1ª PARTE
Mascaramento de imperfeições—exemplo: “Eu não posso. Logo, eu não quero.”
Devidamente transposto no séc. XIX, quando começou a ascender o amor ao nada: “Há no coração humano uma geração perpétua de paixões, de modo que a ruína de uma é quase sempre o estabelecimento de outra.”
“somos muitas vezes firmes por fraqueza e audaciosos por timidez.” (*)
“Os homens odeiam até mesmo aqueles que lhes prestam serviços e deixam de odiar aqueles que os cobriram de ultrajes.”
“a moderação dos homens em seu mais alto grau é desejo de parecer maiores que sua fortuna.” Nem muito feliz nem muito cabisbaixo publicamente: assim espanta-se o mau agouro dos invejosos e a compaixão destrutiva dos piedosos.
“excetuando-se sua enorme vaidade, os heróis são feitos como os outros homens.”
“Nem o sol nem a morte podem ser encarados fixamente.”
(*) Desfecho de Zaratustra: a verdade é que o anfitrião deveria ter sido mais duro com os visitantes desde o início, mas sua reação retardada mostrou ser a melhor de todas. Porque nós, metade tiranos, tiranos do espírito, temos pena dos outros, mas não de nós mesmos. E aí somos cruéis ao máximo com os outros, indiretamente (mas em cheio), assim que ficamos com raiva do nosso próprio sentimento de pena.
MAIS UMA: “O mal que praticamos não atrai tanta perseguição e ódio quanto nossas boas qualidades.”
A diferença entre ciúme e inveja: “merecer” ou não uma coisa. Têm inveja da minha escrita; eu sou enciumado de mestrandos burros.
“Eu quero que você seja feliz!”—quanta maldade nesse desejo!
O mito do amor crescente—talvez os mais nobres sentimentos devessem ficar incomunicáveis.
O orgulho é constante numa vida—o problema é que ele se disfarça em “orgulho silencioso” quando o amor-próprio não é mais exteriorizado, seja porque se o percebeu ofendido e atacado pelos outros, seja porque simplesmente é-se mais virtuoso, e isso encolhe a vaidade e a pavonice: a tranqüilidade da superioridade. Ou seja: palavras viram desprezo. O maior tagarela e prosador torna-se o maior desprezador.
PENA DOS BILIONÁRIOS: “Por diferentes que sejam as fortunas, há, contudo certa compensação de bens e de males que as torna iguais.”
P. 22: o ideal de pobreza dos filósofos; maus do século XVII; do humor.
“Ocorre com o verdadeiro amor o mesmo que com a aparição de fantasmas: todos falam deles, mas poucos já os viram.”
“Um ingrato pode ser menos culpado de sua ingratidão que aquele que lhe fez o bem.”
“É uma espécie de galanteio fazer notar que nunca usamos galanteios.”
Espírito: o enganador. Coração: suas verdadeiras disposições.
“Os defeitos do espírito, como os do rosto, aumentam com a idade.”
“O que mais liberalmente damos são conselhos.”
“fazemos o bem para podermos impunemente fazer o mal.”
“O uso contínuo da astúcia é a marca de um espírito pequeno.”
Talvez possa antecipar a síntese máxima desse livro: que nossa força reside em sermos seres fracos. Sempre obtemos bem mais do que parecemos capazes de fazer. Nós, as pontes, nós os comediantes, nós que tratamos bem a maioria dos interlocutores—não há como não surpreender!
“Há pessoas que jamais teriam se apaixonado se não tivessem ouvido falar do amor.”
“Preferimos falar mal de nós mesmos a não falar de nós.”
“procurar tão insistentemente agradar a si mesmo é um meio equivocado de tentar agradar aos outros ou persuadi-los”
“Um homem de espírito haveria de ficar com freqüência muito embaraçado sem a companhia dos tolos.”
Sob várias formas ao longo do livro: “A natureza faz o mérito e a sorte lhe dá emprego.”
“O que nos leva a apegar-nos a novas amizades não é tanto o cansaço que temos das antigas ou o prazer de mudar, quanto o desgosto de não sermos admirados por aqueles que nos conhecem demais e a esperança de sermos mais admirados por aqueles que não nos conhecem.”
“Esquecemos facilmente nossos erros quando somente nós os conhecemos.”
“Quem vive sem loucura não é tão sensato quanto pensa.”
“A distância diminui as paixões medíocres e aumenta as grandes, como o vento apaga as velas e acende o fogo.”
“Há maus que seriam menos perigosos se não tivessem nenhuma bondade.”
“Por que é que temos bastante memória para reter até nos mínimos detalhes o que nos aconteceu e que não tenhamos bastante para lembrar quantas vezes os contamos à mesma pessoa?”
“Por vezes supomos odiar a bajulação, mas só odiamos a maneira de bajular.”
“É mais difícil ser fiel à amante quando se é feliz do que quando se é maltratado.”
“As mulheres desconhecem toda a sua afetação.”
“O sotaque da região em que nascemos permanece no espírito e no coração, como na linguagem.” (???) P.S.: Como os gaúchos—as gaúchas—são orgulhos@s (vaidosas?) da sua própria voz! Nisso, já beiram a xenofobia…
“O maior milagre do amor é curar da afetação!”
“É muito difícil romper quando a gente já não se ama.”
“Aborrecem-nos quase sempre aqueles com quem não é permitido se aborrecer.”
“Somente as pessoas que evitam causar ciúmes é que são dignas de que se tenha ciúmes delas.”
“O ciúme nasce sempre com o amor, mas nem sempre morre com ele.”
“Sabe-se muito bem que não se deve falar da própria mulher, mas não se sabe suficientemente que menos ainda se deveria falar de si.”
“As violências a que nos submetemos para nos impedir de amar são muitas vezes mais cruéis que os rigores de quem amamos.”
“Quase todos os jovens pensam ser naturais, quando são apenas mal-educados e grosseiros.”
“A inveja é destruída pela verdadeira amizade”
“A violência que nos fazemos para permanecer fiéis a quem amamos não vale mais que uma infidelidade.”
“Ela não era bonita”—a flecha do cupido demora muito até ser retirada.
“Perde-se às vezes o ar burguês no exército, mas nunca na côrte.”—distinguir-se pelo valor, não pela afetação. Talvez fosse o remédio para os mais esdrúxulos dessa classe média candanga, principalmente dessa ralé empertigada dos cursinhos de direito.
“Guarda-se por muito tempo o primeiro amante, enquanto não se arranja um segundo.”
“O que menos se encontra no galanteio é amor.”
A Filosofia é útil para o passado e o futuro, mas não serve para o presente.
Quanto mais distante a perspectiva da qual se observa a vida, menos ela faz sentido. Hoje, aqui, tudo é plenamente coerente.
“As afetadas se sentem honradas com os ciúmes que têm de seus amantes, para esconder que têm inveja das outras mulheres.”
“Poucos sabem ser velhos.”
“As mulheres que amam perdoam mais facilmente as grandes indiscrições que as pequenas infidelidades.”
“Nada impede tanto ser natural que a vontade de sê-lo.”
“É mais fácil conhecer o homem em geral que um homem em particular.”
“Não desejaríamos praticamente nada com ardor, se soubéssemos perfeitamente o que desejamos.”
“Tratamos de nos orgulhar dos defeitos que não queremos corrigir.”
“A velhice é um tirano que proíbe sob pena de morte todos os prazeres da juventude.”
“Nas primeiras paixões as mulheres amam o amante [lato sensu] e nas outras, amam o amor.”
NADA CONSOLADOR: “Por mais raro que seja o verdadeiro amor, é ainda mais raro que a verdadeira amizade.” Eu não usufruí nem de um, nem da outra.
“A vontade de ser lamentado ou admirado constitui muitas vezes a maior parte de nossa confiança.”
CONSOLADOR: “A mesma firmeza que serve para resistir ao amor serve também para torná-lo violento e duradouro e as pessoas fracas, que são sempre agitadas pelas paixões, quase nunca a têm verdadeiramente.”
“A timidez é um defeito perigoso de repreender nas pessoas que queremos livrar dela.”
“Quando temos o coração ainda agitado com o que resta de uma paixão, estamos mais perto de sermos invadidos por uma nova do que quando inteiramente curados dela.”
“Geralmente só se conta o primeiro galanteio das mulheres depois do segundo.”
AFORISMO 500: “Há pessoas tão centradas em si mesmas que, quando estão apaixonadas, encontram meios de se ocupar de sua paixão sem se ocupar da pessoa que amam.”
P. 74: consideração sobre os suicidas e outros. O diário problema da morte. O mais divertido é que a morte em si não existe—mas a reputação é um pós-morte vivido na vida muito importante! Um suicida é, no mínimo, muito mais nobre que qualquer fiel de religião. Porque isso se chama: viver a vida com covardia. Não adianta parasitar um organismo que desejaria ser suprimido dessa maneira anêmica.
2ª PARTE
P. 79: um pouco de História
P. 80: um pouco das possessões e viagens ilustres de La Rochefoucauld
P. 81: sobre a relatividade da beleza—quando as menos belas desbancam as mais belas
As frases da primeira parte ajudam bastante aqui, dados os vocábulos dos quais o autor retira um significado bastante específico e “de época”, como “humor” ou “espírito”; mas, na realidade, é bem provável que estes parágrafos maiores tenham sido escritos antes e aí sim La Rochefoucauld engastou e poliu suas pérolas, já que a arte dos aforismos do sábio é mais bem-elaborada e marcante.
P. 87: a inevitável beleza da espontaneidade infantil
Exatamente o que vinha pensando mais dia, menos dia: o retrato da decadência desta sociedade é que o adulto é sempre feio, não se sente confortável. Educação falha—super-coação dos poucos que tentam prosseguir mais ou menos na mesma marcha harmônica. “Isso é o certo para a sua idade”—padronização extenuante; rejeição das atitudes e hábitos dos bem-nascidos, como intolerância ao seu perguntar incessante, ao seu falar e ao seu contar, risadas a suas observações mais ingênuas. Coação dos próprios moleques já pervertidos a um estilo absolutamente bárbaro e fanfarrão—mesmo Aquiles passaria belos anos de tormenta no mar antes de voltar pintado de ouro, desta socialização que tentou vencê-lo (para não falar de Ulisses). Hoje até os homens são superafetados. “Mantenha a boca fechada, você fica parecendo bobo assim” “Cada um quer ser outro e não ser mais o que é” “Você fica bravo quando escuta música?”—talvez eu lance um CD sampleado com “Vozes do Rebanho—greatest hits”. “Fuleiro buddy” “corta esse cabelo”…
CRÍTICA AO MODERNO: faltam salões amplos.
ILUSÃO DE QUE SE PUDESSE SALVAR ALGUMA COISA: “não temos a força de terminar voluntariamente e, no declínio do amor como no declínio da vida, ninguém pode decidir-se a prevenir os desgostos que deverá ainda experimentar.”
P. 108: homem, o superanimal
P. 119: as semostradeiras e sua paixão por velhos que “já foram alguma coisa”.
“Pode-se ter ao mesmo tempo um ar sério no espírito e dizer muitas vezes coisas agradáveis e alegres” “Os jovens têm usualmente o espírito alegre e zombeteiro, sem o terem sério, e é isso que os torna muitas vezes importunos.”
“Que pessoas teriam começado a se amar se elas se tivessem visto antes como se vêem na seqüência dos anos?”
De 10 a 19 de março de 2011
