[ARQUIVO] EXTENSÃO DOS COMENTÁRIOS PASSADOS (Zaratustra)

 

Páginas destacadas e temáticas (ed. Escala):

28: o “homem da morfina”

31: representando uma comédia

38: “deserto”, “dragão”; a solidão do sábio, as agruras e a moral do mundo ocidental.

39: eu já sou a criança

40: a luta do dia a dia. Para o insone. É preciso cair desprotegido, acabar com o ranger de dentes.

43: metafísica antropomorfa

52: escrever com o sangue

83: a constante alegoria da flecha. Estás aqui, há ainda muito por viver…

86: a cidade de “Vaca Malhada”. Uma tarde de sabedoria.

96: desaguar no mar

116: sobre o iminente uso indevido dos postulados de Zaratustra

117: o asno

123: da sensualidade e da dança

125: sobre a perda de amigos

145: da sucessão dos poetas. Sensação de descrever o inefável em vão.

147: preservai os monumentos

156: para se livrar de Hegel

173: o anão e o eterno retorno; o pórtico do “instante”.

174: o jovem e a temerária serpente em sua boca

182: não há teias e fins, mas dados e jogadores

193: Estado e Capital

200: cena digna de Ulisses

219: o grande déspota que manipula o passado

233: do pensamento abissal

235: novo círculo, nova serpente. Velho expediente. Declaração de morte à metafísica.

287: o nojo da elite

291: “Tudo é permitido.”

303: paródia da bíblia. Mas esta é o livro inteiro! Ausência da mulher em qualquer candidato.

322: o homem, emulador de todos os animais

328: a Europa aleijada


Da desilusão histórico-maníaca nietzschiana ou a sucessão ad infinitum de erros humanos no projeto de consecução da transmutação de todos os valores. No final de O Anticristo—mas não só deste livro, e costumeiramente assim que realmente vai se acercando do fim do que ia dizer—é clarividente o tom lamurioso, a oscilação, provocados pela narrativa de momentos cruciais em que o homem moderno ou ainda o homem antigo mais tardio falhou ao intentar a milenar inversão de valores, fosse com a desagregação/implosão do Império Romano; o retrocesso da Renascença; ou as Cruzadas e a expulsão dos mouros. É como se insidiosamente o devir brindasse o homem sedento pela volta da nobreza com uma irônica solene recusa. Cabe todo esse descontentamento? Ele ser considerado válido dentro da habitual lógica nietzschiana? Que outras lições advêm daí? As características da nostalgia e do remorso são realmente chamativas em sua obra. Poderia isso querer dizer, em que pese tudo, que a realidade empírica do homem seja transfigurar-se em seu ideal, que ainda assim o ocaso e soçobramento do niilismo estão fora de questão? O que garante a ocorrência, por fim, desta tal “guerra santa de indivíduos” e o desmantelamento dos Estados-nações? De Sócrates a Lutero, Napoleão, César Augusto e César Bórgia e Maquiavel, ele parece não aceitar a efemeridade do gênio ou a faceta obscura dessas populações privilegiadas. Devemos assumir no mínimo que ninguém está isento de cometer seus errinhos, erros e grandes gafes.

“Zaratustra quis voltar a ser homem”

SOBRE COM QUE PESSOAS NÃO É FUNESTO LIDAR ROTINEIRAMENTE: “Gosto muito também dos pobres de espírito. Favorecem o sono. São bem-aventurados, mormente quando se lhes dá sempre razão”

“Teu Em-si se ri de teu Eu e de seus impulsos arrogantes.” O belo diálogo—ou ordens unilaterais—do instinto (do corpo, da matéria!) com a(à) consciência.

“Mais um século de leitores e o próprio espírito terá mau cheiro.”

“meu demônio (…) o espírito da gravidade”

“amamos a vida não porque estejamos habituados à vida, mas estamos habituados a amar.

Há sempre algo de loucura no amor, mas também há sempre algo de razão na loucura.”

“Onde acaba o Estado—Olhai para lá, meus irmãos! Não conseguis ver o arco-íris e as pontes que levam ao super-homem?”

“Teu sonho deve revelar-te o que faz teu amigo quando desperto.”

“Os mais afastados são os que pagam seu amor ao próximo e desde que vos reunis em cinco, um sexto é que vai morrer.”

“Enfim, meus irmãos, evitai ser injustos com os solitários. Como poderia um solitário esquecer? Como poderia tomar medidas?”

“Que filho não teria razão para chorar por causa de seus pais?”

“mesmo o mais astuto compra suas mulheres às cegas.”

“Muitas breves loucuras, isso é que chamais amor. (…) casamento (…) tolice prolongada.”

“Solitários de hoje, que viveis marginalizados, algum dia devereis chegar a ser um povo. De vós que vos escolhestes a vós mesmos, deverá surgir e crescer um povo eleito, do qual nascerá o super-homem.”

“Na verdade, vos aconselho: Afastai-vos de mim e precavei-vos contra Zaratustra! Melhor ainda, envergonhai-vos dele! Talvez vos tenha enganado!”

“E o grande meio-dia será quando o homem estiver na metade de seu trajeto, entre o animal e o super-homem, se mantiver firme, como sua esperança suprema, e festeja seu caminho para o acaso, porquanto será o caminho para uma nova manhã” “E o sol do conhecimento atingirá seu zênite.”

“Em torno de nós reina o outono”

“Se existissem deuses, como poderia eu suportar não ser um deus? Por conseguinte, não há deuses.”

“Nunca houve até hoje um super-homem”

“Em meus filhos quero remediar o fato de ter sido filho de meus pais. E, no futuro, todo, quero remediar este presente.”

“É difícil viver entre os homens porque é muito difícil calar. Sobretudo para um falador.”

“e aquele que quiser permanecer limpo entre os homens deve aprender a lavar-se em água suja”

“Até acredita em vossas mentiras, se mentis bem a respeito dele, porque no fundo do coração suspira: ‘Quem sou eu?’”

“Bendito seja aquele que endurece!”

“Aquele que foi de minha têmpera tropeçará em seu caminho com aventuras iguais às minhas, de forma que seus primeiros companheiros só poderão ser cadáveres e palhaços.

Seus segundos companheiros, porém, serão chamados seus fiéis: um enxame animado, muito amor, muita loucura, muita veneração juvenil.

A estes fiéis não deverá ligar seu coração aquele que dentre os homens for de minha índole. Nessas primaveras e nesses prados de variadas cores, aquele que conhece não deve dar confiança à fraca e fugitiva espécie humana.”

“Para ti, é uma vergonha rezar!”

“Não consiste precisamente a divindade em haver deuses, e que Deus não exista?”

“Esquece-se o que os homens são quando se vive com eles.”

“Há também outros cantores que não têm a garganta expedita, a mão eloqüente, expressivo o olhar e o coração desperto, senão quando têm a casa cheia. Não me pareço com eles.”

“E algumas invenções são tão boas que, como o seio da mulher, são úteis e agradáveis ao mesmo tempo.”

“A sociedade humana é uma tentativa, assim eu ensino, uma longa investigação, mas uma investigação de quem manda.

Uma tentativa, meus irmãos, e não um ‘contrato’.”

“A todos os momentos a existência principia. Em torno de cada aqui, gira a bola acolá. O centro está em toda parte. A senda da eternidade é tortuosa.”

“o canto é o que convém a convalescentes”

“Ensinar que há um grande ano de devir, um ano monstruoso que, à semelhança de um relógio de areia, tem sempre que se voltar novamente para correr e se esvaziar outra vez.” “O nós das causas em que me encontro tornará a criar-me! Eu mesmo pertenço às causas do eterno regresso das coisas.”

“Todas as palavras não foram feitas para os que são pesados? Não mentem todas as palavras ao que é leve? Canta! Não fales mais!”

“Não cantes! Silêncio! O mundo é perfeito.”

“Que aconteceria se aquele, cujo pai foi afeiçoado às mulheres, aos vinhos fortes e aos javalis, exigisse de si castidade?”

AS CINDERELAS: “A meia-noite é também meio-dia”

“se algum dia quisestes que uma vez se repetisse, se algum dia dissestes: ‘Agradas-me, felicidade! Instante, momento!’ Então quisestes que tudo retornasse.”


Anotações de cunho pessoal & Poesia:

Este sou eu que, na primeira vez em que li esta obra a sério (…) estava sufocado e necessitando me apartar. Hoje o movimento é reverso, também na pureza. Andando em círculos?…

Eu tenho mãos e pés! O que mais eu poderia querer?

Um maldito com uma navalha ensaiou a destruição do cosmo!

Eu estou em busca de um exército! De certa fama “diferente” na cidade. Um respeito mesclado com temor. Como andar sempre no limbo entre o imprestável e o impecável, porque pecaminoso mesmo é fracassar por excesso de uma só coisa, hipertrofia de uma convicção, quer dizer, do olho que agora nada vê. Cornucópia que pretende ser uma armadilha de coelho ou rato para afastar toda a fauna exótica (…) e me distrair de mim mesmo.

Todos são apenas macacos imutáveis—eu sou o único em movimento. Caricaturas de desenvolvimento: (…) Todos estagnados diante da própria essência. Hoje eu sou um ponto, uma estrela, no firmamento de (…) Em breve terei feito os mais velhos comerem poeira cósmica: (…) e o que subsistirá? Os mortos, os clássicos… O insondável.

Não parece estranho que nunca tenha sonhado, ao longo desses anos todos, nem tenha ouvido relatos a respeito, que eu mesmo fosse deus, que de algum modo adquiria a onipotência—mas esse sujeito é aquele que sabe que num instante vai acordar? T.E., o último discípulo viúvo, me persegue nessas representações, como um lado gosmento e sórdido da inconsciência superada.

E aquele que cai doente, sem quem lhe dê de comer?

Os animais antropomorfos de Zaratustra—fiéis escudeiros—a meio caminho?

Que fazer, eu que nem os animais ideais tenho?

Cerveja e masturbação. Há de alguma forma uma pureza em quem passou a vida ao lado de uma única e jamais experimentou entorpecentes ilegais. Eu: alguém que não teve coragem de se servir de uma prostituta. Mas não devemos fazer propaganda, e por dois motivos. Não esquecer também da outra metade da família. TRABALHADORES. DESPREZADORES. Eu que não amo minha ascendência. Por isso é que eu acho: numa briga de vida ou morte com alguém fisicamente mais forte, eu levaria vantagem. O BRAVO. Sou o escriba encarregado de sistematizar as qualidades dos meus últimos parentes?

Imagina teu futuro mais funesto, e lento! Isso será razão para praguejar? Só temos voz para o presente. Se bem que o presente é um elo de uma cadeia, que o comanda, ele mesmo um dos líderes dessa cadeia. Aqui fala um soberano e eleito, elo da cadeia fenomenal chamada humanidade, esta uma das argolas do colar chamado mundo! Aqui não se trata de bijuteria, pois não se pode quebrar, cada peça precisa ser mais maleável que a borracha e mais resistente que o diamante! Então o que eu digo, petulante, hoje? Para ser frase eterna, que seja: já muito eu venci… Justifiquei-o?


De 10 a 19 de março de 2011

[ARQUIVO] O ANTICRISTO II

Páginas destacadas e temáticas (ed. Escala):

48-51: Nietzsche, os dois Budismos. Talvez uma demonstração de que uma vez “nula”, a Europa já não tem muito o que temer…

73: a “boa-nova” do Messias

81: o cristianismo de fechada; o padre perdido.

102: do Gênese à Torre de Babel

119: Manu

126: extrema nostalgia romana

129: ode ao Islã


“A noção cristã de Deus (…) Deus como aranha.”

“Se não se conseguir terminar com o cristianismo, os alemães são a causa disso…”

“E conta-se o tempo a partir do dies nefastus em que essa fatalidade começou—a partir do primeiro dia do cristianismo!—Por que não contá-lo a partir de seu último dia?A partir de hoje?—Transmutação de todos os valores!”


Anotações de cunho pessoal:

O reino de Deus como um imenso hospital—última visita: pobretões implorando ao Senhor pela pronta recuperação do paciente em estado terminal, porque “Ele pode tudo!”. Como se não estivesse pressuposto desde o começo que mais cedo ou mais tarde—nessa ou noutras gerações desta família—a crença no poder de Deus será reduzida a cinzas. Eu simplesmente não sei me comportar como um doente!

Em simples coisas como o futebol de três décadas atrás se viaja no tempo de forma literal e impactante o suficiente para dizer: como perdemos o gosto; massacramos qualquer cadência! Ação, ação, ação, chazam! Quero um chá, Zâmbia irá me esperar! A música não alenta? Tirar alguma conclusão? Pra que a pressa? Outra hora vem… Ainda que “o dia” fosse amanhã, eu diria: ainda falta muito tempo para o mundo acabar…


9 de março de 2010

[ARQUIVO] SCHOPENHAUER COMO EDUCADOR (A III Intempestiva)

 

Páginas destacadas e temáticas (ed. Escala):

25: o homem moderno entre um sim e um não

33: Shelley, Prometeu Desacorrentado

37: o problema do ceticismo

61: o castigo do homem tornado a ser animal

68: tartufismo

75: da moda

80-1: o “mata-moscas” do sábio

110: o elogiado filósofo norte-americano Ralph Waldo Emerson

111: as eternas metáforas da bela mulher e da velhota


“Um homem nunca sobe mais alto a não ser quando ignora para onde seu caminho pode levá-lo.”

O prefácio mais lindo e comovente.

“De fato, todo aquele que tiver o furor philosophicus no corpo não terá mais tempo para o furor politicus e se absterá sabiamente de ler jornal todos os dias e especialmente militar num partido, embora não se deva hesitar um instante para tomar seu lugar na hierarquia, desde que um perigo real ameace a pátria.”

Livro essencialmente para tratar daquele que escolheu a carreira de professor no âmbito da modernidade e se vê diante do ESTADO para filosofar… Sobre a honestidade e o caráter de um professor universitário… Há coisas que simplesmente estão fora de pauta. Agregue-se a isso a função de antiquário do moderno.

“E se quiserem ouvir os cantos da solidão, escutem a música de Beethoven.”

“E se for verdade que as florestas devem rarear aos poucos, não chegará um momento em que será necessário usar bibliotecas como nos servimos de lenha, palha e gravetos?”

“Toda filosofia que acreditar afastar ou mesmo resolver com a Judá de um acontecimento político o problema da existência não passa de uma caricatura e de um sucedâneo da filosofia.”

“As águas da religião estão em baixa e deixam atrás delas pântanos e lamaçais (…) Jamais o século foi mais secular, mais pobre de amor e de bondade.”

“No devir, tudo é vazio, mentiroso, chato e miserável”

“a terra perderá seu peso, os acontecimentos e as potências terrestres não serão mais que sonhos, uma transfiguração semelhante àquela das tardes de verão se difundirá em torno dele.”

“A pressa é geral, porque todos querem escapar de si mesmos”

“deveríamos algum dia aprender a odiar algo de mais geral que nossa individualidade (…) será somente então que um novo fim será fixado a nosso amor e a nosso ódio”

“Mas quando alguém se acostumou a traduzir toda espécie de experiência em termos de dialética e num puro problema cerebral, é surpreendente ver com que rapidez se resseca em semelhante atividade, que logo só é capaz de se fazer entender por um estalar de ossos.”

“Em oitavo lugar, (…) Seus consoladores são os livros ou escutar outro pensar de forma diversa da sua, é assim que consegue matar o tempo durante um longo dia.”

“se fixarão por objetivo preparar o surgimento de um novo Schopenhauer, de um gênio filosófico.”

“o fato de ser obrigado a pensar publicamente, em horas previamente determinadas, em coisas previamente fixadas. E diante de jovens! (…) E se acontecesse um dia de sentir que nesse dia não consegue pensar em nada, que nenhuma única idéia lhe vem ao espírito—e que tivesse de se apresentar, no entanto, a fingir de pensar?” “essa maneira de pesquisar em inumeráveis opiniões estranhas e absurdas lhe parece quase o mais repugnante e o menos oportuno dos serviços.” “‘É um bom filólogo, um bom arqueólogo, um bom lingüista, um bom historiador’, mas nunca: ‘É um bom filósofo.’”

“é mais filosófico nada saber do que aprender o que quer que seja”

“em nossos dias precisamente é uma raça fraca que ocupa as cátedras de filosofia e Schopenhauer, se tivesse agora de escrever seu tratado sobre a filosofia universitária, não teria mais necessidade de tomar sua clava: uma vareta lhe bastaria.”

“Aqui e acolá, um dentre eles tenta ainda um pequeno vôo metafísico—com os resultados habituais: vertigem, enxaqueca e sangramento do nariz.”

“é da própria natureza da filosofia nunca se deixar assalariar”


Anotações de cunho pessoal:

Tem-se pelo menos uma certeza: não se atingiu o auge de nada. O que não significa que tenha sido em vão. Ainda que houvesse um “ato em si” reconhecido por todas as épocas como tendo sido o mais grandioso, isso nunca é percebido no tempo presente, é sempre “tarde demais”. Mas o mais comum e salutar e natural é projetá-lo à frente de si… Portanto, não existe “meio-termo” de um homem íntegro. Ou só existem híbridos.


9 de março de 2010

[ARQUIVO] O CASO WAGNER

4ª CONSIDERAÇÃO INTEMPESTIVA: WAGNER EM BAYREUTH

Páginas destacadas e temáticas (ed. Escala):

92: a recorrente puxada de orelha nos alemães e seus estudos históricos

93: a orientalização do mundo, desde Alexandre

98: o problema da arte como única justificativa para a vida

100: a linguagem universal

110: da transição de um talento a outro: Wagner, Goethe, Schiller—da expressão escrita à oral/musical?

112: da árvore que finca raízes; Zaratustra.

126: as músicas de Wagner são versadas

129: as diversas sensações suscitadas no ouvinte pelo desenvolvimento das técnicas musicais

130: para entender Beethoven

131: Wagner e Heráclito


Já não acreditava mais no que escrevia? Última homenagem terna?

“Em toda parte o homem só encontra sua insuficiência pessoal, sua impotência total ou parcial. Que coragem teria para combater se não tivesse recebido previamente a consagração de uma causa que ultrapassa sua personalidade?” “nossa tríplice insuficiência”—“Não podemos estar felizes”; “não podemos ser morais”; “não podemos até mesmo ser sábios” “a arte é a atividade do homem em repouso”, isso quer dizer: “A arte não é o mestre e o mentor da atividade concreta”—porque somos como somos e as personagens não ditam nosso comportamento. Mas adoramos ser múltiplos.

Arte como mapa da vida, a vida como o JOGO DOS JOGOS: “a grandeza e o valor insubstituível da arte consistem precisamente no fato de que evoca a aparência de um mundo mais simples, de uma solução mais rápida para os enigmas da vida. Aquele que a vida fere não pode prescindir dessa aparência, como não pode prescindir do sono.” …AND JUSTICE FOR ALL

“Impedir que o arco se rompa, essa é a razão de ser da arte.”

O erro nietzscheano, se existe algum aqui, consiste na crença na instantaneidade da mudança e em seu marco divisório, que certamente não era este Wagner nem esta Bayreuth!

Elogios alter-biográficos que num espaço de uma década e meia seriam convertidos em autobiográficos: Ecce Homo, ele mesmo! Despojado de seu ídolo, superado…

Um pouco de afetação, aqui e acolá. Alguns anos depois, em que hierarquia situaria seu “primeiro músico absoluto”?


O CASO WAGNER (p.d.)

Páginas destacadas e temáticas (ed. Escala):

20: Benjamin Constant

22: sobre querer-se fundir com o amante

24: “o nada, a Circe indiana”

38: Wagner e Hegel—“a música como idéia”

44: Nietzsche contra os adolescentes

45: Wagner, o Minotauro. Ou comunista, comedor de criancinhas.

47: os tipos mórbidos de Dostoievsky


Ouvir 20 vezes uma mesma música devia ser algo bastante excepcional, àquele tempo.

Um libelo chauvinista.

Humor picante, sob a égide cesárea (“dizer o sério rindo”).

Como no Ecce Homo, tratado encharcado de citações em francês.

Siegfried//Shakespeare—tanto Siegfried e Brunilda quanto Romeu e Julieta “só podem se amar no Além”: logo, o “depois” é mais importante que o REAL.

“Wagner resume a modernidade. Não adianta, deve-se começar por ser wagneriano…”

“Um ser esgotado é atraído por aquilo que é nocivo: um vegetariano o é pelos legumes.”

Mais para o final da vida, começou a citar jornais em seus textos.

“Quando não se é rico, é preciso ser suficientemente digno para se ser pobre!…”

Só no epílogo, a crítica mais contundente e clara: uso dos mitos que sustentavam uma moral aristocrática para posar e se refestelar sobre a massa cristã. Ainda ensina: não se CONVENCE alguém ou uma época a favor ou contra uma crença.


Anotações de cunho pessoal:

De repente, acordamos pensando horrores daqueles por quem guardávamos uma alta estima!


NIETZSCHE CONTRA WAGNER

Páginas destacadas e temáticas (ed. Escala):

58: tiradas sarcásticas com direito até a merchand!

62-3: no parágrafo sobre a música como eco tardio de uma outra época, a previsão do gênero folk!

67: lamenta a França igualmente perdida… e já lamantara a Itália, no prefácio


“Ninguém leva ao teatro o sentido mais refinado de sua arte, muito menos quando se é artista que trabalha para o teatro—a solidão faz falta, a perfeição não tolera testemunhas… No teatro, nos tornamos plebe, rebanho, mulher, fariseu, gado eleitoral, patrono de igreja, idiota—wagneriano: é ali que a consciência mais pessoal se submete ao encanto nivelador da maioria, é ali que reina o próximo, ali é que nos tornamos próximo…”

“Foi assim que, progressivamente, passei a compreender Epicuro, antítese de um grego dionisíaco, e igualmente o cristão que, de fato, não passa de uma espécie de epicurista e se conforma a seu axioma ‘a fé torna feliz’.”

“A doença é sempre a resposta se queremos duvidar de nosso direito à nossa missão, se começamos a tornar as coisas mais fáceis para nós em qualquer sentido. Estranho e assustador ao mesmo tempo! São nossas facilitações que devemos expiar mais duramente! E se, depois disso, quisermos recuperar a saúde, não há mais escolha: temos de nos carregar mais pesadamente do que estávamos antes…”


De 5 a 8 de março de 2010

[ARQUIVO] A FILOSOFIA NA ÉPOCA TRÁGICA DOS GREGOS

Páginas destacadas e temáticas (ed. Escala):

47: o reinado do agon

130: Eurípides, o socrático

133: os Cínicos, super-socráticos


Sobre o tempo, para além da História (Homem)

Com três historietas é possível compor o retrato de um homem”

é significativo que seja Sócrates o primeiro grande grego a ser feio”


Anotações de cunho pessoal:

Existe o suicídio por felicidade incontível? Creio que nesse momento eu me proporia a isso: seria uma das mortes mais invejadas em todas as salas de cinema.

Ficção contemporânea e seu maior erro: os mortos como seres fracassados. O protagonista clássico nunca morre (anti-Aquiles, este ainda assim capturado de ângulo romântico).

[ARQUIVO] O LIVRO DO FILÓSOFO

 

Páginas destacadas e temáticas (ed. Escala):

16: o problema milenar de ter começado a se preocupar com o de fora, mero reflexo do que é “de dentro”. Hipertrofia teutônica.

20: elogios a Kant

22: a necessária—anti-Marcuse—marginalização da Filosofia

60: a sinestesia da criança

67: em certos aspectos me parece que estes esboços são a prévia direta de VdP, que veio para realizar um projeto antigo

69: “impossibilidade da metafísica” reiteradas vezes

72: do filósofo-legislador ou do iconoclasta

108: sobre a efemeridade do Helenismo

110: o imenso perigo da centralização política

119: ANEXO transbordante (“SOBRE OS HUMORES”). A luta entre o lembrar e o esquecer, o osciloscópio da mente e do coração. Aqueles que não amo mais, aqueles que ainda vou amar… Aquilo que amo…

O filósofo como freio da roda do tempo.

É nas épocas de grande perigo que os filósofos aparecem—no momento em que a roda gira cada vez mais depressa—eles e a arte tomam o lugar do mito que desaparece. Mas eles se lançam muito à frente, pois a atenção dos contemporâneos só se volta lentamente para eles.”

Antes dos 30, já desfia as categorias de niilismo.

o filósofo trágico não é um cético”

Todo ídolo nasce do nada.

Íntimo parentesco entre os filósofos e os fundadores de religião.”—O Judeu maometano e minha aparência de “tabuador”.

A arte repousa na imprecisão da vista.”

Sobre o “metafísico em Nietzsche” (mais particularmente, eu diria: “sobre o sentido da vida”): “Vocês não devem se refugiar numa metafísica, mas sacrificar-se à civilização do devir! É por isso que me oponho absolutamente ao idealismo do sonho.” Sua metafísica é real.

Que sentido tem o homem dizer não! Com toda a franqueza, enquanto todos os seus sentidos e todos os seus nervos dizem sim! E que cada fibra, cada célula se opõe.”

Não autorizamos mais a ficção conceitual. Somente na obra de arte.”

Sobre meu mandamento 4 (vide em 03/03/10 neste blog (e também o hilário excerto do dia 4!): “Vocês praticam a filosofia com jovens sem experiência: seus anciãos se voltam para a história. Vocês não têm de modo algum filosofia popular, mas em compensação têm conferências populares vergonhosamente uniformes. Temas de composição propostos pelas universidades aos estudantes, sobre Schopenhauer! Discursos populares sobre Schopenhauer! Isso é falta de toda dignidade!”

o povo tem necessidade das anomalias, a obra de arte é prova disso (…) O filósofo como médico da civilização.”

A falsa oposição entre a vida prática e a vida contemplativa é asiática. Os gregos compreendiam melhor as coisas.”


Anotações de cunho pessoal:

Se o filósofo congela o tempo e as rodas da confusão, ele é o doente por excelência, porque na vida de um pensador e de muitas outras pessoas é a doença que cumpre esse papel de calmaria e reassentamento.

Eu estou tão alto que poderia rasgar o céu. Subi. Eu subi tanto: confesso que já nem sei mais como descer da árvore.

Não é coincidência eu não ter (mais) primos-irmãos? No máximo primos de primas?

Maço é sempre de papel

mas eu quero o mais cruel

Você não está vendo? O mundo vai virar areia…

Três pratos de tigres para três dias tristes…


De 3 a 4 de março de 2010

[ARQUIVO] DA UTILIDADE & DO INCONVENIENTE DA HISTÓRIA PARA A VIDA —A II Intempestiva de Nietzsche—

 

Páginas destacadas e temáticas (ed. Escala):

35: o deus ex machina; a “história monumental” como a perfeita para o supra-homem, ou aquele com ânsia de ser clássico. Uma “estrutura do herói” muito antes do nazismo de Campbell.

44: bricolage. Lévi-Strauss devia ser um fóssil vivo com seu hábito exclusivo de releituras de cartas.

50: o novo amigo do homem moderno, a irracionalidade

51: o descompasso entre teoria e prática

52: o “sentido não-histórico” dos gregos; forma vs. conteúdo; gregos são auto-suficientes. Não são colonizadores; o fosso bem antes: “aumentamos, até a insensibilidade com relação à barbárie, o perigoso abismo que separa o conteúdo da forma.”

54: só um povo tão sério quanto os teutônicos poderia provocar tanto riso; quando uma sociedade importa seu vestuário de outras, ela é decadente. A despeito de muitos pensarem em vias públicas, a realidade é que não entendemos o conceito de clima tropical!

61: Dom Quixote

63: “Faça o que eu digo…”

65: quando o didatismo apaga a “hierarquia filosófica” e cada “sistema” e cada indivíduo de qualquer época e país se torna tão relevante quanto os milhares de outros. Nivela-se, para se ter idéia, um pré-socrático e um medieval, um grande poeta torna-se tão prosaico quanto e tão parecido com um filólogo ou um jurista. É como um almanaque isométrico, ou ainda um álbum de figurinhas sem protagonistas ou estrelas de brilho mais intenso. Meras curiosidades, afinal ninguém está certo sozinho, o que mais parece dizer que se trata de uma coleção de erros ou de adultos engraçados que tinham vidas pacatas e que se preocupavam mais com o invisível que com que tipo de roupa saíam à rua.

66: o problema da crítica; história crítica.

69: a “justiça”

78: para o passado—oráculos.

87: sobre a divisão do trabalho

97: Hegel e a Ideologia Alemã

99: “A moral é, p.ex., ofendida por ver que um Rafael tenha tido de morrer aos 36 anos.”; a cena da idolatria ao bode.

100: ponte para alguma coisa; a ironia pós-moderna.

107: São estas as páginas seguidas mais hilárias desse homem! “a partir de amanhã, o tempo não existirá mais e todos os jornais deixarão de circular”

109: “da ausência de toda diversidade entre o homem e o animal—doutrinas que tenho por verdadeiras, mas por mortais” presente eterno, egoísmo, felicidade

116: para todos e ninguém


O primeiro parágrafo já toca nos animais! A tentativa de diálogo entre um homem e um animal: “Isso acontece porque esqueço sempre o que pretendo responder”, assim o animal gostaria de se justificar às súplicas do homem que fala sozinho, se não esquecesse o que tinha em mente um segundo depois… Mas… como pode então o cão latir pelo seu dono (tutor)? O animal = a criança.

a natureza mais poderosa e mais formidável”

Todos os enunciados já estão aqui; aliás, poder-se-ia dizer que ele sempre foi assim, que ele não visava a nada, não perseguia o rabo de nenhuma cobra (Ivan!): “A negação do homem supra-histórico [estrutural] não vê a salvação no desenvolvimento, mas, pelo contrário, considera que o mundo acabou e atingiu seu fim em cada momento particular.” Em outras palavras, vencemos o niilismo extremo.

No fundo, o que foi possível outrora não poderia se reproduzir uma segunda vez, a menos que os pitagóricos tivessem razão em acreditar que uma mesma constelação dos corpos celestes produzisse até nos mínimos detalhes os mesmos acontecimentos na terra, de modo que quando as estrelas ocuparem a mesma posição uma com relação às outras, um estóico se uniria a um epicurista, César seria assassinado e, de novo, em outras condições, Colombo descobriria a América.”

Perigo de hipertrofia de qualquer uma das 3 categorias de história.

O crítico sem angústia, o antiquado sem compaixão, aquele que conhece o sublime sem poder realizar o sublime: essas são plantas que se tornaram estranhas a seu solo nativo e que, por causa disso, degeneraram e se transformaram em joio.”

Utiliza expressões que se consagrariam em títulos de obras posteriores.

História antiquada: a monumental tornada linear, uniforme, homogênea; ou seja, os personagens e costumes possuindo o mesmo valor.

A França como uma referência cultural “menos degradada”. Em busca da unidade superior.

É assim que [o grande homem] abandona a alegria divina de criador (…) para ficar oprimido sob a profunda compreensão de seu destino. E acaba o curso da vida como iniciado solitário, como sábio saturado. Esse é o espetáculo mais doloroso que se possa ver. (…) É necessário que essa cisão entre o ser íntimo e o exterior desapareça sob os golpes do martelo da angústia. (…) É preciso que expresse o que compreendeu, que o defenda (…) Essa necessidade violenta produzirá um dia a ação vigorosa.”

Como se deve ler o suicídio de Werther: “Seja homem e não me siga!”

Por que devemos ouvir incessantemente a hipérbole das hipérboles, a palavra universo, quando cada um só deveria sinceramente falar do homem?”

Mede o que sabes do nível do que podes”

Exatamente a assunção da vítima das três categorias do fazer-história: “este tratado, com sua crítica imoderada, com o verdor de sua humanidade, com seus saltos freqüentes da ironia ao cinismo, do orgulho ao ceticismo, mostra muito bem, não gostaria de escondê-lo, que carrega a marca moderna, o caráter da personalidade fraca.” “É necessário ser jovem para compreender esse protesto”


Anotações de cunho pessoal:

Síndrome dos jogos de futebol (dos livros eu até entendo): por que eles são tão bons para pensar na vida?

Talvez eu precise, mais do que a colega tuiteira a meu lado, dotar a vida de plurissentidos numa taxa que assustaria o estranho ao ninho.

Ilhas de despreocupação no inferno.

Nunca mais vou deixar de olhar aquela pequena conversa com o Marco Antônio depois da aula como um marco divisor.

Um dia a menos para a vida passar” é um pensamento idiota.


De 28 de janeiro a 4 de fevereiro de 2010

[ARQUIVO] CREPÚSCULO DOS ÍDOLOS — OU COMO FILOSOFAR A MARTELADAS

 

Páginas destacadas e temáticas (ed. Escala):

17: filósofo, o animal-deus

21: sobre as mulheres insinuantes, em vestes tropicais para climas frios. Dormir nu, ao sereno: tem-se de estar serenado.

22: “Quando a mulher possui virtudes masculinas, não há quem resista a ela; quando não possui virtudes masculinas, é ela que não resiste.”

23-4: os intrigantes 4 casos de consciência. Sobre o apartamento e a misantropia. Como somos sui generis.

29: da feiúra de Sócrates

36: “monótono-teísmo”

39: “Temo que jamais nos livraremos de Deus, porquanto acreditamos ainda na gramática…”

41-2: espécie de resumo da ópera (cronologia das obras de N.). Meio-dia.

45: o problema do aniquilamento

46: nas entrelinhas: o que é perfeito quer…

50: o problema do “homem mais forte do mundo” que morreu centenário, agora entendido sob o prisma nutricional correto: ele recomendava que se comessem vegetais para se viver longamente; porém ele comia vegetais unicamente porque seu metabolismo era mais lento. Suicídio intelectual em nossa época: dieta pobre em proteínas. Ver citação abaixo.

58: “somos um pedaço de destino.”

60: o “animal louro”

61: “Como o Novo Testamento é pobre ao lado do Manu, como cheira mal!”

66: sempre o bordão “A Alemanha, a Alemanha acima de tudo.”; o problema dos jovens filósofos beberrões. Strauss entre eles.

71: a importância da digestão dos pensamentos (sozinho e em grupo)

76: muitas escritoras que utilizavam pseudônimos masculinos

81: músculos e música

84: a astúcia como artifício do fraco; a diferença entre o psicólogo e o político.

93: receita de Júlio César para o corpo: “grandes caminhadas, estilo de vida o mais simples possível, permanência ininterrupta ao ar livre [contradiz o preceito nietzschiano das ‘grandes galerias ao abrigo do sol e da chuva’], fadigas contínuas.”

94: quando o “ideal” é o real

95: as farinhas do mesmo saco sacristão

97: saber morrer

99: crítica a suas minguadas resenhas em jornais

103: incompreensível fé na Mãe-Rússia!

109: “Dostoievski, o único psicólogo, diga-se de passagem, de quem aprendi alguma coisa.”

117: palestra “no antiquário” (complemento a Ecce Homo): Salústio, Horácio, Fontenelle, Tucídides.

118: de como o “ser grego” está absolutamente fora da meta (impossível ser clássico na modernidade…). Romanos: os perfeitos intermediários entre as duas culturas. Extrema dualidade em relação a Platão.


O livro das frases mais célebres.

O que não me faz morrer me torna mais forte.”

Sem música a vida seria um erro”

com a dialética, a plebe chega ao alto”

Um sábio de nossos [e fala de um tempo que hoje soa ainda clássico, pasmacento] dias, com seu consumo de força nervosa, se fosse submetido ao regime de Cornaro, arruinaria sua saúde completamente.” Diria que até os genuínos Cornaros morrem cedo na era do fast food.

Toda educação superior não pertence senão às exceções: é preciso ser privilegiado para ter direito a um privilégio tão superior. Todas as coisas grandes e belas não podem jamais ser um bem comum: pulchrum est paucorum hominum (o belo é de poucos homens). O que é que ocasiona o rebaixamento da cultura alemã? O fato da ‘educação superior’ não ser mais um privilégio—o democratismo da ‘cultura’ tornada obrigatória, comum.”

Que não se cometa a infantilidade de me objetar Rafael ou qualquer cristão homeopático do século XIX. Rafael dizia sim, Rafael criava a afirmação, logo Rafael não era um cristão…”

Não temos em mãos um meio que possa nos impedir de nascer: mas podemos reparar essa falta—pois às vezes é uma falta. O fato de suprimir-se é o mais estimável de todos os atos: quase dá direito a viver…”

Meu conceito de gênio (…) histórica e fisiologicamente, sua condição primeira é sempre a longa espera de sua vinda, uma preparação, um arqueamento sobre si mesmo—isto é, que durante muito tempo não se tenha produzido nenhuma explosão. Quando a tensão na massa se tornou muito grande, a mais fortuita irritação basta para recorrer no mundo ao ‘gênio’, à ‘ação’, ao grande destino. Que importam então o meio, a época, o ‘espírito do século’, a ‘opinião pública’! (…) a esterilidade os segue passo a passo. O grande homem é um final; a grande época, o Renascimento, por exemplo, é um final. (…) Esse é o agradecimento da humanidade: entende seus benfeitores em sentido contrário [como tiranos da moral, déspotas de si mesmos, quando tudo o que fazem é involuntário].”

Aproximam-se tempos—posso assegurar—em que o sacerdote será considerado como o ser mais baixo, mais mentiroso e mais indecente, como nosso chandala (…) Catilina—a forma preexistente de todo César.” Precisamos nós, os imoralistas, odiar o mundo antes de perdoá-lo.

O progresso na minha opinião—Também eu falo de um ‘retorno à natureza’, [vis à vis Rousseau e Goethe], embora não se trate propriamente de um retorno para trás, mas uma caminhada para frente e para o alto, para a natureza sublime, livre e mesmo terrível, que brinca, que tem o direito de brincar com os grandes destinos. (…) Napoleão foi um exemplo desse ‘retorno à natureza’ como o entendo (…) Mas Rousseau (…) Esse aborto que acampou no umbral dos nossos tempos, também ele queria o ‘retorno à natureza’ – (…) aonde queria realmente chegar? – Odeio ainda Rousseau na revolução que é a expressão histórica desse ser de duas caras, idealista e canalha. (…) Só conheço um que a sentiu como deveria ser sentida, com aversão—Goethe…”

seria desconhecer os grandes homens se estes forem considerados sob a perspectiva miserável de uma utilidade pública.”

meu orgulho é dizer em dez frases o que qualquer outro diz num volume—o que outro não diz num volume…” “Ofereci à humanidade o livro mais profundo que ela possui, meu Zaratustra”


Anotações de cunho pessoal:

Vulgar Display of Power seria uma bela denominação para as coisas do mundo.

12 de julho de 2011

[ARQUIVO] GENEALOGIA DA MORAL

Páginas destacadas e temáticas (ed. Escala):

31: a democracia odeia a História

36-7: o projeto judaico, a longa trajetória da escravidão até o poder (o poder escravo) (Páginas cheias para o anti-semita que quisesse deturpar… Ou acusar N. falsamente.)

40: dizer-sim e dizer-não. O sim que sobrepuja todos os nãos.

41: o “sabbat”, repouso do ressentido com a vida

42: o nobre que explode—ele não suporta estocar rancor!; Mirabeau

46: nazismo

47: niilismo. “Estamos cansados do homem”

49: o erro do átomo

51: para Homero, a vingança é mais doce que o mel

52: o portal do Paraíso; Dante; Tomás de Aquino e a catarse dos “absolvidos”.

56: os judeus ganham a guerra do milênio, ou duomilinar

57: a última vitória do espírito clássico-romano sobre o espírito judeo-moderno: Napoleão Bonaparte.

59: a interdisciplinaridade sonhada pelo autor; prescrições para a filosofia do futuro.

65: o ser que promete

70: livre-arbítrio debaixo dos escombros do martelador

73: este é o livro que mais cita os livros anteriores de Nietzsche; o Dom Quixote tornou-se menos cômico e mais cruel com o tempo (Processo Civilizatório).

75: sobre o hedonismo; sobre o querer testemunhas para si.

76: a festa e o divino

77: a origem da palavra homem

78: a verdadeira origem da justiça; o verdadeiro e imoral conceito de justiça.

81: personalidade reativa/vingativa como indício de fraqueza

84: o problema da causa e finalidade

85: supra-homem; ataque a Darwin.

90: o mundo inocente; Spinoza.

94: anti-Hobbes

95: “instinto de liberdade” ou simplesmente “vontade de poder”

99: a “segunda inocência” do ateu

100: zerando as contas do niilismo

110: antes querer o nada a não querer

118: sexualidade e arte – caráter de Rafael; “a roda de Ixion está imóvel”, tirado de Schopenhauer.

120: filósofos ilustres e seu celibato; “Um filósofo casado é motivo de comédia”.

121: Buda e o lar com a família como “local de impureza”; a retirada para o deserto.

122: desfecho da elucidação do paradoxo do asceta

124: o filósofo e sua mania noturna; “o instinto maternal”.

125: a velha polêmica—sexo “antes da grande partida” atrapalha?; a incipiente fisiologia da estética.

127: a teia-de-aranha de Deus

129: “todo aquele que constrói um ‘novo céu’ encontrou a força em seu próprio inferno…”

136: niilismo como o casamento do desgosto e da compaixão

137: “onanistas morais”

145: “a aberração dos vegetarianos”

146: a “concepção pan-indiana” de ascese

158: ranking nietzscheano das doenças européias: 1. o ideal ascético; 2. o álcool; 3. a sífilis.

162: a subordinação da ciência moderna ao ideal cristão, formulada da maneira mais clara. O mesmo dir-se-ia do Estado. Tudo se afunila para o Um.

164: Karamázov, Ivan

166: Arte e arte

167: a tábua de Copérnico

168: Tolstoi

169: “regime alimentar exclusivamente composto de jornais, política, cerveja e música de Wagner acrescido daquilo que é o pressuposto dessa dieta”


o esquecimento ativo (…) espécie de porteiro vigilante encarregado de manter a ordem psíquica, a tranqüilidade, a etiqueta” Meu porteiro está em sono profundo.

Sem crueldade, não há festa”

Um dos livros mais cifrados e ruminantes do filósofo, embora possua parágrafos extensos. Mas posso dizer que 4 anos de noites mal-dormidas já são o suficiente para chegar à clarividência de todos os problemas…

Há dois tipos de ateu: o ateu passivo e o ateu honesto; o ateu cristão e o ateu transmutador!

Eu não posso carregar o mundo nas costas; não suporto carregar sequer dois destinos.”

Esse será doravante o livro que eu mandarei ler primeiro àquele que me solicitar que eu o introduza a Nietzsche.

oh amigos desconhecidos! (porque não conheço ainda a nenhum amigo) (…) A vontade de verdade, uma vez que seja consciente de si mesma, será a morte do mal: é o espetáculo grandioso reservado aos dois próximos séculos da história européia; espetáculo terrível entre os terríveis, mas talvez fecundo de magníficas esperanças.”


Anotações de cunho pessoal:

Posso te dizer uma coisa: não há nada como dormir… Nada. Essa capacidade prodigiosa de estar em novos e excitantes contextos despreocupadamente, em aparente—e para a consciência é suficiente o aparente—dissociação com o passado. Por isso sair, aventurar-se pelo desconhecido, embebedar-se ou mesmo perder-se na melodia de uma música também é imprescindível, inigualável. Sociólogo: o invejado ápice da consciência alerta. Ligada em todos os movimentos e em todos os rastros. Viva-se com uma herança dessas! Viva-se DENTRO DE CASA desse modo! Viva-se onisciente mas nihil-potente! Insuportável… Me deparo com esse tipo de trecho em minhas mensagens grafadas a cada janeiro. E o relógio me faz pensar que foi um exagero.

A cada hora, a direção da minha angústia aponta para algo diferente… Eu só não consigo esquecer meu caráter de “personalidade indesejada” em certo grau.

E por que toda essa maldita “conspiração”? Parece que estou sempre lendo uma página feita para que eu a lesse exatamente nesse dia… Sentir-se especial… Mas não grandioso: o maior dos vermes amargos. MEU paradoxo: só posso me enfraquecer ao promover a única queixa possível contra o enfraquecimento; é assim que funciono. Aquela máquina que todos no escritório se perguntam: “Quando é que finalmente vai quebrar?”. Do que me adianta todo o enternecimento post mortem?

Genealogia, genealogia, genealogia… Como é insalubre a profissão do escavador!

Minha maior desvantagem: além de escutar tudo que uma natureza excepcional precisa aprender a escutar, eu tenho que escutar tudo que um homem comum precisa escutar (porque a maior parte do tempo eu não me revelo!)—e isso é o mais ofensivo! Como se eu fosse mesmo aquele estagiário-padrão, aquele aluno que precisa de orientações, o eterno-subalterno! E eu ainda tenho que ouvir a minha própria consciência… prensada!

Pessoas morrendo—pessoas morrindo

Rimos de céu, inferno, gárgulas e Jesus.

O bebê é o que mais chora, o velho é o que mais ri.

De 7 a 23 de janeiro de 2010

[ARQUIVO] BRINCADEIRA DO OBITUÁRIO

Baseada nos perfis dos militares brasileiros publicados pela Revista VEJA, mortos no terremoto haitiano do começo de 2010:

Rafael de Araújo Aguiar, de 21 anos, soldado, Brasília-DF. Mais jovem de toda a expedição de paz, Rafael também era o único que provinha da capital do país e de uma família de classe média alta, que em tese não deseja para os filhos uma carreira militar que principie na base (postos como o de soldado em detrimento de exames que podem qualificar alguém já para as patentes de sargento ou tenente). Seus pais são civis. Seu falecido avô, pai de sua mãe, havia se reformado pela Marinha. Amigos não sabem como ele foi parar na América Central ao certo, já que Rafael sempre havia manifestado repúdio pelas rígidas hierarquia e disciplina do Colégio Militar, onde havia estudado por 4 anos e meio, além de manifestar especial interesse por autores da filosofia e escritores clássicos e ser conhecido na cena punk e metaleira local como assíduo freqüentador de concertos de bandas com letras anti-militaristas e por ostentar uma invejável cabeleira. Por fim, era muito míope e havia sido dispensado do serviço militar obrigatório. Algo no ano de 2009 o fez mudar de idéia: provavelmente necessitava com urgência de renda própria para realizar seus planos. Não constam informações de que estivesse comprometido; havia trancado o curso de sociologia no quarto semestre e rumado sem mais explicações ao Haiti, ao ser aprovado em novo teste físico no quartel. Os mais próximos alegam que tal decisão foi o ápice de uma tendência crescente de se afastar das outras pessoas e de emudecer cada vez mais sua personalidade comunicativa.

[ARQUIVO] METALLICA À VENDA? (Ian Christe)

De 29 de junho a 19 de julho de 2011

Mais uma vez, os fãs tornaram-se ratos escondidos pelos cantos. À medida que o metal sofria à vista do público, o Metallica fazia pouco para ajudar a contornar a situação. Por anos eles puseram o mundo do heavy metal em primeiro lugar, mas agora pulando irreconhecivelmente na frente dos holofotes em toda cerimônia de premiação ou sessão de vídeo, a banda viajou com os grupos alternativos Hole e Veruca Salt em setembro de 1995 para tocar em um festival patrocinado pela cerveja Molson Ice na vila ártica de Tuktoyaktuk. A banda que havia se recusado por mais de sete anos a até mesmo fazer um videoclipe estava agora aceitando eventos promocionais.”

I put my cock into the carcass

My climax can wait no longer

Expectorate my seed of hate

Onto her mutilated corpse”

“‘Eu não usei cuecas nos últimos quinze anos’, Lars Ulrich contou à Melody Maker, ‘mas nove meses atrás decidi que não iria mais usar jeans novamente. Porque como eu não sou circuncidado, diferente da maioria dos norte-americanos, haveria uma quantidade considerável de urina espalhada pela minha calça cara por causa do consumo excessivo de álcool. Então minha esposa sugeriu que eu usasse cuecas para que eu não mijasse nas minhas lindas e caras calças de estilistas famosos o tempo todo.’”

“‘O Metallica pode fazer o que quiser agora’, disse Shawn Crahan, do Slipknot. ‘Eles venceram. Eles conquistaram o direito de fazer o que quiserem hoje em dia.’”

Zombification ejaculation over mutilation

On the Mother’s body hacked into pieces

The sludges from my cock gives her life once again

Sewing the remains of the child deep within her

She’s already dead, I masturbate with her severed head

My lubrication, her decomposition

Spending my life molesting dead children”

Conforme seus cabelos lentamente voltavam a crescer, o Metallica redescobria sua origem metal. Para a turnê norte-americana de 1997, prepararam um show com um palco sofisticado que representava a realidade maliciosa na qual a banda então vivia. Inspirados no dramático acidente com James Hetfield em Montreal, todas as noites, na metade do show, uma parte falsa da iluminação explodia, para deixar a figura de um técnico em chamas balançando pelos ares, preso por um cabo de segurança. Para dar seqüência ao tema de destruição já iniciado, torres de iluminação caíam até uma posição predeterminada, e roadies corriam para apagar o fogo. O técnico de iluminação era levado em uma maca para uma ambulância que estava à espera ao lado do palco, enquanto a mesa de som lançava loops de ruídos de estática. § Com o equipamento supostamente destruído, os membros da banda fingiam então buscar uma solução para a catástrofe. Reuniam-se em um canto remoto do palco onde havia apenas dois conjuntos de guitarra e amplificador e algumas lâmpadas que pendiam do teto, e rapidamente improvisavam um medley ‘caseiro’ de ‘Four horsemen’ e outras músicas antigas de Kill ‘em all. Devagar, o operador de som reforçava até um volume digno de estádio. Foi um evento extraordinário que brincava com desastres para contar a hoje lendária origem da banda. Com logística mais complexa do que qualquer palco gigantesco do Iron Maiden nos anos 80, a produção foi genialidade pura do Metallica e fingiu zombar das convenções do rock, até mesmo ao entregar-se de corpo e alma a elas. Naturalmente, a empresa de efeitos especiais recebeu o prêmio Designer do Ano da revista Stagecraft industry.”


FISSURAS E INTEGRIDADE NO MUNDO DA MÚSICA

Ou: Em busca do riff perdido atrás do arco-íris captável somente através dos ouvidos

As bandas e os gêneros floresciam e morriam, florescem e ainda morrem, rápido demais. As brechas deixadas por colossos como Black Sabbath e Metallica na incompletude e periferia de cada álbum, e nos hiatos entre as gravações, e nas inevitáveis negações perpetradas pelas escolhas (afirmações) naturais, talvez tudo isso se desenrole por décadas e não se tenha perdido uma (várias) oportunidade(s) para sempre. Não são os próprios músicos que vivenciaram os atalhos geniais de suas obras-primas que devem chegar lá, mas o legado vivo por eles plantado. Um gigante veterano tateando atrás de seu novo melhor álbum de todos os tempos não passa de comédia?

[ARQUIVO] A GAIA-CIÊNCIA

Páginas destacadas e temáticas (ed. Escala):

27: esquecendo um problema através de outro – uma dupla escada, como a criança que pulula na areia quente e reveza os pezinhos para não se queimar—e consegue!

42: vocação de professor; a tragédia e a comédia, a vida sem riso; o mar.

48: não procede a crítica de “nostálgico da Grécia e Roma antigas”; para um esboço da teoria das emoções.

49: ser vegan ou não ser; “A dialética do casamento e de amizade já foi exposta?”.

56: a necessidade de um novo amor; interpretação/interpenetração dos sonhos.

62: a espada de dois gumes chamada “vida de atleta”; lição de economia para a Alemanha; o CONTRAPONTO do que se diz nos Fragmentos Finais acerca da “tirania de si mesmo”—aquele que não souber desligar suas virtudes não vai aproveitar as glórias da vida: chutar o pau da barraca depois de erguê-la.

68: a China macha e a frustração feminina do continente Europa

78: minha autêntica alma de trabalhador; tratado acerca do inevitável tédio existencial dos bons.

83: em alto e bom som, o valor da vida

104: Aristóteles e seu erro

105: Wagner

106: gregos x franceses

110: a “previsão do futuro”, o caráter premonitório-semiótico da Música; Apolo e suas profecias auto-realizadoras.

111: para uma lição sobre a antevisão denominada Futurismo

112: Fausto e Manfredo na mesma frase; “Ah! Quem nos contará a história completa dos narcóticos?—É quase a história da ‘cultura’ inteira, a chamada cultura superior!”

119: Stendhal

120: Shakespeare e Brutus

121: Schopenhauer, o grande

131: o militarismo e a música alemãs; a história da língua para a história do povo (Holocausto).

132: o assombro do rádio

138: Eleatas, os primeiros (?) idealistas. Talvez os primeiros utilitaristas (porque esta palavra sempre define “os enganados”), os primeiros dialéticos (é óbvio!) e os primeiros céticos.

142: 1ª citação de “instinto de rebanho”

149: o louco e a lanterna e o assassinato de Deus; mas muito mais!

160: o fraco vegetariano

167: para quem deseja descansar

168: misantropia como produto do excesso de amor ao homem (estômago empanturrado que arrota e já não engole mais nada)—depois de um período de faquir (de blasé), é hora de recarregar as baterias. Cuidado com a afobação da churrascaria!

172: sobre como deixar que os amigos indesejados se esvaiam

174: da minha benevolência

180: animais e sua opinião sobre os animais-homens

204: o positivismo nietzscheano

206: no limbo entre a estrutura e a história

219: os animais e a sintonia climática

239: do peso mais pesado

256: “nossa qualidade de animais domésticos

257: Jesus e São Paulo contra os romanos

258: para fundar um novo dogma

260: sistema consciente como rebanho; seu “em si”: o eterno inconsciente.

263: a contradição, fraqueza e incipiência das ciências humanas: “querer tomar por objeto elementos que não são estranhos beira a contradição e o absurdo…”

265: Nietzsche como arquiteto e engenheiro; a ponte.

276: o animal e seu isolamento à véspera da morte—como se diz que ele não possui uma biografia?

278: a misteriosa “idade clássica da guerra”

288-9, 296: epicureus

299: “pequena política”

300: Tímon, grego, modelo de misantropia


retorna-se [da doença] mais criança e, ao mesmo tempo, cem vezes mais refinado do que nunca se havia sido antes.”

Receita (complementar a Anselm Strauss): “adorar a aparência, acreditar na forma, nos sons, nas palavras, em todo o Olimpo da aparência! Esses Gregos eram superficiais—por profundidade!”

está bem de saúde aquele que esqueceu”

A escrita, é verdade, não está realmente nítida—

Que importa! Quem é que lê o que escrevo?”

mesmo a mais bela paisagem onde vivemos mais de três meses deixa de nos agradar e qualquer margem distante excita nossa cobiça.”

Quando um homem se encontra no meio de sua agitação, exposto à ressaca em que projetos e contra-projetos se misturam, acontece-lhe às vezes ver deslizar perto dele seres de quem inveja a felicidade e o afastamento—são as mulheres.”

Não estaremos errando como num nada infinito? O vazio não nos persegue com seu hálito? Não faz mais frio?”

Agora não são mais os argumentos, é nosso gosto que decide contra o cristianismo.”

a inflexibilidade é uma virtude de outra época que aquela da honestidade”

É preciso não querer fazer mais que o próprio pai—ficaríamos doentes.”

Não gosto dos homens que, para obter um efeito, são obrigados a explodir como bombas”

Pais e filhos se poupam mais entre eles do que mães e filhas entre elas.”

Quanto ao animal doméstico: “Que bicho estranho é esse que sempre tem o que comer? Ele cuida de mim mas eu não colaboro com nada… ou serei eu seu frágil rei? Ele desaparece muitas vezes. Rei ou prisioneiro?”

A graciosa besta humana tem a aparência de perder cada vez seu bom humor quando se põe a pensar bem; ela se torna ‘séria’! E ‘em toda parte onde há riso e alegria, o pensamento não vale nada’: esse é o preconceito dessa besta séria contra toda ‘gaia ciência’. Pois bem! Mostremos que se trata de um preconceito.”

Um dano é raramente um dano por mais de uma hora”

Coloca, entre ti e hoje, pelo menos a espessura de três séculos.”

o que há de mais risível que colocar ‘o homem e o mundo’ lado a lado, que sublime presunção não confere esse ‘e’ que os separa!”

Schopenhauer, como filósofo, foi o primeiro ateu convicto e inflexível que tivemos, nós alemães: esse é o segredo de sua hostilidade para com Hegel.”

a pergunta de Schopenhauer: ‘A existência tem, portanto, um sentido?’

Esta pergunta vai exigir séculos antes de poder ser simplesmente compreendida de maneira exaustiva e em todas as suas profundezas.”

Epicuro: enaltecido por N. Uma elevação dionisíaca bipolar.

Estóicos: troçados por N. Mais próximo do blasé. Indiferença como fuga da vida? Coisa de velhaco?

Como era de se esperar, este quinto livro adicionado em 1887 é o mais ácido e rancoroso.

A beleza personificada em discursos—todos os mitos desfeitos sobre os objetivos de tal filosofia: “Nós, filhos do futuro, como poderíamos estar em nossa casa ainda hoje! Somos hostis a todo ideal que ainda pudesse encontrar um refúgio (…) Nada ‘conservamos’, não queremos regressar a nenhum passado, não somos ‘liberais’ em absoluto, não trabalhamos para o ‘progresso’, não temos necessidade de tapar os ouvidos para não ouvir as sereias do futuro cantar na praça pública.—O que elas cantam, ‘Igualdade de direitos!’, ‘Sociedade livre!’, ‘Nem senhores nem escravos!’, isso não nos atrai!—na verdade, não achamos de forma alguma desejável que o reino da justiça chegue e que a paz seja instaurada na terra (porque esse reino seria forçosamente o reino da mediocracia e da chinesice) (…) nos contamos a nós mesmos entre os conquistadores, refletimos na necessidade de uma nova ordem e também de uma nova escravidão—pois, para todo reforço, para toda elevação do tipo ‘homem’, é necessária uma nova espécie de escravidão.—Aí está porque não nos sentimos bem numa época que gosta de reivindicar a honra de ser a mais humana, a mais caridosa, a mais justa que alguma vez já existiu debaixo do sol!”

Não somos humanitários; nunca nos permitiríamos falar de nosso ‘amor pela humanidade’—nós não somos suficientemente comediantes para isso!” “Não gostamos da humanidade; mas, por outro lado, estamos bem longe de ser muito ‘alemães’—no sentido atual da palavra ‘alemão’—para podermos ser os porta-vozes do nacionalismo e do ódio das raças, para podermos nos regozijar com os males nacionais do coração e com o envenenamento do sangue, que fazem com que na Europa um povo levante barricadas contra o outro, como se uma quarentena os separasse.”

herdeiros de vários milhares de anos de espírito europeu; como tais, saídos do cristianismo e a ele hostis, porque precisamente saímos de sua escola, porque nossos ancestrais eram cristãos de uma lealdade sem igual que, por sua fé, teriam sacrificado os bens, o sangue, sua condição e sua pátria. (…) O sim escondido em vocês é mais forte do que todos os nãos e todos os talvez de que vocês sofrem com sua época: e se lhes for necessário partir para o mar, vocês, emigrantes, empenhem-se em ter também—uma fé!…”

Da humanidade! Já houve alguma vez velha mais horrível entre todas as horríveis velhas?—(a menos que seja a ‘verdade’: uma questão para os filósofos.)”


Anotações de cunho pessoal:

Poeta, o bom Pinóquio

HIPÓTESE MALDOSA Imagine se nós tivéssemos de desaparecer após completarmos nossa grande missão?

O que explica o além grego?

Às vezes só do que precisamos é uma pequena pausa para reordenar as palavras—e encontrar vocábulos melhores antes de ceder aos primeiros impulsos.


De 22 de dezembro de 2009 a 7 de janeiro de 2010

[ARQUIVO] O VIAJANTE E SUA SOMBRA

Páginas destacadas e temáticas (ed. Escala):

13: a importância do silêncio no grande diálogo

21: a luz em Platão

27: gravidez

28: “a lanterna”

33: a estratégia do advogado criminalista

35: a reputação do réu

36: Ájax e a inveja dos deuses

40: “náusea”

41: sobre o indigente

48: pistas da loucura cavalar

49: a prova natural de que o caminho mais curto entre dois pontos não é a linha reta

50: o “fatalismo turco”, Moira

55: a necessidade da barba no sábio varonil, para que o queixo não contraste com seus olhos de águia velha e o rosto não apresente duas idades

64: “O pão neutraliza o gosto”

69: “Para ler em voz alta é necessário estar disposto a fazê-lo.”

72: o final do Fausto

86-7: prazer na música como artista (pelo presente, pelo que ela é) x prazer na música como leigo (nostalgia); possibilidade da arte diretamente vinculada ao trabalho e sua flexibilização.

89: minha relação residual com a sociologia; sobre a personalidade que quer encontrar “o fim dos fins” em tudo em que põe as mãos.

90: da pesada amargura; e sobre o pateta palhaço por opção

93: selecionar o amigo com base em suas opiniões religiosas

94: alimentação e mau humor

98: para a história (benéfica) do desinteresse…

101: não ter filhos; afastar-se dos amigos, mas não da natureza.

102: “Aquele que disser agora: ‘Nada me aconteceu ainda’—passa por um imbecil.”

107: Uniformes e nacionalismo. Moda como antídoto. Novo conceito de moda para além de “o que sai de circulação rapidamente”.

111: Helvétius

112: cidadezinha e grande cidade—entendendo melhor nossas utopias e devaneios

113: sucinta fisiologia da máquina, até melhor que a mcluhaniana; Epicuro.

118: mendicância

128: Europa hoje (XXI)

129: sobre as abstenções eleitorais

131: sobre a precariedade da mercadoria no capitalismo avançado

132: Ampliar o quadro de professores? Que tal o contrário?

135: contra o mendigo e o bilionário; para entender a reforma agrária; tocquevilleanismo.

139: quando caminho com um bando, eu sempre vou atrás—desconfiado de que não me seguiriam

153: o supra-homem e o animal

154: cão e gato


A vaidade: tema recorrente, demasiado recorrente.

Homem significa: “aquele que mede”. Aquele que sabe que sabe que mede. Mas mais nada mede.

O remorso é, como a mordida de um cão numa pedra, uma asneira.”

Só o trabalho faz o tédio.

Quase sempre os gêneros de aforismos obedecem à mesma seqüência.

escrever bem e ler bem—essas duas virtudes aumentam e diminuem ao mesmo tempo” “A forma das frases indica se o autor está cansado”

Para um livro é uma maneira conhecida de envelhecer o fato de descer a idades cada vez menos maduras.”

PARA O ABSTÊMIO MUSICAL: “Se ouvirmos música depois de termos sido privados dela por muito tempo, ela passa rápido demais no sangue, como um desses vinhos encorpados do sul, e deixa na alma uma embriaguez parecida com a de um narcótico que a mergulha num estado de semi-sono e de desejo” “acreditamos finalmente ouvir a música como se entrasse numa prisão onde a nostalgia impede um pobre homem de dormir.”

Então—foi talvez em torno dos nove anos de nossa vida—ouvimos a primeira música”

para o profano, toda música antiga parece se tornar sempre melhor e toda música recente passa a ter pouco valor, pois não desperta ainda essa ‘sentimentalidade’ que, como indiquei, é o principal elemento de felicidade na música, para quem não sente puramente prazer nessa arte como artista.”

173—RIR E SORRIR—Quanto mais o espírito se torna alegre e seguro de si mesmo, tanto mais o homem desaprende a risada explosiva”

NIILISMO EUROPEU: “Uma vez que as palavras ‘moderno’, ‘europeu’ são aqui quase equivalentes, entendemos por Europa extensões de território bem maiores que aquelas que a Europa geográfica abrange, a pequena quase ilha da Ásia: devemos especialmente compreender a América, porquanto é filha de nossa civilização.”

Se todas as esmolas só fossem dadas por compaixão, todos os mendigos já estariam mortos de fome.”

As interrupções são os corvos que trazem alimento ao solitário”


Anotações de cunho pessoal:

A sombra do cigarro. Dimitri e um pouco de pigarro. Narradores prosadores comediantes. Discurso melodioso. A me(sca)lina das amenidades.

O metal é stravinskyano-romântico—Master of Puppets como encarnação disso, com seu solo diante do quê você procura com seu corpo o que fazer, e não acha, até a audição passar, boquiaberto. Ainda predomina esse tipo de objetivo entre as pessoas (vide meu apreço por Prisoner of Your Eyes, Cardigans, Calcanhotto… pelas fases posteriores do Megadeth, o carinho pelas lembranças suscitadas, mas ao mesmo tempo tem um tempo que venho me concentrando na técnica em-si, ou pelo menos no limiar. e.g.: Death).

De 26 a 28 de novembro de 2009

[ARQUIVO] FRASES PARA ANIMAR PROLETÁRIOS (O GERMINAL)

“não tinha a resignação do rebanho”

“Seu orgulho de homem se revoltava por ser tratado como um animal a quem cegam e esmagam.”

Não importa o quanto a gente reme, sempre afunda. E de forma humilhante e inconteste.

“Quando as moças dizem não, é porque gostam de apanhar antes.”

“a semana em que os bebês não nascem”

“de tão abalado, caiu de cama com febre alta. Só pôde voltar ao trabalho três dias depois.”

“O trabalho assalariado é outra forma de escravidão.”

“Teria dado de boa vontade o seu salário para poder ter, como eles, um relacionamento sexual fácil e sem remorsos.”

“Não, o único bem era não ser, ou, sendo, ser árvore, ser a pedra, menos ainda, ser o grão de areia que não sangra ao ser pisoteado.”

“Como não ousava matar, era ele quem devia morrer.”

“desde que se conhecia por gente, sua vida era só sofrer.”

“quando a gente não tem esperança, perde o prazer de viver.”

“seu gosto se refinara, queria subir para uma classe superior.”

“e eu não terei mais qualquer fraqueza amorosa”

“Quando um homem tinha uma mulher no coração, estava acabado, podia morrer.”

25 de junho de 2011

[ARQUIVO] LIMBOZINHO

Ah, às vezes… Todo nosso ceticismo quanto ao futuro, toda a desesperança, a mais completa e até idiota, se for analisada a posteriori, insegurança, sem fundamento nenhum na realidade, naquilo que você é, de repente tudo isso explode numa só noite. Você pensa que não pode se comportar como um ser humano típico, estudando, trabalhando, se comportando, se controlando, fazendo as médias que tem de fazer, repousando, dormindo, se descontraindo… Até isso fica difícil e tenso. Parece que a inaptidão vai lhe varrer ou atropelar, você, escória!

Porém de um jeito ou de outro dorme-se e se acorda diferente, rindo-se de tudo que passou…

(Não sei qual dos dois é mais ilusório.)

25 de junho de 2011

[ARQUIVO] O INVENTÁRIO DO SUPRA-HOMEM NA CULTURA DE MASSAS (Morin)

Normalmente, nas horas seguintes à contemplação de um filme, temos prazer em adquirir uma personalidade descartável com data de validade bem efêmera, em sermos o protagonista daquele filme por algum tempo, até que venha outro espetáculo e a impressão causada pelo antigo se esvaneça.

“não a deusa nua das religiões antigas, não a madona de corpo dissimulado do cristianismo, mas a mulher seminua, em pudor impudico, a provocadora permanente.”

“Qualquer progresso do erotismo conduz a um enfraquecimento da diferenciação sexual, e os progressos da homossexualidade são um aspecto desse enfraquecimento. (…) Parece que uma supererotização caminha lado a lado com o progresso da semifrigidez e da semi-impotência”

Cada autor possui um conceito todo particular para cada palavra…

25 de junho de 2011

[ARQUIVO] MISCELÂNEA DE OPINIÕES E SENTENÇAS

Páginas destacadas e temáticas (ed. Escala):

24-5: história e metafísica

31: a alegoria do deserto; “a grande aranha do mundo”, a tecedora de fios.

35: Sócrates

45: sobre o fazer planos

49: cristianismo para os frígidos e estéreis

50: pistas sobre a erradicação do cristianismo na sociedade do trabalho

51: teoria do conhecimento e teologia cristã

53: Gaia-Ciência ainda sem nome…

54: o artista e a distribuição de seu dom

55: Baudelaire

65: Wagner como mulherzinha. O espaço de sua música é muito cheio (“melodia infinita”), não há a calmaria de Beethoven.

73: críticos de arte, as muriçocas de nossa cultura, levianos inocentes

77: “sophia”; gosto.

85: transição do sistema educacional

86-7: história compreendida como música

89: a aranha de 3 gerações

92: moda como libertação

93: nomadismo; sol e cegueira; Homero

95: Górgias

96-7: o paganismo grego

99: Ferramentas para compreender os fragmentos finais de N. Vocábulos semi-deus, infra-humano, mosca, estrela…

103: Ivan de Dostoievsky

105: Goethe tinha medo de ser poeta

106: saber viajar

107 (232): comédia pública; tragédia idiossincrática.

114: Platão, o teórico trintão

115: “a natureza da mulher se revela no timbre de seu riso.”

127: parece a Brasília concurseira; como se recai no belicismo.

136: a nostalgia

137: sonhar com pessoas e entes do passado; o pensador esgotado.

138: “Empregar o excesso como remédio [à alma ressequida], aí está um dos golpes de mestre na arte de viver.”

141: espírito do tempo

146: tributo aos principais filósofos e poetas de sua vida, mesmo àqueles que sói criticar


Laurence Sterne, A Vida e as Opiniões do Cavalheiro Tristram Shandy


Quando nos sentimos à altura de uma coisa muito difícil, não toleramos que seja mencionada diante de nós.”

Não sabemos se temos um dente de serpente antes que alguém tenha posto seu calcanhar sobre o que nos é caro.”

Uma obra que deve produzir uma impressão de saúde deve ser executada no máximo com ¾ da força de seu autor.”

Todo bom livro tem um sabor áspero quando aparece (…) Muitas horas deverão ter passado e muitas aranhas devem ter tecido suas teias.”

Nem [os professores] se educam, como poderiam educar?” “A extraordinária incerteza de todo ensino público que, para todo adulto, dá a impressão que seu único educador foi o acaso – o cata-vento dos métodos e das intenções educacionais – se explica pelo fato de que, em nossos dias, as potências pedagógicas mais antigas e as mais novas, como numa tumultuada reunião pública, insistem antes em ser ouvidas do que compreendidas e querem, por meio das suas vozes, a todo custo, (…) [dizer que elas] existem ainda ou que já existem.”

como poderíamos, pois, prescindir da nota baixa fundamental, profunda e muitas vezes inquietante, sem a qual a melodia não poderia ser melodia?”

em geral as escolas primárias farão bem em dar preferência à arte dos olhos àquela dos ouvidos.”

Aquele que considera a humanidade como um rebanho e que foge diante dela tão depressa quanto possível, será certamente alcançado por esse rebanho, que o cobrirá de chifradas.”

Quando nos transformamos radicalmente, nossos amigos, aqueles que não se transformaram, se tornam os fantasmas de nosso próprio passado.”

Cumpre tomar cuidado para não nos afiarmos muito cedo.” Como se fosse possível escolher.

cada mestre só tem um aluno—e esse aluno se lhe torna infiel”


Anotações de cunho pessoal:

Calar-se ou desaguar o azedume numa conversa para nascer de novo? O que acaba sendo mais eficaz? Bipolar.

Cuidado!—Concentrar-se na obra deixa o gênio avoado e desleixado para sua própria imagem pública.

Juntem-se os conceitos demasiado humano e supra-homem e temos um paradoxo—apenas aparente.


De 23 a 25 de novembro de 2009

[ARQUIVO] HUMANO, DEMASIADO HUMANO

Páginas destacadas e temáticas (ed. Escala):

43: da sensação do erro

48: como Marx termina como o principal formulador do capitalismo tardio

49: Erasmo de Roterdã

61: o superanimal

107: Ésquilo e Aristófanes

128: “[a arte] transforma os animais em homens”; a Nona de Beethoven

130: os sofrimentos do artista; o cômico e o trágico; o jogo e a leveza, a frustração e a solidão.

138: do intermediário entre o público e o artista; do espectador.

139: a diferença minúscula entre honra, vaidade e orgulho

154: genealogia técnica do heavy metal (captar “o lado feio do mundo”). Por isso os beatniks são tão musicais. Antecipação de Baudrillard.

159: curso em pós-modernidade

161: o “eterno permanente”

165: definição de “espírito livre”

174: humor na pós-modernidade

175: aforismo 241

178 (247): Planeta dos Macacos

179: o difícil “turning point”

182: do filósofo arrependido

184: da pederastia na Grécia

187: o problema da efemeridade da civilização grega, a falta de dados e documentos

190: primeiras pistas sobre a Ásua; N. e o ensino médio

195: fase cínica, fase epicuréia

199: “quem não tiver para si dois terços de seu dia é um escravo”

200: nazismo

203: índices para o ineditismo do futuro

220: ironia, o “cão mordedor”

222: “GLÓRIA PÓSTUMA”

225: complexo de Édipo

235: por que todo pai menospreza o talento dos filhos

236: o séc. XX do feminismo

245: o socialismo como meio; Guerra Fria.

246: os barões da mídia

248: a diferença entre o socialista de baixo e o socialista de cima

250: pela escravidão; Diógenes, o Chaves da Antiguidade.

257: Europa pendular, século XXI

258: a morte do Estado

259: do novo XVIII Brumário

261: escombros da União Européia; questão judaica. O semita está incluído no projeto da Europa mista.

262: e os judeus salvaram a Europa feudal de ser engolfada pela expansionista Ásia

265: “A GRANDE POLÍTICA”

293: “nosso eu superior”

294: sobre a facilidade que temos em mistificar nosso tédio


raramente se encontra na Europa o erudito que tenha lido La Rochefoucauld.”

A paixão não quer esperar; na vida de grandes homens o trágico reside muitas vezes não em seu conflito com a época e com a baixeza de seus contemporâneos, mas na incapacidade deles de adiar sua obra por um ano, por dois anos; não sabem esperar.”

Todo homem que decidiu que o outro é um imbecil, um mau companheiro, se irrita quando o outro finalmente mostra que não o é.”

acaba por se produzir um violento antagonismo entre o artista e as pessoas da mesma idade de sua época”

Quando a arte se apodera violentamente de um indivíduo, leva-o a concepções de épocas em que a arte florescia com mais vigor, exercendo, portanto, uma influência retrógrada.”

COMO SER UM ROMANCEUR: Um craque do futebol não nasce sem os fundamentos—ou explode e depois desaparece. Qualquer verossimilhança com o caso de escritores como J.K. Rowling não é mera coincidência!

Faça-se, portanto, cem ou mais projetos de novelas, nenhum com mais de duas páginas, mas de uma clareza tal que neles cada palavra seja indispensável; (…) que se seja infatigável em recolher e descrever tipos e caracteres humanos” “Nesse múltiplo exercício, que se deixe passar uns dez anos” “Como faz, porém, a maioria? Eles não começam pela parte, mas pelo todo. Talvez um dia tenham um lance feliz, chamem a atenção e, a partir de então, farão lances cada vez piores, por razões bem naturais.”

E, a longo prazo, todo instinto é mesmo fortalecido pelo exercício de sua satisfação, apesar desses períodos de calmaria. Seria possível que o medo e a compaixão fossem, em cada caso particular, mitigados e aliviados por meio da tragédia: não obstante, poderiam enfim tornar-se geralmente mais fortes por causa da influência trágica e Platão, apesar de tudo, teria razão ao pensar que, por meio da tragédia, a gente se torna geralmente mais temeroso [medroso ou temerário?] e mais impressionado. O próprio poeta trágico adquiriria então, necessariamente, uma visão lúgubre e assustadora do mundo e uma alma terna, excitável, ávida de lágrimas, de tal modo que corresponderia à opinião de Platão, se os autores trágicos e igualmente cidades inteiras, que os apreciam, regredissem a um nível em que a falta de medida e de freio é sempre maior.”

hoje são contados entre as exceções os ouvidos que ainda fazem as distinções mais refinadas, p.ex. entre dó sustenido e ré bemol.”

O homem de ciências é uma forma ulterior do artista.”

Chama-se ‘espírito livre’ aquele que pensa de forma diferente do que se espera dele, em virtude de sua origem, de seu meio, de sua posição e de seu ofício, ou em virtude dos pontos de vista dominantes de sua época.”

Quanto mais alguém compreende profundamente a vida, tanto menos zombará, salvo se terminar por zombar da ‘profundidade de sua compreensão’.”

CONHECIMENTO COMO PRAZER. O MAL DE PENÉLOPE: “de novo, a humanidade terá de recomeçar a tecer seu tecido, depois de tê-lo, como Penélope, destruído durante a noite. Mas quem nos garante que ela voltará sempre a encontrar forças para isso?” “graças a um conhecimento novo, por menor que seja, nos sentimos superiores a todos e como os únicos que, nesse ponto, sabem o que está certo.”

Os dois povos que produziram os maiores estilistas, os gregos e os franceses, não aprendiam línguas estrangeiras” Quantas línguas o próprio Nietzsche falava? “Nietzsche falava fluentemente alemão e francês, e também tinha um bom conhecimento de grego e latim, o que lhe permitiu ler os filósofos clássicos em seus idiomas originais. Ele também tinha algum conhecimento de inglês, mas não era fluente na língua.”

AVALIAÇÃO MUITO BAIXA DO ENSINO COLEGIAL (…) Raramente se busca o valor da escola secundária nas coisas que nela realmente se aprendem e se acumulam sem poder perdê-las, mas antes naquelas que nela se ensinam e que o aluno só absorve contrariado, para se livrar delas logo que puder e de uma só vez. (…) A leitura dos clássicos—isso qualquer pessoa culta o reconhece—tal como é praticada em toda parte, é um procedimento monstruoso: feita diante de jovens que de modo algum têm maturidade para isso, por professores que com cada palavra, muitas vezes com sua presença, já põem uma colher de poeira sobre um bom autor. (…) é que em sua linguagem surgem continuamente conceitos, expressões, métodos, alusões, que os jovens quase nunca ouvem na conversa com seus pais e na rua.”

o homem ocioso é sempre um homem melhor que o de ação.”

[o espírito-livre] conhece também os dias de trabalho e de falta de liberdade, da dependência, da servidão. Mas, de tempos em tempos, é preciso que lhe apareça um domingo de liberdade, senão não suportará a vida.”

Deve confiar que o gênio da justiça dirá alguma coisa em favor de seu discípulo e protegido, se vozes acusadoras vierem a chamá-lo de pobre de amor.”

Em todo partido, há um homem que, ao professar com demasiada fé os princípios do partido, incita os outros a desertar.”

os doentes irritadiços e orgulhosos odeiam muito mais os conselheiros que sua doença”

Para ganhar as pessoas inteligentes a uma proposição, basta muitas vezes apresenta-la sob a forma de um paradoxo monstruoso.”

OS TRAFICANTES (Burroughs): “Um meio seguro de irritar as pessoas e de colocar em sua cabeça maus pensamentos é fazê-las esperar muito tempo. Isso se torna imoral.”

Quem não sabe colocar suas idéias no gelo não deve se empenhar no calor da discussão.”

Os jovens são arrogantes porque freqüentam seus semelhantes que, todos eles, não sendo nada, gostam de fazer-se passar por muita coisa.”

Aquele que não escreve livros, pensa muito e vive numa sociedade que não o satisfaz, poderá em geral ser um bom escritor de cartas.”

Se houver dificuldade para encontrar um assunto de conversa, há pouca gente que deixará de revelar os segredos mais importantes do amigo.”

Por que sentimos remorsos depois de termos ficado em companhias vulgares?”

[o socialismo] não pode ter esperança de uma existência futura senão durante curtos períodos, aqui e acolá, graças ao mais extremo terrorismo.” “O socialismo pode servir para ensinar de modo brutal e convincente o perigo de todas as acumulações de poder do Estado e, nesse sentido, insinuar uma desconfiança para com o próprio Estado. § Quando sua voz rouca se misturar com o grito de guerra <O mais possível de Estado>, esse grito se tornará primeiramente mais barulhento que nunca, mas logo eclodirá com não menos força o grito oposto: <O menos possível de Estado>.” O contrário também pode ser dito.

Quem vive combatendo um inimigo tem interesse em deixá-lo viver.”

A imaginação da inquietude é esse gnomo malvado com aparência de macaco que ainda salta nas costas do homem, precisamente quando tem já outras coisas a carregar.” “A falta de escrúpulos no pensamento é muitas vezes sinal de uma disposição interior inquieta que procura se atormentar.”

Quando um homem pensa muito e prudentemente, não é somente seu rosto, mas também seu corpo, que toma um ar de prudência.”

Quando o homem explode em gargalhadas, ultrapassa todos os animais por sua vulgaridade.”

Com um talento a mais, a gente está numa situação menos segura do que com um talento a menos.”

É preciso ter nascido para seu médico, caso contrário se perece por seu médico.”

O homem da meia-noite é o viajante que não pôde entrar na cidade e passa a noite enregelado no deserto.


Anotações de cunho pessoal:

Estou no meio da desconstrução de velhos afetos. O nome deles, como abrangente de todo o mundo ocidental acessível a mim: Eline.

P. 132: Uma coisa que me perguntei severas vezes, principalmente com respeito a Dostoievsky (diferentemente do cinema, em que muitos sofrem o encargo), que é a “totalidade da personagem”: como é possível sair um mundo, vidas inteiras, unidades fidedignas, da cabeça de um demiurgo-escritor? Mas eis N.: pura ilusão, hipérbole! E aquela frase “não há uma única exegese de um texto” reforça o atestado.

P. 172: Essencialmente, temos aqui absolutamente TUDO o que concerne ao debate ESTRUTURA X HISTÓRIA, Lévi-Strauss vs. pós-construtivistas. Toda a reedição de Parmênides e seu 8 ou 80 e Heráclito e seu “incaptável” que perdura. Escapamos da metafísica por um tempo—e diz N.: isso é um progresso. Outra vez remexem-se os pauzinhos nos bastidores… As reelaborações, no entanto, são menos matizadas e sufocantes que no modernismo. É como o conserto da corrente de uma bicicleta enganchada na roda… AGORA vai andar. Antes não adiantava, o ciclista levava um tombo.

Af. 534: para Adriana


De 15 a 22 de fevereiro de 2009

[ARQUIVO] A SÉRIE DEFINITIVA DOS FRAGMENTOS FINAIS DE NIETZSCHE

Páginas destacadas e temáticas (ed. UnB):

34. animais, supra-homem.

35. socialismo

36. minorias, pós-modernidade.

38. amor e paixão

39. animais, gênio.

41. grande política, determinismo, números.

63. o gato

66. existencialismo, empirismo.

67. decadência

71. niilismo

74. anti-sistemas filosóficos

75. a solidão da figura do mestre

78. histórico do sofismo, helenismo, enaltecimento de Protágoras.

84. crítica a Schopenhauer

95: obra de arte, caráter anfíbio do artista

97. anti-hedonismo: a dor como supérflua

102. artistas e a loucura

103. classe média como buraco negro

104. sobrevivência da humanidade a longo prazo; budismo.

117-8. o futuro do rebanho, do pastor do rebanho e dos espíritos-livres

123. “avaliação econômica da virtude”; sobre o tédio; elogio a Kant.

125. Simplício e Epicteto

127. sobre cidadãos irrecuperáveis

129. dialética e decadência

141. bem idealista, bem “verdadeiro”

142. o sacrifício de jesus

145. mea culpa sobre A Origem da Tragédia

147. “a grande meta”

148. sonhar como método artístico

150-1: Aristóteles e o erro da catarse; “Arte como contramovimento”; Lobeck, o filólogo; a grande saúde.

155: animais

177: arte é animalidade

178: arte pela arte, como a moralina na arte, é só uma transição necessária

180: previsão dos olimpianos (de Edgar Morin)

185: A Divina Comédia

187: o artista e a forma

188: encurtamento sensório do espaço-tempo

190: feio x terrível

195: que muitas vezes nem o melhor amigo o conhece bem

198: do patriarcado grego

201: Ernest Renan

Com todo crescimento do ser humano em grandeza e estatura, ele também cresce em profundidade e horror: não se deve querer um sem querer o outro”

O gênio é a máquina mais sublime que existe,—portanto a mais frágil.”

não temos classes superiores, portanto também não inferiores: o que hoje se encontra por cima na sociedade está fisiologicamente condenado”

O que são afinal esses dois milênios? O nosso experimento mais educativo, uma vivissecação da própria vida…Dois milênios somente!…”

Todas as opiniões dos outros são suas próprias opiniões.

Os artistas uma espécie intermediária: eles ao menos fixam uma equivalência daquilo que deveria ser—eles são produtivos na medida em que de fato modificam e transformam”

Eu não respeito mais os leitores: como pude escrever para leitores?… Mas eu me anoto, para mim.”

11(81)

— só o vir a ser é percebido, não porém o morrer (?)

–”

Por meio do álcool e do ópio se retroage a estágios de cultura que já se superou (ou ao menos se sobreviveu). Todas as comidas fazem alguma revelação sobre o passado do qual nós nos originamos.”

Ócio é o princípio de toda filosofia.—Portanto—é filosofia uma carga?…”

Não está em nosso arbítrio modificar nossos meios de expressão: é possível entender na medida em que é mera semiótica.”

nosso nariz (…) ainda é capaz de perceber oscilações onde até o espectrógrafo é incapaz”

PASSAGEM MAIS HILÁRIA DA OBRA: “Schopenhauer foi inteligente quando certa vez deixou-se fotografar com o colete abotoado erradamente: com isso ele dizia: ‘eu não pertenço a esse mundo: o que importa a um filósofo a convenção de casas e botões paralelos!… Sou objetivo demais para isso!…’”

Insistentes equivalências entre o kantismo e o hinduísmo.

De certa forma é o caldeirão nutritivo primordial de onde saíram fragmentos e aforismos bem mais desenvolvidos de Vontade de Potência.

O novo sentimento moral é uma síntese, uma ressonância conjunta de todos os sentimentos de dominação e submissão que imperaram na história de nossos antepassados.”

Deus está refutado, não o diabo”

[que] os seletos mais refinados e exigentes se apresentem como débeis e rejeitem os meios mais brutais do poder –” [é uma conseqüência da moral décadent]

a tribulação e a tristeza de todos os raros homens superiores reside em que tudo o que os distingue chega à consciência deles com a sensação de diminuição e ultraje.”

Para a psicologia do idealista: CarlyleSchiller, Michelet.²”

¹ Thomas Carlyle, historiador, filósofo e ensaísta irlandês.

² Jules Michelet, historiador e escritor.

sofrer com as suas circunvizinhanças, tanto em sua louvação quanto em sua condenação, ficando ferido e sentindo-se ignóbil com isso, sem revelá-lo; involuntariamente desconfiado, defender-se do seu amor, aprender a calar, talvez escamoteando-o por meio de discursos [minha vida—laboratório perfeito!], criando subterfúgios e solidões invioláveis para os momentos de sossego, de lágrimas, de consolo sublime—até que por fim se esteja suficientemente forte para dizer: ‘o que tenho eu a ver com VOCÊS?’, e seguir o SEU PRÓPRIO caminho.” Grifos no original!

A moralidade da modéstia é o pior amolecimento daquelas almas para as quais somente tem sentido que elas se tornem duras e empedernidas em certas épocas.”

Contemplamos a andança geral: cada indivíduo é sacrificado e serve como instrumento. Ande-se pela rua como se não nos deparássemos apenas com ‘escravos’. Para onde? Para quê?”

talvez esse ‘assim deveria ser’ seja o nosso desejo-de-dominar-o-mundo –”

Não há aniquilamento no espiritual…”

O determinismo só é prejudicial àquela moral que acredita no liberum arbitrium

Não querer nenhum elogio: faz-se o que é útil para si mesmo ou o que dá prazer ou o que se precisa fazer.”

a uniformidade que toda atividade mecânica acarreta. Aprender a suportar isso, aprender a encarar o tédio como circundado por um halo superior: essa tem sido até hoje a tarefa de todo sistema superior de ensino” “Por isso, o filólofo tem sido até agora o educador por excelência

certa gente se tornou ateísta. Mas será que realmente desistiu do ideal?”

O estar mal-acostumado é mais forte que a irritação dos decepcionados…”

Alguém se torna uma pessoa decente porque é uma pessoa decente”

a conscientização é um sinal de que a moral propriamente dita, ou seja, a certeza instintiva do agir, vai para o diabo que a carregue…”

As assembléias e congregações foram inventadas para fazer coisas para as quais o indivíduo não tem coragem.” “O mandamento do amor ao próximo jamais foi estendido para um mandamento de amar os vizinhos. Antes vige aí o que está em Manu…”

ele é amável, para não ter de ser inimigo”

Uma lagarta entre duas primaveras, na qual já cresce uma pequena asa: —”

e, olhando bem de perto, não há nenhum intelectual mais bem-qualificado que não tenha nos ossos os instintos de um militar virtuoso…” “sendo mais inimigo do mesquinho, do espertalhão e do parasitário que do mal…” “O que se aprende em uma escola rígida? A obedecer e a mandar, —”

esse tapado típico que é o inglês J. St. Mill”

Homero como artista da apoteose; também Rubens. A música ainda não teve nenhum.”

O que em nossa democracia é ridículo: a roupagem negra… a inveja, a tristeza”

A coragem diante de um inimigo poderoso, de uma sublime desgraça, de um problema horrendo – ela mesma é o estado mais elevado da vida, ápice que toda arte do sublime decanta.”

sua avareza de artista protege-os da paixão.” “Não se controlam as próprias paixões só por expô-las: pelo contrário, elas já estão sob controle quando são expostas.”

sem um certo superaquecimento do sistema sexual, nenhum Rafael é concebível (…) castidade é apenas a economia do artista”

Honra um artista ele ser incapaz de crítica…”

O casamento tem tanto valor quanto aqueles que casam”

Nobilitação da prostituição, não extinção”

Tipo ‘Jesus’…

Jesus é o contrário de um gênio: ele é um idiota.”

Paulo não era de maneira nenhuma um idiota!”

Anotações de caráter pessoal:

Quando me sinto esgotado, só me resta dormir. Assim que o logro, o plano suicida já pertence à memória, se desbota, se dilui, e readquiro aquela saúde ousada. Mas a cada ciclo torna-se mais evidente que o esgotamento é algo temporário, reversível, superável. Cultivo de uma calma que anteriormente não havia—essa própria agitação, necessidade de se debater furiosamente, sonâmbula como indício da não-entrega.

Estranho fenômeno o desgaste físico que produz mais energia: cantar um álbum do Metallica, “esfolar-se”, redigir um daqueles textos-manifestos num intervalo crítico de uma tarefa importante… Como se fosse para reorientar um estoque que doutro modo seria improdutivo. Hobbes: acha-se que não mais se suportará um amanhã tão problemático quanto o hoje… Rancor por ser “alugado” por meios exógenos… Kick him when he’s down. Querer cada vez mais o desastre édipo-lírico. Apocalypse Now!

Não há formulação contrária à do vulcão: há acúmulo gradual de energia, de calor, ajuntamento progressivo da lava. Impossível que o jorro fosse tão lento: ele sempre esbanja, faz em segundos o que uma incrível e arcana labuta produziram. O prazer do domínio, a satisfação, só poderia ocorrer caso o acontecimento evidenciasse “sobras”. Há uma assimetria imburlável! Isso é o que eu chamaria sem dúvida de princípio de economia que subjaz em TODOS OS FENÔMENOS. Talvez a Segunda Guerra tenha sido uma orgia equiparável.

O gozo é uma parte mínima do ato de abrir e fechar o prepúcio; a masturbação é um naco ridículo da duração de um dia; o sonho, idem. Diante dos quatro anos de um curso de graduação a farra do trote nada é. Qualitativamente, no entanto, é um marco inesquecível. Copas do Mundo acontecem em um mês a cada 48 meses. A quarta-feira e o domingo valem inteiros pelo jogo de 2 horas. A longa música pelo pequeno riff. A espera pelo almoço devorado. A caminhada pela chegada. A aula pela gargalhada. Todas as aulas por AQUELA aula. Tudo pelo beijo. Toda a tinta da caneta por uma linha sábia. Todo o mês pelo momento de receber o salário. Trilhões de anos por uma era de ouro. Querer que a felicidade dure menos é a chave!

Reclam[ação] é isso: reclamar uma ação.

Os olhos mais cegos são os que mais querem enxergar…

Não há UM salão de dança para os que não dançam…

De 11 a 15 de novembro de 2009

[ARQUIVO] CADÊ OS MESTRES?

O que o professor deve ler para dar suas aulas de sociologia na escola? Esse problema é relacionado—porém não congruente!—com o do material didático que deve ser destinado aos alunos. Que este último deve ser simples, evitar ser prolixo, primar por ser direto e, com o perdão da redundância, “didático”, isto está fora de dúvida. Que deve ter sido feito por um especialista voltado tão-somente para os leigos, sem o ar empolado do cientista, isso acompanha a assertiva anterior. Porém, chegamos a um impasse: o professor não deveria partir do complexo para chegar a esse “simples” e mais acessível? Não vejo como um professor possa se basear em livros-textos para dar suas aulas de sociologia, por mais que elas tenham que ser dadas para pessoas que se baseiam nesses livros! Em outros termos, os professores-sociólogos têm de ler os clássicos/grandes/originais do campo da Sociologia, e depois, sim, pensar numa forma de transmissão que não agrida o cérebro do estudante. Ele não pode partir do “mais conveniente”, precisa mesmo voltar à fonte (não poderia ter esse diploma sem ter lido o que leu durante 4 anos), reentrar em contato com as problematizações sociológicas sem a intermediação de comentadores/abreviadores de raciocínio. A questão, no meu entender, é muito mais grave do que parece quando comparada a disciplinas como a História e a Filosofia, posto que os livros-textos dessas disciplinas já têm um enfoque tradicional: aqueles que começam hoje na labuta diária da classe já possuem uma herança, um arcabouço no qual se basear. Na Sociologia, batem cabeça e não sabem do que tratar ou falam o tempo todo de uma suposta “complexidade” da disciplina que se perdeu nos calabouços e porões onde os indivíduos guardam suas monografias e demais trabalhos acadêmicos, como se isso fosse conservar suas memórias intactas por tantos anos. Se há uma vantagem nesse cenário ainda precário, é que, nunca se tendo estabelecido a organização temática dos livros-textos em uníssono, temos ainda a liberdade de construir um programa do zero, mais flexível, que não precisa ser adotado sem adaptações em outras partes do Brasil, que oferece uma chance para nossa criatividade. Onde está esse tutorial mágico: “Leia ‘x’, ‘y’ e ‘z’ antes da aula sobre ‘Relações Étnicas’ ou ‘Mais-Valia’, ou ‘Minorias’ ou ‘Globalização’”? E há tempo para efetuar essas leituras? Enquanto se cultivar essa cultura de que ‘professor bom é o que cuida de mais turmas’ (afinal, boa remuneração é indício de capacitação), haverá sempre essa distorção, pois a tendência é que o profissional seja estrangulado pela falta de tempo e, conforme se torna mais requisitado e adentra a “dedicação exclusiva”, perca os meios de enriquecer os próprios atributos!

17 de fevereiro de 2011