[ARQUIVO] A SÉRIE DEFINITIVA DOS FRAGMENTOS FINAIS DE NIETZSCHE

Páginas destacadas e temáticas (ed. UnB):

34. animais, supra-homem.

35. socialismo

36. minorias, pós-modernidade.

38. amor e paixão

39. animais, gênio.

41. grande política, determinismo, números.

63. o gato

66. existencialismo, empirismo.

67. decadência

71. niilismo

74. anti-sistemas filosóficos

75. a solidão da figura do mestre

78. histórico do sofismo, helenismo, enaltecimento de Protágoras.

84. crítica a Schopenhauer

95: obra de arte, caráter anfíbio do artista

97. anti-hedonismo: a dor como supérflua

102. artistas e a loucura

103. classe média como buraco negro

104. sobrevivência da humanidade a longo prazo; budismo.

117-8. o futuro do rebanho, do pastor do rebanho e dos espíritos-livres

123. “avaliação econômica da virtude”; sobre o tédio; elogio a Kant.

125. Simplício e Epicteto

127. sobre cidadãos irrecuperáveis

129. dialética e decadência

141. bem idealista, bem “verdadeiro”

142. o sacrifício de jesus

145. mea culpa sobre A Origem da Tragédia

147. “a grande meta”

148. sonhar como método artístico

150-1: Aristóteles e o erro da catarse; “Arte como contramovimento”; Lobeck, o filólogo; a grande saúde.

155: animais

177: arte é animalidade

178: arte pela arte, como a moralina na arte, é só uma transição necessária

180: previsão dos olimpianos (de Edgar Morin)

185: A Divina Comédia

187: o artista e a forma

188: encurtamento sensório do espaço-tempo

190: feio x terrível

195: que muitas vezes nem o melhor amigo o conhece bem

198: do patriarcado grego

201: Ernest Renan

Com todo crescimento do ser humano em grandeza e estatura, ele também cresce em profundidade e horror: não se deve querer um sem querer o outro”

O gênio é a máquina mais sublime que existe,—portanto a mais frágil.”

não temos classes superiores, portanto também não inferiores: o que hoje se encontra por cima na sociedade está fisiologicamente condenado”

O que são afinal esses dois milênios? O nosso experimento mais educativo, uma vivissecação da própria vida…Dois milênios somente!…”

Todas as opiniões dos outros são suas próprias opiniões.

Os artistas uma espécie intermediária: eles ao menos fixam uma equivalência daquilo que deveria ser—eles são produtivos na medida em que de fato modificam e transformam”

Eu não respeito mais os leitores: como pude escrever para leitores?… Mas eu me anoto, para mim.”

11(81)

— só o vir a ser é percebido, não porém o morrer (?)

–”

Por meio do álcool e do ópio se retroage a estágios de cultura que já se superou (ou ao menos se sobreviveu). Todas as comidas fazem alguma revelação sobre o passado do qual nós nos originamos.”

Ócio é o princípio de toda filosofia.—Portanto—é filosofia uma carga?…”

Não está em nosso arbítrio modificar nossos meios de expressão: é possível entender na medida em que é mera semiótica.”

nosso nariz (…) ainda é capaz de perceber oscilações onde até o espectrógrafo é incapaz”

PASSAGEM MAIS HILÁRIA DA OBRA: “Schopenhauer foi inteligente quando certa vez deixou-se fotografar com o colete abotoado erradamente: com isso ele dizia: ‘eu não pertenço a esse mundo: o que importa a um filósofo a convenção de casas e botões paralelos!… Sou objetivo demais para isso!…’”

Insistentes equivalências entre o kantismo e o hinduísmo.

De certa forma é o caldeirão nutritivo primordial de onde saíram fragmentos e aforismos bem mais desenvolvidos de Vontade de Potência.

O novo sentimento moral é uma síntese, uma ressonância conjunta de todos os sentimentos de dominação e submissão que imperaram na história de nossos antepassados.”

Deus está refutado, não o diabo”

[que] os seletos mais refinados e exigentes se apresentem como débeis e rejeitem os meios mais brutais do poder –” [é uma conseqüência da moral décadent]

a tribulação e a tristeza de todos os raros homens superiores reside em que tudo o que os distingue chega à consciência deles com a sensação de diminuição e ultraje.”

Para a psicologia do idealista: CarlyleSchiller, Michelet.²”

¹ Thomas Carlyle, historiador, filósofo e ensaísta irlandês.

² Jules Michelet, historiador e escritor.

sofrer com as suas circunvizinhanças, tanto em sua louvação quanto em sua condenação, ficando ferido e sentindo-se ignóbil com isso, sem revelá-lo; involuntariamente desconfiado, defender-se do seu amor, aprender a calar, talvez escamoteando-o por meio de discursos [minha vida—laboratório perfeito!], criando subterfúgios e solidões invioláveis para os momentos de sossego, de lágrimas, de consolo sublime—até que por fim se esteja suficientemente forte para dizer: ‘o que tenho eu a ver com VOCÊS?’, e seguir o SEU PRÓPRIO caminho.” Grifos no original!

A moralidade da modéstia é o pior amolecimento daquelas almas para as quais somente tem sentido que elas se tornem duras e empedernidas em certas épocas.”

Contemplamos a andança geral: cada indivíduo é sacrificado e serve como instrumento. Ande-se pela rua como se não nos deparássemos apenas com ‘escravos’. Para onde? Para quê?”

talvez esse ‘assim deveria ser’ seja o nosso desejo-de-dominar-o-mundo –”

Não há aniquilamento no espiritual…”

O determinismo só é prejudicial àquela moral que acredita no liberum arbitrium

Não querer nenhum elogio: faz-se o que é útil para si mesmo ou o que dá prazer ou o que se precisa fazer.”

a uniformidade que toda atividade mecânica acarreta. Aprender a suportar isso, aprender a encarar o tédio como circundado por um halo superior: essa tem sido até hoje a tarefa de todo sistema superior de ensino” “Por isso, o filólofo tem sido até agora o educador por excelência

certa gente se tornou ateísta. Mas será que realmente desistiu do ideal?”

O estar mal-acostumado é mais forte que a irritação dos decepcionados…”

Alguém se torna uma pessoa decente porque é uma pessoa decente”

a conscientização é um sinal de que a moral propriamente dita, ou seja, a certeza instintiva do agir, vai para o diabo que a carregue…”

As assembléias e congregações foram inventadas para fazer coisas para as quais o indivíduo não tem coragem.” “O mandamento do amor ao próximo jamais foi estendido para um mandamento de amar os vizinhos. Antes vige aí o que está em Manu…”

ele é amável, para não ter de ser inimigo”

Uma lagarta entre duas primaveras, na qual já cresce uma pequena asa: —”

e, olhando bem de perto, não há nenhum intelectual mais bem-qualificado que não tenha nos ossos os instintos de um militar virtuoso…” “sendo mais inimigo do mesquinho, do espertalhão e do parasitário que do mal…” “O que se aprende em uma escola rígida? A obedecer e a mandar, —”

esse tapado típico que é o inglês J. St. Mill”

Homero como artista da apoteose; também Rubens. A música ainda não teve nenhum.”

O que em nossa democracia é ridículo: a roupagem negra… a inveja, a tristeza”

A coragem diante de um inimigo poderoso, de uma sublime desgraça, de um problema horrendo – ela mesma é o estado mais elevado da vida, ápice que toda arte do sublime decanta.”

sua avareza de artista protege-os da paixão.” “Não se controlam as próprias paixões só por expô-las: pelo contrário, elas já estão sob controle quando são expostas.”

sem um certo superaquecimento do sistema sexual, nenhum Rafael é concebível (…) castidade é apenas a economia do artista”

Honra um artista ele ser incapaz de crítica…”

O casamento tem tanto valor quanto aqueles que casam”

Nobilitação da prostituição, não extinção”

Tipo ‘Jesus’…

Jesus é o contrário de um gênio: ele é um idiota.”

Paulo não era de maneira nenhuma um idiota!”

Anotações de caráter pessoal:

Quando me sinto esgotado, só me resta dormir. Assim que o logro, o plano suicida já pertence à memória, se desbota, se dilui, e readquiro aquela saúde ousada. Mas a cada ciclo torna-se mais evidente que o esgotamento é algo temporário, reversível, superável. Cultivo de uma calma que anteriormente não havia—essa própria agitação, necessidade de se debater furiosamente, sonâmbula como indício da não-entrega.

Estranho fenômeno o desgaste físico que produz mais energia: cantar um álbum do Metallica, “esfolar-se”, redigir um daqueles textos-manifestos num intervalo crítico de uma tarefa importante… Como se fosse para reorientar um estoque que doutro modo seria improdutivo. Hobbes: acha-se que não mais se suportará um amanhã tão problemático quanto o hoje… Rancor por ser “alugado” por meios exógenos… Kick him when he’s down. Querer cada vez mais o desastre édipo-lírico. Apocalypse Now!

Não há formulação contrária à do vulcão: há acúmulo gradual de energia, de calor, ajuntamento progressivo da lava. Impossível que o jorro fosse tão lento: ele sempre esbanja, faz em segundos o que uma incrível e arcana labuta produziram. O prazer do domínio, a satisfação, só poderia ocorrer caso o acontecimento evidenciasse “sobras”. Há uma assimetria imburlável! Isso é o que eu chamaria sem dúvida de princípio de economia que subjaz em TODOS OS FENÔMENOS. Talvez a Segunda Guerra tenha sido uma orgia equiparável.

O gozo é uma parte mínima do ato de abrir e fechar o prepúcio; a masturbação é um naco ridículo da duração de um dia; o sonho, idem. Diante dos quatro anos de um curso de graduação a farra do trote nada é. Qualitativamente, no entanto, é um marco inesquecível. Copas do Mundo acontecem em um mês a cada 48 meses. A quarta-feira e o domingo valem inteiros pelo jogo de 2 horas. A longa música pelo pequeno riff. A espera pelo almoço devorado. A caminhada pela chegada. A aula pela gargalhada. Todas as aulas por AQUELA aula. Tudo pelo beijo. Toda a tinta da caneta por uma linha sábia. Todo o mês pelo momento de receber o salário. Trilhões de anos por uma era de ouro. Querer que a felicidade dure menos é a chave!

Reclam[ação] é isso: reclamar uma ação.

Os olhos mais cegos são os que mais querem enxergar…

Não há UM salão de dança para os que não dançam…

De 11 a 15 de novembro de 2009

[ARQUIVO] CADÊ OS MESTRES?

O que o professor deve ler para dar suas aulas de sociologia na escola? Esse problema é relacionado—porém não congruente!—com o do material didático que deve ser destinado aos alunos. Que este último deve ser simples, evitar ser prolixo, primar por ser direto e, com o perdão da redundância, “didático”, isto está fora de dúvida. Que deve ter sido feito por um especialista voltado tão-somente para os leigos, sem o ar empolado do cientista, isso acompanha a assertiva anterior. Porém, chegamos a um impasse: o professor não deveria partir do complexo para chegar a esse “simples” e mais acessível? Não vejo como um professor possa se basear em livros-textos para dar suas aulas de sociologia, por mais que elas tenham que ser dadas para pessoas que se baseiam nesses livros! Em outros termos, os professores-sociólogos têm de ler os clássicos/grandes/originais do campo da Sociologia, e depois, sim, pensar numa forma de transmissão que não agrida o cérebro do estudante. Ele não pode partir do “mais conveniente”, precisa mesmo voltar à fonte (não poderia ter esse diploma sem ter lido o que leu durante 4 anos), reentrar em contato com as problematizações sociológicas sem a intermediação de comentadores/abreviadores de raciocínio. A questão, no meu entender, é muito mais grave do que parece quando comparada a disciplinas como a História e a Filosofia, posto que os livros-textos dessas disciplinas já têm um enfoque tradicional: aqueles que começam hoje na labuta diária da classe já possuem uma herança, um arcabouço no qual se basear. Na Sociologia, batem cabeça e não sabem do que tratar ou falam o tempo todo de uma suposta “complexidade” da disciplina que se perdeu nos calabouços e porões onde os indivíduos guardam suas monografias e demais trabalhos acadêmicos, como se isso fosse conservar suas memórias intactas por tantos anos. Se há uma vantagem nesse cenário ainda precário, é que, nunca se tendo estabelecido a organização temática dos livros-textos em uníssono, temos ainda a liberdade de construir um programa do zero, mais flexível, que não precisa ser adotado sem adaptações em outras partes do Brasil, que oferece uma chance para nossa criatividade. Onde está esse tutorial mágico: “Leia ‘x’, ‘y’ e ‘z’ antes da aula sobre ‘Relações Étnicas’ ou ‘Mais-Valia’, ou ‘Minorias’ ou ‘Globalização’”? E há tempo para efetuar essas leituras? Enquanto se cultivar essa cultura de que ‘professor bom é o que cuida de mais turmas’ (afinal, boa remuneração é indício de capacitação), haverá sempre essa distorção, pois a tendência é que o profissional seja estrangulado pela falta de tempo e, conforme se torna mais requisitado e adentra a “dedicação exclusiva”, perca os meios de enriquecer os próprios atributos!

17 de fevereiro de 2011

O FIM DA MODERNIDADE: Niilismo e hermenêutica na cultura pós-moderna – Gianni Vattimo (trad. Eduardo Brandão)

INTRODUÇÃO

De fato, é só relacionando-se a problemática nietzschiana do eterno retomo à problemática heideggeriana do ultrapassamento da metafísica que as esparsas e nem sempre coerentes teorizações do pós-moderno adquirem rigor e dignidade filosófica”

Do ponto de vista de Nietzsche e Heidegger, que podemos considerar comum, não obstante as diferenças nada ligeiras, a modernidade pode caracterizar-se, de fato, por ser dominada pela idéia da história do pensamento como uma ‘iluminação’ progressiva, que se desenvolve com base na apropriação e na reapropriação cada vez mais plena dos ‘fundamentos’, que freqüentemente são pensados também como as ‘origens’, de modo que as revoluções teóricas e práticas da história ocidental se apresentam e se legitimam na maioria das vezes como ‘recuperações’, renascimentos, retornos.”

provavelmente, retornar a Parmênides significaria apenas recomeçar tudo do início – a menos que se preconize, niilisticamente, uma casualidade absoluta do processo que levou de Parmênides à ciência-técnica moderna e à bomba atômica.”

a idéia de uma história como processo unitário se dissolve, instaurando-se, na existência concreta, condições efetivas (não apenas a ameaça da catástrofe atômica, mas também e sobretudo a técnica e o sistema da informação) que lhe conferem uma espécie de imobilidade realmente não-histórica.”

Assim fez a filosofia do passado, assim fez a fenomenologia husserliana, o Heidegger de Sein und Zeit, o Wittgenstein da análise dos jogos lingüísticos.”

se considerarmos a experiência que vivemos nas atuais sociedades ocidentais, uma noção adequada para descrevê-la parece ser a de post-histoire, que foi introduzida na terminologia da cultura hodierna por Arnold Gehlen.”

Há uma espécie de ‘imobilidade’ de fundo do mundo técnico, que os escritores de ficção científica representaram com freqüência como a redução de toda experiência da realidade a uma experiência de imagens e que já se percebe, para sermos mais realistas, no silêncio abafado e climatizado em que os computadores trabalham.”

A história que, na visão cristã, se apresentava como história da salvação tornou-se, primeiramente, busca de uma condição de perfeição intramundana e, depois, progressivamente, história do progresso. Mas o ideal do progresso é vazio, seu valor final é o de realizar condições em que sempre seja possível um novo progresso.”

a própria presença do marxismo em nossa cultura manteve-se mais rigorosa onde ele se separou da filosofia da história: pensamos no marxismo ‘estruturalista’ de Althusser

Percebeu-se que a história dos eventos – políticos, militares, dos grandes movimentos de idéias – é apenas uma história entre outras. A ela pode-se contrapor, por exemplo, a história dos modos de vida, que caminha muito mais lentamente e se aproxima quase de uma ‘história natural’ dos fatos humanos.”

Na radicalização dessas consciências, também acabou aparecendo como uma derradeira ilusão metafísica a idéia, professada por Ernst Bloch, de que, sob as diversas imagens da história e dos diversos ritmos temporais que as caracterizam, existe um ‘tempo’ unitário forte (que seria o da classe não-classe, o proletariado, portador da verdadeira essência humana).”

A contemporaneidade (não, é claro, a história contemporânea da subdivisão escolar, que a faz começar na Revolução francesa) é a época em que, enquanto, com o aperfeiçoamento dos instrumentos de coleta e transmissão da informação, seria possível realizar uma ‘história universal’, precisamente essa história se tomou impossível.”

O significado da referência teórica a esses autores consiste na possibilidade que eles proporcionam de passar de uma descrição puramente crítico-negativa da condição pós-moderna, que foi típica da Kulturkritik do início do século e das suas ramificações na cultura recente, a uma consideração desta como possibilidade e chance positiva.”

PRIMEIRA PARTE

O NIILISMO COMO DESTINO

I. APOLOGIA DO NIILISMO

O niilista consumado é aquele que compreendeu que o niilismo é a sua (única) chance. O que acontece hoje em relação ao niilismo é o seguinte: começamos a ser, a poder ser, niilistas consumados.”

a definição heideggeriana do niilismo, que, isolada, acabaria levando-nos a considerar que Heidegger quer simplesmente inverter a relação sujeito-objeto a favor do objeto (assim Adorno lê Heidegger na Dialética Negativa).”

Se seguirmos o fio condutor do nexo niilismo-valores, diremos que, na acepção nietzschiana-heideggeriana, o niilismo é a consumação do valor de uso no valor de troca. O niilismo não é o ser estar em poder do sujeito, mas o ser se dissolver completamente no dis-correr do valor, nas transformações indefinidas da equivalência universal.”

o marxismo, em suas várias declinações teóricas (com exceção, talvez, do marxismo estruturalista de Althusser), sonhou com a recuperação, antes no plano prático-político do que no plano teórico, do valor de uso e da sua normatividade.”

A necessidade de ir além do valor de troca, na direção do valor de uso que escapa da lógica da permutabilidade, também é dominante na fenomenologia (pelo menos do ponto de vista que nos interessa aqui) e no primeiro¹ existencialismo, inclusive, portanto, em Sein und Zeit.”

¹ A-sartriano.

Fenomenologia e primeiro existencialismo, mas também marxismo humanista e teorização das ‘ciências do espírito’, são manifestações de um fio condutor que unifica um amplo setor da cultura européia, que também poderemos distinguir como sendo caracterizado pelo ‘patos da autenticidade’ – isto é, em termos nietzschianos, da resistência à consumação do niilismo. A essa corrente também foi anexada recentemente uma tradição que, até agora, em muitas das suas manifestações, havia aparecido como alternativa: aquela que, partindo de Wittgenstein e da cultura vienense da época do Tractatus, se desenvolve até a filosofia analítica anglo-saxã.”

Do ponto de vista do niilismo – e, por certo, com uma generalização que pode parecer exagerada –, parece que a cultura do século XX assistiu à consumação de todos os projetos de ‘reapropriação’. Nesse processo incluem-se não apenas os acontecimentos da teoria – entre os quais, por exemplo, os desenvolvimentos lacanianos do freudismo –, mas também, e mais fundamentalmente talvez, as próprias vicissitudes políticas do marxismo, das revoluções e do socialismo real.”

Heidegger, que pareceu a tantos como o filósofo da nostalgia do ser, inclusive em suas características metafísicas de Geborgenheit, escreveu, ao contrário, que o Ge-Stell – isto é, a universal imposição e provocação do mundo técnico – também é um ‘primeiro lampejar do Ereignis’, daquele evento do ser em que qualquer ‘propriação’ – qualquer dar-se de algo enquanto algo – só se efetua como transpropriação, numa circularidade vertiginosa em que homem e ser perdem todo e qualquer caráter metafísico. A trans-propriação em que se efetua o Ereignis do ser é, no final das contas, a dissolução do ser no valor de troca”

Escutar o apelo da essência da técnica, todavia, não significa tampouco abandonar-se sem reservas às suas leis e a seus jogos; por isso, creio eu, Heidegger insiste no fato de que a essência da técnica não é algo técnico, e é a essa essência que devemos estar atentos.”

A técnica também é fábula, Sage, mensagem transmitida.” “O mito da técnica desumanizante e, também, a realidade desse mito nas sociedades da organização total são enrijecimentos metafísicos que continuam a ler a fábula como ‘verdade’.”

II. A CRISE DO HUMANISMO

a negação de Deus, ou o registro da sua morte, não pode dar lugar hoje a nenhuma ‘reapropriação’ pelo homem de uma sua essência alienada no fetiche do divino.”

Quando esse caráter redutivo da metafísica se torna explícito, como acontece, segundo Heidegger, em Nietzsche (o ser como vontade de poder), a metafísica está em seu ocaso, e com ela, como constatamos cada dia, também declina o humanismo.”

Ainda que, nos decênios sucessivos, seja precisamente a partir da reflexão sobre as ciências do espírito que se desenvolverá a hermenêutica com as suas implicações anti-metafísicas e anti-humanistas (é a história do nexo que liga Heidegger a Dilthey), o significado originário do debate é de tipo ‘defensivo’ (…) Quem liberta esse núcleo humanista, contido no debate do início do século, das aparências de debate ‘metodológico’ e o coloca em seus termos efetivos de conteúdo teórico é o Husserl da Krisis.”

leitura nostálgico-restauradora da crise do humanismo. (…) para esta, a crise não atinge os conteúdos do ideal humanista, e sim suas chances de sobrevivência histórica nas novas condições de vida da modernidade.”

Ernst Jünger, O Trabalhador

[Bloch] Geist der Utopie (1918 e 1923) é, seguramente, uma das obras filosóficas do século XX que mais se abriram para explorar as possibilidades ‘positivas’ relacionadas aos aspectos aparentemente desumanizantes das novas condições de existência do mundo técnico.”

a técnica, em seu projeto global de concatenar tendencialmente todos os entes em vínculos causais previsíveis e domináveis, representa o desdobramento máximo da metafísica. (…) Enquanto aspecto da metafísica, o humanismo também não pode ter a ilusão de representar valores alternativos aos valores técnicos. O fato de a técnica se apresentar como uma ameaça para a metafísica e para o humanismo é apenas uma aparência, derivada de que, na essência da técnica, desvendam-se as características próprias da metafísica e do humanismo, que estes sempre haviam mantido ocultas.” “A técnica representa a crise do humanismo não porque o triunfo da racionalização negue os valores humanistas, como uma análise superficial nos levou a crer, mas sim porque, representando a consumação da metafísica, chama o humanismo a uma superação, a uma Verwindung.”

Mas o fato de Heidegger não se ter contentado com um retorno ao realismo aristotélico-tomista (como certos outros discípulos do primeiro Husserl), nem ter seguido o caminho do retorno à Lebenswelt, indica hoje claramente o verdadeiro sentido do seu anti-humanismo: nem uma reivindicação da ‘objetividade’ das essências, nem um remontar ao mundo da vida como âmbito precedente a qualquer enrijecimento categorial.”

O sujeito é ‘ultrapassado’ na medida em que é um aspecto do pensamento que esquece o ser em favor da objetividade e da simples-presença.” “Por isso, o humanismo da tradição metafísica também tem um caráter repressivo e ascético, que se intensifica no pensamento moderno quanto mais a subjetividade se modela com base na objetividade científica e torna-se pura função dela.”

SEGUNDA PARTE

A VERDADE DA ARTE

III. MORTE OU OCASO DA ARTE

Como muitos outros conceitos hegelianos, o de morte da arte também se revelou profético com respeito aos desenvolvimentos efetivamente verificados na sociedade industrial avançada, ainda que não no sentido exato que tinha em Hegel, mas, antes, como Adorno nos ensinou constantemente, num sentido estranhamente pervertido.” “O último arauto desse anúncio da morte da arte foi Herbert Marcuse – pelo menos o Marcuse mestre da revolta juvenil de 68.”

Todas as dificuldades que a estética filosófica encontra ao encarar a experiência do ocaso da arte, da fruição distraída, da cultura massificada, nascem do fato de que ela continua a raciocinar em termos de obra como forma tendencialmente eterna e, no fundo, em termos de ser como permanência, imponência, força.”

IV. A QUEBRA DA PALAVRA POÉTICA

Não obstante a mudança da sua terminologia, Heidegger permaneceu até os últimos escritos profundamente fiel às premissas de Sein und Zeit: a autenticidade da existência permanece sempre ainda definida pelo projetar-se explicitamente para a sua morte.”

o fato de a verdade, a abertura dentro da qual se dá cada vez às humanidades históricas, ser evento e não estrutura estável modifica profundamente a essência da verdade.” “A evidência daquele ‘é’ que só se dá como efeito de silêncio não é a mesma evidência dos princípios metafísicos, dos quais só se teria tirado a eternidade e acrescentado a eventualidade.”

O esforço com que o poeta trabalha a poesia, a cinzela, a escreve e reescreve, não é um esforço em direção à perfeição da coincidência entre conteúdo e forma, em direção à energheia plenamente transparente da obra clássica; ao contrário, é uma espécie de antecipação da erosão essencializante que o tempo exerce sobre a obra, reduzindo-a a monumento.”

V. ORNAMENTO MONUMENTO

(…)

VI. A ESTRUTURA DAS REVOLUÇÕES ARTÍSTICAS

Newton teria podido tornar visíveis e apontar precisamente para imitação, não só sua, mas de qualquer outro, todos os seus passos… mas nenhum Homero ou Wieland poderia mostrar como se produziram e se combinaram em suas cabeças as suas idéias, porque eles mesmos não sabem e, portanto, não podem ensinar aos outros.”

Kant

não-historicidade do gênio” (vs. cumulatividade do saber científico)

Não apenas a distinção entre os dois tipos de historicidade parece ter-se dissolvido hoje em dia, mas essa dissolução se deu mediante uma redução da própria historicidade ‘cumulativa’ à historicidade ‘genial’.” “não será difícil reconhecer que as revoluções científicas de Kuhn são amplamente moldadas com base na peculiar (e imprópria, segundo Kant) historicidade do gênio kantiano.”

Eliminada a fé no Grund e no curso das coisas como desenvolvimento em direção a uma condição final, o mundo não aparece mais senão como uma obra de arte que se faz por si (…expressão que Nietzsche toma de Schlegel), e o artista é uma Vorstufe, um lugar em que se deu a conhecer e se realizou em pequena escala aquela que agora – como o desenvolvimento da organização técnica do mundo, entendemos nós (mas sendo fiel a N.) – pode desvelar-se como a própria essência do mundo, a vontade de poder.”

A ênfase com que boa parte da filosofia do séc. XX falou do futuro é o espelho fiel de uma época que, em geral, pode legitimamente chamar-se ‘futurista’ (para usar a expressão proposta por Krzysztof Pomian num ensaio a que voltarei a referir-me).”

a tensão ao futuro como tensão à renovação, ao retorno a uma condição de autenticidade original.”

precisamente para escapar do risco de teorizar o fim da história (que é um risco, quando não se crê mais numa outra vida, no sentido pregado pelo cristianismo), o progresso se caracteriza cada vez mais como um valor em si; o progresso é progresso quando caminha na direção de um estado de coisas em que um progresso ulterior é possível, e nada mais”

enquanto para a maior parte da idade moderna as descobertas ainda foram limitadas e guiadas, no plano da ciência ou da técnica, pelo valor ‘verdade’ ou pelo valor ‘utilidade para a vida’, no caso das belas-artes essas limitações, essas formas de arraigamento metafísico, caíram muito antes, pondo a arte, desde o início da idade moderna, na condição de desarraigamento em que ciência e técnica se encontram explicitamente apenas hoje.”

o novo na ciência, na técnica, na indústria significa a pura e simples sobrevivência dessas esferas de atividade (…) A transformação do progresso em rotina, nesses campos, descarrega todo o pathos do novo no outro âmbito, o das artes e da literatura.”

Mercier, L’An 2440

a passagem de Joyce do Ulysses ao Finnegan’s Wake, justamente apontada por Ihab Hassan como evento-chave para a definição do pós-moderno.”

Que certas obras ‘epocais’ do séc. XX – da Recherche proustiana ao Homem sem qualidades e ao Ulysses e ao Finnegan’s Wake – estejam concentradas, inclusive quanto ao ‘conteúdo’, no problema do tempo e dos modos de vivenciar a temporalidade fora da sua linearidade pretendidamente natural, talvez não seja um fato desprovido de significado.”

TERCEIRA PARTE

O FIM DA MODERNIDADE

VII. HERMENÊUTICA E NIILISMO

O primeiro elemento niilista na teoria hermenêutica heideggeriana pode ser encontrado na sua análise do Ser-aí como totalidade hermenêutica.” “Essa familiaridade preliminar com o mundo, que se identifica com a própria existência do Ser-aí, é o que Heidegger chama de compreensão ou pré-compreensão. Qualquer ato de conhecimento nada mais é que uma articulação, uma interpretação dessa familiaridade preliminar com o mundo.” “o Ser-aí só se funda como uma totalidade hermenêutica na medida em que vive continuamente a possibilidade de não-existir-mais.”

An-denken [pensar rememorante] também é o que ele mesmo se esforçou em fazer, nas obras sucessivas a Sein und Zeit, em que não elabora mais um discurso sistemático, mas se limita a percorrer de novo os grandes momentos da história da metafísica, tais como se exprimem nas grandes sentenças de poetas e pensadores. É um erro considerar esse trabalho de repercurso da história da metafísica como um simples trabalho preparatório, que deveria servir para a construção de uma ontologia positiva posterior. O rememorar da metafísica é a forma definitiva do pensamento do ser que nos é dado realizar. An-denken corresponde a (…) decisão antecipadora da morte”

O ser nunca é verdadeiramente pensável como presença; [Ser-aí] o pensamento que não o esquece é apenas o que recorda, i.e., que o pensa já sempre como desaparecido, ido embora, ausente.” “só porque as gerações se sucedem no ritmo natural de nascimento e morte, o ser é anúncio que se transmite.”

O que liberta, no confiar-se à tradição, não é a evidência coativa de princípios, de Gründe, chegando aos quais poderíamos finalmente, reconstruindo as origens de um certo estado de coisas, explicar-nos com clareza o que nos acontece; o que liberta, ao contrário, é o salto no abismo da mortalidade.”

Esse sentido do ser, que só se dá a nós como ligado à mortalidade, à trans-missão de mensagens lingüísticas entre as gerações, é o oposto da concepção metafísica do ser como estabilidade, força, energheia; é um ser fraco, declinante, que se desdobra no desvanecer, aquele Gering, inaparente irrelevante, de que fala a conferência sobre A coisa.”

enquanto a coleção de arte principesca ainda era a manifestação de um certo gosto e de certas preferências qualificadas, o museu reúne tudo o que é ‘esteticamente válido’, mas, precisamente, apenas enquanto dotado de uma ‘contemplabilidade’ de todo desvinculada da experiência histórica.”

O objetivo de Gadamer é recuperar a arte como experiência de verdade, contra a mentalidade cientificista moderna, que limitou a verdade ao campo das ciências matemáticas da natureza, relegando todas as outras experiências, mais ou menos explicitamente, ao domínio da poesia, da pontualidade estética, do Erlebnis [experiência, vivência, insight].”

VIII. VERDADE RETÓRICA NA ONTOLOGIA HERMENÊUTICA

ontologia hermenêutica”: Luigi Pareyson X Paul Ricoeur X Richard Rorty X Gadamer

É só graças a essa urbanização [que Gadamer promoveu em relação ao pensamento heideggeriano], provavelmente, que hoje podemos falar, p.ex., cada vez mais intensamente e com conseqüências cada vez mais acentuadas, numa proximidade entre Heidegger e Wittgenstein.”

O clássico de Rorty é informado por esse “encontro”: Philosophy and the Mirror of Nature

Enquanto houver linguagem haverá sentido.

Gadamer descreve esse âmbito lingüístico-ético que rege a experiência retomando a noção grega de kalón, em conexão com a de theoría.”

Nesse sentido, Gadamer acredita no bem, isso é, o sentido apontado pela linguagem é esse bem supremo.

O modo como o logos-linguagem comum impõe seus direitos sobre a ciência e seus resultados [verdade velha, apodrecida, ‘niilizada’] não é apenas o da transferência das concepções e terminologias científicas para a linguagem cotidiana e a mentalidade comum – transferência que se verifica, obviamente, através da vulgarização, portanto de certo empobrecimento, do alcance dos enunciados científicos e através de uma acentuação das características retóricas que todas as teorias científicas possuem. Há mais (…) os direitos do logos-comum se exercem como orientação ética sobre os usos e desenvolvimentos dos resultados das ciências. A factibilidade que as ciências e as técnicas asseguram [a tecnologia ‘pura’ em seu movimento, aparentemente auto-movimento] nunca basta para que se ponha em movimento um certo uso social da ciência; é necessária uma decisão, mesmo se implícita, de tipo ético, que às vezes age inclusive sozinha como efetivo não-prosseguimento de certo curso dos desenvolvimentos técnicos. [poderíamos ter bombas muito mais poderosas que as de fusão nuclear, por incrível que pareça…]”

Segundo Gadamer (…) as possibilidades da engenharia genética (…) não são desenvolvidas hoje em certas direções devido ao prevalecimento de … apreciações morais.”

as posições de Thomas Kuhn já não provocam tanto escândalo”

a hermenêutica da retórica torna claro que o caráter público das regras de verificação das proposições das ciências não é apenas uma universalidade formal (que se refere, no máximo, à comunidade dos pesquisadores, ela mesma pensada com base no modelo do puro sujeito cognoscente), mas também seu arraigamento efetivo numa esfera pública, histórica e culturalmente determinada.” Sim, o povo também tem voz no debate sobre o que é espaço e tempo, sr. Hawking! E, resumindo, Francis Bacon só tem um, e teria de ter surgido naquele contexto se queria ser aceito e legitimado como o foi.

Rumar para a verdade não quer dizer tanto alcançar o estado de luminosidade interior que tradicionalmente se indica como evidência, quanto, em vez disso, passar para o plano das admissões participadas e compartilhadas que, mais do que evidentes, parecem ser óbvias, não necessitar de interrogação e, portanto, não ser talvez sequer identificáveis como evidências autênticas em sentido forte.”

a urbanização [agora entendo melhor: cosmopolitização, extensão ao social] do pensamento de Heidegger se configura aqui, num sentido muito literal, como aceitação, por uma filosofia de colocação originalmente existencialista, do caráter mais ‘externo’ do que íntimo da verdade e, portanto, do prevalecimento do momento procedimental sobre o momento intuitivo”

Heidegger (…) [visto como expoente do] anti-humanismo [ou] anticonsciencialismo, [da] desconfiança em relação ao sujeito da metafísica moderna (que tem um precedente em Nietzsche e sua rejeição da consciência).”

no segundo Wittgenstein (…) se coloca com particular acuidade a questão de se a maioria dos que falam certa língua pode estar em erro.”

Tanto tempo tentando encontrar a verdade, e se ela estiver na fofoca, no inautêntico?

Esse salto não se resolverá, desse modo, numa ‘apologia do existente’?”

Contra-figuras: o revolucionário, o inovador e o profeta.

muito do patos crítico heideggeriano contra o mundo do esquecimento do ser e da metafísica consumada no domínio planetário da técnica resulta amplamente atenuado, ou de todo ausente, em Gadamer, para o qual o que conta é limitar as pretensões dogmáticas das ciências-técnicas em favor de uma racionalidade social que não sente necessidade alguma de tomar demasiada distância da metafísica ocidental, mas, ao contrário, se coloca perante esta numa relação de substancial continuidade. Está aqui, bem como no maior peso que teve para ele a formação filológica, a razão do distanciamento com que Gadamer encara as interpretações heideggerianas dos filósofos e dos poetas do passado. Sabe-se que são precisamente esses os textos em que Heidegger parece mais oracular e, portanto, menos urbano; os textos que menos podem agradar a leitores como Habermas.(*) Mas, paradoxalmente, são justo esses os textos em que Heidegger se mantém fiel a uma posição de crítica em relação ao existente, que, ao contrário, em Gadamer, parece atenuar-se até perder-se.”

(*) Nesse sentido, seriam leituras interessantes:

A caminho da linguagem

Contribuições à filosofia do acontecimento apropriado

Hölderlin e a essência da poesia / Elucidations of Hölderlin’s Poetry

A Fenomenologia do espírito de Hegel

Sobre a Alegoria da Caverna e o Teeteto de Platão

A Metafísica de Aristóteles

O começo/início da filosofia ocidental: interpretação de Anaximandro e Parmênides

O Tratado de Schelling sobre a essência da liberdade humana

Black Notebooks / Cuadernos Negros

Por que poetas?

Sobre Ernst Jünger

Introdução à metafísica

De onde se pode partir para recuperar, talvez em alternativa a Gadamer a força crítica original do pensamento heideggeriano?”

Os traços com base nos quais Gadamer caracteriza o kalón nas páginas conclusivas de Verdade e método, todas elas dominadas pela retomada de uma metafísica da luz e, em geral, do esplendor da forma, parecem muito distantes da idéia de obra de arte como conflito sempre aberto entre mundo e terra, que Heidegger desenvolve no ensaio sobre A origem da obra de arte.”

IX. HERMENÊUTICA E ANTROPOLOGIA

Essa crítica à ‘transcendentalização’ da antropologia, [crítica ‘niilista’ da faculdade de conhecimento, neste contexto] se assim se pode dizer e que a mim parece o sentido das recentes posições de Habermas (e de Apel), parece-me útil como ponto de partida para uma reflexão sobre hermenêutica e antropologia, [que para Rorty pode avançar, enquanto ciência da cultura, empiricamente, sem revoluções epistemológicas de grande monta] porque é avançada por Rorty no quadro de uma adesão substancial aos resultados do pensamento de Heidegger e de Gadamer, portanto do ponto de vista da hermenêutica”

antropologia cultural, aquela que … considera os interesses cognoscitivos … resultantes da história natural” Não está preocupada em perguntar sobre o homem, quanto mais o ser, etc. Para todos os efeitos, o homem é o a priori kantiano.

a antropologia é pensada aqui como discurso sobre as ‘outras’ culturas, e o antropólogo aparece como aquele que ‘vai o mais longe possível’.” “o modo primeiro e fundamental do discurso antropológico, a experiência do encontro com outras civilizações.” Acima de quaisquer alteridades estaria uma “essência supra-histórica”.

o preconceito etno ou eurocêntrico – que não se manifesta apenas nas concepções mais simplistas do primitivo como fase atrasada da única civilização, mas também … nas antropologias estruturais.”

a epistemologia [para Rorty] se baseia no pressuposto de que todos os discursos são comensuráveis e traduzíveis entre si, e de que a fundação da sua verdade consiste precisamente na tradução numa linguagem de base, a linguagem do espelhamento dos fatos, ao passo que a hermenêutica admite que essa linguagem unificadora não se dá, esforçando-se, ao contrário, por apropriar-se da linguagem do outro, em vez de traduzi-la na sua.”

homologação metafísica do mundo” como o momento em que a técnica “vence” o homem e sobrepuja a capacidade de autenticidade. Ou não – mas ponto em que a técnica, de toda forma, atinge seu ápice e culminância na terra. Dita homologação é considerada um destino, e considera-se a hermenêutica como uma ciência dos tempos “pós-homologados”. A antropologia “nunca termina”, embora esteja sempre terminando, e a ocidentalização do mundo sempre progrida cada vez mais. No fim a antropologia deixará apenas uma decepção no ar, porque ainda será possível mesmo nesse cenário póstumo, “surpreendendo” os etnógrafos mais pessimistas: “a antropologia pensa a si mesma como um aspecto interno do processo geral de ocidentalização e homologação – processo que, de resto, só se manifesta como … ideológico.”

Assim como a condição de alteridade radical das outras culturas se revela um ideal talvez nunca realizado, e certamente irrealizável para nós, do mesmo modo, no processo de homologação-contaminação, também os textos pertencentes à nossa tradição, os ‘clássicos’ no sentido literal, com os quais a nossa humanidade desde sempre se mediu, perdem progressivamente a sua coatividade de modelos, entrando igualmente no grande estaleiro das sobrevivências. [Homero tão periférico quanto um pataxó]”

(Talvez o cargo cult(*) também seja ‘um primeiro lampejar do Ereignis’.”

(*) “Um ‘culto de carga’ refere-se a um movimento religioso que surgiu em algumas sociedades tribais da Melanésia, onde os seguidores acreditavam que a prosperidade viria através de rituais que imitavam o comportamento dos ocidentais que trouxeram bens (carga) para eles.”

Guidieri, Les sociétés primitives aujourd’hui, in: DELACAMPAGNE e MAGGIORI, Philosopher: les interrogations contemporaines, 1980.

Pellizzi, Misioneros y cargos: notas sobre identidad y aculturación en los altos de Chiapas

X. NIILISMO E PÓS-MODERNO EM FILOSOFIA

Nietzsche vê com muita clareza, já no ensaio de 1874, que o ultrapassamento é uma categoria tipicamente moderna e, portanto, não é capaz de determinar uma saída da modernidade.”

a idéia do eterno retorno do igual, que significa, entre outras coisas, o fim da época da superação, i.e., da época do ser pensado sob o signo do novum. Quaisquer que sejam os outros significados, deveras problemáticos, da idéia do eterno retorno no plano metafísico, ela tem, pelo menos, com certeza, esse sentido ‘seletivo’; ou seja, para nós, de revelar a essência da modernidade como época da redução do ser ao novum. Tanto as vanguardas artísticas do início do século (sobretudo o futurismo), quanto certas filosofias, como o hegeliano-marxismo de Bloch, mas também de Adorno e Benjamin, podem ser evocadas aqui como exemplos de tal redução.”

Todas as obras do período iniciado com Humano, demasiado humano (ou seja, principalmente Aurora e A gaia ciência) são um esforço para determinar a idéia dessa filosofia da manhã. As próprias teses, aparentemente mais ‘metafísicas’, dos escritos mais tardios e dos fragmentos póstumos editados na Der Wille zur Macht deveriam ser lidas, muito mais do que se costuma lê-las, em relação com esse esforço:”

viver plenamente a experiência da necessidade do erro (…) viver a errância com uma atitude diferente.”

O texto menos ambíguo, do ponto de vista que nos interessa, encontra-se na primeira parte de Identidade e diferença (…) Onde fala do Ge-Stell, isto é, do mundo da tecnologia moderna como conjunto de stellen, de pôr (dispor, impor, etc., por isso proponho traduzir por im-posição), Heidegger escreve que ‘aquilo que experimentamos no Ge-Stell… é um prelúdio do que se chama Er-eignis (evento, apropriação, etc.). Este, porém, não se enrijece necessariamente no seu prelúdio. Já que no Ereignis se anuncia (spricht… an) a possibilidade de o puro e simples desenvolver-se e viger [Walten] do Ge-Stell verwindet num Ereignis mais de princípio’.”

para Heidegger, a possibilidade de uma mudança que nos leve a um Ereignis mais de princípio – ou seja: fora, além, da metafísica – está ligada a uma Verwindung desta.”

jogando com a polivalência do termo italiano rimettersi, [a metafísica] é algo de que alguém se restabelece, se recupera, a que alguém se remete, que alguém remete (que envia).”

pode-se viver a metafísica e o Ge-Stell como uma chance, como a possibilidade de uma mudança em virtude da qual aquela e este se torcem numa direção que não é a prevista por sua essência própria, mas que a ela está relacionada.”

A ‘reviravolta’, ou Kehre, do pensamento de Heidegger é, como se sabe, a passagem de um plano em que existe apenas o homem (o existencialismo humanista à Sartre) a um plano em que há principalmente o ser, como diz o escrito de 1946 sobre o humanismo.”

também o esquecimento do ser está inscrito, pelo menos em certo sentido, no próprio ser (não depende de nós nem mesmo o esquecimento). O ser nunca se pode dar todo em presença.”

O recontar a história da metafísica, que Heidegger efetua sempre de novo nos escritos subseqüentes à reviravolta, possui a estrutura do regressus in infinitum, emblematicamente característico da reconstrução etimológica. Esse remontar não nos leva a lugar nenhum, a não ser a recordar-nos do ser como daquilo de que já sempre nos despedimos. O ser só se dá aqui na forma do Geschick (o conjunto do envio) e da Überlieferung (a trans-missão). Nos termos de Nietzsche, o pensamento não remonta à origem para dela se apropriar; ele apenas torna a percorrer os caminhos da errância, que é a única riqueza, o único ser, que nos é dado.”

não se repensa Platão colocando-se o problema de se é ou não verdadeira a doutrina das idéias, mas procurando rememorar a Lichtung, a abertura destinal preliminar dentro da qual algo como a doutrina das idéias pôde apresentar-se.”

ver as teses da metafísica como Ge-Schick, envio, trans-missão histórico-destinal, tira toda a força das pretensões de coatividade metafísica.” Isso vai acontecer, porque o homem vai querer, porque a Idéia nele quis, mas ele não vai se atoleimar à Idéia, ele vai querer e fazer (resumo brabo).

o ser nada mais é que a trans-missão das aberturas histórico-destinais que constituem, para cada humanidade histórica, je und je, a sua específica possibilidade de acesso ao mundo.” Agora creio que entendi quando Heidegger diz, em Nietzsche, que o filósofo é figura atemporal. Porque ele sempre trata do ser que pode tratar, à sua maneira, de forma plena. O ser é linguagem. E o ser descrever o que ele é é seu destino. Não seria assim se ele fosse dado ex nihilo. Porém, ele, a linguagem são circulares, ele se produz como a linguagem se produz. Nada há nisso de oracular. Creio que os filósofos de 2300 dirão que os filósofos dos séculos XX e XXI eram todos metafísicos e escravos de um sistema moral e de verdade que lhes pregava antolhos, que finalmente em seu tempo puderam ser removidos, isto é, Maia descortinada – os mais ingênuos, é óbvio, os que não lerem estes textos compreendendo a circularidade a qual também estão expostos. Porém é digno de nota que Kant, Descartes, Platão sempre nos parecerão mais ingênuos e engessados, pueris, em sua forma de filosofar, porque afinal a circularidade só se tornou patente para nós pelo menos, e bem poucamente, i.e., restrita a apenas uma mente, no século XIX. Mas que o ser “se esqueça” após ter sido lembrado em nova configuração, muito distinta da doutrina das idéias, isso é mesmo necessário, e outra vez teremos filósofos como Kant, como Kant, não exatamente Kant.

Mas o que está claro desde já é que a ontologia hermenêutica implica uma ética que poderia ser definida como uma ética dos bens em oposição a uma ética dos imperativos. Entendo esses dois termos no sentido que possuem na ética de Schleiermacher, que também foi um dos primeiros teóricos da hermenêutica.” E afinal de contas vou ter de ler esse cara!

A re-memoração, ou, antes, a fruição (o reviver), também entendida em sentido ‘estético’, das formas espirituais do passado não tem a função de preparar alguma outra coisa, mas tem um efeito emancipador em si mesma.”

A conferência sobre O fim da filosofia, por exemplo (1964), conclui, depois de ter falado da Lichtung e da sua irredutibilidade à verdade (já que ela é, antes, a alétheia), com a hipótese de que ‘a tarefa (Aufgabe) do pensamento poderia ser, então, o abandono (Preisgabe) da idéia de que o pensamento esteve até agora a favor da Bestimmung (vocação, determinação) da Sache do pensamento’. [bastante niilista!] Essa tensão no sentido de um além da metafísica é acompanhada, porém, em Heidegger, de um trabalho filosófico que tem por conteúdo principal a metafísica e suas errância.” Isto é: Heidegger sempre insiste na errância, em re-percorrer os caminhos e avatares da aletheia através dos tempos, mas às vezes insinua outra coisa. Um pensar metafísico (de coloração própria) e pessimista.

essa outra Verwindung da hermenêutica proposta por Gadamer abre possibilidades muito sugestivas para o desenvolvimento de uma filosofia pós-moderna no sentido que poderíamos chamar da contaminação. Tratar-se-ia de não voltar mais a empresa hermenêutica apenas para o passado e suas mensagens, mas de exercê-la também em relação aos múltiplos conteúdos do saber contemporâneo, da ciência à técnica, das artes àquele ‘saber’ que se exprime nos mass-media, para levá-los sempre de novo a uma unidade” Sempre o mesmo papo interdisciplinar – mas quem seriam os loucos a se lançar em tal mega-empreendimento? Discípulos de Gadamer?

GLOSSÁRIO:

grumo: pequeno coágulo

ontos on: o ‘sendo sendo’, o mesmo que presente, existência, ente, ser (na filosofia platônica).

O PLATÃO DE NIETZSCHE. O NIETZSCHE DE PLATÃO. – Oswaldo Giacóia Jr.

(artigo, lido em territoriosdefilosofia.wordpress.com)

Muito se escreveu a respeito desse desígnio fundamental da filosofia de Nietzsche que identifica a transvaloração de todos os valores com o projeto de reversão do platonismo. Meu propósito, no presente trabalho, é menos examinar aquilo que se encontra explícito nessa obstinada oposição de Nietzsche a Platão do que examinar suas sinuosidades e ambigüidades, seus meandros e bastidores; interessa-me menos o Platão de Nietzsche do que, provocativamente formulado, o Nietzsche de Platão, ou seja, gostaria de examinar o como e o quanto Nietzsche se esforça por assumir as intenções de Platão em seu próprio terreno, como e quanto certas figuras do pensamento presentes em Nietzsche correspondem, de modo surpreendente, a outras tantas figuras do pensamento de Platão, a ponto de se poder suspeitar de que a tão propalada superação do platonismo é muito menos manifesta do que podem sugerir as fachadas retóricas da filosofia nietzschiana.”

Tudo se passaria, pois, de tal maneira que Nietzsche, milênios depois, no Standpunkt (ponto de vista) em que o insere o desenvolvimento da história da filosofia ocidental, ainda insistisse na repetição teimosa (eventualmente mais elaborada do ponto de vista retórico) dos argumentos clássicos da sofística e dos personagens representativos da cultura grega contemporânea a Platão? Seria possível, então, afirmar que as objeções de Nietzsche a Platão já se encontrariam antecipadas e, o que é mais importante, enfrentadas e vencidas por esse último, mais ou menos como se pode afirmar, em certo sentido, da esquerda e da direita hegeliana que algumas de suas objeções foram antecipadas e refletidas pelo próprio Hegel?”

Inverter o platonismo não significa, no fundo, retornar à sofística ou ao realismo cru de Tucídides; significa, antes, levá-lo além e acima de si mesmo, superá-lo e transfigurá-lo numa espécie de grandeza, profundidade e elevação cuja virtude não consiste na violência ou na crueldade da dominação física ou política, mas naquilo que se poderia denominar domínio de si, tornar-se senhor de seus próprios demônios. Talvez uma das mais felizes expressões a esse respeito seja a de G. Lebrun: ‘a doçura do temer’, pois o ideal nietzschiano da nobreza e da força, sua verdadeira e suprema inversão do platonismo não se perfaz no tipo brutal da fera loira ou na figura histórica de Cesare Borgia, mas sim como beleza que não mais ataca.”

INTERESSANTE FIGURA DO HERÓI COMO TIPO INCOMPLETO: “Nesse mesmo contexto, Nietzsche efetua uma de suas mais desconcertantes e sublimes aproximações entre beleza, poder e clemência. Depois de ter afirmado que o belo é inacessível a toda vontade violenta, Nietzsche acrescenta; ‘Um pouco mais, um pouco menos (ein Wenig weniger): justamente isso é aqui muito, isso é aqui o mais. Estar de pé com os músculos relaxados e com a vontade desatrelada: isso é, para vós, o mais difícil, oh sublimes! Quando o poder se torna misericordioso (gnädig) e vem cá para baixo, no visível: esse vir cá para baixo eu denomino beleza … Esse é o segredo da alma; só quando a abandonou o herói é que se aproxima, em sonho, o além-do-herói’ (ibidem).”

Eis, então, enunciado o estrato mais fundamental do projeto de reversão do platonismo: não o retorno puro e simples ao ideal grego pré-socrático, nem a simples retomada da retórica e da sofística, contra Sócrates e Platão, mas a superação da perspectiva da vingança, do juízo e do carrasco.”

[ARQUIVO] A ESTRADA ASSASSINA (Tradução de The Killing Road do Megadeth)

De novo nos cercamos ao palco

Na velocidade do som nós vamos

Alimentando o ímpeto do povo

O gato grande deixou a sua jaula

De novo no ônibus

Pra pegar outro avião

Esse comportamento é doentio

Mas fazemos isso pela fama!

Eu perdi minha cabeça, eu perdi meu dinheiro (!?)

Eu perdi minha vida para a estrada assassina

A estrada nunca vai acabar

Sempre começa de novo

Outro show envolve a tensão

Outro grande amigo perdido

Sem expressão, como a neve

Não tem nada de mais na estrada

É só mais um esforço

É só que é muito comprida, isso é tudo

5 de fevereiro de 2011

[ARQUIVO] CRONOTERAPIA

Originalmente postado em 4 de fevereiro de 2011

Se lhe fosse dado o poder de se transportar para – ou renascer em – uma época futura da humanidade, supondo que seu mundo atual estivesse à beira da destruição e essa fosse a única saída para o colapso, para daqui a quantos anos você programaria essa máquina do tempo irreversível, essa viagem só de ida, estilo Futurama?

Arriscaria 2050 (aposta perigosa, pois, se em 2011 a Terra estivesse mal das pernas – como parece que está…!)?

Não, não. Acho que devemos tratar aqui de séculos, séculos avante, séculos adiante!

2300? 2500?

3000?

4000?

5000?

Mil anos separam o auge do Império Romano da mais obscura Idade Média!

10.000? Correr-se-ia o risco de nascer no breu, no vácuo? Como se vê, 2050 ou o quíntuplo, isso não importa: nada oferece garantias.

Para quem crê numa História cíclica, e que já esgotamos, neste fim de modernidade, todas as possibilidades de acontecimentos, e de surgimento de novas coisas, quem sabe nessa época – em 10 milênios – não se pode ser contemporâneo de Homero? Não vale querer viver como bardo, feito num RPG!

Ou será que não, que o mundo é extremamente rico, materialmente inesgotável, capaz de produzir o inédito durante uma imensidão incomensurável?

1.000.000? Ano 2 bilhões?

Lance os dados, mas saiba! Não há ZERO em nenhuma das faces!

* * *

P.S.

Ikki, a Avê Fênix, na ânsia de fugir das mãos de seu opressor divino, bate as asas até onde consegue – seu cosmo flameja a 1 trilhão de quilômetros. Porém, ao cabo, ele termina na palma da mão de Buda, o sétimo além, o Paraíso dos orientais, mas que parece um tormento – um simples pensamento malévolo ou sacana (tão humano!) pode leva-lo aos reinos menos obres da pós-existência. Tudo bem que o sujeito em questão, em combate com o cavaleiro mais próximo de deus, é tão encardido que as bestas-feras dos submundos da eterna guerra e canibalismo não o suportam, ejetando-o de volta à superfície terrena.

Toda essa visão só me faz imaginar… o quanto é impossível fugir do destino ruim – a ave imortal não pode percorrer uma distância maior, que a livre de alguma condenação. O ano que se escolher para seu túmulo, idem, não o isentará dos fracassos e decepções! Pelo menos você lutou, figurou no álbum dos grandes homens! Mitologizou-se!

* * *

Os EUA não desarmaram as bombas de nêutrons em 1996 porque se tivesse chegado ao “consenso da pax”! Eles o fizeram para não serem explodidos de súbito pelo próprio arsenal! Corrosão da meia-vida. Quem reza essa missa?

O Muro de Berlim caiu, mas a Muralha da China não!

Bush: um “Eu não sei de nada” do tamanho do mundo.

Como partir essa pizza chamada felicidade?

Livro “Os Melhores Tweets de Rafael Aguiar” já nas livrarias!

[ARQUIVO] METALLICA!NDO ou A ODISSÉIA MAGNÉTICA

UMA CRÔNICA RETARDADA [ANA-CRÔNICA], MAS QUEM SABE ISENTA DE FALHAS, NO ESPAÇO-TEMPO: MEU SONHO REALIZADO EM SÃO PAULO

Rafael de Araújo Aguiar, de Brasília, madrugadas de 18 e 19 de janeiro de 2011, praticamente um ano depois do ocorrido:

A) ANTECEDENTES

Não escondo de ninguém que há algum tempo minha banda favorita é o Metallica (ironicamente, roubou o cetro, em minha preferência pessoal, do grupo que muitos consideram seu principal concorrente, o Megadeth). E se torna desnecessário expressar o quanto é significativo e elevado quando se tem a oportunidade de presenciar uma exibição dos seus artistas prediletos. Muitas vezes isso acontece quando eles excursionam pela América do Sul, pelo Brasil, e passam, conseqüentemente, pela sua cidade. Mas com o Metallica seria diferente: exigentes, fariam seus maiores fãs atravessarem o Brasil de Norte a Sul para que pudessem ser vistos. Essa frase não é uma simples alegoria: com shows agendados apenas para o Rio Grande do Sul e São Paulo (nem respeitaram o famoso Eixo Rio-SP de atrações culturais de renome!), aqueles das partes centrais e setentrionais do país que quisessem prestigiar um bom e velho thrash metal ou hard rock (a depender da fase da banda) precisariam desembolsar uma boa grana e energia. Isso, confesso, só aumentava minha vontade de estar lá, para depois narrar o quanto fora difícil e recompensador viver o momento! Só não esperava que depois de tudo não sentiria a necessidade de compartilhar os eventos, pelo menos não de forma imediata. Deixei o tempo correr e, 12 meses depois, o que era música em minha cabeça finalmente merece ser convertido em palavras – estou sereno o bastante para isso! Porque com as palavras, sabe-se, é preciso lidar com cuidado.

Soube da vinda do Metallica aproximadamente em setembro ou outubro de 2009, e comecei a mexer meus pauzinhos. Na realidade havia uma grande expectativa pela inclusão de uma data para Brasília na turnê brasileira do Death Magnetic (nome do último álbum da banda). Após a decepção gerada pelo anúncio oficial de apenas dois shows em território nacional, ambos longe daqui, soube que teria de pedir ajuda a meus pais por não estar trabalhando e não ter como obter o dinheiro para essa aventura. E o pior de tudo não seria o deslocamento, pois quando metaleiros se reúnem para fretar ônibus o custo baixa bastante. Mas as empresas que organizam essa variedade de mega-espetáculos são realmente exploradoras num sentido, eu diria, de capitalismo arcaico, com exceção da alta burocracia e dos lucros envolvidos. Porque tratar o consumidor como gado não é próprio, ou não deveria ser próprio, de um serviço de luxo contemporâneo. De luxo, sim, pois é uma ocasião especial, e nem todos têm as condições de pagar para usufruí-la. É claro que só vai quem quer, e não se pode reclamar de uma viagem até um estádio apinhado numa megalópole onde seria possível conhecer, nem que um pouquinho de longe e mais pelo telão, os lendários três sobreviventes da formação original (ou quase isso) do maior grupo de metal da História: James Hetfield, Kirk Hammett e Lars Ulrich. Os preços não seriam camaradas sequer para o padrão classe média alta, com ingressos premium passando dos 500 reais, sem o valor da meia-entrada. Muito já se discutiu sobre a legalidade da questão das meias-entradas em atrações de música ou semelhantes, e juro que não entrarei nesse mérito, pois isso seria repetir literatura. Só o que preciso informar é que desisti, a princípio, sabendo que não havia mais a meia-entrada para pista premium ou mesmo para a pista comum, e que talvez não valesse a pena vir de Brasília para acompanhar o show das cadeiras do estádio. Agora não me recordo se elas também estavam preenchidas em seus valores de meia-entrada para estudantes. É bem possível. Foi duro ter de abdicar, depois de todas as expectativas geradas, mas ir ao Metallica parecia ter sido mesmo um devaneio temporário, sorte demais para ser realidade.

Semanas depois, entretanto, foi confirmado um segundo show paulista, um dia depois do primeiro, em atendimento à demanda gigantesca inesperada. (Fala a verdade, inesperada? Eu não duvidaria nunca do apelo exagerado de fãs e até de não-fãs por entradas para a volta do Metallica ao Brasil, depois de 11 anos – com direito a um “bolo” no meio do caminho, devido a uma desistência e cancelamento de apresentação em 2003, já depois de iniciada a venda de ingressos!) E a informação era de que as coisas seriam mais calmas dessa vez, pois dificilmente o estádio do Morumbi receberia lotação máxima uma segunda vez. Esperei ansiosamente pela abertura das vendas no portal da internet e novamente foi impossível a compra de uma meia-entrada para o setor mais badalado (entradas premium com desconto esgotadas na pré-venda!). Me contentei com a meia da pista comum. Não haveria excursões rodoviárias rumo a São Paulo, porque o sujeito que mais cuidava dessa parte se encarregou da fretagem de veículo apenas para o primeiro dia, antes que se soubesse de uma segunda data, e não manifestou interesse nem houve muita movimentação relativa ao segundo show. Ficou decidido, portanto, que eu iria de avião, porém como não pertenço a nenhum grupo sólido ou fechado, mesmo no meio do metal brasiliense, não combinei com ninguém em específico, e, quando pude contatar as pessoas mais próximas e que poderiam estar no mesmo hotel que eu quando chegasse a São Paulo – os músicos da banda cover de Metallica de Brasília, Fierce Fire, soube que elas pegariam vôos que seriam uma opção questionável para mim, restando-me apenas o subterfúgio de encontrá-los já em São Paulo; ou seja, ir e vir por minha própria conta e risco (isso se verificaria uma boa idéia, pois fiz uma nova amizade já no vôo de ida, como veremos). Os integrantes da Fierce Fire eram três: Arthur Silva, vocais e guitarra-base; Hara Dessano, o guitarrista principal; e Renato Mendes, baterista, aquele com quem tinha a amizade mais antiga, desde os tempos em que iniciei meu inacabado curso de jornalismo. A banda se encontrava sem baixista no momento.

A compra foi por volta do dia 20 de dezembro e eu passei o mês de janeiro inteiro dormindo mal, pensando em todos os preparativos para o show, além, claro, de tentar projetar em minha mente cada emoção que invadiria meu corpo durante aquelas 2, somente 2, porém mágicas, horas de som ininterrupto. O último dia do primeiro mês do ano é que abrigaria esse marco. No meio do caminho, dia 16 de janeiro, ainda encarei um aperitivo, Deicide em Brasília! Confesso que uma das minhas maiores preocupações era com relação ao consumo de álcool: deveria aproveitar bastante a viagem e não me poupar de nenhum prazer, mas que isso não significasse perder a linha, prejudicar-me e ter muitas dores de cabeça depois, tendo em vista estar sozinho em uma cidade até então por mim desconhecida, com fama de violenta e caótica, com dinheiro e documentos importantes a resguardar. E seria lamentável se eu por algum motivo me encontrasse fora do ar, me perdesse ou não conservasse na memória algum dos minutos da experiência única que é ver a banda (“a” banda!) entrando no palco e percorrer todo o set list até a saideira (que apesar de perfeitamente previsível não seria nem um pouco monótona)! Então, tomei a precaução de conversar bastante com uma amiga por enquanto só de de internet residente em SP, a Natália “Bowie”; também cansei de analisar mapas da capital no Google Maps, e mesmo do restante do estado (uma vez que eu desembarcaria num aeroporto periférico, o de Guarulhos, em Cumbica, praticamente fora da cidade, e precisaria bolar uma forma de me deslocar para não pagar uma onerosa corrida de táxi, o que incluía aprender de cara a usar o intrincado sistema de metrô sincronizado com bilhetes para ônibus naquela capital). Para um pacato candango que mal sabe direito o que é um metrô, quem dirá um metrô superlotado, isso exigiria um bocado de atenção! Havia também o lado de “curtir as músicas”, na verdade estudá-las, memorizar as que eu conhecia menos, enfim, deliciar-me com a banda para chegar com as melodias na ponta dos cascos, porque a goela não seria perdoada na hora fatal! Obviamente, a etapa de convencimento dos pais já havia sido superada, de forma que entenderam o quanto isso seria relevante para mim e que, ao contrário de muitos filhos da minha idade ou até mais novos, eu nunca tinha feito uma viagem-solo, e seria ótimo para sair um pouco de debaixo desse mesmo teto e da rotina e previsibilidade. É, depois de tantos anos eu merecia um “presentinho de aniversário fora de época”… Eu voaria pela Webjet, chegando um dia antes, o suficiente para conhecer algo em São Paulo além da sede do evento, o Morumbi, e voltaria na manhã consecutiva ao show. Me hospedaria num famoso hotel para universitários e/ou aventureiros econômicos num lugar bem acessível, o Formule One, onde racharia um quarto com mais dois do Fierce Fire. A última coisa que faltava dizer nesse item “A” é que a sede do evento, o Estádio Roberto Pompeu de Toledo, era também o do meu clube de coração¹ e – se não era para ver um jogo da minha equipe – meu grande anseio era que conhecer o “templo” fosse acompanhado de uma emoção e sobressalto pelo menos comparáveis aos de uma final de Libertadores: bingo!

¹ [Nota 2025] À época.

B) EM TERRAS “ESTRANGEIRAS” [Duplo sentido: O METAL É SEMPRE UMA NO MAN’S LAND!]

A princípio pensei que a velha máxima, de que tudo de errado acontece consigo no dia em que o azar menos poderia atacar, estava se concretizando: meu irmão, a pessoa que combinara de me levar ao aeroporto, não aparecia de jeito nenhum em casa. Minha mala tão aprumada e eu, devidamente trajado, estávamos à espera de notícias do motorista da tarde. Não quis usar o telefone até que o relógio marcasse realmente uma hora que me parecesse desesperadora; e foi o que fiz. Diogo atendeu e disse que inesperadamente um amigo seu começou a prendê-lao em determinado local com papos intermináveis e solicitações fúteis, típicas de quem bebeu umas a mais e parece retirar prazer de empatar a vida de alguém que está atrasado para um compromisso sério!! Meu irmão me garantiu que iria livrar-se desse estorvo e dispensar o amigo bebum nesse exato momento em que falava, deixando-o em casa ou algum ponto próximo a ela (segundo o que entendi, esse amigo queria uma carona para um lugar mais distante que, se fosse realmente acontecer, atrasaria completamente meu check-in!). Para o bem desse relato, seja como foi, Diogo cumpriu com o acordado e me deixou não muito cedo no Aeroporto Internacional de Brasília, mas também não muito tarde. Lembro que até trotei, engoli em seco, bufei e tremi, na fila do bilhete eletrônico. Isso é fácil de explicar: nunca havia deixado Brasília sem outras pessoas ao meu lado, e se eu perdesse alguma coisa agora, se deixasse qualquer coisa, como a identidade ou os ingressos, cair do meu bolso, me sentiria frustrado até a morte! Reconheço que eu e a paranóia, exceto por alguns rompimentos esporádicos, convivemos muito bem um ao lado da outra.

Dentro do avião, foi fácil perceber o quanto o show do Metallica mexia com a vida de pessoas do país inteiro: vários ali estavam indo para fazer o mesmo que eu, e logo entabulamos conversa. Em especial, eu e um trio de pessoas aparentemente da minha idade ou um pouco mais novas. Eram da Ceilândia. A única pessoa com quem falei depois desse dia e de cujo nome me lembro é o Philippe “D.R.I.”, como gostava de ser chamado (de Dirty Rotten Imbeciles), que comentou que ainda pretendia voltar a SP para ver o NOFX, dali a um ou dois meses. Como seu amigo estava com uma camisa do Palmeiras, e eu com a do meu clube, o papo logo recaiu para esse lado, e a garota que estava com eles não participou muito. O Philippe era flamenguista. Ambos iriam nas duas datas do Metallica e se hospedariam com um tio. Separamo-nos meia hora depois do desembarque, mas trocamos telefones. Soube que não iria precisar levar a efeito meu complicado cálculo de horários e estações a fim de chegar ao hotel com menos de 10 reais gastos (por causa do sistema de bilhete único!), mas que seria muito mais conveniente pagar 30 reais para pegar um ônibus que me deixaria virtualmente na frente do referido hotel, que passava de 2 em 2h, e dali a 40 minutos reapareceria na frente de Guarulhos. O engraçado é que soube depois que se eu rachasse o táxi com alguém poderia ter gastado ainda menos, o que não correspondia à absurda estimativa da Natália de uma corrida de 100 reais entre Cumbica e o Centro! Telefonei para ela e combinei de ligar outra vez quando me assentasse no hotel: Nanee Bowie seria minha guia turística por uma noite nos bares da Rua Augusta e nos points de relevo da Paulista, me apresentando ao maior número de loucuras possíveis. Ou iríamos desfrutar bem pouco, até o horário dos últimos ônibus do dia, ou viraríamos a noite inteira, e a segunda opção foi afinal de contas a eleita. Preferia perigar me sentir cansado no maior show da minha vida e ter esse convívio com ela e com a vida noturna da cidade esticados do que simplesmente achar depois que perdi grandes oportunidades e que não voltaria a São Paulo tão cedo. Eu sabia que mesmo que não me restasse mais energia eu a tiraria de algum lugar quando as músicas do Metallica começassem, assim mesmo, sem nenhum argumento científico ao qual me remeter, apenas com uma convicção sobrenatural no êxito do meu plano ébrio mirabolante, convicção que, como veremos, não era lá muito infundada…

A primeira pessoa, as primeiras pessoas, que encontrei já no saguão do Formule One foram o guitarrista do Fierce Fire e sua namorada e um amigo da banda que o Renato disse que eu conheceria, e que precisava mesmo conhecer, pois era uma peça, o Kleuber. Subi para meu quarto no segundo andar, e nenhum dos dois que dividiam as diárias comigo estava. O Arthur já tinha se deslocado para o Morumbi, pois veria o Metallica nos dois dias. O Renato logo estaria de volta, havia saído com o pai para comer ou passear em outros lugares. Arrumei as coisas no quarto, liguei para minha mãe e para a Natália, desci, fumei um pouco no pórtico do hotel e vi a gremista radicada em São Paulo que gosta de David Bowie aparecer e gentilmente servir de bengala a este cego que mal podia imaginar o que iria encontrar nas esquinas e botecos desse centro amalucado… Infelizmente não serei muito preciso nessa narrativa, mas garanto que isso não guarda a menor relação com o consumo de álcool: foi uma noite até agora jamais repetida em minha vida em que bebi cerveja por 17 horas consecutivas sem me sentir alcoolizado, embora bastante eufórico, naturalmente, a cada minuto, me sentindo mais como uma criança, por causa das conversas sobre o Metallica e as diferenças da vida urbana paulista e da (ausência de) vida urbana brasiliense. Foram muitos os bares em que abrimos conta, e eu retribuí esse grande favor da Natália de me “amparar” naquele ninho de pessoas e poluição interminável (embora eu não tenha presenciado engarrafamentos, chatices e grosserias dos transeuntes – do que eu sinceramente não esperava me esquivar, quando pensei nos costumes de uma cidade tão grande). O fato é que as pessoas podiam ser relativamente indiferentes a você, pois estavam acostumadas com todo tipo de cidadão, turista ou aberração possível, enfim, a um circo diante de suas caras todo santo dia, cosmopolitas que eram, mas uma vez solicitadas se mostravam polidas e de uma elegância que eu imaginaria ser viável apenas em Buenos Aires ou coisa do tipo. Não recordarei tantos nomes (acho que Augusta e Paulista são, em si, suficientes). Só sei que nada ali podia ser posto no mesmo patamar do sossego (eufemismo para tédio!) candango, onde o medo de ser assaltado por ser o único alvo na rua à noite é o oposto desse lugar que, às quatro da manhã, parecia a muvuca de um recreio de escola, com pessoas indo e vindo num fluxo incessante. Eu só não achei esse continuum mais assustador durante aquele dia porque não tive tempo de raciocinar que era simplesmente uma situação perpétua! Em nenhum dos 365 dias haveria calmaria naquelas ruas. Pode parecer irritante para alguns essa aparente tentativa, por minha parte, de engrandecer uma ligeira visita por um lugar tão prosaico e, para muitos, estúpido, velho, ultrapassado. Mas eu senti como se não tivessem sido 3 dias, ou 1 e meio, a se considerar que cheguei ao fim de uma tarde e me despedi no transcurso de outra manhã, mas vários deles! Após essa maratona de cervejada e os mais variados papos, com pessoas se retirando e voltando, partindo e não mais vindo ou simplesmente aparecendo tarde demais na história, ali estava um Rafael um tanto mais maravilhado com a vida e uns 80 reais mais miserável, de volta ao pórtico do hotel, não bêbado-bêbado, porque de alguma forma o ritmo lento e comedido dos goles e a espécie de ar úmido de São Paulo o impediram de sair de si. Ou talvez fosse o juízo, o intenso zelo com que me propus a atravessar essa viagem sem perrengues e com sensação de dever cumprido ao máximo. A medicina ou meu discurso não explicariam, deixa pra lá! Enquanto o taxista (da minha ida ao aeroporto, dia 1 de fevereiro, pós-show) espirrava, só para citar, reclamando das partículas de poeira, eu sentia minhas narinas desentupidas como nunca antes, como se só então eu me desse conta de que vivendo no cerrado eu estava sempre puxando menos ar do que a capacidade natural dos meus pulmões permitia. Estranho, deveras!

Natália se foi (depois de ter ficado um tanto íntima do senhor Kleuber!) – tendo chegado a cogitar comprar a entrada para o show, pois seu primo de 11 anos começava a gostar da banda por causa do Guitar Hero; mas ter de comprar outro ingresso pra ele lhe quebraria as pernas, então ela mudou de idéia, se despediu e desejou um bom show – e então todos pareceram perder o ânimo. Simplesmente todo o pessoal do hotel foi dormir (os que ainda não tinham ido, mas o Renato e outros mais comportados já se encontravam no oitavo sono) e repor as energias. Os últimos a sair foram uns caras de outros quartos que vieram de Manaus (!) para ver o Metallica, que já estavam se dirigindo ao aeroporto, não sem antes descreverem tudo de mais espetacular que viram na noite de sábado (meu show era no domingo). Tão felizes estavam que um deles parecia pouco se importar com o bico desse tamanho que a namorada amuada fazia na hora de entrar no táxi, gabando-se de que ela não sabia o que estava perdendo, se trancava no quarto do hotel e deixava de conhecer as pessoas, não suspeitava de que nós vivíamos uma coisa única, pois o mais provável é que nunca voltaríamos a nos ver de novo, mas que esse diálogo estaria registrado na história do mundo e que não poderia ser deletado. Esse “nós”, claro, era o jeito do amazonense se referir a todo e qualquer fã fervoroso do Metallica que estava vindo de praias distantes (ou mangues distantes!) para aproveitar ao máximo cada minuto, sem recusar encontros e contingências divertidas, mesmo que isso lhe custasse um namoro.

Pois bem! Depois dessa rica apreensão (que eu realmente demorei para mastigar – na hora fiquei pensando se tudo aquilo não ia entrar por um ouvido e sair pelo outro!), eu de repente me vi sozinho empunhando uma latinha na frente do Formule One, numa cidade grande que não pára, apesar de as pessoas dormirem (só mudam os rostos)! Finalmente percebi que também eu não era nenhum Highlander e precisava me recolher, por pouco tempo que fosse, me desligar daquela simbiose entre mim e todo aquele concreto – me pareceu que se dependesse exclusivamente de mim, nunca iríamos parar de circular (eu e São Paulo éramos um só)… E como o tédio até a hora do show iria grassar (principalmente porque um dos lugares que mais gostaria de conhecer, a Galeria do Rock, pelo menos foi o que me disseram, fecha aos domingos), era a hora apropriada para uma sesta. Novamente, ninguém na área ou, antes um Renato bastante abatido, quase sumindo debaixo das cobertas, com inflamação na garganta, que já não sabia se estaria no show de logo mais. Foi ao hospital tomar injeção para ver se melhorava imediatamente (sim, de fato isso ocorreu e ele não se desgraçou), e enquanto isso eu cometi a atrocidade de baixar a temperatura do ar condicionado do nosso quarto para DOZE graus, sem perceber, apagando em seguida. Fui despertado pelo Hara e pelo Kleuber quase dentro de um esquife de gelo! Duas ou três horas, no máximo, foi o que eu dormi, mas encontrei um ambiente diferente. Voltei a me sentir apenas uma pessoa que mal e mal se adaptava ao ambiente, fusão desfeita com aquele circo louco de carros e barrigas esfomeadas. Porque antes parecia que eu poderia rir e beber cervejas até o mundo acabar, e todos do hotel me cumprimentariam com um sorriso. Mas toda farra chega ao fim – claro que a principal sequer havia começado, mas voltei a me centrar na sobriedade da missão (uma farra séria!): o Metallica exigiria um dia menos hedonista, decerto, porque eu vim para testemunhar cada segundo de uma obra artística na qual eu não devia interferir, muito menos “arruinar” com algum entorpecente.

Fui com o Arthur primeiro ao Banco do Brasil e depois a um shopping qualquer da cidade, a pé mesmo, para almoçarmos. Depois todos da banda estavam reunidos num táxi que ficou bem barato. A única ressalva é que todos iriam assistir o Metallica na pista premium menos eu. Uma garoa chata resolveu aparecer antes de sairmos do carro, mas eu achei que não era tão incômoda a ponto de comprar aquelas capinhas descartáveis. Quando me vi do lado de fora do Morumbi exclamei para mim mesmo que estava no meio-termo mais perigoso daquela viagem: entre o tudo e o nada, pois se de repente sumisse meu ingresso seria um desapontamento inigualável, um “quase” bem acre de se engolir! Também imaginava, nas minhas melhores perspectivas, que encontraria uma aglomeração de cabeludos malucos do lado de fora e conversaria bastante antes de entrar, só que o Morumbi era tão gigantesco e a chuva parecia afugentar tanto os outros que eu não encontrei aglomerações e decidi passar de uma vez. Lacrimejei quando olhei para o entorno de dentro, pela primeira vez. Não quis bancar o são-paulino emotivo diante de um público numeroso, contudo, para não dar margens a piadinhas… E eu não cansei de ir e vir de um lado a outro daquela imensa pista ou tablado, lona, colocada em cima do gramado, para me locupletar, esbaforido, com a sensação de ser um jogador cobrindo várias funções na mesma partida, marcando e depois atacando, reconhecendo cada montículo de grama do campo. Ah, sim, a grama! Pude arrancar um tufo quando me aproximei do escudo do São Paulo Futebol Clube, onde terminava a lona (e, se querem que faça mais uma dessas observações rápidas entre parênteses, não levei câmera fotográfica, não registrei nada disso, mas agora vocês vêem que 1 ano não foi suficiente para avariar meu HD, que era o que realmente importava: gravar tudo na retina e depois estocar essas informações no meu precioso disco rígido, que nem milhões de cervejas seriam capazes de formatar!).¹ Eis que, justo quando admirava aquele ícone (o escudo do meu time, de aproximadamente 15 metros quadrados, rente ao solo, próximo a um dos setores de arquibancadas), centenas de vezes visto apenas pela TV, foi que encontrei por pura casualidade um fã de Metallica que foi quem me apresentou à banda, em 2001! Outrora melhor amigo, não mais meu vizinho, não deixa de ser inusitado e ao mesmo tempo justo, perfeito, que o destino nos quisesse fazer esbarrar tão longe de nossas casas. Um cumprimento entre mim e o Aloísio foi sucedido por saudações a seus amigos, todos de capas de chuva e que diziam querer “pular o show do Sepultura”, pois não vieram para isso. Aparentemente, tinha um grupo com quem curtir o show. Mas não queria estar com aquela galera, com quem pouco me identificava, que não parecia curtir o Metallica exatamente do jeito que eu curtia e ainda curto, do modo sujo e agressivo que eu escolhi para apreciá-lo, da maneira deferente e old school com que eu insisto em me referir ao grupo. É, a música preferida do Aloísio é The Outlaw Torn, algo impensável para quem sabe, como os próprios membros da banda, o posto secundário ou mesmo terciário que ocupam os álbuns Load na indústria fonográfica, ou diante do grande público (no fim das contas, essas coisas são a mesma coisa, porque não há populacho sem os barões das gravadoras e eles precisam entusiasmar alguns banguelas meio surdos para vender seu peixe!). Então eu me dirigi ao banheiro, prometendo voltar, mas preferi ir me posicionar no canto oposto ao que eles escolheram para acompanhar o show. E cada vez mais pessoas que vinham chegando impediriam qualquer tentativa de procurar quem quer que fosse, mesmo se eu quisesse! Era quase verdade que para se situar ali o jeito era driblar para um lado e para o outro, como um jogador que encontra todos os companheiros sob cerrada marcação. A parte de não tomar uma cervejinha para ver os shows (pois eu queria muito ver o Sepultura, banda de entrada, também!) não se devia exclusivamente à possibilidade de ficar “bobo demais” de forma indevida, mas a um problema que tenho, e que penso ser mais acentuado em mim do que em qualquer outra pessoa: o de me dirigir ao banheiro a intervalos cada vez mais curtos conforme vou virando a bebida, sem poder mesmo reter a urina, porque isso me deixa quase paralisado de dor, sem poder andar ou pular. Não queria estar desconfortável e pedindo para que o show passasse depressa, isso seria contraditório demais depois de toda a luta para estar ali! Estipulei 1h30 antes da hora marcada para o Metallica, ou um pouco menos que isso (porque não sou inglês) como uma boa margem de segurança, e de resto me limitei a fumar um ou outro cigarro. O Sepultura começava agora a se apresentar, a chuva diminuía até a intermitência de pingos esquizofrênicos, e eu tinha a certeza de aproveitar uma boa banda, ótima banda, brasileira e de respeito, para me elevar em êxtase, ainda de forma tímida, é verdade, sem pressa, ciente de que o ápice viria em hora melhor. Não podia mesmo agitar demais, primeiro porque só agora sentia mais que antes o cansaço por tudo aquilo que havia feito, virando a noite daquele jeito, comendo pouco, tendo deixado de repousar (como se eu fosse conseguir dormir a madrugada inteira trancado no hotel, com a cabeça a mil!), e certo princípio de cãibra nos braços, dores nas juntas, nas pernas, e sabia que ficaria em pé sem ter onde escorar por várias horas.

¹ [Nota 2025] Engraçado como 2010 ainda não era uma época de ubiqüidade de celulares com câmera!

E se o leitor realmente está se perguntando se eu fiz uma boa escolha ao me desfiliar da turma do Aloísio (e como já estava separado do pessoal da Fierce e de qualquer outro, se foi apropriado passar o show sozinho), afirmo que fiz exatamente o que quase sempre faço (no show do Megadeth foi a mesma coisa!), e não poderia imaginar nada melhor do que não parar para conversar com ninguém ou simular algum tipo de reação, positiva ou negativa, em relação a qualquer coisa, que não fosse exatamente aquilo que eu estava sentindo, só para agradar os outros, como tantas vezes acontece! Apesar de ter puxado papo com inúmeros grupos e apurado que um grosso contingente provinha de regiões do interior como Campinas, e que o Morumbi àquela altura tinha mais corinthianos do que qualquer coisa, eu sabia que aquele momento era de mim para mim mesmo e que não cabiam interferências externas. E após o show do Sepultura, com o atraso do Metallica e o escurecimento do céu, esse cansaço crescente foi apertando, de forma que quase me arrependi de todo esse auto-isolamento e achei que não seria uma boa noite. Mas essa ligeira apatia seria pulverizada e convertida em cinzas quando de repente as luzes do local foram totalmente apagadas (e senti muito medo, então, de eventualmente desmaiar e ser pisoteado!) prenunciando a entrada triunfal do quarteto mais importante. Os primeiros acordes não deixavam dúvidas: eu extrairia energias de onde fosse preciso, uma certa anestesia estava já sendo inoculada pelo meu próprio sistema de defesa; e se eu tivesse de pagar alguma coisa por isso, que fosse depois, bem depois de sair dali! Aí sim eu enfrentaria 10 dias seguidos de ressaca de bom grado, quando já estivesse em Brasília e esse momento fosse parte do passado gostoso de lembrar! Não sei mesmo como eu me sentia tão detonado ao fim da primeira música, Creeping Death, que achei que não conseguiria mais erguer o braço direito, e como eu estava incorporado por uma entidade na décima primeira música, de forma que poder-se-ia pensar que descansei a semana toda esperando apenas a hora de One, minha faixa preferida! Ou seja, a cada música que passava eu me sentia mais revigorado, uma espécie de Benjamin Button do Metal! A bateria de batidas de cabeça para o violento trecho final de One excedeu todo o “treino” a que me submeti em casa, foi insano! Retirei meus óculos e não parei de me contorcer para todos os lados ao ritmo do thrash mais encardido do …And Justice for All, e talvez do universo!, sabendo que aquela era a apoteose. E que havia esse tempo todo um tanque energético em stand-by aguardando o gatilho, que foi disparado junto com os sons de metralhadoras e morteiros da introdução da faixa (ainda estou falando do hino anti-bélico One!). Parece-me que o veterano Lars Ulrich não tem o mesmo ímpeto para gastar, mas isso já nem tinha tanta importância… Confesso que me constrangi, tendo de me impedir de me entusiasmar, por uma questão de honra, sendo ainda assim trabalhoso fazê-lo, nas canções mais marqueteiras do Metallica, que agradavam sobretudo os casaizinhos que eu sentia serem muito mais fãs estilo Aloísio do que headbangers, penetras no espetáculo (se bem que ultimamente os verdadeiros metaleiros andam tão escassos que eu devia ser o penetra ali!). Mas que se dane. Fuel e Nothing Else Matters¹ quase se desmancham como episódios inofensivos do que no geral era um impecável massacre, que, afinal, precisava ser intercalado com essas “baladinhas”. That Was Just your Life felizmente mostrou que o Metallica ainda sabe ressuscitar o ímpeto dos anos 80, se os músicos entrarem em acordo, se é isso realmente que eles querem. Sad But True e Welcome Home (Sanitarium) apresentam a sintonia perfeita entre a velha guarda e os que estavam ali por causa da influência assombrosa do Metallica no mundo pop que se deu desde o lançamento do [untitled]/Black Album. Porque Welcome Home, apesar de ser de uma fase pregressa, apresenta já a característica de olhar para os dois lados, vista no álbum negro: o peso, sim, mas o verniz também! Não faltaram os clássicos que seria imperdoável ver de fora, como Ride The Lightning, Fight Fire With Fire, Master of Puppets (que eu homenageava através da minha camisa, sem perceber na hora, porque nada mais me importava além do som e do rosto do James no telão – e dos punhos do Hammett, eventualmente, cabendo ao Trujillo uma leve figuração, ideal para ele, ideal aliás para qualquer baixista)… E até o tradicional cover de Diamond Head, embora fosse com a inesperada Helpless! Esse encontro assimétrico, em que eu venero os que estão lá, mas no qual eles gritam o nome da cidade, e nunca o meu (se bem que eu era São Paulo naquele momento!), só podia mesmo terminar com dois petardos primitivos, Hit the Lights e Seek & Destroy (que me fizeram prometer que, se um segundo encontro acontecesse, seriam objeto do meu tributo, com uma camisa do Kill ‘em All, da próxima vez). E eu já nem sabia como saía do chão com essa história de fazer um escaneamento na cena daquela cidade àquela noite, procurando alguém pra começar uma briga (primeira estrofe), porque achei que o gás final fôra dado em One, lá atrás! Só que a loucura é contagiosa, e eu só via gente energizada ao meu redor, então achei que não seria falta de nobreza roubar um pouquinho da deles. É verdade, também, que, depois, já mergulhado no silêncio (pois ainda estava em êxtase e sequer ouvia os bochichos das pessoas ao meu redor), eu demorava 10 segundos para dar dois passos e precisei remar na contra-mão das pessoas que saíam do estádio, rumo aos banheiros. E que depois não sabia se cantava ou não, junto com os são-paulinos, no túnel, que o Corinthians não tinha nenhuma Libertadores e que por isso não precisava ser levado a sério.² O Metallica merece vários estudos de caso: como pode agradar a tanta gente tão diferente?!

¹ [Nota 2025] Curiosamente hoje eu aprecio muito mais essas músicas dos anos 90!

² [Nota 2025] Não demoraria muito para ter (2 anos e alguns meses, para ser exato).

Estranhamente, me senti em casa. Sim, porque não parava de pensar o quanto eu era uma ilha ali, o quanto era absurdo penar tanto para ver apenas 2h, ou quiçá 1h40, de 4 excêntricos empunhando instrumentos pouco ortodoxos, que não emitiam nada, porque o que emitia alguma coisa eram caixas monstruosas bem longe da banda; os responsáveis por todos os transes eram muito menos místicos do que quereríamos, eram computadores, fios, máquinas, engenharia fina, cálculo frio… Agora se pergunte se o fã não se sente vingado de toda essa impessoalidade quando se vê nas letras…

Dormi pouco, reencontrei o Philippe no aeroporto, também voamos de volta juntos embora não tivéssemos combinado nada disso, e até apertamos a mão do Rodolfo ex-Raimundos e Rodox, que quase passa despercebido em meio àquela gente, sem fãs nem moscas rondando sua cabeça, andando com sua esposa entre as lojas, prestes a embarcar sei lá para onde (outra grande ironia, chegar a conhecê-lo longe da capital de Brasília, onde nós dois crescemos, embora ele seja de uma ou duas gerações anteriores à minha). Até voltei mais rápido do que imaginava à morosidade candanga, a ouvir outras bandas que destoam do padrão Metallica (a meu ver, isso iria demorar, depois da magnitude do concerto!). Mas ficou algo pendente e entalado. Não quis descrever tão pormenorizadamente por muito tempo tudo que vivi. Acho que fiquei com medo de que tudo isso se diluísse com comentários dos outros, que não poderiam imaginar com fidedignidade minha experiência difícil de pôr em palavras… Eu até esqueci de dizer, por exemplo, que a garoa fina cessou completamente logo após o “até a próxima!” do Sepultura… Como se o Metallica controlasse até o clima. É claro que esses detalhes só parecem poesia na visão dos presentes ao espetáculo. Só o tempo é que romantiza de uma forma menos pitoresca essas facetas, e nos permite quebrar o silêncio! I’m not, anymore, trapped under ice!

[ARQUIVO] SEIYA DE PÉGASO EM FARELOS & A MONTANHA MÍOPE MAS MÁGICA

21/12/10

Seiya esmigalhado na casa de Leão. Perde a mão com a Cápsula do Poder – na altura do pulso. (Ao acordar, no mesmo lugar verifico uma picada de muriçoca, ferida ampliada e agravada com certeza pelo meu coçar involuntário.) No mais mísero estado, e apoiado por seus amigos, Seiya segue adiante. Não tem nem pés, talvez, não pode se manter erguido, mas cumprirá sua missão obstinando-se até o fim, última centelha… No meio do caminho a plebe ainda quer troçar do herói, porém ele demonstra muita habilidade com a bola nos pés (!), embora seu cosmo e seu corpo não sejam mais os mesmos. E Athena, poderá reconstituí-lo?

Jogo Master System com um amigo. A terceira fase de algum jogo. Algo reseta o aparelho e agora precisamos da password. O modo de obtê-la, não por uma revista de videogame ou um site, é terminando uma ilustração de uma estranha montanha, o que eu me proponho a fazer. Quando terminar de ser colorida ela nos transportará…

22/12/10

Jogando Perfect Dark em multiplayer – controle exagerado, cheio de segmentos horizontais. Menininhas risonhas, muitos amigos de diferentes eras. Fazer trabalhos da faculdade, que ficou parada muito tempo mas vai voltar. Quero molhar minha cara no banheiro mas esqueço que estou de óculos. Inclusive, tiro-os por um tempo e mostro-me cego, praticamente, para as menininhas (acompanhadas, cada uma, de um ou dois marmanjos). Revelo como é difícil ser míope, e aliás um míope tão raro: normalmente as pessoas fazem drama por precisarem usar lentes de 2, 3 graus.

[ARQUIVO] A PRAIA DO CERRADO

23/03/11

Havia um mar aqui no Planalto Central! Na realidade, o que costumava ser a calçada da zona comercial da 308 Norte se convertia em areia (se meu relato não é impreciso) e, poucos metros à frente, onde passariam os carros, apenas água, água até não poder mais, ondas muito agitadas… Aliás, fico inclinado a voltar atrás na minha descrição: não era areia, mas pedras. Lembro de testemunhar arrebentações pouco amistosas. Somente surfistas experimentados ousavam encarar essa parte da natureza brasiliense!

Portanto, para além do paredão de pedra vicejava um novo tipo de vida. Alguns com sua prancha arriscavam ir muito além, até que a borda fosse difícil de se enxergar. Poderia haver tubarões engolidores de pranchas e pernas. Mas o que realmente soava intrigante nisso tudo era uma ilhota a dada distância, uma ilhota de dunas de areia, talvez um pouco salpicada de vegetação, aqui e ali. Parecia um oásis, um lugar especial por alguma razão, e a travessia até lá era bastante complicada. Casais deviam gostar desse isolamento.

Sabrina havia me ensinado ou me motivado, me feito, enfim, chegar à ilhota. Depois que nossa curta relação de amizade foi bruscamente interrompida, perdi qualquer estímulo ou mesmo meios de repetir a façanha, porque a maneira como fiz isso me parecia agora nebulosa, irrecordável. Teria sido a nado, perigosamente podendo cansar antes de atingir as margens opostas? Ou teria sido em alguma embarcação, e de que tipo? Fato é que ela era um porto seguro necessário para arriscar minha vida, sem morrer. Doravante, eu e eu mesmo teríamos de encontrar a solução, ou simplesmente desistir. (Não era vital?)

Sabrina representava mais auto-confiança e mais risco, talvez mais risco do que eu podia tolerar. Eu era do tipo de homem disposto a me jogar no fogo (ou aos tubarões!) por mais uma tentativa desesperada, mas agora a prudência, por mais que parecesse um paralisante para a alma, falava mais alto. Eu tive a pachorra, a coragem e a necessidade, e agora não podia ou devia ter mais?

[ARQUIVO] BURIED DEEP IN THE SAND

07/08/11

Estávamos em uma espécie de viagem.

As pessoas estão na praia. Vanessa dizia a Sandra que a palavra que eu escrevi para ela, a garota do intercâmbio, “intelligentis”, era para vir acompanhada de outras duas, uma antes e uma depois. De repente, Vanessa começava a cavar na areia – antes disso, Vanessa estava de pé com roupa de banho e Sandra sentada sobre uma toalha estendida na areia. As duas estavam de frente uma para a outra e o mar, embora eu não pudesse enxergá-lo, parecia estar às costas de Vanessa. Então Vanessa consegue encontrar a palavra “intelligentis”, como se eu a tivesse escrito na areia com o dedo momentos antes. E há rastros que não são identificáveis por enquanto como letras, tanto à esquerda quanto à direita da primeira palavra. Eis que a Vanessa começa a cavar mais e mais fundo, até achar um objeto: meus óculos, armação negra e lentes um pouco sujas.

Neste momento, Sandra sumia, e eu finalmente surgia. Eu estava muito contente e não sabia como agradecer por terem encontrado uma coisa tão importante para mim, sem a qual eu ficaria completamente incapacitado, refém do mundo. Dizia a Vanessa que não sabia o que faria se não fosse ela em minha vida. De repente, estávamos num quarto (como se fosse um hotel), eu, Vanessa e sua melhor amiga Lorena. Havia cochichos do lado de fora, a partir do corredor. Ou, melhor dizendo, havia murmúrios ou ecos, porque eram distantes demais. Mas eu tinha medo de que outros hóspedes pudessem intervir em hora tão delicada, o que me fez pedir a Lorena que fechasse a porta para eu poder conversar com mais privacidade com Vanessa. Eu queria desabafar, mas não sabia como começar… Minha primeira frase foi claramente: “I want to ask you some questions…”. No exato instante em que acabava de proferir este desejo, percebia que empregava o idioma errado e emendava com um “ops!”. Na seqüência, eu confessava estar apaixonado. Após minha confissão, nossos rostos nos aproximavam…

[ARQUIVO] O JOGO

11/11/10

Sonhei que jogava tênis contra alguém, muito embora a rede fosse tão alta quanto a do vôlei, e não conseguia fazer o meu serviço (sacar) adequadamente. Com efeito, a pontuação era em sets de acordo com a ATP, e a dado ponto eu me sentia o Guga retornado da aposentadoria (não como metáfora, mas como personagem identificável no sonho)! Ocorria o pensamento: “eu não deveria ter feito isso, vou perder!” – correlação com o Schumacher. O placar era algo como 6-1, 5-0 para o meu adversário. Quando eu levantava a bola (que parecia grande e branca) para o saque e eu desistia de bater com a mão quando sua trajetória estava no topo (pois sabia que sairia um saque bem fraco), meu oponente, se não me encorajava, não me desprezava, pois parecia entender a situação, expressando o seguinte enunciado: “Tem que ajeitá-la para o golpe certo, é difícil”. Por que raios eu não sonho com um boliche, onde sou campeão?

[ARQUIVO] CONDENSADO

A vida é uma noite de gala

A criança é o bêbado, dos primeiros goles à euforia total

O adulto é apenas a ressaca, retumbante, semi-eterna

(Talvez o adolesça seja esse moleque briguento, esse todos nós que viram machão, estufam o peito e se metem a socar e bicar mil canelas, mas só fazem trombar e tombar e provocar risadas, quem sabe medo, se não for tão patético!)

E o velho, rá, eu havia dito

que a vida era uma noite

mas como já transgredi

e incluí a ressaca

que tal a UTI

com seus monitores e tubos

lamentos, flores e parentes

nenhum último gole, nenhum último tônus muscular,

só aquele resmungo do velho gagá

ele é o fígado, o rim, o pâncreas, pretos, ele é a morte

E o menininho nem se pergunta – pai, devo sair de casa? Ele sai.

[ARQUIVO] Morrer não é motivo suficiente para parar de sonhar.

17/12/10

Prova disso é que hoje levei um tiro na cabeça de um torcedor de futebol psicopata, senti a “dor” do momento e soube sem adiamentos que aquele seria o fim… e no entanto não foi, veio à baila o que se sucedeu no local após minha suposta morte, como se atiraram para cima do agressor. E de repente me transportavam para uma urna, muito pequena para o comprimento das minhas pernas. Os responsáveis por me trasladarem, um tanto desajeitadamente, é verdade, eram meus familiares… Porém “eu me descobria” vivíssimo da silva, até piscando os olhos (pois tinha morrido de olhos abertos), consciente de que aquilo era uma grande encenação, mas não de nós para nós mesmos ou deles em relação a mim, mas queríamos enganar uma terceira entidade misteriosa. O caixão se transformou em uma caçamba de caminhonete e eu passava a cumprimentar as pessoas que apareciam e se postavam a meu lado – meu irmão dirigia ao longo da W3, quase no centro da cidade, o lugar onde a vida se agita. Repare bem: o caminho é sempre retilíneo. Rumo a algum fim obscuro… Moral: se tudo é lógico mas algo no sonho trai seu senso de realidade, isso é fatal para a continuidade da experiência. Não obstante, na hipótese de todo o montante absurdo permanecer bem-concatenado, e a consciência vigilante não perceber que o que se dá é FANTÁSTICO, a narrativa prossegue. Ora, a morte é perfeitamente factível, e não é motivo forte o bastante para se sentir ludibriado atingi-la, afinal é mesmo natural, o real supremo do ser humano. Perceber por qualquer razão alheia a condição de sono e ficção, por outro lado, aceleram o abaixar das cortinas. Por isso, o personagem principal do meu sonho não precisa ser eu, tudo pode ser uma trama póstuma – ou pior: eu ainda nem ter nascido.

VIENA FIN-DE-SIÈCLE: Política e cultura – Carl E. Schorske (tradução de Denise Bottmann)

INTRODUÇÃO

A arquitetura moderna, a música moderna, a filosofia moderna, a ciência moderna – todas se definem não a partir do passado, e na verdade nem contra o passado, mas em independência do passado. A mentalidade moderna tornou-se cada vez mais indiferente à história porque esta, concebida como uma tradição nutriz contínua, revelou-se inútil para ela.” “a indiferença por qualquer relação com o passado libera a imaginação, permitindo que proliferem novas formas e novas construções.”

Viena no fin-de-siècle, sentindo profundamente os abalos da desintegração social e política, revelou-se um dos terrenos mais férteis para a cultura a-histórica do nosso século.”

I

meu curso de história das idéias seguiu bastante bem – até Nietzsche.” “As diversas categorias elaboradas para definir ou orientar qualquer uma das correntes na cultura pós-nietzschiana – irracionalismo, subjetivismo, abstracionismo, angústia, tecnicismo – não tinham a virtude de se prestar a generalizações, e tampouco permitiam qualquer integração dialética convincente com o processo histórico, tal como era entendido antes.” “a própria multiplicidade de categorias analíticas com que os movimentos modernos se definiam tinha se convertido, para empregar a expressão de Arnold Schoenberg, em ‘uma dança fúnebre dos princípios’.”

Em economia, os teóricos de orientação matemática ampliaram seu domínio em detrimento dos institucionalistas mais antigos, de orientação social, e keynesianos de orientação política. Mesmo num campo como a música, uma nova cerebralidade, inspirada por Schoenberg e Schenker, começou a destruir as preocupações históricas da musicologia. Sobretudo em filosofia, disciplina outrora marcada por uma grande consciência do seu caráter e continuidade históricos, a escola analítica contestou a validade das questões tradicionais que, desde a antiguidade, tinham interessado aos filósofos.”

Os historiadores tinham-se contentado, por demasiado tempo, em usar os artefatos da alta cultura como meros reflexos ilustrativos de desenvolvimentos políticos ou sociais, ou como elementos ideológicos.” “A noção, amplamente aceita, de um processo histórico estruturado na vida cultural – principalmente o fundado sobre o conceito de progresso, como no séc. XIX – permitia ao historiador que ele se apropriasse de materiais culturais condizentes com a idéia que tinha acerca da direção geral seguida pela história.”

Assim como é necessário conhecer os métodos críticos da ciência moderna para interpretá-la historicamente, da mesma forma é preciso conhecer os tipos de análise empregados pelos estudiosos modernos de humanidades para abordar a produção cultural não-científica do séc. XX.”

Ao que o historiador deve renunciar agora, [anos 70] e principalmente ao enfrentar o problema da modernidade, é a postulação prévia de uma categoria geral abstrata – o que Hegel chamou de Zeitgeist, e Mill de ‘a característica da época’.”

II

No decênio que se seguiu a 1947, finalmente faliu o otimismo histórico e social associado ao New Deal e à luta contra os nazistas. É inegável que os EUA tiveram, antes, ondas de pessimismo e dúvida, com porta-vozes tão eloqüentes como Poe, Melville ou Henry Adams. Mas elas não tinham se imprimido muito profundamente na cultura de uma nação cujos intelectuais se integravam intimamente à sua vida pública.” “Em suma, liberais e radicais, quase que inconscientemente, adaptaram suas visões de mundo a um declínio das expectativas políticas. Liberais que passaram a vida indiferentes à religião foram atraídos para um protestantismo neo-ortodoxo; passou-se a invocar Kierkegaard. Entre as referências intelectuais dos estudantes universitários, a sapiência aristocrática e resignada de um Jakob Burckhardt passou a responder mais aos problemas culturais e políticos do que o racionalismo ético, antes empolgante, de John Stuart Mill, ou a sólida visão sinóptica de Karl Marx.”

Gustav Mahler, por muito tempo tido como compositor banal e até tedioso, subitamente virou nome popular obrigatório nos programas sinfônicos.” “Gustav Klimt, Egon Schiele e Oskar Kokoschka, pintores vienenses da vida sensorial e psíquica, saíram da obscuridade para o que só podemos chamar de moda.”

III

O governo efetivamente constitucional durou, num cálculo otimista, 4 décadas (1860-1900). Mal comemorou-se a vitória e vieram os recuos e derrotas. Todo o processo se passou em tempo exíguo, numa densidade desconhecida em todos os outros países europeus.”

IV

Pular o 4º capítulo (Fraud).

I. POLÍTICA E PSIQUE: SCHNITZLER E HOFMANNSTHAL

A valsa, por tanto tempo símbolo da alegre Viena, converteu-se nas mãos do compositor Maurice Ravel, numa desvairada danse macabre.”

Desde o início, os liberais tiveram de partilhar o poder com a aristocracia e burocracia imperiais. Mesmo durante os seus 20 anos de governo a base social dos liberais continuou frágil, restrita aos alemães e judeu-alemães de classe média urbana.” “Mesmo os que recebiam título de nobreza não eram admitidos, como na Alemanha, à vida da côrte imperial.”

A cultura austríaca tradicional, ao contrário da alemã, não era moral, filosófica ou científica, mas basicamente estética.”

A nova haute bourgeoisie de Viena pode ter começado a patrocinar o teatro e a música clássica à imitação dos Lobkowitze e Rasoumowsky, mas no final do século é inegável que seu entusiasmo por essas artes era mais autêntico do que o das outras burguesias européias.” “Se os burgueses vienenses tinham começado por sustentar o templo da arte como um sucedâneo da assimilação à aristocracia, terminaram por encontrar nele uma válvula de escape, um refúgio fora do desagradável mundo da realidade política cada vez mais ameaçadora.” “Em outras partes da Europa, a defesa da arte pela arte implicava no retraimento dos seus devotos frente a uma classe social; só em Viena ela reivindicava a fidelidade de uma classe praticamente inteira, à qual pertenciam os artistas.”

Ao tentar-se assimilar à velha cultura aristocrática da elegância, a burguesia educada se apropriou da sensibilidade estética e sensual, mas sob forma secularizada, distorcida e altamente individualizada. As conseqüências foram o narcisismo e a hipertrofia da vida dos sentimentos.” “A catástrofe do liberalismo metamorfoseou ainda mais a herança estética em cultura de nervos sensíveis, hedonismo inquieto e, muitas vezes, franca ansiedade.”

O pai de Schnitzler, médico de renome, encaminhou Arthur à sólida carreira médica, que o rapaz seguiu por mais de dez anos. Compartilhando do entusiasmo vienense pelas artes de espetáculo, o pai de Schnitzler orgulhosamente contava com grandes artistas vienenses entre seus pacientes e amigos. Mas quando Arthur contraiu uma febre estética tão aguda que sentiu a premência de uma vocação literária, o pai se revelou um moralista de meados do século, opondo-se firmemente às intenções do rapaz.”

Der We ins Freie [O caminho para o aberto]

Como psicólogo e observador do social, Schnitzler desenhou o mundo que via como um mundo necessário, mas não justificado. … Aspirando à tragédia, Schnitzler só alcançou a melancolia.”

Apenas Karl Kraus, o moralista mais corrosivo da cidade, verteu o seu fel ‘naquele colecionador de gemas’ que ‘foge da vida e ama as coisas que a embelezam’ (Hofmannsthal).” “Em O louco e a morte [Der Tor und der Tod, 1893], Hofmannsthal explorou as devastações causadas pelo ceticismo, perda de vitalidade e indiferença ética que resultavam para o adepto da ‘atitude de colecionar gemas’.”

Und uns’re Gegenwart ist trüb und leer,

Kommt uns die weihe nicht von aussen her.”

Schnitzler abordou o problema do lado moral e científico da tradição liberal vienense. Sua percepção sociológica era maior que a de Hofmannsthal, mas seu comprometimento com a cultura agonizante levou-o a um pessimismo crepuscular que privou a sua obra de uma força trágica.”

Hofmannsthal observou, certa vez, que a atividade dos poetas modernos ‘está sob o decreto da necessidade, como se todos estivessem a construir uma pirâmide, residência gigantesca para um rei morto ou um deus não-nascido’.”

II. A RINGSTRASSE, SEUS CRÍTICOS E O NASCIMENTO DO MODERNISMO URBANO

Desde que ascenderam ao poder, os liberais começaram a remodelar a cidade à sua própria imagem e, quando foram expulsos no final do século, em larga medida tinham conseguido: a face de Viena estava transformada. O centro dessa reconstrução urbana foi a Ringstrasse. Vasto complexo de edifícios públicos e residências particulares, ela ocupava uma ampla faixa de terra, que separava a antiga cidade interna e os subúrbios. … equivalente à noção do ‘vitoriano’ para os ingleses, ‘Gründerzeit’ para os alemães ou ‘Segundo Império’ para os franceses.”

Mais especificamente, foi na forja da Ringstrasse que 2 pioneiros do pensamento moderno sobre a cidade e sua arquitetura, Camillo Sitte e Otto Wagner, moldaram as idéias sobre a vida e forma urbana, cuja influência ainda vigora entre nós.”

Os liberais que governaram Viena dedicaram alguns dos seus esforços mais bem-sucedidos à tarefa técnica, sem expressividade dramática, que permitiu à cidade acomodar, em condições razoáveis de saúde e segurança, uma população em rápido crescimento.”

O Danúbio foi canalizado, para se proteger a cidade contra as inundações que tinham-na atormentado durante séculos.”

Em 1873, com a inauguração do 1º hospital da cidade, a municipalidade liberal assumiu, em nome da medicina, as responsabilidades tradicionais que, antes, a Igreja cumprira em nome da caridade.”

Ao contrário de Berlim e das cidades industriais do norte, a Viena em expansão manteve, em termos gerais, seu compromisso barroco com os espaços abertos.”

O termo mais comumente empregado para descrever o grande programa dos anos 1860 não era ‘renovação’ nem ‘redesenvolvimento’, e sim ‘embelezamento da imagem da cidade’ [Verschönerung des Stadtbildes].”

A estátua de Palas de Kundmann, embora fizesse parte do projeto de Hansen, só foi erguida em 1902, quase 20 anos depois da conclusão do edifício, e muito depois que o espírito de racionalidade abandonara o Reichsrat.”

Um rapaz provinciano, Adolf Hitler, que fôra a Viena porque, como disse, ‘queria ser alguma coisa’, caiu sob o feitiço da Ringstrasse da mesma forma que Friedjung: ‘De manhã até tarde da noite passei de um a outro objeto de interesse, mas foram sempre os edifícios que atraíram meu maior interesse. Eu poderia ficar horas na frente do Ópera, poderia contemplar por horas o Parlamento; todo o bulevar Ring me pareceu um encantamento saído d’As mil e uma noites’.”

O alto aristocrata, o grande comerciante, a viúva com renda fixa ou o médico que podia se permitir esse luxo, foram todos levados a comprar um prédio de apartamentos, morando numa unidade e recebendo a renda do aluguel das outras. Na casa da Ringstrasse, o prestígio social e o lucro assim se reforçaram mutuamente.”

Os aristocratas não eram simples senhores ausentes: metade deles morava nas casas de aluguel que tinham construído. Embora as várias espécies de nobreza titulada ainda em 1914 também possuíssem muitas propriedades em toda a Ring (cerca de 1/3 de todas as casas particulares), foi só no bairro Schwarzenberg que tenderam a morar nos edifícios de sua propriedade.”

Não se permitia que as necessidades comerciais dominassem a face dos quarteirões residenciais, nem a função social de representação que os edifícios deveriam preencher.”

Longe de combater o historicismo, Sitte queria estendê-lo – do edifício individual para seu entorno espacial. O arquiteto moderno imita o grego, o romano e o gótico nos seus edifícios, mas onde estão os cenários apropriados: a ágora, o fórum e a praça do mercado?” “As críticas de Sitte rescendiam a nostalgia por um passado desaparecido. Também traziam exigências sócio-psicológicas singularmente modernas, que partilhava com críticos contemporâneos da cultura, e em especial com Richard Wagner, seu herói.”

Sitte afirmava que vinha se formando uma nova neurose: a agorafobia (Platzscheu), o medo de atravessar vastos espaços urbanos. As pessoas se sentiam diminuídas pelo espaço, impotentes frente aos veículos a que ele fôra entregue.”

Para reformadores ingleses da época, como Ruskin e Morris, a questão era reviver a cultura morta do artesão e do ofício. Na Áustria atrasada, a questão não era reviver, mas sobreviver: preservar uma sociedade artesanal ainda viva, mas mortalmente ameaçada. Sitte proveio dessa classe artesã.”

Depois de 1870, na esteira da vitória prussiana sobre a França e da unificação alemã, o nacionalismo de Wagner difundiu-se rapidamente entre jovens intelectuais austríacos, ao passo que a crise de 1873 deu um encanto particularmente atraente a sua glorificação da comunidade artesã medieval alemã, em oposição à sociedade capitalista moderna.”

Em 1876, ano em que Richter regeu a 1ª apresentação completa do Nibelungenring em Bayreuth, nasceu o 1º filho de Sitte: deu à criança o nome de Siegfried.”

Para a Ringstrasse, as propostas de Sitte, embora modestas, vieram tarde demais. (…) O impacto da visão comunitária de Sitte de um espaço urbano reumanizado teve de aguardar uma aversão à megalópole mais generalizada do que a que poderia ser gerada pela sociedade austríaca anterior à guerra.”

Sitte, lutando contra a anomia, utilizava a praça para deter o fluxo dos homens em movimento; Wagner usou-a para dar ao fluxo direção e objetivo. A perspectiva do veículo dominava nas concepções urbanas de Wagner, da mesma forma como a perspectiva do pedestre governava as de Sitte.”

O racionalismo de Wagner não deixava lugar para a natureza romântica. Seus próprios desenhos mostram claramente que sua cidade ilimitada não só engolfaria a terra, mas converteria toda a vegetação em esculturas arquitetônicas verdes.”

Pode haver algo mais degenerado do que pegar a forma natural livre das árvores, que justamente na cidade invocariam a magia da natureza aberta, e arranjá-las em alturas idênticas, a intervalos matematicamente regulados […] e, ainda por cima de tudo, em mera extensão interminável? Fica-se literalmente com dor de cabeça devido a esse tédio opressivo. E esta é a principal forma artística dos nossos planejadores urbanos de princípios geométricos!”

Camillo Sitte

III. POLÍTICA EM NOVO TOM: UM TRIO AUSTRÍACO

A sociedade austríaca não conseguiu respeitar essas coordenadas liberais de ordem e progresso. No último quarto do século XIX, o programa elaborado pelos liberais contra as classes superiores provocou a explosão das inferiores.” “Quando os liberais atenuaram seu germanismo em favor do Estado multinacional, foram rotulados de traidores do nacionalismo por uma petite bourgeoisie alemã antiliberal.” “O catolicismo (…) voltou como a ideologia dos camponeses e artesãos, para os quais o liberalismo significava capitalismo, e o capitalismo significava judeus.” “Portanto, ao invés de unir as massas contra a velha classe dirigente do alto, os liberais involuntariamente convocaram, das profundezas sociais, as forças de uma desintegração geral.” “Os novos movimentos de massa antiliberais – o nacionalismo tcheco, o pangermanismo, o socialismo cristão, a social-democracia e o sionismo – surgiram de baixo para desafiar a tutela da classe média cultivada, paralisar seu sistema político e minar sua confiança na estrutura racional da história.”

eram os social-democratas que apresentavam os traços paternos mais acentuados. Sua retórica era racionalista, seu secularismo militante, sua fé na educação praticamente ilimitada.” “Embora se possa discordar da posição de um socialista, pode-se discutir com ele na mesma linguagem. Para a mentalidade liberal, o social-democrata era irrazoável, mas não irracional.”

Dois virtuoses principais do novo tom – Georg von Schönerer dos pangermânicos e Karl Lueger dos social-cristãos – tornaram-se os inspiradores e modelos políticos de Adolf Hitler. Um terceiro, Theodor Herzl, forneceu antecipadamente às vítimas de Hitler a resposta política atraente e poderosa já formulada contra o reinado gentio do terror.”

Georg von Schönerer (1842-1921) (…) embora nunca tenha conseguido formar um partido forte, converteu o anti-semitismo numa grande força disruptiva na vida política austríaca. Talvez mais do que qualquer outra figura, foi responsável pela nova estridência na política austríaca, pelo ‘tom mais agudo’ no debate áspero e nas brigas de rua que marcaram a última década do séc. XIX.” “O enérgico engenheiro tornou-se um homem rico, colaborador de banqueiros, liberais, judeus, corretores e burocratas imperiais: todos aqueles tipos sociais cuja destruição viria a ser o objetivo da vida política do seu filho Georg – depois da morte do pai.”

Como membro da comunidade teatral austríaca cosmopolita, que contava com muitos judeus, Alexandrine repudiou explicitamente a política anti-semita do seu irmão. Defensora entusiasta do teatro-entretenimento e dotada de espírito empresarial, manteve-se leal à cultura do liberalismo médio vienense.”

Assim como, no seu pangermanismo, Schönerer fôra antecipado pelas agremiações estudantis nacionalistas, da mesma forma, no seu anti-semitismo, ele foi antecipado pelo movimento artesão.”

O camelô judeu era o análogo pobre do dono judeu da loja de departamentos: ambos ameaçavam o lojista tradicional; ambos atraíam a hostilidade, mas também o hábito do pequeno consumidor.”

Se o imperador era supranacional, os judeus eram subnacionais, a substância popular onipresente do Império, com representantes em todos os grupos nacionais e todos os grupos ideológicos. Em qualquer grupo que se encontrassem, os judeus nunca lutaram para desmembrar o Império. Foi por isso que se converteram nas vítimas de todas as forças centrífugas” “Prometeu ao Reichsrat, em 1887, que, se o seu movimento não vencesse agora, ‘os vingadores nascerão do nosso sangue’ e, ‘para o terror dos opressores semitas e seus enforcadores’, aplicariam o princípio ‘Olho por olho, dente por dente’.”

A agressão, que lhe trouxe tantos adeptos, finalmente foi sua ruína. (…) O ataque de Schönerer contra o escritório da redação, porém, foi a 1ª vez em que o novo estilo na política assumiu a forma de um processo por agressão física. (…) O tribunal condenou Schönerer (…) a uma suspensão dos direitos políticos por 5 anos. (…) Com isso, o Cavaleiro de Rosenau perdeu a única herança do seu pai que verdadeiramente prezava. [título aristocrático]” “Aspirando desesperadamente à aristocracia, poderia ter conseguido como um junker prussiano, mas jamais como um cavaleiro austríaco. Isso porque a tradição nobiliárquica austríaca exigia uma elegância, uma plasticidade e, poder-se-ia acrescentar, uma tolerância para com os erros e males deste mundo totalmente estranhas à constituição de Sch.” “Sua carreira de destruição política parece encontrar sua fonte pessoal na ambição frustrada de filho pouco educado e superestimado de um pai novo-rico.” “Era coerente que o Cavaleiro de Rosenau, profundamente classe média, um dom Quixote tardio e violento, encontrasse em artesãos e adolescentes um séquito pseudofeudal com o qual ensaiaria sua farsa brutal. Um dia essa farsa ocuparia o palco como tragédia, tendo Hitler, admirador de Schönerer, no papel principal.”

Karl Lueger (1844-1910) tinha muito em comum com o Cavaleiro de Rosenau.” “Lueger fez o inverso: transformou uma ideologia da velha direita – o catolicismo político austríaco – em uma ideologia de uma nova esquerda, o socialismo cristão.” “No ano de 1897, quando o imperador relutante finalmente ratificou a eleição de Lueger como prefeito [de Viena], a era da ascendência liberal clássica na Áustria chegou formalmente ao seu fim.” “Mais oportunista que Sch. e menos escravo dos seus intensos sentimentos pessoais, Lueger tardou mais a se comprometer com uma postura anti-semita. Lueger, em suas posições públicas nos fluidos anos 1880, refletia a sombria transição da política democrática para o protofascismo.” “O catolicismo ofereceu a Lueger uma ideologia que conseguiria integrar os elementos antiliberais dispersos que vinham se movendo em direções díspares, à medida que sua carreira se desenvolvia: a democracia, a reforma social, o anti-semitismo e a lealdade aos Habsburgo.”

Theodor Herzl (1860-1904) (…) Protótipo do liberal cultivado, formulou uma abordagem criativa da questão judaica, não por mergulhar na tradição judaica, mas por se esforçar inutilmente em deixá-la para trás.” “A fé dos pais diminuía à medida que o status dos filhos aumentava.” “Quando Theodor nasceu, em 1960, sua família estava bem longe do gueto: economicamente estabelecida, religiosamente ‘esclarecida’, politicamente liberal e culturalmente germânica.”

Nos inícios dos anos 1890, a França parecia se dissolver num caos pior, se possível, que o da Áustria. A república sofria de todas as doenças sociais da época: decadência aristocrática, corrupção parlamentar, guerra de classes de caráter socialista, terror anarquista e barbárie anti-semita.”


A poesia trata de uma abstração mais elevada que a política: o mundo. E como aquele que é capaz de apreender o mundo seria incapaz de compreender a política?”

Em 1892, Herzl fez reportagens sobre os anarquistas, cujos assassinatos e bombas vinham espalhando um frêmito de pavor por toda a Europa.”

O que engajou Herzl no socialismo marxista não foram as suas reivindicações econômicas, mas a dinâmica psicológica que o impelia.”


Indiscerníveis como indivíduos, juntos são como um grande animal que começa a distender seus membros, ainda apenas semiconscientes da sua força. […] Este é apenas um bairro em uma cidade da França.”

Finalmente, irromperam à superfície os mais novos inimigo da república: os anti-semitas. Herzl assistiu ao drama, enquanto explodia todo o sistema político, enquanto as ferventes tensões internas da sociedade francesa rompiam os majestosos freios da lei e da moralidade.” “A terra natal do liberalismo estava doente, em seu centro vital do parlamentarismo. Para um intelectual austríaco, isso significava mais do que uma simples experiência política nova; era a destruição da confiança na viabilidade do liberalismo político, pois ele agora sucumbia até no seu próprio local de origem”

Édouard Drumont, em La France juive (1885), responsabilizou a comunidade judaica internacional pelo declínio da França e exigiu a retratação da emancipação e a expropriação do capital judaico.”

Em 1893, ele concluiu que os judeus, ‘pressionados contra a parede, não terão outra alternativa senão o socialismo’.” “Com isso, a ‘questão judaica’, no seu pensamento, deixou de ser um sintoma do mal-estar social europeu – um pára-raios para a descarga de frustrações gentias –, e se transformou numa questão de vida ou morte para as vítimas.” “Ele não tinha nada a fazer na Sociedade para a Defesa contra o Anti-Semitismo, fundada por eminentes intelectuais alemães e austríacos. (…) o argumento raciocinado era inútil: ‘Há muito já se foi o tempo em que era possível realizar alguma coisa por meios polidos e moderados.”

Com o auxílio dos príncipes austríacos da Igreja, Herzl conseguiria chegar ao Santo Papa, dizendo:


Se o senhor nos ajudar contra os anti-semitas, eu liderarei um grande movimento pela conversão livre e decente dos judeus à Cristandade. (…) não envergonhados como os convertidos individuais até agora […] cuja conversão tem-se mostrado covarde ou oportunista.”

Assimilação dos judeus através da Igreja de Roma – que proposta estranha para um liberal secular!” “Ainda isolado dos próprios judeus, repudiando alguns como Geldjuden e outros como Ghettojuden, alguns como racionalistas excessivamente otimistas e outros como crentes excessivamente primitivos, Herzl assim começava a reunir para os judeus os elementos da política em novo tom” “Numa época em que a culpa de Dreyfus era aceita praticamente por todos, Herzl duvidava dela, apesar da falta de provas.” “Isso não acontecera na Rússia, nem mesmo na Áustria, mas na França, ‘a republicana, moderna, civilizada França, cem anos depois da Declaração dos Direitos do Homem’.”

Não sendo nenhum wagneriano fanático, e nem mesmo um freqüentador de óperas além da média vienense, Herzl desta vez ficou eletrizado por Tannhäuser. Chegou em casa exaltado e sentou-se para esboçar, num acesso de entusiasmo próximo a uma possessão, seu sonho da secessão judaica em relação à Europa. Que tenha sido Wagner a acionar a liberação das energias intelectuais de Herzl numa torrente criativa: quão irônico, mas quão psicologicamente apropriado!” “Herzl teria sentido na volta moralmente liberadora de Tannhäuser à gruta um paralelo da sua própria volta ao gueto?” “O movimento sionista seria uma espécie de Gesamtkunstwerk da nova política. Herzl o sentiu ao dizer: ‘O êxodo de Moisés é comparável ao meu…’


Ninguém pensou em procurar a terra prometida onde ela está, e no entanto está tão próxima. Ei-la: dentro de nós mesmos!”

Para o barão Hirsch, filantropo sóbrio e prudente, Herzl apresentou o modelo da unificação germânica como prova do primado do irracional na política.”


O senhor sabe de onde saiu o Império Germânico? De sonhos, canções, fantasias e fitas tricolores em preto, vermelho e dourado.”

Com uma bandeira, pode-se levar os homens para onde se quiser, até para a terra prometida. Uma bandeira é praticamente a única coisa pela qual os homens estão dispostos a morrer em massa, se educados para isso.”

UM PROTOSSIONISTA HETERODOXO: “Embora Herzl acenasse à aspiração religiosa arcaica, não confiava totalmente nela: nem sequer queria situar a terra natal judaica na Palestina” “Da estrela de Davi ou qualquer outro símbolo judaico, Herzl não fez nenhuma menção.”

* * *

Os três fracassaram. Os três organizaram suas comunidades não só à revelia dos liberais entre elas, mas também sem o apoio das autoridades superiores externas a que apelaram.”

O novo Estado teria um ‘federalismo lingüístico’, onde cada um falaria a língua que ainda amasse (…) Só o iídiche, ‘a linguagem estropiada e reprimida do gueto’, ‘a fala roubada dos prisioneiros’, seria deixado de lado.”

O clero, ainda que honrado, ficaria confinado aos seus templos, como o exército aos quartéis, de modo que não causem problemas a um Estado comprometido com o livre pensamento.” Que diferença para os dias atuais, que diferença!


O povo é sentimental; as massas não vêem com clareza. Está começando a surgir em torno de mim uma leve bruma que talvez se converta na nuvem em que andarei. É talvez a coisa mais interessante que registro nesses diários: como cresce minha lenda.”

Política é magia. Quem sabe invocar as forças das profundezas, a este seguirão.”

Hofmannsthal

V. GUSTAV KLIMT: PINTURA E CRISE DO EGO LIBERAL

Klimt saiu da escola como decorador arquitetônico no exato momento em que o grande programa Ringstrasse de construção monumental vinha ingressando em sua fase final. Ele encontrou ocasião de empregar seu talento versátil em pinturas históricas para dois dos últimos grandes edifícios, o Burgtheater e o Museu de História da Arte.” “Gustav Klimt, embora fosse um jovem mestre da velha escola, cedo assumiu a liderança na revolta de die Jungen nas artes visuais.”

Marx observou certa vez que, quando os homens estão prestes a fazer uma revolução, eles se fortalecem agindo como se estivessem restaurando um passado desaparecido. A Secessão definiu-se não como um mero salon des réfusés, mas como uma nova secessio plebis romana, onde os plebeus, repudiando desafiadoramente o mau governo dos patrícios, retiravam-se da república. A formulação da ideologia romana da Secessão foi elaborada por Max Burckhard (1854-1912), nietzschiano, progressista em termos políticos, e um dos grandes reformadores do direito administrativo, que em 1890 renunciou a sua carreira político-jurídica para virar diretor do Burgtheater, cargo que acabara por perder quando passou a co-editar a revista da Secessão, Ver Sacrum.”

Peter Vergo sugeriu que Klimt compreendeu Schopenhauer através de Wagner, especialmente com a súmula concisa de Wagner sobre o pensamento do filósofo em seu ensaio largamente difundido Beethoven, e que tanto a iconografia como a mensagem de ‘Filosofia’ mostravam a influência da Das Rheingold.”

O pintor da frustração psicológica e do mal-estar metafísico tornou-se o pintor da vida bela da classe superior, afastada e isolada do destino comum numa bela casa geométrica.”

VI. A TRANSFORMAÇÃO DO JARDIM

Sempre que os artistas europeus procederam à difícil tentativa de enfrentar uma ordem existente, como ocorreu com tanta freqüência no séc. XIX, o realismo social [hoje a distopia] se apresentou como modalidade literária dominante.”

Os austríacos prontamente captaram a sensibilidade langorosa de um Baudelaire ou de um Paul Bourget, mas não alcançaram a sensualidade dolorosa e autodilaceradora dos decadentes franceses, nem a sua visão da beleza cruel do cenário urbano. Os pré-rafaelitas ingleses inspiraram o movimento art nouveau (com o nome de Secessão) (…) mas nem a sua espiritualidade pseudomedieval nem o seu forte impulso reformista social penetraram nos discípulos austríacos.”

Nem dégagés nem engagés, os estetas austríacos estavam alienados, não da sua classe, mas juntamente com ela, de uma sociedade que frustrou suas expectativas e renegou seus valores. Dessa forma, o jardim da beleza da jovem Áustria era um retiro dos beati possidentes, um jardim estranhamente suspenso entre a realidade e a utopia.”


Arte é arte e vida é vida, mas viver a vida artisticamente: eis a arte da vida.”

Pelo fato mesmo de representar a vida, a arte nos separa dela. É por isso que, ao se destacar dos outros valores e se tornar um valor em si mesma, a arte gerou nos seus devotos aquele sentimento de eterno espectador que, por sua vez, alimenta a introversão.”

Como Marcel Proust, as recordações de Erwin se converteram em sua vida.”

VII. EXPLOSÃO NO JARDIM: KOKOSCHKA E SCHOENBERG

O professor Franz Cizek, que organizou a mostra, era o chefe do departamento pedagógico na Escola de Artes e Ofícios onde Kokoschka estudava, para ser professor de artes. A modéstia da opção do rapaz merece nossa atenção. Se Kokoschka tivesse aspirado à carreira, menos segura e mais prestigiosa, de pintor, teria freqüentado a Academia de Belas-Artes. Ao invés disso, ele optou pela via mais humilde, mais condizente com a classe artesã de que provinha.” “Enquanto as gerações anteriores tinham insistido em levar a criança à estética adulta através do desenho de cópias, Cizek incentivava a livre atividade criativa. (…) Meninos de 5 a 9 anos iam uma vez por semana às aulas de Cizek, ‘para se expressarem’. (…) Aqui, só o não-inibido, o instintivo se torna luminoso como (o) essencialmente humano’” “Mesmo o júri da Kunstschau, presidido por Gustave Klimt, foi indulgente com os caprichos contestadores de Kokoschka.” “Com efeito, Kokoschka inverteu o desenvolvimento que, de modo apenas semiconsciente, os mais velhos tinham experimentado, ao passarem das belas-artes para atividades nas artes e ofícios. Eles tinham retirado à arte secessionistas dos anos 90 a sua função original – dizer a verdade psicológica –, e adaptaram sua linguagem visual a finalidades puramente decorativas. Kokoschka tomou a linguagem ornamental madura dos seus professores, e tornou a desenvolver o seu potencial simbólico”

Kokoschka, Os meninos sonhadores, 1908

Heinrich Kleist já ressuscitara o antigo entrelaçamento de amor e guerra em sua Pentesiléia – um marco no retorno do reprimido na alta cultura européia.”

E uma obra dessas [poema + peça de teatro + ilustrações = obra-de-arte total à la Wagner?!?] foi encenada no encantador jardim de Kunstschau! Um público que mal acabara de aprender a refinar seus receptores sensoriais e psicológicos, para reagir às delicadas nuanças de O aniversário da infanta de Oscar Wilde, tinha agora de exorcizar a selvageria crua da peça de Kokoschka.” “O pintor escreveu que uma tempestade de protestos desabou sobre ele na noite de estréia, mas essa sua lembrança foi contestada por Peter Vergo, com algumas sólidas provas em contrário.” “Por instigação do Ministério da Cultura e Instrução, o diretor da Escola de Artes e Ofícios, Alfred Roller, tirou a bolsa de Kokoschka. Felizmente, a explosão também atraiu a atenção do crítico mais frio e categórico do esteticismo vienense, o arquiteto Adolf Loos.”

Assim como Kraus procurava restaurar a pureza do meio lingüístico do homem, removendo todas as pretensões estéticas da prosa expositiva, também Loos tentou purificar o meio visual – cidade, moradia, vestuário, mobília –, abolindo todos os embelezamentos. A arquitetura, disse ele taxativamente, não era arte: ‘Tudo o que serve a uma finalidade deve ser excluído do âmbito da arte. […] Só teremos uma arquitetura do nosso tempo quando o termo mentiroso <arte aplicada> for banido do vocabulário das nações’.”

Pode parecer coincidência demais que Schoenberg também tenha realizado sua ruptura, passando para a atonalidade, a partir do tema de um despertar sexual adolescente ocorrido num jardim. Mas é assim que foi. Formal e psicologicamente, o ciclo de canções de Schoenberg O livro dos jardins suspensos é um análogo musical muito próximo de Os meninos sonhadores de Kokoschka.”

Schoenberg, Teoria da harmonia, 1911.

um processo que vinha desde Beethoven: a erosão da antiga ordem na música, o sistema harmônico diatônico.” “Desde a Renascença, a música ocidental tinha sido concebida na base de uma ordem tonal hierárquica, a escala diatônica, cujo elemento central era a tríade tônica, a tonalidade definida. A tríade era o elemento de autoridade, estabilidade e, sobretudo, repouso. Mas a música é movimento; se a consonância é tida apenas como um quadro em repouso, todo movimento será dissonante.” “A modulação – a passagem de uma a outra tonalidade – era um momento de ilegitimidade permitida, um estado acentuado de ambigüidade, a ser resolvido por uma nova orientação numa nova modalidade, ou pelo retorno a uma anterior. Assim o pianista Alfred Brendel identificou os usos do cromatismo, uma das principais soluções da tonalidade, aplicados por Liszt em suas Variações sobre Bach, e por Haydn” “Não por acaso foi Rameau, o músico de côrte de Luís XV, o teórico mais claro e inflexível das ‘leis’ da harmonia.”

Tristão e Isolda de Wagner como o primeiro passo para o atonalismo.

(*) “Tão forte era o apelo do Pelléas und Mélisande de Maeterlinck aos músicos da época que 4 grandes compositores lhe dedicaram obras suas: Fauré (1901), Debussy (1902), Schoenberg (1903) e Sibelius (1905).”

Em Verklärte Nacht, ele mostrou que o ‘abismo intransponível entre Brahms e Wagner não era mais um problema’.”


todo grande artista é um impressionista: sua reação acurada ao mais débil impulso revela-lhe o inaudito, o novo”

Os versos de Stefan George prestavam-se particularmente bem à ousada tarefa musical em que agora o compositor se empenhara”


Wer di Wahl hat, hat die Qual”

Por trás da Erwartung encontrava-se uma experiência pessoal arrasadora, que Schoenberg projetou dentro da obra: a mulher que o abandonou por um dos seus melhores amigos, o artista Richard Gerstl, que logo a seguir se suicidou.”

Nesse espírito crítico, Schoenberg trabalhou de 1912 a 1914 no projeto de uma grande sinfonia para celebrar a morte do Deus burguês. A sinfonia nunca foi concluída, pois veio a guerra.”

na Sinfonia da dança de morte, ele escreveu o seu 1º tema dodecafônico. [uma nova ordem, após o caos do atonalismo]” “sua democracia dos 12 tons”

NOTAS

Mahler, originalmente, deu à sua Terceira sinfonia o título, extraído do ensaio de Nietzsche, de Die fröhliche Wissenschaft. Para uma análise profundamente esclarecedora da obra e do papel de Mahler como ‘cosmólogo metamusical’, no contexto do culto nietzschiano austríaco, ver McGrath, Dionysian Art and Populist Politics in Austria.”

[ARQUIVO] MATRIX, ATIVAR

Aula de Formação Econômica Brasileira, pós-almoço, aquela palestra maçante e aquele sono infernal, juntando criatura famélica com vontade absurda de sentar para um banquete… Estou resistindo bravamente sobre a carteira… Até que penso que capoto profundamente… Babo, inclusive! Presencio a maldita elucidação de uma conspiração, personagens que parecem saídos de uma produção sci-fi de baixo orçamento me convencendo de que ali é o reino do verdadeiro, e não lá fora, aquele mundinho que eu conheço e venero, porém que não passa do mais forte dos ópios! Todos os seres humanos seriam mantidos prisioneiros e precisavam incondicionalmente da minha ajuda, eu não podia SONHAR em voltar…

“…e o Brasil permanecia no ciclo da cana-de-açúcar com poucos auferindo grandes lucros…”

Haviam se passado somente 2 minutos!

[ARQUIVO] DITADOR NA PRAIA

Eu me tornava um ditador, de repente dono de um país e das maiores riquezas sem mais a menor obrigação para com ninguém. Estou na minha praia, sou um velhaco ou uma criança, jogo, da areia, uma bola, que afunda no mar, já de profundas águas à própria borda. E o que é isso? Eu mesmo estou no topo de uma rampa, de um declive. Uma ilha de uma montanha de areia, perfeitamente triangular, e quando se começa a deslizar já não é possível mais parar. Tibbluff: eu estou imerso no líquido, zona de insegurança. Haverá animais nessa água suja e espumosa? Quando tento me esgueirar de novo para a porção de terra, catar o começo da superfície, ou simplesmente morrer e me estirar ali, no ponto fixo, meus membros me faltam, como os soldados mercenários faltariam ao general estúpido – parece antes que sou puxado, que atravessarei, em velocidade de lancha, todo o oceano até o lado oposto, antes que possa simplesmente me salvar pelo mais simples. Mãos e pernas em aflição… Tudo isso, essa espécie de sina do milionário e revolucionário político, me assaltou belamente por alguns segundos, 10 segundos, menos segundos! E eu estava sozinho, sozinho, sozinho, não havia com quem jogar, e a bola eu perdi, queria desfrutar de tudo, ostentar os objetos, a vaidade dos charutos… Me afoguei.

[ARQUIVO] ARRANHA-CÉU XXI

Ando sonhando (hoje mais uma vez, 13/11/11) que escalo (por dentro), em vários lances de escada, cômodos, passagens secretas, elevadores bizarros… Um lugar bastante labiríntico e alto, até uma sala de uma instituição (provavelmente de ensino) para falar com alguém importante (diretor, coordenador) que possa resolver minha situação (há algo pendente que não sei explicar direito). Certas vezes não encontro ninguém, é um espaço vazio, um escritório normal com seus papéis, computadores, mesas e cadeiras, só que abandonado. Outras vezes, há uma enorme fila de pessoas e penso que não serei atendido…

[ARQUIVO] O MAIS TERRÍVEL – SUPERINTERPRETAÇÃO DE UM SONHO

15/03/11 [com pequenas edições e negritos em 16/08/11]

Meu sonho de hoje foi, talvez, o mais transparente e cristalino que já tive, e possivelmente nada mais será como foi até aqui, pois tenho a franqueza, o acaso e, sim, novas possibilidades ao meu lado, e à frente, e tendo sentido o insípido tão de perto, tão de frente, tão sem censuras… Justo hoje que me curo duma doença, talvez dum câncer… Pode querer dizer a morte de um plano? Impossível! Dificuldade e afobação passageiras, ainda tenho a genialidade trancada para quando quiser se manifestar, mas os alunos vão deixar? Dane-se, nada tenho que provar. Primeiro dia: Nando Reis – “que você era aquilo tudo que me fal-ta-va, a-a-u, uh-uh!”. Primeira lembrança consciente após despertar do presente sonho, o terrível. Esse sonho é diferente de todos os outros no sentido mais importante – ele já teve sua interpretação concluída, perfeita e freudiana, sem tirar nem pôr. Pela única pessoa que poderia fazê-lo. Exatamente isso: eu mesmo. Antes de ter escrito qualquer coisa aqui: porque eu o fiz dentro do sonho de hoje, e lembro com nitidez – e agora posso superinterpretar minha própria interpretação, que não devo menoscabar:

Eu anotava num caderno esse último sonho sinistro, parecendo um adolescente no auge da confusão – até pelo título escolhido… Lá vamos nós tentar recuperar minúcias… Eu rasurava o primeiro título escolhido, algo mais ameno, “Os Meus Pais… (algum verbo)”. Ou “O que os meus pais (verbo)”. Sei que ao final ele tinha três palavras que começavam com “N”, o que me remetia de cara ao Nirvana – pela própria letra do alfabeto, pela minha intenção, por ter o “tamanho” de Smells Like Teen Spirit (era essa a sensação durante a representação, que a palavra, que o título que escolhi, tinha a mesma dimensão do título da música do Nirvana, ocupava o mesmo número de caracteres, aproximadamente!) e por conter uma idéia de amputação/suicídio/morte. O próprio nome de banda Nirvana é um tanto revelador, já que sonoramente eu não me sinto ligado ao grupo nem um pouco. O afeto contido no emprego desta nomenclatura – embora evoque instantaneamente o conjunto de Kurt Cobain, o suicida – é todo de outra ordem. No sonho eu interpreto, e julgo estar sendo definitivo na minha análise, meu sonho-síntese (I), para meu próprio terror.

I

No sonho-síntese, a família celebra algo na varanda de uma cobertura sem parapeito… Parece Ano-Novo ou data marcante idem, minha mãe está arrumada, a tia Rosângela, minhas primas, estão por ali… Ouço vozes… De certo modo, eu me sinto, nesse átimo, enquadrado em algo extremamente repetitivo, mera conseqüência de uma vida estúpida que já vivi.1 E não só repetitivo, maçante, mas também angustiante, opressor, eu diria. Eu que nunca gostei da minha família [eu que nunca gostei de mim – adendo 2025]. Parecia, de certo ângulo, um autor onisciente que contempla um dos momentos tardios de sua trama… A história já vem avançada, chegará um dia ao seu fim, e os escassos momentos felizes vão passando, sem perdão, como na mesma velocidade em que um estranho qualquer passa as páginas do álbum de fotografias… Aquilo tudo deveria ser ilusório, apenas uma seqüência de frames de uma película já conhecida e muito batida. Simplesmente não tinha a coloração do real. Como um conto de fadas, se desmancharia fácil pelo império do tempo. Eu bem sabia, como numa profecia, [note que só podemos de certa forma prever aquilo que só depende de nossa própria volição – 2025] também o que vinha a seguir, e que destoava da “normalidade” desse evento de família… Como se esperasse isso há milênios, ou décadas, vejo, bem ao lado, e lentamente, de forma que podia ter interferido em sua trajetória (fosse para empurrar de vez ou salvá-lo), mas preferi ficar de expectador, o corpo do meu pai silenciosamente deslizando pelo ar, nós que estávamos no topo de algum prédio, à noite, corpo que eu já sentia desprovido de carne e sangue pulsante, um tanto inócuo, só uma casca, mergulhando de ponta rumo ao concreto. E ao mesmo tempo que foi lerda a queda do corpo enquanto ele estava no mesmo patamar que nós da festa, [ao mesmo tempo que o outro pode ser eu no meu sonho, o “nós” pode muito bem ser eles – eles os que festejam e têm uma boa vida, enquanto vivo deprimido – 2025] ao mesmo tempo parece ter se dado em 1 ou 2 segundos, se se considerar que assim que se atirou do chão da cobertura para o piso lá embaixo, tão distante, não houve tempo para nenhum gesto ou pensamento de minha parte: [imagino que da perspectiva de quem se joga de uma grande altura, o tempo deve passar ao mesmo tempo o mais lenta e o mais rapidamente possível, ao mesmo tempo – 2025] metade (da cintura para cima) de seu corpo estava submersa, soterrada, abaixo da calçada. Espatifou-se. [mergulhou de cabeça no inframundo, conseguindo quebrar até o concreto – 2025] Claramente morto (como era um sonho, não está descartada qualquer anormalidade, com ar de naturalidade, haja vista não estranharmos pessoas que voam ou mortos que ressuscitam enquanto não estivermos despertos e de lucidez recuperada!). O choque do corpo com o piso havia gerado um forte estrondo. De forma que quando os outros ouvem o baque e são noticiados do desastre, vem logo à tona um dissabor característico dos meus sonhos de morte (uma espécie de rubor facial, grande pesar e vexame, paralisante, mas que nunca senti, dessa mesma forma, a não ser em representações oníricas). [e não poderia sentir, a não ser mesmo em sonho: o vexame de haver se matado – 2025] E veio porque todos conversavam animadamente, era uma ocasião festiva e foi uma morte inesperada (desculpem pelo chavão!) [de certa forma quase todos ao meu redor ignoram, ou pelo menos ignoravam em 2009, quando minha depressão não era diagnosticada e expressa sem tabus, que não levo uma existência simplesmente feliz – 2025] de um ente próximo, cujo comportamento contrastou imensamente com o da família desde o início do sonho… Curioso que só eu tenha notado o corpo no momento em que ele se jogava. O restante das pessoas só se deu conta do trágico por conta do forte barulho, que já indicava o final da abrupta trajetória daquele corpo, vários andares abaixo. [a casa do sonho só tinha 2 andares; mas o lugar de onde eu sempre pude ter me arremessado na vida real é a janela do meu quinto andar, mais um indício de que meu pai neste sonho não passa do meu próprio avatar – 2025] Ao notar o rosto da minha mãe contemplando o cadáver (ou o que era visível dele), apreendendo o que tinha acontecido e que foi tão efêmero e súbito, me enchi de assombro. Mas dissimulado, até certo ponto, porque queria passar outra imagem aos convidados da festa. [o suicida não quer passar pela vergonha de ser lamentado como suicida, queria ter uma morte normal, e o pior de tudo é o suicida cuja mãe ainda vive, ao pensar na dor que lhe causaria – 2025] Por dentro, na realidade, eu era capaz até de alegria, uma alegria longamente anunciada em desejos e palpitações… [a morte de meu pai? não, a minha despedida desse mundo! tive este sonho logo que me graduei, pouco antes de ser expelido e vomitado no mercado de trabalho; de certa forma é como “passar de fase”, “cumprir com (alguma, se não toda) a obrigação”; i.e., já havia sofrido o suficiente – 2025] O presente sonho se encerra ali, e depois sou eu desperto (ou eu já me imaginava como tal) relatando tudo numa folha de papel. Sabe-se que um sonho NO sonho faz com que devamos inverter todos os sentidos – posto que o único substrato do onírico é o real, o que foi representado nele como OUTRO sonho é manifestamente um parêntese ou o pronto acréscimo da palavra NÃO a tudo o que deriva desse real: o oposto do que você quer, o contrário do desfecho desejável… Aos que relativizam essa característica, não considero nada casual a escolha dessa forma negativa de representar a morte do meu pai para mim mesmo. Não como forma de censura que retirasse o fundamental e mais imoral da interpretação do sonho, justamente porque é um dos sonhos de que me lembro com mais exatidão e fidelidade, além de seu teor ser pesadíssimo. Caso fosse realmente uma mensagem positiva, não seria difícil que pulássemos agora para outra etapa do sonho ou que eu tivesse de me despertar do meu sono para rememorá-lo conscientemente e quase sem brechas (o que costuma acontecer quando temos um pesadelo), como o fiz somente ao acordar verdadeiramente. Mas ao “acordar e continuar dormindo”, ou seja, criar o subterfúgio do sonho dentro do sonho, e ter sabido de todas essas operações logo que acordei no mundo real, ficou patente para mim que o que eu fiz foi emitir uma sinalização clara, sem distorções, do que é que eu deveria refutar, o ideal que deveria ser ignorado (meu pensamento crônico da vida consciente de desejo de morte do meu pai [de querer morrer – 2025]). Revelar-se-ia, assim, com um pouco mais de análise a posteriori, o conteúdo latente significativo de verdade, por trás desse teatro tão convincente que encenou a morte do meu pai (ora, dir-se-ia que o sonho é sempre simbólico, mas ele não acaba aqui! Há mais coisas para desvendar, nem tudo me foi dado de presente! Se disse logo acima que quando acordei o sonho já estava totalmente interpretado, foi apenas figura de retórica).

Na interpretação do sonho NO sonho, eu, inclusive, me mostrava satisfeito, vingado, quitado, mas, por outro lado, pesado, desgastado, de alguma forma muito severa, enfim, ressentido, rindo amargamente por dentro da postura condenável dos meus pais – daí o prazer em rabiscar o título e reescrevê-lo mais cruel ainda. [não preciso dizer que me ressentia de mim mesmo mais que de qualquer outra pessoa, certo? – 2025] E agora preciso chegar à cena final do sonho… A parte mais hermética, que complementa a tão transparente mensagem do trecho acima:

II

Uma espécie de bar de entrequadra, desses típicos daqui, é o ambiente. Bem na orla da calçada, já invadindo a vegetação, dialogo, em uma mesa, ou sem a mesa, mas sei que sentado, com um interlocutor mais ou menos da minha idade a quem tentava explicar “minha teoria”. Eu dizia que árvores novas continuavam sempre nascendo, ou algo assim, em oposição às podres e velhas, que morriam. E então me aparecia uma árvore “nova”, recoberta de um musgo bem verde e vivo, e formigas sem cessar brotavam dela e me forçavam a agitar as mãos e os braços, porque elas vinham em grande quantidade para cima de mim, de todas as direções. O interlocutor se gabava dizendo que eu estava errado e ele certo, mas apesar do incômodo da comichão provocada pelas formigas e tentando espantá-las, eu afirmava confiante: “Não, isso só comprova que eu estou certo!”. Algo mais acontecia nesta cena e de repente eu me via com todas as pontas dos dedos das duas mãos decepadas (e por um instante pareciam mesmo caules de árvores serrados!),2 como a dizer: uma árvore genealógica que não prossegue é o que de pior pode haver, sinônimo de esterilidade e anti-vida, sem frutos. Para além da morte de meu pai, já exteriorizei a alguns confidentes o forte desejo de extirpar minha própria raça. [e o que mais eficaz que um suicídio, para extirpar a própria raça? por que esperar até a morte senil tomando ainda o cuidado de não ter descendentes para isso? mas uma árvore que morre ainda nova seria absurdo; então sim, eu estava certo sobre a minha “teoria”! além disso, meu pai sempre viverá em mim. – 2025] Eu, pequeno, força apenas reacionária de um mundo decadente, não tendo filhos (nem metas de que me orgulhasse) e morrendo, implicando assim a ainda mais real e ulterior “re-morte” de meu pai, que findaria sem netos, ou seja, o fim da linhagem. Porém, percebi que no fim das contas estamos vinculados de tal forma que querer a morte de um é querer consumar a morte do outro… [já está decidido de antemão que as árvores seguirão aí, independentemente de qualquer ato nosso, então se preocupar excessivamente com isso é ninharia – 2025] E acho que nem é isso o que eu quero – o que qualquer impulso vital quer… Ficou claro que eu não podia ter um juízo independente, que havia algo mais forte que eu me sustentando e me puxando, mesmo que inclusive me oprimindo, ora ou outra, mas garantindo, de qualquer maneira, minha existência e meus pensamentos de fundo. Existia esse algo que me superava, por trás, soberano, cimentava todos os meus atos, sendo impossível ser contra ele, já que qualquer estado de ânimo meu, ainda que belicoso e adverso para com a própria árvore que me deu origem, seria um mero reflexo do estado de espírito deste “primeiro” ente, que vou deixar aqui como uma abstração (todos os meus finados avós reunidos, quem sabe).

O principal já foi fornecido, mas não esgotei a escrita aqui. Cronologicamente, depois da cena das árvores e do espanto das formigas, e da constatação da amputação múltipla, já estou num carro, só não sei se estacionado ou em movimento. Uma mulher, talvez da minha idade, me pergunta algo a respeito de todos os engodos que se sucederam, e o homem, ao lado dela, talvez eu, talvez não (imagens sobrepostas, parece um amigo chamado Gabriel, muito provavelmente porque a mulher também se parece com uma Gabriela que pensei ter visto num carro qualquer dia desses, no banco do carona, estacionado em uma entrequadra), contestava: “É preciso não acreditar em nenhuma mentira – nem nas dos comerciais…”. “Nem nessas?”, ela insistia. Mas a personagem masculina seguia resoluta em seu ponto de vista…

III

E há, ainda, no miolo do sonho, um outro trecho que por enquanto omiti para não jogar informações demais e atrapalhar a narrativa central (I), que parece ter sido uma ramificação mais madura de várias problematizações aqui levantadas, antes do “suicídio paterno” na sacada do prédio. Estou em casa só, tenho muito tempo para fazer o que quiser, com bastante liberdade à disposição, como se tivessem viajado e me deixado ali. Uso uma espécie de tecido na cabeça que serve de bandana, algo que pertence aos produtos de limpeza da casa ou que fazia parte da decoração. Talvez uma toalha, mas um tanto gasta e irreconhecível. Ao mesmo tempo, o banheiro está bem sujo e diferente do convencional, com a tampa da privada estofada e colorida como se fosse um sofá, mas o urinol está úmido. Encontro-me meio atordoado porque gostaria de fazer alguma coisa, talvez cantar, cantar várias músicas na seqüência, mas não sei por onde começar nem como encontrá-las… Em seguida, em outro trecho, estou tentando dormir, mas sou acordado pelos parentes da casa que abrem a porta fazendo estardalhaço. O Diogo é o culpado, e me irrita bastante. Alguns objetos do criado-mudo e da cama são mudados de lugar, como almofadas, meus óculos, que estavam longe de mim e de repente estão no meu rosto, e os controles remotos, que vão parar na minha mão. Ligo a TV mas pretendo continuar dormindo, ou fingir que estou dormindo, para os demais da casa. Posso pressentir a presença do meu pai e da minha mãe. Mas agora estou de pé, desperto, e recepciono o Alex, Gnomo, amigo do meu irmão Diogo, com quem costumo ser até mais simpático do que com ele. Ele está sem camisa e começamos a lutar – de brincadeira. Tento acertar chutes, e socar com toda a força, mas são golpes fracos demais, que não causam praticamente efeito. Quando ele tenta uma joelhada ou investida, sinto que poderia me derrubar, mas ele não luta pra valer, e eu faço a esquiva ou o bloqueio, mas com dificuldade. Gnomo tenta me dar dicas de como combater melhor, me avisa para não abrir a guarda antes de aplicar o direto com a direita, notando que eu abaixava o outro braço e ficava vulnerável.

De repente o cenário muda. Somos três – eu, Gnomo e o Diogo, se bem que outrora é o Aloísio, meu antigo vizinho, ao invés do Gnomo – acompanhando o jogo sub-17 do Brasil, no horário do almoço. Minha mãe entra no quarto, aparentemente trazendo um lanche. GOL da Seleção nessa mesma hora! A bola parece que nem passou da linha, o lance foi muito rápido para acompanhar com os olhos. Havia ali uma bola, na nossa frente, e eu sentado começava a brincar com ela, fazendo embaixadinhas curtas, com o joelho – até passava para o Árlesson (outro amigo meu que morava perto e com quem convivi nos anos de infância, como com o Aloísio, que agora substituía meu irmão na cena), que estava de costas, e cutucava a cabeça na bola, talvez involuntariamente…

FRASES SOLTAS QUE O FLUXO DE ESCRITOR LIBEROU E QUE NÃO PUDE INSERIR NO TRANSCORRER DA NARRAÇÃO DO SONHO, MAS QUE TÊM RELAÇÃO COM O MESMO:

Sim, nossa danação é que somos supersticiosos, e não há quem tire isso!

A vida é como um sonho gigante! Mas se o final está condicionado pelo começo… Então não pode ser um sonho…

Felizmente, nada é tão claro nem tão hermético – a não ser esse mundo do professor-proletário…

1 E mais tarde preciso narrar uma cena prévia (ou um conjunto delas) que não estaria diretamente nessa interpretação escrita do final do sonho, mas que cronologicamente, da ótica do acordado, é-lhe anterior. [Vide número III]

2 Dentro do próprio sonho, “descobrindo” que estava sonhando (mas esquecendo disso logo depois, ou eu realmente despertei mas voltei logo a dormir), me pus a perguntar por quais causas externas, por quais hipóteses, havia-me representado as mãos decepadas: 1) fui ao médico no mesmo dia e ele não tinha o dedo polegar da mão direita; havíamos apertado as mãos e eu estranhei bastante; 2) pensei na possibilidade de estar deitado sobre uma das mãos e ela se encontrar dormente. Não sei se acordei e constatei que a tese estava correta, me deitando de forma adequada, ou se a sensação de dormência, de que recordo com perfeição, foi artificialmente produzida, como o formigamento dos insetos na cena imediatamente anterior!

Adendo 21-10-25: Nova interpretação: meu pai era eu e, portanto, a mensagem central de todo o sonho era: e u n ã o q u e r o c o m e t e r s u i c í d i o , não desejo seguir sendo apenas expectador de minha própria vida. O que, aliás, à luz de tudo que venho enfrentando, posso dizer, de 2009 a 2025, em termos de saúde mental, tem um caráter muito mais provável. Resumo: nenhum sonho pode ser jamais superinterpretado – eis que já está mega, hiperinterpretado!

#GrandesCitações THE MEDIUM IS THE M@SSAGE: An inventory of Effects – Marshall McLuhan & Quentin Fiore – On the artist

“The poet, the artist, the sleuth – whoever sharpens our perception tends to be antisocial; rarely ‘well-adjusted’, he cannot go along with currents and trends. A strange bond often exists among antisocial types in their power to see environments as they really are. This need to interface, to confront environments with a certain antisocial power, is manifest in the famous story, ‘The Emperor’s New Clothes’. ‘Well-adjusted’ courties, having vested interests, saw the Emperor as beautifully appointed. The ‘antisocial’ brat, unaccustomed to the old environment, clearly saw that the Emperor ‘ain’t got nothin’ on’. The new environment was clearly visible to him.”

DEMENTIA PRAECOX – Kraepelin

 

The name proposed by Evensen ‘amblynoia’, ‘amblythymia’, further the ‘demenza primitiva’ of the Italians, or the one preferred by Rieger, which meanwhile has certainly been already used in a narrower sense, ‘dementia simplex’, might also be taken into consideration. Bernstein speaks of a ‘paratonia progressiva’, a name that would suit only a part of the observed cases. Other investigators accentuate the peculiar disturbance of the inner psychic association in our patients and call the disease ‘dementia dissociativa’, ‘dissecans’, ‘sejunctiva’ or with Bleuler ‘schizophrenia’. It remains to be seen how far one or other of these names will be adopted.”

What the voices say is, as a rule, unpleasant and disturbing.”

The patients frequently connect them with malevolent people by whom they are ‘watched through the telephone’, or connected up by wireless telegraphy or by Tesla currents.”

I am perfectly sane and feel myself treated as a lunatic, while hallucinations are brought to me by magnetism and electricity.”

But above all, as Bleuler especially has shewn in detail, the patients lose in a most striking way the faculty of logical ordering of their trains of thought.”

By these disorders, which in many respects remind one of thinking in a dream, the patients’ mental associations often have that peculiarly bewildering incomprehensibility, which distinguishes them from other forms of confusion.”

I have also said I shall then come in the end last, with the sun and the moon, and too much excitement, and all that makes still a great deal of trouble.”

If the patient continues talking, the same ideas and expressions usually turn up again from time to time. Occasionally the persistence gets the mastery of the train of thought to such an extent that the patients for weeks and months always move in the same monotonous sphere of ideas, and cannot be brought out of it by any means.”

A patient replied to the question how old she was; ‘One day.’ Clearly this phenomenon is nearly related to the negativistic disorders of thought.” “This state appears more clearly in the utterances of other patients, that they ‘are forced to think otherwise,’ that they ‘have to think the opposite of what other people with normal understanding do.’”

A patient wanted to strangle herself because she had not her thoughts any longer. Thoughts are made by others in the distance, in Berlin, read off, taken away, carried over.”

In work the patients soon become negligent, they get bad certificates, pass no examinations, are turned off everywhere as useless, and easily fall into the condition of beggars and vagabonds.”

My whole mental power has disappeared, I have sunk intellectually below the level of a beast.”

they are afraid they are going out of their mind, becoming insane, falling ill” Descartando o mito de que o louco não se pensa como um louco. Porém: “In contrast to these indications which sometimes characterize the situation with surprising clearness, understanding of the disease disappears fairly rapidly as the malady progresses in an overwhelming majority of cases even where in the beginning it was more or less clearly present.”

Many patients begin to read medical books, connect their complaint with onanism, begin all sorts of cures.”

The patient notices that he is looked at in a peculiar way, laughed at, scoffed at, that people are jeering at him, are spitting in front of him, the clergyman makes allusions to him in the sermon.” “Jews, anarchists, spiritualists, persecute him, poison the atmosphere with poisonous powder, the beer with prussic acid, generate magic vapours and foul air” “He has been taken for a telephone post”

The patient has committed sin with his stepdaughter, with his sister, has had intercourse with cows so that hybrids have been produced; he has committed a crime against decency, has ruined himself by sexual excess, is homo-sexual, is a sadist.”

Female patients notice that men wish to seduce them, policemen and soldiers wish to have them all. A dog with a muzzle [focinheira] on seemed to a patient to indicate his sexual restraint; when his landlady brought him an egg for breakfast he regarded that as an invitation to sexual intercourse and prepared to accept it.”

In connection with these insane ideas an irritable aversion to the other sex is not infrequently developed. A patient spat at the girls he met.”

The singular indifference of the patients towards their former emotional relations, the extinction of affection for relatives and friends, or satisfaction in their work and vocation, in recreation and pleasures, is not seldom the first and most striking symptom of the onset of disease.” “Everything is frightfully indifferent to me, even if I should become quite insane” “he lives one day at a time in a state of apathy.”

One of the most characteristic features of the disease is a frequent, causeless, sudden outburst of laughter, that often is strikingly in evidence already at the very commencement.”

I am inclined to assume that this confusion in the emotional life is caused essentially by the weakening of the higher permanent feelings, whose task it is on the one hand to check sudden oscillations of feeling, on the other hand to give to our inward states permanently equable tension and temperature, and so to become security for the agreement of our emotional relations with the outer world.”

Many patients constantly exhibit a silly cheerfulness, others always a lachrymose dull depression or an ill-humoured strained behaviour.”

Another asserted that his sister had an apparatus for speaking at a distance, 150 to 300 miles; by the current one could be made to fall in love, to grieve, to have bad thoughts.”

the nerve of laughing is irritated; it is an electrical laughing.”

They experience no tediousness, have no need to pass the time, ‘no more joy in work’, but can lie in bed unoccupied for days and weeks, stand about in corners, ‘stare into a hole’, watch the toes of their boots or wander aimlessly about.” No que se assemelham aos viciados em uso das drogas que não do tipo alucinógeno.

a third asked ‘for an easy job, perhaps as a clergyman.’HAHAHA

The patients therefore are usually docile, let themselves be driven as a herd, so that they form the necessary nucleus of those crowds which conform willingly to the monotonous daily round in large institutions.”

It is seen in waxy flexibility, in the preservation of whatever positions the patient may be put in, even although they may be very uncomfortable.”

 

 

The patients sitting are fairly demented, while the three patients still are in the initial stages of the disease.”

Usually it is possible only with the most extreme force to bring them out of such a position, which they usually take up again as soon as the hindrance has ceased.”

The patients suddenly break a mirror in pieces, knock over tables and chairs, take down pictures, throw objects out at the window, climb on to a cupboard, set fire to their hair, run naked into the street, ring bells, put their heads in the basin of the water-closet, set the chamber on their head, creep under the table, smash a lamp. Usually such senseless actions are carried out with great violence, suddenly, and with lightning rapidity, so that it is impossible to prevent them; the patients also oppose themselves in the most insolent way to every attempt to keep them from doing these things.”

A patient who always rocked himself rhythmically from side to side, simply explained, ‘It happens so in me,’ ‘I must shake my head or else I am in terror,’ ‘I must constantly say things,’ ‘I must scream without wanting to, there is that impulse in me,’ ‘I must throw myself about at night in bed as if a strange power threw me,’ ‘I must turn round, as when a magnet draws a needle,’ ‘I could not have rested till I had done that,’ are similar expressions.”

OS SUB-TIPOS DE ESQUIZOFRENIA TAL QUAL KRAEPELIN OS ENCONTROU EM SUA ÉPOCA

A) DEMENTIA SIMPLEX

The disease begins usually in the years of sexual development, but often the first slight beginnings can be traced back into childhood.”

Hand in hand with this decline of mental activity there is a change of temperament, which often forms the first conspicuous sign of the developing malady. The patients become depressed, timid, lachrymose, or impertinent, irritable, malicious; sometimes a certain obstinate stubbornness is developed. The circle of their interests becomes narrower; their relations to their companions become cold; they show neither attachment nor sympathy. Not infrequently a growing estrangement towards parents and brothers and sisters becomes noticeable.”

The frequency of the malady is probably fairly large, even if only a small number of the cases are considered as morbid at all or even fall into the hands of the alienist. Who cannot call to mind companions of his youth who at first gave just ground for certain, perhaps brilliant, hopes, but then from some point of their development onwards failed in an incomprehensible way?”

A really profound dementia, without fairly acute exacerbations, with a continuous development of the malady, only slowly progressive, does not seem to occur. On the contrary, a dementia simplex which lasts for many years, even for decades, forms often enough the introduction to one of the forms of dementia praecox which goes on to profound dementia, and which will be discussed later on.”

B) SILLY DEMENTIA

GLOSSÁRIO

estereotipia: repetição verbal ou motora

evasion or paralogia consists in this, that the idea which is next in the chain of thought is suppressed and replaced by another which is related to it.”

P. 94/362

DEMENTIA PRAECOX .26