INVESTIGAÇÕES SOBRE O ENTENDIMENTO HUMANO & SOBRE OS PRINCÍPIOS DA MORAL – Hume (trad. José Oscar de Almeida Marques)

Continuador da tradição empirista inaugurada por Bacon e desenvolvida por Locke e Berkeley, levou-a a sua mais extrema conclusão, culminando em um sistema que tem sido injustamente acusado de ser excessivamente cético e de privar a ciência e a moral de qualquer justificação racional. Os dois textos aqui apresentados têm uma origem comum, sendo ambos condensações e reelaborações de partes de uma obra mais vasta, o Tratado da natureza humana, que David Hume (1711-1776) redigiu em sua juventude (1737)”

Convencido de que o problema não estava no conteúdo de seu Tratado mas no estilo de sua exposição, Hume decidiu, alguns anos mais tarde, extrair dele duas obras mais curtas, nas quais procurou dar um tom acessível ao texto, eliminar a prolixidade argumentativa, suprimir os tópicos não-essenciais para a condução de seu argumento central e cuidar ao máximo da clareza da expressão.¹ São essas as duas Investigações reunidas no presente volume: a Investigação sobre o entendimento humano e a Investigação sobre os princípios da moral, extraídas do primeiro e do terceiro livros do Tratado e publicadas respectivamente em 1748 e 1751. Uma terceira obra, a Dissertação sobre as paixões, extrato do Livro II do Tratado e publicada em 1757, carece de maior relevância. De fato, os tópicos de maior interesse filosófico do Livro II, como a discussão da liberdade e da necessidade, já haviam sido incluídos na primeira Investigacão.”

¹ Se ao menos metade dos filósofos clássicos tivesse se preocupado em fazê-lo…

Acrescento algumas palavras sobre as presentes traduções. As duas Investigações já haviam sido anteriormente publicadas no Brasil – a primeira (em duas traduções distintas) na coleção Os Pensadores, e a segunda, traduzida por mim para a Editora da Unicamp, em 1995, tomando-se como base, em todos esses casos, a clássica edição de L.A. Selby-Bigge, à época a edição mais respeitada desses textos de Hume. O aparecimento, em 1998 e 1999, das novas edições preparadas por Tom L. Beauchamp para a série Oxford Philosophical Texts, da Oxford University Press, estabeleceu um novo standard acadêmico e abriu a oportunidade para o preparo de novas traduções brasileiras, o que fui feito quase imediatamente no caso da Investigação sobre o entendimento humano, publicada já em 1999 pela Editora UNESP.”

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UMA INVESTIGAÇÃO SOBRE O ENTENDIMENTO HUMANO

SEÇÃO 1. DAS DIFERENTES ESPÉCIES DE FILOSOFIA

P. 19: crítica da filosofia moral até sua época (encarnada nos pragmatistas); chamemo-la de Filosofia A, doravante.

P. 20: crítica do racionalismo cartesiano (encarnada pelos pensantes), a Filosofia B doravante.

Hume efetuará a sua síntese entre ambas.

Um prefácio digno de um britânico fleumático: “É certo que, para o grosso da humanidade, a filosofia simples e acessível [A] terá sempre preferência sobre a filosofia exata e abstrusa, [B] e será louvada por muitos não apenas como mais agradável, mas também como mais útil que a outra.”

É fácil para um filósofo profundo cometer um engano em seus sutis raciocínios, e um engano é necessariamente o gerador de outro; ele, entretanto, segue todas as conseqüências e não hesita em endossar qualquer conclusão a que chegue, por mais inusitada ou conflitante com a opinião popular.” Podemos dizer que Schopenhauer foi o representante da filosofia B de maior calibre, e que errou exatamente desta maneira. Os “filósofos A”, enquanto pregadores morais, estão mais para “ensaístas”, concatenam idéias provisoriamente apenas, sem compromisso. Ex: La Rochefoucauld.

Ruim de chute (é impossível sepultar escolas filosóficas, elas sempre voltam à moda): “A fama de Cícero floresce no presente, mas a de Aristóteles está completamente arruinada. La Bruyère atravessa os mares e ainda mantém sua reputação, mas a glória de Malebranche está confinada à sua própria nação e à sua própria época. E Addison, talvez, ainda será lido com prazer quando Locke estiver inteiramente esquecido.”

O filósofo puro é um personagem que em geral não é muito bem-aceito pelo mundo, pois supõe-se que ele em nada contribui para o proveito ou deleite da sociedade, ao viver longe do contato com os seres humanos e envolvido com princípios e idéias não menos distantes da compreensão destes. Por outro lado, o mero ignorante é ainda mais desprezado; e, em uma época e nação em que florescem as ciências, não há sinal mais seguro de estreiteza de espírito que o de não se sentir minimamente atraído por esses nobres afazeres.”

chega[mos] mesmo à absoluta rejeição de todos os raciocínios mais aprofundados (…) [da] metafísica

O anatomista põe-nos diante dos olhos os objetos mais horrendos e desagradáveis, mas sua ciência é útil ao pintor para delinear até mesmo uma Vênus ou uma Helena.”

Um otimista incubado: “E embora um filósofo possa viver afastado dos assuntos práticos, o espírito característico da filosofia, se muitos o cultivarem cuidadosamente, não poderá deixar de se difundir gradualmente por toda a sociedade e conferir uma similar exatidão a todo ofício e vocação.” “A estabilidade dos governos modernos, em comparação aos antigos, e a precisão da moderna filosofia têm-se aperfeiçoado e provavelmente irão ainda se aperfeiçoar por gradações similares.”

E embora essas pesquisas possam parecer penosas e fatigantes, ocorre com algumas mentes o mesmo que com alguns corpos, os quais, tendo sido dotados de uma saúde vigorosa e exuberante, requerem severo exercício e colhem prazer daquilo que parece árduo e laborioso à humanidade em geral.”

Todo gênio audaz continuará lançando-se ao árduo prêmio e considerar-se-á antes estimulado que desencorajado pelos fracassos de seus predecessores, esperando que a glória de alcançar sucesso em tão difícil empreitada esteja reservada apenas para si.”

devemos dedicar algum cuidado ao cultivo da verdadeira metafísica a fim de destruir aquela que é falsa e adulterada.”

Constitui, assim, uma parte nada desprezível da ciência a mera tarefa de reconhecer as diferentes operações da mente, distingui-las umas das outras, classificá-las sob os títulos adequados e corrigir toda aquela aparente desordem na qual mergulham quando tomadas como objetos de pesquisa e reflexão.”

Tampouco pode restar alguma suspeita de que essa ciência seja incerta ou quimérica, a menos que alimentemos um ceticismo tão completo que subverta inteiramente toda especulação e, mais ainda, toda a ação.”

E deveríamos porventura considerar digno do trabalho de um filósofo fornecer-nos o verdadeiro sistema dos planetas e conciliar a posição e a ordem desses corpos longínquos, ao mesmo tempo que simulamos desconhecer aqueles que com tanto sucesso delineiam as partes da mente que de tão perto nos dizem respeito?” “Os astrônomos por muito tempo se contentaram em deduzir dos fenômenos visíveis os verdadeiros movimentos, ordem e magnitude dos corpos celestes, até surgir finalmente um filósofo que, pelos mais afortunados raciocínios, parece ter determinado também as leis e forças que governam e dirigem as revoluções dos planetas.”

Renunciar imediatamente a todas as expectativas dessa espécie pode ser com razão classificado como mais brusco, precipitado e dogmático que a mais ousada e afirmativa filosofia que já tenha tentado impor suas rudes doutrinas e princípios à humanidade.”

SEÇÃO 2. DA ORIGEM DAS IDÉIAS

Diga a um racionalista: Filosofe sobre a tortura, se queres tanto filosofar!

Entendo pelo termo impressão, portanto, todas as nossas percepções mais vívidas, sempre que ouvimos, ou vemos, ou sentimos, ou amamos, ou odiamos, ou desejamos ou exercemos nossa vontade. E impressões são distintas das idéias, que são as percepções menos vívidas, das quais estamos conscientes quando refletimos sobre quaisquer umas das sensações ou atividades já mencionadas.”

…e nada há que esteja fora do alcance do pensamento, exceto aquilo que implica uma absoluta contradição.” Ainda sob a sombra da opaca lógica aristotélica. Veremos isso com muito mais detalhes a seguir. Mas é curioso que a última página (e o limite teórico, por igual) da maior obra de Schopenhauer também seja inteiramente dominada pela mesma “sombra”…

INTUIÇÃO + MATEMÁTICA: “A idéia de Deus, no sentido de um Ser infinitamente inteligente, sábio e bondoso, surge da reflexão sobre as operações de nossa própria mente e do aumento ilimitado dessas qualidades de bondade e sabedoria.”

um lapão ou um negro não têm idéia do sabor do vinho.”

Portanto, sempre que alimentamos alguma suspeita de que um termo filosófico esteja sendo empregado sem nenhum significado ou idéia associada (como freqüentemente ocorre), precisaremos apenas indagar: de que impressão deriva esta suposta idéia?

a palavra idéia parece ter sido tomada usualmente num sentido muito amplo por Locke e outros, como significando qualquer uma de nossas percepções, nossas sensações e paixões, bem como pensamentos.” “L. caiu na armadilha dos escolásticos, os quais, ao fazerem uso de termos não-definidos, alongam tediosamente suas disputas sem jamais tocar no ponto em questão.”

SEÇÃO 3. DA ASSOCIAÇÃO DE IDÉIAS

Pelo menos 250 anos de antecipação a Freud: “Mesmo em nossos devaneios mais desenfreados e errantes – e não somente neles, mas até em nossos próprios sonhos – descobrimos, se refletirmos, que a imaginação não correu inteiramente à solta, mas houve uma ligação entre as diferentes idéias que se sucederam umas às outras.”

Embora o fato de que diferentes idéias estejam conectadas seja demasiado óbvio para escapar à observação, não é de meu conhecimento que algum filósofo tenha tentado enumerar ou classificar todos os princípios de associação; um assunto que, entretanto, parece digno de investigação. De minha parte, parece haver apenas 3 princípios de conexão entre as idéias, a saber, semelhança, contigüidade no tempo ou no espaço, e causa ou efeito.”

Como o homem é um ser dotado de razão e está continuamente em busca de uma felicidade…”

Como essa regra não admite nenhuma exceção, segue-se que, em composições narrativas, os acontecimentos ou ações que o escritor relata devem estar conectados por algum vínculo ou liame.”

Ovídio baseou seu plano no princípio de conexão por semelhança.”

Um analista ou historiador que se propusesse a escrever a história da Europa em um determinado século seria influenciado pela conexão de contigüidade”

Mas a espécie mais usual de conexão entre os diferentes acontecimentos que figuram em qualquer composição narrativa é a de causa e efeito”

Parece também que mesmo um biógrafo que fosse escrever a vida de Aquiles iria conectar os acontecimentos, mostrando suas relações e dependências mútuas, tanto quanto um poeta que fosse fazer da ira desse herói o assunto de sua narrativa, contrariamente a Aristóteles, Poética.” Talvez Ar. tenha sido enganado pelo procedimento de Homero na Ilíada. A propósito do quê H. não esquecerá de comentar: “Surge daí o artifício da narrativa oblíqua, empregada na Odisséia e na Eneida, em que o herói é inicialmente apresentado próximo à consecução de seus desígnios e posteriormente nos revela, como que em perspectiva, as causas e eventos mais distantes. Com esse método excita-se de imediato a curiosidade do leitor: os eventos seguem-se com rapidez e em estreita conexão, a atenção mantém-se viva e, por meio da relação próxima dos objetos, cresce continuamente do começo ao fim da narrativa.”

A mesma regra vale para a poesia dramática, não se permitindo, em uma composição regular, a introdução de um ator que tenha pouca ou nenhuma relação com os personagens principais do enredo.”

Pode-se objetar a Milton que ele foi muito longe no traçado de suas causas, e que a rebelião dos anjos produz a queda do homem por uma sucessão de eventos que é ao mesmo tempo muito longa e muito fortuita, para não mencionar que a criação do mundo, da qual ele dá um extenso relato, não é a causa dessa catástrofe mais do que da batalha de Farsália ou de qualquer outro evento já ocorrido. Mas se considerarmos que esses eventos todos: a rebelião dos anjos, a criação do mundo e a queda do homem assemelham-se uns aos outros por serem miraculosos e estarem fora do curso ordinário da natureza; que eles são considerados contíguos no tempo; e que, estando desconectados de todos os outros eventos e sendo os únicos fatos originais dados a conhecer pela revelação, chamam de imediato a atenção e evocam-se naturalmente uns aos outros no pensamento e na imaginação (…) [é] uma unidade suficiente”

A explicação completa deste princípio e de todas as suas conseqüências levar-nos-ia a raciocínios demasiado vastos e profundos para esta investigação.”

SEÇÃO 4. DÚVIDAS CÉTICAS SOBRE AS OPERAÇÕES DO ENTENDIMENTO

Parte 1

O ANTI-KANT: “Arrisco-me a afirmar, a título de uma proposta geral que não admite exceções, que o conhecimento dessa relação [de qualquer relação de fatos] não é, em nenhum caso, alcançado por meio de raciocínios a priori, mas provém inteiramente da experiência”

O mesmo conteúdo que em Schopenhauer: “Quanto às causas dessas causas gerais, entretanto, será em vão que procuremos descobri-las; e nenhuma explicação particular delas será jamais capaz de nos satisfazer. Esses móveis princípios fundamentais estão totalmente vedados à curiosidade e à investigação humanas. Elasticidade, gravidade, coesão de partes, comunicação de movimento por impulso – essas são provavelmente as últimas causas e princípios que será dado descobrir na natureza” Todos o afirmariam antes da eletricidade.

o resultado de toda filosofia é a constatação da cegueira e debilidade humanas”

Mesmo a geometria, quando chamada a auxiliar a filosofia natural, é incapaz de corrigir esse defeito ou de nos levar ao conhecimento das causas últimas”

Parte 2

Se houver qualquer suspeita de que o curso da natureza possa vir a modificar-se, e que o passado possa não ser uma regra para o futuro, toda a experiência se tornará inútil e incapaz de dar origem a qualquer inferência ou conclusão. (…) Por mais regular que se admita ter sido até agora o curso das coisas, isso, isoladamente, sem algum novo argumento ou inferência, não prova que, no futuro, ele continuará a sê-lo. (…) sua natureza secreta e, conseqüentemente, todos os seus efeitos e influências podem modificar-se sem que suas qualidades sensíveis alterem-se minimamente.”

SEÇÃO 5. SOLUÇÃO CÉTICA DESSAS DÚVIDAS

Parte 1

É certo que, ao buscarmos atingir a elevação e a firmeza espiritual do sábio filósofo e esforçarmo-nos para confinar nossos prazeres exclusivamente ao campo de nossas próprias mentes, poderemos acabar tornando nossa filosofia semelhante à de Epicteto e outros estóicos, ou seja, simplesmente um sistema mais refinado de egoísmo

Há no entanto uma espécie de filosofia que parece pouco sujeita a esse inconveniente, pois não se harmoniza com nenhuma paixão desordenada da mente humana, nem se mistura, ela própria, a nenhuma afecção ou inclinação naturais; essa é a filosofia acadêmica ou cética.” “uma filosofia como essa é o que há de mais contrário à indolência acomodada da mente, sua arrogância irrefletida, suas grandiosas pretensões e sua credulidade supersticiosa.” “Surpreende que essa filosofia – que em quase todas as ocasiões deve mostrar-se inofensiva e inocente – seja objeto de tantas censuras e reprovações infundadas.”

Parte 2

Segue-se uma clássica crítica do catolicismo por parte de um inglês protestante do século XVIII.

nossas emoções são mais fortemente despertadas quando vemos os locais que se diz terem sido freqüentados por homens ilustres do que quando ouvimos contar seus feitos ou lemos seus escritos. É assim que me sinto agora. Vem-me à mente Platão, de quem se diz ter sido o primeiro a entreter discussões neste lugar [a Academia de Atenas], e de fato o pequeno jardim acolá não apenas traz sua memória mas põe, por assim dizer, o próprio homem diante de meus olhos. E aqui está Espêusipo, aqui Xenócrates e seu discípulo Polemo, que costumava ocupar o próprio assento que ali vemos. E mesmo nosso edifício do Senado (refiro-me à Cúria Hostília, não ao novo edifício, que me parece ter-se tornado menor depois da ampliação)¹ trazia-me ao pensamento os vultos de Cipião, Catão, Lélio e principalmente de meu avô. Tal é o poder de evocação que reside nos locais, e não é sem razão que neles se baseia a arte da mnemônica.” Marco Piso

¹ Os homens são rabugentos e apegados ao passado em todas as eras.

Suponhamos que nos fosse apresentado o filho de um amigo há muito tempo morto ou ausente; é claro que esse objeto faria instantaneamente reviver sua idéia correlativa e traria a nossos pensamentos todas as lembranças dos momentos íntimos e familiares do passado, em cores mais vívidas do que de outro modo nos teriam aparecido. Eis aqui outro fenômeno que parece comprovar o princípio já mencionado.”

A influência do retrato supõe que acreditemos que nosso amigo tenha alguma vez existido. A contiguidade ao lar não poderia excitar as idéias que temos dele a menos que acreditemos que realmente exista.”

Não é verdade que, quando uma espada é empunhada contra meu peito, a idéia do ferimento e da dor me afeta mais fortemente do que quando me é oferecida uma taça de vinho, mesmo que tal idéia viesse por acidente a ocorrer-me quando do aparecimento desse último objeto?” Aonde você quer chegar, meu caro?

Assim como a natureza ensinou-nos o uso de nossos membros sem nos dar o conhecimento dos músculos e nervos que os comandam, [?] do mesmo modo ela implantou em nós um instinto que leva adiante o pensamento em um curso corresponde ao que ela estabeleceu para os objetos externos, [??] embora ignoremos os poderes e as forças dos quais esse curso e sucessão regulares de objetos totalmente depende. [!]”

[?] E quem é esta natureza, ente transcendental de seu sistema?

[??] “Implantaram-nos” instintos (voz passiva) que levam adiante pensamentos relativos a objetos exteriores? Características inatas cujo objetivo mesmo é lidar com o contingente? Mal-formulado!

[!] Finalmente uma afirmação competente no parágrafo – porém só mostra a vaidade da “filosofia cética”…

SEÇÃO 6. DA PROBABILIDADE

Embora não haja no mundo isso que se denominou acaso

SEÇÃO 7. DA IDÉIA DE CONEXÃO NECESSÁRIA

Parte 1

Na realidade, dificilmente se encontrará em Euclides uma proposição tão simples que não contenha mais partes do que se pode encontrar em qualquer raciocínio moral que não enverede pela fantasia e presunção.” “Como a filosofia moral [A] parece ter recebido até agora menos aperfeiçoamentos que a geometria ou a física, podemos concluir que, se há alguma diferença a esse respeito entre essas ciências, as dificuldades que atravancam o progresso da 1ª requerem maior cuidado e aptidão para serem sobrepujadas.

Não há, entre as idéias que ocorrem na metafísica, [B] outras mais incertas e obscuras que as de poder, força, energia ou conexão necessária, das quais nos é forçoso tratar a cada instante em todas as nossas investigações.” E no entanto, nada há de mais certo que a existência e ubiqüidade mesmo desse poder.

O cenário do universo está em contínua mutação, e os objetos seguem-se uns aos outros em sucessão ininterrupta, mas o poder ou força que põe toda essa máquina em movimento está completamente oculto de nossa vista e nunca se manifesta em nenhuma das qualidades sensíveis dos corpos.”

Pode-se dizer que a todo instante estamos conscientes de um poder interno, quando sentimos que, pelo simples comando de nossa vontade, podemos mover os órgãos de nosso corpo ou direcionar as faculdades de nosso espírito. Um ato de volição produz movimento em nossos membros ou faz surgir uma nova idéia em nossa imaginação. Essa influência da vontade nos é dada a conhecer pela consciência. Dela adquirimos a idéia de poder ou energia, e ficamos certos de que nós próprios e todos os outros seres inteligentes estamos dotados de poder. Essa idéia, então, é uma idéia de reflexão, dado que a obtemos refletindo sobre as operações de nossa própria mente e sobre o comando que a vontade exerce tanto sobre os órgãos do corpo como sobre as faculdades da alma.”

Essa influência, observa-se, é um fato que, como todos os outros acontecimentos naturais, pode ser conhecido apenas pela experiência” “a energia pela qual a vontade executa uma tão extraordinária operação, tudo isso está tão longe de nossa consciência imediata que deve para sempre escapar às nossas mais diligentes investigações.” Touché!

Se estivesse em nosso poder remover montanhas por um recôndito desejo, ou controlar os planetas em suas órbitas, essa vasta autoridade não seria mais extraordinária nem estaria mais distante de nossa compreensão.”

deveríamos conhecer a união secreta entre a alma e o corpo e a natureza dessas 2 substâncias que torna uma delas capaz de operar sobre a outra em um número tão grande de casos.”

Por que a vontade tem uma influência sobre a língua e os dedos, mas não sobre o coração e o fígado?” Curiosidade de colegial…

aprendemos em anatomia que o objeto imediato do poder no movimento voluntário não é o próprio membro movido, mas certos músculos, nervos, e espíritos animais, [?] ou talvez algo ainda mais minúsculo e mais desconhecido, através dos quais o movimento sucessivamente se propaga antes de atingir propriamente o membro cujo movimento é o objeto imediato da volição.” Então estávamos ou estamos inclusive hoje, antes das próximos descobertas, experimentando tudo errado, senhor?

O que ocorre aqui é que a mente executa um ato da vontade que tem como objeto um certo acontecimento e imediatamente se produz um outro acontecimento que nos é desconhecido e difere totalmente daquele que se tencionava produzir. E esse acontecimento produz outro, também desconhecido, até que, por fim, após uma longa sucessão, produz-se o acontecimento desejado.”

nossa idéia de poder não é copiada de nenhum sentimento ou consciência de poder que porventura experimentemos em nosso interior ao darmos início ao movimento animal ou empregarmos nossos membros nos usos e afazeres que lhes são próprios.” “Este nisus, ou esforço intenso do qual estamos conscientes, é a impressão original da qual essa idéia é copiada. Mas, em 1º lugar, atribuímos poderes a um vasto número de objetos com referência aos quais não é lícito supor a ocorrência de tal resistência ou exercício de força: ao Ser Supremo, que nunca depara com nenhuma resistência (…) Em segundo lugar, esse sentimento de um esforço para sobrepujar uma resistência não tem conexão conhecida com nenhum acontecimento (…) não poderíamos sabê-lo a priori.” “O que se tem aqui é uma genuína criação: a produção de alguma coisa a partir do nada”

Nossa autoridade sobre os nossos sentimentos e paixões é muito mais tênue que sobre nossas idéias, e mesmo esta última autoridade está circunscrita a limites bem estreitos. Quem pretenderá indicar a razão última?” Hume já sente a ponta do iceberg do niilismo…

Dominamos melhor nossos pensamentos pela manhã do que à noite”

IN COVID TIMES… “É só com a descoberta de fenômenos extraordinários como terremotos, peste e prodígios de qualquer outro tipo que a gente comum se sente incapaz de indicar uma causa adequada e de explicar o modo pelo qual o efeito é produzido por ela. É comum que pessoas em tais dificuldades recorram a algum princípio inteligente invisível (deus ex machina) como causa imediata do acontecimento que as surpreende e que elas julgam não mais poder ser explicado pelos poderes usuais da natureza.”

Aqui, então, muitos filósofos sentem-se obrigados pela razão a recorrer, em todas as ocasiões, ao mesmo princípio que o vulgo não emprega a não ser em casos que parecem miraculosos ou sobrenaturais.”

Nossa linha é demasiado curta para sondar abismos tão imensos.”

Nunca foi intenção de sir Isaac Newton destituir as causas segundas¹ de toda sua força ou energia, embora alguns de seus seguidores tenham se esforçado para estabelecer essa teoria valendo-se de sua autoridade. Pelo contrário, aquele grande filósofo [hm] lançou mão de um fluido ativo etéreo para explicar sua atração universal, embora tenha sido suficientemente cauteloso e modesto para admitir que se tratava de mera hipótese sobre a qual não se deveria insistir sem mais experimentos.² (…) Descartes sugeriu aquela doutrina da eficácia única e universal da Divindade, sem nela insistir. Malebranche e outros cartesianos tornaram-na o fundamento de toda sua filosofia.”

¹ Lei de causalidade, gravitação, etc.!

² O que desagradou os positivistas de então é que ele recuou demais: escolasticamente, atribuiu tudo a Deus! Laplace (da geração seguinte a Hume) refutaria o deísmo newtoniano com leis mais abrangentes sobre o sistema solar inteiro (avanço da matemática no período).

Parte 2

Todos os acontecimentos parecem inteiramente soltos e separados. Um acontecimento segue outro, mas jamais nos é dado observar qualquer liame entre eles. Eles parecem conjugados, mas nunca conectados. E como não podemos ter nenhuma idéia de uma coisa que nunca se apresentou ao nosso sentido exterior ou sentimento interior, a conclusão inevitável parece ser que não temos absolutamente nenhuma idéia de conexão ou de poder, e que essas palavras acham-se totalmente desprovidas de significado quando empregadas tanto no raciocínio filosófico quanto na vida ordinária.” “ele agora sente que esses acontecimentos estão conectados em sua imaginação”

SEÇÃO 8. DA LIBERDADE E NECESSIDADE

Parte 1

Espero tornar evidente que todos os homens sempre concordaram tanto sobre a doutrina da necessidade quanto sobre a da liberdade, em qualquer sentido razoável que se possa dar a esses termos, e que toda a controvérsia girou até agora meramente em torno de palavras.”

Quer-se conhecer os sentimentos, inclinações e modo de vida dos gregos e romanos? Estude-se bem o temperamento e a as ações dos franceses e ingleses” Far-fetched!

a terra, a água e outros elementos examinados por Ar. e Hipócrates não se assemelham mais aos que estão presentemente dados à nossa observação do que os homens descritos por Políbio e Tácito assemelham-se aos que agora governam o mundo.”

A veracidade de Quinto Cúrcio é tão suspeita quando descreve a coragem sobrenatural de Alexandre que o impelia a atacar sozinho multidões, como quando descreve sua força e atuação sobrenaturais que o tornavam capaz de resistir a essas mesmas multidões.”

A necessidade de qualquer ação, quer da matéria quer da mente, não é, propriamente, uma qualidade que esteja no agente, mas em um ser qualquer, dotado de pensamento e intelecto, que possa observar a ação; e consiste principalmente no fato de seus pensamentos estarem determinados a inferir a existência daquela ação a partir de alguns objetos precedentes”

sentimos que a vontade se move facilmente em todas as direções e produz uma imagem de si própria (ou uma veleidade, como se diz nas escolas) mesmo naquele lado no qual não veio a se fixar.”

Parte 2

(…)

SEÇÃO 9. DA RAZÃO DOS ANIMAIS

E não é igualmente a experiência que o faz até mesmo responder a seu nome e inferir, a partir desse som arbitrário, que referimo-nos a ele e não a algum outro de seus companheiros, e que o estamos chamando quando pronunciamos esse som de uma certa maneira e com um certo tom e inflexão?”

Formular máximas gerais a partir de observações particulares é uma operação muito delicada, e nada é mais usual do que enganar-se nessa atividade, pela pressa ou por uma estreiteza da mente que não examina a questão sob todos os seus ângulos.” Procedimento muito corriqueiro na Filosofia A.

SEÇÃO 10. DOS MILAGRES

Parte 1

a evidência que temos para a veracidade da religião cristã é menor que a evidência para a veracidade de nossos sentidos, porque já não era maior que esta nem mesmo nos primeiros autores de nossa religião, devendo certamente diminuir ao passar deles para seus discípulos, e ninguém pode depositar nos relatos destes tanta confiança quanto no objeto imediato de seus sentidos.” “Nada é tão convincente quanto um argumento conclusivo dessa espécie, que deve no mínimo silenciar o fanatismo e a superstição mais arrogantes e livrar-nos de suas exigências descabidas.”

Não fosse a memória dotada de um certo grau de obstinação, não se inclinassem comumente os homens à verdade e a um princípio de probidade, não fossem eles sensíveis à vergonha de serem apanhados mentindo, se estas qualidades, eu digo, não fossem reveladas pela experiência como inerentes à natureza humana, então não teríamos por que depositar a menor confiança no testemunho humano. Um homem que delira, ou é famoso pela sua falsidade e baixeza, não tem perante nós a menor autoridade.” Vivo no século do vil delírio.

A razão pela qual damos algum crédito a testemunhas e historiadores não deriva de qualquer conexão que percebamos a priori entre o testemunho e a realidade, mas de estarmos acostumados a encontrar uma concordância entre essas coisas.”

Eu não acreditaria em tal história, ainda que ela me fosse contada pelo próprio Catão, era um dito proverbial em Roma.”

Raciocinava corretamente o príncipe indiano que se recusou a acreditar nos primeiros relatos acerca dos efeitos do congelamento; e seria naturalmente necessário um testemunho muito poderoso para fazê-lo admitir fatos que decorrem de uma condição da natureza com a qual ele não estava familiarizado e que apresentavam tão pouca analogia com os acontecimentos dos quais tinha tido experiência constante e uniforme.”

Parte 2

não se encontra em toda a história nenhum milagre atestado por um número suficiente de homens de bom senso, educação e saber tão inquestionáveis que nos garantam contra toda possibilidade de estarem eles próprios enganados; de integridade tão indubitável que os coloque acima de qualquer suspeita de pretenderem iludir outros; de tal crédito e reputação aos olhos da humanidade que tenham muito a perder no caso de serem apanhados em qualquer falsidade; e, ao mesmo tempo, que atestem fatos realizados de maneira tão pública e em uma parte do mundo tão conhecida que não se pudesse evitar o desmascaramento.”

os efeitos que com muita dificuldade um Túlio ou um Demóstenes poderia obter sobre uma platéia romana ou ateniense, qualquer capuchinho, qualquer mestre itinerante ou estabelecido pode alcançar sobre o grosso da humanidade, e num grau mais elevado, manipulando essas paixões rudes e vulgares.”

nem bem 2 jovens de mesma condição vêem-se por duas vezes e a vizinhança inteira já os une imediatamente por casamento.”

Quando examinamos as histórias primevas de todas as nações, sentimo-nos como que transportados a algum mundo novo, no qual todo o arcabouço da natureza se acha desarticulado, e cada elemento realiza suas operações de uma maneira diferente da que o faz presentemente.”

nem sempre ocorre que todo Alexandre depare com um Luciano pronto a denunciar e desmascarar suas imposturas.” Personagens desconhecidos.

Um dos mais bem-atestados milagres em toda a história profana é aquele que Tácito conta de Vespasiano, que curou um cego em Alexandria por meio de sua saliva e um coxo com o simples toque de seu pé, em obediência a uma visão que estes tiveram do deus Serápis, o qual lhes ordenara recorrer ao imperador para obter essas curas milagrosas. Além disso, Suetônio oferece quase o mesmo relato em sua Vida de Vespasiano.” “Tácito era um autor contemporâneo aos fatos, famoso pela sinceridade e fidedignidade e, além disso, o maior e mais penetrante gênio, talvez, de toda a Antiguidade” “as testemunhas oculares do fato continuaram a confirmar seu depoimento depois que a família dos Flávios foi despojada do império e não poderia mais oferecer recompensas em troca de uma mentira.”

A sabedoria, inteligência e honradez dos cavalheiros e a austeridade das freiras de Port-Royal têm sido muito louvadas por toda a Europa. E, contudo, todos eles depõem em favor de um milagre acontecido à sobrinha do famoso Pascal, cuja santidade de vida e extraordinária capacidade são bem-conhecidas. [A sobrinha de Pascal escreveu-lhe a biografia] O famoso Racine relata esse milagre em sua famosa história de Port-Royal, e a reforça com todas as provas que uma multidão de freiras, padres, médicos e homens da sociedade – todos eles de crédito inquestionável – puderam conferir a ele. Diversos homens de letras, particularmente o bispo de Tournay, consideraram esse milagre tão genuíno a ponto de empregá-lo na refutação de ateístas e livres-pensadores. A rainha-regente da França, que alimentava imensa hostilidade contra Port-Royal, enviou seu médico particular para investigar o milagre, o qual retornou absolutamente convertido. Em resumo, a cura sobrenatural era tão incontestável que salvou por um tempo o famoso monastério da ruína com a qual os jesuítas o ameaçavam. Se tivesse sido um logro [e não um autologro], teria sido certamente detectado por antagonistas tão sagazes e poderosos, e deveria ter apressado a ruína dos perpetradores. Nossos teólogos, capazes de construir um castelo formidável com materiais tão insignificantes, que prodigiosa estrutura não teriam erguido com todas essas circunstâncias e muitas outras que não mencionei! Quão freqüentemente teriam os grandes nomes de Pascal, Racine, Arnaud, Nicole ressoado em nossos ouvidos? Mas, se forem sábios, é melhor que adotem o milagre por ser mil vezes mais valioso que todo o restante de sua coleção.” Hume já estava tão cansado de contar ‘causos’ numa nota de rodapé que ocupa 4 páginas que até abandonou o relato a meio caminho!

Nos primórdios das novas religiões, os sábios e instruídos comumente julgam que o assunto é demasiado insignificante para merecer seu cuidado e atenção. E quando mais tarde se interessam em desmascarar a fraude para abrir os olhos à multidão iludida, a hora certa já passou e os registros e testemunhas, que poderiam esclarecer a questão, estão para sempre perdidos.”

A autoridade do testemunho humano provém apenas da experiência, mas é essa mesma experiência que nos assegura sobre as leis da natureza. Quando, portanto, esses 2 tipos de experiência se opõem, nada nos resta a fazer senão subtrair um do outro, e abraçar uma opinião, seja de um lado, seja de outro, com a confiança que o resíduo pode produzir. Mas, de acordo com o princípio aqui explicado, essa subtração, no que diz respeito a todas as religiões populares, equivale a uma completa aniquilação, e podemos estabelecer, portanto, como uma máxima, que nenhum testemunho humano pode ter força suficiente para provar um milagre e torná-lo uma genuína fundação para qualquer sistema religioso dessa espécie.”

Embora o Ser ao qual o milagre é atribuído seja Todo-poderoso, o fato não se torna por isso minimamente mais provável, dado que nos é impossível conhecer os atributos ou ações de um tal Ser, a não ser pela experiência que temos de suas operações no curso usual da natureza.”

Devemos fazer uma coleção ou história particular de todos os monstros e produções ou nascimentos prodigiosos, e, em suma, de todas as coisas novas, raras e extraordinárias na natureza. Mas esse exame deve ser feito com o máximo rigor, para não nos afastarmos da verdade. Acima de tudo, todos os relatos que dependem em algum grau da religião devem ser considerados suspeitos, como os prodígios de Lívio. E no mesmo grau todas as coisas que se encontram nos escritos de magia natural ou alquimia, ou em autores que parecem todos dotados de insaciável apetite por mentiras e fábulas.” Bacon, Novum Organum, II

Para isso, teremos então de considerar inicialmente um livro que recebemos de um povo bárbaro e ignorante, escrito numa época em que eram ainda mais bárbaros e, muito provavelmente, longo tempo depois dos fatos nele narrados, um livro que não conta com a corroboração de nenhum testemunho concordante e que se assemelha aos relatos fabulosos que todas as nações fazem de suas origens.”

todo aquele que aceita a religião cristã movido pela está consciente de um permanente milagre em sua própria pessoa, milagre esse que subverte todos os princípios de seu entendimento e o faz acreditar no que há de mais oposto ao costume e à experiência.” Tão kierkegaardiano!

SEÇÃO 11. DE UMA PROVIDÊNCIA PARTICULAR E DE UM ESTADO VINDOURO

exceto pelo banimento de Protágoras e a morte de Sócrates – este último evento resultou parcialmente de outros motivos –, dificilmente se encontram, na história antiga, exemplos desse zelo fanático que tanto infesta a época presente. Epicuro viveu em Atenas até idade provecta, gozando de paz e tranqüilidade, e os epicuristas foram mesmo admitidos ao sacerdócio e oficiaram, diante do altar, os ritos mais sagrados da religião estabelecida. E o encorajamento público dos estipêndios e remunerações foi concedido igualmente, pelos mais sábios dos imperadores romanos, aos seguidores de todas as seitas filosóficas.” Cf. Luciano, O Banquete, Os Lápitas e O Eunuco. Este é o mesmo Luciano acima que “desmistificou” o homem Alexandre, O Grande?

SEÇÃO 12. DA FILOSOFIA ACADÊMICA OU CÉTICA

Parte 1

Não há maior número de raciocínios filosóficos desenvolvidos sobre um assunto qualquer do que aqueles que provam a existência de uma Divindade e refutam as falácias dos ateístas; e, contudo, os filósofos religiosos continuam debatendo se algum homem pode ser tão cego a ponto de ser um ateísta especulativo. Como poderíamos reconciliar essas contradições?”

que se entende por um cético?”

A dúvida cartesiana, portanto, se fosse alguma vez capaz de ser atingida por qualquer criatura humana (o que obviamente não é), seria totalmente incurável, e nenhum raciocínio poderia jamais levar-nos a um estado de segurança e convencimento acerca de qualquer assunto.

Deve-se confessar, contudo, que essa espécie de ceticismo, quando exercida com mais moderação, pode ser entendida em um sentido muito razoável, e constitui um preparativo necessário para o estudo da filosofia”

Com efeito: ironicamente, Descartes foi muito mais cético que Hume, “o cético”!

Até mesmo nossos próprios sentidos são postos em questão por uma certa espécie de filósofos, e as máximas da vida ordinária são sujeitas à mesma dúvida que os mais profundos princípios ou conclusões da metafísica e teologia. Como essas doutrinas paradoxais podem ser encontradas em alguns filósofos, e sua refutação em diversos outros, elas naturalmente excitam nossa curiosidade”

* * *

[POST SEPARADO] INTRODUÇÃO À EPISTEMOLOGIA HUME-KANTIANA

HUME ESTÁ PARA KANT COMO FEUERBACH ESTÁ PARA MARX: “sempre supomos um universo externo que não depende de nossa percepção, mas existiria ainda que nós a todas as outras criaturas sensíveis estivéssemos ausentes ou fôssemos aniquilados.”

Ainda com mais detalhes: Hegel Feuerbach (compreende Hegel, incapaz de prosseguir) Marx (compreende Hegel, compreende as falhas de Fuerbach, prossegue); Platão Hume (compreende a Idéia ou Representação, incapaz de prosseguir) Kant (criticismo kantiano ao estabelecer o a priori do espaço-tempo que leva em conta Platão e corrige as falhas de Hume).

Base de Hume:

instintos (naturalismo)

sentidos – sistema dos sentidos

ceticismo – crítica dos instintos e dos sentidos, sistema aperfeiçoado dos sentidos

[A filosofia] não pode mais recorrer ao instinto infalível e irresistível da natureza (naturalismo, mera noção enganosa ou antes verificada como impossível de ser alcançada através da ‘equipagem’ do ser humano no mundo), pois tal caminho nos conduz a um sistema completamente diferente, que se demonstrou falível e mesmo enganoso.” Refutação do naturalismo e do idealismo cartesiano, duas correntes de pensamento filosóficas – ambas refutáveis já por suas contrárias através de ceticismos incompletos ou parciais. “E justificar esse pretenso sistema filosófico por uma série de argumentos claros e convincentes, ou sequer por algo que se assemelhe a um argumento, é algo que está fora do alcance de toda a capacidade humana.” Descoberta de que a raiz da imperfeição tanto do naturalismo quanto do pseudo-ceticismo cartesiano são a mesma: o racionalismo, ou a fé na razão, que os primeiros filósofos da modernidade elevaram a uma categoria superior aos instintos e aos sentidos, mas que é mera ficção ou arbitrariedade, i.e., apresenta um conteúdo vazio, contaminado pelos próprios instintos e sentidos de maneira inconsciente (nestes filósofos, cujo ceticismo, grande ferramenta da filosofia, deixava a desejar).

Por qual argumento se poderia provar que as percepções da mente [sentidos e raciocínios] devem ser causadas por objetos externos inteiramente distintos delas, embora a elas assemelhados (se isso for possível), e não poderiam provir, seja da energia da própria mente, (I) seja da sugestão de algum espírito invisível e desconhecido, seja de alguma outra causa que ignoramos ainda mais?” (II) Começo da compreensão da dialética interior-exterior. Sujeito e objeto são díspares. Porém categorias os intersecionam num uno: cores e formas. A mente e uma mesa são objetos materiais, vermelhos, marrons, brancos, pouco importa, sólidos, etc. (I) é uma alusão avant la lettre a um tipo de solipsismo: conjetura-se: e se… todos os objetos exteriores que apreendemos são apenas criações nossas? Despidas de materialidade, apenas ilusões. Evocação do mito da caverna, do ainda-por-vir criticismo kantiano e das próprias considerações de uma filosofia ainda mais tardia a Hume e Kant eles mesmos, i.e., a fenomenologia do século XX, em que – com a ajuda manifesta de Kant – entendemos os fenômenos como aparências e ao mesmo tempo como nossa realidade relativa (posto descartar-se um absoluto). O (II) seria uma alusão direta à Coisa-Em-Si de Kant. Uma causa que está além do homem, e que incita à metafísica, ou seja, a meras especulações, sem poder ser refutada ou provada. “Reconhece-se, de fato, que muitas dessas percepções não surgem de nada exterior, como nos sonhos, na loucura e em outras enfermidades. E nada pode ser mais inexplicável que a maneira pela qual um corpo deveria operar sobre a mente para ser capaz de transmitir uma imagem de si mesmo a uma substância que se supõe dotada de uma natureza tão distinta e mesmo oposta.” Assunção humeana de corpo e mente como instâncias irrevocavelmente separadas. O corpo representa, nesta instância, os sentidos. A mente a capacidade de abstração. Que a substância? A matéria cinzenta, o cérebro, nosso sistema cognitivo. Sentidos e razão não possuem qualquer coincidência entre si. Nenhum pode sobrepor o outro, ambos são sempre contraditos e contradizem o outro, mas isto, esta conjugação paradoxal, é o homem. Nós sequer possuímos uma “imagem objetiva” de nosso próprio corpo, seja internamente seja externamente. Ex: não sabemos a priori como são nossas entranhas e como funcionam nossos sistemas biológicos como o digestório-excretório, o circulatório, o respiratório, etc., antes de uma investigação racional sobre tais temas. A mente também não pode comunicar conceitos ao corpo, e ela mesma não se conhece fisicamente ou, como queira, no nível espiritual, de forma objetiva, dadas nossas limitações. Não há uma instância maior-que-o-real a que se possa recorrer para arbitragem imparcial de todo esse impasse: no sonho, basta que se acorde. A causa está fora do sonho, por isso o sonho pode ser objeto de investigação. Na loucura, o louco não pode investigar-se, mas pode ser objeto de estudo. O homem, o filósofo, não pode investigar-se e investigar o mundo da mesma forma como o sonhador investiga o sonho e a medicina investiga o paciente. Neste caso, estamos dentro de um sonho, chamado mundo, e somos portadores de monomanias ou loucuras parciais que não podemos exatamente explicar ou esclarecer. Eis o que se pode construir contra todo ceticismo esclarecido. Nossos limites epistemológicos.

PERGUNTA – É uma questão de fato se as percepções dos sentidos são produzidas por objetos externos a elas assemelhadas – como se decidirá esta questão?”

Nossos olhos enxergam outras matérias porque são matéria também (idênticas, em última instância, ao que observam), ou nossa visão (sentido) cria a matéria tal qual a observamos? Neste estágio, Hume está em um problema de “o ovo ou a galinha”, a que não tem certeza a qual concede prioridade causal. Tal debate parece hoje inocente, mesmo da perspectiva epistemológica. Até por isso é necessário esclarecer o leitor, no entanto, que tampouco fala-se aqui da investigação física sobre o fenômeno da visão (já que usamos presentemente este sentido, aquele que é mais explorado pela filosofia ocidental, em detrimento do tato, paladar, audição e olfato), que até a época de Hume não estava esclarecido na base atual (a resposta encontrando-se na luz em interação tanto com a retina humana quanto com o objeto). Não é este “ângulo cru” que interessa neste livro de Hume. Ele está, ao invés, a se perguntar: que é a verdade, qual é o fundamento do real? Essas mesmas perguntas, repito, são para nós inocentes, pois a filosofia pós-kantiana decidiu-se sobre esse aspecto, sem recorrer quer ao ovo, quer a galinha, no que ficou conhecida como a síntese kantiana (ou ainda crítica, simplesmente) das correntes filosóficas importantes que o precederam. Não é dada primazia à faculdade do olho (uma câmera senciente, por assim dizer, i.e., uma câmera ligada a um sistema nervoso) nem à dos objetos, mas sim ao caráter relativista da apreensão do mundo inerente ao ser humano e ao ‘fenômeno’, conceito que detalharemos mais a seguir.

Nem existe nada de que se possa falar que seja externo ao ser (um cogitado real ou coisa-em-si), nem é o sentido do ser que cria ilusões sensórias em detrimento de acessar uma suposta realidade não-sensível, independente (o que poderíamos, hoje, tanto chamar de coisa-em-si – de novo – como de absurdo). O ser é a própria realidade que observa; a mesa, a luz, o olho humano são fenômenos (aparências), única forma da realidade regida pelo tempo-espaço, nosso único modo de vivência. Nosso corpo e mente não se encontram cingidos à maneira humeana no sistema kantiano, posto que enquanto fenômeno eternamente aparente (ou seja, em modificação) ele é em si a elucidação dos conceitos de espaço e de tempo, conteúdo e forma e sua variação, que estão embutidos em nossos instintos, sentidos e cognição (se desdobra num e noutro desde que existe, até que deixe de existir). A realidade é relativa ao indivíduo porque dois corpos não podem ser conhecidos ao mesmo tempo da mesma perspectiva, nem ‘no mesmo espaço’, sendo cada apreensão fenomênica um ‘caso isolado’ na perspectiva de um só indivíduo ou de vários. Se Hume ainda falava de um Absoluto, mas ao mesmo tempo defendia haver uma impossibilidade prática de acessá-lo, Kant, na medida em que não trata da coisa-em-si de forma moral (na Crítica da Razão Pura Prática, abordagem que não nos interessa nesta epistemologia humeana), dispensa o absoluto, ao tempo em que, justamente, o conserva, somente que sob a forma do fenômeno (que não conhece distinção sujeito-objeto), único absoluto de seu sistema.

RESPOSTA – Pela experiência.”

Como Hume não segue pela senda kantiana, ele entende que o real (o fenômeno) possa ser paulatinamente investigado pela experiência (“sentidos acumulados”, “sentidos orientados pela razão”, “razão orientada pelos sentidos” até, como queiram – também “memória”).¹ Sucede que, na fenomenologia póstuma chega-se ao veredito: a experiência humana não “acumula” fatores necessários para o entendimento da própria experiência ou do real, como diz Hume, simplesmente porque os fatores necessários são tempo e espaço,¹ que é inerente ao ser enquanto ser (e a única manifestação do ser é através do devir fenomenológico). Em outros termos, Hume procura uma solução que já estava solucionada, sendo sua investigação tautológica ou até mesmo pré-tautológica, contraproducente e falsificadora (já que podemos entender o mundo dos fenômenos como a tautologia ela mesma).

¹ Como esta é uma INTRODUÇÃO À EPISTEMOLOGIA destes dois autores, achei por bem não complicar a exposição logo de início com um último fator enunciado por Kant na sua primeira Crítica que completa um “tripé de fundamentos”. Se possível gostaria de ter deixado esta parte fora, mas como Hume, a dado ponto das Investigações cita a própria “memória” e o termo que aqui é conveniente citar, i.e., “aprendizado das causas e efeitos”, vejo que ao menos dessa nota de rodapé o “terceiro elemento” da tríade kantiana deve constar, embora a explanação seja auto-suficiente recorrendo-se estritamente a tempo e espaço. O fator que explica a memória e o acúmulo de experiências, no sistema kantiano, é o princípio inato de apreensão de causa-efeito; se já não fôssemos equipados desta intuição elementar, a própria passagem do tempo ou as mudanças do espaço (que são, em realidade, um único fenômeno que se separa na expressão da linguagem) não seriam apreensíveis, o que demoliria todo o sistema. E na verdade quando falamos em espaço e em tempo já intuímos, por assim dizer, noções como e hegemonia de causas e efeitos no real ou nos fenômenos. Nosso próprio conceito ou abstração do que seria nossa memória envolve um recipiente, um contêiner, uma caixa, por exemplo, extensa e tridimensional, finita, capaz de armazenar, em diferentes etapas e períodos, informações, sendo que esta caixa nunca nos parecerá totalmente vazia nem cheia, embora intuamos naturalmente suas limitações – ainda que nem evoquemos aqui o esquema de um cérebro esta imagem inocente da caixa já é o suficiente; o cérebro que, antes de dissecar um corpo, um ser humano não conhece em sua aparência nem em outros atributos (o mesmo que se poderia dizer do intestino, p.ex.) a não ser pela educação ou instrução, direta ou indireta, por seres humanos que obtiveram estes dados no passado, i.e., numa palavra, pela razão. Em suma, a noção de causa-efeito nada mais é do que a articulação lógica que possibilita nossa compreensão (inata) de tempo e espaço como fundamentos do real e articulados em unidade regendo todos os fenômenos.

Recorrer à veracidade do Ser supremo para provar a veracidade de nossos sentidos é, certamente, tomar um caminho muito inesperado.” Desta vez Hume está certo, e o próprio Kant, na Crítica da Razão Pura Prática, continuação moral de sua clássica e inauguradora Crítica da Razão Pura, retrocedeu e recaiu no próprio erro que já havia superado anos antes: atribuiu ao Ser supremo mediado pela ética cristã no mundo fenomênico o fundamento de nossa conduta social. Ele fez isso porque não encontrou outra solução metodológica para o dilema moral que suas conclusões no primeiro livro traziam: a queda no niilismo desenfreado, uma vez que os fenômenos são relativos e, portanto, realidades últimas individualmente falando. Faltava a explicação de como é possível a ética, isto é, a ação-no-mundo de forma que fosse possível a vida estabilizada em sociedade, fora da situação hipotética hobbesiana do estado de natureza (todos os homens contra todos os homens) e guiada por fins mais nobres do que a própria mundanidade fenomênica. Sua resposta bem conhecida é o enunciado do imperativo categórico. Sua premissa é válida para poucos séculos europeus de civilização cristã, ignorando portanto qualquer desenvolvimento histórico (a manifestação do Estado antes do modelo constitucional moderno, as civilizações anteriores, as civilizações não-européias e as civilizações póstumas, todas elas fenômenos transcendentais e estáveis, porém regidos por morais, culturas, religiões e códigos de ética alternativos ao tempo-espaço de Kant, i.e., o Estado de Direito cristão europeu do século XVIII). Kant retomaria uma epistemologia independente da coisa-em-si no seu terceiro trabalho clássico, a Crítica da Faculdade do Juízo, para explicar a possibilidade da Estética.

Este é um tópico, portanto, no qual os céticos mais profundos e mais filosóficos sempre haverão de triunfar quando se propuserem a introduzir uma dúvida universal em todos os objetos de conhecimento e investigação humanos.” No sentido aqui atribuído ao ceticismo, todos os trabalhos filosóficos ainda válidos para nossa própria idade foram efetivamente legados por indivíduos céticos, sem reparos.

É universalmente reconhecido, pelos modernos pesquisadores, que todas as qualidades sensíveis dos objetos, tais como o duro e o mole, o quente e o frio, o branco e o preto, etc., são meramente secundárias e não existem nos objetos eles mesmos, mas são percepções da mente que não representam nenhum arquétipo ou modelo externo. Se isso se admite com relação às qualidades secundárias, o mesmo deve igualmente seguir-se com relação às supostas qualidades primárias de extensão e solidez, as quais não podem ter mais direito a essa denominação que as anteriores. A idéia de extensão é inteiramente adquirida a partir dos sentidos da visão e do tato, e se todas as qualidades percebidas pelos sentidos estão na mente, não no objeto, a mesma conclusão deve alcançar a idéia de extensão, que é inteiramente dependente das idéias sensíveis, ou idéias de qualidades secundárias. Nada pode nos resguardar dessa conclusão a não ser declarar que as idéias dessas qualidades primárias são obtidas por abstração, uma opinião que, examinada cuidadosamente, revelar-se-á ininteligível e mesmo absurda. Uma extensão que não é nem tangível nem visível não pode ser minimamente concebida, e uma extensão visível ou tangível que não é nem dura nem mole, nem preta nem branca [Hume quis dizer: sem cor], está igualmente além do alcance da concepção humana. Que alguém tente conceber um triângulo em geral que não seja nem isósceles nem escaleno, nem tenha qualquer particular comprimento ou proporção entre seus lados, e logo perceberá o absurdo de todas as noções escolásticas referentes à abstração e às idéias gerais. (Em nota) Tomou-se de empréstimo esse argumento ao Dr. Berkeley; e, de fato, a maior parte dos escritos desse autor extraordinariamente habilidoso compõe as melhores lições de ceticismo que se pode encontrar entre os filósofos antigos ou modernos, incluindo Bayle. (…) Ele declara, entretanto, na folha de rosto (e sem dúvida com grande sinceridade), ter composto seu livro contra os céticos, bem como contra os ateus e os livres-pensadores. Mas todos os seus argumentos, embora visem a outro objetivo, são, na realidade, meramente céticos, o que fica claro ao se observar que não admitem nenhuma resposta e não produzem nenhuma convicção. Seu único efeito é causar aquela perplexidade, indecisão e embaraço momentâneos que são o resultado do ceticismo. [do filosofar]” Aqui Hume estava muito próximo de chegar ao criticismo kantiano, por exemplo. Diríamos que estava “quente”, mas que alguns parágrafos à frente “esfriou” de novo…

Parte 2

Pode parecer muito extravagante que os céticos tentem destruir a razão por meio de argumentos e raciocínios, contudo esse é o grande objetivo de todas as suas disputas e investigações.”

A principal objeção contra todos os raciocínios abstratos deriva das idéias de espaço e tempo; idéias que, na vida ordinária e para um olhar descuidado, passam por muito claras e inteligíveis, mas, quando submetidas ao escrutínio das ciências profundas (e elas são o principal objeto dessas ciências), geram princípios que parecem recheados de absurdos e contradições.” Significa: podemos abstrair inúmeras conclusões físico-matemática falsas acerca do espaço e do tempo, o que é o uso indiscriminado e mal-feito da razão, mas o que há de empírico e sensível no tempo e no espaço é irrefutável, indiscutível mesmo, ignorando e destruindo qualquer conceito ou abstração em última instância; daí ser fácil intuirmos por que espaço-tempo seja a base do kantismo: eis as noções mais imediatas e impregnadas no Ser, a condição de possibilidade de todos os fenômenos e representações.

Em mais algumas passagens de considerável extensão (!), Hume antecipa a eclosão, em um não-curto prazo, como a História verificou, dos famosos paradoxos das ciências exatas, principalmente na matemática pós-euclidiana, decorrente do próprio hiper-desenvolvimento e exaustão do modelo da geometria clássica, bem como podemos chamar já a matemática analítica (a álgebra), nascida aproximadamente com Descartes, do espelhamento desta situação, já adiantado, relativo à aritmética.

* * *

A grande destruidora do pirronismo, ou ceticismo de princípios excessivos, é a ação, e os afazeres e ocupações da vida cotidiana.”

Um seguidor de Copérnico, ou um de Ptolomeu, defendendo cada qual seu diferente sistema de astronomia, pode esperar produzir em sua audiência uma convicção que permanecerá constante e duradoura. Um estóico ou um epicurista expõem princípios que não apenas podem ser duradouros, mas também têm uma influência na conduta e nas maneiras. Mas um pirrônico não pode esperar que sua filosofia venha a ter alguma influência constante na mente humana; ou, se tiver, que essa influência seja benéfica para a sociedade. Ao contrário, ele deverá reconhecer – se puder – que toda vida humana seria aniquilada se seus princípios fossem adotados de forma constante e universal.” “Quando desperta de seu sonho, ele é o primeiro a rir-se de si mesmo e a confessar que suas objeções são puro entretenimento, e só tendem a mostrar a estranha condição da humanidade, que está obrigada a agir, a raciocinar e a acreditar sem ser capaz, mesmo pelas mais diligentes investigações, de convencer-se quanto às bases dessas operações ou de afastar as objeções que podem ser levantadas contra elas.”

Parte 3

Existe, com efeito, um ceticismo mais mitigado, ou filosofia acadêmica, que pode ser tanto útil quanto duradouro” O famoso ‘pra que arrumar a cama se vou dormir de novo ainda hoje?’.

Aqueles que têm propensão para a filosofia prosseguirão em suas pesquisas, porque ponderam que, em adição ao prazer imediato que acompanha essa ocupação, as decisões filosóficas nada mais são que as reflexões da vida ordinária, sistematizadas e corrigidas.”

Parece-me que os únicos objetos das ciências abstratas, ou objetos de demonstração, são a quantidade e o número, e que todas as tentativas para estender essa espécie mais perfeita de conhecimento além desses limites não passam de sofística e ilusionismo.”

Que o quadrado da hipotenusa é igual aos quadrados dos 2 outros lados, isso não pode ser conhecido, por mais exatamente que estejam definidos os termos, sem um processo de raciocínio e investigação.”

A ímpia máxima da filosofia antiga Ex nihilo, nihil fit (Do nada, nada procede), pela qual se negava a criação da matéria, deixa de ser uma máxima, de acordo com a presente filosofia.”

Os assuntos ligados à moral e à crítica são menos propriamente objetos do entendimento que do gosto e do sentimento. A beleza, quer moral ou natural, é mais propriamente sentida que percebida. Ou, se raciocinamos sobre ela, e tentamos estabelecer seu padrão, tomamos em consideração um novo fato, a saber, o gosto geral da humanidade ou algum outro fato desse tipo, que possa ser objeto do raciocínio e da investigação.” Longe de mim, ao demonstrar que a epistemologia kantiana é em síntese a superação da epistemologia humeana, rebaixar ou relegar Hume a um canto irrelevante da história dos pensadores. Nesta passagem, por exemplo, se vê com assaz clareza que Hume, apenas 13 anos mais velho que seu ainda mais celebrado “rival”, respirando a mesma cultura portanto, poderia muito bem ter sido o autor de todo o criticismo kantiano, se rumasse por veredas não muito distintas de seu próprio método, posto que essas linhas por si só contêm em germe não só as conclusões kantianas mais sublimes, como os postulados da primeira e da terceira Críticas, como até o sensato corretivo dos devaneios kantianos sobre a moral (segunda Crítica).

Quando percorrermos as bibliotecas, convencidos destes princípios, que devastação não deveremos produzir! Se tomarmos em nossas mãos um volume qualquer, de teologia ou metafísica escolástica, p.ex., façamos a pergunta: Contém ele qualquer raciocínio abstrato referente a números e quantidades? Não. Contém qualquer raciocínio experimental referente a questões de fato e de existência? Não. Às chamas com ele, então, pois não pode conter senão sofismas e ilusão.”

UMA INVESTIGAÇÃO SOBRE OS PRINCÍPIOS DA MORAL

SEÇÃO 1. DOS PRINCÍPIOS GERAIS DA MORAL

é inútil esperar que qualquer lógica – que não se dirige aos afetos – seja jamais capaz de levá-los a abraçar princípios mais sadios.”

Por mais insensível que seja um homem, ele será freqüentemente tocado pelas imagens do certo e do errado, e, por mais obstinados que sejam seus preconceitos, ele deve certamente observar que outras pessoas são suscetíveis às mesmas impressões. O único modo, portanto, de converter um antagonista dessa espécie é deixá-lo sozinho.”

Os filósofos da Antiguidade, embora afirmem muitas vezes que a virtude nada mais é que a conformidade com a razão, parecem em geral considerar que a moral deriva sua existência do gosto e do sentimento.”

Extingam-se todos os cálidos sentimentos e propensões em favor da virtude, e toda repugnância ou aversão ao vício; tornem-se os homens totalmente indiferentes a essas distinções, e a moralidade não mais será um estudo prático nem terá nenhuma tendência a regular nossa vida e ações.”

Mas em muitas espécies de beleza, particularmente no caso das belas-artes, é preciso empregar muito raciocínio para experimentar o sentimento adequado, e um falso deleite pode muitas vezes ser corrigido por argumentos e reflexão. Há boas razões para se concluir que a beleza moral tem muitos traços em comum com esta última espécie, e exige a assistência de nossas faculdades intelectuais para adquirir uma influência apropriada sobre a mente humana.”

Dado que essa é uma questão factual e não um assunto de ciência abstrata, só podemos esperar obter sucesso seguindo o método experimental e deduzindo máximas gerais a partir de uma comparação de casos particulares.” Larochefoucauldismo

Os homens estão hoje curados de sua paixão por hipóteses e sistemas em filosofia natural, e não darão ouvidos a argumentos que não sejam derivados da experiência.” Que otimismo!

Já é tempo de que façam uma reforma semelhante em todas as investigações morais e rejeitem todos os sistemas éticos, por mais sutis e engenhosos, que não estejam fundados em fatos e na observação.”

SEÇÃO 2. DA BENEVOLÊNCIA

Parte 1

Os epítetos ‘sociável’, ‘de boa índole’, ‘humano’, ‘compassivo’, ‘grato’, ‘amistoso’, ‘generoso’, ‘benfazejo’, ou seus equivalentes, são conhecidos em todas as linguagens e expressam universalmente o mais alto mérito que a natureza humana é capaz de atingir.”

Uma elevada aptidão, uma coragem indomável, um sucesso florescente só podem expor um herói ou um político à inveja e má vontade do público; mas tão logo se acrescentem os louvores de humanitário e beneficente, tão logo sejam dadas demonstrações de brandura, enternecimento e amizade, a própria inveja se cala ou junta-se ao coro geral de aprovação e aplauso.”

Em homens de talentos e capacidades mais ordinários, as virtudes sociais (se é que isto é possível) são requeridas de forma ainda mais essencial, já que não há, nesses casos, nada que se sobressaia para compensar sua ausência ou para preservar a pessoa da mais profunda aversão ou desprezo.”

Deve-se de fato reconhecer que é apenas pela prática do bem que um homem pode verdadeiramente gozar das vantagens de ser eminente. Sua posição elevada, por si só, apenas o deixa mais exposto ao perigo e à tempestade.”

Parte 2

Plantar uma árvore, cultivar um campo, gerar filhos: atos meritórios, segundo a religião de Zoroastro.” Faltou um quarto ato: ler meu blog.

O ato de dar esmolas a pedintes vulgares é compreensivelmente elogiado, pois parece trazer alívio aos aflitos e indigentes; mas, quando observamos o encorajamento que isso dá à ociosidade e à devassidão, passamos a considerar essa espécie de caridade antes como uma fraqueza que uma virtude.”

O tiranicídio, ou assassinato de usurpadores e príncipes opressivos, foi sumamente enaltecido em tempos antigos porque livrou a humanidade desses monstros e parecia, além disso, impor o temor a outros que a espada ou o punhal não podiam alcançar. Mas como a história e a experiência desde então nos convenceram de que essa prática aumenta a suspeita e a crueldade dos príncipes, um Timoleão e um Bruto, embora tratados com indulgência em vista das predisposições de sua época, são hoje considerados como modelos muito impróprios para imitação.”

O luxo, ou refinamento nos prazeres e confortos da vida, foi durante muito tempo tomado como a origem de toda a corrupção no governo, e como a causa imediata de discórdia, rebelião, guerras civis e perda total de liberdade.”

SEÇÃO 3. DA JUSTIÇA

Parte 1

A água e o ar, embora sejam as mais necessárias de todas as coisas, não são disputados como propriedades de indivíduos, e ninguém comete injustiça por mais prodigamente que se sirva e desfrute dessas bênçãos.” Como Hume envelheceu mal nesses 250 anos!

Para quê erigir marcos limítrofes entre meu campo e o de meu vizinho se meu coração não fez nenhuma divisão entre nossos interesses, mas compartilha todas as suas alegrias e tristezas com a mesma força e vivacidade que experimentaria caso fossem originalmente as minhas próprias?”

O ANTI-HOBBES I: “Esta ficção poética de uma idade de ouro está, sob certos aspectos, em pé de igualdade com a ficção filosófica de um estado de natureza (…) Essa ficção de um estado de natureza como um estado de guerra não se iniciou com Thomas Hobbes, como se costuma imaginar (Leviatã, capítulo 13). Platão esforça-se para refutar uma hipótese muito semelhante a essa nos 2º, 3º e 4º livros da República. Cícero, ao contrário, toma-a como certa e universalmente admitida [Cícero é péssimo!]”

Pode-se com razão duvidar de que uma tal condição da natureza humana tenha jamais existido, ou, se existiu, que tenha durado por tanto tempo a ponto de merecer a denominação de um estado.”

Hume não pôde prever um direito dos animais (p. 125 do PDF, 251 da edição); mais, aliás: não pôde prever nem direitos dos povos autóctones! “A grande superioridade dos europeus civilizados em relação aos índios selvagens inclinou-nos a imaginar que estamos, perante eles, em idêntica situação [àquela dos homens com os animais], e fez com que nos desembaraçássemos de todas as restrições derivadas da justiça e mesmo de considerações humanitárias.” Em seguida, sobre a situação isenta de esperança da mulher! Segundo Hume, pela força bruta, o homem jamais perderia seus direitos exclusivos à propriedade, p.ex.; ocorre que o charme da mulher ‘democratizou’ tais relações. Nada, portanto, mais etno-antropo-androcêntrico que este parágrafo!

Parte 2

Fanáticos podem supor que o poder se funda na graça, e que somente os santos herdarão a terra, mas o magistrado civil muito corretamente põe esses sublimes teóricos em pé de igualdade com os assaltantes comuns e lhes ensina pela disciplina mais severa que uma regra que, do ponto de vista especulativo, parece talvez a mais vantajosa para a sociedade, pode revelar-se, na prática, totalmente perniciosa e destrutiva.”

PREFIGURAÇÕES DO SOCIALISMO: “Talvez os ‘Levellers’, que reclamavam uma distribuição igualitária da propriedade, tenham sido um tipo de fanáticos políticos que brotaram da espécie religiosa e confessavam mais abertamente suas pretensões, como tendo uma aparência mais plausível de poderem ser postas em prática e serem de utilidade para a sociedade humana.”

a mínima gratificação de um frívolo capricho de um indivíduo custa freqüentemente mais do que o pão de muitas famílias, e até de muitas províncias.” Cita Esparta como a república que teria realizado o ideal da igualdade sobre a terra. E em seguida: “Sem mencionar que as leis agrárias, tão freqüentemente reivindicadas em Roma e postas em prática em muitas cidades gregas, procederam todas elas de uma concepção geral da utilidade desse princípio.” Claro que, como bom liberal do XVII, H. vai dizer que essas idéias não são mais exeqüíveis nem desejáveis, de forma alguma. Uma das razões é que tal disposição geraria a necessidade de uma justiça draconiana, praticamente uma comissão inquisitorial. Não deixa de ser verdade que Esparta e Roma foram assim, mas que, em Esparta pelo menos, isso não era sentido como peso devido à arete dos cidadãos.

Quem não vê (…) que a propriedade deve passar por herança para os filhos e parentes, tendo em vista o mesmo útil propósito?”

um sistema [o de Montesquieu!] que, em minha opinião, jamais poderá ser reconciliado com a verdadeira filosofia.” Posso entender por que Hume deve ter exercido influência do mais alto grau em mentes como Smith e Stuart-Mill! Aliás, Smith foi contemporâneo tanto de Montesquieu quanto de Hume, e conterrâneo de Hume (escocês)!

Um sírio morreria de fome antes de saborear um pombo, um egípcio não se aproximaria de um pedaço de toucinho” “Uma ave na quinta-feira é um alimento lícito, na sexta-feira torna-se abominável; ovos são permitidos nesta casa e nesta diocese durante a Quaresma, cem passos adiante, comê-los é um pecado mortal; este terreno ou edifício ontem era profano, hoje, após serem murmuradas certas palavras, tornou-se pio e sagrado.”

Adoro o Hume antirreligioso: “Se os interesses da sociedade não estivessem de nenhum modo envolvidos, a razão pela qual a articulação de certos sons implicando consentimento por parte de uma pessoa deveria alterar a natureza de minhas ações com respeito a um objeto particular seria tão ininteligível quanto a razão pela qual uma fórmula litúrgica recitada por um padre, com um certo hábito e numa certa postura, deveria consagrar uma pilha de madeira e tijolos e torná-la desde então sagrada para todo o sempre.”

MALDITOS JESUÍTAS, ESSES “SUPERESCOLÁSTICOS”: “ver no Dicionário de Bayle o verbete ‘Loyola’.”

As sutilezas casuísticas podem não ser maiores que as sutilezas dos advogados aqui mencionadas, mas como as primeiras são perniciosas e as últimas inocentes e mesmo necessárias, compreende-se a razão das recepções bastante diferentes que encontraram no mundo. § É uma doutrina da Igreja de Roma que o sacerdote, por um direcionamento secreto de sua intenção, pode invalidar qualquer sacramento.”

E estas próprias palavras, herança e contrato, representam idéias infinitamente complicadas, e uma centena de volumes de legislação mais um milhar de volumes de comentários não se mostraram suficientes para defini-las com exatidão. Poderia a natureza, cujos instintos nos seres humanos são de todo simples, abarcar objetos tão complicados e artificiosos, e criar uma criatura racional sem nada consignar à operação de sua razão?” “Teríamos então idéias inatas originárias acerca de pretores, chanceleres e júris? Quem não vê que todas essas instituições surgem simplesmente das necessidades da sociedade humana?” Sedutor, mas errado.

O Zeitgeist é tão forte que mesmo um “anti-Iluminista” como Hume acaba chegando às mesmas conclusões que os baluartes do Esclarecimento: “A vantagem, ou antes a necessidade, que leva à justiça é tão universal e conduz em todas as partes de modo tão pronunciado às mesmas regras que o hábito toma assento em todas as sociedades e só com algum esforço investigativo somos capazes de descobrir sua verdadeira origem.”

SEÇÃO 4. DA SOCIEDADE POLÍTICA

Alianças e tratados são formalizados todos os dias entre Estados independentes, o que constituiria desperdício de pergaminho se a experiência não tivesse mostrado que eles têm alguma influência e autoridade.”

No caso de confederações como a antiga república dos aqueus ou, modernamente, os Cantões Suíços e as Províncias Unidas,(*) como a aliança tem, nesses casos, uma peculiar utilidade, as condições de união têm um caráter particularmente sagrado e impositivo, e uma violação delas será considerada tão ou mais criminosa que qualquer dano ou injustiça de caráter privado.

(*) Os Países Baixos, constituídos em 1579 pelo tratado de Utrecht. (N.T.)”

A única solução que Platão oferece a todas as objeções que poderiam ser levantadas contra a posse em comum das mulheres estabelecida em sua comunidade imaginária é ‘pois sempre houve e haverá boa razão para se afirmar que o útil é belo, e o nocivo é feio’ (Rep., V).”

Odeio um companheiro de bebedeiras que nunca esquece, diz o provérbio grego. As loucuras da última esbórnia devem ser sepultadas em eterno olvido a fim de abrir o máximo espaço para as loucuras da próxima.”

ÉTICA DO CARONEIRO PARTE II! (PREQUEL): “Que o veículo mais leve ceda passagem ao mais pesado, e, em veículos de mesmo porte, que o que está vazio dê preferência ao carregado são regras fundadas na conveniência. Que aqueles que estão se dirigindo para a capital têm precedência sobre os que estão retornando parece fundar-se em alguma representação da dignidade da grande cidade, e a uma preferência do futuro sobre o passado. Por análogas razões, entre pedestres, a mão direita dá direito a caminhar junto à parede e evita os esbarrões que as pessoas pacíficas acham muito desagradáveis e inconvenientes.”

SEÇÃO 5. POR QUE A UTILIDADE AGRADA

Parte 1

Se a natureza não tivesse feito essa distinção com base na constituição original da mente, as palavras ‘honroso’ e ‘vergonhoso’, ‘estimável’ e ‘odioso’, ‘nobre’ e ‘desprezível’ não existiriam em nenhuma linguagem; e mesmo que os políticos viessem a inventar esses termos, jamais seriam capazes de torná-los inteligíveis ou fazê-los veicular alguma idéia aos ouvintes. Nada mais superficial, portanto, que esse paradoxo dos céticos

Essa dedução da moral a partir do amor de si mesmo, ou de uma atenção aos interesses privados, é uma idéia óbvia” “Mas (…) a voz da natureza e da experiência parecem se opor claramente à teoria egoísta.”

O descumprimento das obrigações para com os pais é desaprovado por todos os homens” Mas Políbio vê que essas considerações são também egoístas: <quando eu tiver filhos…>

Que tem isso a ver comigo? Há poucas ocasiões em que essa pergunta não é pertinente”

Um homem trazido à beira de um precipício não pode olhar para baixo sem tremer, e o sentimento de um perigo imaginário atua sobre ele em oposição à opinião e crença de uma segurança real.” Poderíamos inverter os vocábulos imaginário e real nesta frase e ela manteria o mesmo sentido, se é que não faria ainda mais sentido…

Parte 2

Poucos gêneros poéticos trazem mais entretenimento do que o gênero pastoral

A leitura atenta da história parece ser um entretenimento tranqüilo, mas não seria de nenhum modo um entretenimento se nossos corações não batessem em movimentos correspondentes aos que são descritos pelo historiador.”

Tucídides e Guicciardini mantêm com dificuldade nossa atenção quando o 1º descreve os triviais confrontos das pequenas cidades da Grécia e o 2º as guerras inofensivas de Pisa. (…) Mas a profunda aflição do numeroso exército ateniense diante de Siracusa e o perigo que tão de perto ameaçava Veneza, esses despertam compaixão, esses incitam o terror e a ansiedade.” Hoje tudo isso para nós está unido sob uma única alcunha: passado remoto; igualmente indiferente, igualmente apaixonante, dependendo da circunstância e do receptor.

Se admitíssemos que a crueldade de Nero era inteiramente voluntária e não antes o efeito de um constante temor e ressentimento, é evidente que Tigelino, de preferência a Sêneca e Burro, deveria ter gozado de sua constante e invariável aprovação.”

NACIONALISMO: FÓSSIL: “Dedicamos sempre uma consideração mais apaixonada a um estadista ou patriota que serve nosso próprio país em nossa própria época do que a um outro cuja influência benéfica operou em eras remotas ou em nações distantes, nas quais o bem resultante de sua generosa benevolência, estando menos relacionado conosco, parece-nos mais obscuro, afeta-nos com uma simpatia menos vívida.” Essa regra só se aplicaria aos seres humanos que conhecemos em nossa vida diária: os fascistas com quem convivo me inspiram aversão infinitamente maior que qualquer traste que eu venha a conhecer lendo a história do Nazismo.

SEÇÃO 6. DAS QUALIDADES ÚTEIS A NÓS MESMOS

Parte 1

Para um Cromwell, talvez, ou para um De Retz, a discrição pode parecer uma virtude típica de vereador, no dizer do Dr. Swift; e, sendo incompatível com aqueles vastos desígnios inspirados por sua coragem e ambição, poderia neles constituir realmente um defeito ou imperfeição.”

Um dos extremos da frugalidade é a avareza, que, ao privar um homem de todo uso de suas riquezas e simultaneamente impedir a hospitalidade e qualquer prazer sociável, sofre, com razão, uma dupla censura.”

Mas, em épocas antigas, quando ninguém podia sobressair-se sem o dom da oratória e a audiência era demasiado refinada para suportar as arengas cruas e mal-digeridas com que nossos improvisados oradores se dirigem às assembléias públicas, a faculdade da memória tinha então a mais alta importância e era, em conseqüência, muito mais valorizada do que no presente.”

Parte 2

As justas proporções de um cavalo descritas por Xenofonte e Virgílio são as mesmas hoje aceitas pelos que lidam com esses animais, porque seu fundamento é o mesmo, a saber, a experiência do que é prejudicial ou útil nesses animais.”

Quanto escárnio e desdém, por parte de ambos os sexos, acompanham a impotência! O infeliz indivíduo é visto como privado de um prazer essencial na vida e, ao mesmo tempo, incapaz de proporcioná-lo a outros.”

SEÇÃO 7. DAS QUALIDADES IMEDIATAMENTE AGRADÁVEIS A NÓS MESMOS

DÊNIS & CABELINHO: “A chama se propaga a todo o círculo, e mesmo os mais rabugentos e taciturnos são contagiados por ela. Embora Horácio o tenha afirmado, tenho certa dificuldade em admitir que as pessoas tristes detestam as alegres, porque sempre observei que, quando a jovialidade é moderada e decente, as pessoas sérias são as que mais se deliciam, já que ela dissipa as trevas que comumente as oprimem e proporciona-lhes uma rara diversão.” “surge uma cordial emoção dirigida para a pessoa que transmite tanta satisfação. Ela constitui um espetáculo mais tonificante, sua presença difunde sobre nós uma satisfação e um contentamento mais serenos; nossa imaginação, penetrando em seus sentimentos e disposições, é afetada de uma maneira mais agradável do que se nos tivesse sido apresentado um temperamento triste, abatido, sombrio e angustiado.”

Não há ninguém que não seja afetado, em certas ocasiões, pelas desagradáveis paixões do medo, cólera, abatimento, aflição, tristeza, ansiedade, etc. Mas essas paixões, por serem naturais e universais, não fazem nenhuma diferença entre uma pessoa e outra, e não podem jamais constituir motivo de censura. É apenas quando a disposição produz uma propensão a uma dessas desagradáveis paixões que desfiguram o caráter e, ao produzir desconforto, transmitem o sentimento de desaprovação ao espectador.”

Poucos invejariam o caráter que César atribui a Cássio:

He loves no play,

As thou do’st, Anthony: he hears no music:

Seldom he smiles; and smiles in such a sort,

As if he mock’d himself, and scorn’d his spirit

That could be mov’d to smile at any thing.”

Shakespeare, Júlio César, ato I, cena II,203-207, trecho tão comentado por Deleuze no Anti-Édipo!

Ide!, exclamou o mesmo herói a seus soldados quando estes se recusaram a segui-lo até as Índias, ide e dizei a vossos compatriotas que deixastes Alexandre completando a conquista do mundo! E o Príncipe de Condé, grande admirador dessa passagem, complementa: Alexandre, abandonado por seus soldados entre bárbaros ainda não totalmente subjugados, sentia em si uma tamanha dignidade e direito de comando que não podia acreditar ser possível que alguém se recusasse a obedecer-lhe. Na Europa ou na Ásia, entre gregos ou persas, pouco lhe importava: onde quer que encontrasse homens, imaginava que haveria de encontrar súditos.”

RUBENEUS ADRIANUS: “E se, como freqüentemente acontece, a mesma pessoa que rasteja diante de seus superiores é insolente com seus subordinados, essa contradição em seu comportamento, longe de corrigir o vício anterior, agrava-o extraordinariamente pelo acréscimo de um vício ainda mais odioso.”

Contemplei Filipe, contra quem lutastes, expondo-se resolutamente, em sua busca de poder e domínio, a todos os ferimentos; o olho coberto de uma crosta de sangue, o pescoço contorcido, o braço e coxa trespassados, pronto a abandonar de bom grado qualquer parte de seu corpo que a fortuna agarrasse desde que pudesse, com o restante, viver com honra e renome. Quem diria que, nascido em Pela, lugar até então vil e ignóbil, ele tenha sido inspirado por tão grande ambição e sede de celebridade, ao passo que vós, atenienses, . . . .” Demóstenes

Os suevos arranjavam seus cabelos com um louvável intento; não para amar ou serem amados: eles se adornavam apenas para seus inimigos e para parecerem mais terríveis.” – Tácito. O penteado coque-samurai dos bárbaros germânicos massacrados por César – acabei de ler a mesma citação na History of The Romans Under the Empire de Merivale (em breve no Seclusão)!

Os citas, de acordo com Heródoto em seu Livro 4, após escalpelarem seus inimigos, tratavam a pele como um couro e usavam-na como uma toalha, e quem possuísse o maior número dessas toalhas era o mais merecedor de apreço entre eles.”

E esse [a ética da coragem guerreira] também, até muito recentemente, foi o sistema ético predominante em muitas das regiões bárbaras da Irlanda, se podemos dar crédito a Spenser em seu judicioso relato do estado daquele reino: ‘É comum que os filhos das boas famílias, tão logo sejam capazes de usar suas armas, reúnam-se imediatamente a 3 ou 4 vagabundos ou mercenários os quais vagueiam à toa durante algum tempo pelo país, apoderando-se apenas de comida, até que afinal se lhe ofereça alguma má aventura, a qual, logo que se torna conhecida, faz com que ele seja considerado daí em diante como um homem de valor, em quem há coragem.

A serenidade filosófica pode, na verdade, ser considerada simplesmente como um ramo da grandeza de espírito.”

Epicteto não tinha sequer uma porta no casebre em que morava, e por isso logo perdeu seu lampião de ferro, o único de seus objetos que valia a pena ser furtado. E tendo decidido frustrar todos os futuros ladrões, substituiu-o por um lampião de barro, que manteve pacificamente desde então em sua posse.”

sofremos por contágio e simpatia, e não podemos manter-nos como espectadores indiferentes, mesmo estando certos de que nenhuma conseqüência danosa nos advirá dessas ameaçadoras paixões.”

A coragem excessiva e a resoluta inflexibilidade de Carlos XII arruinaram seu país e assolaram todos os vizinhos, mas exibem um tal esplendor (…) que poderiam ser até (…) aprovadas (…) se não traíssem (…) sintomas (…) evidentes de loucura”

SEÇÃO 8. DAS QUALIDADES IMEDIATAMENTE AGRADÁVEIS AOS OUTROS

Um espanhol sai de sua casa à frente de seu hóspede, significando com isso que o deixa como senhor dela. Em outros países, o dono da casa sai em último lugar, como um sinal usual de respeito e consideração.”

pouca satisfação é obtida pelo contador de longas histórias ou pelo declamador empertigado.”

Há um tipo inofensivo de mentirosos, comumente encontrados nas reuniões, que se comprazem muitíssimo com relatos fantásticos. Em geral sua intenção é agradar, mas, como as pessoas se encantam mais com aquilo que supõem verdadeiro, esses indivíduos se equivocam redondamente sobre as formas de entreter e incorrem em uma censura universal.”

As pessoas têm, em geral, uma propensão muito maior para se sobrevalorizarem do que para se menosprezarem, não obstante a opinião de Aristóteles sobre o assunto em Ética a Nicômaco.”

Ninguém poderá censurar Maurício, príncipe de Orange, por sua resposta de caráter bem-humorado e velado quando lhe perguntaram quem ele considerava o maior general de sua época: O marquês de Spinola é o segundo.”

A magnífica obstinação de Sócrates, como Cícero a denominava, tem sido grandemente celebrada em todas as épocas, e, quando conjugada à usual modéstia de seu comportamento, compõe um caráter luminoso. (…) Em suma, um generoso temperamento e amor-próprio, quando bem-fundamentados, disfarçados com decoro e corajosamente defendidos contra as calúnias e vicissitudes, é uma grande virtude e parece derivar seu mérito da nobre elevação de seu sentimento, ou do fato de ser imediatamente agradável a seu possuidor.”

Por que essa ansiedade em relatar que estivemos em companhia de pessoas ilustres e que recebemos referências elogiosas, como se essas não fossem coisas corriqueiras que todos poderiam imaginar sem que lhes fossem contadas?”

SEÇÃO 9. CONCLUSÃO

Parte 1

O ANTI-SCHOPENHAUER: “Celibato, jejum, penitência, mortificação, negação de si próprio, submissão, silêncio, solidão e todo o séquito das virtudes monásticas – por que razão são elas em toda parte rejeitadas pelas pessoas sensatas a não ser porque não servem a nenhum propósito; não aumentam a fortuna de um homem nem o tornam um membro mais valioso da sociedade; não o qualificam para as alegrias da convivência social nem o tornam mais capaz de satisfazer-se consigo mesmo?” “Um fanático sombrio e ignorante pode, após sua morte, ganhar uma data no calendário, mas dificilmente seria admitido, enquanto vivo, à intimidade e ao convívio social, exceto por aqueles tão transtornados e lúgubres quanto ele.”

O ANTI-HOBBES II: “aqueles pensadores que sinceramente sustentam o predominante egoísmo do ser humano não se escandalizarão em absoluto ao ouvir falar desses tênues sentimentos de virtude implantados em nossa natureza.”

Quando um homem chama outro de seu inimigo, seu rival, seu antagonista, seu adversário, entende-se que ele está falando a linguagem do amor de si mesmo e expressando sentimentos que lhe são próprios e que decorrem das situações e circunstâncias particulares em que está envolvido. Mas, quando atribui a alguém os epítetos de corrupto, odioso ou depravado, já está falando outra linguagem e expressando sentimentos que ele espera que serão compartilhados por toda sua audiência.”

Quando o coração está cheio de ira, nunca lhe faltam pretextos dessa natureza, embora sejam às vezes tão ridículos como os de Horácio que, ao ser quase esmagado pela queda de uma árvore, pretendeu acusar de parricídio quem a havia plantado (Odes, livro 2, ode 13).” [!!!]

NOVAMENTE ME ESPANTO QUE HUME NÃO TENHA VIVIDO APÓS LAPLACE! “quando reflito que, embora se tenha medido e delineado o tamanho e a forma da Terra, explicado os movimentos das marés, submetido a ordem e organização dos corpos celestes a leis apropriadas, e reduzido o próprio infinito a um cálculo, ainda persistem as disputas relativas ao fundamento de seus deveres morais (…) recaio na desconfiança e no ceticismo, [não diga! logo você, sr. Hume?!] e suspeito que, se fosse verdadeira (…) esta hipótese tão óbvia (…) teria já há muito tempo recebido o sufrágio e a aceitação unânimes da humanidade.”

Parte 2

(…)

APÊNDICE 1. Sobre o sentimento moral

(…)

APÊNDICE 2.

(…)

APÊNDICE 3.

(…)

APÊNDICE 4.

Em tempos mais recentes, toda espécie de filosofia e em especial a ética têm estado mais estreitamente unidas à teologia do que jamais estiveram entre os pagãos; e como essa última ciência não faz quaisquer concessões às demais, mas verga todos os ramos do conhecimento para seus propósitos particulares, sem dar muita atenção aos fenômenos da natureza ou a sentimentos mentais livres de preconceitos, segue-se que o raciocínio e mesmo a linguagem foram desviados de seu curso natural, e fez-se um esforço para estabelecer distinções em situações em que a diferença entre os objetos era quase imperceptível. Filósofos, ou antes teólogos sob esse disfarce, ao tratar toda a moral em pé de igualdade com as leis civis, protegidas pelas sanções de recompensa ou punição, foram necessariamente levados a fazer da característica do voluntário ou involuntário o fundamento de toda a sua teoria.”

Que temos um dever em relação a nós mesmos é algo que até o mais vulgar sistema de moral reconhece”

UM DIÁLOGO

Parece que Alcheic tinha sido muito belo em sua juventude, tinha sido cortejado por muitos amantes, mas concedera seus favores especialmente ao sábio Elcouf, a quem se supunha que ele devia o espantoso progresso que fizera em filosofia e na virtude.

Surpreendeu-me também o fato de que a esposa de Alcheic (que, aliás, era também sua irmã) não se mostrasse minimamente escandalizada com essa espécie de infidelidade.

Mais ou menos à mesma época descobri (…) que Alcheic era um assassino e um parricida, e que mandara para a morte uma pessoa inocente, que lhe era estreitamente aparentada e a quem estava obrigado a proteger e defender por todos os laços da natureza”

Recebi recentemente uma carta de um correspondente em Fourli, pela qual fiquei sabendo que, após minha partida, Alcheic apropriadamente se enforcou, e morreu universalmente lamentado e aplaudido em todo o país.”

mal poderíeis distinguir se ele estava zombando ou falando sério.”

Cuidado, gritou ele, tende cuidado! Não percebeis que estais blasfemando e insultando os vossos favoritos, os gregos, especialmente os atenienses, que eu ocultei o tempo todo sob os nomes bizarros que empreguei?”

Mas não dissestes que Usbek era um usurpador!”

Não o fiz, para que não descobrísseis o paralelo que tinha em mente. Mas, mesmo acrescentando essa circunstância, não deveríamos hesitar, de acordo com nosso sentimento de moral, em classificar Bruto e Cássio como traidores ingratos e assassinos, embora saibais que são talvez as mais altas personalidades de toda a Antiguidade, e que os atenienses erigiram-lhes estátuas, [?] colocadas próximas às de Harmódio e Aristogiton, seus próprios libertadores.”

Creio que com justiça mostrei que um ateniense de mérito poderia ser alguém que entre nós passaria hoje por incestuoso, parricida, assassino, ingrato, pérfido traidor e outra coisa demasiado abominável para ser nomeada; [gay] sem contar sua rusticidade”

Geometria, física, astronomia, anatomia, botânica, geografia, navegação: em todas estas reivindicamos com razão a superioridade. Mas que temos a opor a seus moralistas? Vossa representação das coisas é falaciosa.”

Ser-me-ia permitido informar aos atenienses de que houve uma nação em que o adultério, tanto ativo quanto passivo, gozava da mais alta popularidade e estima? Na qual cada homem educado escolhia para sua amante uma mulher casada, talvez a esposa de seu amigo e companheiro, e vangloriava-se dessas infames conquistas tanto quanto se tivesse sido várias vezes vencedor no boxe ou na luta nos Jogos Olímpicos? Na qual cada homem também se orgulhava de sua mansidão (…) com relação a sua própria mulher, e alegrava-se de fazer amigos e obter vantagens permitindo que ela prostituísse seus encantos; e que dava-lhe plena liberdade e indulgência? Pergunto, então, que sentimentos os atenienses experimentariam por um tal povo”

Ser-me-ia preciso acrescentar que esse mesmo povo era tão orgulhoso de sua escravidão e dependência como os atenienses de sua liberdade, e embora um homem desse povo estivesse oprimido, desgraçado, empobrecido, insultado ou aprisionado pelo tirano, ainda consideraria altamente meritório amá-lo, servi-lo e obedecer-lhe?”

E se um homem que lhes é absolutamente estranho desejasse que, sob ameaça de morte, cortassem a garganta de um velho amigo, eles imediatamente obedeceriam e se julgariam altamente favorecidos e honrados por essa comissão.”

Mas embora estejam tão prontos a sacar sua espada contra seus amigos, nenhuma desgraça, dor ou miséria jamais levará essas pessoas a apontarem-na contra seu próprio peito. Um homem de posição irá remar nas galés, mendigar seu pão, definhar na prisão, sofrer todas as torturas, conquanto conserve sua ignóbil existência.”

É também muito usual entre esse povo construir prisões nas quais todas as artes de afligir e atormentar os infelizes prisioneiros são cuidadosamente estudadas e praticadas. E é comum que pais voluntariamente encerrem vários de seus filhos nessas prisões, a fim de que um outro filho, que admitem não ter mais mérito, ou até tê-lo menos, que os outros, possa gozar integralmente de sua fortuna e chafurdar em toda espécie de voluptuosidade e prazeres.”

Mas o mais singular nessa caprichosa nação é que vossos folguedos durante as saturnais, quando os escravos são servidos por seus senhores, são seriamente estendidos por eles de modo a cobrir o ano inteiro e todo o tempo de sua vida, acompanhados ainda de algumas circunstâncias que aumentam o absurdo e o ridículo. (…) em todo o tempo a superioridade das mulheres é prontamente reconhecida e aceita por todos (…) Dificilmente um crime seria mais universalmente condenado do que uma infração a essa regra.”

Também os franceses, sem dúvida, são um povo muito civilizado e inteligente; no entanto, seus homens de mérito poderiam, entre os atenienses, ser objetos do maior desprezo e ridículo, e mesmo de ódio. O que torna a questão mais extraordinária é que esses dois povos são considerados os mais similares em seu caráter nacional entre todos os povos antigos e modernos! E enquanto os ingleses se gabam de assemelhar-se aos romanos, seus vizinhos no continente traçam um paralelo entre os cultivados gregos e si próprios.”

Os amores gregos (…) provêm de uma causa muito inocente, a freqüência dos exercícios de ginástica entre esse povo, e eram recomendados, embora absurdamente, como uma fonte de amizade, simpatia, apego mútuo e fidelidade”

Como se poderia recuperar a liberdade pública das mãos de um usurpador ou tirano, se seu poder o protege da rebelião pública e de nossos escrúpulos da vingança privada?”

reconheço que há uma dificuldade quase tão grande de justificar a galanteria francesa quanto a grega, exceto, talvez, que a 1ª é muito mais natural e agradável.”

Certamente nada pode ser mais absurdo e bárbaro que a prática do duelo”

Horácio enalteceu uma testa baixa, e Anacreonte sobrancelhas unidas; mas o Apolo e a Vênus da Antiguidade são ainda nossos modelos de beleza masculina e feminina”

De todas as nações do mundo nas quais não se permitia a poligamia, os gregos parecem ter sido os mais reservados em suas relações com o belo sexo”

vemos que, exceto pelas fabulosas histórias de Helena e Clitemnestra, quase não há nenhum acontecimento na história grega que decorra das intrigas femininas. Nos tempos modernos, entretanto, particularmente em uma nação vizinha, as mulheres participam de todas as transações e arranjos da Igreja e do Estado (…) Henrique III pôs em perigo sua coroa e perdeu sua vida por ter incorrido no desagrado das mulheres”

quem poderia imaginar que os romanos tivessem um tão grande desinteresse pela música e considerassem a dança aviltante; ao passo que os gregos passassem todo o tempo a tocar flauta, cantar e dançar?”

Hoje, quando a filosofia perdeu a atração da novidade, não tem mais uma influência tão extensa, mas parece confinar-se principalmente a especulações de gabinete, da mesma maneira como a antiga religião estava limitada a sacrifícios no templo. Seu lugar está agora ocupado pela moderna religião, que inspeciona por inteiro nossa conduta e prescreve uma regra universal a nossas ações, a nossas palavras, a nossos próprios pensamentos e inclinações”

Diógenes é o modelo mais célebre de filosofia extravagante. Procuremos um seu paralelo nos tempos modernos. Não devemos desonrar nenhum autor filosófico comparando-o com os Domingos ou Loyolas, [dominicanos e jesuítas] ou algum padre ou monge canonizado. [No lugar disso,] comparemos Diógenes a Pascal”O filósofo antigo se sustentava por sua magnanimidade, exibição, orgulho, e pela idéia de sua própria superioridade perante seus conterrâneos. O filósofo moderno professava constantemente humildade e aviltamento, desprezo e ódio de si mesmo, e esforçava-se por alcançar essas supostas virtudes, tanto quanto fosse possível alcançá-las. As austeridades do grego visavam habituá-lo aos desconfortos e impedir que jamais viesse a sofrer. As do francês eram adotadas meramente por elas próprias, com o fito de fazê-lo sofrer o máximo possível. O filósofo entregava-se aos prazeres mais bestiais, mesmo em público; [quanto escândalo, ui, ui!] o santo recusava a si próprio os mais inocentes deles, mesmo em privado. O primeiro julgava seu dever amar seus amigos, ralhar com eles, censurá-los, descompô-los. O último esforçava-se por tornar-se absolutamente indiferente às pessoas que lhe eram mais próximas, e amar e falar bem de seus inimigos. O grande alvo dos sarcasmos de Diógenes era a superstição de qualquer tipo (…) A mortalidade da alma era seu princípio-padrão (…) As mais ridículas superstições dirigiam a fé e os atos de Pascal, e um extremo desprezo desta vida em comparação com uma vida futura era o principal fundamento de sua conduta.”

Onde está, então, o padrão universal da moral de que falais?”

Dos dois diálogos hipostasiados por David Hume apreendi que: para vencer uma discussão tens de ser o último a falar!

FREUD, BIOLOGIST OF THE MIND: Beyond the psychoanalytic legend – Frank Sulloway, 1983.

PREFACE

To humanists, Freud is an epic poet and a hero of literature. Moreover, his theories are deliberately segregated from the sciences under a variety of labels, such as ‘hermeneutics’ and ‘Geisteswissenschaft’. Freud himself helped to cultivate this kind of image when he elected to exclude from his Gesammelte Werke almost all of his numerous publications on the fields of neurology and neuroanatomy.”

A central message is that F., through the years, has become a crypto-, or covert, biologist, and that psychoanalysis has become, accordingly, a crypto-biology.”

Henri Ellenberger, in his impressively erudite if also much-disputed Discovery of the Unconscious (1970), has done more than any student of Freud’s life to question these myths in a systematic matter and to sketch out their general proportions.”

PART I: FREUD AND NINETEENTH CENTURY PSYCHOPHYSICS

1. THE NATURE AND ORIGINS OF PSYCHOANALYSIS

A renowned Viennese physiologist, Ernst Brücke, along with Émil du Bois-Reymond, Hermann Helmholtz, and Carl Ludwig, had succeeded in revolutionizing German physiology during the preceding quarter century [1848-1873, tomando como ponto de chegada o ano de entrada de Freud na faculdade de Medicina, quando teve Brücke como seu terceiro mestre – ao que tudo indica, os alunos naquela época e naquele modelo de ensino possuíam um professor por ano]. As youthful students of that Science in the early 1840s, the first 3 of these 4 men had banded together and pledged their mutual dedication to overthrowing the then-dominant position of vitalistic biologists like Johannes Müller – their common teacher; Ludwig, who was not a Müller student, joined the movement in 1847.”

no other forces than the common physical-chemical ones are active within the organism. In those cases which cannot at the time be explained by these forces one has either to find the specific way or form of their action by means of the physical-mathematical method, or to assume new forces equal in dignity to the chemical-physical forces inherent in matter, reducible to the force of attraction and repulsion.” Du Boys-Reymond, trad. Bernfeld. Vemos o quanto a HISTÓRIA DA MATEMÁTICA interfere na epistemologia médica do século XIX! Cf. https://seclusao.art.blog/2021/05/26/historia-da-matematica-uma-visao-critica-desfazendo-mitos-e-lendas-tatiana-roque-2012/.

Young Freud thus acquired his first scientific training within what has often been referred to, after its most famous member, as the ‘Helmholtz school of medicine’.”

Freud published 5 scientific papers during the next 6 years (1876-82): 2 on the neuroanatomy of Ammocoetes (Petromyzon planeri) – a primitive form of fish; 1 on the gonadal structure of the eel; an announcement of a new chemical method for preparing nerve tissues for microscopic examination; and a study of the nerve cells of the crayfish.”

F. subsequently named his third son after Brücke”

F.’s last major publication from this neuroanatomical phase of his career appeared in 1897” Daí pra frente (ou eu diria: já antes!) é só ladeira abaixo…

As late as 1936 the Swiss neurologist Rudolf Brun commented upon the unrivalled status of this monograph, calling it ‘the most thorough and complete that has yet been written on the cerebral paralyses of children’

2. SIGMUND F. AND JOSEF BREUER: TOWARD A PSYCHOPHYSICAL THEORY OF HYSTERIA (1880-95)

Meynert soon invited F. to work in his Laboratory for Cerebral Anatomy, which Freud did from 1883 to 1886.”

SEMPRE LIGADO À MORTE: “It was also while working as Sekundararzt in Meynert’s Psychiatric Clinic that F. finally decided, in September 1883, to become a neurologist. The immediate inspiration for this decision was the tragic suicide of Nathan Weiss, an extremely brilliant and eccentric young neurologist whom F. hoped to succeed in the medical community.”

Jean-Martin Charcot (1825-93) was then at the height of the varied medical career that had led him to the study of neurology, and his stature in French medicine was equalled only by that of the great Louis Pasteur.” “With the possible exception of Guillain (1955), no adequate biographical treatment of Charcot yet exists. This surprising lacuna in the history of medicine is perhaps related to the sharp reversal of medical opinions after Charcot’s death regarding the reliability of his famous researches on hypnotism and hysteria. The following account of his life and work relies heavily upon Ellenberger”

Charcot’s paper created a sensation. It also brought about a complete reversal within France of the negative attitude in official science toward mesmerism or ‘animal magnetism’ – a subject that the Académie des Sciences itself had twice formally condemned.” “It is no wonder, then, that the neurologist whose work on hypnotism and hysteria in the 1880s enthralled both the French medical community and a generation of novelists and playwrights eventually received the nickname ‘Napoleon of Neuroses’.”

Charcot was the first to teach us that to explain hysterical neurosis we must apply to psychology”

Charcot had further fixed the ratio of male to female hysteria at roughly 1:20.”

MITO OU VERDADE? F. (ou Charcot) descobriu a histeria masculina.

MITO. A questão já era debatida um século antes na Alemanha.

P. 38: “Thus, the existence of male hysterie per se (as a non-traumatic clinical entity) was by no means a controversial medical issue of this period, but had long been accepted, in fact, by most European and American physicians.”

The chairman of the meeting, Heinrich von Bamberger (one of the 4 professors on the committee that awarded F. his traveling stipend), responded to F.’s presentation with the words: ‘In spite of my great admiration for Charcot and my high interest for the subject, I was unable to find anything new in the report of Dr. F. because all that has been said has already long been known’ (Schnitzler, 1886).” Acontece que em seus escritos autobiográficos F. dissera que Bamberger respondeu: “Isso que você nos apresentou é inacreditável, a ciência não respalda!”.

As Ellenberger observes, the ‘critical’ reception of F.’s own paper was clearly a routine affair amidst such a learned society of medical experts.”

Three points of interest emerge from a survey of the responses to F.’s paper. First, F. was apparently unaware, before he delivered his paper, of just how well-known Charchot’s ideas already were to his own superiors in Vienna. (…) Second, F. obviously returned from Paris with an idealized picture of Charcot (…) It is now generally recognized that Charcot formulated his theories of hypnotism and hysteria on the basis of experiments performed repeatedly with a few dozen subjects, most of whom lived on the wards of the Salpêtrière, and many of whom, unknown to Charcot, had been rehearsed beforehand in the various responses expected of them.” Hahaha! “One patient, Blanche Wittmann, earned herself the title ‘Queen of the Hysterics’ for her ability to produce both the 3 stages of hypnosis and a complete hysterical crisis à la Charcot.”

The Belgian physician Joseph Delboeuf, who visited Paris contemporaneously with F., was appalled by the laxity of Charcot’s experimental procedures and, upon returning home, issued a highly critical account of them (1886).”

The third and last point about this incident is F.’s tactical blunder in attributing as unique to Charcot certain ideas and discoveries that were common medical knowledge in Vienna at the time. F.’s student contemporary and acquaintance, the psychiatrist and subsequent Nobel Prize laureate Julius Wagner-Jauregg (1847-1940), was also present at this meeting, and he later recorded in his autobiography how F. had affronted his superiors when he ‘spoke only of Ch. and praised him in the highest fashion’.” Como um aluno qualquer apresentando seminário.

F. was the only one at the Society of Physicians meeting even to bring up the old uterine theory of hysteria, which only a handful of physicians (particularly gynaecologists) took seriously any longer”

All in all, the reception of F.’s paper tells us more about his ambitious expectations as a young man of science (and about his overly sensitive attitude toward criticism) than it does about the supposedly backward state of affairs in Viennese medical circles in 1886.”

Briquet’s Traité presented the results of over 400 investigations of hysterical patients. On the basis of these researches, which required approximately 10 years to complete, he was able to dismiss altogether the prevailing notions that hysteria was related to unsatisfied sexual impulses (he found that prostitutes suffered more than nuns), to disturbances of the womb, or to an exclusive etiology in the female sex. Briquet estimated the same ratio between female and male cases later reported by Ch..”

Further, it is not true thar F. ceased on this account to attend the various local medical societies, as he also claims in his Autobiography. (…) a year and a half after his ill-fated talk he was duly elected to the society [of Physicians, de Viena]’s membership! He remained a member in good standing until he was forced by the Nazis to leave Vienna in ‘38. (…) See Sablik (1968)

Soon after F.’s return to Vienna, Meynert had begun to take a dim view of F.’s new allegiance to the views of Charcot, apparently considering it to be disloyal both to himself and to his own more somatically oriented views of disease.” Rupturas são com ele mesmo!

He even went so far as to label the growing hypnotism movement a ‘psychical epidemic among doctors’ – precisely the same epithet used 20 years later by a critic of the nascent psychoanalytic movement. Finally, Meynert firmly believed that most hypnotic ‘cures’ were the result either of fraudulence or of self-delusion on the part of doctors and patients.” “Meynert cited in this connection the experiences of one candid physician who confessed that he had more than once experienced involuntary pollutions after having been placed in a state of hypnosis. To this same subcortical liberation of sexual impulses, Meynert was also inclined to ascribe the well-known state of ‘euphoria’ so often experienced by subjects under hypnosis.” Ironicamente, F. iria se alimentar do fel do seu novo rival.

Liébault (mestre de Bernheim), Du sommeil et des états analogues, livro à frente da sua época sobre o hipnotismo.

Bernheim’s 1884 revival of Lié. suggestion therapy was subsequently expanded in 1886 into a larger textbook (De la suggestion et de ses applications à la thérapeutique), which F. himself had presumably read by the end of December 1887, since he was already under contract by that date, as he informed his friend Fliess, to translate this work into German. Bernheim reiterated his basic theme that (…) suggestibility (…) was a capacity shared by all human beings, not just hysterics and neuropaths. [como acreditava Charcot]”

As it has turned out, Bernheim was right [sobre a exclusividade do psiquismo no hipnotismo], and F., who later retracted his support for Charcot on this point, was wrong.” “In short, by 1893, the work of Bernheim and others had succeeded in convincing F. that much of Ch.’s evidence for the physiological nature of hypnosis was completely bogus.”

Breuer’s physiological researches provided a conceptual foundation for the pioneering theory of hysteria that he and F. later proposed.” “Breuer’s first important discovery – while still working as a medical student under Ewald Hering – was of the self-regulating mechanism of breathing as controlled by the vagus nerve (the so-called Hering-Breuer reflex). (…) his demonstration furnished conclusive evidence for one of the first biological feedback mechanisms to be documented in mammals. Breuer’s second major contribution to physiology was his discovery in 1873, essentially simultaneously with the great Ernst Mach and the Edinburgh chemist A. Crum Brown, of the function played by the semicircular canals in the ear. The inner ear is a double organ – for both hearing and balance. Breuer, in his own work on this problem, skillfully elucidated the delicate series of reflex mechanisms by which the sensory receptors within the inner-ear labyrinth succeed in regulating posture, equilibrium and movement. He also called attention to the importance of the more obscure otolith system, an aspect of the problem that had been overlooked by Mach and Brown. See Cranefield (1970a) and Hirschmüller (1978)” “The first Austrian Nobel Laureate, Robert Bárány, won the Physiology and Medicine Prize in 1914 for his work on the equilibrium organs of the inner ear. In 1916 he was denied academic advancement by the Senate of the University of Vienna because he had given insufficient credit to prior researchers on this subject, principally Josef Breuer. Although Bárány indeed admitted to having forgotten Breuer’s 1874 paper, Breuer himself made light of the whole episode and actually came to Bárány’s defense in the priority proceedings (Hirscmüller).”

On the strength of these early and impressive findings in physiology, Breuer was appointed in 1875 to the rank of Privatdozent at the University of Vienna. Subsequent difficulties in gaining patients for teaching purposes apparently caused him to resign his position 10 years later. At this time he also refused the offer of Theodor Billroth, the famous surgeon, to propose him for the title ‘Extraordinary Professor’, retiring instead into the full-time private practice that became his principal medical devotion.

The calibre of Breuer’s continued scientific reputation is nevertheless well illustrated by the fact the he was elected to the Viennese Academy of Sciences in 1894 upon the nominations of Ernst Mach, Ewald Hering, and Sigmund Exner, 3 of that body’s most accomplished and internationally known members. Although it is often assumed that Breuer published relatively little in his lifetime, a bibliography of his purely physiological publications includes nearly 20 articles totaling some 500 printed pages of meticulously conducted and carefully described research (Cranefield). Among Breuer’s many patients were the families of Brücke, Exner, Billroth, Chrobak, and many other prominent members of the Viennese scientific community.”

Breuer maintained an extensive correspondence with the philosopher-psychologist Franz Brentano as well as with the poetess Marie von Ebner-Eschenbach.”

In 1881, Breuer’s tutelage included regular monthly loans, and F.’s financial debt to him eventually was substantial – a debt that became a sore burden to F. a decade later, when B. tried to refuse its repayment during the period when the 2 men were growing estranged.”

B. immediately recognized Anna O. as one of hysterical double personality. He discovered at one point that, merely by showing her an orange, he could induce a transition from her normal personality to what she called her ‘bad self’. More remarkable still, at the height of her illness, the patient regularly hallucinated the various events in her life that had actually taken place 365 days earlier. B. documented this aspect of the case history from a diary of the illness kept by Anna O.’s mother.” “He found that if he repeated to his patient each evening, when she entered a state of autohypnosis, the frightened words she had uttered during her daytime absences (fr.), she was able to recall the forgotten details of her terrifying hallucinations. Therapeutically, this process relieved both her symptoms and her often agitated state of mind by the end of each day.” A limpeza de chaminé que, convenhamos, F. nunca soube reproduzir.

The medical cure was nothing short of stupendous, given the almost unheard-of time and patience Breuer spent in treating this one patient. According to Breuer, he listened to stories of the circumstances, people, places, and often exact dates (for Anna O. had a remarkable memory) associated with 303 separate instances in which the patient had previously experienced dysfunctions in her hearing alone. The systematic Breuer carefully recorded them all and even managed to group them under 7 different contextual subheadings!”

Juan Dalma has pointed out that Jacob Bernays, the uncle of F.’s future wife, had long been concerned with the Aristotelian concept of dramatic catharsis. (…) According to Hirschmüller, by 1880 Bernays’s ideas had inspired some 70 German-language publications on catharsis, a number that more than doubled by 1890. It seems very possible that an intelligent girl like Anna O. might have been acquainted with the subject and have unconsciously incorporated this knowledge into the dramatic plot of her illness.” Por que demorou mais de uma década para os Estudos em Histeria saírem? Porque o livro haveria de ser incrementado com algumas pacientes de F., as ‘famosas’ Elisabeth von R., Emmy von N., etc. Se é que todas existiram e tal e qual foram retratadas…

F. was slow to apply to B.’s new therapeutic technique himself after returning from Paris, probably because his initial clientele presented him with many strictly neurological disorders and, as a specialist in neurology, his own interests were still largely focused upon physiological aspects of the neuroses.”

The mysterious clinical diminution of hysteria in the course of the 20th century makes Breuer and Freud’s Studies on Hysteria an unusual book in the history of science; for while it marks a turning point in psychiatric theory, it deals with a disease many present-day neurological specialists see only once or twice in a lifetime of medical practice. Although no one has succeeded in satisfactorily explaining why hysterical afflictions have become as rare as they have in Europe and America, an interesting discussion of this problem from a social historian’s point of view has been provided by Carroll Smith-Rosenberg (1972). In a quasi-Adlerian analysis of the problem, Smith-Rosenberg has tentatively related the passing of this primarily female affliction to the increased opportunity that women have in modern life to control their own destinies, especially when faced with the sort of oppressive or intolerable circumstances that formerly allowed only one principal form of escape – flight into illness (and the role of the invalid).” Ou “flight into marrying”, rigorously the same!

Is it phantasy or just a fantasy?

É claro que dos “4 casos clássicos” do livro, o de Breuer é o único sem nada sexual envolvido…

The economic aspect is embodied in Breuer and F.’s theoretical attribution of hysterical symptoms to a certain ‘quantity’ of excitation, affect, or mental energy. In healthy individuals, this quantity is dissipated along the nervous pathways of everyday mental and physical activity. But in hysteria, B. and F. believed, a certain quota of affect succeeds in becoming pathologically ‘converted’ into inappropriate somatic channels (Strachey).”

The nervous system endeavours to keep constant something in its functional relations that we may describe as the ‘sum of excitation’. It puts this precondition of health into effect by disposing associatively of every sensible accretion of excitation or by discharging it by an appropriate motor reaction”

supersuscetível e insensível ao mesmo tempo

strangulation of affect: (…) when a strong affect is not permitted immediate or adequate conscious discharge – as with known clinical instances of hysteria arising from severe insults endured in silence”

The first published instance of the term das Unbewusste (‘the unconscious’) by either B. or F. occurs in B.’s discussion of the case history of Anna O. (S.E.).” “B., by his unusual diligence, perspicacity, and extreme patience as a physician, provided the initial discoveries that hysterical symptoms can arise from unconscious ideas and that they can be made to disappear if they are brought back into consciousness. (…) he also coined the term catharsis and possibly the term ab-reaction and was responsible for the notions of hypnoid hysteria and retention hysteria. F. was responsible, first and foremost, for reviving B.’s dormant interest in his famous patient” Graaaande papel.

According to the extreme form of this particular myth, F. was subjected to 2 conflicting forces, namely his allegiance to mechanistic and molecular explanation, i.e., the Helmholtz school’s¹ influence, and his desire to forge a new way of looking at the mind, a psychological way free from the entanglements of narrow and naïve materialism.” Cranefield

¹ “See Bernfeld (1944, 1949), who coined the phrase ‘the School of Helmholtz’.”

In the first place, Helmholtz himself was by no means ever considered to be the head of a ‘school’ in medicine, even among the original group of 4 – du Bois-Reymond (the group’s real leader), Brücke, Ludwig, and Helmholtz himself – who together initiated what Cranefield has more appropriately termed ‘the 1847 biophysics program’. (The year 1847 was when Ludwig joined the group.) Furthermore, Helmholtz was actually an isolated figure in science compared with the other 3; he had few students or close associates, even within the fields of mathematics and physics where he did his major and most valuable scientific work. Secondly, the members of this movement were at no time typical, as both Bernfeld and Jones have implied, of the extreme brand of 19th-century mechanism-materialism that was espoused by men like Karl Vogt and Ludwig Büchner. Carl Ludwig, for example, treated the subject of dreams (…) in what is certainly the language of psychology”

Finally, by the time F. began his medical training in the 1870s, the 1847 biophysics program had been in manifest retreat for many years. Indeed, by the 1870s, most of the movement’s original members had frankly acknowledged the prematurity of their initial visions that physiology was soon to become nothing but physics and chemistry.

On the other hand, the mechanistic thrust of Helmholtz and his biophysics confreres did enter psychoanalysis indirectly from the field of psychology through Gustav Theodor Fechner (1801-87). It was Fechner who not only introduced into psychology the principle of the conservation of energy (formulated in 1842 by the physician Robert Mayer and further developed by Helmholtz in 1845), but also derived a sophisticated equivalent of F.’s pleasure-unpleasure principle from this notion.”

Fechner’s famous law describing the mathematical relationship between the intensity of stimulation and the resultant sensation is mentioned by F. (…) in the Project for a Scientific Psychology.” “Josef Breuer, for his own, greatly admired Fechner, who, along with Goethe, were his two favourite authors (Jones). Fechner likewise exerted considerable influence upon F.’s teacher Theodor Meynert (Dorer).

Thus, perhaps most directly, the Breuer-Freud theory of hysteria reflects the ‘Fechnerian school’ of psychophysics far more than it does the long-since defunct ‘Helmholtz school’ of biophysics.”

Herbart’s influence may also be traced in the psychological writings of Fechner, as well as in those of the psychiatrist Wilhelm Griesinger (1817-69), both of whose ideas were in turn important sources of inspiration to F.’s teacher Meynert (Dorer).”

In the course of his Theoretical contribution to the Studies, B. specifically cited the works of men like Paul Möbius (1888, 1894), Adolf von Strümpell (1892), Pierre Janet (1889, 1893a, 1894), Joseph Delboeuf (1889) and Moritz Benedikt (1894) for their many anticipations of (…) the basic ideas advocated by himself and F..

Although the Frenchman Janet’s researches are now perhaps the best known of this group of psychotherapists, Viennese neurologist Moritz Benedikt’s views were the closest to those of B&F. As early as 1868, Benedikt had insisted, in opposition to Charcot’s predecessor Pierre Briquet, that hysteria often depends upon functional disorders of the libido. In subsequent publications, he continued to elaborate this doctrine on the basis of clinical evidence suggesting that most hysterics fall ill owing to their excessive preoccupation with a ‘secret life’ of phantasies or frustrated desires, frequently of a sexual nature.”

what perhaps serves most of all to distinguish the work of B&F from that of their many contemporaries in the scientific study of hysteria is their unusually detailed clinical documentation of case histories”

3. SEXUALITY AND THE ETIOLOGY OF NEUROSIS: THE ESTRANGEMENT OF BREUER AND F.

A técnica da pressão na testa foi inventada por Bernheim e por ele comunicada a F..

It is to Ellenberger’s (1972) even more recent and detective-like research efforts that we owe the unexpected rediscovery of a contemporaneous, 21-page case history of Bertha Pappenheim prepared by Josef Breuer in 1882, for the Sanatorium Bellevue, Kreuzlingen, Switzerland. (Where Anna O. was transferred to in July of that year.) Ell. also uncovered a brief follow-up report written by one of the physicians at the San. Bell. for the period of Anna O.’s 3-and-½-month sojourn there. (…) Albrecht Hirschmüller (1978), who has published the German texts of the various documents discovered by Ell., has found other equally relevant materials at the Sanatorium Bellevue. (…) So much for the myth about ‘timid’ B., retreating from the distasteful implications of his own momentous discoveries!”

In his painstaking work on the semicircular canals of the inner ear, B. did not stop until he had generalized his findings to fish, reptiles, birds, and mammals. If, prior to F.’s confirmation of B.’s initial findings, the latter was reluctant to publish his discoveries in the case of Anna O., this was simply because he did not believe that the isolated and possibly atypical results in this one case were grounds for formal (theoretical) publication on a subject of such complexity.” “In sharp contrast to B., F. saw far less need for copious replications of the cathartic procedure before making it known to the medical world.”

Even as late as 1895, when B&F finally published Studies on Hysteria, Bertha Pap.’s identity as A.O. became immediately evident to many Viennese readers of that book.”

In earlier times all hysteria was sexual; afterwards we felt we were insulting our patients if we included any sexual feeling in their aetiology; and now that the true state of things has once more come to light, the pendulum swings to the other side. (…) it is merely (…) the law of the swing of the pendulum, which governs all intellectual development.” B.

To sum up, B.’s collaboration with F. came to an end when F. began to insist sexuality was the essential cause of every hysteria as well as of most other neuroses.”

O bichinho da prepotência mordeu F. dentro da Salpêtrière.

In a word, F. feared mediocrity and others’ anticipation of his ideas more than he feared error in science, and he fully accepted the risks inherent in this particular choice of values.” Mas depois chorava suas pitangas.

B.’s position is plain enough from several subsequently published accounts detailing his 4 November 1895 public defense of F.’s views before the Wiener medicinisches Doctorencollegium (Vienna College of Physicians). F. had given 3 lectures on hysteria before this society on the evenings of 14, 21 and 28 October 1895.”

No physician has any idea what sort of symptoms an erection calls forth in women, because the young women refuse to speak of the matter and the old ones have already forgotten about it” B., 1895.

Thus, B.’s ‘inability’ to follow F. completely on this issue is simply a measure of F.’s own growing fanaticism about it.”

A Viena fim de século era mais promíscua que Gotham City, Paris no auge da opulência e que essas capitais da África setentrional e do Oriente Médio cheias de pederastas todas juntas. Por ali, tudo devia acabar em segredinhos sujos e mulheres histéricas.

F. clearly took his reductionist metapsychology literally when it came to the phenomenon of sex. B., on the other hand, was inclined to be more cautious in generalizing the various mechanical analogies in their model of hysteria. In Studies on Hysteria he treated this model as a psychological heuristic and thus saw no need to make sexuality any more ‘indispensable’ to hysterical symptom formation than affects like fright or anger.”

Eis-tudo da raiva.

Any theory of causation in mental pathology [why not general pathology too?] must take account of the straightforward medical consideration that disease can have only 2 logical sources, acting singly or together: (1) harmful experiences and/or agents originating in the external environment; and (2) endogenous (generally hereditary) factors. Ultimately, however, medical science must also seek to explain what contributes to disease-prone heredity, either in terms of inherited residues of noxious, ancestral experiences – the now-discredited Lamarckian position that F. himself endorsed – or in terms of some other form of genetic anomaly.”

DESCONFIE DOS ESQUEMAS REDONDAMENTE SIMÉTRICOS: “F.’s 4-part logic of disease brings to mind Aristotle’s well-known and similar fourfold analysis of causality into material, efficient, formal and final causes. Thus it is of particular interest that, at the University of Vienna, F. took 5 separate courses in philosophy with Franz Brentano, a specialist on Aristotle who also emphasized that Greek philosopher’s relevance to modern psychology. Two of Freud’s 5 courses with Brentano were devoted to Aristotle and to logic, respectively. See Bernfeld (1951) and, especially, Ramzy (1956), who discusses a number of more general parallels between the doctrines of Aristotle and F..”

The standard English expression ‘free association’ is a misleading approximation of F.’s own choice of the German words freier Einfall for his technique. F.’s term conveys much more of the intended impression of an uncontrollable ‘intrusion’ (Einfall) of preconscious ideas upon conscious thinking, a process that his fundamental rule of analysis – that the patient should report everything that comes to mind – was further designed to lay bare to the physician.”

4. F.’S 3 MAJOR PSYCHOANALYTIC PROBLEMS AND THE PROJECT FOR A SCIENTIFIC PSYCHOLOGY (1895)

I am particularly indebted to Stewart’s comprehensive analysis of the aspect of the choice-of-neurosis in F.’s neurological career in the 1890s (Psychoanalysis: The First 10 Years).”

The development of F.’s ideas on the actual neuroses can be followed in the Fl. correspondence from manuscript Drafts A and B in late 1892 and early 1893, to their far more refined formulations in Drafts E and G (mid-1894 and January 1895), and finally to their various published treatments in the 1890s (1895b, 1895f, 1898a). F.’s general approach to the problem, as stated in his earliest manuscript drafts, was purely ‘toxicological’. In other words, sufferers from the actual neuroses were somehow being neurologically poisoned by their own abnormal deployment of a sexual substance emanating from the reproductive organs.” O cérebro do neurastênico é inimigo do neurastênico, grande descoberta/hipótese que não mudava nada: mas quando é que F. não foi um inútil fataliste?!

AS INSPIRAÇÕES DE REICH: “At this point a totally uninhibited organism would take steps through vigorous motoric activity to place the sexual object in a favorable position. If successful, orgasmic reflex action discharges the accumulated tension in the end organ, thus triggering the simultaneous sensation of voluptuous feelings in the psychical sexual group.”

The 4-part analysis offered here is mine, not F.’s, although it is fully implicit in his psychophysicalist logic about the neuroses.”

He later called such anxiety neuroses ‘the somatic counterpart of hysteria’” “the symptoms of melancholia – a sort of psychopathological ‘mourning over loss of libido’ – were simply an unconscious neurotic counterpart to normal mourning.” “Two forms of actual neurosis were to be distinguished from one another in F.’s scheme: neurasthenia (characterized by lassitude, headaches, indigestion, perceptual sensitivities and a wide variety of other complaints) and anxiety neurosis. Neurasthenia was invariably the result of excessive adolescent masturbation (Freud 1895b), and it generally appeared with the onset of puberty.” Os sintomas de esgotamento, letargia e de fechamento ao mundo exterior não combinam com a puberdade. A energia sexual está em franco crescimento, pouco importando as vicissitudes do indivíduo e ele vive a fase mais expansiva de sua vida psíquica.

neurose atualíssima:

tão atual que só começa a acontecer amanhã!

F. via o afeto como impulsos somáticos que catexizam [descarregam] idéias no processo de obtenção de expressão psíquica.”

The paranoid individual, F. maintained in his 1896 publication, is one who differs from other psychoneurotics by fully accepting the existence of the incompatible idea. [Sem mecanismo de defesa ‘clássico’] Defense is nevertheless achieved in paranoia and entails projection of that incompatible idea onto the external world, whence comes the paranoid’s sense of persecution, his delusions, and his extreme distrust of other people.”

The Project is sufficiently complex that a summary of its contents cannot do it full justice. But a brief list of the topics treated by F. will perhaps suffice to convey the ambitious nature of this undertaking.

No other document in the history of psychoanalysis has provoked such a large body of discussion with such a minimum of agreement as has Freud’s Project. (…) [it] has even prompted some students of F.’s ideas to make elaborate comparisons between it and more recent achievements in the kindred field of cybernetics. Specifically, comparisons have been made to the electronic models of brain functioning developed by Donald Hebb, Karl Lashley, Norbert Wiener and others” “F. soon altogether abandoned the Project itself. As Jones observes, F. never even requested the return of the 2 notebooks that had cost him so much mental effort; and so it was that these notebooks¹ only became known to the world 2 decades after Fliess’ death and a full decade after F.’s own.”

¹ Mas não estamos falando do mesmo livro que tanto inspirou Reich enquanto ainda estava ligado a F.? Estranho…

Holt (1865a) has repeatedly insisted that many of the most important and often seemingly arbitrary aspects of psychoanalytic theory have their origin in ‘hidden biological assumptions’ derived from F.’s pre-psychoanalytic career. According to Holt, F.’s apparently psychological description of the psychical apparatus in the famous 7th chapter of The Interpretation of Dreams (1900a) was no more than a ‘convenient fiction’ – one that ‘had the paradoxical effect of preserving these biological assumptions by hiding their original nature, and by transferring the operations of the apparatus into a conceptual realm where they were insulated from correction by progress in neurophysiology and brain anatomy’ (1968a). Peter Amacher (1965) concurs with this judgment; and it is upon his careful historical documentation of the Project’s various intellectual roots that Robert Holt has based his own historical claims.”

Did F. (…) simply retain old-fashioned neurological terms (e.g. ‘cathexis’) while giving them a new and independent psychoanalytic meaning in The Interpretation (…)? [Mostly so!] Or, are the outmoded 19th-century neurological constructs so evident in the Project still holding up the creaking scaffolding of present-day psychoanalysis, as Holt insists, and has their cryptic nature insulated psa. from a much-needed rejuvenation within the fertile field of neurophysiology (…)? [Both!]”

According to Freudians, the Project represents F.’s ‘last desperate effort to cling to the safety of cerebral anatomy’ and is therefore a conceptual hangover from his earlier neurological education within the famous Helmholtz school of medicine (Jones). Complementing this 1st misunderstanding is the 2nd, namely, that F. abandoned the Project as an abject failure shortly after having written it. As I have already discussed the specific Helmholtz aspect of these claims, stressing its several implicit fallacies, here I shall address the view that the Project was only a ‘neurological’ document.”

F. was convinced that psychology must have a physical basis, and he logically hoped that psychological laws might turn out to exhibit many of the same fundamental principles as the neurophysiological events upon which they are causally dependent (Wollheim 1971).” “Even Jones (…) admits that F. had come upon the meaning of dreams more from an a priori physicalist than from a purely empirical point of view (Amacher 1965). (…) Kanzer’s attempt to reduce F.’s P. metapsychology to purely clinical inductions is, to me, patently unconvincing and only seems to substitute one unfortunate historical extreme for another.”

in seeking to legitimate his hypothetical distinctions between perceptual and psychical-mnemic neurones, F. had momentarily considered what he termed ‘a Darwinian line of thought’ before ultimately settling upon a mechanical solution to that problem.” Tradução: Quando convinha, F. usava o modelo estático da neurologia incipiente do século XIX; quando a explicação era insuficiente, recorria à biologia. Abandonava novamente a biologia quando seus conhecimentos em neuroanatomia pareciam não deixar contradições teóricas.

He formally enunciated 2 such rules, those of attention and primary defense, when his mechanical paradigm proved insufficient to master the psychological problems of intentionality and foresight. So it transpired that, when necessary, F. was able to renounce in the Project the concepts of a reductionist physiologist in favour of concepts proper to an organismic and evolutionary biologist. The importance of this conceptual step cannot be overestimated.”

In this way, and in this way alone [Darwinism], F.’s Project model of mind was made applicable to more than just amoeba-like behaviour. Thus in the Project, his 2 biological models – the purely mechanical and the organismic-evolutionary – were at times decided rivals for his supposedly ‘neurological’ loyalties.” “one remarkably well-integrated psychobiological system.”

This psychology is really an incubus… All I was trying to do was to explain defence, but I found myself explaining something from the very heart of nature. (…) Now I want to hear no more of it” F. a Fl.

F.’s unrelenting difficulties with the problems of defense and pathological repression in the P. bring up the important but far too little emphasized fact that he never finished this work. Furthermore, it was its most critical part – ‘The Psychopathology of Repression’ in the 3rd, and now lost, notebook – that he failed to complete to his personal satisfaction and thus withheld from Fl. [and burnt].”

From that point (completion of the first 2 notebooks) I had to start from scratch again, and I have been alternately proud and happy and abashed and miserable, until now, after an excess of mental torment, I just apathetically tell myself that it does not hang together yet and perhaps never will. What does not hang together yet is not the general mechanism (…) but the mechanical explanation of repression, clinical knowledge of which has incidentally made great strides.” Daí todo o seu pavor medonho de que Marie Bonaparte expusesse sua charlatanice ainda em vida, de posse das cartas a Fl..

The principal difficulty (…) was to provide a mechanical explanation for defense against unpleasure without having to assume the existence of an ‘observing’ ego.” Nascimento da tópica esdrúxula e fim de qualquer utilidade do Fraudismo.

chemical measure of unpleasure”

SEM FLIESS, SEM PSICANÁLISE: “It was to Fl. ultimately that F., in his candid desperation, increasingly looked for help in attempting to solve the problem of pathological repression in biological terms. ‘I am in a rather gloomy state,’ Fr. wrote to his friend on 30 June 1896, 9 months after drafting the Project for a Scientific Psychology, ‘and all I can say is that I am looking forward to our next congress. . . . I have run into some doubts about my repression theory which a suggestion from you . . . may resolve. Anxiety, chemical factors, etc. – perhaps you may supply me with solid ground on which I shall be able to give up explaining things psychologically and start finding a firm basis in physiology!’.” Mal posso acreditar que isso passou pela censura e pente-fino de Kris e Anna F. para publicação, pela 1ª vez, dos extratos das cartas F./Fl. (Origins of Psychoanalysis, p. 169)!

It is often assumed, erroneously, that there is only one form of reductionism in science – to the laws of physics and chemistry. But in certain sciences, particularly the life sciences, there are 2 major forms of reductionism – physical-chemical and historical-evolutionary; each supplements the other and explains attributes of living organisms that the other cannot (Mayr 1961).”

PART II: PSYCHOANALYSIS: THE BIRTH OF A GENETIC PSYCHOBIOLOGY

5. WILHELM FLIESS AND THE MATHEMATICS OF HUMAN SEXUAL BIOLOGY

A correspondence between the 2 began shortly after their first meeting, and by 1892 the formal Sie in their letters had given way to the informal du.”

Unfortunately even the availability of a complete edition of F.’s letters to Fl. would hardly solve many of the most important enigmas that have come to surround the intellectual relationship of these 2 men. Part of the historian’s problem stems from the fact that they exchanged many of their scientific ideas orally.”

Your praise is nectar and ambrosia to me”

Fl.’s Christmas present to F. in ‘98 was, appropriately, a two-volume set of Helmholtz’ lectures (Kris 1954). Physics, chemistry, and, for Fl., particularly mathematics were to be the foundations of the mature sort of scientific explanation that both men sought to achieve in their medical theories. It was Fl., significantly, who encouraged F. to continue with the Project for a Scientific Psychology when he began to bog down under the manifold frustrations of the ambitious undertaking.”

The standard and, indeed, the virtually unanimous judgment of posterity regarding Fl.’s scientific ideas is that they constitute a remarkably well-developed form of pseudoscience.”

Fl., Gardner explains, analysed all his periodicity data in terms of the general formula x*23 +- y*28. Unfortunately Fl.’s mathematical abilities must have been limited to elementary arithmetic, Gardner asserts, for what Fl. did not seem to realize was that any 2 positive integers that possess, like 23 and 28, no common divisor, can be used with his general formula (above) to derive any positive number whatsoever! Thus, there was no positive integer that Fl.’s formula could not produce, given the right juggling of the values of x and y. (Gardner, Fads an Fallacies in the Name of Science, 1957; 1966)”

If one eliminates these as well as 4 other numbers within plus or minus 3 of 28, one is left with only 2 candidates for Fl.’s formula: 23 and 33. It is interesting that modern Fliessians (and to this day Fl.’s theories boast a considerable following in Germany, Switzerland, Japan and US) have added a 33-day cycle to Fl.’s original 2-cycle system. One of Fl.’s most ardent disciples, Bruno Saaler, also found such a 33-day period in his own periodicity researches while Fl. was still alive, and asked his mentor about it.” Qualquer bom matemático ‘imparcial’ pode provar a existência de Deus para os crédulos! Como qualquer satanista ou esotérico pode usar os números a seu favour, ad infinitum

Fl. replied that he, too, had found considerable evidence for such a period, but he had finally concluded that it was really to be explained as the difference between 2*28 – that is, 56 – and 23[*1] (Saaler, 1921).

Freud intended to name one of his 2 youngest children after Fliess, but, as Jones dryly remarks, ‘fortunately they were both girls.’

F. even permitted Fliess to operate repeatedly upon his own nose and sinuses – Fl. surgically removed and cauterized part of F.’s turbinate bone – in the hope of dispelling certain neurotic symptoms!”

Two voices, albeit lone ones, have managed to find a few good words to say about Fl. – words that go beyond the standard attribution of menial functions that he supposedly served in F.’s life. (…) [e.g.] Eissler: [que começou a rever suas posições tarde demais, na velhice da velhice…] (…) an unsolved enigma still surrounds the relationship of these 2 men”

Precisely what that ‘unsolved enigma’ might be is a subject to which the psychiatrist and historian of medicine Iago Galdston (1956) long ago devoted an outspoken, heterodox, and thought-provoking essay.”

DO ESOTÉRICO AO EXOTÉRICO, PERCORRENDO TODO O HORÓSCOPO E TODO O CALEIDOSCÓPIO: “Virtually all of Fl.’s major ideas – periodicity, bisexuality, polarity, and man’s dependence upon the world process – were part of a Romantic tradition in medicine” “among other figures [than proto-biologists, naturalists and physicians], Galdston specifically cites Leibniz, Kant, Fichte, Schelling, Goethe, Carus, Oken, Novalis and Bachofen

In fact, I have absolutely no hesitation in asserting that, along with Brücke, Charcot and Breuer, Wilhelm Fliess is the 4th, the last, and perhaps the most important of the quaternary of personal friends and scientific contemporaries who most influenced F.’s psychoanalytic thinking during the crucial years of discovery.”

Surprising as it may seem, Fl. was hardly alone during the early 1890s in suspecting a physiological connection between the nose and the female sexual organs.”

Speaking in 1898 at a major medical conference in Montreal, Mackenzie expressed nothing but praise for Fl.’s researches (…): ‘Fliess’ elaborate monograph, written in apparent ignorance of the work done by me in this special field before him, is a model of painstaking labour, and is valuable as an independent contribution to the study of this important subject’”

To render the relationship to which I wish to call attention more intelligible, it is necessary to recall the anatomical fact that in man, covering . . . the septum of the nose is a structure which is essentially the anatomical analogue of the erectile tissue of the penis”

Indeed, the genitalia, the nipples, and the nose are the only parts of the body to possess such erectile tissue. Also, there generally occurs during sexual arousal a simultaneous erection of all such tissues throughout the body. According to Mackenzie, this last circumstance explains why some individuals suffer from chronic nasal disturbances (nosebleeding, sneezing, and simple occlusion) during moments of intense sexual excitation.”

Mackenzie believed that all such afflictions of the nasal mucous membranes were probably ‘the connecting link between the sense of smell and erethism of the reproductive organs exhibited in the lower animals’.”

In this connection Mackenzie testified that masturbators frequently suffer from concurrent nasal disease, olfactory disturbances and nosebleeding.” “Nor was Mackenzie surprised by Fl.’s report of several cases of accidental abortion due to galvanocaustic operations on the nose, for analogous medical observations had been known to Pliny in ancient times.”

Mackenzie’s early findings (1884) had received a prompt and favourable discussion from F.’s noted colleague at the University of Vienna, Richard von Krafft-Ebing.” “Krafft-Ebing drew attention to the relevance of the nasogenital relationship to certain enigmatic problems of sexual pathology, and he cited patients plagued by olfactory hallucinations apparently induced through excessive masturbation.” “Indeed, so closely linked with sexuality did Krafft-Ebing believe the olfactory sense to be that he envisioned the two functions as controlled by proximal areas within the cerebral cortex.”

For a more complete review of the history of this field, see Semon (1900), who credits the Freiburg otolaryngologist Wilhelm Hack (1884) with developing the notion of nasal reflex neuroses independently of the Mackenzie-Fliess theory of nasogenital disorders.”

By the late 1890s, the area of research pioneered by Mackenzie in 1884 in America and shortly thereafter by Fl. in Germany had come to be a common topic of discussion among rhinologists. To cite one illustration, in the same periodical (the much-respected Journal of Laryngology, Rhinology and Otology) and year in which Mackenzie issued his 1898 review article on this subject, there appeared a paper discussing the frequent association between nasal catarrh and enuresis (bed-wetting) among children.”

some 20 years earlier (…) illustrious biologist and ardent Darwinian, Ernst Haeckel (…) had theorized in his Anthropogenie oder Entwickelungsgeschichte des Menschen (Anthropology or Evolutionary History of Man) that ‘erotic chemotropisms’ – that is to say, chemically based sex stimulants affecting taste and smell were (…) the ‘primal source’ of all sexual attraction in nature (1874a).” “When sexologist Iwan Bloch published his 2-volume Beiträge zur Aetiologie der Psychopathia sexualis (1902-3), he duly cited Haeckel’s evolutionary hypothesis immediately before discussing both Fl.’s researches and their more recent confirmation in 47 clinical histories by Arthur Schiff (1901).”

(*) “Bloch, Haeckel and Fliess were all 3 to become founding members of the Berlin Ärtzliche Gesellschaft für Sexualwissenschaft und Eugenik in 1913. This organization in turn provided a prominent forum for the discussion and dissemination of Fl.’s theories. For a general review of late-19th-century literature on sexuality and olfaction, see Kern, 1975

What Benedikt and other critics contested was Fl.’s general theory of ‘nasal reflex neuroses’ and, in particular, the clinical frequency that he persisted in claiming for such disorders (1901). Yet (…) Even the ever-cautious Josef Breuer, after some initial hesitation, appears to have accepted the whole of Fl.’s nasal theory by the mid-90s, while Richard von Krafft-Ebing’s enthusiastic endorsement of the Mackenzie-Fl. doctrine stands in considerable contrast to the ‘benevolent scepticism’ with which he tended to view many of F.’s psychoanalytic claims about this same time.

As late as 1914, almost 20 years after their formulation, Fl.’s ideas on nasogenital disorders were still being openly discussed and zealously defended on an evolutionary as well as on a clinico-medical basis. One lively focal point for these later debates was the experimental research by Koblanck and Roeder in 1912, which showed that young rabbits that had had Fliess’ ‘genital spots’ surgically removed from their noses uniformly suffered an inhibition of development in their genital organs.” “How, his supporters apparently wondered, could Fl.’s detractors be so blind to the biological validity and importance of his nasal discoveries? § It is against this background of biological and medical debate over Fl.’s theories that the clinical support of his numerous co-workers must also be considered, for a surprising number of them found that his methods of cocaine application and nasal cauterization actually worked!”

The method becoming more generally known made friends out of scoffers, and many a man who began to experiment with it in the hope of discrediting it and exposing its fallacy wound up as a disciple and an apostle. Wherever the method was subjected to impartial tests it has achieved an amazing number of successes, and the experience of the last 6 years has procured for it many friends who would be loath to part with it if not forced thereto by very weighty reasons” Ries, 1903

Yet, numerous experimenters who took careful steps to preclude suggestion found that this particular factor could not explain why cocaine solutions worked and water did not, why the cocaine solutions uniformly took 8 minutes to act – instead of having a more immediate effect, as they should have done if suggestion was involved – or why cauterization of the nose often produced permanent results. (…) Only Fl.’s more ambitious and peculiar theory of the ‘nasal reflex’, together with his method of therapeutic treatment, eventually proved ephemeral.”

(*) “The specific use of cocaine in the treatment of nasal disorders remains one of the few success stories in the history of this otherwise problematic drug. According to Henderson and Johns (1977), this drug is unrivalled in nasal therapy today for its fast action, its prolonged duration, and its strong vasoconstricting and decongestive effects. ‘Cocaine finds its most extensive use in nasal surgery. In a recent survey of 4000 otolaryngologists, 94% said that they utilize cocaine routinely for anesthesia in nasal surgery’.”

the study of vital periodicity had passed through a long and honourable history before Fl. turned to it in the 1890s. The lengthy list of previous researchers into the biomedical implications of vital periodicity includes, among others, Charles Darwin, who in The Descent of Man had addressed himself to ‘that mysterious law’ common to both man and lower animals ‘which causes certain normal processes, such as gestation, as well as the maturation and duration of various diseases, to follow lunar periods’ (1871).

D. recognized not only the biological significance of the 28-day lunar cycle in most living creatures, but also the existence of regular weekly cycles, together with their even multiples, in virtually all temporal aspects of growth, reproduction, and disease known to life science. Darwin’s explanation for such weekly periodic processes assumed that man and his vertebrate relations must be descended from an ever lower, originally tidal-dependent, marine organism similar to the present-day ascidians.

The ascidians, or sea squirts, appear in adult form to be potato-sized sea plants. They are exclusively found, fixed to firm supports, in tidal zones. In the mid-1860s, the remarkable discovery was made by Russia’s leading 19th-century embryologist, Aleksandr Kovalevsky (1840-1901), that the larval form of the ascidian, which resembles a microscopic tadpole, possesses a rudimentary notochord and is therefore related to the most primitive of all true vertebrates (see also Adams 1973). The ascidians were consequently recognized as animals, not plants, and were considered by many to be a ‘missing link’ between invertebrates and the lowest true vertebrates.(*)

(*) The honor of being the lowest true vertebrate had previously fallen to the lancelot or amphioxus, a primitive fish that was once mistakenly classified with the worms. For a more general historical review of the receptions and controversies that greeted the famous ascidian hypothesis of vertebrate descent, see Russell 1916).”

“… animals living either about the mean high-water mark, or about the mean low-water mark, pass through a complete cycle of tidal changes in a fortnight [14 dias]. Consequently, their food supply will undergo marked changes week by week. The vital functions of such animals, living under these conditions for many generations, can hardly fail to run their course in regular weekly periods. Now it is a mysterious fact that in the higher and now terrestrial Vertebrata, as well as in other classes, many normal and abnormal processes have one or more whole weeks as their periods; this would be rendered intelligible if the Vertebrata are descended from an animal allied to the existing tidal Ascidians. (Darwin, 1874, expanded from the 1871 ed.).

As striking illustrations of both the prevalence and the indelible nature of this law, D. went on to cite that the eggs of the pigeon hatch in precisely 2 weeks, those of the hen in 3, those of the duck in 4, those of the goose in 5, and those of the ostrich in 7 whole weeks.

But why, asked D., had such weekly periods survived so uniformly in higher organisms? He attributed this rhythmic persistence to natural selection, which must have favoured in gestation and other periodic biological functions only those temporal alterations that harmonized with the original pre-existing cycles of the ancestors. Such ‘pre-adaptive’ transmutations, D. reasoned, would have been those occurring ‘abruptly by a whole week’. This conclusion, if sound, is highly remarkable; for the period of gestation in each mammal, and the hatching of each bird’s eggs, and many other vital processes, thus betray to us the primordial birthplace of these animals.

Darwin’s interest in vital periodicity was apparently aroused by the researches of his fellow countryman Thomas Laycock, who had treated the subject in a provocative series of 11 separate studies published in the early 1840. D. must have been familiar as well with his grandfather Erasmus Darwin’s stimulating treatment of solar and lunar influences upon biological processes. See Erasmus D.’s discussion of The Periods of Disease in Zoonomia (1794-6).

A neurophysiologist and neurologist like F., Thomas Laycock (1812-76) was a prolific scientific writer and published some 300 articles and 6 books in his lifetime. His widely read Treatise on the Nervous Diseases of Women: Comprising an Inquiry into the Nature, Causes, and Treatment of Spinal and Hysterical Disorders recognized hysteria in the male, attributed hysteria in the female primarily to sexual causes, and, on more Fl. lines, argued that menstruation does not cease during pregnancy (1840). More important for the history of psychology, Laycock was one of the earliest to develop a theory of the reflex action of the brain. He later combined this doctrine with a remarkably Freudian view of unconscious mental activity in order to explain dreaming, states of delirium, and various other mental disorders. He was one of the first neurologists to apply the theory of evolution to explaining the comparative structure and function of the nervous system in man and other vertebrates (see Laycock 1860). Through his famous pupil John Hughlings Jackson, Laycock’s views on the ‘evolution and dissolution’ of nervous functioning were later to have a major influence on F..”

Like Fl. half a century later, Laycock believed that temporal cycles govern the duration of many stages in the development of organisms. He drew much of his evidence on this score from the life cycles of insects, showing that the sequence of principal stages (ovum, larva and its moults, pupa, imago or ‘puberty’ stage, and adult life-span) often follows multiples of 7 whole days.”

In this last connection [cycles of 3 ½ days and its multiples for diseases] he pointed to the remarkable coincidence between such views and the famous ‘critical days’ of Hippocratic medicine – that is, the 7th, 14th, 21st, and 28th days. Setting forth one last anticipation of Fl.’s theories, Laycock suggested that twins, siblings, and perhaps even successive generations might all share identical constitutional periodicities in their vital cycles.”

Krafft-Ebing mentions Laycock’s Nervous Diseases (…) for its observations on the sexually stimulating effect exerted by musk [uma planta] upon women (Psychopathia Sexualis, 1886).”

Havelock Ellis, one of the great turn-of-the-century pioneers in the scientific study of sexuality, mentioned both men prominently and devoted a large portion of the 2nd volume of his Studies in the Psychology of Sex to ‘the phenomena of sexual periodicity’ (1900).” “Following the Italian anthropologist Mantegazza rather than D., Ellis attributed the 28-day menstrual cycle in the human species to a (…) residue of the favourable opportunities for courting, long provided by the light of the full moon (1900).”

In the late 1890s, the Nobel Prize of 1902 Arrhenius had claimed the discovery of 2 separate periods of air-electrical activity in Stockholm, following intervals of 25.93 and 27.32 days, respectively. On the basis of these meteorological findings, he went on to refer the 26.68-day menstrual cycle average in that city to the mean effect of these 2 electrical periodicities – themselves averaging 26.62 days, a difference of only .06 days [~1h26] (Arrhenius 1898).”

Krafft-Ebing had previously recognized equivalent phenomena in the male sex – for example, regular monthly homosexual urges and the case of a microcephalic imbecile whose sexual impulses were manifested ‘periodically and intensively, as in animals’ (1899).”

Like the relationship between the nose and the genitals, the subject of vital periodicity had become a hot topic for scientific research around this time. Indeed, not a few contemporary researches believed with Fl. that vital periodicity, together with its manifest links to biochemistry, might soon provide a major scientific breakthrough on the level of D.’s momentous achievements half a century before.”

Gravitation and evolution had to run the gantlet [encruzilhada, convergência] of ‘ist’ and ‘ism’, but are now undeniable laws. The medical man has now, so to speak, to devote himself to the astronomy of microscopic bodies” (Green 1897) – “vital law” never took place!

W.Fl.’s 3rd major scientific interest: bisexuality in man.”

To men like Richard von Krafft-Ebing, the idea of constitutional bisexuality provided one of the most promising solutions to the enigmas of homosexuality and other forms of psychosexual hermaphroditism.”

The original bisexuality [o sentido hoje seria ‘unissexualidade’, terceiro sexo, ou sexo uno, ou sexo zero, na realidade – pré-diferenciação sexual não-análoga ao hermafroditismo] of the ancestors of the race, shown in the rudimentary female organs of the male, could not fail to occasion functional, if not organic reversions, when mental or physical manifestations were interfered with by disease or congenital defect . . . . It seems certain that a femininely functionating brain can occupy a male body and vice versa(Kiernan 1888)

Krafft-Ebing presented in Psychopathia Sexualis the instructive case history of a woman who underwent a spontaneous sexual transformation at the age of 30. In June of 1891 this woman suddenly grew a full beard, developed hair on her abdomen and chest, and experienced a drastic voice change from that of a ‘soprano’ to that of a ‘lieutenant’. Temperamentally the patient assumed a psychically aggressive demeanor, and she even showed signs of a progressive ‘masculinization’ of the external genitalia. (…) In support of the probably organic and atavistic, or reversionary, nature of such pathological phenomena, Krafft-Ebing cited the researches of zoologist Carl Claus, an expert on both hermaphroditism and sexual alternation of generations in lower animals. K.-E. was particularly impressed by Claus’s discovery that certain forms of Crustacea live the 1st part of their lives as males and the 2nd as females (see Claus 1891).”

Impressed by his young student, Claus twice obtained for F., in March and September 1876, traveling grants to his newly founded marine laboratory in Trieste. While F. was at the Trieste laboratory, Claus personally directed his first piece of scientific research – a study of the male sex organs of the eel (Freud 1877b).”

Sobre o Segundo e mais conhecido trabalho de graduação de F., com Brücke (op. cit.): “Not only is Petromyzon itself bisexual, but, more important, it is virtually the closest zoological relative to the primitive amphioxus and hence, hypothetically, to the remarkable little Ascidians that had prompted to much lively biological controversy during F.’s student days. (…) Thus, when Fl. brought the theory of bisexuality to F.’s attention in the mid-90s, he found in the latter a biologically prepared listener who not only had trained with a leader in this field but also had conducted first-hand research himself on a bisexual progenitor of man.”

I should like to emphasize that Fl.’s only really new idea was the controversial claim to have discovered a 23-day physiological cycle in man. But even here he was forced to share the honors of simultaneous discovery with another of his biological contemporaries, Edinburgh University Professor of Comparative Embryology and Vertebrate Morphology, John Beard.” “23 days is the average interval between the termination of one menstruation and the beginning of the next.” “Beard sought to demonstrate that the time required from the last day of menstruation to the completion of the next ovulation in women, approximately 23 days, is of far greater biological significance than the full 28-day cycle.”

In the embryological development of every species, there comes a point at which the embryo is finally recognizable in all its essential parts. In man, this point, defined by Beard as ‘the critical period’, comes between the 46th and 47th day of embryonic life. Why, he asked, do some organisms come into the world only long after this critical period is reached? In other words, why are not all organisms born, as are most species of marsupials, when the critical period is attained, and when the primitive yolk-sac placenta of these marsupials is no longer able to nourish the young? Beard’s answer was that the post-marsupial evolution of an allantoic placenta had allowed gradual prolongation of gestation (with all of its well-known evolutionary benefits). But in marsupials, which lack this innovation, the embryo must be born when its parts are roughly complete, and when its source of uterine nourishment is gone.”

Something of a masterpiece in hypothetico-deductive reasoning, Beard’s monography was empirically supported by considerable quantitative data from comparative embryology and reproductive biology. His information showed that such whole multiples were indeed to be found in the mouse, rabbit, dog, cat, cavy, pig, sheep, cow, horse, and even man!

These findings bring us to Beard’s analysis of the relationship between menstrual and ovulatory cycles in human beings. In the human female, B. reasoned, menstruation represents the abortion of an unfertilized egg. It also represents the abortion of a missing 23-day-old embryo, one that would have been half the age at which such embryos now reach their critical period and technically become ‘fetuses’. According to Beard’s theory, 23 days must have been the original length of gestation in man’s ancestors; afterward it doubled to the present critical period and then was augmented, again by whole multiples, until it reached the present gestation span of 276-80 days. The aboriginal period of gestation has nevertheless been preserved, B. argued, in the present period of ovulation, which is triggered anew by each abortive ‘birth’ (menstruation) of an unfertilized embryo. In B.’s interpretation, then, the period of evolution is to be seen as extending from the very end of one menstruation to the very beginning of the next (1897). Menstruation itself is merely a superadded phenomenon – and peculiarly long in the human female on account of the highly evolved nature of placental reproduction in our species.

One important implication of Beard’s theory was that in man the usual length of gestation (276-80 days) could be understood as precisely 12 times the average ovulation cycle (23-23,33 days) and 6 times the critical period (46-47 days), and not, as most physicians then commonly believed, 10x the 28-day menstrual cycle. In corroboration of his theory, Beard presented considerable statistical evidence showing that spontaneous abortions tend to be most frequent at multiples of the 23-day ovulation cycle (1897).”

Although Fl. reached essentially the same conclusion as B. regarding the independent existence of a 23-day sexual cycle in man, he seems to have done so from a more physicalist point of view.” “It should be noted that much of Fl.’s scientific work on this subject originated from observations on himself and his family. Fl.’s wife became pregnant with her first child in March 1895 and delivered in 29 December, precisely the interval in which Fl. developed his ideas on the 23-day masculine cycle. What is more, during her pregnancy his wife’s periods varied from a lower limit of 23 days to an upper limit of 33 (Kris). (…) He was well aware that during pregnancy menstruation appears to cease only superficially. That is because the most characteristic feature of the female cycle, the last 4 or 5 days of uterine bleeding, is biologically suppressed (Fliess 1897).” “[This is the reason] this 2nd rhythm could be seen in Fl.’s bioenergetics terms as the really active and procreative component of the human sexual cycle.”

QUANDO DOIS MACHISTAS COADUNAM: “So, too, when his friend F. later came to the conclusion that libido, which the latter always conceived as inherently ‘active’, must be predominantly masculine and therefore corresponds to Fl.’s 23-day substance”

The normal ratio between the sexes at birth is roughly 105 or 106 males to every 100 females. On the basis of his theory of bisexual periods, Fliess predicted that this ratio should be 121.7 per 100 (=28/23). But males are known to show a much higher intrauterine, as well as postnatal, mortality rate than females. Citing data from Carl Düsing’s (1884) authoritative monograph on the regulation of the sex ratio in man, animals and plants, Fl. noted that the human dead-born sexual ratio was 129 males to 100 females (based on a figure of 10 million dead-born foetuses). Numerically, this finding is intriguing for Fl.’s theory, because:

129 dead-born males / 106 live-born males = 1.217 = 28/23 (exactly)!

In other words, the higher intrauterine death rate among males appeared to be somehow related to Fl.’s 2 periodic cycles.”

Fl. even produced independent biological statistics from Düsing (1884) to show that roughly 2 fetuses die in utero for every 51 born alive – precisely the figure required by his theory:

1+1 / 28+23 = 2 dead-born foetuses / 51 live-born foetuses”

There are (…) misunderstandings about Fl.’s theories that we are finally in a position to correct (…) in order to convey the full and rational nature of his influence upon F. (…) First, Fl. definitely did not chose the number 23 in his general formula 23x +- 28y because it allowed him to derive, in conjunction with 28, any and all positive integers, as critics from his own time up to ours (e.g. Gardner 1966) have suggested.(*) Fl. was simply not that stupid, either biologically or mathematically. [desmente trecho acima] Indeed, he was fully aware of such mathematical criticism and devoted 2 whole chapters in Der Ablauf des Lebens (1906b) to refuting it!

(*) According to Kris (1954), Fl.’s scientific ideas were never discussed outside Germany. This claim is patently false. See Ellis (1928), Mackenzie (1898) and Ries (1903) for further English and American citations of Fl.’s theories. See also Henning (1910).”

All in all, it would not be going too far to say that the remarkable mathematical versatility of 23 and 28 in Fl.’s basic formula was purely an unforeseen consequence of his prior biological train of thought. Only later did he apparently realize this mathematical versatility, which proved to be a veritable nuisance in his efforts to win converts to his biological conceptions.”

To cite perhaps the most glaring example of this historical disregard by the Freudians, Fl. has long been held responsible for predicting, on the basis of his biorhythm theory, that F. would die at 51 (the sum of 23 and 28).(*) And yet periods of years had absolutely no significance in Fl.’s theory.(**) In actuality, F. himself made this superstitious prediction in a letter he wrote Fl. a full year before his friend had even begun to speak about a 23-day cycle. F. founded this famous prediction upon his own knowledge of several colleagues who had died suddenly at this critical age (1900a). He was also obsessed at various times with the fear that he would die at 41 and 42, 61 and 62, and 81½ – ages that were as little significant to Fliess’s theory as was 51. Thus, the ‘death-at-51’ story, long a symbol of Fliess’s ‘number mysticism’ and ‘Teutonic crackpottery’, is largely a myth – one that tells us something about Sigmund Freud and his subsequent biographers, but nothing about Fliess.

(*) Consequently, Jones, Bakan, Lauzon, Gardner, Costigan, Schur and Strachey were all wrong.

(**) The only one who has ever noticed this inconsistency is the English-language translator, Patrick Evans, of Lauzon’s French biography of F. (1963), in a translator’s footnote to p. 47.

This conclusion brings us to the second and perhaps the more important of the 2 major historical misunderstandings about Fl.’s theory of vital periodicity.”

(*) “Discovery of the 33-day ‘intellectual’ cycle was announced in the 1920s by Alfred Teltscher, a doctor of engineering and teacher at Innsbruck who collected information on the performance of high school and university students. A series of Swiss investigators subsequently combined Fl.’s 2 cycles with the Teltscher cycle to create the present 3-cycle system. See Wernli 1959; Thommen 1964.”

Fl. was fully aware that the 28-day menstrual cycle does not confine itself to producing just 4 or 5 days’ symptoms every 23rd through 28th day or, for that matter, at regular 14-day intervals (…) Nor did Fl. expect all the phenomena of life, any more than those pertaining to menstruation, to follow entirely like clockwork at uninterrupted intervals of 23 and 28 days.” “What Fl. did expect was that different vital and pathological manifestations would intermittently occur in various bodily organs throughout each cycle and that the presence of recurring patterns would reveal itself by phenomena like migraine, Nebenmenstruation [sangramentos esporádicos fora dos dias habituais de menstruação], and other organic symptoms following one another at intervals of 23 and 28 days.”

Thus, Fliess was, above all, a victim of his own prior expectations; and as the latter had a substantial biological foundation, it was all the easier to find confirmations of his theory. After all, much of his data was derived from entirely bona fide 28-day, and even some 23-day manifestations of his female patients. (…) his ultimate scientific self-deception on the basis of prior biological assumptions was hardly the sort of totally ‘psychopathological’ affair that Freud’s biographers have so often proclaimed it.” “Some even interpreted resistance to his discoveries as a sign that he, like the long-unappreciated Gregor Mendel, was simply too far ahead of his times.”

From now on, we may definitely delete the word ‘chance’ from the biological sphere of events.”

6. F.’S PSYCHOANALYTIC TRANSFORMATION OF THE FLIESSIAN UNCONSCIOUS

Yet what a truly remarkable fact it is that not a single word has been uttered in the voluminous secondary literature on F. concerning Fl.’s discoveries on this most Freudian of topics (childhood sexuality). (…) Fl. published his ideas on infantile sexuality for all to see in his scientific monograph of 1897. (…) Kern, who mentions Fl.’s observations on sensual thumb-sucking in childhood seems not to have appreciated that they were part of a far more comprehensive conception of childhood sexuality and, more important still, that this conception was integral to his overall theory of human development and exerted a considerable influence upon F..”

Growth to Fl. was just another form by which sexual chemistry expresses itself in a wider, asexual mode of biological reproduction.” “his pansexualist unification of biorhythms, sexual chemistry and a theory of the entire human life cycle seemed to contradict contemporary scientific belief in the absence of sexual phenomena before puberty.”

Among children, in whom development proceeds in the same periodic thrusts (as found in adults), subtle indications from among the cluster of anxiety symptoms¹ betray the fact that these thrusts are essentially of a sexual nature. Such symptoms are singultus (attacks of sobbing) and diarrhea (‘teething diarrhea’). (…) it finds (…) symptomology (…) with little boys, in direct erections of the penis (…) (even as early as the first months of life!).”

¹ Referência a F.

Fl. set forth his provocative views on spontaneous infantile sexuality at a time when F., obsessed by his faith in a traumatic seduction theory of psychoneuroses, was intent on minimizing just such a possibility.”

Like F., Fl. was concerned with what is commonly known in psychoanalytic parlance as erotogenic zones – those parts of the body (including the nose) that are capable of contributing to sexual excitement in its wider, non-genital sense.”

I would just like to point out that the sucking movements that small children make with their lips and tongue on periodic days . . ., the so-called ‘Ludeln’,(*) as well as thumb-sucking, must be considered as an equivalent of masturbation. Such activity (…) brings on anxiety, sometimes combined with neurasthenia, just as does true masturbation. It comes on impulsively and is, on this account, so difficult to wean children from. . . . The role which the word ‘sweet’ (suss) later plays in the language of love has its initial physiological root here. With lips and tongue the child first tastes lactose (Milchzucker) at his mother’s breast, and they provide him with his earliest experience of satisfaction. Süss is related to the French sucer (to suck) and to Zucker, suggar, sugere.”

(*) “English possesses no real equivalent for the German nursery terms Ludeln and Lutschen (‘thumb-sucking’) used by Fl.. Both terms were later employed by F., along with wonnesaugen (‘to suck sensually’), to describe sexual manifestations of the so-called oral phase of childhood development. (…) see Strachey’s footnote to F.’s Three Essays. See also Lindner (1879), who had previously used all 3 terms in his study of childhood thumb-sucking.”

Compare Fl.’s etymological analysis of the German word suss with F.’s similar observations on this subject in his case history of the ‘Wolf Man’ some 20 years later

The enuresis and urticarial of children also appears only at periodic intervals. Childhood enuresis resembles the urge to urinate by which so many women are tormented and which also in fact occurs at periodic intervals among adults. Its relationship with sexual processes was apparently already known to the ancients (castus raro mingit, ‘the chaste rarely urinate’). But only if one knows its exact periodic relationship, can one understand why among older people, following the extinction of the sexual function, the bladder becomes less ‘retentive’ and how it might come to be that in some men, directly after castration and in an often mysterious way, that incessant impulse to urinate suddenly disappears, which at times can make life miserable for those with prostate disorders.” PARA ALÉM DA VASECTOMIA! DEVERÍAMOS NOS AUTOCASTRARMOS (EM BUSCA DO AUTOADESTRAMENTO)? O eunuco é o “cão comportado” cultural.

Fl. stood on Freudian ground when he drew a connection in his sexual theory between haemorrhoids in adults and those ‘reflex-neuroses’ associated with the reproductive system.”

Ernest Jones, who apparently misread a remark by F., has erroneously attributed to Fl. the origins of the specific term sublimation. Actually, both the term and the concept were already in common circulation in F.’s day, and they may be traced to Novalis, Schopenhauer and Nietzsche, among others. Although Krafft-Ebing did not employ this term, he believed, like Nie. and the others, that civilization, ethics and the highest poetic arts were all founded in human sexual feeling (Psychopathia Sexualis, 1886 and later editions).” Ernest Jones errar ou se enganar é pleonasmo.

(*) “Breuer’s teacher Ewald Hering (1870) and Ernst Haeckel (1876) had already proposed that heredity was merely ‘memory’ stored in the form of molecular vibrations or periods of motions (Gould, 1977).”

#offtopic Se Adão viveu 1000 anos, quando vocês acham que começou a adolescência dele e quando a pipa dele parou de subir?

Such a sharp student of etymologies as Fl. could hardly have overlooked the fact that the German language specifically relates ‘shame’ (Scham) to the genital organs: e.g., Schamteile (‘genitals’), Schamgegend (‘pubic region’), Schamglied (‘penis’), Schamgang (‘vagina’), and so forth”

F.’s use of the German expression schubweise in the preceding passage [of Interpretation of Dreams] is particularly worthy of commentary. Schub (‘push’, ‘shove’, ‘thrust’, etc.) and schubweise (‘by thrusts’) were developmental terms Fl. used throughout his monograph of 1897 in order to express the periodic ebb and flow that he personally attributed to all developmental processes in human beings. As such, these terms were unique to his writings in this scientific and biophysical context. F. adopted these terms from Fl. and introduced them into his correspondence with his friend soon after reading the latter’s monograph. In English translation, this linguistic tie between Fl. and F. has largely been lost. Thus, Eric Mosbacher’s English rendition of these terms in F.’s letters to Fl. (e.g., Entwicklungsschübe as ‘progressive steps of development’ and Schübe as ‘steps’ of development) has unfortunately obliterated both the precise scientific meaning of these terms in German, where Schub is specifically used in physics to mean ‘thrust’, and their peculiarly Fliessian, biorhythmic significance. (…) In the SE, translator Strachey’s choice of the words ‘successive waves (of development)’ as an English equivalent for Entwicklungsschübe and ‘by successive waves’ for schubweise is considerably more accurate but still not entirely adequate.”

Fl.’s 1st child (Robert) and F.’s 6th and last child (Anna) were born the same month (December 1895). Just how far F.’s scientific cooperation with Fl.’s researches proceeded may be gathered from the following anonymous, but surely Freudian, observation subsequently attributed to ‘a friendly colleague’ by Fl., who cited his anonymous friend ‘word for word’:

My wife felt the 1st movements of the child on July 10th 1895. On the 3rd December came the beginning of labor and birth. On the 29th day of February her period resumed again. My wife has always been regular since puberty. Her period runs somewhat over 29 days. Now, from the 3rd Dec. to the 29th Feb. exactly 88 = 3 * 29.33 days elapsed and from the 10th of July to the 3rd Dec. 146 = 5 * 29.2 days passed. For a period of somewhat over 29 days the birth therefore ensued right on time and the first movements of the child fall on the 5th menstrual date.”

That these observations were made by Freud and dealt with his wife and youngest child seems more than likely on the basis of the following 5 points of indirect evidence. First, A. was indeed born on 3 Dec. 1895. Second, she was Frau F.’s 6th delivery. Third, the written summary of evidence provided by Fl.’s anonymous ‘colleague’ required familiarity with Fl.’s unpublished theoretical expectations. Thus, the information could only have come from someone like F. who was in close scientific contact with Fl. in the early summer of ‘95. Fourth, the particular expression befreundeter College employed by Fl. in referring to his collaborator is one that F. and Fl. had previously agreed upon for just such discreet acknowledgments of mutual scientific debt. Fifth, Fl. later used birth information on all the F. children in his larger book Der Ablauf des Lebens (1906c).”

Uma doença em uma imagem

An universal medical diagnosis in the 1870s and 1880s, the attribution of neuroses and even insanity to ‘masturbatory excesses’ had virtually vanished by the 1930s and early 1940s. This change was effected largely by the pioneering medical efforts of Ellis, Moll and other contemporary sexologists, who, by systematically collecting information on the problem, found healthy and mentally disturbed individuals to differ little in their autoerotic practices.” “Freud and Fliess were united in their endorsement of the harmful consequences of such onanistic activities by their toxicological conception of the whole problem. (…) In spite of many emendations, [A psicanálise pode ser vista como UMA ÚNICA E GIGANTESCA AUTORRETIFICAÇÃO INTERMINÁVEL, TAL QUAL AS ANÁLISES!] F.’s mature theory of the neuroses continued to support this toxicological-bioenergetic conception of sexual pathology that had bound him to Fl. in the ‘90s.”

as late as 1899, Hermann Rohleder, in a scholarly medical monograph on masturbation (…) was able to assert that 16 months was the earliest age at which an erection had ever been reported in the medical literature. In contrast, Fl. was claiming such spontaneous erections as a regular phenomenon in the first few weeks of life – probably on the basis of first-hand observations of his son Robert. (…) See Chodoff 1966

Jung later recalled how surprised he was in 1907 to discover that F.’s wife knew ‘absolutely nothing’ about her husband’s psychoanalytic work (Billinsky 1969).”

F. wrote to his friend in February 1897 in connection with a request for information on early childhood attitudes toward excrement: ‘Because with 12 and ½ hours’ work I have no time, and because the womenfolk do not back me in my investigations’“Fliess had even informed Freud that his son Robert, now in the 2nd year of life, had become sexually aroused by the sight of his mother’s naked body – the same and supposedly revolutionary revelation later occurred to Freud”

Elenore Fliess, in a biography of her husband Robert, has briefly described the home life that allowed his father and mother to utilize him and his siblings as objects of psychosexual research. According to Elenore Fliess, Wilhelm Fliess was a man ‘who however charming to patients and acquaintances was a tyrant at home. His children were 2nd-class citizens, from diet to schooling. The mother, intelligent and quite efficient, would appear to have been more impressed with her husband’s off-beat (and quite unsubstantiable) physiologic theories than with his parental responsibilities’ (1974). It is not without significance that the principal subject of W.Fl.’s pioneering infant studies should have become a psychoanalyst who had little good to say about his own father. Yet prior to the ‘30s, Robert Fliess actively supported his father’s controversial periodicity theories (Schlieper 1928). His father’s death in 1928 and especially Robert’s subsequent training as an analyst during his late thirties seem to have precipitated a considerable re-evaluation of his father and his father’s theories (R. Fliess 1956). When George Thommen, an American Neo-Fliessian, contacted R.Fl. in the early 60s, Fl. refused to speak to him on the telephone; and Thommen was told by a second party that ‘the doctor did not wish to be involved’ Irmão da Anna por procuração. pRocura$ão.

Although F. was apparently unaware of Laycock’s views, the intimate biological link between sexuality and dentition was certainly known to him from more contemporary sources. Charles Darwin, in particular, covered much of this same ground when, in The Descent of Man, he listed tusks and enlarged canines among the most important mammalian secondary sexual characteristics, commented upon the regularly ‘inverse relationship’ between the development of horns and the length of canine teeth, and emphasized the inhibitory effect that castration generally exerts upon the development of horns and antlers in mammals (1871, 1874).”

The perversions regularly lead into zoophilia, and have an animal character. They are not to be explained by the functioning of erotogenic zones which have later been abandoned (in normal individuals), but by the operation of erotogenic sensations which have subsequently lost their force (in normal individuals). In this connection it will be remembered that the principal sense in animals (for sexual purposes as well as others) is that of smell, which has been deposed from that position in human beings. So long as the sense of smell (and of taste) is dominant, hair, faeces, and the whole surface of the body – and blood as well – have a sexually exciting effect. The increase in the sense of smell in hysteria (a state of repressed perversion) is no doubt connected with this.”

At any event, what F. does not state, but nevertheless seems to have had in mind in relating abandoned erotogenic zones to repression and the sense of smell, is Ernst Haeckel’s biogenetic law – better known as the theory that ‘ontogeny is the short and rapid recapitulation of phylogeny’ (1866) (…) then, according to Haeckel’s law, the child must necessarily recapitulate both the process by which the zones were gradually extinguished in man and the concomitant acquisition of olfactory ‘disgust’ toward these zones.” O que é falso, já que a repulsa ao material fecal não é “inata à maturidade”, mas um fator da socialização.

At what age, Freud asked Fliess, is disgust toward excrement first sensed by infants?”

At Aussee (for our planned meeting in August), I know a wonderful wood full of ferns and mushrooms, where you shall reveal to me the secrets of the world of the lower animals and the world of children. [grifo de Sulloway] I am agape [boquiaberto] as never before for what you have to say – and I hope that the world will not hear it before me, and that instead of a short article you’ll give us within a year a small book which will reveal organic secrets of development in periods of 28 and 23”

There can, in short, be little question, as subsequent letters to Fl. make even more evident, that the famed biogenetic law was of major hypothetico-deductive influence upon F.’s thinking throughout the 1986-7 period.”

Fetos do porco, da vaca, do coelho e do homem

Freud then remarked that sexual development in the female, as opposed to the male, seems to require an additional step in organic repression at the time of puberty – one that extinguishes the clitoral, or masculine, zone and thereby prepares the way for the subsequent innervation of the vaginal zone. Feminists will be inclined to see in this last, and surprisingly influential, psychoanalytic idea both a typical reflection of F.’s sexism and a clear sign of his ignorance about the female sex.”

Neurosis always has a feminine character . . . Whatever is of the libido has a masculine character, and whatever is repression is of a feminine character”

Experiences in childhood which merely affect the genitals never produce neuroses in males (or masculine females) but only compulsive masturbation and libido.”

P. 204: F. acreditou (ou, enfim, forjou, já que com charlatões nunca se sabe ao certo) sua ‘teoria da sedução’ principalmente porque não seguiu o trabalho de Fl. nessa parte, recusando-se, nesse ponto de sua ‘vida intelectual’, a atribuir sexualidade (ativa) às crianças pequenas, como algumas passagens de Sulloway já deixavam claro mais acima.

Ou seja, do ponto de vista do ‘teórico honesto’ (supondo que ele não tinha qualquer interesse supracientífico!), assim Sulloway explica o nascimento da ‘principal descoberta da psicanálise’ e que todos os imbecis e descuidados reputam ser de Freud, o primeiro do mundo a proclamar: “it only remained for Freud to take the next logical step in order to see how such repressed sexual impulses might generate phantasies” Além disso, não fosse dessa forma, não demoraria até 1905 para que ele publicasse um trabalho como os Três ensaios.

Was Freud himself consciously aware of any overlap between Fliess’ biochemical, developmental vision of libidinal impulses and his own growing insight into the etiology of neurotic phantasies? Judging from the Fl. correspondence, I believe he was.”

Nuremberg kept me going for 2 months.” Awn, que bonitos são 2 homens apaixonados! Trecho censurado pela família, hahahaha!… Sulloway só pôde citá-lo graças ao “furo” de Schur – quanta ironia!

Até mesmo Ellenberger, o destruidor dos mitos, caiu no conto do vigário mais potentemente que defensores escrachados como Schur e Jones, localizando (crendo haver já é chocante o bastante!) uma autoanálise a partir de 1895, enquanto esses outros babaquinhas atribuíam a “data oficial” como sendo algum mês de 1897.

F. frankly acknowledges the first essay, ‘The Sexual Aberrations’, to be a general compendium of current information from the writings of Krafft-Ebing, Havelock Ellis, Albert Moll and other sexologists.”

in 1910 and ‘15, F. ascribed homosexuality, in part, to ‘narcissistic object-choice and a retention of the erotic significance of the anal zone’

[In the 3rd essay] Adolescence also presents each individual with the critical task of finding an appropriate sexual object. At first such sexual objects are taken in phantasy life only – a process that inevitably revives the incestuous libidinal ties of childhood. These phantasies must be overcome if a normal sexual life is to ensue. Most individuals accomplish this feat by gradually detaching themselves from the parental authority that they accepted so unquestioningly in childhood. Psychoneurosis becomes the individual’s unhappy fate if there instead occurs a repudiation of the demands of normal sexuality, followed by an unconscious return to the incestuous object choice of childhood.”

In spite of the considerable credence given to these various explanations of the estrangement, I must question them all. To begin with, they all rest upon the (…) incorrect assumption that F. (…) was the one who terminated the relationship (e.g., Schur 1972).”

FREUD’S NEUROSES

From about 1894 to about 1900, F. suffered the symptoms of a psychosomatic illness. His complaints included highly depressed moods, disquieting self-doubts, an obsessive preoccupation with his own death, and various gastrointestinal and cardiac disturbances.”

The collapse of his seduction theory (his would-be discovery of ‘the source of the Nile’) effectively smashed his hopes for quick fame and recognition as a neurologist. Moreover, his scientific mistake, already published in several scientific papers, was professionally embarrassing. Indeed, it was fully seven years before F. finally admitted his error in print to the highly sceptical medical community that had never really believed him in the first place!” Isso que dá sair correndo para a caixa de correio com a tinta ainda fresca… Aprendesse com seu ex-mentor Breuer, poxa vida!

The characteristics of a creative illness are polymorphous, according to Ellenberger. They include depression; symptoms of a severe neurosis or even psychosis; excessive preoccupation with obscure intellectual problems; a sense of utter isolation, of ordeal, and of searching for ‘an elusive truth’; continual doubts about one’s ability to reach that great and secret principle; and an euphoric return to health once the discovery, or series of discoveries, has finally been made [or so the author convinces himself of].” Se essa foi a ‘doença’, acho que também já a tive! (2008-10) Todo pensador de pensamento único (Heidegger), aliás. Nietzsche hat mich kaputt gemacht!

E todo este meu depoimento sem que eu tivesse lido as linhas subsecutivas antes! “Such illnesses, Ellenberger maintains, are to be seen among shamans, mystics, creative writers, and many philosophers. Mesmer, Fechner, Nietzsche, Freud and Jung all suffered from a creative illness at some time in their lives. In F.’s case, Ellenberger believes, Fl. took on the role of ‘the shaman master before the shaman apprentice’ and thus facilitated F.’s passage through his creative illness. This is a variant of the traditional ‘transference’ hypothesis about Fl..

Whereas Ellenberger, Jones and most other F. scholars tend to stress the creative derivatives of F.’s neurotic illness, I prefer to concentrate upon its causes. F. was not only an ambitious and creative thinker but also a man obsessed with being creative – a self-styled ‘conquistador’ in the world of science. Eissler (1971), speaking of the medical-student period of F.’s life (1882-86), has reached a similar conclusion in relating F.’s ‘wild and probably pathological ambition’, together with his fear of accepting ‘a subordinate position in the history of ideas’, to many psychical conflicts he experienced during this earlier period. Eissler believes that F. has learned to master such conflicts by the time he visited Charcot in Paris. I, on the other hand, prefer to think more in terms of a ‘return of the repressed’ [HAHAHA] during the late 1890s.” A exata ironia que se deve usar contra os psicanalistas, uma vez que tudo eles rebatem com essas feias ferramentas escolásticas!

“‘We share like the two beggars, one of whom allotted himself the province of Posen; you take the biological, I the psychological.’ Then, with the abandonment of the seduction theory in September 1897, all this suddenly changed as F. also abandoned his extreme environmentalism and in its stead began to speak of ‘big, general framework factors’ in human development”

Biologically dream-life seems to me to proceed directly from the residue of the prehistoric stage of life (1 to 3 years), which is the source of the unconscious and alone contains the aetiology of all the psychoneuroses; the stage which is normally obscured by an amnesia similar to hysteria.”

But Fl. meanwhile had been busy extending his own theories – both along with, and independently of, F. – into the overlapping provinces of psychology, human psychosexual development, and neuropathology. (The absence of Fl.’s replies to F.’s letters should not fool one into thinking him as just a passive or disinterested observer of F.’s psychoanalytic transformation of his ideas.)”

In short, F. wanted to use Fl.’s ideas and suggestions – in his own psychoanalytically transformed terms.”

Contrary to his unconscious wish ‘to survive Fl.’, F. received no indication from the publication of The Interpretation of Dreams that his ambition was to be realized in a purely intellectual sense.”

I am deeply impoverished. I have had to demolish all my castles in the air, and I have just plucked up enough courage to start rebuilding them . . . In your company . . . your fine and positive biological discoveries would rouse my innermost envy. (…) [Veja os sinais do delírio de grandeza:] No one can help me in what oppresses me, it is my cross, which I must bear”

No critic . . . can see more clearly than I the disproportion there is between the problems and my answers to them” Ecoa o “Essas correspondências traem o que há de mais íntimo em minha vida” a Marie Bonaparte…

It’s just as well that we’re friends. Otherwise I should burst with envy if I heard that anyone was making such discoveries in Berlin!”

The result of the situation at Achensee in the summer of 1900 was that I quietly withdrew from F. and dropped our regular correspondence. Since that time F. has heard no more from me about my scientific findings.” Fl., 1906a

F. continued to believe in Fl.’s theory of biological periodicity long after they had parted intellectual company.”

FEDERN does not see the contradiction that has just been mentioned by F.. Tabular comparisons he made from this Fliessian point of view reveal that in some cases the periodic influence comes clearly to the fore as soon as during the course of treatment the psychogenic repetition of symptoms subsides. . . .

HITSCHMANN, too, is of the opinion that the influence exerted by psychic factors is no evidence against periodicity.” Minutes, 1913

F.’s disciples must surely have sensed more than a rational scientific objection in his aversion to combining Fliessian periodicity theory with the psychoanalytic point of view.”

Now for bisexuality! I am sure you are right about it. And I am accustoming myself to the idea of regarding every sexual act as a process in which 4 persons are involved. We shall have a lot to discuss about that” 1899

At first F. could not believe that Fl. would allow such a valuable friendship to come to an end. When he finally realized that Fl. was serious, [meio lerdinho, né gente] he still thought he could placate his friend by recognizing bisexuality theory ‘once and for all’ in connection with his famous ‘Dora’ case history, where, however, Fl. is NOT credited for this notion. Then, in an effort of DUBIOUS TACT, F. sought to win back Fl.’s friendship in late 1901 with the announcement that his next book would be called Bisexuality in Men, for which he would need Fl.’s considerable help!“Fl. also turned down F.’s subsequent plea for a reunion in January 1902.”

Legenda hilária de foto à p. 224: “Otto Weininger about 1900. At 23, he stunned the world with his book Sex and Character (1903) and then committed suicide the same year.”

The success of Weininger’s book may be judged by its having reached a 26th edition in 1925. A Danish translation appeared in 1905, an English translation in 1906, and a Polish translation in 1921. See also Ellenberger. Abrahamsen’s The Mind and Death of a Genius (1946) presents the best account of Weininger’s life and work and also contains 2 letters to the author from F. discussing his relations with Weininger.”

Até Jones confessa que no caso do plágio F. foi frouxo e covarde: “Obviously what Oskar Rie (Fliess’ brother-in-law and F.’s old collaborator on the subject of childhood cerebral paralyses) told me, in all innocence, when I mentioned Weininger, was incorrect. He said that Weininger had been to you with his manuscript and you, after examining it, had advised him against publication, because the contents were rubbish. In that case, I would have thought that you would have warned both him and myself of the theft.” Fl.

Jones, speaking from personal experience, was later to point up Freud’s annoying inability to keep confidential matters to himself.”

Meanwhile the whole episode had taken on a new complexion. When the psychotic Weininger had committed suicide in 1903, he left his library and all his papers to his friend Swoboda (Brome 1967), who in 1904 published a book on the periods of the human organism in their psychological and biological significance.” Não se pode confiar num lacaniano como Porge nem para saber desses detalhes direito!

UNFORTUNATELY Swoboda also tried to claim that he had made these discoveries independently of Fl., and that he had been, moreover, the 1st to document such periodic processes in the psyche.”

Actually we have to do with the fantasy of an ambitious man who in his loneliness has lost the capacity to judge what is right and what is permissible” F. sobre Fl. após o escândalo detonar, em carta para um anuário de sexualidade infanto-juvenil – ou seria sobre ele mesmo?!?

According to Bernfeld, Swoboda lost the case because his Viennese lawyer was sadly ignorant of German libel laws”

Both Pfennig and Fl. attempted to argue that Weininger’s knowledge of biology was so poor that he could not possibly have reached such an insight by himself. But Weininger’s 133-page Appendix (Zusätze und Nachweise) contradicts this claim and shows that he was widely read in the works of Darwin, Weismann, Haeckel, Naegeli, Claus, the Hertwig brothers, de Vries and many other contemporary biologists.” Em suma, este morto aos 23 anos não viveu!

In this Appendix (which is not included in the English translation), Weininger noted that the idea of bisexual complementarity in sexual attraction had previously been suggested by two men – Arthur Schopenhauer (1844) and Albert Moll (1897). Nevertheless, Weininger claimed to have reached his similar insight independently of these two sources.”

Sincerely convinced, like Weininger, that he was the originator of new and profound insights about an admittedly old idea, Fl. did what he thought necessary to protect his priorities. Such a response can hardly be considered ‘paranoid’, as Eissler and others have labelled it.” “Did not Fl., after nearly 15 years of intimate friendship and scientific collaboration, deserve better from F.?”

As late as 1910, he was disturbed by a dream repeated over a series of nights – a dream that had as its basic content a possible reconciliation with his old friend.” Que ironia que o grande manipulador da História no século XX fosse um “mago dos sonhos” e gostasse de se autodissecar, de forma que até essa sua intimidade pôde ser, enfim, exposta após sua morte!

Um dos desmaios de F. com J. foi quando este se recusou a omitir o nome de Fliess de qualquer artigo do Zentralblatt! “It seems that their final argument during the Achensee congress in 1900 took place in this same dining room.” Se não me engano, Roazen atribui cada um dos episódios de desmaio ao sentimento de inveja dirigido a Jung.

Recently, and in spite of their repeated refutation, these theories have attracted a following in Japan, where, according to Neo-Fliessian George Thommen (1973), they have been adopted by over 5,000 companies in an effort to improve safety and production. In America, the 3-cycle system has been promoted into a $1000-a-week business [?] by George Thommen and has also been applied to sports forecasting (see Gittelson 1977). Needless to say, Fliessian biorhythms work best when the application is retrospective, or when a knowledge of the theory alters the subjects’ behavioural patterns.”

7. THE DARWINIAN REVOLUTION’S LEGACY TO PSYCHOLOGY AND PSYCHOANALYSIS

When Charles Darwin, in his celebrated book On the Origin of Species (1859), announced to a disbelieving world that the supposed Organic Creation was no ‘creation’ at all but rather the result of a natural evolutionary process; when, in the guise of his theory of natural selection, he presented the world with a convincing new rationale for such heterodox views; and when, in The Descent of Man (1871), he finally included man himself in this evolutionary vision – in short, when he accomplished all these feats, he probably did more than any other individual to pave the way for F. and the psyc. revolution.”

Educated men and women read about Darwinian ideas first-hand, second-hand, third-hand, and nth-hand” Onde eu me incluo, pois até a data nunca li D. mas provavelmente já absorvi por tabela tudo o que ele disse sobre a tese central de seus dois livros imortais.

Lamarck, whose work finally gained acceptance through D.’s own achievements; those who were influenced by D., Wallace, and other early Darwinians (…) and those, like Herbert Spencer in England and Ernst Hackel in Germany, who played an important role in popularizing D.’s theories [os Sagans da época]”

that D.’s personal interest in psychology was ‘fundamental to his system’ has been convincingly maintained by Ghiselin (1973).”

D. successfully convinced his hesitant father that an oceanic voyage as a ship’s naturalist would not be demeaning to his intended profession as a clergyman. For 5 years Darwin circumnavigated the globe, spending most of this time in the vicinity of the South American continent, where he conducted detailed studies of the geology and the natural history of this great land mass and its neighboring islands.”

D.’s M and N notebooks have been transcribed and published with valuable commentary by Howard Gruber and Paul Barrett in Darwin on Man (1974). (…) Gruber’s chapter ‘D. as Psychologist’ has been of particular assistance in my own treatment of this theme.”

Metaphysics must flourish. – He who understands baboon would do more toward metaphysics than Locke” Notebook M – Não sei se isso ficou ultrapassado ou nós é que ainda estamos muito atrasados para “superar lockismos”…

D.’s researches on facial expression and other manifestations of the emotions were later published as The Expression of the Emotions in Man and Animals (1872). Although he had originally intended to use this material as part of The Descent of Man, he found the subject so extensive that it required a book of its own.”

D.’s notebooks touch repeatedly upon unconscious mental processes and conflicts; upon psychopathology (including double consciousness, mania, delirium, senility, intoxication, and a variety of other psychosomatic phenomena); upon the psychopathology of everyday life (forgetting and involuntary recall); upon dreaming (D. records 3 of his own dreams and subjects them to partial psychological analysis); upon the psychology of love and the phenomena of sexual excitation (‘We need not feel so much surprise at male animals smelling vagina of females. – when it is recollected that smell of one’s own pudenda is not disagreeable’

The Devil under form of Baboon is our grandfather!”

One of the earliest known attempts of its kind, D.’s ‘A Biographical Sketch of an Infant’ (1877)

Taine believed that children would eventually create a language of their own if not otherwise supplied one by adults.”

In the early 1880s, while F. was still a student, and aging D. had put the bulk of his unpublished researches in psychology at the disposal of Romanes. After D.’s death in 1882, Romanes published much of this unknown manuscript material, including an essay by D. on the subject of instinct, as part of his Mental Evolution in Animals (1883). Five years later, Romanes followed this work with a companion study on child development entitled Mental Evolution in Man (1888), which was read and carefully annotated by F. – probably during the early 90s. This book is, in fact, the most annotated work of those that comprise the 1,200-item F. acquisition of the Health Sciences Library, Columbia University.” “It is strange that F. does not refer to this work in any of his published writings – for example, in the list of books on child psychology that he said were known to him in his Three Essays.”

D.’s inference was anticipated by his grandfather Erasmus D., who was also an evolutionist and had already argued in Zoonomia that the infant’s pleasurable sensations while breast-feeding later find mature expression in man’s highest aesthetic undertakings (see Ellenberger 1970).”

Enfim, a cada página que se lê, fica mais claro que Freud tem mais precursores que o Flamengo tinha torcedores no Maracanã nos anos 70.

In America, Groos’ Die Spiele der Thiere (The Play of Animals) and Die Spiele der Menschen were translated by Elizabeth L. Baldwin, the wife of American psychologist and evolutionary theorist James Mark Baldwin.” “F. was familiar with the works of Baldwin (1895), Groos (1899), Sully (1896) and Preyer (1882)“To sum up, by the ‘90s the post-Darwinian rush to child psychology had reached the point at which even F. was wondering in private how much room for originality remained.”

The history of psychology in the 19th century may be viewed as essentially a development away from philosophy and toward biology (Young 1970).”

It is not generally recognized that D.’s The Descent of Man, and Selection in Relation to Sex [the whole title of the book] was really 2-books-in-1, with roughly 2/3 of it being devoted to the subject matter announced in the latter half of the title! In fact, the major message was the claim that a phenomenon called sexual selection can and does act independently of the Darwinian principle of natural selection. But D. was saying even more – namely, that the ultimate test of biological success lies in reproduction, not in ‘the survival of the fittest’.” Ainda não fugimos de Schopenhauer…

TAVA DEMORANDO, ALIÁS! “Schopenhauer’s famous work Die Welt als Wille und Vorstellung emphasized the unconscious and irrational aspects of the will. Behind the operation of the will were 2 instincts, the conservative [feeding] and the sexual; and Sch. considered the sexual to be by far the more important of the 2.”

The sexual act is the unceasing thought of the unchaste and the involuntary, the ever recurring daydream of the chaste, the key of all intimations, an ever ready matter for fun, an inexhaustible source of jokes” Provavelmente já traduzi esse trecho!

Mann once wrote that F.’s theories were Sch.’s doctrines ‘translated from metaphysics to psychology’. F. later claimed that he read Sch. very late in life” Sempre essa mesma baboseira de escusa. Veja as cores e cheire a merda (merdanálise!).

Havelock Ellis, who later prided himself on his early (1898b) acceptance of the Breuer-F. theory of hysteria, nevertheless recalled in the year of his death that Thomas Clouston had endorsed a sexual interpretation of this disease ahead of all of them (1939a).”

To biologists before D., the many useless rudimentary organs in nature – like wisdom teeth and the appendix in adult man, and the gill slits [brânquias – como se fôssemos capazes de respirar na água caso o feto se desenvolvesse de forma diferente…] and tail in the early stages of human embryological development – often seemed like arbitrary quirks of Creative Fiat. D. demonstrated the historical meaning of such organs”

Wilhelm Bölsche [vik?] (1861-1939), a popular science writer as well as novelist, was also known in lay intellectual circles for his biographies of D. and Haeckel.” “His rambling and highly lyrical Das Liebesleben was an unabashed part of this attempt [in materialistic biology], extolling the many marvels of sex while cataloguing in prosaic detail the remarkable diversity in nature’s modes of sexual union.”

Penis and vagina appeared with the crocodiles as a means of introducing greater efficiency into the awkward process of ‘anus pressed against anus’” Bölsche (1931)

By the mid-19th century, the notion of anatomical fixations (or ‘arrests in development’) was well established in the fields of embryology, teratology (the study of monstrous births), and medical pathology.”

James’ laws were applied by Moll to developmental disorders of the ‘libido sexualis’ in a work that F. carefully read in 1897.”

F. owned, and from the evidence of his annotations, read with care the 1896 German translation of Ellis’s Sexual Inversion.”

F. scholars have long pointed out that F. was indebted for this general concept of regression to the English neurologist John Hughlings Jackson (1935-1911) and his notion of ‘dissolution’. Jackson, in turn, derived his ideas on the ‘evolution’ and the ‘dissolution’ of the nervous system from the evolutionary philosophy of Herbert Spencer.” “Pagel (1954) has traced the notion of pathological regressions to a number of early 19th-century medical thinkers.”

#offtopic Eu sou uma cadeira e odeio ser um encosto!

8. F. AND THE SEXOLOGISTS

Terms and constructs like libido, component instincts, erotogenic zones, autoerotism, and narcissism – all generally associated in 20th century consciousness with F.’s name alone – were actually brought into scientific circulation between 1880 and 1900 by other contemporary students of sexology.” “Unknown to Ellis, Näcke and F., Alfred Binet (1887) precede them all by comparing certain fetishists who take themselves as their preferred sexual object to the famous fable of Narcissus.”

Stephen Kern (1973, 1975), who has presented by far the most detailed historical survey to date on the subject of childhood sexuality, lists over a dozen publications between 1867 and 1905 in which F.’s views were clearly presaged (…) Not only did many of these writers, like Henry Maudsley (1867), S. Lindner (1879), Bernard Pérez (1886), Friedrich Scholz (1891), Paul Sollier (1891), Jules Dallemagne (1894), Stekel (1895), Karl Groos (1899), Hermann Rohleder (1901), Iwan Bloch (1902-3), and Lewis Terman (1905) recognize the relative normalcy of sexual manifestations in childhood; but a few others, like Max Dessoir (1894), Moll (1897b), Ellis (1898a, 1900b, 1901) and Sanford Bell (1902) went even further in arguing that the normal human libido develops in sequential, prepubertal stages – attaching itself to different ‘love’ objects in the process. (…) As Kern concludes, ‘almost every element of F.’s theory of child sexuality is exactly anticipated, or in some way implied or suggested, before him.’

Um quarto de século antes do que se imagina popularmente.

Krafft-Ebing later attributed his ambition of erecting a whole science of sexual pathology to Ulrichs’ influence. Ulrichs (1826-95), a Hanoverian legal official, was also a self-confessed homosexual. In a series of works published from 1864 onward, at first under the pseudonym of Numa Numantius, Ulrichs had openly discussed the problem of sexual inversion and had sought for a revision of the German legal codes in this domain. It was Ulrichs who coined the term urning in reference to homosexuals (an allusion to Uranos in Plato’s Symposium).”

Although the Psychopathia Sexualis enjoyed immense success, finding its way into 7 languages and going through 12 editions in its author’s lifetime, Krafft-Ebing himself was far from being a seeker after notoriety. As Victor Robinson (1953) has commented about him: ‘K.-E. was a physician who wrote for physicians. He did not want the public to read his book, so he gave it a scientific title, employed technical terms, and inscribed the most exciting parts in Latin. . . . It was annoying not to understand the cryptic phrase in the lady’s letter: <While you whine like a dog under the lashes of my servants, you shall witness another favoritus sudorem pedum mihi lambit. [meu pé suado favorito sendo lambido]>’. Still, the public was hardly to be foiled by such subterfuges, for most of the book was written in the vernacular. It was this feature of the Psychopathia Sexualis that prompted the Brittish Medical Journal to lament in 1893 not only the book’s recent translation into English (by an initially anonymous translator), but also the fact that K.-E. had not written his entire book in Latin and thus veiled it ‘in the decent obscurity of a dead language’.” “The Psychopathia Sexualis itself grew from 45 case histories and 110 pages in 1886 to 238 case histories and 437 pages by the 12th edition of 1903.”

It was Krafft-Ebing that coined the terms sadism, masochism, sexual bondage and psychical hermaphroditism.”

Adolescent onanism, he believed, destroys the masturbator’s sexual ideals and eventually undermines a normal desire for the opposite sex.”

Differentiating himself from alienists like Krafft-Ebing, who were preoccupied with the medical and forensic aspects of perversion, Binet (1887) explicitly set out to study the acquirement of sexual perversions and, particularly, to elucidate the psychological laws governing this process.”

Schrenck-Notzing reported that his patient, a homosexual from a ‘tainted’ family, had required 45 hypnotic sessions over 4 months in order to reverse his inverted tendencies (1889). (…) (Besides hypnotic suggestions, Schrenck-Notzing’s treatment included trips to local brothels in order to reinforce these therapeutic suggestion!)”

In part a reaction against the pseudoexactitude of German psychophysics, the functionalist program (led by William James, John Dewey, J.R. Angell, and G. Stanley Hall) sought to make psychology the study of the organism’s adaptations to its environment.”

It was Kiernan who first insisted that the 9 gruesome (and never solved) murders attributed to ‘Jack the Ripper’ between 1887-89 were the work of a sexual deviate.” “It was through publications of Kiernan and Lydston in America and, slightly later, through Julien Chevalier’s (1893) similar writings in France, that these biogenetic theories of sadism and sexual inversion came to the attention of Krafft-Ebing, who was particularly enthusiastic about the notion of bisexuality, with its apparent solution to the problem of homosexuality.” “Through years of patient research, Krafft-Ebing had come to recognize the noble qualities of many homosexuals, who were frequently, he emphasized, the pride of their nations as authors, artists, statesmen (1901b).”

Krafft-Ebing was one of 2 professors, along with Hermann Nothnagel, who actively supported F.’s promotion to Extraordinary Associate Professor at the University of Vienna – an honor F. finally obtained in 1902, the year of K.-E.’s death.”

It was to the Psychopathia Sexualis, that monumental conduit of information and theory on sexual pathology, that F. turned in early 1897 when he first formulated the notion that psychoneurosis is a ‘repressed’ state of perversion.”

Compared with Havelock Ellis and F., Albert Moll is an obscure figure today – a standing that is in marked contrast to his preeminence as a neurologist and sexologist around the turn of the century. After K.-E.’s death in 1902, Moll was possibly the best-known authority on sexual pathology in all Europe.” “After 1933, Moll’s reputation suffered a further setback in Germany as his books were systematically destroyed by the Nazis; and in a curious twist of fate, he died in 1939, in relative anonymity, the same day as his world-celebrated rival F. (Ellenberger 1970). [!] Moll’s intellectual relationship to F. has long been obscured by his harsh criticisms of psychoanalysis after the turn of the century” Errado não tava!

The rank of Ellis’ (1928) citations may be looked upon as a convenient ‘Who’s Who’ of eminent sexologists around the turn of the century. Moll, leading the field with 120 citations, is followed by Iwan Bloch (96), K.-E. (77), Charles Féré (76), F. (75), Magnus Hirschfeld (71) and Paul Näcke (57).”

In Paris, Moll attended Charcot’s lectures and clinic and was also invited, like F., to C.’s famous parties. Through C., he met Binet, Féré, Gilles de la Tourette and many others (…) he attached himself to the Nancy school of hypnotic therapy (…) [and] he later spoke, like F., of having been ‘isolated’ from his older and more conservative colleagues during these pioneering years (1936).” Deve ser o ar de Viena que deixava os doutores tão egocêntricos e afetados!

Ellis, who arranged for Moll’s first book [on hypnosis] to be translated into English as part of his Contemporary Science Series, later reported that it had become the best-seller of the entire 50-volume series (1939b).”

Writing on the subject in 1897, Ellis called Moll’s work ‘the most important discussion of sexual inversion which has yet appeared’ (…) E. commanded Moll for attacking the causes of perversion and for doing so ‘as a psychologist even more than as a physician’.”

Already in the 1890s he had reported that mutual masturbation is often practiced in childhood by individuals who later show no signs of inversion. In fact, he had learned of a veritable ‘epidemic’ of this sort that had broken out in a Berlin boarding school many years before.”

It was, as he stated in his Preface to Investigations into the Libido Sexualis (1897b), the regrettable failure of previous sexologists to study normal sexuality that was largely responsible for existing disagreements about abnormal sexuality.”

“…we are familiar in literary history with numerous cases of prominent poets who in their early childhood fell in love with women, that is at a time when we could not as yet speak of physical puberty. Let me mention Dante, who fell in love with Beatrice at the age of 9; Canova at the age of 5; Alfieri, at 10; and Byron is said to, when 8, have fallen in love with Mary Duff.” Moll

Were a single sexual experience and, indeed, the first sexual experience, to induce a lasting association between the sex drive and the object of the first sexual experience, then we would have to find sexual perversion everywhere. Where are there to be found people who initially satisfied their sexual impulse in a normal manner?”

I determined that I would . . . spare the youth of future generations the trouble and perplexity which this ignorance had caused me”

H. Ellis

Besides his own writings, Ellis occupied himself for many years by editing 2 major book series: the 26-volume Mermaid Series, through which he republished the best plays of Shakespeare’s contemporaries; and the 50-volume Contemporary Science Series, the first volume of which was Geddes and Thomson’s widely read The Evolution of Sex (1889). After writing 2 books of his own in the CSSThe Criminal (1890) and Man and Woman (1894) – Ellis turned his attention in the mid-90s to his chief life’s work, the Studies in the Psychology of Sex.”

Ellis says in his autobiography that when he finally finished the 6th volume, he could identify himself with Gibbon completing his monumental History; and in his personal diary Ellis wrote at the time, ‘The work that I was born to do is done’ (1939b). A supplementary 7th volume (Eonism and other Supplementary Studies) was added to the series in 1928.

The scope of Ellis’s documentation in the Studies is truly breathtaking. He was uncommonly at home with the medical literature of his day and cited more than 2,000 authors in the Studies from at least half a dozen different languages. Each volume is an encyclopedic compendium of contemporary information on the various topics he treated. At once informative, judicious and readable, the series enjoyed an immense success that included its translation into numerous foreign languages.

Publication of his 1st volume in the series, Sexual Inversion, soon became the occasion for the famous prosecution of Queen v. Bedborough in 1898. Bedborough, a bookseller of radical reputation, was arrested in 1898 for selling a copy of Ellis’s book to a London police detective.(*) He was thereupon charged by a grand jury with seeking ‘to vitiate and corrupt the morals of the liege subjects of our Lady the Queen, to debauch and poison the minds of divers of the liege subjects of our said Lady the Queen, and to raise and create in them lustful desires, and to bring the liege subjects into a state of wickedness, lewdness and debauchery’ (Ellis 1936).

(*) See E.’s Note on the Bedborough Trial (1898c).”

even in America, the sale of E.’s Studies was restricted to doctors and lawyers until the early 1930s.”

He acknowledged the importance of examples set at school, of seductions, and of disappointments in normal love in eliciting such latent tendencies. (…) When the Studies were later republished in America, he moved the volume on sexual inversion to the 2nd position in the series.”

As sexual derivatives, E. proclaimed, the symptoms of hysteria documented so thoroughly by Breuer and F. were to be included among autoerotic phenomena. (…) A regular exchange of letters and publications between the two investigators dates from about this time.”

He recorded the case of an 8-month-old female infant who was able to induce complete orgasm by closing her eyes, clenching her fists, and tightly crossing her thighs.”

E.’s survey article offered several provocative views of his own on the oral and anal nature of childhood sexuality, a subject on which he anticipated much of the Freudian doctrine. He referred to the pleasurable anal, urethral, and bladder sensations reported by a number of his personal informants who, as children, had regularly practiced the voluntary retention of urine and excreta for this purpose.”

The analogy is indeed very close, though I do not know, or cannot recall, that it has been pointed out: the erectile nipple corresponds to the erectile penis, the eager watery mouth of the infant to the moist and throbbing vagina, the vitally albuminous milk to the vitally albuminous semen: The complete mutual satisfaction, physical and psychic, of mother and child, in the transfer from one to the other of a precious organized fluid, is the one true physiological analogy to the relationship of a man and a woman at the climax of the sexual act.”

E.

Along with Max Dessoir and Karl Groos, Moll and Ellis established a developmental conception of the sexual instinct – a conception extending back into early childhood and acknowledging the apparently perverse nature of spontaneous infantile sexual phenomena. Within this developmental conception, sexuality in childhood became comprehensible as a biologically normal and prerequisite part of human maturation. Moreover, this new and largely Darwinian conception of sex, supplemented as it was by detailed autobiographical narratives of healthy individuals, placed the isolated observations on childhood sexuality by Lindner (1879), Pérez (1886), Sollier (1891), Dallemagne (1894) and others within an assimilable context of theory. Prior to this conceptual transformation, such reports had received systematic attention only in the contrasting, pathological context of degeneration doctrine (…) The discovery of infantile sexuality was therefore a discovery in theory as much as it was a discovery of facts. For the facts, long known but eschewed, required the proper theory to bring them to recognition as a normal aspect of human development.”

Contrary to the Freudian legend, this new conception of sexual development was established in the sphere of sexual studies by Ellis and Moll several years before F.’s Three Essays” “Above all, it was Moll (1897c) who added the dynamic element to this indifferentiated-stage concept [origem das nomenclaturas de fase oral e anal]”

Pode-se dizer que, com a reviravolta pessoal de Krafft-Ebing em 1901, simbolicamente, a homossexualidade nasceu, em decorrência da morte do homossexualismo. O que torna toda a bizarria da teoria da degenerescência e da homofobia nazistas ainda mais incompreensíveis, tendo em vista que – salvo Ellis! – toda a sexologia alemã era tão avançada tantas décadas antes! Não existia tanto corporativismo e ortodoxia na ciência como hoje – a Verdade, por incrível e fabuloso que este relato pareça, venceu então:

It may now be said to be recognized by all authorities, even by F. [!] . . . that a congenital predisposition as well as an acquired tendency is necessary to constitute true inversion, apparent exceptions being too few to carry much weight. K.-E., Näcke and Iwan Bloch, who at one time believed in the possibility of acquired inversion, all finally abandoned that view, and even Schrenck-Notzing, a vigorous champions of the doctrine of acquired inversion 20 years ago, admits the necessity of a favoring predisposition.” Ellis, 1928

Outra conclusão desse capítulo: a falhada teoria da sedução freudiana era natimorta; não é que a “genialidade” de F. (cof, cof!) tenha permitido que ele corrigisse esse embaraço em 2 ou 3 anos: quando F. inventou sensacionalisticamente essa teoria, dando o pontapé inicial na psicanálise, Moll já havia publicado seus trabalhos de vanguarda que rechaçavam por completo essa possibilidade. Ou seja: essa asneira só existiu porque F. não foi um leitor compenetrado de seu próprio campo no fim dos anos 1890…

Although F. himself never said as much, I believe that reading Moll’s Libido Sexualis indeed played an important part in F.’s abandonment of the seduction theory during the fall of 1897.”

F.’s published references to Moll – whom, as I have already mentioned, he greatly despised – are 8 in number: of these, 2 are favorable (1 of these was later deleted), 2 are neutral (and briefly mention M.’s notions of detumescence and contrectation), and the remaining 4 are disparaging. F. listed Moll in 1910 (3 essays, 2nd ed.) among those backward physicians who were still denying the existence of infantile sexuality!”

A citação que F. suprimiu dos Três Ensaios, e que constava da 1ª edição, jamais restaurado na Standard Edition: “Many writers, especially Moll [insbesondere von Moll], have insisted with justice that the dates assigned by inverts themselves for the appearance of their tendency to inversion are untrustworthy, since they may have repressed the evidence of their heterosexual feelings from their memory”

F. 1st alluded to this crucial distinction between genital and non-genital childhood sexuality in a 14 November 1897 letter to Fliess in which he also mentioned Albert Moll.” NÃO LEIAM MINHAS CARTAS COM FLIESS, ELAS POSSUEM NOTAÇÕES DA MAIOR INTIMIDADE!!! Hehehe…

Moll warned against the danger of accepting too readily the accusations of sexual misconduct that little girls often lodge against men, and called it ‘one of the gravest scandals of our present penal system’ that such charges were so frequently believed by judges. The problem was particularly marked, he also emphasized, with child hysterics (1912a). Similarly Iwan Bloch (1902-3) supported Moll’s call for caution when he noted that in spite of the ‘enormously important’ role of childhood seductions as documented by K.-E., Moll and Ellis, Moll’s report of a 7-year-old girl seducing her own brother was a clear caveat for suspecting that little girls may sometimes make false sexual accusations against adults.”

As mentioned before, the prevalence of such homosexual activities among the Greeks had sufficiently impressed American psychologist William James (1890) for him to proclaim that homosexual inclinations must be innate in all of us, although normally kept in check by an instinct for interpersonal ‘isolation’.” Já li muito absurdo, mas um instinto de ISOLAMENTO é um dos maiores até agora… Seclusão Anagógica é um atributo do gênio, não do homem médio!

Outra bandwagon em q F. se viu levado a embarcar: as observações etnográficas. Que pena que as dele ele tirou apenas de sua mente inerentemente fértil – muita charutada no divã!…

Bourke’s Scatologic Rites of All Nations (1891) – another of Iwan Bloch’s sources.”

In sum, the collective efforts of historians, ethnologists and anthropologists to escape the narrow confines of the late-19th-century Victorian conception of sexuality played an important role in the sexual revolution that is now associated with F.’s name.”

More of a psychologist than K.-E., Moll or Ellis, F. was also far more of a biologist than Binet, Schrenck-Notzing or Bloch. It is this dual construction to his theorizing as a sexologist that has made so enduring F.’s thinking as a ‘psychoanalyst’.”

9. DREAMS AND THE PSYCHOPATHOLOGY OF EVERYDAY LIFE

If The Interpretation of Dreams is F.’s greatest book, it is today also one of his least understood, as Henri Ellenberger has insisted. Ellenberger would ascribe the inaccessible nature of F.’s book to the many revisions, additions and deletions that The Interpretation of Dreams underwent in F.’s lifetime; the frequently difficult-to-translate nuances in F.’s original German-language dream discussions; and the implicit, but largely unappreciated, context of fin-de-siècle Viennese life that the book as a whole reflects.”

when F. once wrote that he had entertained no interest in the subject of dreams prior to his discovery of their psychoanalytic importance in the 1890s, he was evidently allowing his Baconian self-image as a scientist to obscure the truth of the matter.” = Freud lied hard.

F. was considerably more accurate and outspoken when it came to acknowledge his major predecessors in dream theory. Prior to F., the literature on dreams was already quite voluminous, as he discovered to his chagrin when he decided to write a historical survey chapter for his book. Furthermore, like the psychoanalytic theory of psychosexual development, F.’s theory of dreams had been anticipated piecemeal in almost every major constituent by prior students of the problem. For example, the claim that dreams have a hidden meaning, that they are wish-fulfillments, that they represent disguised expressions of unacceptable thoughts, that they elicit the archaic features of man’s psyche, that they involve a regression to the dreamer’s childhood experiences and successive personalities, that they fulfill the wish to sleep, and that they come about by the condensation and displacement of ideas – all these ‘Freudian insights’ and more were made by other students of dreaming prior to F..”

The Bibliography of F.’s book includes references to 79 different works on dreams, most of which are mentioned in the text. In later editions, F. added a 2nd bibliographical list of over 200 works – most of them psychoanalytic – written since 1900 and increased the first (pre-1900) list to 260 items.”

F.’s most important precursors in the theory of dreaming, at least for him personally, are probably the least discussed in psychoanalytic history, because they were largely anonymous. I am speaking of the age-old proponents of the popular, lay conception of dreaming, as set forth in the Bible – for example, Joseph’s interpretations of the Pharaoh’s prophetic dreams – and in countless cheap dream books that were widely available in F.’s day. Two methods of dream interpretation are generally used in these popular sources. In most biblical instances, dreams are transposed as a symbolic whole in order to uncover their hidden, prophetic meaning. Joseph interprets the Pharaoh’s dream of 7 fat cows that are followed and then eaten by 7 thin cows as foretelling 7 years of Egyptian plenty that are to be followed by 7 years of famine. (…) the popular dream books generally treated the dream piecemeal as a series of brief messages to be deciphered according to a fixed cryptographic key (e.g., receiving a ‘letter’ stands for impending ‘trouble’). Although F. did not specifically mention ever having studied such dream books, the private dream notebooks he kept in the early 1880s were clearly patterned after them.” Traumdeutung, unlike, say, Deutung des Traums, reminded his German readers of the fortune-teller’s slogan as well as of the related word Sterndeutung (‘astrology’).”

For Meynert’s concept of amentia and its ties to F.’s own thinking see Amacher 1965.”

Some years after publishing his famous work on dreams, F. ran across the related ideas of a Viennese engineer, Josef Popper, who had independently set forth what F. acknowledged as ‘the core’ of his own dream-distortion theory. Popper’s views were first stated in Phantasien eines Realisten (1899), published almost simultaneously with F.’s Interpretation. Writing under the pseudonym of Lynkeys, Popper had explained in a chapter entitled ‘Dreaming like Waking’ that the dreams of the unchaste, in contrast to those of the virtuous, are commonly senseless and fragmented owing to an intervening distortion and censorship of the original dream-thoughts.”

Influenced by the Romantic tradition, Scherner’s Das Leben des Traums appeared in 1861 and set forth a symbolic theory of dream interpretations. (…) Scherner was particularly thorough in his enumeration of sexual symbols. As symbolic equivalents of the male sexual organs, he listed pointed objects of all sorts, and, for the female sex, he mentioned narrow passageways through courtyards and other similarly confined spaces. Scherner believed pubic hair to be symbolized by fur. F. later praised Scherner as ‘the true discoverer of symbolism in dreams’, adding that Sc.’s views on this subject had merely been resurrected and given proper recognition by his own psychoanalytic of dream symbolism (1911).” Sincero uma vez na vida: viu só como é bom? Doeu?! Filho da puta! Se o autor tivesse sobrevivido para criticar a psicanálise, obviamente sequer seria citado (pelo menos a partir da 2ª edição!).

It remained for Hervey de Saint-Denys, however, to carry the self-analytic technique of dream interpretation to its most herculean extreme in the late 19th century. In his anonymously published Les Rêves et les moyens de les diriger (1867), Hervey described the 3 stages through which his self-analytic technique evolved. First he learned how to recognize when he was dreaming. Then he taught himself to wake up after each dream so that he might record his dreams in special notebooks. Finally, he sought to alter the course of his dreams as he pleased, a technique that was successful but that met with certain limitations.¹ For instance, when Hervey once attempted to kill himself in the course of a dream by jumping off a tall tower, he instantly found himself transposed into the crowd below, where he witnessed another man falling off the same tower. Over a 20 year period, Hervey recorded more than 2,000 dreams, many of them ‘self-directed’ by his remarkable experimental method.” “Hervey’s book had become a rare item by the 1890s, and F. reported that he was unable, in spite of all his efforts, to procure a copy of it. [Eu não acredito] Many of Hervey’s findings were indirectly known to F., however, from other works on dreaming – e.g., Maury’s (1861) book in its 2nd edition (1878).”

¹ É altamente provável que este homem teve algum contato oriental.

Yves Delage (1891) was a French biologist whose model of dreaming, with its emphasis upon day-to-day sensory impressions as ‘accumulators of energy’ tending to inhibit and conflict with one another, approximates the economic and dynamic postulates of F.’s theory.”

When asleep we go back to the old ways of looking at things and of feeling about them, to impulses and activities which long ago dominated us”

James Sully, 1893

Another little-appreciated aspect of F.’s thinking about dreams is that he held 2 distinct theories between 1895 and 1900. Or I might say that his theory of dreams passed through 2 major stages, with the later reformulation encompassing the earlier. F. himself confounded his 2 different dream theories in his History of the Psychoanalytic movement, where he wrote The Interpretation of Dreams (…) was finished in all essentials at the beginning of 1896 but was not written out until the summer of 1899’. James Strachey seems to agree with F.’s statement, while adding ‘some qualifications’ to it. On the other hand, Jones, Kris & Schur [os guarda-costas] and others have questioned F.’s claim. (…) Of principal concern to J., K. and S. is to portray F.’s self-analysis in the fall of ‘97 as the revolutionary catalyst in his understanding of the dreaming process”

F. reached his early theory of dreams deductively in the process of thinking about the Project. Having envisioned primary-process mental phenomena as movements of psychic energy following previous experiences of satisfaction (or the neuronal pathways of least ‘resistance’), F. found it logical to view dreams as similar primary-process activities. Dreams, according to this conception, are simply hallucinations motivated by the small residues of energy that are ordinarily left over in an otherwise sleeping (or energyless) mind. (…) F.’s interpretation of the dream about Irma’s injection [ah, como eu estou farto dessa fabricação!] fixed [t]his theory in his mind at the more empirical level when he inferred from certain ideational missing links that were somehow absent from the conscious manifestations of the dream.”

The day before the dream, F. was visited by his friend Oskar Rie, who had been staying with Emma’s family at a summer resort. Oskar reproved F. for his failure to cure Emma of all her symptoms. That evening F. wrote out Emma’s case history so that he might present it to Josef Breuer in order to justify his treatment of the case. Later that night F. dreamt that he met Emma at a large party and said to her ‘If you still get pains, it’s really only your fault’. Emma looked ‘pale and puffy’, and F. wondered if she might not have an organic disease after all. He therefore examined his patient and detected white patches and scabs in her mouth. Oskar and Breuer, who were also present in the dream, then examined the patient for themselves, and it was agreed by all that Emma had contracted ‘an infection’. The 3 physicians further determined that the infection had originated from an injection previously given to the patient by Oskar, who had apparently used a dirty syringe.” Esse homem deve ter tido muitos sonhos até 1939 para expiar cada pecado médico!

the dream had excused him of responsibility for Emma’s pains (…) [and] had exercised revenge upon his friend Oskar for his annoying remarks about F.’s unsuccessful therapy. There is no mention of either repression or censorship in F.’s brief Project discussion of the dream.”

F. evidently declined to theorize about nightmares, anxiety dreams and other forms of blatantly unpleasant dreams in 1895. And although the term id did not become part of the psychoanalytic lexicon until 1923, I have used it here in its generally accepted conceptual sense as applied to the earlier period.”

In Interpretation F. cited 6 other authorities on dreaming, in addition to Griesinger (1861) who had anticipated him on the notion that dreams are a wish-fulfillment. What was unique to his own theory, he declared, was that every dream could be proved as such.” “F.’s whole theory of anxiety dreams has its roots, of course, in his toxicological theory of anxiety neurosis.”

your fly is undone” “du hast deine Fleischbank offen” “sua braguilha ‘tá aberta”

F.’s early theory of dreams actually constituted a reaction against symbolic theories of dream interpretation. It was Wilhelm Stekel whom F. personally credited with having brought the full importance of dream symbols to his attention.”

His book remained incomplete in [2]¹ significant ways that conjointly touch upon this problem of interpretation.”

¹ Sulloway diz 3, mas ao meu ver os pontos 1 e 3 que ele cita são aspectos diferentes do mesmo problema, que eu resumi abaixo como o 1º ponto:

1) Sonhos dos neuróticos não diferem dos sonhos dos “normais”. Conclusão: não existe a neurose?

2) Interpretações exaustivas implicavam usar os próprios sonhos do autor. Por razões óbvias, seria impossível uma decodificação absoluta e honesta – e se fosse possível, não seria publicada. A censura de vigília da psicanálise sempre foi um problema muito maior que a censura do sonho, hehe…

F.’s appraisal [in book reviews] was indeed prophetic, for some of his most devoted disciples were unimpressed by their first reading of Interpretation. Sándor Ferenczi, for one, read and dismissed the book ‘with a shrug of his shoulders’ shortly after it was published, and in 1907 he had to be persuaded to read it again – this time with a better result – by a Hungarian colleague who fortunately happened to be acquainted with F. and Jung.”

Even as late as 1911, Jung and his Swiss group were still very conscious of the didactic inadequacies in F.’s treatment of dreams. When F. asked J. that year if he had any suggested revisions for the 3rd edition of Interpretation, J. responded with the collective criticism put forward by his teaching seminar on psychoanalysis at the Burghölzli – that it was ‘sorely’ difficult to understand F.’s theory and methods from his book owing to the incomplete nature of the specimen dreams and the consequent lack of ‘deeper layer’ interpretations. J. recommended that F. insert more dreams of neurotics and interpret them fully, so that ‘the ultimate real motives’ of dreams could be ruthlessly disclosed’. F. answered J.’s criticisms by saying that the time had now come to discontinue publication of Interpretation with the forthcoming edition (!) and to replace it with a ‘new and impersonal’ work in which the theories of dreaming and neurosis could be interrelated more adequately. F. added that he would announce this decision in his Preface to the 3rd edition of Interpretation and would explain there the various reasons for it, pretty much in J.’s own words. Nothing ever came of this plan, as – among other reasons – F.’s astute publisher, Franz Deuticke, thught it would make a bad impression and so vetoed it (Freud/Jung Letters).”

As for the supposedly poor sales of F.’s book, Interpretation sold, at an annual rate of 75 copies per year over an 8-year period, nearly twice as well as Studies on Hysteria and about half as well as F.’s Jokes and Their Relation to the Unconscious (1905c) and Leonardo da Vinci (1910c). (…) Sales figures are not available for The Psychopathology (…) (1901b), which was first issued as a book in 1904 and became F.’s most successful pre-I World War publication.”

the 5 Lectures (1910a), published at the height of controversy over F.’s theories, sold 1,500 copies over an initial 2-year period (…), and eventually over 30,000 copies by the mid-1950s after worldwide fame.”

A similar myth surrounds Alfred Adler’s conversion to psychoanalysis. According to Phyllis Bottome (1939), Adler read a hostile review of Interpretation in the Neue Freie Presse and thereupon wrote a letter of protest to that newspaper. Adler’s letter supposedly attracted F.’s attention, causing F. to send a postcard to Adler thanking him for his support and inviting Adler to pay him a visit. In reality, neither a hostile review nor a response from Adler ever appeared in the Neue Freie Presse – or in any other Viennese newspaper, as far as is known.”

10. EVOLUTIONARY BIOLOGY RESOLVES F.’S 3 PSYCHOANALYTIC PROBLEMS (1905-39)

After carefully searching F.’s and Adler’s clinical writings for indications about the wealth and the social status of their clientele, Wassermann found consistent differences between the two physicians’ patients. Specifically, ¾ (74%) of F.’s patients were affluent, and almost none (3%) poor. By Viennese standards, F.’s fees were also high. In contrast to this, 75% of Adler’s patrons were either middle class (40%) or poor (35%). Wassermann attributes certain basic theoretical differences between F. and Adler to this marked contrast in their medical practices. Among F.’s upper-class clientele, ‘with the instinct of self-preservation completely satisfied, the second most powerful instinct (sex) moves to the frontline’ (1958). Adler’s less affluent patients, on the other hand, found ‘the problems of material existence . . . much more anxiety-inspiring’.”

Adler (…) pioneered in discovering (…) the sibling-sibling interactions and saw his patients as victims of their struggle for greater power” // Bianca @SastyPie e seu relato de sonhos edípicos com a irmã – característica que eu, um caçula praticamente filho único, dadas as minhas condições singulares, não podia intuir solo.

SULLOWAY COMO PSICÓLOGO MEDÍOCRE (BEM ABAIXO DE SUAS REALIZAÇÕES COMO EPISTEMÓLOGO): “In my view, to be elaborated more fully in a future publication [seu único livro autoral ou o único livro de fama, um dos dois, muito criticado pelos psicólogos] on birth order and revolutionary temperament in science, F. was a birth-order ‘hybrid’, simultaneously displaying qualities of both firstborn and laterborn temperaments.” De uma ingenuidade candente para a segunda metade do séc. XX!

As we shall see in this chapter, it was actually (and ironically) because of F.’s sweeping cultural and historical relativism that he was ultimately able to proclaim the universal views on sex and neurosis that he did, and not, as Jung and others have suggested, because F. was tragically caught up by his own ‘daimon’ and was thus incapable of placing his clinical findings in a proper socio-historical framework.” Generalizou para todos os tempos e lugares sua Viena vitoriana. Grosso modo, absolutamente toda e qualquer idéia que constitui o miolo de cada livro de F. no séc. XX pode ser apanhada na correspondência com Fl.. Um “Carl Sagan da sexologia”, F. precisou apenas reciclar, como bom jornalista, seus “achados” por 4 décadas a fio… A tal correspondência, por sua vez, pode ser interpretada como um espirro de efeito retardado do Darwinismo.

As a pre-1900 psychologist and neuropathologist, F. may be described as primarily a proximate-causal theorist. For a time, he even hoped that a proximate-causal approach to brain functioning might allow him to grasp the entire working principles of the mental apparatus. (…) his abandonment of neurophysiological reductionism was increasingly counterbalanced by his adoption of a phylogenetic-historical form of reductionism as he continued to wrestle with his most essential, unanswered problems.”

Os cientistas do XIX trocaram sua fé em D. pela fé em D. (Deus por Darwin).

Heinz Hartmann (1939) and Hans Lampl (1953) tried to reconcile F.’s notion of sexual latency with Bolk’s fetalization theory. Bolk’s ideas, founded upon a Lamarckian-vitalist theory of evolution, have long since been rejected by biologists (Gould 1977). Yazmajian sums up this Neo-Freudian foray into biology by saying that ‘it epitomizes the erroneous biological thinking, glib theorizing, and philosophizing that has regularly punctuated psychoanalytic literature in this area over the years’ (1967).”

THALASSA UMA TEORIA DA GENITALIDADE COMO A EXAGERAÇÃO DA TEORIA DO MESTRE: “Ferenczi set forth 5 great catastrophic events that he believed to be faithfully recapitulated in present human sexual life. He saw these recapitulations not only in ontogeny but also in what he termed perigenesis, or all those biological developments pertaining to the protection and nurture of the embryo. The great biogenetic theorist Ernst Haeckel had believed such specialized placental innovations to be independent of recapitulation and to interfere, moreover, with the embryological corroboration of that law. Ferenczi, ‘out-Haeckeling’ Haeckel, claimed these acquisitions as attempted re-creations, for the sake of the germ cells, of life’s earliest, preterrestrial environment.”

11. LIFE (EROS) AND DEATH INSTINCTS: CULMINATION OF A BIOGENETIC ROMANCE

In particular, F.’s idea of a death instinct has the remarkable distinction among his theories of being the only one that achieved little acceptance even among his own followers. Jones reported in 1957 that (…) by the 50s (…) none of the psychoanalytic papers devoted to this topic supported F.’s theory” “English psychologist William McDougall, who was sympathetic to many of Freud’s psychoanalytic ideas, once colorfully dubbed his death instinct ‘the most bizarre monster of all his gallery of monsters’ (1936).” “According to neurologist Rudolf Brun (1953), F.’s theory of the death instinct ‘contradicts all biological principles’

F.’s tortuous formulations on the death instinct can now securely be relegated to the dust bin of history”

Ernest Becker, 1973

The 2nd basic inconsistency to be rectified by F.’s death-instinct theory entails a clinical phenomenon known as the compulsion to repeat.”

A ETERNA GAMBIARRA QUE SÓ PIORA O MAL-FUNCIONAMENTO: “But regression without prior repressions would produce perversion, never neuroses. Once again, to explain the possibility of regressions-in-aim that are capable of inducing a psychoneurosis, [aqui está terminantemente claro: F. nunca entendeu o que é uma psiconeurose] F. had to assume that some unknown force is active in overcoming the counterinfluence of primal repressions.

In ‘13, F.’s colleague Ferenczi had independently dealt with the general evolution/involution paradox and successfully resolved it in a way that was to prove instrumental to F.’s own thinking. [se é que ele possui own thinking!]” E pelo que li na seqüência, Ferenczi teve de beber muito em Rank!

Some 20 years after Fechner’s (1873) publication of his 3 principles of stability, and some 20 years before F.’s Beyond (…), Cope (1896) proposed a fundamental biological dichotomy between Anagenetic (life) and Catagenetic (death-dissolution) forces.”

During later years, F. used the death instinct as an important rationale for explaining the therapeutic limits to psychoanalytic treatment.”

Of all of F.’ works, Beyond offers perhaps the closest conceptual ties to the unpublished Project for a Scientific Psychology, drafted a quarter of a century earlier. One is struck by the bold and frankly speculative vein of both works as well as by their common guiding principle – F.’s attempt to unite psychology with biology in resolving his most fundamental questions about human behavior.”

PART III: IDEOLOGY, MYTH AND HISTORY IN THE ORIGINS OF PSYCHOANALYSIS

12. FREUD AS CRYPTO-BIOLOGIST: THE POLITICS OF SCIENTIFIC INDEPENDENCE

Galileo, Dialogues Concerning Two New Sciences, trans. Henry Crew and Alfonso de Salvio, 1914.

Honton’s book (1969) on Einstein”

Historians and political ideologists may haggle over the young Marx as against the mature Marx, but at least these classical disputants have both sets of writings readily available to fuel their debates. See, e.g., Althusser, For Marx (1969).”

Biology is the antidiscipline of psychology, just as psychology is itself the antidiscipline of sociology and certain other social sciences.” Logo, Psicanálise (Cripto-Biologia) & Sociologia formam um belo casamento, que coisa linda!

The physicist seeks to reduce chemistry to the laws of physics, while the chemist hopes to reduce biology to chemistry, and so forth along the antidiscipline/discipline progression.”

Dismissing F.’s notion of sexual latency as an ‘impossible supposition’, Jung affirmed instead this doctrine’s opposite: that the usual beginning of sexual development coincides precisely with the onset of F.’s latency period (around the age of 6).” “Thus, like Janet and Adler, Jung now endorsed a theory of neurosis emphasizing current psychical conflicts, not childhood ones”

According to J.’s theoretical scheme, activation of the collective unconscious is achieved through psychical regressions during adulthood. Such regressions were thought to play a major role in mental disorders like schizophrenia.”

The defections of Jung and Adler soon drew other psychoanalytic enthusiasts away from the Freudian camp, including Stanley Hall”

Jones is undoubtedly a very interesting and worthy man, but he gives me a feeling of, I was almost going to say racial strangeness. He is a fanatic . . . He denies all heredity; to his mind even I am a reactionary. How, with your moderation, were you able to get on with him?” F. a J., hahaha!

Fritz Wittels later recalled of the movement’s earliest members how ‘they had hoped a psychoanalytic revolution would transmute the Victorian Era into a Golden Age!’

Freud’s Lamarckian propensities were much regretted by many of us” Ernst Kris

BLEACHING MACHINE: “In his biography of F., Jones later psychoanalyzed F.’s Lamarckian gullibility away attributing it to his having heard, as a young child, the Bible story in which God punishes the iniquity of the fathers in the children of successive generations.” HAHAHAHAA!

Throughout his productive life, F. found himself caught between the Scylla of critical opposition, which repeatedly accused him of excessive speculation, and the Charybdis of his unsolved psychobiological problems. As is often the case in science, he consequently sought to portray his discoveries as rooted in empiricism and, in so doing, emphasized his debt to his clinical materials and to the psychoanalytic method, not to theoretical (and often biological) inspirations.”

F.’s theories have consistently been reinterpreted, especially by an optimistic America, in a more purely environmentalist, and hence more psychological, vein than Freud ever intended.”

13. THE MYTH OF THE HERO IN THE PSYCHOANALYTIC MOVEMENT

Joseph Campbell, who has surveyed hundreds of examples of hero myths in The Hero with a Thousand Faces (1968), has described the archetypal hero in detail. Although Campbell does not discuss the F. case, his model of the classical hero’s life-path can fruitfully be applied to the Freud legend.”

The story of F.’s heroic self-analysis follows this last archetypal sub-pattern in many essential respects and may be compared with such equally heroic episodes as Aeneas’ descent into the underworld to learn his destiny or Moses’ leadership of the Hebrews during the Exodus from Egypt.”

F.’s self-analysis will one day take a place of eminence in the history of ideas, just as the fact that it took place at all will remain, possibly forever, a problem that is baffling to the psychologist” O ingênuo (gullible) Eissler em 1971!

Campbell, himself a Jung devotee, compares the journey of the archetypal hero to a temporary loss of ‘ego control’ upon entering the forbidding world of the personal unconscious”

Whatever else may have isolated F. in Vienna, it was not his scrutiny of sex. In a city where Sacher-Masoch, Krafft-Ebing and Weininger were read with nonchalance, F.’s pansexualism hardly shocked anyone”

Johnston, 1972

F.’s opponents saw him not so much as a ‘depraved revolutionary’ as they did a misguided reactionary who was harking back to the superstitions of the past. The psychiatrist Konrad Rieger (1896) was apparently the first to object to F.’s theories on such grounds. (…) R. concluded that F.’s attempt to unite hysteria with paranoia under the common rubric of sexual etiology threatened to destroy one of the most important distinctions in all of psychiatry. Such a confusion of etiologies, Rieger insisted, ‘can lead to nothing else but to a simply horrible old wives’ psychiatry.”

After reading The Interpretation, many reviewers judged certain of F.’s specific dream interpretations as arbitrary, unconvincing, and even far-fetched. (…) Once again F. seemed like a reactionary, not a revolutionary”

As late as 1905, Hermann Oppenheim called F.’s clinical work ‘original’, ‘significant’, and ‘ingenious’ before changing his tune on psychoanalysis a few years later.”

In remembering Ziehen only as an enemy of psychoanalysis, one leaves out almost 10 years of his professional career during which he occasionally practiced psychoanalysis himself, never condemned it, and reported its efficacy in certain situations.” Decker, 1971

Various medical authorities before F. had recognized the importance of sex as well as its aptitude to appear in childhood. But they had been careful to make their statements with moderation and to express them temperately, so that they might be accepted without arousing either enthusiasm or hostility. F.’s outspoken and even extravagant presentation of the subject, fortified by a literary skill which has not always been recognized, was, on the other hand, warmly welcomed by those who had never dared to reveal a secret sense of the importance of sexual phenomena, and, on the other hand, indignantly rejected by those who cherished all the ancient traditions of the mingled sacredness and obscenity of sex.” Ellis

Stanley Hall encountered much the same problem in America owing to his own unrestrained manner of writing about sex. ‘To realize the material presented in Adolescence (1904), one must combine his memories of medical text-books, erotic poetry and inspirational preaching’ (Edward Thorndike). Thorndike had nothing but praise, however, for the staid and dignified treatment of sexual life of the child by Moll (1909).”

The rise of psychoanalysis as a movement thus served to embroil the reception of F.’s ideas even further. Neuropathologists like Oppenheim, Ziehen, Weygandt, Eulenburg and others, who had originally held a respectful and even friendly attitude toward psychoanalysis, now felt compelled to take a negative public stance on it.”

In Wittgenstein’s Vienna, Janik and Toulmin (1973) have shown that Viennese society exerted a pervasive influence upon a whole generation of intellectuals, including both F. and the philosopher Ludwig Wittgenstein (1889-1951), who grew up in Vienna during the waning years of the Hapsburg Empire. From 1848, when Emperor Franz Josef began his 68-year rule of Austria-Hungary, the Hapsburg House governed from Vienna with a single guiding philosophy, which was that change, especially revolutionary change, was to be prevented at all costs.” “Unlimited patriarchal authority and typical Viennese bourgeois values came to reflect the Hapsburgs’ own fetish of stability.” “woman suffered most from this prevailing moral attitude; and hysteria and frigidity were often the psychological consequences.” “But whereas Jones later attributed F.’s hatred of Vienna to Viennese anti-Semitism and to the community’s hostile reception of his theories, F.’s feelings must actually be understood in a less personal vein.” “Karl Kraus, the witty satirist who attacked the Viennese underbelly with his periodical Die Fackel (The Torch); Arnold Schönberg, the composer and conductor; Ludwig Wittgenstein, the philosopher; and F. himself were all among those who resisted Viennese double-think and generally perceived themselves as morally and spiritually isolated from the society whose values they did not share.” “F. was never inhibited in his scientific research or in the publication of his results.”

The common assumption that F.’s promotion was opposed for anti-Semitic reasons is also not supported by the facts. Seven of the 10 nominees in F.’s original 1897 group appear to have been Jewish, while the Minister of Education, von Hartel, had himself publicly condemned anti-Semitism before the Austrian Parliament (Gicklhorn & Gicklhorn, 1960; Eissler, 1966).

What does appear relevant to F.’s 5-year delay is the issuing in early 1898 of a ‘secret’ ministerial decree, which was subsequently discovered in the Austrian state archives and published by the Gicklhorns. The decree in question had sought to reduce the number of promotions from Assistant to Extraordinary Professor, partly for financial reasons and partly because recent promotions had created an imbalance in the Medical Faculty between the numbers of Ordinary (or Full) Professors (then 25) and the number of Extraordinary (or Associate) Professors (37) eventually supposed to succeed them. For several years, appointments were held up by this decree until a compromise between the Ministry and the Medical Faculty was finally worked out.”

That F.’s controversial views on sexual etiology, added to his prior reputation as a fanatic who had defended dubious causes like Charcot and cocaine, might have annoyed someone with influence in the Ministry is certainly not implausible.”

F.’s attitude toward Schopenhauer and Nietzsche, whose philosophies so closely resemble the leading tenets of psychoanalysis, is particularly revealing in this regard. Like F., both philosophers described the unconscious and irrational sources of human behavior and stressed the self-deluding character of the intellect. But whereas Schopenhauer and F. considered sexuality as the most important instinct, Nietzsche emphasized the aggressive and self-destructive drives of man. Nie., however, preceded F. in the use of the terms sublimation and id (das Es) as well as in the idea that civilization is founded upon a renunciation of instinct.” “In point of fact, both Sch.’s and N.’s ideas were so widely discussed within late-XIX intellectual circles that F. could not possibly have escaped a reasonably general education in their doctrines (Ellenberger 1970).” “The members of this reading society [de que F. era membro] even corresponded with N., [!!!] telling him of their extreme devotion to his philosophy and vowing ‘to strive like you with the strongest will, selflessly and truthfully, for the realization of those ideals which you have presented in your writings – specifically, in your Schopenhauer as Educator (letter of 18-10-1877, cited by McGrath, 1967).”

the general conception of unconscious mental processes was conceivable . . . around 1700, topical around 1800, and fashionable around 1870-80.”

Whyte, 1960

[In his autobiography,] Moll also recalled the amusing story of how he once trained a psychoanalyst for public service. During the I World War, Moll had received a call from the German Colonial Office requesting that he prepare a certain intelligent soldier for immediate medical duty. After learning that he was to be given just 4 days to complete the man’s training, Moll decided the only medical discipline that could possibly be learned in such a brief period was psychoanalysis! Moll therefore asked the soldier if he possessed a good imagination, which the soldier claimed he did. The soldier was then instructed in a few technical terms, like conversion, repression, and the subsconscious, and introduced to a few key dream symbols. Throughout the allotted 4 days, Moll assiduously rehearsed his pupil, who afterward had to pass a special examination administered by Moll. According to Moll, his ‘psychoanalyst’ served the Fatherland in a commendable fashion, analyzing fellow soldiers for the duration of the war.

Years later, when Moll organized and, as a capstone to his career, was elected president of the First International Congress for Sexual Research in 1926, F. ordered a psychoanalytic boycott of the congress owing to Moll’s continued opposition to his theories. In spite of the boycott, the congress was an immense success, and a second one, this time attended by psychoanalysts, was held 4 years later in London.”

Freud was lapped in the myth of the hero . . . There can be little doubt that F. felt himself heroically predestined and convinced that it was up to him to eventuate this heroic destiny” Iago Galdston

F. was born with a caul [omento(*)], a circumstance that people over the centuries have taken as a portent of later fame.”

(*) substantivo

[Medicina] Epíploo; parte da membrana peritoneal que envolve os intestinos.

Nunca tinha ouvido falar nisso – nem na palavra ou circunstância que envolve “heróis de berço”!

F. aos 11 ou 12 anos estava comendo com sua família na rua… “when their attention was attracted by a man who, for a small fee, was improvising verse on any chosen subject. F. was sent to fetch the poet, who began by dedicating a few lines to his young emissary, declaring that the boy would grow up to be a cabinet minister. At that time the liberal Bürger (‘Middle-class’) Ministry included a number of Jews, whose names and portraits were all well known to Jewish schoolboys. F. was so impressed by this predicting that he decided to study law. Only at the last moment before entering the university did he change his career plans to medicine (1900a, Standard Edition).”

The entire family revolved around his well-being. To cite one amusing and representative anecdote, when Freud found that a sister’s piano practicing was disturbing his studies, both the piano lessons and the piano had to go (Anna Freud Bernays, 1940).”

The Fliess correspondence clearly documents the partially self-imposed nature of F.’s isolation, as well as Fl.’s role in it, in a letter of 16 April 1896: ‘Following your suggestion, I have started to isolate myself completely and find it easier to bear.’

Besides being predominantly Jewish, F.’s early followers were often ‘lonely and highly neurotic men’ (Weisz 1975). A surprising number eventually committed suicide (Stekel, Federn, Kahane, Tausk, Silberer, Honegger, Schrötter; and there were others).”

Jones saw himself in relation to F. as T.H. Huxley – ‘Darwin’s bulldog’ – had stood to the embattled Darwin a half century earlier.” “Veszy-Wagner, who was in close contact with Jones during his composition of the F. volumes, particularly noted his undiminished virulence toward all the old opponents of F. and psychoanalysis.” “he regarded the F. biography as part of his autobiography – so much so, that Jones post-poned writing his own autobiography (1959) in favor of the F. work even though he knew he might die, as he did, before completing them both.” Se fodeu!

In short, the myths of the hero and of F. as pure psychologist are the heart of the epistemological politics that have pervaded the entire psychoanalytic revolution.”

14. EPILOGUE AND CONCLUSION

Time and time again, F. saw in his patients what psychoanalytic theory led him to look for and then to interpret the way he did; and when the theory changed, so did the clinical findings.”

The opinion is gaining ground that doctrinaire psychoanalytic theory is the most stupendous intellectual confidence trick of the 20th-century: and a terminal product as well – something akin to a dinosaur or a zeppelin in the history of ideas, a vast structure of radically unsounded design and with no posterity”

Medawar, 1975

In Freudian language, sociobiology represents a dramatic ‘return of the repressed’.” Fica a dica para MANTER-SE LONGE DESSE RAMO!

We are accustomed to such myths, mystiques, and cults of personality in major social and political movements; but their manifestation in the objective world of science is more surprising.”

Mankind, it would seem, will not tolerate the critical assaults upon its heroes and the charitable reassessments of its villains that myth-less history requires. In many respects, then, F. will always remain a crypto-biologist”

HISTÓRIA DA MATEMÁTICA: Uma visão crítica, desfazendo mitos e lendas – Tatiana Roque, 2012.

O Capítulo 7 já foi contemplado em

https://seclusao.art.blog/2019/12/26/historia-da-matematica-uma-visao-critica-desfazendo-mitos-e-lendas-tatiana-roque-2012-capitulo-7-o-seculo-xix-inventa-a-matematica-pura-ou-a-era-do/. A seguir, citações dos demais.

Anexo: A história da matemática e sua própria história

Quase todos esses autores escreveram seus textos mais importantes antes dos anos 1970, logo, sua visão sobre a história da matemática já pode ser considerada ultrapassada. Não queremos desmerecer o trabalho desses pioneiros, que ajudaram a fundar a história da matemática como campo de pesquisa e motivaram o interesse de inúmeros jovens por essa área. A intenção aqui é ressaltar que suas obras continuam a ser citadas sem uma visão crítica, ainda que inúmeros trabalhos históricos, nas últimas décadas, tenham desmentido e questionado grande parte das afirmações nelas reproduzidas. Até esse momento, os livros de história da matemática eram escritos, principalmente, por matemáticos e professores. A década de 1970 marcou uma virada na historiografia, pois a profissão de <historiador da matemática> começou a existir. Tal mudança se deu primeiramente nos Estados Unidos, mas também em outros países, cuja produção histórica anterior também era intensa, apesar de menos conhecida no Brasil.

A história da matemática teve um período de grande atividade na Europa entre as últimas décadas do século XIX e a Primeira Guerra Mundial. Um exemplo é a obra monumental do matemático alemão Moritz Cantor, Vorlesungen über Geschichte der Mathematik (Preleções sobre a história da matemática), publicada em 4 volumes entre 1880 e 1908 (este último volume com colaboradores), cobrindo um longo período: dos tempos antigos até 1200; de 1200 a 1668; de 1668 a 1758; e de 1759 a 1799. Outra iniciativa colossal foi a organização da Encyklopädie der mathematischen Wissenschaften (Enciclopédia das ciências matemáticas), coordenada por Felix Klein, que pretendia servir de fonte para uma visão geral sobre a área naquele momento, mas também sobre sua pré-história. O período foi marcado ainda por inúmeras edições de trabalhos originais de matemáticos renomados do passado, como as traduções dos textos gregos feitas por J.L. Heiberg (para o alemão), T.L. Heath (para o inglês) e P. Tannery (para o francês). Não é difícil imaginar que o período entre-guerras tenha interrompido essa intensa produção européia relacionada à história da matemática, um campo de pesquisas então incipiente. Depois da Segunda Guerra, houve trabalhos pontuais, como os de Otto Neugebauer, que, a partir de 1929, passou a liderar um grupo de historiadores sobre as matemáticas antiga e árabe. Estudos sobre outros períodos da história eram escassos, em parte devido ao predomínio da visão positivista em filosofia, mas também em outras áreas, o que pode ter influenciado os matemáticos e outros pesquisadores a pensarem que a <história era bobagem>.”

1960 (…) Esse é um ano importante, pois marca a fundação de uma das revistas mais conhecidas até hoje dedicada especificamente ao tema: Archive for History of Exact Sciences. Apesar de esse periódico também ter divulgado, desde seus primeiros números, artigos de história da matemática, o movimento para reconhecer a história da ciência como área de pesquisa não foi acompanhado, de imediato, por um esforço similar para institucionalizar a história da matemática.”

É curioso constatar que Uma história da matemática, livro escrito por Florian Cajori nas primeiras décadas do século XX, tenha sido traduzido para o português em 2007. Apesar de poder interessar à história da história da matemática, essa obra é bastante desatualizada.”

Para combater o eurocentrismo, não nos parece profícuo tentar mostrar que o que os europeus descobriram já estava presente em outras culturas. Lançar-se em uma busca desenfreada pelas raízes não-européias da matemática pode levar alguns autores a exagerar para o outro lado, caso do best-seller de G.G. Joseph, Crest of the Peacock: Non-European Roots of Mathematics, publicado em 1991, em Londres, pela I.B. Taurus.”

Sabetai Unguru, romeno que estudou filosofia e história da matemática em Israel e nos EUA, publicou em 1975 o polêmico artigo On the need to rewrite the history of mathematics, dirigindo forte crítica às histórias da matemática grega mais reconhecidas naquele momento, entre as quais se incluíam as de Neugebauer e de B.L. van der Waerden. Nesse artigo, os antigos historiadores da matemática grega são desqualificados como <matemáticos> e suas teses são apontadas como anacrônicas, marcadas por reconstruções racionais dos conteúdos com base na diferença entre necessidade lógica e necessidade histórica. Tal polêmica foi crucial para a definição da personalidade da história da matemática, contrastando interpretações conceituais, baseadas em uma imagem moderna da matemática, com estudos históricos que levavam em conta o contexto cultural.”

Os trabalhos inovadores de Jöran Friberg, Jens Høyrup e Eleanor Robson, nos anos 80 e 90, transformaram de modo irreversível a imagem da matemática mesopotâmica, antes estudada por meio de reconstruções anacrônicas. A mesma revolução não aconteceu na história que aborda períodos mais recentes. O estudo da matemática na Idade Média e no Renascimento recebeu a influência dessas transformações no modo de fazer história, incluindo análises mais contextualizadas sobre o desenvolvimento geral da ciência, bem como da visão sobre a ciência na época. Mas a história da matemática moderna, que reconhecemos como mais próxima da nossa, está apenas começando a ser reescrita.”

Um livro geral de história da matemática que pretende levar em conta essas novas pesquisas, cobrindo inclusive épocas mais recentes, é A History of Mathematics: an Introduction, publicado por V. Katz em 1993 e traduzido para o português como História da matemática. Trata-se de uma fonte confiável que, no entanto, devido à sua extensão, apresenta alguns temas de forma bastante resumida.”

Ainda que o significado de noções como generalidade, universalidade e demonstração tenha mudado ao longo da história, o trabalho matemático foi executado, em diferentes momentos, como uma atividade demonstrativa, almejando produzir resultados segundo regras próprias a uma época dada. Os processos de abstração, bem como as manipulações simbólicas por meio das quais eles se manifestam, possuem uma história e foram traços característicos da prática matemática sobretudo em épocas mais recentes e, como tais, precisam ser analisados de perto.”

CAPÍTULO 1. Matemáticas na Mesopotâmia e no antigo Egito

Como nosso objetivo é relacionar a história dos números com a história de seus registros, é preciso abordar o nascimento da escrita, que data aproximadamente do quarto milênio antes da Era Comum. Os primeiros registros que podem ser concebidos como um tipo de escrita são provenientes da Baixa Mesopotâmia, onde atualmente se situa o Iraque. O surgimento da escrita e o da matemática nessa região estão intimamente relacionados.”

Em seguida, a região foi dominada por um império cujo centro administrativo era a cidade da Babilônia, habitada pelos semitas, que criaram o Primeiro Império Babilônico. Os semitas são conhecidos como <antigos babilônios>, e não se confundem com os fundadores do Segundo Império Babilônico, denominados <neobabilônios>. Data do período babilônico antigo (2000-1600 a.E.C.) a maioria dos tabletes de argila mencionados na história da matemática.

babilônicos (judeus) x mesopotâmicos (babilônios!)

Por exemplo, o tablete YBC 7289 diz respeito ao tablete catalogado sob o número 7289 da coleção da Universidade Yale (Yale Babilonian Collection). Outras coleções são: AO (Antiquités Orientales, do Museu do Louvre); BM (British Museum); NBC (Nies Babylonian Collection); Plimpton (George A. Plimpton Collection, Universidade Columbia); VAT (Vorderasiatische Abteilung, Tontafeln, Staatliche Museen, Berlim).”

Os registros disponíveis são mais numerosos para a matemática mesopotâmica do que para a egípcia, provavelmente devido à maior facilidade na preservação da argila usada pelos mesopotâmicos do que do papiro, usado pelos egípcios.”

A escrita, no período faraônico, tinha dois formatos: hieroglífico e hierático. O primeiro era mais utilizado nas inscrições monumentais em pedra; o segundo era uma forma cursiva de escrita, empregada nos papiros e vasos relacionados a funções do dia a dia, como documentos administrativos, cartas e literatura. Os textos matemáticos eram escritos em hierático e datam da primeira metade do segundo milênio [antes de Cristo], apesar de haver registros numéricos anteriores.”

Høyrup (…) mostrou que a <álgebra> dos babilônicos estava intimamente relacionada a um procedimento geométrico de <cortar e colar>. Logo, tal prática não poderia ser descrita como álgebra, sendo mais adequado falar de <cálculos com grandezas>.”

Centenas de tabletes arcaicos indicavam que a escrita já existia no quarto milênio, pois continham sinais traçados ou impressos com um determinado tipo de estilete. O material contradizia a tese pictográfica, pois nessa fase inicial da escrita as figuras que representavam algum objeto concreto eram exceção. Diversos tabletes traziam sinais comuns que eram abstratos, isto é, não procuravam representar um objeto. Assim, o sinal para designar uma ovelha não era o desenho de uma ovelha, mas um círculo com uma cruz.”

Eles não representavam números, como 1 ou 10, mas eram instrumentos particulares que serviam para contar cada tipo de insumo: jarras de óleo eram contadas com ovóides; pequenas quantidades de grãos, com esferas. Os tokens eram usados em correspondência um a um com o que contavam: uma jarra de óleo era representada por um ovóide; duas jarras, por dois ovóides; e assim por diante.” “Isso quer dizer que o fato de associarmos um mesmo símbolo, no caso 1, ou um cone, a objetos de tipos distintos, como ovelhas e jarras de óleo, consiste em uma abstração que não estava presente no processo de contagem descrito anteriormente.”

A descoberta dos tabletes de Uruk levou ao desenvolvimento de um projeto dedicado à sua interpretação, que começou por volta dos anos 1960, em Berlim. A iniciativa foi fundamental para a compreensão dos símbolos encontrados e deu origem à obra que esclareceu o contexto desses registros: Archaic Bookkeeping: Early Writing and Techniques of Economic Administration in the Ancient Near East (Contabilidade arcaica: escrita antiga e técnicas de administração econômica no antigo Oriente Próximo), de H.J. Nissen, P. Damerow e R.K. Englund. Ficou claro, a partir daí, que os registros serviam para documentar atividades administrativas e exibiam um sistema complexo para controlar as riquezas, apresentando balanços de produtos e contas.”

Havia mais de 6 sistemas de capacidade usados para diferentes tipos de grãos e de líquidos. Ao passo que os objetos discretos eram contados em base 60, a contagem de outros produtos empregava a base 120. Além disso, havia métodos distintos para contar tempo e áreas.”

Uma cunha pequena representava uma unidade de grãos, a unidade básica do sistema de medidas dos sumérios. Uma quantidade 6x maior era representada pela marca circular, e outra 10x maior que esta última, por um círculo maior

ESTILO PROTOCUNEIFORME

(Ler da direita para a esquerda. – As imagens não são ‘números’ como no Ocidente, apenas de forma algo relativa. – Na 1ª imagem-seqüência [figura], demonstra-se uma figura que é um dez avos de outra e portanto outra que é 10x a primeira; na segunda figura assume-se a representação numérica abstrata ocidental para facilitar o raciocínio, entre aspas – a unidade “10”, que podia ser qualquer outro número inteiro ou fração, seis vezes menor que a unidade “60”, esta 10x menor que a unidade “600”, e assim por diante. Como a primeira imagem da 2ª figura difere da primeira imagem da 1ª figura, bem como da 2ª imagem da 1ª figura – mas note-se a semelhança da bola preta que na figura mais acima é apenas uma parte de um todo maior, indicando uma lógica interna –, vê-se que a representação numérica ou contagem pode iniciar de qualquer representação simbólica.)

TRANSIÇÃO AO ESTILO CUNEIFORME “MADURO”

Aparição das primeiras notações fixas

= 1

(cunha simples)

= 10

(ponto ou esfera)

= 60

(cunha aumentada)

= 600

(cunha com ponto ou esfera)

= 3600

(ponto aumentado ou esfera aumentada)

= 36000

(ponto dentro de outro ponto / esfera dentro de outra esfera / notação dos 3 círculos preto e branco contrastados em relação de contido e contém / ou ainda “esfera com raias”)

Outras notações foram aparecendo:

Fase tardia da evolução (reprise intercalada dos sinais, a cada multiplicação por 60):

Toda simplificação é uma complexificação!

O sistema sexagesimal posicional usado no período babilônico deve ter surgido da padronização desse sistema numérico, antes do final do terceiro milênio [a.C.]. Ainda que a representação numérica continuasse a ser dependente do contexto e a usar diferentes bases ao mesmo tempo, aos poucos começaram a ser registradas listas que resumiam as relações entre diferentes sistemas de medida.”

Na verdade, presume-se que muitos dos tabletes que nos fornecem um conhecimento sobre a matemática babilônica tinham funções pedagógicas.”

Sobre a tradução dos textos cuneiformes, ver Gonçalves, Observações sobre a tradução de textos matemáticos cuneiformes.”

O sistema que usamos para representar as horas, os minutos e os segundos é um sistema sexagesimal [o nosso possui literalmente 60 valores, já que 0 = 60; o cuneiforme, 59, já que não há o zero e 1 = 60.].”

Nosso sistema de numeração de base 10 também é posicional. Há símbolos diferentes para os números de 1 a 9, e o 10 é representado pelo próprio 1, mas em uma posição diferente. Por isso se diz que nosso sistema é um sistema posicional de numeração de base 10, o que significa que a posição ocupada por cada algarismo em um número altera seu valor de uma potência de 10 para cada casa à esquerda.”

Se considerarmos 125 escrito na base 60, estaremos representando 1 × 60² + 2 × 60¹ + 5 × 600, que é igual a 3725 na base 10.”

Suponhamos agora que, em vez de usar a base 10, queiramos escrever um número em um sistema de numeração posicional cuja base genérica é b. Para representar um número N qualquer nessa base b, escrevemos:

N = anbn + an1bn1 + + a0b0 + a1b1 + + ambm + .

Isso significa que anbn + an1bn1 + + a0b0 é a parte inteira e temos que a1b1 + + ambm + é a parte fracionária desse número.”

Como na base 60 podemos ter, em cada casa, algarismos de 1 a 59, empregaremos o símbolo ; como separador de algarismos dentro da parte inteira ou dentro da parte fracionária de um número.” “Por exemplo, no número 12;11,6;31 a parte inteira é constituída por dois algarismos (12 e 11); e a parte fracionária por outros dois (6 e 31).”

12;11 neste caso = no nosso sistema a:

12 x 60¹ + 11 x 600 =

12 x 60 + 11 =

720 + 11 =

731

O número após a vírgula 6;31 assim se resolve:

6 x 60-1 + 31 x 60-2 =

6 x 1/60 + 31 x 1/3600 =

6/60 + 31/3600 =

1/10 + 0,00861… =

0,10861…

Logo, 12;11,6;31 =

731 + ~0,10861 =

~731,1086 =

~731,11

Que mecanismo utilizamos em nosso sistema de numeração para indicar a posição de um símbolo? Por exemplo, como fazemos para que o 1 do número 1 tenha um valor distinto do 1 do número 10?”

Observe-se que esse sistema dá margem a algumas ambigüidades. Por exemplo, o mesmo símbolo podendo ser lido como (1 + 1) ou (1;1) [ou seja, como 2 ou 61 da notação decimal]. (…) Nesse caso, houve uma época em que se usava o símbolo com tamanhos diferentes para representar o 60 e o 1, hábito que talvez esteja na origem do sistema posicional.” Quer seja: sem escala ou casas decimais, ficamos incapacitados de resolver informações polissêmicas, a não ser que, por exemplo, fosse evidente, digamos, pelo número de cabeças visíveis num rebanho, a qual grandeza o símbolo faria referência.

Algumas vezes era deixado um espaço entre os dois símbolos para marcar uma coluna vazia. Mas essa solução não resolve o problema de expressar uma coluna vazia no fim do número, logo, permite diferenciar 7200 de 3601, p.ex., mas não 7200 de 2 e de 120.”

ADIÇÃO EM BASE 60

1;30,27;40 + 29,15;13 = 1;59,42;53

1;59 + 1 = 2

MULTIPLICAÇÃO EM BASE 60

4 x 20 = 1;20

DIVISÃO EM BASE 60

1,30 ÷ 3 =0,30

(raciocínio análogo a: 1h30 dividido por 3 é igual a meia-hora. A coisa se complicaria muito se o segundo número possuísse casa fracionária [sessentesimal e não decimal].)

Por óbvio, multiplicações, divisões, somas e subtrações por 60 são as operações mais simples.

Uma das vantagens do sistema sexagesimal é o fato de que o número 60 é divisível por todos os inteiros entre 1 e 6, o que facilita a inversão dos números expressos nessa base. A divisibilidade por inteiros pequenos é uma importante característica a ser levada em conta no momento da escolha de uma base para representar os números. A base 12 está presente até hoje no comércio, onde usamos a dúzia justamente pelo fato de o número 12 ser divisível por 2, 3 e 4 ao mesmo tempo. Não podemos dizer, no entanto, que esse tenha sido o motivo do emprego dessa base pelos mesopotâmicos.”

No sistema posicional, podem-se usar os mesmos símbolos para escrever números inteiros e números fracionários, o que não acontece no sistema egípcio, como veremos adiante.”

Uma grande vantagem do sistema posicional é permitir a escrita de números muito grandes com poucos símbolos. Efetivamente, mais tarde, quando os babilônios iniciaram seus estudos astronômicos, tornou-se necessário escrever números maiores, fazendo com que as características posicionais se tornassem mais evidentes.”

A observação dos corpos celestes, presente nos registros da matemática babilônica do primeiro milênio a.C., bem como a aritmética e o sistema posicional sexagesimal usados nesse contexto, pode ter tido influência sobre a tradição grega de Hiparco e Ptolomeu. A astronomia desenvolvida por eles no Egito, na virada do milênio, indica que os cálculos astronômicos e trigonométricos de então eram feitos por meio do sistema sexagesimal posicional, ainda que com uma simbologia distinta, e que este permaneceu sendo o principal sistema até a introdução do sistema decimal indo-arábico, muitos séculos depois. Apesar disso, a idéia de que teria havido uma continuidade entre as matemáticas mesopotâmica e grega foi construída com base em interpretações equivocadas e não há evidências nítidas da influência dos mesopotâmicos sobre a tradição grega.”

Os astrônomos selêucidas, talvez pela necessidade de lidar com números grandes, chegaram a introduzir um símbolo para designar o zero, ou melhor, uma coluna vazia. No caso de 3601, escrevia-se 1; separador; 1. O separador era simbolizado por dois traços inclinados:


1 ; // ; 1 =
3601

A noção de zero como número só surgirá quando ele começar a ser associado a operações, em particular, ao resultado de uma operação, como 1 – 1 = 0. Escrever uma história do zero é tarefa bastante complexa, pois devem ser levados em conta, antes de tudo, os diversos contextos em que ele aparece e o que essa noção pode significar em cada contexto.”

No caso da multiplicação, o uso de tabuadas em tabletes era fundamental. Basta observar que os cálculos elementares, ou seja, aqueles que correspondem à nossa tabuada, incluem multiplicações até 59 × 59! Isso pode indicar a necessidade de tabletes mesmo para os cálculos mais elementares.

Um exemplo de tablete de multiplicação por 25:

1 (vezes 25 é igual a) 25

2 (vezes 25 é igual a) 50

3 (vezes 25 é igual a) 1;15

4 (vezes 25 é igual a) 1;40

5 (vezes 25 é igual a) 2;05

6 (vezes 25 é igual a) 2;30

7 (vezes 25 é igual a) 2;55 etc.”

O procedimento de divisão empregado pelos babilônios nos leva a concluir que a utilização dos tabletes, nesse caso, não servia apenas à memorização de tabuadas, o que seria um papel acessório. Para que a técnica adotada na divisão fosse rigorosa, devia haver uma necessidade intrínseca de se representar em tabletes as divisões por números cujos inversos não possuem representação finita em base 60. Isso porque, no caso de 1/N não possuir representação finita, o resultado da divisão de M por N teria de estar registrado em um tablete. Se essa operação fosse realizada pelo procedimento usual, ou seja, multiplicando-se M por 1/N, o resultado obtido não seria correto, da mesma forma que não seria correto fazer 6 × 0,3333(=1/3) para dividir 6 por 3.”

Além das operações de soma, subtração, multiplicação e divisão, os babilônios também resolviam potências e raízes quadradas e registravam os resultados em tabletes. O método usado nesse último caso era bastante interessante, uma vez que permitia obter valores aproximados para raízes que hoje sabemos serem irracionais.”

Além dos tabletes contendo o resultado de operações, os babilônios tinham um certo número de tabletes de procedimentos, como se fossem exercícios resolvidos. Correspondiam a problemas que trataríamos hoje por meio de equações. Analisaremos alguns deles em detalhes, com a finalidade de mostrar como seria anacrônico considerar que os babilônios soubessem resolver equações.”

A generalidade dos algoritmos babilônicos é distinta, pois eles constroem uma lista de exemplos típicos, interpolando-os, em seguida, para resolver novos problemas.”

Desde a época grega, e pelo menos até o século XVII, a geometria teve de respeitar a homogeneidade das grandezas. Isso quer dizer que não era permitido somar uma área com um segmento de reta. A operação utilizada pelos babilônios revela que eles não experimentavam nenhuma dificuldade nesse sentido, uma vez que possuíam um modo concreto de transformar um segmento de reta em um retângulo, operação traduzida aqui como <projeção>.”

Exemplos como esse, envolvendo operações de <cortar e colar> figuras geométricas parecem ter sido comuns na época. Høyrup caracteriza essas práticas como uma <geometria ingênua>.”

Se definíssemos álgebra como um conjunto de procedimentos que devem ser aplicados a entidades matemáticas abstratas, poderíamos até concluir que os babilônios realizavam uma álgebra de comprimentos, larguras e áreas. Mas, nesse caso, deveríamos ter o cuidado de definir a álgebra dos babilônios de um modo particular, e não por extensão do nosso conceito moderno de álgebra.”

O sistema decimal egípcio já estava desenvolvido por volta do ano 3000 [a.C.], ou seja, antes da unificação do Egito sob o regime dos faraós. O número 1 era representado por uma barra vertical, e os números consecutivos de 2 a 9 eram obtidos pela soma de um número correspondente de barras. (…) O número 10 é uma alça [parece um pórtico ou uma ferradura apontando para o céu]; 100, uma espiral; mil, a flor de lótus; 10 mil, um dedo; 100 mil, um sapo; e 1 milhão, um deus com as mãos levantadas.” Quanta inocência! Ou serei eu muito malicioso? Veja abaixo…

Impossível não associar a notação egípcia a motivos religiosos ou sexuais – particularmente o 10 mil (caractere fálico) e o 1 milhão (duas interpretações instantâneas: 1- mão segura pênis e realiza-se, no topo, felação; 2- analogamente, pessoa ajoelhada em prece, com braços soerguidos), mas também o 100 mil, que remete a girino, embora não possamos dizer que se soubesse o formato de um espermatozóide (nem por isso deixava de haver uma noção, comprovada mitologicamente, de que ‘a vida veio da água’).

os números são obtidos pela soma de todos os números representados pelos símbolos (sistema aditivo) (…) esse sistema não é adequado para representar números muito grandes (…) Cabe notar que os romanos lidavam com números grandes [mesmo] usando um sistema aditivo, o que relativiza esta afirmação.”

Somente as frações ½, 1/3, 2/3 e ¼ possuíam símbolos próprios (exclusivos).

Nosso numerador indica quantas partes estamos tomando de uma subdivisão em um dado número de partes. Na designação egípcia, o símbolo oval [uma espécie de auréola sobre o símbolo usual do número] não possui um sentido cardinal, mas ordinal. Ou seja, indica que, em uma distribuição em n partes iguais, tomamos a nésima parte, aquela que conclui a subdivisão em n partes. É como se estivéssemos distribuindo algo por n pessoas e 1/n é quanto cada uma irá ganhar. Logo, configura-se um certo abuso de linguagem dizer que, na representação egípcia, as frações possuem ‘numerador 1’. Seria mais adequado dizer que essas frações egípcias representam os inversos dos números.”

 

Como eles representavam frações de numerador >1?

R: 5/8 seriam ½ + 1/8. (I)

Outros ex.:

(II) 58/87 = ½ + 1/6

(III) 3/7 = 1/3 + 1/11 + 1/231

Se quisermos saber, em nossa representação, qual a maior de duas frações teremos de igualar os denominadores. Na representação egípcia, uma inspeção direta permite dizer qual a maior das duas frações”

A palavra <aha> é traduzida por <número> ou <quantidade>, e esses problemas eram procedimentos para encontrar uma quantidade desconhecida quando é dada uma relação com um resultado conhecido.”

O INÍCIO DAS SUPERSTIÇÕES SOBRE “NÚMEROS RUINS”? “a duplicação de frações de denominador ímpar, um cálculo ‘difícil’, era realizada apenas uma vez, e sempre que se necessitasse do resultado recorria-se às tabelas. Pelo mesmo motivo, as somas de frações também traziam dificuldade e deviam ser representadas em tabelas.”

Esses exemplos são citados em diversos livros, muitas vezes com o objetivo de indicar que os povos babilônicos e egípcios possuíam aproximações para o valor de π. Nosso objetivo é entender em que contexto tais problemas se inserem e em que medida podem ser ou não considerados instâncias primitivas da utilização de π. Para abreviar, evitamos entrar em detalhes sobre as unidades de medida utilizadas.”

Exemplo egípcio (Problema 41 do papiro de Rhind): <Fazer um celeiro redondo de 9 por 10.> O celeiro tem o formato de um cilindro e a primeira parte do problema consiste em calcular a área da base, em forma de circunferência, cujo diâmetro é 9. A segunda parte consiste em calcular o volume em grãos se a altura é 10. O procedimento para resolver a primeira parte é o seguinte:

1) Subtraia 1/9 de 9. Resta: 8.

2) 8*8 = 64

A1 = 64

O valor 1/9 é uma constante que devia ser aprendida e utilizada sempre que se quisesse calcular a área de uma circunferência (multiplicando essa constante pelo diâmetro). (….) O resultado deveria ser multiplicado por ele mesmo”

No ocidente:

A = π*R² = (8/9*d)² = (8/9*2)²*r²,

em que d é o diâmetro dado.

π = ~3,16,

Daí a afirmação, apressada, contida em alguns livros de história, de que os egípcios já possuíam uma aproximação para π.”

Exemplo babilônico (Haddad 104): <Procedimento para um tronco. Sua linha divisória é 0,05. Quanto ele pode armazenar?>”

<Linha divisória> é o diâmetro da circunferência determinada por uma seção transversal. Em primeiro lugar, calculava-se a área de uma seção transversal, de forma circular:

1) Triplique a linha divisória:

3*0,05 = 0,15

2) Faça o quadrado de 0,15:

(0,15)² = 0,03;45

3) Multiplique 0,03;45 novamente pela linha divisória:

Abase = 0,03;45*0,05 = 0,00;18;45

4) Multiplicar a área da base pela altura:

Abase*Alt.

A altura era considerada implicitamente como igual ao diâmetro.”

Lembramos que a fórmula usada atualmente para o perímetro da circunferência é 2πr = πd (onde d é o diâmetro). Poderíamos dizer que o método dos babilônios não está muito longe do nosso, usando 3 como valor aproximado de π. Mas o objetivo não é calcular o perímetro e sim a área da circunferência, que, em seguida, deverá ser multiplicada pela altura. Para calcular a área a partir do perímetro, temos de elevar ao quadrado e depois dividir o resultado por 4π (basta verificar na nossa fórmula que a área πr² = (π²*d²)/4π). Mas, considerando que os babilônios usavam 3 como constante, em base 60, dividir por 4π é equivalente a multiplicar por 0,5 (pois 1/4π = 1/12 = 5/60 é o mesmo que 0,5 em base 60). Isso explica a multiplicação por essa constante”

Seria um tremendo anacronismo dizer que os povos mesopotâmicos e egípcios já possuíam uma estimativa para π, pois esses valores estavam implícitos em operações que funcionavam, ao invés de serem expressos por números considerados constantes universais, como em nossa concepção atual sobre π.”

Contar, e registrar quantidades, pode ser dita uma atividade concreta, pois implica um corpo a corpo com os objetos contados. Quando os tokens eram manipulados na contagem, e mesmo quando eram impressos na superfície dos invólucros, essa concretude estava em jogo. A abstração tem lugar a partir do momento em que o conteúdo dos invólucros podia ser esquecido, levando a um registro independente do que estava sendo contado, impresso em tabletes.”

É MUITO COMUM LERMOS que a geometria surgiu às margens do Nilo, devido à necessidade de medir a área das terras a serem redistribuídas, após as enchentes, entre os que haviam sofrido prejuízos. Essa hipótese tem sua origem nos escritos de Heródoto, datados do século V a.C.: <Quando das inundações do Nilo, o rei Sesóstris enviava pessoas para inspecionar o terreno e medir a diminuição dos mesmos para atribuir ao homem uma redução proporcional de impostos. Aí está, creio eu, a origem da geometria, que migrou, mais tarde, para a Grécia>” “Além disso, quase todos os livros de história da matemática a que temos acesso em português reproduzem a lenda de que a descoberta dos irracionais provocou uma crise nos fundamentos da matemática grega. Alguns chegam a afirmar que tal crise só foi resolvida com a definição rigorosa dos números reais, proposta por Cantor e Dedekind no século XIX (ou seja, mais de vinte séculos depois).”

Matemáticos célebres da Grécia Antiga em ordem cronológica:

1. Tales

2. Pitágoras

3. Euclides

CAPÍTULO 2. Lendas sobre o início da matemática na Grécia

O testemunho de Heródoto, apresentado no segundo dos nove livros de suas Histórias, se insere em uma descrição dos costumes e das instituições de povos diversos e é parte das investigações sobre as causas das guerras entre gregos e bárbaros (pertencentes ao império persa). Esse segundo livro é inteiramente consagrado ao Egito e nele se encontra a menção à palavra grega <geometria>. Os egípcios teriam revelado que seu rei partilhava a terra igualmente entre todos, contanto que lhe fosse atribuído um imposto na base dessa repartição. Como o Nilo, às vezes, cobria parte de um lote, era preciso medir que pedaço de terra o proprietário tinha perdido, com o fim de recalcular o pagamento devido.” “A palavra geometria pode ser traduzida, portanto, como <medida da terra>. Vem daí a idéia de que seu surgimento está ligado à agrimensura.”

Mas que gregos teriam levado a geometria para a Grécia? Heródoto não diz nada sobre o assunto e estudiosos postularam, posteriormente, que teria sido Tales. Para tornar o relato mais consistente, afirmou-se que esse matemático teria calculado até mesmo a altura de uma das pirâmides do Egito. Tal anedota, que Eudemo e Proclus ajudaram a construir, combina a idéia de que a geometria prática, de origem egípcia, teria evoluído para a determinação indireta de medidas inacessíveis, caso da altura de uma pirâmide.”

Não há uma documentação confiável que possa estabelecer a transição da matemática mesopotâmica e egípcia para a grega. Essa é, na verdade, uma etapa na construção do mito de que existiria uma matemática geral da humanidade.”

A designação de ‘abstrato’ ganha, agora, um sentido diferente do exposto no Capítulo 1, já que aqui a expressão está associada à prática geométrica e não numérica. O registro grego é fragmentário e a escassez de fontes faz com que o trabalho do historiador pareça especulativo. Existem alguns tratados matemáticos concluídos, outros parcialmente finalizados e outros, ainda, com apenas trechos aleatórios preservados acidentalmente em obras derivadas, além de alguma literatura sobre a matemática em textos filosóficos.”

Alguns termos de geometria já apareciam, por exemplo, na arquitetura. Há escritos técnicos do século VI abordando problemas relacionados à astronomia e ao calendário.”

é difícil estabelecer as bases factuais desta e de outras afirmações sobre Tales atribuídas por Proclus a Eudemo. Na verdade, o papel de Tales foi objeto de algumas controvérsias históricas. Segundo W. Burkert, parece ser fato que, por volta do século V, seu nome era empregado em conexão com resultados geométricos. Além disso, Aristóteles menciona Tales na Metafísica como o fundador da filosofia.”

A historiografia da matemática costuma analisar, entre as épocas de Tales e de Euclides, as contribuições da escola pitagórica do século V. Os ensinamentos dessa escola teriam influenciado um outro matemático importante desse século, Hipócrates de Quios. Além disso, é frequente encontrarmos referências a Pitágoras como um dos primeiros matemáticos gregos. Mas ambas as afirmações são hoje largamente questionadas pelos historiadores.”

Se o matemático mais conhecido do século V, Hipócrates de Quios, não era herdeiro de Pitágoras, de onde veio sua matemática? As evidências mostram que havia uma matemática grega antes dos pitagóricos. Em meados desse século, tal prática parecia estar no centro dos interesses dos principais pensadores, pois muitos deles se conectavam com questões matemáticas, caso de Anaxágoras, Hípias e Antifonte. (…) Em Atenas, a geometria era ensinada, apesar de não sabermos exatamente como. Nos diálogos de Platão, há algumas evidências da existência de um ambiente de discussão sobre os problemas geométricos que data de uma época anterior a sua obra. Um exemplo são os diálogos entre Sócrates e Teodoro, que era contemporâneo de Hipócrates e de quem Teeteto, importante personagem dos textos de Platão, deve ter sido aluno.”

como mostra W. Burkert, a escola pitagórica não parece ter tido um papel significativo na transformação da matemática de seu tempo. A convicção de que o pitagorismo está na fonte da matemática grega decorre da tradição educacional dos neopitagóricos e neoplatônicos da Antiguidade, durante os primeiros séculos da era cristã.” Curioso.

Neste capítulo e no próximo mostraremos que a visão de que a matemática abstrata, que faz uso de demonstrações, foi uma invenção dos gregos toma por base os Elementos de Euclides. Logo, seria anacrônico analisar o desenvolvimento da matemática antes de Euclides a partir de inferências lógicas.”

Mesmo o famoso teorema ‘de Pitágoras’, em sua compreensão geométrica como relação entre medidas dos lados de um triângulo retângulo, não parece ter sido particularmente estudado por Pitágoras e sua escola. Veremos, ainda, que a descoberta das grandezas incomensuráveis, freqüentemente atribuída a um pitagórico, deve ter tido outras origens. Tal descoberta contribuiu para a separação entre a geometria e a aritmética, a primeira devendo se dedicar às grandezas geométricas e a segunda, aos números – separação que é um dos traços marcantes da geometria grega, ao menos na maneira como ela se disseminou com Euclides.”

Um de nossos principais objetivos, aqui, é desconstruir os mitos envolvidos na chamada ‘crise dos incomensuráveis’. Essa tese tem origem em obras já ultrapassadas que constituem um exemplo paradigmático de um modo de fazer história da matemática – hoje contestado – baseado em pressupostos modernos sobre a natureza dessa disciplina. As narrativas sobre o suposto escândalo provocado pela descoberta dos incomensuráveis citam também os paradoxos de Zenão, por isso descreveremos brevemente seus enunciados, mostrando que estes tinham um fim filosófico e não matemático.”

A Antiuidade tardia nos legou 2 textos de pensadores neoplatônicos nos quais os feitos da matemática grega foram avaliados: um de Jâmblico, De communi mathematica scientia (Sobre o conhecimento matemático comum), e outro de Proclus, o primeiro prólogo ao seu Comentário sobre o primeiro livro dos Elementos de Euclides. Jâmblico viveu entre os séculos III e IV d.C. (…) De communi mathematica scientia é o terceiro volume de uma obra maior, dedicada ao pitagorismo, De vita pytaghorica (Sobre a vida pitagórica)“A escassez das fontes, somada à convergência interessada dos únicos textos disponíveis, nos permite duvidar até mesmo da existência de um matemático de nome Pitágoras.”

A matemática atribuída a Pitágoras é a aritmética de pontinhos, que será detalhada adiante, mas não se sabe ao certo se ela é uma criação de um matemático chamado Pitágoras, de integrantes de uma escola antiga chamada pitagórica (mas não de Pitágoras), ou dos neoplatônicos e neopitagóricos da Antiguidade, como Jâmblico e Nicômaco.”

Os pitagóricos embora sejam vistos como os primeiros a considerar o número do ponto de vista teórico, e não apenas prático, não possuíam, de fato, uma noção de número puro. Diferentemente de Platão, os pitagóricos não admitiam nenhuma separação entre número e corporeidade, entre seres corpóreos e incorpóreos.”

O Um é ao mesmo tempo par e ímpar, ser bissexuado a partir do qual os outros números se desenvolveram. O par e o ímpar são elementos dos números e na conjugação limitado-ilimitado está a oposição cósmica primordial por trás do mundo, expresso em números.”

As relações entre os números não representavam, portanto, uma cadeia linear na qual todas as relações internas eram semelhantes. Cada arranjo designava uma ordem distinta, com ligações próprias. Daí o papel dos números figurados na matemática pitagórica. Esses números eram, de fato, figuras formadas por pontos, como as que encontramos em um dado. Não é uma cifra, como 3, que serve de representação pictórica para um número, mas a delimitação de uma área constituída de pontos, como uma constelação.”

Os números triangulares representados na Figura 1 podem ser associados aos nossos números 1, 3, 6, 10, 15 e 21, que possuem, respectivamente, ordem n = 1, 2, 3, 4, 5 e 6. Em linguagem atual, o número triangular de ordem n é dado pela soma da progressão aritmética 1 + 2 + 3 + … + n = [n*(n+1)]/2. Em seguida, temos os números quadrados, que, em nosso simbolismo, podem ser escritos como .”

Essa imagem, chamada gnomons, é a representação pitagórica equivalente à nossas equações:

1² + 3 = 2²

2² + 5 = 3²

3² + 7 = 4² (4º gnomon, etc.)

Temos notícia de que a ciência matemática era dividida, primeiramente, em duas partes: uma que tratava dos números; outra, das grandezas. Cada uma era subdividida em duas outras partes: a aritmética estudava as quantidades em si mesmas; a música, as relações entre quantidades; a geometria, as grandezas em repouso; e a astronomia, as grandezas em movimento inerente. O conhecimento sobre esse aspecto da doutrina pitagórica vem da Metafísica de Aristóteles”

Ar. usava essa tabela de opostos para criticar a separação binária platônica segundo a qual, de um lado, temos o igual, imóvel e harmônico e, de outro, o desigual, movente e desarmônico.” Que pena que não se encontre isso em lugar nenhum do cânone platônico!

Para Aristóteles, isso indicaria a presença de seres abstratos. Por exemplo, a partir do tetractys [o terceiro triângulo de duas imagens acima, aquele com 10 pontos] os pitagóricos teriam obtido as entidades abstratas: ponto, reta, plano e sólido. No entanto, Burkert nota que essa tese está em franca contradição com outra afirmação do próprio Aristóteles, a saber, que não havia entre os pitagóricos a noção de ponto, no sentido geométrico do termo.”

O enunciado mais famoso associado ao nome de Pitágoras é o teorema que estabelece uma relação entre as medidas dos lados de um triângulo retângulo: <O quadrado da hipotenusa é igual à soma dos quadrados dos catetos>. Hoje se sabe que essa relação era conhecida por diversos povos mais antigos do que os gregos e pode ter sido um saber comum na época de Pitágoras. No entanto, não é nosso objetivo mostrar que os pitagóricos não foram os primeiros na história a estabelecer tal relação. O objetivo é investigar de que modo esse resultado podia intervir na matemática praticada pelos pitagóricos, com as características anteriormente descritas. A demonstração desse teorema, encontrada nos Elementos de Euclides, faz uso de resultados que eram desconhecidos na época da escola pitagórica. Não se conhece nenhuma prova do teorema geométrico que tenha sido fornecida por um pitagórico e parece pouco provável que ela exista.”

Não deve ter havido um teorema geométrico sobre o triângulo retângulo demonstrado pelos pitagóricos, e sim um estudo das chamadas triplas pitagóricas. O problema das triplas pitagóricas é fornecer triplas constando de dois números quadrados e um terceiro número quadrado que seja a soma dos dois primeiros.¹ Essas triplas são constituídas por números inteiros que podem ser associados às medidas dos lados de um triângulo retângulo.

¹ Alguns historiadores da matemática defendem que na placa Plimpton 322 há um indício de que os babilônios já estudavam as triplas pitagóricas, o que mostraria que a relação atribuída a Pitágoras seria conhecida na Babilônia pelo menos mil anos antes dele. Essa tese é questionada por E. Robson em ‘Neither Sherlock Holmes nor Babylon: A reassessment of Plimpton 322’ e ‘Words and pictures: new light on Plimpton 322’.”

Provavelmente, os pitagóricos chegaram a essas triplas por meio do gnomon

a primeira tripla pitagórica: (3, 4, 5).” = 3² + 4² = 5²

Na tradição, poucas triplas são mencionadas e (3, 4, 5) tem um papel especial, pois 3 é o macho; 4, a fêmea; e 5, o casamento que os une no triângulo pitagórico. Segundo Proclus, havia 2 métodos para se obter triplas pitagóricas: um de Pitágoras, outro de Platão. O primeiro começa pelos números ímpares. Associando um dado número ao menor dos lados do triângulo que formam o ângulo reto, tomamos o seu quadrado, subtraímos a unidade e dividimos por 2, obtendo o outro lado, que forma o ângulo reto. Para obter o lado oposto, somamos a unidade novamente ao resultado. Seja 3, por exemplo, o menor dos lados. Toma-se o seu quadrado e subtrai-se a unidade, obtendo 8, e extrai-se a metade de 8, que é 4. Adicionando a unidade novamente, obtemos 5, e o triângulo retângulo que procuramos é o de lados 3, 4 e 5.

O método platônico começa por um número par, considerado um dos lados que formam o ângulo reto. Primeiro dividimos esse número por 2 e fazemos o quadrado de sua metade. Subtraindo 1 desse quadrado, obtemos o outro lado que forma o ângulo reto e, adicionando 1, o lado restante. Por exemplo, seja 4 o lado. Dividimos por 2 e tomamos o quadrado da metade, obtendo 4. Subtraímos 1 e adicionamos 1, obtendo os lados restantes: 3 e 5.” Em linguagem moderna, o método platônico = (2a)² + (a² − 1)² = (a² + 1)².

Logo, pelo contexto em que esse resultado intervém, não é possível dizer que o conhecimento aritmético das triplas pitagóricas seja o exato correlato do teorema geométrico atribuído a Pitágoras, daí as aspas empregadas aqui ao falarmos do teorema <de Pitágoras>.”

A versão mais popular é a de que esse livro de Euclides resulta de uma compilação de conhecimentos matemáticos anteriores, ainda que a forma da exposição deva ser característica do tempo e do meio em que ele viveu. Não é possível confirmar essa tese, mas é fato que uma boa parte da matemática contida nessa obra associa-se a outros trabalhos gregos. Euclides apresenta 2 tipos de teoria das razões e proporções. Há uma versão no livro VII que pode ser aplicada somente à razão entre inteiros e é atribuída aos pitagóricos. A definição contida aí é usada para razões entre grandezas comensuráveis. A segunda versão, presumidamente posterior à primeira, está no livro V e é atribuída ao matemático platônico Eudoxo. Essa última teoria das razões e proporções é bastante sofisticada e se aplica igualmente a grandezas comensuráveis e incomensuráveis.”

Segundo Knorr, o desenvolvimento formal da matemática deve ter se iniciado com os trabalhos de Teeteto, no início do século IV”

Hipócrates teria sido o autor da primeira obra escrita em um livro de ‘elementos’, ou seja, com a apresentação sistemática da geometria. Infelizmente, poucos fragmentos sobreviveram. Seu trabalho mais conhecido é o estudo das lúnulas, que são porções de círculo compreendidas entre duas circunferências, incluindo a investigação de quadraturas. Os escritos de Hipócrates constituem o único documento do século V contendo um estudo de razões e proporções entre figuras geométricas. Ele sabia que a razão entre as áreas de dois segmentos de círculo semelhantes é igual à razão entre os quadrados de seus diâmetros. Essa demonstração, de uma época bem anterior à de Eudoxo, exigia um conhecimento profundo de razões e proporções.”

A palavra antifairese vem do grego e significa, literalmente, subtração recíproca. Na álgebra moderna, o procedimento é semelhante ao conhecido como <algoritmo de Euclides> e sua função é encontrar o maior divisor comum entre dois números.”

O método da antifairese descreve uma série de comparações. Por exemplo, podemos pedir a um aluno que compare duas pilhas de pedras. Se a primeira tem 60 e a segunda, 26, concluímos que:

1) da primeira pilha com 60 pedras é possível subtrair duas vezes a pilha com 26 pedras, e ainda resta uma pilha com 8 pedras;

2) da pilha com 26 pedras é possível subtrair três vezes a pilha com 8 pedras, e ainda resta uma pilha com 2 pedras;

3) por fim, a pilha com 2 pedras cabe, exatamente, quatro vezes na pilha com 8 pedras.

A sequência <2x, 3x e 4x exatamente> representa o número de subtrações que se pode fazer em cada passo. Podemos chamá-la de razão e usar a notação Ant (60, 26) = [2, 3, 4] para representar a razão antifairética 60:26. A escolha de grandezas que permitem uma representação finita por números inteiros nem sempre é possível.

Para Fowler, os gregos entendiam a razão 22:6, por exemplo, baseados no fato de que é possível subtrair 6 de 22 três vezes, restando 4; em seguida, subtrai-se 4 de 6, restando 2; finalmente, subtrai-se 2 de 4 exatamente duas vezes. Logo, a razão 22:6 seria definida pela sequência <3x, 1x, 2x>.”

Essa antifairese equivale a fazer A = n0B + R1, em seguida, B = n1R1 + R2, depois R2 = n1R2 + R3, e assim por diante. O procedimento pode ou não chegar ao fim. Quando ele termina, a medida comum aos dois segmentos fica associada a um terceiro segmento, R, que é o último resto não-nulo encontrado e que mede os segmentos A e B. Isso permite achar a medida comum a 2 segmentos e, assim, é possível reduzir a geometria à aritmética, pois cada segmento será representado por sua medida.”

A teoria das grandezas comensuráveis foi desenvolvida, primeiramente, pela aritmética e, depois, por imitação, pela geometria. Por essa razão, ambas as ciências definem grandezas comensuráveis como aquelas que estão uma para outra na razão de um número para outro número, o que implica que a comensurabilidade existiu primeiro entre os números.” Proclus

Como afirma Fowler, essa técnica teria sido usada para desenvolver uma teoria de razão independente da noção de proporção. Segundo o historiador, 3 noções distintas de razão estariam presentes na tradição grega: uma vinda da teoria musical; outra, da astronomia (que teria servido de base para as definições do livro V dos Elementos); e uma terceira, baseada na antifairese.”

Se temos, por exemplo, um quadrado de lado 1, esse lado não é comensurável em comprimento com a diagonal. No entanto, seu quadrado 1 é comensurável com o quadrado da diagonal, que é 2. É lícito dizer, então, que essas grandezas são comensuráveis em potência.”

as teses atuais sugerem que houve um desenvolvimento contínuo da matemática, e não uma ruptura, antes e depois do momento em que se percebeu a possibilidade de duas grandezas serem incomensuráveis.”

Reza a lenda que a descoberta dos irracionais causou tanto escândalo entre os gregos que o pitagórico responsável por ela, Hípaso, foi expulso da escola e condenado à morte. Não se sabe de onde veio essa história, mas parece pouco provável que seja verídica. Em um artigo publicado em 1945, ‘The discovery of incommensurability by Hippasos of Metapontum’ (A descoberta da incomensurabilidade por Hípaso de Metaponto), Von Fritz conjectura que a incomensurabilidade tenha sido descoberta durante o estudo do problema das diagonais do pentágono regular, que constituem o famoso pentagrama. A lenda da descoberta dos irracionais por Hípaso foi erigida a partir desse exemplo. Entretanto, os historiadores que seguimos aqui contestam tal reconstrução, uma vez que ela implica o uso de fatos geométricos elaborados que só se tornaram conhecidos depois dos Elementos de Euclides.”

Não sabemos exatamente qual a importância da geometria na escola pitagórica, mas acredita-se que não tenha sido tão relevante quanto a aritmética. Para os pitagóricos, que praticavam aritmética com números representados por pedrinhas e estavam preocupados com teorias sobre o cosmos, resumidas pelo enunciado <tudo é número>, a descoberta da incomensurabilidade não deve ter tido nenhuma importância. A teoria dos números desenvolvida por eles e a matemática abstrata, associada à geometria, estavam em dois planos distintos: <tudo é número> não significava <todas as grandezas são comensuráveis>.”

A afirmação de que a descoberta da incomensurabilidade produziu uma crise nos fundamentos da matemática grega foi consolidada por trabalhos de historiadores da 1ª metade do século XX. P. Tannery já havia afirmado que tal descoberta significou um escândalo lógico na escola pitagórica do século V, sendo mantida em segredo inicialmente, até que, ao se tornar conhecida, teve como efeito desacreditar o uso das proporções na geometria. Um dos artigos mais influentes a propalar a ocorrência de uma crise foi ‘Die Grundlagenkrisis der griechischen Mathematik’ (A crise dos fundamentos da matemática grega), de Hasse & Scholz, publicado em 1928, que fazia referência somente à possibilidade de ter havido uma crise dos fundamentos da matemática grega.”

O problema da incomensurabilidade parece ter surgido no seio da própria matemática, mais precisamente da geometria, sem a relevância filosófica que lhe é atribuída. Ao contrário da célebre lenda, os historiadores citados, como Burkert e Knorr, contestam até mesmo que essa descoberta tenha representado uma crise nos fundamentos da matemática grega. Não se encontra alusão a escândalo em nenhuma passagem dos escritos a que temos acesso e que citam o problema dos incomensuráveis, como os de Platão ou Aristóteles. Aristóteles, aliás, não cita o problema dos incomensuráveis nem mesmo em sua crítica aos pitagóricos.”

Em ‘Impact of modern mathematics on ancient mathematics’ (Impacto da matemática moderna sobre a matemática antiga), Knorr interpreta as diferentes versões da crise dos incomensuráveis que dominaram a historiografia em meados do século XX como um sinal da influência de pressupostos filosóficos. Os estudos meta-matemáticos do período foram marcados pelo questionamento em relação aos fundamentos da matemática, associado aos trabalhos de Dedekind, Cantor e Hilbert. A tentação de ver nos gregos uma crise análoga era um modo de valorizar os trabalhos do início do século XX, encarados como soluções para dilemas não resolvidos por 2500 anos.”

É provável que a antifairese entre o lado e a diagonal do quadrado fosse conhecida de modo geométrico nos séculos V e IV sem que se atribuísse ao procedimento o valor de uma demonstração da incomensurabilidade. Outra hipótese sobre a descoberta da incomensurabilidade, dessa vez no contexto da aritmética, tem sua origem em um resultado atribuído a Euclides. No final do século IV, Aristóteles se refere à prova da incomensurabilidade em sua exposição sobre a técnica de raciocínio por absurdo, dizendo que: se o lado e o diâmetro são considerados comensuráveis um em relação ao outro, pode-se deduzir que os números ímpares são iguais aos pares; essa contradição afirma, portanto, a incomensurabilidade das duas grandezas.” “Mas a demonstração desse fato faz uso de uma linguagem algébrica que não poderia ter sido usada pelos gregos antigos.” Ar., gênio, mas sempre menino bobo!

Na matemática grega anterior a Euclides, os problemas geométricos eram tratados como se fossem cálculos com números. Foi justamente a descoberta dos incomensuráveis que provocou uma separação entre os universos das grandezas e dos números. A demonstração pré-euclidiana da incomensurabilidade não pode ter se servido, portanto, dessa separação. Logo, a prova encontrada nesse apêndice deve ser tardia e com certeza não foi por meio dela que se descobriu a incomensurabilidade.”

Por volta do ano 375, Platão criticou os geômetras por não empregarem critérios de rigor desejáveis para as práticas matemáticas. Não por acaso o trabalho de Eudoxo se desenvolveu no seio da academia platônica. Sendo assim, ainda que não possamos dizer que a transformação dos fundamentos da matemática grega é devida a Platão, este expressa o descontentamento dos filósofos com os métodos adotados pela matemática e articula o trabalho dos pensadores à sua volta para que se dediquem a formalizar as técnicas utilizadas indiscriminadamente.”

Temos notícia dos paradoxos de Zenão por fontes indiretas, como a Física de Aristóteles, e seus objetivos estão expostos no diálogo Parmênides de Platão. Tais paradoxos são mencionados algumas vezes em conexão com o problema dos incomensuráveis. No entanto, os argumentos de Zenão se voltam contra pressupostos filosóficos. Além disso, a descoberta da incomensurabilidade deve ter se dado depois da época de Zenão, o que nos leva a concluir que seus paradoxos nada têm a ver com a questão. Em livros de história da matemática, é comum também relacionar esses paradoxos ao desenvolvimento do cálculo infinitesimal e do conceito de limite. Trata-se, no entanto, de uma interpretação a posteriori.”

O pensamento dos eleatas busca ultrapassar a percepção e fundamentar a filosofia em bases não-empíricas. A filosofia do Uno nega veementemente a possibilidade de que as coisas possam ser subdivididas, já que essa divisão implica a constituição de uma pluralidade. Zenão queria mostrar, com seus paradoxos, que é absurdo considerar não apenas que as coisas são infinitamente divisíveis, mas também que são compostas de infinitos indivisíveis. Os paradoxos dizem respeito à impossibilidade do movimento, no caso de admitirmos quaisquer dessas hipóteses. § Esses paradoxos contra o movimento só são conhecidos na forma exposta por Aristóteles, com o objetivo de refutá-los. Nenhum argumento matemático é usado em sua contestação.” Ainda o mesmo dos pseudo-divulgadores científicos de hoje: ‘Olha só, um físico afirmou que o tempo não existe!!’

A série que pode ser usada para traduzir o problema de Zenão é ½ + (½)² + (½)³ cuja soma deve ser igual a 1.”

Demonstração moderna:

0,999999… = 0,9 + 0,09 + … = 9/10 + 9/100 + 9/1000 + … = 9/10 / (1 – 1/10) = ½ / (1 – ½) = 1

Resumindo todo o teor do capítulo:

A historiografia calibrada recente nos ensina que:

Pitágoras é o Pai da matemática indutiva grega;

Euclides é o Pai da matemática dedutiva grega. (Pai – conhecido! – da Axiomática)

Por que então o método dedutivo teria sido empregado na matemática grega e quais as causas da adoção da noção de prova? § Problemas matemáticos complexos começaram a surgir por volta do quinto e quarto séculos, como o de expressar o comprimento da diagonal em termos do lado de um quadrado. Esse não era somente um problema ainda não-resolvido, era um problema que desafiava a percepção, além de não poder ser abordado somente por meio de cálculos. A lógica matemática e a prova dedutiva podem ir além do que é perceptível.”

Por um lado, os matemáticos tinham de lidar com a complexidade e o caráter abstrato de alguns problemas que contradiziam a intuição e não eram acessíveis por meio de cálculos. Por outro, a organização em escolas, cujo objetivo era transmitir o conhecimento matemático da época, pode ter gerado uma demanda pela compilação e sistematização desse conhecimento. A necessidade de colocar em ordem a aritmética e a geometria herdadas das tradições mais antigas, bem como as descobertas recentes, deve ter levado, naturalmente, a um questionamento sobre a forma de expor o conteúdo matemático.”

Tudo que é abstrato se cimenta no ar.

Uma das primeiras evidências diretas e extensas sobre a geometria grega no período aqui considerado, para além de fragmentos ou reconstruções tardias, é o diálogo platônico intitulado Mênon, que se supõe tenha sido escrito por volta do ano 385 a.C.” Minha tradução de trechos (os matemáticos sempre em verde): https://seclusao.art.blog/2020/01/22/menon-ou-da-virtude-ou-da-inexistencia-de-uma-ciencia-politica-ultima-traducao-do-ciclo-platao-obras-completas-virginia-woolf-ao-final/.

Sem que minha tradução fosse prejudicada por isso, fi-la da seguinte forma (linhas vermelhas), ao passo que Sócrates na verdade se referia às linhas cinzentas (acontece que essa era uma forma de demonstrar a incomensurabilidade da diagonal do quadrado numa forma bidimensional, enquanto que na minha tradução aludi ao cubo, tridimensional, em nota de rodapé):

Com efeito, eis o quadrado de oito pés de área, a olho nu. A palavra diagonal não aparece no texto, apenas lado. Porque a diagonal é, afinal, um lado de outro quadrado, justaposto.

A pergunta sobre quanto mede a diagonal não chega nem mesmo a ser evocada, talvez porque Sócrates saiba que essa medida não pode ser encontrada no universo dos números admitidos até então. Mas, além disso, talvez ele quisesse apresentar ao escravo um novo tipo de conhecimento, no qual basta exibir a linha sobre a qual o quadrado deve ser construído.”

Vemos que embora minha intenção fosse diferente da da autora (Tatiana Roque), não discordamos nada a respeito do diálogo (a evidenciação do conceito de reminiscência X o correto ensino da matemática geométrica, em que pese a ‘irracionalidade do número da diagonal’). É que em algum momento ambas as coisas são uma só na exposição de Sócrates. O que fica evidente no meu trecho comentado que reproduzo aqui: “Este raciocínio todo, bem simples, serve para lembrar, também: não é todo matemático que é bom em ensinar matemática. É preciso saber o método para não fazer o aluno <descobrir a natureza> da forma indesejada (pelo ensino oficial, pelos livros, pelo próprio educador, etc.). Mostrar que o jovem se equivocava ao imaginar o quadrado e que se daria conta do erro ao contar os quadrados após desenhar o quadrado na areia favorecia Sócrates na discussão que tinha com Mênon (sobre a teoria da reminiscência).” O que mostra, ainda, o quão visual era, àquela altura, a matemática para os gregos!

Mas continuando…

A geometria, tal como a conhecemos atualmente, lida com formas abstratas. Um quadrado não é o quadrado que desenhamos no papel; é uma forma abstrata, a forma <quadrado>. Os objetos geométricos de base – como o ponto, a reta e o plano – também não são concretos. O ponto é algo sem dimensão, que não existe na realidade. Logo, esses objetos só podem ser concebidos por meio de uma abstração.” Parênteses filosóficos importantes: a idéia platônica é só isso: a verdade não está no fenômeno! Aristóteles, tão genial em suas sistematizações, não foi capaz de compreendê-lo. Ao contrário das aparências, não foi seu melhor aluno… Ou, não importa: enquanto aluno presencial, na Academia, talvez até tenha sido. Mas nós somos alunos muito melhores neste século! Em nenhum momento se tratava de criar duplos metafísicos, mas de descrever o Um parmenídeo.

O conhecimento não são sombras, mas também não é o sol ou qualquer imagem tridimensional fora da caverna (precaução contra a hiper-fenomenologia)…

A matemática parte sempre de primeiros princípios: um conjunto de hipóteses a partir das quais se poderá descer até as conclusões, que constituirão o conhecimento científico. Nesse processo, objetos sensíveis se fazem necessários, o que é muito claro na matemática: raciocinar sobre um quadrado hipotético exige o emprego do desenho de um quadrado no quadro-negro, ainda que saibamos que esse quadrado desenhado não é o verdadeiro quadrado. A dialética é um conhecimento de tipo distinto, que usa as hipóteses como ponto de partida para um mundo acima delas, no qual não há hipóteses.” Nessa última frase serei obrigado a discordar: Platão nunca fez essa distinção. Todo transcender ao que está por trás das aparências, o verdadeiro, ainda é sempre um exercício de engatinhar e tatear por entre hipóteses…

Entre as ciências hipotéticas, a geometria é o principal exemplo usado por Platão. Essa ciência utiliza hipóteses e dados sensíveis para chegar a conclusões de modo consistente. Um de seus traços distintivos é o fato de utilizar formas visíveis com o fim, somente, de investigar o absoluto que encerram. Quando um geômetra pesquisa as propriedades de um quadrado desenhado no quadro-negro – cópia do quadrado ideal –, é o verdadeiro quadrado que ele pretende simular e não meramente a sua cópia. As verdades da Idéia só podem ser vistas com os olhos do pensamento, e em sua busca a alma é obrigada a usar os primeiros princípios, descendendo destes suas conseqüências.” Agora se expressou melhor!

A OBRA Elementos, de Euclides, é vista como o ápice do esforço de organização da geometria grega desenvolvida até o século III a.C. Por um lado, afirma-se que seria somente uma compilação de resultados já existentes produzidos por outros, o que torna o seu autor um mero editor. Por outro, celebra-se que esses trabalhos tenham sido expostos de um modo novo, o que revelaria a predominância na Grécia, nessa época, de um pensamento lógico e dedutivo.”

CAPÍTULO 3. Problemas, teoremas e demonstrações na geometria grega

Os Elementos de Euclides são um conjunto de 13 livros publicados por volta do ano 300, mas não temos registros da obra original, somente versões e traduções tardias.”

Do ponto de vista histórico, cabe perguntar até que ponto o padrão que esse livro exprime era realmente preponderante na matemática que se desenvolveu antes e depois de Euclides. Além disso, é fato, as construções propostas nessa obra são efetuadas por meio da régua e do compasso. Mas seria essa restrição decorrente de uma proibição de outros métodos de construção? Teria essa determinação afetado toda a geometria depois de Euclides?” “Um dos objetivos deste capítulo é relativizar a tese da influência platônica na reorganização da geometria, bem como o papel das técnicas de construção propostas nos Elementos no contexto das práticas gregas de resolução de problemas.”

Todo enunciado universal sobre um objeto geométrico é um teorema geométrico. Os problemas são um primeiro passo para passarmos do mundo prático à geometria. (…) Grande parte da crença que temos na motivação platônica de Euclides decorre da utilização dos Comentários de Proclus. A Coleção matemática de Pappus é outra das principais fontes de conhecimento dos trabalhos matemáticos gregos, cujos registros originais se perderam.”

A resolução de problemas geométricos envolve sempre uma construção, e o critério usado nessa classificação baseia-se nos tipos de linhas necessárias para efetuá-la. Além da régua e do compasso, são listados métodos que usam cônicas e curvas mecânicas, como a quadratriz, a espiral e o conchóide de Nicomedes, conhecidos antes do fim do século III. As construções com régua e compasso não permitem resolver todos os problemas propostos pelos matemáticos gregos antes e depois de Euclides, que não se furtavam, por isso, a utilizar outros métodos.”

A visão de que os matemáticos gregos se aferravam aos fundamentos e a padrões rígidos tem origem na história da matemática desenvolvida na virada dos séculos XIX e XX, período marcado por pesquisas sobre o rigor da matemática dessa época. O objetivo dos trabalhos de Hilbert, por exemplo, era justamente fundamentar a geometria euclidiana. Mas será que os matemáticos da Antiguidade eram tão preocupados assim com questões de fundamento quanto os do final do século XIX?”

Nos primeiros livros dos Elementos, muitos resultados parecem pertencer a uma tradição que podemos chamar de ‘cálculo de áreas’, que inclui a transformação de uma área em outra equivalente, bem como a soma de áreas. Veremos que as proposições dos livros I e II podem ser entendidas a partir dessas práticas, incluindo o teorema sobre a hipotenusa do triângulo retângulo,

dito ‘de Pitágoras’.”

Arquimedes nasceu mais ou menos no momento em que Euclides morreu, em torno da segunda década do século III. Era de esperar, portanto, que o trabalho de Euclides tivesse uma influência marcante em sua obra. Mas não foi bem assim. Arquimedes não pode ser visto como sucessor de Euclides; e seu trabalho não se inscreve, por assim dizer, em uma tradição euclidiana. Um exemplo disso é a utilização de métodos mecânicos de construção, caso da espiral de Arquimedes.”

Entre os diversos problemas matemáticos clássicos difundidos antes de Euclides estão o da duplicação do cubo (problema deliano) e o da quadratura do círculo.”

Há diversas construções para as meias proporcionais que datam de períodos posteriores e podem ser encontradas em Três excursões pela história da matemática, de J.B. Pitombeira. Entre elas está a de Menecmo, que viveu por volta de 350 e foi aluno de Eudoxo. O seu conhecimento da teoria das razões e proporções permitia concluir, sem usar equações, que o ponto que satisfaz o problema das meias proporcionais é a interseção de duas cônicas, uma parábola e uma hipérbole, que atualmente seriam dadas, respectivamente, pelas equações y² = bx e xy = ab.”

Por valorizar a matemática teórica, Platão teria desprezo pelas construções mecânicas, realizadas com ferramentas de verdade. A régua e o compasso, apesar de serem instrumentos de construção, podem ser representados, respectivamente, pela linha reta e pelo círculo, figuras geométricas com alto grau de perfeição.” “é coerente dizer que sua filosofia encarava a reta e o círculo como figuras geométricas superiores, mas também não há, em seus escritos, indicações explícitas de imposição dessas figuras como protótipos para toda a geometria, nem de proibição do uso de outras construções.”

OS CHATÕES DOS 1800! “O responsável por creditar a Platão a restrição à régua e ao compasso é o matemático alemão Hermann Hankel, que atuou na segunda metade do século XIX e trabalhou com matemáticos como Weierstrass e Kronecker, conhecidos pela preocupação com os fundamentos da matemática. Em 1874, Hankel publicou um texto histórico sobre a geometria euclidiana – Zur Geschichte der Mathematik in Alterthum und Mittelalter (Sobre a história da matemática na Idade Média e na Antiguidade) – contendo extrapolações com base em trechos da obra de Platão. Em uma tese meticulosa sobre o papel da restrição à régua e ao compasso escrita em 1936, mas que continua uma referência sobre o nascimento desse mito, o alemão A.D. Steele analisa por que a tese de Hankel é falsa e fornece algumas hipóteses sobre as razões do uso exclusivo desses instrumentos nos Elementos de Euclides. Referimo-nos especificamente aos Elementos, pois a restrição à régua e ao compasso não parece ser importante nem mesmo em outros escritos de Euclides.”

Quer optemos pela motivação pedagógica ou por essa segunda razão, de cunho epistemológico, parece mais adequado entender a exclusividade da régua e do compasso nos Elementos como uma restrição pragmática cujo objetivo poderia ser apresentar um uso ótimo dos instrumentos mais simples possíveis.”

O tipo de organização dos Elementos também é objeto de extensas pesquisas, pois os resultados dos primeiros livros não são necessariamente os mais antigos, ou seja, a obra não é organizada de modo cronológico. Acredita-se que os livros VII a IX – os livros aritméticos dos Elementos, atribuídos aos pitagóricos – sejam os mais antigos. Os livros II, III e IV não apresentam uma ordem seqüencial tão nítida quanto a dos livros I, V e VI, o que pode indicar que aqueles sejam anteriores a esses. Além disso, nos livros I a IV, as construções e provas são realizadas por métodos de congruência e pelo cálculo de áreas e não empregam razões e proporções, que já eram conhecidas muito antes de Euclides. Isso poderia ser um indício de que eles teriam sido escritos depois da descoberta dos incomensuráveis, que demandou uma nova teoria das razões e proporções. A partir desse momento, parece ter havido uma reorganização do conhecimento geométrico. A exposição de resultados envolvendo semelhança de figuras, por exemplo, que já eram bastante antigos, foi adiada para depois do livro V, uma vez que necessitava de uma teoria geral das razões e proporções para grandezas (incluindo as incomensuráveis).”

Um traço particular dos Elementos é que as grandezas são tratadas enquanto tais e jamais são associadas a números (ao contrário, nos livros sobre números, eles são tratados como segmentos de reta).” “Alguns pesquisadores, como Fowler, afirmam que o livro V dos Elementos, que contém uma teoria das razões e proporções, trata de resultados mais recentes do que os outros livros.

Resumindo, podemos traçar a seguinte cronologia: os livros VII a IX, que seriam os mais antigos, empregam uma linguagem ingênua de razões e proporções que estaria presente desde épocas muito remotas, antes da descoberta dos incomensuráveis; os livros I a IV tratam de resultados sobre equivalência de áreas também antigos, mas as demonstrações evitam o uso de razões e proporções; no livro V é apresentada a nova teoria das razões e proporções, servindo de base para o estudo de equivalência de áreas e semelhança de figuras de um novo modo, o que é feito no livro VI. Além disso, o livro I teria sido escrito com o intuito de apresentar os princípios, por isso exibiria um cuidado especial com o encadeamento das proposições.”

 

Uma definição é um tipo de hipótese da qual o aprendiz não tem uma noção evidente, mas faz uma concessão àquele que as ensina e aceita-a sem demonstração. As definições que iniciam os Elementos fazem referência aos objetos matemáticos que serão utilizados ao longo da obra e que possuem um conteúdo intuitivo.”

Livro I – Definições

1. Ponto é aquilo de que nada é parte

2. E linha é comprimento sem largura

3. E extremidades de uma linha são pontos

4. E linha reta é a que está posta por igual com os pontos sobre si mesma

5. E superfície é aquilo que tem somente comprimento e largura

6. E extremidades de uma superfície são retas

10. E quando uma reta, tendo sido alteada sobre uma reta, faça os ângulos adjacentes iguais, cada um dos ângulos é reto, e a reta que se alteou é chamada uma perpendicular àquela sobre a qual se alteou

15. Círculo é uma figura plana contida por uma linha (que é chamada circunferência), em relação à qual todas as retas que a encontram (até a circunferência do círculo), a partir de um ponto dos postos no interior da figura, são iguais entre si

…”

Na definição 4, o termo linha reta designa o que hoje chamamos de segmento de reta. À maneira de Euclides, usaremos aqui o termo reta com esse sentido.” “A definição 15 está na origem da distinção entre círculo e circunferência encontrada em alguns livros-texto atuais.”

Uma noção comum, segundo Proclus, é um enunciado de conteúdo óbvio, tido facilmente como válido pelo aprendiz. Se além de o enunciado ser desconhecido ele é proposto como verdadeiro por meio de alguma argumentação temos um postulado. Nesse caso, é necessário que aquele que ensina convença o aprendiz de sua validade.”

Livro I – Postulados

1. Fique postulado traçar uma reta a partir de todo ponto até todo ponto

2. Também prolongar uma reta limitada, continuamente, sobre uma reta

3. E, com todo centro e distância, descrever um círculo

4. E serem iguais entre si todos os ângulos retos

5. E, caso uma reta, caindo sobre duas retas, faça os ângulos interiores e do mesmo lado menores do que dois retos, sendo prolongadas as duas retas, ilimitadamente, encontrarem-se no lado no qual estão os menores do que dois retos

Livro I – Noções comuns

1. As coisas iguais à mesma coisa são também iguais entre si

2. E, caso sejam adicionadas coisas iguais a coisas iguais, os todos são iguais

3. E, caso de iguais sejam subtraídas iguais, as restantes são iguais

4. E, caso iguais sejam adicionadas a desiguais, os todos são desiguais

8. E o todo é maior do que a parte

9. E duas retas não contêm uma área”

Os enunciados da matemática seguem-se, por demonstração, dos primeiros princípios. Essa é a definição do método axiomático-dedutivo. Mas por que Euclides usou esse método?”

Como vimos, o objetivo da proposição I-45 é mostrar como se pode construir um paralelogramo, com ângulo dado, cuja área seja igual à de um polígono qualquer. Observemos que essa construção torna possível representar a área de qualquer polígono como um retângulo, uma vez que o retângulo é um caso particular de paralelogramo, com ângulos retos. Para entender a importância dessa construção, é preciso saber como eram realizados os cálculos de áreas na geometria grega.

Atualmente, medir é associar uma grandeza a um número. Se quisermos somar as áreas de dois polígonos, teremos de calcular a área de cada um, por meio de uma fórmula, e somar os resultados (que são números). Mas nesse momento as grandezas não eram tratadas por meio de associação a números.”

para ‘medir’ a área de uma figura qualquer, deveríamos encontrar uma figura simples cuja área fosse igual à da figura dada. Essa figura simples era um quadrado. Logo, o problema de encontrar a quadratura de uma figura qualquer era equivalente ao problema de construir um quadrado cuja área fosse igual à da figura dada.”

Os primeiros princípios servem, portanto, à demonstração dos primeiros resultados, que, em seguida, efetuarão o papel de premissas para novas demonstrações. O encadeamento dedutivo das proposições pode ser compreendido, assim, como a busca de uma espécie de economia na argumentação.”

se 2 triângulos têm 2 lados iguais e os ângulos formados por eles também iguais, então os triângulos são congruentes. O uso do termo ‘congruente’ é bem mais recente e tem como objetivo resolver uma inconsistência lógica colocada pela formalização posterior da geometria euclidiana. Na lógica, o princípio da identidade afirma que uma coisa só é igual a si mesma. Portanto, 2 triângulos ou 2 figuras geométricas quaisquer não podem ser iguais. Daí o emprego do termo ‘congruente’, que significa, intuitivamente, que 2 figuras podem ser colocadas uma em cima da outra.” A lógica não é sempre lógica.

se 2 triângulos ABC e DBC possuem a mesma base e o terceiro vértice em uma paralela à base, então eles têm áreas iguais. Atualmente, dizemos que 2 triângulos têm áreas iguais se possuem a mesma base e a mesma altura, uma vez que a área é calculada pela fórmula bh/2.Como tratamos aqui de uma tradição geométrica que não associava grandezas a números, não se mediam a base e a altura para calcular a área. A proposição I-38 procura dizer em que casos duas áreas são equivalentes sem que seja preciso calculá-las. Ora, se o 3º vértice de 2 triângulos está em uma paralela à base, eles possuem as mesmas alturas. Como é dado que as bases são iguais, eles têm também a mesma área. As 2 últimas proposições do livro I são justamente o resultado conhecido como teorema ‘de Pitágoras’ e o seu recíproco.”

Proposição I-47

Nos triângulos retângulos, o quadrado sobre o lado que se estende sob o ângulo reto é igual aos quadrados sobre os lados que contêm o ângulo reto. [mal-redigido pra porra, como veremos mais abaixo!]

Demonstração: Seja o triângulo retângulo ABC, com ângulo reto BAC. Queremos mostrar que a área do quadrado construído sobre o lado BC é igual à soma das áreas dos quadrados construídos sobre os lados AB e AC, que formam o ângulo reto BAC. Vamos ilustrar a demonstração com figuras que não foram usadas por Euclides, [não fosse isso e dificilmente entenderíamos] mas manteremos o espírito de sua prova. Descrevemos sobre cada lado um quadrado e vamos mostrar que a área do quadrado construído sobre o lado BC pode ser obtida pela soma de 2 retângulos, um deles com área igual à do quadrado construído sobre AB (em cor branca na Ilustração 10) e o outro com área igual à do quadrado construído sobre AC (de cor cinza).

Queremos mostrar que a área do quadrado ABFG é igual à do retângulo BDLK. Os próximos passos para concluir essa demonstração são os seguintes:

1. Mostrar que a área do triângulo ABF, que é metade do quadrado ABFG, é igual à área do triângulo DBK, que é metade da do retângulo BDLK.

2. Para isso, mostraremos que a área de ABF é igual à de CBF e que a área de DBK é igual à de ABD.

3. Como já mostramos que a área de ABD e de CBF são iguais, concluiremos que a área de ABF é igual à área de DBK, assim, a área do quadrado ABFG será igual à do retângulo BDLK.

Como os ângulos BAC e BAG são retos, os segmentos CA e AG estão sobre uma mesma reta. Como essa reta é paralela a BF, temos que CBF e ABF são triângulos de mesma base com o 3º vértice em uma paralela a essa base. Logo, pela proposição I-38, eles possuem a mesma área. De modo análogo, como AL foi construída paralelamente a BD, temos que ABD e DBK são triângulos de mesma base com 3º vértice em uma paralela à base, sendo assim, possuem a mesma área. Esse parágrafo, juntamente com o anterior, conclui a etapa 2.”

Encontrar a ‘quadratura’ significava, no contexto grego, achar a área de uma figura dada. Usando essa proposição, como seria possível, portanto, comparar as áreas de dois retângulos sem calculá-las? Basta construir os quadrados com áreas iguais às dos retângulos e comparar os lados. E como podemos somar as áreas de dois retângulos? Basta construir os quadrados com áreas iguais às dos retângulos e somar as áreas desses quadrados por meio do teorema ‘de Pitágoras’.”

Em grego, a palavra ‘hipérbole’ refere-se ao fato de que a base do paralelogramo resultante excede o segmento dado, ou seja, a figura construída possui como excesso a figura semelhante ao paralelogramo dado. ‘Hiperbólico’ remete a excessivo. Quando, inversamente, fica faltando uma figura para completar o segmento dado, tem-se uma situação associada a ‘elipse’. O paralelogramo pedido é construído de modo que fique faltando uma figura semelhante à figura dada, e a palavra ‘elíptico’ quer dizer que algo está faltando.” “Nesse caso, em que não há nenhuma figura excedendo a construção pedida, o paralelogramo é construído exatamente sobre o segmento. A origem da palavra ‘parábola’, em grego, remete ao fato de a figura ser construída de modo exato. As cônicas que conhecemos como parábola, hipérbole e elipse ganharam tais nomes no trabalho de Apolônio, justamente porque são usados métodos de aplicação de áreas em suas construções.”

Vimos que enunciados dos Elementos de Euclides possuem um estilo geométrico. Seus problemas e teoremas têm um caráter essencialmente geométrico e devem ser demonstrados para as figuras empregadas consideradas do modo mais geral possível, ou seja, sem associar suas dimensões a medidas precisas. Apesar dessa evidência, entre o final do século XIX e meados do XX, matemáticos e historiadores, como H. Zeuthen e B.L. van der Waerden, postularam que as proposições do livro II dos Elementos seriam, na verdade, propriedades algébricas enunciadas sob uma roupagem geométrica. Por essa razão, os resultados desse livro são freqüentemente denominados ‘álgebra geométrica’. Esses pesquisadores se baseavam na hipótese de que as proposições do livro II são formulações geométricas de regras algébricas, como as que permitem resolver uma equação do 2º grau.”

Em 1975, o romeno Sabetai Unguru escreveu um artigo atacando os defensores da tese da ‘álgebra geométrica’ e ressaltando que ler os textos gregos com a matemática moderna em mente pode nos fazer esquecer que aqueles se baseavam em pressupostos próprios. A partir daí, instaurou-se uma querela acirrada em torno da álgebra geométrica e da natureza da matemática euclidiana. Matemáticos historiadores, como André Weil e Hans Freudenthal, uniram-se contra os argumentos de Unguru, que passou a ser marginalizado pelas revistas mais importantes da época. A discussão9 teve consequências metodológicas importantes, ainda que não imediatamente, pois os historiadores se conscientizaram de que pode o ser conveniente traduzir os textos geométricos gregos em linguagem algébrica, como Heath havia feito com os Elementos de Euclides e Neugebauer com as Cônicas de Apolônio. Por essa razão, S. Unguru é reconhecido atualmente como um dos pioneiros nas transformações pelas quais a historiografia da matemática vem passando.

O ponto de vista algébrico mascara, por exemplo, uma singularidade essencial do tipo de argumentação usado na geometria grega: seu caráter sintético. Ou seja, a exposição analítica e algébrica que usamos hoje permite enunciar situações gerais, tratando os exemplos como casos particulares; no entanto, a geometria euclidiana não lidava com a generalidade de seus enunciados do mesmo modo. E, sobretudo, partia de premissas dadas e ia deduzindo os resultados passo a passo, a partir de conseqüências dedutíveis desses primeiros princípios.”

Afora isso, as transformações de áreas operadas nos Elementos podem ser associadas às operações de adição, multiplicação e extração de raiz quadrada, mas nada indica que tais operações pudessem ser abstraídas das formas geométricas propriamente ditas.”

Nos Elementos, o tratamento dos números (arithmos) é separado do tratamento das grandezas (mégéthos). Tanto as grandezas quanto os números são simbolizados por segmentos de reta. No entanto, os números são agrupamentos de unidades que não são divisíveis; já as grandezas geométricas são divisíveis em partes da mesma natureza (uma linha é dividida em linhas; uma superfície, em superfícies, etc.). A medida está presente nos 2 casos, mas mesmo quando uma proposição sobre medida possui enunciados semelhantes para números e grandezas, ela é demonstrada de modos distintos. As primeiras definições do livro VII apresentam a noção de número e o papel da medida.”

Definição VII-3

Um número é uma parte de um número, o menor, do maior, quando meça exatamente o maior.

Essa última definição postula que um número menor é uma parte de outro número maior quando pode medi-lo, ou seja, os números são considerados segmentos de reta com medida inteira. Por exemplo, um segmento de tamanho 2 não seria parte de um segmento de tamanho 3, mas sim de um segmento de tamanho 6. Os números servem para contar, mas antes de contar é preciso saber qual a unidade de contagem.”

A ‘unidade’, na definição de Euclides, é o que possibilita a medida, mas não é um número. Sendo assim, é inconcebível que a unidade possa ser subdividida.”

É (…) com razão que o Uno não é considerado um número, pois a unidade de medida não é uma pluralidade de medidas.” Ar., Metafísica

DEFINIÇÃO DO MÁXIMO DIVISOR COMUM

Proposição VII-1

Sendo expostos dois números desiguais, e sendo sempre subtraído de novo o menor do maior, caso o que restou nunca meça exatamente o antes dele mesmo, até que reste uma unidade, os números do princípio serão primos entre si.

Proposição VII-2

Sendo dados dois números não primos entre si, achar a maior medida comum deles.”

A proposição VII-1 fornece um critério para decidir quando dois números A e B são primos entre si. Supondo B < A, retira-se B de A obtendo-se um resto, R1. Se R1 não for igual a B, retira-se R1 de B, obtendo-se outro resto, R2. O procedimento continua enquanto nenhum dos restos sucessivos R1, R2,… for igual ao anterior e nem igual a 1. Quando um resto coincidir com o anterior, a próxima subtração resultará em 0 e os números A e B terão uma medida comum. Então a proposição VII-2 se aplica. Caso contrário, o resto será igual a 1 em alguma iteração e poderemos dizer que A e B são primos entre si. Na verdade, ao enunciar essa proposição 2 do livro VII, Euclides emprega uma linguagem de grandezas. Os dois números dados são os segmentos A e B dos quais queremos encontrar a maior medida comum.”

Exemplo:

Como encontrar por este método o mdc de 119 e 85.

Solução:

Começo por retirar 85 uma vez de 119, obtendo R1 = 34 como resto. Em seguida, retiro 34 duas vezes de 85, obtendo o segundo resto, R2 = 17. Agora retiro 17 duas vezes de 34, obtendo 0. Logo, 17 é o maior divisor de 119 e 85. Note que, se fossem primos, esse procedimento chegaria ao resto 1, e não a 0.”

Um número é primo quando não é medido por nenhum número, somente por 1, que não é considerado número.”

Há, portanto, uma analogia entre grandezas incomensuráveis e números primos entre si. Só que a antifairese para números termina dando 1, ao passo que o mesmo procedimento aplicado a grandezas não termina no caso incomensurável, conforme visto no Capítulo 2 ao mostrarmos a incomensurabilidade entre o lado e a diagonal do quadrado.”

A FRAÇÃO AINDA NÃO NASCEU: “A terminologia mais empregada é a de que duas coisas ‘estão uma para a outra assim como’. Temos um exemplo disso na proposição 1 do livro VI: ‘Triângulos, e paralelogramos, com a mesma altura estão um para o outro assim como suas bases’.”

Uma das motivações de Eudoxo pode ter sido aprimorar os procedimentos infinitos usados por Hipócrates em sua medida do círculo. O uso de processos que tendem ao infinito será efetuado por Arquimedes, usando seqüências de aproximações finitas da área do círculo por polígonos. A teoria das proporções de Eudoxo teria como objetivo enunciar teoremas gerais sobre proporções que valessem também para grandezas incomensuráveis, ou seja, que generalizassem os resultados obtidos por matemáticos mais antigos, como Hipócrates, Arquitas e Teeteto.”

Definição V-5

Magnitudes são ditas estar na mesma razão, uma primeira para uma segunda e uma terceira para uma quarta, quando os mesmos múltiplos da primeira e da terceira ou, ao mesmo tempo, excedam, ou, ao mesmo tempo, sejam iguais, ou, ao mesmo tempo, sejam inferiores aos mesmos múltiplos da segunda e da quarta, relativamente a qualquer tipo que seja de multiplicação, cada um de cada um, tendo sido tomados correspondentes.”

A definição 3 deixa claro que o conceito de razão é aplicado a grandezas homogêneas. Assim, importa observar a natureza da grandeza, não podendo haver razão entre um comprimento e uma área. Ainda que a razão diga respeito à quantidade, ela não será sempre calculável como um número.”

Em outras palavras, a/b para os gregos não era um número. Sendo assim, nosso método não pode ser usado. Ou seja, para comparar a/b a c/d não é possível usar o argumento de que a/b = c/d se e somente se ad = bc.”

Arquimedes é um dos matemáticos mais conhecidos do período pós-euclidiano. Seus livros possuem uma estrutura bastante distinta daquela que caracteriza os Elementos de Euclides e seus métodos não reproduzem o padrão euclidiano. Não se percebe em seus trabalhos uma preocupação nem em usar nem em defender um método de tipo axiomático, e a forma como expõe seus resultados não parece ter sofrido influência do estilo dos Elementos. Sem se restringir a nenhuma determinação a priori, Arquimedes usa métodos não-euclidianos, como a neusis, mesmo quando uma construção com régua e compasso é viável. Conforme sugere Knorr, ao invés de estender ou generalizar a estrutura axiomática da matemática, Arquimedes parecia estar mais preocupado em comunicar novas descobertas relativas à resolução de problemas geométricos.”

No início de sua obra intitulada Quadratura da parábola, em uma carta a Dositheus, Arquimedes afirma que pretende comunicar ‘um certo teorema geométrico que não foi investigado antes e que foi agora investigado por mim e que eu descobri, primeiramente, por meio da mecânica, e que foi exibido, em seguida, por meio da geometria’. Esse tipo de procedimento fica ainda mais claro no livro O método dos teoremas mecânicos, encontrado apenas em 1899 e escrito para Eratóstenes” “Uma análise desse trabalho pode ser encontrada em S. Costa, ‘O método de Arquimedes’.”

Em seus estudos sobre os trabalhos de Arquimedes, Knorr aventa a hipótese de que, no lugar de contribuir para o progresso da matemática, a ênfase no formalismo parecia distrair os geômetras do que realmente importava. A comunidade dos pensadores alexandrinos, que se formou no período pós-euclidiano, estava mais interessada em criticar detalhes das demonstrações do que em fornecer novos resultados, o que será abordado no Capítulo 4. Em diversas ocasiões, Arquimedes manifestou, de modo sutil, sua impaciência com esses formalistas que influenciaram a história da geometria grega.”

A partir dessa definição, temos que a espiral é uma curva gerada por um ponto que se move sobre um segmento de reta com velocidade constante ao mesmo tempo em que esse segmento de reta se move, também com velocidade constante, circularmente, com uma extremidade fixa e a outra sobre uma circunferência.

A principal propriedade da espiral, que é bastante útil para problemas de construção, reside em associar uma razão entre arcos (ou ângulos) a uma razão entre segmentos. A espiral estabelece uma proporcionalidade entre uma distância em linha reta e uma medida angular, o que permite reduzir o problema de seccionar um ângulo ao problema mais simples de seccionar um segmento de reta. A distância entre a origem e um ponto sobre a espiral é proporcional ao ângulo formado pela reta inicial e pela reta que compõe esse ângulo. Essa é exatamente a propriedade expressa, em linguagem atual, pela equação polar da espiral, que pode ser escrita na forma r = aθ, θ 0.”

Como mencionado, dividir um ângulo em 3 partes iguais era um dos problemas mais importantes da geometria grega. Sabemos dividir um ângulo em 2 partes iguais com régua e compasso, mas muitas foram as tentativas frustradas de encontrar um procedimento análogo para a trissecção do ângulo. Uma das motivações da espiral de Arquimedes é justamente apresentar uma solução para este problema”

No século XVII, esse tipo de procedimento ficou conhecido como método da exaustão. Essa nomenclatura, no entanto, não é a mais adequada, uma vez que o método se baseia justamente no fato de que o infinito não pode ser levado à exaustão, isto é, não admite ser exaurido – pois por mais que nos aproximemos, nunca chegamos até ele. Analisaremos, em seguida, o modo como Arquimedes ‘calculava’ a área de um círculo na primeira proposição de um de seus livros mais antigos: Medida do círculo. ‘Calcular’ está entre aspas porque essa proposição é uma maneira de determinar a área do círculo encontrando uma figura retilínea, um triângulo, no caso, cuja área seja igual à área do círculo. Esse foi um dos resultados mais populares de Arquimedes em sua época, e o procedimento é análogo ao empregado na proposição XII-2 dos Elementos de Euclides, atribuída a Eudoxo.”

O final do século III foi o período de maior popularidade dos 3 problemas clássicos (quadratura do círculo, duplicação do cubo e trissecção do ângulo). Esses problemas constituem o ponto comum dos trabalhos de diversos geômetras da época, como Eratóstenes, Nicomedes, Hípias, Diocles, Dionysodorus, Perseus e Zenodorus. Apesar de a maioria das fontes que continham esses trabalhos não ter sido preservada, há evidências de aplicações da geometria a problemas de astronomia, ótica, geografia e mecânica. Além disso, esses geômetras parecem ter sofrido influência direta de Arquimedes, o que pode ser constatado pelo uso de métodos mecânicos, como a espiral (e outras curvas geradas por movimentos mecânicos), e de diversos tipos de neusis. Contudo, nota-se também que eles se distanciaram um pouco do estilo de Arquimedes, uma vez que se dedicaram à procura de métodos alternativos em suas construções, indicando uma possível necessidade de ir além dos procedimentos disponíveis na época.”

Para aqueles que desejam se aprofundar nas Cônicas de Apolônio [considerado o mais literal sucessor de Euclides], Fried & Unguru fornecem, em Apollonius of Perga’s Conica: Text, Context, Subtext. Mnemosyne Supplement., uma nova tradução desse texto, livre dos anacronismos que o associavam à suposta álgebra geométrica dos gregos.”

Apolônio segue o estilo formal dos Elementos até nos detalhes do enunciado de certas proposições. Seus resultados parecem exprimir a tentativa de estender e tornar rigorosos os métodos antigos empregados no estudo de cônicas, desenvolvidos por Euclides (em sua obra sobre as cônicas) e Arquimedes. Uma das preocupações de Apolônio era apresentar soluções por meio de cônicas para os problemas clássicos, como a duplicação do cubo e a trissecção do ângulo, a fim de eliminar as soluções por neuses e por curvas especiais usadas por Arquimedes e outros.

A diversidade de métodos utilizados na resolução de problemas geométricos até o século III revela que, até esse estágio do desenvolvimento da matemática, o importante era resolver os problemas por qualquer técnica disponível. Esse Leitmotiv marcou a tradição grega de resolução de problemas geométricos.” “Os métodos de resolução de problemas utilizados por Euclides foram consolidados por Apolônio no período seguinte, ao passo que os procedimentos de Arquimedes só encontrariam seguidores bem mais tarde, por volta dos séculos XVI e XVII.”

Os escritos da época helenística, como os de Arquimedes, Fílon, Diocles e Apolônio, são precedidos por prefácios esclarecedores para a história da matemática. O texto propriamente dito tende a ser ordenado por meio de definições e axiomas, a partir dos quais os teoremas se encadeiam dedutivamente. Esse tipo de exposição não dá lugar a comentários heurísticos sobre como e para quê aqueles resultados foram obtidos.”

O início do século II a.C. foi marcado por um declínio na atenção dos matemáticos aos problemas geométricos avançados, o que não representou uma decadência do campo matemático e sim um deslocamento de interesse em direção a outras áreas, como a trigonometria e os métodos numéricos. Devido à influência desses métodos nos trabalhos desenvolvidos pelos árabes durante a Idade Média, eles serão abordados no Capítulo 4, quando trataremos desse período histórico.

W. Knorr tacha a escola de Alexandria, nos tempos de Arquimedes, de ‘academicista’. Mesmo a composição dos Elementos de Euclides, para ele, se relaciona aos ideais da época e, sobretudo, aos seus objetivos pedagógicos. Essa abordagem privilegiava uma exposição sintética, tornando inacessível o procedimento heurístico da descoberta e menosprezando toda consideração concreta ou prática. Knorr contrasta essa tendência com outras obras alexandrinas mais tardias, como as Métricas, de Heron, o Almagesto, de Ptolomeu, e a Aritmética, de Diofanto. Em Métricas, Heron fornece regras aritméticas para computar áreas de diferentes tipos de figuras planas. Ao contrário dessa orientação pedagógica, a exposição de Euclides não dá nenhuma pista sobre a aplicação de seus teoremas a problemas práticos. A abordagem teórica, de inspiração euclidiana, seria característica do ensino nas escolas filosóficas, pois o estudante deveria aprender matemática por meio da contemplação e não pela prática.”

A visão de que os teoremas são superiores aos problemas tem origem em uma tradição bem posterior, conhecida atualmente por meio dos Comentários de Proclus, que datam do nosso século V.”

NOS LIVROS DE HISTÓRIA DA MATEMÁTICA é comum encontrarmos, depois da explanação das mais importantes contribuições gregas, referências a autores isolados, como Heron, Ptolomeu ou Diofanto. Em seguida, faz-se uma breve descrição da prática matemática em ‘outras culturas’, como China e Índia, passando superficialmente pelos estudos dos árabes. Em livros mais antigos, a referência ao período chega a ser depreciativa, como em The Development of Mathematics (O desenvolvimento da matemática), de E.T. Bell, dos anos 1940. Ao capítulo sobre a geometria grega, dedicado à época na qual a matemática foi ‘firmemente estabelecida’, seguem-se dois curtos capítulos: ‘A Depressão européia’ e ‘Desvio pela Índia, Arábia e Espanha’. Em tempos recentes, não é comum cometer esses exageros, ainda assim as matemáticas chinesa, indiana e árabe são tratadas como exceções, em uma linha não diretamente relacionada à matemática teórica que nos foi legada pelos gregos.” Outras matemáticas me interessam…

Os árabes, por exemplo, são reconhecidos sobretudo como tradutores da matemática grega e transmissores dessa tradição na Europa, possibilitando que as obras gregas chegassem ao Ocidente e fossem vertidas para o latim no final da Idade Média. O período do Renascimento teria podido, assim, desfrutar a influência grega e dar os primeiros passos em direção ao desenvolvimento da matemática como a conhecemos hoje. A história desse período de transição entre a matemática grega, de tipo axiomático, e o desenvolvimento da álgebra na Europa, entre os séculos XIV e XVI, é uma peça-chave na construção da tese de que nossa matemática é a legítima herdeira dos padrões gregos. A superioridade do caráter dedutivo dos Elementos de Euclides é reforçada pelo discurso sobre a suposta natureza prática da matemática na Antiguidade tardia e na Idade Média.”

CAPÍTULO 4. Revisitando a separação entre teoria e prática: Antiguidade e Idade Média

entre as práticas transmitidas pelos árabes as mais valorizadas por esses historiadores são justamente aquelas que traduzem o ideal grego. As artes práticas e a mecânica têm um papel inferior.

À luz dos recentes questionamentos historiográficos, não podemos deixar de achar estranho o gigantesco salto, recorrente nos livros de história da matemática, registrado entre o século III a.C., quando viveu Euclides, e o século XV, quando a matemática voltou a se desenvolver na Europa. A ideia aqui é contribuir para a desconstrução de alguns mitos em torno do pensamento medieval, sobretudo aqueles que levaram à sua designação como <idade das trevas>.

Dentre os matemáticos árabes, o mais famoso é Al-Khwarizmi, do século IX, importante personagem no desenvolvimento da álgebra. Tal afirmação pode soar estranha, pois se o papel dos árabes foi essencialmente transmitir a matemática grega, conforme nos ensina a história tradicional, e se esta era marcada pela geometria, como eles podiam ter conhecimentos algébricos significativos?

Os escritos árabes foram, de fato, influenciados por suas traduções de obras gregas. No entanto, não devem ser reconhecidos somente por terem disseminado a matemática praticada na Grécia antiga. Dentre suas contribuições destacam-se pontos importantes que vão além do que hoje chamamos de álgebra, abrangendo também a geometria, a astronomia e a trigonometria. Ver J.L. Berggren, Episodes in the Mathematics of Medieval Islam. Contrapondo-se à tendência eurocentrista da visão tradicional, alguns historiadores mais recentes acabaram exagerando para o outro lado, ao defenderem que a matemática medieval do período islâmico já apresentava um desenvolvimento comparável ao da matemática moderna. Em suma, a questão é complexa e controvertida. Não sabemos sequer se é legítimo falar de ‘matemática árabe’, ou se é melhor designar as contribuições desse período como ‘islâmicas’, uma vez que nem todos os países dominados pelo Islã eram árabes. Sendo assim, para evitar confusão, quando empregarmos aqui o termo ‘matemática árabe’ estaremos nos referindo à matemática escrita em árabe.”

A necessidade de abordar a divisão entre teoria e prática e de analisar o papel dessa cisão no desenvolvimento da matemática exige que nos debrucemos mais sobre o contexto social e político da época. Sendo assim, considerações sobre história geral estarão mais presentes neste capítulo do que nos outros.”

O início da Idade Média tem sido tradicionalmente delimitado pela desintegração do império romano no Ocidente, no ano 476. A história desses eventos se mistura com a questão da fé religiosa, como se a racionalidade fosse uma conquista dos tempos posteriores ao Renascimento, conhecidos como a Idade da Razão. Mas que racionalidades existiram na Idade Média?

A concepção de que as artes práticas e a mecânica eram o ‘patinho feio’ da ciência grega contradiz as lendas que exaltam as invenções de um dos maiores matemáticos gregos, Arquimedes, relacionando-o a descobertas mecânicas. Ver Plutarco, The Life of Marcellus, p.471.”

Plutarco prossegue, citando as origens da mecânica, com Eudoxo e Arquitas, e mostrando que Platão investiu contra eles acusando-os de corruptores e destruidores da pura excelência da geometria, que deveria se ocupar somente de coisas abstratas. E finaliza, defendendo a importância da separação entre mecânica e geometria: ‘Por essa razão a mecânica foi tornada inteiramente distinta da geometria, e tendo sido durante um longo tempo ignorada pelos filósofos, acabou sendo vista como uma das artes militares.’” Novamente eu me pergunto: podemos confiar em Plutarco?

É freqüente encontrarmos referência a Arquimedes como um grande mecânico, mas essa imagem foi construída a posteriori, e não sabemos bem o que Arquimedes pensava da mecânica, nem se via as próprias obras como voltadas para a mecânica. O fato é que, a partir do século I, vários autores de mecânica, ligados às instituições alexandrinas, citam Arquimedes como um dos maiores mecânicos gregos. Isso mostra que não podemos traçar um panorama do pensamento do século I usando o testemunho de uma só fonte, por exemplo, Plutarco,¹ nem tampouco identificar suas correntes hegemônicas.

¹ Anedotas como a que relata que Arquimedes desvendou o mistério da coroa do rei Hieron são hoje tidas como lendas, construídas por meio de testemunhos duvidosos em escritos de terceiros.” O famoso ‘um amigo de um amigo me contou…’, mas mais gourmet!

No Dictionary of Scientific Biography (Dicionário de biografias científicas) organizado por C.C. Gillispie lemos que Heron era um homem educado e um matemático aplicado, engenhoso. No entanto, é reconhecido somente por suas preocupações pedagógicas e pela ligação que estabeleceu entre as práticas matemáticas dos babilônios e as desenvolvidas pelos árabes e pelos renascentistas europeus.

C. Boyer afirma que existiam 2 níveis de matemática na Antiguidade, uma de tipo clássico, eminentemente racional, conhecida como geometria, e outra mais prática, mais bem-descrita como geodésia, herdada dos babilônios e mencionada nos escritos de Heron. Esses níveis são apresentados como um testemunho da oposição entre teoria e prática, sendo a segunda menos valorizada que a primeira.”

Passaremos em seguida à história da álgebra, cuja origem é freqüentemente associada aos métodos propostos por Diofanto, por volta do século III a.C. Sua contribuição é vista, no entanto, como exceção no contexto decadente da matemática alexandrina, já sob o domínio romano.”

Preferiríamos, sem dúvida, falar de todas as práticas do período que podem ser chamadas de ‘matemáticas’. No entanto, para atingir nosso objetivo de relativizar a separação entre teoria e prática, escolhemos as manifestações que foram designadas como ‘algébricas’ pela história tradicional, uma vez que nos relatos desse tipo elas foram associadas a contextos ‘práticos’. Esses desenvolvimentos estão em íntima relação com a formulação do mito da matemática greco-européia. Em 1569, Petrus Ramus formulou claramente o mito em uma carta para Catarina de Médici, buscando persuadi-la a incentivar o trabalho dos matemáticos. Ele se refere à Europa como uma totalidade, acrescentando que a França seria a maior beneficiária do programa. Para muitos pensadores da época, somente os gregos e os europeus teriam dado contribuições valiosas à matemática, forjada como um saber eminentemente europeu. A obra matemática de Ramus não continha nada além do conhecimento dos árabes.

Contudo, a imagem da matemática expressa por ele foi reforçada, em seguida, por outras contribuições que produziram, de fato, novas abordagens e formalismos para erigir um conhecimento inspirado nos ideais gregos. Para se demarcar em relação a seus predecessores, François Viète, considerado um dos inventores da álgebra moderna, afirma ter fundado uma nova arte: a arte analítica.”

O passo decisivo para a constituição da álgebra como disciplina pode ser visto como a organização de técnicas em torno da classificação e da resolução de equações, o que teve lugar no século IX, com os trabalhos de Al-Khwarizmi e de outros matemáticos ligados a ele.”

Antes disso, é preciso citar os matemáticos indianos, em particular Bhaskara, para mostrar que ele não é o inventor da conhecida fórmula que ganhou seu nome no Brasil. Apesar de possuírem regras para resolver problemas que seriam hoje traduzidos por equações do 2º grau e usarem alguns símbolos para representar as quantidades desconhecidas e as operações, não se pode dizer que os indianos possuíssem uma fórmula de resolução de equações de 2º grau.”

Os métodos para resolver problemas de 3º grau tiveram um papel importante na história da álgebra, passando por Omar Khayam, pelos matemáticos italianos e chegando a François Viète. Nesse caso, a origem da álgebra também pode ser associada à introdução do simbolismo. Há exemplos bastante expressivos de seu uso no Magreb (região do norte da África que abrange Marrocos, Saara Ocidental, Argélia e Tunísia) a partir do século XII. Na parte do Magreb próxima da Andaluzia, na Espanha, as práticas científicas são conhecidas por sua importância na transmissão da cultura antiga. A partir do século XIII, os tratados gregos começaram a ser traduzidos na Europa ocidental. No que tange ao uso de símbolos em problemas algébricos, citaremos exemplos das escolas de ábaco, que se desenvolveram na Itália entre os séculos XIII e XIV. Foi somente no século XV, porém, que parece ter havido um emprego mais sistemático da notação algébrica. A partir do tratamento das equações empreendido pelo italiano Girolamo Cardano, veremos que é possível definir, em um novo sentido, o que entendemos por álgebra.”

Pretendemos mostrar que, se quiséssemos aplicar a alcunha de ‘o pai da álgebra’ a algum matemático do período, obteríamos múltiplas respostas: Diofanto, se usarmos a definição A para álgebra; Al-Khwarizmi, se usarmos a definição B; Cardano, se usarmos a C; e, finalmente, Viète, se usarmos a D. Ou seja, podemos concluir que alcunhas desse tipo são inúteis para a história da matemática.”

Alexandria foi uma das cidades mais importantes da Antiguidade. Fundada em 331 a.C. por Alexandre, o Grande, permaneceu como capital do Egito durante mil anos, até a conquista muçulmana. Temos notícia de que o Museu de Alexandria, construído pelo rei Ptolomeu I por volta do ano 290 a.C., incluía uma grande biblioteca que reunia todo o saber da época. Inicialmente, seus pensadores mais conhecidos teriam sido Euclides e Arquimedes. Como, em seguida, a civilização grega se disseminou por uma vasta área, que ia do mar Mediterrâneo oriental até a Ásia Central, passou a incluir Alexandria. O período que chamamos de ‘helenístico’ se caracterizou pelo ideal de Alexandre de difundir a cultura grega aos territórios conquistados e se estendeu, de sua morte, em 323 a.C., até a anexação da Grécia por Roma, em 146 a.C.

E se nunca houve o famoso incêndio da Biblioteca de Alexandria? E se nunca houve uma (tão suntuosa) Biblioteca de Alexandria? E se esse fosse um mito como o da Torre de Babel?

Alexandria se tornou o centro da cultura grega na época helenística e seus habitantes eram, em sua maioria, gregos de todas as procedências, mas havia também uma colônia judaica e um bairro egípcio na cidade. Em seguida, passou a fazer parte do império romano, que se desenvolveu a partir da Itália e chegou a dominar terras da atual Inglaterra, França, Portugal, Espanha, Itália, partes da Alemanha, Bélgica, península Balcânica, Grécia, Turquia, Armênia, Mesopotâmia, Palestina, Egito, Síria, Etiópia e todo o norte da África. Muitas datas são comumente propostas para marcar o início do império romano, entre elas a da indicação de Júlio César como ditador perpétuo, em 44 a.C.”

Hipátia, filha de Teon, astrônoma, matemática e filósofa do século IV, que se supõe ter sido assassinada durante um motim de cristãos no início do século V e cuja morte simboliza o fim da época de ouro da ciência alexandrina.” “Teon de Alexandria é, na verdade, o único dos matemáticos citados sobre o qual se pode assegurar que foi membro do Museu de Alexandria. O que se pode afirmar com certeza é que existe uma relação entre a conservação das obras científicas redigidas entre o século III a.C. e o século III d.C. e a conexão de seu autor à cidade de Alexandria. Ou seja, a influência da Biblioteca ou do Museu de Alexandria se exerceu sobre a conservação e a transmissão do conhecimento matemático, bem como sobre a seleção e a reprodução dos textos considerados relevantes.”

Na astronomia, como nos indica o Almagesto, o sistema sexagesimal posicional passou a ser empregado para denotar a parte fracionária dos números. Além dessas evidências, existe, na matemática grega, uma série de questões que, por sua forma, lembram o modo como os cálculos babilônicos e egípcios eram enunciados. Como nos textos escolares mais antigos, o leitor é interpelado a realizar os passos ‘faça isso, coloque aquilo’. Tais prescrições, que aparecem nos escritos de Heron, invocam o que Vitrac (‘Dossier: les géomètres de la Grèce antique’) designa como ‘uma pedagogia pelo exemplo’. Apesar de evidências desse tipo, a ausência de fontes documentais não nos permite atestar com segurança a influência oriental sobre a matemática grega.”

Um traço particular da escola de Alexandria é o enciclopedismo.¹ Os pensadores do período produziram numerosas enciclopédias, coleções, sínteses e todo tipo de iniciativas visando à organização do saber. Esses documentos não são especificamente matemáticos, estando ligados à orientação geral do governo da época, que incentivava a fundação de instituições para guardar e difundir o saber. O pensamento dos antigos merecia lugar de destaque, e devido à multiplicidade e ao acúmulo desse conhecimento era necessário organizar, selecionar, ou mesmo corrigir e completar, os autores estudados. O intelectual se configurava, assim, como um historiador do saber, pois precisava se situar em relação aos antigos, tratados com respeito e admiração.”

¹ Podemos, por conseguinte, chamar o movimento francês do XVII como neo-enciclopedismo, em contraposição.

Antes da constituição da Coleção matemática, obra papiana célebre, seu livro VIII já havia circulado de forma autônoma com o título de Introduções mecânicas. Assim ele foi traduzido em árabe mais tarde, diferentemente dos outros livros da coleção.”

nesse momento da Antiguidade tardia a matemática foi absorvida pelas escolas filosóficas, sobretudo as de inspiração neoplatônica. Essa tradição, na qual Proclus se encaixa, usava conceitos filosóficos para descrever, interpretar e criticar os trabalhos dos geômetras antigos. Os objetivos e métodos heurísticos dos antigos matemáticos podem ter sido então obscurecidos pela tendência formalista dos comentadores.”

A história da matemática antiga escrita por Van der Waerden, muito influente nos anos 60-70, apresenta as Métricas, de Heron, como uma coleção de exemplos numéricos e sem provas, idêntica a um texto babilônico. Esse historiador chega a afirmar que, ao contrário das obras dos grandes matemáticos, o livro de Heron pode ser desconsiderado, uma vez que consiste somente de um texto aritmético de popularização. No entanto, todos os problemas das Métricas possuem uma demonstração. É verdade que muitas obras de Heron só foram descobertas no final do século XIX e início do XX, como é o caso, além desta, de seu comentário sobre os Elementos de Euclides. Esses textos, porém, não são compatíveis com a idéia de que Heron fosse um simples artesão.” Heron é o responsável por fazer a síntese epistemológica entre a geometria antiga e a ‘geodésia’ acima descrita.

Para escaparmos da dicotomia entre teoria e prática, é preciso entender o que os antigos chamavam de ‘mecânica’, nomenclatura que pode designar 2 tipos de atividade. A primeira concerne à descrição, à construção e ao uso de máquinas, tendo um importante componente militar, particularmente impulsionado na época dos reis alexandrinos, quando a engenharia conheceu grandes progressos. Há, contudo, um outro tipo, que se interessa pelas causas que permitem explicar o funcionamento e a eventual eficácia das máquinas. Além dessas vertentes, nota-se também uma tentativa de redução da mecânica a princípios matemáticos oriundos da geometria. Por exemplo, métodos para resolver o problema da duplicação do cubo, e outros correlatos, eram vistos como mecânicos.” “Ambos [Heron e Pappus] defendiam a importância tanto filosófica quanto política da mecânica, em comentários que parecem se contrapor a outras opiniões desfavoráveis a ela.”

Temos notícia, normalmente, de que no período romano o ensino da matemática era subordinado ao da filosofia ou das artes aplicadas, como a arquitetura, e consistia de ensinamentos simples, incluindo, no máximo, alguns resultados dos Elementos de Euclides ou do Almagesto de Ptolomeu. Entretanto, se era assim, como explicar que a Coleção matemática de Pappus, que claramente é direcionada para o grande público, contenha resultados de matemática tão avançada? No Capítulo 3, vimos como Pappus usava a intercalação na trissecção do ângulo, e esse é um pequeno exemplo, pois a Coleção matemática investiga diversos resultados sobre as cônicas de Apolônio, chegando a avançar teoremas originais.”

A VELHA FÁBULA DE MARX É AINDA MAIS VELHA: “As abelhas sabem intuitivamente o que lhes é útil, como o fato de que a área dos hexágonos, usados na fabricação das colméias, é maior do que a área dos quadrados dos triângulos. Contudo, só os matemáticos podem atingir conhecimentos mais elaborados.”

MECÂNICA ANTIGA, I.E., NADA MAIS DO QUE TRIGONOMETRIA TRIDIMENSIONAL IPSIS LITERIS: “A complementaridade entre geometria e mecânica pode ser exemplificada pelo uso de problemas equivalentes ao da duplicação do cubo na arquitetura, que enxergava sua utilidade prática ao permitir modificar um sólido de acordo com uma razão dada. Normalmente, o problema da duplicação do cubo devia ser resolvido por meio das seções cônicas, contudo, como é difícil desenhar cônicas no plano, outras soluções podiam ser obtidas com procedimentos mecânicos. Quando não era possível resolver problemas por meios geométricos, era lícito recorrer a instrumentos mecânicos.”

Em geral, considera-se que a primeira ocorrência da notação simbólica que caracteriza nossa álgebra remonta ao livro Aritmética, escrito em grego por Diofanto. Acredita-se que esse autor tenha vivido no século III, ainda que tal data seja contestada. Além disso, embora se tenha notícia de que Diofanto viveu em Alexandria, não se pode assegurar que fosse grego, apesar de seu texto ser escrito nessa língua. O fato de sua obra parecer distinta da tradição grega levou até alguns historiadores, como Hankel, a conjecturar que ele fosse árabe. Não investigaremos os detalhes sobre sua origem. Interessa-nos aqui abordar a seguinte questão: pode-se concluir que o livro de Diofanto é o primeiro tratado de álgebra propriamente dito? Já houve muita discussão a esse respeito entre os historiadores, e forneceremos alguns argumentos contra e a favor dessa tese.

A contribuição mais conhecida de Diofanto é ter introduzido uma forma de representar o valor desconhecido em um problema, designando-o como arithmos, de onde vem o nome aritmética. O livro Aritmética contém uma coleção de problemas que integrava a tradição matemática da época. Já no livro I, ele introduz símbolos, aos quais chama ‘designações abreviadas’, para representar os diversos tipos de quantidade que aparecem nos problemas. O método de abreviação representava a palavra usada para designar essas quantidades por sua primeira ou última letra de acordo com o alfabeto grego:

ς (última letra da palavra arithmos, a quantidade desconhecida) (primeira potência)

ΔY (primeira letra de dynamis, o quadrado da quantidade desconhecida) (segunda potência)

KY (primeira letra de kybos, o cubo) (terceira potência)

ΔYΔ (o quadrado-quadrado) (quarta potência)

ΔKY (o quadrado-cubo) (quinta potência)

KYK (o cubo-cubo) (sexta potência)”

Método de Diofanto para nossa equação seguinte:

x + y = 20

xy = 96

Em que pese podermos fazer esse cálculo de cabeça espontaneamente (x = 12 e y = 8), em Diofant0, seguia-se o seguinte raciocínio:

Se x = y,

x = y = 10

xy = 100 (a segunda potência ou quadrado do número).

Logo,

100 – 96 = 4, que é a diferença para o produto realmente desejado.

Sendo 96 um produto, significa que este 4 é na verdade 2², ou seja, xy, se x = y, seria 4, e cada número desconhecido seria o 2.

Como inicialmente estipulou-se arbitrariamente que x = y = 10, soma-se e subtrai-se 2 deste número.

Portanto x = 12, y = 8.

Com os símbolos acima:

10 − ς + 10 + ς = 20

(10 − ς) (10 + ς) = 96

10² − ΔY = 10² − ς2 = 96

ς = 2

Podemos perceber que o método não recorre a nenhuma construção geométrica para resolver o problema. Além disso, em sua resolução, opera-se com quantidades desconhecidas do mesmo modo como se lida com quantidades conhecidas. Para Diofanto, o arithmos é uma quantidade indeterminada de unidades diferente dos números, que são formados de uma certa quantidade, determinada, de unidades. No entanto, ambos são sujeitos ao mesmo tipo de tratamento. Por exemplo, assim como operamos com números, obtendo 1/3 ou ¼, podemos obter as partes dos arithmoi. A natureza das quantidades desconhecidas e as operações que podemos realizar com elas se baseiam nas propriedades dos números. Ou seja, na resolução de um problema as quantidades conhecidas e desconhecidas têm o mesmo estatuto. Somente por essa razão será possível introduzir um símbolo para uma quantidade desconhecida.

Na visão de alguns historiadores, o fato de se assumir uma representação para quantidades desconhecidas constitui um passo importante em direção à abstração. Logo, chegou-se a considerar Diofanto o ‘pai da álgebra’, uma vez que tal representação seria a principal característica de um pensamento algébrico. De modo mais cuidadoso, essa particularidade levou G.H.F. Nesselman (Die Algebra der Griechen) a designar o procedimento de Diofanto como uma ‘álgebra sincopada’ que faria a transição entre a álgebra retórica e a álgebra simbólica moderna. Mesmo Viète, segundo Nesselman, ainda praticava uma álgebra sincopada.”

Heeffer, ‘On the nature and origin of algebraic symbolism’: esse autor mostra ser possível identificar, na história da álgebra, raciocínios simbólicos que não empregam símbolos. Ou seja, para fazer uma história sobre a emergência do simbolismo em matemática não basta procurar as fontes dos símbolos que usamos hoje, como fez Cajori em A History of Mathematical Notations.”

Como vimos, no texto de Diofanto as quantidades desconhecidas são abreviadas, e não simbolizadas, o que já havia sido observado por J. Klein (Greek Mathematical Thought and the Origins of Algebra).”

J. Christianidis (‘The way of Diophantus: Some clarifications on Diophantus’ method of solution’) também se distancia da interpretação algebrizante sobre Diofanto ao mostrar que uma parte essencial de seu método consiste na tradução dos termos numéricos, que constam no enunciado do problema, em designações abreviadas, que podem ser vistas como termos técnicos pertencentes a uma teoria aritmética. Presume-se que essa teoria já existisse antes de Diofanto e possuísse uma linguagem própria, distinta da que é adotada no enunciado do problema.”

Fica claro que a técnica continuaria a funcionar, caso esses números fossem substituídos por outros, mas isso não chega a ser feito. Diofanto fornece uma enorme variedade de soluções que funcionam para exemplos particulares, enumerados à exaustão. Porém, não existem métodos de solução como os nossos, descritos, de modo geral, com o auxílio de símbolos para representar os coeficientes e podendo ser aplicados aos exemplos.”

A maior parte da matemática que conhecemos como ‘indiana’ foi escrita em sânscrito e se originou na região do sul da Ásia (que compreende também o Paquistão, o Nepal, Bangladesh e Sri Lanka). Os registros mais antigos de que temos notícia datam da primeira metade do primeiro milênio antes de Cristo, mas se tornaram mais freqüentes depois da conquista de Alexandre, o Grande, no século IV a.C. Não conhecemos bem as interações da matemática indiana com as tradições antigas, entretanto, alguns de seus problemas parecem ter sido inspirados pelo contato com a astronomia babilônica e grega.

É sabido que o sistema de numeração decimal posicional que usamos hoje é de origem indiana, tendo sido transmitido para o Ocidente pelos povos islâmicos na Idade Média. E os documentos indianos mostram que esse sistema estava bem-estabelecido nos primeiros séculos de nossa era. Antes disso, usavam-se diferentes sistemas de numeração, aditivos e multiplicativos, embora não posicionais. Alguns textos astronômicos e astrológicos do século III já empregavam um sistema posicional decimal, incluindo um símbolo para o zero. No entanto, as evidências sobre a astronomia escrita em sânscrito só se tornaram mais significativas a partir de meados do primeiro milênio. Elas mostram que havia, nesse período, uma intensa atividade matemática expressa sobretudo pela elaboração de tratados astronômicos que também foram influenciados por obras gregas, devido ao contato com o império romano. Os autores integravam elementos de sua tradição matemática – como conceitos sobre a astronomia e o calendário, bem como o sistema posicional decimal – a outros componentes, adaptados das obras gregas – como a trigonometria plana, os modelos cosmológicos geocêntricos (como os de Ptolomeu) e a astrologia.

Dos tratados desse tipo o mais antigo que conhecemos foi escrito por Aryabhata, que nasceu no ano 476. Pouco se sabe sobre sua vida, mas essa obra permanece uma das fontes mais importantes sobre a matemática e a astronomia indianas. Ela foi toda escrita em versos, o que se tornou uma tradição indiana, e apresenta conhecimentos matemáticos variados, principalmente em relação às regras de cálculo. Há procedimentos aritméticos e geométricos, como os usados para encontrar raízes quadradas e cúbicas, assim como o cômputo de áreas, além de incluir regras trigonométricas úteis para a astronomia. O aspecto mais inovador é a sistematização das técnicas de cálculo, que constituem uma prática chamada ‘ganita’, concebida como o estudo dos métodos de cálculo em geral e voltados não somente para a astronomia.

Como a exposição em versos era de difícil compreensão, as obras indianas eram complementadas por comentários redigidos por outros matemáticos tendo em vista elucidar o seu significado. O comentário mais antigo sobre o livro de Aryabhata foi escrito por um autor de nome Bhaskara em 629. Mas esse personagem é completamente desconhecido e chamado, freqüentemente, de Bhaskara I, para distingui-lo do outro Bhaskara mais famoso, que viveu no século XII. O comentário de Bhaskara I indica que a matemática documentada em sânscrito era bastante rica, pois ele se refere a uma tradição que parecia estar bem-estabelecida. Essa tradição diz respeito a uma prática distinta da que concebemos hoje como matemática, pois seu principal objetivo era garantir que os leitores compreendessem e interpretassem corretamente as regras contidas nos versos, que pareciam propositadamente criptográficos. Sua decodificação incluía, ainda, uma análise gramatical, considerada parte da prática matemática.

Um tratado astronômico contemporâneo do comentário de Bhaskara I foi escrito pelo astrônomo Brahmagupta, em 628. Um dos capítulos matemáticos de seu tratado é dedicado completamente à ganita, contendo o estudo de operações aritméticas, razões e proporções, juros, bem como fórmulas para achar comprimentos, áreas e volumes de figuras geométricas. Contudo, havia também um capítulo dedicado a um outro tipo de matemática que compreendia análises envolvendo o zero, os negativos e positivos, as quantidades desconhecidas, e ainda os métodos de eliminação do termo médio e de redução a uma variável. Tratava-se de técnicas para lidar com problemas envolvendo quantidades desconhecidas.”

Os procedimentos utilizados por Brahmagupta foram citados, mais tarde, por Bhaskara II, autor dos livros mais populares de aritmética e álgebra no século XII, que, presume-se, foram livros-textos voltados para o ensino. As evidências abundantes sobre os trabalhos desse astrônomo, que nasceu em 1114, indicam que eram bastante influentes na época. Seus livros mais conhecidos, o Lilavati e o Bija Ganita (Semente do Cálculo), mostram como a prática da ganita, já presente nos escritos de Aryabhata e Brahmagupta, amadureceu ao longo dos séculos.”

(II) Seja uma igualdade contendo a quantidade desconhecida, seu quadrado, etc. Se temos os quadrados da quantidade desconhecida etc., em um dos membros multiplicamos os dois membros por um fator conveniente e somamos o que é necessário para que o membro das quantidades desconhecidas tenha uma raiz; igualando, em seguida, essa raiz à do membro das quantidades conhecidas, obtemos o valor da quantidade desconhecida.

Observamos que se concebia, de modo retórico, uma igualdade entre dois membros, sem utilização do sinal de igual: a igualdade entre um membro contendo a quantidade desconhecida (e o seu quadrado) e outro membro contendo as quantidades conhecidas. O primeiro membro deve ser escrito de modo a possuir uma raiz, ou seja, deve ser reescrito como um quadrado”

De um enxame de abelhas, tome a metade, depois a raiz. Esse grupo extrai o pólen de um campo de jasmins. Oito nonos do todo flutuam pelo céu. Uma abelha solitária escuta seu macho zumbir sobre uma flor de lótus. Atraído pela fragrância, ele tinha se deixado aprisionar na noite anterior. Quantas abelhas havia no enxame?” O modo indiano de dizer x + 16x²/9 + 2 = 2x²! “o número de abelhas, 2x² = 72.”

Na matemática indiana eram muito comuns as equações com mais de uma incógnita, equações indeterminadas que escreveríamos, hoje, assim: xy = ax + by + c ou y2 = ax² + 1. Esses casos eram resolvidos por procedimentos semelhantes ao método descrito acima, podendo se empregar símbolos para representar as incógnitas. O método de Bhaskara funciona perfeitamente para resolver o que chamamos, hoje, de ‘equações de 2º grau’, mas ainda assim não podemos atribuir-lhe a invenção da fórmula usada atualmente. Por quê? Mesmo que pudessem ser empregados símbolos para representar as incógnitas e algumas operações, não havia símbolos para expressar coeficientes genéricos a, b e c,… de uma equação (…) o que será proposto por Viète somente no século XVI.

A predominância dos textos de Bhaskara II faz com que pensemos que a matemática indiana decaiu depois do século XII, mas há evidências de que ela continuou a se desenvolver, embora de forma isolada em relação à Europa. Transmissões diretas da matemática indiana para o Ocidente foram freqüentes durante a expansão islâmica, que controlou parte da Índia a partir do século VIII. Os tratados astronômicos da escola de Brahmagupta chegaram a Bagdá nessa época e foram rapidamente traduzidos. Outras traduções do sânscrito inspiraram trabalhos árabes em astronomia e astrologia, alguns imitando a escrita em versos. A maioria desses textos se perdeu. Contudo, ainda assim podemos afirmar que a astronomia emergente na matemática árabe adotou diversos métodos indianos, embora de modo não-uniforme, como a representação decimal posicional e as técnicas de cálculo. No entanto, a influência indiana do período inicial logo foi ultrapassada pela invasão de textos matemáticos e astronômicos gregos, traduzidos em seguida. A astronomia indiana foi, então, submetida às práticas greco-islâmicas, tendo permanecido somente uma aritmética decimal posicional, designada de ‘computação indiana’.”

alguns problemas recreativos, propondo desafios, parecem ter atravessado os séculos. Seria o caso, por exemplo, do jogo do tabuleiro de xadrez, que consiste em perguntar quantos grãos de arroz obteremos se colocarmos um grão na primeira casa do tabuleiro e duplicarmos sucessivamente o número de grãos até chegar à última casa.”

Houve uma primeira fase bastante tolerante do Islã, em que se permitia a convivência dos muçulmanos com os judeus e os cristãos. Do ponto de vista do pensamento, essa tolerância também era sentida, pois, ao lado das ciências sagradas, constituídas pela teologia e pela jurisprudência, estavam as chamadas ciências estrangeiras, recebidas dos gregos. Estas eram constituídas por ramos do conhecimento tidos como auxiliares que podiam servir à ciência tradicional, incluindo a matemática e a astronomia.” Bom, sem Química não ‘se fazem’ homens-bomba…

Alguns problemas práticos exigiam o desenvolvimento da matemática, caso das heranças. Toda a família tinha direito a uma parte da herança, mas não de modo igualitário. Eram usados métodos aritméticos sofisticados que passavam por cálculos com frações, e ainda o método da falsa-posição, para encontrar uma quantidade desconhecida. Teriam surgido daí os primeiros problemas, enunciados de modo retórico, que são equivalentes ao que designamos hoje por meio de uma equação do 2º grau.”

O MITO UBÍQUO DA “GRANDE BIBLIOTECA”: “Um outro fator de desenvolvimento da matemática árabe, mais conhecido, são as traduções das obras gregas, que começaram a ser feitas por volta do século VIII. Essas iniciativas são atribuídas a indivíduos ou grupos de estudiosos que se interessavam voluntariamente pelos escritos encontrados nos territórios conquistados. As instituições de ensino eram as madraças, dedicadas à difusão do conhecimento, mas não à sua produção. Tais escolas eram mantidas por fundações piedosas e deviam ensinar os textos canônicos, mantendo a tradição do saber sagrado. No entanto, nesse primeiro momento, várias delas apoiavam também as ciências estrangeiras. No período racionalista, entre os séculos IX e XI, houve ainda uma instituição oficial importante, fundada pelo califa em Bagdá e conhecida como Casa do Saber. Aí existia uma biblioteca na qual se colecionavam e traduziam manuscritos gregos. Além desta, havia algumas outras bibliotecas e observatórios em que também era possível estudar as ciências estrangeiras.”

Ahmed Djebbar (Une histoire de la science arabe) mostra que o fenômeno de tradução não foi instantâneo, nem seguiu uma ordem racional. Não havia nenhuma política central relativa ao saber e ninguém decidiu impetrar um programa de tradução das obras científicas antigas e confiá-las a uma equipe de tradutores. As traduções seguiram uma dinâmica complexa e descoordenada. Os primeiros tradutores encontravam obras antigas e propunham um texto em árabe contendo vários erros, pois não existiam correspondentes em árabe para os termos científicos que constavam dessas obras. Muitos eram os casos, portanto, de retraduções ou mesmo de reconstruções dos textos antigos, o que pode ter propiciado a emergência das primeiras contribuições originais dos pensadores árabes.”

ARISTÓTELES SEMPRE DESTRUINDO O LEGADO PLATÔNICO, EM VÁRIAS ERAS E POVOS: “Em um primeiro momento, as obras de medicina e filosofia despertaram um grande interesse, mas os árabes traduziam praticamente tudo o que encontravam, sem critério de seleção rígido. Aos poucos, os trabalhos de Aristóteles se destacaram e sua obra dominou as discussões filosóficas entre os séculos IX e XIII. Essa influência, no entanto, não foi necessariamente positiva para a matemática árabe, pois impunha limites, por exemplo: o ‘um’ não devia ser considerado número; o movimento devia ser banido das demonstrações geométricas; devia ser respeitada a homogeneidade das grandezas. Ou seja, a influência filosófica impunha um padrão geométrico à álgebra, ainda que essa restrição não fosse significativa.”

Entre os séculos VIII e XII, a cidade de Bagdá era um dos maiores centros científicos do mundo, e seus matemáticos tinham conhecimento tanto das obras gregas quanto das orientais. A partir do século IX, essa cultura evoluiu para uma produção matemática original que tinha na álgebra um de seus pontos fortes. A grande influência das obras clássicas não impediu o surgimento de uma matemática nova, e o matemático mais ilustre desse século foi Al-Khwarizmi. No século XI houve uma dogmatização do Islã e os racionalistas foram vencidos. (…) A reconquista de Toledo, Córdoba e Sevilha, no século XII, fez com que os núcleos científicos dessas cidades andaluzas migrassem para um espaço muçulmano mais acolhedor para a sua cultura. Tal mudança impulsionou o desenvolvimento da matemática e da astronomia no Magreb entre os séculos XII e XIV.” Navegar ainda não era, mas seria preciso. E para navegar, carecia calcular

Entre os séculos XII e XV, Marrakech era um polo de desenvolvimento científico, unificando as culturas africanas e européias localizadas em torno do Mediterrâneo, sem distinção entre muçulmanos, judeus e cristãos. Além de enfatizar contribuições matemáticas antes desconhecidas, como a introdução do simbolismo algébrico, essas pesquisas recentes analisam o papel dessas regiões no fenômeno de circulação da produção matemática em direção ao restante da Europa, por meio de traduções para o latim e o hebraico. Essa direção de pesquisa busca desconstruir o viés eurocentrista do relato tradicional, explícito nos escritos dos primeiros historiadores da matemática, que eram matemáticos de profissão e viam com preconceito a contribuição árabe”

Para o quarto caso, Al-Khwarizmi considera o exemplo ‘um Mal e dez Jidhr igualam 39 dinares’, que em nossa notação algébrica seria representado como x² + 10x = 39. O algoritmo de resolução era descrito assim:

Tome a metade da quantidade de Jidhr (que neste exemplo é 5)

Multiplique essa quantidade por si mesma (obtendo 25)

Some no resultado os Adad (fazemos 39 + 25 = 64)

Extraia a raiz quadrada do resultado (que dá 8)

Subtraia desse resultado a metade dos Jidhr, encontrando a solução (essa solução é 8 − 5 = 3)”

Observando a terceira coluna da tabela, percebemos que o algoritmo de resolução é uma sequência de operações equivalentes à fórmula de resolução de equação do 2º grau usada atualmente. Mesmo que fosse exposto para um exemplo particular, o método descrito por Al-Khwarizmi permitia tratar qualquer exemplo dentro de um caso determinado, logo, esse método gozava de certa generalidade.”

Observemos que esse modo de ‘passar para o outro lado’ não se justifica pela concepção que temos de que a soma e a subtração são operações inversas. O modo de operar dos árabes está mais próximo da crença de que realmente retiramos uma quantidade de um lado para ‘passar para o outro lado’, forçada pela restrição ao universo dos números positivos. Em seguida, as espécies do mesmo tipo e iguais são subtraídas de ambos os lados, o que seria equivalente a retirar 58 de ambos os lados. É preciso equilibrar os dois lados, ou seja, balanceá-los pelo procedimento de al-muqabala, reduzindo os dois números a um só.”

Nessas práticas subcientíficas pode ser sentida uma influência indiana indireta. Um dos principais exemplos é o uso dos algarismos que designamos como ‘indo-arábicos’. Essa representação dos números, presente também em nossa matemática, já era empregada por Al-Kwharizmi e é atribuída por ele aos indianos. No entanto, esta deve ter sido uma herança de praticantes que usavam o sistema, não sendo transmitida por tratados aritméticos de natureza científica. Ainda assim, é discutível se o sistema posicional decimal, adotado pelos indianos, foi divulgado pelos árabes, pois estes usavam majoritariamente o sistema grego sexagesimal.”

As práticas algébricas dos árabes possuem conexão com os métodos babilônicos e indianos, porém é difícil encontrar evidências que testemunhem influências diretas dessas culturas. Antes mesmo dos tempos islâmicos, tais tradições já haviam se misturado e, a partir do século IX, a síntese islâmica foi responsável pela sistematização das práticas.”

Além disso, alguns indianos operavam com quantidades negativas, o que os árabes, nessa época, não faziam. Nem Bhaskara, nem outro matemático indiano, nem Al-Khwarizmi, nem outro árabe qualquer inventou a fórmula para a resolução da equação de 2º grau, apesar de todos eles saberem resolver o análogo a uma equação desse tipo nos termos da matemática de seu tempo. É certo que a fórmula só pôde ser escrita depois que Viète introduziu um simbolismo para os coeficientes, como veremos adiante, mas nem mesmo ele pode ser considerado o inventor da fórmula, uma vez que seu método de resolução já era amplamente conhecido pelos indianos e árabes.”

No caso de situações envolvendo quantidades elevadas ao cubo, Al-Khayam reconhece não ter sido possível encontrar um algoritmo análogo ao que tinha sido utilizado para equações quadráticas, por esse motivo suas soluções são geométricas e empregam cônicas.”

Por exemplo, o problema 21 (‘um cubo, algumas raízes e um número são iguais a alguns quadrados’), traduzido em linguagem atual, corresponde à equação x³ + bx + a = cx².”

Pela lei de homogeneidade das grandezas, todos os seus termos são considerados volumes, ou seja, de grau 3. Isso quer dizer que um cubo deve ser somado a cubos ou paralelepípedos. Logo, a expressão ‘algumas raízes’ do enunciado (traduzida como bx) era usada para designar um paralelepípedo cuja altura é a raiz e cuja base é obtida tomando-se um certo número de vezes um quadrado unitário.”

O método empregado por Al-Khayam era puramente geométrico, diferente do caso da equação do 2º grau, que envolve a extração de uma raiz quadrada, por isso ficou conhecido como ‘método de resolução por radicais’. Será devido à busca de um método de resolução por radicais para as equações cúbicas que grande parte da álgebra se desenvolverá nos séculos XV e XVI.”

Fibonacci incontestavelmente, tem o papel de pioneiro no renascimento da matemática no oeste cristão. Como nenhum outro antes dele, considerou de modo novo o conhecimento antigo e desenvolveu-o de maneira independente. Em aritmética, mostrou habilidade superior para os cálculos. Além disso, ofereceu aos seus leitores um material organizado de forma sistemática e ordenou seus exemplos do mais fácil para o mais difícil (…) Em geometria demonstrou, diferentemente dos agrimensores, um domínio completo de Euclides, cujo rigor matemático ele foi capaz de recapturar.” Gillispie, Dictionary of Scientific Biography

Esse relato é comum em livros de história da matemática. Uma radicalização dessa lenda sobre o ‘renascimento’ da matemática antiga na Europa aponta que, com a queda de Constantinopla, em 1453, refugiados que escaparam para a Itália teriam levado preciosos tratados gregos antigos para o mundo europeu ocidental. A verdade é que alguns tratados gregos já haviam aparecido na Europa no século XIII, quando as cruzadas, ao invés de se dirigirem à Terra Santa, invadiram outro território cristão, Constantinopla, onde havia manuscritos conservados desde a Antiguidade, quando a região ainda era grega e se chamava Bizâncio.

É fato que Fibonacci freqüentou Bugia, cidade da Argélia, seguindo o desejo de seu pai, que era comerciante. Depois dessa primeira formação em matemática, Fibonacci viajou pelo Egito, pela Síria, pelo sul da França e pela Sicília, na Itália. Ou seja, teve contato com o mundo mediterrâneo, onde se aperfeiçoou em domínios como a álgebra, prática até então desconhecida dos europeus. No entanto, a versão simplificadora sobre a difusão da álgebra na Itália teve de ser reformulada nos últimos anos devido a dois complicadores: as descobertas que exibem o desenvolvimento de uma álgebra simbólica no Magreb e na Andaluzia entre os séculos XI e XIV, bem como sua transmissão para os cristãos na Espanha; e as pesquisas em torno das escolas de ábaco, que floresceram na Itália a partir do século XIII.

Essas escolas, que treinavam jovens comerciantes desde os 11 ou 12 anos em matemática prática, e se difundiram em várias regiões da Itália, sobretudo Florença, estão relacionadas ao desenvolvimento do capitalismo no fim da Idade Média. Para tratar problemas ligados ao comércio, ensinava-se o cálculo com numerais indianos (…), a regra de três, os juros simples e compostos, os métodos da falsa-posição, entre outras ferramentas voltadas para problemas práticos. Ainda que fossem designadas como escolas de ábaco, a partir do século XIII elas se dedicavam a técnicas de cálculo sem ábaco.”

O livro mais conhecido de Fibonacci se chama Liber Abaci, ou seja, ‘livro de ábaco’, o que levou alguns historiadores a afirmarem que, em geral, os escritos associados às escolas de ábaco eram, de fato, resumos e adaptações dessa obra de Fibonacci. Esses textos de matemática prática, escritos em língua vernácula, receberam pouca atenção dos historiadores até as transcrições feitas por Gino Arrighi e seus colegas italianos, nos anos 1960 e 70.”

Na Europa do século XVI, desenvolveram-se pesquisas dedicadas à resolução de equações que empregavam uma grande quantidade de símbolos e que estão na origem de alguns dos que conhecemos até hoje. Os símbolos de + (mais) e (menos) já eram usados na Alemanha. O símbolo para raiz quadrada, por exemplo, foi introduzido em 1525 pelo matemático alemão Christoff Rudolff. Seu aspecto vem de uma abreviação da letra r, inicial de ‘raiz’. Em 1557, o inglês Robert Recorde publicou um livro de álgebra no qual introduziu o símbolo ‘=’, usado por nós para a igualdade: um par de retas paralelas, pois ‘não pode haver duas coisas mais iguais’. Os símbolos para o quadrado e o cubo da quantidade desconhecida provinham de abreviações das palavras latinas.”

A padronização dos símbolos matemáticos se deu muito mais tarde, a partir do final do século XVII, sobretudo devido à popularidade dos trabalhos de Descartes, Leibniz e Newton, conforme será visto nos capítulos seguintes.”

Quantidades negativas já tinham aparecido em problemas mais simples, envolvendo equações do 2º grau. Nesse caso, no entanto, quando a quantidade negativa aparecia no resultado, era fácil driblar a dificuldade – bastava dizer que a equação não tinha solução. A aplicação da fórmula para resolver equações do 3º grau faz com que não seja possível desviar da questão com facilidade. As equações irredutíveis serão tratadas por Rafael Bombelli, matemático italiano do século XVI associado à história dos números complexos.”

François Viète, que viveu entre os anos 1540 e 1603, introduziu uma representação padrão: as incógnitas serão representadas pelas vogais e os coeficientes pelas consoantes do alfabeto, todas maiúsculas”

É importante observar que há uma diferença de natureza fundamental entre uma ‘incógnita’ e um ‘coeficiente’. A incógnita é uma quantidade desconhecida que será conhecida a partir das restrições representadas pela equação; já o coeficiente é uma quantidade conhecida genérica que está, portanto, indeterminada na expressão de uma equação qualquer. Ambos os casos pressupõem indeterminações, porém em níveis distintos: a determinação dos coeficientes é obtida pela escolha de uma equação particular (arbitrária); e a determinação do valor da incógnita, pela resolução (não-arbitrária) dessa equação. A determinação da incógnita depende das restrições dadas por uma equação. De modo distinto, no universo das equações, a escolha arbitrária de coeficientes determina uma equação. Por exemplo, na equação ax² + bx + c = 0 a escolha dos valores a = 1, b = 3 e c = 100 determina um ‘caso’: x² + 3x + 100 = 0. A notação introduzida por Viète deveria ter representado, portanto, uma generalização dos métodos algébricos.”

A REVOLUÇÃO CIENTÍFICA É COMPREENDIDA, comumente, como uma brusca mudança no modo de fazer ciência ocorrida nos séculos XVI e XVII, em especial na astronomia, na física e na matemática. Copérnico teria inaugurado o questionamento da cosmologia aristotélica e ptolomaica; novas teorias teriam sido formuladas a partir das leis de Kepler; e Galileu seria o responsável pelo desenvolvimento de uma nova física, baseada em uma visão mecânica da natureza que pode ser descrita em linguagem matemática. Esse processo culminaria com Newton, que teria reunido tais avanços de modo coerente e representaria o triunfo da ciência moderna.

O século XVII é visto como a ‘alvorada da matemática moderna’, título do capítulo que H. Eves dedica ao período em sua Introdução à história da matemática. Na historiografia tradicional, o papel de Descartes e de suas contribuições à geometria aparece ora desconectado desse contexto mais amplo, ora como uma conseqüência vaga, no máximo de natureza filosófica. No primeiro caso, esquece-se que sua Geometria foi publicada como anexo de um livro filosófico que também incluía um texto de ótica, além do fato de ele ter abordado diferentes problemas de física.” “o matemático francês é considerado moderno e suas principais contribuições, como o plano cartesiano, são explicadas por meio da notação atual. Essa abordagem leva a um dos inconvenientes mais graves na história da matemática a partir desse período: a subdivisão desse saber em disciplinas. Descartes e Fermat são mencionados como fazendo parte da história da ‘geometria analítica’, como se essa designação fizesse sentido antes deles. No entanto, como falar da história de certo domínio matemático se queremos analisar, de modo amplo, os procedimentos que só mais tarde foram selecionados e traduzidos com a finalidade de integrar esse domínio?”

CAPÍTULO 5. A Revolução Científica e a nova geometria do século XVII

Numerosos exemplos mostram que a história da ciência nessa época não é tão triunfal como se acredita, e que a historiografia tradicional construiu esse cânone para justificar a imagem moderna da ciência. Na verdade, a recepção das idéias inovadoras de Copérnico, Galileu e Newton parece ter sido bastante lenta; a convivência entre as novas e as antigas idéias gerou misturas no pensamento; e eles não escreveram com o intuito nítido de renovar os padrões que os precediam.”

Alguns estudos que exibem a complexidade de interesses dos pensadores da época podem ser encontrados em M. Osler (org.), Rethinking the Scientific Revolution.”

A matemática era estudada para ajudar na compreensão das proposições aristotélicas sobre a lógica e a natureza; a aritmética consistia em regras de cálculo; a geometria era tirada de Euclides e de outras geometrias práticas; a música era influenciada por Boethius; e a astronomia seguia a tradição de Ptolomeu e das traduções de trabalhos árabes.”

A escola típica do período anterior era monástica e rural; agora inauguravam-se escolas urbanas de vários tipos, com objetivos amplos. Ainda que o programa pudesse variar de uma escola para outra, segundo o interesse do professor que a dirigia, as escolas, de modo geral, reorientaram o currículo para satisfazer às necessidades práticas de uma clientela variada que ocuparia postos de direção na Igreja e no Estado. Com isso, o currículo passou a incluir, além da teologia, a lógica, o quadrivium matemático, a medicina e o direito”

Estrangeiros que não sabiam árabe chegavam à Espanha, procuravam um professor e começavam a traduzir; ou encontravam um nativo bilíngüe e faziam versões em parceria. Um exemplo desse segundo tipo foi Robert de Chester, de Gales, que propôs a primeira tradução da Álgebra de Al-Khwarizmi, em 1145.”

Até o século XIII, o ensino era de responsabilidade de mestres que se estabeleciam com o apoio de uma escola ou de modo autônomo. Com o crescimento dessas iniciativas, foi necessário organizá-las. Os mestres e estudantes começaram então a formar associações chamadas ‘universidades’ (…) Essa nomenclatura, no entanto, só era usada em Bolonha, onde os alunos se organizavam e contratavam os professores. As universidades não se caracterizavam por edifícios ou estatutos; eram grupos de professores que podiam ter mobilidade. Um dos principais objetivos dessas corporações era o autogoverno e o monopólio, ou seja, o controle do ensino. Assim, elas acabaram obtendo o direito de estabelecer os próprios padrões, como fixar o currículo, conceder diplomas e determinar quem podia estudar e ensinar. Tudo isso com o apoio do mecenato de papas, imperadores ou reis.”

A astronomia ainda era respeitada, ao passo que a aritmética e a geometria mereciam um ensino breve e superficial. Tais matérias eram destinadas à formação de jovens dentro da faculdade de artes e tinham uma função propedêutica para a entrada nas faculdades superiores, onde o saber englobava somente a teologia, a jurisprudência e a medicina.”

para Aristóteles, os elementos do cosmos sempre se comportaram e se comportarão de acordo com sua natureza. Logo, para ele, não houve um momento em que o Universo nasceu, nem haverá um outro em que deixará de existir. Ora, do ponto de vista cristão, tal posição é indefensável”

Em Paris, entre 1210 e 1277, houve diversas condenações às teses de Aristóteles, sobretudo à sua física. No entanto, a atenção às causas naturais dos fenômenos já havia atraído diversos pensadores, e a filosofia natural continuou a se desenvolver no século XIV, ainda que prolongando as tentativas de conciliação com as doutrinas cristãs. Esse século foi marcado pela influência de São Tomás de Aquino, que reconciliou o aristotelismo e a Igreja.”

Oresme utilizava esse diagrama para demonstrar uma lei que já havia sido formulada pelos cientistas de Oxford e que versava sobre a quantidade total de uma qualidade. Afirmava-se que: dada uma qualidade uniformemente disforme em um intervalo de tempo, a sua quantidade total é igual à quantidade total da qualidade uniforme que afeta o corpo com a intensidade média da qualidade uniformemente disforme.” [!]


O homem vitruviano de Da Vinci.

Peuerbach lecionava em Viena, conhecia perfeitamente o Almagesto e aperfeiçoou as tábuas astronômicas de Ptolomeu usando os instrumentos que inventava. Quando foi convidado para ir à Itália, levou Regiomontanus, que viria a completar seu trabalho depois de sua morte, em 1461. A obra de Peuerbach é uma iniciativa característica do século XV, pois tentava conciliar os ideais aristotélicos com a astronomia de Ptolomeu. Seu livro principal, Theoricae novae planetarum (Novas teóricas dos planetas), publicado por Regiomontanus, exerceu grande influência sobre Copérnico.”


O “último” modelo geocêntrico (antes da emergência da neo-imbecilidade, vulgo Terraplanismo).

Sua obra De revolutionibus orbium coelestium (Da revolução das esferas celestes) foi publicada no ano de sua morte, em 1543, embora sua teoria já fosse conhecida. Algumas tabelas astronômicas baseadas em suas obras começaram a ser usadas por volta de 1550, e a atração que o trabalho de Copérnico exercia se devia, principalmente, ao fato de oferecer um meio mais simples e mais acurado para calcular a posição dos astros. Ou seja, sua importância, para a época, não era atribuída ao fato de ter fornecido um modelo físico mais exato dos movimentos celestes. O traço inovador da teoria de Copérnico então reconhecido era a defesa da autonomia dos modelos matemáticos para salvar as aparências dos fenômenos.”

A explicação física no estilo ptolomaico/aristotélico, exemplificada pela obra de Peuerbach, permaneceu sendo a principal referência para a astronomia até os anos 1570, quando as observações realizadas por Tycho Brahe abriram novas possibilidades. Somente por volta de 1600 os astrônomos europeus pareciam estar preparados para aceitar a realidade física do sistema heliocêntrico.”

Normalmente, o Renascimento é identificado com o espírito platônico, pelo privilégio ocupado pela matemática como ferramenta explicativa. Mas a influência de Platão não parece ter sido especialmente forte se comparada à de outros pensadores gregos, como Arquimedes. A Europa ocidental conheceu os tratados mecânicos de Arquimedes com as traduções do século XIII, entretanto, só começou realmente a se apropriar de seus trabalhos no século XVI. Esse renascimento da mecânica clássica não se deveu à atuação das universidades nem dos humanistas e sim de engenheiros interessados em questões teóricas, como Niccolò Fontana, conhecido como Tartaglia.” “Tartaglia publicou sua Nova scientia em um dialeto local em 1537. A nova ciência mencionada nessa obra é a balística, que traduz as preocupações com o estudo da artilharia em longas distâncias e demanda a análise da trajetória de projéteis.”

A Coleção matemática de Pappus foi traduzida em 1588 e fez ressurgir o interesse pelas construções dos gregos, chamadas de problemas de lugares geométricos (locus). Pappus os classificava como: problemas planos, construídos com régua e compasso; problemas sólidos, construídos por cônicas; e problemas lineares, construídos por curvas mais gerais, como a espiral. Além da obra de Pappus e dos trabalhos algébricos então disponíveis, em 1575 foi publicada uma tradução para o latim da Aritmética de Diofanto. A Arte analítica de Viète foi influenciada por esses trabalhos. No entanto, para resolver problemas geométricos, ele propunha usar uma argumentação denominada ‘análise’. A obra publicada por Viète em 1591, que em latim se intitula In Artem Analyticem Isagoge (Introdução à arte analítica), é o primeiro dos 10 tratados que formam a sua Opus restituta Mathematica Analyseos, seu, Algebra nova (Obra de análise matemática restaurada, ou Álgebra nova). Nesse título a palavra que chama a atenção é restitua, levando-nos a acreditar que Viète queria ‘restaurar’ a análise dos antigos. Dando seqüência à Isagoge, ele apresentou o Les Zeteticorum libri quinque (Cinco livros das zetéticas), nos quais aplica sua arte analítica a 82 problemas que são, em sua maioria, análogos aos estudados por Diofanto na Aritmética. A Arte analítica começa com uma explicação do que é análise, retirada da Coleção matemática de Pappus”

pelo método analítico, supomos que as soluções desconhecidas são conhecidas e operamos com elas como se fossem conhecidas, até chegar a um resultado conhecido que determina a solução. A simbolização algébrica permite representar essas soluções desconhecidas por símbolos, manipulados segundo as mesmas regras que os números conhecidos.” “Quando escrevemos x + 2 = 3, tratamos o x como se fosse conhecido e operamos com essa quantidade da mesma forma que fazemos com o 3 e o 2, que são, efetivamente, números conhecidos. Com essa manipulação, fazemos x = 3 − 2 = 1 e encontramos o valor da quantidade desconhecida. Operamos, nesse exemplo, com as quantidades procuradas como se elas já estivessem dadas. Se quiséssemos resolver o problema de encontrar duas grandezas com soma e produto dados pelo método analítico, começaríamos supondo que essas grandezas que procuramos são dadas e podem ser chamadas de x e y.”

Alguns matemáticos do século XVI, como Viète, e mesmo Descartes, no século XVII, acreditavam que os gregos omitiam, na maioria das vezes, a parte referente à análise das resoluções dos problemas. Para os antigos, a análise seria então um método de descoberta, e não de demonstração.”

NULLUM NON PROBLEMA SOLVERE (‘nenhum problema sem resolver’). Foi para alcançar esse objetivo que inventou o que chamou de logistica speciosa, que se propunha a ser uma ciência dentro dos padrões gregos. Tratava-se, na verdade, de uma nova maneira de calcular, apresentada na forma axiomática.” “Um único símbolo deveria poder representar todos os tipos de grandeza. Ao fundar um cálculo para todos os tipos de grandeza (numérica ou geométrica; conhecida ou desconhecida), Viète poderia resolver todos os problemas.”

O lugar de Galileu na transformação da ciência no século XVII foi objeto de intensas controvérsias. Uma das polêmicas mais famosas envolve as teses do historiador e filósofo da ciência Alexandre Koyré. Segundo Koyré, as práticas empíricas em áreas como balística, fortificação e hidráulica ajudaram a derrubar o feudalismo e o poder medieval, mas não poderiam ser suficientes para transformar a ciência do movimento. Em diversos artigos, escritos em torno dos anos 40, Koyré ressalta a relação de Galileu com o platonismo, expressa pela importância dada à razão e ao papel da matemática.”

Galileu foi um fabricante de instrumentos. Entretanto, apesar de suas contribuições ao aprimoramento do telescópio serem reconhecidas, essa faceta tinha sido marginalizada na história que vigorou até o princípio da segunda metade do século XX. Na verdade, a imagem de Galileu como um cientista teórico, com semblante moderno, foi questionada nos anos 40 nos trabalhos de Edgar Zilsel, pensador austríaco que emigrou para os Estados Unidos fugindo da perseguição nazista. Segundo esse historiador e filósofo da ciência, de inspiração marxista, os mesmos avanços sociais que tiveram lugar na Europa entre os séculos XII e XVI ocorreram também no domínio tecnológico. As artes práticas teriam sido estimuladas pelas novas necessidades e inspirado uma confiança na continuidade dos avanços da tecnologia. O poder que os teóricos dos séculos XV e XVI experimentavam, uma vez que tinham se apropriado da literatura dos sábios da Antiguidade, era semelhante à sensação que os artesãos tinham diante das melhorias que haviam conseguido empreender por meio de ferramentas importantes para a organização da vida em sociedade.

Segundo a teoria que ficou conhecida como ‘tese de Zilsel’, entre 1300 e 1600 distinguem-se ao menos 2 estratos da organização social: intelectuais acadêmicos e artesãos qualificados. A estes vem se somar, em muitas regiões, um 3º grupo: o dos pensadores humanistas. Os professores e humanistas tinham certo desprezo pelas artes mecânicas e pelos trabalhos manuais. Por outro lado, os artesãos qualificados, que incluíam artistas-engenheiros, agrimensores, construtores de instrumentos musicais, náuticos e de guerra, eram mestres na prática da experimentação. Tratava-se de dois mundos separados: os últimos, tidos como plebeus, não tinham treinamento intelectual teórico; e aos primeiros, integrantes das classes mais altas, faltava um contato com a experiência prática e com as possibilidades dos instrumentos. A atividade intelectual era derivada da estrutura hierárquica da sociedade. Logo, os dois componentes do método científico estavam separados por uma barreira social. Somente quando os preconceitos começaram a ruir, por volta de 1600, eles puderam unir seus conhecimentos e experiências. Os trabalhos de Galileu devem ser analisados nesse contexto de desenvolvimento de uma sociedade capitalista.”

Histórias mais recentes, como a exposta por M. Valleriani em Galileo Engineer, já aceitam a importância dada à prática na época e procuram ir além da tese de Zilsel, analisando como a aproximação desses 2 mundos influenciou a própria física de Galileu. Mas, antes de abordar essas novas tentativas, faremos um brevíssimo resumo do percurso de Galileu como pensador.”

se temos dois volumes iguais de água e de madeira, o volume de água será mais pesado, logo, não podemos fazer o volume de madeira submergir. Essa explicação se opõe à teoria das causas aristotélicas, segundo a qual o movimento não se dá por qualidades de cada corpo e sim por uma causa única, o peso, que é como uma força que interage com a ação de um meio.”

Entre 1613 e 1615, Galileu escreveu algumas cartas que ficaram conhecidas como Lettere copernicane (Cartas copernicanas), nas quais afirma que algumas passagens da Bíblia deviam ser interpretadas à luz do sistema heliocêntrico, para o qual ele não tinha ainda provas científicas conclusivas.”

Dialogo sopra i due massimi sistemi del mondo tolemaico e copernicano (Diálogo sobre os dois principais sistemas do mundo ptolomaico e copernicano), finalizado em 1630 e publicado em 1632, no qual voltou a defender o sistema heliocêntrico. Essa obra foi decisiva no processo da Inquisição montado contra ele.

Em 1638, foram publicados os seus Discursos e demonstrações matemáticas sobre duas novas ciências. Trata-se do primeiro tratado sobre a cinemática e a dinâmica dos movimentos nas proximidades da superfície da Terra. Redigido na forma de diálogos, seguia a tradição grega que se tornara comum no Renascimento. Seus 3 interlocutores são: Salviati (que representa o próprio Galileu), Simplício (que defende a filosofia e a física de Aristóteles) e Sagredo (personagem prático, de mentalidade aberta, que atua como uma espécie de árbitro entre as duas posições em confronto) [SSS]. O livro é constituído basicamente por 4 ‘jornadas’. A primeira é uma introdução às ‘duas novas ciências’: a resistência dos materiais e o estudo do movimento. A segunda trata da estática e desenvolve as idéias e os modelos de Galileu sobre a resistência dos materiais. Nas duas últimas ‘jornadas’, discutem-se o movimento acelerado e as leis que regem o movimento dos projéteis.”

SÃO GALILEU (O PADROEIRO DOS CIENTISTAS DA BOMBA “A”): “No final do século XV, surgiram armas de artilharia pesada ligadas a novas estratégias de defesa e, na primeira metade do século XVI, trabalhos como os de Tartaglia debruçavam-se no estudo do movimento dos projéteis. Se analisarmos o aprendizado de Galileu como artista-engenheiro (entre 1584 e 1589) e o trabalho que realizou durante sua estada em Pádua (entre 1592 e 1610), veremos que devotou tempo considerável a pesquisas sobre guerra. Ele concebeu instrumentos matemáticos para uso militar e abriu uma oficina para construí-los.” “Quando conseguiu aumentar o alcance do telescópio, em 1609, estava envolvido justamente nessa economia de artefatos e sua idéia inicial não era desenvolver um instrumento astronômico para comprovar o heliocentrismo, e sim fornecer uma nova ferramenta militar à Marinha de Veneza.”

Segundo Valleriani, o estudo da queda livre foi diretamente influenciado pela pesquisa de Galileu sobre a trajetória de projéteis, uma questão fundamental para a balística da época. O modelo central analisado por ele é o movimento de queda, livre ou sobre um plano inclinado, de modo que a distância de um corpo em relação ao ponto inicial aumenta com o quadrado do tempo transcorrido. Se esse movimento de queda é superposto a um movimento uniforme horizontal, obtemos a trajetória parabólica de um projétil.”

Na época da publicação de Discursos e demonstrações matemáticas sobre duas novas ciências, a Geometria de Descartes já havia sido escrita, mas Galileu não estava a par desse trabalho.

No Diálogo, publicado antes dos Discursos, encontramos também uma tentativa de representar 2 magnitudes diferentes, no caso, o tempo e a velocidade, como pontos definidos a partir de 2 eixos coordenados. Mas, apesar da utilização engenhosa dos diagramas na representação do movimento, é um exagero considerar Galileu o fundador da representação em coordenadas, pois o passo fundamental das justamente denominadas ‘coordenadas cartesianas’ depende da utilização da álgebra. Como no plano de Oresme, não são usadas ferramentas algébricas na demonstração de Galileu.”

Segundo Bacon, em vez da lógica aristotélica, o método indutivo podia ser mais frutífero para a enunciação de novas verdades científicas. Bacon não chegou a ver a primeira edição de uma de suas obras mais conhecidas, Nova Atlântida, publicada somente pouco depois de sua morte, ocorrida em 1626. Esse livro trata de uma localidade imaginária, marcada pela prosperidade e pela intervenção do homem na natureza.” “Está para além do escopo deste trabalho estudar as influências de Bacon sobre Descartes, entretanto, ainda que a obra de Bacon não tenha angariado popularidade imediata, a crítica à velha lógica e os esforços para encontrar novos métodos para a enunciação de verdades, presentes no Novum organum, foram apreciados por matemáticos como o padre Marin Mersenne e o próprio Descartes.”

A ASCENSÃO DOS EMPIRISTAS: “Em um texto de 1623, Il saggiatore, Galileu já descrevia a operação necessária ao estudo quantitativo dos fenômenos. Para conhecer uma matéria ou substância corporal seria preciso concebê-la como algo limitado, dotado de uma forma, ocupando um certo lugar em um dado momento, em movimento ou imóvel, em contato com outro corpo ou isolada, simples ou composta. Não importa se essa matéria era branca ou vermelha, amarga ou doce, com cheiro bom ou ruim. Para Galileu, essas qualidades deviam ser abstraídas em prol de uma descrição quantitativa.”

Refletindo mais atentamente, pareceu-me por fim óbvio relacionar com a Matemática tudo aquilo em que apenas se examina a ordem e a medida, sem ter em conta se é em números, figuras, astros, sons, ou em qualquer outro objeto que semelhante medida se deve procurar; e, por conseguinte, deve haver uma ciência geral que explique tudo o que se pode investigar acerca da ordem e da medida, sem as aplicar a uma matéria especial: esta ciência designa-se não pelo vocábulo suposto, mas pelo vocábulo já antigo e aceito pelo uso de Matemática universal (Mathesis universalis) porque esta contém tudo que contribui para que as outras ciências se chamem partes da Matemática.” Descartes, Regras para a direção do espírito

CÉTICOS RACIONALISTAS: “Como afirma Barbin, a realidade é matemática porque foi tornada matematizável por separação, por triagem. Para Descartes, as deduções lógicas que permitem passar de uma proposição a outra devem ser substituídas por relações entre coisas quantificáveis, traduzidas por equações (igualdades entre quantidades). Quanto mais nos distanciamos das quantidades, mais o conhecimento toca o obscuro, podendo induzir a erro. Não podemos confiar nas aparências, no que acreditamos ser verdadeiro pelo testemunho dos sentidos. Poderia existir, como postula Descartes, um gênio maligno que faz com que estejamos enganados sempre que acreditamos ver, ou testemunhar, um certo fenômeno. Por isso é preciso duvidar sempre. Nesse quadro de incertezas, como obter uma certeza?”

Se tomamos um pedaço de cera sabemos que ele possui certo tamanho, certa forma, certa cor, um cheiro, uma temperatura; e se batemos nele, podemos até ouvir um som. Mas o que acontece quando acendemos uma chama sobre essa cera? Evidentemente ela perderá todas essas propriedades. Por que então podemos, ainda assim, continuar a chamar de ‘cera’ o que resta? O que há de estável que permanece após essas profundas transformações? Descartes afirma que há algo que resta, chamado por ele de ‘extensão’, e que não diz respeito nem à matéria nem à forma [Não diz respeito à forma? Isso é bem estranho!], ou seja, não se identifica com o espaço ocupado pela cera.”

Em 1626, Descartes freqüentou o círculo de pensadores que gravitavam em torno do padre Mersenne, em Paris, que se dedicava, entre outras coisas, a pesquisar problemas óticos ligados ao estudo do movimento dos raios luminosos. Esses trabalhos levaram Descartes a escrever Dióptrica, um dos ensaios publicados com o Discurso do método, ou seja, juntamente com a Geometria. Trata-se de um tratado de ótica que compreende uma teoria da refração da luz, e desde o início da obra percebe-se a proximidade de Descartes com os artesãos de instrumentos óticos.”

já se sabia que as cônicas podiam ser usadas para construir lunetas e espelhos, bem como servir à relojoaria. Pesquisadores do círculo de Mersenne investigavam como transformar um raio luminoso cilíndrico em um feixe de cônicas, e a conseqüência disso para a geometria é que o problema das curvas óticas implicava a busca de curvas desconhecidas, ou seja, de curvas que realizassem certos efeitos óticos.

O que Barbin designa como ‘invenção do curvo’ é uma concepção geral das curvas existente na época que não se limitava ao estudo de curvas particulares, ampliando o universo dos objetos geométricos pela introdução de curvas que descrevem movimentos ou são expressas por equações algébricas. Em diversos problemas, tratava-se de procurar um objeto desconhecido que podia ser uma curva, em um sentido bem mais geral do que se considerava anteriormente.”

A construção das ovais, que possuem a propriedade de fazer com que os raios de luz convirjam para um único ponto, mostra a utilidade instrumental de sua matemática no campo da ótica; mas a superioridade do método será afirmada com a resolução de um problema herdado dos antigos, cuja solução ainda não havia sido encontrada: o problema de Pappus, que estudaremos a seguir.”

Se queremos resolver qualquer problema, primeiramente supomos que a solução já está efetuada e damos nomes a todas as linhas que parecem necessárias para construí-la. Tanto para as que são desconhecidas como para as que são conhecidas. Em seguida, sem fazer distinção entre linhas conhecidas e desconhecidas, devemos percorrer a dificuldade da maneira mais natural possível, mostrando as relações entre essas linhas, até que seja possível expressar uma única quantidade de dois modos. A isto chamamos uma Equação, uma vez que os termos de uma dessas duas expressões são iguais aos termos da outra.”

Temos [pela 1ª vez] uma potência quadrada que não é associada a um quadrado, mas a um segmento de reta.” “Isso foi possível pela escolha de um segmento de reta arbitrário considerado ‘unidade’. A partir daí, o produto de 2 segmentos pôde ser interpretado como um outro segmento, e não mais necessariamente como a área de um retângulo.”

Problema de Pappus

Encontrar o lugar geométrico de um ponto tal que, se segmentos de reta são desenhados desde esse ponto até 3 ou 4 retas dadas em ângulos determinados, o produto de 2 desses segmentos deve ser proporcional ao produto dos outros 2 (se há 4 retas) ou ao quadrado do 3º (se há 3 retas).

Pappus demonstrou que, no caso geral, a solução deve ser uma cônica. Descartes, inspirado por esse matemático grego, passou a considerar o problema para mais de 4 retas, o que dará origem a curvas de maior grau. Em uma forma simplificada, o problema consiste em: dadas 2n retas, encontrar o lugar geométrico de um ponto móvel tal que o produto de suas distâncias (não necessariamente em ângulo reto) a n das retas (em posições determinadas, com ângulos dados) é proporcional ao produto das distâncias às outras n retas.”

atribuindo valores a y teremos equações do tipo x² = ±px ± q², para as quais a solução pode ser construída com régua e compasso (por meio dos métodos que

Descartes havia deduzido para a construção de raízes de equações quadráticas). Tomando sucessivamente infinitos valores para y, obtemos infinitos valores para x e, para cada par x e y, fica determinado um ponto C, o que permite desenhar a curva.”

O QUE SÃO EQUAÇÕES INDETERMINADAS?

Há uma diferença de natureza entre as equações x² − 4x + 3 = 0 e x² + y² = 1. No primeiro caso, trata-se de encontrar o valor da quantidade desconhecida x, que, mesmo não sendo conhecida, pode ser determinada por uma das igualdades x = 3 ou x = 1. No segundo caso, x e y não possuem valores determinados, por isso dizemos que se trata de uma equação indeterminada. Podemos variar os valores de x, o que nos fará obter, de modo geral, diferentes valores para y. No exemplo, se x e y são números reais, o lugar geométrico dos pontos que satisfazem à equação é uma circunferência de raio 1. O papel do símbolo x muda também de um caso para o outro, por isso pensamos ser mais adequado dizer que, no primeiro caso, x é uma incógnita e, no segundo, uma variável.”

A prática da arte analítica do final do século XVI e início do XVII envolvia numerosos estudos de problemas particulares, abordados com métodos heterogêneos que tinham em comum a utilização da análise por meio da ferramenta algébrica. A aplicação dos novos métodos à resolução de problemas geométricos não seguia uma norma bem-definida. Antes de Descartes, os diversos procedimentos de construção utilizados não tinham sido submetidos a uma ordenação nem a teorias unificadoras acerca de sua legitimidade. Sabia-se que o uso de métodos algébricos na análise envolvia a relação entre problemas, equações e construções, mas a natureza dessas relações não era bem-compreendida. Um dos objetivos da Geometria de Descartes era ordenar o domínio da resolução de problemas geométricos por meio da arte analítica, postulando um novo padrão de rigor e uma nova noção de exatidão para os procedimentos de construção.”

Parece claro que se assumimos que a geometria é precisa e exata, enquanto a mecânica não é; e se pensamos a geometria como uma ciência que fornece um conhecimento geral das medidas de todos os corpos, então não temos mais o direito de excluir curvas mais complexas, bastando que elas sejam concebidas como curvas descritas por um movimento contínuo ou por vários movimentos sucessivos, cada um sendo completamente determinado pelos precedentes; pois desta forma um conhecimento exato da magnitude de cada um é sempre possível.”

não se trata de um movimento qualquer dependendo do tempo. O escopo dos movimentos que podem ser considerados para gerar curvas é restrito e depende de critérios geométricos. As curvas consideradas ‘geométricas’ serão aquelas cujas coordenadas possuem necessariamente alguma relação com todos os pontos de uma reta, relação que pode ser expressa por meio de uma única equação.(*) Em seguida, as curvas serão classificadas pelo grau dessa equação, sendo o caso mais simples, de 2º grau, referente ao círculo, à parábola, à hipérbole e à elipse.

(*) Descartes só considera as curvas algébricas; as outras (que hoje chamamos transcendentes, como as trigonométricas e logarítmicas) deviam ser excluídas da geometria.”

Vimos que o início do século XVII foi marcado por esforços de diversos matemáticos para recuperar as obras clássicas mencionadas por Pappus. Entre elas, uma das mais importantes eram as Cônicas, de Apolônio. O objetivo dos trabalhos iniciais de Fermat era exprimir os problemas geométricos de Apolônio na linguagem algébrica proposta por Viète. A geometria analítica de Fermat atingiu sua forma final por volta de 1635, mas esse bacharel em direito já estudava o assunto desde os tempos em que esteve em Bordeaux, antes de voltar para Toulouse. No final de 1636, ele enviou a Paris uma cópia de sua Introdução aos lugares geométricos planos e sólidos, quando iniciava uma correspondência com os matemáticos parisienses. Na época, Fermat não conhecia a Geometria de Descartes, mas sua obra também estabelecia uma correspondência entre lugares geométricos e equações indeterminadas. Logo no princípio da Introdução, ele propunha: sempre que em uma equação final duas quantidades desconhecidas são encontradas, temos um lugar geométrico e a extremidade de uma delas descreve uma linha, reta ou curva.”

Quando os matemáticos próximos de Fermat tomaram conhecimento desses trabalhos, reagiram com ceticismo. Mesmo aqueles envolvidos na prática da ‘arte analítica’ eram tributários do estilo euclidiano de apresentação. Viète fez questão de deixar claro, na Introdução à arte analítica, que suas demonstrações algébricas podiam ser revertidas com o fim de obter um argumento sintético, apesar de já existirem trabalhos que indicavam um relaxamento em relação a esse tipo de demonstração. Na época, usar a análise algébrica sem demonstrações sintéticas era considerado deselegante, e quando Fermat apresentou suas pesquisas a Mersenne, em 1636, chegou a se desculpar, afirmando que seus resultados podiam despertar algum interesse ainda que não tivesse tido tempo de escrever as demonstrações. Ele pretendia apresentá-las depois, mas nunca chegou a fazer isso. Alguns historiadores, como Mahoney, observam que Fermat não se prendia muito às convenções da matemática clássica: estava interessado em seus problemas e na efetividade da arte analítica para tratá-los.”

Foi a partir da publicidade obtida em torno da obra de Descartes que essa nova geometria tornou-se conhecida, obscurecendo o papel de Viète. Mesmo que a qualidade matemática dos métodos de Fermat seja equiparável à apresentada por Descartes, o uso da terminologia e da notação de Viète fez diminuir sua popularidade. Logo após um conhecer a obra do outro, iniciou-se uma controvérsia entre Descartes e Fermat que não tinha por objeto, contudo, a busca da prioridade dos métodos da nova geometria. Junto com a Introdução aos lugares geométricos planos e sólidos, Fermat havia enviado a Mersenne a tradução de Lugares geométricos planos, de Apolônio, e mais outro texto, de sua autoria, Méthode pour la recherche du maximum et du minimum et des tangentes aux lignes courbes (Método para determinar máximos e mínimos e tangentes a linhas curvas). Foi por essa obra que alguns matemáticos do círculo de Mersenne começaram a admirar Fermat, caso de Roberval, que ajudou a divulgar o talento desse matemático até então desconhecido.”

AH, O EGO! INVEJO, LOGO SOU! “Entre 1637 e 38, Fermat escreveu uma crítica à Dióptrica de Descartes, à qual tivera acesso de forma não-autorizada, por meio de um colega. Descartes ficou furioso, principalmente porque o trabalho ainda era inédito. Antes da publicação efetiva do Discurso do método (que compreendia a Dióptrica, além da Geometria), seu autor tomou conhecimento da geometria analítica de Fermat e de seu modo de encontrar máximos e mínimos, o que fez com que receasse que a obra de Fermat ofuscasse o brilho do seu novo método, que estava prestes a se tornar conhecido. Com a singularidade de sua abordagem, Descartes pretendia impressionar a intelectualidade francesa; e as críticas de Fermat, bem como suas inovações na geometria, atrapalhavam tal propósito. Depois de perceber que os métodos de Fermat estavam corretos, Descartes centrou seus ataques contra seu estilo, que abria mão de fornecer métodos gerais e sistemáticos. Assim, a habilidade do matemático de Toulouse resumia-se, para ele, à arte de resolver problemas.”

CAPÍTULO 6. Um rigor ou vários? A análise matemática dos sécs. XVII e XVIII

No caso da noção de ‘função’, diversos escritos fornecem uma lista com a evolução das principais definições, do século XVII ao início do XX, de modo esquemático. Isso nos faz acreditar que teria havido um desenvolvimento linear durante o qual essas definições foram sendo aprimoradas até culminar com a versão rigorosa usada atualmente, baseada na linguagem dos conjuntos. Mas por que essas definições precisaram ser reformuladas? Quando elas se tornaram insatisfatórias e, principalmente, por que permaneceram satisfatórias durante tanto tempo?

A história do cálculo infinitesimal também recebe um tratamento retrospectivo. Apresentam-se diferentes técnicas que remontam aos paradoxos de Zenão, passando pelo método grego da ‘exaustão’ e pelos métodos de Cavalieri para calcular áreas até chegar a Leibniz e Newton.”

Em sua história do cálculo, publicada originalmente em 1949, C.B. Boyer destaca a mudança de ponto de vista ocorrida em meados do século XVIII, quando se passou a rejeitar concepções geométricas e enfatizar métodos formais (cf. C.B. Boyer, The History of Calculus and its Conceptual Development). Essa tendência foi documentada mais tarde, e com mais detalhes, por outros historiadores, como H.J.M. Bos em ‘Differentials, higher-order differentials and the derivative in the Leibnizian calculus’.”

função, número real e número complexo: É praticamente impossível compreender tais conceitos sem investigar o contexto em que apareceram, intimamente ligado às discussões sobre o cálculo infinitesimal e às transformações na concepção de rigor.” Que beleza, então, o ensino básico de matemática nas escolas!

Em qualquer curso de cálculo infinitesimal, a definição de derivada é antecedida pela sentença: ‘Seja uma função y = f(x). Porém, o conceito de função só foi introduzido na matemática após o aprimoramento das técnicas diferenciais efetuado por Leibniz e Newton. Esse é mais um exemplo de que os conteúdos matemáticos que aprendemos não são organizados de modo cronológico. Fosse assim não poderíamos aprender funções, no 9º ano, sem algumas noções básicas sobre derivadas e integrais.

Até o advento do cálculo, a matemática era uma ciência das quantidades. No século XVII, o trabalho sobre curvas relacionava quantidades geométricas. Já a partir do século XVIII muitos matemáticos começaram a considerar que seu principal objeto era a função. Essa mudança foi descrita da seguinte forma por Jaques Hadamard, Le calcul fonctionnel: ‘O ser matemático, em uma palavra, deixou de ser o número: passou a ser a lei de variação, a função. A matemática não apenas foi enriquecida por novos métodos; foi transformada em seu objeto.

A identificação entre função e expressão analítica defendida no século XVIII muitas vezes está mais presente na cabeça de nossos estudantes do que sua definição formal, em termos de conjuntos, proposta no século XIX.”

A noção de rigor também tem uma história, e não há um padrão único que a matemática mais recente teria descoberto como universal, tornando as contribuições dos matemáticos anteriores somente um caminho em sua direção.”

Para que a matemática pudesse se libertar dos padrões gregos, associados ao cânone euclidiano, pensadores do século XVII, incluindo Leibniz, defendiam suas práticas como uma arte da invenção, para qual não importavam tanto os critérios de demonstração e sim o que as ferramentas permitiam obter em termos de novidade

Veremos que o papel da análise matemática, bem como de sua algebrização, deve ser compreendido no contexto da institucionalização do ensino na França depois da Revolução de 1789.”

A ciclóide é definida pelo movimento de um ponto P em uma circunferência que rola sobre uma superfície plana sem atrito. Quando a circunferência dá uma volta completa em um movimento da esquerda para a direita, o ponto P traça um arco de ciclóide, conforme se vê na Figura 1.”

Para obter esse resultado, Roberval usou o método dos indivisíveis, que havia sido formulado pelo aluno de Galileu chamado Bonaventura Cavalieri, autor de um modo geométrico para calcular áreas publicado em 1635.”

Surgiu, assim, uma nova maneira de calcular áreas por meio da aproximação de uma área por retângulos infinitamente finos, e essa ferramenta podia ser aplicada a qualquer figura curvilínea.”

A = OB³/3 = x³/3

Esse método se estende facilmente para outras curvas, distintas da parábola; basta que tenhamos uma equação que substitua as alturas dos retângulos. Para isso, é preciso conhecer a soma das m-ésimas potências dos n primeiros números naturais. Por volta de 1636, Fermat já sabia que, para n racional e diferente de −1, a área sob o gráfico de y = xn entre 2 pontos O e B (a uma distância a de O) é dada por an+1/n+1.

Há uma diferença fundamental entre essa técnica e o método de exaustão usado pelos gregos, entre eles Arquimedes, pois aqui não se usa nenhuma prova indireta para se chegar ao resultado final.” “O procedimento de dupla redução ao absurdo, usado pelos antigos geômetras, era indireto, ao passo que o novo método permite obter a área diretamente.”

Pascal defendia seus procedimentos apelando para argumentos de inteligibilidade. O método dos indivisíveis parece não ser geométrico e pode até ser considerado um pecado contra a geometria, mas trata-se somente da soma de um número infinito de retângulos que difere da área por uma quantidade menor que qualquer quantidade dada. Para Pascal, os que não entendiam a razão desse procedimento possuíam, decerto, uma limitação ligada à falta de inteligência. [hahaha]” Tão pio em religião, tão pragmático em questões axiomáticas!

Ao contrário da exposição sintética da geometria euclidiana, que apresenta uma construção sem nos permitir perceber como ela foi obtida, a associação de grandezas geométricas a quantidades algébricas exibe o caminho percorrido para se chegar ao resultado. No exemplo, ainda que se tenha partido de teoremas geométricos, o resultado final foi obtido por meio de uma manipulação algébrica. Essa via era considerada por Arnauld e por outros matemáticos do século XVII a mais natural, em contraposição ao método axiomático de Euclides.”

Um dos primeiros a defender publicamente tal método foi o marquês de L’Hôpital, na obra que popularizou os métodos infinitesimais: Analyse des infiniments petits pour l’intelligence des lignes courbes (Análise dos infinitamente pequenos para a compreensão das linhas curvas), editada em 1696. No prefácio, L’Hôpital faz um histórico desse método, afirmando que Descartes foi o primeiro a deixar os antigos para trás, mas também cita Fermat, Barrow, Leibniz e Bernoulli.”

Jean Prestet condenava, por exemplo, a ausência de uma explicação sobre as operações aritméticas expostas nos Elementos de Euclides, dizendo que essa obra era inútil para um aprendiz de matemática.” “No final do século XVII e início do XVIII, o grupo do filósofo cartesiano, padre e teólogo francês Nicolas Malebranche, do qual Prestet fazia parte, disseminou essa postura na Academia de Ciências de Paris, contribuindo, assim, para a modernização da matemática francesa.”

Após ter estudado direito e filosofia, Leibniz participou, em 1672, de uma missão diplomática à corte de Luís XIV, na França, onde conheceu Christian Huygens. Antigo aluno de Descartes, Huygens trabalhava intensamente sobre séries e apresentou a Leibniz, até então praticamente ignorante em matemática, os trabalhos de Cavalieri, Pascal, Descartes, St. Vincent, J. Wallis e J. Gregory. Os métodos analíticos de Descartes e Fermat haviam motivado o estudo das propriedades aritméticas de séries infinitas na Inglaterra, sobretudo por Wallis, Gregory e Isaac Barrow. Esses pesquisadores resolviam com sucesso um grande número de problemas, como encontrar a tangente a uma curva, calcular quadraturas ou retificar curvas, e tiveram forte influência sobre Newton e Leibniz.

A maior novidade introduzida na matemática por Newton e Leibniz reside no grau de generalidade e unidade que os métodos infinitesimais adquiriram com seus trabalhos. Os matemáticos já tinham um enorme conhecimento sobre como resolver problemas específicos do cálculo infinitesimal, mas não se dedicaram a mostrar a generalidade e a potencialidade das técnicas empregadas. Além disso, esses problemas eram tratados de forma independente e as semelhanças entre os métodos não eram ressaltadas.”

nos trabalhos do fim do século XVII, o conceito de curva recobria 3 aspectos: a curva como expressão algébrica, eventualmente infinita; a curva como trajetória de um ponto em movimento; e a curva como polígono com número infinito de lados. Essas três concepções foram essenciais no desenvolvimento dos métodos infinitesimais, e Leibniz teve papel central nessa mudança. Depois de ler a geometria de Descartes, em 1673, ele considerou seu método de tangentes restritivo. Além de ser complicado, o procedimento não se aplicava a uma grande quantidade de curvas. Uma das principais contribuições de Leibniz foi justamente estender o domínio das curvas para além das algébricas, vistas por Descartes como as curvas da geometria por excelência.”

Com fórmulas simbólicas, Leibniz enunciou as regras para encontrar a derivada de somas, diferenças, produtos, quocientes, potências e raízes. Essas regras constituíam o algoritmo desse cálculo, que ele denominava diferencial.”

Com isso também pretendia mostrar que novos métodos eram necessários para estudar relações entre grandezas que não podiam ser tratadas com a álgebra ordinária, caso da relação de uma curva com sua tangente ou sua normal. Entrava-se, portanto, em um novo domínio da relação entre quantidades, o que, como veremos, contribuirá para o surgimento da idéia de função como relação entre quantidades.”

Em um artigo de 1694, ‘Considerações sobre a diferença que existe entre a análise ordinária e o novo cálculo dos transcendentes’, ele afirmou que seu método fazia parte de uma matemática geral que tratava do infinito e que, por isso, ele seria necessário se quiséssemos usar a matemática na física, uma vez que o infinito está presente na natureza.”

Um exemplo paradigmático é o estudo do pêndulo, feito por Huygens, que servia à relojoaria e envolvia a análise detalhada da ciclóide. Depois dos exemplos propostos por seu mentor, Huygens, Leibniz também foi motivado por estudos físicos desenvolvidos por Johann Bernoulli.”

PÊNDULO DE HUYGENS

No pêndulo simples, o tempo de oscilação (período) varia de acordo com a amplitude da mesma. No caso de pequenas oscilações, o período não se altera. Huygens construiu um pêndulo cujo período não se alterava com a amplitude da oscilação, ou seja, ele construiu um pêndulo isócrono. A importância de se construir um pêndulo com tal característica residia na possibilidade de obter cronômetros mais precisos para os relógios, principalmente cronômetros marítimos, pois o balanço dos navios alterava as amplitudes das oscilações.”

Foi Huygens o pai do opressor tempo moderno?

Dadas certas propriedades de uma curva, que podem ser propriedades infinitesimais, expressas como uma relação entre as coordenadas da curva, busca-se a curva. Um exemplo famoso é o da braquistócrona, proposto em 1696 por Johann Bernoulli. O desafio consistia em, dados dois pontos situados em um plano vertical, determinar o caminho entre eles ao longo do qual um corpo desce, pela ação da gravidade, no menor período de tempo. O problema atraiu a atenção de vários matemáticos, como Leibniz, Newton, L’Hôpital, Tschirnhaus e Jakob Bernoulli.”

Segundo Leibniz, sua primeira inspiração para a invenção do cálculo infinitesimal veio com a leitura do ‘Tratado dos senos do quarto de círculo’, escrito por Pascal em 1659. Baseado no modo como Pascal demonstrava um resultado sobre quadraturas, Leibniz criou o seu ‘triângulo característico’, uma ideia geral da qual se serviu diversas vezes e que nos ajuda a entender como Leibniz concebia o cálculo.”

como é possível entender e justificar a razão entre 2 quantidades que deixaram de existir? Esse tipo de consideração gerou inúmeras controvérsias sobre o estatuto dessas ‘quantidades infinitamente pequenas’. Alguns estudiosos viram nas grandezas não-atribuíveis de Leibniz um apelo a certas quantidades que estão entre a existência e o nada.”

Leibniz “inventou” a equação diferencial ao chegar a seu dy/dx = 2x.

tomemos um primeiro tipo de relação, as razões, sendo que para Leibniz razão era diferente de fração. Para ele, uma fração era a divisão de 2 números, logo, era 1 quantidade obtida pela divisão de 2 quantidades. Isto é, mesmo que seja verdade que as duas frações +1/-1 = -1/+1 são iguais, frações não são o mesmo que razões, ainda que estas sejam expressas por aquelas.”

Leibniz não chegou a enunciar desse modo, pois não propôs um conceito de função. Pode-se argumentar, no entanto, que ele já admitia que as quantidades devem estar em relação. Essa conclusão sugere que não é relevante investigar a justificativa dos infinitesimais, sendo mais instrutivo ressaltar que eles sempre aparecem em relação.” “Logo, essa relação não pode ser entendida como um quociente entre 2 quantidades infinitamente pequenas, não-atribuíveis ou evanescentes, o que seria contraditório com a impossibilidade de dividir 0 por 0.”

A riqueza da notação proposta por Leibniz é justamente ter introduzido o operador d, separando-o, ao mesmo tempo, da quantidade x à qual ele se relaciona e indicando a ligação com essa quantidade.

Como afirma Bos, não é sobre a diferencial, como objeto, que se funda o cálculo leibniziano, mas sobre a idéia de diferenciabilidade.¹ Daí a importância de se introduzir a expressão ‘diferenciar em relação a’, indicando a percepção clara de que a diferenciação é a noção central do cálculo, e não as diferenciais.”

¹ O Tite adoraria!

No final da década de 1660, isto é, antes mesmo do encontro entre Leibniz e Huygens, Newton já empregava procedimentos infinitesimais e, no início dos anos 1670, reformulou esses algoritmos na linguagem de ‘fluentes’ e ‘fluxões’.”

O livro Philosophiæ naturalis principia mathematica (Princípios matemáticos da filosofia natural), maior obra de Newton, não contém desenvolvimentos analíticos. Os resultados são apresentados na linguagem da geometria sintética. Esse formalismo euclidiano era considerado mais adequado para expor uma nova teoria. Como vimos, tal ponto de vista não era compartilhado por Leibniz, que, influenciado pelo contexto francês, pretendia fundar um cálculo universal baseado em ferramentas e algoritmos que deveriam constituir uma arte da invenção.”

Leibniz promoveu sua teoria e o uso dos infinitesimais como uma maneira de descobrir novas verdades. Já Newton, para fazer com que sua teoria fosse aceita, se preocupou em garantir uma continuidade histórica entre seus métodos e os dos antigos.

Essa diferença se reflete no estilo e na regularidade das publicações de ambos. Uma singularidade de Leibniz reside justamente no fato de publicar sem grandes receios de cometer equívocos, podendo rever suas posições em outros artigos. Por exemplo, em relação às justificativas para os métodos infinitesimais, algumas das quais já descrevemos, Leibniz possuía diferentes versões, muitas contraditórias entre si, não se importando tanto em manter uma coerência. Newton, ao contrário, talvez ciente da fragilidade dos novos procedimentos infinitesimais, trabalhava bem seus argumentos antes de torná-los públicos e considerava o padrão da geometria grega mais adequado para transmitir suas idéias.”

A partir de 1696, houve uma mudança importante no funcionamento da pesquisa matemática, pois, sob influência do grupo de Malebranche, a Academia passou a se organizar em classes, instaurando, pela 1ª vez, uma classe de matemáticos com postos de trabalho remunerados que atuavam somente como pesquisadores.” Cf. G. Schubring, ‘Aspetti istituzionali della matematica’

No caso do cálculo, a Academia se dividia entre um grupo mais tradicional, que declarava a superioridade dos métodos convencionais (incluindo Fermat e Huygens), e outro que defendia os novos métodos. Os ataques se dirigiam, principalmente, ao uso de quantidades infinitamente pequenas por L’Hôpital, mas também ao postulado relativo à definição da igualdade, admitido por ele e por Johann Bernoulli, com inspiração leibniziana.”

Na Inglaterra, o início do século XVIII testemunhou diversas críticas às quantidades infinitamente pequenas e aos métodos do cálculo. Uma das mais conhecidas foi formulada pelo filósofo George Berkeley, que publicou, em 1734, uma obra com um título que traduzimos para o português como: O analista ou um discurso endereçado a um matemático infiel. Na qual é examinado se o objeto, os princípios e as inferências da análise moderna são concebidos de um modo mais distinto, ou deduzidos de um modo mais evidente, do que mistérios religiosos e questões de fé.¹ Berkeley enumerava diversas definições e técnicas do cálculo que eram paradoxais e contradiziam a intuição, como a de eliminar quantidades infinitamente pequenas nas contas.”

¹ Que bobagem. Sabe de nada, inocente!

Tal proposta [do inglês McLaurin] influenciou o francês Jean le Rond d’Alembert a defender a substituição das quantidades infinitamente pequenas pelo método de limites, permitindo, contudo, a intervenção da álgebra.” “em sua acepção moderna, o limite é uma noção estática e não dinâmica (entendido como um número do qual é possível se aproximar indefinidamente).”

Essa definição é apresentada no verbete Différentiel, publicado em 1751 na Encyclopédie ou Dictionnaire raisonné des sciences, des arts et des métiers, de d’Alembert e Diderot. » Imaginei

A ENCICLOPÉDIA DE DIDEROT E D’ALEMBERT

A famosa Encyclopédie ou Dictionnaire raisonné des sciences, des arts et des métiers foi publicada na França entre 1750 e 1772, por Jean le Rond d’Alembert e Denis Diderot. Compreende 33 volumes e 71.818 artigos e contou com contribuições dos mais destacados personagens do Iluminismo, como Voltaire, Rousseau e Montesquieu. Trata-se também de um vasto compêndio das tecnologias do período, em que são descritos os avanços da Revolução Industrial inglesa e da ciência da época.”

Outras tentativas de elaborar o conceito de limite se sucederam nas décadas seguintes. Um exemplo da proeminência dessa discussão foi o prêmio oferecido, em 1784, pela Academia de Berlim para quem rejeitasse os infinitamente pequenos. O trabalho vencedor usava a linguagem dos limites. Ainda que muitos desses trabalhos tenham sido escritos na França, a defesa dos limites se encaixava mais no estilo inglês, influenciado por Newton. Ao passo que na Inglaterra os argumentos matemáticos associavam-se à mecânica, na França era mais comum apelar para a algebrização dos conceitos.”

Diferentemente do que as narrativas tradicionais sugerem, o desenvolvimento das idéias fundamentais do cálculo não se deu no interior da matemática, como consequência dos trabalhos de uma comunidade imbuída em aperfeiçoar as lacunas formais de modo cumulativo. Durante os séculos XVII e XVIII, os métodos infinitesimais se inseriam em um domínio amplo que incluía não só a matemática, mas também a filosofia e a física. Além disso, as discussões acerca de sua natureza e legitimidade são inseparáveis do ambiente institucional em que aconteciam.”

O que é uma variável? Como é possível representar simbolicamente uma variável? A noção de variável só foi introduzida formalmente no século XIX. Um passo fundamental para se chegar a esse conceito foi o nascimento da física matemática e a representação simbólica de uma quantidade desconhecida, proposta inicialmente por Viète mas desenvolvida no século XVII.”

DEFINIÇÃO DE FUNÇÃO NO CONTEXTO ESCOLAR

A definição de função encontrada com mais frequência nos livros de ensino médio é:

Dados dois conjuntos X e Y, uma função f : X Y é uma regra ou que diz como associar a cada elemento x X um elemento y = f(x) Y. O conjunto X chama-se domínio e Y é o contradomínio da função.” Não ajudou em nada!

O estudo da variação por meio de leis matemáticas se deve em grande parte ao desenvolvimento da física pós-Galileu. A idéia de uma variação em função do tempo é fundamental em seus trabalhos, onde já encontramos uma certa noção de função no sentido de uma associação entre 2 grandezas que variam, dada por uma proporção geométrica. Uma função pode ser vista justamente como uma relação entre 2 grandezas que variam.”

Apesar de terem pesquisado inúmeras relações funcionais, Leibniz e Newton não explicitam o conceito de função em suas obras. A falta de um termo geral para exprimir quantidades arbitrárias, que dependem de outra quantidade variável, motivou a definição de função, expressa pela primeira vez em uma correspondência entre Leibniz e Johann Bernoulli. No final do século XVII, Bernoulli já empregava essa palavra relacionando-a indiretamente a ‘quantidades formadas a partir de quantidades indeterminadas e constantes’. Tal concepção é a mesma que temos em mente quando associamos uma função à expressão f(x) = x + 2, por exemplo. Temos aí uma quantidade indeterminada x, que é suposta variável, e uma constante, no caso, 2.

Em uma resposta a Bernoulli, redigida em 1698, Leibniz discute qual seria a melhor notação para uma função. Nessa época, ele já havia introduzido os conceitos de constante e de variável, que se tornaram populares com a publicação do primeiro tratado de cálculo diferencial, por L’Hôpital em 1696. A definição explícita da noção de função com base nessa perspectiva só começou a ser delineada alguns anos mais tarde, em um artigo de Bernoulli apresentado em 1718 à Academia de Ciências de Paris em que ele diz o seguinte:

Definição. Chamamos função de uma grandeza variável uma quantidade composta, de um modo qualquer, desta grandeza variável e de constantes.

No mesmo artigo, ele usa a letra grega φ para representar a característica da função, ou seja, o nome da função, escrevendo o argumento sem os parênteses: φx. Bernoulli não diz mais nada sobre o modo de constituir funções a partir da variável independente, mas o que ele tem em mente são as expressões analíticas de curvas.

Os primeiros passos para que o cálculo infinitesimal pudesse ser reconstruído com base na análise algebrizada foram dados por um pupilo de Johann Bernoulli, Leonard Euler. Apesar dessa proximidade entre eles, os livros de ambos diferem bastante em estilo. Ao passo que o primeiro privilegiava problemas geométricos e mecânicos (como vimos no caso da braquistócrona), o segundo pretendia se restringir à análise pura, sem recorrer a figuras geométricas para explicar as regras do cálculo. Foi com Euler que o cálculo passou a ser visto como uma teoria das funções, tidas como algo diferente de curvas. A idéia de que a análise matemática é uma ciência geral das variáveis e de suas funções exerceu grande influência sobre a matemática do século XVIII, a partir da publicação de sua Introductio in analysin infinitorum (Introdução à análise infinita), editada em 1748.”

Uma quantidade variável compreende todos os números nela mesma, tanto positivos quanto negativos, inteiros e fracionários, os que são racionais, transcendentes e irracionais. Não devemos excluir nem mesmo o zero e os números imaginários.”

Nessa época, supunha-se, implicitamente, que todas as funções pudessem ser escritas como uma série de potências da forma A + Bz + Cz² + Dz³+ …, ainda que fosse preciso considerar expoentes dados por qualquer número (e não apenas por números inteiros).”

A profissão de fé dos matemáticos da época, que identificavam a função à sua expressão analítica, começou a ser questionada ainda no século XVIII, no contexto de um problema físico que faria intervir uma definição mais geral de função. Trata-se do ‘problema das cordas vibrantes’, que estuda as vibrações infinitamente pequenas de uma corda presa por suas extremidades. Uma corda elástica com extremidades fixas 0 e l é deformada até uma certa forma inicial; em seguida a soltamos. A corda começa a vibrar e o problema em questão é determinar a função que a forma da corda descreve em um instante t.”

Já era sabido, na época, que os sons musicais, em particular os gerados pelas vibrações de uma corda, são compostos de freqüências fundamentais e de harmônicos. Essas vibrações podem ser expressas, portanto, como somas de funções trigonométricas, que são periódicas. Baseado nessa evidência, Daniel Bernoulli [filho de Johann] afirmou que a posição inicial de uma corda vibrante pode ser representada por uma série infinita de termos trigonométricos, que deve ser considerada tão geral quanto uma série de potências. Isso implica que uma função qualquer possa ser representada por uma série trigonométrica, mas Daniel Bernoulli estava mais interessado no problema físico e não chegou a propor uma nova definição de função com base nessa hipótese.”

Tais funções eram denominadas descontínuas. A continuidade de Euler era uma noção muito distinta da atual, pois se relacionava à invariabilidade da expressão analítica que determina a curva. Se a curva era expressa por apenas uma equação em todo o domínio dos valores da variável, ela era contínua. Ela era descontínua se, ao contrário, fosse necessário mudar a expressão analítica que exprime a curva quando passamos de um domínio a outro das variáveis.”

O problema das cordas vibrantes permaneceu confinado a tratados acadêmicos e não chegou a ser apresentado em livros-textos até o final do século XVIII. Do mesmo modo, o debate sobre o conceito de função não teve muita repercussão nesse século e definições mais gerais só surgiriam bem mais tarde.”

É intrigante, por exemplo, que a história da algebrização da análise salte de Euler a Lagrange diretamente, uma vez que o primeiro não atuava na França. O citado livro de Gert Schubring foi o primeiro estudo histórico a focar os fenômenos de recepção e circulação dos escritos relacionados à análise no século XVIII. Apesar de a obra de Schubring abordar diferentes contextos nacionais, nos restringiremos à parte que remete à situação francesa, uma vez que nosso objetivo é bem mais específico: entender como, entre Euler e Lagrange, a análise algebrizada se tornou uma abordagem hegemônica.”

A matemática e a química, sob a égide do método analítico, tornaram-se as disciplinas principais, responsáveis por disseminar os ideais de racionalidade então valorizados. Muitos matemáticos importantes viviam na França, como Lagrange, Laplace, Legendre e Monge, mas não tinham a função de ensinar. Na época pré-revolucionária, a instrução matemática ocupava um lugar marginal e carecia de professores qualificados. Essa disciplina constava do currículo do último nível do Collège (instituição de ensino secundário), fora do alcance da maioria dos alunos, que saíam da escola antes de atingir esse nível. A partir de 1750, foi estabelecido um segundo sistema educacional nas escolas militares que valorizava a matemática e atraía estudantes hábeis, porém, o recrutamento de alunos só abrangia a nobreza.”

Depois da Revolução Francesa, alterou-se significativamente o perfil da sustentação financeira da pesquisa científica, até então beneficiada pela benevolência de patronos e reis. Os novos cientistas – pertencentes a uma classe média crescente – precisavam de suporte institucional, o que impulsionou a criação de novos postos de trabalho. Além disso, a idéia de que a formação científica podia ser útil à nação era cada vez mais aceita, tanto para a expansão da indústria como para o aperfeiçoamento da força militar, consciência que levou à criação de novas escolas e departamentos científicos. Em 1794, foi fundada a École Polytechnique, dedicada à formação de engenheiros e cientistas. Foi nesse contexto que Lagrange e Lacroix produziram livros-textos que se tornaram ferramentas cruciais para o ensino superior da matemática, formando gerações de matemáticos de peso, como o próprio Cauchy. Essas instituições públicas geraram uma inédita padronização do currículo que tinha no método analítico, praticado pela matemática e pela química, seu principal elemento. No contexto mais geral, na tradição do racionalismo, esse método já havia sido defendido pelo filósofo iluminista francês Étienne Bonnot de Condillac. Na matemática, a abordagem algébrica da análise podia vencer o conceito sintético (geométrico) das quantidades infinitamente pequenas.

Especialmente depois da queda de Robespierre, em 1794, um grupo de filósofos chamados idéologues (ideólogos) passou a determinar a política para a educação e a ciência. Depois dos ataques de Arnauld e Prestet aos métodos sintéticos de Newton, as críticas foram renovadas por esse grupo, que assumiu o programa dos malebranchistas e instituiu o método analítico como orientação predominante. Em um jornal dos idéologues publicado em 1794, lemos que ‘esse método deve ser, sem dúvida, fundado na análise … é somente por meio da análise que podemos penetrar com segurança no santuário da ciência’. O método analítico permitia descobrir novas verdades, ao passo que o sintético era longo e obscuro. A química também passou a operar com símbolos, e Lavoisier se baseou na filosofia analítica de Condillac para desenvolver seus trabalhos. Essa possibilidade de expressá-la em uma linguagem simbólica permitiu novas descobertas, provando a fecundidade da análise.”

A recepção de Euler seguiu um curso contraditório ao papel atribuído a ele pela historiografia hoje, conforme nos mostra Schubring. Um número considerável de matemáticos lia seus trabalhos, em diferentes países, mas a maioria adotava somente alguns de seus resultados pontuais e não suas posições sobre os fundamentos da matemática. Euler não tinha relação com um sistema de ensino e suas obras eram direcionadas para um público mais acadêmico.”

O curso inaugural de análise da École Polytechnique foi ministrado em 1795 por Gaspard Riche de Prony, engenheiro que tinha grande estima pela matemática. Apesar de seu curso, que foi publicado mais tarde, dedicar-se à análise aplicada à mecânica, ele se baseava, fundamentalmente, nos 2 primeiros capítulos da Introductio de Euler e adotava seus métodos e sua notação. Como consequência, seu texto é o primeiro na França a defender o conceito de função como objeto central da análise. O rompimento com a tradição se exprimia pela exclusão dos infinitamente pequenos.

A radicalidade de um outro movimento, capitaneado por Lagrange, se revela já no título de sua principal obra, publicada em 1797: Théorie des fonctions analytiques, contenant les principes du calcul différentiel, dégagés de toute considération d’infiniments petits, d’évanouissants, de limites et de fluxions, et réduits à l’analyse algébrique des quantités finies (Teoria das funções analíticas, contendo os princípios do cálculo diferencial, livres de qualquer consideração de infinitamente pequenos, evanescentes, limites e fluxões, e reduzidos à análise algébrica de quantidades finitas). Vemos aí uma vontade explícita de liberar a matemática das noções ambíguas de infinitamente pequenos e quantidades evanescentes, usadas por Leibniz, bem como das ‘fluxões’, quantidades variáveis usadas por Newton.

Lagrange fazia parte de uma segunda geração de analistas do século XVIII. Iniciou sua atividade nos anos 1770, quando já se preocupava com a questão dos fundamentos. Contudo, seu programa de algebrização dos métodos da análise só foi construído nos anos 1795-6, durante seus cursos de análise na École Polytechnique, quando as diferenciais passaram a ser definidas diretamente pela expansão de uma função em séries.”

Lagrange criticou até mesmo algumas concepções de d’Alembert e Euler sobre os fundamentos. A função era dada por uma fórmula analítica finita, mas que podia ser representada por uma série de potências, como a descrita acima, que já tinha sido definida pelo inglês B. Taylor no início do século XVIII.”

Desde os primeiros anos da École Polytechnique, a produção de livros-textos se tornou uma atividade significativa, uma vez que o conhecimento não se destinava mais somente às classes privilegiadas. Os livros sobre cálculo diferencial e integral tinham em comum a rejeição dos infinitamente pequenos e a defesa da concepção algébrica. Ainda em 1797, foi publicado o 1º volume de um livro de S.F. Lacroix, Traité du calcul différentiel et du calcul integral (Tratado do cálculo diferencial e integral), que contribuiu para difundir as novas ideias sobre a análise. Os 2 outros volumes saíram em 1798 e 1800. Em 1803, essa obra ganhou uma versão resumida, voltada para o ensino, reeditada várias vezes na França e traduzida em outros países.” “O uso do símbolo f para representar funções em geral também foi proposto nesse tratado.”

Na sua Méchanique analytique (Mecânica analítica), de 1788, Lagrange já afirmava que a mecânica deve ser vista como uma parte da análise matemática, podendo prescindir de figuras ou de qualquer consideração geométrica. Ou seja, a análise matemática, identificada à análise algebrizada, pode se aplicar à geometria ou à mecânica, mas deve ser cultivada como um ramo distinto, com seus próprios fundamentos.”

o problema original do cálculo, que era analisar matematicamente a variação sobre curvas, foi dando lugar ao estudo de fórmulas. Como a álgebra, a análise lidava com fórmulas e seus teoremas eram provados por meio de cálculos com essas fórmulas.”

Essa confiança no formalismo decorria do sucesso dos métodos analíticos, e a generalidade da matemática, uma qualidade cara aos analistas, era assegurada pela generalidade dos métodos algébricos. Isso significa dizer que esses métodos operavam sobre objetos algébricos e sua generalidade era derivada da generalidade das fórmulas da álgebra. Logo, se uma demonstração era feita por meio de tais fórmulas, o resultado era admitido como válido em geral. Não havia sequer a necessidade de tecer especulações associadas ao domínio da aplicação das técnicas.

Essa crença na ‘generalidade da álgebra’ será criticada no século XIX, inicialmente por Cauchy. As pesquisas que ajudaram a desenvolver uma nova visão sobre o cálculo diferencial durante esse século tinham como motivação, segundo alguns historiadores, fundar a matemática sobre bases rigorosas. Essa interpretação pressupõe que os analistas do século XVIII não se importavam com o rigor de seus trabalhos. Mas Euler e Lagrange, só para dar 2 exemplos, foram responsáveis justamente por transformar o cálculo diferencial e integral de Leibniz e Newton com o fim de liberar esse cálculo de argumentos injustificados. Dito de outro modo, ao procurar fundar o cálculo em bases mais sólidas e esclarecer seus conceitos fundamentais, diversos matemáticos do século XVIII tinham na busca do rigor sua motivação.”

No século XIX, no entanto, a noção de função será discutida, em um primeiro momento, com relação a um problema físico: o estudo da propagação do calor. O programa de ensino e o corpo de professores da École Polytechnique foram expandidos em 1796 e criou-se um curso de análise algébrica como introdução ao cálculo, já que, do ponto de vista da escola, não se podia confrontar os alunos diretamente com as ferramentas desse campo da matemática – isto é, os estudantes precisavam ser nivelados para acompanhar o aprendizado de análise. A criação desse novo curso foi atribuída ao matemático e físico francês Jean-Baptiste Joseph Fourier, que teria um papel fundamental na discussão sobre o conceito de função.

Os trabalhos de Fourier sobre a teoria da propagação do calor datam dos primeiros anos do século XIX e estão associados à redefinição do conceito de função. Tratamos de seus métodos ainda neste capítulo para enfatizar que seus estudos partiam de um problema físico: saber como o calor se propaga em uma massa sólida, dadas certas condições iniciais. Quando o calor é desigualmente distribuído em diferentes pontos da massa sólida, ele tende a se colocar em equilíbrio e passa lentamente das partes mais quentes às menos quentes, como se estivesse em um tubo que atravessa perpendicularmente as curvas de mesma temperatura sobre a superfície sólida. Seguindo um raciocínio físico, ele deduzia que a difusão de calor é governada por uma equação diferencial parcial.”

Ao fornecer a solução de um problema considerando somente um intervalo, ou definir uma função somente em um intervalo, Fourier apresentava um recurso inovador em relação à definição da função pela sua expressão analítica. Nesse caso, uma função era determinada automaticamente se a expressão analítica estivesse bem-estabelecida. Não era necessário prestar atenção ao domínio de definição da função; aliás, sequer existia essa noção de domínio. Essa e outras definições desse tipo, que nos são bastante familiares, começaram a aparecer nesse momento, mas só se desenvolverão com o estudo dos conjuntos numéricos.”

Até os anos 1820, as séries de Fourier eram vistas com desconfiança, pois contradiziam a concepção aceita sobre a natureza das funções. A razão dessa desconfiança não advinha tanto do fato de ele enxergar a soma de uma série de potências como uma função – isso estava de acordo com os padrões da época – e sim de afirmar que uma função qualquer pode ser representada por uma série trigonométrica. Ora, isso implicava dizer que a função era algo mais do que a sua representação. Ou seja, implicava dizer que existe um objeto que é a função e que esse objeto pode ser representado por uma série. A expressão analítica, nesse caso, não seria a função.”

suas soluções representavam fenômenos físicos com precisão e não podiam simplesmente ser descartadas. Se o método funcionava, era interessante investigar por quê.

Para além de exemplos específicos, Fourier não demonstrou realmente que uma função qualquer pode ser representada por uma série trigonométrica em um intervalo. Ou seja, mesmo em um intervalo restrito, não havia uma demonstração satisfatória de que essa série convergisse para a função. Quem daria continuidade ao trabalho de Fourier nessa direção seria o matemático alemão Gustav Lejeune Dirichlet, em 1829”

No meio francês, os matemáticos, sobretudo Lagrange, estavam convencidos de que as séries de Fourier não convergiam. Para tentar persuadi-los, Fourier fez alguns experimentos comparando as predições de seu modelo matemático com fenômenos efetivamente observados.

O problema do fluxo de calor interessava a muitos pesquisadores da época, e, em 1811, houve um concurso da Academia para escolher a melhor explicação sobre o tema. Fourier ganhou o prêmio e começou a escrever um livro com o fim de difundir suas idéias. A obra Théorie analytique de la chaleur (Teoria analítica do calor) foi publicada em 1822 e Fourier passou a ocupar um lugar de destaque na cena matemática francesa. Nesse livro encontramos uma definição mais geral do termo ‘função’, freqüentemente citada nos textos sobre a história dessa noção:

Em geral, a função fx representa uma sucessão de valores, ou ordenadas, cada um dos quais é arbitrário. Uma infinidade de valores sendo atribuídos à abscissa x, existe um número igual de ordenadas fx. Todas têm valores numéricos atuais, ou positivos, ou negativos, ou nulos. Não se supõe que essas ordenadas estejam sujeitas a uma lei comum; elas se sucedem uma à outra de um modo qualquer, e cada uma delas é dada como se fosse uma única quantidade.”

pode acontecer, em tese, de a função ter valores infinitos, mas se os valores da abscissa estiverem compreendidos entre limites bem-determinados, é impossível que ‘uma questão natural conduza a supor que a função fx se torne infinita’.

Fourier não subscrevia a profissão de fé dos matemáticos do século XVIII de que uma função se identificava à sua expressão analítica. Para ele, 2 funções dadas por expressões analíticas diferentes podem coincidir em um intervalo sem coincidir fora dele. Vemos, assim, que sua definição de função é mais geral do que a usada anteriormente, sobretudo por não desconsiderar a lei que governa o modo como a ordenada depende da abscissa.”

Portanto, o termo ‘atual’, usualmente esquecido nas histórias sobre a noção de função, é essencial na definição de Fourier, que não considerou, efetivamente, funções arbitrárias.(*) Vale lembrar que essa definição não possui nenhum destaque no texto; surge embaralhada no meio de resultados físicos sobre a propagação do calor que envolvem a integração de equações diferenciais.

(*) As funções empregadas por ele são as que diríamos, hoje, ‘contínuas por partes’.

A teoria de Fourier superará as desconfianças e ganhará grande destaque no século XIX. O problema da convergência das séries trabalhado por ele será abordado por Cauchy em 1826. Esse trabalho continha algumas falhas, o que levou Dirichlet a escrever um artigo sobre o tema 3 anos depois com uma boa demonstração, segundo seus critérios, da convergência das séries de Fourier.

Os problemas físicos tratados geometricamente por meio do cálculo no final do século XVII continuaram a ocupar um papel de destaque no século seguinte. A competição entre os métodos de integração de Newton e Leibniz teve grande impacto na Academia de Ciências de Paris a partir de meados dos anos 1730, graças, principalmente, ao estímulo de Pierre-Louis Maupertuis. Diante da urgência de resolver problemas específicos de natureza físico-matemática, ficava em segundo plano a discussão filosófica, como a que existia entre cartesianos e newtonianos. Assim, a teoria newtoniana sobre a forma da Terra ganhou popularidade na França nos anos 1730 e as discussões a esse respeito moldaram a física matemática francesa. Ao mesmo tempo, os debates sobre o princípio da mínima ação, influenciados por Leibniz, eram intensos nos anos 1730-40, envolvendo contribuições de Maupertuis e d’Alembert.

Ainda que tenha sido escrito anteriormente em latim, o Método das fluxões e séries infinitas, de Newton, foi publicado em inglês em 1736 e traduzido por Buffon para o francês em 1740. Nesse momento, o pensamento newtoniano tornou-se bastante popular na França. A visão sobre a física implícita nessa obra, bem como nos trabalhos sobre o cálculo infinitesimal, implicava que as variáveis e os coeficientes descritos pelas funções se relacionavam de modo vago com a realidade das leis da natureza. Para Buffon, o uso da análise tornava os princípios físicos opacos ao entendimento. Uma equação como a da queda livre, que associa a posição de um corpo ao tempo transcorrido na queda, era uma imagem direta da lei natural que rege esse fenômeno, ou seja, exprimia sua causa física. No entanto, as séries infinitas, principal ferramenta do cálculo, não podiam ser compreendidas como uma soma de causas físicas, o que foi criticado por Buffon em um intenso debate com Clairaut. Para mais detalhes, ver J. Dhombres, ‘The mathematics implied in the laws of nature and realism, or the role of functions around 1750’.

Motivada pelo pensamento newtoniano, como também por pesquisas francesas, uma comunidade singular de física matemática começou a se desenvolver na França nessa época. Outras influências, como a de Euler, a partir dos 1740, além da invasão de farta literatura de outros países, ajudaram a formatar o seu estilo. Esse processo culminou com o papel preponderante que Laplace adquiriu a partir dos anos 1770, somado à transferência de Lagrange de Berlim para Paris, em 1787. Paris se tornava, assim, o centro da física matemática européia. Inicialmente, as pesquisas continuaram a versar sobre os mesmos problemas tratados anteriormente: a teoria sobre a forma da Terra; questões ligadas à estabilidade do Sistema Solar, entre elas o dos três corpos e a teoria da Lua; além de problemas de dinâmica, como o estudo do movimento, da conservação da energia e do princípio de mínima ação.”

A física precisava lidar com séries infinitas, pois os fenômenos eram descritos por equações diferenciais e as soluções dessas equações eram dadas por séries infinitas. Uma função era escrita como uma série e não interessava explicar sua forma em termos de causas físicas, já que ela permitia descrever a evolução do fenômeno. O poder da álgebra fazia com que fosse menos necessário para uma fórmula representar a realidade do que possibilitar um cálculo.

Aos poucos, percebeu-se que vários fenômenos físicos podiam ser descritos por equações diferenciais análogas, e o problema de deduzir e resolver as equações que descrevem os fenômenos tomou o lugar da explicação física. Na segunda metade do século XVIII, a elaboração da mecânica analítica transformou a física matemática de um saber geométrico em um saber analítico. Para Lagrange, por exemplo, a mecânica era um ramo da análise. Isso não aconteceu com o estudo dos fenômenos naturais em geral – muitos continuaram a possuir métodos próprios e a investigar os princípios por meio de ferramentas matemáticas variadas.”

Para que a atração pudesse ser concebida como uma força, seria necessário identificar os traços manifestos que a exprimem. Se afirmamos que um planeta gira em torno do Sol graças a uma força, precisamos mostrar como o Sol se liga a esse planeta, do contrário, supõe-se que deva ser dotado de um motor. Newton hesitava sobre a resposta a essa questão. Sua obra mais importante, Princípios matemáticos da filosofia natural, publicada originalmente em 1687, ganhou um acréscimo em sua 2ª edição, de 1713, denominado Escólio Geral, no qual encontramos um comentário que busca responder às críticas recebidas:

Mas até aqui não fui capaz de descobrir a causa dessas propriedades da gravidade a partir dos fenômenos, [e ninguém jamais irá!] e não construo nenhuma hipótese; pois tudo que não é deduzido dos fenômenos deve ser chamado uma hipótese; e as hipóteses, quer metafísicas ou físicas, quer de qualidades ocultas ou mecânicas, não têm lugar na filosofia experimental.”

hypotesis non fingo (…) Para se livrar do problema proposto por Leibniz, Newton argumentou que não vale a pena pesquisar a causa da gravitação.” “Entendida como uma lei, ela pode ajudar a descrever os fenômenos, e isso basta, ou seja, não precisamos nos preocupar com as questões relativas à causa da gravitação. Essa resposta, aperfeiçoada no século XVIII, exclui as questões sobre a causa e a natureza física da atração. Assim, a filosofia experimental deve tratar somente das propriedades manifestas; já as qualidades físicas podem ser negligenciadas em favor de quantidades e proporções matemáticas.”

Foi a partir do século XVIII que a lei de atração universal passou a ser concebida como um fato científico independente de sua natureza. Esse tipo de investigação abre mão do porquê para investigar somente como os fenômenos acontecem. Koyré apresentou uma avaliação negativa dessa transformação: ‘O pensamento do século XVIII se reconcilia com o inexplicável.’Bobão!

Esse quadro foi estabelecido no século XVIII e as pesquisas sobre a estabilidade do Sistema Solar fornecem um exemplo perfeito desse ponto de vista. Tais estudos partiam do problema de Newton: como garantir que a atração não perturbe a trajetória dos corpos em torno do Sol? Na descrição kepleriana, a órbita de cada planeta em torno do Sol deveria ser elíptica, considerando apenas a interação entre esse planeta e o Sol. Mas, com o uso da lei de atração universal para descrever todos os movimentos do Sistema Solar, passamos a ser forçados a considerar a perturbação causada pela atração dos outros corpos. No Escólio Geral, Newton acrescentou: ‘Este magnífico sistema do Sol, planetas e cometas poderia somente proceder do conselho e domínio de um Ser inteligente e poderoso.’Shut up, fool!

Contra essa necessidade da intervenção de um Deus que salvaguardasse a estabilidade do Sistema Solar se dirigiram inúmeras críticas, a começar por Leibniz, que acusou o Deus de Newton de funcionar como um relojoeiro responsável por recolocar regularmente a máquina do Universo em funcionamento.”

Laplace lamentava que Newton não tivesse enxergado todo o poder de suas leis, e isso se devia à utilização da geometria sintética. Para devolver ao sistema newtoniano sua vocação explicativa, era fundamental traduzi-lo por meio das ferramentas da análise matemática, ‘esse maravilhoso instrumento sem o qual seria impossível penetrar em um mecanismo tão complicado em seus efeitos quanto em suas causas’ (Laplace, Exposition du système du monde). A formulação analítica do problema da estabilidade e sua demonstração eram elementos cruciais para atestar a legitimidade da concepção do Universo conforme descrito por leis matemáticas. Lagrange e Laplace exprimiram esse problema em termos de séries infinitas obtidas como solução de equações diferenciais.”

A síntese geométrica tem a propriedade de não deixar que se perca de vista o seu objeto e de clarear todo o caminho que conduz dos primeiros axiomas às suas últimas consequências; ao passo que a análise algébrica nos faz logo esquecer o objeto principal para nos ocuparmos de combinações abstratas. … Tal é a fecundidade da análise; basta traduzir nessa língua universal as verdades particulares, para ver sair de suas expressões uma multidão de novas e inesperadas verdades. Nenhuma língua é tão suscetível de elegância.” L.

Dessa forma, o critério para considerar uma explicação aceitável de um fenômeno físico (como o da gravitação) deixava de ser mecânico e passava a ser matemático. Se fosse possível obter uma formulação matemática de um fenômeno, ainda que não se soubesse sua causa física, devia se prosseguir na investigação por meio da equação.”

Deduzindo das fórmulas as conseqüências mais sutis e mais distantes dos princípios e testando-as por meio de experimentos, pode-se verificar, realmente, se uma teoria é falsa ou verdadeira. Sendo assim, o método da ciência experimental passou a se basear na matemática e na física e a experiência adquiriu o papel de mera verificação de uma teoria, ao passo que a explicação foi identificada à fórmula matemática. Essa mudança teve conseqüências na física do século XIX, principalmente na separação da pesquisa matemática em relação aos problemas físicos que tinham exercido um papel central no desenvolvimento do cálculo infinitesimal.”

De modo similar, essa narrativa tradicional enxerga a construção dos diferentes conjuntos numéricos a partir de extensões sucessivas: primeiro os naturais, depois os inteiros, os racionais, os reais e os complexos. Mas essa construção, embora didática, não possui fundamento histórico, além de fornecer uma imagem da evolução da matemática tal qual um edifício estruturado, erigido sobre bases sólidas. A constituição da noção de rigor, ora vigente, está ligada à história da análise matemática. Na maioria dos livros que tratam do tema, as práticas dos analistas do século XVIII aparecem como inconsistentes em comparação com a análise moderna, desenvolvida a partir de Cauchy. Dentro desse espírito, chega-se a afirmar que, na virada do século XVIII para o XIX, os matemáticos começaram a se preocupar com a inconsistência dos conceitos e provas de amplos ramos da análise e resolveram colocar ordem no caos. (…) Essa mistificação gera sérias conseqüências no modo como noções básicas da matemática nos são apresentadas até hoje – caso da definição de funções e de números por meio do conceito de conjunto.”

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Cohen, The Scientific Revolution: a Historiographical Inquiry

Corry, The history of modern mathematics: writing and rewriting

Cuomo, Pappus of Alexandria and the Mathematics of Late Antiquity

Fowler, The Mathematics of Plato’s Academy: A New Reconstruction

Gonçalves, A história da história da matemática antiga

Høyrup, ‘The formation of a myth: Greek mathematics – our mathematics’ (art.)

Knorr (o professor que dá um caldo, cof, cof…), The Evolution of the Euclidean Elements, 1975 (tese de doutoramento).

Netz, The history of early mathematics: ways of re-writing

Nobre, Introdução à história da história da matemática: das origens ao século XVIII

Rashed, Al-Khwarizmi: Le commencement de l’algèbre

Struik, The historiography of mathematics from Proklos to Cantor

AFTER BABEL: Aspects of Language and Translation – George Steiner, 1975.

Noam Chomsky has been generous in expressing his disagreements in private communication (an exchange of views is included in my earlier book, Extraterritorial: Papers on Literature and the Language Revolution).”

Ningún problema tan consustancial con las letras y con su modesto misterio como el que propone una traducción.”

J.L. BORGES, Las versiones Homéricas, Discusión, 1957

La théorie de Ia traduction n’est donc pas une linguistique appliquée. Elle est un champ nouveau dans Ia théorie et Ia pratique de Ia littérature. Son importance épistémologique consiste dans sa contribution à une pratique théorique de l’homogénéité entre signifiant et signifié propre a cette pratique sociale qu’est l’écriture.”

HENRI MESCHONNIC, Pour la poétique II, 1973

I. UNDERSTANDING AS TRANSLATION

Shakespeare, Cymbeline, Ato II

Is there no way for man to be, but women

Must be half-workers? We are all bastards”

“Não poderia prosseguir a espécie humana sem

a cópula? Por que há de participar a mulher?”

REMÉDIO SECULAR

O chifre tem propriedades terapêuticas. Pois não é que cada cabra macho já nasce com o remédio de seus males autocriado(s)?

Corta teu chifre, queima-o e espalha as cinzas

Para se vingar…

Do chifre e do remédio.

O vengeance, vengeance!

Me of my lawful pleasure she restrain’d(*),

And pray’d me oft forbearance: did it with

A pudency so rosy, the sweet view on’t(*)

Might well have warm’d old Saturn(*); that I thought her

As chaste as unsunn’d snow(*). O, all the devils!

This yellow Iachimo, in an hour, was’t not?

Or less; at first? Perchance he spoke not, but

Like a full-acorn’d boar, a German one,

Cried <O!> and mounted; found no opposition

But what he look’d for should oppose and she

Should from encounter guard. Could I find out

That woman’s part in me–for there’s no motion

That tends to vice in man, but I affirm

It is the woman’s part: be it lying, note it,

The woman’s: flattering, hers; deceiving, hers:

Lust, and rank thoughts, hers, hers: revenges, hers:

Ambitions, coverings, change of prides, disdain,

Nice longing, slanders, mutability;

All faults that name, nay, that hell knows, why, hers

In part, or all: but rather all. For even to vice

They are not constant, but are changing still;

One vice, but of a minute old, for one

Not half so old as that. I’ll write against them,

Detest them, curse them: yet ‘tis greater skill

In a true hate, to pray they have their will:

The very devils cannot plague them better.”

“Ah, vingança, vingança!

Do meu direito natural ela me desposou,

E rogou ilimitadas vezes: Tem misericórdia,

Com uma pudicícia tão rósea-roseta,

Um olhar tão doce inocente

Que derreteria até o velho Tempo;

Até pensei nela casta como

neve tapada. Ah, pelos Diabos!

Juan O Íntegro, esse galinha, num instante

No primeiro encontro? Talvez tenha-

Lhe metido sem sequer trocarem cumprimentos

Como com um leitão alemão,

Montou em cima com um grito;

E a montaria não se rebelou,

E como foi que a porta ele arrombou

do celeiro? poderia eu entender o que se passa

na cabeça da mulher? — porque de homem se tratando

não há o que nos force a comer do fruto proibido,

a não ser uma Eva em nossas vidas, aquela

campeã na arte de mentir na horizontal;

bajular, enganar; ceder à luxúria, cobiçar,

coisa de mulher: ah, e se vingar;

Ambições, dissimulações, véus de orgulho e desdém,

Paciência para esperar o momento de pecar;

escândalo, volubilidade;

Todos os pecados que, só deus sabe, só recaem,

Ou maior parte, nelas: Porque nem no vício

São elas tão constantes, mas é tudo imprevisível;

Um vício, um capricho de um minuto,

logo é trocado, por um bem mais no-viço.

Deteste-as, amaldiçoe-as: qu’importa! se elas são

especialistas nesse tipo de rancor,

sempre se acham com a razão:

nem demônios praguejam como elas!”

COMENTÁRIOS DOS (*)

“Lawful pleasure” pode ter ou não uma conotação sexual. Mas decerto é patriarcal – e não seria menoscabar o problema tratá-la como “mera questão jurídica”?

Pudicícia, rosada, doce… Todo o sintagma é carnal, erótico… Uma rosa, um botão de rosa, é tão inocente… Até ser deflorado… A virgem é pueril, não mente, até enrubescer, e o que seria a rosa que não é pálida? Talvez alguém que se envergonha de si própria, que se percebe, finalmente, complexa, mentirosa… A mesma cor da paixão e do imprevisível. “Roseta” lembra buceta, quem vê cara não vê genital… Pau-dora, origem do mal. A etimologia da palavra não engana os portugueses, só os lúbricos brasucas… Pau-pra-toda-obra. Doce pode ser gosto ou cheiro, para o heterossexual a buceta emana olores eflúvios e é apetitosa, quanto mais inutilizada ela é. A pudica na verdade é uma piranha (inconsciente), é isso que William na boca de Póstumo (nome sugestivo) quer dizer.

O irônico é que se eu estivesse a ver coisas (safadeza) em cada versostrofe, Shakespeare não mexeria (shake) com o leitor e seus sentimentos com tanta freqüência, sem respiro: Zeus, o mulherengo do Olimpo, que destronou o Pai-Tempo, que era outro mulherengo, todos eles vira-e-mexe sacaneados por mulheres… A que vem essa citação aqui? Warm é tão ambíguo quanto o róseo, pode ser enternecer, amolecer, como justamente o oposto excitar, entesar. O fato é que a mulher quebra o deus, preferi o derreter. Curva-o, com suas curvas, e aquele olhar. E olha que ele é o próprio Cronos, que anda com o ponteiro, e já viu de tudo nesse mundéu… Que sensação cruel.

Já que ela é inocente, posso dizer que é uma tapada. Uma neve tapada, recoberta, sem acesso ao Sol (deus Apolo, um pouco de razão na vida de Zeus, digo, do Pai mulherengo). Mas só assim para ser fria e glacial, impiedosa na hora de machucar… De novo aquilo da neve branquinha. A rosácea não!

Iachimo é Giacomo, o James bíblico. Também significa “complementador”, “reparador”, daí o epíteto “íntegro”. Porém, como nesta estória ele vem para galantear a mulher dos outros, é Juan e não James! Amarelo quer dizer literalmente “galinha” em Inglês.

Quanto aos outros quatro quintos, foram muito mais fáceis; se não é Eva o protótipo de tudo o que Póstumo falou, mato-me eu!

* * *

O poder do editor é de Thor!

I am quoting from the Arden edition of the play by J.M. Nasworthy. His version of Posthumus’s speech embodies a sum of personal judgement, textual probability, and scholarly and editorial precedent. It is a recension which seeks to gauge the needs and resources of the educated general reader of the mid-twentieth century. It differs from the Folio in punctuation, line-divisions, spelling, and capitalization. The visual effect is markedly different from that achieved in 1623.” “A first step would deal with the meaning of salient words – with what that meaning may have been in 1611, the probable date of the play. Already this is a difficult step, because current meaning may not have been, or have been only in part, Shakespeare’s. In short how many of Shakespeare’s contemporaries fully understood his text? An individual and a historical context are both germane [pertinentes].”

One might begin with the expressive grouping of stamp’d, coiner, tools, and counterfeit. Several currents of meaning and implication are interwoven. They invoke the sexual and the monetary and the strong, often subterranean links between these two areas of human will.” “The meshing of adulteration with adultery would be characteristic of Shakespeare’s total responsiveness to the field of relevant force and intimation in which words conduct their complex lives.”

Seu destino está selado, e ele é uma carta prestes a ser entregue.

the O.E.D. and Shakespeare glossaries here direct us to Much Ado About Nothing. It soon becomes evident that Claudio’s damnation of women in Act IV, Scene I foreshadows the rage of Posthumus.”

Pudency is so unusual [?] a word that the O.E.D. gives Cymbeline as authority for its undoubted general meaning: <susceptibility to shame>. A <rosy pudency> is one that blushes; but the erotic associations are insistent and part of a certain strain of febrile bawdy [obscenidade] in this play.” Eu não disse?

Shakespeare uses chaste three lines later with the striking image of unsunn’d snow. This touch of unrelenting cold may have been poised in his mind once reference was made to old Saturn, god of sterile winter.” Dessa eu não sabia: Saturno, Deus dos Anéis e também do Inverno Estéril! Aquele que carrega a própria morte circular…

Yellow Iachimo is arresting. The aura of nastiness is distinct.” “Much later, and with American overtones, yellow will come to express both cowardice and mendacity – the <yellow press>.” “Shakespeare at times seems to <hear> inside a word or phrase the history of its future echoes.” [!!!]

– Estou em Constância! – e desligou o telefone o homem, voltando a afundar sua língua nos pêlos pubianos de sua camarada constantina.

The study of Shakespeare’s grammar is itself a wide field. In the late plays, he seems to develop a syntactic shorthand; the normal sentence structure is under intense dramatic stress. Often argument and feeling crowd ahead of ordinary grammatical connections or subordinations. The effects – Coriolanus is especially rich in examples – are theatrical in the valid sense.”

He [Póstumo] is quick to anger and to despair. Perhaps we are to detect in his rhetoric a bent towards excess, towards articulation beyond the facts.”

Posthumus’s philippicis [arenga, diatribe, discurso virulento], at almost every stage, conventional; his vision of corrupt woman is a locus communis. Close parallels to it may be found in Harrington’s translation of Ariosto’s Orlando Furioso (XVII), in Book X of Paradise Lost, in Marston’s Fawn, and in numerous Jacobean satirists and moralists.” “The nausea of Othello, moving from sexual shock to a vision of universal chaos, and the infirm hysteria of Leontes in The Winter’s Tale have a very different pitch [tom].”

We know little of internal history, of the changing proceedings of consciousness in a civilization. How do different cultures and historical epochs use language, how do they conventionalize or enact the manifold possible relations between word and object, between stated meaning and literal performance? What were the semantics of an Elizabethan discourse, and what evidence could we cite towards an answer? The distance between <speech signals> and reality in, say, Biblical Hebrew or Japanese court poetry is not the same as in Jacobean English. But can we, with any confidence, chart these vital differences, or are our readings of Posthumus’s invective, however scrupulous our lexical studies and editorial discriminations, bound to remain creative conjecture?” “No aspect of Elizabethan and European culture is formally irrelevant to the complete context of a Shakespearean passage. Explorations of semantic structure very soon raise the problem of infinite series. Wittgenstein asked where, when, and by what rationally established criterion the process of free yet potentially linked and significant association in psychoanalysis could be said to have a stop. An exercise in <total reading> is also potentially unending. We will want to come back to this odd truism. It touches on the nature of language itself, on the absence of any satisfactory or generally accredited answer to the question <what is language?>”

Indeed at the surface, Jane Austen’s prose is habitually unresistant to close reading; it has a lucid <openness>. Are we not making difficulties for ourselves? I think not, though the generation of obstacles may be one of the elements which keep a <classic> vital.” “No less than Henry James, she uses style to establish and delimit a coherent, powerfully appropriated terrain. What lies outside the code lies outside Jane Austen’s criteria of admissible imaginings or, to be more precise, outside the legitimate bounds of what she regarded as <life in fiction>.” “Entire spheres of human existence – political, social, erotic, subconscious – are absent. At the height of political and industrial revolution, in a decade of formidable philosophic activity, Miss Austen composes novels almost extraterritorial to history. Yet their inference of time and locale is beautifully established. The world of Sense and Sensibility and of Pride and Prejudice is an astute <version of pastoral>, a mid- and late eighteenth-century construct complicated, shifted slightly out of focus by a Regency point of view. No fictional landscape has ever been more strategic, more expressive, in a constant if undeclared mode, of a moral case.”

the <Chinese box> effect of dependent and conditional phrases make for subtle comedy.”

Nature, reason, and understanding are terms both of current speech and of the philosophic vocabulary. Their interrelations, implicit throughout the sentence, argue a particular model of personality and right conduct. The concision of Miss Austen’s treatment, its assumption that the <counters> of abstract meaning are understood and shared between herself, her characters, and her readers, have behind them a considerable weight of classic Christian terminology and a current of Lockeian psychology. By 1813 that conjunction is neither self-evident nor universally held. Jane Austen’s refusal to underline what ought to be commonplace, at a time when it no longer is, makes for a covert, but forceful didacticism. <Defects of education>, <inferior society>, and <frivolous pursuits> pose traps of a different order. (…) Only by steeping oneself in Miss Austen’s novels can one gauge the extent of Lucy Steele’s imperfections.” “How much pre-information do we need to parse accurately the notions of simplicity and of interesting character, and to visualize their relationship to Lucy Steele’s beauty?”

In a usage which the utilitarian and pragmatic vocabularies of Malthus and Ricardo exactly invert, interest can mean <that which excites pathos>, <that which attracts amorous, benevolent sympathies>.”

A remote sky, prolonged to the sea’s brim:

One rock-point standing buffetted alone,

Vexed at its base with a foul beast unknown,(*)

Hell-spurge of geomaunt and teraphim

A knight, and a winged creature bearing him,

Reared at the rock: a woman fettered there,

Leaning into the hollow with loose hair²

And throat let back and heartsick trail of limb.³

The sky is harsh, and the sea shrewd and salt.

Under his lord, the griffin-horse ramps blind

With rigid wings and tail. The spear’s lithe stem4

Thrills in the roaring of those jaws: behind,

The evil length of body chafes at fault.

She does not hear nor see – she knows of them.”

Dante Gabriel Rossetti, Angelica Rescued by the Sea-Monster, rendição escrita de um quadro de Ingres (abaixo)

PEQUENO GLOSSÁRIO DE INGRES-ROSSETTI:

brim: horizonte

buffeted: fincada

chafes at fault: dá um coice no vento; é obrigado a recuar

fettered: presa, atada à

foul: horrenda

geomaunt: – (geomante, esclarecido apenas por Steiner – cfr. abaixo)

griffin-horse: cavalo-quimera, grifo

lithe stem: haste flexível

ramp: galopa, cavalga, esvoaça, se aproxima…

shrewd: agitado, maroto

sky is harsh, the: o tempo está feio/fechado

spurge: –

teraphim: ídolo judeu (herético)

It has a markedly heathen ring and Milton used the word with solemn reprobation in his Prelatical Episcopacy of 1641.”

thrill: vibra

vexed: ameaçada

Linhas especialmente problemáticas assinaladas por números (e sugestões):

Angélica resgatada pelo Monstro Marinho”

¹ Como se fosse uma entidade do inferno, Cérbero montando guarda //

O brotar da geomancia e dos maus presságios //

O aparecimento de maus augúrios e sinais dos deuses

(essas duas versões grifadas só foram rascunhadas após ler os parágrafos abaixo, que definem o termo arcano geomancy, e geomant, raro na língua.)

² Inclinando-se à beira do abismo, os cabelos ao vento

³ Sem voz e com os pungentes braços ao léu //

Sem poder chamar, mas gesticulando em desespero //

A garganta para trás, os braços desconjuntados

4 Com asas e cauda tensas. A haste da seta, n’entanto, já curva

 

 

 

Hell-spurge is odd. Applied to a common genus of plants, the word may, figuratively, stand for any kind of <shoot> or <sprout>. One suspects that the present instance resulted from a tonal-visual overlap with surge [uma erupção infernal e caótica, poderia ser a rendição correta].”

Geomaunt and teraphim make a bizarre pair. The O.E.D. gives Rossetti’s sonnet as reference for <geomant> or <geomaunt>, one skilled in <geomancy>, the art of divining the future by observing terrestrial shapes or the ciphers drawn when handfuls of earth are scattered (geomancy occurs in Büchner’s Wozzeck when the tormented Wozzeck sees a hideous future writ in the shapes of moss and fungi [lama e lodo – o café do reino vegetal]). Rossetti’s source for this occult term may well have been its appearance in Dante:

quando i geomanti lor maggior fortuna

veggiono in oriente, innanzi all’alba,

surger per via che poco le sta bruna . . .

(Purgatorio, XIX. 4-6)

The occurrence of surger so close to geomanti makes it likely that a remembrance of Dante in fact underlies this part of Rossetti’s sonnet and may be more immediate to it than Ingres’ painting.”

Marcadamente, os elementos telúricos do poema rivalizam com a temática marinha do soneto! Outra curiosidade é que o cavaleiro da estória é Roger, que salva a donzela da besta-marinha, mas o título diz o contrário!

MOTIVOS PARA UMA ABSTRAÇÃO

In a way typical of Pre-Raphaelite verse, the linguistic proposition is validated by another medium (music, painting, textile, the decorative arts). Freed from autonomy, Rossetti’s evocative caption can go through its motions. What do these amount to? No firm doctrine of correspondence is operative: the sonnet makes no attempt to simulate the style and visual planes of the picture. It embodies a momentary ricochet: griffin, armoured paladin, the boiling sea, a swooning figure on a phallic rock [a parte que Freud adoraria] trigger a volley of <poetic> gestures.”

(*) “Indeed, the whole of line 3 foreshadows [prenuncia, remete a] the Pre-Raphaelite strain in Yeats.”

ZEITGEIST DA IGNORÂNCIA

To our current way of feeling, Rossetti’s poem is a hollow bauble [baboseira vazia]. In short, at this stage in the history of feeling and verbal perception, it is difficult to <read at all> the Sonnets for Pictures.” “We are, in the main, <word-blind> to Pre-Raphaelite and Decadent verse. This blindness results from a major change in habits of sensibility. Our contemporary sense of the poetic, our often unexamined presumptions about valid or spurious uses of figurative speech have developed from a conscious negation of fin de siècle ideals.” “We have for a time disqualified ourselves from reading comprehensively (a word which has in it the root for <understanding>) not only a good deal of Rossetti, but the poetry and prose of Swinburne, William Morris, Aubrey Beardsley, Ernest Dowson, Lionel Johnson, and Richard Le Gallienne. Dowson’s Cynara poem or Arthur Symons’s Javanese Dancers provide what comes near to being a test-case. Even in the cool light of the late 1960s, the intimation of real poetry is undeniable.” “Much more is involved here than a change of fashion, than the acceptance by journalism and the academy of a canon of English poetry chosen by Pound and Eliot. This canon is already being challenged; the primacy of Donne may be over, Browning and Tennyson are visibly in the ascendant. A design of literature which finds little worth commending between Dryden and Hopkins is obviously myopic. But the problem of how to read the Pre-Raphaelites and the poets of the nineties cuts deeper.”

No tone-values are more difficult to determine than those of a seemingly <neutral> text, of a diction which gives no initial purchase to lexicographer or grammarian.”

When reading any piece of English prose after about 1800 and most verse, the general reader assumes that the words on the page, with a few <difficult> or whimsical exceptions, mean what they would in his own idiom. In the case of <classics> such as Defoe and Swift that assumption may be extended back to the early eighteenth century. It almost reaches Dryden, but it is, of course, a fiction.”

We are growing year by year more introspective and self-conscious: the current philosophy leads us to a close, patient and impartial observation and analysis of our mental processes: we more and more say and write what we actually do think and feel, and not what we intend to think or should desire to feel.” Henry Sidgwick, 1869

VERBO & TEMPO

Language – and this is one of the crucial propositions in certain schools of modern semantics – is the most salient model of Heraclitean flux. It alters at every moment in perceived time. The sum of linguistic events is not only increased but qualified by each new event. If they occur in temporal sequence, no two statements are perfectly identical. Though homologous, they interact. When we think about language, the object of our reflection alters in the process (thus specialized or metalanguages may have considerable influence on the vulgate). In short: so far as we experience and <realize> them in linear progression, time and language are intimately related: they move and the arrow is never in the same place.” “certain cultures speak less than others; some modes of sensibility prize taciturnity and elision, others reward prolixity and semantic ornamentation. Inward discourse has its complex, probably unrecapturable history: both in amount and significant content, the divisions between what we say to ourselves and what we communicate to others have not been the same in all cultures or stages of linguistic development.”

R.B. Lees, The Basis of Glottochronology

the Indo-European paradigm of singular, dual, plural, which may go back to the beginnings of lndo-European linguistic history, survives to this day in the English usage better of two but best of three or more. Yet the English of King Alfred’s day, most of whose features are chronologically far more recent, is practically unintelligible.”

The conservatism, indeed the deliberate retention of the archaic, which marks several epochs in the history of Chinese has often been noted. Post-war Italian, despite the pressure of verismo and the conscious modernism of other media, such as film, has been curiously inert”

Both the French and the Bolshevik revolutions were linguistically conservative, almost academic in their rhetoric. The Second Empire, on the other hand, sees one of the principal movements of stress and exploration in the poetics and habits of sensibility of the French language. At most stages in the history of a language, moreover, innovative and conservative tendencies coexist.”

Some who have thought hardest about the nature of language and about the interactions of speech and society – De Maistre, Karl Kraus, Walter Benjamin, George Orwell – have, consciously or not, argued from a vitalist metaphor. In certain civilizations there come epochs in which syntax stiffens, in which the available resources of live perception and restatement wither. Words seem to go dead under the weight of sanctified usage; the frequency and sclerotic force of clichés, of unexamined similes, of worn tropes increases. Instead of acting as a living membrane, grammar and vocabulary become a barrier to new feeling. A civilization is imprisoned in a linguistic contour which no longer matches, or matches only at certain ritual; arbitrary points, the changing landscape of fact.”

Worn, threadbare, filed down, words have become the carcass of words, phantom words; everyone drearily chews and regurgitates the sound of them between their jaws.” Adamov

The totality of Homer, the capacity of the Iliad and Odyssey to serve as repertoire for most of the principal postures of Western consciousness – we are petulant as Achilles and old as Nestor, our homecomings are those of Odysseus – point to a moment of singular linguistic energy.”

Aeschylus may not only have been the greatest of tragedians but the creator of the genre, the first to locate in dialogue the supreme intensities of human conflict. The grammar of the Prophets in Isaiah enacts a profound metaphysical scandal – the enforcement of the future tense, the extension of language over time. A reverse discovery animates Thucydides; his was the explicit realization that the past is a language construct, that the past tense of the verb is the sole guarantor of history. The formidable gaiety of the Platonic dialogues, the use of the dialectic as a method of intellectual chase, stems from the discovery that words, stringently tested, allowed to clash as in combat or manoeuvre as in a dance, will produce new shapes of understanding. Who was the first man to tell a joke, to strike laughter out of speech (the absence of jokes from Old Testament writings suggests that purely verbal wit may be a fairly late, subversive development)?”

It is difficult to suppose that the Oresteia was composed very long after the dramatist’s first awareness of the paradoxical relations between himself, his personages, and the fact of personal death.”

We have histories of massacre and deception, but none of metaphor. We cannot accurately conceive what it must have been like to be the first to compare the colour of the sea with the dark of wine or to see autumn in a man’s face. Such figures are new mappings of the world, they reorganize our habitation in reality.” “No desolation has gone deeper than Job’s, no dissent from mundanity has been more trenchant than Antigone’s. The fire-light in the domestic hearth at close of day was seen by Horace; Catullus came near to making an inventory of sexual desire. A great part of Western art and literature is a set of variations on definitive themes. Hence the anarchic bitterness of the late-comer and the impeccable logic of Dada when it proclaims that no new impulses of feeling or recognition will arise until language is demolished. <Make all things new> cries the revolutionary, in words as old as the Song of Deborah or the fragments of Heraclitus.”

ethno-linguists tell us, for example, that Tarascan, a Mexican tongue, is inhospitable to new metaphors, whereas Cuna, a Panamanian language, is avid for them. An Attic delight in words, in the play of rhetoric, was noticed and often mocked throughout the Mediterranean world. Qiryat Sepher, the <City of the Letter> in Palestine, and the Syrian Byblos, the <Town of the Book>, are designations with no true parallel anywhere else in the ancient world.”

In numerous cultures blindness is a supreme infirmity and abdication from life; in Greek mythology the poet and the seer are blind so that they may, by the antennae of speech, see further.”

A true reader is a dictionary addict. He knows that English is particularly well served, from Bosworth’s Anglo-Saxon Dictionary, through Kurath and Kuhn’s Middle English Dictionary to the almost incomparable resources of the O.E.D. (both Grimm’s Wörterbuch and the Littré are invaluable but neither French nor German have found their history and specific genius as completely argued and crystallized in a single lexicon).”

Rossetti’s geomaunt will lead to Shipley’s Dictionary of Early English and the reassurance that <the topic is capped with moromancy, foolish divination, a 17th century term that covers them all>. Skeat’s Etymological Dictionary and Principles of English Etymology are an indispensable first step towards grasping the life of words. But each period has its specialized topography. Skeat and Mayhew’s Glossary of Tudor and Stuart Words necessarily accompanies one’s reading of English literature from Skelton to Marvell. No one will get to the heart of the Kipling world, or indeed clear up certain cruces in Gilbert and Sullivan without Sir H. Yule and A. C. Burnell’s Hobson-jobson. Dictionaries of proverbs and place-names are essential. Behind the façade of public discourse extends the complex, shifting terrain of slang and taboo speech. Without such quarries as Champion’s L’Argot ancien and Eric Partridge’s lexica of underworld usage, much of Western literature, from Villon to Genet is only partly legible.

Beyond such major taxonomies lie areas of relevant specialization. A demanding reader of mid-eighteenth-century verse will often find himself referring to the Royal Horticultural Society’s Dictionary of Gardening. The old Drapers’ Dictionary of S. William Beck clears up more than one erotic conundrum in Restoration comedy. Fox-Davies’s Armorial Families and other registers of heraldry are as helpful at the opening of The Merry Wives of Windsor as they are in elucidating passages in the poetry of Sir Walter Scott. A true Shakespeare library is, of itself, very nearly a summation of human enterprise. It would include manuals of falconry and navigation, of law and of medicine, of venery [caça] and the occult. A central image in Hamlet depends on the vocabulary of wool-dyeing [tecedura de lã] (wool greased or enseamed with hog’s lard over the nasty sty [quer dizer que a lã em comento foi banhada com gordura e resinas de intestino de porco]); from The Taming of the Shrew [A Megera Domada] to The Tempest, there is scarcely a Shakespearean play which does not use the extensive glossary of Elizabethan musical terms to make vital statements about human motive or conduct. Several episodes in Jane Austen can only be made out if one has knowledge, not easily come by, of a Regency escritoire and of how letters were sent. Being so physically cumulative in effect, so scenic in structure, the Dickens world draws on a great range of technicality. There is a thesaurus of Victorian legal practice and finance in Bleak House and Dombey and Son. The Admiralty’s Dictionary of Naval Equivalents and a manual of Victorian steam-turbine construction have helped clear up the meaning of one of the most vivid yet hermetic similes in The Wreck of the Deutschland.”

The complete penetrative grasp of a text, the complete discovery and recreative apprehension of its life-forms (prise de conscience), is an act whose realization can be precisely felt but is nearly impossible to paraphrase or systematize.” “To read Shakespeare and Hölderlin is, literally, to prepare to read them. But neither erudition nor industry make up the sum of insight, the intuitive thrust to the centre.” “yet more is needed: just literary perception, congenial intimacy with the author, experience which must have been won by study, and mother wit which he must have brought from his mother’s womb.” Houman

ainda mais (do que erudição e indústria) são necessários: percepção literária na medida, intimidade congênita com o autor, experiência esta ganha também por estudo, mas que em não poucos casos deriva de <inteligência de mãe> que deve haver desde o útero na pessoa.”

Ter crítica de conjectura, que permite emendar um autor que está sendo traduzido, é mais do que se pode esperar do gênero humano, sobretudo em se tratando de Shakespeare” Johnson

Ultimate connoisseurship is a kind of finite mimesis: through it the painting or the literary text is made new – though obviously in that reflected, dependent sense which Plato gave to the concept of <imitation>.”

Every musical realization is a new poiesis. It differs from all other performances of the same composition. Its ontological relationship to the original score and to all previous renditions is twofold: it is at the same time reproductive and innovatory. In what sense does unperformed music exist? But what is the measure of the composer’s verifiable intent after successive performances? There is a strain of femininity [?] in the great interpreter, a submission, made active by intensity of response, to the creative presence.”

Je est un autre

Literature is news that stays news” Ezra Pound

“Só a grande arte sobrevive a uma exaustiva e deliberada reinterpretação.”

Each time Cymheline is staged, Posthumus’s monologue becomes the object of manifold <edition>. An actor can choose to deliver the words of the Folio in what is thought to have been the pronunciation of Elizabethan English. He can adopt a neutral, though in fact basically nineteenth-century solemn register and vibrato (the equivalent of a Victorian prize calf binding). He may by control of caesura and vowel-pitch convey an impression of modernity. His – the producer’s – choice of costume is an act of practical criticism. A Roman Posthumus represents a correction of Elizabethan habits of anachronism or symbolic contemporaneity – themselves a convention of feeling which we may not fully grasp. A Jacobean costume points to the location of the play in a unique corpus: it declares of Cymheline that Shakespeare’s authorship is the dominant fact.”

When we read or hear any language-statement from the past, be it Leviticus or last year’s best-seller, we translate. Reader, actor, editor are translators of language out of time.”

The time-barrier may be more intractable than that of linguistic difference. Any bilingual translator is acquainted with the phenomenon of <false friends> – homonyms such as French hahit and English habit which on occasion might, but almost never do, have the same meaning, or mutually untranslatable cognates such as English home and German Heim.”

What material reality has history outside language, outside our interpretative belief in essentially linguistic records (silence knows no history)? Where worms, fires of London, or totalitarian régimes obliterate such records, our consciousness of past being comes on a blank space. To remember everything is a condition of madness. We remember culturally, as we do individually, by conventions of emphasis, foreshortening, and omission.”

The Middle Ages experienced by Walter Scott were not those mimed by the Pre-Raphaelites. The Augustan paradigm of Rome was, like that of Ben Janson and the Elizabethan Senecans, an active fiction, a <reading into life>. But the two models were very different. From Marsilio Ficino to Freud, the image of Greece, the verbal icon made up of successive translations of Greek literature, history, and philosophy, has oriented certain fundamental movements in Western feeling. But each reading, each translation differs, each is undertaken from a distinctive angle of vision. The Platonism of the Renaissance is not that of Shelley, Hölderlin’s Oedipus is not the Everyman of Freud or the limping [deficiente; muito debilitado] shaman of Lévi-Strauss.”

There is, today, a 1914-19 figura for those in their 70s; to a man of 40, 1914 is the vague forerunner of realities which only gather meaning in the crises of the late 1930s; to the <bomb-generation>, history is an experience that dates to 1945; what lies before is an allegory of antique illusions. In the recent revolts of the very young, a surrealistic syntax, anticipated by Artaud and Jarry, is at work: the past tense is to be excluded from the grammar of politics and private consciousness.”

This metaphysic of the instant, this slamming of the door on the long galleries of historical consciousness, is understandable. It has a fierce innocence. It embodies yet another surge towards Eden, towards that pastoral before time (there could be no autumn before the apple was off the branch, no fall before the Fall) which the eighteenth century sought in the allegedly static cultures of the south Pacific. But it is an innocence as destructive of civilization as it is, by concomitant logic, destructive of literate speech. Without the true fiction of history, without the unbroken animation of a chosen past, we become flat shadows. Literature, whose genius stems from what Éluard [um dos fundadores do surrealismo] called le dur désir de durer, has no chance of life outside constant translation within its own language. Art dies when we lose or ignore the conventions by which it can be read, by which its semantic statement can be carried over into our own idiom”

Languages that extend over a large physical terrain will engender regional modes and dialects. Before the erosive standardizations of radio and television became effective, it was a phonetician’s parlour-trick to locate, often to within a few dozen miles, the place of origin of an American from the border states or a north-country Englishman. The mutual incomprehensibility of diverse branches of Chinese such as Cantonese and Mandarin are notorious. There are dictionaries and grammars of Venetian, Neapolitan, and Bergamasque.”

Different castes, different strata of society use a different idiom. Eighteenth-century Mongolia provides a famous case. The religious language was Tibetan; the language of government was Manchu; merchants spoke Chinese; classical Mongol was the literary idiom; and the vernacular was the Khalka dialect of Mongol.”

Michel Leiris, La Langue secrète des Dogons de Sanga (Soudan Français) (Paris, 1948)

Upper-class English diction, with its sharpened vowels, elisions; and modish slurs, is both a code for mutual recognition – accent is worn like a coat of arms – and an instrument of ironic exclusion. It communicates from above, enmeshing the actual unit of information, often imperative or conventionally benevolent, in a network of superfluous linguistic matter.” “Thackeray and Wodehouse are masters at conveying this dual focus of aristocratic semantics. As analysed by Proust, the discourse of Charlus is a light-beam pin-pointed, obscured, prismatically scattered as by a Japanese fan beating before a speaker’s face in ceremonious motion. To the lower classes, speech is no less a weapon and a vengeance.”

William Labor, Paul Cohen & Clarence Robbins, A Preliminary Study of English, Used by Negro and Puerto Rican Speakers in New York City (New York, 1965)

White and black trade words as do front-line soldiers lobbing back an undetonated grenade.”

Competing ideologies rarely create new terminologies. As Kenneth Burke and George Orwell have shown in regard to the vocabulary of Nazism and Stalinism, they pilfer and decompose the vulgate. In the idiom of fascism and communism, peace, freedom, progress, popular will are as prominent as in the language of representative democracy. But they have their fiercely disparate meanings. The words of the adversary are appropriated and hurled against him. When antithetical meanings are forced upon the same word (Orwell’s Newspeak), when the conceptual reach and valuation of a word can be altered by political decree, language loses credibility. Translation in the ordinary sense becomes impossible. To translate a Stalinist text on peace or on freedom under proletarian dictatorship into a non-Stalinist idiom, using the same time-honoured words, is to produce a polemic gloss, a counter-statement of values. At the moment, the speech of politics, of social dissent, of journalism is full of loud ghost-words, being shouted back and forth, signifying contraries or nothing. It is only in the underground of political humour that these shibboleths [matizes, jargões, lugares-comuns] regain significance. When the entry of foreign tanks into a free city is glossed as <a spontaneous, ardently welcomed defence of popular freedom> (Izvestia, 27 August 1968), the word <freedom> will preserve its common meaning only in the clandestine dictionary of laughter.”

Japanese children employ a separate vocabulary for everything they have and use up to a certain age. More common, indeed universal, is the case in which children carve their own language-world out of the total lexical and syntactic resources of adult society.”

The scatological doggerels of the nursery and the alley-way may have a sociological rather than a psychoanalytic motive. The sexual slang of childhood, so often based on mythical readings of actual sexual reality rather than on any physiological grasp, represents a night-raid on adult territory. The fracture of words, the maltreatment of grammatical norms which, as the Opies have shown, constitute a vital part of the lore, mnemonics, and secret parlance of childhood, have a rebellious aim: by refusing, for a time, to accept the rules of grown-up speech, the child seeks to keep the world open to his own, seemingly unprecedented needs. In the event of autism, the speech-battle between child and master can reach a grim finality. Surrounded by incomprehensible or hostile reality, the autistic child breaks off verbal contact. He seems to choose silence to shield his identity but even more, perhaps, to destroy his imagined enemy. Like murderous Cordelia, children know that silence can destroy another human being. Or like Kafka they remember that several have survived the song of the Sirens, but none their silence.” “Diderot had referred to <l’enfant, ce petit sauvage>, joining under one rubric the nursery and the natives of the South Seas.”

The passage from the transitional into the exploratory model is visible in Lewis Carroll. Alice in Wonderland relates to voyages into the language-world and special logic of the child as Gulliver relates to the travel literature of the Enlightenment.”

Henry James was one of the true pioneers. He made an acute study of the frontier zones in which the speech of children meets that of grown-ups. The Pupil dramatizes the contrasting truth-functions in adult idiom and the syntax of a child. Children, too, have their conventions of falsehood, but they differ from ours. In The Turn of the Screw, whose venue is itself so suggestive of an infected Eden, irreconcilable semantic systems destroy human contact and make it impossible to locate reality. This cruel fable moves on at least four levels of language: there is the provisional key of the narrator (I), initiating all possibilities but stabilizing none, there is the fluency of the governess (II), with its curious gusts of theatrical bravura, and the speech of the servants so avaricious of insight (III). These three modes envelope, qualify, and obscure that of the children (IV). Soon incomplete sentences, filched letters, snatches of overheard but misconstrued speech, produce a nightmare of untranslatability. <I said things,> confesses Miles when pressed to the limit of endurance. That tautology is all his luminous, incomprehensible idiom can yield. The governess seizes upon <an exquisite pathos of contradiction>. Death is the only plain statement left. Both The Awkward Age and What Maisie Knew focus on children at the border, on the brusque revelations and bursts of static which mark the communication between adolescents and those adults whose language-territory they are about to enter.”

But for all their lively truth, children in the novels of James and Dostoevsky remain, in large measure, miniature adults. They exhibit the uncanny percipience of the <aged> infant Christ in Flemish art. Mark Twain’s transcriptions of the secret and public idiom of childhood penetrate much further. A genius for receptive insight animates the rendition of Huck Finn and Tom Sawyer.” “For the first time in Western literature, the linguistic terrain of childhood was mapped without being laid waste. After Mark Twain, child psychology and Piaget could proceed.

Sybil released her foot. <Did you read ‘Little Black Sambo’?> she said.

<It’s very funny you ask me that,> he said. <It so happens I just finished reading it last night.> He reached down and took back Sybil’s hand. <What did you think of it?> he asked her.

<Did the tigers run all around that tree?>

<I thought they’d never stop. I never saw so many tigers.>

<There were only six,> Sybil said.

<Only six!> said the young man. <Do you call that only?>

<Do you like wax?> Sybil asked.

<Do I like what?> asked the young man.

<Wax.>

<Very much. Don’t you?>

Sybil nodded. <Do you like olives?> she asked.

<Olives–yes. Olives and wax. I never go anyplace without ‘em.>

Sybil was silent.

<I like to chew candles,> she said finally.

<Who doesn’t?> said the young man, getting his feet wet.”

J.D. Salinger

Hence the argument of modern anthropology that the incest taboo, which appears to be primal to the organization of communal life, is inseparable from linguistic evolution. We can only prohibit that which we can name. Kinship systems, which are the coding and classification of sex for purposes of social survival, are analogous with syntax. The seminal and the semantic functions (is there, ultimately, an etymological link?) determine the genetic and social structure of human experience. Together they construe the grammar of being.”

AGE OF MASTURBATION

If coition can be schematized as dialogue, masturbation seems to be correlative with the pulse of monologue or of internalized address. There is evidence that the sexual discharge in male onanism is greater than it is in intercourse.”

Ejaculation [expelir com força; falar] is at once a physiological and a linguistic concept. Impotence and speech-blocks [gagueira], premature emission [ejaculação precoce – <gente que interrompe a fala do outro>, cof, cof…] and stuttering, involuntary ejaculation and the word-river of dreams are phenomena whose interrelations seem to lead back to the central knot of our humanity. Semen, excreta, and words are communicative products. They are transmissions from the self inside the skin to reality outside. At the far root, their symbolic significance, the rites, taboos, and fantasies which they evoke, and certain of the social controls on their use, are inextricably interwoven. We know all this but hardly grasp its implications.”

Semen

See, man

Seaman

Zimmerman

In what measure are sexual perversions analogues of incorrect speech? Are there affinities between pathological erotic compulsions and the search, obsessive in certain poets and logicians, for a <private language>, for a linguistic system unique to the needs and perceptions of the user? Might there be elements of homosexuality in the modem theory of language (particularly in the early Wittgenstein), in the concept of communication as an arbitrary mirroring? It may be that the significance of Sade lies in his terrible loquacity, in his forced outpouring of millions of words. In part, the genesis of sadism could be linguistic. The sadist makes an abstraction of the human being he tortures; he verbalizes life to an extreme degree by carrying out on living beings the totality of his articulate fantasies. Did Sade’s uncontrollable fluency, like the garrulousness [tagarelice] often imputed to the old, represent a psycho-physiological surrogate for diminished sexuality (pornography seeking to replace sex by language)?”

The formal duality of men’s and women’s speech has been recorded also in Eskimo languages, in Carib, a South American Indian language, and in Thai. I suspect that such division is a feature of almost all languages at some stage in their evolution and that numerous spoors of sexually determined lexical and syntactical differences are as yet unnoticed. But again, as in the case of Japanese or Cherokee <child-speech>, formal discriminations are easy to locate and describe. The far more important, indeed universal phenomenon, is the differential use by men and women of identical words and grammatical constructs.”

At a rough guess, women’s speech is richer than men’s in those shadings of desire and futurity known in Greek and Sanskrit as optative; women seem to verbalize a wider range of qualified resolve and masked promise. Feminine uses of the subjunctive in European languages give to material facts and relations a characteristic vibrato. I do not say they lie about the obtuse, resistant fabric of the world: they multiply the facets of reality, they strengthen the adjective. To allow it an alternative nominal status, in a way which men often find unnerving. There is a strain of ultimatum, a separatist stance, in the masculine intonation of the first-person pronoun; the <I> of women intimates a more patient bearing, or did until Women’s Liberation. The two language models follow on Robert Graves’ dictum that men do but women are.

In regard to speech habits, the headings of mutual reproach are immemorial. In every known culture, men have accused women of being garrulous, of wasting words with lunatic prodigality. The chattering, ranting, gossipping female, the tattle, the scold, the toothless crone her mouth wind-full of speech, is older than fairy-tales. Juvenal, in his Sixth Satire, makes a nightmare of woman’s verbosity:

The grammarians yield to her; the rhetoricians succumb; the whole crowd is silenced. No lawyer, no auctioneer will get a word in, no, nor any other woman. Her speech pours out in such a torrent that you would think that pots and bells were being banged together. Let no one more blow a trumpet or clash a cymbal: one woman alone will make noise enough to rescue the labouring moon (from eclipse).”

The alleged outpouring of women’s speech, the rank flow of words, may be a symbolic restatement of men’s apprehensive, often ignorant awareness of the menstrual cycle. In masculine satire, the obscure currents and secretions of woman’s physiology are an obsessive theme. Ben Jonson unifies the two motifs of linguistic and sexual incontinence in The Silent Woman. <She is like a conduit-pipe>, says Morose of his spurious bride, <that will gush out with more force when she opens again.> <Conduit-pipe>, with its connotations of ordure and evacuation, is appallingly brutal. So is the whole play. The climax of the play again equates feminine verbosity with lewdness: <O my heart! wilt thou break? wilt thou break? this is worst of all worst worsts that hell could have devised! Marry a whore, and so much noise!>”

The motif of the woman or maiden who says very little, in whom silence is a symbolic counterpart to chasteness and sacrificial grace, lends a unique pathos to the Antigone of Oedipus at Colonus or Euripides’ Alcestis.” “These values crystallize in Coriolanus’ salute to Virgilia: <My gracious silence, hail!> The line is magical in its music and suggestion, but also in its dramatic shrewdness.”

Women know the change in a man’s voice, the crowding of cadence, the heightened fluency triggered off by sexual excitement. They have also heard, perennially, how a man’s speech flattens, how its intonations dull after orgasm. In feminine speech-mythology, man is not only an erotic liar; he is an incorrigible braggart. Women’s lore and secret mock record him as an eternal miles gloriosus, a self-trumpeter who uses language to cover up his sexual or professional fiascos, his infantile needs, his inability to withstand physical pain.”

Taceat mulier in ecclesia is prescriptive in both Judaic and Christian culture.”

Like breathing, the technique is unconscious; like breathing also, it is subject to obstruction and homicidal breakdown. Under stress of hatred, of boredom, of sudden panic, great gaps open. It is as if a man and a woman then heard each other for the first time and knew, with sickening conviction, that they share no common language, that their previous understanding had been based on a trivial pidgin which had left the heart of meaning untouched. Abruptly the wires are down and the nervous pulse under the skin is laid bare in mutual incomprehension. Strindberg is master of such moments of fission. Harold Pinter’s plays locate the pools of silence that follow.”

Like no other playwright, Racine communicates not only the essential beat of women’s diction but makes us feel what there is in the idiom of men which Andromaque, Phèdre, or Iphigénie can only grasp as falsehood or menace. Hence the equivocation, central in his work, on the twofold sense of entendre [em francês, escutar antes que entender]: these virtuosos of statement hear each other perfectly, but do not, cannot apprehend. I do not believe there is a more complete drama in literature, a work more exhaustive of the possibilities of human conflict than Racine’s Bérénice. It is a play about the fatality of the coexistence of man and woman, and it is dominated, necessarily, by speech-terms (parole, dire, mot, entendre). Mozart possessed something of this same rare duality (so different from the characterizing, polarizing drive of Shakespeare). Elvira, Donna Anna, and Zerlina have an intensely shared femininity, but the music exactly defines their individual range or pitch of being. The same delicacy of tone-discrimination is established between the Countess and Susanna in The Marriage of Figaro. In this instance, the discrimination is made even more precise and more dramatically different from that which characterizes male voices by the <bisexual> role of Cherubino. The Count’s page is a graphic example of Lévi-Strauss’ contention that women and words are analogous media of exchange in the grammar of social life. Stendhal was a careful student of Mozart’s operas. That study is borne out in the depth and fairness of his treatment of the speech-worlds of men and women in Fabrice and la Sanseverina in The Charterhouse of Parma. Today, when there is sexual frankness as never before, such fairness is, paradoxically, rarer. It is not as <translators> that women novelists and poets excel, but as declaimers of their own, long-stifled tongue.”

“Não é como tradutoras que as mulheres que são novelistas e poetas sobressaem-se, mas como declamadoras de seu próprio eu, seu próprio sexo, seus discursos longamente interrompidos e abortados.”

The <aside> as it is used in drama is a naïve representation of scission: the speaker communicates to himself (thus to his audience) all that his overt statement to another character leaves unsaid. As we grow intimate with other men or women, we often <hear> in the slightly altered cadence, speed, or intonation of whatever they are saying to us the true movement of articulate but unvoiced intent. Shakespeare’s awareness of this twofold motion is unfailing. Desdemona asks of Othello, in the very first, scarcely realized instant of shaken trust, <Why is your speech so faint?>.”

Having kept the same word-signals bounding and rebounding between them like jugglers’ weights, year after year, from horizon to horizon, Beckett’s vagrants and knit couples understand one another almost osmotically. With intimacy, the external vulgate and the private mass of language grow more and more concordant. Soon the private dimension penetrates and takes over the customary forms of public exchange. The stuffed-animal and baby-speech of adult lovers reflects this take-over. In old age the impulse towards translation wanes and the pointers of reference turn inward. The old listen less or principally to themselves. Their dictionary is, increasingly, one of private remembrance.

The affair at Babel confirmed and externalized the never-ending task of the translator – it did not initiate it.”

Babel caiu e abandonei a comunhão com o cão dentro de mim.

II. LANGUAGE AND GNOSIS

Theories of semantics, constructs of universal and transformational grammar that have nothing of substance to say about the prodigality of the language atlas–more than a thousand different languages are spoken in New Guinea–could well be deceptive. It is here, rather than in the problem of the invention and understanding of melody (though the two issues may be congruent), that I would place what Lévi-Strauss calls le mystère suprême of anthropology.”

why does this unified, though individually unique mammalian species not use one common language? It inhales, for its life processes, one chemical element and dies if deprived of it. It makes do with the same number of teeth and vertebrae. To grasp how notable the situation is, we must make a modest leap of imagination, asking, as it were, from outside. In the light of anatomical and neurophysiological universals, a unitary language solution would be readily understandable. Indeed, if we lived inside one common language-skin, any other situation would appear very odd. It would have the status of a recondite fantasy, like the anaerobic or anti-gravitational creatures in science-fiction.”

Depending on which classification they adopt, ethnographers divide the human species into 4 or 7 races (though the term is, of course, an unsatisfactory shorthand). The comparative anatomy of bone structures and sizes leads to the use of 3 main typologies. The analysis of human blood-types, itself a topic of great intricacy and historical consequence, suggests that there are approximately half a dozen varieties. Such would seem to be the cardinal numbers of salient differentiation within the species though the individual, obviously, is genetically unique.”

We do not speak one language, nor half a dozen, nor twenty or thirty. Four to five thousand languages are thought to be in current use. This figure is almost certainly on the low side. We have, until now, no language atlas which can claim to be anywhere near exhaustive. Furthermore, the four to five thousand living languages are themselves the remnant of a much larger number spoken in the past. Each year so-called rare languages, tongues spoken by isolated or moribund ethnic communities, become extinct. Today entire families of language survive only in the halting remembrance of aged, individual informants (who, by virtue of their singularity are difficult to cross-check) or in the limbo of tape-recordings. Almost at every moment in time, notably in the sphere of American Indian speech, some ancient and rich expression of articulate being is lapsing into irretrievable silence. One can only guess at the extent of lost languages. It seems reasonable to assert that the human species developed and made use of at least twice the number we can record today. A genuine philosophy of language and socio-psychology of verbal acts must grapple with the phenomenon and rationale of the human <invention> and retention of anywhere between five and ten thousand distinct tongues.” “To speak seriously of translation one must first consider the possible meanings of Babel, their inherence in language and mind.”

Despite decades of comparative philological study and taxonomy, no linguist is certain of the language atlas of the Caucasus, stretching from Bzedux in the north-west to Rut’ul and Küri in the Tartar regions of Azerbeidjan.” “Arci, a language with a distinctive phonetic and morphological structure, is spoken by only one village of approximately 850 inhabitants.” “A comparable multiplicity and diversity marks the so-called Palaeosiberian language families. Eroded by Russian during the nineteenth century, Kamtchadal, a language of undeniable resource and antiquity, survives in only 8 hamlets [povoados – ‘hamlet’ seria um vilarejo tão pequeno que sequer possui paróquia] in the maritime province of Koriak.” “For Mexico and Central America alone, current listings reckon 190 distinct tongues.” “Tubatulabal was spoken by something like a thousand Indians at the southern spur of the Sierra Nevada as recently as the 1770s.” “Blank spaces and question marks cover immense tracts of the linguistic geography of the Amazon basin and the savannah. At latest count, ethno-linguists discriminate between 109 families, many with multiple sub-classes. But scores of Indian tongues remain unidentified or resist inclusion in any agreed category.” “Many will dim into oblivion before rudimentary grammars or word-lists can be salvaged. Each takes with it a storehouse of consciousness.” “The language catalogue begins with Aba, an Altaic idiom spoken by Tartars, and ends with Zyriene, a Finno-Ugaritic speech in use between the Urals and the Arctic shore. It conveys an image of man as a language animal of implausible variety and waste. By comparison, the classification of different types of stars, planets, and asteroids runs to a mere handful.”

ME WHITE MAN YOU TROUBLE M’AN MONEY KING WORLD ME OWN: “We have no sound basis [base sonora e base segura, belo trocadilho!] on which to argue that extinct languages failed their speakers, that only the most comprehensive or those with the greatest wealth of grammatical means have endured. On the contrary: a number of dead languages are among the obvious splendours of human intelligence. Many a linguistic mastodon is a more finely articulated, more <advanced> piece of life than its descendants. There appears to be no correlation, moreover, between linguistic wealth and other resources of a community. Idioms of fantastic elaboration and refinement coexist with utterly primitive, economically harsh modes of subsistence. Often, cultures seem to expend on their vocabulary and syntax acquisitive energies and ostentations entirely lacking in their material lives. Linguistic riches seem to act as a compensatory mechanism. Starving bands of Amazonian Indians may lavish on their condition more verb tenses than could Plato.”

With the simple addition of neologisms and borrowed words, any language can be used fairly efficiently anywhere; Eskimo syntax is appropriate to the Sahara. Far from being economic and demonstrably advantageous, the immense number and variety of human idioms, together with the fact of mutual incomprehensibility, is a powerful obstacle to the material and social progress of the species. We will come back to the key question of whether or not linguistic differentiations may provide certain psychic, poetic benefits.

It was before Humboldt that the mystery of many tongues on which a view of translation hinges fascinated the religious and philosophic imagination.”

Arno Borst, Der Turmbau von Babel: Geschichte der Meinungen über Ursprung und Vielfalt der Sprachen und Völker (Stuttgart, 1957-63).

O Cãos de Pã-Dora

Thus Babel was a second Fall, in some regards as desolate as the first. Adam had been driven from the garden; now men were harried, like yelping dogs, out of the single family of man. And they were exiled from the assurance of being able to grasp and communicate reality.”

Had there not been a partial redemption at Pentecost, when the gift of tongues descended on the Apostles? Was not the whole of man’s linguistic history, as certain Kabbalists supposed, a laborious swing of the pendulum between Babel and a return to unison in some messianic moment of restored understanding?” “Jewish gnostics argued that the Hebrew of the Torah was God’s undoubted idiom, though man no longer understood its full, esoteric meaning. Other inquirers, from Paracelsus to the 17th century Pietists, were prepared to view Hebrew as a uniquely privileged language, but itself corrupted by, the Fall and only obscurely revelatory of the Divine presence. Almost all linguistic mythologies, from Brahmin wisdom to Celtic and North African lore, concurred in believing that original speech had shivered into 72 shards, or into a number which was a simple multiple of 72.” “[Nota] The 6×12 component suggests an astronomical or seasonal correlation.” “The name of Esperanto has in it, undisguised, the root for an ancient and compelling hope.”

Gershom Scholem, Major Trends in Jewish Mysticism

Starting with Genesis 11:11 and continuing to Wittgenstein’s Investigations or Noam Chomsky’s earliest, unpublished paper on morphophonemics in Hebrew, Jewish thought has played a pronounced role in linguistic mystique, scholarship, and philosophy.”

the Talmud had said: <the omission or the addition of one letter might mean the destruction of the whole world.>

Elohim, the name of God, unites Mi, the hidden subject, with Eloh, the hidden object.”

in Hebrew, and particularly in Exodus with its 72 designations of the Divine name, magic forces were compacted.”

There was, as Coleridge knew, no deeper dreamer on language, no sensibility more haunted by the alchemy of speech, than Jakob Böhme (1575-1624). Like Nicholas of Cusa long before him, Böhme supposed that the primal tongue had not been Hebrew, but an idiom brushed from men’s lips in the instant of the catastrophe at Babel and now irretrievably dejected among all living speech (Nettesheim had, at one point, argued that Adam’s true vernacular was Aramaic).”

In the visionary musings of Angelus Silesius (Johann Scheffler), Böhme’s intimations are carried to extremes. Angelus Silesius asserts that God has, from the beginning of time, uttered only a single word. In that single utterance all reality is contained. The cosmic Word cannot be found in any known tongue; language after Babel cannot lead back to it. The bruit of human voices, so mysteriously diverse and mutually baffling, shuts out the sound of the Logos. There is no access except silence. Thus, for Silesius, the deaf and dumb are nearest of all living men to the lost vulgate of Eden.

In the climate of the eighteenth century these gnostic reveries faded. But we find them again, changed into model and metaphor, in the work of three modem writers. It is these writers who seem to tell us most of the inward springs of language and translation.”

Walter Benjamin’s Die Aufgabe des Übersetzers dates from 1923. An English translation of this essay, by James Hynd and E.M. Valk, may be found in Delos, A Journal on and of Translation, 2 (1968).”

The relevant proposition is this: if translation is a form, then the condition of translatability must be ontologically necessary to certain works.” W.B.

Translation is both possible and impossible – a dialectical antinomy characteristic of esoteric argument.” “At the <messianic end of their history> (again a Kabbalistic or Hasidic formulation), all separate languages will return to their source of common life. In the interim, translation has a task of profound philosophic, ethical, and magical import.”

Certain of Luther’s versions of the Psalms, Hölderlin’s recasting of Pindar’s Third Pythian Ode, point by their strangeness of evocatory inference to the reality of an Ur-Sprache in which German and Hebrew or German and ancient Greek are somehow fused.”

Marianne Moore’s readings of La Fontaine are thorn-hedges apart from colloquial American English. The translator enriches his tongue by allowing the source language to penetrate and modify it.” “As the Kabbalist seeks the forms of God’s occult design in the groupings of letters and words, so the philosopher of language will seek in translations – in what they omit as much as in their content – the far light of original meaning.”

His loyalties divided between Czech and German, his sensibility drawn as it was, at moments, to Hebrew and to Yiddish, Kafka developed an obsessive awareness of the opaqueness of language. His work can be construed as a continuous parable on the impossibility of genuine human communication, or, as he put it to Max Brod in 1921, on <the impossibility of not writing, the impossibility of writing in German, the impossibility of writing differently. One could almost add a fourth impossibility: the impossibility of writing>.” In the Penal Colony, perhaps the most desperate of his metaphoric reflections on the ultimately inhuman nature of the written word, Kafka makes of the printing press an instrument of torture. The theme of Babel haunted him: there are references to it in almost every one of his major tales. Twice he offered specific commentaries, in a style modelled on that of Hasidic and Talmudic exegesis”

As no generation of men can hope to complete the high edifice, as engineering skills are constantly growing, there is time to spare. More and more energies are diverted to the erection and embellishment of the workers’ housing. Fierce broils occur between different nations assembled on the site. <Added to which was the fact that already the second or third generation recognized the meaninglessness, the futility (die Sinnlosigkeit) of building a Tower unto Heaven – but all had become too involved with each other to quit the city.> Legends and ballads have come down to us telling of a fierce longing for a predestined day on which a gigantic fist will smash the builders’ city with five blows. <That is why the city has a fist in its coat of arms.>” “The Talmud, which is often Kafka’s archetype, refers to the 49 levels of meaning which must be discerned in a revealed text. [?!?!]”

A base de uma torre que chegasse ao céu teria de estar fincada nas profundezas do inferno, como o arquétipo de todas as árvores. O Minotauro-Cérbero alado aguarda na entrada cheio de respostas para nossos próprios enigmas anti-edipianos.

Gnostic and Manichaean speculation (the word has in it an action of mirrors) provide Borges with the crucial trope of a <counter-world>. [O Espelho de Enigmas]” Borges, o Confúcio do novo milênio: somos o sonho de uma lagartixa em sua “metempsicose”-rumo-à-borboleta de um paramundo.

the thrall of time

Borges moves with a cat’s sinewy confidence and foolery between Spanish, ancestral Portuguese, English, French, and German. He has a poets’ grip on the fibre of each. He has rendered a Northumbrian bard’s farewell to Saxon English, <a language of the dawn>. The <harsh and arduous words> of Beowulf were his before he <became a Borges>.”

The Library of Babel dates from 1941. Every element in the fantasia has its sources in the <literalism> of the Kabbala and in gnostic and Rosicrucian images, familiar also to Mallarmé, of the world as a single, immense tome. <The universe (which others call the Library) is composed of an indefinite, perhaps an infinite number of hexagonal galleries.> It is a beehive out of Piranesi [artista plástico italiano do séc. XVIII] but also, as the title indicates, an interior view of the Tower. <The Library is total and . . . its shelves contain all the possible combinations of the 20-odd orthographic symbols (whose number, though vast, is not infinite); that is, everything which can be expressed, in all languages. Everything is there: the minute history of the future, the autobiographies of the archangels, the faithful catalogue of the Library, thousands and thousands of false catalogues, a demonstration of the falsehood of the true catalogue, the Gnostic gospel of Basilides, the commentary on this gospel, the commentary on the commentary of this gospel, the veridical account of your death, a version of each book in all languages, the interpolation of every book in all books.> Any conceivable combination of letters has already been foreseen in the Library and is certain to <encompass some terrible meaning> in one of its secret languages. No act of speech is without meaning: <No one can articulate a syllable which is not full of tenderness and fear, and which is not, in one of those languages, the powerful name of some god.> Inside the burrow or circular ruins men jabber in mutual bewilderment; yet all their myriad words are tautologies making up, in a manner unknown to the speakers, the lost cosmic syllable or Name of God. This is the formally boundless unity that underlies the fragmentation of tongues.”

Arguably, Pierre Menard, Author of the Quixote (1939) is the most acute, most concentrated commentary anyone has offered on the business of translation. What studies of translation there are, including this book, could, in Borges’ style, be termed a commentary on his commentary. This concise fiction has been widely recognized for the device of genius which it obviously is. But – and again one sounds like a pastiche of Borges’s fastidious pedantry – certain details have been missed. Menard’s bibliography is arresting: the monographs on <a poetic vocabulary of concepts> and on <connections or affinities> between the thought of Descartes, Leibniz, and John Wilkins point towards the labours of the 17th century to construe an ars signorum, a universal ideogrammatic language system. Leibniz’s Characteristica universalis, to which Menard addresses himself, is one such design; Bishop Wilkins’s Essay towards a real character and a philosophical language of 1668 another. Both are attempts to reverse the disaster at Babel. Menard’s <work sheets of a monograph on George Boole’s symbolic logic> show his (and Borges’) awareness of the connections between the 17th century pursuit of an inter-lingua for philosophic discourse and the <universalism> of modem symbolic and mathematical logic. Menard’s transposition of the decasyllables of Valéry’s Le Cimetière marin into alexandrines is a powerful, if eccentric, extension of the concept of translation. And pace the suave authority of the memorialist, I incline to believe that <a literal translation of Quevedo’s literal translation> of Saint François de Sales was, indeed, to be found among Menard’s papers.” “(How many readers of Borges have observed that Chapter IX turns on a translation from Arabic into Castilian, that there is a labyrinth in XXXVIII, and that Chapter XXII contains a literalist equivocation, in the purest Kabbalistic vein, on the fact that the word no has the same number of letters as the word ?)” “to become Cervantes by merely fighting Moors, recovering the Catholic faith, and forgetting the history of Europe between 1602 and 1918 was really too facile a métier. Far more interesting was <to go on being Pierre Menard and reach the Quixote through the experiences of Pierre Menard>, i.e. to put oneself so deeply in tune with Cervantes’s being, with his ontological form, as to re-enact, inevitably, the exact sum of his realizations and statements. The arduousness of the game is dizzying. Menard assumes <the mysterious duty> – Bonner,(*) rightly I feel, invokes the notion of <contract> – of recreating deliberately and explicitly what was in Cervantes a spontaneous process. But although Cervantes composed freely, the shape and substance of the Quixote had a local <naturalness> and, indeed, necessity now dissipated. Hence a second fierce difficulty for Menard: to write <the Quixote at the beginning of the 17th century was a reasonable undertaking, necessary and perhaps even unavoidable; at the beginning of the 20th, it is almost impossible. It is not in vain that 300 years have gone by, filled with exceedingly complex events. Amongst them, to mention only one, is the Quixote itself> (Bonner’s <that same Don Quixote> both complicates and flattens Borges’ intimation). In other words, any genuine act of translation is, in one regard at least, a transparent absurdity, an endeavour to go backwards up the escalator of time and to re-enact voluntarily what was a contingent motion of spirit.”

(*) Tradutor anglo-saxônico deste clássico borgeano. Possivelmente, bancar uma missão desabonneradora!

<Repetition> is, as Kierkegaard argued, a notion so puzzling that it puts in doubt causality and the stream of time.”

Qual de nós 2 escreve esta página, eu ou meu tradutor? Pois, se não é o segundo, talvez este trecho sequer exista… Eu certamente nunca vim a escrevê-lo!

Singularidades estão na [MÔ]NA[DA].

Philology is the quintessential historical science, the key to the Scienza nuova, because the study of the evolution of language is the study of the evolution of the human mind itself.”Vico’s opposition to Descartes and to the extensions of Aristotelian logic in Cartesian rationalism made of him the first true <linguistic historicist> or relativist.” “a universal logic of language, on the Aristotelian or Cartesian-mathematical model, is falsely reductionist.”

Hamann throws out suggestions which anticipate the linguistic relativism of Sapir and Whorf.” “Herder was possessed of a sense of place. His Sprachphilosophie marks a translation from the inspired fantastications of Hamann to the development of genuine comparative linguistics in the early 19th century.” “An untranslated language, urges Herder, will retain its vital innocence, it will not suffer the debilitating admixture of alien blood.”

Sir William Jones’ celebrated Third Anniversary Discourse on the Hindus of 1786 had, as Friedrich von Schlegel put it, <first brought light into the knowledge of language through the relationship and derivation he demonstrated of Roman, Greek, Germanic and Persian from Indic; and through this into the ancient history of peoples, where previously everything had been dark and confused>. Schlegel’s own Über die Sprache und Weisheit der Indier of 1808, which contains this tribute to Jones, itself contributed largely to the foundations of modern linguistics. It is with Schlegel that the notion of <comparative grammar> takes on clear definition and currency. Not much read today, Mme. de Staël’s De L’Allemagne (1813) [de quem Nietzsche foi orgulhosamente um detrator] exercised tremendous influence.” “Expanding on suggestions already made by Hamann, she sought to correlate the metaphysical ambience, internal divisions, and lyric bias of the German national spirit with the gnarled weave and <suspensions of action> in German syntax. She saw Napoleonic French as antithetical to German, and found its systematic directness and rhetoric clearly expressive of the virtues and vices of the French nation.”

The play of intelligence, the delicacy of particular notation, the great front of argument which Humboldt exhibits, give his writings on language, incomplete though they are, a unique stature. Humboldt is one of the very short list of writers and thinkers on language–it would include Plato, Vico, Coleridge, Saussure, Roman Jakobson–who have said anything that is new and comprehensive.”

Werther, Don Carlos, Faust are supreme works of the individual imagination, but also intensely pragmatic forms. In them, through them, the hitherto divided provinces and principalities of the German-speaking lands could test a new common identity. Goethe and Schiller’s theatre at Weimar, Wieland’s gathering of German ballads and folk poetry, the historical narratives and plays of Kleist set out to create in the German mind and in the language a shared echo. As Vico had imagined it would, a body of poetry gave a bond of remembrance (partially fictive) to a new national community. As he studied the relations of language and society, Humboldt could witness how a literature, produced largely by men whom he knew personally, was able to give Germany a living past, and how it could project into the future great shadowforms of idealism and ambition.”

To Humboldt and his brother, this intimation of universality was no empty metaphor. The Humboldts were among the last Europeans of whom it may be said with fair confidence that they had direct professional or imaginative notions of very nearly the whole of extant knowledge. Ethnographers, anthropologists, linguists, statesmen, educators, the two brothers were a nerve-centre for humanistic and scientific inquiry. Their active interests, like Leibniz’s, ranged with authority and passionate curiosity from mineralogy to metaphysics, from the study of Amerindian antiquities to modern technology.”

H., Über die Verschiedenheit des menschlichen Sprachbaues und ihren Einfluss auf die geistige Entwicklung des Menschengeschlechts / On the Differentiation of the Structure of Human Language, and its Influence on the Spiritual Evolution of the Human Race (1835 [obra póstuma, editada por Steinthal somente em 1883]) (comparar textos Lorena) [?]

This organic evolutionism goes well beyond and, indeed, against Kant. In so doing, Humboldt arrives at a key notion: language is a <third universe> midway between the phenomenal reality of the <empirical world> and the internalized structures of consciousness. It is this median quality, this material and spiritual simultaneity, that makes of language the defining pivot of man and the determinant of his place in reality.” “Humboldt conjoins the environmentalism of Montesquieu and the nationalism of Herder with an essentially post-Kantian model of human consciousness as the active and diverse shaper of the perceived world.” “It may be that Humboldt derived from Schiller his emphasis on language as being itself the most comprehensive work of art.” “The entelechy, the purposeful flow of speech–we find in Humboldt a kind of romantic Aristotelianism–is the communication of ordered, perceived experience.”

A Linguagem é a unidade primordial.

Mas a unidade primordial não é unitária, que pena!

FALA PRA FORA!: “Man walks erect not because of some ancestral reaching out towards fruit or branch, but because discourse, die Rede, <would not be muffled and made dumb by the ground>.”

Humboldt clearly anticipates both C.K. Ogden’s theory of opposition and the binary structuralism of Lévi-Strauss.”

Even the noblest language is only ein Versuch and will remain ontologically incomplete. On the other hand, no language however primitive will fail to actualize, up to a point, the inner needs of a community. Humboldt is convinced that different tongues provide very different intensities of response to life; he is certain that different languages penetrate to different depths. He takes over Schlegel’s classification of <higher> and <lower> grammars. Inflection is far superior to agglutination. The latter is the more rudimentary mode, a Naturlaut.”

The Greek tone is light, delicate, nuancé. Attic civilization is incomparably inventive of intellectual and plastic forms. These virtues are engendered by and reflected in the precisions and shadings of Greek grammar. Few other languages have cast so finely-woven a net over the currents of life. At the same time, there is that in Greek syntax which helps explain the divisive quality of Greek politics, the excessive trust in rhetoric, the virtuosities of falsehood which sophisticate and corrode the affairs of the polis. Latin offers a grave contrast: the stern, masculine, laconic tenor of Roman culture is exactly correlate with the Latin language, with its sobriety, even paucity, of syntactic invention and Lautformung. The lettering of a Latin inscription is perfectly expressive of the linear, monumental weight of the language.”

The actual history of linguistic relativity leads via the work of Steinthal (the editor of Humboldt’s fragmentary texts) to the anthropology of Franz Boas.”

The first true Germany was that of Luther’s vernacular. Gradually the German language created those modes of shared sensibility from which the nation-state could evolve. When that state entered modem history, a late arrival burdened with myths and surrounded by an alien, partially hostile Europe, it carried with it a sharpened, defensive sense of unique perspective.”

This determination constitutes what Trier, in the early 1930s, called das sprachliche Feld. Thus, in a distinctly Leibnizian way, each tongue or language-monad constructs and operates within a total conceptual field (the imagistic correlation with quantum physics is obvious). This field may be understood as a Gestalt.”

Zwischenwelten: Entremundos

The gauchos of the Argentine know some 200 expressions for the colours of horses’ hides, and such discrimination is obviously vital to their economy. But their normal speech finds room only for 4 plant names.”

Anthropological study of American Indian cultures seemed to bear out Humboldt’s conjectures on linguistic determinism and Trier’s notion of the <semantic field>. The whole approach is summarized by Edward Sapir in an article dated 1929”

Whorf, Language, Thought and Reality (1956): “Whorf was an outsider. He had something of Vico’s philosophic curiosity, but was a chemical engineer with a distinctively modern awareness of scientific detail.”

Paper views acadêmicos

Spatialization, and the space-time matrix in which we locate our lives, are made manifest in and by every element of grammar. There is a distinctive Indo-European time-sense and a corresponding system of verb tenses. Different <semantic fields> exhibit different techniques of numeration, different treatments of nouns denoting physical quantity. They divide the total spectrum of colours, sounds, and scents in very diverse ways. Again, Wittgenstein’s use of <mapping> offers an instructive parallel: different linguistic communities literally inhabit and traverse different landscapes of conscious being.”

Unlike many universalists, Whorf had an obvious linguistic ear. But it is his work on the languages of the Hopis of Arizona that carries the weight of evidence. It is here that the notion of distinct <pattern-systems> of life and consciousness is argued by force of specific example. The key papers on <an American Indian model of the universe> date from circa 1936 to 1939, at which point Whorf extended his analyses to the Shawnee language.”

Hopi is better equipped to deal with wave processes and vibrations than is modern English. <According to the conception of modern physics, the contrast of particle and field of vibrations is more fundamental in the world of nature than such contrasts as space and time, or past, present, and future, which are the sort of contrasts our own language imposes upon us. The Hopi aspect-contrast . . . being obligatory upon their verb forms, practically forces the Hopi to notice and observe vibratory phenomena, and furthermore encourages them to find names for and to classify such phenomena.>” “The <metaphysics underlying our own language, thinking, and modern culture> necessarily imposes a static three-dimensional infinite space, but also a perpetual time-flow. These two <cosmic co-ordinates> could be harmoniously conjoined in the physics of Newton and the physics and psychology of Kant. They confront us with profound internal contradictions in the world of quantum mechanics and four-dimensional relativity. The metaphysical framework which informs Hopi syntax is, according to Whorf, far better suited to the world-picture of modern science. Hopi verb tenses and phrasings articulate the existence of events <in a dynamic state, yet not a state of motion>.” Ou é só o nosso olho que QUER VER quarks numa cultura antiocidental? A terra-natal de Heisenberg.

It is the study of such <cryptotypes> in different languages, urges Whorf, that will lead anthropology and psychology to an understanding of those deep-seated dynamics of meaning, of chosen and significant form, that make up a culture.” “Patently, they elude translation (we shall return to this point). Yet careful, philosophically and poetically disciplined observation does allow the linguist and anthropologist to enter, in some degree at least, into the <pattern-system> of an alien tongue. Particularly if he acts on the principles of ironic self-awareness which underlie a genuine relativist view.”

sânscrito é merda

Lévi-Strauss would fully endorse Whorf’s assertion that <many American Indian and African languages abound in finely wrought, beautifully logical discriminations about causation, action, result, dynamic or energic quality, directness of experience, etc., all matters of the function of thinking, indeed the quintessence of the rational. In this respect they far out-distance the European languages.>” “Whatever may be the future status of Whorf’s theories of language and mind, this text will stand.”

if the Humboldt-Sapir-Whorf hypothesis were right, if languages were monads with essentially discordant mappings of reality, how then could we communicate interlingually? How could we acquire a second tongue or traverse into another language-world by means of translation?”

N.S. Trubetskoy’s Grundzüge der Phonologie published in Prague in 1939. Comparing some 200 phonological systems, Trubetskoy set out those acoustic structures without which there cannot be a language and which all languages exhibit.”

It seems safe enough to assert that all languages on this earth have a vowel system. In fact, the proposition is true only if we take it to include segmented phonemes which occur as syllabic peaks – and even in that case, at least one known tongue, Wishram, poses problems. There is a Bushman dialect called Kung, spoken by a few thousand natives of the Kalahari. It belongs to the Khoisan group of languages, but is made up of a series of clicking and breathing sounds which, so far as is known, occur nowhere else, and which have, until now, defied transcription. Obviously, these sounds lie within the physiological bounds of human possibility. But why should this anomaly have developed at all, or why, if efficacious, should it be found in no other phonological system? A primary nasal consonant <is a phoneme of which the most characteristic allophone is a voiced nasal stop, that is, a sound produced by a complete oral stoppage (e.g. apical, labial), velic opening, and vibration of the vocal cords> (Ferguson).”

the plain statement that every human tongue has at least one primary nasal consonant in its inventory requires modification. Hockett’s Manual of Phonology (1955) reports a complete absence of nasal consonants from Quileute and two neighbouring Salishan languages. Whether such nasals once existed and have, in the course of history, become voiced stops, or whether, through some arresting eccentricity, Salishan speech never included nasal phonemes at all, remains undecided. Such examples can be multiplied.”

The pursuit of such a <fundamental grammar> is itself a fascinating chapter in the history of analytic thought. A considerable distance has been covered since Humboldt’s hope, that a generalized treatment of syntactic forms would be devised to include all languages, <from the rawest> to the most accomplished. The notion that certain fixed syntactic categories – noun, verb, gender – can be found in every tongue, and that all languages share certain primary rules of relation, became well established in 19th-century philology. That <same basic mould> in which all languages are cast came to be understood quite precisely: as a set of grammatical units, of markers which themselves denote nothing but make a difference in composite forms, and of rules of combination.”

No language has been found to lack a first- and second-person singular pronoun. The distinctions between I, thou, and he and the associated network of relations (so vital to kinship terms) exist in every human idiom.”

All speech operates with subject-verb-object combinations. Among these, the sequences verb-object-subject, object-subject-verb, and object-verb-subject are exceedingly rare.”

The most ambitious list of syntactic universals to have been established <on the basis of the empirical linguistic evidence> is that of J.H. Greenberg.” “If a language <has the category of gender, it always has the category of number>. Otherwise, there would be human aggregates trapped in eccentric chaos.” “Compared to the total of languages in current use, the number whose grammar has been formalized and thoroughly examined is absurdly small (Greenberg’s empirical evidence is drawn almost exclusively from 30 languages).”

One would expect all languages with a distinction of gender in the second-person singular to show this distinction in the third person as well. In nearly every known instance, this holds. But not in a very small cluster of tongues spoken in central Nigeria. The Nootka language provides an often-cited example of a grammatical system in which it is very difficult to draw any normal distinction between noun and verb. The alignment of genitive constructions looks like a primal typological marker according to which all languages can be classified into a small number of major groups. Araucanian, an Indian tongue spoken in Chile, and some Daghestan languages of the Caucasus do not fit the scheme. Such anomalies cannot he dismissed as mere curios. A single genuine exception, in any language whether living or dead, can invalidate the whole concept of a grammatical universal.” “Chomskian grammar is emphatically universalist (but what other theory of grammar – structural, stratificational, tagmemic, comparative – has not been so?). No theory of mental life since that of Descartes and the XVII-century grammarians of Port Royal has drawn more explicitly on a generalized and unified picture of innate human capacities, though Chomsky and Descartes mean very different things by <innateness>. Chomsky’s starting-point was the rejection of behaviourism. No simple pattern of stimulus and mimetic response could account for the extreme rapidity and complexity of the way in which human beings acquire language. All human beings. Any language. A child will be able to construct and understand utterances which are new and which are, at the same time, acceptable sentences in his language. At every moment of our lives we formulate and understand a host of sentences different from any that we have heard before. These abilities indicate that there must be fundamental processes at work quite independently of <feedback from the environment>.” “Here, as in the shared axiom that language <makes infinite use of finite means>, Chomskian universalism is congruent with the relativism of Humboldt.” “Chomsky contends that a search for universals at the phonological or ordinary syntactic level is wholly inadequate. The shaping centres of language lie much deeper. In fact, surface analogies of the kind cited by Greenberg may be entirely misleading: it is probable that the deep structures for which universality is claimed are quite distinct from the surface structure of sentences as they actually appear. The geological strata are not reflected in the local landscape.” “In the vocabulary of Wittgenstein, the transition from <surface grammar> to <depth grammar> is a step towards clarity, towards a resolution of those philosophic muddles which spring from a confusion of linguistic planes. Chomskian <deep structures>, on the other hand, are located <far beyond the level of actual or even potential consciousness>. We may think of them as relational patterns or strings of an order of abstraction far greater than even the simplest of grammatical rules. Even this is too concrete a representation.” Hm. É como se ele só tivesse formatado a teoria para não ser jamais validada ou refutada.

…DO SENHOR REITOR: “Vico’s suggestion that all languages contain key anthropomorphic metaphors. One of these, the comparison of the pupil of the eye to a small child (pupilla), has been traced in all Indo-European languages, but also in Swahili, Lapp, Chinese, and Samoan.”

i carries values of smallness in almost every Indo-European and Finno-Ugrian language. But English big and Russian velikij suffice to show that we are not dealing with anything like a universal semantic reflex.”

The white/black dichotomy is of particular interest, as it appears to convey a positive/negative valuation in all cultures, regardless of skin-colour. It is as if all men, since the beginning of speech, had set the light above the dark.” “All languages do subdivide the colour spectrum into continuous segments (though <continuous> begs difficult issues in the neurophysiology and psychology of perception)”

Tese (estudo de caso da Filosofia Grega (a ponta da ponta da ponta do iceberg)): Benveniste, Problèmes de linguistique generale (Paris, 1966)

Réplica: Auberique, Aristote et le language, note annexe sur les catégoeries d’Aristote. À propos d’un article de M. Benveniste, 1965 (avant? comment?)

Tréplica: Derrida, Marges de la philosophie (Paris, 1972)

Few grammarians would hold with Osgood that 11/12 of any language consist of universals and only 1/12 of specific, arbitrary conventions, but the majority would agree that the bulk and organizing principles of the iceberg belong to the subsurface category of universals.”

Translation is, plainly, the acid test. But the uncertainties of relation between formal and substantive universality have an obscuring effect on the relations between translation and universality as such. Only if we bear this in mind can we understand a decisive hiatus or shift in terms of reference in Chomsky’s Aspects of the Theory of Syntax” “Are we not back in a Whorfian hypothesis of autonomous language-monads? Could Hall be right when he polemicizes against the whole notion of <deep structures>, calling them <nothing but a paraphrase of a given construction, concocted ad hoc to enable the grammarian to derive the latter from the former by one kind of manipulation or another>?” “By placing the active nodes of linguistic life so <deep> as to defy all sensory observation and pragmatic depiction, transformational generative grammar may have put the ghost out of all reach of the machine.” Chomsky, O Obscuro – foi o que falei alguns parágrafos acima…

I.A. Richards, “Why Generative Grammar Does Not Help”

No true understanding can arise from synchronic abstraction. Even more than the linguists, and long before them, poets and translators have worked inside the time-shaped skin of human speech and sought to elucidate its deepest springs of being. Men and women who have in fact grown up in a multilingual condition will have something to contribute towards the problem of a universal base and a specific world-image. Translators have left not only a great legacy of empirical evidence, but a good deal of philosophic and psychological reflection on whether or not authentic transfers of meaning between languages can take place.”

Man weiss nicht, von wannen er kommt und braust

Schiller

O homem não sabe de onde eclodiu a língua”

III. WORD AGAINST OBJECT

SÓ SOCANDO CHOMSKY: “the seductive precedent of Euclidean geometry or classic algebraic demonstration, as each proceeds from axiomatic simplicities to high complexity, must not be invoked uncritically. The <elements> of language are not elementary in the mathematical sense. We do not come to them new, from outside, or by postulate. Behind the very concept of the elementary in language lie pragmatic manoeuvres of problematic and changing authority.”

does that <intertraffique of the minde>, for which Samuel Daniel praised John Florio, the great translator, inhibit or augment the faculty of expressive utterance?”

Certain experts in the field of simultaneous translation declare that a native bilingual speaker does not make for an outstanding interpreter. The best man will be one who has consciously gained fluency in his second tongue. The bilingual person does not <see the difficulties>, the frontier between the two languages is not sharp enough in his mind.” “In a genuinely multilingual matrix, the motion of spirit performed in the act of alternate choice – or translation – is parabolic rather than horizontal.”

Speaking to oneself would be the primary function (considered by L.S. Vygotsky in the early 1930s, this profoundly suggestive hypothesis has received little serious examination since).”

For a human being possessed of several native tongues and a sense of personal identity arrived at in the course of multilingual interior speech, the turn outward, the encounter of language with others and the world, would of necessity be very different, metaphysically, psychologically different, from that experienced by the user of a single mother-tongue. But can this difference be formulated and measured? Are there degrees of linguistic monism and of multiplicity or unhousedness that can be accurately described and tested?” “What records there are of a primary at-homeness in two or more languages may be found disseminated in the memoirs of poets, novelists, and refugees. They have never been seriously analysed. (Nabokov’s Speak Memory and the material ironized and inwoven in Ada are of the first importance.)”

Vildomec, Multilingualism (Leiden, 1963)

Dell Hymes (ed.), Pidginization and Creolization of Languages (Cambridge University Press, 1971)

Paul Pimsleur & Terence Quinn (eds.), The Psychology of Second Language Learning (Cambridge University Press, 1971)

Einar Hagen, Language Conflict and Language Planning: The Case of Modem Norwegian (Harvard, 1 966)

Leonard Forster, The Poet’s Tongues: Multilingualism in Literature (Cambridge University Press, 1970)

Language and death may be conceived of as the two areas of meaning or cognitive constants in which grammar and ontology are mutually determinant. The ways in which we try to speak of them, or rather to speak them, are not satisfactory statements of substance, but are the only ways in which we can question, i.e. experience their reality. According to the medieval Kabbalah, God created Adam with the word emeth, meaning truth, writ on his forehead. In that identification lay the vital uniqueness of the human species, its capacity to have speech with the Creator and itself. Erase the initial aleph which, according to certain Kabbalists, contains the entire mystery of God’s hidden Name and of the speech-act whereby He called the universe into being, and what is left is meth, he is dead.” Cf. Gershom Scholem, On the Kabbalah and its Symbolism

Jakobson, Child Language, Aphasia, and Phonological Universals (The Hague, 1968)

Work done with patients who have recovered eyesight after long periods of blindness or first acquire normal vision in mature age does suggest that we only see completely or accurately what we have touched.”

Quantitatively, the 26-letter alphabet is richer than the genetic code with its <3-letter words>. But the lettering analogy may, as Paul Weiss has put it, be <of intriguing pertinence>.”

The Vedantic precept that knowledge shall not, finally, know the knower points to a reasonable negative expectation; consciousness and the elucidation of consciousness as object may prove inseparable.” O preceito vedântico de que o conhecimento não deve (pode), em última instância, conhecer os pontos fulcrais, conhecer-se a si mesmo, pois do contrário frustraria todas as suas expectativas e recairia no pessimismo, de forma que o jogo do conhecimento apenas segue seu ritmo normal, constante e ininterrupto; a consciência e a elucidação da consciência como objetos talvez sejam inseparáveis.

The needed distance for reflexive cognition is lacking. Even, perhaps, at the physiological level.” O distanciamento necessário para fins de cognição reflexiva é falto. Mesmo no nível fisiológico. Fora do que o conhecimento estaria para julgar-se enquanto conhecimento?

Jacques Monod, From Biology to Ethics: “Le langage ne reste enigmatique que pour qui continue de l’interroger, c’est-a-dire d’en parler.”

Drugs, schizophrenic disturbances, exhaustion, hunger, common stress, and many other factors can bend, accelerate, inhibit, or simply blur our feeling and recording of time. The mind has as many chronometries as it has hopes and fears. During states of temporal distortion, linguistic operations may or may not exhibit a normal rhythm.” Cf. R. Wallis, Quatrième dimension de l’esprit (Paris, 1966)

it is a commonplace to insist that much of the distinctive Western apprehension of time as linear sequence and vectorial motion is set out in and organized by the Indo-European verb system.”

Does the past have any existence outside grammar? The notorious logical teaser – <can it be shown that the world was not created an instant ago with a complete programme of memories?> – is, in fact, undecidable. No raw data from the past have absolute intrinsic authority. Their meaning is relational to the present and that relation is realized linguistically. Memory is articulated as a function of the past tense of the verb.” “French knows a passé défini, a passé indéfini, a passé antérieur, a parfait (more properly, prétérit parfait), and an imparfait, to name only the principal modes.¹ No philosophic grammar has until now provided an analysis of the diverse logics, tonal values, semantic properties of past tenses and of the modulations between them to rival that of À La recherche du temps perdu – a title which is itself a pun on grammar. Proust’s minutely discriminated narrative pasts are reconnaissances of the <language-distances> which we postulate and traverse when stating memories. Proust’s control of grammar is so deeply felt, his collation of language with psychological stimuli so vital and examined, that he makes of the verb tense not only a precisely fixed location – at each moment of utterance we know where we were – but an investigation of the essentially linguistic, formally syntactic nature of the past. If the Abbé Sièyes could make of the laconic j’ai vécu a comprehensive reply to those who asked for an account of his life during the French Revolution, the reason is that the setting of the verb in the perfect preterite and the use of it without any prepositional adjunct, define a special <pastness>, an area of recall seemingly vague, yet made exact by inference of ironic judgement.”

¹ Bibliografia sugerida:

Gustave Guillaume, Temps et verbe (Paris, 1929)

______. L’Architectonique du temps dans les langues classiques (Copenhagen, 1946).

The most complete treatment of the whole topic of time in language is to be found in André Jacob, Temps et langage (Paris, 1967). This work includes an extensive bibliography.”

PSICANÁLISE DO PRETÉRITO INTERMINÁVEL IMPERFEITO: “Orpheus walking to the light but with his eyes resolutely turned back. (…) So far as it depends on identifying a <true past> with what are, in fact, word-strings in the past tense, so far as it seeks to exhume reality through grammar, psychoanalysis remains a circular process. Remembrance is always now. In my opinion, Paul Ricoeur’s De L’interpretation (Paris, 1965) will remain the classic statement of the ontological <fictions> in propositions about the past, and of the role of such <fictions> in psychoanalysis.”

Croce’s dictum <all history is contemporary history> points directly at the ontological paradox of the past tense.” TODO HISTORIADOR É UM TRADUTOR: “Looking at an oration by Pericles or an edict by Robespierre, he must determine <the whole range of communications which could have been conventionally performed on the given occasion by the utterance of the given utterance>. This is a handsome ideal, and it sharply illuminates the nature of the historian’s dilemma. But the solution offered is linguistically and philosophically naïve. There can be no determination of all <the functions words can serve> at any given time; <the whole range of communications that could have been conventionally performed> can never be registered or analysed. The determination of the dimensions of pertinent context (what are all the factors that may have genuine bearing on the meanings of this statement?) is very nearly as subjective, as bordered by undecidability in the case of the historical document as in that of the poetic or dramatic passage.”

In Warheit und Methode (Tübingen, 1960), pp. 370-83, H.-G. Gadamer argues the problematic status of all historical documentation at a level which is, philosophically, a good deal deeper than that touched on by Skinner. His conclusion is lapidary, <Der Begriff des ursprünglichen Lesers steckt voller undurschauten Idealisierung> (p. 373). Oddly enough, Gadamer does not point out how drastically Heidegger – who is so clearly the source of the current hermeneutic movement – commits errors of arbitrary recreation in his definitions of the supposedly <true, authentic> meaning of key terms in early Greek philosophyCf. in particular Heidegger’s Einführung in die Metaphysik of 1935 and 1953. See Richard E. Palmer, Hermeneutics (Evanston, Illinois, 1969) for an admirable introduction to the literature.”

¹ Tem certeza que o próprio Heidegger levou essas etimologias a sério?

scholars of Sanskrit suggest that the development of a grammatical system of futurity may have coincided with an interest in recursive series of very large numbers”

Stalinism has shown how a political system can outlaw the past, how it can determine exactly what memories are to be allowed to the living and what dose of oblivion to the dead. One can imagine a comparable prohibition of the future, the point being that tenses beyond the futur prochain necessarily entail the possibility of social change. What would existence be like in a total (totalitarian) present, in an idiom which limited projective utterances to the horizon of Monday next?” “The fact that young children begin by using verbs unmarked by tense may or may not tell us something regarding the genesis of language itself. Clearly, we have no history of the future tense.”

Mary R. Haas, The Prehistory of Languages (The Hague, 1969)

Richard M. Gale (ed.), The Philosophy of Time (London, 1968)

What then is time? If no one asks me, I know. If I want to explain it to a questioner, I do not know.” Augustine

CONCEPÇÕES CRISTÃS DO TEMPO: “The account of Aquinas’ and Ockham’s thought in Étienne Gilson, La Philosophie au Moyen Age (3rd ed., Paris, 1947) remains indispensable.”

McTaggart’s celebrated proof that time is unreal first appeared in 1908; Bergson’s Évolution créatrice a year later. Refutations of McTaggart and critiques of Bergson are at the source of the development of modem <tense-logic>. The questions asked are old.” “For an examination of McTaggart’s <proof> cf. G. Schlesinger, The Structure of McTaggart’s Argument (Review of Metaphysics, XXIV, 1971). The best history of <tense-logic> and the most thorough investigation of the issues involved are to be found in the two books by A.N. Prior, Past, Present, and Future (Oxford, 1967), and Papers on Time and Tense (Oxford, 1968).”

The relation of the genuine prophet (nabi) to the future is, in the classic period of Hebrew feeling, unique and complex. It is one of <evitable> certitude. In as much as he merely transmits the word of God, the prophet cannot err. His uses of the future of the verb are tautological. The future is entirely present to him in the literal presentness of his speech-act. But at the same moment, and this is decisive, his enunciation of the future makes that future alterable. If man repents and changes his conduct, God can bend the arc of time out of foreseen shape. There is no immutability except His being. The force, the axiomatic certainty of the prophet’s prediction lies precisely in the possibility that the prediction will go unfulfilled. From Amos to Isaiah, the true prophet does not announce an immutable decree. (…) It is from the inspired duplicity of the prophet’s task that the tale of Jonah derives its intellectual comedy.”

C.A. Skinner, Prophecy and Religion (London, 1922) (não é o psicólogo!!)

After the disaster at Megiddo in 609 BC, God’s will, says Buber [The Prophetic Fate], becomes an enigma. Jeremiah is a bachun (watch-tower) who seeks to resolve that enigma through moral perception.”

In ancient Judaism man’s freedom is inherent in a complex logical-grammatical category of reversibility.”

The oracle, at least during the early stages of Greek history, is never mistaken (during the Persian wars Delphi will prove to be erroneous and untrustworthy). Oracular uses of the future tense are severely deterministic. As in the grammar of malediction, the words cannot be called back or the fatality undone. But more often than not the phraseology of oracular pronouncements is susceptible of contrary interpretations. The language of the pythoness is forked as are the roads from Daulis. Frequently the questioner misreads the gnomic answer. Indeed the entire stance of those who consult the oracle is that of the unraveller [decifrador]. Such confrontation between deceptive message and code-breaker is characteristic of many aspects of Greek intellectual life.”

More vividly than any other cultural forms, Greek tragedy, Thucydidean history embody a coexistence, a dialectical reciprocity between that which is wholly foreseen and yet shatters the mind.”

Cicero’s version, in the De Divinatione and De Fato already lacks the tense paradoxality of the Greek source. Probably Yeats comes nearest, in Lapis Lazuli:

They know that Hamlet and Lear are gay;

Gaiety transfiguring all that dread.”

Evidence suggests that there was a relatively brief spell during which Christ’s coming was regarded as imminent, as an event occurring in time but bringing time to a stop. As normal sunrise persisted, this anticipation shifted to a millenary calendar, to the numerological and cryptographic search for the true date of His return. Very gradually this sense of speculative but exact futurity altered, at least within orthodox teaching, to a preterite. The Redeemer’s coming had happened already; that <pastness> being replicated and made present in each true sacrament. Even the most lucid of modern Christologists can do little more than state the paradox: <So it seems we must say that for the early Church the coming of Christ was both present and future, both at once.> [Dodd, The Coming of Christ (Cambridge, 1951)] Such coterminous duality could fit no available syntax. The event, formidably concrete as it was held to have been, <lies outside our system of time-reckoning>. The mystery of the transubstantiative rite, enacted in each mass, has its own tense-logic. It literally bodies forth, says Dodd, a <coming of Christ which is past, present and future all in one>.”

The paniques de l’an mille, analysed by Henri Focillon, the Adamite visionaries of the late Middle Ages, the men of the Fifth Monarchy in 17th-century England, the <doom churches> now proliferating in southern California, produce a similar idiom.”

Carnot’s Réflexions sur Ia puissance motrice du feu et les moyens propres à Ia developper (1824): “I can recall the queer inner blow I experienced when learning, as a boy, that in the future the thermodynamics of the sun would inevitably consume neighbouring planets and the works of Shakespeare, Newton, and Beethoven with them.”

C. von Orelli’s Die hebräischen Synonyma der Zeit und Ewigkeit genetisch und sprachvergleichend dargestellt of 1871 marks the beginning of methodical attempts to relate grammatical possibilities and constraints to the development of such primary ontological concepts as time and eternity. It had long been established that the Indo-Germanic framework of three-fold temporality – past, present, future – has no counterpart in Semitic conventions of tense. The Hebrew verb views action as incomplete or perfected. Even archaic Greek has definite and subtly discriminatory verb forms with which to express the linear flow of time from past to future. No such modes developed in Hebrew. In Indo-European tongues <the future is preponderantly thought to lie before us, while in Hebrew future events are always expressed as coming after us>.”

There can be spasms of despair in the individual and in the community, solicitations of <neverness> and of that last great repose which haunted Freud in Beyond the Pleasure Principle. Suicide is a recurrent option, as are resolutions of communal extinction, by sacrificial violence or a refusal to bear children. But these nihilistic temptations remain fitful and, statistically considered, rare. The language fabric we inhabit, the conventions of forwardness so deeply entrenched in our syntax, make for a constant, sometimes involuntary, resilience.”

Very probably, the self-perpetuation of animals takes place in the matrix of a constant present. Like the replication of molecular organisms, the generation and nurture of offspring does not, of itself, instance a concept of the future. The drive of human expectations or, as Bloch calls it, das Prinzip Hoffnung, relates to those probabilistic, partly Utopian reflexes which every human being displays each time he expresses hope, desire, even fear. We move forward in the slipstream of the statements we make about tomorrow morning, about the millennium.”

an animal not yet determined, not yet wholly posited”

ein noch nicht festgestelltes Tier” Nietzsche

it is only through language and music that man can make free of time, and overcome the presentness of his own death.”

The paradoxical possibility of the existence of private language has widely exercised modem logic and linguistic philosophy. It may be that a muddle [confusão] between <idiolect> and <privacy> has frustrated the whole debate. It may be also that only a close reading of actual cases of translation, particularly of poetry, will isolate and make concrete the elements of privacy within public utterance.” “the material leaves one with the sense of an impasse, with the suspicion that a subject of intense interest to philosophy at large and to the theory of language has been unduly narrowed and, perhaps, muddled. In part, this is a matter of mandarin idiom, of the strong inclination of logicians to deal more with each other’s previous papers and animadversions than with the intrinsic question. But it may well be that the trouble lies with Wittgenstein’s own handling of the private-language argument.” “Wittgenstein’s case conceals a reductio ad absurdum, for it can be made to demonstrate that no language at all is possible.”

To use language <in isolation> is like playing a game of solitaire. The names of the cards and the rules of manipulation are publicly given and the latter enable the player to play without the participation of other players. So, in a very important sense, even in a game of solitaire others participate, namely those who had made up the rules of the game.” Gershon Weiler

Cryptography provides a crude model. The practice of encoding information in hidden characters, which can be transmitted either orally or in writing, is probably as ancient as human communication itself, and certainly older than the coded hieroglyphics incised in circa 1900 BC in a nobleman’s tomb at Menet Khufu. It seems to be an inference from the private-language argument that all codes are based on a known public speech-system and can, therefore, be broken (i.e. understood, learned by at least one person beyond the original encoder). I am not certain whether there is a logical proof of this contention, or indeed whether there can be. But factually this appears to be the case. If certain texts – the Indus Valley script, the pictographs found on Easter Island, Mayan glyphs – have, until now, remained undeciphered, the reasons are contingent. They lie in human error or the lack of a critical mass of samples. Yet even here there are suggestive border-cases, puzzles which make of contingency a complex matter of degree. The so-called Voynich manuscript first turned up in Prague in 1666 (a date [and site!] with emphatic apocalyptic-numerological overtones). Its 204 pages comprise a putative code of 29 symbols recurring in what appear to be ordered <syllabic> units. The text gives every semblance of common non-alphabetic substitution. It has, up to the present time, resisted every technique of crypto-analysis including computer-simulation. We do not even know whether we are dealing with, as was formerly held, a 13th – or, as now seems probable, a late-16th – or 17th-century device.” “Cf. David Kahn, The Codebreakers (London, 1966) for a detailed discussion of the Voynich manuscript.”

But could there be any proof of nullity of meaning now that the original contriver is long dead? Would the absence of any such proof be evidence, however tenuous, towards the privacy of the <language> in question? And what of the <one-time pad> codes instituted by the German diplomatic service in the early 1920s? By its use of random non-repeating keys, this system makes of every message a unique, non-repeatable event. Does this undecipherable singularity throw any light on the logical paradigm of a language spoken only once, of a diary, in Wittgenstein’s model, whose rules of notation would apply only in and for the moment at which they were set down? It is the bizarre extremity of such cases which may help to point up, to elicit some of the untested assumptions in the private-language debate.”

As it happens, there is as yet no strong evidence in anthropology to demonstrate either a single and diffusive or a multiple origin of human speech. The transformational-generative postulate of innateness remains highly controversial and is thought by many to be the weakest aspect of the new linguistics. (…) So long as Chomsky does not specify what kind of innate mechanism he is adducing, it is difficult to imagine what would constitute evidence for or against the innateness of deep structures and transformational procedures.”

To a literate member of Western culture in the mid-20th century, the capital letter K is nearly an ideogram, invoking the presence of Kafka or of his eponymous doubles.”

Contrary to what logicians have asserted, numerals do not necessarily satisfy the condition of an identity and universality of associative content.”

At one pole we find a <pathology of Babel>, autistic strategies which attach hermetic meanings to certain sounds or which deliberately invert the lexical, habitual usage of words. At the other extreme, we encounter the currency of banal idiom, the colloquial shorthand of daily chatter from which constant exchange has all but eroded any particular substance. Every conceivable modulation exists between these two extremes. Even the sanest among us will have recourse, as does the deranged solipsist, to words and numerals, to phrases or sound-clusters, whose resonance and talismanic invocation are deeply personal. The cornered child will loose such signals on a deaf world. Families have their own thesaurus often irritatingly opaque to the newest member or outsider. So do priesthoods, guilds, professions, mysteries.”

There is no dictionary that lists even a fraction of the historical, figurative, dialectic, argotic, technical planes of significance in such simple words as, say, chaussée or faubourg; nor could there be, as these planes are perpetually interactive and changing. Where experience is monotonized, on the other hand, the associative content grows progressively more transparent. There is, currently, a stylistic and emotional esperanto of airport lounges, a vulgate identically inexpressive from Archangel to Tierra del Fuego.”

Harold Pinter and Peter Handke have strung together inert clichés, tags of commercial, journalistic idiom, to produce discourse which would show no indeterminacy, no roughage of personal reference. These satiric exercises have a direct bearing on the theory of language. The ego, with its urgent but vulnerable claims to self-definition, withers among hollow, blank phrases. Dead speech creates a vacuum in the psyche.” Comerciais de carro e desodorante que dão ânsia de vômito…

The enrichments of intimacy, of evocative excitement, that came from the use of taboo words, the sense of a uniquely shared access to a new and secret place, were real. Being, today, so loud and public, the diction of eros is stale; the explorations past silence are fewer.”

Under stress of radio and television, it may be that even our dreams will be standardized and made synchronic with those of our neighbours.”

It is almost intolerable that needs, affections, hatreds, introspections which we feel to be overwhelmingly our own, which shape our awareness of identity and the world, should have to be voiced – even and most absurdly when we speak to ourselves – in the vulgate. Intimate, unprecedented as is our thirst, the cup has long been on other lips. One can only conjecture as to the blow which this discovery must be to the child’s psyche. What abandonments of autonomous, radical vision occur when the maturing sensibility apprehends that the deepest instrumentalities of personal being are cast in a ready public mould? The secret jargon of the adolescent coterie, the conspirator’s password, the nonsense-diction of lovers, teddy-bear talk are fitful, short-lived ripostes to the binding commonness and sclerosis of speech. In some individuals the original outrage persists, the shock of finding that words are stale and promiscuous (they belong to everyone) yet wholly empowered to speak for us either in the inexpressible newness of love or in the privacies of terror. It may be that the poet and philosopher are those in whom such outrage remains most acute and precisely remembered; witness Sartre’s study of himself in Les Mots and his analysis of Flaubert’s <infantile> refusal to enter the matrix of authorized speech [?]. <O Wort, du Wort das mir fehlt!> cries Moses at the enigmatic climax of Schönberg’s Moses und Aron. No word is adequate to speak the present absence of God. None to articulate a child’s discovery of his own unreplicable self. None to persuade the beloved that there has been neither longing nor trust like this in any other time or place and that reality has been made new. Those seas in our personal existence into which we are <the first that ever burst> are never silent, but loud with commonplaces.”

The concept of <the lacking word> marks modern literature. The principal division in the history of Western literature occurs between the early 1870s and the turn of the century. It divides a literature essentially housed in language from one for which language has become a prison. Compared to this division all preceding historical and stylistic rubrics or movements – Hellenism, the medieval, the Baroque, Neo-classicism, Romanticism – are only subgroups or variants. From the beginnings of Western literature until Rimbaud and Mallarmé (Hölderlin and Nerval are decisive but isolated forerunners), poetry and prose were in organic accord with language. Vocabulary and grammar could be expanded, distorted, driven to the limits of comprehension. There are deliberate obscurities and subversions of the logic of common discourse throughout Western poetry, in Pindar, in the medieval lyric, in European amorous and philosophic verse of the 16th and 17th centuries. But even where it is most explicit, the act of invention, of individuation in Dante’s stile nuovo, in the semantic cosmography of Rabelais, moves with the grain of speech. The métier of Shakespeare lies in a realization, a bodying forth more exhaustive than any other writer’s, more delicately manifold and internally ordered, of the potentialities of public word and syntax. Shakespeare’s stance in language is a calm tenancy, an at-homeness in a sphere of expressive, executive means whose roots, traditional strengths, tonalities, as yet unexploited riches, he recognized as a man’s hand will recognize the struts and cornices, the worn places and the new in his father’s house. Where he widens and grafts, achieving reaches and interactions of language unmatched before him, Shakespeare works from within. The process is one of generation from a centre at once conventional (popular, historically based, current) and susceptible of augmented life. Hence the normative poise, [porte] the enfolding coherence which mark a Shakespearean text even at the limits of pathos or compactness. Violent, idiosyncratic as it may be, the statement is made from inside the transcendent generality of common speech. A classic literacy is defined by this <housedness> in language, by the assumption that, used with requisite penetration and suppleness, available words and grammar will do the job. There is nothing in the Garden or, indeed, in himself, that Adam cannot name. The concord between poetry and the common tongue dates back at least to the formulaic elements in Homer. It is because it is so firmly grounded in daily and communal speech, taught Milman Parry, that a Homeric simile retains its force. So far as the Western tradition goes, an underlying classicism, a pact negotiated between word and world, lasts until the second half of the 19th century. There it breaks down abruptly. Goethe and Victor Hugo were probably the last major poets to find that language was sufficient to their needs. The causes of this breakdown lie outside the scope of the argument. They are obviously multiple and complex. One would want to include consideration of the phenomenology of alienation as it emerges in the industrial revolution. The <discovery> of the unconscious and subconscious strata of the individual personality may have eroded the generalized authority of syntax. Conflicts between artist and middle class make the writer scornful of the prevailing idiom (this will be the theme of Mallarmé’s homage to Poe). <Entropy> effects could be important: the major European tongues, which are themselves offshoots from an Indo-European and Latin past, tire. Language bends under the sheer weight of the literature which it has produced. Where is the Italian poet to go after Dante, what untapped sources of life remain in English blank verse after Shakespeare? In 1902, Edmund Gosse will say of the Shakespearean tradition: <It haunts us, it oppresses us, it destroys us.> But the whole question of the aetiology and timing of the language-crisis in Western culture remains extremely involved and only partly understood. I have tried to deal with certain political and linguistic aspects of the problem in Language and Silence (1967) and Extraterritorial (1971).”

The poet no longer has or aspires to native tenure in the house of words. Established language is the enemy.” “Because it has become calcified, impermeable to new life, the public crust of language must be riven.”

Mallarmé, Un Coup de dés jamais n’abolira le hazard

The whole question of <difficulty> is more startling, nearer the heart of a theory of language, than is ordinarily realized. What is meant by saying that a linguistic proposition, a speech-act – verse or prose, oral or written – is <difficult>? Assuming the relevant language is known and the message plainly heard or transcribed, how can it be? Where does its <difficulty> lie? As Mauthner’s critique shows exhaustively, it is merely an evasion to affirm that the <thought> or <sentiment> in, behind the words is difficult.”

Raise me this beggar and deject that lord,

The senator shall bear contempt hereditary,

The beggar native honour” Shak.

It remains the case that our own sensibilities, our capacity to hear the full tonal range of speech fall drastically short of Shakespeare’s. As we re-read, we take in what we were too obtuse to grasp before. But such insufficiency is contingent. It is not a <difficulty> logically inherent in the text.” um onanista consciente “in the <complete library> all answers may be found” “This is still true of Ulysses, which is in this cardinal respect a classic work, no less responsible to a public grid and tradition than were the works of Milton and of Goethe. The fissure opens with Finnegans Wake.”

No <difficulty> in Browning’s Sordello, reputedly the most obscure of romantic poems, is of the same nature, of the same semantic purpose and meaning, as are the difficulties in Mallarmé’s”

semen-ouvintes

c’est

main

you are

or

20?

vingts

to: Wendy

[m]od[orra] (((móveis parados em Monte Mordor)))

forte Odor

sou forte

ou sinto dor?

douro

ou não sou flor?

mandioca, ora, oder?

odre de vidro?

cheio?

cavidade oca?

meio?

chora

maca-cheira

forte

som de (((soun-d)) sec

enxofree

the energies of concealment are of an entirely new species.” “They pivot inward and we follow as best we may. The process is, as Mallarmé, Khlebnikov, and Stefan George taught, one of calculated failure”

P. 181: o tal do Mallarmé que parece até comigo… interpretações

Une damme elle s’abolit

dans le douceur du jus supreme (awh!)

communes blasphemes

elle sent

éther

en elle-même

au lit.

de repos

le blanc flotte dehors du pennis

la vie très belle, qui-t-on blâme?

Il ne s’en veillit pas

Au creux est né un musicien

silence! bruit!! silence!

vuide

ui ui ui

ouais ouiais ouais

Houaiss

au-man-aqui

ao-homme-ici-

bàs, tché!

tresser track

tréc, bric-à-brac

honnoré de bâl

au rap, nê!

Paul Celan, almost certainly the major European poet of the period after 1945:

Das Gedunkelte Splitterecho,

himstrom—-

hin,

die Buhne über der Windung,

auf die es zu stehn kommt,

soviel Unverfenstertes dort,

sieh nur,

die Schütte

müssiger Andacht,

einen Kolbenschlag von

den Gebetssilos weg,

einen und keinen.”

These subversions of linearity, of the logic of time and of cause so far as they are mirrored in grammar, of a significance which can, finally, be agreed upon and held steady, are far more than a poetic strategy. They embody a revolt of literature against language – comparable with, but perhaps more radical than any which has taken place in abstract art, in atonal and aleatory music. When literature seeks to break its public linguistic mould and become idiolect, when it seeks untranslatability, we have entered a new world of feeling.”

REPRESENTAÇÃO SYMBOHLIKA DO GOVERN0 BOLSONARO (ver 20/03/2019 Seclusão)

peeling grammatical

pissing

phishing

auto_phy

shy

psyauto

chology

cholostomyanus

u@fool

cleansing racial chants

white blues of t[h]orpor

For the writer after Mallarmé language does violence to meaning, flattening, destroying it, as a living thing from the deeps is destroyed when drawn to the daylight and low pressures of the sea surface. But hermeticism, as it develops from Mallarmé to Celan, is not the most drastic of moves counter to language in modern literature. Two other alternatives emerge. Paralysed by the vacuum of words, by the chasm which has opened between individual perception and the frozen generalities of speech, the writer falls silent. The tactic of silence derives from Hölderlin or, more accurately, from the myth and treatment of Hölderlin in subsequent literature (Heidegger’s commentaries of 1936-44 are a representative instance).”

PROFISSÃO: … (niilista)

the poet’s personal collapse into mental apathy and muteness, could be read as exemplifying the limits of language, the necessary defeat of language by the privacy and radiance of the inexpressible.”

Vertigo assails him at the thought of the abyss which separates the complexity of human phenomena from the banal abstraction of words. Haunted by microscopic lucidity – he has come to experience reality as a mosaic of integral structures – Lord Chandos [Hofmannsthal] discovers that speech is a myopic shorthand. Looking at the most ordinary object with obsessive notice, Chandos finds himself entering into its intricate, autonomous specificity”

Es ist mir dann, als geriete ich seiher in Gärung, würfe Blasen auf, wallte und funkelte. Und das Ganze ist eine Art fieberisches Denken, aber Denken in einem Material, das unmittelbarer, flüssiger, glühender ist als Worte. Es sind gleichfalls Wirbel, aber solche, aber solche, die nicht wie die Wirbel der Sprache ins Bodenlose zu führen scheinen, sondern irgenwie in mich selber und in den tiefsten Schoss des Friedens.”

A good deal of what is representative in modern literature, from Kafka to Pinter, seems to work deliberately at the edge of quietness.”

It is as if, through becoming involved in literature, I had used up all possible symbols without really penetrating their meaning. They no longer have any vital significance for me. Words have killed images or are concealing them. A civilization of words is a civilization distraught. Words create confusion. Words are not the word (les mots ne sont pas la parole) . . . The fact is that words say nothing, if I may put it that way . . . There are no words for the deepest experience. The more I try to explain myself, the less I understand myself. Of course, not everything is unsayable in words, only the living truth.” Ionesco

the Russian <Kubofuturist>, Alexei Krucenyx, in his Declaration of the Word As Such (1913): <The worn-out, violated word ‘lily’ is devoid of all expression. Therefore I call the lily éuy…>”

Considering the innocent finality of Hebrew poetry and of Greek literature, the paradox of freshness combined with ripeness of form, thinkers such as Winckelmann, Herder, Schiller, and Marx argued that Antiquity and the Greek genius in particular had been uniquely fortunate. The Homeric singer, Pindar, the Attic tragedians had been, literally, the first to find shaped expression for primary human impulses of love and hatred, of civic and religious feeling. To them metaphor and simile had been novel, perhaps bewildering suppositions. That a brave man should be like a lion or dawn wear a mantle of the colour of flame were not stale ornaments of speech but provisional, idiosyncratic mappings of reality. No Western idiom after the Psalms and Homer has found the world so new. Presumably, the theory is spurious. (…) No techniques of anthropological or historical reconstruction will give us any insight into the conditions of consciousness and social response which may have generated the beginnings of metaphor and the origins of symbolic reference.”

The best analyses of the language of nonsense with special reference to English may be found in Emile Cammaerts, The Poetry of Nonsense (London, 1925), and Elizabeth Sewell, The Field of Nonsense (London, 1952).” “The grammar of nonsense consists primarily of pseudo-series or alignments of discrete units which imitate and intermingle with arithmetic progressions (in Lewis Carroll these are usually familiar rows and factorizations of whole numbers).” Muito que pensar (ou nem tanto): Platão, Pitágoras, Aristóteles, o Um… No fim, eu sou mais matemático do que sempre me cogito. A régua é a medida do homem. artes-anal. Picotear a lengua a nada lleva. Masturbação pura e simples travestida de vã-guarda. Parallax scrolling. Fausse sortie.

Um janota filosofando sobre o absurdo não consegue mais irreverência que um excêntrico mr. Kant.

PARECE QUE SUPERESTIMAMOS SHERLOCK HOLMES AQUI! “Bilingual and multilingual poetry, i.e. a text in which lines or stanzas in different languages alternate, goes back at least to the Middle Ages and to contrapunctal uses of Latin and the vulgate.”

there are combinations of Provençal, Italian, French, Catalan, and Galician-Portuguese in troubadour verse.”

Aime criaient-ils aime gravité

de très hautes branches tout bas pesait là

Terre aime criaient-ils dans le haut

(Cosí, mia sfera, cosí in me, sospesa, sogni: soffiavi, tenera,

[un cielo: e in me cerco i tuoi poli, se la

tua lingua è la mia ruota, Terra del Fuoco, Terra di Roubaud)

Naranja, poma, seno esfera al fin resuelta

en vacuidad de estupa. Tierra disuelta.

Ceres, Persephone, Eve, sphere

earth, bitter our apple, who at the last will hear

that love-cry?”

A good measure of the prose in Finnegans Wake is polyglot. Consider the famous riverrounding sentence on page one: ‘Sir Tristram, violer d’amores, fr’over the short sea, has passencore rearrived from North Armorica . . . .’ Not only is there the emphatic obtrusion of French in triste, violer, pas encore and Armoric (ancient Brittany), but Italian is present in viola d’amore and, if Joyce is to be believed, in the tag from Vico, ricorsi storici, which lodges partly as an anagram, partly as a translation, in ‘passencore rearrived’.”

Or take a characteristic example from Book II: ‘in deesperation of deispiration at the diasporation of his diesparation’. In this peal a change is rung on four and, possibly, five languages: English ‘despair’, French ‘déesse’, Latin dies (perhaps the whole phrase Dies irae is inwoven), Greek diaspora, and Old French or Old Scottish dais or deis meaning a stately room and, later, a canopied platform for solemn show.”

Thus ‘seim’ in ‘the seim anew’ near the dose of ‘Anna Livia Plurabelle’ contains English ‘same’ and the river Seine in a deft welding not only of two tongues but of the dialectical poles of identity and flux.”

PROFESSORES UNIVERSITÁRIOS, UNI-VOS! BUT NOT ESPERANTO, POUR THOMAS: “But even in Finnegan’s Wake, the multilingual combinations are intended towards a richer, more cunning public medium. They do not aim at creating a new language. Such invention may well be the most paradoxical, revolutionary step of which the human intellect is capable.”

FIE! FAIRY, FAIL! PHANTOM PHANTASY — ANTHEM

in-me-she-ate (initiate)

inseminate

ins eminate

eminent enemy is

insert mine ache

sem mim, hate

neither,

nay, name ‘h’

n’ hey!

This is not the place to go into the extensive, intricate literary aspects of Dada.¹ But it now seems probable that the entire modernist current, right to the present day, to minimalist art and the happening, to the <freak-out> and aleatory music [Jazz? Bebop?], is a footnote, often mediocre and second-hand, to Dada. The verbal, theatrical, and artistic experiments conducted first in Zurich in 1915-7 and then extended to Cologne, Munich, Paris, Berlin, Hannover, and New York, constitute one of the few undoubted revolutions or fundamental <cuts> in the history of the imagination.”

¹ “The field has reached an extension and complexity such that there is nearly need for a <bibliography of bibliographies>.”

Hans Richter, Dada-Kunst und Antikunst. Der Beitrag Dadas zur Kunst des 20. Jahrhunderts (Cologne, 1964);

Herbert S. Gershman, A Bibliography of the Surrealist Revolution in France (University of Michigan Press, 1969);

G. E. Steinke, The Life and Work of H. Ball, founder of Dadaism (The Hague, 1967).

Ball’s autobiographical novel Flametti oder vom Dandysmus der Armen;

Otto Flak’s roman à clef [“baseado em fatos reais”], Nein und Ja. Roman des Jahres 1917.

The slapstick and formal inventions of Hugo Ball, Hans Arp, Tristan Tzara, Richard Huelsenbeck, Max Ernst, Kurt Schwitters, Francis Picabia, and Marcel Duchamp have a zestful integrity, an ascetic logic notoriously absent from a good many of the profitable rebellions that followed. Many instigations, themselves fascinating, lie behind the Dada language-routines as they erupt at the Cabaret Voltaire in 1915. It seems likely that Ball chose the name of the cabaret in order to relate Dada to the Café Voltaire in Paris at which Mallarmé and the Symbolists met during the late 1880s and 1890s.” “The notion of automatic writing, of the generation of word groups freed from the constraints of will and public meaning, dates back at least to 1896 and Gertrude Stein’s experiments at Harvard. These trials, in turn, were taken up by Italian Futurism and are echoed in Marinetti’s call for parole in libertà.”

As Dada sprang up, <madness and death were competing . . . Those people not immediately involved in the hideous insanity of world war behaved as if they did not understand what was happening all around them . . . Dada sought to rouse them from their piteous stupor.> [Arp]”

Ball, Die Flucht aus der Zeit

Não “o fluxo do tempo”, mas um vôo ou salto para fora do tempo

nãotaxe

The result is a disturbing sensation of possible events and densities (Heidegger’s Dichtung) just below the visual surface. No signals, or very few apart from the title, are allowed to emerge and evoke a familiar tonal context.”

the very definition and perception of speech-pathology are themselves a social and historical convention. Different periods, different societies draw different lines between permissible and <private> linguistic forms. Cf. also B. Grassi, ‘Un contributo allo studio della poesía schizofrenica’ (Rassegna neuropsichiatrica, XV, 1961), David V. Forrest, Poiesis and the Language of Schizophrenia (Psychiatry, XXVIII, 1965), and S. Piro, Il linguaggio schizofrenico (Milan, 1967).”

The self-defeating paradox in private language, be it the trobar clus of the Provençal poet or the lettrisme of Isou, lies in the simple fact that privacy diminishes with every unit of communication.”

a dictionary is an inventory of consensual, therefore eroded and often <sub-significant> usages”

L. Couturat and L. Leau, Histoire de Ia langue universelle (Paris, 1903), with its investigation of 56 artificial languages, remains the standard work.” “Pansophia can be achieved only by means of panglottia.”

These 3 goals are already implicit in Bacon’s plea, in The Advancement of Learning (1605), for the establishment of a hierarchy of <real characters> capable of giving precise expression to fundamental <things and notions>. Some 20 years later Descartes, in his correspondence with Mersenne, welcomed the project but doubted whether it could be executed before the elaboration of a complete analytic logic and <true philosophy>.”

Urquhart’s interlingua contains 11 genders and 10 cases besides the nominative. Yet the entire edifice is built on <but 250 prime radices upon which all the rest are branches>. Its alphabet counts 10 vowels, which also serve as digits, and 25 consonants; together these articulate all sounds of which the vocal organs of man are capable. This alphabet is a powerful means of arithmetical logic: <What rational Logarithms do by writing, this language doth by heart; and by adding of letters, shall multiply numbers; which is a most exquisite secret.> The number of syllables in a word, moreover, is proportionate to the number of its significations. Urquhart kept his <exquisite secret> but the anticipation of his claim on modem symbolic logic and computer languages is striking.”

L. Couturat’s treatment of Leibnizian linguistics in La Logique de Leibniz (Paris, 1901) remains authoritative.”

Few of these confections have shown much vitality. Only Esperanto continues to lead a somewhat Utopian, vestigial existence.”

There are numerous treatments of the logical and linguistic aspects of computer languages. Several important papers are gathered in T.B. Steel (ed.), Formal Languages and Description Languages for Computer Programming (Amsterdam, 1961), and in M. Minsky (ed.), Semantic Information Processing (M.I.T. Press, 1968). Cf. also B. Higman, A Comparative Study of Programming Languages (London and New York, 1967).”

The history of <the linguistic turn> is itself a broad subject. Even if we consider only the argument on <truth>, we can make out at least 4 main stages. There is the early work of [Marianne?] Moore and Russell [the mad chap], then of Russell and Whitehead, with its explicit background in the logistics of Boole, Peano, and Frege. There are the attempts to establish semantic definitions of <truth> made by Tarski, by Carnap, and by the Logical Positivists during the 1930s, attempts carried forward, in a highly personal vein, by Wittgenstein. A 3rd focus is provided by <Oxford philosophy> and, most notably, by the 1950 debate on <truth> between Austin and P.F. Strawson and the extensive literature to which this exchange gave rise.”

linguistic analysis may do so thorough a job of exorcism that we might <come to see philosophy as a cultural disease which has been cured>.”

This distinction, with its scarcely concealed inference of vacuity in the other camp, applies to Husserl, to Heidegger, to Sartre, to Ernst Bloch. Consequently, there is historical and psychological justification for setting <linguistic philosophy> apart from <philosophy of language> (Sprachphilosophie). This separation is damaging. It is doubtful whether Austin’s well-known prognostication can be realized so long as the gap remains: <Is it not possible that the next century may see the birth, through the joint labours of philosophers, grammarians and numerous other students of language, of a true and comprehensive science of language?>”

J. Ayer, Foundations of Empirical Knowledge (London, 1963)

Schiller’s best-known paper: Must Philosophers Disagree?’, published in the Proceedings of the Aristotelian Society for 1933. (…) There is the linguistic empiricism or materialism of the Marxists with its stress on <what is out there>. But no less than in other branches of recent philosophic investigation, it is the analytic positions which have been the most influential and actively pursued. The matter of truth has been one of the relations between <words and words> more often than between <words and things>.”

WHO’S AUSTIN? “Wittgenstein belongs to the history of hermetic and aphoristic practices in German literature as do Hölderlin and Lichtenberg. The finesse of Austin’s acoustical sense for speech, his ability to spot the almost surrealistic turns of unguarded oddity in common diction were such that he would have been, had he so purposed, an acute philologist or literary critic.”

Meu nulo e autêntico dia se encontra no meio-termo fractional infinitesimal entre o zero sociológico e o um platônico.

Hume’s admonition in the first Book of the Treatise¹ inhibits him: all hypothetical arguments or <reasonings upon a supposition> are radically infirmed by the absence of any <belief of real existence>. Thus they are <chimerical and without foundation>. The entire terrain is a muddle.”

¹ Em breve no Seclusão. Reportar-se também a minha análise de Hume-Kant: https://seclusao.art.blog/2021/05/13/historia-das-ideias-introducao-a-epistemologia-hume-kantiana/.

Bloch is a messianic Marxist; he finds the best rudiments of futurity in dialectical materialism and the Hegelian-Marxist vision of social progress. But his semantics of rational apocalypse have general philosophic and linguistic application. More than any other philosopher, Bloch has insisted that <reasonings upon a supposition> are not, as Hume in his exercise of systematic doubt ruled, <chimerical and without foundation>.”

CONTINENTE VS. VERBUM: “The ontological and the linguistic-analytical approaches would coexist in mutual respect and be seen as ultimately collaborative. But we are still a long way from this consolidation of insight.”

In the Hippias minor Socrates enforces an opinion which is exactly antithetical to that of Augustine. <The false are powerful and prudent and knowing and wise in those things about which they are false.> The dialogue fits only awkwardly in the canon and its purpose may have been purely <demonstrative> or ironically a contrario.” Or you may be slow to understand.

<For I hate him like the gates of death who thinks one thing and says another>, declares Achilles in Book IX of the Iliad. Opposed to him stands Odysseus, <master deceiver among mortals>. In the balance of the myth it is Odysseus who prevails; neither intellect nor creation attenuate Achilles’ raucous simplicity.”

The shallow cascade of mendacity which attends my refusal of a boring dinner engagement is not the same thing as the un-saying of history and lives in a Stalinist encyclopedia.”

French allows alterité, a term derived from the Scholastic discrimination between essence and alien, between the tautological integrity of God and the shivered fragments of perceived reality. Perhaps <alternity> will do: to define the <other than the case>, the counter-factual propositions, images, shapes of will and evasion with which we charge our mental being and by means of which we build the changing, largely fictive milieu of our somatic and our social existence.”

MAN’S GENIUS LIES UNTOUCHED.

Swift’s emblem remains one of elemental centaurs, of an instinctual ethic across the borders from man. It may be that the rubric of camouflage extends to silence, to a withholding of response. At a higher level of evolution, in the primate stage perhaps, the animal will refuse an answer (there is something less than human in Cordelia’s loving reticence).”

Folk tales and mythology retain a blurred memory of the evolutionary advantage of mask and misdirection. Loki, Odysseus are very late, literary concentrates of the widely diffused motif of the liar”

There is a myth of hand-to-hand encounter – a duel, a wrestling bout, a trial by conundrum whose stake is the loser’s life – which we come across in almost every known language and body of legend.”

To falsify or withhold one’s real name – the riddle set for Turandot and for countless other personages in fairy-tales and sagas – is to guard one’s life, one’s karma or essence of being, from pillage or alien procurement.”

There is only one world, and that world is false, cruel, contradictory, misleading, senseless… We need lies to vanquish this reality, this <truth>, we need lies in order to live… That lying is a necessity of life is itself a part of the terrifying and problematic character of existence.”

It is our syntax, not the physiology of the body or the thermodynamics of the planetary system, which is full of tomorrows. Indeed, this may be the only area of <free will>, of assertion outside direct neurochemical causation or programming. We speak, we dream ourselves free of the organic trap.”

Gordon W. Hewes, “An Explicit Formulation of the Relationship Between Tool-Usings, Tool-Making, and the Emergence of Language” (in: Visible Language, VII, 1973)

The symbolic affinities between words and fire, between the live twist of flame and the darting tongue, are immemorially archaic and firmly entrenched in the subconscious.”

Über Wahrheit und Lüge im aussermoralischen Sinne

The craft of the translator is, as we shall see, deeply ambivalent: it is exercised in a radical tension between impulses to facsimile and impulses to appropriate recreation. In a very specific way, the translator <re-experiences> the evolution of language itself, the ambivalence of the relations between language and world, between <languages> and <worlds>. In every translation the creative, possibly fictive nature of these relations is tested. Thus translation is no specialized, secondary activity at the <interface> between languages. It is the constant, necessary exemplification of the dialectical, at once welding and divisive nature of speech.”

IV. THE CLAIMS OF THEORY

THE literature on the theory, practice, and history of translation is large. It can be divided into four periods, though the lines of division are in no sense absolute. The first period would extend from Cicero’s famous precept not to translate verbum pro verbo, in his Libellus de optimo genere oratorum of 46 BC and Horace’s reiteration of this formula in the Ars poetica some 20 years later, to Hölderlin’s enigmatic commentary on his own translations from Sophocles (1804). This is the long period in which seminal analyses and pronouncements stem directly from the enterprise of the translator. It includes the observations and polemics of Saint Jerome, Luther’s magisterial Sendbrief vom Dolmetschen of 1530, the arguments of Du Bellay, Montaigne, and Chapman, Jacques Amyot to the readers of his Plutarch translation, Ben Jonson on imitation, Dryden’s elaborations on Horace, Quintilian and Jonson, Pope on Homer, Rochefort on the Iliad. Florio’s theory of translation arises directly from his efforts to render Montaigne; Cowley’s general views are closely derived from the nearly intractable job of finding an English transposition for the Odes of Pindar. There are major theoretic texts in this first phase: Leonardo Bruni’s De interpretatione recta of c. 1420, for example, and Pierre Daniel Huet’s De optimo genere interpretandi, published in Paris in 1680 (after an earlier, less developed version of 1661). Huet’s treatise is, in fact, one of the fullest, most sensible accounts ever given of the nature and problems of translation. Nevertheless, the main characteristic of this first period is that of immediate empirical focus. This epoch of primary statement and technical notation may be said to end with Alexander Fraser Tytler’s (Lord Woodhouselee) Essay on the Principles of Translation issued in London in 1792, and with Friedrich Schleiermacher’s decisive essay Über die verschiedenen Methoden des Übersetzens of 1813.

2nd period:

It gives the subject of translation a frankly philosophic aspect.”

We owe to it many of the most telling reports on the activity of the translator and on relations between languages. These include texts by Goethe, Schopenhauer, Matthew Arnold, Paul Valéry, Ezra Pound, I.A. Richards, Benedetto Croce, Walter Benjamin, and Ortega y Gasset. This age of philosophic-poetic theory and definition – there is now a historiography of translation – extends to Valery Larbaud’s inspired but unsystematic Sous l’invocation de Saint Jerome of 1946.”

3rd period:

The first papers on machine translation circulate at the close of the 1940s. Russian and Czech scholars and critics, heirs to the Formalist movement, apply linguistic theory and statistics to translation. Attempts are made, notably in Quine’s Word and Object (1960), to map the relations between formal logic and models of linguistic transfer. Structural linguistics and information theory are introduced into the discussion of interlingual exchange. Professional translators constitute international bodies and journals concerned mainly or frequently with matters of translation proliferate. It is a period of intense, often collaborative exploration of which Andrei Fedorov’s lntroduction to the Theory of Translation (Vvednie v toriju perevoda, Moscow, 1953) is representative.”

In many ways we are still in this third phase. The approaches illustrated in these two books – logical, contrastive, literary, semantic, comparative – are still being developed. Yet certain differences in emphasis have occurred since the early 1960s. The <discovery> of Walter Benjamin’s paper Die Aufgabe des Übersetzers, originally published in 1923, together with the influence of Heidegger and Hans-Georg Gadamer, has caused a reversion to hermeneutic, almost metaphysical inquiries into translation and interpretation. Much of the confidence in the scope of mechanical translation, which marked the 1950s and early 60s, has ebbed. The developments of transformational generative grammars has brought the argument between <universalist> and <relativist> positions back into the forefront of linguistic thought. As we have seen, translation offers a critical ground on which to test the issues. Even more than in the 1950s, the study of the theory and practice of translation has become a point of contact between established and newly evolving disciplines. It provides a synapse for work in psychology, anthropology, sociology, and such intermediary fields as ethno- and socio-linguistics.”

<If there is no interpreter present, let the alien speaker be silent.>

<Translation would be blasphemy> (II Corinthians 12:4). An even more definite taboo can be found in Judaism.”

Traduced into French, said Heine, his German poems were <moonlight stuffed with straw>.”

nulla cosa per legame musaico armonizzata si può de la sua loquela in altra transmutare, senza rompere tutta sua dolcezza e armonia” Dante

To read Plato or Kant, to grasp Descartes or Schopenhauer, is to undertake an elaborate, finally <undecidable> task of semantic reconstruction.” Fiz meus 50% – tá bom né?

As early as the Cratylus and the Parmenides, we are made to feel the tension between aspirations to universality, to a critical fulcrum independent of temporal, geographic conditions, and the relativistic particularities of a given idiom.”

Strictly considered, no statement is completely repeatable (time has passed). To translate is to compound unrepeatability at second and third hand. L’intraducibilità is the life of speech.” Croce, Estetica, 1926

The exuberance of Rabelais, Montaigne, and, to a lesser extent, Shakespeare found in the classic precedent a ballast [lastro], a supple but steadying recourse to scale and order. But <ballast> is too static an image.”

The <untranslatability> of Aristophanes in the latter half of the 19th century was far more than a matter of prudery. The plays seemed <unreadable> at many levels of linguistic purpose and scenic event. Less than 100 years later, the elements of taste, humour, social tone, and formal expectation which make up the reflecting surface, had moved into focus.” “The argument against translatability is, therefore, often no more than an argument based on local, temporary myopia.”

Giacchè tradurre, in verità, è Ia condizione d’ogni pensare e d’ogni apprendere.” Gentile

The Dolmetscher [diplomata] is the <interpreter>, using the English word in its lower range of reference. He is the intermediary who translates commercial documents, the traveller’s questions, the exchanges of diplomats and hoteliers. He is trained in Dolmetscherschulen whose linguistic demands may be rigorous, but which are not concerned with <high> translation.”

The same ambiguity affects English interpreter and Italian interprete: he is the helpful personage in the bank, business office, or travel bureau, but he is also the exegetist and recreative performer. Truchement is a complicated word with tonalities inclusive of different ranges and problems of translation. It derives from Arabic tardjeman (Catalan torismani) and originally designates those who translated between Moor and Spaniard. Its use in Pascal’s Provinciales, XV, suggests a negative feeling: the truchement is a go-between, whose rendering may not be disinterestedly accurate. But the term also signifies a more general action of replacement, almost of metaphor: the eyes can be the truchement, translating, substituting for the silent meanings of the heart.”

When it is analysing complex structures, thought seems to favour triads. This is true of myths of golden, silver and iron ages, of Hegelian logic, of Comte’s patterns of history, of the physics of quarks.”

According to the modem view, the category of imitatio can legitimately include Pound’s relations to Propertius and even those of Joyce to Homer.”

Right translation is <a kind of drawing after the life>. Ideally it will not pre-empt the authority of the original but show us what the original would have been like had it been conceived in our own speech.”

Goethe’s involvement in translation was lifelong. His translations of Cellini’s autobiography, of Calderón, of Diderot’s Neveu de Rameau are among the most influential in the course of European literature. He translated from Latin and Greek, from Spanish, Italian, English, French and Middle High German, from Persian and the south Slavic languages. Remarks on the philosophy and technique of translation abound throughout his work, and a number of Goethe’s poems are themselves a commentary on or metaphoric treatment of the theme of translation. Deeply persuaded, as he was, of the continuity of life-forms, of the harmonious, though often hidden interweaving and cross-reference in all morphological reality, Goethe saw in the transfer of meaning and music between languages a characteristic aspect of universality. His best-known theoretical statement occurs in the section on translation in the lengthy prose addenda to the West-Östlicher Divan (1819).” “Fritz Strich’s well-known Goethe und die Weltliteratur (Bern, 1946) deals with the general theme of Goethe’s relations to other literatures. But, so far as I am aware, we have not had until now a full-scale study of Goethe’s translations and of their influence on his own writings and philosophy of form.”

Can he really have meant to say that Luther’s immensely conscious, often magisterially violent reading is an instance of humble style, imperceptibly insinuating a foreign spirit and body of knowledge into German?”

He knew that Wieland’s imitations of Cervantes and Richardson, and his translations of Cicero, Horace, and Shakespeare had been instrumental in the coming of age of German literature.”

Only the third class of translators can accomplish so much. Goethe’s example here is Johann Heinrich Voss whose versions of the Odyssey (1781) and Iliad (1793) Goethe rightly considered to be one of the glories of European translation and a principal instrument in the creation of German Hellenism.”

Now the dominant current is German. As has been often said by German poets and scholars, translation was the <inmost destiny> (innerstes Schicksal) of the German language itself. The evolution of modem German is inseparable from the Luther Bible, from Voss’ Homer, from the successive versions of Shakespeare by Wieland, Schlegel, and Tieck.”

After observing querulously in chapter 35 of the Parerga und Paralipomena, that no amount of labour or genius would convert être debout into stehen, Schopenhauer concluded that no less was needed than a <transference of soul>.”

No translator has recorded with more scruple his inner life between languages or has brought a more intelligent intensity to the problem of <letter> versus <spirit> than did Stephen MacKenna. MacKenna gave his uncertain physical and mental health to the translation of Plotinus’ Enneades. The 5 tall volumes appeared between 1917 and 1930. This solitary, prodigious, grimly unremunerative labour constitutes one of the masterpieces of modem English prose and formal sensibility.” “In a monumental letter of 15 October 1926 MacKenna comes as close as he can to defining the proper modernity of a good translation from the classics.

Whenever I look again into Plotinus I feel always the old trembling fevered longing: it seems to me that I must be born for him, and that somehow someday I must have nobly translated him: my heart, untravelled, still to Plotinus turns and drags at each remove a lengthening chain.”

At best, wrote Huet, translation can, through cumulative self-correction, come ever nearer to the demands of the original, every tangent more closely drawn. But there can never be a total circumscription. From the perception of unending inadequacy stems a particular sadness. It haunts the history and theory of translation.”

List Saint Jerome, Luther, Dryden, Hölderlin, Novalis, Schleiermacher, Nietzsche, Ezra Pound, Valéry, MacKenna, Franz Rosenzweig, Walter Benjamin, Quine – and you have very nearly the sum total of those who have said anything fundamental or new about translation.”

There is no treatise on translation comparable in definition or influence to Aristotle’s Poetics or Longinus On the sublime. It is only very recently (with the foundation of the International Federation of Translators in Paris in 1953) that translators have fully asserted their professional identity, that they have claimed a worldwide corporate dignity. Until then Valery Larbaud’s description of the translator as the beggar at the church door was largely accurate”

Though the Index translationum issued annually by UNESCO shows a dramatic increase in the number and quality of books translated, though translation is probably the single most telling instrument in the battle for knowledge and woken consciousness in the underdeveloped world, the translator himself is often a ghostly presence. He makes his unnoticed entrance on the reverse of the title-page. Who picks out his name or looks with informed gratitude at his labour?”

Who can identify the principal translators of Bacon, Descartes, Locke, Kant, Rousseau, or Marx? Who made Machiavelli or Nietzsche accessible to those who had no Italian or German?”

We speak of the <immense influence> of Werther, of the ways in which the European awareness of the past was reshaped by the Waverley novels. What do we remember of those who translated Goethe and Scott, who were in fact the responsible agents of influence? Histories of the novel and of society tell us of the impact on Europe of Fenimore Cooper and Dickens. They do not mention Auguste-Jean-Baptiste Defaucompret through whose translations that impact is made.”

It remains a piece of pedantic lore that Byronism, certainly in France, Russia, and the Mediterranean is mainly the consequence of the translations of Amédée Pichot.”

It is the translations into French, English, and German by Motteux, Smollett, and Tieck respectively of Cervantes which constitute the life at large, the intensity in the literate imagination, of Don Quixote.”

his role in making Dostoevsky or Proust available to us is underlined because it is felt that the work needs re-doing.”

In what ways does the development of crucial philosophic, scientific, or psychological terms depend on successive translations of their initial or non-native statement? To what degree is the evolution of western Platonism, of the image of <the social contract>, of the Hegelian dialectic in the communist movements, a result of selective, variant, or thoroughly mistaken translations? Koyré’s investigations of the history of the translations of Copernicus, Galileo, and Pascal, Gadamer’s inquiries into the theoretic and practical translatability of key terms in Kant and Hegel, J.G.A. Pocock’s study of the inheritance of the vocabulary of politics from the Florentine Renaissance to Locke and Burke, are pioneering efforts. There is until now only a rudimentary understanding of the language-aspects of intellectual history and of the study of comparative institutions. Yet they are absolutely central. Without a grasp of the nature of translation there can be no account of the current in the circuit.”

Schools for translators, such as are believed to have flourished in Alexandria in the 2nd century A.D. or in Baghdad, under the leadership of Hunain ibn Ishaq, during the 9th century, would be worth analysing and comparing.”

We collate and judge this or that Arabic version of Aristotle or Galen. We contrast Roy Campbell’s reading into English of a Baudelaire sonnet with the readings proposed by Robert Lowell and Richard Wilbur. We set Stefan George’s Shakespeare next to Karl Kraus’. We follow the transformation of Racine’s alexandrines into the hexameters of Schiller’s Phädra. We wonder at the recasting of Lenin on empirio-criticism into Urdu and Samoyed.”

To use a very rough analogy, the discipline of translation may be subject only to a Linnaean, not to a Mendelian type of formalization.”

How many false starts, what arcs of association, what doodles of the brain and of the hand underlie Chesterton’s uncannily evocative version of Du Bellay’s Heureux qui comme Ulysse or Goethe’s rendition, which is a masterpiece, of Manzoni’s Il Cinque maggio?”

The Valery Larbaud archive in Vichy contains a wealth of material, as yet unexploited, on the work in progress which led to the remarkable French translations of Moby Dick and Ulysses.” “It is doubtful whether Michel Butor will destroy the work-sheets of his current attempt to find a French mirroring for Finnegans Wake or whether Anthony Burgess’ efforts to do the same in Italian will not survive – notes, drafts, uncorrected proofs, final galleys and all – in the strong-room of some American university. The unformed fascinates us.

Because explication is additive, because it does not merely restate the original unit but must create for it an illustrative context, a field of actualized and perceptible ramification, translations are inflationary. There can be no reasonable presumption of co-extension between the source text and the translation. In its natural form, the translation exceeds the original or, as Quine puts it: <From the point of view of a theory of translational meaning the most notable thing about the analytical hypotheses is that they exceed anything implicit in any native’s dispositions to speech behavior.>

The conceptual claims, the idiom of Husserl, Merleau-Ponty and Emmanuel Levinas force on anyone concerned with the nature of translation a fuller awareness of, a more responsible discomfort at, notions of identity and otherness, of intentionality and signification. When Levinas writes that <le langage est le dépassement incessant de la Sinngebung par la signification> (significance constantly transcends designation), he comes near to equating all speech-acts with translation in the way indicated at the outset of this study.”

The totality of Geometries comprehends, is perfectly homologous with, the study of the properties and relations of all magnitudes in all conceivable spaces. This is the first sort of relation. A particular geometry, projective geometry for example, derives rigorously from, is a part of, the larger science. This is the second sort. But it is possible neither to have a <theory of projective geometry> nor a <theory of geometrical meaning> without a <theory of Geometry or Geometries> to begin with.” “On the crucial issues – crucial, that is, in regard to a systematic understanding of the nature of translation – linguistics is still in a roughly hypothetical stage. We have some measurements, some scintillating tricks of the trade and far-ranging guesses. But no Euclidean Elements.”

Only tautologies are coextensive with their own restatement. Pure tautologies are, one suspects, extremely rare in natural language. Occurring at successive moments in time, even repetition guarantees no logically neutral equivalence. Thus language generates – grammar permitting, one would want to say <language is> a surplus of meaning (meaning is the surplus-value of the labour performed by language).”

In an estimated 97% of human adults language is controlled by the left hemisphere of the brain. The difference shows up in the anatomy of the upper surface of the temporal lobe (in 65% of cases studied, the planum temporale on the left side of the brain was 1/3 longer than on the right).” Cf. Norman Geschwind & Walter Levitsky, ‘Human Brain: Left-Right Asymmetries in Temporal Speech Regions’ (1968).

E.H. Lenneberg, Biological Foundations of Language

Again a curious asymmetry or <slippage> turns up: the human ear is most sensitive to sounds whose pitch corresponds to a frequency of about 3,000 cycles per second, whereas the ordinary speaking voice of men, women and children is at least two octaves lower in the scale. This may mean that call-systems and language coexisted, at least for a long time, on neighbouring frequencies.”

Virtually everything we know of the organization of the functions of language in the human brain derives from pathology. It has been recorded under abnormal conditions, during brain surgery, through electrical stimulation of exposed parts of the brain, by observing the more or less controlled effects of drugs on cerebral functions. Almost the entirety of our picture of how language <is located in> and produced by the brain is an extrapolation from the evidence of speech disorders followed by the study of dead tissue. This evidence, which dates back to Paul Broca’s famous papers of the 1860s, is voluminous. We know a good deal about specific cerebral dominance, i.e. the unilateral control of certain speech functions by particular areas of the cortex. Damage to Broca’s area (the third frontal gyrus on the left side) produces a characteristic aphasia. Articulation becomes slurred and elliptic; connectives and word endings drop away. Damage to the Wernicke area, also in the left hemisphere but outside and to the rear of Broca’s area, causes a totally different aphasia. Speech can remain very quick and grammatical, but it lacks content. The patient substitutes meaningless words and phrases for those he would normally articulate. Incorrect sounds slip into otherwise correct words.”

There is a sense in which a great poet or punster is a human being able to induce and select from a Wernicke aphasia. The Sinbad the sailor sequence from Joyce’s Ulysses gives a fair illustration. But with a crucial difference: though aural reception of non-verbal sounds and of music may remain perfectly normal, a lesion in the Wernicke area will cut down severely on understanding.”

But it is by no means clear that a neurophysiological scheme and the deepening analysis and treatment of pathological states will lead to an understanding of the production of human speech. (…) A phenomenon can be mapped, but the map can be of the surface. To say, as do the textbooks, that the third frontal gyrus <transforms> an auditory input into a visual-verbal output or feedback, is to substitute one vocabulary of images for another.”

The gap is not only one of utterly different orders of complexity. It seems rather as if the concept of a neurochemical <explanation> of human speech and consciousness – the two are very nearly inseparable – were itself deceptive. The accumulation of physiological data and therapeutic practice could be leading towards a different, not necessarily relevant, sort of knowledge. There is nothing occult about this divergence. I have stressed throughout that the questions we ask of language and the answers we receive in (from) language are unalterably linguistic.” “We know no exit from the skin of our skin.”

These points cannot be proved.” Foda-se, viado!

It is conceivable that we have misread the Babel myth. The tower did not mark the end of a blessed monism, of a universal language situation. The bewildering prodigality of tongues had long existed, and had materially complicated the enterprise of men. In trying to build the tower, the nations stumbled on the great secret: that true understanding is possible only when there is silence. They built silently, and there lay the danger to God.”

The polyglot situation and the requirements which follow from it depend totally on the fact that the human mind has the capacity to learn and to house more than one tongue. There is nothing obvious, nothing organically necessitated about this capacity. It is a startling and complex attribute. We know nothing of its historical origins, though these are presumably coincident with the beginnings of the division of labour and of trade between communities. We do not know whether it has limits. There are reliable records of polyglots with some measure of fluency in anywhere up to 25 languages. Is there any boundary other than the time span of individual lives?” “Não conhecemos o limite da cognição para o poliglotismo. Há registros concisos de indivíduos que falam mais ou menos fluentemente até 25 línguas diferentes. Há mesmo algum limite (a não ser o tempo de vida do ser humano)?” Gostaria de ter sido a criança-cobaia perfeita de um centro de pesquisa e não ter uma ‘língua-mãe’, mas de ter duas dúzias…

The most detailed study remains that of W. Leopold, Speech. Development of a Bilingual Child: a Linguist’s Record (Northwestern University Press, 1939-47).” “Neither the Chomskyan model of competence/performance, nor socio-linguistic surveys of multilingual children or communities tell us what is meant by <learning a language> or by <learning two or more languages>, at the crucial level of the central nervous system.”

RUNNING IN CIRCLES AD AETERNUM: “If the change is focused and sustained, as occurs during the reception and internalization of <experience-information>, corresponding alterations take place in the properties of these neurones. There are experimental grounds for believing that their configurations and patterns of assembly change.” E aí estão as bobas conjeturas de Fraude no Projeto, uns 70 anos depois… Nem UM passo à frente!

Over the next years there may be a spectacular progress of insight into the biochemistry of the central nervous system.” Sábio uso do itálico, Steiner!

refinements in microbiology may lead to correlations between specific classes of information and specific changes in protein synthesis and neuronal assembly.” “On present evidence, however, it is impossible to go beyond rudimentary idealizations. The neurochemistry of language-acquisition, the understanding of the changes in RNA which may accompany the storage of a language in the memory centres and synoptic terminals of the cortex, necessitate models of a complexity, of a multi-dimensionality beyond anything we can now conceive of.”

It is on this point that Marxist critiques of Chomskyan linguistics as an <empty mentalism> no less naïvely-deterministic than the theories of Skinner have been most telling. [A grande ironia é que Chomsky é um marxista!]” Cf. Rossi-Landi, ldeologies of Linguistic Relativity (The Hague, 1973), Il linguaggio come lavoro e come mercato (Milan, 1968).

The sensation of a <near-miss> can be tactile. The sought word or phrase is a <micromillimeter away from> the scanner; it is poised obstinately at the edge of retrieval.” “The <muscles> of attention ache.” “a calming click which accompanies the instant of recall.”

Homonyms, paronomasia, acoustic and semantic cognates, synecdochic sets, analogies, associative strings proliferate, undulating at extreme speed, sometimes with incongruous but pointed logic, across the surfaces of consciousness. The acrostic or cross-word yields faster than our pencil can follow.” Para horror de Breton.

For the polyglot this impression is reinforced. He <switches> from one language to another with a motion that can have a lateral and for a vertical feel.” “A mixed, contingent usage of two languages can create interference effects, the phrase being sought in one idiom being <crowded out> or momentarily screened by a phrase in the other.”

Very recent work with bilingual schizophrenics (<schizophrenia> being itself an unsatisfactory, catch-all term) may provide a similar clue. Patients who hear <voices> or report hallucinations will locate these phenomena in only one of their two languages. Questioned in the other or <safe> tongue, their answers and introspective testimony reveal no pathological interference.”

When I have spent a few days in a country in which one of my <first> languages is native, I not only find myself re-entering that language with a strong sensation of recollected fluency and central logic, but soon have my dreams in it. In a short time-interval the language which I have been speaking in another country takes on a tangible shell of strangeness.” Acho que nunca sonhei em inglês ou espanhol, que vergonha! Mas já sonhei com muitos trocadilhos absolutamente geniais que são impossíveis de lembrar quando acordo – tudo de que lembro é que eram geniais!

This susceptibility of linguistic <placing> to the influence of the surrounding social, psychological, and acoustical milieu is, by itself, sufficient to refute the more extreme theories of transformational-generative innateness. The external world <reaches in> at every instant to touch and regroup the layers of our speech.”

SOMOS MICHELANGELOS: “When we learn a new language, it may be that these modes of evocative congruence are the most helpful. Often, as we shall see, great translation moves by touch, finding the matching shape, the corresponding rugosity even before it looks for counterpart of meaning.”

But no topologies of n-dimensional spaces, no mathematical theories of knots, rings, lattices, or closed and open curvatures, no algebra of matrices can until now authorize even the most preliminary model of the <language-spaces> in the central nervous system.”

We know next to nothing of the organization and storage of different languages when they coexist in the same mind. How then can there be, in any rigorous sense of the term, a <theory of translation>?

In view of the claims put forward by linguistics since the late 1950s I have, in the foregoing chapters, tried to show that the study of language is not now a science. In closing the abstract portion of this work, I am tempted to go further. Very likely, it never will be a science. Language is, at vital points of usage and understanding, idiolectic.”

An error, a misreading initiates the modern history of our subject. Romance languages derive their terms for <translation> from traducere because Leonardo Bruni misinterpreted a sentence in the Noctes of Aulus Gellius in which the Latin actually signifies <to introduce, to lead into>.”

Like mutations in the improvement of the species, major acts of translation seem to have a chance necessity. The logic comes after the fact. What we are dealing with is not a science, but an exact art.”

V. THE HERMENEUTIC MOTION

Nonsense rhymes, poésie concrète, glossolalia are untranslatable because they are lexically non-communicative or deliberately insignificant.” Yea, shan’t try mine!

<This means nothing>, asserts the exasperated child in front of his Latin reader or the beginner at Berlitz.”

The postulate that all cognition is aggressive, that every proposition is an inroad on the world, is, of course, Hegelian. It is Heidegger’s contribution to have shown that understanding, recognition, interpretation are a compacted, unavoidable mode of attack.” “Comprehension, as its etymology shows, <comprehends> not only cognitively but by encirclement and ingestion.”

Ortega y Gasset speaks of the sadness of the translator after failure. There is also a sadness after success, the Augustinian tristitia which follows on the cognate acts of erotic and of intellectual possession.”

Certain texts or genres have been exhausted by translation. Far more interestingly, others have been negated by transfiguration, by an act of appropriative penetration and transfer in excess of the original, more ordered, more aesthetically pleasing. There are originals we no longer turn to because the translation is of a higher magnitude (the sonnets of Louise Labé after Rilke’s Umdichtung).”

Translation does not take place in flat Earth.

Though they deny it, phrase-books and primers are full of immediate deeps. Literally: J’aime la natation (from Collins French Phrase Book, 1962). Word-for-word: <I love natation>, which is mildly lunatic though, predictably, Sir Thomas Browne used the word in 1646. <I like to go swimming> (omitting the nasty problem of differential strengths in aimer and like). <Swimming> turns up in Beowulf; the root is Indo-European swem, meaning to be in general motion, in a sense still functional in Welsh and Lithuanian. Nager is very different: through Old French and Provençal there is a clear link to navigare, to what is <nautical> in the governance and progress of a ship. The phrase-book offers: je veux aller à la piscine. <Swimming-pool> is not wholly piscine. The latter is a Roman fish-pond; like nager it encodes the disciplined artifice, the interposition before spontaneous motion, of the classical order. <I want to go…> / je veux aller . . . . <Want> is ultimately Old Norse for <lack>, <need>, the felt register of deprivations. The sense <to desire> comes only 5th among the rubrics which follow on the word in the OED (Old English Dictionary). Vouloir is of that great family of words, derived from the Sanskrit root var, signifying volition, focused intent, the advance of <will> (its cognate). The phrase-book is uneasily aware of the profound difference. <I want should not be translated by je veux. In French this is a very strong form, and when used to express a wish creates the unfortunate impression of giving a blunt and peremptory order rather than of making a polite request.> But the matter is not basically one of differing forces of demand. <Want> as Shakespeare almost invariably adumbrates, speaks out of concavity, out of absence and need. In French this zone of meaning would be circumscribed by besoin, manque, and carence. But j’ai besoin d’aller nager is instantaneously off-pitch or obscurely therapeutic.”

<It looks like rain> / le temps est à Ia pluie. No attempt here at bare literalism or point-to-point carry. <Rain> has no established cognates outside the Teutonic. The grammar of the phrase is elusive and infers futurity. <It> stands for an aggregate of sensory contexts, ranging from the indefinably atmospheric to the broadest markers of cloud, scent, or abrupt silence in the foliage. <It> is also purely syntactical, an ambiguous but indispensable member of the verb-phrase.” “Leaving aside a cosmogony – it is no Iess – in which <time> is homologous with <weather>, there is the grammar of être à Ia pluie. Here also there is contraction: the idiom elides intervening steps of conjecture: <the weather is such that it leads to the inference that . . .>. A highly-compacted argument about contiguity inheres in est à, almost as if we were saying <the hands of the clock are at . . .>. But the odd turn of <possession>, of time/weather being assigned to, being owned by the rain (i.e. ceci est à moi) is there, vestigially at least. It is abetted by the fact that pluie is not only or principally <rain> but pluvia. The Latin has a figurative weight which accords with possession.” “To know whether it will rain, we listen to the weather <forecast>; the Frenchman listens to the bulletin météorologique. Bulletins are in essence retrospective; there may be apologia and falsehood in them – the Napoleonic usage – but no augury.” “<Rain on the city>, <rain in the city>, <rain down on>: each is false. But why?”

Das Kind ist unter die Räder gekommen. Though it signifies violent, presumably sudden mishap and aims at instant communication, the German phrase encodes a fairly elaborate gesture of fatality. <The child has been run over>, which is the equivalent offered by the <teach yourself> manual, hardly reflects the cautionary dispassion of the original. In the German phrasing the wheels have a palpable right of way; somehow the child has interrupted their licit progress. The grammatical effect is undeniably apologetic and even accusing: the syntactic neutrality of das Rad together with the near-passivity of the verb form edges the onus of guilt towards the child. The wheels have not culpably <gone over it>; it is the child which has <come to be under them>. <Undergo> would be inadmissible as translation, but it in fact conveys the accusatory hint. L’enfant s’est fait écraser is even stronger in implicit blame. Any attempt at giving a naïve equivalence in English would generate a sense of volition: <the child has had itself run over>. The French idiom intends nothing so crass. But the nuance of indictment is there and more, perhaps, than a nuance. It results from the fact that se faire plus an infinitive can function as a kind of passive without losing altogether the substratum of purposeful action.”

Notoriously, the absence of the article in Russian can lead to pluralities and ambiguities which English misses or renders by expansive paraphrase. But the problem may arise as dramatically with regard to French. Genesis 1:3 is a well-known instance. Fiat lux. Et facta est lux has a memorable sequentiality. The phonetic and grammatical exterior proclaim a phenomenon at once stunning and perfectly self-evident (Haydn’s setting of the words in the Creation precisely communicates the effect of supremely astounding platitude). Italian Sia luce. E fu luce uses 5 words as against 6 and is, in that sense, even more lapidary. But the initial sibilant, the soft c and the stress on gender in luce (where Latin lux was, at least for part of its history, masculine), feminizes and musicalizes the imperiousness of the Vulgate. Es werde Licht. Und es ward Licht is perfectly concordant with the Latin except in one detail. The semantically elusive Es has to be there. Werde Licht would misrepresent the whole tenor and significance of the Creator’s illocution. The Es preserves the mystery of creation without previous substance. <Let there be light: and there was light> in the Authorized Version, or <Let there be light, and there was light> in the New English Bible, expand on the Latin. There are now 8 words in the place of 6. And the punctuation is lightened. The purpose, presumably, is to give a sense of instant consequence. But the omission of the full-stop together with lower-case <and> sacrifice the Latin pedal point. In the original the note of cosmic command is fully held while the division into 2 short sentences makes for a dynamic surge. This is exactly what is called for: an instant of pent breath above a groundswell of complete certitude. The French version is also 8 words long and opts for a punctuation precisely medial between the 2 English variants. Que Ia lumière soit; et Ia lumière fut. But much has altered. Latin, Italian, German, and English preserve the characteristically Hebraic repetition of the cardinal word <light> at the climax of the sentence(s). In each of the 4 cases the word-order is powerfully imitative of the action expressed.”

purely acoustically this is counter-productive, in so far as soit is more sonorous, more evocative of accomplished harmony than is fut with its clipped vowel-sound” “Es werde das Licht. Und es

ward das Licht is possible in a way the English is not. It is weaker, more oddly specific and inferential of some Plotinian discrimination between effulgences, but just possible. Indeed, in the German Bible the article comes with the third designation: Und Gott sah, dass das Licht gut war.” “<There was light there> differs from <there was a light there> in uncommitted generality and scale”

Être, ou ne pas être, c’est là Ia question

These are the crucial parameters throughout the early history of automatic translation. The translation machine attempts to maximize the coincidence between a word-for-word interlinear and the reconstitution of actual meaning. It hopes, as it were, to locate <rows of words> of which the mere superscription with a lexical equivalent will make adequate sense. The machine is no more than a dictionary <which consults itself> at very high speed. In its primitive versions, the automatic translator offers one lexical counterpart for every word or idiom in the original. More sophisticated mechanisms can suggest a number of possible definitions from which the human reader of the print-out will select the most apposite. This procedure is not in any complete hermeneutic sense an act of translation. The machine’s evaluation of context is wholly statistical: how many times has the given word appeared before in this particular text or body of similar texts, and do the words which immediately precede or follow it match a prepared unit in the programme? But it would be wrong to underestimate either the interest or potential utility of machine-literalism. Statistical bracketings and memory-bound recognitions of the kind employed by the machine are very obviously a part of the interpretative performance in the human brain, certainly at the level of routine understanding. A large mass of scientific literature, moreover, is susceptible to more or less automatic lexical transfer. <A monolingual reader, expert in the subject matter of the text being translated, should find it possible, in most instances, to extract the essential content of the original from this crude translation, often more accurately than a bilingual layman.> (Oettinger)”

By comparing Garvin’s treatment with Y. Bar-Hillel’s ‘Can Translation be Mechanized?’ (Journal of Symholic Logic, XX, I955), one obtains a general view of the changing climate in the field.”

But [all] this is not what translators of poetry, philosophy, or Scripture have meant when they claimed to be literalists.”

nec semper feriet quodcunque minabitur arcus.

verum ubi plura intent in carmine non ego paucis

offendar maculis, quas aut incuria fudit

aut humana parum cavit natura, quid ergo est?

ut scriptor si peccat idem librarius usque,

quamvis est monitus, venia caret; ut citharoedus

ridetur chorda qui semper oberrat eadem:

sic mihi qui multum fit Choerilus ille,

quem bis terve bonum cum risu miror; at idem

indignor quandoque bonus dormitat Homerus?”

Horácio, Ars poetica

Not alwayes doth the loosed bow hit that (A)

Which it doth threaten: Therefore, where I see (B)

Much in a Poem shine, I will not be (B)

Offended with a few spots, which negligence (C)

Hath shed, or humane frailty not kept thence. (C)

How then? why, as a Scrivener, if h’ offend (D)

Still in the same, and warned, will not mend, (D)

Deserves no pardon; or who’d play and sing (E)

Is laught at, that still jarreth in one string: (E)

So he that flaggeth much, becomes to me (B)

A Choerilus, in whom if l but see (B)

Twice, or thrice good, I wonder: but am more (F)

Angry, if once I heare good Homer snore.” (F)

tradução de Ben Jonson

Whoever thinks a faultless piece to see, (A)

Thinks what ne’er was, nor is, nor e’er shall be. (B)

In every work regard the writer’s end, (C)

Since none can compass more than they intend; (C)

And, if the means be just, the conduct true, (D)

Applause; in spite of trivial faults is due.” (D)

tradução de Pope

Where frequent beauties strike the reader’s view, (A)

We must not quarrel for a blot or two, (B)

But pardon equally to books or men, (C)

The slips of human nature, and the pen.” (C)

tradução de Byron

Ben Jonson’s is, obviously, a translation in a sense in which Pope’s and Byron’s imitative commentaries are not.”

According to the hermeneutic model I have put forward, Nabokov’s ‘Pushkin’ represents a case of ‘over-compensation’, of ‘restitution in excess’. It is a ‘Midrashic’ reanimation and exploration of the original text so massive and ingenious as to become, consciously or not, its rival. Such ‘rival servitude’ is probably central to Nabokov’s attitude to the Russian language which he, in part, deserted, and to his own eminent but also ambivalent location in the Russian literary tradition. But all this, though it may be fascinating in itself and instructive for the student of translation, does not refute Alexander Gerschenkron’s judgement: <Nabokov’s translation can and indeed should be studied, but despite all the cleverness and occasional brilliance it cannot be read> (‘A magnificent Monument?’, Modem Philology, LXIII, 1966, p. 340). ‘Nabokovians’ tend never to refer to this decisive article in which Gerschenkron, himself a virtuoso of Russian, meets the master on his own ground of literal exactitude.”

Texts concocted of unexamined lexical transfers, of grammatical hybrids which belong neither to the source nor to the target language are the inter-zone or rather limbo in which the rushed, underpaid hack translator works. For a representative sottisier of examples as between French and German, cf. Walter Widmer, Fug and (sic) Unfug des Übersetzens, pp. 57-70. At a slightly more elevated plane, we find the codified strangeness of most translations from the Persian, the Chinese, or the Japanese haiku.”

Chateaubriand’s prefatory Remarques to his translation of Paradise Lost (1836) are of the most vivid formal and pragmatic interest.”

What I have undertaken is a literal translation in the strongest sense of the term, a translation which a child and a poet will be able to follow line by line, word for word, as if they had an open dictionary in front of them.”

he has been compelled to use ablative absolutes without the auxiliary verb they require in French; he has resorted to archaicisms and formed new words, particularly negatives such as inadoré or inabstinence. Coming to <many a row of starry lamps . . ./ Yielded light / As from a sky>, Chateaubriand has written Plusieurs rangs de lampes etoilées . . . émanent Ia lumière comme un firmament.”

Or je sais qu’émaner en français n’est pas un verb actif; un firmament n’émane pas de Ia lumière, Ia lumière émane d’un firmament: mais traduisez ainsi, que devient l’image? Du moins le lecteur pénètre ici dans le génie de Ia langue anglaise; il apprend Ia difference qui existe entre les régimes des verbes dans cette langue et dans Ia nôtre.”

Chateaubriand not only matches Milton’s Latinity in circonférence, in orbe, in verre optique but goes, as it were, <behind> Milton to a point of common origin in marne – a modernization of Old French or Breton-Celtic marle from which Milton’s <burning marle> directly derives. In trempe éthérée the dislocation is subtle: the phrase is, in French, difficult to conceptualize and nearly an oxymoron; surprisingly, moreover, trempe is of Walloon origin (Littré gives treinp)”

In translations, as in word-play, false etymologies can take on a momentary truth.”

For this voice of all voices was beyond any speech whatsoever, more compelling than any, even more compelling than music, than any poem; this was the heart’s beat, and must be in its single beat, since only thus was it able to embrace the perceived unity of existence in the instant of the heart’s beat, the eye’s glance; this, the very voice of the incomprehensible which expresses the incomprehensible, was in itself incomprehensible, unattainable through human speech, unattainable through earthly symbols, the arch-image of all voices and all symbols, thanks to a most incredible immediacy, and it was only able to fulfil its inconceivably sublime mission, only empowered to do so, when it passed beyond all things earthly, yet this would become impossible for it, aye, inconceivable, did it not resemble the earthly voice; and even should it cease to have anything in common with the earthly voice, the earthly word, the earthly language, having almost ceased to symbolize them, it could serve to disclose the arch-image to whose unearthly immediacy it pointed, only when it reflected it in an earthly immediacy: image strung to image, every chain of images led into the terrestrial, to an earthly immediacy, to an early happening, yet despite this – in obedience to a supreme human compulsion – must be led further and further, must find a higher expression of earthly immediacy in the beyond, must lift the earthly happening over and beyond its this-sidedness to a still higher symbol; and even though the symbolic chain threatened to be severed at the boundary, to fall apart on the border of the celestial, evaporating on the resistance offered by the unattainable, forever discontinued, forever severed, the danger is warded off, warded off again and again…”

Taken <straight>, this bit of prose suggests Gertrude Stein seeking to transcribe and perhaps parody Kant.”

we come close to the poets’ dream of an absolute idiolect.”

There is from the bilingual weave of The Death of Virgil (1945) no necessary return to either English or any German text except Broch’s own.”

Reference to meaning or language <beyond speech> can be a heuristic device as at the end of Wittgenstein’s Tractatus. It can be a conceit, often irritating, in epistemology or mysticism.”

If we are to allow that this invocation of transcendence is more than a rhetorical turn and tactic of sublimity, the writer must give hostages. His accomplished work must be of a stature to justify the presumption that he has in fact mastered the available language and executive forms and that he has already extended both to the utmost of intelligibility.”

The silences, the insanities, the suicides of a number of great writers are rigorous affirmations of an experience of the boundaries of language. In Hölderlin there can be no doubt either as to the preceding mastery or the totality of the transcendent risk. And it is precisely via Hölderlin’s translations that the case for <the word beyond speech> is put most visibly.

In modem hermeneutics the poetry, letters, and translations of Hölderlin occupy a privileged place. Heidegger’s ontology of language is partly based on them, and it is from Hölderlin that Walter Benjamin deduces much of his theory of <the logos> and of translation.”

Allemann’s Hölderlin und Heidegger (Zürich and Freiburg, 1954) explores the relationship between the ontologist and the poet but tends to reconstrue Hölderlin in Heideggerian terms. Walter Benjamin’s ‘Zwei Gedichte von Friedrich Hölderlin’ dates back to 1914-5 (but was first published in 1955). Benjamin’s essay on ‘The Task of the Translator’ reaches its visionary apex with specific reference to Hölderlin’s versions of Pindar and of Sophocles [ver mais acima sobre essas traduções de autores antigos de Höld.].”

The pioneering work was Norbert von Hellingrath’s Pindarübertragungen von Hölderlin (Jena, 1911), followed by Günther Zuntz’s dissertation Über Hölderlins Pindar-Übersetzung (Marburg, 1928). Two basic works came next: Lothar Kempter’s Hölderlin und die Mythologie (Zürich and Leipzig, 1929) and Friedrich Beissner’s Hölderlins Übersetzungen aus dem Grieschischen (Stuttgart, 1933). Pierre Bertaux’s Hölderlin. Essai de biographie intérieure (Paris, 1936) brilliantly placed the translations in the context of the poet’s work as a whole. Since then detailed treatments have proliferated. I have drawn on the following: Meta Corsen, ‘Die Tragödie als Begegnung zwischen Gott und Mensch, Hölderlin’s Sophoklesdeutung’ (Hölderlin-Jahrbuch, 1948-9); Hans Frey, ‘Dichtung, Denken und Sprache bei Hölderlin’ (Dissertation, Zürich, 1951); Wolfgang Schadewaldt, ‘Hölderlin’s Übersetzung des Sophokles’ (Hellas und Hesperien, Zürich and Stuttgart, 1960); Karl Reinhardt, ‘Hölderlin und Sophokles’ in: J.C.B. Mohr (ed.), Hölderlin, Beiträge zu seinem Verständnis in unsern Jahrhundert (Tübingen, 1961); M.B. Benn, Hölderlin and Pindar (The Hague, 1962); Jean Beaufret’s admirable Preface to Hölderlin, Remarques sur Oedipe/Remarques sur Antigone (Paris, 1965); Rolf Zubberbühler, Hölderlins Erneuerung der Sprache aus ihren etymologischen Ursprüngen (Berlin, 1969). The translations themselves have been assembled in Volume V of the Grosse Stuttgarter Ausgabe but textual problems remain. Little in the literature, moreover, looks closely at Hölderlin’s translations from the Latin.”

[Reading Hölderlin is difficult mainly] due to historical-and psychological complications, to the difficulty which German sensibility, since Goethe and Schiller, has experienced in coping with Hölderlin’s idiosyncratic radicalism and collapse of reason. Hölderlin’s translations are unquestionably of the first importance. They represent the most violent, deliberately extreme act of hermeneutic penetration and appropriation of which we have knowledge.”

Again we see that literalism is not, as in traditional models of translation, the naïve, facile mode but, on the contrary, the ultimate.”

Hölderlin uses the figura etymologica (the reinterpretation of the meaning of words according to their supposed etymology) as does Heidegger:¹ he is seeking to <break open> modem terms in order to elicit their root-significance. He draws on Luther’s idiom and on the vocabulary of the Pietist movement. He enlists Swabian forms and reverts to the Old High German or Middle High German meanings and connotations of words. Hölderlin was not alone in so doing. His etymologizing is part of an anti-Enlightenment tactic of linguistic nationalism and numinous historicism. Herder and Klopstock were direct, influential forerunners. But Hölderlin pressed further.” “Hölderlin’s view was, in a sense, the reverse of the Aristotelian assertion that <names are of a finite number whereas objects are infinite>.”

¹ Aqueles que chamaram Heidegger de mau etimologista e arbitrário/falsificador seriam os ‘positivistas’ do séc. XX?!

das schwere Wort wird zum magischen Träger des Tiefsinns” Zuberbühler

A palavra complicada se torna o suporte mágico das profundezas”

As if in express defiance of Cowley’s famous warning that <if a man should undertake to translate Pindar word for word, it would be thought that one mad man had translated another>, Hölderlin strove for utmost literalism.”

THE GREAT YGGDRASIL: “Paradoxically unimpeded by frequent misunderstandings of the original Greek, these experiments in total penetration and similitude lead both to Hölderlin’s crowning poems and to his appropriations of Sophocles. Hölderlin seemed to derive from his work on Pindar the (reckless) confidence that he could pierce to the core of meaning in ancient Greek, that he could break through the barriers of linguistic, psychological remoteness to a <pre-logic> or universality of inspiration. He made of the act of understanding and restatement an archaeology of intuition. He went deeper than any philologist, grammarian, or rival translator in his obsessive search for universal roots of the poetic and of language (again, as with the speech-mystics of the 17th century and the Pietists, the borrowed image of the <root of words> is being used literally).”

HEGEL TRADUTOR DE TRAGÉDIAS? “The extent and quality of Hölderlin’s knowledge of Greek are still problematic, as are the probably crucial relations of his own treatment of Sophocles to that of Hegel. The whole topic of the role of Oedipus and Antigone, especially the latter, in the growth of German idealism, and in the works of Hegel, Kierkegaard, and Schopenhauer, demands thorough analysis. It may emerge that Hölderlin’s appropriations were somewhat less eccentric than it would seem. Hegel also was planning a translation of Sophocles and Kierkegaard’s <reconstruction> of Antigone in Either/Or is more extravagant than anything in Hölderlin.” “To Hölderlin’s contemporaries, Ödipus der Tyrann and Antigone seemed either wildly misconceived or farcical. The small circle which took note of them at all inclined to see in these versions symptoms of the mental disorder which soon enveloped the poet in silence. [Como acontece com toda formiga que tenta interpreter um dos grandes!] Modern commentators, on the contrary, have judged Hölderlin’s text to be not only the ultimate in reconstitutive understanding of Sophocles but an unequalled penetration of the meaning of Greek tragedy as a whole.” “These drastic differences of opinion reflect the enigmatic nature of Hölderlin’s enterprise.”

ihren Kunstfehler, wo er vorkommt, verbessern” H.

Onde outro artista errou, melhore-o.”

IN ANCIENT TIMES: “Speech did not stand for or describe the fact: it was the fact.”

Schiller’s mirth when he and Goethe listened to a reading of the choruses in Hölderlin’s Antigone, his urbane assurance that his sometime disciple had been deranged when writing them, are well known.”

Connectives, the inherent causal bias in idiomatic sentence-structures, create a deceptive surface and façade of logic.”

Only by challenging the autonomy of the divine, by invading the <space of the gods>, can man accomplish his own transcendent potential and simultaneously force the gods to observe and fulfil their own ambiguous contiguities to the mor[t!]al order.” “Antigone’s invocation of <my Zeus> in Hölderlin’s celebrated but debatable reading of line 450 is simultaneously an act of arbitrary appropriation, an incursion into the <absent> realm of divine justice, and a desperate affirmation of the relevance of that realm to the survival of mankind and society.” “We find ourselves here at the far limits of any rational theory or practice of linguistic exchange. Hölderlin’s is the most exalted, enigmatic stance in the literature of translation. It merits constant attention and respect by virtue of the psychological risks implied and because it produced passages of an intensity of understanding and <re-saying> such as to make commentary impertinent.” “Paradoxically, therefore, the most exalted vision we know of the nature of translation derives precisely from that programme of literalism, of word-for-word metaphrase which traditional theory has regarded as most puerile.”

Though writing today, the translator aims to translate Spenser into 16th-century Castilian, he produces a version of Marivaux in 18th-century Russian, he renders Pepys’ journals into 17th-century Japanese. This synchronicity has the charm of utter logic. It is (probably) absurd, but for reasons which are not trivial.” “he can translate Werther into a Dutch or a Bengali of the 1770s.” “The translator may choose the right word and grammatical turn, but he knows its later history; inevitably, the spectrum of connotations is that of his own age and locale.”

Leopardi intended to translate Herodotus into medieval Italian. Paul-Louis Courier’s experiments at reproducing Herodotus and Longus in Renaissance French are a case of ambiguous but highly suggestive <arbitrary contemporaneity>”

Littré, Hisroire de Ia langue française, 1863

Littré translated one book of the Iliad into 13th-century French. (…) L’Enfer mis en vieux langage

François appeared in 1879·”

Peu sont li jor que li destins vous file,

Li jor qu’avez encor de remanent;

Ne les niez à suivre sans doutance

Le haut soleil dans Ie monde sans gent.

Gardez queus vostre geste et semance;

Fait vous ne fustes por vivre com Ia beste,

Mais bien por suivre vertu et conoissance.

Mi compagnon, par ma corte requeste,

Devinrent si ardent à ce chemin,

Que parti fussent maugré mien com en feste.

Ore, tornant nostre arriere au matin,

0 rains hastames Ie vol plein de folie,

Aiant Ie bort sempre à senestre enclin.

Jà à mes ieus monstroit Ia nuit serie

Le pole austral; et li nostre ert tant bas,

Que fors Ia mer il ne se Ievoit mie.

By a Borges effect, it is Dante who appears to be translating Littré whose Enfer is older than the Inferno and related to the chanson de geste rather than the Virgilian epic.”

why had 13th-century German literature and civilization, poised as they were between the Teutonic north and the Mediterranean, in vital contact both with the pagan marches to the east and with Gallic Latinity, not produced a Comedia divina (the archaic spelling is Borchardt’s)? This hypothetical question engaged Borchardt, a somewhat enigmatic scholar-poet inclined to a pan-European mystique, from 1904 to ‘30.” “Dante’s absence from the history of the German language and of German sensibility in the period 1300-500 destroyed deep logical and material affinities between German feudalism and the <classical> Christendom of the Provence and of Tuscany. Far from being a sovereign renewal of German, the idiom of Luther was in many respects a defeat. Unlike medieval German, Luther’s Neuhochdeutsch was often helpless before the concreteness and sensuous force of the Biblical original. After Luther, argues Borchardt, came Opitz and Gottscheid and with them a palsied neo-classicism and bureaucratic academicism alien to fundamental strains in the German genius.”

der genuine Archaismus greift in die Geschichte narchträglich ein, zwingt sie für die ganze Dauer des Kunstwerks nach seinem Willen um, wirft vom Vergangenen weg was ihm nicht past, und surrogiert ihr schöpferisch aus seinem Gegenwartsgefühl was es braucht; wie sein Ausgang nicht die Sehnsucht nach der Vergangenheit, sondern das resolute Bewustsein ihres unangefochtenen Besitzes ist, so wird sein Ziel nicht ihre Illusion, sondern im Goethischen Sinne des Wortes die Travestie.”

Though it was noticed by Hesse, Curtius, Vossler and Hofmannsthal, Dante Deutsch has remained largely ignored.”

There are admirable nuances: untergang for occidente (with the premonitory touch of disaster), auferschliessung with its delicate suggestion of the image of outward motion latent in esperienza, mannheit for virtute – an equivalence which restores the force of etymology – toll zu fliegen in which Borchardt simulates both the phonetic and semantic relations of the original, tief in meres grunde liegen which exactly mirrors the quiet menace of del marin suolo. Through these precisions, the translator renders the principal intent of Dante’s text, the inference of catastrophe in the midst of the bracing thrust of Ulysses’ summons. For all its abruptness (Borchardt valued Schroffheit), this version produces a more immediate fluency of rhyme and linked motion than perhaps any other. (…) And notice how gier, although subterraneously as it were, gives an effect, both tactile and tonal, which exactly matches acuti at the corresponding point in Dante’s verse.”

The translator of a foreign classic, of the <classics> properly speaking, of scriptural and liturgical writings, of historians in other languages, of philosophic works, avoids the current idiom (or certainly did so until the modernist school).” “the translator combines, more or less knowingly, turns taken from the past history of the language, from the repertoire of its own masters, from preceding translators or from antique conventions which modern parlance inherits and uses still for ceremony.”

So the Wooers spake; but Odysseus, that many a rede did know,

When the great bow he had handled, and eyed it about and along,

Then straight, as a man well learned in the lyre and the song,

On a new pin lightly stretcheth the cord, and maketh fast

From side to side the sheep-gut well-twined and overcast:

So the mighty bow he bended with no whit of laboring. . . .”

But what is more retrograde than T.E. Shaw’s’ 1932 version of Homer, what could be more ‘literary’ in the trivial sense?”

Telemachus, the guest sitting in your hall does you no disgrace. My aim went true and my drawing the bow was no long struggle. See, my strength stands unimpaired to disprove the suitor’s slandering. In this very hour, while daylight lasts, is the Achaeans’ supper to be contrived: and after it we must make them a different play, with the dancing and music that garnish any feast.”

This to translate a poet who, as Matthew Arnold had urged, is neither <quaint> nor <garrulous> but always <rapid>, <plain> and <direct> in word and thought.”

Philosophic translation should seek to fix meaning uniquely and to render logical sequence transparent. To produce a <dated> version of a philosophic original is gratuitous unless the time-distance chosen specifically elucidates and makes unmistakable the sense, the technical status of the text.” Ex: a poesia de Platão ainda não pode ser transcrita como uma conversa de gírias de agora…

Readings of the Timaeus as an analogue to the Pentateuch, hermetically transmited via a <Mosaic-Orphic> tradition, or as a prefiguration of Trinitarian and Christological motifs, are at least as old as the Middle Ages. Jowett’s stated purpose when he published his translation of the Dialogues in 1871 was to achieve greatest possible clarity consonant with the exact meaning of the Greek.” “Jowett’s <Christianization> of the dialogue, moreover, misses a central aspect of Plato’s teaching on creation. The <demiurgus> (Thomas Taylor’s translation of 1804) operates on materials which pre-exist. Plato’s cosmic builder is resolutely conceived in the image of a human craftsman, not of an omnipotent Deity in the Judaic-Christian vein.”

The translator labours to secure a natural habitat for the alien presence which he has imported into his own tongue and cultural setting. By archaicizing his style he produces a déjà-vu. (…) It had been there <all along> awaiting reprise.” “Archaicism internalizes. It creates an illusion of remembrance which helps to embody the foreign work into the national repertoire. In the history of the art very probably the most successful domestication is the King James Bible.” “Only one set of working papers has until now turned up, and although it is among the most fascinating primary sources in the entire history of translation, it is also brief. Cf. Ward Allen (ed.), Translating for King James: Notes Made by a Translator of King James’s Bible. Allen’s discovery in 1964 of the notes taken by John Bois during the final revision of Romans through Revelation at Stationers’ Hall in London in 1610-11 is not only of extreme interest in itself, but holds out the possibility that further material may come to light.”

Tyndale, the greatest of English Bible translators”

By choosing or achieving almost fortuitously a dating some 2 or 3 generations earlier than their own, the translators of the Authorized Version made of a foreign, many-layered original a life-form so utterly appropriated, so vividly out of an English rather than out of a Hebraic, Hellenic or Ciceronian past, that the Bible became a new pivot of English self-consciousness.”

David Daiches, The King James Version of the English Bible: An Account of the Development and Sources of the English Bible of 1611 with Special Reference to the Hebrew Tradition, 1941.

Bowra, Primitive Song, 1963

The assumption that speech habits and the conventions of concordance between word and object have not altered <across the time distance of 10 or 20 centuries> is one that causes increasing discomfort.” “Nothing in Quine’s famous model of stimulation and stimulus meaning logically or materially excludes the notion of a tribe which would have agreed among its members to deceive the linguist-explorer. Schoolboy coteries, fraternal lodges, craft guilds proceed in just this manner.”

The difficulties of translating Chinese into a Western language are notorious. Chinese is composed mainly of monosyllabic units with a wide range of diverse meanings. The grammar lacks clear tense distinctions. The characters are logographic but many contain pictorial rudiments or suggestions. The relations between propositions are paratactic rather than syntactic and punctuation marks represent breathing pauses far more than they do logical or grammatical segmentations. In older Chinese literature it is almost impossible to demarcate prose from verse”

The novice, i.e. almost everyone, will find invaluable pointers in Arthur Waley, ‘Notes on Chinese Prosody’ (Journal of the Royal Asiatic Society, April 1918); I.A. Richards, Mencius on the Mind, Experiments in Multiple Definition (London, 1932); Arthur Waley, Introduction to Chinese Painting (London, 1933); Arthur Waley, The Way and its Power: A Study of the Tao Te Ching and its Place in Chinese Thought (London, 1934); Robert Payne, The White Pony, An Anthology of Chinese Poetry from the Earliest Times to the Present Day, Newly Translated (New York, 1947); Roy Earl Teele, Through a Glass Darkly: A Study of English Translations of Chinese Poetry (Ann Arbor, 1949); James J.Y. Liu, The Art of Chinese Poetry (Chicago, 1962).”

The oddity lies in the fact that so many of the best-known translators have no Chinese. Bishop Percy, whose translations appeared in 1761, worked from an earlier English manuscript and from the Portuguese. [!!] Stuart Merrill, Helen Waddell, Amy Lowell, Witter Bynner, Kenneth Rexroth have used prose trots, previous translations, French versions, the word-by-word aid of sinologists, to arrive at their results. Paradoxically, scandalously perhaps, these constitute an ensemble of peculiar coherence and they are, in one or two cases, superior in depth of recapture to translations based on actual knowledge of the original. The notorious challenge is, of course, that of Cathay (1915). This collection is, one feels, not only the best inspired work in Pound’s uneven canon, but the achievement which comes nearest to justifying the whole ‘imagist’ programme. (…) Waley’s translations into vers libre derive from the immediate precedent of Pound.”

Wai-lim Yip, Ezra Pound’s ‘Cathay’, 1969

Chinoiserie in European art, furniture and letters, in European philosophical-political allegory from Leibniz to Kafka and Brecht, is a product of cumulative impressions stylized and selected.” “Each translation in turn appears to corroborate what is fundamentally a Western ‘invention of China’. Pound can imitate and persuade with utmost economy not because he or his reader knows so much but because both concur in knowing so little.”

Judith Gautier’s Le Départ d’un ami in: Le Livre de Jade (1867) differs from Pound’s Taking Leave of a Friend in verbal detail, but the conventions of melancholy and cool space are precisely analogous”

The converse is true when Chinese artists sketch European or American cities and landscapes. These emerge delicately, characteristically uniform. New York shimmers on vague waters, like a vertical Venice.”

All English versions of the Arabian Nights, even Edward Powys Mathers’ which is taken entirely from the French of J.C. Mardrus, display the same rose-water tint. French, German, Italian, English renditions of Japanese haiku are intimately related and come out in hushed monotone.”

Whatever the archaeologists may tell us, we have come to envision antique statuary as pure white marble; and time’s erosion, having worn away the original loud colours, affirms our misprision.”

English ‘differs from’ French as it does not from German or from Portuguese. The German- or Portuguese-speaker experiences this difference in regard to his own language and, with complexly variable modulations, in regard to languages of which he will have a less certain grasp. Each ‘differing from’ is diacritical in a generalized formal, historical sense but also inexhaustibly specific.”

Chinese or Swahili are ‘immensely’ different from French. But this immensity is deceptively categorical and thin. It is a mainly inert ‘in-difference’ across an all but vacuous space. A ‘close distance’, on the other hand, as between French and English, is wholly energized by interactive differentiation.”

Modern French lacks that plaisante plasticité still shown by the language of Ronsard and Montaigne who are Shakespeare’s counterparts.” “Possibilities of verbal prodigality, of grammatical exuberance, of metaphoric licence present in 15th– and 16th-century speech and writing were suppressed or relegated to the argotic and eccentric by the centralizing neo-classicism of 17th-century reform.” “French can muster pomp and ceremony even in excess of English; but its altitudes are characteristically abstract and of a dry, generalized grandeur peculiarly grounded in elision.” “Voltaire’s change of front, the extremism of the Romantics, the to and fro of Gide point to a shared awareness of the ‘Shakespearean gap’ in French. French literature provides no figure as immediately universal (a fact aggravated by all but fitful Anglo-Saxon immunity to Racine).”

The modal completeness of French literature (major performances in every genre), the continuous strength but also originality of French literary movements and periods from the 13th century to today suggest, diacritically, that a Shakespeare in the history of one’s language and letters can be an ambiguous providence. (…) It may fatally debilitate, again by virtue of complete exploitation, the genre in which it is realized (the subsequent course of English verse drama).” “Conversely, if there is no Proust in the English novel, I mean no novelist who has made prose fiction inclusive of the uttermost of philosophic intelligence and, at the same time, of unbounded social, sexual, aesthetic exploration, Shakespeare’s central inherence in the language, in the very notion of English literature may, at some level, be a contributory cause. Certain reaches and deeps have never again been worth simulating.”

Horn-Monval, Les Traductions françaises de Shakespeare, 1963;

Brunel, Claudel et Shakespeare, 1971.

Cleopatra’s lament over Antony (IV. XV. 63ff.) is quintessential of Shakespeare’s late supremely-charged economy:

The crown o’th’earth doth melt. My lord!

O, withered is the garland of the war,

The soldier’s pole is fall’n: young boys and girls

Are level now with men: the odds is gone,

And there is nothing left remarkable

Beneath the visiting moon.

This successive propositions display Cleopatra’s bounding pace, her impatience with contingency. But a subtle closeness meshes each motion. If ‘crown’ sustains the imperial theme and relates obviously to ‘the garland of the war’, it also announces the spatial, cosmological image which connects ‘earth’ to ‘pole’ (the word may, as in Hamlet and Othello, stand for ‘lode-star’) and joins both to the visitations of the moon. More plainly, ‘pole’ conveys the picture both of Antony’s spear or baton of command and of the wreathed maypole with its ancient connotations of centrality – the world’s ritual axis – and of celebration. The festival theme is operative in ‘crown’ and ‘garland’ but also in the reference to ‘young boys and girls’. Such, however, is the compaction of the passage, that this reference to the immature and to ‘boys’ in particular immediately evokes Antony and Cleopatra’s scorn for the ‘boy’ Caesar. ‘Odds’ can signify both ‘advantage’ and ‘peculiar distinction’. With Antony’s eclipse the world literally declines into flat inertia and the cold of a lunar phase. Charmian’s instant rejoinder – <O, quietness, lady!> – is concisely twofold: it begs calm of the distraught queen but also proclaims the lifeless state of being.”

The alexandrine, native to, all but inseparable from, the French conception of heroic, lyrically elevated theatre, is inapposite to English blank verse. (…) But a French prose translation of Shakespeare also embodies the whole mechanism of dialectical differentiation and self-definition. (…) The ‘Shakespearean absence’ in French tragic drama is, from one point of view, related to the absence of prose. (…) Molière’s Don Juan gives a glimpse, but no more, of what might have been.”

« La couronne de l’univers se dénoue. Seigneur! La guirlande du combat se fane et l’étendard est abattu. À présent, les enfants et les hommes se valent. Tout s’égalise, et la lune en visitant la terre ne saura plus quoi regarder.

Though the difference in word-count is insignificant (40 as against 44), Gide’s reading, especially through its taut cadence, is meant to exemplify criteria of extreme concision. It is stringently alert to the expansionist latitude prevalent in literary translation.” “La couronne de l’univers se dénoue eliminates the topographical concreteness, the intimations at once material and emblematic, in ‘the crown of the earth melting’. Dénoue points clearly to a laurel wreath.” “Yet (…) guirlande du combat has no natural meaning in French, it only translates and it less than translates, combat being diminutive of ‘war’. Les enfans drastically (needlessly?) curtails ‘young boys and girls’, suppressing the sarcastic swerve towards Caesar. (…) He personifies the moon: it is ‘she’ – the feminine being, at this point so emphatic and symbolically laden in French – who will find nothing to look upon. (…) The whole distribution of feelings is altered. Charmian’s <Du calme, Madame!> not only trivializes; it omits the deadening fall towards extinction which is the cumulative sense and effect of Cleopatra’s lament.”

It would be unrealistic and a trivialization of the density of Shakespeare’s method to neglect the cumulative erotic of successive touches. The allusion to physical failure, the sense of a cadence from radiant virility to impotence, are graphic in ‘melting’ and ‘withering’. There is almost a direct sexual rhetoric in ‘The soldier’s pole is fall’n’. The ‘levelling’ of boys and girls with men, which follows at once, enforces the motif of erotic pathos, of a world in which there is no longer to be found the critical difference between man and boy. One asks also, though only conjecturally, whether there is not a pertinent hint of feminine sexuality in the ‘visiting moon’.”

The dramaturgy of Racine may fairly be termed discourse without body. It accomplishes extreme intensities of transubstantiation and ‘bodies forth’ a last violence of thought and feeling. But it is at no stage somatic.”

It would be a vulgar simplification to say that good French enacts, bears the imprint of, a Cartesian mind-body dualism. But in no other European tongue is this dualism so na[t]ive.”

[Conversely] Robert Lowell makes Jacobean melodrama of Phèdre. The hermeneutic of the translator’s (partial) return to his own native tongue is one of vulnerability.”

« Emma maigrit, ses joues pâlirent, sa figure s’allongea. Avec ses bandeaux noirs, ses grands yeux, son nez droit, sa démarche d’oiseau et toujours silencieuse maintenant, ne semblait-elle pas traverser l’existence en y touchant à peine, et porter au front la vague empreinte de quelque prédestination sublime? Elle était si triste et si calme, si douce à la fois et si réservée, que l’on se sentait près d’elle pris par un charme glacial, comme l’on frissonne dans les églises sous le parfum des fleurs mêlé au froid des marbres. Les autres même n’échappaient point à cette séduction. »

« Flaubert uses the economy of a certain syntactic duplicity to achieve a maximal richness of suggestion and correlation. »

Unfortunately, the metrics of prose and notations for stress patterns in prose remain rudimentary.” Itáli cus meus cul d’miel

Each time we return to a significant passage in Madame Bovary or in any other major text, we learn to hear more of its contained possibilities, more of the pulse of relation which gives it <internality>. Where language is fully used meaning is content beyond paraphrase.

Marx’s daughter, Eleanor Marx Aveling, published her translation in 1886. It was for a long time the sole English version and was taken up in the Everyman’s Library.” “Here, as in Ibsen’s Doll’s House, which the Aveling helped introduce to a circle of London readers, was a revolutionary exposure of the falsity of marriage and of family relations in a repressive capitalist system. The book had been prosecuted for obscenity in the courts of Napoleon III. Eleanor Marx saw in this prosecution a nakedly political attempt to silence an artist who, by sheer honesty of vision, had laid bare the cant [papo-furado] and corruption of life in the Second Empire.” “The translator has identified herself with Emma (there was, of course, to be a tragic concurrence in real life). All semantic options are decided in the heroine’s favour.” “Gerard Hopkins’s translation of 1948 is, linguistically, better informed.”

He has been here before he came. He has chosen his source-text not arbitrarily but because he is kindred to it. The magnetism can be one of genre, tone, biographical fantasy, conceptual framework.”

Once the translator has entered into the original, the frontier of language passed, once he has certified his sense of belonging, why go on with the translation? He is now, apparently, the man who needs it least. Not only can he hear and read the original for himself, but the more unforced his immersion the sharper will be his realization of a uniquely rooted meaning, of the organic autonomy of the saying and the said. So why a translation, why the circumvention which is the way home (the third movement in the hermeneutic)? Undoubtedly translation contains a paradox of altruism – a word on which there are stresses both of ‘otherness’ and of ‘alteration’. The translator performs for others, at the price of dispersal and relative devaluation, a task no longer necessary or immediate to himself. But there is also a proprietary impulse. It is only when he ‘brings home’ the simulacrum of the original, when he re-crosses the divide of language and community, that he feels himself in authentic possession of his source. Safely back he can, as an individual, discard his own translation. The original is now peculiarly his. Appropriation through understanding and metamorphic re-saying shades, psychologically as well as morally, into expropriation. This is the dilemma which I have defined as the cause of the fourth, closing movement in the hermeneutic of translation. After completing his work, the genuine translator is en fausse situation. He is in part a stranger to his own artifact which is now radically superfluous, and in part a stranger to the original which his translation has, in varying degrees, adulterated, diminished, exploited, or betrayed through improvement. (…) The need for compensation and restoration is obsessive in the distances, at once resistant and magnetic, of Hobbes to Thucydides, of Hölderlin to Sophocles, of MacKenna to Plotinus, of Celan to Shakespeare, of Nabokov to Pushkin.”

Albert Cohn’s Shakespeare in Germany in the 16th and 17th Centuries (1965), and Rudolf Genée’s Geschichte der Shakespeareschen Dramen in Deutschland (1871) remain useful. Roy Pascal’s Shakespeare in Germany (1937) is a good introduction to the main trends for the period 1740-1815. Joseph Gregor, Shakespeare, Der Aufbau eines Zeitalters (1935) is interesting because of its untroubled assumption of a central authority, textual, theatrical, psychological in the German-Austrian interpretation of Shakespeare. (…) Friedrich Gundolf, Shakespeare und der Deutsche Geist (1927).”

Die Shakespearomanie, As Grabbe termed it in 1827, could reach grotesque extremes: I have mentioned before the claims made, in the 1880s, that Shakespeare himself was of <Flemish-Teutonic> descent. (…) The 19th-century German pedagogues saw in Sh. a tragedian of middle-class morality, a more inspired version of Diderot and Lessing. Goethe, in his revealingly-entitled essay Shakespeare und kein Ende, came to the conclusion that Shakespeare is, above all, a poet to be read; staged, his plays are full of weakness and crudity. Goethe’s productions of Sh. in Weimar – notoriously the Romeo and Juliet of 1811 – drastically amended the infirm original. German philosophic readings of Sh., German schools of dramaturgy, made of their idol a Platonist and a radical materialist, a universal humanist and a bellicose nationalist, a bourgeois moralist and an advocate of pandemic sensuality, a symbolist so arcane as to have defied all previous unriddling and a naturalist in the manner of Hauptmann or Wedekind.” Conforme lido em Nietzsche’s Wayward Disciple, a peculiaridade da Literatura alemã é que ela parece ter saltado do Romantismo direto para o Naturalismo, pulando ou assimilando apenas ‘pelas beiradas’ o Realismo europeu (inglês-francês).

Shakespeare, como nenhum outro, foi o Criador do sentido da vida humana.” Gundolf

“Uma comparação parecida já havia sido estabelecida por Friedrich Schlegel em sua História da Literatura Antiga e Moderna (1812).”

The English text has not been translated into the German language, says Gundolf, it has become that language.”

O Soneto 87 do maior de todos – linhas traduzidas e intentadas:

SONHO 69 INC.: FENOMENOLOGIA DE BAUNILHA DE VERÃO

Até mais ver você é muit’area para minha pá,

E tá na cara que sabe o quanto vale

Seu preço é sua liberdade:

Tão alto que por mais que frenétiqueueinvista sei que não vou

Poder comprar todas as ações, estou no fim da fila!

Seu monopólio só compraria um trilionárioinfinitoinconcebível.

Porque como firmar, pactuar, assegurar-me, apossar-me

de você, Minha grandEmpresa, a maior transação,

Se dependo do livre-arbítrio de quem Pode mais?

Quem sou eu?

Perto dessa vertigem descomunal de cataratas de valor e valia e estima

O meu dom é ter carência e só possuir minhas mãos e mais nada

Minha Sociedade Identificada, Limitada, Nenhum Direito Reservado,

Meu escritório abandonado, micromundo autônomo se’Incentivo do ’stado

das coisas comélas são, parece que já sint’aquela dor

de quem só trabalh’em vão.

Es

tou

es

gotado.

Eis

que você se

deu – cedeu!, não reconhecendo seu valor,

Caiu em minhas mãos.

Ou eu a quem você o deu – o valor –,

Enganada, por não ser sujeito, Desse jeito,

Acaba que

seu dom é a exuberância do seu cativeiro inestimável,

Posto que quando está cativa volta a ser despreocupada perdulária,

Sem constrições ou amarras: Podes tudo novamente! Na minha mente!

A razão disso tudo é que com razão eu o novo dono devolvi

a quem merece (o valor no valor se multiplica): não ignoro sua riqueza incalculável!

Imensurável por qualquer Auditoria.

O que sou, o que sou de capital nesta História?!

Sou o imaterial, o ideal, tipo feudal, não-comercial, antiquaria, mitologia,

quimera, utopia, bruxaria!

Para ser mais claro que diáfano, sou fofas nuvens brancas sobre uma coroa doiro:

Sonho perfeito dum rei – Não! Tu és o sonho, eu sou o Rei que nada fez,

Só nasceu com sorte – Meu sonho lúcido preferido és Tu,

Consorte!

Porque tu és, e minha razão de ser é ser quem te sonhassim

O sonho é a vida vivida por um sujeito, predicado, cheia de seguimentos

Cheia de nuvens e fofuras cotadas em Libras esterlinas e muita sanha.

Eu (não sou o) sonho mas eu-sonho! Somos +2!

O bei!et0

&

ligação entre sonhador e sonhado

E diferente do inconsciente,

Saiba que a coisa que muita coisa ignora não vai

desaparecer quando

como e porque:

Eu não vou acordar!

The Italian language, furthermore, is intimately Latin in its phonetics, derivations, syntactic structure and matrix of historical, cultural reference.”

“‘Aiuto, Galatea, ti prego, aiuto, o padre, o madre,

nel vostro regno accogliete il figlio prossimo alla morte.’

E il Ciclope l’insegue, e staccato un pezzo di monte

lo lancia sul fuggiasco. Solo un estremo

della rupe lo colse, ma fu per lui la morte.

E perché Aci riprendesse la forza dell’avo

feci quello che potevo ottenere del fato.

Dalla rupe scorreva sangue vivo, ma ecco, quel rosso

comincia a svanire come colore di fiume

che torbido di pioggia schiarisce a poco a poco.”

Metamorfoses, XIII. 880-90

sangue vivo bypasses the suggestion of rubro which is nakedly Latin; obruit would evoke rovinare if Quasimodo had not put ma fu per lui la morte which looks antique and monumental but in fact is not, being vaguely operatic.”

Kierkegaard, Ibsen, Strindberg, Kazantzakis have been given their impact by translation. Translation can illuminate, compelling the original, as it were, into reluctant clarity (witness Jean Hyppolite’s translation of Hegel’s Phenomenologie).” “Faulkner returned to American awareness after he had been translated and critically acclaimed in France.”

his own sensibility and that of the author whom he is translating are discordant. Where there is difficulty the bad translator elides or paraphrases. Where there is elevation he inflates. Where his author offends he smoothes. 90% of all translation since Babel is inadequate and will remain so.”

Only Rabelais has ever matched the scope, the implacable sanity of Homer’s tragi-comic view of life. Even Niobe fell to her food after all her children had been done to death. If the translator misses or attenuates this mystery of common sense, he will have failed Homer.”

Hobbes’ Iliad of 1676 is the pastime of a very old man embittered by what he took to be the inadequate reception of his philosophical-political life-work.” “Hobbes felt that the essence of Homeric verse was one of speed. Hence his choice of decasyllabic lines often bone-spare. But Hobbes was no poet and the result is almost ludicrously thin”

Now you and I must remember our supper.

For even Niobe, she of the lovely tresses, remembered

to eat, whose twelve children were destroyed in her palace…”

Parry’s Homer

None of the translations I have quoted (and there are, at a very rough count, more than 200 complete or selected English renditions of the Iliad and Odyssey from 1581 to the present) is adequate to the original.”

Too often, the translator feeds on the original for his own increase. Endowed with linguistic and prosodic talents, but unable to produce an independent, free life-form, the translator (Pound, Lowell, Logue, even Pasternak) will heighten, overcrowd, or excessively dramatize the text which he is translating to make it almost his trophy.”

Implausible as the notion will seem in a context of Anglo-Saxon values, it can, I am persuaded, be reasonably maintained that Schlegel and Tieck have improved on numerous stretches of foolery, bawdy, and verbal farce in Shakespeare’s comedies (see their versions of The Two Gentlemen of Verona, As You Like It, and The Merry Wives of Windsor).”

Although it mimes the sound of the original (You are – Es rare), the -quette in Poussiquette has overtones of coquetterie, of diminutive elegance much beyond the back-yard ecstasies in Lear. And rare is, by definition, more choice than beautiful.”

To name a <short list> of supreme translations would be absurd. There are too many variables in historical circumstance and local purpose. One has competence in far too few languages, literatures, and disciplines.”

VI. TOPOLOGIES OF CULTURE

To study the status of meaning is to study the substance and limits of translation.”

The composer who sets a text to music is engaged in the same sequence of intuitive and technical motions which obtain in translation proper.” “The debate as to whether literalism or recreation should be. The dominant aim of translation is exactly paralleled by the controversy, prominent throughout the 19th century, as to whether the word or the musical design should be uppermost in the Lied or in opera.”

The musical case is precisely comparable. When Zeiter, Schubert, Schumann, and Wolf set the identical Goethe poem to music, when Debussy, Fauré, and Reynaldo Hahn compose music to the same lyrics by Verlaine, when both Berlioz and Duparc write music to Gautier’s Au cimetière, the contrastive aspects, the problems of mutual awareness and critique are exactly those posed by multiple translation.”

is Schubert right, in setting Schmidt von Lübeck’s Der Wanderer, when he concentrates the whole meaning of the song on the word nicht in the last line, making the word come on a poignant appoggiatura over a strange chord of the 6th?”

What brand of Platonism is expressed in Satie’s musical setting of passages from the Symposium and the Phaedo (the analogy with certain of Jowett’s edulcorations is striking [ver acima])?”

In all his 6 settings of Heine, Schubert misconstrues the poet’s covert but mordant irony. Often the musician will tamper with the words, altering, omitting or <improving> on the poem to suit his personal gloss or formal programme (the translator too adds or elides to his own advantage). Mozart tacks on an extra verse to Goethe’s Veilchen; wishing to obtain a rise of a full octave on the word, Schubert elides the e in Vögelein in Goethe’s Über allen Gipfeln; in Schumann’s opus 90, the composer alters Lenau’s text, changing words, leaving out several, inserting some of his own (being the most verbally-perceptive of songwriters, Hugo Wolf almost never modifies the lyric).”

Jack M. Stein, Poem and Music in the German Lied from Gluck to Hugo Wolf, 1971. Prof. Stein’s book is one of the very few extended treatments of the interaction of poetry and musical setting. John Hollander’s The Untuning of the Sky: Ideas of Music in English Poetry 1500-1700, 1961 remains invaluable, but deals only marginally with the actual musical treatment of literary texts.”

Patrick Smith, The Tenth Muse: A Historical Study of the Opera Libretto, 1970

« Goethe est un piège pour les musiciens; et la musique un piège pour Goethe » André Suarès

All too often there is cause for Nerval’s dictum that only the poet himself can set his own song”

The work of Panofsky, of F. Saxl, of Edgar Wind, of E.H. Gombrich and many others has taught us how much of what the painter sees before him is previous painting.”

Leishman’s long prefatory essay to Translating Horace, 1956 is a masterly introduction to the whole problem of the authority and transmission of classic forms in Western literature and feeling.”

Seneca makes a change in the relations (topology) of the agents: Phaedra repents and slays herself, falling on Hippolytus’ body. But this is only a minor variant on a set theme.”

Euripides does not describe the sea-bull. The dramatic pace and the indirection of confident art allow him to allude to a spectacle <more hideous than eyes can bear>. Seneca lingers on horror:

longum rubenti spargitur fuco latus.

tum pone tergus ultima in monstrum coit

facies, et urgens bellua immensam trahit

squamosa partem…

(His immense flanks are spotted with reddish slime. The extremity of his body is made up of a scaly tail which the monster drags behind him in writhing coils…)”

It was thus that the horses of the sun, realizing the

absence of their accustomed driver, incensed that a

false hand should be guiding the chariot of day,

hurled Phaethon down from the heights of heaven.”

On dit qu’on a vu même, en ce desordre affreux,

Un dieu qui d’aiguillons pressait leur flanc poudreux.”

How are our readings of Euripides now lit or obscured by our knowledge of Seneca and, particularly, of Racine?”

Horace’s Ode in praise of Lollius (IV. 9) is one of the templates for Western poetry and our image of the poet. Horace affirms that public achievement and heroism survive only through the poet’s commemoration. Eros and even the trivial joys sung by Anacreon achieve permanence in verse. This claim has been a talisman for the writer. No reprise has matched Horace’s compressed grandeur.”

Many heroes lived before Agamemnon, but all unwept…”

Vain was the Chief’s, the Sage’s pride!

They had no Poet, and they died.

In vain they schem’d, in vain they bled!

They had no Poet, and are dead.”

Pope

How is Orpheus’ return from the underworld, which is used emblematically throughout the whole tradition of elegy and celebration, to be reconciled to the Christian interpretation of death? In his remarkable study of Orpheus in the Middle Ages (Harvard University Press, 1970), John Block Friedman has shown how late-antique thought, Neoplatonism, and Christian iconography lead to the gradual evolution of an <Orpheus-Christus figure>. From the 12th century on this syncretic conception influences art and literature.”

The tension in Thomas Carew’s Elegy on the Death of Dr. Donne (1640) stems from a need to accord pagan with Christian counters. The need was the more acute because of Donne’s ecclesiastical status and the notorious distance between Donne’s profane and sacred poetry. The death of the Dean of St. Paul’s has left poetry <widdowed>.”

Como esse último capítulo é cansativo! O autor já esgotou completamente a originalidade do discurso, uugggh!

The poet’s limbs lay scattered far and wide. But, Oh Hebrus, you received his head and his lyre, and (oh miracle!) while they floated in mid-stream, the lyre sounded desolate notes, the lifeless tongue murmured mournfully, and the river-banks replied sorrowingly.”

Metamorphoses XI

Time that is intolerant

Of the brave and innocent,

And indifferent in a week

To a beautiful physique,

Worships language and forgives

Everyone by whom it lives;

Pardons cowardice, conceit,

Lays its honours at their feet.”

Auden

The poet in front of the blank page, the painter before the vacant canvas, the sculptor facing the native stone, the thinker in the felt but undeclared proximity of the unthought, are very nearly a cliché for solitude.”

there can be no doubt that Anna Karenina embodies Tolstoy’s close experience and partial denial of the presentation and moral judgement of adultery in Madame Bovary. Such cases are less rare than might appear.”

The self-consciousness of men and women, so far as it is externalized in scenes of ideal or of drastic occurrence, was imprinted by Rousseau’s narrative (La nouvelle Héloïse, 1761).” “The geography of the hook, its scenario of lake, orchard, and alp, constituted a new, yet seemingly definitive, landscape of private sentiment. The diverse aspects of this landscape, its colorations, seasonal attributes, meteorologies acted as graphic objectifications of and incitements to social, philosophic, and erotic modes.” “Werther (1774) has its independent genius but belongs to the family.” “The lovers part; but there is between them a contract of desolation. They are dead to their own future. Subsidiary to these main motifs is that of the children of the beloved, or of her younger brothers or sisters. The lover’s relation to these – didactic, fraternal, conspiratorial – is one of pathos and duplicity.” “L’Éducation sentimentale, in its definitive version, appears in 1869. The title itself conveys Flaubert’s express realization of the central motif in Rousseau.” “Flaubert seems to have felt, as did other 19th-century readers, that, for all its splendour, Le Lys dans la vallé had vulgarized the psychological fineness of the material, that Balzac had, characteristically, injected a dose of melodrama (Lady Dudley and her fierce steeds) into an ambiguous tragedy of private feeling. Hence Flaubert’s special alertness to Volupté (Saint-Beuve).” “Sainte-Beuve died on 13 October 1869. The following day Flaubert wrote to his niece: <In part I had written L’Éducation sentimentale for Sainte-Beuve. He will have died without knowing a line of it!>.” “The <abler soul> of the great precedent, the proximity of the rival version, the existence, at once burdensome and liberating, of a public tradition, releases the writer from the trap of solipsism.”

This is the agony of our human existence, that we can only feel things in conventional feeling patterns. Because when these feeling-patterns become inadequate, when they will no longer body forth the workings of the yeasty soul, then we are in torture.” Lawrence

CHINA CHINA CHINA, I SCREAM AND I PRAY: “Our Western feeling-patterns, as they have come down to us through thematic development, are <ours>, taking this possessive to delimit the Graeco-Latin and Hebraic circumference.” Reject tradition, embrace Übertradiktion!

Yielding to intuitive conviction, and in patent rebuke to his own construct of history, Marx proclaimed that Greek art and literature would never be surpassed. They had sprung from a concordance, by definition unrepeatable, between <the childhood of the race> and the highest levels of technical craft.”

The novelty of content and of empirical consequence in the natural sciences and technology have obscured the determinist constancy of tradition.”

Chomsky’s emphasis on the innovative character of human speech, on the ability of native speakers to formulate and interpret correctly a limitless number of previously unspoken, unheard sentences, served as a dramatic rebuttal to naïve behaviourism. It demonstrated the inadequacy of the stimulus-response paradigm in its Pavlovian vein. Chomsky’s observation, moreover, has had notable consequences for education and speech-therapy. But looked at from a semantic point of view, the axiom of unbounded innovation is shallow.”

Had we only Picasso’s sculptures, graphics, and paintings, we could reconstruct a fair portion of the development of the arts from the Minoan to Cézanne.”

The apparent iconoclasts have turned out to be more or less anguished custodians racing through the museum of civilization, seeking order and sanctuary for its treasures, before closing time.”

Long persuaded of the privileged dynamism of Western ways, of the presumably unique factor of iconoclasm and futurism operative in Western science and technology, we are now experiencing a subtle counter-current, a new understanding of our confinement within ancient bounds of mental habit.”

The flowering of a sub- and semi-literacy in mass education, in the mass media, very obviously challenges the concept of cultural canons. The discipline of referential recognition, of citation, of a shared symbolic and syntactic code which marked traditional literacy are, increasingly, the prerogative or burden of an elite. This was always more or less the case; but the elite is no longer in an economic or political position to enforce its ideals on the community at large (even if it had the psychological impulse to do so).”

The outward gains of barbarism which threaten to trivialize our schools, which demean the level of discourse in our politics, which cheapen the human word, are so strident as to make deeper currents almost impalpable.”


“A large part of the impulse behind the spread of English across the globe is obviously political and economic. In the aftermath of the Second World War, and building on earlier colonial-imperial foundations, English acted as the vulgate of American power and of Anglo-American technology and finance. But the causes of universality are also linguistic.
There is ample evidence that English is regarded by native speakers of other languages whether in Asia, Africa or Latin America, as easier to acquire than any other second language. It is widely felt that some degree of competence can be achieved through mastery of fewer and simpler phonetic, lexical, and grammatical units than would be the case in North Chinese, Russian, Spanish, German, or French (the natural rivals to world status).”

The bitter struggles between Walloons and Flemings, the language riots which plague India, the resurgence of linguistic autonomy in Wales and Brittany point to deep instincts of preservation. Norway now has 2 standard languages where it had only one at the tum of the century.”

Has there been an <English English> author of absolutely the first rank after D.H. Lawrence and J.C. Powys? The representative masters of literature in the English language, since James, Shaw, Eliot, Joyce, and Pound have been mainly Irish or American. Currently, West Indian English, the English of the best American poets and novelists, the speech of West African drama demonstrate what can be called an Elizabethan capacity for ingestion, for the enlistment of both popular and technical forms.”

One need only converse with Japanese colleagues and students, whose technical proficiency in English humbles one, to realize how profound are the effects of dislocation. (…) Only time and native ground can provide a language with the interdependence of formal and semantic components which <translates> culture into active life.”

NEO-BABEL: “More subtly, the modulation of English into an ‘Esperanto’ of world-commerce, technology, and tourism, is having debilitating effects on English proper. To use current jargon, ubiquity is causing a negative feedback. Again, it is too soon to judge of the dialectical balance”

AFTERWORD

In recent papers, Chomsky himself has been modifying his standard theory. He now allows that rules of semantic interpretation must operate on surface structures as well as deep structures. He is also prepared to shift key morphological phenomena from the grammatical model, whose power may have been exaggerated, to the lexicon. Developed further, both these modifications would bring transformational generative grammars nearer to sociolinguistic and contrastive approaches.” Meio-século atrás e ele não parece ter completado essa transição a contento!

By divorcing itself from that intimate collaboration with poetics which animates the work of Roman Jakobson, of the Moscow and Prague language-circles, and of I.A. Richards, formal linguistics has taken an abstract, often trivialized view of the relations between language and mind, between language and social process, between word and culture.”

When I began this book the question of Babel, and the history of that question in religious, philosophic, and anthropological thought were hardly respectable among ‘scientific’ linguists. Now, only 4 years later…”

For the most recent attempt to apply formal logic to vagueness, context dependence, metaphor, and polysemy in natural language, cf. M.J. Cresswell, Logics and Language (London, 1973). Nothing in this acute treatment seems to overcome Wittgenstein’s admonition against the derivation of systematic logic from ordinary language or Tarski’s theorem that <there can be no general criterion of truth for sufficiently rich languages> – all natural languages being <sufficiently rich>.”

« J’ai connu un fou qui croyait que Ia fin du monde était arrivée. II faisait de Ia peinture. Je l’aimais bien. » Beckett

The Kabbalah, in which the problem of Babel and of the nature of language is so insistently examined, knows of a day of redemption on which translation will no longer be necessary. All human tongues will have re-entered the translucent immediacy of that primal, lost speech shared by God and Adam. We have seen the continuation of this vision in theories of linguistic monogenesis and universal grammar. But the Kabbalah also knows of a more esoteric possibility. It records the conjecture, no doubt heretical, that there shall come a day when translation is not only unnecessary but inconceivable. Words will rebel against man. They will shake off the servitude of meaning. They will <become only themselves, and as dead stones in our mouths>. In either case, men and women will have been freed forever from the burden and the splendour of the ruin at Babel.”

SELECTED BIBLIOGRAPHY

(Além das dezenas de obras já destacadas dentro dos capítulos regulares!)

1881

Giles, ‘The New Testament in Chinese’, In: The China Review, X

1920

Ezra Pound, ‘Translators of Greek: Early Translators of Homer’, reprinted in Literary Essays of Ezra Pound

1928

Albert Dubeux, Les Traductions françaises de Shakespeare (homônimo de outro livro citado acima!)

1929

Marcel Granet, Fêtes et chansons anciennes de la Chine

1934

André Thérive, Anthologie non-classique des anciens poètes grecs

1935

Georges Bonneau, Anthologie de la poésie japonnaise

1954

Olaf Blixen, La traducción literaria y sus problemas

1957

Cary, ‘Théories soviétiques de la traduction’, Babel, III

1963

Alfred Malblanc, Stylistique comparée du français et de l’allemand

1969

Orlinsky, Notes on the New Translation of the Torah

Zemb, Les structures logiques de la proposition allemande

1971

Leisi, Der Wortinhalt. Seine Struktur im Deutschen und Englishschen (4th edition, revised)

First issued in Paris in 1932 and taken over by UNESCO in 1947, the annual Index Translationum is an indispensable guide to trends and areas of concentration in world translation.”

* * *

PRECISO ORGANIZAR UM MAPA DE PRIORIDADES DE PRÓXIMAS LEITURAS! Primeiro, neste documento só já seria um ganho e tanto – e depois no blog inteiro!…

NONSENSE

Muito que pensar (ou nem tanto): Platão, Pitágoras, Aristóteles, o Um… No fim, eu sou mais matemático do que sempre me cogito. A régua é a medida do homem. artes-anal. Picotear a lengua a nada lleva. Masturbação pura e simples travestida de vã-guarda. Parallax scrolling. Fausse sortie.

HISTÓRIA DAS IDÉIAS: INTRODUÇÃO À EPISTEMOLOGIA HUME-KANTIANA

Ambiciono traçar o papel de David Hume e de Immanuel Kant na filosofia moderna em algumas linhas, recorrendo a certo número de observações que considero não menos pertinentes que originais. Kant pode ser entendido sem Hume (embora ilustrar alguns conceitos kantianos com a ajuda de Hume não seja contra-indicado), mas Hume (e suas limitações), hoje, não pode ser corretamente introduzido sem um bom número de referências a Kant.

MENSURANDO A GRANDEZA DE ALGUNS FILÓSOFOS

Hume está para Kant no século XVIII como Feuerbach está para Marx no XIX. E assim como o Hegelianismo informa em grande medida todas as correntes filosóficas posteriores, atribuo ao conceito de Idéia em Platão uma importância essencial para o desenvolvimento dos pensamentos de Hume e Kant. A diferença crucial neste contraste improvisado é que Hegel viveu na mesma Alemanha de Feuerbach e Marx, com poucos anos de diferença, havendo um contínuo ininterrupto entre eles, como uma perfeita fotografia da evolução do Idealismo alemão, quase frame a frame. Platão, por outro lado, viveu antes de Cristo, o que não o impede de projetar sua poderosa luz e sombra sobre qualquer filósofo posterior de renome; portanto, é sua obra que escolho para “mentora” destes dois ícones do século do Iluminismo.

As analogias não se encerram por aqui: Feuerbach foi exímio hermeneuta e crítico do trabalho de Hegel, consciente de todas as suas limitações; porém, ao filosofar da própria pena, o que seria a continuação natural de seu trabalho inicial de demolição, nada de essencial veio a produzir. Ele foi louvado pelo Marx jovem, mas depois severamente criticado pelo Engels maduro em seu livro sobre Feuerbach – que nada faz senão parafrasear e sintetizar as concepções marxianas acerca de Feuerbach, como o próprio Engels admite no prefácio (na ausência de Marx, que já havia morrido, como uma espécie de última homenagem). Com a visão panorâmica adquirida pelos autores Marx e Engels após décadas de desenvolvimento do materialismo histórico, foi tarefa simples para a dupla verificar que havia progredido tanto a ponto de no final da vida passar a ver Feuerbach – que lhe servira de estímulo durante a fogosa juventude – como um mero retardatário, olvidável na história do pensamento, alguém que envelhecera mal como autor de filosofia. O principal erro ou limitação de Feuerbach foi ter se tornado vítima da própria “ressaca esterilizante” do sistema que tanto ajudou a “refutar” – o Idealismo hegeliano –, não havendo possuído a competência para, partindo de um ponto qualquer do próprio hegelianismo semi-defunto, ensaiar um revigoramento da filosofia, o que Marx lograria logo na seqüência a partir de sua releitura do princípio da negação da negação.

Uma “síndrome” similar desponta em David Hume, conhecido como “o ceticismo encarnado na modernidade” (já que na Antiguidade também temos diversos avatares da escola cética que nada lhe devem). Não digo que, em paralelo ao raciocínio sobre Hegel-Feuerbach, Hume “refutara Platão”. Platão é o “filósofo perfeito”, o mais atemporal de todos eles. Mas Hegel segue hoje de maior estatura que Feuerbach, apesar de seus defeitos, hoje visíveis para o estudante vulgar; e Platão permanece intacto como marco na contemporaneidade, ponto de entrada, parada e até arremate em termos de Filosofia, sendo necessário lê-lo e relê-lo, abandoná-lo só para a ele voltar em seguida. Platão seria Pelé contra um Hume “jogador de destaque num clube mediano”. Isso é o que me autoriza a usar esse contraste tão insólito.

O complemento que o platonismo atualmente exige, a fim de que possa ser recepcionado pelos leitores modernos sem muitas perdas, precisa ser retirado dos escritores que estão mais próximos de nós no tempo, ainda que a prosa poética multifacetada de Platão siga inigualável quando lida na fonte. Não diria que Hume compreendera a filosofia de Platão sob a forma de sistema, pois seria leviano de minha parte achatar os escritos de Platão confinando-o, dessa maneira, a um quadro teórico em que todas as partes teriam de estar coerentemente subordinadas a um todo, o que jamais foi sua intenção e, duvido, um desígnio inconsciente seu que acabou por escapar-lhe e se realizar em suas obras. Houve, decerto, ao longo da história, quem compreendesse o platonismo como um sistema, mas estes, quer fossem platônicos ou não, acabaram, através deste procedimento, por diminuir Platão e gerar mal-entendidos em cadeia entre os intérpretes do mestre. Se se encara o platonismo como sistema fechado de idéias, no sentido moderno (como pode-se falar dos sistemas cartesiano, humeano, kantiano e hegeliano, por exemplo), torna-se tarefa simplória exaltar ou execrar uniformemente seu legado, ao preço de eliminar inadvertidamente detalhes e nuances que fazem de Platão “muitos Platões”, cada um deles utilíssimo para nós. É como o velho provérbio de jogar o bebê fora junto com a água da bacia…

Além de erro meu, seria colocar na boca de Hume algo que ele nunca atestou por palavras, e confessar que ele também errou e foi um destes que acusei de “maus leitores” de Platão. Contudo, a noção essencial que Hume deveria incorporar, a fim de desenvolver a contento seu “ceticismo aplicado”, ele incorporou: trata-se da Idéia de Platão, que para não dar ensejo a mal-entendidos chamarei de axioma da representação nestas páginas. Portanto, poderíamos limitar o Platão desta comparação Hegel-Feuerbach-Marx/Platão-Hume-Kant a dois ou três livros, ou até ao sétimo da República somente, que contém a famosa passagem da alegoria da caverna. Hume soube ler Platão e utilizá-lo a seu favor. Mas estacou não muito além de algumas considerações muito específicas sobre o valor da experiência na vida humana. Quem soube, finalmente, sair de uma aporia que incomodava os racionalistas modernos (todos os filósofos que vieram depois dos Escolásticos e Patrísticos) foi Immanuel Kant, a não mais que algumas centenas de quilômetros de distância do próprio Hume, de quem foi virtualmente coetâneo. Foi ele o primeiro, depois do próprio Platão, a entender corretamente em toda a sua extensão o axioma da representação. Quando se fala de “certo” ou “errado” em Filosofia, vale o lembrete: o que eu chamo de correto é o que está em voga hoje (e nunca para todos, evidentemente). Por conseguinte, Kant, enquanto intérprete de Platão, enquanto crítico de Hume, e em boa parte do que filosofou de forma autoral, é um pensador atual e relevante, nosso legítimo contemporâneo. Kantiano é o substrato da Fenomenologia do século XX, mesmo que os fenomenólogos tenham muitas críticas cabíveis que fazer a Kant. É necessário reconhecer heranças para avaliar contribuições filosóficas duradouras.

AS METAFÍSICAS DE HUME & KANT: UM PANORAMA

A base da epistemologia de Hume (epistemologia numa pergunta: como é possível o conhecimento?) inclui considerações a respeito de 3 degraus de uma escada, nitidamente distinguidos por ele,¹ e que abarcariam a condição humana, além de explicarem por si sós um bom fragmento da história da filosofia: (1) os instintos (chamaremos de escola naturalista a dos filósofos que deram primazia aos instintos na explicação da natureza do conhecimento), (2) os sentidos (de onde o próprio Hume extrai a nomenclatura sistema dos sentidos em sua obra Investigação Sobre o Entendimento Humano), (3) e, por fim, o ceticismo, que é a crítica dos dois degraus anteriores, o que Hume chamaria de sistema aperfeiçoado dos sentidos, seu sistema. Embora naturalistas, “sensualistas” (ou empiricistas) e céticos existam em todas as épocas da filosofia, Hume considera os dois degraus inferiores dessa “escada epistemológica” como um discurso sobre o passado da disciplina: com a escola naturalista esgotada, os filósofos se voltaram para a importância dos sentidos ou da experiência para a obtenção do conhecimento. Embora conhecido hoje como “filósofo apologista da experiência”, o segundo degrau não é onde Hume se auto-situa. Ele usa sua nomenclatura de “sistema dos sentidos” para classificar, ora veja!, uma espécie de “baixo clero” da escola empirista, da qual ele se arroga o título de melhorador. Chegamos ao terceiro estágio, seu método cético. Um cético é essencialmente um filósofo, ou seja, o termo traduz a competência na capacidade de duvidar, que é o principal motor do progresso filosófico.

¹ Não com estas palavras. Essa figura de linguagem para explicar Hume é de minha inteira responsabilidade: em nenhum lugar o autor faz qualquer menção a uma escada com três degraus.

Mas e a razão, onde está a razão? “Inimigo” da razão, ou do mau emprego da razão na explicação da natureza do conhecimento, sempre cauteloso quanto aos exageros típicos de escolas do pensamento, Hume só discorrerá sobre ela enquanto subordinada aos sentidos, daí eu não haver sequer incluído a escola racionalista¹ (Descartes, principalmente) nos degraus da minha escada.

¹ Separar os filósofos em escolas e dar-lhes epítetos é didático, mas generalista e inconveniente num nível mais profundo. O reducionismo de chamar Leibniz de “o filósofo da mônada” ou Spinosa de “o filósofo da substância” ou “panteísta” em nada ajuda a entender esses autores. Até epítetos mais aceitáveis como Schopenhauer, o filósofo da Vontade podem encerrar noções muito vulgares e inadequadas. Por isso previno o leitor: ali onde René Descartes é tratado, em livros-textos, como sinônimo de racionalista, há “peguinhas”. Logo abaixo me refiro a Descartes e sua filosofia como “idealismo”, geralmente equiparável a racionalismo. Mas não estaria errado em enfatizar seu lado sensualista ou empiricista, e isso porque os qualificativos sempre dependem de uma abordagem ou contexto. No caso específico da crítica humeana a Descartes, pode parecer que Descartes é racionalista ou idealista e nada mais. Deixo, pois, os leitores de sobreaviso sobre o perigo de “crer demais” em interpretações consagradas. Tampouco deve-se tentar pensar a alcunha idealismo aplicada a ou por um autor do século XVII ou XVIII, na França ou no Grã-Bretanha, como apresentando qualquer correlação considerável com o idealismo platônico da Grécia pré-cristã ou com o Idealismo romântico alemão de 150 anos depois de Descartes! Todo cuidado é pouco.

Para me aprofundar em Hume e para explicar o kantismo, recorro de agora em diante a citações de Hume, que virão entre aspas. Meus comentários, em azul, guiarão o leitor sobre o contexto das afirmações:

N.B.: Além disso, grifei em verde trechos que são considerados refutados pela filosofia séria de hoje, i.e., conteúdo defasado; e em vermelho trechos de suma importância para a exposição presente.

[A filosofia] não pode mais recorrer ao instinto infalível e irresistível da natureza [naturalismo, mera noção enganosa ou, antes, verificada como impossível de ser alcançada através da ‘equipagem’ do ser humano], pois tal caminho nos conduz a um sistema completamente diferente, que se demonstrou falível e mesmo enganoso.” Refutação do naturalismo e do idealismo cartesiano, duas correntes de pensamento filosóficas – ambas refutáveis já uma pela outra através de ceticismos incompletos ou parciais, segundo Hume. O ceticismo de Hume estabelece-se a si próprio num patamar superior a ambas essas tendências, que são, na história das idéias, afinal, apenas diferentes manifestações do mesmo equívoco epistemológico. Na linguagem de Hume: os naturalistas e os racionalistas erram porque exageram em suas crenças injustificadas. Não duvidam o suficiente.

E justificar esse pretenso sistema filosófico por uma série de argumentos claros e convincentes, ou sequer por algo que se assemelhe a um argumento, é algo que está fora do alcance de toda a capacidade humana.” Descoberta de que a raiz da imperfeição tanto do naturalismo quanto do pseudo-ceticismo cartesiano são a mesma: o racionalismo, ou a fé na razão, que os primeiros filósofos da modernidade elevaram a uma categoria superior aos instintos e aos sentidos, mas que é mera ficção ou arbitrariedade, i.e., a razão apresenta no fim das contas um conteúdo vazio, contaminado pelos próprios instintos e sentidos dos filósofos racionalistas.

Por qual argumento se poderia provar que as percepções da mente [sentidos e raciocínios] devem ser causadas por objetos externos inteiramente distintos delas, embora a elas assemelhados (se isso for possível), e não poderiam provir, seja da energia da própria mente, (I) seja da sugestão de algum espírito invisível e desconhecido, seja de alguma outra causa que ignoramos ainda mais?” (II)

Começo da compreensão da dialética interior-exterior no homem. Sujeito e objeto são díspares, porém categorias os intersecionam num uno: cores e formas. A mente e uma mesa são objetos materiais, vermelhos, marrons, brancos, pouco importa, sólidos, etc. (I) é uma alusão avant la lettre a um tipo de solipsismo: conjetura-se: e se… todos os objetos exteriores que apreendemos forem apenas criações nossas? despidas de materialidade, meras ilusões? Evocação hiperbólica de noções mais atenuadas, como a das sombras na alegoria da caverna, do criticismo kantiano (que, sublinho, Hume não conheceu) e das próprias considerações de uma filosofia ainda mais tardia a Hume e Kant eles mesmos, i.e., a fenomenologia do século XX, em que entendemos o axioma da representação, sob a alcunha de fenômenos, como meras aparências e ao mesmo tempo como nossa realidade relativa. O (II) seria uma alusão direta à Coisa-Em-Si: uma causa que está além do homem, e que incita à metafísica vã, ou seja, a meras especulações, sem jamais poder ser refutada ou provada. Logo voltaremos a citar a Coisa-Em-Si.

Reconhece-se, de fato, que muitas dessas percepções não surgem de nada exterior, como nos sonhos, na loucura e em outras enfermidades. E nada pode ser mais inexplicável que a maneira pela qual um corpo deveria operar sobre a mente para ser capaz de transmitir uma imagem de si mesmo a uma substância que se supõe dotada de uma natureza tão distinta e mesmo oposta.”

Poucas linhas, mas tão prenhas de significado! Trata-se primeiramente de uma crítica do materialismo ou objetualismo mais rasteiro, que concede a prioridade à matéria e ao objeto em detrimento do sujeito, continuando o exemplo acima: a hipótese de que as percepções da mente devam ser causadas por objetos externos. O que Hume quer dizer com isso? E com “objetos inteiramente distintos porém assemelhados” à mente? Significa que para o filósofo grosseiro ou tosco, ou isso ou aquilo deve ser escolhido: ou a realidade advém da própria mente (o mundo todo é ilusório) ou a matéria não-viva comanda nossos corpos. Para o torpe filosofar, que só vê extremos ou duas opções incondicionais, sem matizes, era assim que se colocava a questão. Não pode, para eles, haver um compromisso entre o que é tão “distinto”: é certo que nós, seres com consciência, somos feitos dos mesmos elementos (átomos) das naturezas mortas ou do mundo vegetal ou dos insetos, todos sem consciência, mas uma rocha não pode ser igualada a um ser humano, porque não sente nem raciocina! Nessa formação limitante, caso não se queira enxergar o mundo como ilusão de um Eu, recorre-se ao que é igualmente tachado como disparate por Hume: A pedra é como ela é, então ela possui uma faculdade que nem o mais desenvolvido dos humanos possui: a de demonstrar-se a si mesmo. É a solução do realismo exacerbado, que vê no olho do observador da pedra apenas um escravo da própria pedra. Para se provar que a pedra é real (pois se fosse, de outra forma, condicionada pela mente, a pedra seria apenas uma ficção do sujeito), diz-se que a matéria determina o real, e dá-se (a pedra dá!) de antemão aos sentidos aquilo que eles devem sentir, dá-se à mente o que ela deve pensar. A quem se ri do caráter ridículo dessa hipótese, não é outro o motivo do termo “objetivo” em complemento a “conhecimento”, e “objetividade” em ciência dita pura ou bruta, que estamos fartos de ler e ouvir falar: se se quer um conhecimento preciso, tudo deve ser objeto, ou então subordinado ao objeto! Nós não nos curamos, nem mesmo na linguagem técnica, desses atavismos falaciosos…

Em segundo lugar, esta passagem é a assunção humeana de corpo e mente como instâncias irrevocavelmente separadas. Por mais que isso seja desagradável para o leitor atual, é necessário compreender que Hume devia efetuar essa separação para progredir em seu ceticismo, ou estaríamos efetuando uma análise anacrônica e falsa do seu sistema filosófico: para o homem cético escocês não havia nenhum inconveniente nessa dualidade – antes, haveria na unidade mente-corpo. (Perceba que nisto Hume é muito inferior a Platão, que não cinde mente e corpo.)

O corpo representa, nesta instância, os sentidos. A mente a capacidade de abstração. O que a substancia? A matéria cinzenta, o cérebro, nosso sistema cognitivo. Sentidos e razão não possuem qualquer coincidência entre si. Nenhum pode sobrepor o outro, ambos são sempre contraditos e contradizem o outro, mas isto, esta conjugação paradoxal, é o homem. (Vejam que, se há de haver um sentido de unidade em qualquer parte, Hume vê no ser humano, o invólucro de mente e corpo; mas não admite mais do que isso: não admite a sinestesia ou mistura entre razão e sensação.)

Voltando à dicotomia sujeito-objeto (reino da distorção X reino do “real”): por que é tão difícil reconciliá-los nesse sistema filosófico? Nós sequer possuímos uma “imagem objetiva” de nosso próprio corpo, seja internamente seja externamente. Ex: não sabemos a priori como são nossas entranhas e como funcionam nossos sistemas biológicos como o digestório-excretório, o circulatório, o respiratório, etc., antes de uma investigação racional sobre tais temas. A mente também não pode comunicar conceitos ao corpo, e ela mesma não se conhece fisicamente ou, como queira, no nível espiritual, de forma objetiva, dadas nossas intrínsecas e palpáveis limitações. Não há uma instância maior-que-o-real a que se possa recorrer para a arbitragem imparcial de todo esse impasse: no sonho, basta que se acorde. A causa está fora do sonho, por isso o sonho pode ser objeto de investigação do sujeito acordado. Na loucura, o louco não pode investigar-se, mas pode ser objeto de estudo. O homem, o filósofo, não pode investigar-se e investigar o mundo da mesma forma como o sonhador investiga o sonho e a medicina investiga o paciente (nas Investigações Hume descreve a medicina como ciência abstrata, o que seria impensável hoje!). Neste caso, se é dada primazia ao sujeito, estamos dentro de um sonho, chamado mundo, e somos portadores de monomanias ou loucuras parciais que não podemos exatamente explicar ou esclarecer. Eis o que se pode construir, com segurança, sobre as bases de um ceticismo esclarecido (humeano). São nossos limites epistemológicos. A única alternativa seria recair no problema anterior, o da objetivação integral da realidade, o império do objeto ou da coisa – seres humanos como coisas. Logo, a alternativa não é viável.

PERGUNTA – É uma questão de fato se as percepções dos sentidos são produzidas por objetos externos a elas assemelhadas – como se decidirá esta questão?”

Ainda o mesmo. Nossos olhos enxergam outras matérias porque são matéria também (idênticos, em última instância, ao que observam), ou nossa visão (sentido) cria a matéria tal qual a observamos? Hume encontra-se preso entre os dois extremos e embora não se disponha a escolher de maneira cega entre “o ovo ou a galinha”, sua única solução, que ele reconhece como parcial (duplo sentido), é pender para o lado do sujeito no binômio sujeito-objeto. Parcial porque a filosofia não pode concluir sobre aquilo que não pode experimentar, (1) e parcial porque aquilo que parte de um indivíduo não é “realmente” uma “realidade” (imparcial) (2).

Tal debate parece hoje inocente, mesmo da perspectiva epistemológica. Até por isso é necessário esclarecer o leitor, no entanto, que tampouco fala-se aqui da investigação física sobre o fenômeno da visão, da óptica e das cores (já que usamos presentemente este sentido como exemplo, e não à toa: a visão é dos 5 sentidos de longe o mais explorado pela filosofia ocidental, em detrimento do tato, paladar, audição e olfato), que até a época de Hume não estavam solucionados nas bases atuais (a resposta encontrando-se na luz enquanto onda – para esta questão, podemos ignorar suas características de partícula – em interação tanto com a retina humana quanto com o objeto). Não é este “ângulo cru”, ou de ciências exatas, que interessa neste livro de Hume. Ele está, ao invés, a se perguntar: Que é a verdade, qual é o fundamento do real? (Dimensão epistemológica)

Essas mesmas perguntas, repito, são para nós inocentes, pois a filosofia kantiana decidiu-se sobre esse aspecto, sem recorrer quer ao ovo, quer à galinha, dando o passo que Hume hesitou em dar ou, antes, escolhendo deliberadamente não dar o passo, e justificando esta não-ação, no que ficou conhecida como a síntese kantiana (ou ainda crítica, simplesmente) das correntes filosóficas importantes que o precederam. Em Kant, não é dada primazia à faculdade do olho (uma câmera senciente, por assim dizer, i.e., uma câmera ligada a um sistema nervoso) nem aos objetos. Reconhece-se que este era um falso dilema. A solução é o que eu chamei anteriormente de axioma da representação. Dá-se ênfase ao caráter relativista da apreensão do mundo inerente ao ser humano e ao “fenômeno”, conceito que detalharemos a seguir.

Nem existe nada de que se possa falar que seja externo ao ser (um cogitado real ou coisa-em-si), nem é o sentido do ser que cria ilusões sensórias em detrimento de acessar uma suposta realidade não-sensível, independente (o que poderíamos, hoje, tanto chamar de coisa-em-si – de novo, ou seja, tanto no extremo objetivista quanto no extremo subjetivista deparamo-nos com ela – como de absurdo). O ser é a própria realidade que observa; a pedra, a mesa, a luz, o olho humano são fenômenos (representações, aparências), única forma da realidade regida pelo tempo-espaço. Esse novo binômio agora introduzido, o tempo-espaço, é nosso único modo de vivência. Nosso corpo e mente já não se encontram cingidos à maneira humeana no sistema kantiano, posto que enquanto fenômeno eternamente aparente (ou seja, em modificação) ele é em si a elucidação dos conceitos de espaço e de tempo, conteúdo, forma e sua variação, que estão embutidos em nossos instintos, sentidos e cognição (se desdobra num e noutro desde que existe, até que deixe de existir – agora sensação e razão também são capazes de coexistir).¹ A realidade é relativa ao indivíduo porque dois corpos não podem ser conhecidos ao mesmo tempo da mesma perspectiva, nem ‘no mesmo espaço’, sendo cada apreensão fenomênica um ‘caso isolado’ na perspectiva de um só indivíduo ou de vários. Se Hume ainda falava de um Absoluto, mas ao mesmo tempo defendia haver uma impossibilidade prática de acessá-lo, Kant, na medida em que não trata da coisa-em-si de forma moral (ao menos não até redigir a Crítica da Razão Pura Prática, mas esta obra só nos interessará como contraponto a ser marginalmente criticado, neste artigo), mas apenas a cita (como que em referência à filosofia anterior), dispensa o absoluto, ao tempo em que, justamente, assim procedendo, conserva-o, somente que sob a forma do fenômeno (que não conhece distinção sujeito-objeto), único absoluto de seu sistema.

¹ Leia a nota de rodapé sobre a memória, no próximo parágrafo.

RESPOSTA – Pela experiência.”

Como antecipei, Hume, vacilante, acaba por escolher o sujeito, embora de forma muito mais restrita que os subjetivistas (empiristas) que lhe precederam. E como Hume não segue pela senda kantiana, ele entende que o real (o fenômeno, ou ilusões diáfanas de acordo com seu sistema, trevas que ele tentará diminuir humildemente) possa ser paulatinamente investigado pela experiência (“sentidos acumulados”, “razão orientada pelos sentidos”, “sentidos orientados pela razão” até, como queiram, embora soe herético para os ouvidos de um Hume – e também “memória”).¹ Sucede que, na fenomenologia póstuma chega-se ao veredito: a experiência humana não “acumula” fatores necessários para o entendimento da própria experiência ou do real, como diz Hume, simplesmente porque os fatores necessários são tempo e espaço,¹ que são inerentes ao ser enquanto ser (e a única manifestação do ser é através do devir fenomenológico).² Em outros termos, Hume procura uma solução que já estava solucionada, sendo sua investigação tautológica ou até mesmo pré-tautológica, contraproducente e falsificadora (já que podemos entender o mundo dos fenômenos como, agora sim, a verdadeira tautologia).

¹ Como esta é uma INTRODUÇÃO À EPISTEMOLOGIA destes dois autores, achei por bem não carregar a cabeça do leitor e complicar demasiado a exposição logo de início com um último fator enunciado por Kant na sua primeira Crítica que completa um “tripé de fundamentos”, fechando o círculo de seu axioma da representação. Se possível gostaria de ter deixado esta parte fora até, mas como Hume, a dado ponto das Investigações cita a própria “memória” e o termo que aqui é conveniente citar, i.e., “aprendizado das causas e efeitos”, vejo-me compelido a citar, ao menos nesta nota de rodapé, o “terceiro elemento” da tríade kantiana, embora a explanação do sistema seja já auto-suficiente recorrendo-se estritamente a tempo e espaço e nenhum prejuízo decorreria de não haver falado neste terceiro aspecto, nem decorre de só dele falar agora. O fator que explica a memória e o acúmulo de experiências, no sistema kantiano, é o princípio inato de apreensão de causa-efeito; se já não fôssemos equipados desta intuição elementar, a própria passagem do tempo ou as mudanças do espaço (que são, em realidade, um único fenômeno que se separa, para nós, na expressão da linguagem) não seriam apreensíveis, o que demoliria todo o sistema. E na verdade quando falamos em espaço e em tempo já intuímos, por assim dizer, noções como a hegemonia de causas e efeitos no real, nos fenômenos. Nosso próprio conceito ou abstração mais ingênuo do que seria nossa memória envolve um recipiente, um contêiner, uma caixa, por exemplo, extensa e tridimensional, finita, capaz de armazenar, em diferentes etapas e períodos, informações, sendo que esta caixa nunca nos parecerá totalmente vazia nem cheia, embora deduzamos que ela tem um limite determinado – ainda que nem evoquemos aqui o esquema tão laborioso e complexo de um cérebro para a neurociência mais em dia, subdividido em inúmeros segmentos, dezenas de bilhões de neurônios, e com todas as regras das sinapses, i.e., das idas e vindas das ‘informações’ enquanto impulsos elétricos de ordem infinitesimal, e sua relação com as terminações nervosas por todo o corpo…, ainda que nem evoquemos tudo isto, esta imagem inocente da caixa já é o suficiente. Este modelo cerebral citado que, antes de dissecar um corpo, um ser humano não conhece em sua aparência nem em qualquer de seus atributos (não é exclusividade do cérebro: o mesmo se poderia dizer do intestino, p.ex.) a não ser através da educação ou instrução, direta ou indireta, comunicada por seres humanos que obtiveram estes dados no passado, i.e., numa palavra, mediante a razão. Em suma, a noção de causa-efeito nada mais é do que a articulação lógica que possibilita nossa compreensão (inata) de tempo e espaço como fundamento do real e articulação unitária regente de todos os fenômenos. De forma ainda mais simples: a dita razão ou conhecimento abstrato (a posteriori) nada mais é do que um tipo de super-conhecimento a priori, com diferença só de grau, mas não de qualidade, posto que não importa quão complicado seja esse conhecimento intelectual, a ele se remonta através de incessantes aplicações do princípio causa-efeito. Este insight kantiano assinala, novamente, a inédita compreensão moderna de outra parte da filosofia platônica: sua doutrina da metempsicose conjugada com a teoria das reminiscências, e o conseqüente postulado epistemológico de que “nada aprendemos, apenas nos lembramos do que sabemos”. Ou seja, para Platão até a sabedoria é um a priori, todavia é óbvio que ele não usa esta expressão.

² Se de alguma coisa eu me orgulho é de poder ter exposto o sistema kantiano sem vários dos termos esdrúxulos utilizados por Kant! Aquele que já se aventurou a lê-lo sabe do que estou falando… Schopenhauer, talvez o maior admirador de Kant que já existiu, Nietzsche e muitos outros não nos pouparam de comentários acerbos sobre como é árida sua leitura, como Kant escreve mal e complicado sem necessidade, etc.! Um dos termos que me guardei de usar no parágrafo acima, mas que já havia usado em negrito no artigo (e na nota ¹ acima), foi o a priori. Qu’est-ce que c’est, l’a priori kantienne? Que vem a ser esse tal a priori kantiano? Nada mais do que a afirmação positiva de Kant, que para ser percebida e enunciada por Hume exigiria que ele abdicasse de seu ceticismo esclarecido num ponto decisivo: como o homem não precisa aprender sobre espaço e tempo, já nasce sabendo-os, diz-se que tempo-espaço são percepções a priori de todo ser. Hume não admite conhecimentos a priori, e esse é o calcanhar-de-Aquiles de seu sistema.

Recorrer à veracidade do Ser supremo para provar a veracidade de nossos sentidos é, certamente, tomar um caminho muito inesperado.” Aqui Hume está se referindo aos filósofos pré-modernos, no meio dos quais é suma autoridade, sendo seu ceticismo completamente equipado para refutar suas doutrinas exotéricas. E, coisa inusitada, o próprio Kant, na Crítica da Razão Pura Prática, continuação moral de sua clássica e inauguradora Crítica da Razão Pura, retrocedeu e recaiu no próprio erro que já havia superado anos antes: atribuiu ao Ser supremo mediado pela ética cristã no mundo fenomênico o fundamento de nossa conduta social! Ele fez isso porque não encontrou outra solução metodológica para o dilema moral que suas conclusões no primeiro livro traziam (ou que ele imaginava que traziam, seria mais apropriado dizer): a queda no niilismo desenfreado, uma vez que os fenômenos são relativos e, portanto, realidades últimas individuais e desconexas umas com as outras. Este novo modo de ver, que hoje chamamos mundano ou imanente, parece de súbito a Kant (crise de meia-idade?) despido de algo muito importante, uma comunicação com o que batizamos de transcendência. No velho sentido, transcendência pode se referir a uma coisa-em-si, ou seja, a algo inalcançável para o ser humano; mas em Kant a transcendência ganha o novo sentido de realização moral mundana sob um princípio mais elevado. Talvez ele sentisse que faltava completamente ao homem moderno o senso (ironicamente) a priori de virtude que parece emanar do homem grego. Faltava, segundo ele, a explicação de como era possível a ética, isto é, a ação-no-mundo ao mesmo tempo individual e coletiva, isto é, a ação do homem de forma que fosse possível a vida estável em sociedade, fora da situação hipotética hobbesiana do estado de natureza (todos os homens contra todos os homens ou guerra perpétua ou ainda guerra civil, caso ocorresse numa civilização já constituída) e guiada por e para fins mais nobres do que a própria mundanidade fenomênica. Sua bem-conhecida resposta para esse relativo desespero veio na forma do imperativo categórico. Sua premissa é válida para poucos séculos europeus de civilização cristã, ignorando portanto qualquer desenvolvimento histórico tais quais a manifestação do Estado antes do modelo constitucional moderno, as civilizações anteriores, as civilizações não-européias e as civilizações póstumas, todas elas fenômenos transcendentais (no seu sentido) e estáveis, regidos porém por morais, culturas, religiões e códigos de ética alternativos ao tempo-espaço específico de Kant, i.e., a monarquia constitucional européia do século XVIII. Enquanto o grego antigo da polis achava uma orientação deontológica dentro de si mesmo e da comunidade de seus iguais, o homem kantiano ideal tinha de recorrer novamente ao Deus monoteísta judeo-cristão. Kant retomaria uma epistemologia independente da coisa-em-si, restituindo o transcendental à sua origem fenomênica, no seu terceiro trabalho clássico, a Crítica da Faculdade do Juízo, num campo mais delimitado, contudo: a fim de explicar a possibilidade da Estética.

Este é um tópico, portanto, no qual os céticos mais profundos e mais filosóficos sempre haverão de triunfar quando se propuserem a introduzir uma dúvida universal em todos os objetos de conhecimento e investigação humanos.” No sentido aqui atribuído ao ceticismo, todos os trabalhos filosóficos ainda válidos para nossa própria idade foram efetivamente legados por indivíduos céticos, sem reparos.

É universalmente reconhecido, pelos modernos pesquisadores, que todas as qualidades sensíveis dos objetos, tais como o duro e o mole, o quente e o frio, o branco e o preto, etc., são meramente secundárias e não existem nos objetos eles mesmos, mas são percepções da mente que não representam nenhum arquétipo ou modelo externo. Se isso se admite com relação às qualidades secundárias, o mesmo deve igualmente seguir-se com relação às supostas qualidades primárias de extensão e solidez, as quais não podem ter mais direito a essa denominação que as anteriores. A idéia de extensão é inteiramente adquirida a partir dos sentidos da visão e do tato, e se todas as qualidades percebidas pelos sentidos estão na mente, não no objeto, a mesma conclusão deve alcançar a idéia de extensão, que é inteiramente dependente das idéias sensíveis, ou idéias de qualidades secundárias. Nada pode nos resguardar dessa conclusão a não ser declarar que as idéias dessas qualidades primárias são obtidas por abstração, uma opinião que, examinada cuidadosamente, revelar-se-á ininteligível e mesmo absurda. Uma extensão que não é nem tangível nem visível não pode ser minimamente concebida, e uma extensão visível ou tangível que não é nem dura nem mole, nem preta nem branca [Hume quis dizer: sem cor], está igualmente além do alcance da concepção humana. Que alguém tente conceber um triângulo em geral que não seja nem isósceles nem escaleno, nem tenha qualquer particular comprimento ou proporção entre seus lados, e logo perceberá o absurdo de todas as noções escolásticas referentes à abstração e às idéias gerais. [Em nota] Tomou-se de empréstimo esse argumento ao Dr. Berkeley; e, de fato, a maior parte dos escritos desse autor extraordinariamente habilidoso compõe as melhores lições de ceticismo que se pode encontrar entre os filósofos antigos ou modernos, incluindo Bayle. (…) Ele [Berkeley] declara, entretanto, na folha de rosto (e sem dúvida com grande sinceridade), ter composto seu livro contra os céticos, bem como contra os ateus e os livres-pensadores. Mas todos os seus argumentos, embora visem a outro objetivo, são, na realidade, meramente céticos, o que fica claro ao se observar que não admitem nenhuma resposta e não produzem nenhuma convicção. Seu único efeito é causar aquela perplexidade, indecisão e embaraço momentâneos que são o resultado do ceticismo. [do ceticismo = do filosofar] Aqui Hume estava muito próximo de chegar ao criticismo kantiano, por exemplo. Diríamos que estava “quente”, mas que alguns parágrafos à frente já havia “esfriado” de novo…

Pode parecer muito extravagante que os céticos tentem destruir a razão por meio de argumentos e raciocínios, contudo esse é o grande objetivo de todas as suas disputas e investigações.”

A principal objeção contra todos os raciocínios abstratos deriva das idéias de espaço e tempo; idéias que, na vida ordinária e para um olhar descuidado, passam por muito claras e inteligíveis, mas, quando submetidas ao escrutínio das ciências profundas (e elas são o principal objeto dessas ciências), [Aqui Hume se refere à Escolástica, o que nada tem a ver com nosso conceito de ciência profunda – para ele era a ‘velha metafísica’ somente.] geram princípios que parecem recheados de absurdos e contradições.” Significa, ainda, para além de uma crítica à Escolástica: podemos abstrair inúmeras conclusões físico-matemáticas falsas acerca do espaço e do tempo, o que seria produto de um uso indiscriminado e mal-feito da razão, mas o que há de empírico e sensível no tempo e no espaço é, por sua vez, irrefutável, indiscutível mesmo, ignorando e destruindo qualquer conceito ou abstração impróprios, em última instância. Daí é fácil intuirmos por que o espaço-tempo é a base do kantismo: eis a noção mais imediata e impregnada no Ser, a condição de possibilidade de todos os fenômenos e representações.

Os assuntos ligados à moral e à crítica são menos propriamente objetos do entendimento que do gosto e do sentimento. A beleza, quer moral ou natural, é mais propriamente sentida que percebida. Ou, se raciocinamos sobre ela, e tentamos estabelecer seu padrão, tomamos em consideração um novo fato, a saber, o gosto geral da humanidade ou algum outro fato desse tipo, que possa ser objeto do raciocínio e da investigação.” Longe de mim, ao demonstrar que a epistemologia kantiana é, em síntese, a superação da epistemologia humeana, rebaixar ou relegar Hume a um canto irrelevante da história dos pensadores. Nesta passagem, por exemplo, se vê com assaz clareza que Hume, apenas 13 anos mais velho que seu ainda mais celebrado “rival”, respirando a mesma cultura portanto, poderia muito bem ter sido o autor de todo o criticismo kantiano, se rumasse por veredas não muito distintas de seu próprio método, posto que essas linhas por si só contêm em germe não só as conclusões kantianas mais sublimes (como os postulados da primeira e da terceira Críticas) como até o sensato corretivo dos devaneios kantianos sobre a moral (segunda Crítica)!

Minha idéia de escrever detidamente acerca de Hume e Kant num artigo veio-me como de supetão, lendo Hume. Em caso de que essa “estranha vontade” me ocorra novamente, continuarei a série, esmerilhando outros filósofos, sob o nome mais geral de HISTÓRIA DAS IDÉIAS.

SITUAÇÃO SÓCIO-HISTÓRICA DA MÚSICA NO SÉC. XIX – Capítulo 38 de “História da música ocidental”, de Brigitte, Massin & al.

Os patronos e os mecenas nobres foram abandonando aos poucos seu tradicional papel, afastados pelos empresários e pelos diversos grupos de músicos, profissionais e amadores, que cada vez mais organizavam eles próprios concertos públicos.”

os historiadores da música empreendiam um trabalho sistemático de pesquisa (…) que permitiu a constituição da musicologia histórica e a reconstituição da vida e da criação de vários grandes compositores, tais como Bach, Palestrina e Schütz.”

Na Áustria, a ópera, sob o regime de Metternich, passava pelo controle da censura e era vigiada de perto pelas autoridades. Mas a democratização irresistível (…) acabou por tornar necessária a abertura de grandes salas de concerto, capazes de receber milhares de ouvintes, bem como a criação de grandes organizações especializadas na programação de concertos.” “Nenhuma arte, nesse tempo, conheceu expansão igual à da música.”

só por volta da metade do séc. teve início a moda dos grandes ‘clássicos’ vienenses – Mozart, Haydn e Beethoven.”

Em Londres, a criação, em 1813, da Philarmonic Society, que se propunha a oferecer música moderna executada da melhor maneira possível, era uma iniciativa normal para uma grande cidade, onde o público de concertos já estava bem-constituído e era numeroso. Graças a ela, a música de Mendelssohn foi introduzida na Inglaterra e a Nona Sinfonia de Beethoven encomendada; para esta mesma sociedade, também Spohr e Dvorák compuseram algumas obras.”

François Habeneck (1781-1849) promoveu, entre 1828 e 1831, a 1ª audição integral (em Paris) das 9 sinfonias de Beethoven e converteu-se em profeta e apóstolo da glória de B. na França.”

Já os ‘clássicos vienenses’ haviam começado a criar obras que não estavam destinadas a uma função imediata e particular, que não foram escritas para um dado conjunto musical ou para serem executadas num determinado lugar.”

A música tencionava ser expressiva, exprimir o sentimento pessoal do música e estabelecer um contato novo com a platéia” Pela 1ª vez o músico deixava de ser cliente.

DA CONTRADITÓRIA DOUTRINA FORMALISTA

Eduardo Hanslick (1825-1904), Von Musikalisch-Schönen (Do belo na música), 1854. Espécie de manifesto.

Hanslick foi o primeiro a ocupar uma cadeira de musicologia numa universidade, a de Viena. Era um antiwagneriano extremado e crítico temido, além de oráculo da opinião musical reinante em Viena no terceiro quartel do século. A partir dele, o ‘formalismo’ musical foi adotado não só por toda uma corrente de músicos, mas também por amplas camadas de ouvintes que se recusavam a procurar ou encontrar, na obra musical, qualquer coisa que fosse extra-música e a considera-la ou escutá-la como uma expressão dos sentimentos ou da psique do compositor.

Hegel seria wagneriano: pregava a unidade de todas as artes. Os formalistas clamavam: a música é especial entre as artes, não pode se misturar.

função x forma (desfuncionalização social, “ato contemplativo”, “ideal da pura contemplação”)

Paradoxo: o concerto, forma de exibição finalmente estabelecida e estabilizada, era ao mesmo tempo a liberdade do novo e um engessamento, posto que funcionando sob rígidas e quase inalteráveis regras, a ponto de hoje olharmos para este formato e esse ambiente achando graça dos inúmeros clichês. Ares de ritual, em que ouvintes e músicos deviam “cumprir seu papel sem fugir do script”.

ERAM OS GREGOS MÚSICOS BÁRBAROS OU BÁRBAROS MÚSICOS? “Os musicólogos e historiadores de música, estudando o passado musical à luz do romantismo e, sob a influência do positivismo, o fenômeno da música em si próprio, tomaram consciência não só do valor da música antiga, considerada pelo Século das Luzes como bárbara, mas também do valor próprio da música enquanto tal.”

A TECNOLOGIA & A SUPREMACIA DO PIANO

À diferença da orquestra barroca, baseada na primazia sonora dos instrumentos de cordas, a orquestra clássica e romântica, graças às novas invenções mecânicas, pôde modificar a qualidade de sua sonoridade. Aos poucos, todos os instrumentos foram se tornando cientificamente calibrados. Ficou possível determinar a produção do som, que se mostraria cada vez mais padronizada Com o aumento do número de instrumentos, a divisão do trabalho na orquestra se refinou. O aprimoramento das técnicas de produção em geral e o conseqüente e gradual processo de industrialização de muitos instrumentos – piano, órgão, os sopros e, particularmente, os metais – tiveram várias conseqüências, entre as quais as primeiras foram o aperfeiçoamento dos instrumentos que já existiam e a criação de outros. Graças às novas técnicas de fabricação, os instrumentos musicais tiveram suas possibilidades aumentadas e sua execução facilitada.”

O séc. XIX foi o séc. de ouro da música instrumental”

A evolução do virtuosismo é contemporânea ao aperfeiçoamento dos instrumentos.” Instrumento de destaque na matéria: o piano.

Foi no início do séc., contudo, antes que esse processo houvesse avançado, que o mais brilhante dos virtuoses – o violinista (e violista) Niccolo Paganini (1782-1840) – fez sua fulgurante carreira. O fascínio que Paganini exercia era de tal ordem que se chegou a suspeitar que tivesse algum pacto com o demônio.”

Aquilo que se pôde chamar de orquestração do piano já aparecia nas últimas sonatas de Beethoven (principalmente na Sonata opus 106, Hammerklavier) e, posteriormente, nas composições de Liszt”

o piano se tornou, no XIX, o preferido da burguesia e por muito tempo manteve a supremacia sobre os outros instrumentos solistas. Nas casas burguesas, o piano passou a ter um lugar de honra, como peça principal de um belo mobiliário.”

COMPOSITORES, ESTRELAS MULTINACIONAIS

Começaram a surgir grandes compositores na “Rússia, Polônia, Boêmia, Morávia, Croácia, Dinamarca, Suécia, Noruega, Espanha e Hungria”. Se há um lado bom no nacionalismo, é que cada uma das nações gerou talentos sui generis, ao contrário de épocas passadas em que o país pioneiro num novo gênero musical alastrava sua estética como uma onda ou epidemia, contaminando o restante da Europa com alguma defasagem temporal, mas havendo em conseqüência uma muito menor variação regional.

Consolidação do próprio “criador musical” em estado bruto, i.e., não necessariamente quem compõe precisa tocar suas obras. Beethoven (mais uma vez) e Schubert foram quase casos isolados, de uma geração passada, a antecipar a tendência.

AS CRÍTICAS

No XVIII, a pena do crítico musical era empunhada por especialistas, músicos competentes ou teóricos. Com o aumento do público e a nova situação geral em que se encontravam a música e os músicos no XIX, quase todo mundo começou a sentir-se com direito de dar palpite nessa área, o que contribuiu para o desenvolvimento de um certo diletantismo e ‘impressionismo crítico. A crítica profissional e a amadora passaram a coexistir. Músicos notáveis, como Schumann e Berlioz, foram críticos. Escritores ‘metidos’ e sem competência específica, como Stendhal e Balzac, formavam um numeroso grupo que também escreveu sobre música.”

o folhetim parisiense, inicialmente consagrado à literatura, logo iria entrar no campo da música, com críticas, observações lúcidas e detalhes de crônicas, tudo num estilo acessível e leve que logo o fez transformar-se num gênero predileto do público.”

Com o aumento da crítica e a divisão do trabalho e complexificação do meio, nasceu também a crítica da crítica, ou seja: não era uma só voz, mas muitas vezes vozes em guerra enaltecendo e difamando cada uma os seus próprios heróis. Uma grande parte da crítica também era desonesta, i.e., não resenhava pela arte, mas visando a outros fins, que não eram expostos na matéria ao leitor.

A ARS NOVA E GUILLAUME DE MACHAUT – Capítulo 7 de “História da música ocidental”, de Brigitte, Massin & al.

“‘Artesão da antiga e da nova forja’, tal se pretende Guillaume de Machaut, e assim se pode também definir o séc. XIV musical durante o qual se generaliza a prática de novos modos de escrita da música a partir de um material antigo.”

Jean de Murs, Ars nove musice

Philippe de Vitry, Ars nova

Embora retomem em larga escala as formas da música dos séculos precedentes, pretendem esses teóricos que tal música já pertence à Ars Antiqua, também dita Vetus (‘velha’, ‘anterior’). São autores que devem a celebridade sobretudo a suas obras teóricas. Fato é que nenhuma obra nos resta de Jean de Murs e que apenas uma dezena de motetos do Roman de Fauvel e do manuscrito de Ivrea podem ser atribuídos a de Vitry (1291-1361). Bispo de Meaux, mas também brilhante poeta, amigo de Petrarca e dos primeiros humanistas reformadores (como Nicole d’Oresme), de Vitry adquiriu renome europeu.”

ratificaram e generalizaram os procedimentos existentes, conferindo-lhes maior precisão.” “ao sistema ternário (…) veio acrescentar-se um modo de divisão dos valores binários” “Ou seja: quando a longa vale 3 breves, trabalha-se com o modo perfeito; quando ela vale 2 breves, com o modo imperfeito; se a breve se divide em 3 semibreves, é o tempo perfeito; se está dividida em 2, é o tempo imperfeito; finalmente, se a semibreve se divide em 3 mínimas, estamos diante de uma prolação maior, se em 2, diante de uma prolação menor.”

O tratado de Philippe de Vitry nomeia também a semi-minime (semínima), mas trata-se decerto de um acréscimo tardio, pois esse valor quase não era empregado antes do fim do séc. XIV (uma mínima é divisível em 2 semínimas).”

Talea: tal emprego de módulos preestabelecidos e repetidos no decorrer da obra faz pensar, de certo modo, no serialismo do séc. XX.”

dois séculos antes do Concílio de Trento, a Igreja já se dava conta de que a música estava se tornando uma arte e já não era a ciência de dar suportes melódicos à Palavra da Verdade. Uma arte que iria proporcionar, no próprio seio da igreja, em plena celebração dos ofícios, prazeres intelectuais aliados aos prazeres dos sentidos, dispersando com isso a atenção dos fiéis e desviando-os dos mistérios divinos.

O papa João XXII, que ignorava a isorritmia, mas que mesmo assim estava a par dos progressos recentes da técnica musical, escreveu, em sua decretal Docta Sanctorum Patrum (1324), algumas linhas que manifestam uma admirável compreensão desses fenômenos e que são de grande lucidez com relação a suas conseqüências:

Certos discípulos da nova escola, enquanto dedicam toda a sua atenção a medir o tempo, estão empenhados em fazer as notas de uma nova maneira, preferem compor seus próprios cantos em lugar de cantar os antigos, dividem as peças eclesiásticas em semibreves e mínimas; estraçalham o canto com notas de curta duração, despedaçam as melodias com soluços, poluem-nas com discantes e chegam ao ponto de entulhá-las com vozes superiores em língua vulgar. Desconsideram, assim, os princípios do antifonário e do gradual, ignoram os tons que já não mais distinguem, que mesmo confundem… Correm sem fazer uma pausa para repousar, inebriam os ouvidos em lugar de acalmá-los, mimam por gestos o que fazem ouvir. Assim, a devoção que se deveria buscar é ridicularizada, e a lascívia, de que se deveria fugir, é exibida às escâncaras.”

Muito se tem insistido em fazer de Machaut o último dos troveiros, sob o pretexto de que ele retomou algumas das formas líricas tão características destes, e também porque pôs em música uma parte de sua própria obra poética. É não reconhecer nele o homem dos novos tempos, é ignorar a força e o alcance de sua obra, ignorar também que Machaut teve perfeita consciência de ser o primeiro artista, no moderno sentido da palavra.”

Somos anões encarapitados nos ombros de gigantes, disse Bernard de Chartres no séc. XII.” E cada vez o autor original da frase recua mais no tempo!!

Foi ele o maior poeta francês de seu século e o primeiro grande compositor, gênio bifronte que une dois ofícios da mesma forma que sabe unir, de maneira coerente, a cultura sacra e a cultura profana – ele que, clérigo, tonsurado, cônego da catedral de Reims, passou ¾ da vida a serviço dos mais notáveis príncipes do mundo.” “pela primeira vez, a música profana era aceita e reconhecida por um clérigo nos seus efeitos benéficos sobre a alma humana.”

« Oprheüs mist hors Erudice

D’enfer, la cointe, la faitice,

Par sa harpe et par son dous chant.

Harpoit si très joliement

Et si chantoit si doucement

Que les grands arbres s’abaissoient

Et les rivières retournoient

Pour li oïr et escouter;

[…]

…ce sont miracles apertes

Que Musique fait. »

Guillaume de Machaut era originário do povoado de Machault, na Champagne, situado a 50km de Châlons-sur-Marne e a 40km de Reims.”

Com a morte do rei da Boêmia, Machaut entrou para o serviço de Bonne, filha deste, a qual morreria da peste pouco tempo depois. Para evitar a contaminação por uma doença que dizimou a metade da população da Europa, Machaut ficou um ano inteiro fechado dentro de sua casa em Reims, depois do que passou sucessivamente ao serviço de Carlos II, o Mau, rei de Navarra, de Carlos V, de Pedro I de Lusignan, rei de Chipre, do duque de Berry e de Amadeu de Savóia. Terminou seus dias retirado em seu canonicato. O artista sexagenário tinha então um caso com uma admiradora muito jovem, Péronne d’Armentières, que desejava aprender com o mestre a arte dos versos e da composição. O Voir dit (1361-1365) Dito da verdade – narra essas trocas intelectuais e amorosas sob a forma de um romance epistolar, o primeiro da literatura francesa.”

Machaut não inventou nenhuma forma – o que ele fez foi levar à perfeição os gêneros já existentes.”

O compositor tinha predileção pelos motetos. Deixou 23, dos quais 19 a 3 vozes. 6 são religiosos e inteiramente em latim. 2 têm um duplum em latim e um triplum em francês. 3 têm uma voz tenor com texto francês (Fin cuer doulz, Fino e doce coração nº 11, Pourquoi me bat mes maris, Por que me bate meu marido), lassette nº 16, e Je ne suis mie certein, Não tenho a menor certeza nº 20).”

Os cálculos rigorosos da isorritmia fascinavam Machaut, que se divertia com multiplicar as dificuldades, escrevendo uma parte contratenor semelhante à parte tenor, só que de trás para diante (nº 5), como o fez para o cantus e a tenor do rondó cujo incipit, de resto, alude ao procedimento: ‘Ma fin est mon commencement / Et mon commencement ma fin’.”

Escrevia antes de compor, e não para pôr na música composta.

As missas da época, as Messe ditas de Tournai, de Sorbonne, de Besançon, etc., propõem modelos polifônicos a 2 e a 3 vozes, mas isolados uns dos outros e discordantes. Machaut foi o primeiro a ter composto uma missa completa, inclusive com o Ite missa est, e que é, além do mais, uma missa a 4 vozes, o que constitui outra inovação.”

Não é difícil compreender que essas pesquisas intelectuais variadas, inseridas num conjunto de grande coerência, possam ter interessado tanto Stravinski quando este escrevia sua própria missa.

O leitor que nos perdoe esses saltos no tempo, mas a partitura do Hoquet David, escrita sobre um Alleluia-Nativitas de Pérotin, que Machaut talvez tenha desejado completar, com sua voz tenor issorrítmica e suas duas vozes superiores em hoquet, nas quais células de uma passam para a outra, trazem irresistivelmente ao pensamento, por sua economia de meios e sua clareza, a escrita de Anton Webern.”

A ARS NOVA ITALIANA

O termo Ars Nova, que designa as formas musicais da Itália no Trecento, poderia fazer-nos pensar numa influência da escrita francesa sobre a que se desenvolvia na península e em qualquer parentesco entre as músicas dos 2 países. Não há nada disso: o movimento italiano caracteriza-se por sua independência, afirmada na adoção de uma notação própria, admirável por sua precisão e cujos princípios se acham expostos no Pomerium artis musicae (Limites da arte da música), de Machetto de Pádua (1321-1326).

Se é fato que os papas Bonifácio VIII, em Roma, e Clemente VI, em Avignon, exerceram o mais brilhante mecenato no domínio das artes visuais, estimulando o gênio de um Giotto ou de um Matteo de Viterbo, por outro, foram os príncipes das grandes cidades do norte da Itália que atraíram os músicos e os protegeram: as côrtes dos Della Scala, em Pádua e em Verona; dos Scaligari, também em Verona; dos Visconti, em Milão; e, enfim – e sobretudo – dos notáveis de Florença.

Por isso mesmo, fazia-se música quase exclusivamente profana, escrita segundo o apelo das circunstâncias, o mais das vezes para convidar aos prazeres ou cantar-lhes a nostalgia.”

Ao inverso da polifonia francesa que se elaborou a partir da voz tenor, a italiana organizava as vozes com base na voz superior, em que se inscreviam as palavras, cujos autores podiam ser Boccaccio, Petrarca, Sachetti. Três gêneros são cultivados na Itália: o Madrigal, a Caccia (caça) e a Ballata.”

A Caccia (que tem por pendant a Chasse francesa), mais rara, é uma composição em cânone, para as 2 vozes superiores, enquanto a voz tenor faz um contraponto não-canônico e sem texto, composto de 2 seções, a 2ª funcionando como ritornelo no estilo do madrigal. (…) com espantosa liberdade de invenção.”

As composições de Jacopo da Bologna são as mais variadas (madrigais a 3 vozes), e a ele se deve a 1ª transposição para música de um soneto de Petrarca: Non al so amante.”

Francesco Landini (1325-97), organista cego, foi o compositor mais importante da Florença do séc. XIV e o que deixou obra mais abundante (11 madrigais, 2 caccie, 141 baladas). (…) também influenciado pela arte de Guillaume de Machaut, seu estilo reveste-se de doçura e elegância.”

A POLIFONIA, DESDE SEUS PRIMÓRDIOS ATÉ O FIM DO SÉC. XIII – Capítulo 6 de “História da música ocidental”, de Brigitte, Massin & al.

Tanto do ponto de vista do etnólogo como do musicólogo, a superposição de duas ou várias linhas melódicas simultâneas que se desenrolam de maneira homogênea – guardando, cada uma delas, seu caráter particular – é vista como uma tendência espontânea a procurar a consonância de duas ou mais vozes. De acordo com as pesquisas e as conclusões de Marius Schneider, a heterofonia por intervalos de quinta – tal como se define nossa 1ª polifonia – é localizável em 3 regiões muito afastadas umas das outras: na Europa oriental, desde o sul do Cáucaso até a Sicília, na África meridional e em certas partes da Ásia.”

Não estamos, portanto, interessados em fechar um círculo em torno do nascimento da polifonia na música ocidental”

Será preciso esperar a Summa musicae do XIV para encontrar o termo polifonia usado como designação da escrita vertical, uso que só se deverá impor no séc. XVIII. Aparentemente, o princípio da consonância harmônica já era conhecido desde muito. Santo Agostinho faz-lhe alusão em seu Contra academicos; Boécio menciona-o em diversos dos seus escritos.”

Não resta dúvida de que a polifonia só conseguiu se desenvolver verdadeiramente na música erudita ocidental depois de bem-assimilado, pelos cantores, o canto gregoriano imposto por Carlos Magno e uma vez criadas as escolas necessárias à aprendizagem do canto a muitas vozes, ou seja, na época de Carlos, o Calvo. Os primeiros testemunhos de utilização da polifonia figuram nos escritos teóricos do século IX: p.ex., no De institutione musica de Hucbald de Saint-Amand, no manuscrito de Reginon de Prüm (?-915), no De divisione naturae naturae, de Johannes Scotus Erígena (ca. 876-?), e sobretudo na Musica enchiriadis, atribuída a Ogier de Laon

organum: esta palavra designa inicialmente qualquer instrumento de música, para, mais tarde, restringir-se ao instrumento natural que é a voz humana, por ocasião aos outros, ditos ‘artificiais’; e terminar designando o órgão, instrumento de teclado.” “no grego e no latim, uma única e mesma palavra (phone em grego e vox em latim) é usada para designar tanto a voz humana quanto o instrumento que a acompanha.”

a quarta aumentada, o trítono fá-si, o famoso diabolus in musica.”

não chegou até nós nenhuma música polifônica anterior aos raros volumes de tropos que datam do séc. XI, como a coleção de Winchester, estabelecida, sem dúvida, sobre um modelo de Fleury, que contém 50 organa, ou ainda a dos Aleluias de Chartres, onde se observa o emprego de intervalos de terças, na época considerados dissonantes.”

Com o nome de tenor (do latim tenere, sustentar), passa a caber à voz principal o registro grave do canto. (…) voz litúrgica” O início do fim do canto gregoriano.

A Escola de Saint-Martial de Limoges abriu caminho para o amplo movimento musical da Escola de Notre-Dame (…) seus reflexos atingiram fortemente a Inglaterra e sobretudo a Espanha.

O que se vê na Espanha é a flexibilidade e a liberdade de invenção prevalecerem sobre a estreiteza dos quadros teóricos, em Santiago de Compostela, cidade que, juntamente com Roma e Jerusalém, constituía um dos 3 grandes locais de peregrinação da Cristandade.”

a Igreja, outrora tão ardorosa na imposição do canto gregoriano, deixou que se passasse um século antes de se deixar mobilizar por essas formas de escrita que o relegavam ao segundo plano.”

A bela e inteligente cidade de Paris, como também os centros urbanos em seu redor num raio de 150km, estavam destinados a viver conjuntamente 3 grandes surtos de criação: o desenvolvimento do pensamento escolástico (…); a construção das catedrais pelos arquitetos góticos; e a floração das magníficas polifonias dos 2 grandes mestres da Escola de Notre-Dame, Léonin e Pérotin.”

Coussemaker, Anonymus IV (que porra é essa, uma espécie de Vol. 4 cristão?)

Tudo está pronto, a essa altura, para o advento do moteto, o mais complexo, o mais bem-resolvido e o mais surpreendente, também, de todos os gêneros polifônicos.” “Voltou-se a prestigiar o procedimento adotado nos tropos: encaixar palavras (mot petit mot motet) nas melodias preexistentes. Foi assim que nasceu o moteto.”

Todo o esforço consistirá em organizar com clareza a escrita do conjunto das vozes. Resolver-se-á a questão diferenciando-se o ritmo de cada uma delas: lento para a voz tenor, mais rápido para o duplum, acelerado para o triplum. A ‘letra’ do triplum é em geral um terço mais longa que a do duplum. (…) Pode-se acrescentar-lhe ainda um quadruplum [terceira voz de apoio ao tenor].”

Em 1260 começa-se a espalhar uma notação para maior coordenação (nota a nota) das vozes entre si: a franconiana.

Franco de Colônia, Ars cantus mensurabilis

O sistema é ternário: a unidade é constituída pela breve, a que corresponde um tempo. A longa perfeita vale 3 tempos; a imperfeita, 2 – e assim por diante.”

canto de amor” “Jean de Grouchy observa que, enquanto os rondós podem chegar às camadas populares, o mesmo não acontece com os motetos”

As 2 ou 3 vozes acima da voz tenor têm, a essa altura, ‘letras’ em francês, e a voz tenor ora é latina e litúrgica, ora latina e não-litúrgica, ou pode mesmo ter texto francês, como é o caso da famosa voz tenor de um moteto do manuscrito de Montpellier: ‘Fraise nouvelle!’ (São os primeiros morangos!), que é um pregão de Paris.”

yeratica” em latim é “verdadeira”, bem diferente do falso cognato!

Erwin Panofsky, o eminente historiador da imaginação criadora da Id. Média e do Renascimento, demonstrou claramente como a organização tripartida, às vezes quadripartida, torna-se um princípio de edificação tanto do pensamento como da arquitetura.”

a organização do gótico clássico prevê ‘uma nave tripartida, um transepto igualmente tripartido que se funde no antecoro quinquepartido…’”

Por outro lado, um dos grandes aspectos do pensamentos escolástico, que haveria de constituir uma aquisição duradoura na organização do saber, consiste em reunir todos os elementos do conhecimento sobre um mesmo assunto em sumas e, em seguida, distribuí-los, classificando-os por ordem de importância decrescente em capítulos, subcapítulos, seções, subseções, etc.”

Na arquitetura, o princípio da divisão dos elementos é identificável, p.ex., na divisão dos suportes em pilares principais, colunetas maiores, colunetas menores – subdivisíveis, por sua vez – ou ainda na divisão dos mainés em perfis primários, secundários, terciários. Ora, na esfera da notação do ritmo musical, a divisão dos valores de duração em longas, breves, semibreves, mínimas, que surge na mesma época, corresponde a uma preocupação semelhante, manifesta um mesmo hábito mental.”

Substituir a duração indeterminada dos melismas do cantochão por polifonias com tempo contado é introduzir, no templo de Deus, o tempo do mercador. Essa a razão pela qual os cirtercienses e os dominicanos rechaçaram energicamente de seus ofícios as polifonias compassadas.”

Os monges, em seu anonimato desinteressado, deixam de ter o monopólio da arte sacra, e os cavaleiros já não compõem, eles próprios, as obras que idealizam seu modo de viver.” “é o preciso momento em que a música, de ciência, passa a ser uma arte.”

A M.

Une damme elle s’abolit

dans le douceur du jus supreme (awh!)

communes blasphemes

elle sent

éther

en elle-même

au lit.

de repos

le blanc flotte dehors du pennis

la vie très belle, qui-t-on blâme?

Il ne s’en veillit pas

Au creux est né un musicien

silence! bruit!! silence!

vuide

ui ui ui

ouais ouiais ouais

Houaiss

au-man-aqui

ao-homme-ici-

bàs, tché!

tresser track

tréc, bric-à-brac

honnoré de bâl

au rap, nê!

MONOGRAFÍAS MUSICALES: Ensayo sobre Wagner / Mahler (…) (Obra completa vol. 13) – Adorno, 1971 (2008).

ENSAYO SOBRE WAGNER, 1939, 1952 (primera traducción de 1964).

Tras el fracaso de su estreno en provincias, La prohibición de amar, primera ópera de Wagner, cayó inmediatamente en el más profundo olvido, del que ni siquiera consiguió rescatarla el celo filológico en la época del apogeo de Wagner.”

Como primer servidor del gran todo, el dictador Rienzi renuncia al título de rey, como más tarde Lohengrin a la dignidad de duque. A cambio, acepta de antemano los laureles tan gustosamente como que es él mismo quien los dispensa.” “En esta espectacular pieza histórica casi se vislumbra ya una consciencia crítica del verdadero tipo del héroe como autocontemplación. El elogio de sí mismo y la pompa – rasgos de toda la producción wagneriana y existenciales del fascismo – nacen del presentimiento de la precariedad del terror burgués, de la condena a muerte que pesa sobre el heroísmo que se autoproclama. Quien duda de que lo por él creado le sobreviva busca en vida su gloria póstuma y celebra con desfiles festivos sus propias exequias. La muerte y la aniquilación acechan entre los bastidores wagnerianos de la libertad: las ruinas históricas del Capitolio bajo las que yace sepultado el héroe disfrazado de libertad son los modelos de las metafísicas que se desmoronan sobre los dioses despojados de su poder y el mundo culpable del Anillo.” “lo mismo que al final del tercer ato de Sigfrido Brunilda se entrega al amado por <una muerte risueña> en el momento en que cree despertar a la vida, así Isolda siente su muerte física como <supremo deleite>.”

Tal difamación del burgués que, sin embargo, en Los maestros cantores celebra rápidamente el gozoso renacimiento, sirve al mismo fin que en la era totalitaria.” “Wotan parece, sin duda, abogar por la rebelión, pero lo hace en aras de sus planes de imperialismo mundial y dentro de las categorías de libertad de acción – <no me ligan a ti, infame, los términos de un pacto> – y ruptura de pacto – <cuando se agitan las fuerzas de la osadía, yo aconsejo abiertamente la guerra> –.”

no en vano el periodo de su ascenso fue aquel de economía precaria en que la producción de óperas no gozaba ya de la seguridad de la corte ni tampoco todavía de la protección de la ley burguesa que reglamentaba las percepciones por derechos de autor. En un mundo profesional en el que un autor de éxito como Lortzing(*) murió de hambre, Wagner tuvo que ejercitar con virtuosismo la capacidad de alcanzar metas burguesas al precio de su propia dignidad burguesa. Ya pocas semanas después de huir de Dresde debido a su ostensible participación en el levantamiento de Bakunin, [¡] pidió por carta a Liszt que le consiguiese un salario de la gran duquesa de Weimar, el duque de Coburg y la princesa de Prusia.

(*) Gustav Albert L. (1801-51): compositor alemán, autor de 20 óperas mayoritariamente cómicas y sentimentales, ajenas a la tradición romántica y estructuradas en torno a la sucesión de números musicales separados por diálogos hablados.”

Su delito no es que engañe a los burgueses, sino que al apelar a la compasión reconoce a los dominantes y se identifica con ellos. El desenfreno en el mendigar podría sugerir una especial independencia de las normas burguesas. Pero tiene el sentido contrario. El poder del orden sobre el contestatorio es ya tan grande para éste que ni siquiera se produce ya un verdadero aislamiento, ni siquiera resistencias contra el todo” “Es la actitud del zalamero hijo de papá que trata de persuadirse a sí mismo y a los demás de que sus buenos padres no podrían negarle nada precisamente porque no lo hacen.”

¡Pese a todo mi coraje, muchas veces soy el más vil de los cobardes! No obstante tus generosos ofrecimientos, a menudo veo con verdadera angustia de muerte la mengua de mi peculio”

W. a Liszt

El mendicante W. contraviene los tabús de la moral burguesa del trabajo, pero su bendición es provechosa para la salvación del statu quo.” “El pedigüeño impotente se convierte en panegirista trágico. En una fase histórica posterior, estos rasgos cobraron la máxima significación cuando en situaciones difíciles los dictadores amenazaban con el suicidio, sufrían crisis de llanto en público y conferían a su voz un tono lloriqueante. Precisamente los puntos de descomposición del carácter burgués, en el sentido de la propia moral de éste, son preformas de su transformación en la era totalitaria. El Wagner posterior aún muestra la configuración de envidia, sentimentalismo e instinto destructor.”

Aún otro rasgo se nos reveló que, a decir verdad, no sólo valía para este último periodo de su vida. No se le podía ocultar nada; él lo sabía siempre todo. Si la señora Wagner quería sorprenderle con algo, él lo soñaba por la noche y se lo decía a ella por la mañana. (…) Con los extraños esta intuición se producía a menudo de un modo completamente demoníaco: él conocía los flancos débiles de su interlocutor con penetrante agudeza de mirada y así sucedía que, sin con ello querer herir a nadie, tocaba precisamente sus puntos débiles.”

Glasenapp

Los escritores entusiastas liberales gustan de aducir la amistad con Hermann Levi para demostrar lo inocuo del antisemitismo wagneriano. La crónica de Glasenapp, escrita con la intención de resaltar la filantropía y magnanimidad de Wagner, nos informa involuntariamente a este respecto.”

Un impulso sádico a la humillación, un humor conciliador y sentimental y, sobre todo, la voluntad de comprometer afectivamente consigo al maltratado se reúnen en la casuística del comportamiento de Wagner (…) Cada palabra conciliadora se acompaña de un nuevo aguijón hiriente. Es una especie de demonismo del que el mismo W. se acuerda cuando en su autobiografía cuenta cómo él mismo, por lo demás no teniendo totalmente regularizada su matrícula, participó junto a una horda de estudiantes en el saqueo de dos burdeles de Leipzig, sin ni en la narración tardía desprenderse del todo del envoltorio moralista que había cubierto aquel acto de limpieza”

Cuando W. pide compasión como víctima y para ello molesta a los poderosos, está dispuesto a insultar a las demás víctimas. Su juego del gato y el ratón con Levi tiene equivalente en su obra: Wotan apuesta la cabeza de Mime sin que éste lo acepte y contra su voluntad; el enano está a merced del dios como el invitado a la del anfitrión de Wahnfried.”

A quien tiene el dãno qué se le da un baño”

En Nibelheim, Wotan y Loge se ríen de los dolores de Mime. Sigfrido tortura al enano porque <no lo puede sufrir>, sin que el aura de augusto y noble le impida ensañarse con el impotente.”

La música de Wagner se comporta como el buen criado con sus malvados, y la comicidad de su tormento da placer no meramente a quien lo inflige, sino que también ahoga la pregunta por el porqué y proclama la ejecución sumaria como instancia suprema. Este carácter del humor wagneriano escandalizó a Liszt y Nietzsche en el trato personal. De ello da testimonio él mismo: <Wagner le dijo a la hermana de Nie.: ‘Su hermano es como Liszt, al que tampoco le gustan mis chanzas’> (Hildebrandt, Wagner und Nietzsche, 1924). Cuando en una famosa escena W. monta en cólera contra N. y éste se calla, W. le espeta que tiene tan buenos modales que aún llegaría muy lejos en la vida; él, W., toda su vida ha carecido de ellos.” “Hildebrandt, que debe a la escuela de George(*) el recelo hacia el humor, vio en el cinismo wagneriano de la autodenuncia la verdadera causa del conflicto con N.: <Pero hubo entonces una frase de W. que hirió profundamente a N.. Cuando un día – durante la última época de W. y N. juntos, en Sorrento – la conversación versó sobre la tibia acogida de las representaciones en Bayreuth, W., según cuenta la hermana de N., había señalado malhumorado: ahora los alemanes no quieren oír nada de dioses y héroes paganos, quieren ver algo cristiano>.

(*) Referencia a Stefan George (1868-1933), poeta simbolista alemán, opuesto al naturalismo y a la literatura social.” ¡Que se joda ese hombrecito!

todos los repudiados en la obra de W. son caricaturas de judíos.”

W. comparte las ideas antisemitas con otros representantes de lo que Marx llamaba el socialismo alemán en torno a 1848. Pero su antisemitismo se reconoce como idiosincrasia individual que se niega obstinadamente a toda discusión.”

Nuestro oído se ve ante todo afectado de manera sumamente extraña y desagradable por el sonido agudo, chillón, seseante y arrastrado de la pronunciación judía: un empleo de nuestra lengua nacional completamente impropio y una alteración arbitraria de las palabras y de las construcciones de las frases dan más aún a esta pronunciación el carácter de una farfulla confusa e insoportable por la que involuntariamente prestamos más atención a ese cómo desagradable que al qué del discurso judío”

W.

Su propia apariencia física, desproporcionadamente pequeña en relación con la enorme cabeza y el prominente mentón, rayaba en lo anormal y sólo la fama lo protegía del ridículo.”

Pero el hecho de que todos los rumores sobre la propia ascendencia judía de W. se remonten, según la argumentación de Newman [biógrafo de W.], al mismo Nietzsche, que salió al paso del antisemitismo wagneriano, se explica precisamente por lo siguiente. N. conocía el misterio de la idiosincrasia wagneriana y al enunciarlo rompió el sortilegio.”

A quien se une a los verdaderos culpables las relaciones sociales se le aparecen como obra de conspiraciones secretas. Del asco por el judío forma parte imaginarlo como poder mundial. En el artículo sobre el judaísmo en la música W. achacó todas las resistencias a su obra a imaginarias conspiraciones judías, mientras el presunto culpable principal de esas intrigas, Meyerbeer, lo había apoyado activamente hasta que él lo atacó públicamente.”

(*) “J.A. Gobineau (1816-82): diplomático y escritor francés, autor de Ensayo sobre la desigualdad de las razas humanas (1853-5), donde pretende aportar una base física y realista a la teoría de la superioridad de la raza germánica. Su doctrina fue aprovechada por los pangermanistas y el nacionalsocialismo hitleriano.”

Pero cuando luchábamos por la emancipación de los judíos, propiamente hablando, éramos más combatientes por un principio abstracto que por el caso concreto: del mismo modo que todo nuestro liberalismo no era más que un juego intelectual no muy clarividente, pues promovíamos la libertad del pueblo sin conocer a este pueblo y aun evitando todo contacto efectivo con él, nuestro empeño en la igualdad de derechos para los judíos era más el resultado de una excitación producida por una idea general que de una auténtica simpatía; pues, a pesar de todos los discursos y escritos a favor de la emancipación de los judíos, en nuestro contacto efectivo y práctico con judíos siempre sentíamos una repulsión involuntaria hacia ellos.”

El antisemitismo wagneriano reúne en sí todos los ingredientes del posterior. El odio llega tan lejos que, según Glasenapp, la noticia de la muerte de 400 judíos en el incendio del Ringtheater de Viena le inspiró una chanza.”

para un judío convertirse en hombre al mismo tiempo que nosotros significa, ante todo, dejar de ser judío. (…) ¡Participad sin prevención en esta obra de redención regeneradora mediante el autoexterminio y entonces estaremos unidos y seremos indistintos!”

A lenda do judeu errante tem origem provável na Constantinopla do IV d.C.. Seria um Ahasvero, sapateiro da idade de Cristo, que se negou a apoiar a cruz deste no caminho para o Gólgota.

– Anda!

– Também tu andarás até o fim dos tempos!

Nessa bravata panfletária de Wagner confunde0m-se a idéia marxista da emancipação social dos judeus como a emancipação da sociedade com respeito ao benefício que os próprios judeus simbolizam, e a idéia do extermínio judeu.”

Se nossa cultura vai a pique, isso não supõe dano algum em absoluto; mas se vai a pique por causa dos judeus, será uma desonra!”

W.

No sinistro círculo mágico da reação de W. estão gravados os sinais tipográficos que sua obra tomou emprestados de seu caráter.”

Schubert pertenece a los músicos de café-concierto, Chopin al tipo difícil de definir de los <de salón>, Schumann al de la oleografía, Brahms al del profesor de música: es avecindándose al máximo a la parodia como se ha afirmado su fuerza de producción, y su grandeza reside en la escasa distancia que los separa de esos modelos, de los cuales al mismo tiempo extraen sus energías colectivas. No es tan fácil encontrar un modelo de este género para W.. Pero el coro de indignación que respondió a Thomas Mann cuando en relación con el nombre de W. mencionó el del diletante indica que tocó un punto neurálgico. Merece reflexión su relación con las diversas artes con las que creó su <obra de arte total>

a arte de W. é um diletantismo monumentalizado e levado ao genial com uma força de vontade e uma inteligência extremas. A idéia mesma de uma fusão das artes tem algo de diletante e seu autor teria permanecido no estreito campo do diletantismo não fosse o extremo vigor com que submeteu cada campo a um extraordinário gênio expressivo.”

ainda na fase tardia dos Mestres cantores podem-se observar falhas na modulação e no equilíbrio harmônico.”

Não só abraçou a profissão burguesa de diretor de orquestra como escreveu a primeira música de grande estilo para diretor de orquestra.”

Nele, desde o princípio, a alienação do público alia-se ao cálculo do efeito sobre o público”

escrevia para pessoas pouco musicais”

Na Sinfonia fantástica, a idée fixe de Berlioz, modelo imediato para o Leitmotiv, simboliza uma obsessão que mais tarde, com o nome de spleen, aparece no centro da obra de Baudelaire. Aí já não se pode mais abdicar desta idéia. Ante sua hegemonia irracional, o selo do incomparável, o sujeito deixa-se levar. Segundo o programa de Berlioz, a idéia fixa se parece com o intoxicado pelo ópio. É a projeção para fora de um elemento ele mesmo secretamente subjetivo e ao mesmo tempo alheio ao eu, projeção na qual o eu se perde como numa quimera. O Leitmotiv wagneriano segue atado a este origem. Mesmo que não haja um motivo, há uma espécie de livre associação. É que o procedimento wagneriano conta já com aquilo que cem anos mais tarde a psicologia batizou como debilidade do eu.”

Ouvir à maior distância significa o mesmo que ouvir menos atentamente. Tendo como parâmetro a lassidão burguesa em período ocioso, o público de espetáculos monstruosos de várias horas de duração é imaginado distraído e vagante na corrente da música, logo esta música, cujo próprio autor e diretor vai impondo ao público a marteladas, com estrépito e incontáveis repetições.”

No séc. XVII os diretores ainda marcavam o compasso com bastões”

a idéia de orquestra sem diretor não carece de base empírico-crítica. Em W., a primazia do diretor na composição é absoluta.”

Wagner não lia a partitura, tinha de saber toda a composição de cor.

Todo Lohengrin, con excepción de una ínfima parte, está escrito en un tipo de compás binario, como si la igualdad de los tiempos permitiera dominar de un solo vistazo escenas enteras, de manera parecida a como por <reducción> se simplifican quebrados aritméticos.”

Quando se domina completamente de memória uma obra em todos os seus detalhes, se produzem não poucos momentos em que a consciência do tempo desaparece de repente e toda a obra se apresenta simultaneamente na consciência, eu diria que <espacialmente>, tudo com a máxima exatidão.”

Alfred Lorenz, pianista

Não que Wagner vá nisto tão longe quanto Beethoven em suas sinfonias: “De modo que la espacialización de la extensión del tiempo sospechada por Lorenz en Wagner es mera ilusión: solamente por contenidos parciales dependientes, sin relieve, puede la representación de la marcación del compás mantener sin fisuras el dominio total, y la tan censurada debilidad melódica de W. no se basa en una simple falta de <inspiración>, sino en el gesto de marcar el compás que domina su obra.”

A consciência musical de W. se submete a uma curiosa involução: é como se o temor à mímica – que foi fazendo-se cada vez mais forte no decorrer da história da racionalização ocidental e contribuiu não pouco à cristalização de uma lógica da música autônoma, análoga à lógica da linguagem – não tivesse pleno poder sobre Wagner. Seu modo de compor se retrai a um elemento pré-lingüístico” “É nessa regressão que se fundamenta o <histrionismo> wagneriano, o chocante de seu proceder, que com razão Paul Bekker considerou sem ressalvas como o núcleo da obra de arte wagneriana.”

à maneira, por exemplo, como os agitadores substituem com gestos verbais a evolução discursiva do pensamento.”

Decerto que no fundo a música sempre traz esse elemento gestual. Mas no Ocidente isso foi espiritualizado e internalizado como expressão, ao passo que todo o discurso musical se submete à síntese lógica pela construção; a grande música se esforçou pelo nivelamento de ambos os elementos [espírito e aparência; vontade e representação]. Wagner se opõe; sua música, nisso análoga à filosofia de Schopenhauer, não consuma nenhuma história em sua autossuficiência. O momento expressivo potenciado ao máximo mal se contém no espaço interior, na ‘consciência do tempo’, desprendendo-se como gesto. Isto produz essa sensação de desagradável, que não cessa de ferir o ouvinte. Eis a insipidez da morte de uma cultura.”

O diretor wagneriano (que compõe) representa e reprime a exigência do indivíduo burguês de ser ouvido. É o porta-voz da nação e a obriga à obediência. Como a música é a imagem da coisa (da alienação), os gestos são a alma que restou. Mas esses dois elementos não são conciliáveis, eis a íntima contradição – técnica e social – da música de Wagner.”

La secuencia de W. es diametralmente opuesta a la del Beethoven sinfónico. Por principio excluye el trabajo <fragmentario> del clasicismo vienés. (…) La antifonía vienesa había refundido todo lo gestual en principio espiritual del desarrollo, y sólo con violencia pudo W. reinterpretarla como la danza o la <apoteosis> de ésta, del mismo modo que la obertura de la antigua suite, de la que nació la forma sonata, se distinguía de las subsiguientes danzas de la suite precisamente por el hecho de que no se presentaba a sí misma como forma estilizada de danza.”

se no sinfonismo o curso temporal se converte em instante, o gesto de W. é imutável, alheio ao tempo. Em sua repetição impotente, a música se submete ao tempo, que no sinfonismo dominava.”

Talvez o aborrecimento do ouvinte não-iniciado ante uma obra de W. do período maduro não seja somente signo de uma consciência pedestre que capitula ante a pretensão do sublime, senão também de uma incompreensão diante da descontinuidade da experiência temporal no mesmo drama musical.” “Integrada no todo e reificada, a emoção mimética degenera em mera imitação e finalmente em mentira.” “O comportamento compositivo se converte em agente de ideologia já antes de que esta se introduza literariamente nos dramas musicais.” “a emoção expressiva, ao aparecer pela segunda vez, se converte em comentário enfático de si mesma.”

Lorenz llega a comprender la totalidad de Los maestros cantores como un único <gigantesco Bar>.”

Com a lei formal da onda W. tentou superar musicalmente a contradição entre expressão e gesto muito antes de que o racionalizara por meio da filosofia schopenhaueriana. Ele visa a conciliar a falta de desenvolvimento no gesto com a irrepetibilidade da expressão fazendo com que o gesto se retraia a si mesmo. A si mesmo, i.e., ao tempo. Este, se não o domina como Beethoven, tampouco o preenche como Schubert. Revoga-o. A eternidade da música wagneriana, paralela à do poema do Anel, é a do <nada aconteceu>; a de uma invariância que desmente toda a história com a natureza sem linguagem. As filhas do Rin, que no princípio brincam com o ouro e no desfecho recuperam-no para brincar, são a conclusão última da sabedoria e da música de W.. (…) Isto tudo a concepção wagneriana da forma o representa mais penetrantemente que qualquer de suas opiniões filosóficas. Mas o princípio estético da forma, ao contrário de Schopenhauer, é transfigurado e convertido em equilíbrio reconfortante, que é intolerável no mundo social real que a obra de Wagner repele.”

Nota mental: ler Gaia-Ciência ouvindo Wagner.

A compreensão da função do Bar implica a crítica da forma wagneriana. Lorenz, que ataca com veemência a frase reacionariamente formulada de maneira maquinal desde Nietzsche sobre a falta de forma em W., está, todavia, mais interessado na organização das macroformas que no <trabalho temático>. (…) Mas a verdade é que em Wagner não há realmente nada que analisar na microforma. Para dizer melhor, W. só sabe de motivos e macroformas, nada de temas. A repetição faz as vezes de desenvolvimento, a transposição de trabalho temático, e, ao revés, o liricamente irrepetível, a canção, é tratado como se fôra dança.”

(*) “Hans Paul Freiherr von Wolzogen (1848-1938): dramaturgo, crítico musical e redator das Bayreuther Blätter, fiel servidor de W. e provável inventor do conceito de Leitmotiv.”

Enquanto que a música de W. suscita incessantemente aparência, expectativa e exigência do novo, no sentido mais estrito nela nada de novo sucede. É isso que Nietzsche e sucedâneos querem dizer. Esta ausência não provém do caótico, mas da falsa identidade. O idêntico se apresenta como se fosse novo e substitui em conseqüência, pela sucessão temporal abstrata dos compassos, o processo dialético do conteúdo em sua música, sua historicidade interna. O miolo da construção wagneriana da forma está oco: o desdobramento no tempo, a que apesar de tudo aspira, é inautêntico. (…) Não é por acaso que as análises de Lorenz possam-se registrar em tábuas, suporte tão alheio ao tempo como a própria organização wagneriana da forma. Em que pese toda sua meticulosidade, resulta disso um jogo gráfico que não é capaz de descrever a música real.”

Toda música cíclica era decepcionante até o tempo de Adorno? Hoje é sinônimo de puro prazer e deleite!

Sou incapaz de lembrá-lo, mas também não o esqueço” Sachs

O Leitmotiv remonta, muito além de Berlioz, à música programática do séc. XVII, quando ainda não imperava uma lógica da linguagem musical obrigatória, e seria melhor compreender esta origem somente sob o aspecto alegórico do que sob o jogo pueril de efeitos de eco e análogos.”

A necessidade de que a música de W. fosse comentada e resenhada foi desde sempre a declaração da bancarrota da própria estética wagneriana do imediatamente uno. A decadência do Leitmotiv é imanente a este: leva diretamente, passando pela elástica técnica de ilustração de Richard Strauss, à música de cinema, onde o Leitmotiv unicamente anuncia heróis ou situações a fim de que o espectador se oriente mais rapidamente.”

Só mesmo num contexto harmônico articulado pode o motivo responder, pode a mesma técnica da seqüência progressiva produzir este sentido alegórico que exige o leitmotivismo e que em grande medida possui seu esquema na triplicidade do Bar.”

Ao contrário, do amor, a música de cinema já não é assim um elogio…

Diante da décadence wagneriana se anuncia hoje em dia uma decadência, a de que precisamente esta sensibilidade abandonara os músicos e estes inclusive suspiram pelas cadeias em que Wagner tratava de se sacudir.”

O fato de que Wagner desenvolvera este análogo do procedimento impressionista na pintura sem consciência disso assinala a unidade das forças de produção da época não menos que o isolamento dos domínios particulares produzidos pela divisão do trabalho entre si.”

Na atmosfera wagneriana já está latente algo daquela do filisteu furioso que logo lançou o anátema contra todos os <ismos>. Quanto mais progridem a tecnificação da obra de arte, a planificação racional do procedimento e, portanto, o efeito, tanto mais ansiosamente a música medita como deverá parecer espontânea, imediata, natural, e como dissimular-se-á a vontade de estruturação do seu autor. Em contradição com sua práxis, sua ideologia nega o dissolvente, desagregador, analogamente a como logo, logo isto se expressará brutal e primitivamente na recusa sumária de toda nova arte por parte de Cósima na correspondência com o nacional-socialista Chamberlain.

(*) Houston Stewart Chamberlain (1855-1927): escritor germanófilo de origem britânica. Admirador, biógrafo e genro de Wagner, suas teorias racistas, em grande parte devedoras de Gobineau, foram uma importante fonte de inspiração para o nazismo.”

Wagner foi um impressionista apesar de si mesmo, conforme o estado atrasado das forças produtivas humanas e técnicas e portanto também da doutrina estética na Alemanha de meados do séc. XIX.” “Nenhuma comparação de W. com o impressionismo seria pertinente se não se recordara ao mesmo tempo que o credo do simbolismo universal, ao qual estão sujeitas todas as suas conquistas técnicas, pertence a Puvis de Chavannes, e não a Monet.

(*) Pierre Cécil Puvis de Chavannes (1824-98): pintor e desenhista simbolista francês.”

O que leva a totalidade wagneriana ao desastre não é tanto a nulidade do individual como o fato de que o átomo, o motivo caracterizador, deve, precisamente em virtude da característica, sempre aparecer como se fôra algo, exigência esta às vezes não satisfeita. Os temas e motivos se unem para formar uma espécie de pseudo-história.” “Em Beethoven, o individual, a <inspiração>, é ao mesmo tempo sublime e nulo cada vez que a idéia de totalidade tem a preeminência; o motivo se introduz como algo em si totalmente abstrato, exclusivamente como princípio do puro devir, e, posto que o todo se desdobra a partir daí, o individual, que desaparece no todo, é ao mesmo tempo concretado e afirmado também por aquele. Em W., o individual cheio nega a nulidade que não obstante possui enquanto gesto pré-lingüístico.”

Quanto mais triunfalmente se executa a música de W., tanto menos ela vê em si um inimigo a subjugar; o triunfo burguês sempre silenciou, com sua gritaria, a mentira do ato heróico. Precisamente a ausência de um material dialético sobre o qual a arte poderia ratificar o próprio triunfo condena as totalidades wagnerianas à mera duração. O fato de que motivos como o da espada ou da chamada do berrante de Sigfrido não são domináveis por arte da forma alguma é evidente: a censura de carência de inspiração melódica concerne menos a uma falta de capacidade subjetiva que objetiva. (…) De modo que o respeito constante pela eficácia e a inteligibilidade que permite a W. recorrer a motivos semelhantes a sinais produz uma falta de plasticidade e uma inconseqüência técnica no discurso. Isso fica patente logo no prelúdio do Lohengrin. (…) Sua melodia inicial carece de inteligibilidade, pois se obstina em duas notas, mi e fá sustenido, sem que sua repetição se planteie como temática, unívoca.” “Paradoxalmente, nem na teoria nem em seu próprio procedimento, salvo no Tristão, o cromático W. se livrara totalmente de certa apreensão diante da modulação. Sem o contrapeso das partes diatônicas do gênero do antecedente, a riqueza de graus e a condução cromática das vozes criaria aquele esoterismo que W. temia como a própria morte.” “Os passos de semitom <à parte>, sentidos como estímulo, de Tristão, não se distinguem entre si mais que, ao revés, podem-se reter apropriadamente como melos as fanfarras arcaizantes.”

A inspiração é uma categoria musical recente. Durante o XVII e princípios do XVIII se a reconhecia tão pouco quanto os direitos de propriedade sobre canções. A inspiração nada mais é do que pegadas que o compositor, monadologicamente isolado, optava por deixar no material musical como caracteres, i.e., indícios de estilo. Mas eis que a obra de Wagner aspira a destruir, a fazer desaparecer o ‘estilo’ incrustado no material natural. A força do protesto, que equivale à da inspiração, se encontra, nele, anulada, e o ser-em-si alienado de um material, com o qual o compositor acaba por se defrontar tanto mais impotentemente quanto mais aprende a dominá-lo, é elevado à essência como orientação desesperada. A técnica compositiva de Wagner, tanto como seus textos, têm a tendência de dissolver todo o determinado, tudo aquilo que tem um nome no um e no todo, seja na ‘proto’-tríada ou na gama cromática. A hostilidade de W. aos tipos termina absurdamente no anônimo, inespecífico, abstrato; de modo que, p.ex., em Max Reger poder-se-ia acabar transpondo qualquer tema e qualquer compasso de sua obra a qualquer outro, ao passo que já nos seus sucessores neo-alemães Strauss e Pfitzner a fragilidade interna do material motívico se faz manifesta nos extremos de banalidade fanfarrona e de vacuidade sem remédio.”

as seções, comparadas com o fragmento mais simples de Mozart, são em si de uma assombrosa pobreza figurativa. (…) As únicas passagens estritamente contrapontísticas são combinações de temas.”

Os cabos da melodia infinita se mostram com assaz clareza.” “Tanto mais intenso e perdurável, no entanto, foi, em W., o efeito de um meio estilístico estreitamente ligado à melodia infinita: o Sprechgesang (a fala cantada). Este pressupõe que já não se reconheça o desmembramento tradicional da melodia, que o discurso horizontal fique eximido dos controles duma construção regular dos versos e estrofes, e que esta dispensa seja aplicada ao tratamento musical do texto mesmo. (…) Como se sabe, o Sprechgesang wagneriano deriva em geral do recitativo accompagnato, por mais que desde o início W. protestasse contra sua confusão com o recitativo.” “Com gosto, dir-se-ia que compositores de óperas como Rossini e Auber devem precisamente a tais peculiaridades a reputação de engenhosos.”

Na ópera cômica, é mais fácil distinguir as palavras do cantor que “declama”; na ópera clássica pré-romântica, quase impossível: “W. se esforça por fundir a opera buffa e a opera seria como antes o classicismo fez com os estilos <galante> e <douto>.” Dessa perspectiva, a ópera de W. pode ser entendida como uma continuação, e não ruptura, com os cânones já presentes em A flauta mágica, Don Juan e Fidelio.

A opera seria vem da aristocracia feudal; a bufa, da burguesia. “W. conciliou ambas sob o primado da burguesia.”

O W. progressista modificou a forma sujeita da linguagem de tal modo que a entonação musical não se visse perturbada e se dobrasse como a prosa ao pensamento tanto quanto à música; o reacionário agregou-lhe um elemento mágico, realizando um gesto idiomático que finge um estado existente antes da separação em verso e prosa.” “nisso W. se aproxima ao máximo de Mussorgski, a quem não conhecia em absoluto.”

O mesmo W., cujo ponto fraco era a formação de caracteres puramente musicais, se mostra inigualável na tradução em música de caracteres expressivos.”

Para o drama, parece demasiado ideológico: é incapaz de relegar ao espírito com respeito à coisa mesma, de fazê-lo falar unicamente a partir desta, senão que como artista sente-se sempre simultaneamente no papel de apologeta que deve tomar a palavra ele mesmo.”

Esta função das personagens serve para retração do tempo musical. Os grandes relatos de Wotan no segundo ato d’A valquíria, de Sigfrido antes de sua morte, carecem de fundamento dramatúrgico. (…) Mas, em passagens decisivas, como a da negação da vontade por parte de Wotan e o da destruição da única esperança, põem a ação mesma no passado, de igual modo que segundo seu sentido formal o gesto do Bar se retrai a si mesmo sobre o corpo. (…) [Para que o efeito de fusão entre espectador, música, cantor e herói seja satisfatório,] É preciso que o poeta que fala afirme, vestido como <maestro>, a identidade mítica com suas próprias criaturas, que remedeia musicalmente suas figuras como o ator destas. Isso explica a ambigüidade de seu proceder musical, que confunde entre si a reflexão lírica do personagem do drama e a imediatez gestual-afetiva do diretor.”

As contradições que sustentam a estrutura formal e melódica de W. – condição necessária do tecnicamente frágil – se determinam em geral pelo fato de que o regressivamente sempre igual se apresenta como sempre novo, o estático como dinâmico, ou de que, ao revés, segundo o próprio sentido, categorias dinâmicas se identificam com caracteres anti-históricos, pré-subjetivos. O compor de W. só não é inconsistente porque imediatamente se pressente como estático num grau ultimado, o que já ultrapassa o Ser no sentido da ideologia ontológica de meados do séc. XX, como p.ex. em Stravinski. Stravinski, sendo conscientemente ‘pré-histórico’, é um dos antípodas absolutos da estética wagneriana. Stravinski libera a regressão em figuras sempre novas; como na [regressão] fascista, em sua ideologia estética se abjura do conceito de ‘progresso’. Nos cem anos que lhe foram anteriores, que se enraízam no liberalismo, mas nos quais já se manifesta a própria regressão antecipatória dessa raiz, inclusive, quisera-se afirmar o elemento regressivo em si como progressista, a estática como dinâmica, expoente de uma classe que está já objetivamente ameaçada pela tendência histórica sem, não obstante, segundo a própria consciência, experimentar-se, por isso, como historicamente condenada, e que em lugar disso projeta o previsível final da própria dinâmica como catástrofe metafísica sobre o princípio do Ser.”

é o elemento, propriamente falando, produtivo de W. aquele em que o sujeito renuncia à soberania, se entrega passivamente ao arcaico – o fundo instintivo –; ao elemento que, justamente graças a sua emancipação, abandona a pretensão, tornada incumprível, de configurar o decurso temporal como pleno de sentido. Mas este elemento é, em suas duas dimensões, a harmônica e a colorista, o som. Este é quem parece fixar no tempo e no espaço e, assim como enquanto harmonia <preenche> o espaço, o mesmo número de cores, para o qual a teoria da música não conhece outro, se toma emprestado da esfera ótico-espacial.”

se em W. a música regressa ao meio, estranho ao tempo, do som, em troca é precisamente sua própria distância em relação com o tempo o que permite desenvolvê-lo ulteriormente sem nenhuma trava por parte das tendências que uma e outra vez paralisam suas obras na dimensão temporal.”

figuras como o motivo do sonho no Anel parecem fórmulas mágicas, capazes de extrair todos os achados harmônicos posteriores do contínuo das 12 notas. Mais ainda que na tendência à atomização, W. antecipa o impressionismo na harmonia.”

Sigfrido contém uma passagem segundo o efeito, se não segundo a letra harmônica, politonal, oscilante entre dó maior e fá menor, antes das palavras de Mime <tua mãe me deu isto>”

Em todas as coisas alheias a sua mais estrita competência profissional é inquestionável a propensão de W. a adotar o partido dos clássicos autoritários contra os <modernos>: o postulado nietzscheano do extemporâneo foi distorcido no autor do Tristão, ídolo dos simbolistas parisienses até Mallarmé, até se converter em enfatuação maliciosa.”

Ao mesmo tempo, seus achados harmônicos levam mais além do impressionismo, ao menos do impressionismo dos sucessores alemães de W..”

No momento do grande arrebatamento de Wotan, antes das palavras <Oh, sagrada infâmia!>, n’A valquíria, aparece um acorde que contém 6 notas diferentes (dó, fá, lá bemol, ré bemol, dó bemol, mi duplo bemol) e que, por assim dizer, não se resolve”

Na sua origem, a tendência à evolução cromática do período romântico era progressista. Esta adquiriu em W., pela 1ª vez, no emprego total de sensíveis a barulho e sem resistência, algo de nivelador e estacionário. (…) Precisamente quando finalmente total, o cromatismo produz por si mesmo resistências, fortes graus secundários, que de nenhum modo substituem já meramente a tônica e a dominante. Kurth em particular não fez justiça ao fato.”

gratuitos rabiscos de dissonâncias”

(*) “Hugo Riemann (1849-1919): musicólogo e pedagogo alemão, autor de um Dicionário de música e vários livros sobre teoria e história da música.”

no período estilístico de W. as dissonâncias adotaram o caráter de subjetividade autárquica: protestam contra a instância social reguladora. Toda a energia está do lado da dissonância”

(*) “Simon Sechter (1788-1867): compositor, musicólogo e pedagogo austríaco, que teve como alunos em sua cátedra de contraponto em Viena Bruckner e, rapidamente, pouco antes de que esse morrera, em 1828, a Schubert.”

CONTRA A VISÃO “FUNCIONALISTA” NA MÚSICA: “A funcionalidade, a mediação entre tensão e solução, que não admite nenhum excedente, nada que fique de fora, este procedimento não deve se entender demasiado primitivamente, nem literalmente nem a curto prazo. A práxis harmônica de W. de maneira alguma se esgota no conceito de transição.”

No Parsifal, que submete todos os componentes da música meramente decorativos a uma incipiente crítica, em ocasiões as dissonâncias vencem abertamente pela primeira vez na música clássica, e explodem a convenção da solução, erigindo em seu lugar a árida monodia. [ver glossário]” “pôs no centro de sua obra 8 compassos que por toda sua fatura alcançam o umbral da atonalidade.”

Em Beethoven e até no alto-romantismo os valores expressivos harmônicos estão rigidamente fixados: a dissonância representa o negativo e o sofrimento, a consonância a positividade e o cumprimento [ver glossário, em BAR]. Isso em W. muda no sentido da diferenciação subjetiva dos valeurs sentimentais harmônicos. P.ex., o acorde característico cujo subtítulo reza <o mandato da primavera, a doce necessidade>, e que n’Os mestres cantores representa o momento da pulsão erótica e portanto o agens, patentiza sem remendos o sofrimento e a incompletude tanto como o prazer que se dá na tensão, na falta de consunção mesma: é doce e pura necessidade ao mesmo tempo. O fato de que o sofrimento pode ser doce (…) os ouvintes aprenderam dele” Quão nietzscheano!

Poucas coisas seduziram tanto na música de Wagner quanto o gozo do tormento.”

Certamente há por toda parte funções riemannianas, mas não <harmonia funcional> no sentido da teoria de Schönberg” “A aversão natural de W. pela modulação, esse resíduo particularmente conservador que tão facilmente se associa de novo ao procedimento de mera translação mediante sensíveis, priva a harmonia wagneriana de sua melhor possibilidade, a da organização formal em profundidade, tal como, p.ex., concebeu-a tão torpe e superficialmente um aluno de Sechter (Bruckner). Se nalguma ocasião W. se decide pela modulação, como para, no prelúdio d’Os mestres cantores, escapar da vizinhança do demasiadamente obstinado dó maior, então a modulação, que nunca se desprende totalmente da translação, reveste um aspecto peculiarmente arbitrário, e em seu caráter abrupto perde facilmente a compensação formal com as partes compridas que a precedem com suas escalas próprias; mas disso volta a extrair, como pressuposto, estimulantes do efeito. Os limites da configuração formal de W. são também os de sua harmonia.”

Las notas tenidas del bajo pulen la escritura armónica: siempre hay menos notas del bajo que acontecimientos armónicos. De ahí resulta una cierta pesadez, la característica viscosidad del discurso. Ésa es sin duda la herencia de la diletante pobreza de grados del joven W. (…) El W. maduro supo hacer de tal necesidad la virtud de la ambigüedad armónica.”

O Lohengrin o demonstra na visão de Elsa plenamente elaborada com esses 8 compassos citados como paradigma wagneriano, os quais modulam de lá bemol maior a dó bemol maior, si menor, ré maior, ré menor, fá maior-menor até voltar a lá bemol maior. A argúcia consiste na reinterpretação do dó bemol como si. O intercâmbio enarmônico tem aí o efeito do inesperado, do imprévu no sentido berlioziano. Esse efeito de surpresa, p.ex. o do sol bemol por trás da frase <te considero nobre, livre e grande!>, faz ainda saltar, crassamente e sem mediação, a estrutura no Rienzi. (…) Porém, na madurez wagneriana, i.e., no Lohengrin, a enarmonia volta a integrá-lo no conjunto da composição. O novo é ao mesmo tempo o antigo: isto se reconhece e se torna facilmente compreensível no novo. <Soava tão antigo e era, ao contrário, tão novo>: isso poderia constituir a regra da enarmonia wagneriana e, na verdade, a de toda a harmonia wagneriana.”

Escreve-se formulaicamente o que nunca foi.

Estas associações só se fazem completamente inteligíveis a partir do material mais avançado da música contemporânea, a qual já aboliu a continuidade da transição wagneriana.”

Richard Strauss assinala que cada obra de W. tem seu próprio estilo de instrumentação e inclusive sua própria orquestra, e a capacidade de W. para a estilização instrumental está tão desenvolvida que inclusive no interior da unidade estilística do Anel as 4 óperas se distinguem entre si por seu caráter sonoro específico.”

O tratamento distinto dos oboés é, em sentido negativo, uma das inovações mais importantes de W. com respeito aos procedimentos tradicionais. No esquema tradicional da partitura, os oboés se situam sobre os clarinetes e no classicismo vienense a maior parte das vezes se os coloca na mesma sobreposição. (…) já W. só os utilizou de modo solo ou em tutti forte, mas essa sobreposição alternativa já era indiscutivelmente uma fuga do papel de segundo soprano natural da seção de ventos para o oboé.”

Entre flauta e clarinete em uníssono [duplicação criada por W.] se produz uma espécie de som de interferência, flutuante, vibrante. Desaparecem, neste, os caracteres específicos de ambos os instrumentos; se tornam indistinguíveis; um músico desprevenido não poderia relatar a origem do som. Nisso, este novo som emula o órgão [em que, pode-se dizer, há, no movimento forte, o amálgama já da corda acionada pela tecla e da madeira, em que ela bate].” “Se os clarinetes nivelam a arcaica irracionalidade das flautas, o clarinete baixo reforça o baixo, já passado de moda, das madeiras, o fagot.”

Com a introdução de válvulas ganhou-se indiscutivelmente tanto para este instrumento [a trompa] que resulta difícil passar por alto este aperfeiçoamento, ainda que com ele a trompa tenha perdido, inegavelmente, em beleza tímbrica, como também, e em especial, na capacidade para ligar os sons com suavidade. Devido a essa grande perda, sem dúvida o compositor interessado na conservação do autêntico caráter da trompa deveria ter-se abstido do emprego da trompa de válvulas, isso imaginando que esse mesmo compositor não houvera feito a constatação de que, mediante um treinamento particularmente atento, artistas excelentes podem superar as desvantagens indicadas até a quase imperceptibilidade, de modo que, no que se refere ao som e à ligação, mal se pode advertir a diferença.”

W. sobre o Tristão

Quien jamás ha oído una trompa natural junto a una trompa de válvulas no puede preguntarse dónde se ha de buscar el <auténtico carácter> de la trompa cuya pérdida él lloraba. (…) un sonido <suena como trompa> en cuanto se percibe que es tocado por la trompa” “igualmente incuestionable es que el sonido pedalizado del piano se distingue del sonido no pedalizado por el hecho de que de aquél la huella de la producción queda borrada en el instante en que el macillo golpea la cuerda.”

según una expresión de Alban Berg, el instrumentador tiene que comportarse como un carpintero, el cual controla que en su mesa los clavos no asoman y que el olor de la cola no sigue siendo perceptible, así en el jazz las trompetas con sordina pueden sonar como saxofones y viceversa, e incluso la parte vocal susurrante o transmitida por el pabellón se les asemeja. La idea de un continuo eléctrico de todos los colores sonoros posibles llevó esta tendencia a la fórmula radical: la mecánica.”

la famosa <simplicidad> de la instrumentación de Parsifal es, por comparación con Tristán, Los maestros cantores y el Anillo, no meramente reaccionaria, no meramente falsamente sacra, sino que también ejerce una crítica legítima de las componentes ornamentales en el estilo de instrumentación característico de W.. En Parsifal no hay meramente santurrones pasajes para los metales, sino al mismo tiempo un lúgubre amortiguamiento del sonido como el que en las últimas obras de Mahler y luego en la Escuela de Viena se hizo dominante.”

Schreker, discípulo de W., mais wagneriano que o próprio, apologista do tutti e abominador do solo: “Nada soa mais perturbador que, p.ex., uma celesta que se ouve sozinha… Nego… o som demasiado nítido, diferenciável e em favor da ópera não quero reconhecer mais do que um instrumento: a orquestra mesma!”

O direito crítico dessa exigência se tornou bastante rapidamente farisaísmo prosaico, em tempos de perda da arte da instrumentação, que aliás foram apressados sucessores do próprio triunfo da arte da instrumentação, que pouco sobreviveu a W..”

o estilo compositivo mozartiano de nenhuma maneira busca a continuidade: antes justapõe unidades monádicas, equilibra-as, contrasta as seções de cordas e ventos segundo uma maneira concertante mais antiga.”

o insípido som do violino conta-se entre as grandes inovações da época cartesiana.”

Na música, que enquanto arte burguesa era ainda jovem, brotam, com a instrumentação, seus últimos galhos.” “Quem compreendesse por que Haydn dobra em piano [movimento suave] os violinos com uma flauta poderia entrever desde então por que há milhares de anos a humanidade renunciara a comer trigo cru e começara a assar o pão, ou por que alisara e polira seus utensílios.”

Quanto mais obra de arte, menos obra, pois mais metafísica, já-feita desde a eternidade, já dada. Obra de arte dada não é criada. A criada e o mestre. Quanto mais mundana, mais sagrada. Quanto mais sacra, mais anti-arte. Quanto mais arte, menos arte, quanto menos arte, mais mundo.

Isto é um charuto; e se não fôra o homem faria com que fôra! A transparência da cal.

UM BENJAMIN SOPROU EM MEU OUVIDO: “A conversão da obra de arte em mágica conduz a que os homens venerem como sagrado seu próprio trabalho, pois não podem reconhecê-lo como tal.”

Muitos filhos ele tem

Muitos quadros ele compra

Muitos livros ele escreve

Muitos álbuns ele caga

Muitos filmes ele co-leciona

Un arte dañada para un hombre dañado!

As óperas de W. tendem ao espelhismo, tal como Schopenhauer chama o <lado exterior da mercadoria ruim>: à fantasmagoria.” “Até sua autodissolução em Schreker, a escola neo-alemã se ateve à idéia do <som distante> como a do espelhismo acústico; a da sonoridade na qual a música, espacializada, se detém numa imbricação do próximo e do distante tão enganosa como a consoladora Fata Morgana,¹ aproxima-nos as cidades e caravanas desde sua distância como espetáculo natural e de forma mágica transforma plasticamente os modelos sociais na natureza mesma.”

¹ Fenômeno físico: miragem ou ilusão ótica no horizonte que eleva a altura de objetos distantes em decorrência de inversões térmicas.

Entre os instrumentos de madeira da ópera Tannhäuser, predomina a flauta piccolo, de todos eles o mais arcaico, do qual a evolução da técnica instrumental quase não deixou vestígio. É um reino musical de elfos bastante parecido com o esboçado pelo jovem Mendelssohn, a quem o Wagner tardio tinha em alta conta.” “Isso recorda os dispositivos com espelhos daquele teatro de Tanagra que ainda hoje se encontram nos parques de diversão e nos cabarés fronteiriços [?].”

Quando, na parte do Venusberg na obertura os violoncelos e os contrabaixos entram na letra B com o ritardando, assinalam o instante em que o sonhador toma consciência de seu próprio corpo e se distende no sonho. A técnica da redução do som sem baixos confere também uma expressão fantasmagórica a uma passagem do Lohengrin que, de uma maneira menos evidente que no Tannhäuser, determina a obra inteira. É a visão de Elsa, na qual seu sonho arrasta o cavaleiro e por assim dizer toda a ação. (…) As notas graves que aparecem voltam a se confiar a instrumentos sem peso, o clarinete-baixo e a harpa. O som do clarinete-baixo, de uma singular transparência, não decai abaixo do mi bemol 2.”

Quando o último W. brincava com a idéia da metempsicose, para isso quase não necessitava do estímulo das simpatias budistas de Schopenhauer. Na fantasmagoria já estava a dama Vênus, a deusa pagã, simbolicamente integrada à era cristã, cabalmente reencarnada como Kundry, a quem Klingsor conjura enquanto ela dorme à luz azulada: <Tu foste Herodias, e agora? Gundrigia ali, Kundry aqui!>.”

 

A princesa judia Herodias.

O sonhador se encontra impotente com a imagem de si mesmo como um milagre e permanece no inevitável círculo de seu próprio trabalho, como se este círculo fosse eterno; a coisa, de que se esqueceu que ele é o autor, aparece diante dele como fenômeno absoluto.”

O Zaratustra parece ter sido uma resposta satírica ao Tannhäuser: “Pero debo volver al mundo de la tierra, contigo sólo puedo ser un esclavo; anhelo la libertad, tengo sed de libertad” “su despedida de Venus es uno de los auténticos momentos políticos en la obra de W..”

Su traición no consiste en que se entregue a los caballeros, sino en que, ajeno al mundo y presa del sueño, les cante la loa a Venus, la misma loa que por 2ª vez lo inmola precisamente al mundo del que en la fantasmagoría ya una vez huyó. Su misma evasión es ilusoria: lo lleva del Venusberg al torneo de canto, del sueño a la canción, y la huella de lo que le empujó a la rebelión sólo subsiste en el genial canto del pastor que, más allá del sueño y la cautividad, evoca la productividad de la naturaleza misma como obra del mismo poder que al cautivo le parecía mera ausencia de libertad. Lo que salva a Venus son las palabras <Lam dama Holda salió de la montaña> y no el traicionero elogio de Tannhäuser. Para la experiencia socialmente determinada del placer como ausencia de libertad el mismo poder de los instintos se transforma en enfermedad, tal como con el grito <!Ya basta!> ya Tannhäuser percibe en el reino de Venus su propio goce como una debilidad. Toda la obra de W. está impregnada de la experiencia del placer como enfermedad.” “La enfermedad y el deseo se confunden en la opinión de figurarse que a un ser vivo sólo se le mantiene vivo mediante la opresión de su vida.” “En una regresión bien conocida por la educación burguesa y desde hace mucho tiempo interpretada por el psicoanálisis como <sifilofobia>, sexo y enfermedad venérea se asimilan, y no por casualidad en su lucha contra la vivisección a W. le indignaba que sus resultados favorecerían la curación de enfermedades contraídas por <vicio>.”

Assinalou-se que em W. as flautas que ressonam no Venusberg em solo rara vez aparecem como instrumentos desacompanhados. São vítimas da difamação por parte da fantasmagoria do prazer que elas representam na fantasmagoria mesma. Bem o notou Nietzsche: <Por que sofro eu quando sofro pelo destino da música? Pelo fato de que a música se despojou de seu caráter transfigurador do mundo, afirmativo, pelo fato de que é uma música da decadência e já não é a flauta de Dionísio>. A flauta wagneriana é a do caçador de ratos de Hamelín; mas, como tal, logo se converte em tabu.”

A ilusão entranha a desilusão. Na obra de W. ela tem seu modelo muito bem-ocultado: o de D. Quixote, que W. tinha em muito alta conta. A fantasmagoria d’Os Mestres cantores, seu segundo ato, impõe aos heróis o papel de quem luta contra moinhos de vento.”

Enquanto esboço de uma pré-história burguesa, Os Mestes Cantores são a obra central de W.”

quando a Santa Lança [Longinus?] se detém fantasmagoricamente sobre a cabeça de Percival, este se serve dela para maldizer: <Que em ruínas e pó converta o falso esplendor!>. É a maldição daquele rebelde que quando jovem assaltava bordéis não olvidados.”

A fantasmagoria, bem como o ritmo de seu declive, deve desdobrar-se na obra de arte épica extensa (a obra de arte total ou o <drama do futuro>, na boca de W.).”

Ao desembocar em um quid pro quo dos meios estéticos que mediante a perfeição artificial deve ocultar todos os pontos de sutura do artefato, a diferença entre este e a natureza pressupõe precisamente a alienação radical de toda naturalidade que, instaurando-se como segunda natureza, a obra total queria fazer sepultar.”

A ocultação do processo de produção poética em prol de sua intencionalidade, por conseguinte de sua racionalidade, assim como a relação constitutiva da obra de arte com a <vida ordinária> que Ópera e drama não se cansa de recordar, W. as introduz na configuração que define a fantasmagoria.” Um compositor de ópera que precisou explicar sua obra via livros… O contrário do filósofo que faz música transcendental com seus escritos. Vê-se que a obra de arte total não era tão total assim!

Com a <ocultação da intenção> do poema por meio da música, a obra de arte total aspira ao ideal do fenômeno absoluto com o qual a fantasmagoria ilude: <É assim que a forma artística unitária mais completa é definida por mim como aquele em que um vastíssimo conjunto de fenômenos da vida humana – ‘conteúdos’ – é comunicável ao sentimento numa expressão tão perfeitamente inteligível que este conteúdo se manifesta em todos os seus momentos como um conteúdo que estimula perfeitamente, e satisfaz perfeitamente ao sentimento. O conteúdo tem de ser, destarte, um conteúdo constantemente presente na expressão; e esta expressão, uma expressão que constantemente faça presente o conteúdo em toda sua extensão; pois o que não está presente só pode ser captado pelo pensamento, enquanto o [que está] presente [só pode ser captado] pelo sentimento>.” Conteúdo, conteúdo, conteúdo… Você é um vestibulando por acaso, VVaguinho?

eu cap[o]to as sensações

(*) “Hermann Cohen (1842-1918): filósofo alemão neo-kantiano que rechaça a oposição kantiana [?!] entre sensibilidade e entendimento em prol de uma intuição puramente intelectual como único meio de conhecimento.”

O DR. FRANKENSTEIN: “A atualização permanente que a música deve consumar no poema às custas do tempo musical persegue o fim de, dissolvendo-o e vivificando-o, transferir à aparência de uma pura atualidade subjetiva todo o rigidamente objetual do poema e com isso o reflexo do mundo das mercadorias na obra de arte: <A ciência nos mostrou o organismo da linguagem; mas o que nos mostrou era um organismo morto, que só a extrema necessidade do poeta pode devolver à vida, e isso certamente tapando as feridas infligidas pelo escalpelo anatômico ao corpo da linguagem e insuflando-lhe o hálito que o anime ao automovimento. Mas esse hálito é… a música…>

Texto recente sobre a estética do cinema: <tal como a adaptação realizada pelo olho ao acostumar-se a captar a realidade de antemão como uma realidade das coisas, no fundo como uma realidade de mercadorias, o ouvido ainda não realizou nada parecido. O ouvido é, em contraste com a visão, <arcaico>, não acompanhou o desenvolvimento da técnica. Poder-se-ia mesmo dizer que reagir essencialmente pondo o ouvido ‘olvidado’ de si mesmo, em lugar de abrindo olhos vivazes e calculadores, contradiz, de certo modo, a era tardo-industrial… O olho é sempre um órgão DE ESFORÇO, de trabalho, de concentração, que apreende univocamente algo DETERMINADO. Já o ouvido carece de concentração, é PASSIVO. Não há como fazê-lo se acostumar, i.e., ‘se arregalar’ diante de ‘uma tela’, gradativamente… Comparado ao olho, o ouvido é sonolento e apático. Mas sobre esta sonolência paira o tabu que a sociedade fizera pesar sobre a ‘preguiça’ de maneira geral. Desde sempre a música fôra uma tentativa de burlar esse tabu.>(*)

(*) Embora faça parecer que se trate de uma citação acadêmica qualquer do séc. XX, quem sabe até apócrifa, na verdade é uma AUTOCITAÇÃO de Adorno. Cf. Adorno & Eisler, Komposition für der Film, Munique, 1969.” Não pesa tabu algum. Falou, falou, falou, e NADA DISSE. Órgão de CONCENTRAÇÃO é o próprio ouvido.

O inconsciente, cujo conceito W. devia à metafísica de Schopenhauer, é, nele, já ideologia: a música deve dar calor e fazer somar as relações alienadas e reificadas dos homens, como se ainda foram humanas. Tal ressentimento tecnológico é o a priori do drama musical. Reúne as artes a fim de mesclá-las delirantemente. A linguagem voluptuoso-idealista de W. o apresenta sob a metáfora da união sexual: <O que necessariamente se há de dar de si, a semente que a partir de suas forças mais nobres só se condensa na mais ardente excitação amorosa – semente que não procede senão do impulso a se dar, i.e., de se comunicar para fecundar; mais ainda: que em si é a encarnação deste mesmo impulso –, esta semente fecundante é a intenção poética, que aporta na música, mulher esplendorosamente amante, aquilo a que se há de dar a luz.>

Não somente os dramas musicais culminam em fragmentos de delírio, como no canto final de Isolda, a cena de Sigfried e Brunilda ao fim de Sigfrido ou o lamento fúnebre de Brunilda n’O Crepúsculo dos deuses; na promiscuidade de seus elementos, a mesma forma dramático-musical está, a cada instante, aberta ao delírio enquanto <regressão talassal>.¹”

¹ Tálassa, divindade grega, pré-olímpica. Fecundada por Urano, é avó das ninfas ou ainda mãe de Afrodite ou do Amor. Como aquela que habita pela primeira vez todos os oceanos, prefigura-se aqui um ‘sentimento oceânico’ junguiano?!

Figuras e símbolos se fundem mutuamente, até que Sachs se converte em Marke e o Graal no tesouro dos nibelungos, os nibelungos nos wibelungos. [?] Só do extremo de uma espécie de fuga do pensamento, da renúncia a todo o unívoco, da negação de tudo o que leve a marca do individual, de nenhum modo meramente na música, deduz-se a idéia de drama musical.”

Assim como o conceito de obra de arte técnica, também o de <vontade de estilo> teve de vir ao mundo (abortado, mais cedo) com a obra de W..” “a totalidade wagneriana está sempre condenada a quebrar em pedaços.”

Música-cena-palavra unicamente se integram porque o autor – a palavra compositor-poeta não designa mal o monstruoso de sua posição – as trata como se todas convergissem no mesmo. Mas com isso ele violenta e desfigura o todo. Este se converte em tautologia e repetição, sobredeterminação permanente. A música só diz uma vez mais o que as palavras não cessam de dizer, e quanto mais se põe em primeiro plano, tanto mais supérflua se torna com respeito ao sentido que deve expressar. (…) Wagner queria exatamente o contrário quando idealizou o seu Sprechgesang (palavra cantada) como recurso estilístico. Acontece, porém, que na prática a palavra cantada empobrece a música. (…) a própria gesticulação dos atores no palco aparece como caricatura, como se todos não fossem mais que personalizações do próprio diretor de orquestra, o que de fato são, aliás. (…) A ópera anterior, à qual W. reprovava a ausência de unidade estética do ponto de vista da integração dos meios sensíveis, era superior a sua ópera, ao menos no sentido em que não buscava a unidade pela assimilação, senão pela obediência às demandas de cada um dos âmbitos do material. A unidade mozartiana era a da configuração, não da identificação. (…) Enquanto coisa aleatória que de modo usurpador se atribui a si mesma necessidade, a filosofia da história vê tal obra de arte total como algo que deve inevitavelmente naufragar. (…) um só instante de reflexão em meio a todo esse delírio bastaria para destruir a aparência de unidade ideal.”

Dioses, héroes y acción planetaria prometen al anhelo estético la salvación basada en la huida de lo banal; el romanticismo temprano no había tenido necesidad de imágenes de la grandeza porque todavía no se encontraba a cada paso con la amenaza del carácter de mercancía del que luego acaban por adolecer también en W. los modelos heroicos.”

el mundo de las imágenes musicales, al cual se recurre en cuanto reverso metafísico de la mónada solitaria, proviene de la sociedad que éste mundo niega.”

Nadie imparcial que oiga por vez primera el vehemente <motivo de la decisión de morir> de Tristán podrá sustraerse a la impresión de jovialidad trivial.” “También pagó, por tanto, la metafísica wagneriana de la muerte su tributo a la inaccesibilidad del goce vigente desde Beethoven en toda gran música.”

La concepción de la totalidad cerrada en sí y que se despliega a sí misma, de la idea presente en la intuición sensible, es un fruto tardío de los grandes sistemas metafísicos, cuyo impulso, filosóficamente roto desde el Feuerbach conocido por W., se refugió en la forma estética. Se puede creer a W. que cuando finalmente leyó a Schopanhauer se sintió meramente confirmado por éste, que no <influido> en el sentido habitual; el desplazamiento del acento metafísico al arte se prepara en el tercer libro de El mundo como voluntad y representación. Pero así como este desplazamiento está condicionado por el positivismo que tan claramente se anuncia en la determinación de Schopenhauer a negar el <sentido> a toda existencia natural y concedérselo a la ciega voluntad, así también la metafísica inmanente al procedimiento wagneriano va a la par con el desencantamiento del mundo.” “La obra de arte ya no obedece a su definición hegeliana como la apariencia sensible de la idea, sino que lo sensible se dispone para parecer como si dominase a la idea: ésta es la verdadera razón del rasgo alegórico en W., de la invocación de una esencialidad irrecuperable. El delirio tecnológico se prepara por miedo a la harto próxima sobriedad.”

El entusiasmo del joven Nietzsche se equivocaba sobre la obra de arte del porvenir: en ésta se produce el nacimiento del cine a partir del espíritu de la música.” “El 23 de marzo de 1890, mucho antes de la invención del cinematógrafo, Chamberlain escribió a Cósima sobre la Sinfonía Dante de Liszt, representativa de toda esta esfera: <Ejecutad esta sinfonía con una orquestra oculta y en una sala oscura, y haced que por el fondo se pasen imágenes, y veréis entrar en éxtasis a todos los Levi y a todos mis fríos vecinos de hoy, cuya insensibilidad atormentaba el pobre corazón>. Pocas cosas podrían probar más drásticamente hasta qué punto es falso que la cultura de masas le sobreviniera meramente desde el exterior al arte: éste se transformó en su contrario en virtud de su propia emancipación.”

En ninguna parte se muestra lo frágil de la concepción del drama musical más acentuadamente que allí donde más se aproxima a su propia razón de ser, la ocultación del proceso de producción: en la actitud antagonista de W. con respecto a la división del trabajo, la cual luego se convierte en base confesada de la industria cultural.”

El marcador gremial no puede ni entender la canción de concurso ni, atiborrado de reglas de tablatura, realizar tampoco él mismo algo coherente; y Mime, el herrero, es <demasiado hábil> para forjar la única espada que necesita. En ambas figuras insulta W. al entendimiento reflexivo.” “El <cantante> Walther acaba por inclinarse ante el <maestro> Sachs y aprende a no <menospreciar> los <gremios> de especialistas; en lo cual, por supuesto, la reconciliación de lo feudal con el orden burgués desemboca en la colusión con precisamente el mundo reificado al que el hidalgo, con toda razón, teme.”

No pocos de los contrarios a Wagner creyentes en la cultura y hostiles a la civilización, entre ellos Hildebrandt, le reprochan que, a pesar de toda la supuesta <lucha contra el siglo XIX>, adoptara sin escrúpulos sus adelantos técnicos.”

El esbozo de instrumentación – hoy a lo mismo se le llama particella – se fija paralelamente al esbozo de composición: lo sigue siempre a distancia de pocos días. Con ello los dos métodos de trabajo de separan claramente entre sí y se evita que el sonido en sentido berlioziano se autonomice. (…) El efecto mágico es inseparable precisamente del proceso racional de producción que él mismo destierra lejos de sí.”

W. planteaba una exigencia de humanismo real. Esta exigencia se transformó en él en delirio y enceguecimiento, en lugar de apoyar a la libertad con la conducción racional del proceso de trabajo.”

Atualmente não é possível que duas pessoas pensem em fazer possível o drama integral em comum, pois ao discutir esta idéia teriam que confessar perante o público com a necessária franqueza a impossibilidade de sua realização, e este reconhecimento estrangularia, portanto, sua empresa em germe. Só o solitário pode com seu impulso transformar em si a amargura deste reconhecimento em um deleite embriagador que o empurre com coração de bêbado à empresa de fazer possível o impossível; porque só ele recebe o impulso de duas forças artísticas às quais não se pode resistir e pelas quais se deixa voluntariamente levar em auto-sacrifício.”

Por muita verdade que contenham essas frases, sua conseqüência não desemboca na obra de arte total, senão em sua proibição crítica. (…) O que o indivíduo sacrifica no drama musical não é a si mesmo, senão à consistência da obra (…) Para chegar a uma obra de arte total depurada de falsa identidade seria mister um coletivo de especialistas submetidos a um plano.”

Quem ignora que o final d’O crepúsculo dos deuses contém o motivo da Redenção não compreende nem a consumação musical nem a poética. Esse é o preço que o drama musical tem de pagar por ter renunciado à lógica puramente musical da construção na imanência do tempo.”

O mesmo que o homem não se nos representa com certeza mais plena, mais satisfatória, salvo se se manifesta ao mesmo tempo a nossos olhos e ouvidos, assim tampouco o órgão de comunicação do homem interior convence nosso ouvido com a mais completa certeza salvo se se comunica de maneira igualmente satisfatória aos <olhos e ouvidos> deste ouvido.”

Melhor do que eu, ninguém pode saber que a realização do drama que pretendo depende de condições que não se encontram na vontade, nem sequer na capacidade do indivíduo, ainda que esta fosse infinitamente maior que a minha, senão somente numa situação geral e numa colaboração coletiva possibilitada por esta, das quais agora não existe senão precisamente todo o contrário.”

El delirio fantasmagórico expulsa toda política de la ópera; por lo demás, ya en Meyerbeer los temas políticos se neutralizaban como meros objetos de curiosidad, tal como p.ej. sucede en las películas en color o las biografías de personas célebres que hoy en día pone en el mercado la industria cultural.”

Al Anillo se le podría anteponer aquella sentencia de Anaximandro recientemente interpretada por Heidegger, que en cuanto mitólogo del lenguaje guarda semejanzas con W.. En traducción de Nie., dice así: <Allí donde las cosas tienen su nacimiento debe también producirse por necesidad su destrucción, pues deben pagar su culpa y reparar su injusticia conforme al orden del tiempo>. La justicia, que se define como expiación de la injusticia, equivale a ésta y se convierte por tanto ella misma en injusticia, el orden en destrucción (…) La música de W. se pliega al axioma jurídico de que tensión y solución han de corresponderse totalmente, de que nada debe quedar desnivelado, nudo, aislado”

Every tone which is added to a beginning tone makes the meaning of that tone doubtful. If, for instance, G follows after C, the ear may not be sure whether this expresses C major or G major, or even F major or E minor; and the addition of other tones may or may not clarify this problem. In this manner there is produced a state of unrest, of imbalance which grows throughout most of the piece, and is enforced further by similar functions of rhythm. The method by which this balance is restored seems to me the real idea of the composition.

Schönberg, Style and Idea

O DURKHEIM DO TEATRO: “Por verdadeira que seja a censura estética a W. por haver posto a mão, ele, o moderno, sobre o mais antigo, ele, o profano, sobre o mito, a regressão do procedimento estético não depende do arbítrio individual ou do azar psicológico. Ele pertence a uma geração que, pela primeira vez em um mundo completamente socializado, compreendeu a impossibilidade de mudar individualmente o que se consumava por sobre a cabeça dos homens.”

Los maestros cantores coquetean con aquella costumbre de la pintura antigua de poblar espacios y tiempos remotos con figuras de generaciones posteriores y autóctonas.”

A cada cual le parece que es su propiedad exclusiva, mensaje de su infancia olvidada, y a partir del déjà vu de todos cristaliza la fantasmagoría del colectivo.”

Anticipó estéticamente tensiones que teóricamente sólo aparecieron con el conflicto entre Freud y Jung.” “En los instantes de toma de consciencia la forma literaria de W. anticipa la de Nietzsche 30 años antes de Zaratustra: ¡Temor de la madre primordial! ¡Miedo primordial! ¡Abajo! ¡Abajo, al sueño eterno!

La dramaturgia del W. maduro opera siempre con una especie de <teatro épico>. Con la renuncia a la oposición de la música a los mitos se sacrifica de antemano toda idea trágica.”

o temerário é aquele sobre o qual não têm nenhum poder nem a autoridade do pai nem a ordem natural das gerações”

melodía del mediodía

melodia

do

meiodia

Se ao drama musical falta a palavra redentora, em compensação seus personagens não deixam de se declarar redimidos”

Trata-se aqui da astúcia da razão. Qualquer coisa que ocorra em oposição ao <total>, à vontade universal de Wotan, ocorre ao mesmo tempo no sentido deste, ainda que seja meramente porque o espírito absoluto de Wotan não pensa nada além de sua própria destruição.”

Nem terra nem gente ofereço, nem casa nem pátio paternos: unicamente herdei o próprio corpo; vivendo o consumo.”

O crepúsculo dos deuses não é meramente a consunção do veredito metafísico de Schop., senão o abandono de uma filosofia da história em que o antagonismo entre o universal e o particular se destelha sempre enganosamente; privado da articulação dialética pela qual Hegel o domina, mas privado também da esperança de uma situação alterada, na qual o mesmo perene antagonismo se desvaneceria. À produção da resistência pelo todo social corresponde o fim, a identificação da resistência com o domínio: o poder do Anel de interpretar a história tem aí seu limite e se perde na noite da indiferença.” “o todo nada mais é que a má-eternidade da rebelião enquanto anarquia e incansável autodestruição. Entre o deus pai Wotan e Sigfried, seu adversário salvador e seu funesto salvador, a verdade é que não há nenhuma fronteira, e em sua união o Anel celebra o abandono da revolução que não o era.”

A ambigüidade da construção se torna patente nas oscilações da concepção da Tetralogia. Enquanto que na primeira versão Sigfried, ao perecer, salva o Valhalla, na última conduz ao desenlace desesperado em que – para ser mais que só uma vítima e servidor passivo do existente, sem que com isso mudasse nada do próprio existente, do qual é apenas um fruto afinal, como o reconhece a resignação wagneriana –, destruindo-se a si mesmo e à individuação em geral, produz não menos do que a destruição do todo. A resignação do incondicionado, o fracasso da revolução burguesa e a representação do processo universal como destruição universal casam muito mal entre si. Sua relação, ao menos a entre a insurreição fracassada e a metafísica niilista, não deixou de assinalar-se desde Nietzsche.

Finalmente, a franqueza na qual o burguês e o mítico se mascaram mutuamente é desde o Iago de Shakespeare o verdadeiro clima da traição.”

Para W., o anarquismo significa que o único necessário é colocar em movimento uma insurreição mundial para convencer o camponês russo – em quem a bondade natural do homem oprimido foi mantida pela natureza, a despeito de tudo, e na forma mais infantil – de que incendiar os castelos dos senhores, com tudo o que está dentro e nos arredores, é completamente justo em si e mesmo aprazível aos olhos de Deus; e disso deve resultar a destruição de tudo o que, pensando-se detidamente, deve parecer, até mesmo para os mais filosóficos pensadores da Europa civilizada, a real fonte de toda a miséria do mundo moderno.”

Para Lukács, o nivelamento com o universalmente humano e sua <nulidade> passa por alto a verdadeira <essência>, a mesma lei do movimento histórico da sociedade, e reduz a princípio universal a miséria de um período histórico.”

Como um autêntico chefe de polícia secreta, em sua grande biografia Glasenapp redigiu autênticos registros judiciais de todas as pessoas e cachorros que tiveram contato com W., e chega ao ponto de tachar Nietzsche de <rábula> por ocasião de este ter considerado W. seu amigo unicamente por ter W. dito que N. era <seu amigo>.”

Por si mesmo só se cumpre o cumprimento do destino.”

O princípio metafísico da falta de sentido é hipostasiado como sentido da existência empírica sem sentido, de modo não diferente a como mais tarde sucederia nos inícios da filosofia existencial alemã.”

Se Schopenhauer condena a vida como jogo cego da vontade, W. se curva obedientemente a este jogo e o adora como natureza inconcebivelmente sublime.” “Em Sch. a conversão da própria vontade de viver é sinônima da tomada de consciência de si mesma da representação. Esta desiste de sua própria vontade de viver ao se dar conta da injustiça que inevitavelmente comporta a vontade e abre uma brecha no circuito do destino cego – Sch. fala de um círculo de carvões ardentes do qual tem-se de sair – com a esperança de que, imitando tal conduta, o mundo do pecado original mesmo se apazigüe. Para ele o primeiro requisito da renúncia é o ascetismo sexual. Certamente, no Parsifal W. fez deste seu postulado, mas só para comprometê-lo de maneira mais grave segundo os conceitos schopenh. por meio do brilho mundano da comunidade do Graal e a cavalaria do Graal. No Anel, no entanto, e no Tristão, o ideal ascético se confunde com o mesmo instinto sexual. A satisfação do instinto e a negação da vontade de viver se mesclam no delírio, naquela <morte risonha> de Sigfried e Brunilda, na noite de amor que deve produzir o esquecimento da vida: <Recebe-me em teu seio, libera-me do mundo!>. Quando finalmente Tristão maldiz o amor, a maldição se dirige ao insaciável anelo da individuação, que unicamente se pode <saciar> na paz da morte como no prazer.” “Em todas as partes, o mundo tal como é tira proveito da doutrina segundo a qual o mundo é mau em si.”

Schopenhauer erra quando “em lugar da penetrante autoconsciência da vontade em sua suprema objetivação se instala de novo o inconsciente, o delírio e aquela espécie de unio mystica que na obra de W. se oferece em abundância. Em Sch. já se anunciam o mascaramento da morte como redenção e o ribombante conceito da <redenção universal> que em W. constitui a suma ideológica de toda sua obra”. Curiosamente, isso aproxima ambos de Hegel.

W. leva às últimas conseqüências o pessimismo. A negação do mundo burguês, toda a negatividade e toda a positividade se imbricam numa coisa só ou, antes, a negação e a negatividade passam por valor positivo. A destruição do mundo ao final do Anel é ao mesmo tempo um happy end.” “a própria impensabilidade da morte se converte em meio de dourar a vida má.”

(*) “Halvard Solness: protagonista do drama de Ibsen estreado em 1893 Solness o construtor (também encontrado, em espanhol, como El maestro Solness). Na apresentação da montagem do Teatre Nacional de Catalunya, em outubro de 2000, a diretora Carme Portaceli declarou: <Solness é um construtor, um grande arquiteto, que pode se entender como metáfora de Deus. Este homem chegou ao cume de sua trajetória, porém ao preço de sua felicidade e da de todos que o rodeiam.> O ator Lluís Homar: <É uma obra imensa, tão grande como o buraco que esconde o construtor. O texto se debate com a soberba absoluta do artista que, às vezes, converte-o numa espécie de déspota>.”

A velha controvérsia sobre o nihil negativum, o absoluto, e o nihil privativum, o relativo, Sch. a decidiu em favor do último. Para ele, como para seu antípoda Hegel, o nada é só um momento no movimento do ser, que é o todo.”

Não há nada sem despertar.

o cavalo de Brunilda parece conduzir o agora do despertar enquanto sobrevivente da pré-história; da pré-história que, segundo Sch., é cabalmente o nada. Se W. recorda niilisticamente a história na natureza, a natureza é, sem embargo, por sua vez, esse todo ao que o nada pertence como momento dialético parcial e que põe limites ao nada. Em W. não se representa nenhum nada que não prometa a sobrevivência da natureza. Símbolo disso são as filhas do Rin que levam, jubilosas, o anel recuperado às profundezas. Se bem que essas profundezas são o abismo do nada wagneriano.”

Se na má-infinitude de uma sociedade que se reproduz sem meta a imagem da natureza está distorcida e impressa na imagem do nada como única fissura na servidão total, este nada se converte em algo em nome do inferno que se mobiliza contra o enganoso hermetismo do sistema da obra de arte e da sociedade.”

Sigfrígido

o inferno, o reino de Alberish, que projeta tomar por assalto o Walhalla.”

Morrer de amor: isso significa também perceber a fronteira que a ordem da sociedade impõe ao homem mesmo: experimentar que a aspiração ao prazer, se se pensara sempre até o final, faria estalar precisamente aquela pessoa autônoma, que se pertence a si e degrada sua própria vida à coisa, a pessoa que crê cegamente encontrar prazer na posse de si mesma e para quem justamente essa posse é privação do prazer.”

Sem dúvida cabe a pergunta de se o desideratum nietzscheano de saúde vale mais que a consciência crítica que obtém a grandiosa debilidade de W. no trato com as potências inconscientes do próprio desmoronamento.”

O imperialista sonha com a catástrofe do imperialismo; o niilista burguês adivinha o niilismo da época imediatamente posterior.”

Estes encouraçados de grande porte, contra os quais o orgulhoso e magnífico barco à vela não pode mais se enfrentar, oferecem o horrível aspecto e o gosto dos fantasmas. [!]”

W. o pacifista

As partes febris do terceiro ato de Tristão contêm aquela música negra, áspera, dentada, que não tanto dá cor de fundo à visão como a desmascara. A música, a arte mais mágica de todas, aprende a romper a magia com que ela mesma rodeia todas as suas figuras. A maldição do amor por Tristão é mais que o impotente sacrifício do delírio à ascese; é a sublevação, por mais que completamente vã, da música contra a própria imposição do destino, e somente com vistas a sua total determinação por este recupera ela a autorreflexão. (…) Ao expressar a angústia do homem desamparado, poderia, ainda que débil e desfiguradamente, significar uma ajuda para os desamparados e prometer de novo o que o protesto ancestral da música já prometera: viver sem angústia.”

MAHLER. UNA FISONOMÍA MUSICAL

a picante, imaterial agudeza do pianissimo se ouve com precisão, como 70 anos mais tarde nas partituras de velhice de Stravinski, quando o mestre da instrumentação se fartara da instrumentação magistral. Por trás de uma segunda entrada das madeiras, o motivo de quartas descendentes se seqüencia até ficar suspenso num si bemol que roça com o das cordas.”

Se com sua primeira nota toda música promete o que seria diferente, o desgarramento do velo, suas sinfonias quereriam por fim não voltar a fracassar, pô-lo literalmente diante dos olhos; quereriam recuperar musicalmente a fanfarra teatral que soa na cena da masmorra do Fidelio, imitar aquilo que, 4 compassos antes do trio, põe a cesura no Scherzo da Sétima de Beethoven. Assim quiçá desperta a um adolescente às 5 da manhã a audição de um som que se aproxima imponente, cujo retorno nunca deixa já de esperar quem por um segundo o tenha percebido em repouso.”

Isso é o que hoje em dia atrai o ódio sobre Mahler. Se disfarça de probidade contra o enfático: contra a pretensão da obra de arte de encarnar algo que o pensamento meramente acrescenta, sem se realizar. Detrás dessa probidade assoma o rancor contra aquilo mesmo que fica por realizar. O <Não deve ser> de que a música de Mahler se lamenta desesperada é astuciosamente sancionado como mandamento. A insistência em que em música não deva haver nada mais que o que está aqui e agora encobre por igual uma amarga resignação e a comodidade de um ouvinte que se dispensa do trabalho e do esforço do conceito musical enquanto aquilo que devém e aponta para além de si mesmo.” “Mahler enfurece aos coniventes com o mundo porque recorda o que eles devem expulsar de si mesmos.”

Enquanto arte, a música está presa no laço que ela mesma quer cortar, e o reforça mediante sua participação na aparência. Enquanto arte, a música se faz culpável de sua verdade; o mesmo, no entanto, que, faltando à arte, se nega seu próprio conceito. As sinfonias de Mahler tratam progressivamente de se subtrair a este destino.” “Isso é o que a Quarta sinfonia chama de <ruído mundanal>, e que Hegel chamaria de <curso do mundo> invertido, o qual de entrada se enfrenta com a consciência como algo <oposto e vazio>. Mahler é um membro tardio da tradição do wertherismo(*) europeu pelo mundo.

(*) Wertherismo: Weltschmerz; literalmente <dor do mundo>. Em francês, o mal do século.”

A inútil hiperatividade sem autodeterminação é o sempre igual. É o inferno, num primeiro momento ainda não demasiado tórrido musicalmente, há um tabu sobre o novo. É o espaço absoluto. Assim foi sentido já o Scherzo da Segunda sinfonia; de maneira extrema, logo o da Sexta.”

Outrora a atividade do sujeito ativo, engrenagem do trabalho socialmente útil, inspirou o sinfonismo clássico, ao que, por suposto, já em Haydn e ainda mais em Beethoven o humor conferiu um duplo sentido. Atividade não é meramente, como ensina a ideologia, a vida repleta de sentido de seres que se determinam a si mesmos, senão também a fútil agitação da falta de liberdade destes.” “a esperança que ainda em Beethoven dá seu pulso à vida ativa e permitiu ao Hegel da Fenomenologia acabar, não obstante, atribuindo ao curso do mundo a prioridade sobre a individualidade que só no indivíduo se faz real se perdeu para o sujeito retroprojetado sobre si mesmo e ao mesmo tempo impotente. Por isso o sinfonismo de Mahler advoga outra vez contra o curso do mundo. Imita-o para acusá-lo. (…) Em nenhum instante ata a fratura entre sujeito e objeto; prefere quebrar-se a si mesmo que simular como lograda a reconciliação impossível. Num começo, Mahler esboça em música programática a exterioridade do curso do mundo. Mas já de então Mahler não se contentou com o contraste poético demasiado seguro de si mesmo entre a transcendência e o curso do mundo. No curso do incessante movimento a música se faz a si mesma vulgar com toscos conjuntos dos instrumentos de sopro. A justiça hegeliana, porém, puramente pela lógica do discurso compositivo, guia a pluma do compositor de tal modo que comunica ao curso do mundo algo da força que se reproduz, persiste, se resiste à morte, como corretivo do sujeito que protesta imutável (…) o ordinário é desafiado quando o tema chega aos primeiros violinos com seu som e caráter melódicos”

como viu Hegel, o curso do mundo não é tão mau quanto a virtude se imagina.”

Sobre Frederico II não ter confiscado o terreno do moinho barulhento que interrompia suas tardes de trabalho a despeito de não tê-lo conseguido comprar, disse Mahler: “É bom que moinheiro e moinho estejam protegidos e garantidos em seu terreno – se não fosse porque as rodas batucavam de tal forma que sobrepassavam os limites da maneira mais desavergonhada e produziam nos terrenos vizinhos uma quantidade de perturbação e dano que não é de modo algum possível medir.” Só mesmo um artista para entender a suscetibilidade ao som desagradável…

Na quarta sinfonia (…) o estridente violino rústico, afinado um tom inteiro mais alto que os normais, toca desagradavelmente, com um som estranhamente desacostumado, sem que o ouvido compreenda a razão disto e portanto de maneira duplamente irritante. Acidentes cromáticos azedam a harmonia e a melodia; o colorido é solístico, como se faltasse algo: como se a música de câmara se houvesse aninhado de forma parasita na orquestra.”

mesclando a emoção triste com a fuga das imagens que velozmente a atravessam.”

Quinta sinfonia (…) Varreu-se o humor, que se jacta de rir do curso do mundo desde uma distância que este não o permite a ninguém; se desencadeia irresistivelmente com todos os acentos da dor, sem paliativos. Suas proporções, a relação das tempestuosas partes allegro com as proliferantes interpolações lentas da marcha fúnebre, dificultam sobremaneira a execução. Essas proporções não devem se entregar ao acaso do estar-composto-assim de uma vez para sempre, senão que desde o princípio toda a peça há de organizar-se tão claramente até o contraste que não fique emperrada nas partes andante; a alternância é o que configura a forma. É importante também que as partes presto, sem concessão no tempo, se toquem distinta, tematicamente, e não se percam no torvelinho; elas são o contrapeso das melodias da marcha fúnebre.” “Em que pese todo o dinamismo, toda a plasticidade no detalhe, o movimento não conhece nenhuma história, nenhuma meta, propriamente falando nenhum tempo enfático. Sua carência de história o remete à reminiscência.”

Paul Bekker, Gustav Mahlers Sinfonien, 1921

A coda obedece ao que ocorrera: a antiga tempestade se converte em seu eco impotente.“

As palavras da cena final do Fausto, que Mahler pôs mais tarde em música de maneira incomparável, fracassam. A utópica identidade entre arte e realidade fica malograda. (…) Quão mais lograda a obra, tanto mais pobre a esperança, pois esta sobrepujaria a finitude da obra em si congruente.”

Para dotar de violência o coral, se o encomenda aos metais, cuja aparatosidade, desde Wagner até Bruckner, os havia desprovido de dignidade. Mahler foi o último a não se dar conta disto.”

todos os temas fragorosamente lançados pelos metais se assemelham fatalmente e põem em perigo o sinfonicamente mais importante, o ser ele mesmo do individual, e portanto a plasticidade do discurso. Nas obras mais tardias a violência dos metais devém momentânea, angustiosa ou agoniante; já não são o registro fundamental da sonoridade conjunta. Mas a sublimação da irrupção, tal como o exige a técnica, está já implantada teleologicamente na própria irrupção.”

Para a poderosa lógica beethoveniana da conseqüência a música se resumia em identidade hermética, como juízo analítico. A filosofia a que assim se acomodava detectou em seu cume hegeliano o aguilhão de tal idéia.”

Se a música em geral tem mais em comum com a lógica dialética que com a discursiva, então em Mahler ela quer precisamente aquilo que a filosofia, com esforços de Sísifo, incita ao pensamento tradicional, os conceitos petrificados em identidade rígida [a lógica discursiva]. Sua utopia é esse mover-se do lugar do já-tendo-sido e do ainda-não-tendo-sido no devir.” Cita Ciência da Lógica de H., o que também nada tem a ver…

a grande música foi, até Mahler, tautológica. Esta era sua congruência, a do sistema carente de contradições. Mahler derroga este sistema, a ruptura se converte em lei formal.”

Desde que a estética descuida do belo natural, que Kant ainda reservava à categoria do sublime, enquanto que Hegel o despreza já, na arte o conceito de natureza se aceita sem o menor reparo. Até tal ponto se estreitou a rede da socialização que a mera antítese desta última se considera um arcano do qual nem se deve falar. Pois a mesma natureza, contrafigura da tirania humana, está deformada enquanto se a espolia e violenta.”

A natureza, espargida na arte, produz todas as vezes o efeito de não ser natural”

Ao compositor reduzido aos meses de férias, a vida musical oficial, que ele não deixou de menosprezar nem sequer como diretor de Ópera de Viena e diretor estrela de orquestra, nele martelou até à aniquilação física.” “Repugnava-lhe sua própria posição, mas não queria renunciar a ela, pois conhecia demasiado bem o curso do mundo para para não ignorar que a pobreza podia privá-lo daquela margem de liberdade infinitesimal de que seu destino humano necessitava.”

Del mismo modo que ponen en duda la lógica inmanente de la identidad musical, sus sinfonías se oponen también a aquel veredicto histórico que desde el Tristán seguía impulsando unidimensionalmente a la música: la cromatización como descalificación del material. No como reaccionario, pero sí como si temiera el precio del progreso, Mahler persiste en el diatonismo como en un soporte obvio, cuando ya la exigencia de una composición autónoma lo ha llevado a la ruina. (…) El odio contra él, con resonancias antisemitas, no fue muy distinto de aquel contra la nueva música. El shock que produjo se descargó en la risa, en un malicioso no-tomarlo-en-serio”

el gusto siempre depurado de los académicos del arte musical puede probar, sacudiendo la cabeza, lo pueril de las irrupciones mahlerianas.”

Cuando Debussy abandonó protestando el estreno parisino de la Segunda sinfonía, el antidiletante jurado se comportó como un verdadero especialista; es muy posible que la Segunda produjera a sus oídos el mismo efecto que a los ojos los cuadros de Henri Rousseau(*) en medio de los impresionistas del Jeu de Paume.

(*) Henri Rousseau, El aduanero (1844-1910): pintor francés. De formación autodidacta, carecía tanto de conocimiento de las convenciones académicas como de cualquier ambición vanguardista, pero su innato instinto para la composición y el colorido convirtieron su obra en precedente de la pintura naïve y, parcialmente, de la de un Léger, un Picasso o los surrealistas. (N.T.)”

En cuanto a la riqueza de los grados, al menos las primeras sinfonías son menos osadas que Brahms, en cuanto al cromatismo y la enarmonía menos que el W. maduro.”

la partitura califica de ‘estridente’ un pasaje de las maderas en el Scherzo de la Séptima sinfonía, también un timbre del oboe en Rewelge. Pero lo forzado mismo se convierte en expresión. (…) En la Quinta sinfonía, el primer trío de la marcha fúnebre, que ya comienza muy grandiosamente, no responde ya con un lamento líricamente subjetivo a la tristeza objetiva de la fanfarria y la marcha. Gesticula, eleva un grito de espanto ante algo peor que la muerte.” “música de pogrom, del mismo modo que los poetas expresionistas profetizaron la guerra. Tras las partes de marcha retenidas por la forma, tras el enfático do sostenido menor, la extrema intensidad expresiva del pasaje, que se niega a la segunda zona media de la forma, empuja a la obra de arte a convertirse en protocolo, como 50 años más tarde El superviviente de Varsovia de Schönberg.”

Afrontarlo exige una meditación sobre la expresión en música. Ésta no es expresión de algo determinado: no por azar se convirtió espressivo en una indicación universal de ejecución. Persigue una intensidad marcada. (…) En cuanto llena de expresión, la música se comporta mimética, imitativamente, a la manera de gestos que reaccionan a un estímulo al que se igualan en el reflejo. En la música este elemento mimético va poco a poco enfrentándose al racional, al dominio sobre el material; la manera en que se liman uno al otro constituye su historia. No se reconcilian: también en música el principio racional, el de la construcción, tiraniza al mimético. Éste tiene que afirmarse polémicamente, instaurarse a sí mismo; espressivo es la protesta consentida, recibida, de la expresión contra la proscripción que sobre ella cayó.” Tomar um expresso.

cuanto más petrificado el sistema musical de la racionalidad, tanto menor el lugar que reserva a la expresión. Para seguir en general sonando con medios tonales, tiene que resaltar algunos, elevarlos a idea hipertrofiada, endurecerlos como vehículos de expresión tanto como se endureció el sistema circundante. El manierismo es la cicatriz que la expresión deja en un lenguaje que propiamente hablando ya no satisface a la expresión.”

La extrema similitud con el lenguaje es una de las raíces de la simbiosis mahleriana de canción y sinfonía”

En Mahler todas las categorías empiezan a quedar corroídas, ninguna se establece en límites no-problemáticos. Su difuminación no se debe a falta de articulación, sino que revisa ésta.”

incluso allí donde el discurso musical parece decir ‘yo’, su punto de referencia, análogo al latente yo objetivo de la narración literaria, es separado de la persona que escribió la obra por el abismo de lo estético. La herida Mahler no la configuró como contenido expresivo, según hizo W. en el tercer acto del Tristán. (…) Pero (…) el carácter neurótico era al mismo tiempo una herida histórica en la medida en que su obra quería realizar con medios estéticos lo estéticamente ya imposible.”

Uma orquestra toca na consciência musical mais do que esta se projeta sobre uma orquestra. Quiçá essa exterioridade do musicalmente interior capacite a música para aquele logro pelo que a psicanálise gostaria muito bem de explicá-la, para a defesa contra a paranóia, para a mitigação do narcisismo libertino.” “A música de Mahler não expressa a subjetividade, senão que esta toma, nela, posição ante a objetividade.”

Los acordes menores mahlerianos, que desautorizan a las tríadas mayores, son máscaras de disonancias venideras.”

El Mahler temprano desprecia la elemental exigencia escolástica de una vigorosa progresión de los grados.” “Al igual que algo más tarde en Puccini y Debussy, el bajo continuo ya no ejerce sobre él ninguna verdadera autoridad.”

El hecho de que en Mahler la modulatoria, por lo demás con notables excepciones especialmente en las sinfonías Sexta, Séptima y Novena, se mantuviera relativamente subordinada cobra un sentido compositivo.”

Em Mahler o consolo é o reflexo da tristeza. Nisto a música de Mahler conserva ansiosa ese algo mitigador, curativo, que desde tempos imemoriais a tradição atribuíra à música como força para expulsar os demônios, e isto, contudo, empalidece como quimera segundo a medida do desencantamento do mundo. À pergunta de o quê queria chegar a ser um dia, Mahler, desda infância, já havia respondido: mártir. Posto que o que mais lhe aprazeria é sua própria música ser o Paráclito, ela se excede e se torna, aí, inauténtica.”

Sua Nona é sobretudo estranha. Nela, o autor mal se expressa enquanto indivíduo. É como se essa composição devera ter um autor oculto que usara Mahler meramente como porta-voz, como bocal.”Arnold Schönberg, Estilo e Idéia (El estilo y la idea [1963]), NY, 1950.

Logo depois da wagneriana, a mahleriana é a música de diretor de máximo ranking; uma música que se executa a si mesma.” “A situação é análoga à da narrativa literária formal do discurso indireto. Inimiga de toda ilusão, a música de Mahler acentua sua inautenticidade, sublinha a ficção, a fim de se curar da falsidade em que a arte está começando a mergulhar. Nasce assim no campo de forças da forma o que em Mahler se percebe como o caráter da ironia. Qualquer asno ouve em Mahler marcas da música de diretor de orquestra, as marcas do conhecido no novamente produzido.” “O diretor de orquestra metido a compositor não tem no ouvido meramente a sonoridade orquestral, mas também a praxis orquestral, o como da maneira de tocar instrumental, junto com aquelas tensões, debilidades, exagerações e fraquezas que sua intenção vence. (…) ajuda a música a se produzir espontaneamente” “A praxis com a orquestra, na esfera comercial algo funestamente positivo, que ata, desencadeia em Mahler a fantasia compositiva. (…) O fato de Mahler pertencer à cultura musical como maestro empapado de sua linguagem e no entanto estar separado dela ao mesmo tempo se converte no éter de sua linguagem, polida se bem que estranha, estrangeira. (…) Em Mahler o fluido e o reificado formam uma constelação parecida com o alemão de Heine [cujo idioma natal não é o alemão]. Não é lícito criticá-lo pelas fraturas na forma, porque ele tem sua idéia na fracionaridade mesma.”

A reflexão sobre a injustiça social que a linguagem artística inevitavelmente comete com quem não participa do privilégio da cultura se opõe energicamente à lógica musical.”

Seria o caso de confrontá-lo a Bruckner, com quem tão irrefletidamente se o associa nos países ocidentais, como se a mera duração fosse uma categoria qualitativa.”

A música de Mahler sabe e configura objetivamente o fato de que a unidade não se dá a despeito das fraturas, senão unicamente em virtude da fratura.”

A música de Mahler é o sonho do indivíduo num coletivo irresistível. Mas ao mesmo tempo expressa objetivamente que a identificação com este é impossível. Aquele que sabe a nulidade do eu isolado, e que tem erroneamente a si mesmo por absoluto, sabe que este eu não pode presumir ser imediatamente um sujeito coletivo. Não há em tal música nenhum rastro de atitudes objetivistas como as do neoclassicismo; no neoclássico, Mahler é odiado.”

O fato de que o judio Mahler, como Kafka em seu conto sobre a sinagoga, conseguisse sentir o cheiro do fascismo com décadas de antecedência é sem dúvida o que deveras motiva a desesperação do camarada errante, a quem um par de olhos azuis envia para a diáspora.”

Karl Kraus dizia que mais vale um barranco bem pintado que um palácio mal pintado.”

Ainda em vida, Mahler recebeu a crítica, de um famoso resenhista, segundo testemunho de Schönberg, de que suas sinfonias não passavam de ‘pot-pourris gigantescos’.”

Desde Berlioz, o processo de integração sinfônica marchou acompanhado como que por uma sombra, pela irracionalidade do procedimento compositivo.” “Comparada com o procedimento não-esquemático de Mahler, toda a música de seu tempo, a do jovem Schönberg inclusa, era tradicionalista na medida em que era música de especialista.” Resumindo: Mahler grita “foda-se o gosto!”.

Beethoven ainda reconciliava o momento plebeu com o classicista na relação com algo múltiplo que é certamente elaborado como ‘material’, mas que nunca destaca autonomamente, em bruto. Mas a época de Mahler já não conhecia um povo que pudesse perceber-se como brotado da natureza e a que o jogo musical houvera podido com decoro emprestar sua vestimenta. Ao mesmo tempo, tampouco o nível de domínio musical do material alcançado permite absorver o plebeu.”

o que faz aqui a música que tem seu caminho de volta bloqueado é antes tomar alento do que simular um caminho que não existe. (…) O inferior em Mahler é na verdade o negativo da cultura que fracassou.”

O espírito, celebrado na grande música tanto mais tiranicamente quanto maior é essa música, despreza o vil trabalho físico dos outros. A música de Mahler não quer participar no jogo segundo essas mesmas regras.”

cada compasso abre os braços em cruz. Mas o que a norma da cultura rechaçara, o detrito freudiano do mundo fenomênico, não se esgota de todo, segundo a idéia de tal sinfonismo, na cumplicidade com a cultura: a doutrina de Freud da cumplicidade entre o isso e o supereu contra o eu está escrita como a medida em Mahler. O detrito deve empurrar a obra para mais além da aparência em que se convertera sob a cultura e reestabelecer algo desta corporeidade por que a música se diferencia de outros meios artísticos.”

O primeiro esboço do tema ‘Todo o morredouro é uma cópia’ da Oitava sinfonia, há décadas na casa de Alban Berg, está anotado em um pedaço de papel higiênico.”

Não seduzido pelo romantismo do autêntico e essencial, Mahler em nenhum caso pretende pôr ante os olhos essa nudez de maneira não-metafórica, como algo que é em si. Daí a fracionaridade.”

Mahler leva a sério seus modelos infantis, à diferença de Stravinski. (…) Ele não se zanga com o velho desvigorado nem com o sujeito impotente. Nos seus tão citados momentos irônicos, o sujeito se acusa da vaidade de seu próprio esforço, ao invés de se rir do mundo de imagens perdido e conjurado. Mahler não sabe conservar a serenidade e a pachorra nesses momentos.”

Se, correndo-se o risco de ser mal-interpretado, se comparasse Mahler e Stravinski a correntes da psicologia, então Stravinski se alinharia com os arquétipos junguianos, enquanto que a consciência ilustrada da música de Mahler recorda o método catártico daquele Freud que, numa fase crítica de sua vida, renunciou à cura da doente por causa da causa [sexual] da histeria, no que por sinal se mostrara muito superior àqueles diáconos que despacharam Baudelaire com o diagnóstico de seu ‘complexo materno’.” Diácono é como o ajudante-do-padre, um zé-ninguém.

A história da música do século XX, na medida em que se orientava pela sensibilidade e pelo cromatismo, havia multiplicado enormemente as tensões e desvalorizado as distensões.”

Ali onde o composto são dois pontos ou uns sinais de interrogação, não cabe respondê-los com um mero sinal de pontuação, mas sempre somente com uma frase. (…) a música diz, de certo modo, voilà. Este momento o herdou logo a seguir Schönberg, cuja frase, a de que a teoria da música sempre trata somente do começo e da conclusão e nunca do que aparece no meio, alude a esse estado de coisas.”

A irrupção é sempre suspensão (…) mas nem toda suspensão é irrupção.” “da dialética não se pode saltar ao incondicionado sem perigo de recaída no inteiramente condicionado: ele evita pronunciar compositivamente o nome de Deus a fim de não entregá-lo a seu adversário.” “as suspensões dizem adeus à imanência da forma sem afirmar positivamente a presença do outro; auto-reflexões do preso em si, e não mais alegorias do absoluto.”

Para sua desconfiança da paz da era imperialista a guerra é o estado normal, e os homens soldados alistados contra a vontade.”

Se a ditadura não houvesse depravado a tal ponto a expressão ‘realismo socialista’, Mahler seria o único a quem ela conviria. Os compositores russos dos anos 60 soam como um Mahler contrafeito. Berg é o legítimo herdeiro desse espírito”

A humanidade de M. é uma massa de deserdados.”

Os relógios se chamam ao darem a hora e vê-se o fundo do tempo” Rilke

Mahler de Arquivo

PUXANDO SACO DO MESTRE: “Sobre sua metamorfose vela uma extrema precisão compositiva. Cada fenômeno, desde o movimento sinfônico inteiro até a frase ilhada, até o motivo e sua transformação, logra exata, univocamente, o que tem de lograr: isto a nova música, Berg sobretudo, copiou de Mahler. Neste as evoluções parecem dizer: isto é uma evolução; as interrupções se produzem de maneira indiscutivelmente brusca; se a música se abre, ouvimos os dois pontos; se se fecha [cumpre], a linha sobrepassa perceptivelmente em intensidade ao precedente e não abandona o nível alcançado. As resoluções claramente fulminam os contornos e a sonoridade. O marcato marca”

A norma de clareza a que ele submeteu rigorosamente sobretudo a instrumentação era resultado da autorreflexão compositiva” “quanto menos a música articula, mais deve se preocupar com essa articulação”

O todo, outrora o fundamento apriorístico da composição, se converte na tarefa de cada um dos movimentos mahlerianos.”

O impulso, o ímpeto sinfônico, era a capacidade da música para adquirir momentum, como sobretudo nos desenvolvimentos de Beethoven.”

Os movimentos de Mahler são rios em que afunda qualquer coisa que neles cai, sem que por isso absorvam jamais o determinado.”

Sua música, tonal, preponderantemente consonante, tem não poucas vezes o clima da dissonância absoluta, a negrura da nova música.”

BLACK METAL? “Tais instantes evocam a doutrina da mística judia que interpreta o mal e o destrutivo como manifestações dispersas da potência divina fragmentada; em conjunto, os rasgos mahlerianos nos quais se dependuraram os clichês de mente panteísta, caberia derivá-los antes de um estrato subterrâneo-místico do que da ominosa crença monista na natureza.”

O material sonoro mahleriano é caracterizado até na fisionomia dos instrumentos que saltam insubmissos do tutti: os emancipados trombones que perturbam o equilíbrio no primeiro movimento da Terceira; retumbantes, fragorosos motivos dos tímpanos na Primeira música noturna e no Scherzo da Sétima

Mahler trata a forma de maneira assistemática não por mera mentalidade do inovador, mas por conhecimento de que, diferente da arquitetura, o tempo musical não permite simples relações de simetria.”

assim tinham de ser os instrumentos infantis que ninguém nunca ouviu.”

Todas as obras de Mahler se comunicam subterraneamente, o mesmo que as de Kafka pelos passadiços intermináveis de seu famoso edifício. Nenhuma obra sua chega a ser uma mônada comparada às outras.”

Na Quarta escreve o contraponto a sério pela primeira vez”

es el intento solitario de comunicación musical con lo déjà vu, de color resistente como la imago del carromato de gitanos o del camarote del buque.”

Resgata a marcha, depreciada então pelos eruditos, ou seja, pela então ‘cultura’.

Como mais tarde ocorreu com o jazz, é provável que durante o séc. XIX um certo tipo de músicos sem pretensões artísticas conquanto qualificados como artesãos passou para a música militar e ali encontrou fórmulas compositivas exatamente apropriadas para uma corrente coletiva subjacente”

Como Eurídice, a música de Mahler foi raptada do reino dos mortos.”

Crianças que dificilmente entenderam corretamente (sic!) a completa e multidimensional música mahleriana, quiçá no terror tenham podido compreender melhor que os adultos a venturosa dor de canções como Andava alegre eu por um verde bosque.”

Pinta o paraíso com traços campesinos e antropomorfos, para anunciar que não existe.”

La increencia que subyace al cristianismo en todos los países convertidos a los que sometió, u en la cual se mezclan inextricablemente restos de una religión natural mítica con inicios de la Ilustración, entra en imágenes musicales de la fe.”

O tema principal, que ao não-inteirado soa como um regresso a Mozart ou a Haydn e que na verdade procede do conseqüente do tema cantável do Allegro moderato da Sonata para piano em si bemol maior, ópera 122 de Schubert, é o mais inautêntico de todos os mahlerianos.”

O chifre maravilhoso do rapaz – que nome!

El poema culmina en una cristología estrambótica, que sirve al Salvador como alimento para la famélica alma e involuntariamente acusa al cristianismo de ser una religión sacrificial mítica”

A teologia de M. é, uma vez mais como a de Kafka, gnóstica; sua sinfonia de conto de fadas é tão triste como as obras tardias.”

Em Strauss a caracterização fracassa porque ele define os significados puramente a partir do sujeito, autonomamente.”

para bem compreender Mahler nunca é necessário nenhum saber abstrato para além da manifestação fenomênica da própria música, nem é preciso recorrer a qualquer engrenagem de associações”

O momento reacionário da música de M. é sua ingenuidade.”

Duma espécie de mero ser-aí musical, aquele folclórico, hão de extrair-se mediações, o único que justificaria e dotaria de sentido. Do ponto de vista da filosofia da história a forma de M. se aproxima da novela. O material musical é pedestre, a execução, sublime. Essa foi a configuração conteúdo-estilo da novela-das-novelas, Madame Bovary.”

Na base da forma musical novelística há uma aversão que devia ser sentida já muito antes de Mahler, mas que ele foi o primeiro a não reprimir. Odeia saber de antemão como continua a música.”

O clássico desconjuntado

Ele podia reivindicar o subtítulo de Assim falou Zaratustra: ‘Música para todos e para ninguém’.”

Desde Kant e Beethoven, a filosofia e a música alemãs foram sistema. O que se lhe escapou, seu corretivo, se refugiou na literatura, na novela e numa tradição semi-apócrifa do drama, até que mais ou menos na virada para o XX a categoria da vida, lixiviada como cultura e já reacionária na maioria dos casos, se fez também acessível à filosofia. Diante disso, a música de Mahler assumiu originalmente o reconhecimento nietzschiano de que o sistema e sua unidade sem fissuras, a aparência de reconciliação, não era sincera. (…) O potencial para isso adveio-lhe da atmosfera austríaca inatacada pelo idealismo alemão, em parte até pré-burguesa, feudal, por outra parte cética à maneira de José II, enquanto M. tinha – ao mesmo tempo – a essência integral da sinfonia bastante presente como para protegê-lo de uma mentalidade formal que faria concessões demasiadas a uma audição atomista no sentido débil do termo.”

El trabajo temático de cuño beethoveniano, ese reflejo lúgubremente grandioso de una agudísima compresión del pensamiento y de una impertérrita consciencia de las metas, no encontró ya ninguna fundamentación interna en el nuevo estilo sinfónico (…) Así es como cayó la rígida temáticamente orgánica técnica de Beethoven, o más bien se convirtió en medio auxiliar de segundo orden.” Bekker

En Beethoven mismo la confianza en la plenitud extensiva y en la posibilidad de descubrir pasivamente una unidad en la multiplicidad contrapesó la idea estilística trágico-clasicista de una música del sujeto activo. Schubert, a quien esta última idea comienza ya a desvanecérsele, se ve tanto más atraído por el tipo épico de Beethoven. (…) De todas las preformas del modo mahleriano de configuración, quizá la más importante sea el primer movimiento de la Sinfonía en si menor de Schubert; Webern lo veneraba como una concepción totalmente fresca de lo sinfónico en general.”

Se não é verdadeiro o pronunciamento de Mahler sobre Bruckner, de que seu amigo seria ‘metade Deus, metade imbecil’, esta anedota foi, pelo menos, muito bem-inventada.”

Por mucho que los oscuros bosques vírgenes de Bruckner parezcan aventajar a la fraccionariedad de Mahler, ésta es superior a la leñosidad de Bruckner, a ese estatismo un poco empedernido que no tiene fundamento más firme que el hecho de que en San Florián Nietzsche todavía no era tema de conversación. Bruckner fue para Mahler lo mismo que Robert Walser fue para Kafka.”

empirismo musical”

O DOGMA VS. A FALTA DE SENTIDO: “La fraccionariedad del tono mahleriano es el eco de aquella aporía objetiva, de la escisión entre dios e imbécil.”

A sustentável gravidade de Mahler

Las obras de Mahler director de orquesta no están contagiadas por el gesto del hombre práctico que al componer en cierto modo chasquea los dedos y se cuida de que todo vaya rodado y, sobre todo, de que ningún oyente se distraiga.” “Tal desconsideración tiránica hacia el contexto de eficacia apoya a la intención épica; la indicación agógica ‘dejar tiempo’ que en ocasiones aparece describe todo su modo de reacción.”

Um tempo em que “la música ya no puede ni ‘narrar’ ni invitar a la danza.”

Es conocida la apasionada relación de Mahler con Dostoyevski, que hacia 1890 todavía representaba algo distinto que en la época de Möller van den Bruck.(*)

(*) Arthur Möller van den Bruck (1876-1930): escritor y politólogo alemán, traductor de Dostoyevski. En 1923 publicó El tercer imperio (Der dritte Reich), cuyo título adoptará como lema el nacionalsocliamo.”

Conta-se que, durante uma excursão com Schönberg e os discípulos deste, Mahler recomendou-lhes estudar menos contraponto e ler mais Dostoyevski, depois do quê ouviu-se a heroicamente tímida resposta de Webern: ‘Vai me perdoar, senhor diretor, mas nós temos Strindberg’. A anedota anônima lança luz sobre a diferença entre a concepção novelística [D.] da música e a expressionista [S.] da geração seguinte, já plenamente emancipada, de compositores.”

o elevar-se a grandes situações, o desmoronar-se em si (Quinta Sinfonia, 2º movimento)”

Realizam-se gestos como o da Natacha de O Idiota, que lança ao fogo os bilhetes de banco; ou como aquele em Balzac, quando o criminoso Jacques Collin, disfarçado de bispo espanhol, dissuade o jovem Lucien Rubempré do suicídio e promove-o a um splendeur em prestações; quiçá também como o de Ester, que se sacrificava pelo amado sem suspeitar de que, àquela altura, a roleta da vida já havia salvado a ambos de qualquer miséria. Como nas novelas, em Mahler a felicidade floresce à margem da catástrofe.”

O mesmo que a filosofia, que a Fenomenologia hegeliana, a música em Mahler é a vida objetal que volta uma vez mais através do sujeito, e a volta dessa vida no espaço interior a transfigura num absoluto espumante. A concreção da leitura de novelas está em outra dimensão que a percepção distinta dos acontecimentos.”

À música épica segue vedado o descrever o mundo a que ela se refere: é tão transparente quanto críptica.” “distanciar-se-ia do mundo se quisera simbolizá-lo ou, sobretudo, reproduzi-lo. Schopenhauer e a estética romântica experimentaram isto ali onde meditaram sobre o que há de imaginário e onírico na música.” “Enquanto realidade sui generis a música se torna essencial mediante a desrealização. Não é como se ela representasse um grau intermediário entre o real e o sonho ou a fantasia.”

M., por duas vezes, escreve ‘imaginário’ como indicação de execução: no Scherzo da Sétima e no primeiro movimento da Nona.” “No espaço musical floresce uma empiria de segundo grau, já não, como a outra, heterônoma à obra de arte. A interioridade da música assimila o exterior no lugar de apresentar, exteriorizar, o interior.” Não há nada oculto: é assim a realidade, quando se pára para ouvi-la.

Se o mundo se equiparasse imediatamente à essência – e, segundo viu Schopenhauer, a música é imediatamente essência –, a música seria a loucura. Toda grande música é um furto de loucura; em cada qual há uma identificação do interior com o externo, mas a loucura não tem nenhum poder sobre ela.”

O fato de que Mahler, que passou a vida toda na ópera e cujo movimento sinfônico corre em muitos aspectos paralelo ao da ópera, não escreveu nenhuma ópera pode explicar-se pela transfiguração do objetal no reino interior das imagens. Sua sinfonia é opera assoluta. Como a ópera, o sinfonismo novelístico de Mahler brota da paixão e flui detrás; a ópera e a novela conhecem, mais que a música absoluta, fragmentos de desfecho como os seus.”

Proust chamou a atenção sobre o fato de que na música às vezes novos temas conquistam o centro como faziam nas novelas figuras secundárias que até então haviam passado inadvertidas.”

A idéia classicista da sinfonia conta com uma multiplicidade definida, cerrada em si, como a Poética aristotélica com as 3 unidades.” “Os componentes temáticos imprevistos destroem a ficção de que a música é um puro contexto dedutivo em que tudo o que sucede se deduz com unívoca necessidade.”

Lamentar as longitudes mahlerianas não é mais digno que aquela mentalidade que vende mais barato versões abreviadas de Fielding, Balzac ou Dostoyevski.”

M. não faz concessão à comodidade do easy listening sem memória nem expectativa.”

Se aos contemporâneos de Beethoven o tempo acelerado de suas sinfonias estremecia-lhes os nervos como se dizia dos primeiros trens, quem sobreviveu 50 anos a Mahler estremece-se com ele igual os habitués de viagens de avião quando viajam de navio. A duração mahleriana recorda-os que eles mesmos perderam duração; talvez temam não viver, em absoluto. Isso eles reprimem com aquela superioridade do homem importante que certifica não ter tempo, e com isso divulga sua própria verdade ignominiosa. É absurdo fazer Mahler e Bruckner consumíveis mediante cortes que, como disse Otto Klemperer, aumentam, em vez de encurtar, seus movimentos.”

A irracionalidade dos textos do Corno maravilhoso, tendente ao absurdo, produzida pela montagem de poemas divergentes, assinalada por Goethe em sua recensão, é reivindicada pelo modo de compor de Mahler”

Enquanto estróficas, as canções mahlerianas têm a objetividade das baladas, ao passo que a lírica subjetiva sacrifica a estrutura estrófica à poética, e à forma musical.”

Que a música disserta sobre si mesma, que se tem a si mesma por conteúdo, que narra sem nada narrar, não é tautologia, tampouco uma metáfora do porte de narrador que inquestionavelmente é muitas vezes o de Mahler.” “Assim como o narrador, a música de Mahler nunca diz duas vezes o mesmo do mesmo modo: assim intervém a subjetividade.”

Rewelge, com a indicação de execução ‘De contínuo’ confirma a exceção à regra total mahleriana, por tratar-se de uma marcha, que nem sequer a morte interrompe.”

Mahler se oponía al piano en cuanto el instrumento ya en su época reificadamente tableteante de la lírica subjetiva, mientras que la orquesta era capaz de dos cosas: registrar exactamente la representación compositiva en un color concreto y, gracias al volumen coral que conserva incluso en pianissimo, producir una especie de grandeza interior.”

Da intemporalidade do sempre igual Mahler faz surgir o tempo histórico. Com isso assume a originária tendência anti-mitológica do epos e portanto, e acima de tudo, da novela. (…) O que esses estilos têm de resolver é a recapitulação. Ou bem a resumem tanto que ela mal é considerada, em contraste, diante da prepotência do desenvolvimento, ou bem modificam-na radicalmente.”

No primeiro movimento da Terceira é chocante a renúncia a todas as categorias de mediação tradicionais. Analogamente ao Schönberg expressionista, não se põe muito cuidado a fim de erigir pontes entre os complexos. Com bárbara insolência, Mahler une-os precisamente com o mero ritmo de percussão, uma palpitação abstrata do tempo.” “M. serve migalhas, não caldo.”

O movimento se estira e estende em todas as dimensões como o corpo de um gigante. A polifonia não lhe interessa. O modelo principal do desenvolvimento, a entrada em si bemol menor, é certamente apresentado durante um par de compassos, como se estivesse prestes a ser fugado, porém, contra todas as regras da fuga, se aferra então a uma nota, e quem esperava a bem-educada resposta fica estalado em seu assento.”

Com grande esforço, por exemplo mediante o estudo ulterior de Bach, tem M. de adquirir o que compositores como Debussy, que estão impregnados de sua cultura, já trazem consigo. Os meios existentes não se adaptam à intenção mahleriana, que tende ao que não existe. Não só tem de aprender, como evitar de incorporar, como o saturado som de Wagner ou o ímpeto do, ainda em seus excessos, amável Strauss, que corre com desenfreio ao total.”

A partir da oposição à maestria dos outros, que havia degenerado em destreza; a partir das torpezas sem afetação e provocativas da Primeira e da Terceira, se restitui uma maestria que acaba por deixar debaixo de si, à mercê da identidade entre o composto e a manifestação fenomênica, o nível técnico da época”

O fato de que cada obra de Mahler critica a precedente faz dele o compositor evolutivo por excelência (…) o que ele melhora sempre se converte em algo distinto; daí a muito pouco bruckneriana policromia da sucessão de suas sinfonias.” “A Bekker não escapara que as últimas peças de quem mal chegou aos 50 são obras tardias no sentido mais explícito: exteriorizam o insensivelmente interior. Mas até que ponto contribuiu a vontade crítica de M. para sua evolução já se pode provar na época intermediária, muito antes disso.” “O salto qualitativo a partir da Quarta é indiscutível. (…) O que antes foi esboçado agora é desenvolvido.”

Analogamente a Wagner, sua obra sonha com um compor sem aparências, sóbria, não-transfiguradora.”

Mahler reagiu violentamente contra a estupidez musical, que no séc. XX se expandiu não menos que no XVIII e no XVII; a repetição infantil repugnava-lhe. E, paradoxalmente, era consciente de que o elemento tectônico, tal como primitivamente o representa a repetição, não pode ser extirpado.”

Qualquer série beethoveniana de variações se poderia comparar a uma canção qualquer de Mahler, como a Canção noturna da sentinela. O que em Beethoven se mantém fixo é (…) a condução das harmonias sobre um baixo contínuo; outros momentos, como as unidades do movimento ou a situação dos componentes motívicos principais, se alteram conseqüentemente de variação em variação. (…) Em Mahler, ao contrário, por todas as partes a estrutura geral se conserva de maneira inconfundível, porém por todas as partes também se introduziram fintas; proporções harmônicas como as de sonoridades em maior e em menor se inverteram com respeito a sua primeira aparição e, portanto, revogou-se a posteriori a formulação inicial do tema, como se esta se houvesse entregue ao capricho improvisatório.”

Se pintor fosse, Mahler seria aquele que pinta primeiro os contornos para depois preenchê-los. Beethoven faz tudo de imediato, de dentro para fora.

Tal largesse no tratamento do material, por sua vez contrária ao princípio de economia beethoveniano-brahmsiano, legitima tecnicamente a grande escala do sinfonismo épico de Mahler.”

O princípio da variante surge na canção estrófica variada na medida em que suas estrofes nunca podem ser profundamente variadas. Tão antipsicológicas como as baladas, retornam formulaicamente como refrões e são, não obstante, tão pouco rígidas como as fórmulas homéricas. O que aconteceu antes e o que virá a acontecer as afeta.”

O núcleo idêntico fixo, embora exista, dificilmente se deixa assinalar com o dedo: como se se subtraíra à escritura mensural.” “Paul Bekker constatou que o tema andante da Sexta Sinfonia, uma melodia perfeitamente fechada, tende, por assim dizer, a ser olvidado durante a peça.” “A propósito de temas que são conservados mas não firmemente coagulados e que emergem de um mundo de imagens coletivo, caberia pensar em Stravinski. Mas Mahler não são ‘cubos irregulares’, ‘montados obliquamente’, ‘desvinculados entre si’. (…) Seu princípio não é a violência.”

O tema minore do primeiro movimento da Nona sinfonia, p.ex., contém um sol sustenido impróprio à escala, o qual determina o caráter dissonante de todo o complexo em si; mas precisamente este sol sustenido ou seu equivalente é logo substituído muitas vezes por um lá, isto é, a quinta justa da tônica de ré menor. Em sua análise Werwin Ratz mostrou detalhadamente a função conformadora justamente da troca de ambas as notas críticas.”

O movimento, que recorre [percorre de novo] imensos lapsos temporais, logra a quadratura do círculo: é de uma só vez dinâmico e tectônico, sem que um princípio anule o outro.”

A recapitulação era a cruz da forma sonata. Revogava o que a partir de Beethoven era o decisivo, o dinamismo do desenvolvimento, de maneira comparável ao efeito de um filme no espectador que, depois do final, permanece sentado e vê uma vez mais o começo. Beethoven solucionou-o mediante um tour de force que para ele se converteu em regra: no frutífero momento do começo da recapitulação, apresenta o resultado do dinamismo do devir, como a confirmação e justificação do já-sido, do que em qualquer caso foi. Esta é sua cumplicidade com a culpa dos grandes sistemas idealistas, com o dialético Hegel, no qual ao fim a quintessência das negações, e portanto do mesmo devir, desemboca na teodicéia do que é. Na recapitulação a música, enquanto ritual da liberdade burguesa, seguia, o mesmo que a sociedade na qual é e que é nela, submetida à servidão mítica. Manipula o contexto natural que gira em si, como se o que retorna fôra, em virtude de seu mero retorno, mais do que é, o sentido metafísico mesmo, a <idéia>. Mas, pelo contrário, uma música sem recapitulação conserva algo de (não meramente desde o ponto de vista culinário) insatisfatório, desproporcionado, abrupto: como se lhe faltasse algo, como se não tivera um final. Com efeito, toda a nova música está atormentada pela questão de como poderia concluir, não só cessar, depois de que o deixaram de conseguir as formações conclusivas cadenciais, as quais têm elas mesmos algo da essência da recapitulação, que, se se quer, transporta em grande escala a fórmula cadencial. Mas a chegada de Mahler à alternativa converge com a das maiores novelas de sua geração. Ali onde, por razões formais, repete algo passado, não canta o elogio disto ou da caducidade mesma. Mediante a variante, sua música recorda desde longe o passado, o semi-esquecido, eleva um protesto contra sua superfluidade absoluta e o determina, todavia, como algo efêmero, irrecuperável. Sua idéia tem essa fidelidade redentora.”

Quando na Nona sinfonia Mahler abandonou a sonata, revelou meramente aquilo a que subcutaneamente se presta toda sua obra.” “Na Primeira a breve exposição allegro era já monotemática; falta o ortodoxo tema cantável.” “Na Terceira a sonata é derrotada, pois segundo os critérios desta a introdução, o tema principal da exposição e o desenvolvimento resultam desproporcionais. Por suposto, o primeiro movimento da Quarta é sonata, mas arcaica, como antes já o primeiro movimento da Oitava de Beethoven; para uma sonata propriamente dita o segundo tema seria uma canção instrumental demasiado independente (…) é só retrospectivamente que os pensamentos contrastantes se convertem numa unidade bastante ramificada no desenvolvimento, o primeiro mahleriano que desdobra didaticamente os componentes da exposição: com ele, arranca verdadeiramente o movimento como história. A coda completa o que a recapitulação ortodoxa omitira no começo. Em que pese tudo isso, este movimento renega também a essência sonatística não só porque tudo está composto ‘entre aspas’, porque a música parece dizer: ‘Era uma vez uma sonata’, como também porque tecnicamente os complexos da exposição se diferem tanto, estão tão energicamente separados, que de antemão se negam a aceitar um veredito.”

De todo modo, a composição épica nunca foi a mera antítese do dramático, mas, como na novela literária, vizinha dele nos impulsos, nas tensões, nas explosões.” “A tragédia rechaça a forma nominalista. A tonalidade, que para sua própria glória sanciona o afundamento do individual, ao qual não resta nenhuma opção ademais de afundar-se, domina indiscutível. A emancipação mahleriana em relação à sonata havia sido mediada pela própria sonata. Ele absorveu sua idéia nas sinfonias intermediárias para no final configurar de tal maneira que cada compasso esteja à mesma distância do centro.”

O tema principal não segue imediatamente, como manda a tradição, a introdução: chega-se a ele através de um breve allegro moderato que modula da tonalidade inicial de dó menor à tonalidade principal de lá menor; dessa versão intermediária do primeiro tema Mahler se recorda mais tarde num dos modelos mais importantes de desenvolvimento.”

Mediante o drástico dualismo de tema principal e secundário, renuncia-se a um grupo conclusivo prolixo ou a um terceiro tema.”

grandes novelistas como Jacobsen puderam omitir períodos inteiros da vida de seus heróis e com súbita resolução iluminar fases críticas de sua vida; o que Jacobsen abraçou expressamente como princípio da ‘má composição’, no grande experimento formal de Mahler se converte também no princípio de uma boa composição.”

Na Sétima, notas acrescidas fazem com que o maior resplandeça como uma espécie de supermaior, como o famoso acorde do Adagio da Nona de Bruckner.”

O nominalismo mahleriano, a crítica das formas por meio do impulso específico, afeta também o tipo de movimento que, herança da suite, se havia mantido desde Haydn com a máxima tenacidade, o minueto e o scherzo; só em Mendelssohn se havia pensado doutro modo.” “Com um esforço que ele mesmo teve de sentir como extraordinário, na Quinta M. concebe o novum do scherzo como desenvolvimento.”

la mayor parte de las veces el concepto de banalidad en Mahler aísla ergotistamente dimensiones individuales, ciego al hecho de que en él sólo la relación entre ellas, y no ninguna singular, define el carácter, la ‘originalidad’.”

A preocupação com uma reprodução correta se converteu em cânon da composição. Compor de tal modo que a execução não possa destruir a música, i.e., eliminá-la já virtualmente, significa, ao mesmo tempo, compor de maneira inteiramente clara, unívoca.”

A integração crescente do procedimento compositivo mahleriano não reduz, como muitas vezes depois dele, a substancialidade das dimensões individuais, senão que é ela somente a que lhes confere autenticamente relevo; o todo robustece retroativamente os momentos que o produziram. No Mahler jovem a harmonia tinha certamente suas peculiaridades, mas não era ainda um meio autônomo.”

Alban Berg chamou a atenção sobre o exemplo mais belo da interdependência entre o melodicismo e a harmonia no jovem Mahler, aquela frase intermediária da donzela na Canção noturna da sentinela, onde uma curva com amplos intervalos e a rítmica alternante entre compassos binários e ternários se reflete em progressões acórdicas e sonoridades de profunda corporeidade, como aquela em que as notas dó-si-ré sustenido-fá sustenido-ré chocam sem que ela, deduzida da condução das vozes, se converta numa mancha na textura harmônica”

De forma análoga à harmonia, o contraponto de Mahler se robustece com a maior densidade da textura sinfônica. A primeira vez em que Mahler dedicou-lhe atenção foi na Quarta, para, então, na Quinta e posteriormente, integrá-lo à forma total como dimensão compositiva.”

Algo bastante excepcional, no Conservatório de Viena se o dispensou do estudo do contraponto com base em suas próprias composições da época escolar. Segundo conta Natalie Bauer-Lechner, Mahler não demoraria a se lamentar por isso: ‘Porque, curiosamente, eu, desde sempre, nunca pude pensar mais que polifonicamente! Mas aqui, hoje, segue-me faltando, provavelmente, o contraponto, a escritura pura, que a qualquer estudante que nele se tenha exercitado pareceria mero jogo. (…) Agora compreendo que Schubert, segundo consta, até pouco antes de morrer quis estudar contraponto! Ele sentia até que ponto lhe fazia falta… E eu posso sentir o mesmo, posto que eu mesmo, desde os tempos de estudante, careço igualmente dessa capacidade e de uma prática correta, 100%, em contraponto. Em mim, de qualquer forma, o intelecto ocupa seu lugar, mas o gasto de forças que isso exige é desproporcionalmente grande.’” “Com ‘polifonia’, Mahler queria dizer, evidentemente, aquela propensão ao que soa caótico-desorganizado, à simultaneidade sem regras, contingente, do ‘mundo’ em cujo eco sua música quer se converter mediante sua organização artística.”

Como seu material estava antiquado, como o novo ainda não estava liberado, em Mahler o antiquado, o que ficara pelo meio do caminho, se converteu no criptograma das sonoridades ainda não ouvidas que chegariam mais tarde. O que lhe falta de imediatez do fenômeno musical é o que, graças a tal negatividade, o vestígio do sofrimento passado em sua linguagem, o faz superior a Bruckner.

Até que ponto a negatividade musicalmente imanente de Mahler se opõe ao entusiasta programa berlioz-lisztiano mostra-o o fato de que as novelas não têm nem veneram heróis como proclamam dois dos títulos de Strauss e incontáveis de Liszt. Inclusive no Finale da Sexta, apesar dos golpes de martelo, que por certo ainda hoje não se ouviram adequadamente e sem dúvida aguardam a realização eletrônica, alguém esperará em vão ao supostamente tocado pelo destino. [?]” Peçamos ao Ministry ou ao Nine Inch Nails esse inusitado ‘cover’!…

Erwin Ratz, Sobre el problema de la forma en Gustav Mahler. Un análisis del Finale de la Sexta sinfonía

em Reger o melodicismo se atomiza até se converter em pequenos intervalos de segundo plano desprovidos de qualquer qualidade, os quais vão colando uma harmonia com a outra. A técnica strauss-berlioziana do imprévu, da interrupção como efeito, da surpresa permanente, trata de paliar esta carência fazendo dela um principium stilisationis. Mahler extraiu a conseqüência inversa, impôs a melodia ali onde esta já não quer estar e com isso conferiu seu cachet às melodias mesmas, de modo remotamente análogo à maneira beethoveniana de represar o fluxo tonal mediante a implantação de sforzati e deixando ali, por assim dizer, as digitais da subjetividade. ‘Como fustigado’, reza em uma ocasião o Scherzo da Sexta. Desde a longa melodia do Finale da Primeira, M. tem com seus temas tão pouca contemplação como com seus cavalos esgotados tem um cocheiro obcecado com a meta.” “Rir-se dessas passagens heréticas de Mahler é sempre também solidário para com este mesmo; o ouvinte põe-se, assim, de seu lado.”

A obra com que sem dúvida a maioria aprendeu a amar Mahler, a Segunda sinfonia, é a que provavelmente se desvanecerá mais depressa em razão da loquacidade do 1º movimento e do Scherzo, de certo primitivismo no Finale da ressurreição.”

sua incapacidade subjetiva para o happy end denuncia este mesmo happy end

DICAS DE INICIAÇÃO

WAGNER

Ouvir primeiro OS MESTRES CANTORES.

MAHLER

A Primeira Sinfonia é experimental. É o antiformalismo encarnado, evade a monumentalidade, que se tornou quase sinônima de “sinfonia” desde a Nona de Beethoven. A Quarta é a primeira do “Mahler maduro”.

DICIONÁRIO POLIGLOTA MUSICAL (E ÀS VEZES ALGO MAIS)

BAR (ALEMÃO): “É o nome que recebe a forma tripartida das canções dos menestréis e mestres cantores alemães. Compõe-se de duas estrofes ascendentes chamadas Stollen e de uma terceira contrastante, o Abgesang, de melodia descendente.” “Que, até o seu renascimento em Wagner, durante toda a era do baixo contínuo mal se escrevessem Abgesänge, isso se explica sem dúvida pelo fato de que, enquanto cumprimento [encerramento] de um contexto musical mediante algo essencialmente novo, colidiam os Abgesänge com a idéia do hermetismo imanente à música moderna, cujo princípio econômico permitia obter tudo como rendimentos de um bem original.” Em outros termos, a música não “necessitava” dos Abgesänge em sua fase clássica final (pré-Mahler).

CANTABILE (ITALIANO): Música instrumental com o intuito de imitar a voz humana.

CROMATISMO: “É uma frase musical formada com notas da escala cromática (formada por 12 semitons). É o uso das notas cromáticas em uma composição tonal, com a intenção de gerar tensão (melódica ou harmônica), prolongando a música (desenvolvimento tonal) e adiando a resolução melódica. À medida que os compositores da segunda metade do XIX expandiram os conceitos da música tonal, com novas combinações de acordes, tonalidades e recursos harmônicos, a escala cromática e os cromatismos se tornaram mais freqüentes. Como elemento expressivo, esta técnica encontrou seu auge no final do período romântico, com Liszt, M. e W..”

ENARMÔNICO: “Diz-se de notas de nomes distintos, mas que, por efeito dos sustenidos e dos bemóis, têm a mesma entonação.”

IMPASTO (ITALIANO, Pintura): “Impasto é uma técnica em que a tinta (em particular a de óleo) é espalhada numa área da tela, ou mesmo na tela inteira, de forma tão espessa que as marcas dos objetos utilizados para pintar (p.ex. pincel, espátula) são visíveis na pintura. A tinta também pode ser misturada diretamente na tela. Quando fica seco, o impasto dá textura e relevo à representação. O termo impasto tem origem italiana e quer dizer <mistura>. O impasto ganhou notoriedade nas pinturas de artistas venezianos, como  Titian e Tintoretto, além de ser possível observá-lo nas paisagens naturalista e romântica do séc. XIX. A técnica foi imposta como uma maneira de ressignificar a superfície das obras, que deveria ter sua própria realidade e profundidade, ao invés de ser apenas uma janela para um mundo imaginativo e ilusionista. Este método também pode ser definido pelo termo pictórico, no qual a aplicação de tinta é feita de forma <solta> ou menos controlada, causando efeitos sensoriais e visuais.” A razão da inclusão deste verbete é que Strauss chama alguns trechos do Lohengrin de impastos das madeiras, associando som, cor e textura à obra de W.. Mas não sei se a expressão tem sentido apenas sinestésico se referindo a um amálgama sensorial ou também ao entalhe dos instrumentos de madeira, uma vez que a palavra impasto também é usada para obturação e preenchimento em português! Cf. p. 71: “As madeiras hão de constituir, por assim dizer, o contrapeso objetivo ao espressivo subjetivo das cordas.” & “Na frase antecedente, as vozes das madeiras, e certamente também em piano (ver abaixo), aparecem totalmente dobradas. A razão imediata é a obrigação de corrigir uma certa heterogeneidade. As flautas são, por um lado, menos resistentes; por outro, mais difíceis de emplastrar/revestir que os clarinetes; são demasiado débeis e, sem embargo, se apartam da cor total.”

MONODIA: “Canção, ordinariamente triste, entoada por uma única voz, sem acompanhamento.”

PIANO (ITALIANO): Uma dentre diversas notações utilizadas na escala musical: p (piano) para indicar um trecho de calmaria ou quietude, ou seja, altura do som baixo (em termos de volume da música mesmo); pp (pianissimo) para indicar o superlativo; além de outras expressões como forte, fortissimo (altura do som alto ou altíssimo), etc. Essas notações integram a parte da Música Clássica chamada de Dinâmica. Um interessante resquício da “música analógica” para se ver e ouvir hoje em dia! Outras indicações:

mp – mezzo-piano

mf – mezzo-forte

ppp – pianississimo

fff – fortississimo

pppppp (!) – usado por Tchaikovski

SCHERZO (ITALIANO): Seção de uma sinfonia ou sonata.

DICIONÁRIO LINGÜÍSTICO PROSAICO

atañer: dizer respeito

campechanía: franqueza, cinismo

Helle: claridade

Hölle: inferno

pintarrajo: rabisco, esboço (desenho)

soltar los gallos: mentir, falhar a voz, sair do tom, embargar o discurso.

CE QUE L’ANTISÉMITISME ENSEIGNE À LA PSYCHANALYSE: Une puissance sombre au commande (doctorat) – Sarah Abitbol, 2018.

INTRODUCTION (futuras leituras)

Poliakov, L’histoire de l’antisémitisme

______, La causalité diabolique

Lanzmann, Shoah

Bensoussan, Auschwitz en héritage

Sternhell, Histoire et lumières

Sartre, Réflexions sur la question juive

PREMIÈRE PARTIE. FREUD

(…)

DEUXIÈME PARTIE. LES DISCIPLES DE FREUD

« Pour Jones, la solution d’un état juif est compliquée pour deux raisons. Premièrement parce que le mouvement sioniste affirme avec plus de détermination que jamais être un peuple distinct et séparé, et entend préserver sa caractéristique nationale comme les autres nations. Cette revendication est juste, mais comme elle est une des causes fondamentale de l’antisémitisme, elle risque de l’exacerber. Deuxièmement, un état juif alors que la majorité des Juifs vivront toujours dans des pays étrangers ne sera jamais accepté par les Gentils; ce sera interprété comme une arrogance. Cette question: pourquoi ne partez-vous pas vivre en Palestine, sera posée de plus en plus souvent. Tout cela est sans doute confirmé, pour Jones, par l’augmentation de l’antisémitisme depuis la montée du sionisme. » Nunca achei que concordaria com Jones em alguma coisa!

« L’assimilation est la solution, pour Jones, qui s’avère être la plus juste. Aucun peuple ne peut garder indéfiniment son identité séparée; et les Juifs sont soumis aux mêmes lois historiques et sociales que les autres peuples. L’argument logique des Juifs d’Allemagne assimilés à la culture environnante, et à qui Hitler a rappelé qu’ils étaient Juifs, n’est pas justifié. Il faut avoir à l’esprit qu’une assimilation ne peut pas se faire en l’espace d’un siècle et seulement grâce à des tentatives individuelles. Il faut des siècles, l’histoire l’a montré, par exemple, avec les Normands d’Angleterre où il a fallu quatre cents ans pour qu’ils se fondent aux Anglais. »

TROISIÈME PARTIE. LACAN

(…)

QUATRIÈME PARTIE. VOIX CONTEMPORAINES

1. L’ANTISÉMITISME DANS LA LANGUE

« Je veux que chaque Juif vive dans la peur, sauf s’il est pro-palestinien… Qu’ils meurent! Ils me font chier. Ça fait 2000 ans qu’ils nous font chier. Il faut les euthanasier. » Siné, 1982

« Je comprends Hitler. Je pense qu’il a fait de mauvaises choses, absolument, mais je peux l’imaginer assis dans son bunker à la fin… je ne suis pas contre les juifs. Je suis avec les juifs bien sûr, mais pas trop… Parce que Israël fait vraiment chier… Je dis que je comprends l’homme. Ce n’est pas vraiment un brave type, mais […] je compatis un peu avec lui… » Lars Von Trier

« Qui peut croire qu’il y a dans les manifestations pour Gaza de l’antisémitisme? » Jean-Luc Mélenchon, 2014

Vejo que a autora dessa tese confunde anti-sionismo com anti-semitismo ortodoxo!

« Stop au génocide palestinien,

Stop au terrorisme juif Hitlérien,

Gaza, la nouvelle Shoah! » Manifestation, 2009

« Je constate qu’après la constitution de leur état, les Juifs, de victimes, sont devenus des bourreaux » Abbé Pierre, 1991

« Si on compare notre époque à celle de l’avant-guerre, on pourrait dire qu’aujourd’hui le musulman, suivi de près par le maghrébin, a remplacé le Juif dans les représentations et la construction d’un bouc émissaire… l’islamophobie a pris la relève de l’antisémitisme, les anti-juifs d’hier sesont convertis à l’islamophobie… » Nonna Mayer, Guy Michelat, Vincent Tiberj, 2012

« Avec l’argent public, on fait 150 films sur la Shoah, moi je demande de faire un film sur la traite des Noirs et on me dit que ce n’est pas un sujet. » Dieudonné, 2005

« Les sionistes ont une sorte d’impunité. Eux, dans une école, il suffit qu’un petit soit traité de sale juif pour que tout le monde se lève. Pour moi, le sionisme, c’est le sida du judaïsme » idem, ib.

« La république n’est pas juste avec ses enfants… il y a des chouchous dans la maison… rien n’est plus abject que l’instrumentalisation politique de la souffrance, comme la pratique de l’état d’Israël. L’antisémitisme ne correspond à aucune réalité sur le terrain. C’est un instrument de chantage politique. » idem, ib.

« On se prostitue avec l’argent des victimes de la Shoah. On en fait un business c’est obscène. » idem, ib.

« L’État Islamique, je vous le dit est une organisation sioniste américaine… méfiez-vous des impérialistes. Ils sont vicieux et collaborent avec les sionistes pour contrôler le monde entier » Leila Khaled, 2015

« À chaque divorce moi je vous le dis, il y a un sioniste derrière » Yahia Gouasmi, 2009

HAHHAHAHAAHA!

« Tout ce qui se passe dans le monde aujourd’hui est la faute des sionistes. Les Juifs Américains sont derrière la crise économique mondiale qui a aussi frappé la Grèce » Mikis Theodorakis, 2011

« Les télés, elles ne parlent pas de nos manifs pour Gaza, pourquoi? de toute façon, Ils contrôlent tout, les Juifs » Manifestation, 2014

« CRS, milice des Juifs!

Juif, casse-toi,

La France n’est pas à toi! » idem

Por que será que onde há milícia há fogo? Digo, onde há fumaça… Ops, mais uma vez: onde há milícia, há fascismo? É uma lei universal!

« Si aujourd’hui on est flingué dans les médias, c’est les grands financiers, l’ultralibéralisme qui tient tout et derrière on retrouve le sionisme en premier. Regarde le nombre de feujs dans les postes-clés dans les médias, dans l’État et les universités. » Enquête sociologique

« Je n’ai pas à choisir entre les Juifs et les nazis, je suis neutre dans cette affaire » Dieudonné

« Mais ce qui est particulier et nouveau dans ces énoncés contemporains et que nous relevons ici, c’est que l’antisémitisme est recouvert par l’antisionisme dans la majorité des énoncés. »

2. VOIX LOGIQUE, VOIX PHILOSOPHIQUE, VOIX PSYCHANALYTIQUE

O ESTADO ISRAELITA (O PRIMEIRO ESTADO-NAÇÃO PARACIVIL DA HISTÓRIA) ALÉM DO BEM E DO MAL: Em vez de procurar significados ocultos, que tal reconhecer o neofascismo? Tarefa difícil! Diria sem medo que não fôra F. e a histeria chamada psicanálise, dificilmente teríamos hoje no discurso popular, se é que há!, antissemitismo disfarçado de anti-sionismo: o que cria a facilidade de usar máscaras e disfarces psicanalíticos é a própria psicanálise que vê disfarces em tudo, ora bolas! Mas e quando há o que se diz e não uma explicação freudo-mirabolante? Se a psicanálise é endeusada na França, não podemos ver que o antissemitismo popular franco não é senão uma resposta à alta judeidade dos altos cargos franceses?!

MOISÉS E O MONOTEÍSMO

Strachey

Essas irregularidades são desconhecidas nos outros trabalhos de Freud, ele próprio as aponta e por elas se desculpa mais de uma vez.” “A totalidade da obra, naturalmente, deve ser encarada como continuação dos primeiros estudos de Freud sobre as origens da organização social humana em Totem e Tabu (1912-13) e Psicologia de Grupo (1921c).”

A escolha parece ser bastante governada pela nacionalidade. Assim, no passado, os egiptólogos ingleses inclinavam-se por Akhnaton, os alemães preferiam Echnaton, os americanos (Breasted) escolheram Ikhnaton e o grande francês (Maspero) decidiu-se por Khouniatonou. Defrontado por essas alternativas sedutoras, o presente tradutor recaiu na versão trivial que por muitos anos tem sido adotada pelo Journal of Egyptian Archaelogy e agora parece ser a que se está tornando mais geralmente aceita, pelo menos nos países de fala inglesa: Akhenaten. Esta mesma autoridade foi geralmente seguida na transcrição de todos os outros nomes egípcios.

Com referência aos nomes do Antigo Testamento, a resposta foi mais simples, e empregaram-se as formas encontradas na Versão Autorizada Inglesa. Deve-se acrescentar, contudo, que o nome imencionável da Divindade recebeu aqui a transcrição normalmente encontrada nas obras dos estudiosos ingleses: Yahweh (Javé ou Iavé).”

1. Moisés, um egípcio

Se viveu, foi no décimo terceiro – embora possa ter sido no décimo quarto – século antes de Cristo. Não possuímos informações sobre ele, exceto as oriundas dos livros sagrados dos judeus e de suas tradições, tal como registradas por escrito. Embora à decisão sobre o assunto falte certeza final, uma esmagadora maioria de historiadores pronunciou-se em favor da opinião de que Moisés foi uma pessoa real e que o Êxodo do Egito a ele associado realmente aconteceu. Argumenta-se que, se essa premissa não fosse aceita, a história posterior do povo de Israel seria incompreensível. Na verdade, a ciência hoje tornou-se em geral muito mais circunspecta, e trata as tradições de modo muito mais indulgente [?] do que nos primeiros dias da crítica histórica.”

em primeiro lugar, é absurdo atribuir a uma princesa egípcia uma derivação do nome a partir do hebraico, e, em segundo, as águas de onde a criança foi tirada muito provavelmente não foram as do Nilo.”

Breasted, History of Egypt: “É importante notar que seu nome, Moisés, era egípcio. Ele é simplesmente a palavra egípcia ‘mose’, que significa ‘criança’, e constitui uma abreviação da forma mais completa de nomes tais como ‘Amon-mose’, significando ‘Amon-uma-criança’, ou ‘Ptah-mose’, significando ‘Ptah-uma-criança’, sendo essas próprias formas, semelhantemente, abreviações da forma completa ‘Amon-(deu)-uma-criança’ ou ‘Ptah-(deu)-uma-criança’. A abreviação ‘criança’ cedo tornou-se uma forma breve e conveniente para designar o complicado nome completo, e o nome Mós ou Més (Mose), ‘criança’, não é incomum nos monumentos egípcios. O pai de Moisés indubitavelmente prefixou ao nome do filho o de um deus egípcio como Amon ou Ptah, e esse nome divino perdeu-se gradativamente no uso corrente, até que o menino foi chamado ‘Mose’. (O s final constitui um acréscimo tirado da tradução grega do Antigo Testamento. Ele não se acha no hebraico, que tem ‘Mosheh’)”

Assim, de modo algum ficamos surpresos por vermos confirmado que o poeta Chamisso era francês de nascimento, que Napoleão Bonaparte, por outro lado, era de origem italiana, e que Benjamim Disraeli era na verdade um judeu italiano, tal como esperaríamos de seu nome.”

A mais antiga das figuras históricas a quem esse mito de nascimento está ligado é Sargão de Agade, fundador de Babilônia (por volta de 2800 a.C.). Para nós, em particular, não deixará de ter interesse citar a descrição desse mito, atribuída a ele próprio:

Sargão, o poderoso Rei, o Rei de Agade, sou eu. Minha mãe era uma vestal, a meu pai não conheci, ao passo que o irmão de meu pai morava nas montanhas. Em minha cidade, Azupirani, que fica à margem do Eufrates, minha mãe, a vestal, concebeu-me. Em segredo ela me teve. Depositou-me num caixote feito de caniços, tampou a abertura com piche, e abandonou-me ao rio, que não me afogou. O rio me conduziu até Akki, o tirador de água. Akki, o tirador de água, na bondade de seu coração, tirou-me para fora. Akki, o tirador de água, criou-me como seu próprio filho. Akki, o tirador de água, fez-me seu jardineiro. Enquanto eu trabalhava como jardineiro, a deusa Ishtar ficou gostando de mim; tornei-me Rei e, por 45 anos, governei regiamente.” Até Hiei, o Andarilho Triclope obedece a esta fórmula mítica.

Os nomes que nos são mais familiares na série que começa com Sargão de Agade são Moisés, Ciro e Rômulo. Mas, além destes, Rank reuniu grande número de outras figuras heróicas da poesia ou da lenda, de quem se conta a mesma história a respeito de sua juventude, quer em sua totalidade quer em fragmentos facilmente reconhecíveis, incluindo Édipo, Karna, Páris, Telefos, Perseu, Héracles, Gilgamesh, Anfion e Zetos, e outros.”

Para os medos, Ciro foi um conquistador estrangeiro, mas, mediante uma lenda de abandono, tornou-se neto de seu rei. A mesma coisa se aplica a Rômulo. Se tal pessoa existiu, deve ter sido um aventureiro de origem desconhecida, um adventício; a lenda, contudo, fê-lo descendente e herdeiro da casa real de Alba Longa.”

Eduard Meyer, e outros que o seguiram, presumiram que, originalmente, a lenda foi diferente. O faraó, segundo eles, fôra advertido por um sonho profético de que um filho nascido de sua filha traria perigo para ele e para seu reino. Dessa maneira, fez com que a criança fosse abandonada no Nilo, depois do nascimento, mas ela foi salva por judeus e criada como filho deles. Por “motivos nacionalistas” (Rank), a lenda teria então recebido a forma modificada segundo a qual a conhecemos.”

2. Se Moisés fosse egípcio…

Na religião egípcia, há uma quantidade quase inumerável de divindades de dignidade e origem variáveis: algumas personificações de grandes forças naturais como o Céu e a Terra, o Sol e a Lua, uma abstração ocasional como Ma’at (Verdade ou Justiça), ou uma caricatura como Bes, semelhante a um anão. A maioria delas, porém, são deuses locais, a datar do período em que o país estava dividido em numerosas províncias, deuses com a forma de animais, como se ainda não tivessem completado sua evolução a partir dos antigos animais totêmicos, sem distinções nítidas entre eles, mas diferindo nas funções que lhes eram atribuídas.” Não, F.: o animal é o deus evoluído!

WE LIVE INSIDE A DREAM: “Os nomes dos deuses são combinados mutuamente, de modo que um deles pode ser quase reduzido a um epíteto do outro. Assim, no apogeu do ‘Novo Reinado’, o principal deus da cidade de Tebas foi chamado de Amen Re’, a primeira parte desse composto representa o deus de cabeça de carneiro da cidade, ao passo que Re’ é o nome do deus solar de cabeça de falcão de On (Heliopolis).”

Osíris, o deus dos mortos, o soberano desse outro mundo, era o mais popular e indiscutido de todos os deuses do Egito. Por outro lado, a antiga religião judaica renunciou inteiramente à imortalidade; a possibilidade de a existência continuar após a morte em parte alguma jamais é mencionada.”

Na gloriosa XVIII Dinastia, sob a qual o Egito se tornou uma potência mundial, um jovem faraó subiu ao trono, por volta de 1375 a.C. Inicialmente ele foi chamado, tal como seu pai, Amenófis (IV); mais tarde, porém, mudou seu nome, e não apenas seu nome. Esse rei dispôs-se a impor uma religião a seus súditos egípcios, uma religião que ia de encontro às suas tradições de milênios e a todos os hábitos familiares de suas vidas. Ela era um monoteísmo escrito, a primeira tentativa dessa espécie, até onde sabemos, na história do mundo, e, juntamente com a crença num deus único, nasceu inevitavelmente a intolerância, que anteriormente fôra alheia ao mundo antigo e que por tão longo tempo permaneceu depois dele. O reino de Amenófis, contudo, durou apenas 17 anos. Logo após sua morte, em 1358 a.C., a nova religião foi varrida e proscrita a memória do rei herético. O pouco que sabemos dele deriva-se das ruínas da nova capital real que construiu e dedicou a seu deus, e das inscrições nas tumbas de pedra adjacentes a ela.”

Como resultado das façanhas militares do grande conquistador, Tutmósis III, o Egito havia-se tornado uma potência mundial; o império incluía agora a Núbia, ao sul, a Palestina, a Síria e uma parte da Mesopotâmia, ao norte.”

Pouco depois de alterar seu nome, Akhenaten abandonou a cidade de Tebas, dominada por Amun, e construiu para si uma nova capital real rio abaixo, à qual deu o nome de Akhenaten (o horizonte de Aten). Seu sítio em ruínas é hoje conhecido como Tell el’Amarna.”

A gloriosa XVIII Dinastia estava no fim e, simultaneamente, suas conquistas na Núbia e na Ásia foram perdidas. Durante esse sombrio interregno, as antigas religiões do Egito foram restabelecidas. A religião de Aten foi abolida. A cidade real de Akhenaten foi destruída e saqueada, e a memória dele proscrita como a de um criminoso.”

Schema Jisroel Adonai Elohenu Adonai Echod”

Heródoto, o ‘pai da História’, conta-nos que o costume da circuncisão por muito tempo fora indígena no Egito, e suas afirmações são confirmadas pelas descobertas em múmias e, na verdade, por pinturas nas paredes dos túmulos. Nenhum outro povo do Mediterrâneo oriental, até onde sabemos, praticava esse costume, e pode-se com segurança supor que os semitas, os babilônios e os sumérios não eram circuncidados.”

Em total contraste com a tradição bíblica, podemos supor que o Êxodo realizou-se pacificamente e sem perseguição. A autoridade de Moisés tornou isso possível e, àquela época, não havia autoridade central que pudesse ter interferido.

De acordo com essa nossa construção, o Êxodo do Egito teria ocorrido durante o período que vai de 1358 a 1350 a.C., isto é, após a morte de Akhenaten e antes do restabelecimento, por Haremhab, da autoridade estatal. O objetivo da migração só poderia ter sido a terra de Canaã. Após o colapso da dominação egípcia, hordas de belicosos arameus irromperam naquela região, conquistando e saqueando, e demonstraram dessa maneira onde um povo capaz poderia conquistar novas terras para si. Tomamos conhecimento desses guerreiros pelas cartas encontradas, em 1887, na cidade em ruínas de Amarna. Nelas, eles são chamados de ‘habiru’, e o nome foi transferido (não sabemos como) para os invasores judeus posteriores – hebreus –, aos quais as cartas de Amarna não podiam referir-se. Ao sul da Palestina também, em Canaã, viviam as tribos que eram os parentes mais próximos dos judeus que então abriam caminho para fora do Egito.”

Tampouco se pode excluir a possibilidade de que alguns dos traços caracterológicos que os judeus incluíram em sua primitiva representação de seu Deus – descrevendo-o como ciumento, severo e cruel –, possam ter sido, no fundo, derivados de uma rememoração de Moisés, pois, de fato, não fora um Deus invisível, mas sim o varão Moisés que os tirara do Egito.”

Nenhum historiador pode encarar a descrição bíblica de Moisés e do Êxodo como algo mais do que um piedoso fragmento de ficção imaginativa, que moldou uma tradição remota em benefício de seus próprios intuitos tendenciosos.”

Esses historiadores modernos, dos quais podemos tomar Eduard Meyer (1906) como representante, concordam com a história bíblica num ponto decisivo. Também eles acham que as tribos judaicas, que mais tarde se desenvolveram no povo de Israel, adquiriram uma nova religião num determinado ponto do tempo. Contudo, segundo eles isso não se realizou no Egito ou ao sopé de uma montanha na Península de Sinai, mas numa certa localidade conhecida como Meribá-Cades, um oásis distinguido por sua riqueza em fontes e poços, na extensão de terra ao sul da Palestina, entre a saída oriental da Península de Sinai e a fronteira ocidental da Arábia. Aí eles assumiram a adoração de um deus Iavé ou Javé, provavelmente da tribo árabe vizinha dos madianitas. Parece provável que outras tribos da vizinhança também fossem seguidoras desse deus.

Javé era, indiscutivelmente, um deus vulcânico. Ora, como é bem sabido, o Egito não possui vulcões e as montanhas da Península de Sinai nunca foram vulcânicas; por outro lado, existem vulcões que podem ter sido ativos, até tempos recentes, ao longo da fronteira ocidental da Arábia. Assim, uma dessas montanhas deve ter sido Sinai-Horeb, considerado a morada de Javé. Apesar de todas as revisões a que a história bíblica foi submetida, o retrato original do caráter do deus pode ser reconstruído, segundo Eduard Meyer: era um demônio sinistro e sedento de sangue, que vagueava pela noite e evitava a luz do dia.”

Embora Eduard Meyer diga, é verdade, que nunca duvidou de que havia certo âmago histórico na versão da estada no Egito e da catástrofe para os egípcios, evidentemente não sabe como localizar e que uso fazer desse fato que ele reconhece. A única coisa que se mostra pronto a fazer derivar do Egito é o costume da circuncisão.”

O Moisés que conhecemos é o ancestral dos sacerdotes de Cades, isto é, uma figura oriunda de uma lenda genealógica, colocada em relação a um culto, não uma personalidade histórica. Assim (à parte aqueles que aceitam as raízes e ramificações da tradição como verdade histórica), ninguém que o tenha tratado como figura histórica foi capaz de dar-lhe qualquer conteúdo, representá-lo como indivíduo concreto ou apontar o que pode ter feito e qual pode ter sido seu trabalho histórico.”

No Êxodo e na destruição dos egípcios, Moisés não desempenha papel algum; sequer é mencionado. O caráter heróico que a lenda de sua infância pressupõe está totalmente ausente do Moisés posterior; ele é apenas o homem de Deus, um taumaturgo equipado por Javé com poderes sobrenaturais.”

Em 1922, Ernest Sellin fez uma descoberta que influenciou decisivamente nosso problema. Descobriu no profeta Oséias (segunda metade do século VIII a.C.) sinais inequívocos de uma tradição segundo a qual Moisés, o fundador da religião dos judeus, encontrou um final violento num levante de seu povo refratário e obstinado, ao mesmo tempo que a religião por ele introduzida era repudiada. Essa tradição, contudo, não se restringe a Oséias; reaparece na maioria dos profetas posteriores, e, na verdade, segundo Sellin, tornou-se a base de todas as expectativas messiânicas mais tardias. Ao fim do cativeiro babilônico, surgiu entre o povo judeu a esperança de que o homem que fora tão vergonhosamente assassinado retornasse dentre os mortos e conduzisse seu povo cheio de remorso, e talvez não apenas esse povo, para o reino da felicidade duradoura.”

Considerando esse ponto, podemos dizer que a nação surgiu da união de suas partes componentes, e a isso se ajusta o fato de, após breve período de unidade política, ela se ter cindido em dois fragmentos – o reino de Israel e o reino de Judá. A história gosta de reintegrações como essa, onde uma fusão posterior é desfeita e uma separação anterior reemerge. O exemplo mais impressivo disso foi fornecido, como é bem sabido, pela Reforma, a qual, após um intervalo superior a mil anos, trouxe mais uma vez à luz a fronteira existente entre a Alemanha que fora outrora romana e a Alemanha que permanecera independente.”

Um dos maiores enigmas da pré-história judaica é o da origem dos levitas. Eles são remontados a uma das doze tribos de Israel – a de Levi –, mas nenhuma tradição aventurou-se a dizer onde essa tribo estava originalmente localizada, ou qual a parte da terra conquistada de Canaã que lhe foi atribuída. Os levitas preenchiam os ofícios sacerdotais mais importantes, mas eram distintos dos sacerdotes. Um levita não é necessariamente um sacerdote; tampouco é o nome de uma casta.”

Como os seguidores de Moisés davam tanto valor à sua experiência do Êxodo do Egito, esse ato de libertação tinha de ser representado como devido a Javé, e forneceram-se ao evento aperfeiçoamentos que davam prova da terrificante grandeza do deus vulcânico, tais como a nuvem de fumaça que se transformava à noite numa nuvem de fogo e a tempestade que pôs a nu o leito do mar por algum tempo, de maneira que os perseguidores foram afogados pelas águas que retornavam. Esse relato aproximou o Êxodo e a fundação da religião e renegou o longo intervalo ocorrido entre um e outro.”

E começaremos ouvindo o que a pesquisa bíblica crítica pode dizer-nos sobre a história da origem do Hexateuco, os cinco livros de Moisés e o livro de Josué, os quais, somente eles, nos interessam aqui.”

A história do Rei Davi e seu período é, mais provavelmente, obra de um contemporâneo. Trata-se de escrito histórico genuíno, 500 anos antes de Heródoto, o ‘Pai da História’. Torna-se mais fácil compreender essa realização se, segundo as linhas de nossa hipótese, pensarmos na influência egípcia.”

Assim, em quase toda parte ocorreram lacunas observáveis, repetições perturbadoras e contradições óbvias, indicações que nos revelam coisas que não se destinavam a serem comunicadas. Em suas implicações, a deformação de um texto assemelha-se a um assassinato”

Êxodo 4:24-6, segundo a qual, em certa ocasião, Javé ficou irado com Moisés por ele ter negligenciado a circuncisão, e sua esposa madianita salvou-lhe a vida executando rapidamente a operação.”

Com esse objetivo em vista, as lendas dos patriarcas do povo – Abraão, Isaac e Jacó – foram introduzidas. Javé asseverou que ele já era o deus desses antepassados, embora seja verdade que ele próprio teve de admitir que eles não o tinham adorado sob esse nome. Não acrescenta, contudo, qual era o outro nome. E aqui estava a oportunidade para um golpe decisivo contra a origem egípcia do costume da circuncisão: Javé, foi dito, já insistira nela com Abraão e a introduzira como penhor do pacto celebrado entre ele e este último. Mas foi uma invenção particularmente inábil. Como marca destinada a distinguir determinada pessoa das outras e preferir aquela a estas, escolher-se-ia algo que não pudesse ser encontrado em outro povo, e não uma coisa que podia ser exibida,¹ da mesma maneira, por milhões de outras pessoas. Um israelita que se tivesse transplantado para o Egito teria sido obrigado a reconhecer todo egípcio como irmão no pacto, como irmão em Javé.”

¹ Duplo sentido altíssimo: só na brotheragem, ao se cumprimentarem na rua eles baixavam suas calças? Olhe a cabeça cortada de minhas pudendas!

FALA, SÓCIO! “Não devemos esperar que as estruturas míticas da religião dêem demasiada atenção à coerência lógica. De outra maneira, o sentimento popular, justificadamente, poderia ter-se ofendido contra uma divindade que fez um pacto com seus antepassados, com obrigações mútuas, e que depois, por séculos a fio, não mais concedeu atenção a seus sócios humanos, até que, subitamente, lhe ocorreu manifestar-se de novo a seus descendentes. Ainda mais enigmática é a noção de um deus que repentinamente ‘escolhe’ um povo, que o declara como seu e a ele próprio como seu deus. Acredito que este é o único exemplo desse tipo na história das religiões humanas. Comumente, deus e povo estão indissoluvelmente vinculados, são um só desde o próprio início das coisas. Sem dúvida, às vezes ouvimos falar de um povo que adquire um deus diferente, mas nunca de um deus que busca um povo diferente.” Suprema falsificação.

Apelando para os patriarcas, eles estavam, por assim dizer, afirmando seu caráter indígena e defendendo-se contra o ódio que se liga a um conquistador estrangeiro. Foi uma torção hábil declarar que o deus Javé estava apenas devolvendo-lhes o que seus antepassados tinham possuído outrora.”

Nas contribuições posteriores ao texto da Bíblia, colocou-se em efeito a intenção de evitar a menção de Cades. O local em que a religião fora fundada foi definitivamente fixado como sendo o Monte de Deus, o Sinai-Horeb. Não é fácil perceber o motivo para isso; talvez as pessoas não estivessem dispostas a ser lembradas da influência de Madiã. Mas todas as deformações posteriores, especialmente as do período do Código Sacerdotal, tinham outro objetivo em vista. Não havia mais necessidade alguma de alterar descrições de acontecimentos num sentido desejado, pois isso já tinha sido feito havia muito tempo. Mas tomou-se o cuidado de deslocar de volta ordens e instituições da época atual para os tempos primitivos, o cuidado de fundamentá-los, via de regra, na legislação mosaica, de maneira a derivar disso sua reivindicação a serem sagrados e obrigatórios.” Hoje é muito mais fácil mudar a moral cristã, por exemplo: bastam as encíclicas!

Moisés, como Akhenaten, defrontou-se com o mesmo destino que espera todos os déspotas esclarecidos. O povo judeu, sob Moisés, era tão capaz de tolerar uma religião tão altamente espiritualizada e encontrar satisfação de suas necessidades no que ele tinha a oferecer quanto os egípcios da XVIII Dinastia. Em ambos os casos, aconteceu o mesmo: aqueles que tinham sido dominados e mantidos em falta levantaram-se e lançaram fora o fardo da religião que lhes fora imposta. Mas, ao passo que os dóceis egípcios esperaram até que o destino removesse a figura sagrada de seu faraó, os selvagens semitas tomaram o destino nas mãos e livraram-se de seu tirano.” Que judeu é F.!

O ponto fixado seguinte da cronologia é fornecido pela estela do faraó Merenptah (1225-15 a.C.), que se gaba de sua vitória sobre Isiraal (Israel) e da dispersão de sua semente (?).”

Um deus grosseiro, tacanho, local, violento e sedento de sangue prometera a seus seguidores dar-lhes ‘uma terra que mana leite e mel’ e os concitara a exterminar seus habitantes de então ‘ao fio da espada’. É espantoso o quanto resta, apesar de todas as revisões nas narrativas bíblicas, que nos permita reconhecer a natureza original dele. Sequer é certo que sua religião fosse um monoteísmo genuíno, que negasse a divindade das deidades de outros povos. Provavelmente era suficiente que seu povo encarasse seu próprio deus como mais poderoso do que qualquer deus estrangeiro.”

A longo prazo, não fez diferença que o povo tivesse rejeitado o ensinamento de Moisés (provavelmente pouco tempo depois) e o tivesse matado. A tradição desse ensinamento permaneceu e sua influência alcançou (apenas gradativamente, é verdade, no decorrer dos séculos) aquilo que fora negado ao próprio Moisés. O deus Javé conseguira honras imerecidas quando, a partir da época de Cades em diante, fôra creditado com o feito da libertação realizada por Moisés, mas teve de pagar pesadamente por essa usurpação.” “Ninguém pode duvidar de que foi apenas a idéia desse outro deus que capacitou o povo de Israel a sobreviver a todos os golpes do destino e o manteve vivo até nossos dias.” “Mas todo sacrifício e todo cerimonial, no fundo, não eram somente magia e feitiçaria, tais como haviam sido incondicionalmente rejeitados pelo antigo ensinamento mosaico?” Infere-se daqui por que os judeus perderam para o Cristianismo.

foram esses homens, os profetas, que incansavelmente pregaram a antiga doutrina mosaica – a de que a divindade desdenhava o sacrifício e o cerimonial e pedia apenas fé e uma vida na Verdade e na Justiça (Ma’at).” Moisés, o assassinado, matou Jeová, para que Deus-Pai, sem nome, pudesse reinar…

Todo aquele que procurar elaborar a religião mosaica segundo as linhas da religião que encontramos, segundo as crônicas, na vida do povo durante seus primeiros quinhentos anos em Canaã, estará cometendo o mais grave erro metodológico.” Sellin

A história judaica nos é familiar por suas dualidades: dois grupos de pessoas que se reúnem para formar a nação, dois reinos em que essa nação se divide, dois nomes de deuses nas fontes documentárias da Bíblia. A elas, acrescentamos outras duas, novas: a fundação de duas religiões – a primeira reprimida pela segunda, não obstante emergindo depois vitoriosamente, por trás dela, e dois fundadores religiosos, ambos chamados pelo mesmo nome de Moisés e cujas personalidades temos de distinguir uma da outra.”

Continuar meu trabalho segundo linhas como essas seria descobrir um vínculo com as afirmativas que apresentei 25 anos atrás em Totem e Tabu, mas não mais sinto que possua força para fazê-lo.” Strachey é tão burro que inverteu esse comentário no prefácio.

3. Moisés, o seu povo e a religião monoteísta

Descobrimos, para nosso espanto, que o progresso aliou-se à barbárie. Na Rússia Soviética dispuseram-se a melhorar as condições de vida de algumas centenas de milhões de pessoas que eram mantidas firmemente em sujeição. Foram suficientemente precipitados para retirar-lhes o ‘ópio’ da religião e avisados o bastante para conceder-lhes uma razoável quantidade de liberdade sexual; ao mesmo tempo, porém, submeteram-nas à mais cruel coerção e despojaram-nas de qualquer possibilidade de pensamento. Com violência semelhante, o povo italiano está sendo treinado na organização e no sentido de dever. Sentimos como um alívio de uma apreensão opressiva quando vemos, no caso do povo alemão, que uma recaída numa barbárie quase pré-histórica pode ocorrer também sem estar ligada a quaisquer idéias progressistas. De qualquer modo, as coisas revelaram-se tais, que, atualmente, as democracias conservadoras se tornaram as guardiãs do progresso cultural e, estranho é dizê-lo, é precisamente a instituição da Igreja Católica que ergue uma defesa poderosa contra a disseminação desse perigo à civilização – a Igreja que até constituíra o incansável inimigo da liberdade de pensamento e dos progressos no sentido da descoberta da verdade!”

Na data anterior, eu estava vivendo sob a proteção da Igreja Católica, e temia que a publicação de meu trabalho resultasse na perda dessa proteção e conjurasse uma proibição sobre o trabalho dos adeptos e estudiosos da psicanálise na Áustria. Então, subitamente, veio a invasão alemã e o catolicismo mostrou ser, para empregar as palavras da Bíblia, ‘uma cana quebrada’. Na certeza de que seria agora perseguido não apenas por minha linha de pensamento, mas também por minha ‘raça’, acompanhado por muitos de meus amigos abandonei a cidade que, desde minha primeira infância, fora meu lar durante 78 anos.” Ninguém ligava pra você, seu demente, todos estavam preocupados com milhões de destinos e com o mundo inteiro, seu megalomaníaco!

Encontrei a mais amistosa recepção na encantadora, livre e magnânima Inglaterra.” Puxa-saco estatal.

O povo judeu abandonou a religião de Aten que lhes foi dada por Moisés e voltou-se para a adoração de outro deus que pouco diferia dos Baalim dos povos vizinhos. Todos os esforços tendenciosos de épocas posteriores fracassaram em disfarçar esse fato vergonhoso.”

Acredita-se que o século IX ou VIII a.C. viu a origem das duas epopéias homéricas, que hauriram seu material nesse círculo de lendas. (…) poderíamos (…) levanta[r] a questão de saber de onde os gregos conseguiram todo o material legendário elaborado por Homero e os grandes dramaturgos áticos em suas obras-primas. A resposta teria tido de ser a de que esse povo provavelmente experimentara em sua pré-história um período de brilhantismo externo e eflorescência cultural perecido numa catástrofe histórica, do qual uma obscura tradição sobrevivia nessas lendas. As pesquisas arqueológicas de nossos dias confirmaram agora essa suspeita, que no passado certamente teria sido pronunciada como sendo audaciosa demais. Essas pesquisas revelaram as provas da impressionante civilização minóico-miceniana, que provavelmente chegou ao fim na Grécia continental antes de 1250 a.C. Dificilmente uma alusão a ela pode ser encontrada nos historiadores gregos da época posterior; no máximo, uma observação de que houve um tempo em que os cretenses exerciam o comando do mar, e o nome do rei Minos e de seu palácio, o Labirinto. Isso é tudo; além disso nada remanesceu, exceto as tradições de que os poetas se apossaram.

As epopéias nacionais de outros povos – alemães, indianos, finlandeses – também vieram à luz. É tarefa dos historiadores da literatura investigar se podemos presumir em relação à sua origem os mesmos determinantes que os dos gregos. Uma tal investigação renderia, acredito, um resultado positivo. Aqui está o determinante que identificamos: um fragmento de pré-história que, imediatamente depois, estaria sujeito a parecer rico em conteúdo, importante, esplêndido, e sempre, talvez, heróico, mas que jaz tão atrás, em tempos tão remotos, que apenas uma tradição obscura e incompleta informa as gerações posteriores sobre ele. Sentiu-se surpresa por que a epopéia, como forma artística, se tenha extinguido em épocas posteriores. A explicação pode ser que sua causa determinante não existe mais. O velho material foi utilizado e, para todos os eventos posteriores, a escrita histórica tomou o lugar da tradição. Os maiores feitos heróicos de nossos dias não foram capazes de inspirar um poema épico, e mesmo Alexandre, o Grande, tinha direito a se lamentar de não encontrar um Homero.

As eras há muito tempo passadas exercem uma grande e freqüentemente enigmática atração para a imaginação dos homens. Sempre que estão insatisfeitos com seu ambiente atual – e isso acontece quase sempre – se voltam para o passado e esperam ser agora capazes de demonstrar a verdade do imperecível sonho de uma Idade de Ouro.”

Se tudo o que resta do passado são as incompletas e enevoadas lembranças que chamamos de tradição, isso oferece ao artista uma atração peculiar, pois, nesse caso, ele fica livre para preencher as lacunas da memória de acordo com os desejos de sua imaginação e para retratar o período que quer reproduzir segundo suas intenções. Quase se poderia dizer que, quanto mais vaga uma tradição, mais útil ela se torna para um poeta. Não precisamos, portanto, ficar surpresos pela importância da tradição para a escrita imaginativa, e a analogia com a maneira pela qual as epopéias são determinadas nos deixará mais inclinados a aceitar a estranha hipótese de que foi a tradição de Moisés que, para os judeus, alterou a adoração de Javé no sentido da antiga religião mosaica. Contudo, sob outros aspectos, os dois casos ainda são muito diferentes. Por um lado, o resultado é um poema; por outro, é uma religião, e, nesse último caso, presumimos que, sob o acicate da tradição, ele foi reproduzido com uma fidelidade para a qual o exemplo da epopéia naturalmente não pode oferecer contrapartida.” Solução: os semitas eram crédulos até demais.

Num mar de merdas psicanalíticas, F. era às vezes capas de gotas de sabedoria: “[O] domínio mundial. Essa última fantasia de desejo, há muito tempo abandonada pelo povo judeu, ainda sobrevive entre os inimigos desse povo, na crença numa conspiração por parte dos ‘Velhos de Sion’.”

Parece como se um crescente sentimento de culpa se tivesse apoderado do povo judeu, ou, talvez, de todo o mundo civilizado da época (…) até que, por fim, um desses judeus encontrou, ao justificar um agitador político-religioso, ocasião para desligar do judaísmo uma nova religião – a cristã. Paulo, um judeu romano de Tarso, apoderou-se desse sentimento de culpa e o fez remontar corretamente à sua fonte original. Chamou essa fonte de ‘pecado original’; fora um crime contra Deus, e só podia ser expiado pela morte.” “Um filho de Deus se permitira ser morto sem culpa e assim tomara sobre si próprio a culpa de todos os homens. Tinha de ser um filho, visto que fora o assassinato de um pai.”

Paulo, que conduziu o judaísmo à frente, também o destruiu. Fora de dúvida, ele deveu seu sucesso, no primeiro caso, ao fato de, através da idéia do redentor, exorcizar o sentimento de culpa da humanidade, mas deveu-o também à circunstância de ter abandonado o caráter ‘escolhido’ de seu povo e seu sinal visível – a circuncisão –, de maneira que a nova religião podia ser uma religião universal, a abranger todos os homens. Ainda que no fato de Paulo dar esse passo um papel possa ter sido desempenhado por seu desejo pessoal de vingança pela rejeição de sua inovação nos círculos judaicos, ele, contudo, restaurou também uma característica da antiga religião de Aten; afastou uma restrição que essa religião havia adquirido quando fora transmitida a um novo veículo, o povo judeu.” Tudo por medo de cortarem-lhe o piru!

Sob certos aspectos, a nova religião significou uma regressão cultural, comparada com a mais antiga, a judaica, tal como regularmente acontece quando uma nova massa de povo, de um nível mais baixo, consegue ingresso à força ou recebe admissão. A religião cristã não manteve o alto nível em coisas da mente a que o judaísmo se havia alçado. Não era mais estritamente monoteísta, tomou numerosos rituais simbólicos de povos circunvizinhos, restabeleceu a grande deusa-mãe e achou lugar para introduzir muitas das figuras divinas do politeísmo, apenas ligeiramente veladas, ainda que em posições subordinadas. Acima de tudo, como a religião de Aten e a religião mosaica que a seguiu haviam feito, não excluiu o ingresso de elementos surpersticiosos, mágicos e místicos, que deveriam mostrar-se como uma inibição grave sobre o desenvolvimento intelectual dos dois mil anos seguintes.”

É plausível conjecturar que o remorso pelo assassinato de Moisés forneceu o estímulo para a fantasia de desejo do Messias, que deveria retornar e conduzir seu povo à redenção e ao prometido domínio mundial. Se Moisés foi o primeiro Messias, Cristo tornou-se seu substituto e sucessor, e Paulo poderia exclamar para os povos, com certa justificação histórica: ‘Olhai! O Messias realmente veio: ele foi assassinado perante vossos olhos!’

Não são fundamentalmente diferentes, pois não são asiáticos, de uma raça estrangeira, conforme seus inimigos sustentam, mas compostos, na maioria, de remanescentes dos povos mediterrâneos e herdeiros da civilização mediterrânea. São, não obstante, diferentes, com freqüência diferentes de maneira indefinível, especialmente dos povos nórdicos, e a intolerância dos grupos é quase sempre, de modo bastante estranho, exibida mais intensamente contra pequenas diferenças do que contra diferenças fundamentais. O outro ponto possui um efeito ainda maior: a saber, que eles desafiam toda opressão, que as perseguições mais cruéis não conseguiram exterminá-los e que, na verdade, pelo contrário, exibem uma capacidade de manter o que é seu na vida comercial e, onde são admitidos, de efetuar contribuições valiosas a todas as formas de atividade cultural.”

Ainda não superaram um ressentimento contra a nova religião que lhes foi imposta, mas deslocaram esse ressentimento para a fonte de onde o cristianismo os foi buscar. O fato de os Evangelhos contarem uma história que se desenrola entre judeus e que, na verdade, trata apenas de judeus, tornou-lhes fácil esse deslocamento. Seu ódio pelos judeus é, no fundo, um ódio pelos cristãos, e não precisamos surpreender-nos de que, na revolução nacional-socialista alemã, essa relação íntima entre as duas religiões monoteístas encontre expressão tão clara no tratamento hostil que é dado a ambas.” Concordo que aí está toda a justificativa moral do terrorista e assassino Varg Vikernes, por exemplo; embora F. tenha perdido a reconciliação de Hitler com o Catolicismo neste seu comentário, como perderia o fato de que a Igreja Católica foi omissa e conivente com 6 milhões de judeus mortos, quase todos incinerados ou deitados ao gás.

Alá mostrou-se muito mais grato a seu povo escolhido do que Javé ao seu. Mas o desenvolvimento interno da nova religião logo se interrompeu, talvez por lhe faltar a profundidade que, no caso judaico, fora causada pelo assassinato do fundador de sua religião.” F. sempre indo longe demais, sempre caçando Laios para onde quer que aponte sua pena deprimente!

A festa da Páscoa foi introduzida a fim de manter a lembrança desse acontecimento, ou, antes, injetou-se numa festa de antiga criação o conteúdo dessa lembrança: o Êxodo pertencia a um passado enevoado. No presente, os sinais do favor de Deus eram decididamente escassos; a história do povo apontava antes para seu desfavor. Os povos primitivos costumavam depor seus deuses ou até mesmo castigá-los, se deixavam de cumprir seu dever de assegurar-lhes vitória, felicidade e conforto. Em todos os períodos, os reis não foram tratados de modo diferente dos deuses; uma antiga identidade assim se revela: uma origem a partir de uma raiz comum. Assim, também os povos modernos têm o hábito de expulsar seus reis se a glória do reinado deles é conspurcada por derrotas e as perdas correspondentes em território e dinheiro.”

seu Deus, nesse caso, não teria nome nem semblante. Talvez fosse uma nova medida contra abusos mágicos. Mas, se essa proibição fosse aceita, deveria ter um efeito profundo, pois significava que uma percepção sensória recebia um lugar secundário quanto ao que poderia ser chamado de idéia abstrata – um triunfo da intelectualidade sobre a sensualidade, ou, estritamente falando, uma renúncia instintual, com todas as suas seqüências psicológicas necessárias.”

esse afastamento da mãe para o pai aponta, além disso, para uma vitória da intelectualidade sobre a sensualidade” Não cansa de cagar no pau!

Imediatamente após a destruição do Templo em Jerusalém por Tito, o rabino Jochanan ben Zakkai solicitou permissão para abrir a primeira escola de Torá em Jabné. Dessa época em diante, a Escritura Sagrada e o interesse intelectual por ela mantiveram reunido o povo dispersado.”

BÔNUS – AS MENTIRAS QUE OS HOMENS CONTAM

Não deixa de ser simbólico que o maior mentiroso do século XX tenha sido amigo de uma das maiores farsas do fim do séc. XIX (Lou Salomé). Eis um parágrafo mentiroso do fétido necrológio de F. que, quase já ele mesmo uma múmia, sobreviveu à idosa porém mais nova que ele “garotinha da psicanálise e parasita de grandes homens nas horas vagas”:

Sabia-se que, quando moça, ela manteve intensa amizade com Friedrich Nietzsche, baseada em sua profunda compreensão das audazes idéias do filósofo. Esse relacionamento teve um fim abrupto quando ela recusou a proposta de casamento que ele lhe fez. Era bem sabido, também, que, muitos anos depois, ela atuou como Musa e mãe protetora para Rainer Maria Rilke, o grande poeta, que era um pouco desamparado em enfrentar a vida. Além disso, porém, sua personalidade permaneceu obscura.”

PEDOPHILIA AND ADULT-CHILD SEX: A Philosophical Analysis – Stephen Kershnar

INTRODUCTION

Parents value diversity in schools as a way of teaching their children how to interact with people from different racial and ethnic groups. The more diverse the high school, the more students self-segregate by race within the school and the fewer interracial friends they have. That is, more diversity leads to more racial division.” “People assume that racism has to be learned. There is evidence that babies prefer interactions with people of their own race and pre-school children have striking racial preferences. A plausible explanation of this is that there is a genetic preference toward members of the same race. F.E. Aboud, Children and Prejudice (Cambridge, MA: Blackwell, 1989).”

One in a million children is abducted. On average, if one wanted her child to be kidnapped and held overnight by a stranger, she’d have to leave the child outside and unattended for 750,000 years. That is a 5% of the rate of drowning and a 2,5% of the risk of a fatal car accident.”

Even commonly believed dangers turn out to be false. Despite urban myths about poisoned candies and apples with razor blades, no child has ever been killed or seriously injured by Halloween treats.”

Consider concern for ritual or satanic abuse. In the 80s and early 90s, there were many stories and discussions in the media of ritual or satanic abuse of children. There were high-profile prosecutions in California, Minnesota, and Nebraska in the 80s. The most famous was the outrageous McMartin preschool case that was the focus of two different CBS 60 Minutes stories. The concern for such abuse was so widespread that it was respectfully discussed in a number of major magazines and television news shows. It was respectfully discussed in professional psychiatric and psychological journals. It also was the focus of a number of fiction and non-fiction books. The notion that satanic or ritual child abuse took place was a myth and the trials turned out to be witch hunts. A 1994 National Center on Child Abuse and Neglect–sponsored study of allegations of ritualistic sexual abuse found not a single case of group-organized sexual abuse.” “This led to debunking articles in high-profile magazines such as New Yorker, Harper’s, National Review, Vanity Fair, Redbook, Mother Jones, Village Voice, and Playboy.”

SÓ ACONTECE MERDA QUANDO FREUD VOLTA À MODA: “In the 80s, the use of recovered memories to discover sexual abuse of children grew rapidly. More than 20 states changed their laws to better allow the treatment to be used in prosecutions. Later, experts strongly criticized this treatment as unreliable and eventually this criticism was covered in mainstream periodicals such as The New York Times, Time, and Newsweek; news programs such as ABC’s 20/20 and Primetime Live; and a number of books. (…) The treatment eventually looked absurd as patients ‘recovered’ memories of being abducted by alien beings and UFOs.”

Positive and neutral responses to adult-child sex. A significant number of the boy and girl participants in adult-child sex have positive or neutral responses to it, although many had a negative response as well. In discussions of it in the major media, or even around the watercooler, [papos informais, ‘conversa de bebedouro’!] as far as I can tell, this fact about it never comes up.”

Contrary to popular belief, Levine states that the vast majority of criminal-pedophiles do not ravage small children. Rather, they look at child pornography. They’re not even true pedophiles in that their desired objects are adolescents. They are hebephiles.”

If studies about childhood sexuality are strongly counterintuitive and most of us do not have much experience with childhood sexuality (nor have we heard many first-hand accounts), then we do not have much specialized knowledge about children’s sexuality.”

In chapter 1, I argue that a pedophile(*) is a person who has frequent and intense pedophilic desires(**) concerning individuals who appear to be in a pre-pubescent stage. This analysis excludes those who sexually desire children who look like adults and includes those who sexually desire those who are not children but look like them. This definition has several advantages over the clinical definition found in the fourth edition of Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders, although the latter’s defects might be the price for an operational definition. This definition allows non-pedophiles to have infrequent or weak pedophilic desires.

(*) A person has pedophilia if and only if he has relatively frequent and intense pedophilic desires.

(**) A pedophilic desire is an inclination in an adult to have sex with a child.”

There are several reasons to believe that pedophilia has an evolutionary explanation.” “If a feature is widespread and persists over evolutionary development, then it probably has some connection or compatibility with fitness-enhancing genes, however indirect. All conditions are present to some degree, although there is less evidence for pedophilia being widespread in our culture than its occurring across humans in other cultures and times and in apes. In the end, there is evidence against its being a dysfunction, but it is not strong.” Todos os termos nesse livro são frouxos e abstratos: several reasons, widespread, probably, indirect, to some degree, not strong… Como são quantitativa e qualitativamente essas palavras? Jamais saberemos.

1. PEDOPHILIA AND ADULT-CHILD SEX

Pedophilic desires are distinct from hebephilia, which is the desire to have sex with pubescent individuals (roughly, ages 13 to 16). The boundaries here are not clear because there is some evidence that men find youthful women to be sexually attractive (roughly age 17) and there is some evidence that many prefer youthful women to women of other ages. Such women are just outside the ordinary range for hebephilic desires and in some cases might not be distinguishable. Because of the widespread nature of this desire and because a similar pattern is found among other primates, it is likely that the desire for young fertile females is at least in part genetic.”

One study found 99% of child molesters are men.” Finalmente algo mais concreto!

a child might be defined in physical (specifically pre-pubescent stage), mental, or chronological terms. For the purposes of pedophilia, a child should be defined in physical terms. Consider a 7-year-old who due to a genetic abnormality looks and sounds like a curvaceous 20-year-old. We would not label an adult a pedophile just because he is attracted to her. The same is true if she also has the mental ability of a 7-year-old. Nor would we think that an adult is a pedophile just because he is attracted to a developmentally disabled (retarded) 20-year-old, even if the woman has the mental age of a 7-year-old.”

Next consider a 20-year-old who due to a genetic abnormality looks and sounds like a 7-year-old. We would think that someone is a pedophile if he is attracted to her and he has relatively frequent and intense similar desires. An interesting portrayal of a woman who appears much younger is found in a Law & Order: Special Victims Unit episode (8×2, 2006) that focuses on a woman with Turner syndrome.”

Under the DSM-IV-TR 302.2, the specific criteria for pedophilia are the following.

1. Over a period of at least 6 months, recurrent, intense sexually arousing fantasies, sexual urges, or behaviors involving sexual activity with a prepubescent child or children (generally age 13 years or younger);

2. The person has acted on these sexual urges, or the sexual urges or fantasies cause marked distress or interpersonal difficulty;

3. The person is at least age 16 years and at least 5 years older than the child or children in the first criterion.”

Unlike the 2nd condition, my definition is compatible with the notion that a pedophile might have neither acted on his pedophilic desires nor does it cause him distress or interpersonal difficulty, and this seems intuitively correct. One can imagine a pedophile who fantasizes about having sex with children but does not act on it for moral reasons or because he fears the harsh punishment that would follow were he caught. Similarly, one can imagine a pedophile, perhaps with a psychopathic personality, for whom the desires cause neither distress nor interpersonal difficulty. We can further imagine a psychopath who has the desire but does not act on it for fear of punishment and yet does not suffer distress or interpersonal difficulty.”

my definition does not allow for mere fantasies with regard to adult-child sex. The fantasy condition is too broad because not all fantasies are sexual and because a fantasy might not involve or be connected to the subject being sexually aroused by adult-child sex. For example, it is at least possible that a person fantasizes about watching adult-child sex with his gay lover because the lover enjoys it and it leads to great sex between the lover and the person having the fantasy.”

Lastly, the 5-year difference is irrelevant. It is possible that a 20-year-old looks and sounds like a 7-year-old. Another 20-year-old who was attracted to her would be a pedophile even though he would not satisfy the 5-years-older requirement. The 16-years-or-older requirement depends on whether individuals become adults at 16. If this is mistaken, then this minimum age requirement is also mistaken.

Consider, for example, Sweet Sweetback’s Baadasssss Song (1971), which portrays a prostitute having sex with a young towel boy at a brothel. If the actress playing the prostitute had sex with the boy to make the film more realistic but did not desire him, then this would not have been an instance of pedophilic or hebephilic sex because of the absence of desire.

This account does not require that pedophiles be more aroused by children than adults or that they prefer sex with children rather than adults. That is, it does not require pedophilia to be a primary sexual orientation. Sexual preference for children over adults is required for pedophilia if it is viewed as a type of sexual orientation. The idea here is that our interest is in assessing people who are often sexually aroused by children regardless of what else arouses them.”

For the purposes of this publication the term ‘pedophile’ when used will be defined as a significantly older individual who prefers to have sex with individuals legally considered children. Pedophiles are individuals whose erotic imagery and sexual fantasies focus on children. They do not settle for child victims, but, in fact, clearly prefer to have sex with children. The law, not puberty, will determine who is a child.

The above definition, which comes from the U.S. Department of Justice, has a practical purpose (law enforcement) that likely explains its adoption. This definition makes it arbitrary how the state should define ‘child’. Were the State to define Asian women in their 20s as children, adults who have sexual relations with them would be pedophiles. Also, if the law were to change, then a person could go from being a pedophile to not being one without any change in his intrinsic properties. Both results are absurd.”

Genital contact is not necessary for sex because of the possibility of parallel sexual acts. Consider, for example, cybersex.”

2. PEDOPHILIA AND MENTAL DISORDER

In this chapter, I argue that pedophilia is not a mental disorder. Before looking at the argument, we might consider why this issue matters. The moral status of an act is independent of whether it springs from a disorder. For example, a hypochondriac who steals medicine to treat himself acts wrongly even if the theft was motivated in part by his hypochondria.” Comparação esdrúxula. Atos sexuais pedófilos continuam sendo crime, “pedofilia” continua sendo distúrbio psiquiátrico e impune se se atém à imaginação do paciente.

If pedophilia is a disorder, then it is likely permissible to encourage pedophiles to get treatment for it, assuming effective treatment is available.” Seria bom, né!

Fourth, if pedophilia is a disorder, then we should try to eradicate its causes or ameliorate its effects.” Um pouco mais difícil que a alternativa acima…

(…)

Abandonei por ser uma leitura fraca. Nada de “philosophical analysis”: texto jurídico-formal enfadonho…

HOW TO READ LACAN ou: COMO, ATRAVÉS DA LENTE ZIZEKIANA, EVITAR LER LACAN PARA NÃO PERDER SEU TEMPO (E REFERÊNCIAS SEM FIM AO CINEMA POP) – Slavoj Žižek, 2006.

INTRODUCTION

In 2000, the 100th anniversary of the publication of F.’s The Interpretation of Dreams was accompanied by a new wave of triumphalist acclamations of the death of psychoanalysis (…) it is buried where it always belonged, in the lumber-room of pre-scientific obscurantist quests for hidden meanings, alongside religious confessors and dream-readers. As Todd Dufresne [Killing Freud: 20th century culture and the death of psychoanalysis, 2004] puts it, no figure in the history of human thought was more wrong about all its fundamentals (…) It was only to be expected that in 2005 (…) The Black Book of Psychoanalysis¹ [appeared]”

¹ Em breve no Seclusão.

Lacan did not understand his return as a return to what F. said, but to the core of the Freudian revolution of which F. himself was not aware.” Era a única maneira de manter F. vivo (dizer que ele disse tudo que ele jamais disse)!

each chapter of this book will confront a passage from L. with another fragment from philosophy, art, popular culture and ideology.” Zizek exagera um pouquinho na CARGA POP…

by cutting himself off from the decaying corpse of the IPA, L. kept the Freudian teaching alive.” Protestantismo de merda – o culto nunca morre, sempre sobrevive através de cisões infinitas!

1. EMPTY GESTURES AND PERFORMATIVES: LACAN CONFRONTS THE CIA PLOT

Timeo Danaos, et dano ferentes”

Novelas mexicanas são filmadas em ritmo tão frenético (todo dia um episódio de 25 minutos) que os atores sequer recebem o roteiro a fim de aprender as falas antecipadamente; eles colocam pequenos pontos auriculares para saberem o que devem fazer, e aprendem seu papel a partir do que escutam, instantaneamente (‘Agora dê um sopapo nele e diga-lhe que o odeia! Agora abrace-o!…’). Esse proceder nos oferece uma imagem do quê, de acordo com a percepção comum, Lacan quer dizer com seu ‘grande Outro’.”

O TERCEIRO: “Essa referência onipresente a um Outro é o tema de uma piada de baixo nível sobre um caipira que, vítima de um naufrágio, acha-se confinado numa ilha com, digamos, Cindy Crawford. Depois de fazer sexo com ele, ela pergunta como foi; sua resposta é ‘ótimo!’, mas ele ainda tem um pequeno pedido a fazer para se sentir inteiramente satisfeito – pode ela se vestir como seu melhor amigo, colocando umas calças e pintando um bigode? Ele lhe afiança que não é nenhum tipo de obscuro pervertido, o que ela entenderá assim que cumprir o pequeno favor. Quando ela está pronta, ele se aproxima, dá-lhe uma cutucada nas costelas e dispara, com malícia de macho: ‘Adivinha só? Acabei de comer a Cindy Crawford!’. Esse Terceiro, sempre testemunha, trai a possibilidade de um prazer privado inocente verdadeiro. O sexo é sempre minimamente exibicionista e depende do olhar de mais alguém. Esse Outro só existe enquanto faz-de-conta.” Victor Hugo (um charlatão com que fiz análise) mente.

Sempre pode-se dizer que a única carta que verdadeiramente alcança o destinatário é a carta não-enviada – o endereço não é de carne-e-osso, mas ninguém senão esse grande Outro.”

Escrever uma carta e guardá-la na gaveta é enviá-la.”

Após me envolver numa competição feroz por uma promoção no trabalho com o meu melhor amigo, se eu ganho, o adequado a se fazer é declinar do cargo, fazendo do derrotado o beneficiário; e o adequado para o amigo fazer é rejeitar por sua vez e devolver-me a vaga – dessa forma, quem sabe, a amizade pode ser salva.”

o que escapa do sociopata é o fato de que ‘muitos atos humanos são executados . . . apenas pela interação em si mesma’.” Ele faltou o ensaio da banda, ou da colação de grau.

Cansamos desse tipo de reciprocidade hipócrita. Somos majoritariamente sociopatas sem remorsos!

In a traditional German toilet, the hole in which shit disappears after we flush water is way up front, so that shit is first laid out for us to sniff at and inspect for traces of any illness; in the typical French toilet the hole is far to the back, so that shit may disappear as soon as possible; finally, the American toilet presents a kind of synthesis, a mediation between these two opposed poles – the toilet basin is full of water, so that the shit floats in it, visible, but not to be inspected. No wonder that, in the famous discussion of different European toilets at the beginning of her half-forgotten Fear of Flying, Erica Jong mockingly claims that ‘German toilets are really the key to the horrors of the Third Reich. People who can build toilets like this are capable of anything.’

2. THE INTERPASSIVE SUBJECT: LACAN TURNS A PRAYER WHEEL

The prayer wheels of Tibet: I attach a piece of paper with the prayer written on it to the wheel, turn it around mechanically (or, even more practically, let the wind or water turn it round), and the wheel is praying for me”

the canned laughter on a TV show, when the reaction of laughter to a comic scene is included in the soundtrack itself. Even if I do not laugh, but simply stare at the screen, tired after a hard day’s work, I nonetheless feel relieved after the show, as if the soundtrack has done the laughing for me.

To properly grasp this strange process, one should supplement the fashionable notion of interactivity with its uncanny double, interpassivity.”

Although I do not actually watch the films, the very awareness that the films I love are stored in my video library gives me a profound satisfaction, and occasionally enables me to simply relax and indulge in the exquisite art of far niente – as if the VCR is in a way watching them for me, in my place. VCR stands here for the big Other”

Therein resides the typical strategy of the obsessional neurotic: he is frantically active in order to prevent the real thing from happening.”

People intervene all the time, attempting to ‘do something’, academics participate in meaningless debates; the truly difficult thing is to step back and withdraw from it. Those in power often prefer even a critical participation to silence”

The paradox of Predestination is that the theology which claims that our fate is determined in advance and that our redemption does not depend on our acts served as the legitimization of capitalism, the social system that triggered the most frantic productive activity in the history of humanity.”

As every historian knows, Scottish kilts (in the form they are known today) were invented in the course of the 19th century.”

According to a well-known anthropological anecdote, the primitives to whom certain superstitious beliefs were attributed (that they descended from a fish or from a bird, e.g.), when directly asked about these beliefs, answered: ‘Of course not – I’m not that stupid! But I have been told that some of our ancestors actually did believe that…’

Niels Bohr, who had aptly replied to Einstein’s ‘God doesn’t play dice’ (‘Don’t tell God what to do!’), also provided the perfect example of how a fetishist disavowal of belief works in ideology. Seeing a horseshoe on Bohr’s door, a surprised visitor remarked that he didn’t believe in the superstition that it brought luck. Bohr snapped back: ‘I don’t believe in it either; I have it there because I was told that it also works if one does not believe in it!’

Why are you saying you’re glad to see me, when you’re REALLY glad to see me?”

what is false about ‘reality’ TV shows: the life we get in them is as real as decaf coffee.”

The standard disclaimer in a novel (‘The characters in this text are a fiction; any resemblance to real-life characters is purely accidental’) holds also for the participants of reality soaps”

Richard II is Shakespeare’s ultimate play about hystericization (in contrast to Hamlet, the ultimate play about obsession).” Mas Zizek dirá algumas dúzias de páginas depois que para Lacan histeria e obsessão são tudo a mesma coisa (basicamente matizes de neuroses).

in the Rawls model of a just society, social inequalities are tolerated only in so far as they also help those at the bottom of the social ladder, and in so far as they are not based on inherited hierarchies, but on natural inequalities, which are considered contingent, not signifying merit. What Rawls doesn’t see is how such a society would create the condition for an uncontrolled explosion of resentment: in it, I would know that my inferior status is fully justified, and would be deprived of blaming my failure on social injustice.” “No wonder that even today’s conservatives are ready to endorse Rawls’ notion of justice” “the good thing about success or failure in free-market is that it allows me to perceive my failure as undeserved, contingent.”

Lacan shares with Nietzsche and Freud the idea that justice as equality is founded on envy: our envy of the other who has what we do not have, and who enjoys it. The demand for justice is ultimately the demand that the excessive enjoyment of the other should be curtailed, so that everyone’s access to enjoyment will be equal. The necessary outcome of this demand, of course, is asceticism: since it is not possible to impose equal enjoyment, what one can impose is an equally shared phohibition.”

Enjoy! We are all under the spell of this injunction, with the result that our enjoyment is more hampered than ever – recall the yuppie who combines narcissistic self-fulfillment with the utterly ascetic discipline of jogging and eating health food. This, perhaps, is what Nietzsche had in mind with his notion of the Last Man”

Virtual Reality is experienced as reality without being so.”

3. FROM CHE VUOI?(*) TO FANTASY: LACAN WITH EYES WIDE SHUT

(*) O que desejas?

Zizek diz com todas as palavras: Lacan não passa de um filósofo confinado entre a fenomenologia e o estruturalismo.

What’s bugging you? What is it in you that makes you so unbearable not only for us, but also for yourself, that you yourself obviously do not control?”

There exists a creature that is perfectly harmless; when it passes before your eyes, you hardly notice it and immediately forget it again. But as soon as it somehow, invisibly, gets into your ears, it begins to develop, it hatches, and cases have been known where it has penetrated into the brain and flourished there devastatingly, like the pneumococci in dogs which gain entrance through the nose . . . This creature is Your Neighbor.” Rilke

why the hell did you tell me you liked me? Answer me, because I didn’t like you saying that at all. You can’t just walk up to a woman you barely know and tell her you like her. Y-o-u-c-a-n’t. You don’t know what she’s going through, what she’s feeling. I’m not married, you know. I’m not anything in this world. I’m just not anything.”

a Third has to step in between me and my neighbours so that our relations do not explode in murderous violence.”

In contrast to Althusser, Lacan advocates that we recognize practical anti-humanism, an ethics that goes beyond the dimension of what Nietzsche called ‘human, all too human’, and confronts the inhuman core of humanity. This means an ethics that fearlessly stands up to the latent monstrosity of being human, the diabolic dimension that erupted in the phenomena broadly covered by the label Auschwitz.”

He is not human is not the same as he is inhuman. He is not human means simply that he is external to humanity, animal or divine, while he is inhuman means something thoroughly different, namely the fact that he is neither human nor inhuman, but marked by a terrifying excess which, although it negates what we understand as humanity, is inherent to being human. And perhaps one should risk the hypothesis that this is what changes with the Kantian philosophical revolution: in the pre-Kantian universe, humans were simply humans, beings of reason, fighting the excess of animal lusts and divine madness, while with Kant, the excess to be fought is immanent and concerns the very core of subjectivity itself. (Which is why, in German Idealism, the metaphor for the core of subjectivity is Night, the ‘Night of the World’, in contrast to the Enlightenment notion of the Light of Reason fighting the darkness around.)”

A couple of years ago, Slovene feminists raised a hue and cry against a poster for sun lotion issued by a large cosmetics factory depicting a number of suntanned female rears clad in clinging swimsuits and accompanied by the slogan To each her own factor. Of course, this ad was based on a tacky double entendre: the slogan ostensibly referred to the sun lotion, which was offered to customers with different sun factors so as to suit different skin types; however, its entire effect was based on its obvious male-chauvinist reading: Each woman can be had, if only the man knows her factor, her specific catalyst, what turns her on!

Reds integrates the October Revolution – for Hollywood the most traumatic historical event – into the Hollywood universe by staging it as the metaphorical background for the sexual act between the movie’s main characters, John Reed (played by Warren Beatty) and his lover (Diane Keaton).” “the cries of the crowd serve as a metaphor for the rebirth of passion. The key mythical scenes of the revolution (street demonstrations, the storming of the Winter Palace) alternate with the depiction of the couple’s lovemaking, against the background of the crowd singing the International.” “Here we have the exact opposite of that Soviet socialist realism in which lovers would experience their love as a contribution to the struggle for socialism, making a vow to sacrifice all their private pleasures for the cause of the revolution and to drown themselves in the masses”

In his recently discovered secret diaries, Wittgenstein reports that, while masturbating at the Front during World War I, he was thinking about mathematical problems.”

In other words, psychoanalysis allows us to formulate a paradoxical phenomenology without a subject – phenomena arise that are not phenomena of a subject, appearing to a subject.”

For standard [?] feminism it is an axiom that rape is a violence imposed from without: even if a woman fantasizes about being raped or brutally mistreated, this is either a male fantasy about women, or a woman does it in so far as she has ‘internalized’ the patriarchal libidinal economy and endorsed her victimization” “So the moment one mentions that a woman may fantasize about being raped, one hears it objected that ‘This is like saying that Jews fantasize about being gassed in the camps, or that African-Americans fantasize about being lynched!’” “The practical conclusion from this is that while (some) women really may daydream about being raped, this fact not only in no way legitimizes the actual rape, but renders it all the more violent.” “the core of our fantasy is unbearable to us.”

it is not that dreams are for those who cannot endure reality, reality itself is for those who cannot endure their dreams.”

The scenario was as follows: when the smoke disturbed his sleep, the father quickly constructed a dream that incorporated the disturbing element (smoke-fire) in order to prolong his sleep; however, what he confronted in the dream was a trauma (of his responsibility for the son’s death) much stronger than reality, so he awakened into reality in order to avoid the Real.”

After Tom Cruise confesses his night’s adventure to Nicole Kidman and they are both confronted with the excess of their fantasizing, Kidman – upon ascertaining that now they are fully awake, back into the day, and that, if not for ever, at least for a long time, they will stay there, keeping the fantasy at bay – tells him that they must do something as soon as possible. ‘What’ he asks, and her answer is: ‘Fuck.’ End of the film, the final credits roll. The nature of the passage à l’acte as the false exit, the way to avoid confronting the horror of the phantasmatic netherworld, was never so bluntly stated in a film: far from providing them with a real-life bodily satisfaction that will supersede empty fantasizing, the passage to the act is presented as a stopgap, as a desperate preventive measure aimed at keeping at bay the spectral netherworld of fantasies. It is as if her message is Let’s fuck right now, and then we can stifle our teeming fantasies, before they overwhelm us again.Ou tudo era só uma piada metalingüística de Kubrick sobre Tom Cruise e Nicole Kidman realmente irem foder na vida real, sem luz e câmera, mas com muita ou pouca ação… Além disso, como easter-egg ou sobremesa, ofereceu a predição (muito simples de fazer para grandes estrelas, aliás) de que o casal se divorciaria eventualmente.

4. TROUBLES WITH THE REAL: LACAN AS A VIEWER OF ALIEN

Every word has a weight here, in this deceptively poetic [and boring] description of the mythic creature called by Lacan the ‘lamella’ (which can vaguely be translated as ‘manlet’, a condensation of ‘man’ and ‘omelet’), an organ that gives body to libido. Lacan imagines the lamella as a version of what F. called ‘partial object’ [he never ever wrote that expression!]”

A lamella is indivisible, indestructible and immortal – more precisely, undead in the sense this term has in horror fiction”

Esforço sobre-humano (talvez inhuman!) para salvar o conceito de death drive freudiano…

Andersen’s The Red Shoes, the story of a girl who puts on magic shoes that move on their own and compel her to dance on and on. The shoes stand for the girl’s unconditional drive, which persists, ignoring all human limitations, so that the only way the poor girl can get rid of them is to cut off her legs.”

MR. OBVIOUS: “For those used to dismissing Lacan as just another ‘postmodern’ relativist, this may come as a surprise: Lacan is resolutely anti-postmodern, opposed to any notion of science as just another story we are telling ourselves about ourselves, a narrative whose apparent supremacy over other – mythic, artistic – narratives is grounded only in the historically contingent Western ‘regime of truth’.”

De página em página dizendo “esse conceito de Lacan é muito complexo!”, “é mais complexo do que se imagina!”, “ao contrário do que muitos pensam, não é tão simples de entender!”… Pff.

não tem nada a ver com a coisa-em-si de Kant” E quem foi que disse que tem?

If there is a notion of the real, it is extremely complex and, because of this, incomprehensible, it cannot be comprehended in a way that would make an All out of it. How, then, are we to find our way and introduce some clarity into this conundrum of the Reals?”

Tive que abortar a leitura desse capítulo quando começou a falar do sonho da injeção de Irma. Não SUPORTO mais qualquer referência a essa fabricação!

5. EGO IDEAL AND SUPEREGO: LACAN AS A VIEWER OF CASABLANCA

F. hipostaseou uma entidade chamada “superego”. Lacan vai além e divide o que já não existe em mais TRÊS entidades!

6. “GOD IS DEAD, BUT HE DOESN’T KNOW IT”: LACAN PLAYS WITH BOBOK

Alguns fragmentos de Lacan são peças de um quebra-cabeça que temos de resolver” Não me diga, Einstein!

if God exists, then everything is permitted – is this not the most succinct definition of the religious fundamentalist’s predicament?” Eu só fico puto porque um autor precisa usar Lacan de muleta para abordar um tema desses…

suck, sink

How are we to account for this paradox? Think of the situation known to most of us from our youth: the unfortunate child who, on Sunday afternoon, has to visit his grandmother instead of being allowed to play with friends. The old-fashioned authoritarian father’s message to the reluctant boy would have been: ‘I don’t care how you feel. Just do your duty, go to your grandma’s and behave yourself there!’ (…) although forced to do something he clearly doesn’t want to, he will retain his inner freedom and the ability to (later) rebel against the paternal authority. Much more tricky would have been the message of a ‘postmodern’ non-authoritarian father: ‘You know how much your grandmother loves you! But, nonetheless, I do not want to force you to visit her – go there only if you really want to!’ Every child who is not stupid (which is to say most children) will immediately recognize the trap of this permissive attitude: beneath the appearance of free choice there is an even more oppressive demand than the one formulated by the traditional authoritarian father, namely an implicit injunction not only to visit Grandma, but to do it voluntarily, out of the child’s free will. Such a false free choice is the obscene superego injunction: it deprives the child even of his inner freedom, instructing him not only what to do, but what to want to do.”

For decades, a classic joke has circulated among Lacanians to exemplify the key role of the Other’s knowledge: a man who believes himself to be a grain of seed is taken to a mental institution where the doctors do their best to convince him that he is not a seed but a man. When he is cured (convinced that he is not a grain of seed but a man) and is allowed to leave the hospital, he immediately comes back trembling. There is a chicken outside the door and he is afraid that it will eat him. ‘My dear fellow’, says his doctor, ‘you know very well that you are not a grain of seed but a man.’ ‘Of course I know that’, replies the patient, ‘but does the chicken know it?’

In other words, when a Marxist encounters a bourgeois subject immersed in commodity fetishism, the Marxist’s reproach to him is not: ‘The commodity may seem to you to be a magical object endowed with special powers, but it really is just a reified expression of relations between people’, but rather: ‘You may think that the commodity appears to you as a simple embodiment of social relations (that, e.g., money is just a kind of voucher entitling you to a part of the social product), but this is not how things really seem to you. In your social reality, by means of your participation in social exchange, you bear witness to the uncanny fact that a commodity really appears to you as a bourgeois object endowed with special powers.’” O reaça pensa que o comuna não tem direito a sentir o que é decorrência necessária do social, por isso a piadinha (que ele leva a sério – eis o único problema) do iphone.

Above all, things like money, stock-exchange, the foreign currency administration, type-writer, are for Kafka thoroughly mystical (what they effectively are, only not for us, the others).” Milena Jesenska

K. was able to experience directly these phantasmatic beliefs that we ‘normal’ people disavow.”

Dostoievsky provided the most radical version of the idea that If God doesn’t exist, then everything is permitted in Bobok, his weirdest short story, which even today continues the perplex interpreters. Is this bizarre ‘morbid fantasy’ simply a product of the author’s own mental sickness? Or is it a cynical sacrilege, an abominable attempt to parody the truth of the divine Revelation as disclosed in the Holy Bible?”

The great thing is that we have 2 or 3 months more of life and then – bobok! I propose to spend these 2 months as agreeably as possible, and so to arrange everything on a new basis. Gentlemen! I propose to cast aside all shame.”

(All passages are from www.kiosk.com/dostoevsky/livrary/bobok.txt)” É claro que já está off-line! Dez anos é um tempo mais macarrônico, labiríntico e improvável na world wide web do que seriam mil anos numa biblioteca mofada… É assim que finalmente esqueceremos toda a literatura mundial dentro em breve…

No fim, a crítica literária zizekiana é tão bobinha e ingênua… Cada vez mais eu acho que Dostoievsky diminui de estatura, também, para mim… Relendo-o aos poucos chego à conclusão de que seu realismo era mais unidimensional do que um dia já cri…

7. THE PERVERSE SUBJECT OF POLITICS: LACAN AS A READER OF MOHAMMAD BOUYERI

A true Stalinist politician loves mankind, yet carries out horrible purges and executions – his heart is breaking while he does it, but he cannot help it, it is his Duty towards the Progress of Humanity.” “In her Eichmann in Jerusalem, Hannah Arendt provided a precise description of this sidestep that Nazi executioners accomplished in order to be able to endure the horrible acts they performed. Most of them were not simply evil, they were well aware that they were doing things that brought humiliation, suffering and death to their victims. The way out of this predicament was that ‘instead of saying: What horrible things I did to people!, the murderers would be able to say: What horrible things I had to watch in the pursuance of my duties, how heavily the task weighed upon my shoulders!’”

When, on 2 November 2004, the Dutch documentary filmmaker Theo van Gogh was murdered in Amsterdan by the Islamist extremist Mohammad Bouyeri, a letter was found stuck into a knife wound in his belly, addressed to his friend Hirshi Ali, a female Somali member of the Dutch parliament known as a fierce fighter for the rights of Muslim women. If there ever was a ‘fundamentalist’ document, this is one: (…) Since your appearance in the Dutch political arena you have been constantly busy criticizing Muslims and terrorizing Islam with your statements.

from If you are truthful, you should not fear death, a pervert passes to If you wish death, you are truthful.” Zaratustra deturpado – mas mais ou menos?! Qual a escala da deturpação?!

This brings us to Lacan’s depiction of the pervert (…)” É esse tipo de link forçado que estraga completamente a leitura!

The late Pope John Paul II propagated the Catholic ‘culture of Life’ as our only hope against today’s nihilist ‘culture of death’”

a man can only pretend to be a woman; only a woman can pretend to be a man who is pretending to be a woman, because only a woman can pretend to be what she isEsse estilo de discurso essencialista de Zizek em pleno 2006 soa muitíssimo ultrapassado – ainda presa da má consciência sartreana.

NOTES

Signifier is a technical term, coined by Saussure, which Lacan uses in a very precise way” Bela forma de dizer que Lacan usa uma palavra arbitrária e/ou erradamente.

O “a” de pequeno objeto a decorre de autre. E Lacan não o diz em nenhuma de suas talvez mais de 20 mil páginas… Então, bom (ou mau?) saber!

One of the ridiculous excesses of this joint venture of religious fundamentalism and the scientific approach is taking place today in Israel, where a religious group convinced of the literal truth of the Old Testament prophecy that the Messiah will come when a calf that is totally red is born, is expending huge amounts of time and energy to produce such a calf, through genetic engineering.”

LUDWIG FEUERBACH AND THE END OF CLASSICAL GERMAN PHILOSOPHY (1886) – Engels + apêndice de Marx

FOREWORD

We abandoned the manuscript to the gnawing criticism of the mice¹ all the more willingly as we had achieved our main purpose—self-clarification.

Since then more than 40 years have elapsed and Marx died without either of us having had an opportunity of returning to the subject. We have expressed ourselves in various places regarding our relation to Hegel, but nowhere in a comprehensive, connected account. To Feuerbach, who after all in many respects forms an intermediate link between Hegelian philosophy and our conception, we never returned.”

¹ É incrível como o homem alemão do século XIX pudesse ser censurado em trabalhos de caráter extremamente “especulativo” (pelo menos assim deveria ser encarado o materialismo dialético na mesma geração de seu surgimento)!

and even in Germany itself people appear to be getting tired of the pauper’s broth of eclecticism which is ladled out in the universities there under the name of philosophy.”

Equally, a full acknowledgement of the influence which Feuerbach, more than any other post-Hegelian philosopher, had upon us during our period of storm and stress, appeared to me to be an undischarged debt of honour. I therefore willingly seized the opportunity when the editors of the Neue Zeit asked me for a critical review of Starcke’s book on Feuerbach. My contribution was published in that journal in the fourth and fifth numbers of 1886 and appears here in revised form as a separate publication.”

On the other hand, in an old notebook of Marx’s I have found the eleven theses on Feuerbach printed here as an appendix. These are notes hurriedly scribbled down for later elaboration, absolutely not intended for publication, but invaluable as the first document in which is deposited the brilliant germ of the new world outlook.

London, February 21, 1888

Frederick Engels”

I

The volume before us [o livro de Starcke citado no prefácio] carries us back to a period which, although in time no more than a generation behind us, has become as foreign to the present generation in Germany as if it were already 100 years old. Yet it was the period of Germany’s preparation for the Revolution of 1848; and all that had happened since then in our country has been merely a continuation of 1848, merely the execution of the last will and testament of the revolution.

Just as in France in the 18th century, so in Germany in the 19th, a philosophical revolution ushered in the political collapse.”

O SISTEMA TERMINAL DE TODO DESENVOLVIMENTO – O SISTEMA HEGELIANO: “The French were in open combat against all official science, against the church and often also against the state; their writings were printed across the frontier, in Holland or England, while they themselves were often in jeopardy of imprisonment in the Bastille. On the other hand, the Germans were professors, state-appointed instructors of youth; their writings were recognised textbooks, and the terminating system of the whole development—the Hegelian system—was even raised, as it were, to the rank of a royal Prussian philosophy of state! Was it possible that a revolution could hide behind these professors, behind their obscure, pedantic phrases, their ponderous, wearisome sentences? Were not precisely those people who were then regarded as the representatives of the revolution, the liberals, the bitterest opponents of this brain-confusing philosophy? But what neither the government nor the liberals saw was seen at least by one man as early as 1833, and this man was indeed none other than Heinrich Heine.¹”

¹ Engels se referia ao livro On the History of Religion and Philosophy in Germany.

Aplicação da frase “tudo o que é racional é real e tudo o que é real é racional” ao Estado alemão: “The Prussians of that day had the government that they deserved.”

Se se passa fome no Brasil em 2021, digamos que a responsabilidade é do “brasileiro metafísico”: “and if [the State] nevertheless appears to be evil, but still, in spite of its evil character, continues to exist, then the evil character of the government is justified by the corresponding evil character of its subjects.” Há um momento, entretanto, em que há a intervenção do irreal e do irracional na ‘política’: “The Roman Republic was real, but so was the Roman Empire, which superseded it. In 1789 the French monarchy had become so unreal, that is to say, so robbed of all necessity, so irrational, that it had to be destroyed by the Great Revolution, of which Hegel always speaks with the greatest enthusiasm.”

A transvaloração de todos os valores é uma necessidade.

Truth, the cognition of which is the business of philosophy, was in the hands of Hegel no longer an aggregate of finished dogmatic statements, which, once discovered, had merely to be learned by heart. Truth lay now in the process of cognition itself, in the long historical development of science, which mounts from lower to ever higher levels of knowledge without ever reaching, by discovering so-called absolute truth, a point at which it can proceed no further, where it would have nothing more to do than to fold its hands and gaze with wonder at the absolute truth to which it had attained.” “Just as knowledge is unable to reach a complete conclusion in a perfect, ideal condition of humanity, so is history unable to do so” “The conservatism of this mode of outlook is relative; its revolutionary character is absolute—the only absolute dialectical philosophy admits.”

DECADÊNCIA: “At any rate we still find ourselves a considerable distance from the turning-point at which the historical course of society becomes one of descent, and we cannot expect Hegelian philosophy to be concerned with a subject which natural science,¹ in its time, had not at all placed upon the agenda as yet.”

¹ Referência a Darwin, realmente? Mas então ou o socialismo estava errado ou a teoria da distância em relação à decadência o estava: a Europa dos sécs. XVIII e XIX já era expressão da decadência e desagregação sociais. Forçosamente devemos reconhecer que essa desagregação apenas continua até o dia de hoje.

he was compelled to make a system and, in accordance with traditional requirements, a system of philosophy must conclude with some sort of absolute truth. Therefore, however much Hegel, especially in his Logic, emphasised that this eternal truth is nothing but the logical, or, the historical, process itself, he nevertheless finds himself compelled to supply this process with an end, just because he has to bring his system to a termination at some point or other.”

But at the end of the whole philosophy a similar return to the beginning is possible only in one way. Namely, by conceiving of the end of history as follows: mankind arrives at the cognition of this self-same absolute idea, and declares that this cognition of the absolute idea is reached in Hegelian philosophy. In this way, however, the whole dogmatic content of the Hegelian system is declared to be absolute truth, in contradiction to his dialectical method, which dissolves all dogmatism.”

And so we find at the conclusion of the Philosophy of Right that the absolute idea is to be realized in that monarchy based on social estates which Frederick William III so persistently but vainly promised to his subjects, that is, in a limited, moderate, indirect rule of the possessing classes suited to the petty-bourgeois German conditions of that time; and, moreover, the necessity of the nobility is demonstrated to us in a speculative fashion.”

O CAVALO DE RAÇA QUE SE CONTENTOU COM DAR UMA VOLTINHA DE SPARRING E NÃO COMPETIU PELO OURO OLÍMPICO: “The inner necessities of the system are, therefore, of themselves sufficient to explain why a thoroughly revolutionary method of thinking produced an extremely tame political conclusion.”

As a matter of fact the specific form of this conclusion springs from this, that Hegel was a German, and like his contemporary Goethe had a bit of the philistine’s queue dangling behind. Each of them was an Olympian Zeus in his own sphere, yet neither of them ever quite freed himself from German philistinism.”

As conclusões tão timoratas do sistema hegeliano resultam disso: que Hegel era alemão, e como seu contemporâneo Goethe tinha um quê da tendência filistéia, fio que lhes conduzia os pensamentos. Cada um deles era um Zeus Olímpico em sua própria esfera, mas nenhum conseguiu livrar-se do filisteísmo germânico.”

The phenomenology of mind (which one may call a parallel of the embryology and palaeontology of the mind, a development of individual consciousness through its different stages, set in the form of an abbreviated reproduction of the stages through which the consciousness of man has passed in the course of history), logic, natural philosophy, philosophy of mind, and the latter worked out in its separate, historical subdivisions: philosophy of history, of right, of religion, history of philosophy, aesthetics, etc.—in all these different historical fields Hegel laboured to discover and demonstrate the pervading thread of development. And as he was not only a creative genius but also a man of encyclopaedic erudition, he played an epoch-making role in every sphere.”

A fenomenologia da mente (que pode também ser chamada de uma embriologia e paleontologia paralelas da mente, um desenvolvimento da consciência individual por seus diferentes estágios, disposta na forma de uma reprodução abreviada dos estágios que a consciência do homem atravessara no decurso da história), a lógica, a filosofia natural, a filosofia da mente, cada uma desdobrada em suas distintas subdivisões históricas: filosofia da história, do direito, da religião, história da filosofia, estética, etc. – em todos esses diferentes campos históricos Hegel esforçou-se por descobrir e demonstrar as difusas correntes do desenvolvimento. E desde que ele não era apenas um gênio criativo mas também um homem de erudição enciclopédica, ele desempenhou um papel que marcou época em cada uma dessas esferas.”

Porém, tudo isso não passa de um verdadeiro prólogo, de uma estrutura ou esqueleto de sua filosofia. E se não nos limitarmos, como os pigmeus de antes, a meramente repisar sobre essas estruturas, sem avançar um só passo, mas nos aventurarmos mais longe nesta imensa edificação preparada, encontraremos inúmeros tesouros que ainda em nossa época possuem um valor não-deteriorado. Com todos os filósofos é justamente o ‘sistema’ o que é perecível; e tudo isso pela simples razão de que tais ‘sistemas’ emergem de um desejo imperecível da mente humana – o desejo de superar todas as contradições. Mas se todas as contradições forem superadas, atingiremos a verdade absoluta – e a história do mundo acaba. Porém, é mister que ela continue, embora não reste propósito algum para ela – eis, pois, uma nova e insolúvel contradição. Assim que nos damos conta – e, a longo prazo, ninguém nos ajudou a darmo-nos conta melhor do que o próprio Hegel – de que a tarefa da filosofia acima descrita nada significa além da constatação de que um único filósofo deve completar aquilo que só pode ser completado por toda a humanidade em seu desenvolvimento progressivo; assim que nos damos conta de que há um fim para toda a filosofia no sentido que nos foi aqui prescrito, a ‘verdade absoluta’ se torna obsoleta, posto ser inalcançável por essa via, ou por qualquer indivíduo em separado. Por outra parte, o filósofo isolado persegue verdades relativas alcançáveis percorrendo a via das ciências positivas, e a consunção de seus esforços mediante o método dialético. Seja como for, com Hegel a filosofia atinge um fim, por uma dupla razão: por uma parte, porque em seu sistema ele consumou todo o seu desenvolvimento da maneira mais esplêndida; e, por outra, porque, embora inconscientemente, ele nos indicou o caminho para fora do labirinto dos sistemas rumo ao conhecimento positivo real do mundo.”

And in the theoretical Germany of that time, two things above all were practical: religion and politics. Whoever placed the chief emphasis on the Hegelian system could be fairly conservative in both spheres; whoever regarded the dialectical method as the main thing could belong to the most extreme opposition, both in politics and religion. Hegel himself, despite the fairly frequent outbursts of revolutionary wrath in his works, seemed on the whole to be more inclined to the conservative side. Indeed, his system had cost him much more ‘hard mental plugging’¹ than his method.”

¹ Esforços de conciliação

The Left wing, the so-called Young Hegelians, [ainda burgueses liberais, e não os socialistas] in their fight with the pietist orthodox and the feudal reactionaries, abandoned bit by bit that philosophical-genteel reserve in regard to the burning questions of the day which up to that time had secured state toleration and even protection for their teachings. And when in 1840, orthodox pietism and absolutist feudal reaction ascended the throne with Frederick William IV, open partisanship became unavoidable. The fight was still carried on with philosophical weapons, but no longer for abstract philosophical aims. It turned directly on the destruction of traditional religion and of the existing state. (…) in the Rheinische Zeitung of 1842 the Young Hegelian school revealed itself directly as the philosophy of the aspiring radical bourgeoisie and used the meagre cloak of philosophy only to deceive the censorship.”

Strauss’ Life of Jesus, published in 1835, had provided the first impulse. The theory therein developed of the formation of the gospel myths was combated later by Bruno Bauer with proof that a whole series of evangelic stories had been fabricated by the authors themselves. The controversy between these two was carried out in the philosophical disguise of a battle between ‘self-consciousness’ and ‘substance’. The question whether the miracle stories of the gospels came into being through unconscious-traditional myth-creation within the bosom of the community or whether they were fabricated by the evangelists themselves was magnified into the question whether, in world history, ‘substance’ or ‘self-consciousness’ was the decisive operative force. Finally came Stirner, the prophet of contemporary anarchism—Bakunin has taken a great deal from him—and capped the sovereign ‘self-consciousness’ by his sovereign ‘I’.”

Then came Feuerbach’s Essence of Christianity. With one blow it pulverised the contradiction, in that without circumlocutions it placed materialism on the throne again.” “Nothing exists outside nature and man, and the higher beings our religious fantasies have created are only the fantastic reflection of our own essence.” “One must himself have experienced the liberating effect of this book to get an idea of it. Enthusiasm was general; we all became at once Feuerbachians. How enthusiastically Marx greeted the new conception and how much—in spite of all critical reservations—he was influenced by it, one may read in The Holy Family. § Even the shortcomings of the book contributed to its immediate effect. Its literary, sometimes even high-flown, style secured for it a large public and was at any rate refreshing after long years of abstract and abstruse Hegelianising. The same is true of its extravagant deification of love, which, coming after the now intolerable sovereign rule of ‘pure reason’, had its excuse, if not justification. But what we must not forget is that it was precisely these two weaknesses of Feuerbach that ‘true Socialism’, which had been spreading like a plague in ‘educated’ Germany since 1844, took as its starting-point, putting literary phrases in the place of scientific knowledge, the liberation of mankind by means of ‘love’ in place of the emancipation of the proletariat through the economic transformation of production”

the Hegelian school disintegrated, but Hegelian philosophy was not overcome through criticism; Strauss and Bauer each took one of its sides and set it polemically against the other. Feuerbach smashed the system and simply discarded it. But a philosophy is not disposed of by the mere assertion that it is false. And so powerful a work as Hegelian philosophy, which had exercised so enormous an influence on the intellectual development of the nation, could not be disposed of by simply being ignored. It had to be ‘sublated’ in its own sense, that is, in the sense that while its form had to be annihilated through criticism, the new content which had been won through it had to be saved.”

But in the meantime the Revolution of 1848 thrust the whole of philosophy aside as unceremoniously as Feuerbach had thrust aside Hegel. And in the process Feuerbach himself was also pushed into the background.” O que sempre aprendemos da Revolução de 1848 é que já integra o socialismo científico, pelo menos de parte da literatura histórica didática. Talvez porque Marx já fosse vivo e um adulto então?!

II

(*) “Among savages and lower barbarians the idea is still universal that the human forms which appear in dreams are souls which have temporarily left their bodies; the real man is, therefore, held responsible for acts committed by his dream apparition against the dreamer. Thus Imthurn found this belief current, for example, among the Indians of Guiana in 1884. (Note by Engels.)

The quandary arising from the common universal ignorance of what to do with this soul, once its existence had been accepted, after the death of the body, and not religious desire for consolation, led in a general way to the tedious notion of personal immortality. In an exactly similar manner the first gods arose through the personification of natural forces. And these gods in the further development of religions assumed more and more extramundane form, until finally by a process of abstraction, I might almost say of distillation, occurring naturally in the course of man’s intellectual development, out of the many more or less limited and mutually limiting gods there arose in the minds of men the idea of the one exclusive God of the monotheistic religions.”

The question of the position of thinking in relation to being, a question which, by the way, had played a great part also in the scholasticism of the Middle Ages, the question: which is primary, spirit or nature—that question, in relation to the church, was sharpened into this: Did God create the world or has the world been in existence eternally?

The answers which the philosophers gave to this question split them into two great camps. Those who asserted the primacy of spirit to nature and, therefore, in the last instance, assumed world creation in some form or other—and among the philosophers, Hegel, for example, this creation often becomes still more intricate and impossible than in Christianity—comprised the camp of idealism. The others, who regarded nature as primary, belong to the various schools of materialism. § These two expressions, idealism and materialism, originally signify nothing else but this; and here too they are not used in any other sense. What confusion arises when some other meaning is put into them will be seen below.”

What is decisive in the refutation of the views of Hume and Kant has already been said by Hegel, in so far as this was possible from an idealist standpoint. The materialistic additions made by Feuerbach are more ingenious than profound. The most telling refutation of this as of all other philosophical crotchets is practice, namely, experiment and industry. If we are able to prove the correctness of our conception of a natural process by making it ourselves, bringing it into being out of its conditions and making it serve our own purposes into the bargain, then there is an end to the Kantian ungraspable ‘thing-in-itself’.”

The chemical substances produced in the bodies of plants and animals remained just such ‘things-in-themselves’ until organic chemistry began to produce them one after another, whereupon the ‘thing-in-itself’ became a thing for us, as, for instance, alizarin, the colouring matter of the madder [garança, planta que dá extratos vermelhos e púrpura], which we no longer trouble to grow in the madder roots in the field, but produce much more cheaply and simply from coal tar [piche]. For 300 years the Copernican solar system was a hypothesis with 100, 1,000 or 10,000 chances to 1 in its favour, but still always a hypothesis. But when Leverrier, by means of the data provided by this system, not only deduced the necessity of the existence of an unknown planet, but also calculated the position in the heavens which this planet must necessarily occupy, and when Galle really found this planet,(*) the Copernican system was proved. If, nevertheless, the neo-Kantians are attempting to resurrect the Kantian conception in Germany and the agnostics that of Hume in England (where in fact it never became extinct), this is, in view of their theoretical and practical refutation accomplished long ago, scientifically a regression and practically merely a shamefaced way of surreptitiously accepting materialism, while denying it before the world.

(*) The planet referred to is Neptune, discovered in 1846 by Johann Galle, an astronomer at the Berlin Observatory.”

But during this long period from Descartes to Hegel and from Hobbes to Feuerbach, the philosophers were by no means impelled, as they thought they were, solely by the force of pure reason. On the contrary, what really pushed them forward most was the powerful and ever more rapidly onrushing progress of natural science and industry.” O que me faz pensar: viveremos uns 300 anos sem filosofia verdadeira com a estagnação das ciências da natureza a despeito do desenvolvimento tecnológico?

Thus, ultimately, the Hegelian system represents merely a materialism idealistically turned upside down in method and content.”

The course of evolution of Feuerbach is that of a Hegelian—a never quite orthodox Hegelian, it is true—into a materialist; an evolution which at a definite stage necessitates a complete rupture with the idealist system of his predecessor.” “Matter is not a product of mind, but mind itself is merely the highest product of matter. This is, of course, pure materialism. But, having got so far, Feuerbach stops short.”

To me materialism is the foundation of the edifice of human essence and knowledge; but to me it is not what it is to the physiologist, to the natural scientist in the narrower sense, for example, to Moleschott, and necessarily is from their standpoint and profession, namely, the edifice itself. Backwards I fully agree with the materialists; but not forwards.”

he lumps [the word] with the shallow, vulgarised form in which the materialism of the 18th century continues to exist today in the heads of naturalists and physicians, the form which was preached on their tours in the 50s by Büchner, Vogt and Moleschott. But just as idealism underwent a series of stages of development, so also did materialism.”

The materialism of the last century was predominantly mechanical, because at that time, of all natural sciences, only mechanics, and indeed only the mechanics of solid bodies—celestial and terrestrial—in short, the mechanics of gravity, had come to any definite close. Chemistry at that time existed only in its infantile, phlogistic(*) form. Biology still lay in swaddling clothes; vegetable and animal organisms had been only roughly examined and were explained by purely mechanical causes.” Nem sei o que dizer da atual era de replicantes

(*) “Phlogistic Theory: The theory prevailing in chemistry during the 17th and 18th centuries that combustion takes place due to the presence in certain bodies of a special substance named phlogiston.—Ed.

What the animal was to Descartes, man was to the materialists of the 18th century—a machine.”


“The second specific limitation of this materialism lay in its inability to comprehend the universe as a process, as matter undergoing uninterrupted historical development. This was in accordance with the level of the natural science of that time, and with the metaphysical, that is, anti-dialectical manner of philosophising connected with it.
Nature, so much was known, was in eternal motion. But according to the ideas of that time, this motion turned, also eternally, in a circle and therefore never moved from the spot; it produced the same results over and over again.¹ This conception was at that time inevitable. The Kantian theory of the origin of the solar system(*) had been put forward but recently and was still regarded merely as a curiosity. The history of the development of the earth, geology, was still totally unknown, and the conception that the animate natural beings of today are the result of a long sequence of development from the simple to the complex could not at that time scientifically be put forward at all.

(*) The theory which holds that the sun and the planets originated from incandescent rotating nebulous masses.—Ed.

¹ Seria o “meu pensamento-mor”, ao contrário de vanguardista em conexão com o eterno retorno, só uma regressão fetichista a esse tipo de sistema cíclico e esférico da natureza ideal? Outra pergunta: se é um ou outro ou nenhum dos dois, realmente importa em algo?! Se dinossauros nunca coexistiram com o homem, e o mundo é o homem, do princípio ao fim, dinossauros sendo eternos fósseis ou tendo vivido e sido abolidos em acontecimentos pré-históricos dedutíveis por nós não seriam uma e a mesma coisa?

This absurdity of a development in space, but outside of time—the fundamental condition of all development—Hegel imposes upon nature just at the very time when geology, embryology, the physiology of plants and animals, and organic chemistry were being built up, and when everywhere on the basis of these new sciences brilliant foreshadowings of the later theory of evolution were appearing (for instance, Goethe and Lamarck).”

The Middle Ages were regarded as a mere interruption of history by a thousand years of universal barbarism.” “history served at best as a collection of examples and illustrations for the use of philosophers. [paradigma Montaigne]”

Though idealism was at the end of its tether and was dealt a death-blow by the Revolution of 1848, it had the satisfaction of seeing that materialism had for the moment fallen lower still.”

It is true that Feuerbach had lived to see all three of the decisive discoveries—that of the cell, the transformation of energy and the theory of evolution named after Darwin. But how could the lonely philosopher, living in rural solitude, be able sufficiently to follow scientific developments in order to appreciate at their full value discoveries which natural scientists themselves at that time either still contested or did not know how to make adequate use of? The blame for this falls solely upon the wretched conditions in Germany, in consequence of which cobweb-spinning eclectic flea-crackers had taken possession of the chairs of philosophy, while Feuerbach, who towered above them all, had to rusticate and grow sour in a little village.”

It was therefore a question of bringing the science of society, that is, the sum total of the so-called historical and philosophical sciences, into harmony with the materialist foundation, and of reconstructing it thereupon. But it did not fall to Feuerbach’s lot to do this. In spite of the ‘foundation’, he remained here bound by the traditional idealist fetters, a fact which he recognises in these words: ‘Backwards I agree with the materialists, but not forwards!’

The superstition that philosophical idealism is pivoted round a belief in ethical, that is, social, ideals, arose outside philosophy, among the German philistines, who learned by heart from Schiller’s poems the few morsels of philosophical culture they needed. No one has criticized more severely the impotent ‘categorical imperative’ of Kant—impotent because it demands the impossible, and therefore never attains to any reality—no one has more cruelly derided the philistine sentimental enthusiasm for unrealizable ideals purveyed by Schiller than precisely the complete idealist Hegel (see, for example, his Phenomenology).”

the conviction that humanity, at least at the present moment, moves on the whole in a progressive direction has absolutely nothing to do with the antagonism between materialism and idealism. The French materialists no less than the deists Voltaire and Rousseau held this conviction to an almost fanatical degree, and often enough made the greatest personal sacrifices for it. If ever anybody dedicated his whole life to the ‘enthusiasm for truth and justice’—using this phrase in the good sense—it was Diderot, for instance. If, therefore, Starcke declares all this to be idealism, this merely proves that the word materialism, and the whole antagonism between the two trends, has lost all meaning for him here.”

By the word materialism the philistine understands gluttony, drunkenness, lust of the eye, lust of the flesh, arrogance, cupidity, avarice, covetousness, profit-hunting and stock-exchange swindling—in short, all the filthy vices in which he himself indulges in private. By the word idealism he understands the belief in virtue, universal philanthropy and in a general way a ‘better world’, of which he boasts before others but in which he himself at the utmost believes only so long as he is having the blues or is going through the bankruptcy consequent upon his customary ‘materialist’ excesses. It is then that he sings his favourite song, What is man?—Half beast, half angel.

For the rest, Starcke takes great pains to defend Feuerbach against the attacks and doctrines of the vociferous assistant professors who today go by the name of philosophers in Germany. For people who are interested in this afterbirth of classical German philosophy this is, of course, a matter of importance; for Starcke himself it may have appeared necessary. We, however, will spare the reader this.”

III

The existing positive religions have limited themselves to the bestowal of a higher consecration upon state-regulated sex love, that is, upon the marriage laws, and they could all disappear tomorrow without changing in the slightest the practice of love and friendship. Thus the Christian religion in France, as a matter of fact, so completely disappeared in the years 1793-98 that even Napoleon could not re-introduce it without opposition and difficulty; and this without any need for a substitute, in Feuerbach’s sense, making itself felt in the interval.”

The chief thing for him is not that these purely human relations exist, but that they shall be conceived of as the new, true religion. They are to have full value only after they have been marked with a religious stamp. Religion is derived from religare and meant originally a bond. Therefore, every bond between two people is a religion. Such etymological tricks are the last resort of idealist philosophy.” “And so sex love and the intercourse between the sexes is apotheosised to a religion, merely in order that the word religion, which is so dear to idealistic memories, may not disappear from the language. The Parisian reformers of the Louis Blanc trend used to speak in precisely the same way in the 1840s.” “If Feuerbach wishes to establish a true religion upon the basis of an essentially materialist conception of nature, that is the same as regarding modern chemistry as true alchemy. If religion can exist without its god, alchemy can exist without its philosopher’s stone.”

Already here it becomes evident how far today we have moved beyond Feuerbach. His ‘finest passages’ in glorification of his new religion of love are totally unreadable today.” “Feuerbach, who on every page preaches sensuousness, absorption in the concrete, in actuality, becomes thoroughly abstract as soon as he begins to talk of any other than mere sex relations between human beings.”

In form he is realistic since he takes his start from man; but there is absolutely no mention of the world in which this man lives; hence, this man remains always the same abstract man who occupied the field in the philosophy of religion.” “In his philosophy of religion we still had men and women, but in his ethics even this last distinction disappears.”

One believes one is saying something great if one says that ‘man is naturally good’. But one forgets that one says something far greater when one says ‘man is naturally evil’. –Hegel

This contains the twofold meaning that, on the one hand, each new advance necessarily appears as a sacrilege against things hallowed, as a rebellion against conditions, though old and moribund, yet sanctified by custom; and that, on the other hand, it is precisely the wicked passions of man—greed and lust for power—which, since the emergence of class antagonisms, serve as levers of historical development—a fact of which the history of feudalism and of the bourgeoisie, for example, constitutes a single continual proof.”

after the debauch come the ‘blues’, and habitual excess is followed by illness.”

Only very exceptionally, and by no means to his and other people’s profit, can an individual satisfy his urge towards happiness by preoccupation with himself.”

Feuerbach nega-se a si mesmo: “Man thinks differently in a palace and in a hut. If because of hunger, of misery, you have no stuff in your body, you likewise have no stuff for morality in your head, in your mind or heart.”

(*) “The schoolmaster of Sadowa: An expression currently used by German bourgeois publicists after the victory of the Prussians at Sadowa (in the Austro-Prussian War of 1866), the implication being that the Prussian victory was to be attributed to the superiority of the Prussian system of public education.—Ed.” Em infantaria: 7 a 1. Mas, em educação: de novo 7 a 1!

If my urge towards happiness leads me to the Stock Exchange, and if there I correctly gauge the consequences of my actions so that only agreeable results and no disadvantages ensue, that is, if I always win, then I am fulfilling Feuerbach’s precept.” “In other words, Feuerbach’s morality is cut exactly to the pattern of modern capitalist society, little as Feuerbach himself might desire or imagine it.” “In short, the Feuerbachian theory of morals fares like all its predecessors. It is designed to suit all periods, all peoples and all conditions, and precisely for that reason it is never and nowhere applicable.” “Now how was it possible that the powerful impetus given by Feuerbach turned out to be so unfruitful for himself? For the simple reason that Feuerbach himself never contrives to escape from the realm of abstraction—for which he has a deadly hatred—into that of living reality.” “And that is what Feuerbach resisted, and therefore the year 1848, which he did not understand, meant to him merely the final break with the real world, retirement into solitude.”

The cult of abstract man, which formed the kernel of Feuerbach’s new religion, had to be replaced by the science of real men and of their historical development. This further development of Feuerbach’s standpoint beyond Feuerbach was inaugurated by Marx in 1845 in The Holy Family.”

IV

(*) “Lately repeated reference has been made to my share in this theory, and so I can hardly avoid saying a few words here to settle this point. I cannot deny that both before and during my 40 years’ collaboration with Marx I had a certain independent share in laying the foundations of the theory, and more particularly in its elaboration. But the greater part of its leading basic principles, especially in the realm of economics and history, and, above all, their final trenchant formulation, belong to Marx. What I contributed—at any rate with the exception of my work in a few special fields—Marx could very well have done without me. What Marx accomplished I would not have achieved. Marx stood higher, saw further, and took a wider and quicker view than all the rest of us. Marx was a genius; we others were at best talented. Without him the theory would not be by far what it is today. It therefore rightly bears his name.”

And this materialist dialectic, which for years has been our best working tool and our sharpest weapon, was, remarkably enough, discovered not only by us but also, independently of us and even of Hegel, by a German worker, Joseph Dietzgen.”

today natural philosophy is finally disposed of. Every attempt at resurrecting it would be not only superfluous but a step backwards.”

In the history of society, on the contrary, the actors are all endowed with consciousness, are men acting with deliberation or passion, working towards definite goals; nothing happens without a conscious purpose, without an intended aim.” Eis o aspecto que supervalorizaram! Conquanto o materialismo histórico antevia bem esse tipo de dificuldade em seu “determinismo dialético”: “Thus the conflicts of innumerable individual wills and individual actions in the domain of history produce a state of affairs entirely analogous to that prevailing in the realm of unconscious nature.” Weber sabia de onde retirar sua “teoria trágica da ação”, se podemos assim denominá-la.

it follows for the old materialism that nothing very edifying is to be got from the study of history, and for us that in the realm of history the old materialism becomes untrue to itself because it takes the ideal driving forces which operate there as ultimate causes, instead of investigating what is behind them, what are the driving forces of these driving forces.” De certa forma esse é o parecer mais correto sobre a história.

Instead of explaining the history of ancient Greece out of its own inner interconnections, Hegel simply maintains that it is nothing more than the working out of ‘forms of beautiful individuality’, the realisation of a ‘work of art’ as such.”

The workers have by no means become reconciled to capitalist machine industry, even though they no longer simply break the machines to pieces as they still did in 1848 on the Rhine.” Me pergunto o que Engels diria dos entregadores de aplicativo de hoje em dia…

Since the establishment of large-scale industry, that is, at least since the European peace of 1815, it has been no longer a secret to any man in England that the whole political struggle there pivoted on the claims to supremacy of two classes: the landed aristocracy and the bourgeoisie (middle class). In France, with the return of the Bourbons, the same fact was perceived, the historians of the Restoration period, from Thierry to Guisot, Mignet and Thiers, speak of it everywhere as the key to the understanding of all French history since the Middle Ages. And since 1830 the working class, the proletariat, has been recognised in both countries as a third competitor for power. Conditions had become so simplified that one would have had to close one’s eyes deliberately not to see in the fight of these three great classes and in the conflict of their interests the driving force of modern history—at least in the two most advanced countries.

But how did these classes come into existence? If it was possible at first glance still to ascribe the origin of the great, formerly feudal landed property—at least in the first instance—to political causes, to taking possession by force, this could not be done in regard to the bourgeoisie and the proletariat.”

Overproduction and mass misery, each the cause of the other—that is the absurd contradiction which is its outcome, and which of necessity calls for the liberation of the productive forces by means of a change in the mode of production. § In modern history at least it is, therefore, proved that all political struggles are class struggles, and all class struggles for emancipation, despite their necessarily political form—for every class struggle is a political struggle—turn ultimately on the question of economic emancipation.”

The traditional conception, to which Hegel, too, pays homage, saw in the state the determining element, and in civil society the element determined by it. Appearances correspond to this.” “If the state even today, in the era of big industry and of railways, is on the whole only a reflection, in concentrated form, of the economic needs of the class controlling production, then this must have been much more so in an epoch when each generation of men was forced to spend a far greater part of its aggregate lifetime in satisfying material needs, and was therefore much more dependent on them than we are today.” “The state presents itself to us as the first ideological power over man. Society creates for itself an organ for the safeguarding of its common interests against internal and external attacks.”

The consciousness of the interconnection between this political struggle and its economic basis becomes dulled and can be lost altogether. While this is not wholly the case with the participants, it almost always happens with the historians. Of the ancient sources on the struggles within the Roman Republic only Appian tells us clearly and distinctly what was at issue in the last resort—namely, landed property.”

It is indeed among professional politicians, theorists of public law and jurists of private law that the connection with economic facts gets lost for fair. Since in each particular case the economic facts must assume the form of juristic motives in order to receive legal sanction; and since, in so doing, consideration of course has to be given to the whole legal system already in operation, the juristic form is, in consequence, made everything and the economic content nothing.”

Still higher ideologies, [than law] that is, such as are still further removed from the material, economic basis, take the form of philosophy and religion.”

Just as the whole Renaissance period, from the middle of the 15th century, was an essential product of the towns and, therefore, of the burghers, so also was the subsequently newly-awakened philosophy. Its content was in essence only the philosophical expression of the thoughts corresponding to the development of the small and middle burghers into a big bourgeoisie.”

ideology, that is, occupation with thoughts as with independent entities, developing independently and subject only to their own laws.”

But a new world religion is not to be made in this fashion, by imperial decree. The new world religion, Christianity, had already quietly come into being, out of a mixture of generalised Oriental, particularly Jewish, theology, and vulgarised Greek, particularly Stoic, philosophy.”

The fact that already after 250 years it became the state religion suffices to show that it was the religion in correspondence with the conditions of the time. In the Middle Ages, in the same measure as feudalism developed, Christianity grew into the religious counterpart to it, with a corresponding feudal hierarchy. And when the burghers began to thrive, there developed, in opposition to feudal Catholicism, the Protestant heresy, which first appeared in Southern France, among the Albigenses,(*) at the time the cities there reached the highest point of their florescence.

(*) Albigenses: A religious sect which during the 12th and 13th centuries directed a movement against the Roman Catholic Church. The name is derived from the town of Albi, in the south of France. —Ed.

The ineradicability of the Protestant heresy corresponded to the invincibility of the rising burghers.” “Thenceforward Germany disappears for three centuries from the ranks of countries playing an independent active part in history. But beside the German Luther appeared the Frenchman Calvin. With true French acuity he put the bourgeois character of the Reformation in the forefront, republicanised and democratised the Church. While the Lutheran Reformation in Germany degenerated and reduced the country to rack and ruin, the Calvinist Reformation served as a banner for the republicans in Geneva, in Holland and in Scotland, freed Holland from Spain and from the German Empire and provided the ideological costume for the 2nd act of the bourgeois revolution, which was taking place in England. Here Calvinism justified itself as the true religious disguise of the interests of the bourgeoisie of that time, and on this account did not attain full recognition when the revolution ended in 1689 in a compromise between one part of the nobility and the bourgeoisie. The English state Church was re-established; but not in its earlier form of a Catholicism which had the king for its pope, being, instead, strongly Calvinised. The old state Church had celebrated the merry Catholic Sunday and had fought against the dull Calvinist one. The new, bourgeoisified Church introduced the latter, which adorns England to this day. § In France, the Calvinist minority was suppressed in 1685 and either Catholicised or driven out of the country. But what was the good? Already at that time the freethinker Pierre Bayle¹ was at the height of his activity, and in 1694 Voltaire was born.”

¹ Em breve no Seclusão.

For philosophy, which has been expelled from nature and history, there remains only the realm of pure thought, so far as it is left: the theory of the laws of the thought process itself, logic and dialectics.”

With the Revolution of 1848, ‘educated’ Germany said farewell to theory and went over to the field of practice.” “The new little German Empire(*) abolished at least the most crying of the abuses with which this development had been obstructed by the system of petty states, the relics of feudalism, and bureaucratic management.

(*) This term is applied to the German Empire (without Austria) that arose in 1871 under Prussia’s hegemony.—Ed.

educated Germany lost the great aptitude for theory which had been the glory of Germany in the days of its deepest political humiliation” “Official German natural science, it is true, maintained its position in the front rank, particularly in the field of specialized research. But even the American journal Science rightly remarks that the decisive advances in the sphere of the comprehensive correlation of particular facts and their generalisation into laws are now being made much more in England, instead of, as formerly, in Germany. And in the sphere of the historical sciences, philosophy included, the old fearless zeal for theory has now disappeared completely, along with classical philosophy. Inane eclecticism and an anxious concern for career and income, descending to the most vulgar job-hunting, occupy its place. The official representatives of these sciences have become the undisguised ideologists of the bourgeoisie and the existing state—but at a time when both stand in open antagonism to the working class.” “The German working-class movement is the inheritor of German classical philosophy.” Não é que estejamos órfãos, só não tivemos filhos…

* * *

APPENDIX – THESES ON FEUERBACH (1845)

Thus, for instance, once the earthly family is discovered to be the secret of the holy family, the former must then itself be criticised in theory and revolutionised in practice.”

The standpoint of the old materialism is ‘civil’ society; the standpoint of the new is human society, or socialized humanity.”