(para referência específica em Inglês, vide citação de Jakobson em https://seclusao.art.blog/2018/09/29/translation-studies-susan-bassnett-3a-ed-2002/) “A palavra portuguesa queijo não pode ser inteiramente identificada a seu heterônimo em russo corrente, syr, porque o requeijão é um queijo, mas não um syr. Os russos dizem prinesi syru i tvorogu, <traga queijo e (sic) requeijão>. Em russo corrente, o alimento feito (partícula inidentificável no escrito, presumivelmente “com”) coágulo espremido só se chama syr se for usado fermento.”
“dicionários e gramáticas bilíngües diferenciais”
“DENEGRINDO” AS PRÓPRIAS ORIGENS: “Nos primeiros anos da revolução russa, existiam visionários fanáticos que advogaram, nos periódicos soviéticos, uma revisão radical da linguagem tradicional, e em particular a supressão de expressões enganosas como o <nascer> e o <pôr>-do-Sol. Entretanto, continuamos a empregar essa imaginária ptolomaica, sem que isso implique a rejeição da doutrina copernicana”
“na recente língua literária dos Chunkchees do nordeste da Sibéria, <parafuso> é expresso por <prego giratório>, <???> por <ferro duro>, <estranho> por <ferro delgado>, <giz> por <sabão de escrever>, <relógio> (de bolso) por <coração martelador>.”
“Não há ruído semântico no duplo oximoro [expressão paradoxal] cold beef-and-pork hot dog (<cachorro-quente frio de carne de vaca e de porco>).”
Um ministro tão absurdo quanto um oximoro.
“Quando traduzimos a sentença em português <ela tem irmãos> para uma língua que distinga o dual e o plural, somos obrigados, ou a escolher entre duas orações: ela tem dois irmãos – ela tem mais de dois irmãos, ou a deixar a decisão ao ouvinte, e dizer: ela tem dois ou mais de dois irmãos. Da mesma forma, se traduzimos de uma língua que ignora o número gramatical para o português, somos obrigados a escolher uma das duas possibilidades – irmão ou irmãos – ou a colocar o receptor da mensagem diante de uma escolha binária: ela tem um ou mais de um irmão.”
“Para traduzir corretamente a sentença inglesa I hired a worker (<Contratei/Contratava um operário/uma operária>), um russo tem necessidade de informações suplementares – a ação foi completada ou não? o operário era um homem ou uma mulher? – porque ele deve escolher entre um verbo de aspecto completivo ou não-completivo – nanial ou nanimal – e entre um substantivo masculino ou feminino rabotnika ou rabotnicu. Se eu perguntar ao enunciador da sentença em inglês se o operário é homem ou mulher, ele poderá julgar minha pergunta não-pertinente ou indiscreta, ao passo que, na versão russa dessa mesma frase, a resposta a tal pergunta é obrigatória. Por outro lado, sejam quais forem as formas gramaticais russas escolhidas para traduzir a mensagem inglesa em questão, a tradução não dará resposta à pergunta de se I hired ou I have hired a worker, ou se o operário (ou operária) era um operário determinado ou indeterminado (<o> ou <um>, <the> ou <a>). Porque a informação requerida pelos sistemas gramaticais do russo e do inglês é dessemelhante, achamo-nos confrontados com conjuntos completamente diferentes de escolhas binárias; é por isso que uma série de traduções sucessivas de uma mesma frase isolada, do inglês para o russo e vice-versa, poderia acabar privando completamente tal mensagem de seu conteúdo inicial.”
“No Instituto Psicológico de Moscou, em 1915, um teste mostrou que russos propensos a personificar os dias da semana representavam sistematicamente a segunda, a terça e a quarta-feira como seres masculinos, e a quinta, a sexta-feira e o sábado como seres femininos, sem perceber que essa distribuição era devida ao gênero masculino dos três primeiros substantivos (pone-del’nik, vtornik, četverg) que se opõe ao gênero feminino dos outros três (sreda, pjatnica, subbota). O fato de a palavra que designa sexta-feira ser masculina em certas línguas eslavas e feminina em outras reflete-se nas tradições populares dos respectivos povos, que diferem em seu ritual da sexta-feira. A superstição generalizada na Rússia, de que uma faca caída pressagia um convidado e um garfo caído uma convidada, é determinada pelo gênero masculino de nož (faca) e pelo gênero feminino de vilka (garfo) em russo.”
O tradutor é um trator (sai esmagando tudo).
O transplantador é um plasmador.
Um intérprete é um tépido [frouxo, insosso, morno, quase frio!] réptil intrépido!
Invasores idiomáticos idioléticos a sangue frio seguindo um fio de mascaragem
Bibliografia:
Boas, General Anthropology
Bohr, On the Notions of Causality and Complementarity
Whorf, Language, Thought and Reality
