[ARQUIVO] CREPÚSCULO DOS ÍDOLOS — OU COMO FILOSOFAR A MARTELADAS

 

Páginas destacadas e temáticas (ed. Escala):

17: filósofo, o animal-deus

21: sobre as mulheres insinuantes, em vestes tropicais para climas frios. Dormir nu, ao sereno: tem-se de estar serenado.

22: “Quando a mulher possui virtudes masculinas, não há quem resista a ela; quando não possui virtudes masculinas, é ela que não resiste.”

23-4: os intrigantes 4 casos de consciência. Sobre o apartamento e a misantropia. Como somos sui generis.

29: da feiúra de Sócrates

36: “monótono-teísmo”

39: “Temo que jamais nos livraremos de Deus, porquanto acreditamos ainda na gramática…”

41-2: espécie de resumo da ópera (cronologia das obras de N.). Meio-dia.

45: o problema do aniquilamento

46: nas entrelinhas: o que é perfeito quer…

50: o problema do “homem mais forte do mundo” que morreu centenário, agora entendido sob o prisma nutricional correto: ele recomendava que se comessem vegetais para se viver longamente; porém ele comia vegetais unicamente porque seu metabolismo era mais lento. Suicídio intelectual em nossa época: dieta pobre em proteínas. Ver citação abaixo.

58: “somos um pedaço de destino.”

60: o “animal louro”

61: “Como o Novo Testamento é pobre ao lado do Manu, como cheira mal!”

66: sempre o bordão “A Alemanha, a Alemanha acima de tudo.”; o problema dos jovens filósofos beberrões. Strauss entre eles.

71: a importância da digestão dos pensamentos (sozinho e em grupo)

76: muitas escritoras que utilizavam pseudônimos masculinos

81: músculos e música

84: a astúcia como artifício do fraco; a diferença entre o psicólogo e o político.

93: receita de Júlio César para o corpo: “grandes caminhadas, estilo de vida o mais simples possível, permanência ininterrupta ao ar livre [contradiz o preceito nietzschiano das ‘grandes galerias ao abrigo do sol e da chuva’], fadigas contínuas.”

94: quando o “ideal” é o real

95: as farinhas do mesmo saco sacristão

97: saber morrer

99: crítica a suas minguadas resenhas em jornais

103: incompreensível fé na Mãe-Rússia!

109: “Dostoievski, o único psicólogo, diga-se de passagem, de quem aprendi alguma coisa.”

117: palestra “no antiquário” (complemento a Ecce Homo): Salústio, Horácio, Fontenelle, Tucídides.

118: de como o “ser grego” está absolutamente fora da meta (impossível ser clássico na modernidade…). Romanos: os perfeitos intermediários entre as duas culturas. Extrema dualidade em relação a Platão.


O livro das frases mais célebres.

O que não me faz morrer me torna mais forte.”

Sem música a vida seria um erro”

com a dialética, a plebe chega ao alto”

Um sábio de nossos [e fala de um tempo que hoje soa ainda clássico, pasmacento] dias, com seu consumo de força nervosa, se fosse submetido ao regime de Cornaro, arruinaria sua saúde completamente.” Diria que até os genuínos Cornaros morrem cedo na era do fast food.

Toda educação superior não pertence senão às exceções: é preciso ser privilegiado para ter direito a um privilégio tão superior. Todas as coisas grandes e belas não podem jamais ser um bem comum: pulchrum est paucorum hominum (o belo é de poucos homens). O que é que ocasiona o rebaixamento da cultura alemã? O fato da ‘educação superior’ não ser mais um privilégio—o democratismo da ‘cultura’ tornada obrigatória, comum.”

Que não se cometa a infantilidade de me objetar Rafael ou qualquer cristão homeopático do século XIX. Rafael dizia sim, Rafael criava a afirmação, logo Rafael não era um cristão…”

Não temos em mãos um meio que possa nos impedir de nascer: mas podemos reparar essa falta—pois às vezes é uma falta. O fato de suprimir-se é o mais estimável de todos os atos: quase dá direito a viver…”

Meu conceito de gênio (…) histórica e fisiologicamente, sua condição primeira é sempre a longa espera de sua vinda, uma preparação, um arqueamento sobre si mesmo—isto é, que durante muito tempo não se tenha produzido nenhuma explosão. Quando a tensão na massa se tornou muito grande, a mais fortuita irritação basta para recorrer no mundo ao ‘gênio’, à ‘ação’, ao grande destino. Que importam então o meio, a época, o ‘espírito do século’, a ‘opinião pública’! (…) a esterilidade os segue passo a passo. O grande homem é um final; a grande época, o Renascimento, por exemplo, é um final. (…) Esse é o agradecimento da humanidade: entende seus benfeitores em sentido contrário [como tiranos da moral, déspotas de si mesmos, quando tudo o que fazem é involuntário].”

Aproximam-se tempos—posso assegurar—em que o sacerdote será considerado como o ser mais baixo, mais mentiroso e mais indecente, como nosso chandala (…) Catilina—a forma preexistente de todo César.” Precisamos nós, os imoralistas, odiar o mundo antes de perdoá-lo.

O progresso na minha opinião—Também eu falo de um ‘retorno à natureza’, [vis à vis Rousseau e Goethe], embora não se trate propriamente de um retorno para trás, mas uma caminhada para frente e para o alto, para a natureza sublime, livre e mesmo terrível, que brinca, que tem o direito de brincar com os grandes destinos. (…) Napoleão foi um exemplo desse ‘retorno à natureza’ como o entendo (…) Mas Rousseau (…) Esse aborto que acampou no umbral dos nossos tempos, também ele queria o ‘retorno à natureza’ – (…) aonde queria realmente chegar? – Odeio ainda Rousseau na revolução que é a expressão histórica desse ser de duas caras, idealista e canalha. (…) Só conheço um que a sentiu como deveria ser sentida, com aversão—Goethe…”

seria desconhecer os grandes homens se estes forem considerados sob a perspectiva miserável de uma utilidade pública.”

meu orgulho é dizer em dez frases o que qualquer outro diz num volume—o que outro não diz num volume…” “Ofereci à humanidade o livro mais profundo que ela possui, meu Zaratustra”


Anotações de cunho pessoal:

Vulgar Display of Power seria uma bela denominação para as coisas do mundo.

12 de julho de 2011

[ARQUIVO] GENEALOGIA DA MORAL

Páginas destacadas e temáticas (ed. Escala):

31: a democracia odeia a História

36-7: o projeto judaico, a longa trajetória da escravidão até o poder (o poder escravo) (Páginas cheias para o anti-semita que quisesse deturpar… Ou acusar N. falsamente.)

40: dizer-sim e dizer-não. O sim que sobrepuja todos os nãos.

41: o “sabbat”, repouso do ressentido com a vida

42: o nobre que explode—ele não suporta estocar rancor!; Mirabeau

46: nazismo

47: niilismo. “Estamos cansados do homem”

49: o erro do átomo

51: para Homero, a vingança é mais doce que o mel

52: o portal do Paraíso; Dante; Tomás de Aquino e a catarse dos “absolvidos”.

56: os judeus ganham a guerra do milênio, ou duomilinar

57: a última vitória do espírito clássico-romano sobre o espírito judeo-moderno: Napoleão Bonaparte.

59: a interdisciplinaridade sonhada pelo autor; prescrições para a filosofia do futuro.

65: o ser que promete

70: livre-arbítrio debaixo dos escombros do martelador

73: este é o livro que mais cita os livros anteriores de Nietzsche; o Dom Quixote tornou-se menos cômico e mais cruel com o tempo (Processo Civilizatório).

75: sobre o hedonismo; sobre o querer testemunhas para si.

76: a festa e o divino

77: a origem da palavra homem

78: a verdadeira origem da justiça; o verdadeiro e imoral conceito de justiça.

81: personalidade reativa/vingativa como indício de fraqueza

84: o problema da causa e finalidade

85: supra-homem; ataque a Darwin.

90: o mundo inocente; Spinoza.

94: anti-Hobbes

95: “instinto de liberdade” ou simplesmente “vontade de poder”

99: a “segunda inocência” do ateu

100: zerando as contas do niilismo

110: antes querer o nada a não querer

118: sexualidade e arte – caráter de Rafael; “a roda de Ixion está imóvel”, tirado de Schopenhauer.

120: filósofos ilustres e seu celibato; “Um filósofo casado é motivo de comédia”.

121: Buda e o lar com a família como “local de impureza”; a retirada para o deserto.

122: desfecho da elucidação do paradoxo do asceta

124: o filósofo e sua mania noturna; “o instinto maternal”.

125: a velha polêmica—sexo “antes da grande partida” atrapalha?; a incipiente fisiologia da estética.

127: a teia-de-aranha de Deus

129: “todo aquele que constrói um ‘novo céu’ encontrou a força em seu próprio inferno…”

136: niilismo como o casamento do desgosto e da compaixão

137: “onanistas morais”

145: “a aberração dos vegetarianos”

146: a “concepção pan-indiana” de ascese

158: ranking nietzscheano das doenças européias: 1. o ideal ascético; 2. o álcool; 3. a sífilis.

162: a subordinação da ciência moderna ao ideal cristão, formulada da maneira mais clara. O mesmo dir-se-ia do Estado. Tudo se afunila para o Um.

164: Karamázov, Ivan

166: Arte e arte

167: a tábua de Copérnico

168: Tolstoi

169: “regime alimentar exclusivamente composto de jornais, política, cerveja e música de Wagner acrescido daquilo que é o pressuposto dessa dieta”


o esquecimento ativo (…) espécie de porteiro vigilante encarregado de manter a ordem psíquica, a tranqüilidade, a etiqueta” Meu porteiro está em sono profundo.

Sem crueldade, não há festa”

Um dos livros mais cifrados e ruminantes do filósofo, embora possua parágrafos extensos. Mas posso dizer que 4 anos de noites mal-dormidas já são o suficiente para chegar à clarividência de todos os problemas…

Há dois tipos de ateu: o ateu passivo e o ateu honesto; o ateu cristão e o ateu transmutador!

Eu não posso carregar o mundo nas costas; não suporto carregar sequer dois destinos.”

Esse será doravante o livro que eu mandarei ler primeiro àquele que me solicitar que eu o introduza a Nietzsche.

oh amigos desconhecidos! (porque não conheço ainda a nenhum amigo) (…) A vontade de verdade, uma vez que seja consciente de si mesma, será a morte do mal: é o espetáculo grandioso reservado aos dois próximos séculos da história européia; espetáculo terrível entre os terríveis, mas talvez fecundo de magníficas esperanças.”


Anotações de cunho pessoal:

Posso te dizer uma coisa: não há nada como dormir… Nada. Essa capacidade prodigiosa de estar em novos e excitantes contextos despreocupadamente, em aparente—e para a consciência é suficiente o aparente—dissociação com o passado. Por isso sair, aventurar-se pelo desconhecido, embebedar-se ou mesmo perder-se na melodia de uma música também é imprescindível, inigualável. Sociólogo: o invejado ápice da consciência alerta. Ligada em todos os movimentos e em todos os rastros. Viva-se com uma herança dessas! Viva-se DENTRO DE CASA desse modo! Viva-se onisciente mas nihil-potente! Insuportável… Me deparo com esse tipo de trecho em minhas mensagens grafadas a cada janeiro. E o relógio me faz pensar que foi um exagero.

A cada hora, a direção da minha angústia aponta para algo diferente… Eu só não consigo esquecer meu caráter de “personalidade indesejada” em certo grau.

E por que toda essa maldita “conspiração”? Parece que estou sempre lendo uma página feita para que eu a lesse exatamente nesse dia… Sentir-se especial… Mas não grandioso: o maior dos vermes amargos. MEU paradoxo: só posso me enfraquecer ao promover a única queixa possível contra o enfraquecimento; é assim que funciono. Aquela máquina que todos no escritório se perguntam: “Quando é que finalmente vai quebrar?”. Do que me adianta todo o enternecimento post mortem?

Genealogia, genealogia, genealogia… Como é insalubre a profissão do escavador!

Minha maior desvantagem: além de escutar tudo que uma natureza excepcional precisa aprender a escutar, eu tenho que escutar tudo que um homem comum precisa escutar (porque a maior parte do tempo eu não me revelo!)—e isso é o mais ofensivo! Como se eu fosse mesmo aquele estagiário-padrão, aquele aluno que precisa de orientações, o eterno-subalterno! E eu ainda tenho que ouvir a minha própria consciência… prensada!

Pessoas morrendo—pessoas morrindo

Rimos de céu, inferno, gárgulas e Jesus.

O bebê é o que mais chora, o velho é o que mais ri.

De 7 a 23 de janeiro de 2010

[ARQUIVO] BRINCADEIRA DO OBITUÁRIO

Baseada nos perfis dos militares brasileiros publicados pela Revista VEJA, mortos no terremoto haitiano do começo de 2010:

Rafael de Araújo Aguiar, de 21 anos, soldado, Brasília-DF. Mais jovem de toda a expedição de paz, Rafael também era o único que provinha da capital do país e de uma família de classe média alta, que em tese não deseja para os filhos uma carreira militar que principie na base (postos como o de soldado em detrimento de exames que podem qualificar alguém já para as patentes de sargento ou tenente). Seus pais são civis. Seu falecido avô, pai de sua mãe, havia se reformado pela Marinha. Amigos não sabem como ele foi parar na América Central ao certo, já que Rafael sempre havia manifestado repúdio pelas rígidas hierarquia e disciplina do Colégio Militar, onde havia estudado por 4 anos e meio, além de manifestar especial interesse por autores da filosofia e escritores clássicos e ser conhecido na cena punk e metaleira local como assíduo freqüentador de concertos de bandas com letras anti-militaristas e por ostentar uma invejável cabeleira. Por fim, era muito míope e havia sido dispensado do serviço militar obrigatório. Algo no ano de 2009 o fez mudar de idéia: provavelmente necessitava com urgência de renda própria para realizar seus planos. Não constam informações de que estivesse comprometido; havia trancado o curso de sociologia no quarto semestre e rumado sem mais explicações ao Haiti, ao ser aprovado em novo teste físico no quartel. Os mais próximos alegam que tal decisão foi o ápice de uma tendência crescente de se afastar das outras pessoas e de emudecer cada vez mais sua personalidade comunicativa.

[ARQUIVO] METALLICA À VENDA? (Ian Christe)

De 29 de junho a 19 de julho de 2011

Mais uma vez, os fãs tornaram-se ratos escondidos pelos cantos. À medida que o metal sofria à vista do público, o Metallica fazia pouco para ajudar a contornar a situação. Por anos eles puseram o mundo do heavy metal em primeiro lugar, mas agora pulando irreconhecivelmente na frente dos holofotes em toda cerimônia de premiação ou sessão de vídeo, a banda viajou com os grupos alternativos Hole e Veruca Salt em setembro de 1995 para tocar em um festival patrocinado pela cerveja Molson Ice na vila ártica de Tuktoyaktuk. A banda que havia se recusado por mais de sete anos a até mesmo fazer um videoclipe estava agora aceitando eventos promocionais.”

I put my cock into the carcass

My climax can wait no longer

Expectorate my seed of hate

Onto her mutilated corpse”

“‘Eu não usei cuecas nos últimos quinze anos’, Lars Ulrich contou à Melody Maker, ‘mas nove meses atrás decidi que não iria mais usar jeans novamente. Porque como eu não sou circuncidado, diferente da maioria dos norte-americanos, haveria uma quantidade considerável de urina espalhada pela minha calça cara por causa do consumo excessivo de álcool. Então minha esposa sugeriu que eu usasse cuecas para que eu não mijasse nas minhas lindas e caras calças de estilistas famosos o tempo todo.’”

“‘O Metallica pode fazer o que quiser agora’, disse Shawn Crahan, do Slipknot. ‘Eles venceram. Eles conquistaram o direito de fazer o que quiserem hoje em dia.’”

Zombification ejaculation over mutilation

On the Mother’s body hacked into pieces

The sludges from my cock gives her life once again

Sewing the remains of the child deep within her

She’s already dead, I masturbate with her severed head

My lubrication, her decomposition

Spending my life molesting dead children”

Conforme seus cabelos lentamente voltavam a crescer, o Metallica redescobria sua origem metal. Para a turnê norte-americana de 1997, prepararam um show com um palco sofisticado que representava a realidade maliciosa na qual a banda então vivia. Inspirados no dramático acidente com James Hetfield em Montreal, todas as noites, na metade do show, uma parte falsa da iluminação explodia, para deixar a figura de um técnico em chamas balançando pelos ares, preso por um cabo de segurança. Para dar seqüência ao tema de destruição já iniciado, torres de iluminação caíam até uma posição predeterminada, e roadies corriam para apagar o fogo. O técnico de iluminação era levado em uma maca para uma ambulância que estava à espera ao lado do palco, enquanto a mesa de som lançava loops de ruídos de estática. § Com o equipamento supostamente destruído, os membros da banda fingiam então buscar uma solução para a catástrofe. Reuniam-se em um canto remoto do palco onde havia apenas dois conjuntos de guitarra e amplificador e algumas lâmpadas que pendiam do teto, e rapidamente improvisavam um medley ‘caseiro’ de ‘Four horsemen’ e outras músicas antigas de Kill ‘em all. Devagar, o operador de som reforçava até um volume digno de estádio. Foi um evento extraordinário que brincava com desastres para contar a hoje lendária origem da banda. Com logística mais complexa do que qualquer palco gigantesco do Iron Maiden nos anos 80, a produção foi genialidade pura do Metallica e fingiu zombar das convenções do rock, até mesmo ao entregar-se de corpo e alma a elas. Naturalmente, a empresa de efeitos especiais recebeu o prêmio Designer do Ano da revista Stagecraft industry.”


FISSURAS E INTEGRIDADE NO MUNDO DA MÚSICA

Ou: Em busca do riff perdido atrás do arco-íris captável somente através dos ouvidos

As bandas e os gêneros floresciam e morriam, florescem e ainda morrem, rápido demais. As brechas deixadas por colossos como Black Sabbath e Metallica na incompletude e periferia de cada álbum, e nos hiatos entre as gravações, e nas inevitáveis negações perpetradas pelas escolhas (afirmações) naturais, talvez tudo isso se desenrole por décadas e não se tenha perdido uma (várias) oportunidade(s) para sempre. Não são os próprios músicos que vivenciaram os atalhos geniais de suas obras-primas que devem chegar lá, mas o legado vivo por eles plantado. Um gigante veterano tateando atrás de seu novo melhor álbum de todos os tempos não passa de comédia?

[ARQUIVO] A GAIA-CIÊNCIA

Páginas destacadas e temáticas (ed. Escala):

27: esquecendo um problema através de outro – uma dupla escada, como a criança que pulula na areia quente e reveza os pezinhos para não se queimar—e consegue!

42: vocação de professor; a tragédia e a comédia, a vida sem riso; o mar.

48: não procede a crítica de “nostálgico da Grécia e Roma antigas”; para um esboço da teoria das emoções.

49: ser vegan ou não ser; “A dialética do casamento e de amizade já foi exposta?”.

56: a necessidade de um novo amor; interpretação/interpenetração dos sonhos.

62: a espada de dois gumes chamada “vida de atleta”; lição de economia para a Alemanha; o CONTRAPONTO do que se diz nos Fragmentos Finais acerca da “tirania de si mesmo”—aquele que não souber desligar suas virtudes não vai aproveitar as glórias da vida: chutar o pau da barraca depois de erguê-la.

68: a China macha e a frustração feminina do continente Europa

78: minha autêntica alma de trabalhador; tratado acerca do inevitável tédio existencial dos bons.

83: em alto e bom som, o valor da vida

104: Aristóteles e seu erro

105: Wagner

106: gregos x franceses

110: a “previsão do futuro”, o caráter premonitório-semiótico da Música; Apolo e suas profecias auto-realizadoras.

111: para uma lição sobre a antevisão denominada Futurismo

112: Fausto e Manfredo na mesma frase; “Ah! Quem nos contará a história completa dos narcóticos?—É quase a história da ‘cultura’ inteira, a chamada cultura superior!”

119: Stendhal

120: Shakespeare e Brutus

121: Schopenhauer, o grande

131: o militarismo e a música alemãs; a história da língua para a história do povo (Holocausto).

132: o assombro do rádio

138: Eleatas, os primeiros (?) idealistas. Talvez os primeiros utilitaristas (porque esta palavra sempre define “os enganados”), os primeiros dialéticos (é óbvio!) e os primeiros céticos.

142: 1ª citação de “instinto de rebanho”

149: o louco e a lanterna e o assassinato de Deus; mas muito mais!

160: o fraco vegetariano

167: para quem deseja descansar

168: misantropia como produto do excesso de amor ao homem (estômago empanturrado que arrota e já não engole mais nada)—depois de um período de faquir (de blasé), é hora de recarregar as baterias. Cuidado com a afobação da churrascaria!

172: sobre como deixar que os amigos indesejados se esvaiam

174: da minha benevolência

180: animais e sua opinião sobre os animais-homens

204: o positivismo nietzscheano

206: no limbo entre a estrutura e a história

219: os animais e a sintonia climática

239: do peso mais pesado

256: “nossa qualidade de animais domésticos

257: Jesus e São Paulo contra os romanos

258: para fundar um novo dogma

260: sistema consciente como rebanho; seu “em si”: o eterno inconsciente.

263: a contradição, fraqueza e incipiência das ciências humanas: “querer tomar por objeto elementos que não são estranhos beira a contradição e o absurdo…”

265: Nietzsche como arquiteto e engenheiro; a ponte.

276: o animal e seu isolamento à véspera da morte—como se diz que ele não possui uma biografia?

278: a misteriosa “idade clássica da guerra”

288-9, 296: epicureus

299: “pequena política”

300: Tímon, grego, modelo de misantropia


retorna-se [da doença] mais criança e, ao mesmo tempo, cem vezes mais refinado do que nunca se havia sido antes.”

Receita (complementar a Anselm Strauss): “adorar a aparência, acreditar na forma, nos sons, nas palavras, em todo o Olimpo da aparência! Esses Gregos eram superficiais—por profundidade!”

está bem de saúde aquele que esqueceu”

A escrita, é verdade, não está realmente nítida—

Que importa! Quem é que lê o que escrevo?”

mesmo a mais bela paisagem onde vivemos mais de três meses deixa de nos agradar e qualquer margem distante excita nossa cobiça.”

Quando um homem se encontra no meio de sua agitação, exposto à ressaca em que projetos e contra-projetos se misturam, acontece-lhe às vezes ver deslizar perto dele seres de quem inveja a felicidade e o afastamento—são as mulheres.”

Não estaremos errando como num nada infinito? O vazio não nos persegue com seu hálito? Não faz mais frio?”

Agora não são mais os argumentos, é nosso gosto que decide contra o cristianismo.”

a inflexibilidade é uma virtude de outra época que aquela da honestidade”

É preciso não querer fazer mais que o próprio pai—ficaríamos doentes.”

Não gosto dos homens que, para obter um efeito, são obrigados a explodir como bombas”

Pais e filhos se poupam mais entre eles do que mães e filhas entre elas.”

Quanto ao animal doméstico: “Que bicho estranho é esse que sempre tem o que comer? Ele cuida de mim mas eu não colaboro com nada… ou serei eu seu frágil rei? Ele desaparece muitas vezes. Rei ou prisioneiro?”

A graciosa besta humana tem a aparência de perder cada vez seu bom humor quando se põe a pensar bem; ela se torna ‘séria’! E ‘em toda parte onde há riso e alegria, o pensamento não vale nada’: esse é o preconceito dessa besta séria contra toda ‘gaia ciência’. Pois bem! Mostremos que se trata de um preconceito.”

Um dano é raramente um dano por mais de uma hora”

Coloca, entre ti e hoje, pelo menos a espessura de três séculos.”

o que há de mais risível que colocar ‘o homem e o mundo’ lado a lado, que sublime presunção não confere esse ‘e’ que os separa!”

Schopenhauer, como filósofo, foi o primeiro ateu convicto e inflexível que tivemos, nós alemães: esse é o segredo de sua hostilidade para com Hegel.”

a pergunta de Schopenhauer: ‘A existência tem, portanto, um sentido?’

Esta pergunta vai exigir séculos antes de poder ser simplesmente compreendida de maneira exaustiva e em todas as suas profundezas.”

Epicuro: enaltecido por N. Uma elevação dionisíaca bipolar.

Estóicos: troçados por N. Mais próximo do blasé. Indiferença como fuga da vida? Coisa de velhaco?

Como era de se esperar, este quinto livro adicionado em 1887 é o mais ácido e rancoroso.

A beleza personificada em discursos—todos os mitos desfeitos sobre os objetivos de tal filosofia: “Nós, filhos do futuro, como poderíamos estar em nossa casa ainda hoje! Somos hostis a todo ideal que ainda pudesse encontrar um refúgio (…) Nada ‘conservamos’, não queremos regressar a nenhum passado, não somos ‘liberais’ em absoluto, não trabalhamos para o ‘progresso’, não temos necessidade de tapar os ouvidos para não ouvir as sereias do futuro cantar na praça pública.—O que elas cantam, ‘Igualdade de direitos!’, ‘Sociedade livre!’, ‘Nem senhores nem escravos!’, isso não nos atrai!—na verdade, não achamos de forma alguma desejável que o reino da justiça chegue e que a paz seja instaurada na terra (porque esse reino seria forçosamente o reino da mediocracia e da chinesice) (…) nos contamos a nós mesmos entre os conquistadores, refletimos na necessidade de uma nova ordem e também de uma nova escravidão—pois, para todo reforço, para toda elevação do tipo ‘homem’, é necessária uma nova espécie de escravidão.—Aí está porque não nos sentimos bem numa época que gosta de reivindicar a honra de ser a mais humana, a mais caridosa, a mais justa que alguma vez já existiu debaixo do sol!”

Não somos humanitários; nunca nos permitiríamos falar de nosso ‘amor pela humanidade’—nós não somos suficientemente comediantes para isso!” “Não gostamos da humanidade; mas, por outro lado, estamos bem longe de ser muito ‘alemães’—no sentido atual da palavra ‘alemão’—para podermos ser os porta-vozes do nacionalismo e do ódio das raças, para podermos nos regozijar com os males nacionais do coração e com o envenenamento do sangue, que fazem com que na Europa um povo levante barricadas contra o outro, como se uma quarentena os separasse.”

herdeiros de vários milhares de anos de espírito europeu; como tais, saídos do cristianismo e a ele hostis, porque precisamente saímos de sua escola, porque nossos ancestrais eram cristãos de uma lealdade sem igual que, por sua fé, teriam sacrificado os bens, o sangue, sua condição e sua pátria. (…) O sim escondido em vocês é mais forte do que todos os nãos e todos os talvez de que vocês sofrem com sua época: e se lhes for necessário partir para o mar, vocês, emigrantes, empenhem-se em ter também—uma fé!…”

Da humanidade! Já houve alguma vez velha mais horrível entre todas as horríveis velhas?—(a menos que seja a ‘verdade’: uma questão para os filósofos.)”


Anotações de cunho pessoal:

Poeta, o bom Pinóquio

HIPÓTESE MALDOSA Imagine se nós tivéssemos de desaparecer após completarmos nossa grande missão?

O que explica o além grego?

Às vezes só do que precisamos é uma pequena pausa para reordenar as palavras—e encontrar vocábulos melhores antes de ceder aos primeiros impulsos.


De 22 de dezembro de 2009 a 7 de janeiro de 2010

[ARQUIVO] O VIAJANTE E SUA SOMBRA

Páginas destacadas e temáticas (ed. Escala):

13: a importância do silêncio no grande diálogo

21: a luz em Platão

27: gravidez

28: “a lanterna”

33: a estratégia do advogado criminalista

35: a reputação do réu

36: Ájax e a inveja dos deuses

40: “náusea”

41: sobre o indigente

48: pistas da loucura cavalar

49: a prova natural de que o caminho mais curto entre dois pontos não é a linha reta

50: o “fatalismo turco”, Moira

55: a necessidade da barba no sábio varonil, para que o queixo não contraste com seus olhos de águia velha e o rosto não apresente duas idades

64: “O pão neutraliza o gosto”

69: “Para ler em voz alta é necessário estar disposto a fazê-lo.”

72: o final do Fausto

86-7: prazer na música como artista (pelo presente, pelo que ela é) x prazer na música como leigo (nostalgia); possibilidade da arte diretamente vinculada ao trabalho e sua flexibilização.

89: minha relação residual com a sociologia; sobre a personalidade que quer encontrar “o fim dos fins” em tudo em que põe as mãos.

90: da pesada amargura; e sobre o pateta palhaço por opção

93: selecionar o amigo com base em suas opiniões religiosas

94: alimentação e mau humor

98: para a história (benéfica) do desinteresse…

101: não ter filhos; afastar-se dos amigos, mas não da natureza.

102: “Aquele que disser agora: ‘Nada me aconteceu ainda’—passa por um imbecil.”

107: Uniformes e nacionalismo. Moda como antídoto. Novo conceito de moda para além de “o que sai de circulação rapidamente”.

111: Helvétius

112: cidadezinha e grande cidade—entendendo melhor nossas utopias e devaneios

113: sucinta fisiologia da máquina, até melhor que a mcluhaniana; Epicuro.

118: mendicância

128: Europa hoje (XXI)

129: sobre as abstenções eleitorais

131: sobre a precariedade da mercadoria no capitalismo avançado

132: Ampliar o quadro de professores? Que tal o contrário?

135: contra o mendigo e o bilionário; para entender a reforma agrária; tocquevilleanismo.

139: quando caminho com um bando, eu sempre vou atrás—desconfiado de que não me seguiriam

153: o supra-homem e o animal

154: cão e gato


A vaidade: tema recorrente, demasiado recorrente.

Homem significa: “aquele que mede”. Aquele que sabe que sabe que mede. Mas mais nada mede.

O remorso é, como a mordida de um cão numa pedra, uma asneira.”

Só o trabalho faz o tédio.

Quase sempre os gêneros de aforismos obedecem à mesma seqüência.

escrever bem e ler bem—essas duas virtudes aumentam e diminuem ao mesmo tempo” “A forma das frases indica se o autor está cansado”

Para um livro é uma maneira conhecida de envelhecer o fato de descer a idades cada vez menos maduras.”

PARA O ABSTÊMIO MUSICAL: “Se ouvirmos música depois de termos sido privados dela por muito tempo, ela passa rápido demais no sangue, como um desses vinhos encorpados do sul, e deixa na alma uma embriaguez parecida com a de um narcótico que a mergulha num estado de semi-sono e de desejo” “acreditamos finalmente ouvir a música como se entrasse numa prisão onde a nostalgia impede um pobre homem de dormir.”

Então—foi talvez em torno dos nove anos de nossa vida—ouvimos a primeira música”

para o profano, toda música antiga parece se tornar sempre melhor e toda música recente passa a ter pouco valor, pois não desperta ainda essa ‘sentimentalidade’ que, como indiquei, é o principal elemento de felicidade na música, para quem não sente puramente prazer nessa arte como artista.”

173—RIR E SORRIR—Quanto mais o espírito se torna alegre e seguro de si mesmo, tanto mais o homem desaprende a risada explosiva”

NIILISMO EUROPEU: “Uma vez que as palavras ‘moderno’, ‘europeu’ são aqui quase equivalentes, entendemos por Europa extensões de território bem maiores que aquelas que a Europa geográfica abrange, a pequena quase ilha da Ásia: devemos especialmente compreender a América, porquanto é filha de nossa civilização.”

Se todas as esmolas só fossem dadas por compaixão, todos os mendigos já estariam mortos de fome.”

As interrupções são os corvos que trazem alimento ao solitário”


Anotações de cunho pessoal:

A sombra do cigarro. Dimitri e um pouco de pigarro. Narradores prosadores comediantes. Discurso melodioso. A me(sca)lina das amenidades.

O metal é stravinskyano-romântico—Master of Puppets como encarnação disso, com seu solo diante do quê você procura com seu corpo o que fazer, e não acha, até a audição passar, boquiaberto. Ainda predomina esse tipo de objetivo entre as pessoas (vide meu apreço por Prisoner of Your Eyes, Cardigans, Calcanhotto… pelas fases posteriores do Megadeth, o carinho pelas lembranças suscitadas, mas ao mesmo tempo tem um tempo que venho me concentrando na técnica em-si, ou pelo menos no limiar. e.g.: Death).

De 26 a 28 de novembro de 2009

[ARQUIVO] FRASES PARA ANIMAR PROLETÁRIOS (O GERMINAL)

“não tinha a resignação do rebanho”

“Seu orgulho de homem se revoltava por ser tratado como um animal a quem cegam e esmagam.”

Não importa o quanto a gente reme, sempre afunda. E de forma humilhante e inconteste.

“Quando as moças dizem não, é porque gostam de apanhar antes.”

“a semana em que os bebês não nascem”

“de tão abalado, caiu de cama com febre alta. Só pôde voltar ao trabalho três dias depois.”

“O trabalho assalariado é outra forma de escravidão.”

“Teria dado de boa vontade o seu salário para poder ter, como eles, um relacionamento sexual fácil e sem remorsos.”

“Não, o único bem era não ser, ou, sendo, ser árvore, ser a pedra, menos ainda, ser o grão de areia que não sangra ao ser pisoteado.”

“Como não ousava matar, era ele quem devia morrer.”

“desde que se conhecia por gente, sua vida era só sofrer.”

“quando a gente não tem esperança, perde o prazer de viver.”

“seu gosto se refinara, queria subir para uma classe superior.”

“e eu não terei mais qualquer fraqueza amorosa”

“Quando um homem tinha uma mulher no coração, estava acabado, podia morrer.”

25 de junho de 2011

[ARQUIVO] LIMBOZINHO

Ah, às vezes… Todo nosso ceticismo quanto ao futuro, toda a desesperança, a mais completa e até idiota, se for analisada a posteriori, insegurança, sem fundamento nenhum na realidade, naquilo que você é, de repente tudo isso explode numa só noite. Você pensa que não pode se comportar como um ser humano típico, estudando, trabalhando, se comportando, se controlando, fazendo as médias que tem de fazer, repousando, dormindo, se descontraindo… Até isso fica difícil e tenso. Parece que a inaptidão vai lhe varrer ou atropelar, você, escória!

Porém de um jeito ou de outro dorme-se e se acorda diferente, rindo-se de tudo que passou…

(Não sei qual dos dois é mais ilusório.)

25 de junho de 2011

[ARQUIVO] O INVENTÁRIO DO SUPRA-HOMEM NA CULTURA DE MASSAS (Morin)

Normalmente, nas horas seguintes à contemplação de um filme, temos prazer em adquirir uma personalidade descartável com data de validade bem efêmera, em sermos o protagonista daquele filme por algum tempo, até que venha outro espetáculo e a impressão causada pelo antigo se esvaneça.

“não a deusa nua das religiões antigas, não a madona de corpo dissimulado do cristianismo, mas a mulher seminua, em pudor impudico, a provocadora permanente.”

“Qualquer progresso do erotismo conduz a um enfraquecimento da diferenciação sexual, e os progressos da homossexualidade são um aspecto desse enfraquecimento. (…) Parece que uma supererotização caminha lado a lado com o progresso da semifrigidez e da semi-impotência”

Cada autor possui um conceito todo particular para cada palavra…

25 de junho de 2011

[ARQUIVO] MISCELÂNEA DE OPINIÕES E SENTENÇAS

Páginas destacadas e temáticas (ed. Escala):

24-5: história e metafísica

31: a alegoria do deserto; “a grande aranha do mundo”, a tecedora de fios.

35: Sócrates

45: sobre o fazer planos

49: cristianismo para os frígidos e estéreis

50: pistas sobre a erradicação do cristianismo na sociedade do trabalho

51: teoria do conhecimento e teologia cristã

53: Gaia-Ciência ainda sem nome…

54: o artista e a distribuição de seu dom

55: Baudelaire

65: Wagner como mulherzinha. O espaço de sua música é muito cheio (“melodia infinita”), não há a calmaria de Beethoven.

73: críticos de arte, as muriçocas de nossa cultura, levianos inocentes

77: “sophia”; gosto.

85: transição do sistema educacional

86-7: história compreendida como música

89: a aranha de 3 gerações

92: moda como libertação

93: nomadismo; sol e cegueira; Homero

95: Górgias

96-7: o paganismo grego

99: Ferramentas para compreender os fragmentos finais de N. Vocábulos semi-deus, infra-humano, mosca, estrela…

103: Ivan de Dostoievsky

105: Goethe tinha medo de ser poeta

106: saber viajar

107 (232): comédia pública; tragédia idiossincrática.

114: Platão, o teórico trintão

115: “a natureza da mulher se revela no timbre de seu riso.”

127: parece a Brasília concurseira; como se recai no belicismo.

136: a nostalgia

137: sonhar com pessoas e entes do passado; o pensador esgotado.

138: “Empregar o excesso como remédio [à alma ressequida], aí está um dos golpes de mestre na arte de viver.”

141: espírito do tempo

146: tributo aos principais filósofos e poetas de sua vida, mesmo àqueles que sói criticar


Laurence Sterne, A Vida e as Opiniões do Cavalheiro Tristram Shandy


Quando nos sentimos à altura de uma coisa muito difícil, não toleramos que seja mencionada diante de nós.”

Não sabemos se temos um dente de serpente antes que alguém tenha posto seu calcanhar sobre o que nos é caro.”

Uma obra que deve produzir uma impressão de saúde deve ser executada no máximo com ¾ da força de seu autor.”

Todo bom livro tem um sabor áspero quando aparece (…) Muitas horas deverão ter passado e muitas aranhas devem ter tecido suas teias.”

Nem [os professores] se educam, como poderiam educar?” “A extraordinária incerteza de todo ensino público que, para todo adulto, dá a impressão que seu único educador foi o acaso – o cata-vento dos métodos e das intenções educacionais – se explica pelo fato de que, em nossos dias, as potências pedagógicas mais antigas e as mais novas, como numa tumultuada reunião pública, insistem antes em ser ouvidas do que compreendidas e querem, por meio das suas vozes, a todo custo, (…) [dizer que elas] existem ainda ou que já existem.”

como poderíamos, pois, prescindir da nota baixa fundamental, profunda e muitas vezes inquietante, sem a qual a melodia não poderia ser melodia?”

em geral as escolas primárias farão bem em dar preferência à arte dos olhos àquela dos ouvidos.”

Aquele que considera a humanidade como um rebanho e que foge diante dela tão depressa quanto possível, será certamente alcançado por esse rebanho, que o cobrirá de chifradas.”

Quando nos transformamos radicalmente, nossos amigos, aqueles que não se transformaram, se tornam os fantasmas de nosso próprio passado.”

Cumpre tomar cuidado para não nos afiarmos muito cedo.” Como se fosse possível escolher.

cada mestre só tem um aluno—e esse aluno se lhe torna infiel”


Anotações de cunho pessoal:

Calar-se ou desaguar o azedume numa conversa para nascer de novo? O que acaba sendo mais eficaz? Bipolar.

Cuidado!—Concentrar-se na obra deixa o gênio avoado e desleixado para sua própria imagem pública.

Juntem-se os conceitos demasiado humano e supra-homem e temos um paradoxo—apenas aparente.


De 23 a 25 de novembro de 2009

[ARQUIVO] HUMANO, DEMASIADO HUMANO

Páginas destacadas e temáticas (ed. Escala):

43: da sensação do erro

48: como Marx termina como o principal formulador do capitalismo tardio

49: Erasmo de Roterdã

61: o superanimal

107: Ésquilo e Aristófanes

128: “[a arte] transforma os animais em homens”; a Nona de Beethoven

130: os sofrimentos do artista; o cômico e o trágico; o jogo e a leveza, a frustração e a solidão.

138: do intermediário entre o público e o artista; do espectador.

139: a diferença minúscula entre honra, vaidade e orgulho

154: genealogia técnica do heavy metal (captar “o lado feio do mundo”). Por isso os beatniks são tão musicais. Antecipação de Baudrillard.

159: curso em pós-modernidade

161: o “eterno permanente”

165: definição de “espírito livre”

174: humor na pós-modernidade

175: aforismo 241

178 (247): Planeta dos Macacos

179: o difícil “turning point”

182: do filósofo arrependido

184: da pederastia na Grécia

187: o problema da efemeridade da civilização grega, a falta de dados e documentos

190: primeiras pistas sobre a Ásua; N. e o ensino médio

195: fase cínica, fase epicuréia

199: “quem não tiver para si dois terços de seu dia é um escravo”

200: nazismo

203: índices para o ineditismo do futuro

220: ironia, o “cão mordedor”

222: “GLÓRIA PÓSTUMA”

225: complexo de Édipo

235: por que todo pai menospreza o talento dos filhos

236: o séc. XX do feminismo

245: o socialismo como meio; Guerra Fria.

246: os barões da mídia

248: a diferença entre o socialista de baixo e o socialista de cima

250: pela escravidão; Diógenes, o Chaves da Antiguidade.

257: Europa pendular, século XXI

258: a morte do Estado

259: do novo XVIII Brumário

261: escombros da União Européia; questão judaica. O semita está incluído no projeto da Europa mista.

262: e os judeus salvaram a Europa feudal de ser engolfada pela expansionista Ásia

265: “A GRANDE POLÍTICA”

293: “nosso eu superior”

294: sobre a facilidade que temos em mistificar nosso tédio


raramente se encontra na Europa o erudito que tenha lido La Rochefoucauld.”

A paixão não quer esperar; na vida de grandes homens o trágico reside muitas vezes não em seu conflito com a época e com a baixeza de seus contemporâneos, mas na incapacidade deles de adiar sua obra por um ano, por dois anos; não sabem esperar.”

Todo homem que decidiu que o outro é um imbecil, um mau companheiro, se irrita quando o outro finalmente mostra que não o é.”

acaba por se produzir um violento antagonismo entre o artista e as pessoas da mesma idade de sua época”

Quando a arte se apodera violentamente de um indivíduo, leva-o a concepções de épocas em que a arte florescia com mais vigor, exercendo, portanto, uma influência retrógrada.”

COMO SER UM ROMANCEUR: Um craque do futebol não nasce sem os fundamentos—ou explode e depois desaparece. Qualquer verossimilhança com o caso de escritores como J.K. Rowling não é mera coincidência!

Faça-se, portanto, cem ou mais projetos de novelas, nenhum com mais de duas páginas, mas de uma clareza tal que neles cada palavra seja indispensável; (…) que se seja infatigável em recolher e descrever tipos e caracteres humanos” “Nesse múltiplo exercício, que se deixe passar uns dez anos” “Como faz, porém, a maioria? Eles não começam pela parte, mas pelo todo. Talvez um dia tenham um lance feliz, chamem a atenção e, a partir de então, farão lances cada vez piores, por razões bem naturais.”

E, a longo prazo, todo instinto é mesmo fortalecido pelo exercício de sua satisfação, apesar desses períodos de calmaria. Seria possível que o medo e a compaixão fossem, em cada caso particular, mitigados e aliviados por meio da tragédia: não obstante, poderiam enfim tornar-se geralmente mais fortes por causa da influência trágica e Platão, apesar de tudo, teria razão ao pensar que, por meio da tragédia, a gente se torna geralmente mais temeroso [medroso ou temerário?] e mais impressionado. O próprio poeta trágico adquiriria então, necessariamente, uma visão lúgubre e assustadora do mundo e uma alma terna, excitável, ávida de lágrimas, de tal modo que corresponderia à opinião de Platão, se os autores trágicos e igualmente cidades inteiras, que os apreciam, regredissem a um nível em que a falta de medida e de freio é sempre maior.”

hoje são contados entre as exceções os ouvidos que ainda fazem as distinções mais refinadas, p.ex. entre dó sustenido e ré bemol.”

O homem de ciências é uma forma ulterior do artista.”

Chama-se ‘espírito livre’ aquele que pensa de forma diferente do que se espera dele, em virtude de sua origem, de seu meio, de sua posição e de seu ofício, ou em virtude dos pontos de vista dominantes de sua época.”

Quanto mais alguém compreende profundamente a vida, tanto menos zombará, salvo se terminar por zombar da ‘profundidade de sua compreensão’.”

CONHECIMENTO COMO PRAZER. O MAL DE PENÉLOPE: “de novo, a humanidade terá de recomeçar a tecer seu tecido, depois de tê-lo, como Penélope, destruído durante a noite. Mas quem nos garante que ela voltará sempre a encontrar forças para isso?” “graças a um conhecimento novo, por menor que seja, nos sentimos superiores a todos e como os únicos que, nesse ponto, sabem o que está certo.”

Os dois povos que produziram os maiores estilistas, os gregos e os franceses, não aprendiam línguas estrangeiras” Quantas línguas o próprio Nietzsche falava? “Nietzsche falava fluentemente alemão e francês, e também tinha um bom conhecimento de grego e latim, o que lhe permitiu ler os filósofos clássicos em seus idiomas originais. Ele também tinha algum conhecimento de inglês, mas não era fluente na língua.”

AVALIAÇÃO MUITO BAIXA DO ENSINO COLEGIAL (…) Raramente se busca o valor da escola secundária nas coisas que nela realmente se aprendem e se acumulam sem poder perdê-las, mas antes naquelas que nela se ensinam e que o aluno só absorve contrariado, para se livrar delas logo que puder e de uma só vez. (…) A leitura dos clássicos—isso qualquer pessoa culta o reconhece—tal como é praticada em toda parte, é um procedimento monstruoso: feita diante de jovens que de modo algum têm maturidade para isso, por professores que com cada palavra, muitas vezes com sua presença, já põem uma colher de poeira sobre um bom autor. (…) é que em sua linguagem surgem continuamente conceitos, expressões, métodos, alusões, que os jovens quase nunca ouvem na conversa com seus pais e na rua.”

o homem ocioso é sempre um homem melhor que o de ação.”

[o espírito-livre] conhece também os dias de trabalho e de falta de liberdade, da dependência, da servidão. Mas, de tempos em tempos, é preciso que lhe apareça um domingo de liberdade, senão não suportará a vida.”

Deve confiar que o gênio da justiça dirá alguma coisa em favor de seu discípulo e protegido, se vozes acusadoras vierem a chamá-lo de pobre de amor.”

Em todo partido, há um homem que, ao professar com demasiada fé os princípios do partido, incita os outros a desertar.”

os doentes irritadiços e orgulhosos odeiam muito mais os conselheiros que sua doença”

Para ganhar as pessoas inteligentes a uma proposição, basta muitas vezes apresenta-la sob a forma de um paradoxo monstruoso.”

OS TRAFICANTES (Burroughs): “Um meio seguro de irritar as pessoas e de colocar em sua cabeça maus pensamentos é fazê-las esperar muito tempo. Isso se torna imoral.”

Quem não sabe colocar suas idéias no gelo não deve se empenhar no calor da discussão.”

Os jovens são arrogantes porque freqüentam seus semelhantes que, todos eles, não sendo nada, gostam de fazer-se passar por muita coisa.”

Aquele que não escreve livros, pensa muito e vive numa sociedade que não o satisfaz, poderá em geral ser um bom escritor de cartas.”

Se houver dificuldade para encontrar um assunto de conversa, há pouca gente que deixará de revelar os segredos mais importantes do amigo.”

Por que sentimos remorsos depois de termos ficado em companhias vulgares?”

[o socialismo] não pode ter esperança de uma existência futura senão durante curtos períodos, aqui e acolá, graças ao mais extremo terrorismo.” “O socialismo pode servir para ensinar de modo brutal e convincente o perigo de todas as acumulações de poder do Estado e, nesse sentido, insinuar uma desconfiança para com o próprio Estado. § Quando sua voz rouca se misturar com o grito de guerra <O mais possível de Estado>, esse grito se tornará primeiramente mais barulhento que nunca, mas logo eclodirá com não menos força o grito oposto: <O menos possível de Estado>.” O contrário também pode ser dito.

Quem vive combatendo um inimigo tem interesse em deixá-lo viver.”

A imaginação da inquietude é esse gnomo malvado com aparência de macaco que ainda salta nas costas do homem, precisamente quando tem já outras coisas a carregar.” “A falta de escrúpulos no pensamento é muitas vezes sinal de uma disposição interior inquieta que procura se atormentar.”

Quando um homem pensa muito e prudentemente, não é somente seu rosto, mas também seu corpo, que toma um ar de prudência.”

Quando o homem explode em gargalhadas, ultrapassa todos os animais por sua vulgaridade.”

Com um talento a mais, a gente está numa situação menos segura do que com um talento a menos.”

É preciso ter nascido para seu médico, caso contrário se perece por seu médico.”

O homem da meia-noite é o viajante que não pôde entrar na cidade e passa a noite enregelado no deserto.


Anotações de cunho pessoal:

Estou no meio da desconstrução de velhos afetos. O nome deles, como abrangente de todo o mundo ocidental acessível a mim: Eline.

P. 132: Uma coisa que me perguntei severas vezes, principalmente com respeito a Dostoievsky (diferentemente do cinema, em que muitos sofrem o encargo), que é a “totalidade da personagem”: como é possível sair um mundo, vidas inteiras, unidades fidedignas, da cabeça de um demiurgo-escritor? Mas eis N.: pura ilusão, hipérbole! E aquela frase “não há uma única exegese de um texto” reforça o atestado.

P. 172: Essencialmente, temos aqui absolutamente TUDO o que concerne ao debate ESTRUTURA X HISTÓRIA, Lévi-Strauss vs. pós-construtivistas. Toda a reedição de Parmênides e seu 8 ou 80 e Heráclito e seu “incaptável” que perdura. Escapamos da metafísica por um tempo—e diz N.: isso é um progresso. Outra vez remexem-se os pauzinhos nos bastidores… As reelaborações, no entanto, são menos matizadas e sufocantes que no modernismo. É como o conserto da corrente de uma bicicleta enganchada na roda… AGORA vai andar. Antes não adiantava, o ciclista levava um tombo.

Af. 534: para Adriana


De 15 a 22 de fevereiro de 2009

[ARQUIVO] A SÉRIE DEFINITIVA DOS FRAGMENTOS FINAIS DE NIETZSCHE

Páginas destacadas e temáticas (ed. UnB):

34. animais, supra-homem.

35. socialismo

36. minorias, pós-modernidade.

38. amor e paixão

39. animais, gênio.

41. grande política, determinismo, números.

63. o gato

66. existencialismo, empirismo.

67. decadência

71. niilismo

74. anti-sistemas filosóficos

75. a solidão da figura do mestre

78. histórico do sofismo, helenismo, enaltecimento de Protágoras.

84. crítica a Schopenhauer

95: obra de arte, caráter anfíbio do artista

97. anti-hedonismo: a dor como supérflua

102. artistas e a loucura

103. classe média como buraco negro

104. sobrevivência da humanidade a longo prazo; budismo.

117-8. o futuro do rebanho, do pastor do rebanho e dos espíritos-livres

123. “avaliação econômica da virtude”; sobre o tédio; elogio a Kant.

125. Simplício e Epicteto

127. sobre cidadãos irrecuperáveis

129. dialética e decadência

141. bem idealista, bem “verdadeiro”

142. o sacrifício de jesus

145. mea culpa sobre A Origem da Tragédia

147. “a grande meta”

148. sonhar como método artístico

150-1: Aristóteles e o erro da catarse; “Arte como contramovimento”; Lobeck, o filólogo; a grande saúde.

155: animais

177: arte é animalidade

178: arte pela arte, como a moralina na arte, é só uma transição necessária

180: previsão dos olimpianos (de Edgar Morin)

185: A Divina Comédia

187: o artista e a forma

188: encurtamento sensório do espaço-tempo

190: feio x terrível

195: que muitas vezes nem o melhor amigo o conhece bem

198: do patriarcado grego

201: Ernest Renan

Com todo crescimento do ser humano em grandeza e estatura, ele também cresce em profundidade e horror: não se deve querer um sem querer o outro”

O gênio é a máquina mais sublime que existe,—portanto a mais frágil.”

não temos classes superiores, portanto também não inferiores: o que hoje se encontra por cima na sociedade está fisiologicamente condenado”

O que são afinal esses dois milênios? O nosso experimento mais educativo, uma vivissecação da própria vida…Dois milênios somente!…”

Todas as opiniões dos outros são suas próprias opiniões.

Os artistas uma espécie intermediária: eles ao menos fixam uma equivalência daquilo que deveria ser—eles são produtivos na medida em que de fato modificam e transformam”

Eu não respeito mais os leitores: como pude escrever para leitores?… Mas eu me anoto, para mim.”

11(81)

— só o vir a ser é percebido, não porém o morrer (?)

–”

Por meio do álcool e do ópio se retroage a estágios de cultura que já se superou (ou ao menos se sobreviveu). Todas as comidas fazem alguma revelação sobre o passado do qual nós nos originamos.”

Ócio é o princípio de toda filosofia.—Portanto—é filosofia uma carga?…”

Não está em nosso arbítrio modificar nossos meios de expressão: é possível entender na medida em que é mera semiótica.”

nosso nariz (…) ainda é capaz de perceber oscilações onde até o espectrógrafo é incapaz”

PASSAGEM MAIS HILÁRIA DA OBRA: “Schopenhauer foi inteligente quando certa vez deixou-se fotografar com o colete abotoado erradamente: com isso ele dizia: ‘eu não pertenço a esse mundo: o que importa a um filósofo a convenção de casas e botões paralelos!… Sou objetivo demais para isso!…’”

Insistentes equivalências entre o kantismo e o hinduísmo.

De certa forma é o caldeirão nutritivo primordial de onde saíram fragmentos e aforismos bem mais desenvolvidos de Vontade de Potência.

O novo sentimento moral é uma síntese, uma ressonância conjunta de todos os sentimentos de dominação e submissão que imperaram na história de nossos antepassados.”

Deus está refutado, não o diabo”

[que] os seletos mais refinados e exigentes se apresentem como débeis e rejeitem os meios mais brutais do poder –” [é uma conseqüência da moral décadent]

a tribulação e a tristeza de todos os raros homens superiores reside em que tudo o que os distingue chega à consciência deles com a sensação de diminuição e ultraje.”

Para a psicologia do idealista: CarlyleSchiller, Michelet.²”

¹ Thomas Carlyle, historiador, filósofo e ensaísta irlandês.

² Jules Michelet, historiador e escritor.

sofrer com as suas circunvizinhanças, tanto em sua louvação quanto em sua condenação, ficando ferido e sentindo-se ignóbil com isso, sem revelá-lo; involuntariamente desconfiado, defender-se do seu amor, aprender a calar, talvez escamoteando-o por meio de discursos [minha vida—laboratório perfeito!], criando subterfúgios e solidões invioláveis para os momentos de sossego, de lágrimas, de consolo sublime—até que por fim se esteja suficientemente forte para dizer: ‘o que tenho eu a ver com VOCÊS?’, e seguir o SEU PRÓPRIO caminho.” Grifos no original!

A moralidade da modéstia é o pior amolecimento daquelas almas para as quais somente tem sentido que elas se tornem duras e empedernidas em certas épocas.”

Contemplamos a andança geral: cada indivíduo é sacrificado e serve como instrumento. Ande-se pela rua como se não nos deparássemos apenas com ‘escravos’. Para onde? Para quê?”

talvez esse ‘assim deveria ser’ seja o nosso desejo-de-dominar-o-mundo –”

Não há aniquilamento no espiritual…”

O determinismo só é prejudicial àquela moral que acredita no liberum arbitrium

Não querer nenhum elogio: faz-se o que é útil para si mesmo ou o que dá prazer ou o que se precisa fazer.”

a uniformidade que toda atividade mecânica acarreta. Aprender a suportar isso, aprender a encarar o tédio como circundado por um halo superior: essa tem sido até hoje a tarefa de todo sistema superior de ensino” “Por isso, o filólofo tem sido até agora o educador por excelência

certa gente se tornou ateísta. Mas será que realmente desistiu do ideal?”

O estar mal-acostumado é mais forte que a irritação dos decepcionados…”

Alguém se torna uma pessoa decente porque é uma pessoa decente”

a conscientização é um sinal de que a moral propriamente dita, ou seja, a certeza instintiva do agir, vai para o diabo que a carregue…”

As assembléias e congregações foram inventadas para fazer coisas para as quais o indivíduo não tem coragem.” “O mandamento do amor ao próximo jamais foi estendido para um mandamento de amar os vizinhos. Antes vige aí o que está em Manu…”

ele é amável, para não ter de ser inimigo”

Uma lagarta entre duas primaveras, na qual já cresce uma pequena asa: —”

e, olhando bem de perto, não há nenhum intelectual mais bem-qualificado que não tenha nos ossos os instintos de um militar virtuoso…” “sendo mais inimigo do mesquinho, do espertalhão e do parasitário que do mal…” “O que se aprende em uma escola rígida? A obedecer e a mandar, —”

esse tapado típico que é o inglês J. St. Mill”

Homero como artista da apoteose; também Rubens. A música ainda não teve nenhum.”

O que em nossa democracia é ridículo: a roupagem negra… a inveja, a tristeza”

A coragem diante de um inimigo poderoso, de uma sublime desgraça, de um problema horrendo – ela mesma é o estado mais elevado da vida, ápice que toda arte do sublime decanta.”

sua avareza de artista protege-os da paixão.” “Não se controlam as próprias paixões só por expô-las: pelo contrário, elas já estão sob controle quando são expostas.”

sem um certo superaquecimento do sistema sexual, nenhum Rafael é concebível (…) castidade é apenas a economia do artista”

Honra um artista ele ser incapaz de crítica…”

O casamento tem tanto valor quanto aqueles que casam”

Nobilitação da prostituição, não extinção”

Tipo ‘Jesus’…

Jesus é o contrário de um gênio: ele é um idiota.”

Paulo não era de maneira nenhuma um idiota!”

Anotações de caráter pessoal:

Quando me sinto esgotado, só me resta dormir. Assim que o logro, o plano suicida já pertence à memória, se desbota, se dilui, e readquiro aquela saúde ousada. Mas a cada ciclo torna-se mais evidente que o esgotamento é algo temporário, reversível, superável. Cultivo de uma calma que anteriormente não havia—essa própria agitação, necessidade de se debater furiosamente, sonâmbula como indício da não-entrega.

Estranho fenômeno o desgaste físico que produz mais energia: cantar um álbum do Metallica, “esfolar-se”, redigir um daqueles textos-manifestos num intervalo crítico de uma tarefa importante… Como se fosse para reorientar um estoque que doutro modo seria improdutivo. Hobbes: acha-se que não mais se suportará um amanhã tão problemático quanto o hoje… Rancor por ser “alugado” por meios exógenos… Kick him when he’s down. Querer cada vez mais o desastre édipo-lírico. Apocalypse Now!

Não há formulação contrária à do vulcão: há acúmulo gradual de energia, de calor, ajuntamento progressivo da lava. Impossível que o jorro fosse tão lento: ele sempre esbanja, faz em segundos o que uma incrível e arcana labuta produziram. O prazer do domínio, a satisfação, só poderia ocorrer caso o acontecimento evidenciasse “sobras”. Há uma assimetria imburlável! Isso é o que eu chamaria sem dúvida de princípio de economia que subjaz em TODOS OS FENÔMENOS. Talvez a Segunda Guerra tenha sido uma orgia equiparável.

O gozo é uma parte mínima do ato de abrir e fechar o prepúcio; a masturbação é um naco ridículo da duração de um dia; o sonho, idem. Diante dos quatro anos de um curso de graduação a farra do trote nada é. Qualitativamente, no entanto, é um marco inesquecível. Copas do Mundo acontecem em um mês a cada 48 meses. A quarta-feira e o domingo valem inteiros pelo jogo de 2 horas. A longa música pelo pequeno riff. A espera pelo almoço devorado. A caminhada pela chegada. A aula pela gargalhada. Todas as aulas por AQUELA aula. Tudo pelo beijo. Toda a tinta da caneta por uma linha sábia. Todo o mês pelo momento de receber o salário. Trilhões de anos por uma era de ouro. Querer que a felicidade dure menos é a chave!

Reclam[ação] é isso: reclamar uma ação.

Os olhos mais cegos são os que mais querem enxergar…

Não há UM salão de dança para os que não dançam…

De 11 a 15 de novembro de 2009

[ARQUIVO] CADÊ OS MESTRES?

O que o professor deve ler para dar suas aulas de sociologia na escola? Esse problema é relacionado—porém não congruente!—com o do material didático que deve ser destinado aos alunos. Que este último deve ser simples, evitar ser prolixo, primar por ser direto e, com o perdão da redundância, “didático”, isto está fora de dúvida. Que deve ter sido feito por um especialista voltado tão-somente para os leigos, sem o ar empolado do cientista, isso acompanha a assertiva anterior. Porém, chegamos a um impasse: o professor não deveria partir do complexo para chegar a esse “simples” e mais acessível? Não vejo como um professor possa se basear em livros-textos para dar suas aulas de sociologia, por mais que elas tenham que ser dadas para pessoas que se baseiam nesses livros! Em outros termos, os professores-sociólogos têm de ler os clássicos/grandes/originais do campo da Sociologia, e depois, sim, pensar numa forma de transmissão que não agrida o cérebro do estudante. Ele não pode partir do “mais conveniente”, precisa mesmo voltar à fonte (não poderia ter esse diploma sem ter lido o que leu durante 4 anos), reentrar em contato com as problematizações sociológicas sem a intermediação de comentadores/abreviadores de raciocínio. A questão, no meu entender, é muito mais grave do que parece quando comparada a disciplinas como a História e a Filosofia, posto que os livros-textos dessas disciplinas já têm um enfoque tradicional: aqueles que começam hoje na labuta diária da classe já possuem uma herança, um arcabouço no qual se basear. Na Sociologia, batem cabeça e não sabem do que tratar ou falam o tempo todo de uma suposta “complexidade” da disciplina que se perdeu nos calabouços e porões onde os indivíduos guardam suas monografias e demais trabalhos acadêmicos, como se isso fosse conservar suas memórias intactas por tantos anos. Se há uma vantagem nesse cenário ainda precário, é que, nunca se tendo estabelecido a organização temática dos livros-textos em uníssono, temos ainda a liberdade de construir um programa do zero, mais flexível, que não precisa ser adotado sem adaptações em outras partes do Brasil, que oferece uma chance para nossa criatividade. Onde está esse tutorial mágico: “Leia ‘x’, ‘y’ e ‘z’ antes da aula sobre ‘Relações Étnicas’ ou ‘Mais-Valia’, ou ‘Minorias’ ou ‘Globalização’”? E há tempo para efetuar essas leituras? Enquanto se cultivar essa cultura de que ‘professor bom é o que cuida de mais turmas’ (afinal, boa remuneração é indício de capacitação), haverá sempre essa distorção, pois a tendência é que o profissional seja estrangulado pela falta de tempo e, conforme se torna mais requisitado e adentra a “dedicação exclusiva”, perca os meios de enriquecer os próprios atributos!

17 de fevereiro de 2011

[ARQUIVO] A ESTRADA ASSASSINA (Tradução de The Killing Road do Megadeth)

De novo nos cercamos ao palco

Na velocidade do som nós vamos

Alimentando o ímpeto do povo

O gato grande deixou a sua jaula

De novo no ônibus

Pra pegar outro avião

Esse comportamento é doentio

Mas fazemos isso pela fama!

Eu perdi minha cabeça, eu perdi meu dinheiro (!?)

Eu perdi minha vida para a estrada assassina

A estrada nunca vai acabar

Sempre começa de novo

Outro show envolve a tensão

Outro grande amigo perdido

Sem expressão, como a neve

Não tem nada de mais na estrada

É só mais um esforço

É só que é muito comprida, isso é tudo

5 de fevereiro de 2011

[ARQUIVO] CRONOTERAPIA

Originalmente postado em 4 de fevereiro de 2011

Se lhe fosse dado o poder de se transportar para – ou renascer em – uma época futura da humanidade, supondo que seu mundo atual estivesse à beira da destruição e essa fosse a única saída para o colapso, para daqui a quantos anos você programaria essa máquina do tempo irreversível, essa viagem só de ida, estilo Futurama?

Arriscaria 2050 (aposta perigosa, pois, se em 2011 a Terra estivesse mal das pernas – como parece que está…!)?

Não, não. Acho que devemos tratar aqui de séculos, séculos avante, séculos adiante!

2300? 2500?

3000?

4000?

5000?

Mil anos separam o auge do Império Romano da mais obscura Idade Média!

10.000? Correr-se-ia o risco de nascer no breu, no vácuo? Como se vê, 2050 ou o quíntuplo, isso não importa: nada oferece garantias.

Para quem crê numa História cíclica, e que já esgotamos, neste fim de modernidade, todas as possibilidades de acontecimentos, e de surgimento de novas coisas, quem sabe nessa época – em 10 milênios – não se pode ser contemporâneo de Homero? Não vale querer viver como bardo, feito num RPG!

Ou será que não, que o mundo é extremamente rico, materialmente inesgotável, capaz de produzir o inédito durante uma imensidão incomensurável?

1.000.000? Ano 2 bilhões?

Lance os dados, mas saiba! Não há ZERO em nenhuma das faces!

* * *

P.S.

Ikki, a Avê Fênix, na ânsia de fugir das mãos de seu opressor divino, bate as asas até onde consegue – seu cosmo flameja a 1 trilhão de quilômetros. Porém, ao cabo, ele termina na palma da mão de Buda, o sétimo além, o Paraíso dos orientais, mas que parece um tormento – um simples pensamento malévolo ou sacana (tão humano!) pode leva-lo aos reinos menos obres da pós-existência. Tudo bem que o sujeito em questão, em combate com o cavaleiro mais próximo de deus, é tão encardido que as bestas-feras dos submundos da eterna guerra e canibalismo não o suportam, ejetando-o de volta à superfície terrena.

Toda essa visão só me faz imaginar… o quanto é impossível fugir do destino ruim – a ave imortal não pode percorrer uma distância maior, que a livre de alguma condenação. O ano que se escolher para seu túmulo, idem, não o isentará dos fracassos e decepções! Pelo menos você lutou, figurou no álbum dos grandes homens! Mitologizou-se!

* * *

Os EUA não desarmaram as bombas de nêutrons em 1996 porque se tivesse chegado ao “consenso da pax”! Eles o fizeram para não serem explodidos de súbito pelo próprio arsenal! Corrosão da meia-vida. Quem reza essa missa?

O Muro de Berlim caiu, mas a Muralha da China não!

Bush: um “Eu não sei de nada” do tamanho do mundo.

Como partir essa pizza chamada felicidade?

Livro “Os Melhores Tweets de Rafael Aguiar” já nas livrarias!

[ARQUIVO] METALLICA!NDO ou A ODISSÉIA MAGNÉTICA

UMA CRÔNICA RETARDADA [ANA-CRÔNICA], MAS QUEM SABE ISENTA DE FALHAS, NO ESPAÇO-TEMPO: MEU SONHO REALIZADO EM SÃO PAULO

Rafael de Araújo Aguiar, de Brasília, madrugadas de 18 e 19 de janeiro de 2011, praticamente um ano depois do ocorrido:

A) ANTECEDENTES

Não escondo de ninguém que há algum tempo minha banda favorita é o Metallica (ironicamente, roubou o cetro, em minha preferência pessoal, do grupo que muitos consideram seu principal concorrente, o Megadeth). E se torna desnecessário expressar o quanto é significativo e elevado quando se tem a oportunidade de presenciar uma exibição dos seus artistas prediletos. Muitas vezes isso acontece quando eles excursionam pela América do Sul, pelo Brasil, e passam, conseqüentemente, pela sua cidade. Mas com o Metallica seria diferente: exigentes, fariam seus maiores fãs atravessarem o Brasil de Norte a Sul para que pudessem ser vistos. Essa frase não é uma simples alegoria: com shows agendados apenas para o Rio Grande do Sul e São Paulo (nem respeitaram o famoso Eixo Rio-SP de atrações culturais de renome!), aqueles das partes centrais e setentrionais do país que quisessem prestigiar um bom e velho thrash metal ou hard rock (a depender da fase da banda) precisariam desembolsar uma boa grana e energia. Isso, confesso, só aumentava minha vontade de estar lá, para depois narrar o quanto fora difícil e recompensador viver o momento! Só não esperava que depois de tudo não sentiria a necessidade de compartilhar os eventos, pelo menos não de forma imediata. Deixei o tempo correr e, 12 meses depois, o que era música em minha cabeça finalmente merece ser convertido em palavras – estou sereno o bastante para isso! Porque com as palavras, sabe-se, é preciso lidar com cuidado.

Soube da vinda do Metallica aproximadamente em setembro ou outubro de 2009, e comecei a mexer meus pauzinhos. Na realidade havia uma grande expectativa pela inclusão de uma data para Brasília na turnê brasileira do Death Magnetic (nome do último álbum da banda). Após a decepção gerada pelo anúncio oficial de apenas dois shows em território nacional, ambos longe daqui, soube que teria de pedir ajuda a meus pais por não estar trabalhando e não ter como obter o dinheiro para essa aventura. E o pior de tudo não seria o deslocamento, pois quando metaleiros se reúnem para fretar ônibus o custo baixa bastante. Mas as empresas que organizam essa variedade de mega-espetáculos são realmente exploradoras num sentido, eu diria, de capitalismo arcaico, com exceção da alta burocracia e dos lucros envolvidos. Porque tratar o consumidor como gado não é próprio, ou não deveria ser próprio, de um serviço de luxo contemporâneo. De luxo, sim, pois é uma ocasião especial, e nem todos têm as condições de pagar para usufruí-la. É claro que só vai quem quer, e não se pode reclamar de uma viagem até um estádio apinhado numa megalópole onde seria possível conhecer, nem que um pouquinho de longe e mais pelo telão, os lendários três sobreviventes da formação original (ou quase isso) do maior grupo de metal da História: James Hetfield, Kirk Hammett e Lars Ulrich. Os preços não seriam camaradas sequer para o padrão classe média alta, com ingressos premium passando dos 500 reais, sem o valor da meia-entrada. Muito já se discutiu sobre a legalidade da questão das meias-entradas em atrações de música ou semelhantes, e juro que não entrarei nesse mérito, pois isso seria repetir literatura. Só o que preciso informar é que desisti, a princípio, sabendo que não havia mais a meia-entrada para pista premium ou mesmo para a pista comum, e que talvez não valesse a pena vir de Brasília para acompanhar o show das cadeiras do estádio. Agora não me recordo se elas também estavam preenchidas em seus valores de meia-entrada para estudantes. É bem possível. Foi duro ter de abdicar, depois de todas as expectativas geradas, mas ir ao Metallica parecia ter sido mesmo um devaneio temporário, sorte demais para ser realidade.

Semanas depois, entretanto, foi confirmado um segundo show paulista, um dia depois do primeiro, em atendimento à demanda gigantesca inesperada. (Fala a verdade, inesperada? Eu não duvidaria nunca do apelo exagerado de fãs e até de não-fãs por entradas para a volta do Metallica ao Brasil, depois de 11 anos – com direito a um “bolo” no meio do caminho, devido a uma desistência e cancelamento de apresentação em 2003, já depois de iniciada a venda de ingressos!) E a informação era de que as coisas seriam mais calmas dessa vez, pois dificilmente o estádio do Morumbi receberia lotação máxima uma segunda vez. Esperei ansiosamente pela abertura das vendas no portal da internet e novamente foi impossível a compra de uma meia-entrada para o setor mais badalado (entradas premium com desconto esgotadas na pré-venda!). Me contentei com a meia da pista comum. Não haveria excursões rodoviárias rumo a São Paulo, porque o sujeito que mais cuidava dessa parte se encarregou da fretagem de veículo apenas para o primeiro dia, antes que se soubesse de uma segunda data, e não manifestou interesse nem houve muita movimentação relativa ao segundo show. Ficou decidido, portanto, que eu iria de avião, porém como não pertenço a nenhum grupo sólido ou fechado, mesmo no meio do metal brasiliense, não combinei com ninguém em específico, e, quando pude contatar as pessoas mais próximas e que poderiam estar no mesmo hotel que eu quando chegasse a São Paulo – os músicos da banda cover de Metallica de Brasília, Fierce Fire, soube que elas pegariam vôos que seriam uma opção questionável para mim, restando-me apenas o subterfúgio de encontrá-los já em São Paulo; ou seja, ir e vir por minha própria conta e risco (isso se verificaria uma boa idéia, pois fiz uma nova amizade já no vôo de ida, como veremos). Os integrantes da Fierce Fire eram três: Arthur Silva, vocais e guitarra-base; Hara Dessano, o guitarrista principal; e Renato Mendes, baterista, aquele com quem tinha a amizade mais antiga, desde os tempos em que iniciei meu inacabado curso de jornalismo. A banda se encontrava sem baixista no momento.

A compra foi por volta do dia 20 de dezembro e eu passei o mês de janeiro inteiro dormindo mal, pensando em todos os preparativos para o show, além, claro, de tentar projetar em minha mente cada emoção que invadiria meu corpo durante aquelas 2, somente 2, porém mágicas, horas de som ininterrupto. O último dia do primeiro mês do ano é que abrigaria esse marco. No meio do caminho, dia 16 de janeiro, ainda encarei um aperitivo, Deicide em Brasília! Confesso que uma das minhas maiores preocupações era com relação ao consumo de álcool: deveria aproveitar bastante a viagem e não me poupar de nenhum prazer, mas que isso não significasse perder a linha, prejudicar-me e ter muitas dores de cabeça depois, tendo em vista estar sozinho em uma cidade até então por mim desconhecida, com fama de violenta e caótica, com dinheiro e documentos importantes a resguardar. E seria lamentável se eu por algum motivo me encontrasse fora do ar, me perdesse ou não conservasse na memória algum dos minutos da experiência única que é ver a banda (“a” banda!) entrando no palco e percorrer todo o set list até a saideira (que apesar de perfeitamente previsível não seria nem um pouco monótona)! Então, tomei a precaução de conversar bastante com uma amiga por enquanto só de de internet residente em SP, a Natália “Bowie”; também cansei de analisar mapas da capital no Google Maps, e mesmo do restante do estado (uma vez que eu desembarcaria num aeroporto periférico, o de Guarulhos, em Cumbica, praticamente fora da cidade, e precisaria bolar uma forma de me deslocar para não pagar uma onerosa corrida de táxi, o que incluía aprender de cara a usar o intrincado sistema de metrô sincronizado com bilhetes para ônibus naquela capital). Para um pacato candango que mal sabe direito o que é um metrô, quem dirá um metrô superlotado, isso exigiria um bocado de atenção! Havia também o lado de “curtir as músicas”, na verdade estudá-las, memorizar as que eu conhecia menos, enfim, deliciar-me com a banda para chegar com as melodias na ponta dos cascos, porque a goela não seria perdoada na hora fatal! Obviamente, a etapa de convencimento dos pais já havia sido superada, de forma que entenderam o quanto isso seria relevante para mim e que, ao contrário de muitos filhos da minha idade ou até mais novos, eu nunca tinha feito uma viagem-solo, e seria ótimo para sair um pouco de debaixo desse mesmo teto e da rotina e previsibilidade. É, depois de tantos anos eu merecia um “presentinho de aniversário fora de época”… Eu voaria pela Webjet, chegando um dia antes, o suficiente para conhecer algo em São Paulo além da sede do evento, o Morumbi, e voltaria na manhã consecutiva ao show. Me hospedaria num famoso hotel para universitários e/ou aventureiros econômicos num lugar bem acessível, o Formule One, onde racharia um quarto com mais dois do Fierce Fire. A última coisa que faltava dizer nesse item “A” é que a sede do evento, o Estádio Roberto Pompeu de Toledo, era também o do meu clube de coração¹ e – se não era para ver um jogo da minha equipe – meu grande anseio era que conhecer o “templo” fosse acompanhado de uma emoção e sobressalto pelo menos comparáveis aos de uma final de Libertadores: bingo!

¹ [Nota 2025] À época.

B) EM TERRAS “ESTRANGEIRAS” [Duplo sentido: O METAL É SEMPRE UMA NO MAN’S LAND!]

A princípio pensei que a velha máxima, de que tudo de errado acontece consigo no dia em que o azar menos poderia atacar, estava se concretizando: meu irmão, a pessoa que combinara de me levar ao aeroporto, não aparecia de jeito nenhum em casa. Minha mala tão aprumada e eu, devidamente trajado, estávamos à espera de notícias do motorista da tarde. Não quis usar o telefone até que o relógio marcasse realmente uma hora que me parecesse desesperadora; e foi o que fiz. Diogo atendeu e disse que inesperadamente um amigo seu começou a prendê-lao em determinado local com papos intermináveis e solicitações fúteis, típicas de quem bebeu umas a mais e parece retirar prazer de empatar a vida de alguém que está atrasado para um compromisso sério!! Meu irmão me garantiu que iria livrar-se desse estorvo e dispensar o amigo bebum nesse exato momento em que falava, deixando-o em casa ou algum ponto próximo a ela (segundo o que entendi, esse amigo queria uma carona para um lugar mais distante que, se fosse realmente acontecer, atrasaria completamente meu check-in!). Para o bem desse relato, seja como foi, Diogo cumpriu com o acordado e me deixou não muito cedo no Aeroporto Internacional de Brasília, mas também não muito tarde. Lembro que até trotei, engoli em seco, bufei e tremi, na fila do bilhete eletrônico. Isso é fácil de explicar: nunca havia deixado Brasília sem outras pessoas ao meu lado, e se eu perdesse alguma coisa agora, se deixasse qualquer coisa, como a identidade ou os ingressos, cair do meu bolso, me sentiria frustrado até a morte! Reconheço que eu e a paranóia, exceto por alguns rompimentos esporádicos, convivemos muito bem um ao lado da outra.

Dentro do avião, foi fácil perceber o quanto o show do Metallica mexia com a vida de pessoas do país inteiro: vários ali estavam indo para fazer o mesmo que eu, e logo entabulamos conversa. Em especial, eu e um trio de pessoas aparentemente da minha idade ou um pouco mais novas. Eram da Ceilândia. A única pessoa com quem falei depois desse dia e de cujo nome me lembro é o Philippe “D.R.I.”, como gostava de ser chamado (de Dirty Rotten Imbeciles), que comentou que ainda pretendia voltar a SP para ver o NOFX, dali a um ou dois meses. Como seu amigo estava com uma camisa do Palmeiras, e eu com a do meu clube, o papo logo recaiu para esse lado, e a garota que estava com eles não participou muito. O Philippe era flamenguista. Ambos iriam nas duas datas do Metallica e se hospedariam com um tio. Separamo-nos meia hora depois do desembarque, mas trocamos telefones. Soube que não iria precisar levar a efeito meu complicado cálculo de horários e estações a fim de chegar ao hotel com menos de 10 reais gastos (por causa do sistema de bilhete único!), mas que seria muito mais conveniente pagar 30 reais para pegar um ônibus que me deixaria virtualmente na frente do referido hotel, que passava de 2 em 2h, e dali a 40 minutos reapareceria na frente de Guarulhos. O engraçado é que soube depois que se eu rachasse o táxi com alguém poderia ter gastado ainda menos, o que não correspondia à absurda estimativa da Natália de uma corrida de 100 reais entre Cumbica e o Centro! Telefonei para ela e combinei de ligar outra vez quando me assentasse no hotel: Nanee Bowie seria minha guia turística por uma noite nos bares da Rua Augusta e nos points de relevo da Paulista, me apresentando ao maior número de loucuras possíveis. Ou iríamos desfrutar bem pouco, até o horário dos últimos ônibus do dia, ou viraríamos a noite inteira, e a segunda opção foi afinal de contas a eleita. Preferia perigar me sentir cansado no maior show da minha vida e ter esse convívio com ela e com a vida noturna da cidade esticados do que simplesmente achar depois que perdi grandes oportunidades e que não voltaria a São Paulo tão cedo. Eu sabia que mesmo que não me restasse mais energia eu a tiraria de algum lugar quando as músicas do Metallica começassem, assim mesmo, sem nenhum argumento científico ao qual me remeter, apenas com uma convicção sobrenatural no êxito do meu plano ébrio mirabolante, convicção que, como veremos, não era lá muito infundada…

A primeira pessoa, as primeiras pessoas, que encontrei já no saguão do Formule One foram o guitarrista do Fierce Fire e sua namorada e um amigo da banda que o Renato disse que eu conheceria, e que precisava mesmo conhecer, pois era uma peça, o Kleuber. Subi para meu quarto no segundo andar, e nenhum dos dois que dividiam as diárias comigo estava. O Arthur já tinha se deslocado para o Morumbi, pois veria o Metallica nos dois dias. O Renato logo estaria de volta, havia saído com o pai para comer ou passear em outros lugares. Arrumei as coisas no quarto, liguei para minha mãe e para a Natália, desci, fumei um pouco no pórtico do hotel e vi a gremista radicada em São Paulo que gosta de David Bowie aparecer e gentilmente servir de bengala a este cego que mal podia imaginar o que iria encontrar nas esquinas e botecos desse centro amalucado… Infelizmente não serei muito preciso nessa narrativa, mas garanto que isso não guarda a menor relação com o consumo de álcool: foi uma noite até agora jamais repetida em minha vida em que bebi cerveja por 17 horas consecutivas sem me sentir alcoolizado, embora bastante eufórico, naturalmente, a cada minuto, me sentindo mais como uma criança, por causa das conversas sobre o Metallica e as diferenças da vida urbana paulista e da (ausência de) vida urbana brasiliense. Foram muitos os bares em que abrimos conta, e eu retribuí esse grande favor da Natália de me “amparar” naquele ninho de pessoas e poluição interminável (embora eu não tenha presenciado engarrafamentos, chatices e grosserias dos transeuntes – do que eu sinceramente não esperava me esquivar, quando pensei nos costumes de uma cidade tão grande). O fato é que as pessoas podiam ser relativamente indiferentes a você, pois estavam acostumadas com todo tipo de cidadão, turista ou aberração possível, enfim, a um circo diante de suas caras todo santo dia, cosmopolitas que eram, mas uma vez solicitadas se mostravam polidas e de uma elegância que eu imaginaria ser viável apenas em Buenos Aires ou coisa do tipo. Não recordarei tantos nomes (acho que Augusta e Paulista são, em si, suficientes). Só sei que nada ali podia ser posto no mesmo patamar do sossego (eufemismo para tédio!) candango, onde o medo de ser assaltado por ser o único alvo na rua à noite é o oposto desse lugar que, às quatro da manhã, parecia a muvuca de um recreio de escola, com pessoas indo e vindo num fluxo incessante. Eu só não achei esse continuum mais assustador durante aquele dia porque não tive tempo de raciocinar que era simplesmente uma situação perpétua! Em nenhum dos 365 dias haveria calmaria naquelas ruas. Pode parecer irritante para alguns essa aparente tentativa, por minha parte, de engrandecer uma ligeira visita por um lugar tão prosaico e, para muitos, estúpido, velho, ultrapassado. Mas eu senti como se não tivessem sido 3 dias, ou 1 e meio, a se considerar que cheguei ao fim de uma tarde e me despedi no transcurso de outra manhã, mas vários deles! Após essa maratona de cervejada e os mais variados papos, com pessoas se retirando e voltando, partindo e não mais vindo ou simplesmente aparecendo tarde demais na história, ali estava um Rafael um tanto mais maravilhado com a vida e uns 80 reais mais miserável, de volta ao pórtico do hotel, não bêbado-bêbado, porque de alguma forma o ritmo lento e comedido dos goles e a espécie de ar úmido de São Paulo o impediram de sair de si. Ou talvez fosse o juízo, o intenso zelo com que me propus a atravessar essa viagem sem perrengues e com sensação de dever cumprido ao máximo. A medicina ou meu discurso não explicariam, deixa pra lá! Enquanto o taxista (da minha ida ao aeroporto, dia 1 de fevereiro, pós-show) espirrava, só para citar, reclamando das partículas de poeira, eu sentia minhas narinas desentupidas como nunca antes, como se só então eu me desse conta de que vivendo no cerrado eu estava sempre puxando menos ar do que a capacidade natural dos meus pulmões permitia. Estranho, deveras!

Natália se foi (depois de ter ficado um tanto íntima do senhor Kleuber!) – tendo chegado a cogitar comprar a entrada para o show, pois seu primo de 11 anos começava a gostar da banda por causa do Guitar Hero; mas ter de comprar outro ingresso pra ele lhe quebraria as pernas, então ela mudou de idéia, se despediu e desejou um bom show – e então todos pareceram perder o ânimo. Simplesmente todo o pessoal do hotel foi dormir (os que ainda não tinham ido, mas o Renato e outros mais comportados já se encontravam no oitavo sono) e repor as energias. Os últimos a sair foram uns caras de outros quartos que vieram de Manaus (!) para ver o Metallica, que já estavam se dirigindo ao aeroporto, não sem antes descreverem tudo de mais espetacular que viram na noite de sábado (meu show era no domingo). Tão felizes estavam que um deles parecia pouco se importar com o bico desse tamanho que a namorada amuada fazia na hora de entrar no táxi, gabando-se de que ela não sabia o que estava perdendo, se trancava no quarto do hotel e deixava de conhecer as pessoas, não suspeitava de que nós vivíamos uma coisa única, pois o mais provável é que nunca voltaríamos a nos ver de novo, mas que esse diálogo estaria registrado na história do mundo e que não poderia ser deletado. Esse “nós”, claro, era o jeito do amazonense se referir a todo e qualquer fã fervoroso do Metallica que estava vindo de praias distantes (ou mangues distantes!) para aproveitar ao máximo cada minuto, sem recusar encontros e contingências divertidas, mesmo que isso lhe custasse um namoro.

Pois bem! Depois dessa rica apreensão (que eu realmente demorei para mastigar – na hora fiquei pensando se tudo aquilo não ia entrar por um ouvido e sair pelo outro!), eu de repente me vi sozinho empunhando uma latinha na frente do Formule One, numa cidade grande que não pára, apesar de as pessoas dormirem (só mudam os rostos)! Finalmente percebi que também eu não era nenhum Highlander e precisava me recolher, por pouco tempo que fosse, me desligar daquela simbiose entre mim e todo aquele concreto – me pareceu que se dependesse exclusivamente de mim, nunca iríamos parar de circular (eu e São Paulo éramos um só)… E como o tédio até a hora do show iria grassar (principalmente porque um dos lugares que mais gostaria de conhecer, a Galeria do Rock, pelo menos foi o que me disseram, fecha aos domingos), era a hora apropriada para uma sesta. Novamente, ninguém na área ou, antes um Renato bastante abatido, quase sumindo debaixo das cobertas, com inflamação na garganta, que já não sabia se estaria no show de logo mais. Foi ao hospital tomar injeção para ver se melhorava imediatamente (sim, de fato isso ocorreu e ele não se desgraçou), e enquanto isso eu cometi a atrocidade de baixar a temperatura do ar condicionado do nosso quarto para DOZE graus, sem perceber, apagando em seguida. Fui despertado pelo Hara e pelo Kleuber quase dentro de um esquife de gelo! Duas ou três horas, no máximo, foi o que eu dormi, mas encontrei um ambiente diferente. Voltei a me sentir apenas uma pessoa que mal e mal se adaptava ao ambiente, fusão desfeita com aquele circo louco de carros e barrigas esfomeadas. Porque antes parecia que eu poderia rir e beber cervejas até o mundo acabar, e todos do hotel me cumprimentariam com um sorriso. Mas toda farra chega ao fim – claro que a principal sequer havia começado, mas voltei a me centrar na sobriedade da missão (uma farra séria!): o Metallica exigiria um dia menos hedonista, decerto, porque eu vim para testemunhar cada segundo de uma obra artística na qual eu não devia interferir, muito menos “arruinar” com algum entorpecente.

Fui com o Arthur primeiro ao Banco do Brasil e depois a um shopping qualquer da cidade, a pé mesmo, para almoçarmos. Depois todos da banda estavam reunidos num táxi que ficou bem barato. A única ressalva é que todos iriam assistir o Metallica na pista premium menos eu. Uma garoa chata resolveu aparecer antes de sairmos do carro, mas eu achei que não era tão incômoda a ponto de comprar aquelas capinhas descartáveis. Quando me vi do lado de fora do Morumbi exclamei para mim mesmo que estava no meio-termo mais perigoso daquela viagem: entre o tudo e o nada, pois se de repente sumisse meu ingresso seria um desapontamento inigualável, um “quase” bem acre de se engolir! Também imaginava, nas minhas melhores perspectivas, que encontraria uma aglomeração de cabeludos malucos do lado de fora e conversaria bastante antes de entrar, só que o Morumbi era tão gigantesco e a chuva parecia afugentar tanto os outros que eu não encontrei aglomerações e decidi passar de uma vez. Lacrimejei quando olhei para o entorno de dentro, pela primeira vez. Não quis bancar o são-paulino emotivo diante de um público numeroso, contudo, para não dar margens a piadinhas… E eu não cansei de ir e vir de um lado a outro daquela imensa pista ou tablado, lona, colocada em cima do gramado, para me locupletar, esbaforido, com a sensação de ser um jogador cobrindo várias funções na mesma partida, marcando e depois atacando, reconhecendo cada montículo de grama do campo. Ah, sim, a grama! Pude arrancar um tufo quando me aproximei do escudo do São Paulo Futebol Clube, onde terminava a lona (e, se querem que faça mais uma dessas observações rápidas entre parênteses, não levei câmera fotográfica, não registrei nada disso, mas agora vocês vêem que 1 ano não foi suficiente para avariar meu HD, que era o que realmente importava: gravar tudo na retina e depois estocar essas informações no meu precioso disco rígido, que nem milhões de cervejas seriam capazes de formatar!).¹ Eis que, justo quando admirava aquele ícone (o escudo do meu time, de aproximadamente 15 metros quadrados, rente ao solo, próximo a um dos setores de arquibancadas), centenas de vezes visto apenas pela TV, foi que encontrei por pura casualidade um fã de Metallica que foi quem me apresentou à banda, em 2001! Outrora melhor amigo, não mais meu vizinho, não deixa de ser inusitado e ao mesmo tempo justo, perfeito, que o destino nos quisesse fazer esbarrar tão longe de nossas casas. Um cumprimento entre mim e o Aloísio foi sucedido por saudações a seus amigos, todos de capas de chuva e que diziam querer “pular o show do Sepultura”, pois não vieram para isso. Aparentemente, tinha um grupo com quem curtir o show. Mas não queria estar com aquela galera, com quem pouco me identificava, que não parecia curtir o Metallica exatamente do jeito que eu curtia e ainda curto, do modo sujo e agressivo que eu escolhi para apreciá-lo, da maneira deferente e old school com que eu insisto em me referir ao grupo. É, a música preferida do Aloísio é The Outlaw Torn, algo impensável para quem sabe, como os próprios membros da banda, o posto secundário ou mesmo terciário que ocupam os álbuns Load na indústria fonográfica, ou diante do grande público (no fim das contas, essas coisas são a mesma coisa, porque não há populacho sem os barões das gravadoras e eles precisam entusiasmar alguns banguelas meio surdos para vender seu peixe!). Então eu me dirigi ao banheiro, prometendo voltar, mas preferi ir me posicionar no canto oposto ao que eles escolheram para acompanhar o show. E cada vez mais pessoas que vinham chegando impediriam qualquer tentativa de procurar quem quer que fosse, mesmo se eu quisesse! Era quase verdade que para se situar ali o jeito era driblar para um lado e para o outro, como um jogador que encontra todos os companheiros sob cerrada marcação. A parte de não tomar uma cervejinha para ver os shows (pois eu queria muito ver o Sepultura, banda de entrada, também!) não se devia exclusivamente à possibilidade de ficar “bobo demais” de forma indevida, mas a um problema que tenho, e que penso ser mais acentuado em mim do que em qualquer outra pessoa: o de me dirigir ao banheiro a intervalos cada vez mais curtos conforme vou virando a bebida, sem poder mesmo reter a urina, porque isso me deixa quase paralisado de dor, sem poder andar ou pular. Não queria estar desconfortável e pedindo para que o show passasse depressa, isso seria contraditório demais depois de toda a luta para estar ali! Estipulei 1h30 antes da hora marcada para o Metallica, ou um pouco menos que isso (porque não sou inglês) como uma boa margem de segurança, e de resto me limitei a fumar um ou outro cigarro. O Sepultura começava agora a se apresentar, a chuva diminuía até a intermitência de pingos esquizofrênicos, e eu tinha a certeza de aproveitar uma boa banda, ótima banda, brasileira e de respeito, para me elevar em êxtase, ainda de forma tímida, é verdade, sem pressa, ciente de que o ápice viria em hora melhor. Não podia mesmo agitar demais, primeiro porque só agora sentia mais que antes o cansaço por tudo aquilo que havia feito, virando a noite daquele jeito, comendo pouco, tendo deixado de repousar (como se eu fosse conseguir dormir a madrugada inteira trancado no hotel, com a cabeça a mil!), e certo princípio de cãibra nos braços, dores nas juntas, nas pernas, e sabia que ficaria em pé sem ter onde escorar por várias horas.

¹ [Nota 2025] Engraçado como 2010 ainda não era uma época de ubiqüidade de celulares com câmera!

E se o leitor realmente está se perguntando se eu fiz uma boa escolha ao me desfiliar da turma do Aloísio (e como já estava separado do pessoal da Fierce e de qualquer outro, se foi apropriado passar o show sozinho), afirmo que fiz exatamente o que quase sempre faço (no show do Megadeth foi a mesma coisa!), e não poderia imaginar nada melhor do que não parar para conversar com ninguém ou simular algum tipo de reação, positiva ou negativa, em relação a qualquer coisa, que não fosse exatamente aquilo que eu estava sentindo, só para agradar os outros, como tantas vezes acontece! Apesar de ter puxado papo com inúmeros grupos e apurado que um grosso contingente provinha de regiões do interior como Campinas, e que o Morumbi àquela altura tinha mais corinthianos do que qualquer coisa, eu sabia que aquele momento era de mim para mim mesmo e que não cabiam interferências externas. E após o show do Sepultura, com o atraso do Metallica e o escurecimento do céu, esse cansaço crescente foi apertando, de forma que quase me arrependi de todo esse auto-isolamento e achei que não seria uma boa noite. Mas essa ligeira apatia seria pulverizada e convertida em cinzas quando de repente as luzes do local foram totalmente apagadas (e senti muito medo, então, de eventualmente desmaiar e ser pisoteado!) prenunciando a entrada triunfal do quarteto mais importante. Os primeiros acordes não deixavam dúvidas: eu extrairia energias de onde fosse preciso, uma certa anestesia estava já sendo inoculada pelo meu próprio sistema de defesa; e se eu tivesse de pagar alguma coisa por isso, que fosse depois, bem depois de sair dali! Aí sim eu enfrentaria 10 dias seguidos de ressaca de bom grado, quando já estivesse em Brasília e esse momento fosse parte do passado gostoso de lembrar! Não sei mesmo como eu me sentia tão detonado ao fim da primeira música, Creeping Death, que achei que não conseguiria mais erguer o braço direito, e como eu estava incorporado por uma entidade na décima primeira música, de forma que poder-se-ia pensar que descansei a semana toda esperando apenas a hora de One, minha faixa preferida! Ou seja, a cada música que passava eu me sentia mais revigorado, uma espécie de Benjamin Button do Metal! A bateria de batidas de cabeça para o violento trecho final de One excedeu todo o “treino” a que me submeti em casa, foi insano! Retirei meus óculos e não parei de me contorcer para todos os lados ao ritmo do thrash mais encardido do …And Justice for All, e talvez do universo!, sabendo que aquela era a apoteose. E que havia esse tempo todo um tanque energético em stand-by aguardando o gatilho, que foi disparado junto com os sons de metralhadoras e morteiros da introdução da faixa (ainda estou falando do hino anti-bélico One!). Parece-me que o veterano Lars Ulrich não tem o mesmo ímpeto para gastar, mas isso já nem tinha tanta importância… Confesso que me constrangi, tendo de me impedir de me entusiasmar, por uma questão de honra, sendo ainda assim trabalhoso fazê-lo, nas canções mais marqueteiras do Metallica, que agradavam sobretudo os casaizinhos que eu sentia serem muito mais fãs estilo Aloísio do que headbangers, penetras no espetáculo (se bem que ultimamente os verdadeiros metaleiros andam tão escassos que eu devia ser o penetra ali!). Mas que se dane. Fuel e Nothing Else Matters¹ quase se desmancham como episódios inofensivos do que no geral era um impecável massacre, que, afinal, precisava ser intercalado com essas “baladinhas”. That Was Just your Life felizmente mostrou que o Metallica ainda sabe ressuscitar o ímpeto dos anos 80, se os músicos entrarem em acordo, se é isso realmente que eles querem. Sad But True e Welcome Home (Sanitarium) apresentam a sintonia perfeita entre a velha guarda e os que estavam ali por causa da influência assombrosa do Metallica no mundo pop que se deu desde o lançamento do [untitled]/Black Album. Porque Welcome Home, apesar de ser de uma fase pregressa, apresenta já a característica de olhar para os dois lados, vista no álbum negro: o peso, sim, mas o verniz também! Não faltaram os clássicos que seria imperdoável ver de fora, como Ride The Lightning, Fight Fire With Fire, Master of Puppets (que eu homenageava através da minha camisa, sem perceber na hora, porque nada mais me importava além do som e do rosto do James no telão – e dos punhos do Hammett, eventualmente, cabendo ao Trujillo uma leve figuração, ideal para ele, ideal aliás para qualquer baixista)… E até o tradicional cover de Diamond Head, embora fosse com a inesperada Helpless! Esse encontro assimétrico, em que eu venero os que estão lá, mas no qual eles gritam o nome da cidade, e nunca o meu (se bem que eu era São Paulo naquele momento!), só podia mesmo terminar com dois petardos primitivos, Hit the Lights e Seek & Destroy (que me fizeram prometer que, se um segundo encontro acontecesse, seriam objeto do meu tributo, com uma camisa do Kill ‘em All, da próxima vez). E eu já nem sabia como saía do chão com essa história de fazer um escaneamento na cena daquela cidade àquela noite, procurando alguém pra começar uma briga (primeira estrofe), porque achei que o gás final fôra dado em One, lá atrás! Só que a loucura é contagiosa, e eu só via gente energizada ao meu redor, então achei que não seria falta de nobreza roubar um pouquinho da deles. É verdade, também, que, depois, já mergulhado no silêncio (pois ainda estava em êxtase e sequer ouvia os bochichos das pessoas ao meu redor), eu demorava 10 segundos para dar dois passos e precisei remar na contra-mão das pessoas que saíam do estádio, rumo aos banheiros. E que depois não sabia se cantava ou não, junto com os são-paulinos, no túnel, que o Corinthians não tinha nenhuma Libertadores e que por isso não precisava ser levado a sério.² O Metallica merece vários estudos de caso: como pode agradar a tanta gente tão diferente?!

¹ [Nota 2025] Curiosamente hoje eu aprecio muito mais essas músicas dos anos 90!

² [Nota 2025] Não demoraria muito para ter (2 anos e alguns meses, para ser exato).

Estranhamente, me senti em casa. Sim, porque não parava de pensar o quanto eu era uma ilha ali, o quanto era absurdo penar tanto para ver apenas 2h, ou quiçá 1h40, de 4 excêntricos empunhando instrumentos pouco ortodoxos, que não emitiam nada, porque o que emitia alguma coisa eram caixas monstruosas bem longe da banda; os responsáveis por todos os transes eram muito menos místicos do que quereríamos, eram computadores, fios, máquinas, engenharia fina, cálculo frio… Agora se pergunte se o fã não se sente vingado de toda essa impessoalidade quando se vê nas letras…

Dormi pouco, reencontrei o Philippe no aeroporto, também voamos de volta juntos embora não tivéssemos combinado nada disso, e até apertamos a mão do Rodolfo ex-Raimundos e Rodox, que quase passa despercebido em meio àquela gente, sem fãs nem moscas rondando sua cabeça, andando com sua esposa entre as lojas, prestes a embarcar sei lá para onde (outra grande ironia, chegar a conhecê-lo longe da capital de Brasília, onde nós dois crescemos, embora ele seja de uma ou duas gerações anteriores à minha). Até voltei mais rápido do que imaginava à morosidade candanga, a ouvir outras bandas que destoam do padrão Metallica (a meu ver, isso iria demorar, depois da magnitude do concerto!). Mas ficou algo pendente e entalado. Não quis descrever tão pormenorizadamente por muito tempo tudo que vivi. Acho que fiquei com medo de que tudo isso se diluísse com comentários dos outros, que não poderiam imaginar com fidedignidade minha experiência difícil de pôr em palavras… Eu até esqueci de dizer, por exemplo, que a garoa fina cessou completamente logo após o “até a próxima!” do Sepultura… Como se o Metallica controlasse até o clima. É claro que esses detalhes só parecem poesia na visão dos presentes ao espetáculo. Só o tempo é que romantiza de uma forma menos pitoresca essas facetas, e nos permite quebrar o silêncio! I’m not, anymore, trapped under ice!

[ARQUIVO] SEIYA DE PÉGASO EM FARELOS & A MONTANHA MÍOPE MAS MÁGICA

21/12/10

Seiya esmigalhado na casa de Leão. Perde a mão com a Cápsula do Poder – na altura do pulso. (Ao acordar, no mesmo lugar verifico uma picada de muriçoca, ferida ampliada e agravada com certeza pelo meu coçar involuntário.) No mais mísero estado, e apoiado por seus amigos, Seiya segue adiante. Não tem nem pés, talvez, não pode se manter erguido, mas cumprirá sua missão obstinando-se até o fim, última centelha… No meio do caminho a plebe ainda quer troçar do herói, porém ele demonstra muita habilidade com a bola nos pés (!), embora seu cosmo e seu corpo não sejam mais os mesmos. E Athena, poderá reconstituí-lo?

Jogo Master System com um amigo. A terceira fase de algum jogo. Algo reseta o aparelho e agora precisamos da password. O modo de obtê-la, não por uma revista de videogame ou um site, é terminando uma ilustração de uma estranha montanha, o que eu me proponho a fazer. Quando terminar de ser colorida ela nos transportará…

22/12/10

Jogando Perfect Dark em multiplayer – controle exagerado, cheio de segmentos horizontais. Menininhas risonhas, muitos amigos de diferentes eras. Fazer trabalhos da faculdade, que ficou parada muito tempo mas vai voltar. Quero molhar minha cara no banheiro mas esqueço que estou de óculos. Inclusive, tiro-os por um tempo e mostro-me cego, praticamente, para as menininhas (acompanhadas, cada uma, de um ou dois marmanjos). Revelo como é difícil ser míope, e aliás um míope tão raro: normalmente as pessoas fazem drama por precisarem usar lentes de 2, 3 graus.

[ARQUIVO] A PRAIA DO CERRADO

23/03/11

Havia um mar aqui no Planalto Central! Na realidade, o que costumava ser a calçada da zona comercial da 308 Norte se convertia em areia (se meu relato não é impreciso) e, poucos metros à frente, onde passariam os carros, apenas água, água até não poder mais, ondas muito agitadas… Aliás, fico inclinado a voltar atrás na minha descrição: não era areia, mas pedras. Lembro de testemunhar arrebentações pouco amistosas. Somente surfistas experimentados ousavam encarar essa parte da natureza brasiliense!

Portanto, para além do paredão de pedra vicejava um novo tipo de vida. Alguns com sua prancha arriscavam ir muito além, até que a borda fosse difícil de se enxergar. Poderia haver tubarões engolidores de pranchas e pernas. Mas o que realmente soava intrigante nisso tudo era uma ilhota a dada distância, uma ilhota de dunas de areia, talvez um pouco salpicada de vegetação, aqui e ali. Parecia um oásis, um lugar especial por alguma razão, e a travessia até lá era bastante complicada. Casais deviam gostar desse isolamento.

Sabrina havia me ensinado ou me motivado, me feito, enfim, chegar à ilhota. Depois que nossa curta relação de amizade foi bruscamente interrompida, perdi qualquer estímulo ou mesmo meios de repetir a façanha, porque a maneira como fiz isso me parecia agora nebulosa, irrecordável. Teria sido a nado, perigosamente podendo cansar antes de atingir as margens opostas? Ou teria sido em alguma embarcação, e de que tipo? Fato é que ela era um porto seguro necessário para arriscar minha vida, sem morrer. Doravante, eu e eu mesmo teríamos de encontrar a solução, ou simplesmente desistir. (Não era vital?)

Sabrina representava mais auto-confiança e mais risco, talvez mais risco do que eu podia tolerar. Eu era do tipo de homem disposto a me jogar no fogo (ou aos tubarões!) por mais uma tentativa desesperada, mas agora a prudência, por mais que parecesse um paralisante para a alma, falava mais alto. Eu tive a pachorra, a coragem e a necessidade, e agora não podia ou devia ter mais?

[ARQUIVO] BURIED DEEP IN THE SAND

07/08/11

Estávamos em uma espécie de viagem.

As pessoas estão na praia. Vanessa dizia a Sandra que a palavra que eu escrevi para ela, a garota do intercâmbio, “intelligentis”, era para vir acompanhada de outras duas, uma antes e uma depois. De repente, Vanessa começava a cavar na areia – antes disso, Vanessa estava de pé com roupa de banho e Sandra sentada sobre uma toalha estendida na areia. As duas estavam de frente uma para a outra e o mar, embora eu não pudesse enxergá-lo, parecia estar às costas de Vanessa. Então Vanessa consegue encontrar a palavra “intelligentis”, como se eu a tivesse escrito na areia com o dedo momentos antes. E há rastros que não são identificáveis por enquanto como letras, tanto à esquerda quanto à direita da primeira palavra. Eis que a Vanessa começa a cavar mais e mais fundo, até achar um objeto: meus óculos, armação negra e lentes um pouco sujas.

Neste momento, Sandra sumia, e eu finalmente surgia. Eu estava muito contente e não sabia como agradecer por terem encontrado uma coisa tão importante para mim, sem a qual eu ficaria completamente incapacitado, refém do mundo. Dizia a Vanessa que não sabia o que faria se não fosse ela em minha vida. De repente, estávamos num quarto (como se fosse um hotel), eu, Vanessa e sua melhor amiga Lorena. Havia cochichos do lado de fora, a partir do corredor. Ou, melhor dizendo, havia murmúrios ou ecos, porque eram distantes demais. Mas eu tinha medo de que outros hóspedes pudessem intervir em hora tão delicada, o que me fez pedir a Lorena que fechasse a porta para eu poder conversar com mais privacidade com Vanessa. Eu queria desabafar, mas não sabia como começar… Minha primeira frase foi claramente: “I want to ask you some questions…”. No exato instante em que acabava de proferir este desejo, percebia que empregava o idioma errado e emendava com um “ops!”. Na seqüência, eu confessava estar apaixonado. Após minha confissão, nossos rostos nos aproximavam…

[ARQUIVO] O JOGO

11/11/10

Sonhei que jogava tênis contra alguém, muito embora a rede fosse tão alta quanto a do vôlei, e não conseguia fazer o meu serviço (sacar) adequadamente. Com efeito, a pontuação era em sets de acordo com a ATP, e a dado ponto eu me sentia o Guga retornado da aposentadoria (não como metáfora, mas como personagem identificável no sonho)! Ocorria o pensamento: “eu não deveria ter feito isso, vou perder!” – correlação com o Schumacher. O placar era algo como 6-1, 5-0 para o meu adversário. Quando eu levantava a bola (que parecia grande e branca) para o saque e eu desistia de bater com a mão quando sua trajetória estava no topo (pois sabia que sairia um saque bem fraco), meu oponente, se não me encorajava, não me desprezava, pois parecia entender a situação, expressando o seguinte enunciado: “Tem que ajeitá-la para o golpe certo, é difícil”. Por que raios eu não sonho com um boliche, onde sou campeão?