O QUE ARISTÓTELES E STEPHEN HAWKING TÊM EM COMUM? Um pouco sobre a contenda edipiana Física x Metafísica: Mal-entendidos comuns entre uma e outra, do ponto de vista filosófico, passando por figuras ilustríssimas como Von Humboldt, Freud e Alfred Jarry!

A razão, as leis, etc., são algo abstrato, mas o racional, como algo que se realiza, é reconhecido por nós como necessário, e por isso não damos grande importância a tais leis gerais.” Hegel

A física aristotélica é o que os físicos de hoje chamariam metafísica da natureza, pois nossos físicos só nos falam do que viram e dos finos e delicados instrumentos que construíram, mas não do que pensaram.” Hegel

Se aquilo que investigo é uma causa situada no mesmo campo do condicionado e dou Deus como resposta, digo mais do que me proponho a dizer, ainda que esta resposta sirva para tudo, já que a causa de tudo é, evidentemente, Deus; mas o que eu me proponho é a descobrir o entroncamento determinado entre os fenômenos que investigo. Por outro lado, neste campo já o próprio conceito é algo de superior; este ponto de vista superior com que nos encontramos em filósofos anteriores [os pré-socráticos, para quem Física e Metafísica eram uma só e a mesma coisa, e que se interessavam por especular sobre as causas primeiras da criação do mundo] aparece completamente abandonado por Epicuro [séculos IV e III a.C.], já que este pensador, ao voltar as costas à superstição, desdenha também de outras conexões fundadas por si mesmas e pelo reino das idéias em sua totalidade.”

Hegel, acusando Epicuro de não ser um filósofo, mas sim um físico (com efeito, o pai da física moderna – e essa atribuição é justíssima). É que Hegel estava mais interessado no suprassensível (ou em uma de suas modalidades, a Metafísica). Podemos igualmente dizer que físicos que especulam sobre Deus se comportam como Hegels no tempo e no campo errados – desrespeitam, assim, o legado de seu mentor indireto, Epicuro.

IMPORTANTES DISTINÇÕES PRÉVIAS À LEITURA:

Filosofia, Filosofia Continental, Primeira Filosofia ou Metafísica: tudo isso são palavras para uma mesma coisa. São hoje consideradas ou uma visão clássica da filosofia, aquela que nasceu primeiro, ou um de seus campos atuais, o tronco principal de que emanam as inúmeras ramificações contemporâneas.

filosofia, em inicial minúscula, servirá aqui para eu me referir à: 1) filosofia como um todo, quando quiser falar ao mesmo tempo da filosofia antiga e da filosofia do tempo presente; 2) filosofia como praticada pelo menos a partir de Descartes (século XVII), não sendo Metafísica propriamente dita, ou seja, uma filosofia secundária, menos importante.

Irei me referir à Física, em letra maiúscula, quando falar especificamente da Física clássica (que aprendemos na escola), e à física, em minúscula, no sentido mais lato de qualquer física, ou então da física atual, a partir da relatividade geral e especial de Einstein (iniciadas no ano de 1905).

Um último dado preliminar: a Física moderna nasceu como um dos ramos da Filosofia Primeira, a filosofia da natureza, na época epicuréia. Como nem todos conhecem Epicuro, vale também dizer: Aristóteles, que dedicou vários livros ao que ele já chamava de Física, exerceu grande influência sobre Epicuro e poderia sem escândalo dividir a honra de “Pai da Física” com este.

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Nas três passagens acima, que traduzi de Hegel (séculos XVIII e XIX) em suas Lições sobre a História da Filosofia, o autor alemão fala da nulidade da importância dos conceitos de forças da natureza (como a gravidade ou o eletromagnetismo) para a Filosofia, tanto na Metafísica de Aristóteles, o primeiro a realmente abordar o assunto (forças físicas) de um modo que ainda repercute na modernidade, quanto em si mesmo (e passando, entre um e outro, por toda tentativa séria de filosofar, em verdade). Ambas as disciplinas, a Filosofia e a Física, já estiveram bem-delimitadas uma em relação à outra, coexistindo mais ou menos harmoniosamente por séculos. Mas o que acontece hoje com a física e a Metafísica, que mais do que nunca as pessoas parecem confundir e permutar o tempo todo?

Poderíamos facilmente ilustrar esse mal-entendido grosseiro, tão típico de nossos dias, citando aqueles que tentam filosofar através da física, chegando a resultados risíveis de ambos os lados. Einstein e Stephen Hawking, por exemplo: eles não chegam à compreensão do que seja Metafísica em nenhum de seus trabalhos ou declarações em que se aventuraram fora da física (ainda que não tenham chegado a saber disso). Nem avançaram um milímetro que fosse no conhecimento da física através dessas excursões em relação ao seu ofício cotidiano, por mais que tenham imaginado que abandonar por um instante os experimentos e os cálculos matemáticos e aventar hipóteses sem fundamento fosse de algum modo enriquecer o conhecimento científico da humanidade e arejar as próprias cabeças um pouquinho.

Sim, estes senhores, para não falar em outros, se puseram a teorizar e especular de rédea solta, sem muito compromisso nem método, sem medo também de esbarrar no terreiro dos vizinhos… Mas que tem de mal nisso? Deixem os cientistas se divertirem em seu tempo livre – afinal, não é essa a idéia que se faz do filósofo metafísico? A de alguém que viaja na maionese, sem critério, sem rigor, sem acabrunhamentos e tensões, num passatempo tão leve e arbitrário que nos parece incrível que alguns seres humanos sejam até mesmo pagos para isso?! Seria grave que físicos dessem seu juízo acerca “dessas coisas”, ou pelo menos tão grave quanto quando um filósofo desavisado desembestasse por um laboratório de ciência empírica de ponta, a ele cem por cento estranho, tentando resolver problemas complicados de verdade, como os físicos? Será que procede essa caricatura da Metafísica?

Primeiro, voltemos aos físicos Einstein e Stephen Hawking. O primeiro deles afirmou que “não faz sentido que a matéria ou energia subatômica apresente comportamentos aleatórios ou irracionais (como descobriu a física quântica de seu tempo), pois Deus não joga dados” – e por isso ganhou pôsters, flashes e louvores. Trocou cartas com Sigmund Freud, um “especialista nas forças morais do inconsciente humano” sobre a paz mundial e o fim das guerras em plena década de 1940. Sigmund Freud, chamado de Pai da Psicanálise e Descobridor do Inconsciente, que por sinal se tornou um dos maiores, senão o maior, ícones dentre os pensadores do século XX. Hoje muito mais que nos anos 50 discute-se seriamente seu status. A palavra inconsciente, (re)descobriu-se, é imemorial nas línguas conhecidas; e até mesmo o sentido particular de parte oculta da consciência no homem foi sendo (re)descoberto em autores cada vez mais recuados, até mesmo em Homero ou Sófocles, por exemplo. Mas, para ficarmos apenas com aqueles que entraram em bastantes detalhes técnicos a respeito, temos Platão, que até escreveu um livro sobre as vontades inconscientes de seu mestre Sócrates reveladas à própria consciência em sonhos à véspera de sua morte! Acontece que no princípio do século XX se dizia que Freud desvendou pela primeira vez o mecanismo dos sonhos; nunca antes na História um homem atribuíra significado racional às representações oníricas! Mitos à parte, estamos nos afastando cada vez mais do mundo real, perdão, da celeuma entre físicos e metafísicos, que é o tema do ensaio. Enfim, podemos dizer que Einstein recebeu crédito exagerado por contribuições um tanto pobres no assunto “divagações metafísicas”, ou pelo menos o que ele mesmo e os jornais chamariam de Metafísica. Tampouco é nosso objetivo incluir a religião na discussão, então deixemos o Deus de Albert Einstein que nunca jogou RPG de lado até onde pudermos e comentemos um pouco sobre o outro sujeito, Hawking.

Uma das personalidades mais conhecidas deste século tão eclético que nos deixou há 20 anos (o século, não o cientista, que morreu mais recentemente), Hawking era, paradoxalmente, um daqueles de quem se poderia dizer que “ninguém sabe direito o que ele faz”; mas todos diziam, ao mesmo tempo, sem constrangimento: “O que ele faz é ótimo; ele é como nenhum outro nisso que faz!”. Autor de alguns livros best-sellers para leigos como O Universo numa casca de noz e Uma breve história do tempo, este senhor – conhecido por ter vivido quase toda sua vida de contribuição à ciência hardcore confinado à cadeira de rodas, em luta contra uma doença degenerativa, e retratado comicamente com voz de robô e um QI astronômico (com o perdão do trocadilho) no inconfundível tom de pele amarelo (em mais de um episódio!) d’Os Simpsons – resolveu se arriscar até além de seu antecessor e colega de profissão Einstein: afirmou textualmente que “os filósofos deviam abandonar suas investigações sobre o universo e conceitos complexos como o tempo e o espaço, que a física de hoje demonstrou serem muito mais complexos que a percepção cotidiana permite julgar, relegando este tipo de conhecimento profundo exclusivamente aos verdadeiros especialistas.

Não é irônico que a mãe da Física seja assim (re)tratada pela nova física (a do século XX)? Não diria irônico, socrático e mordaz, mas trágico: numa reedição de folhetim do Édipo-Rei de Sófocles, desta vez transgênero para ser mais inclusivo e combinar com a pós-modernidade! Eis o enredo: A tirânica e esclerosada Rainha Sofia, que em seus anos áureos havia dado a luz a sua filha Neon Physis, vê-se agora vítima de um assassinato a sangue frio perpetrado pela própria princesa, que quer ascender ao trono, já madura o suficiente para expor suas justas razões e executar o ato sangrento que estava prescrito como bula de remédio nas estrelas (ato desta vez deliberado, ao contrário da cena na peça grega, em que Édipo ignorava a identidade de seu pai; talvez o único homem da peça revisitada seja, aliás, um acelerador de partículas, que podia fazer a voz do Coro; e não há nenhum sexo, afinal estamos falando de físicos e filósofos). A física não precisa mais de sua mãe, ela apenas tolheria suas possibilidades infinitas!

Hawking declamou muitas outras besteiras, mas não só contra os filósofos: no próprio reino da física. E tantas que eu jamais sonharia enumerá-las todas num só artigo: disse que provavelmente depois da explosão final do universo tudo voltaria a acontecer ao contrário, como uma fita rebobinando, e depois desdisse o que disse; escreveu que deve haver túneis por aí chamados buracos de minhoca que possibilitem viagens no tempo; calculou que há umas 22, 23, talvez menos, talvez mais, mas dificilmente mais do que umas 28 ou 29 dimensões enroladas, além das 4 em que vivemos (comprimento, largura, altura e tempo)… Recomendo que googlem se quiserem saber de mais dessas curiosidades mórbidas que figurariam tranqüilamente num excelente episódio de Arquivo X. Enquanto ainda temos estômago, entretanto, deveríamos nos perguntar: como ele chegou à exatidão-nem-tão-exata-assim destas “20 e poucas dimensões invisíveis e indetectáveis”? Ele não questionou a origem de dados observados, instrumentos de mensuração, os limites atuais dos milagres detectáveis em seu laboratório? Afinal, ele ainda deveria basear suas hipóteses superiores à mundana mente filosofal em ocorrências do mundo real, traduzíveis em certos números registrados por sofisticados equipamentos, e em posteriores e exaustivas equações que trabalham a conjugação de vários desses números, de forma dinâmica e sem dúvida bastante nuançada, mas… – nem é exatamente essa a questão aqui! Stephen Hawking foi um grande profissional em sua área (física teórica) apesar das saídas de tom, e até um brilhante matemático (eis aí duas especialidades, um flagra de proto-polimatismo!), e não queremos insinuar que tenha enganado dolosamente toda a comunidade científica (e leiga) ao longo de todos esses anos, como sem dúvida fez Freud. Hawking enganava-se a si mesmo quando dizia mais do que os dados permitiam…

Só o que eu queria é relembrar como algumas figuras pitorescas são tratadas por meios de comunicação de massa como “grandes filósofos” sem que a própria imprensa e seus receptores parem para pensar direito no que é que está sendo veiculado! O que sabemos do status cult ou lendário destes neo-gurus midiáticos que vêm das ciências exatas mais criptografadas ao leigo é que a palavra “sábio” ainda dá conta de resumir este fenômeno. E eles não são chamados apenas de físicos sábios, senão de sábios no sentido antigo, mais amplo e nobre da expressão, abarcando em suas mentes supostos conhecimentos completos acerca de toda a existência, ou pelo menos de muitas das ciências reunidas. Esse tratamento é, aliás, inevitável, haja vista que não há filósofos – no verdadeiro sentido da palavra – no jornalismo, nem no público leitor ou expectador da imprensa popular. Falamos aqui do leitor que participa, se engaja, aceita. Não se trata de que metafísicos não assistam TV, não leiam reportagens bobinhas. Não critiquem quando lhes dá na telha, ou finjam aprovação tácita, indiferença, ou incompreensão o tempo todo. Não, todos possuem reações demasiado humanas. Mas se eles realmente fossem o público visado, certas empresas estariam com sérios problemas financeiros. O metafísico está entre nós, ele vê o que nós vemos, ele reage!… Mas metafisicamente falando, será que ele está mesmo presente na discussão? Ou ele deixa que estas coisas o atravessem, e passa adiante, igualmente despercebido por todos nós?

A rigor, gênios, cunhados corretamente e no sentido de polivalente e imensamente sábios, não podem mais existir desde um certo consenso no meio erudito de que tornou-se impossível, de um tempo para cá, o surgimento de novos polímatas. Eu citei “proto-polimatismo” há dois parágrafos. O que viria a ser isso? Polimatia é o domínio de vários campos do conhecimento simultaneamente pelo mesmo sujeito. As duas principais razões para eles terem sido extintos como os dinossauros seriam: a) o afastamento cada vez maior e mais acelerado entre ciências exatas e humanas; e b) o enorme volume de informação, metodologias e técnicas acumulado em cada macroesfera do saber, o que veio a tornar quase impraticável a competência simultânea em, digamos, 2 ou 3 sub-áreas ou especialidades de uma mesma profissão, quem dirá de outras. Um bom exemplo: um doutor em sociologia da arte está virtualmente fadado a pesquisar só em sociologia da arte sua carreira inteira, o que seria bastante eclético até, se considerarmos que poderíamos estar falando de um doutor em sociologia da arte renascentista exclusivamente devotado a Dante e Petrarca!

Algum debate há se Von Humboldt – contemporâneo da Revolução Francesa – foi um gênio, talvez uma palavra um pouco forte para usar sem reservas. Mas decerto ele foi um polímata com todas as letras, que é um “gênio atenuado”. Leonardo da Vinci, p.ex., é um gênio de fato, canonizado pela historiografia. Viveu mais de 200 anos antes de Humboldt. Desnecessário demonstrar que, se polímatas não mais existem, gênios também não passam de artigos de museu para nós. Já era algo raro além da conta até o Renascimento italiano! Einstein e Stephen Hawking – olha eles de novo! – definitivamente não pertencem a esse panteão sagrado: são tipos completamente diferentes de ocorrências individuais muito mais inofensivas (proeminentes apenas no seu único campo de origem), cuja fama histriônica, em comparação com os gênios (quando essa palavra não tinha sido completamente corrompida) só se justifica por vivermos numa sociedade da informação e da popularização de clichês e do besteirol com selo de credibilidade.

Houve já, para não dizer que se trata de uma crítica assimétrica e parcial de um filósofo analisando essa dicotomia, filósofos que tentaram devorar a Física por meio da filosofia, despindo-a de qualquer propósito ou função num mundo conhecível sob diferentes formas: o positivismo comteano é o melhor exemplo que poderíamos encontrar. Hoje ninguém em condições aceitáveis de saúde mental lê Auguste Comte a sério (virou curiosidade pitoresca, entretenimento excêntrico).

Via de regra, o que se estuda do fenômeno (realidade observável) do ponto de vista da Filosofia (a quem não interessa o como nem o quê) não tem qualquer relação com as leis da Física, assim como o que se estuda na física que não tenha a ver com a realidade observável (matéria escura ou fenômenos que a física não compreende até o momento) não passa de pseudometafísica até se fundamentar descritivamente. Não há o instrumental para responder a perguntas tais quais por quê? e para quê? em larga escala na disciplina. “Como é?” Pode-se responder por que um lápis cai da mesa na velocidade e na trajetória em que cai quando projetado por uma força determinada, sem dúvida. Mas nada se tem a dizer sobre o relojoeiro deste mundo mecânico (a causa primeira). Existe o modelo, fundamento e completo, mas nada fora dele. A Física aceita-se como cápsula do real: por contrato, não pode exceder esses limites e continuar sendo chamada de Física, fora da cápsula.

O achatamento do debate e a autocensura gradual neste terreno epistemológico (discutir o que a Física está destinada a responder ou não, o que estou fazendo aqui) levam, inclusive, à falsa convicção, por parte, digamos, de colegiais, de que só há duas possibilidades para descrever a chamada causa primeira: ou o Big Bang ou o Gênese bíblico. Pré-formatam todo o horizonte cósmico-cognitivo do indivíduo. Ou mecânica ou fé na revelação. Enunciar que um deles é apenas um modelo teórico implicaria em ser um retrógrado fundamentalista religioso; negar a Criação divina, por outro lado, implicaria em defender a tese de homens de jaleco que fazem o que ninguém na vida cotidiana compreende ao certo… Percebe onde eu quero chegar?

Não se trata meramente de “não invadir espaços” entre um campo e outro, e que filósofos e físicos devam “saber se respeitar”, mas do enraizamento de um estereótipo, que acaba por contaminar até mesmo grandes físicos ou metafísicos. Cria-se a ilusão de que um dos lados pode acessar a causa primeira sem qualquer ajuda externa. Como disse, vou deixar a religião de lado neste ensaio. Quanto à Física, ela jamais se propôs a responder aos para quê? fundamentais. Alguns físicos (cada vez mais deles) se esquecem disso! Passam a estudar de forma completamente outra (desautorizados pelo método) todas as coisas que um campo tende a especificar em sua definição precisa como seu interesse (usam o método da Física fora do que o próprio método da Física prescreve que deveria ser estudado, transgridem sua ética, violam um tabu). Trocando em miúdos, usam o método objetivo criado a duras penas por várias gerações como bem entendem (física freestyle, sem Leis da Física)!

A rigor, a Física e a Metafísica são investigações que não guardam, desde a Antiguidade, qualquer analogia entre si, porém estarão sempre em justaposição e invadindo uma o terreno da outra, se por “terreno alheio” considerarmos “a realidade observável e as hipóteses de fundo dessa mesma realidade”. Para explicar de forma mais simples (ou não!): o físico pode pensar que raciocina de forma puramente “científica” ou “exata” sobre o espaço (seu objeto de estudo) mas, se houver um resquício de vício que seja em sua noção, interpretará que um filósofo que raciocine sobre o espaço estará invadindo sua competência. Ora, sobre o que o filósofo poderia raciocinar se “tudo” é espaço? No mesmo sentido, quando um físico elabora hipóteses baseado em implicações indiretas do estudo do espaço, é fácil dar uma de Hawking e avançar para especulações que não tem nada de metódicas – o filósofo teria o direito de chamá-lo de desavisado invasivo, porque também tece hipóteses cuja base só pode ser a realidade observável. Então o que o físico hipotetizaria, se tudo além da simples aparência se baseia em abstrações?!

Resumindo, o “espaço” faz parte tanto da Física quanto da Filosofia; e o “não-espaço” é divagado pela Física em sua metodologia limitada, tanto quanto é o cerne ancestral da Metafísica, mas, entendendo-se bem, o tempo e o espaço da filosofia não têm qualquer relação com o espaço-tempo físico. O difícil é “entender bem”! As abstrações da ciência física acerca do que jaz além do mundo observável também não guardam qualquer relação com o conceito de essência na Filosofia. Teorias sobre forças unificadoras das equações da física ou da origem dos buracos negros, ou hipóteses que ensaiem a comprovação ou a refutação da termodinâmica, e suas implicações,¹ são apenas metateorias da física, que não são desautorizadas nem autorizadas pela Filosofia.

¹ Propositalmente não desci às ilustrações mais imbecis e charlatãs: entre aquelas divulgações de avanços na física – que em realidade eu atribuo mais aos departamentos de física legitimamente incompetentes ou ‘colunas de fofoca’ da imprensa de divulgação científica marrom, e isento o pesquisador individual do papelão – consideras rainhas da comédia, a ganhar repercussão em manchetes sensacionalistas, incluo as habituais (acho que já li 3 vezes em 10 anos coisas assim) “descobertas sem precedentes da última semana” como: “Nosso Prof. Dr. X. de Harvard (ou Oxford?) chegou ao veredicto de que ‘o tempo não existe’!”; “Veja como o Instituto de Física de Bruxelas descobriu que o universo roda exatamente como um filme!”… Ora, os físicos quânticos são muito ingênuos: desde o começo dos tempos se afirma que o tempo não existe! É tempo de parar com esses passatempos!

Ao mesmo tempo, a Filosofia séria não se mete a cálculos de Física e, se ultimamente se embrenha em paradoxos da física quântica¹ e da química contemporânea, ela o faz tão-somente da perspectiva de sua própria agenda. Qualquer um que transgrida esses limites em seu ofício de origem será censurado pelos especialistas atentos do “outro lado” (acusado de fazer pseudofísica ou pseudometafísica), ou, felizmente e o mais das vezes, pelos próprios colegas de disciplina. Só não entendo como ainda hoje vejo tão poucos físicos levantando a voz contra Stephen Hawking! Quem sabe com o tempo…

¹ Nem tudo é descascamento e destruição de reputações: esta nota de rodapé vai em homenagem a alguns dos grandes físicos recentes que souberam derivar, com dignidade e brilhantismo, conclusões filosóficas de suas descobertas experimentais, como Werner Heisenberg, Max Planck e Erwin Schrödinger! Só não esperem que eles respondam qual é o sentido da vida!

O escritor francês Alfred Jarry, morto aos 34 anos em 1907, cunhou o termo patafísica. Ele corresponde estranhamente bem ao estereótipo que se tem da Metafísica nos séculos XX e XXI: patafisicar é viajar na maionese, sem peso na consciência nem troca de jaleco, a “ciência das soluções imaginárias”, com ou sem conotações políticas, inclusive! Todos nós estamos convidados a patafisicar sem medo nem contra-indicações! Alguns usam o tubo, eu uso o ensaio, poderia dizer um reencarnado Jarry. A Metafísica, ao contrário, ainda que muitos leigos “não saibam o que os metafísicos façam” segue como um importante terreno de estudo e discussão da condição humana e dos ingredientes fundamentais desta: ética, estética, e a própria crítica do sentido da filosofia.

Sem dúvida o dano colateral causado por físicos pseudofilosóficos é relativo: nenhum estrago sensível, apenas certa erosão cultural após grande acumulação de besteiróis isolados. Que fique bem claro, porém: filósofos também não conseguiriam produzir nem detonar nenhuma bomba nuclear ao meterem o nariz longe de sua própria seara – jogo empatado, no fim de contas! O mundo não vai girar melhor nem se comportar diferente amanhã, a grama do vizinho não estará mais cinza ou mais vivaz por conta dessas intromissões, ou ao cessarem essas intromissões. Mas, graças a esse texto, quem não sabia, agora soube: deuses físicos jogam dados, sim senhor; deuses metafísicos? há que perguntar-lhes primeiro!; enrolar ou desdobrar dimensões conceituais é coisa para especialistas (hegelianos e afins); físico não é chefe de seção no “IML dos cadáveres epistemológicos”, decidindo quem ou o quê morreu e distribuindo competências ao deus-dará à sociedade inteira; e, por fim, você soube também – ou relembrou – que Freud foi uma fraude.

Mas e quanto à pergunta inaugural – esqueci-me de a responder? O que Aristóteles e Stephen Hawking têm em comum? Eles não têm nada – era só um título bonito e chamativo.