significação ambígua em aberto). Ultra-moralistas.

PRESBITERIANOS

Ingleses que, diferentemente dos anglicanos, não são organizados em hierarquia.

PURITANOS

Não admitem qualquer igreja. De certo modo os calvinistas são um subconjunto dos puritanos. Outros puritanos – como os quakers – são ainda mais extremistas neste critério. Ultra-moralistas idem. Sobre a relação controversa entre puritanismo e calvinismo: “Para Weber, o puritanismo é cria do calvinismo, [embora] nem sempre [de forma] direta”. Weber, por praticidade, pode se referir ao conjunto dos protestantes, quando não com esta palavra, por “puritanos”, englobando todos os cismáticos (luteranos, calvinistas e todas as seitas aqui enumeradas).

QUAKERS

Protestantes radicais. São contra a igreja física e a instituição do batismo. Advogam que a consciência é a única ferramenta do fiel em sua dúvida quanto à salvação. Reúnem características pragmáticas que os filiam ao que há de mais capitalista e ocidental. Fortemente individualistas; presença na política ianque (origens do Partido Republicano).

RABINISMO

Judaísmo tardio.

SEPTUAGINTA

Uma seleção limitada dos livros do Antigo Testamento considerados canônicos, traduzidos por 70 sacerdotes do hebraico para o grego, em Alexandria.

* * *

Lutero é produto do misticismo panteísta alemão de circa 1300. Exalta a natureza, enxerga a obra de Deus em todos os detalhes. Beira a heresia. Aqui vê-se por que Lutero foi preterido na obra: a unio mystica é o contraponto da ascese espiritual. O homem religioso europeu pós-Reforma é um vitral em pedaços.

PARTE I – O PROBLEMA

1. CONFISSÃO RELIGIOSA E ESTRATIFICAÇÃO SOCIAL

O “Espírito” do título é o mundo desencantado, sem Deus, e por isso sem indivíduo também.

Pode-se dizer que Lutero foi o assassino de Deus, ao torná-lo transparente mediante a tradução das Escrituras ao alemão vulgar. A transcendência se tornou universal, o portão para o Paraíso muito largo. Lutero quase suprimiu a dialética do senhor e do escravo, convulsionando a Europa. Perto de Lutero, Calvino não só é menos revolucionário como aristocrático e elitista.

Os judeus são ricos porque são párias onde vão, o que fá-los voltar-se com muito privilégio para o sustento material.

Weber não dá crédito à tese dos “países mais ricos” estarem ligados ao Protestantismo. Caso contrário, a França seria mais pobre que países como a Polônia. Na Polônia a elite financeira era de reformados. Os huguenotes franceses também eram protestantes.

2. O “ESPÍRITO” DO CAPITALISMO

A Filosofia da avareza do “quaker” Benjamin Franklin: cada 50 centavos gastos num café deixariam de ser 100 libras no futuro. Comprar um café é o mesmo que atirar vultuosas notas ao mar.

O Norte americano não tinha intuitos comerciais, apenas pregadores: logo se tornou “próspero. O Sul, de finalidade mercantil, estagnou.

Jesuítas: protestantes disfarçados no campo católico.

3. O CONCEITO DE VOCAÇÃO EM LUTERO. O OBJETO DA PESQUISA

Se alguém foi chamado já circunciso, não dissimule sua falta de prepúcio. Foi alguém chamado com prepúcio? Não se faça circuncidar.”

CONFISSÃO DIARISTA: Dia 17 de outubro, na biblioteca, compreendi eu ser o centro, não sendo-o. Essa dissimulação eterna entre unidade e caos. Me veio à tona um passado que eu não pude escolher que me tornou o que eu quis. Consonância cósmica. Há metafísica e não há.

Pascal, esse Janos da religião e da ética.

PARTE II – A ÉTICA PROFISSIONAL DO PROTESTANTISMO ASCÉTICO

1. OS FUNDAMENTOS RELIGIOSOS DA ASCESE IMANENTE

o virtuose religioso pode certificar-se do seu estado de graça, quer se sentindo como receptáculo, quer como ferramenta da potência divina. No primeiro caso, sua vida religiosa tende para a cultura mística do sentimento; no segundo, para a ação ascética. Do primeiro tipo estava mais perto Lutero; o calvinismo pertencia ao segundo.”

O fim de semana é uma religião dos magos!

os adeptos de Nietzsche reivindicam para a idéia de eterno retorno uma significação ética positiva. Só que se trata aqui da responsabilidade por uma vida futura com a qual o sujeito da ação não guarda nenhuma relação de continuidade de consciência [?!], enquanto para o puritano o futuro queria dizer: tua res agitur (Problema seu!).”

Se a certitudo salutis podia aparecer antes, então ou neste momento o indivíduo se desligava da ascese; ou se tornava um ultra-calvinista, porque sua certeza de salvação fazia de si um santo em vida.

grosso modo, grau ascendente de “puritanismo” pós-Reforma:

LUTERANISTA PIETISTA (menos o alemão) METODISTA¹ CALVINISTA² (descreve idealmente a ética ascética weberiana)

¹ Os metodistas eram mais pragmáticos que os pietistas e bastante mais conscientes de sua mudança de Weltanschauung da predestinação do que os luteranos, mas além de menos ascéticos que os calvinistas só surgiram temporalmente depois como seita organizada e descritível.

² Incluindo batistas, anabatistas, quakers e menonitas.

Quase todas as seitas resultam de cismas protestantes; a grande exceção são os batistas, que formaram voluntariamente um grupo à parte. Anabatistas são radicais “ermitãos trabalhadores”.

A ascese cristã, que de início fugira do mundo para se retirar na solidão, a partir do claustro havia dominado eclesiasticamente o mundo, enquanto a ele renunciava. Ao fazer isso, no entanto, deixou de modo geral intacta a vida cotidiana no mundo com seu caráter naturalmente espontâneo. Agora (séc. XVI-XVII) ela ingressa no mercado da vida, fecha atrás de si as portas do mosteiro e se põe a impregnar com sua metódica justamente a vida mundana de todo dia, a transformá-la numa vida racional no mundo, (mas) não deste mundo nem para este mundo.”

O NOIVADO ENTRE RELIGIÃO CAROLA & CIÊNCIA: A ética pedagógico-protestante dá preferência à física, a disciplina racional que “desencanta o mundo”.

Religião ou economia, qual é a infraestrutura e qual é mero epifenômeno? Qual é o absoluto e incondicional e qual é a superestrutura? Debate superficial e seletivo. Marx e Weber eram inteligentes o bastante para não separar a justaposição indefinível destes dois aspectos humanos. A necessidade de separar em palavras era para fins didáticos ou polêmicos. Ambos são concordes, não rivais epistemológicos.

As democracias mais fracas do séc. XX vêm de tradição católica. O nazismo teria de advir do país da revolução luterana (o calvinismo incompleto, “místico”, apegado ao Pai-Führer).

Anedota: entre os quakers o ataque às imagens e rituais foi tão aberrante que gestos de etiqueta como “tirar o chapéu” se tornaram sinônimo de submissão espiritual – e portanto sinal ou sintoma ante-tempore de não-eleição, não-salvação no Fim dos Dias. Quaker = o caipira americano.

2. ASCESE E CAPITALISMO

O calvinismo evolui a uma heterodoxia (ou neo-ortodoxia fragmentada?): Baxter, o Puritano; Spener, o Pietista; Barclay, o Quacker.

Perder tempo é o pior dos pecados.” Baxter

Daí a “tempo é dinheiro” não cu$ta muito (cof, cof)…

O repouso só é tolerável nos domingos.

Tomás de Aquino não tem ainda essa percepção sobre o trabalho.

Para Baxter, os ricos devem trabalhar tanto quanto os pobres; não é questão de dispor de capital que torne o desempenho de uma vocação facultativo, mas de cumprir um dever ineludível.

Baxter evoca esboços de conceitos que seriam desenvolvidos por Adam Smith. Ex: vantagem comparativa. Os trabalhadores devem se especializar. O artesão como “vadio”. Idade de ouro da carreira profissional.

Não o trabalho em si, mas o trabalho profissional racional, é isso exatamente que Deus exige”

ENGENHARIA ESCRITURAL: Os trechos do Antigo e Novo Testamento propícios para seus sermões eram cuidadosamente pinçados; qualquer versículo cuja interpretação fosse contrária à ascese laboral era logo rechaçado. Guerra contra a magia e a transcendência.

Carlos I, Book of Sports

O primeiro estadista do “bem-estar social”.

O corpo continua sendo abjeto, porém, como é por meio dele que se restabelece a “graça para com Deus”, ele deve ser preservado pelo bem maior.

As seitas calvinistas eram originalmente inimigas do esporte, “prática francamente irracional”, incorrendo em desperdício de energia física, atividade vizinha das festas, da embriaguez e das apostas. Até mesmo banhos quentes deveriam ser evitados.

Os homens deviam usar roupas padronizadas, isto é, uniformes, para mostrar que não diferiam enquanto ovelhas do rebanho.

a ascese era a força ‘que sempre quer o bem e sempre faz o mal’”

Resultado imediato: acumulação de capital mediante estímulo ao trabalho e concomitante coerção ascética à poupança.

A história inteira das regras das ordens monásticas é em certo sentido uma luta perpetuamente renovada com o problema do efeito secularizante dos haveres” “O mesmo também vale em maior escala para a ascese imanente do puritanismo” Os mais críticos em relação a esse trabalho de Sísifo acabaram por estruturar a seita metodista.

robinsonada”: Qualquer raciocínio caricato que define o Homo oeconomicus. Robinson Crusoe promoveu uma divisão de trabalho esquizofrênica em sua ilha deserta a fim de “enriquecer” e aproveitar melhor o tempo. Curiosamente esta idéia lhe veio após ler a Bíblia.

O que fazer com os franciscanos, p.ex.? Eles tinham sua utilidade: enquanto houvesse quem pedisse esmolas, haveria o crente enriquecido que as dava, respeitando seus próprios mandamentos, aliviando a consciência. Na Inglaterra é notório o aumento da miséria (o bem que traz o mal).

Solução do dilema”: o capitalista que obtém lucro e reinveste no próprio negócio amplia a glória divina; o empregado, sem os meios, edifica sua existência ao vender sua força de trabalho.

De passagem, podemos afirmar que Freud se enganou (além de tudo o mais!) em sua simbologia fezes = dinheiro. O correto seria leite = dinheiro. Mammon, mamonismo, mamona, mamão, peito, mamilo e leite. Sanguessuga e parasita. Seiva da árvore da vida, lobo do homem. Matar para comer. Lentamente. Os mais próximos, sem tabu. Bezerro de ouro contra Moisés. A brancura que escorre junto com o sangue. Alguns são simplesmente alérgicos a ele, é de nascença. Sucção, palpitação. Vacas magras. Safra gorda. Desmame traumático. A queda. Não é possível a auto-suficiência.

Estética da mudança: os ingleses e o insípido canto coral. “o que se ouve o mais das vezes a título de ‘canto coral’ é uma gritaria insuportável para ouvidos alemães”

A Holanda em seus últimos anos de supremacia no mercado mundial: “os pregadores ingleses evocavam o exército holandês quando queriam ilustrar a confusão babélica das línguas.”

em Shakespeare, ódio e desprezo pelos puritanos não perdem a chance de se manifestar a cada passo de sua obra” “Ainda em 1777 a cidade de Birmingham denegou autorização para a abertura de um teatro sob o pretexto de que iria fomentar o ‘ócio’, sendo portanto prejudicial ao comércio.”

o Quaker era a ‘lei da utilidade marginal’ ambulante.”

Quem se diverte em esclarecer uma idéia seguindo-a até suas últimas consequências, lembre-se daquela teoria de certos milionários americanos segundo a qual não se deve deixar para os filhos os milhões adquiridos só para não privá-los do benefício moral que só a obrigação de trabalhar e lucrar por sua própria conta e risco pode dar: hoje, evidentemente, isso não passa de uma bolha de sabão ‘teórica’.”

Consumação de uma tragédia (outro sintoma): os reformados ianques tinham horror à obesidade. Hoje são obesos e ociosos.

Quis o destino que o manto do santo se convertesse numa rígida gaiola de ferro!”

O rosto corado e alegre do Iluminismo não parece menos fadado a empalidecer e embotar, e a idéia do ‘dever profissional’ ronda nossa vida como um fantasma das crenças religiosas do passado.”

Todo funcionário público é ateu – minha alma só serena e encontra sua salvação ao mergulhar nas perturbações da minha vocação de escritor.

Uma das passagens mais brilhantes e memoráveis da “sociologia” (totalmente tributária de Nietzsche e da crítica econômica que nunca coadunou com a utopia positivistóide desta ‘ciência’):

Ninguém sabe ainda quem no futuro vai viver nesta gaiola, e se ao cabo desse desenvolvimento-monstro (I) hão de surgir profetas inteiramente novos, (II) ou um vigoroso renascer de velhas idéias e antigos ideais, (III) ou se o que vai restar não será uma petrificação chinesa, arrematada com uma espécie convulsiva de auto-suficiência. Então, para os ‘últimos homens’ desse desenvolvimento cultural, bem poderiam tornar-se verdade as palavras: ‘Especialistas sem espírito, trocistas sem coração: esse Nada imagina ter chegado a um grau de humanidade nunca antes alcançado!’.”

Chega mesmo a arrepiar.

(I) Zaratustra ainda não está maduro.

(II) Ainda não.

(III) Talvez Zaratustra morra ainda em botão, ‘velhas tradições’ nunca se revigorem, e nosso destino seja a prisão de aço inoxidável e vidro blindado do “budismo chinês”, ocidentalizado. O último homem é o prisioneiro inconsciente. Voltamos a Platão. Não avançamos sequer um passo. Volta a esperança pelo número I. A contradição: só num estado de Nirvana auto-suficiência, petrificação e agitação poderiam coexistir.

Recomendação: Para mais sobre a “igreja invisível”, ler artigo de W., As seitas protestantes e o Espírito (…). Ainda é difícil encontrar esse artigo traduzido. Talvez no original ou em inglês.

DA CULPA E DA AUTORIA DOS ATOS E TEXTOS

Republicação de ensaio de outubro de 2008.

Venho aqui tratar da gênese do sentimento de culpa. Defendo a tese, escorado em autores denominados imoralistas, de que a relação do indivíduo moderno com a culpa se assemelha à caça de uma longa e sinuosa serpente. A analogia ganha sentido quando se pensa que ao buscar incessantemente o rabo, e com ele jamais se deparar, o caçador apanha, tateando cego, de súbito, o que pensa ser uma das extremidades. E de fato: acaba de segurar a cobra pela cabeça. Ainda não era a cauda. A cauda é um enigma que, nesta minha história, jamais é desvendado. A pessoa inscrita na sociedade que busca “culpar alguém por alguma coisa” é um caçador de serpentes que acredita a todo tempo estar a ponto de se deparar com uma rabiça que chocalha. Há uma complexa relação entre “cena do crime” e “criminoso” que gostaria de desenvolver ao longo deste singelo ensaio.

Apurar um culpado é partir em busca da resposta: “quem fez?”, “de que consciência emanou a ação?”. Porém, tendo em vista conceitos lapidados ao longo de séculos como “indivíduo”, “volição”, “infração”, “acaso”, “antecedentes”, “conseqüências”, “testemunhos” e “confissões em júri”, torna-se impossível atingir um culpado ou uma penalização sobre os quais não recaia boa dose de incredulidade, mesmo revolta. O culpado e a penalização “ideais” ou “perfeitos” são o que se poderia chamar de cauda da serpente. Buscar a causa de uma cena e imputá-la a um sujeito é a prática mais corriqueira do propalado contrato social elaborado pelo homem branco europeu e hoje hegemônico no globo. Inicialmente, tal contrato era tácito, verbal ou hereditário. Filósofos então se acercaram do problema, evidenciaram-no, registraram-no, disseminaram a questão em diversos idiomas para que pessoas de épocas a partir dali pudessem consultá-la e quem sabe nela tomar parte. Houve até quem começasse a questionar a validade do contrato, sua engenharia, seus postulados, a natureza do homem. Pois se se necessita de um contrato, parece haver uma condição pré-contrato insustentável e que no entanto era o “previsível” ou “esperável”, o normal ou natural a suceder-se. Avessos ao contrato social renegam a moral cultivada pelo mundo ocidental e buscam novos valores para o homem, no que são vistos pelos compactuantes (assinantes do contrato) como imorais, apólogos do desrespeito ao contrato.

Contratos, de letras ou mais que isso, sempre podem ser quebrados. Diz-se que avalizam o ser com garantias, mas elas nunca são totalmente certas. Claro que se pode defender que é o suficiente e, ademais, o cume do possível. Infratores são prejudicados consensualmente; vítimas pontuais de infratores, algo sempre “fatal”, trágico, repentino, já que não podem ser evitadas, são aceitas e inscritas como “bodes expiatórios” insubstituíveis. Entra aqui uma expressão que gostaria de estender mais adiante ao autor da quebra de contrato, no ato de sua punição.

Assino o contrato. Acho que todos assinam o contrato ao nascerem em circunstâncias como as minhas. Mas sou contra o contrato. Enquanto não revogo minha assinatura, me limito ao que o leitor batiza de “plano teórico”, embora quem me conheça espere que eu não lance mão da dicotomia prática-teoria, por considerá-la uma barca furada. Fato é que enquanto não revogar minha assinatura e minha posição em acordo com o contrato social, caso ajam de modo ilegal contra mim serão punidos, o mesmo válido para mim. Não há escapatória: esqueci de dizer que quem não assina o contrato não existe. Não existe categoricamente neste mundo e não lhe pode ser agraciada nenhuma vantagem. Em um mar de milhões de pessoas e de coerção ultimada, significa que o indivíduo está condenado ao ostracismo mais cruel, provavelmente à inanição. Mesmo gangsters possuem um forte contrato social intra-grupo. Sou ciente do caráter absurdo de minha reivindicação aqui. Prossigo.

Assinar o contrato é proteger elementos para a própria existência esperando que uma instância que se põe à disposição de todos regule com sentenças negativas aqueles que ameaçarem a existência alheia. Assinar o contrato implica que caso aconteça uma ilegalidade (quebra de contrato), haverá um culpado pronto a indenizar, seja a vítima em si, seja a tal instância central-mediadora (aqui, o Estado, sistema de justiça). Portanto, assinar o contrato é reservar à disposição, quando necessário, um caçador de cauda de cobra. E se digo que é impossível obtê-la? Já o disse. O leitor o sabe. O leitor pode também alegar que há uma “proximidade do rabo suficiente para tornar as coisas justas”, ou ponderar que inexiste “medida melhor”. Discordarei até o final, mas reconheço que minha voz não é estridente o bastante para calar as ontologias dessas preferências, as motivações singulares de cada um. Adoraria um mundo em que houvesse mais e mais vozes desafiantes como a minha… Atenção!

Há uma confusão muito grande entre dois pares de coisas que me faz preferir a rasura da minha assinatura do contrato. Eis os pares: condicionamento/incondicionamento, sujeito/predicado. Há razões lingüísticas e históricas para crer que o mundo moderno erra ao propor dicotomias o tempo inteiro. A idéia de que há alguém para ser responsabilizado por uma “cena” precisa ser afastada. Tradicionalmente, devido à individualização das relações sociais, há sempre um autor para uma ação, sempre um sujeito para um predicado. É até difícil de engolir, para uma proporção extremamente elevada desta “realidade competitiva” que se diga que a distinção entre eu e outros e entre pessoa e meio não é correta! Não existem pessoas. Pessoas são palavras. Houve enormes equívocos na relação entre ser (sujeito) e objeto (entenda como mundo) que amalgamaram a vivência. Os “autores do contrato” (não cairei no erro de buscar um rabo de cobra, mas preciso ser sintético) são gerações sucessivas de filósofos que partiram de pressupostos convenientes ao dogma cristão, por sua vez associado a condições que surgiram no falecimento do mundo grego… Percebe como eu poderia seguir para trás até chegar a lugar algum? Esta foi uma caçada sinuosa a um apetitoso rabo. Pois bem, nos atenhamos na parte frontal do comboio: considero filósofos como Platão, Kant, os existencialistas do século XX e alguns outros no decorrer da linha do tempo como contribuintes deste modo de pensar. Porém não os quero prender, nem mesmo malograr! Queria mostrar a gênese do sentimento de culpa.

Tais pensadores propõem o pensamento, a razão humana, como algo incomensuravelmente único, pertencente ao sujeito, inalienável. Através dessa razão efetuam-se inter-relação ser-ser e ser-objeto. Efetuam-se predicados advindos de um ser. Não há predicado sem ser. O cristianismo coloca coisas inexplicáveis a cargo de uma entidade chamada deus. O homem moderno deixa deus um pouco de lado (para intervir somente quando cômodo) e convoca o Estado e mecanismos de “impessoalidade” para representar um grande número de pessoas como se fossem uma só (o Brasil como uma pessoa de 200 milhões de “rostos”). O autor do mundo é deus. O mundo é o predicado de um sujeito. O crime é o predicado do criminoso. Alguém comete, alguém é responsável. O ser tem a primazia. Mas o que é o ser?

Este debate está ficando muito extenso! Nunca vou resolvê-lo com propriedade magnânima se não estiver da espessura de um livro, mas eu disse que seria um ensaio singelo. Singelo no sentido de que não deve ser muito longo, embora não seja breve para o que um leitor gostaria de ler. Nunca se tem tempo para ler. Um blog de uma pessoa nada ilustre, então…

Eu falei de Deus. Ou deus. Existe também um par que ingressa agora no jogo, o condicionado/incondicionado. Tudo que é cobra, ou filamento de cobra, evento envolvido num emaranhado de outros, sendo causa de uns tantos e causador de outros mais, é condicionado. Só se pensa existir um autor para uma quebra de contrato porque alguém promove uma ação. Ações sempre estão ligadas a sujeitos delimitados, no mundo moderno. Pode parecer estranho, mas nem sempre foi assim. No mundo grego talvez não se dissesse “somos três pessoas”. Poder-se-ia contá-las, mas não no sentido que conhecemos. Seríamos parte de um todo indivisível. O incondicionado respeita essa idéia. O mundo é o caos. Qualquer tentativa lógica de pintar suas motivações redunda em fracasso, insuficiência. Nada está em relação com nada na medida em que tudo está em relação com tudo. Digamos que o grego ainda assuma que a teia de eventos e fatos seja uma cobra, uma cobra das grandes, mas que o homem grego não age como caçador de cauda. Se se pensa que tudo tem uma origem, há o problema da origem em si: o primeiro fato, a primeira ação, o primeiro ser, quem os trouxe ali? Deus serve para preencher essa lacuna como ninguém no mundo moderno. Pasmem aqueles que não sabiam muito sobre os gregos: eles não precisam de um deus!

Deus é tratado como todo-poderoso, onipotente, essa é sua razão de nos ser afigurável (paradoxo?!). Ele é incondicionado porque está além de qualquer causalismo, é independente e autônomo. Porém, como explicar que proviemos do incondicionado e somos condicionados? Mesmo os extensos poderes da criatura não depõem a seu favor. Na Grécia Arcaica aceita-se o mundo como eu penso que ele seja, um amontoado de caracteres incondicionados. Esbarraremos em perguntas por parte do leitor como “mas então de onde você acha que veio tudo?”. Não ficarei devendo esta resposta, mas devemos continuar até ela ser respondida!

O mundo moderno quer o condicionamento, mas como é complexo e na verdade impossível atingir o rabo da cobra, ele adiciona uma cláusula de incondicionamento ao contrato. Tudo isso para salvar a plausibilidade do binômio sujeito/predicado. Afinal, alguém tem de pagar por ter matado ou roubado alguém, ou antes, as pessoas precisam ser incutidas do medo para se sentirem seguras. Que belo vaivém!

Viu-se que são binômios assimétricos, deficientes. Não andam direito, não estão em compasso. Na Grécia está presente a idéia do incondicionado em sua totalidade, e agora não precisamos nos preocupar com cobras, autores, punições. O que parece punição, ao ocidental contemporâneo, o que faz vezes de castigo, não passa de “fato”, evento desligado de outros antes e depois de sua ocorrência. Chama-se a isso de ética trágica, um substituto do contrato social. Mente quem para me desmoralizar trata seres humanos que não pensam num contrato social como incapazes de viver, de estabelecer existências a longo prazo, viáveis. Além disso, “viável” é diferente aqui e acolá. A ética trágica preconiza que ninguém pode evitar desgraças, porém as desgraças são a chave da existência grandiosa, de quem quer ser lembrado em todos os tempos. Na Grécia clássica (pré-socrática), homem feliz é aquele que está “vencendo todo dia”. Pois, sem contrato, sua exposição a perigos permite que a sucessão de seus dias seja um contraste entre o perder e o ganhar. E o ganhar do grego, o prazer, só pode nascer do perder e do desprazer que lhe são anteriores. Dizem que o mundo ocidental tem um pouco disso: a ética da quantidade de vitórias! Mas isso é uma tendência que só pode se acentuar no futuro. Presentemente, é benquisto deitar-se e acalmar-se, dar-se a si mesmo uma vitória que permaneça. Outra vez já disse que a natureza não gosta de equilíbrios, e isso depõe contra a prática do contrato. Contratos são feitos para serem quebrados, parece saber o advogado, embora neste exato momento ele se acanhe. Parecemos viver em uma ânsia por cometer um crime. Essa vontade é a vontade de ser grego. Penso que minha antipatia pelo contrato já ganhou novos contornos! Pude explicar por um texto que não sou louco, mas apenas um “nostálgico”…

Complementarmente, para evitar buracos neste texto, me adensarei em alguns pontos. Se quiser, pode me abandonar. Intuo que eu esteja sendo interessante e você não vai partir.

Kant e seu imperativo categórico são as maiores salvaguardas da ética não-trágica, quer seja, da culpa e do contrato. Diz esse imperativo ele que a felicidade está em Deus ter fundado o mundo para que respeitemos uns aos outros, vivamos em comunhão. Persisto em que essa é uma prática maléfica que humilha o homem…

Eu diria que o mundo grego não é mais fraco por não ter um Deus. Antes, ele tem vários deuses. Mas esses deuses não são morais, não se preocupam com imputar autoria de ações a ninguém, tampouco se ocupam minutos que sejam com aquelas letrinhas pequenas de contratos… É uma liga poderosa. Já o Ocidente possui uma perna só. Para mim, o único alicerce da construção chamada “nosso mundo” é a palavra culpa. Se ela fenecer, todos os contratos serão cancelados.

Vou tentar convencê-lo a se juntar a mim e me encaminhar para a intrincada resposta que prometi (“mas então, de onde veio tudo?”). Mas para isso preciso fugir um pouco do assunto: conheci um homem – não pessoalmente – que antecipou todas as descobertas das ciências naturais no século XX, mesmo pertencendo ao século XIX e sendo um filósofo. Seu nome era Friedrich Wilhelm Nietzsche. Ele não é muito reconhecido pelos seus feitos. Sua principal descoberta foi que a natureza não existe, tal como pensamos, de forma absoluta. Ela não é o que ela é. O que vemos não pode ser, não existe a verdade, fixa, se quisermos chegar à VERDADE DAS COISAS. Nietzsche desvendou como ninguém as armadilhas da verdade. Podemos dizer que se trata de uma cobra. Quando dizemos que alguém é um criminoso pensamos estar enunciando uma verdade. Nietzsche resgatou o espírito grego e foi capaz de perceber que a verdade não pode nem QUER ser apanhada. Este é o problema: para que o rabo? Na verdade, antes que seja um desconsolo, seu enunciado é um consolo: “O único motivo da existência é não seguir qualquer motivo”. Não sei como imaginar uma vida que caminha para um propósito rijo no horizonte. Pode o indivíduo que lê se pensar como condicionado, realmente? A sociologia faz isso, tem essa missão. Ciência das mais recentes, sua principal sobrevivência é negar o livre-arbítrio individual, porque ela se escora na existência de uma sociedade onde tudo é “causado”. O velho papo do rabo… Anulando-se a individualidade em plena sociedade que valoriza supremamente o indivíduo, chega-se a uma crise irreversível. E pensar que o sujeito está sozinho é naufragar. O melhor é ser grego e entender que não existe indivíduo ou não-indivíduo. Está tudo misturado. De quem é a culpa, se a sociologia se encarrega de buscar as razões pela ocorrência de crimes? O leitor tem esperanças de que eu admita a captura da cauda da serpente? Não! A sociologia não se resolveu com essa culpa, com esse “bode expiatório”. Ou se resolveu, a sua maneira: se tudo está entrelaçado e o criminoso cometeu a ilegalidade devido a circunstâncias sociais, e estas nasceram de outras, que por sua vez nasceram da natureza em evolução, que por sua vez principiou-se do cosmos, que nasceu a dado momento de algum ato, o único culpado é este ato 1. O ato 1 é a criação do universo por Deus. Agora descortinei este deus: aparenta todo-poder, é todo-desgraça. O ocidental, o homem moderno, culpa a existência por um ato criminoso. Se o sujeito supremo é deus, todos os predicados são seus crimes. E o pior é que a autonomia do indivíduo se subjuga a ser predicado, ou seja, ao zero. É uma engenharia completamente falha. A vida no contrato social parece um teatro horroroso do qual não se pode escapar: cadê o autor da peça? O homem não é mais digno no momento em que se revolta contra o autor do contrato que julga ser imprescindível sem saber quem ele é e sem saber por onde começar a rasgar a peça jurídica; e caso ele entenda tudo o que eu disse, tem vergonha por seus pares, que não o farão, impossibilitando que ele mesmo seja um perfeito grego. Ser grego é ser deus, neste aspecto. Se tudo se imbrica, que se assuma a responsabilidade por tudo e por nada ao mesmo tempo!

Essencialmente, na natureza não existe nada que não se contradiga. Um criminoso é uma figura sempre ambígua. Um átomo é ambíguo. Nada é preciso. A vida é uma dança, um enigma, que nunca quer ser descoberto. Uma cobra não sibila reta. O fenômeno não existe em si. O próprio fenômeno é uma perspectiva. O mundo é muito mais rico do que aparenta. Não significa que nada seja real, mas que existe uma realidade para cada observador, e elas se sobrepõem, formando uma cornucópia impensável para o melhor dos criadores. Por isso o mundo não possui um autor. Como por trás de uma perspectiva há sempre uma criação ou ensaio de sentido, o Ocidente disso se aproveita para instalar a culpa. O Júri é uma instância observacional tão rica quanto qualquer pessoa, mas se diz acima de todas elas para julgar o ato como foi. Ora, não existe ato como foi! Além do mais, atos são atos e não podem ser negados. Tudo no cosmo se afirma. Crimes (que só recebem esse nome porque há sujeito – sem o ser, tudo são atos, apenas criminosos, apenas não-criminosos ou tão-somente atos puros, sem distinção, de qualquer forma) são atos. Irreversíveis. Apesar de existir o que se possa chamar de vingança, a vingança é um ato recomeçado. Não pode existir um centro de onde emana uma “punição”. Esta instância central está cometendo aí um crime, mas o homem não precisa se eximir de cometê-los e assistir o cometimento de ilegalidades de forma indireta. É uma prisão, uma revolta gerada pelo contrato e pelo conceito do Deus uno.

Para encerrar, um adágio em homenagem aos gregos, que acertaram, porque ao não pensar num contrato atingiram a imortalidade: “algo para ser eterno tem de acontecer só uma vez”. O universo é um anel, não uma cobra! Sua cauda é sua cabeça, sua origem é a mesma coisa que o seu desfecho. Este o enigma supremo do universo, porém eu não o descobri: enunciar uma verdade é perdê-la no instante em que ela sai das entranhas, para ser adotada de diferentes prismas, sempre em mutação, sempre em passos de dança. Agora a resposta “de onde veio tudo”: não acredito num deus que nos criou, em Kant, no contrato e na covardia. Eu acredito em uma economia invertida, em que o máximo esforço gera os menores resultados, e em que todos fazem o máximo de esforço. Há que haver riqueza. Quem possui mesmo a riqueza, riqueza de vida, tem o bastante para dar sem pedir nada em troca. Eu acredito que o universo jamais começou a começar e jamais cessará de terminar, embora ele comece e termine nalgum dia, para os que nele estão. Ele reverbera indefinidamente… Creio que a natureza seja traiçoeira e magnífica o suficiente para se ter engendrado isso: assim, jamais foi o “nada” e jamais rumará para um fim fixo, apenas se auto-afirmará perpetuamente… No anel, posso inverter o espaço-tempo, não existe antes e depois, e dizer que eu nasci porque neste momento de minha vida, aos 20 anos, decidi que devia nascer…

A INDIFERENÇA VOTACIONAL E O PROBLEMA DA UNIVERSIDADE (PÚBLICA OU OUTRO MODELO QUALQUER)

Republicação de artigo de 19/09/2008. Alterações apenas cosméticas nos grifos.

Ouso afirmar que o dilema do ensino superior no Brasil (Terceiro Mundo)¹ não reside em pontos abordáveis por qualquer campanha partidária e que o jovem que não vota pouco tem a ver com isso: antes, diria que aquele que se compraz em votar intensifica o problema!

¹ Não autorizo a interpretação de que “elogio” sistemas de “Primeiro Mundo” ao fazer desde o primeiro parágrafo uma crítica tão-somente ao “nosso mundo”, mas, como veremos abaixo, ao menos nestes lugares há uma maior qualidade no atendimento de serviços básicos, até para o cidadão que pode contribuir com muito pouco. De qualquer modo, ao avançar em minha argumentação deixo claro que não salvo países, muito pelo contrário: condeno todos os Estados.

Apesar da democracia se apresentar como o sistema menos inadequado de gestão do povo – ou de instituições –, sua controvérsia por excelência (eu diria “pouca vergonha”) é que constrange o indivíduo à participação, por uma rede de meios.

Em uma democracia de último tipo é absolutamente incorruptível o direito do cidadão ao alheamento. Vê-se que os direitos ativos são prometidos e não mais que parcialmente cumpridos: todos, constitucionalmente, teriam acesso à informação; não é o que acontece. Além disso, posso questionar o valor da informação em uma sociedade do espetáculo de massa. Poderia questionar qualquer tipo de serviço do Estado. Há dúvida em se o esgoto é melhor do que a falta de saneamento. Em uma grande cidade, certamente é uma bela solução provisória; mas o problema dos detalhes hiberna e ressuscita à frente. Paralelamente, posso apontar pequenas povoações em que a ausência de encanamentos representa facilidade de vida e bem-estar, porque o lixo de poucas casas não chega a agredir o meio ambiente. Aliás, povoados mais isolados e que não sucumbiram à tara da industrialização não possuem o que se pode chamar de lixo. Ilustrativamente, o tão danoso plástico é algo industrial. Nenhum indígena poderia “poluir” a natureza, no sentido que nós mesmos criamos para nossas porcarias… Nada essencial para o aborígene fica mil anos em deterioração como uma lata de Coca. E, cá entre nós, quer lugar mais imundo que o subterrâneo citadino? Porém, interrompamos esta última parte da digressão!

Eu me referia ao direito ao alheamento: a priori, é mais simples de fazê-lo valer do que a demagogia ou falácia da “benesse para todos” (os exemplos citados da televisão e jornais e do sistema de esgoto). Isso porque não há dependência econômica, não se lida com recursos escassos. O indivíduo que não incomoda a liberdade do próximo para desfrutar a sua, dando predileção à TV desligada, ao jornal na lixeira (não que o problema do excesso de lixo seja seu!) e à indiferença quanto à prestação de serviços pelo governo (“eles não recolhem meu lixo, em contrapartida eu não pago impostos”), é o modelo preciso do cidadão que quer e pode, segundo a lei, “alienar-se” do coletivo. Vê-se que, em verdade, apesar de uma ou outra baixa na receita, gostos voltados para a misantropia são apreciáveis da ótica do Estado. Basta não o olhar, o dispêndio zero, e a administração quita com suas obrigações para com o sujeito; o sujeito adora esta situação, está de acordo. Há reciprocidade, mutualidade. A democracia permite acordos tácitos em que “ninguém se mexe para não perturbar e não ser perturbado”. Assim como, não esqueçamos, jamais veda o caminho de quem quer participar, custe o que custar. O mundo perfeito!

Não obstante, essa é apenas a descrição normativa básica do paradigma democrático: não se sustenta após observações. O quadro real apresenta incongruências nos dois pólos: o cidadão ativo é submisso ao Estado e dele não recebe “recompensas” o suficiente (o que, aliás, produz em muitos a vontade de tornarem-se passivos); o cidadão passivo não consegue “não agir”. Disserto aqui sobre este segundo malefício, limitação congênita de democracias até onde as conheço. Em suma, pedimos ao poder central para não participarmos, aceitando as conseqüências (por mais que nos digam que tal atitude é prejudicial, fazemos um balanço interno e consideramo-la uma postura vantajosa!), no entanto a “máquina” não aceita nossa escolha. A falha clamorosa é que o Estado declara respeitar essa vontade de omissão; mas, na prática, pune o omisso (para não falar do ativo). Portanto, a afronta à liberdade é clara e venho por meio deste manuscrito denunciá-la. É verdade que esse meu ato se afigura como “luta ativa”, mas direciono-o tão-somente ao círculo mais próximo com o intuito de explicitar os motivos irrefutáveis de minha não-participação nas eleições da UnB, evidenciando uma crível superioridade da passividade em relação à atividade.

a) Findo este PRELÚDIO, adentremos o concreto.

De volta à universidade subdesenvolvida e votantes e não-votantes, observo que ontem, no campus Darcy Ribeiro, dia 18 de setembro de 2008, no último dia do primeiro turno para eleição do novo reitor, havia uma forte pressão, proveniente dos fiscais ou ativistas das chapas concorrentes (dir-se-ia, antigamente, “massa de manobra da inteligência”; dir-se-ia, por estarmos onde estamos, que eles SÃO a intelligentsia; mas me recuso – são ovelhas!), para quem ainda não havia votado e não demonstrava ímpeto para tal, votar. Uma pressão indevida e onipresente nos corredores do Minhocão: dificilmente se é indulgente ao ponto de vista de que “alienar-se” do processo eleitoral é já, em si, uma escolha. Argumenta-se, do lado de lá, que “sempre é melhor exercer seu voto”. Eu não compartilho desta tese. Todavia, exceto por esta carta, não tento demover quem pensa diferentemente de mim. Aí está o intenso paroxismo do “espírito democrático”.

b) Razões menos abstratas de “por que não voto” e da situação periclitante da universidade em relação profunda com a ruína do Ocidente² (e com a mediocridade da população, resultado dos impulsos democráticos):

² Ocidente, neste contexto: modelo desenvolvimentista, mundo moderno, crença no Iluminismo e preponderância do espírito apolíneo na condução das vidas (Idealismo, a vida fora da vida!).

O problema mais profundo é o SISTEMA ELEITORAL. É o MEIO URBANO. É a SOCIEDADE OCIDENTAL em todos os seus pressupostos. Devo dizer que enquanto perdurarmos neste modo infecundo de viver não VOTAREI. NUNCA votarei, pois o correto é não votar. A seguir exponho razões individuais para não ter votado ontem:

Meu peso é nulo – em escala de Brasil, DF, UnB e mesmo em uma sala – geralmente defendo o indefensável para a moral que vigora; penso que se fossem somente eu e mais dois, eu seria provavelmente a minoria. Mas independentemente de uma personalidade avessa à mediania ou não, há total irrelevância do cidadão que vota. Note-se que eu sou um. Nunca vi uma eleição ser definida por um voto. Qualquer votante fervoroso sabe que não muda o menor estilhaço do espectro político. Corneteiros, que querem transformar seu voto em cem votos, pelas mãos e cabeças dos outros, são uma figura proibida na eleição politicamente correta (pois é dela que trato aqui – não preciso citar quem fere as liberdades individuais, quem age por interesses segundos, sempre a serviço de um poderoso, ou do candidato que mexe pauzinhos para se auto-eleger… Essas condutas são óbvias, qualquer um constata, e já demonstram per se a falência do ideal democrata… E eu aqui bancando o SALVACIONISTA… Nem deveria discutir com vocês!). Porém, mesmo para a eleição definida por UM voto, sua responsabilidade é nula, acredite. Como alguém poderia dizer “se eu votasse na legenda adversária, o resultado seria integralmente diferente”, todos os demais o poderiam! Isso implica que a responsabilidade é indizivelmente dividida. Não sobra nada. Nunca se é responsável, é a conclusão. A democracia é uma fuga da responsabilidade! Parece que não se vive, é um desperdício votar… Se ainda não se convenceu, devo explicar o mecanismo “democrático” da Universidade de Brasília: o mais votado pelos estudantes/professores/funcionários (e é muito mais sadio pensar que professores escolhem um reitor ao invés de jovens inconseqüentes em curto estágio por estas bandas) não é automaticamente eleito. Na verdade, longe disso. Mesmo os dois candidatos de segundo turno podem ficar alijados da cadeira de reitor. As eleições servem apenas para que seja submetida uma lista tríplice ao Ministério da Educação, que adotará os próprios critérios. Anula-se ainda mais um peso individual que tangia ao zero! Em suma, eu, pelo menos, tenho coisas muito mais terríveis e homéricas com as quais me preocupar – uma delas é o que fazer no domingo eleitoral se não tem futebol na tevê nem se vota para vereador ou prefeito em Brasília…

Há obscuridade e interesses vis em cada um dos candidatos. Pouco pude conhecer destes renomáveis senhores e seus vices, nas páginas de jornais internos. Mas não só pode haver parcialidade por parte do jornalista como fica clara a vacuidade de cada programa. Todos bastante homogêneos entre si, parece ser o detalhe de uma barba grisalha ou de um sorriso ameaçador os fatores decisivos na escolha do aluno. E pelo que pude perceber, todas as candidaturas eram irregulares! Panfletagem em locais proibidos e posse de empresas privadas, coisas inconstitucionais… Não se vota em ladrão! O mais grave mesmo é o amontoado de santinhos e filipetas, que poderia ir para o lixão e ser tratado (reciclado), mas que devido ao recomeço da estação de chuvas escorreu em grosso para os esgotos, amplificando o problema já tratado mais acima.

Uma universidade não pode primar pela democracia, é um lugar para relações hierárquicas. A universidade não é uma coisa engraçada? O conceito de uma instituição superior de ensino em si já muito me assusta, e ainda mais a micro-democracia em algo que exige tamanha verticalidade (professor x aluno). Tenho pena de quem panfletou em nome do 70 e alguma coisa… A universidade não tem lugar em meu cardápio de estimas porque está imbricada em uma legião de equívocos: “mercado de trabalho”, “boletins de desempenho” e “intenso convívio com PADRÕES” são aviltamentos indizíveis à vida!

Proponho eu a varredura completa. A universidade terá sempre, nestes moldes, um limite baixo de recursos. Os “revolucionárias da reitoria” não o desfrutarão: o capital inundará as engenharias. Por mais que seja reconstruído por pessoas diferentes (José Geraldo?), seu sucateamento é inevitável. Vivemos em uma nação herdeira de uma filosofia perfeita de “como tornar almas miseráveis”. A UnB não muda sem que mude primeiro o sistema-mundo. Mas num sistema-mundo transcendido (adequadamente!) inexistem universidades… Não quero melhorar a UnB porque quero destruí-la – eis a minha essência. Sou um verme latente. Uma larva que hiberna antes de amadurecer e inocular seus filhotes nos bebedouros – todos beberão e serão arruinados, se fracos. Haverá também muito veneno do esgoto, este mundo de porcalha próprio dos ocidentais!

POR QUE A PROSTITUIÇÃO JAMAIS ESTEVE TÃO PRESENTE APÓS A CRISE DA INSTITUIÇÃO DO CASAMENTO NO OCIDENTE HODIERNO

Este texto foi originalmente redigido e publicado em meu primeiro (e extinto) blog, em 07/10/08. Eu tinha 20 anos. Hoje, mesmo que ainda concorde com maioria do que foi dito, não me expressaria da mesma forma.


Artigo dedicado a

colegas de discussão, em especial o Thomas

qualquer um que discorde dos métodos do professor Luiz Gusmão

os fãs de artigos bem-escritos

e, finalmente, às corajosas namoradas de quem primeiro ler (obviamente, homens)


Na página 8 de Filosofia do Amor, Georg Simmel nos brinda com a seguinte passagem: “(…) é fatal que um aumento de cultura acarrete uma necessidade maior de prostituição”, no que foi desqualificado peremptoriamente pelo cânone do magistério de Sociologia da UnB, Gusmão, em sala de aula repleta de alunos. O professor defende que a variável “flexibilidade da moral”, em 100 anos, tornou a afirmação obsoleta. Não é verdade. Ela jamais foi tão válida e referendada pelo quadro social. O “empirismo neo-platônico” gusmoniano falhou mais uma vez. Em sua decadência que recrudesce, o Ocidente continua sendo unidimensional neste aspecto. Jessé Souza, autor da Introdução a Simmel e a Modernidade, me inspirou a contra-atacar  minha cátedra, pois palpavelmente compartilha de meu ponto de vista.

Até que haja rupturas galopantes da moral (“bons costumes”) e da justiça (e respectivos “tribunais imparciais”) haverá crescimento de prostituição e elevação de crimes.

Há visivelmente um paralelo que elucida a compreensão da massificação da sujidade feminina, que é a correspondente explosão da criminalidade, sobretudo de crimes periféricos, como é o caso do roubo de um pote de margarina. Há crimes brandos e crimes graves; bem como há a prostituta clássica e a fêmea de hoje em dia (uma “mulher da vida em doses homeopáticas”).

Quando Simmel fala que homicídios eram tributados com módicas multas, subentende-se que “crimes não eram valorizados em uma sociedade arcaica”. Essa leitura ocidental despreocupada com a desconstrução de categorias é nefasta, erro crasso. Matar não era considerado crime, eis o sensato. Todo crime tribal é hediondo. Quem praticar o incesto ou cozinhar um animal-totem será castigado com a morte. O crime era sempre grave. Mas era episódico. Hoje um ato ilegal é coibido de maneira mais macia – o que não evita a pecha de marginal – e sua prática se alastrou bastante.

Hoje, aceita-se muitas “depravações leves”, contra o quadro anterior¹ em que poucas ações (ou se se quiser mulheres) eram depravadas porém estas eram notórias e suportavam a carga apenas entre elas. Houve então uma “democratização” da vadiagem, o que está longe de simbolizar o afrouxamento moral.

¹ Sociedades ágrafas, Antiguidade e idade média.

O tabu é tão vigoroso que na sala de aula é benquisto ao professor homem disfarçar suas opiniões sobre o assunto. A mulher negará até o último momento ou mesmo não compreende o panorama.

Quanto mais fervilha a economia especulativa, mais se enxergam essas vicissitudes. A questão dos relacionamentos sexuais precoces que serviriam para evitar que o mancebo recorresse a prostitutas antes do casamento é um incidente que não atrapalha a teoria – muito pelo contrário: com a instituição do matrimônio em crise irreversível, sobra má-fama para todas. Inexiste qualquer pureza de espírito na mulher contemporânea em sua infinidade de sub-moldes.

Antes, a fogueira como punição da desonra. Hoje, cochichos. Quanto mais dinheiro, maior a força da propriedade. Mais sórdido é o caráter da exclusão social – os status de marginal/trombadinha e mulher que se vende tornam-se insuportáveis. Acirra-se o contraste. E ao mesmo tempo é impossível para cada homem não ser ladrão de vez em quando ou para cada mulher não agir feito puta. Isso não sou eu quem inventou: está nas ruas. Nunca a palavra de quatro letras foi tão empregada. Na sociedade das prostitutas, a mãe daquela que esqueceu por segundos de ser pudica é fortemente coagida pelo verbo. A proliferação da categoria das fêmeas que rodam a bolsa as está tornando sinônimo do grupo social, mais abrangente, “mulher” – engolindo o gênero feminino tal qual buraco negro. A castidade passou a ser encarada como mito. Houve a ampliação descomunal do conceito. O pote de margarina, banal, disseminado, me evoca a não menos freqüente menina-sabão. “Menina” que é de nítido caráter inocente, conjugado com o instrumento básico de limpeza nos lares e cuja função é escorregar, de mão em mão se for preciso. A limpeza vira sujeira quando se ensaboa os homens. Estranha palavra híbrida ocidental pós-moderna…

Se nem todas chegam a tanto (ser uma “menina-sabão”), pelo menos se diz que “tem cara de”, “se parece com uma”, “está agindo feito uma”, ou é insinuante em algo, se veste de maneira que provoca. Seja como for, algum pecado a moça tem! Obviamente, ele é produzido pelas relações de dinheiro. Certo é que o fenômeno não desapareceu, mas se fortaleceu. Quanto mais dinheiro, mais os valores da dignidade humana se degradam.