DIC:
pedrês: que é ornado como o xadrez (preto-e-branco), podendo ser um animal ou uma calçada; ferro fundido; aldraba (em Portugal).
aldraba: antiga campainha (de ferro, para bater na porta da frente e anunciar a chegada)
quartau: cavalo pequeno e troncudo; cavalo castrado; canhão de ¼ do tamanho normal (em desuso).
cunhã: menina; mulher; cabocla.
cariri: força, esforço
Cariri: tribo indígena da margem esquerda do rio São Francisco; língua extinta; região do sul do Ceará composta hoje por 8 municípios.
Quixadá: a cidade cearense dos monolitos, prestes a comemorar seus 150 anos
babujar: sujar de baba; bajular.
babugem: baba ou espuma nojenta aglomerada num ponto; dejeto alimentício; insignificância.
panasco(a): planta de pasto; pântano nutritivo para o gado.
pacavira: planta musácea (familia da banana) de onde se extrai matéria-prima para confeccionar tecido
caritó: casebre pobre; prateleira em casas sertanejas; espécie de estante rústica; gaiola de engorda de caranguejos; closet antigo, muquifo para coisas em desuso e tranqueiras.
garrancho: parte dura do tronco da árvore; graveto; doença dos quadrúpedes, que afeta o casco; ave ribeirinha (pernilonga); aquele que em alguns jogos de carta não está na vez; gadanho, um tipo de forca, instrumento do lavrador; letra indecifrável.
pernilonga: ave alvinegra; perna-longa (foto).

entanguido: encolhido pelo frio ou fome; raquítico.
salsa: tipo de uva; malandro; espécie de bufão carnavalesco lisboeta.
marrã(o): porco que recém-deixou de mamar; carne fresca do porco; ovelha pequena (Pernambuco); corcunda; martelo grande; turrão; CDF (em Portugal); qualquer animal arredio.
raceada: procriação animal arranjada; de pedigree.
mugunzá: mingau de milho para alimentação no agreste (termo também encontrado em José de Alencar)
chouto: trote sem elegância de algumas montarias
Baturité: município a apenas 80km de Fortaleza, com menos de 40 mil habitantes, terra-natal de Antônio Couto Pereira, quem construiu o primeiro estádio do Coritiba
tapera: vilarejo fantasma; escombros; casa abandonada; caolho ou cego completo; palerma (São Paulo); caritó (acima).
ilharga(s): flancos; laterais do caixão; protetor.
maniva: caule da mandioca
paroara: ave tricolor de cabeça vermelha; modo do cearense se referir a forasteiros, particularmente paraenses ou amazonenses.
cacimba: orvalho; poço artesanal.
mezinha: remédio caseiro; espécie de laxante.
tejuaçu: lagarto grande
jucá: árvore conhecida como pau-ferro, conhecida pela madeira de excelência
madapolão: tecido branco de algodão
cambraia: espécie de tecido algodoado mais nobre que o madapolão.
anfractuosidade: cheio de saliências, i.e., depressões e elevações sucessivas; aspecto do nosso cérebro.
“Quem comeu a carne, tem de roer os ossos…”
“Mas você não é moreno como Conceição. Branco leva sol, fica corado; preto fica cinzento…”
“Sem legume, sem serviço, sem meios de nenhuma espécie, não havia de ficar morrendo de fome, enquanto a seca durasse. Depois, o mundo é grande e no Amazonas sempre há borracha…”
“E Chico Bento pensava: <Por que, em menino, a inquietação, o calor, o cansaço, sempre aparecem com o nome de fome?>”
“Que foi, Josias? Você anda abestado, ou isso é ruindade? Que foi que andou fazendo?” “Meu filho, pelo amor de Deus! Você comeu mandioca crua? Assombrado, e sentindo a dor mais forte, o pequeno começou a chorar. Cordalina, aturdida, topando no madeirame do chão, andou até ao terreiro limpo, procurando na terra varrida umas folhas para um chá.”
“Donde vens, Pedros e Paulo? Venho de Roma. O que há de novo em Roma, Pedros e Paulo?…”
“Até a miséria tem fantasia e criara ali os gêneros de habitação mais bizarros. Uns, debaixo dum cajueiro, estirados no chão, quase nus, conversavam.”
“Mas, minha filha, isso acontece com todos… Homem branco, no sertão – sempre saem essas histórias… Além disso não é uma negra; é uma caboclinha clara…” “Minha filha, a vida é assim mesmo… Desde que o mundo é mundo… Eu até acho os homens de hoje melhores.”
“E ao fim da visita, quando ela falava sobre o efeito da seca na vida da cidade, pareceu-lhe até pedante… Tinha na voz e nos modos uma espécie de aspereza espevitada, característica de todas as normalistas [universitárias] que conhecia…”
“Pra que vocês andam agora com umas saias tão justas? Vão subir no bonde, mostram até a batata da perna…”
“Já era tão antiga, tão bem-instalada a sua fome, para fugir assim, diante do primeiro prato de feijão, da primeira lasca de carne!… E até lhe amargou o gosto daquela carne, lembrando-se de que Cordulina, a essa hora, engolia talvez um triste resto de farinha, e junto dela, devorada a magra ração, os meninos choravam…”
“– E tu não tem pena de dar teus filhos, que nem gato ou cachorro?”
A mulher se justificou amargamente:
– Que é que se é de fazer? o menino cada dia é mais doente… A madrinha quer carregar pra tratar, boar ele bom, fazer dele gente…”
“As reses secavam como se um parasita interior lhes absorvesse o sangue e lhes devorasse os músculos, deixando apenas a dura armação dos ossos sob o disfarce miserável do couro puído e sujo.”
“E novembro entrou, mais seco e mais miserável, afiando mais fina, talvez, por ser o mês de finados, a imensa foice da morte.”
“para evitar o excessivo desamparo, a gente precisa criar um ambiente. Suas idéias, suas reformas, seu apostolado… Embora nunca os realize… nem sequer os tente… mas ao menos os projete, e mentalmente os edifique…”

Pedra da Galinha Choca, ponto turístico de Quixadá
“A amizade de Mariinha Garcia com as irmãs de Vicente aumentava dia a dia. Era raro chegar o rapaz em Quixadá e não encontrar as 3 moças juntas, bordando, lendo revistas, conversando em risadinhas e cochichos de confiada intimidade.” “Ela e Alice não escondiam o plano de casar Mariinha com o irmão.” “E Vicente, o pobre, andava tão carecido de alegria e de graça! Ia-se deixando levar. Docemente, o namoro marchava, ao lado do outro idílio, entre Lourdinha e o Clóvis Garcia, que também corria rápido, entretido em conversas na loja, entre a venda de um metro de cambraia e de centímetros de fita.”
“Ora o amor!… Essa história de amor, absoluto e incoerente, é muito difícil de achar… eu, pelo menos nunca o vi… o que vejo, por aí, é um instinto de aproximação muito obscuro e tímido, a que a gente obedece conforme as conveniências… Aliás, não falo por mim… que eu nem tenho esse instinto… Tenho a certeza de que nasci para viver só…” “<Nascer para viver só? Olhe, Dona Conceição, já não ouviu dizer: ‘Vae solis!’ (*) Não crê na sabedoria dos antigos?> A moça deu um passo e encolheu os ombros: <Sei lá, doutor! Os antigos diziam tolices, como todo o mundo. Mas, até logo; Mãe Nácia está-me chamando lá da casa da Lourdinha…>”
(*) “Ai do solitário!” Eclesiastes 4:10
“Afinal, o verdadeiro destino de toda mulher é acalentar uma criança no peito… E sentia no seu coração o vácuo da maternidade despreenchida… <Vae solis!> Bolas!” “Muher sem filhos, elo partido na cadeia da imortalidade… Ai dos sós…”

Uma consideração sobre “O QUINZE – Rachel de Queiroz”