Páginas destacadas e temáticas (ed. Escala):
28: o “homem da morfina”
31: representando uma comédia
38: “deserto”, “dragão”; a solidão do sábio, as agruras e a moral do mundo ocidental.
39: eu já sou a criança
40: a luta do dia a dia. Para o insone. É preciso cair desprotegido, acabar com o ranger de dentes.
43: metafísica antropomorfa
52: escrever com o sangue
83: a constante alegoria da flecha. Estás aqui, há ainda muito por viver…
86: a cidade de “Vaca Malhada”. Uma tarde de sabedoria.
96: desaguar no mar
116: sobre o iminente uso indevido dos postulados de Zaratustra
117: o asno
123: da sensualidade e da dança
125: sobre a perda de amigos
145: da sucessão dos poetas. Sensação de descrever o inefável em vão.
147: preservai os monumentos
156: para se livrar de Hegel
173: o anão e o eterno retorno; o pórtico do “instante”.
174: o jovem e a temerária serpente em sua boca
182: não há teias e fins, mas dados e jogadores
193: Estado e Capital
200: cena digna de Ulisses
219: o grande déspota que manipula o passado
233: do pensamento abissal
235: novo círculo, nova serpente. Velho expediente. Declaração de morte à metafísica.
287: o nojo da elite
291: “Tudo é permitido.”
303: paródia da bíblia. Mas esta é o livro inteiro! Ausência da mulher em qualquer candidato.
322: o homem, emulador de todos os animais
328: a Europa aleijada
Da desilusão histórico-maníaca nietzschiana ou a sucessão ad infinitum de erros humanos no projeto de consecução da transmutação de todos os valores. No final de O Anticristo—mas não só deste livro, e costumeiramente assim que realmente vai se acercando do fim do que ia dizer—é clarividente o tom lamurioso, a oscilação, provocados pela narrativa de momentos cruciais em que o homem moderno ou ainda o homem antigo mais tardio falhou ao intentar a milenar inversão de valores, fosse com a desagregação/implosão do Império Romano; o retrocesso da Renascença; ou as Cruzadas e a expulsão dos mouros. É como se insidiosamente o devir brindasse o homem sedento pela volta da nobreza com uma irônica solene recusa. Cabe todo esse descontentamento? Ele ser considerado válido dentro da habitual lógica nietzschiana? Que outras lições advêm daí? As características da nostalgia e do remorso são realmente chamativas em sua obra. Poderia isso querer dizer, em que pese tudo, que a realidade empírica do homem seja transfigurar-se em seu ideal, que ainda assim o ocaso e soçobramento do niilismo estão fora de questão? O que garante a ocorrência, por fim, desta tal “guerra santa de indivíduos” e o desmantelamento dos Estados-nações? De Sócrates a Lutero, Napoleão, César Augusto e César Bórgia e Maquiavel, ele parece não aceitar a efemeridade do gênio ou a faceta obscura dessas populações privilegiadas. Devemos assumir no mínimo que ninguém está isento de cometer seus errinhos, erros e grandes gafes.
“Zaratustra quis voltar a ser homem”
SOBRE COM QUE PESSOAS NÃO É FUNESTO LIDAR ROTINEIRAMENTE: “Gosto muito também dos pobres de espírito. Favorecem o sono. São bem-aventurados, mormente quando se lhes dá sempre razão”
“Teu Em-si se ri de teu Eu e de seus impulsos arrogantes.” O belo diálogo—ou ordens unilaterais—do instinto (do corpo, da matéria!) com a(à) consciência.
“Mais um século de leitores e o próprio espírito terá mau cheiro.”
“meu demônio (…) o espírito da gravidade”
“amamos a vida não porque estejamos habituados à vida, mas estamos habituados a amar.
Há sempre algo de loucura no amor, mas também há sempre algo de razão na loucura.”
“Onde acaba o Estado—Olhai para lá, meus irmãos! Não conseguis ver o arco-íris e as pontes que levam ao super-homem?”
“Teu sonho deve revelar-te o que faz teu amigo quando desperto.”
“Os mais afastados são os que pagam seu amor ao próximo e desde que vos reunis em cinco, um sexto é que vai morrer.”
“Enfim, meus irmãos, evitai ser injustos com os solitários. Como poderia um solitário esquecer? Como poderia tomar medidas?”
“Que filho não teria razão para chorar por causa de seus pais?”
“mesmo o mais astuto compra suas mulheres às cegas.”
“Muitas breves loucuras, isso é que chamais amor. (…) casamento (…) tolice prolongada.”
“Solitários de hoje, que viveis marginalizados, algum dia devereis chegar a ser um povo. De vós que vos escolhestes a vós mesmos, deverá surgir e crescer um povo eleito, do qual nascerá o super-homem.”
“Na verdade, vos aconselho: Afastai-vos de mim e precavei-vos contra Zaratustra! Melhor ainda, envergonhai-vos dele! Talvez vos tenha enganado!”
“E o grande meio-dia será quando o homem estiver na metade de seu trajeto, entre o animal e o super-homem, se mantiver firme, como sua esperança suprema, e festeja seu caminho para o acaso, porquanto será o caminho para uma nova manhã” “E o sol do conhecimento atingirá seu zênite.”
“Em torno de nós reina o outono”
“Se existissem deuses, como poderia eu suportar não ser um deus? Por conseguinte, não há deuses.”
“Nunca houve até hoje um super-homem”
“Em meus filhos quero remediar o fato de ter sido filho de meus pais. E, no futuro, todo, quero remediar este presente.”
“É difícil viver entre os homens porque é muito difícil calar. Sobretudo para um falador.”
“e aquele que quiser permanecer limpo entre os homens deve aprender a lavar-se em água suja”
“Até acredita em vossas mentiras, se mentis bem a respeito dele, porque no fundo do coração suspira: ‘Quem sou eu?’”
“Bendito seja aquele que endurece!”
“Aquele que foi de minha têmpera tropeçará em seu caminho com aventuras iguais às minhas, de forma que seus primeiros companheiros só poderão ser cadáveres e palhaços.
Seus segundos companheiros, porém, serão chamados seus fiéis: um enxame animado, muito amor, muita loucura, muita veneração juvenil.
A estes fiéis não deverá ligar seu coração aquele que dentre os homens for de minha índole. Nessas primaveras e nesses prados de variadas cores, aquele que conhece não deve dar confiança à fraca e fugitiva espécie humana.”
“Para ti, é uma vergonha rezar!”
“Não consiste precisamente a divindade em haver deuses, e que Deus não exista?”
“Esquece-se o que os homens são quando se vive com eles.”
“Há também outros cantores que não têm a garganta expedita, a mão eloqüente, expressivo o olhar e o coração desperto, senão quando têm a casa cheia. Não me pareço com eles.”
“E algumas invenções são tão boas que, como o seio da mulher, são úteis e agradáveis ao mesmo tempo.”
“A sociedade humana é uma tentativa, assim eu ensino, uma longa investigação, mas uma investigação de quem manda.
Uma tentativa, meus irmãos, e não um ‘contrato’.”
“A todos os momentos a existência principia. Em torno de cada aqui, gira a bola acolá. O centro está em toda parte. A senda da eternidade é tortuosa.”
“o canto é o que convém a convalescentes”
“Ensinar que há um grande ano de devir, um ano monstruoso que, à semelhança de um relógio de areia, tem sempre que se voltar novamente para correr e se esvaziar outra vez.” “O nós das causas em que me encontro tornará a criar-me! Eu mesmo pertenço às causas do eterno regresso das coisas.”
“Todas as palavras não foram feitas para os que são pesados? Não mentem todas as palavras ao que é leve? Canta! Não fales mais!”
“Não cantes! Silêncio! O mundo é perfeito.”
“Que aconteceria se aquele, cujo pai foi afeiçoado às mulheres, aos vinhos fortes e aos javalis, exigisse de si castidade?”
AS CINDERELAS: “A meia-noite é também meio-dia”
“se algum dia quisestes que uma vez se repetisse, se algum dia dissestes: ‘Agradas-me, felicidade! Instante, momento!’ Então quisestes que tudo retornasse.”
Anotações de cunho pessoal & Poesia:
Este sou eu que, na primeira vez em que li esta obra a sério (…) estava sufocado e necessitando me apartar. Hoje o movimento é reverso, também na pureza. Andando em círculos?…
Eu tenho mãos e pés! O que mais eu poderia querer?
Um maldito com uma navalha ensaiou a destruição do cosmo!
Eu estou em busca de um exército! De certa fama “diferente” na cidade. Um respeito mesclado com temor. Como andar sempre no limbo entre o imprestável e o impecável, porque pecaminoso mesmo é fracassar por excesso de uma só coisa, hipertrofia de uma convicção, quer dizer, do olho que agora nada vê. Cornucópia que pretende ser uma armadilha de coelho ou rato para afastar toda a fauna exótica (…) e me distrair de mim mesmo.
Todos são apenas macacos imutáveis—eu sou o único em movimento. Caricaturas de desenvolvimento: (…) Todos estagnados diante da própria essência. Hoje eu sou um ponto, uma estrela, no firmamento de (…) Em breve terei feito os mais velhos comerem poeira cósmica: (…) e o que subsistirá? Os mortos, os clássicos… O insondável.
Não parece estranho que nunca tenha sonhado, ao longo desses anos todos, nem tenha ouvido relatos a respeito, que eu mesmo fosse deus, que de algum modo adquiria a onipotência—mas esse sujeito é aquele que sabe que num instante vai acordar? T.E., o último discípulo viúvo, me persegue nessas representações, como um lado gosmento e sórdido da inconsciência superada.
E aquele que cai doente, sem quem lhe dê de comer?
Os animais antropomorfos de Zaratustra—fiéis escudeiros—a meio caminho?
Que fazer, eu que nem os animais ideais tenho?
Cerveja e masturbação. Há de alguma forma uma pureza em quem passou a vida ao lado de uma única e jamais experimentou entorpecentes ilegais. Eu: alguém que não teve coragem de se servir de uma prostituta. Mas não devemos fazer propaganda, e por dois motivos. Não esquecer também da outra metade da família. TRABALHADORES. DESPREZADORES. Eu que não amo minha ascendência. Por isso é que eu acho: numa briga de vida ou morte com alguém fisicamente mais forte, eu levaria vantagem. O BRAVO. Sou o escriba encarregado de sistematizar as qualidades dos meus últimos parentes?
Imagina teu futuro mais funesto, e lento! Isso será razão para praguejar? Só temos voz para o presente. Se bem que o presente é um elo de uma cadeia, que o comanda, ele mesmo um dos líderes dessa cadeia. Aqui fala um soberano e eleito, elo da cadeia fenomenal chamada humanidade, esta uma das argolas do colar chamado mundo! Aqui não se trata de bijuteria, pois não se pode quebrar, cada peça precisa ser mais maleável que a borracha e mais resistente que o diamante! Então o que eu digo, petulante, hoje? Para ser frase eterna, que seja: já muito eu venci… Justifiquei-o?
De 10 a 19 de março de 2011

