F. García Lorca
DIC:
gazua: chave grande; invasão muçulmana.
fífia: tom desafinado
mantilha: manto senhoril, faixa; quase sempre associado ao luto e à religião.
farronca: fanfarrão; bravata; mesma coisa que bicho-papão em Portugal.
CRIADA
“Apodrece, António Maria Benavides, esticado no teu fato novo, com as tuas botas de montar. Apodrece! Nunca mais me levantarás as saias, atrás da porta do curral.”
“Senhora!”
BERNARDA
“Menos gritos e mais obras. Os pobres são como os animais. Parecem feitos de outra carne.”
“As mulheres na igreja não devem olhar senão para um homem, o oficiante, e esse porque tem saias. Voltar a cabeça, só para a esconder no capuz.”
“Porque nos 8 anos que vai durar o luto não entrará nesta casa o vento da rua.”
MARTÍRIO
“Pois não. Mas as coisas repetem-se. A vida não é mais do que uma repetição terrível. A Adelaide nasceu com a mesma sina da mãe e da avó, ambas mulheres do homem que lhe deu a vida.”
“Que lhes importa a eles a fealdade! Aos homens o que lhes interessa é a terra, os bois e uma cadela submissa que lhes dê de comer.”
MADALENA
“Naquele tempo a vida era mais alegre. Uma boda durava 10 dias e não havia tanta má-língua. Hoje, há mais luxo, as noivas põem véus brancos, como nos casamentos da cidade, e bebe-se vinho engarrafado, mas estamos para aqui a apodrecer com medo do que os outros dizem.”
“AMÉLIA (a MADALENA)
Tens os cordões do sapato desapertados.
MADALENA
Não me importa.
AMÉLIA
Podes pisá-los e cair.
MADALENA
Era uma a menos!”
“Já aos 20 anos parecia um pau de vassoura vestido. O que não será agora com 40!”
BERNARDA
“Pois tiveste a coragem de pôr pó de arroz na cara? Tiveste a coragem de lavar a cara no dia da morte de teu pai?!”
LA PONCIA
“os homens, 15 dias depois de casados, trocam a cama pela mesa, e depois a mesa pela taberna, e as mulheres que não se conformam que apodreçam a chorar para um canto.”
“Então o Pepe fará o que fazem todos os viúvos desta terra: casará com a mais nova, a mais formosa, que és tu.”
“MARTÍRIO
Estou desejosa de que chegue Novembro, os dias de chuva, a geada, tudo que não seja este Verão interminável.
AMÉLIA
Há-de passar e voltar outra vez.”
BERNARDA
“Não lhe deves fazer perguntas. E de pois de casar, muito menos ainda. Responde quando ele te falar e olha-o quando ele te olhar. Assim evitarás muito desgosto.”
“ADELA
Não gostas das estrelas?
MARTÍRIO
A mim as coisas que se passam para cima das telhas são-me indiferentes. Bem me basta o que se passa dentro das casas.”
BERNARDA
“Se nesta casa crescessem ervas, já para cá terias trazido, a pastar, todas as ovelhas da vizinhança.”
LA PONCIA
“Olha, quando mal se espera é que cai o raio.”
MARIA JOSEFA
“Bernarda,
cara de leoparda,
Madalena,
Cara de hiena.
Ovelhinha!
Mééé, méééé.
Vou lavar as tuas fraldas”
“Martírio, cara de Martírio. Quando é que tens um filho? A mim nasceu-me este.”
“Antes ter uma ovelha do que não ter nada.”
“Tens razão. Está tudo tão escuro! Como tenho o cabelo todo branco, pensas que não posso ter filhos, sim, filhos, filhos e mais filhos. Este há-de ficar com o cabelo branco e ter um menino, que por sua vez terá outro, e todos com o cabelo de neve, e seremos tal qual as ondas do mar, umas atrás das outras, umas atrás das outras. Depois, todos sentadinhos, com o cabelo muito branco, ficaremos como a espuma. Por que não há aqui espumas?! Aqui só há vestidos de luto!”
ADELA
“Podem perseguir-me todos os que se julgam honestos! Nada me importa! Serei eu mesma a enterrar na cabeça a coroa de espinhos das amantes dos homens casados.”
BERNARDA
“A palha é a cama das desgraçadas!”
“Tirem-na da corda! A minha filha morreu virgem! Levem-na para o quarto e vistam-na como uma donzela. Nem uma palavra do que se passou! Morreu virgem! Ouviram?!”
