INTRANSIGÊNCIA

Ahh, já estou tão cheio das mesmas pessoas se metendo da mesma maneira na vida dos mesmos indivíduos tantas vezes! Terei, para manter o equilíbrio interno e evitar o acúmulo da bile, sendo naturalmente benévolo no trato social, mas considerando também meu direito de resp… cof, cof… resposta retardada, de resp… cof, cof, respirar ar puro e ficar “quite” com quem extrapola o bom senso, de não pagar um preço alto demais apenas por ser eu mesmo, terei, eu dizia, de transformar este surreal diálogo em post no blog. Não chega desabafar com os amigos mais próximos, fazer troça no grupinho do WhatsApp, não, não! É preciso imortalizar meu justo mau humor contra a escória da escala de valores, o rebotalho insano – e fazer um monumento granítico de meu protesto fumacento e metafísico!

Algo me diz que, sendo um país o câncer do mundo, sua capital há de ser o epicentro do câncer do mundo, a sede do que há de mais indecente e degenerado neste mundo mesmo! Diria que se o mundo fosse o organismo de um rei, a Brasília do século XXI seria seu UMBIGO PRESUNÇOSO…

* * *

Como não se achar DEUS diante dessas formiguinhas incautas do dia-a-dia?

Hora do almoço. Adoro quando a copa está vazia. Aliás, eu detesto pessoas, então isso é conseqüência natural. Sentir-se bem ao estar só.

O que temos na “hora do almoço”? Uma chusma de secretárias e copeiras de meia-idade papagaiando entre si (o que ainda é tolerável!) ou metendo o bedelho na vida alheia (sim, a MINHA vida)…

– RAFAEEEEELLL, VOCÊ FUMA?!?

– Sim.

– RAFAEELL, VOCÊ FUMA HÁ QUANTOS ANOS?

– Há 10 anos.

– RAFAEEELL! MEU PAI AINDA HOJE TEM PROBLEMAS DECORRENTES DA ÉPOCA QUE ELE FUMAVA!!! E ELE PAROU HÁ 30 ANOS!

Continuo comendo. Não é necessário responder.

Devia é dar umas bifas na pessoa. Mas continuo comendo.

Porque fumei meu cigarro. Estou feliz e satisfeito.

O ser humano é capaz de imaginar que o Outro que pratica hábitos DIFERENTES DOS SEUS de nada sabe. Rigorosamente nada. É uma casca vazia!

É preciso citar o caso de um conhecido, um parente próximo, VÍTIMA DO TABAGISMO. Realmente eu nunca tinha ouvido falar em semelhante FENÔMENO, em semelhante ACHADO – um homem debilitado pelos anos de vício no cigarro… Quem diria!

Só falta me dizer que este ser humano vítima do próprio destino, isto é, das próprias escolhas, um dia irá MORRER!…

Tenho mesmo muito que aprender com as formiguinhas! As formiguinhas que não conhecem meu hábito, um dos meus hábitos mais prazerosos, o de sentar LONGE DE TUDO E DE TODOS para fumar alegremente…

Aaahhhh! A serenidade do momento – que sublime, que êxtase contemplativo!…—

Mas que é que importa?! Que é que importa um reles deus e seu cachimbo? Um estranho deus e suas manias?

Pois uma formiguinha um belo dia entendeu, numa iluminação, que seus próprios hábitos são o modelo de virtude universal – como numa fábula de La Fontaine!

DESTARTE, a formiguinha deve ensinar outras entidades a viverem, já que lhe coube este dom sem precedentes.

Os outros hábitos, os hábitos dos Outros, não interessam à formiguinha, este juiz em última instância de todos os casos contemplados pelo espaço e pelo tempo, este árbitro de todos os atos de todas as formas de vida e acontecimentos no magnânimo e abundante devir!

Um Descartes algumas dezenas de centímetros mais diminuto seria obrigado a cunhar: “A formiga É, logo nada mais existe, afora a formiga…”

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