Republicação de artigo de 19/09/2008. Alterações apenas cosméticas nos grifos.
Ouso afirmar que o dilema do ensino superior no Brasil (Terceiro Mundo)¹ não reside em pontos abordáveis por qualquer campanha partidária e que o jovem que não vota pouco tem a ver com isso: antes, diria que aquele que se compraz em votar intensifica o problema!
¹ Não autorizo a interpretação de que “elogio” sistemas de “Primeiro Mundo” ao fazer desde o primeiro parágrafo uma crítica tão-somente ao “nosso mundo”, mas, como veremos abaixo, ao menos nestes lugares há uma maior qualidade no atendimento de serviços básicos, até para o cidadão que pode contribuir com muito pouco. De qualquer modo, ao avançar em minha argumentação deixo claro que não salvo países, muito pelo contrário: condeno todos os Estados.
Apesar da democracia se apresentar como o sistema menos inadequado de gestão do povo – ou de instituições –, sua controvérsia por excelência (eu diria “pouca vergonha”) é que constrange o indivíduo à participação, por uma rede de meios.
Em uma democracia de último tipo é absolutamente incorruptível o direito do cidadão ao alheamento. Vê-se que os direitos ativos são prometidos e não mais que parcialmente cumpridos: todos, constitucionalmente, teriam acesso à informação; não é o que acontece. Além disso, posso questionar o valor da informação em uma sociedade do espetáculo de massa. Poderia questionar qualquer tipo de serviço do Estado. Há dúvida em se o esgoto é melhor do que a falta de saneamento. Em uma grande cidade, certamente é uma bela solução provisória; mas o problema dos detalhes hiberna e ressuscita à frente. Paralelamente, posso apontar pequenas povoações em que a ausência de encanamentos representa facilidade de vida e bem-estar, porque o lixo de poucas casas não chega a agredir o meio ambiente. Aliás, povoados mais isolados e que não sucumbiram à tara da industrialização não possuem o que se pode chamar de lixo. Ilustrativamente, o tão danoso plástico é algo industrial. Nenhum indígena poderia “poluir” a natureza, no sentido que nós mesmos criamos para nossas porcarias… Nada essencial para o aborígene fica mil anos em deterioração como uma lata de Coca. E, cá entre nós, quer lugar mais imundo que o subterrâneo citadino? Porém, interrompamos esta última parte da digressão!
Eu me referia ao direito ao alheamento: a priori, é mais simples de fazê-lo valer do que a demagogia ou falácia da “benesse para todos” (os exemplos citados da televisão e jornais e do sistema de esgoto). Isso porque não há dependência econômica, não se lida com recursos escassos. O indivíduo que não incomoda a liberdade do próximo para desfrutar a sua, dando predileção à TV desligada, ao jornal na lixeira (não que o problema do excesso de lixo seja seu!) e à indiferença quanto à prestação de serviços pelo governo (“eles não recolhem meu lixo, em contrapartida eu não pago impostos”), é o modelo preciso do cidadão que quer e pode, segundo a lei, “alienar-se” do coletivo. Vê-se que, em verdade, apesar de uma ou outra baixa na receita, gostos voltados para a misantropia são apreciáveis da ótica do Estado. Basta não o olhar, o dispêndio zero, e a administração quita com suas obrigações para com o sujeito; o sujeito adora esta situação, está de acordo. Há reciprocidade, mutualidade. A democracia permite acordos tácitos em que “ninguém se mexe para não perturbar e não ser perturbado”. Assim como, não esqueçamos, jamais veda o caminho de quem quer participar, custe o que custar. O mundo perfeito!
Não obstante, essa é apenas a descrição normativa básica do paradigma democrático: não se sustenta após observações. O quadro real apresenta incongruências nos dois pólos: o cidadão ativo é submisso ao Estado e dele não recebe “recompensas” o suficiente (o que, aliás, produz em muitos a vontade de tornarem-se passivos); o cidadão passivo não consegue “não agir”. Disserto aqui sobre este segundo malefício, limitação congênita de democracias até onde as conheço. Em suma, pedimos ao poder central para não participarmos, aceitando as conseqüências (por mais que nos digam que tal atitude é prejudicial, fazemos um balanço interno e consideramo-la uma postura vantajosa!), no entanto a “máquina” não aceita nossa escolha. A falha clamorosa é que o Estado declara respeitar essa vontade de omissão; mas, na prática, pune o omisso (para não falar do ativo). Portanto, a afronta à liberdade é clara e venho por meio deste manuscrito denunciá-la. É verdade que esse meu ato se afigura como “luta ativa”, mas direciono-o tão-somente ao círculo mais próximo com o intuito de explicitar os motivos irrefutáveis de minha não-participação nas eleições da UnB, evidenciando uma crível superioridade da passividade em relação à atividade.
a) Findo este PRELÚDIO, adentremos o concreto.
De volta à universidade subdesenvolvida e votantes e não-votantes, observo que ontem, no campus Darcy Ribeiro, dia 18 de setembro de 2008, no último dia do primeiro turno para eleição do novo reitor, havia uma forte pressão, proveniente dos fiscais ou ativistas das chapas concorrentes (dir-se-ia, antigamente, “massa de manobra da inteligência”; dir-se-ia, por estarmos onde estamos, que eles SÃO a intelligentsia; mas me recuso – são ovelhas!), para quem ainda não havia votado e não demonstrava ímpeto para tal, votar. Uma pressão indevida e onipresente nos corredores do Minhocão: dificilmente se é indulgente ao ponto de vista de que “alienar-se” do processo eleitoral é já, em si, uma escolha. Argumenta-se, do lado de lá, que “sempre é melhor exercer seu voto”. Eu não compartilho desta tese. Todavia, exceto por esta carta, não tento demover quem pensa diferentemente de mim. Aí está o intenso paroxismo do “espírito democrático”.
b) Razões menos abstratas de “por que não voto” e da situação periclitante da universidade em relação profunda com a ruína do Ocidente² (e com a mediocridade da população, resultado dos impulsos democráticos):
² Ocidente, neste contexto: modelo desenvolvimentista, mundo moderno, crença no Iluminismo e preponderância do espírito apolíneo na condução das vidas (Idealismo, a vida fora da vida!).
O problema mais profundo é o SISTEMA ELEITORAL. É o MEIO URBANO. É a SOCIEDADE OCIDENTAL em todos os seus pressupostos. Devo dizer que enquanto perdurarmos neste modo infecundo de viver não VOTAREI. NUNCA votarei, pois o correto é não votar. A seguir exponho razões individuais para não ter votado ontem:
– Meu peso é nulo – em escala de Brasil, DF, UnB e mesmo em uma sala – geralmente defendo o indefensável para a moral que vigora; penso que se fossem somente eu e mais dois, eu seria provavelmente a minoria. Mas independentemente de uma personalidade avessa à mediania ou não, há total irrelevância do cidadão que vota. Note-se que eu sou um. Nunca vi uma eleição ser definida por um voto. Qualquer votante fervoroso sabe que não muda o menor estilhaço do espectro político. Corneteiros, que querem transformar seu voto em cem votos, pelas mãos e cabeças dos outros, são uma figura proibida na eleição politicamente correta (pois é dela que trato aqui – não preciso citar quem fere as liberdades individuais, quem age por interesses segundos, sempre a serviço de um poderoso, ou do candidato que mexe pauzinhos para se auto-eleger… Essas condutas são óbvias, qualquer um constata, e já demonstram per se a falência do ideal democrata… E eu aqui bancando o SALVACIONISTA… Nem deveria discutir com vocês!). Porém, mesmo para a eleição definida por UM voto, sua responsabilidade é nula, acredite. Como alguém poderia dizer “se eu votasse na legenda adversária, o resultado seria integralmente diferente”, todos os demais o poderiam! Isso implica que a responsabilidade é indizivelmente dividida. Não sobra nada. Nunca se é responsável, é a conclusão. A democracia é uma fuga da responsabilidade! Parece que não se vive, é um desperdício votar… Se ainda não se convenceu, devo explicar o mecanismo “democrático” da Universidade de Brasília: o mais votado pelos estudantes/professores/funcionários (e é muito mais sadio pensar que professores escolhem um reitor ao invés de jovens inconseqüentes em curto estágio por estas bandas) não é automaticamente eleito. Na verdade, longe disso. Mesmo os dois candidatos de segundo turno podem ficar alijados da cadeira de reitor. As eleições servem apenas para que seja submetida uma lista tríplice ao Ministério da Educação, que adotará os próprios critérios. Anula-se ainda mais um peso individual que tangia ao zero! Em suma, eu, pelo menos, tenho coisas muito mais terríveis e homéricas com as quais me preocupar – uma delas é o que fazer no domingo eleitoral se não tem futebol na tevê nem se vota para vereador ou prefeito em Brasília…
– Há obscuridade e interesses vis em cada um dos candidatos. Pouco pude conhecer destes renomáveis senhores e seus vices, nas páginas de jornais internos. Mas não só pode haver parcialidade por parte do jornalista como fica clara a vacuidade de cada programa. Todos bastante homogêneos entre si, parece ser o detalhe de uma barba grisalha ou de um sorriso ameaçador os fatores decisivos na escolha do aluno. E pelo que pude perceber, todas as candidaturas eram irregulares! Panfletagem em locais proibidos e posse de empresas privadas, coisas inconstitucionais… Não se vota em ladrão! O mais grave mesmo é o amontoado de santinhos e filipetas, que poderia ir para o lixão e ser tratado (reciclado), mas que devido ao recomeço da estação de chuvas escorreu em grosso para os esgotos, amplificando o problema já tratado mais acima.
– Uma universidade não pode primar pela democracia, é um lugar para relações hierárquicas. A universidade não é uma coisa engraçada? O conceito de uma instituição superior de ensino em si já muito me assusta, e ainda mais a micro-democracia em algo que exige tamanha verticalidade (professor x aluno). Tenho pena de quem panfletou em nome do 70 e alguma coisa… A universidade não tem lugar em meu cardápio de estimas porque está imbricada em uma legião de equívocos: “mercado de trabalho”, “boletins de desempenho” e “intenso convívio com PADRÕES” são aviltamentos indizíveis à vida!
Proponho eu a varredura completa. A universidade terá sempre, nestes moldes, um limite baixo de recursos. Os “revolucionárias da reitoria” não o desfrutarão: o capital inundará as engenharias. Por mais que seja reconstruído por pessoas diferentes (José Geraldo?), seu sucateamento é inevitável. Vivemos em uma nação herdeira de uma filosofia perfeita de “como tornar almas miseráveis”. A UnB não muda sem que mude primeiro o sistema-mundo. Mas num sistema-mundo transcendido (adequadamente!) inexistem universidades… Não quero melhorar a UnB porque quero destruí-la – eis a minha essência. Sou um verme latente. Uma larva que hiberna antes de amadurecer e inocular seus filhotes nos bebedouros – todos beberão e serão arruinados, se fracos. Haverá também muito veneno do esgoto, este mundo de porcalha próprio dos ocidentais!
