[ARQUIVO] Morrer não é motivo suficiente para parar de sonhar.

17/12/10

Prova disso é que hoje levei um tiro na cabeça de um torcedor de futebol psicopata, senti a “dor” do momento e soube sem adiamentos que aquele seria o fim… e no entanto não foi, veio à baila o que se sucedeu no local após minha suposta morte, como se atiraram para cima do agressor. E de repente me transportavam para uma urna, muito pequena para o comprimento das minhas pernas. Os responsáveis por me trasladarem, um tanto desajeitadamente, é verdade, eram meus familiares… Porém “eu me descobria” vivíssimo da silva, até piscando os olhos (pois tinha morrido de olhos abertos), consciente de que aquilo era uma grande encenação, mas não de nós para nós mesmos ou deles em relação a mim, mas queríamos enganar uma terceira entidade misteriosa. O caixão se transformou em uma caçamba de caminhonete e eu passava a cumprimentar as pessoas que apareciam e se postavam a meu lado – meu irmão dirigia ao longo da W3, quase no centro da cidade, o lugar onde a vida se agita. Repare bem: o caminho é sempre retilíneo. Rumo a algum fim obscuro… Moral: se tudo é lógico mas algo no sonho trai seu senso de realidade, isso é fatal para a continuidade da experiência. Não obstante, na hipótese de todo o montante absurdo permanecer bem-concatenado, e a consciência vigilante não perceber que o que se dá é FANTÁSTICO, a narrativa prossegue. Ora, a morte é perfeitamente factível, e não é motivo forte o bastante para se sentir ludibriado atingi-la, afinal é mesmo natural, o real supremo do ser humano. Perceber por qualquer razão alheia a condição de sono e ficção, por outro lado, aceleram o abaixar das cortinas. Por isso, o personagem principal do meu sonho não precisa ser eu, tudo pode ser uma trama póstuma – ou pior: eu ainda nem ter nascido.

VIENA FIN-DE-SIÈCLE: Política e cultura – Carl E. Schorske (tradução de Denise Bottmann)

INTRODUÇÃO

A arquitetura moderna, a música moderna, a filosofia moderna, a ciência moderna – todas se definem não a partir do passado, e na verdade nem contra o passado, mas em independência do passado. A mentalidade moderna tornou-se cada vez mais indiferente à história porque esta, concebida como uma tradição nutriz contínua, revelou-se inútil para ela.” “a indiferença por qualquer relação com o passado libera a imaginação, permitindo que proliferem novas formas e novas construções.”

Viena no fin-de-siècle, sentindo profundamente os abalos da desintegração social e política, revelou-se um dos terrenos mais férteis para a cultura a-histórica do nosso século.”

I

meu curso de história das idéias seguiu bastante bem – até Nietzsche.” “As diversas categorias elaboradas para definir ou orientar qualquer uma das correntes na cultura pós-nietzschiana – irracionalismo, subjetivismo, abstracionismo, angústia, tecnicismo – não tinham a virtude de se prestar a generalizações, e tampouco permitiam qualquer integração dialética convincente com o processo histórico, tal como era entendido antes.” “a própria multiplicidade de categorias analíticas com que os movimentos modernos se definiam tinha se convertido, para empregar a expressão de Arnold Schoenberg, em ‘uma dança fúnebre dos princípios’.”

Em economia, os teóricos de orientação matemática ampliaram seu domínio em detrimento dos institucionalistas mais antigos, de orientação social, e keynesianos de orientação política. Mesmo num campo como a música, uma nova cerebralidade, inspirada por Schoenberg e Schenker, começou a destruir as preocupações históricas da musicologia. Sobretudo em filosofia, disciplina outrora marcada por uma grande consciência do seu caráter e continuidade históricos, a escola analítica contestou a validade das questões tradicionais que, desde a antiguidade, tinham interessado aos filósofos.”

Os historiadores tinham-se contentado, por demasiado tempo, em usar os artefatos da alta cultura como meros reflexos ilustrativos de desenvolvimentos políticos ou sociais, ou como elementos ideológicos.” “A noção, amplamente aceita, de um processo histórico estruturado na vida cultural – principalmente o fundado sobre o conceito de progresso, como no séc. XIX – permitia ao historiador que ele se apropriasse de materiais culturais condizentes com a idéia que tinha acerca da direção geral seguida pela história.”

Assim como é necessário conhecer os métodos críticos da ciência moderna para interpretá-la historicamente, da mesma forma é preciso conhecer os tipos de análise empregados pelos estudiosos modernos de humanidades para abordar a produção cultural não-científica do séc. XX.”

Ao que o historiador deve renunciar agora, [anos 70] e principalmente ao enfrentar o problema da modernidade, é a postulação prévia de uma categoria geral abstrata – o que Hegel chamou de Zeitgeist, e Mill de ‘a característica da época’.”

II

No decênio que se seguiu a 1947, finalmente faliu o otimismo histórico e social associado ao New Deal e à luta contra os nazistas. É inegável que os EUA tiveram, antes, ondas de pessimismo e dúvida, com porta-vozes tão eloqüentes como Poe, Melville ou Henry Adams. Mas elas não tinham se imprimido muito profundamente na cultura de uma nação cujos intelectuais se integravam intimamente à sua vida pública.” “Em suma, liberais e radicais, quase que inconscientemente, adaptaram suas visões de mundo a um declínio das expectativas políticas. Liberais que passaram a vida indiferentes à religião foram atraídos para um protestantismo neo-ortodoxo; passou-se a invocar Kierkegaard. Entre as referências intelectuais dos estudantes universitários, a sapiência aristocrática e resignada de um Jakob Burckhardt passou a responder mais aos problemas culturais e políticos do que o racionalismo ético, antes empolgante, de John Stuart Mill, ou a sólida visão sinóptica de Karl Marx.”

Gustav Mahler, por muito tempo tido como compositor banal e até tedioso, subitamente virou nome popular obrigatório nos programas sinfônicos.” “Gustav Klimt, Egon Schiele e Oskar Kokoschka, pintores vienenses da vida sensorial e psíquica, saíram da obscuridade para o que só podemos chamar de moda.”

III

O governo efetivamente constitucional durou, num cálculo otimista, 4 décadas (1860-1900). Mal comemorou-se a vitória e vieram os recuos e derrotas. Todo o processo se passou em tempo exíguo, numa densidade desconhecida em todos os outros países europeus.”

IV

Pular o 4º capítulo (Fraud).

I. POLÍTICA E PSIQUE: SCHNITZLER E HOFMANNSTHAL

A valsa, por tanto tempo símbolo da alegre Viena, converteu-se nas mãos do compositor Maurice Ravel, numa desvairada danse macabre.”

Desde o início, os liberais tiveram de partilhar o poder com a aristocracia e burocracia imperiais. Mesmo durante os seus 20 anos de governo a base social dos liberais continuou frágil, restrita aos alemães e judeu-alemães de classe média urbana.” “Mesmo os que recebiam título de nobreza não eram admitidos, como na Alemanha, à vida da côrte imperial.”

A cultura austríaca tradicional, ao contrário da alemã, não era moral, filosófica ou científica, mas basicamente estética.”

A nova haute bourgeoisie de Viena pode ter começado a patrocinar o teatro e a música clássica à imitação dos Lobkowitze e Rasoumowsky, mas no final do século é inegável que seu entusiasmo por essas artes era mais autêntico do que o das outras burguesias européias.” “Se os burgueses vienenses tinham começado por sustentar o templo da arte como um sucedâneo da assimilação à aristocracia, terminaram por encontrar nele uma válvula de escape, um refúgio fora do desagradável mundo da realidade política cada vez mais ameaçadora.” “Em outras partes da Europa, a defesa da arte pela arte implicava no retraimento dos seus devotos frente a uma classe social; só em Viena ela reivindicava a fidelidade de uma classe praticamente inteira, à qual pertenciam os artistas.”

Ao tentar-se assimilar à velha cultura aristocrática da elegância, a burguesia educada se apropriou da sensibilidade estética e sensual, mas sob forma secularizada, distorcida e altamente individualizada. As conseqüências foram o narcisismo e a hipertrofia da vida dos sentimentos.” “A catástrofe do liberalismo metamorfoseou ainda mais a herança estética em cultura de nervos sensíveis, hedonismo inquieto e, muitas vezes, franca ansiedade.”

O pai de Schnitzler, médico de renome, encaminhou Arthur à sólida carreira médica, que o rapaz seguiu por mais de dez anos. Compartilhando do entusiasmo vienense pelas artes de espetáculo, o pai de Schnitzler orgulhosamente contava com grandes artistas vienenses entre seus pacientes e amigos. Mas quando Arthur contraiu uma febre estética tão aguda que sentiu a premência de uma vocação literária, o pai se revelou um moralista de meados do século, opondo-se firmemente às intenções do rapaz.”

Der We ins Freie [O caminho para o aberto]

Como psicólogo e observador do social, Schnitzler desenhou o mundo que via como um mundo necessário, mas não justificado. … Aspirando à tragédia, Schnitzler só alcançou a melancolia.”

Apenas Karl Kraus, o moralista mais corrosivo da cidade, verteu o seu fel ‘naquele colecionador de gemas’ que ‘foge da vida e ama as coisas que a embelezam’ (Hofmannsthal).” “Em O louco e a morte [Der Tor und der Tod, 1893], Hofmannsthal explorou as devastações causadas pelo ceticismo, perda de vitalidade e indiferença ética que resultavam para o adepto da ‘atitude de colecionar gemas’.”

Und uns’re Gegenwart ist trüb und leer,

Kommt uns die weihe nicht von aussen her.”

Schnitzler abordou o problema do lado moral e científico da tradição liberal vienense. Sua percepção sociológica era maior que a de Hofmannsthal, mas seu comprometimento com a cultura agonizante levou-o a um pessimismo crepuscular que privou a sua obra de uma força trágica.”

Hofmannsthal observou, certa vez, que a atividade dos poetas modernos ‘está sob o decreto da necessidade, como se todos estivessem a construir uma pirâmide, residência gigantesca para um rei morto ou um deus não-nascido’.”

II. A RINGSTRASSE, SEUS CRÍTICOS E O NASCIMENTO DO MODERNISMO URBANO

Desde que ascenderam ao poder, os liberais começaram a remodelar a cidade à sua própria imagem e, quando foram expulsos no final do século, em larga medida tinham conseguido: a face de Viena estava transformada. O centro dessa reconstrução urbana foi a Ringstrasse. Vasto complexo de edifícios públicos e residências particulares, ela ocupava uma ampla faixa de terra, que separava a antiga cidade interna e os subúrbios. … equivalente à noção do ‘vitoriano’ para os ingleses, ‘Gründerzeit’ para os alemães ou ‘Segundo Império’ para os franceses.”

Mais especificamente, foi na forja da Ringstrasse que 2 pioneiros do pensamento moderno sobre a cidade e sua arquitetura, Camillo Sitte e Otto Wagner, moldaram as idéias sobre a vida e forma urbana, cuja influência ainda vigora entre nós.”

Os liberais que governaram Viena dedicaram alguns dos seus esforços mais bem-sucedidos à tarefa técnica, sem expressividade dramática, que permitiu à cidade acomodar, em condições razoáveis de saúde e segurança, uma população em rápido crescimento.”

O Danúbio foi canalizado, para se proteger a cidade contra as inundações que tinham-na atormentado durante séculos.”

Em 1873, com a inauguração do 1º hospital da cidade, a municipalidade liberal assumiu, em nome da medicina, as responsabilidades tradicionais que, antes, a Igreja cumprira em nome da caridade.”

Ao contrário de Berlim e das cidades industriais do norte, a Viena em expansão manteve, em termos gerais, seu compromisso barroco com os espaços abertos.”

O termo mais comumente empregado para descrever o grande programa dos anos 1860 não era ‘renovação’ nem ‘redesenvolvimento’, e sim ‘embelezamento da imagem da cidade’ [Verschönerung des Stadtbildes].”

A estátua de Palas de Kundmann, embora fizesse parte do projeto de Hansen, só foi erguida em 1902, quase 20 anos depois da conclusão do edifício, e muito depois que o espírito de racionalidade abandonara o Reichsrat.”

Um rapaz provinciano, Adolf Hitler, que fôra a Viena porque, como disse, ‘queria ser alguma coisa’, caiu sob o feitiço da Ringstrasse da mesma forma que Friedjung: ‘De manhã até tarde da noite passei de um a outro objeto de interesse, mas foram sempre os edifícios que atraíram meu maior interesse. Eu poderia ficar horas na frente do Ópera, poderia contemplar por horas o Parlamento; todo o bulevar Ring me pareceu um encantamento saído d’As mil e uma noites’.”

O alto aristocrata, o grande comerciante, a viúva com renda fixa ou o médico que podia se permitir esse luxo, foram todos levados a comprar um prédio de apartamentos, morando numa unidade e recebendo a renda do aluguel das outras. Na casa da Ringstrasse, o prestígio social e o lucro assim se reforçaram mutuamente.”

Os aristocratas não eram simples senhores ausentes: metade deles morava nas casas de aluguel que tinham construído. Embora as várias espécies de nobreza titulada ainda em 1914 também possuíssem muitas propriedades em toda a Ring (cerca de 1/3 de todas as casas particulares), foi só no bairro Schwarzenberg que tenderam a morar nos edifícios de sua propriedade.”

Não se permitia que as necessidades comerciais dominassem a face dos quarteirões residenciais, nem a função social de representação que os edifícios deveriam preencher.”

Longe de combater o historicismo, Sitte queria estendê-lo – do edifício individual para seu entorno espacial. O arquiteto moderno imita o grego, o romano e o gótico nos seus edifícios, mas onde estão os cenários apropriados: a ágora, o fórum e a praça do mercado?” “As críticas de Sitte rescendiam a nostalgia por um passado desaparecido. Também traziam exigências sócio-psicológicas singularmente modernas, que partilhava com críticos contemporâneos da cultura, e em especial com Richard Wagner, seu herói.”

Sitte afirmava que vinha se formando uma nova neurose: a agorafobia (Platzscheu), o medo de atravessar vastos espaços urbanos. As pessoas se sentiam diminuídas pelo espaço, impotentes frente aos veículos a que ele fôra entregue.”

Para reformadores ingleses da época, como Ruskin e Morris, a questão era reviver a cultura morta do artesão e do ofício. Na Áustria atrasada, a questão não era reviver, mas sobreviver: preservar uma sociedade artesanal ainda viva, mas mortalmente ameaçada. Sitte proveio dessa classe artesã.”

Depois de 1870, na esteira da vitória prussiana sobre a França e da unificação alemã, o nacionalismo de Wagner difundiu-se rapidamente entre jovens intelectuais austríacos, ao passo que a crise de 1873 deu um encanto particularmente atraente a sua glorificação da comunidade artesã medieval alemã, em oposição à sociedade capitalista moderna.”

Em 1876, ano em que Richter regeu a 1ª apresentação completa do Nibelungenring em Bayreuth, nasceu o 1º filho de Sitte: deu à criança o nome de Siegfried.”

Para a Ringstrasse, as propostas de Sitte, embora modestas, vieram tarde demais. (…) O impacto da visão comunitária de Sitte de um espaço urbano reumanizado teve de aguardar uma aversão à megalópole mais generalizada do que a que poderia ser gerada pela sociedade austríaca anterior à guerra.”

Sitte, lutando contra a anomia, utilizava a praça para deter o fluxo dos homens em movimento; Wagner usou-a para dar ao fluxo direção e objetivo. A perspectiva do veículo dominava nas concepções urbanas de Wagner, da mesma forma como a perspectiva do pedestre governava as de Sitte.”

O racionalismo de Wagner não deixava lugar para a natureza romântica. Seus próprios desenhos mostram claramente que sua cidade ilimitada não só engolfaria a terra, mas converteria toda a vegetação em esculturas arquitetônicas verdes.”

Pode haver algo mais degenerado do que pegar a forma natural livre das árvores, que justamente na cidade invocariam a magia da natureza aberta, e arranjá-las em alturas idênticas, a intervalos matematicamente regulados […] e, ainda por cima de tudo, em mera extensão interminável? Fica-se literalmente com dor de cabeça devido a esse tédio opressivo. E esta é a principal forma artística dos nossos planejadores urbanos de princípios geométricos!”

Camillo Sitte

III. POLÍTICA EM NOVO TOM: UM TRIO AUSTRÍACO

A sociedade austríaca não conseguiu respeitar essas coordenadas liberais de ordem e progresso. No último quarto do século XIX, o programa elaborado pelos liberais contra as classes superiores provocou a explosão das inferiores.” “Quando os liberais atenuaram seu germanismo em favor do Estado multinacional, foram rotulados de traidores do nacionalismo por uma petite bourgeoisie alemã antiliberal.” “O catolicismo (…) voltou como a ideologia dos camponeses e artesãos, para os quais o liberalismo significava capitalismo, e o capitalismo significava judeus.” “Portanto, ao invés de unir as massas contra a velha classe dirigente do alto, os liberais involuntariamente convocaram, das profundezas sociais, as forças de uma desintegração geral.” “Os novos movimentos de massa antiliberais – o nacionalismo tcheco, o pangermanismo, o socialismo cristão, a social-democracia e o sionismo – surgiram de baixo para desafiar a tutela da classe média cultivada, paralisar seu sistema político e minar sua confiança na estrutura racional da história.”

eram os social-democratas que apresentavam os traços paternos mais acentuados. Sua retórica era racionalista, seu secularismo militante, sua fé na educação praticamente ilimitada.” “Embora se possa discordar da posição de um socialista, pode-se discutir com ele na mesma linguagem. Para a mentalidade liberal, o social-democrata era irrazoável, mas não irracional.”

Dois virtuoses principais do novo tom – Georg von Schönerer dos pangermânicos e Karl Lueger dos social-cristãos – tornaram-se os inspiradores e modelos políticos de Adolf Hitler. Um terceiro, Theodor Herzl, forneceu antecipadamente às vítimas de Hitler a resposta política atraente e poderosa já formulada contra o reinado gentio do terror.”

Georg von Schönerer (1842-1921) (…) embora nunca tenha conseguido formar um partido forte, converteu o anti-semitismo numa grande força disruptiva na vida política austríaca. Talvez mais do que qualquer outra figura, foi responsável pela nova estridência na política austríaca, pelo ‘tom mais agudo’ no debate áspero e nas brigas de rua que marcaram a última década do séc. XIX.” “O enérgico engenheiro tornou-se um homem rico, colaborador de banqueiros, liberais, judeus, corretores e burocratas imperiais: todos aqueles tipos sociais cuja destruição viria a ser o objetivo da vida política do seu filho Georg – depois da morte do pai.”

Como membro da comunidade teatral austríaca cosmopolita, que contava com muitos judeus, Alexandrine repudiou explicitamente a política anti-semita do seu irmão. Defensora entusiasta do teatro-entretenimento e dotada de espírito empresarial, manteve-se leal à cultura do liberalismo médio vienense.”

Assim como, no seu pangermanismo, Schönerer fôra antecipado pelas agremiações estudantis nacionalistas, da mesma forma, no seu anti-semitismo, ele foi antecipado pelo movimento artesão.”

O camelô judeu era o análogo pobre do dono judeu da loja de departamentos: ambos ameaçavam o lojista tradicional; ambos atraíam a hostilidade, mas também o hábito do pequeno consumidor.”

Se o imperador era supranacional, os judeus eram subnacionais, a substância popular onipresente do Império, com representantes em todos os grupos nacionais e todos os grupos ideológicos. Em qualquer grupo que se encontrassem, os judeus nunca lutaram para desmembrar o Império. Foi por isso que se converteram nas vítimas de todas as forças centrífugas” “Prometeu ao Reichsrat, em 1887, que, se o seu movimento não vencesse agora, ‘os vingadores nascerão do nosso sangue’ e, ‘para o terror dos opressores semitas e seus enforcadores’, aplicariam o princípio ‘Olho por olho, dente por dente’.”

A agressão, que lhe trouxe tantos adeptos, finalmente foi sua ruína. (…) O ataque de Schönerer contra o escritório da redação, porém, foi a 1ª vez em que o novo estilo na política assumiu a forma de um processo por agressão física. (…) O tribunal condenou Schönerer (…) a uma suspensão dos direitos políticos por 5 anos. (…) Com isso, o Cavaleiro de Rosenau perdeu a única herança do seu pai que verdadeiramente prezava. [título aristocrático]” “Aspirando desesperadamente à aristocracia, poderia ter conseguido como um junker prussiano, mas jamais como um cavaleiro austríaco. Isso porque a tradição nobiliárquica austríaca exigia uma elegância, uma plasticidade e, poder-se-ia acrescentar, uma tolerância para com os erros e males deste mundo totalmente estranhas à constituição de Sch.” “Sua carreira de destruição política parece encontrar sua fonte pessoal na ambição frustrada de filho pouco educado e superestimado de um pai novo-rico.” “Era coerente que o Cavaleiro de Rosenau, profundamente classe média, um dom Quixote tardio e violento, encontrasse em artesãos e adolescentes um séquito pseudofeudal com o qual ensaiaria sua farsa brutal. Um dia essa farsa ocuparia o palco como tragédia, tendo Hitler, admirador de Schönerer, no papel principal.”

Karl Lueger (1844-1910) tinha muito em comum com o Cavaleiro de Rosenau.” “Lueger fez o inverso: transformou uma ideologia da velha direita – o catolicismo político austríaco – em uma ideologia de uma nova esquerda, o socialismo cristão.” “No ano de 1897, quando o imperador relutante finalmente ratificou a eleição de Lueger como prefeito [de Viena], a era da ascendência liberal clássica na Áustria chegou formalmente ao seu fim.” “Mais oportunista que Sch. e menos escravo dos seus intensos sentimentos pessoais, Lueger tardou mais a se comprometer com uma postura anti-semita. Lueger, em suas posições públicas nos fluidos anos 1880, refletia a sombria transição da política democrática para o protofascismo.” “O catolicismo ofereceu a Lueger uma ideologia que conseguiria integrar os elementos antiliberais dispersos que vinham se movendo em direções díspares, à medida que sua carreira se desenvolvia: a democracia, a reforma social, o anti-semitismo e a lealdade aos Habsburgo.”

Theodor Herzl (1860-1904) (…) Protótipo do liberal cultivado, formulou uma abordagem criativa da questão judaica, não por mergulhar na tradição judaica, mas por se esforçar inutilmente em deixá-la para trás.” “A fé dos pais diminuía à medida que o status dos filhos aumentava.” “Quando Theodor nasceu, em 1960, sua família estava bem longe do gueto: economicamente estabelecida, religiosamente ‘esclarecida’, politicamente liberal e culturalmente germânica.”

Nos inícios dos anos 1890, a França parecia se dissolver num caos pior, se possível, que o da Áustria. A república sofria de todas as doenças sociais da época: decadência aristocrática, corrupção parlamentar, guerra de classes de caráter socialista, terror anarquista e barbárie anti-semita.”


A poesia trata de uma abstração mais elevada que a política: o mundo. E como aquele que é capaz de apreender o mundo seria incapaz de compreender a política?”

Em 1892, Herzl fez reportagens sobre os anarquistas, cujos assassinatos e bombas vinham espalhando um frêmito de pavor por toda a Europa.”

O que engajou Herzl no socialismo marxista não foram as suas reivindicações econômicas, mas a dinâmica psicológica que o impelia.”


Indiscerníveis como indivíduos, juntos são como um grande animal que começa a distender seus membros, ainda apenas semiconscientes da sua força. […] Este é apenas um bairro em uma cidade da França.”

Finalmente, irromperam à superfície os mais novos inimigo da república: os anti-semitas. Herzl assistiu ao drama, enquanto explodia todo o sistema político, enquanto as ferventes tensões internas da sociedade francesa rompiam os majestosos freios da lei e da moralidade.” “A terra natal do liberalismo estava doente, em seu centro vital do parlamentarismo. Para um intelectual austríaco, isso significava mais do que uma simples experiência política nova; era a destruição da confiança na viabilidade do liberalismo político, pois ele agora sucumbia até no seu próprio local de origem”

Édouard Drumont, em La France juive (1885), responsabilizou a comunidade judaica internacional pelo declínio da França e exigiu a retratação da emancipação e a expropriação do capital judaico.”

Em 1893, ele concluiu que os judeus, ‘pressionados contra a parede, não terão outra alternativa senão o socialismo’.” “Com isso, a ‘questão judaica’, no seu pensamento, deixou de ser um sintoma do mal-estar social europeu – um pára-raios para a descarga de frustrações gentias –, e se transformou numa questão de vida ou morte para as vítimas.” “Ele não tinha nada a fazer na Sociedade para a Defesa contra o Anti-Semitismo, fundada por eminentes intelectuais alemães e austríacos. (…) o argumento raciocinado era inútil: ‘Há muito já se foi o tempo em que era possível realizar alguma coisa por meios polidos e moderados.”

Com o auxílio dos príncipes austríacos da Igreja, Herzl conseguiria chegar ao Santo Papa, dizendo:


Se o senhor nos ajudar contra os anti-semitas, eu liderarei um grande movimento pela conversão livre e decente dos judeus à Cristandade. (…) não envergonhados como os convertidos individuais até agora […] cuja conversão tem-se mostrado covarde ou oportunista.”

Assimilação dos judeus através da Igreja de Roma – que proposta estranha para um liberal secular!” “Ainda isolado dos próprios judeus, repudiando alguns como Geldjuden e outros como Ghettojuden, alguns como racionalistas excessivamente otimistas e outros como crentes excessivamente primitivos, Herzl assim começava a reunir para os judeus os elementos da política em novo tom” “Numa época em que a culpa de Dreyfus era aceita praticamente por todos, Herzl duvidava dela, apesar da falta de provas.” “Isso não acontecera na Rússia, nem mesmo na Áustria, mas na França, ‘a republicana, moderna, civilizada França, cem anos depois da Declaração dos Direitos do Homem’.”

Não sendo nenhum wagneriano fanático, e nem mesmo um freqüentador de óperas além da média vienense, Herzl desta vez ficou eletrizado por Tannhäuser. Chegou em casa exaltado e sentou-se para esboçar, num acesso de entusiasmo próximo a uma possessão, seu sonho da secessão judaica em relação à Europa. Que tenha sido Wagner a acionar a liberação das energias intelectuais de Herzl numa torrente criativa: quão irônico, mas quão psicologicamente apropriado!” “Herzl teria sentido na volta moralmente liberadora de Tannhäuser à gruta um paralelo da sua própria volta ao gueto?” “O movimento sionista seria uma espécie de Gesamtkunstwerk da nova política. Herzl o sentiu ao dizer: ‘O êxodo de Moisés é comparável ao meu…’


Ninguém pensou em procurar a terra prometida onde ela está, e no entanto está tão próxima. Ei-la: dentro de nós mesmos!”

Para o barão Hirsch, filantropo sóbrio e prudente, Herzl apresentou o modelo da unificação germânica como prova do primado do irracional na política.”


O senhor sabe de onde saiu o Império Germânico? De sonhos, canções, fantasias e fitas tricolores em preto, vermelho e dourado.”

Com uma bandeira, pode-se levar os homens para onde se quiser, até para a terra prometida. Uma bandeira é praticamente a única coisa pela qual os homens estão dispostos a morrer em massa, se educados para isso.”

UM PROTOSSIONISTA HETERODOXO: “Embora Herzl acenasse à aspiração religiosa arcaica, não confiava totalmente nela: nem sequer queria situar a terra natal judaica na Palestina” “Da estrela de Davi ou qualquer outro símbolo judaico, Herzl não fez nenhuma menção.”

* * *

Os três fracassaram. Os três organizaram suas comunidades não só à revelia dos liberais entre elas, mas também sem o apoio das autoridades superiores externas a que apelaram.”

O novo Estado teria um ‘federalismo lingüístico’, onde cada um falaria a língua que ainda amasse (…) Só o iídiche, ‘a linguagem estropiada e reprimida do gueto’, ‘a fala roubada dos prisioneiros’, seria deixado de lado.”

O clero, ainda que honrado, ficaria confinado aos seus templos, como o exército aos quartéis, de modo que não causem problemas a um Estado comprometido com o livre pensamento.” Que diferença para os dias atuais, que diferença!


O povo é sentimental; as massas não vêem com clareza. Está começando a surgir em torno de mim uma leve bruma que talvez se converta na nuvem em que andarei. É talvez a coisa mais interessante que registro nesses diários: como cresce minha lenda.”

Política é magia. Quem sabe invocar as forças das profundezas, a este seguirão.”

Hofmannsthal

V. GUSTAV KLIMT: PINTURA E CRISE DO EGO LIBERAL

Klimt saiu da escola como decorador arquitetônico no exato momento em que o grande programa Ringstrasse de construção monumental vinha ingressando em sua fase final. Ele encontrou ocasião de empregar seu talento versátil em pinturas históricas para dois dos últimos grandes edifícios, o Burgtheater e o Museu de História da Arte.” “Gustav Klimt, embora fosse um jovem mestre da velha escola, cedo assumiu a liderança na revolta de die Jungen nas artes visuais.”

Marx observou certa vez que, quando os homens estão prestes a fazer uma revolução, eles se fortalecem agindo como se estivessem restaurando um passado desaparecido. A Secessão definiu-se não como um mero salon des réfusés, mas como uma nova secessio plebis romana, onde os plebeus, repudiando desafiadoramente o mau governo dos patrícios, retiravam-se da república. A formulação da ideologia romana da Secessão foi elaborada por Max Burckhard (1854-1912), nietzschiano, progressista em termos políticos, e um dos grandes reformadores do direito administrativo, que em 1890 renunciou a sua carreira político-jurídica para virar diretor do Burgtheater, cargo que acabara por perder quando passou a co-editar a revista da Secessão, Ver Sacrum.”

Peter Vergo sugeriu que Klimt compreendeu Schopenhauer através de Wagner, especialmente com a súmula concisa de Wagner sobre o pensamento do filósofo em seu ensaio largamente difundido Beethoven, e que tanto a iconografia como a mensagem de ‘Filosofia’ mostravam a influência da Das Rheingold.”

O pintor da frustração psicológica e do mal-estar metafísico tornou-se o pintor da vida bela da classe superior, afastada e isolada do destino comum numa bela casa geométrica.”

VI. A TRANSFORMAÇÃO DO JARDIM

Sempre que os artistas europeus procederam à difícil tentativa de enfrentar uma ordem existente, como ocorreu com tanta freqüência no séc. XIX, o realismo social [hoje a distopia] se apresentou como modalidade literária dominante.”

Os austríacos prontamente captaram a sensibilidade langorosa de um Baudelaire ou de um Paul Bourget, mas não alcançaram a sensualidade dolorosa e autodilaceradora dos decadentes franceses, nem a sua visão da beleza cruel do cenário urbano. Os pré-rafaelitas ingleses inspiraram o movimento art nouveau (com o nome de Secessão) (…) mas nem a sua espiritualidade pseudomedieval nem o seu forte impulso reformista social penetraram nos discípulos austríacos.”

Nem dégagés nem engagés, os estetas austríacos estavam alienados, não da sua classe, mas juntamente com ela, de uma sociedade que frustrou suas expectativas e renegou seus valores. Dessa forma, o jardim da beleza da jovem Áustria era um retiro dos beati possidentes, um jardim estranhamente suspenso entre a realidade e a utopia.”


Arte é arte e vida é vida, mas viver a vida artisticamente: eis a arte da vida.”

Pelo fato mesmo de representar a vida, a arte nos separa dela. É por isso que, ao se destacar dos outros valores e se tornar um valor em si mesma, a arte gerou nos seus devotos aquele sentimento de eterno espectador que, por sua vez, alimenta a introversão.”

Como Marcel Proust, as recordações de Erwin se converteram em sua vida.”

VII. EXPLOSÃO NO JARDIM: KOKOSCHKA E SCHOENBERG

O professor Franz Cizek, que organizou a mostra, era o chefe do departamento pedagógico na Escola de Artes e Ofícios onde Kokoschka estudava, para ser professor de artes. A modéstia da opção do rapaz merece nossa atenção. Se Kokoschka tivesse aspirado à carreira, menos segura e mais prestigiosa, de pintor, teria freqüentado a Academia de Belas-Artes. Ao invés disso, ele optou pela via mais humilde, mais condizente com a classe artesã de que provinha.” “Enquanto as gerações anteriores tinham insistido em levar a criança à estética adulta através do desenho de cópias, Cizek incentivava a livre atividade criativa. (…) Meninos de 5 a 9 anos iam uma vez por semana às aulas de Cizek, ‘para se expressarem’. (…) Aqui, só o não-inibido, o instintivo se torna luminoso como (o) essencialmente humano’” “Mesmo o júri da Kunstschau, presidido por Gustave Klimt, foi indulgente com os caprichos contestadores de Kokoschka.” “Com efeito, Kokoschka inverteu o desenvolvimento que, de modo apenas semiconsciente, os mais velhos tinham experimentado, ao passarem das belas-artes para atividades nas artes e ofícios. Eles tinham retirado à arte secessionistas dos anos 90 a sua função original – dizer a verdade psicológica –, e adaptaram sua linguagem visual a finalidades puramente decorativas. Kokoschka tomou a linguagem ornamental madura dos seus professores, e tornou a desenvolver o seu potencial simbólico”

Kokoschka, Os meninos sonhadores, 1908

Heinrich Kleist já ressuscitara o antigo entrelaçamento de amor e guerra em sua Pentesiléia – um marco no retorno do reprimido na alta cultura européia.”

E uma obra dessas [poema + peça de teatro + ilustrações = obra-de-arte total à la Wagner?!?] foi encenada no encantador jardim de Kunstschau! Um público que mal acabara de aprender a refinar seus receptores sensoriais e psicológicos, para reagir às delicadas nuanças de O aniversário da infanta de Oscar Wilde, tinha agora de exorcizar a selvageria crua da peça de Kokoschka.” “O pintor escreveu que uma tempestade de protestos desabou sobre ele na noite de estréia, mas essa sua lembrança foi contestada por Peter Vergo, com algumas sólidas provas em contrário.” “Por instigação do Ministério da Cultura e Instrução, o diretor da Escola de Artes e Ofícios, Alfred Roller, tirou a bolsa de Kokoschka. Felizmente, a explosão também atraiu a atenção do crítico mais frio e categórico do esteticismo vienense, o arquiteto Adolf Loos.”

Assim como Kraus procurava restaurar a pureza do meio lingüístico do homem, removendo todas as pretensões estéticas da prosa expositiva, também Loos tentou purificar o meio visual – cidade, moradia, vestuário, mobília –, abolindo todos os embelezamentos. A arquitetura, disse ele taxativamente, não era arte: ‘Tudo o que serve a uma finalidade deve ser excluído do âmbito da arte. […] Só teremos uma arquitetura do nosso tempo quando o termo mentiroso <arte aplicada> for banido do vocabulário das nações’.”

Pode parecer coincidência demais que Schoenberg também tenha realizado sua ruptura, passando para a atonalidade, a partir do tema de um despertar sexual adolescente ocorrido num jardim. Mas é assim que foi. Formal e psicologicamente, o ciclo de canções de Schoenberg O livro dos jardins suspensos é um análogo musical muito próximo de Os meninos sonhadores de Kokoschka.”

Schoenberg, Teoria da harmonia, 1911.

um processo que vinha desde Beethoven: a erosão da antiga ordem na música, o sistema harmônico diatônico.” “Desde a Renascença, a música ocidental tinha sido concebida na base de uma ordem tonal hierárquica, a escala diatônica, cujo elemento central era a tríade tônica, a tonalidade definida. A tríade era o elemento de autoridade, estabilidade e, sobretudo, repouso. Mas a música é movimento; se a consonância é tida apenas como um quadro em repouso, todo movimento será dissonante.” “A modulação – a passagem de uma a outra tonalidade – era um momento de ilegitimidade permitida, um estado acentuado de ambigüidade, a ser resolvido por uma nova orientação numa nova modalidade, ou pelo retorno a uma anterior. Assim o pianista Alfred Brendel identificou os usos do cromatismo, uma das principais soluções da tonalidade, aplicados por Liszt em suas Variações sobre Bach, e por Haydn” “Não por acaso foi Rameau, o músico de côrte de Luís XV, o teórico mais claro e inflexível das ‘leis’ da harmonia.”

Tristão e Isolda de Wagner como o primeiro passo para o atonalismo.

(*) “Tão forte era o apelo do Pelléas und Mélisande de Maeterlinck aos músicos da época que 4 grandes compositores lhe dedicaram obras suas: Fauré (1901), Debussy (1902), Schoenberg (1903) e Sibelius (1905).”

Em Verklärte Nacht, ele mostrou que o ‘abismo intransponível entre Brahms e Wagner não era mais um problema’.”


todo grande artista é um impressionista: sua reação acurada ao mais débil impulso revela-lhe o inaudito, o novo”

Os versos de Stefan George prestavam-se particularmente bem à ousada tarefa musical em que agora o compositor se empenhara”


Wer di Wahl hat, hat die Qual”

Por trás da Erwartung encontrava-se uma experiência pessoal arrasadora, que Schoenberg projetou dentro da obra: a mulher que o abandonou por um dos seus melhores amigos, o artista Richard Gerstl, que logo a seguir se suicidou.”

Nesse espírito crítico, Schoenberg trabalhou de 1912 a 1914 no projeto de uma grande sinfonia para celebrar a morte do Deus burguês. A sinfonia nunca foi concluída, pois veio a guerra.”

na Sinfonia da dança de morte, ele escreveu o seu 1º tema dodecafônico. [uma nova ordem, após o caos do atonalismo]” “sua democracia dos 12 tons”

NOTAS

Mahler, originalmente, deu à sua Terceira sinfonia o título, extraído do ensaio de Nietzsche, de Die fröhliche Wissenschaft. Para uma análise profundamente esclarecedora da obra e do papel de Mahler como ‘cosmólogo metamusical’, no contexto do culto nietzschiano austríaco, ver McGrath, Dionysian Art and Populist Politics in Austria.”

[ARQUIVO] MATRIX, ATIVAR

Aula de Formação Econômica Brasileira, pós-almoço, aquela palestra maçante e aquele sono infernal, juntando criatura famélica com vontade absurda de sentar para um banquete… Estou resistindo bravamente sobre a carteira… Até que penso que capoto profundamente… Babo, inclusive! Presencio a maldita elucidação de uma conspiração, personagens que parecem saídos de uma produção sci-fi de baixo orçamento me convencendo de que ali é o reino do verdadeiro, e não lá fora, aquele mundinho que eu conheço e venero, porém que não passa do mais forte dos ópios! Todos os seres humanos seriam mantidos prisioneiros e precisavam incondicionalmente da minha ajuda, eu não podia SONHAR em voltar…

“…e o Brasil permanecia no ciclo da cana-de-açúcar com poucos auferindo grandes lucros…”

Haviam se passado somente 2 minutos!

[ARQUIVO] DITADOR NA PRAIA

Eu me tornava um ditador, de repente dono de um país e das maiores riquezas sem mais a menor obrigação para com ninguém. Estou na minha praia, sou um velhaco ou uma criança, jogo, da areia, uma bola, que afunda no mar, já de profundas águas à própria borda. E o que é isso? Eu mesmo estou no topo de uma rampa, de um declive. Uma ilha de uma montanha de areia, perfeitamente triangular, e quando se começa a deslizar já não é possível mais parar. Tibbluff: eu estou imerso no líquido, zona de insegurança. Haverá animais nessa água suja e espumosa? Quando tento me esgueirar de novo para a porção de terra, catar o começo da superfície, ou simplesmente morrer e me estirar ali, no ponto fixo, meus membros me faltam, como os soldados mercenários faltariam ao general estúpido – parece antes que sou puxado, que atravessarei, em velocidade de lancha, todo o oceano até o lado oposto, antes que possa simplesmente me salvar pelo mais simples. Mãos e pernas em aflição… Tudo isso, essa espécie de sina do milionário e revolucionário político, me assaltou belamente por alguns segundos, 10 segundos, menos segundos! E eu estava sozinho, sozinho, sozinho, não havia com quem jogar, e a bola eu perdi, queria desfrutar de tudo, ostentar os objetos, a vaidade dos charutos… Me afoguei.

[ARQUIVO] ARRANHA-CÉU XXI

Ando sonhando (hoje mais uma vez, 13/11/11) que escalo (por dentro), em vários lances de escada, cômodos, passagens secretas, elevadores bizarros… Um lugar bastante labiríntico e alto, até uma sala de uma instituição (provavelmente de ensino) para falar com alguém importante (diretor, coordenador) que possa resolver minha situação (há algo pendente que não sei explicar direito). Certas vezes não encontro ninguém, é um espaço vazio, um escritório normal com seus papéis, computadores, mesas e cadeiras, só que abandonado. Outras vezes, há uma enorme fila de pessoas e penso que não serei atendido…

[ARQUIVO] O MAIS TERRÍVEL – SUPERINTERPRETAÇÃO DE UM SONHO

15/03/11 [com pequenas edições e negritos em 16/08/11]

Meu sonho de hoje foi, talvez, o mais transparente e cristalino que já tive, e possivelmente nada mais será como foi até aqui, pois tenho a franqueza, o acaso e, sim, novas possibilidades ao meu lado, e à frente, e tendo sentido o insípido tão de perto, tão de frente, tão sem censuras… Justo hoje que me curo duma doença, talvez dum câncer… Pode querer dizer a morte de um plano? Impossível! Dificuldade e afobação passageiras, ainda tenho a genialidade trancada para quando quiser se manifestar, mas os alunos vão deixar? Dane-se, nada tenho que provar. Primeiro dia: Nando Reis – “que você era aquilo tudo que me fal-ta-va, a-a-u, uh-uh!”. Primeira lembrança consciente após despertar do presente sonho, o terrível. Esse sonho é diferente de todos os outros no sentido mais importante – ele já teve sua interpretação concluída, perfeita e freudiana, sem tirar nem pôr. Pela única pessoa que poderia fazê-lo. Exatamente isso: eu mesmo. Antes de ter escrito qualquer coisa aqui: porque eu o fiz dentro do sonho de hoje, e lembro com nitidez – e agora posso superinterpretar minha própria interpretação, que não devo menoscabar:

Eu anotava num caderno esse último sonho sinistro, parecendo um adolescente no auge da confusão – até pelo título escolhido… Lá vamos nós tentar recuperar minúcias… Eu rasurava o primeiro título escolhido, algo mais ameno, “Os Meus Pais… (algum verbo)”. Ou “O que os meus pais (verbo)”. Sei que ao final ele tinha três palavras que começavam com “N”, o que me remetia de cara ao Nirvana – pela própria letra do alfabeto, pela minha intenção, por ter o “tamanho” de Smells Like Teen Spirit (era essa a sensação durante a representação, que a palavra, que o título que escolhi, tinha a mesma dimensão do título da música do Nirvana, ocupava o mesmo número de caracteres, aproximadamente!) e por conter uma idéia de amputação/suicídio/morte. O próprio nome de banda Nirvana é um tanto revelador, já que sonoramente eu não me sinto ligado ao grupo nem um pouco. O afeto contido no emprego desta nomenclatura – embora evoque instantaneamente o conjunto de Kurt Cobain, o suicida – é todo de outra ordem. No sonho eu interpreto, e julgo estar sendo definitivo na minha análise, meu sonho-síntese (I), para meu próprio terror.

I

No sonho-síntese, a família celebra algo na varanda de uma cobertura sem parapeito… Parece Ano-Novo ou data marcante idem, minha mãe está arrumada, a tia Rosângela, minhas primas, estão por ali… Ouço vozes… De certo modo, eu me sinto, nesse átimo, enquadrado em algo extremamente repetitivo, mera conseqüência de uma vida estúpida que já vivi.1 E não só repetitivo, maçante, mas também angustiante, opressor, eu diria. Eu que nunca gostei da minha família [eu que nunca gostei de mim – adendo 2025]. Parecia, de certo ângulo, um autor onisciente que contempla um dos momentos tardios de sua trama… A história já vem avançada, chegará um dia ao seu fim, e os escassos momentos felizes vão passando, sem perdão, como na mesma velocidade em que um estranho qualquer passa as páginas do álbum de fotografias… Aquilo tudo deveria ser ilusório, apenas uma seqüência de frames de uma película já conhecida e muito batida. Simplesmente não tinha a coloração do real. Como um conto de fadas, se desmancharia fácil pelo império do tempo. Eu bem sabia, como numa profecia, [note que só podemos de certa forma prever aquilo que só depende de nossa própria volição – 2025] também o que vinha a seguir, e que destoava da “normalidade” desse evento de família… Como se esperasse isso há milênios, ou décadas, vejo, bem ao lado, e lentamente, de forma que podia ter interferido em sua trajetória (fosse para empurrar de vez ou salvá-lo), mas preferi ficar de expectador, o corpo do meu pai silenciosamente deslizando pelo ar, nós que estávamos no topo de algum prédio, à noite, corpo que eu já sentia desprovido de carne e sangue pulsante, um tanto inócuo, só uma casca, mergulhando de ponta rumo ao concreto. E ao mesmo tempo que foi lerda a queda do corpo enquanto ele estava no mesmo patamar que nós da festa, [ao mesmo tempo que o outro pode ser eu no meu sonho, o “nós” pode muito bem ser eles – eles os que festejam e têm uma boa vida, enquanto vivo deprimido – 2025] ao mesmo tempo parece ter se dado em 1 ou 2 segundos, se se considerar que assim que se atirou do chão da cobertura para o piso lá embaixo, tão distante, não houve tempo para nenhum gesto ou pensamento de minha parte: [imagino que da perspectiva de quem se joga de uma grande altura, o tempo deve passar ao mesmo tempo o mais lenta e o mais rapidamente possível, ao mesmo tempo – 2025] metade (da cintura para cima) de seu corpo estava submersa, soterrada, abaixo da calçada. Espatifou-se. [mergulhou de cabeça no inframundo, conseguindo quebrar até o concreto – 2025] Claramente morto (como era um sonho, não está descartada qualquer anormalidade, com ar de naturalidade, haja vista não estranharmos pessoas que voam ou mortos que ressuscitam enquanto não estivermos despertos e de lucidez recuperada!). O choque do corpo com o piso havia gerado um forte estrondo. De forma que quando os outros ouvem o baque e são noticiados do desastre, vem logo à tona um dissabor característico dos meus sonhos de morte (uma espécie de rubor facial, grande pesar e vexame, paralisante, mas que nunca senti, dessa mesma forma, a não ser em representações oníricas). [e não poderia sentir, a não ser mesmo em sonho: o vexame de haver se matado – 2025] E veio porque todos conversavam animadamente, era uma ocasião festiva e foi uma morte inesperada (desculpem pelo chavão!) [de certa forma quase todos ao meu redor ignoram, ou pelo menos ignoravam em 2009, quando minha depressão não era diagnosticada e expressa sem tabus, que não levo uma existência simplesmente feliz – 2025] de um ente próximo, cujo comportamento contrastou imensamente com o da família desde o início do sonho… Curioso que só eu tenha notado o corpo no momento em que ele se jogava. O restante das pessoas só se deu conta do trágico por conta do forte barulho, que já indicava o final da abrupta trajetória daquele corpo, vários andares abaixo. [a casa do sonho só tinha 2 andares; mas o lugar de onde eu sempre pude ter me arremessado na vida real é a janela do meu quinto andar, mais um indício de que meu pai neste sonho não passa do meu próprio avatar – 2025] Ao notar o rosto da minha mãe contemplando o cadáver (ou o que era visível dele), apreendendo o que tinha acontecido e que foi tão efêmero e súbito, me enchi de assombro. Mas dissimulado, até certo ponto, porque queria passar outra imagem aos convidados da festa. [o suicida não quer passar pela vergonha de ser lamentado como suicida, queria ter uma morte normal, e o pior de tudo é o suicida cuja mãe ainda vive, ao pensar na dor que lhe causaria – 2025] Por dentro, na realidade, eu era capaz até de alegria, uma alegria longamente anunciada em desejos e palpitações… [a morte de meu pai? não, a minha despedida desse mundo! tive este sonho logo que me graduei, pouco antes de ser expelido e vomitado no mercado de trabalho; de certa forma é como “passar de fase”, “cumprir com (alguma, se não toda) a obrigação”; i.e., já havia sofrido o suficiente – 2025] O presente sonho se encerra ali, e depois sou eu desperto (ou eu já me imaginava como tal) relatando tudo numa folha de papel. Sabe-se que um sonho NO sonho faz com que devamos inverter todos os sentidos – posto que o único substrato do onírico é o real, o que foi representado nele como OUTRO sonho é manifestamente um parêntese ou o pronto acréscimo da palavra NÃO a tudo o que deriva desse real: o oposto do que você quer, o contrário do desfecho desejável… Aos que relativizam essa característica, não considero nada casual a escolha dessa forma negativa de representar a morte do meu pai para mim mesmo. Não como forma de censura que retirasse o fundamental e mais imoral da interpretação do sonho, justamente porque é um dos sonhos de que me lembro com mais exatidão e fidelidade, além de seu teor ser pesadíssimo. Caso fosse realmente uma mensagem positiva, não seria difícil que pulássemos agora para outra etapa do sonho ou que eu tivesse de me despertar do meu sono para rememorá-lo conscientemente e quase sem brechas (o que costuma acontecer quando temos um pesadelo), como o fiz somente ao acordar verdadeiramente. Mas ao “acordar e continuar dormindo”, ou seja, criar o subterfúgio do sonho dentro do sonho, e ter sabido de todas essas operações logo que acordei no mundo real, ficou patente para mim que o que eu fiz foi emitir uma sinalização clara, sem distorções, do que é que eu deveria refutar, o ideal que deveria ser ignorado (meu pensamento crônico da vida consciente de desejo de morte do meu pai [de querer morrer – 2025]). Revelar-se-ia, assim, com um pouco mais de análise a posteriori, o conteúdo latente significativo de verdade, por trás desse teatro tão convincente que encenou a morte do meu pai (ora, dir-se-ia que o sonho é sempre simbólico, mas ele não acaba aqui! Há mais coisas para desvendar, nem tudo me foi dado de presente! Se disse logo acima que quando acordei o sonho já estava totalmente interpretado, foi apenas figura de retórica).

Na interpretação do sonho NO sonho, eu, inclusive, me mostrava satisfeito, vingado, quitado, mas, por outro lado, pesado, desgastado, de alguma forma muito severa, enfim, ressentido, rindo amargamente por dentro da postura condenável dos meus pais – daí o prazer em rabiscar o título e reescrevê-lo mais cruel ainda. [não preciso dizer que me ressentia de mim mesmo mais que de qualquer outra pessoa, certo? – 2025] E agora preciso chegar à cena final do sonho… A parte mais hermética, que complementa a tão transparente mensagem do trecho acima:

II

Uma espécie de bar de entrequadra, desses típicos daqui, é o ambiente. Bem na orla da calçada, já invadindo a vegetação, dialogo, em uma mesa, ou sem a mesa, mas sei que sentado, com um interlocutor mais ou menos da minha idade a quem tentava explicar “minha teoria”. Eu dizia que árvores novas continuavam sempre nascendo, ou algo assim, em oposição às podres e velhas, que morriam. E então me aparecia uma árvore “nova”, recoberta de um musgo bem verde e vivo, e formigas sem cessar brotavam dela e me forçavam a agitar as mãos e os braços, porque elas vinham em grande quantidade para cima de mim, de todas as direções. O interlocutor se gabava dizendo que eu estava errado e ele certo, mas apesar do incômodo da comichão provocada pelas formigas e tentando espantá-las, eu afirmava confiante: “Não, isso só comprova que eu estou certo!”. Algo mais acontecia nesta cena e de repente eu me via com todas as pontas dos dedos das duas mãos decepadas (e por um instante pareciam mesmo caules de árvores serrados!),2 como a dizer: uma árvore genealógica que não prossegue é o que de pior pode haver, sinônimo de esterilidade e anti-vida, sem frutos. Para além da morte de meu pai, já exteriorizei a alguns confidentes o forte desejo de extirpar minha própria raça. [e o que mais eficaz que um suicídio, para extirpar a própria raça? por que esperar até a morte senil tomando ainda o cuidado de não ter descendentes para isso? mas uma árvore que morre ainda nova seria absurdo; então sim, eu estava certo sobre a minha “teoria”! além disso, meu pai sempre viverá em mim. – 2025] Eu, pequeno, força apenas reacionária de um mundo decadente, não tendo filhos (nem metas de que me orgulhasse) e morrendo, implicando assim a ainda mais real e ulterior “re-morte” de meu pai, que findaria sem netos, ou seja, o fim da linhagem. Porém, percebi que no fim das contas estamos vinculados de tal forma que querer a morte de um é querer consumar a morte do outro… [já está decidido de antemão que as árvores seguirão aí, independentemente de qualquer ato nosso, então se preocupar excessivamente com isso é ninharia – 2025] E acho que nem é isso o que eu quero – o que qualquer impulso vital quer… Ficou claro que eu não podia ter um juízo independente, que havia algo mais forte que eu me sustentando e me puxando, mesmo que inclusive me oprimindo, ora ou outra, mas garantindo, de qualquer maneira, minha existência e meus pensamentos de fundo. Existia esse algo que me superava, por trás, soberano, cimentava todos os meus atos, sendo impossível ser contra ele, já que qualquer estado de ânimo meu, ainda que belicoso e adverso para com a própria árvore que me deu origem, seria um mero reflexo do estado de espírito deste “primeiro” ente, que vou deixar aqui como uma abstração (todos os meus finados avós reunidos, quem sabe).

O principal já foi fornecido, mas não esgotei a escrita aqui. Cronologicamente, depois da cena das árvores e do espanto das formigas, e da constatação da amputação múltipla, já estou num carro, só não sei se estacionado ou em movimento. Uma mulher, talvez da minha idade, me pergunta algo a respeito de todos os engodos que se sucederam, e o homem, ao lado dela, talvez eu, talvez não (imagens sobrepostas, parece um amigo chamado Gabriel, muito provavelmente porque a mulher também se parece com uma Gabriela que pensei ter visto num carro qualquer dia desses, no banco do carona, estacionado em uma entrequadra), contestava: “É preciso não acreditar em nenhuma mentira – nem nas dos comerciais…”. “Nem nessas?”, ela insistia. Mas a personagem masculina seguia resoluta em seu ponto de vista…

III

E há, ainda, no miolo do sonho, um outro trecho que por enquanto omiti para não jogar informações demais e atrapalhar a narrativa central (I), que parece ter sido uma ramificação mais madura de várias problematizações aqui levantadas, antes do “suicídio paterno” na sacada do prédio. Estou em casa só, tenho muito tempo para fazer o que quiser, com bastante liberdade à disposição, como se tivessem viajado e me deixado ali. Uso uma espécie de tecido na cabeça que serve de bandana, algo que pertence aos produtos de limpeza da casa ou que fazia parte da decoração. Talvez uma toalha, mas um tanto gasta e irreconhecível. Ao mesmo tempo, o banheiro está bem sujo e diferente do convencional, com a tampa da privada estofada e colorida como se fosse um sofá, mas o urinol está úmido. Encontro-me meio atordoado porque gostaria de fazer alguma coisa, talvez cantar, cantar várias músicas na seqüência, mas não sei por onde começar nem como encontrá-las… Em seguida, em outro trecho, estou tentando dormir, mas sou acordado pelos parentes da casa que abrem a porta fazendo estardalhaço. O Diogo é o culpado, e me irrita bastante. Alguns objetos do criado-mudo e da cama são mudados de lugar, como almofadas, meus óculos, que estavam longe de mim e de repente estão no meu rosto, e os controles remotos, que vão parar na minha mão. Ligo a TV mas pretendo continuar dormindo, ou fingir que estou dormindo, para os demais da casa. Posso pressentir a presença do meu pai e da minha mãe. Mas agora estou de pé, desperto, e recepciono o Alex, Gnomo, amigo do meu irmão Diogo, com quem costumo ser até mais simpático do que com ele. Ele está sem camisa e começamos a lutar – de brincadeira. Tento acertar chutes, e socar com toda a força, mas são golpes fracos demais, que não causam praticamente efeito. Quando ele tenta uma joelhada ou investida, sinto que poderia me derrubar, mas ele não luta pra valer, e eu faço a esquiva ou o bloqueio, mas com dificuldade. Gnomo tenta me dar dicas de como combater melhor, me avisa para não abrir a guarda antes de aplicar o direto com a direita, notando que eu abaixava o outro braço e ficava vulnerável.

De repente o cenário muda. Somos três – eu, Gnomo e o Diogo, se bem que outrora é o Aloísio, meu antigo vizinho, ao invés do Gnomo – acompanhando o jogo sub-17 do Brasil, no horário do almoço. Minha mãe entra no quarto, aparentemente trazendo um lanche. GOL da Seleção nessa mesma hora! A bola parece que nem passou da linha, o lance foi muito rápido para acompanhar com os olhos. Havia ali uma bola, na nossa frente, e eu sentado começava a brincar com ela, fazendo embaixadinhas curtas, com o joelho – até passava para o Árlesson (outro amigo meu que morava perto e com quem convivi nos anos de infância, como com o Aloísio, que agora substituía meu irmão na cena), que estava de costas, e cutucava a cabeça na bola, talvez involuntariamente…

FRASES SOLTAS QUE O FLUXO DE ESCRITOR LIBEROU E QUE NÃO PUDE INSERIR NO TRANSCORRER DA NARRAÇÃO DO SONHO, MAS QUE TÊM RELAÇÃO COM O MESMO:

Sim, nossa danação é que somos supersticiosos, e não há quem tire isso!

A vida é como um sonho gigante! Mas se o final está condicionado pelo começo… Então não pode ser um sonho…

Felizmente, nada é tão claro nem tão hermético – a não ser esse mundo do professor-proletário…

1 E mais tarde preciso narrar uma cena prévia (ou um conjunto delas) que não estaria diretamente nessa interpretação escrita do final do sonho, mas que cronologicamente, da ótica do acordado, é-lhe anterior. [Vide número III]

2 Dentro do próprio sonho, “descobrindo” que estava sonhando (mas esquecendo disso logo depois, ou eu realmente despertei mas voltei logo a dormir), me pus a perguntar por quais causas externas, por quais hipóteses, havia-me representado as mãos decepadas: 1) fui ao médico no mesmo dia e ele não tinha o dedo polegar da mão direita; havíamos apertado as mãos e eu estranhei bastante; 2) pensei na possibilidade de estar deitado sobre uma das mãos e ela se encontrar dormente. Não sei se acordei e constatei que a tese estava correta, me deitando de forma adequada, ou se a sensação de dormência, de que recordo com perfeição, foi artificialmente produzida, como o formigamento dos insetos na cena imediatamente anterior!

Adendo 21-10-25: Nova interpretação: meu pai era eu e, portanto, a mensagem central de todo o sonho era: e u n ã o q u e r o c o m e t e r s u i c í d i o , não desejo seguir sendo apenas expectador de minha própria vida. O que, aliás, à luz de tudo que venho enfrentando, posso dizer, de 2009 a 2025, em termos de saúde mental, tem um caráter muito mais provável. Resumo: nenhum sonho pode ser jamais superinterpretado – eis que já está mega, hiperinterpretado!

#GrandesCitações THE MEDIUM IS THE M@SSAGE: An inventory of Effects – Marshall McLuhan & Quentin Fiore – On the artist

“The poet, the artist, the sleuth – whoever sharpens our perception tends to be antisocial; rarely ‘well-adjusted’, he cannot go along with currents and trends. A strange bond often exists among antisocial types in their power to see environments as they really are. This need to interface, to confront environments with a certain antisocial power, is manifest in the famous story, ‘The Emperor’s New Clothes’. ‘Well-adjusted’ courties, having vested interests, saw the Emperor as beautifully appointed. The ‘antisocial’ brat, unaccustomed to the old environment, clearly saw that the Emperor ‘ain’t got nothin’ on’. The new environment was clearly visible to him.”

DEMENTIA PRAECOX – Kraepelin

 

The name proposed by Evensen ‘amblynoia’, ‘amblythymia’, further the ‘demenza primitiva’ of the Italians, or the one preferred by Rieger, which meanwhile has certainly been already used in a narrower sense, ‘dementia simplex’, might also be taken into consideration. Bernstein speaks of a ‘paratonia progressiva’, a name that would suit only a part of the observed cases. Other investigators accentuate the peculiar disturbance of the inner psychic association in our patients and call the disease ‘dementia dissociativa’, ‘dissecans’, ‘sejunctiva’ or with Bleuler ‘schizophrenia’. It remains to be seen how far one or other of these names will be adopted.”

What the voices say is, as a rule, unpleasant and disturbing.”

The patients frequently connect them with malevolent people by whom they are ‘watched through the telephone’, or connected up by wireless telegraphy or by Tesla currents.”

I am perfectly sane and feel myself treated as a lunatic, while hallucinations are brought to me by magnetism and electricity.”

But above all, as Bleuler especially has shewn in detail, the patients lose in a most striking way the faculty of logical ordering of their trains of thought.”

By these disorders, which in many respects remind one of thinking in a dream, the patients’ mental associations often have that peculiarly bewildering incomprehensibility, which distinguishes them from other forms of confusion.”

I have also said I shall then come in the end last, with the sun and the moon, and too much excitement, and all that makes still a great deal of trouble.”

If the patient continues talking, the same ideas and expressions usually turn up again from time to time. Occasionally the persistence gets the mastery of the train of thought to such an extent that the patients for weeks and months always move in the same monotonous sphere of ideas, and cannot be brought out of it by any means.”

A patient replied to the question how old she was; ‘One day.’ Clearly this phenomenon is nearly related to the negativistic disorders of thought.” “This state appears more clearly in the utterances of other patients, that they ‘are forced to think otherwise,’ that they ‘have to think the opposite of what other people with normal understanding do.’”

A patient wanted to strangle herself because she had not her thoughts any longer. Thoughts are made by others in the distance, in Berlin, read off, taken away, carried over.”

In work the patients soon become negligent, they get bad certificates, pass no examinations, are turned off everywhere as useless, and easily fall into the condition of beggars and vagabonds.”

My whole mental power has disappeared, I have sunk intellectually below the level of a beast.”

they are afraid they are going out of their mind, becoming insane, falling ill” Descartando o mito de que o louco não se pensa como um louco. Porém: “In contrast to these indications which sometimes characterize the situation with surprising clearness, understanding of the disease disappears fairly rapidly as the malady progresses in an overwhelming majority of cases even where in the beginning it was more or less clearly present.”

Many patients begin to read medical books, connect their complaint with onanism, begin all sorts of cures.”

The patient notices that he is looked at in a peculiar way, laughed at, scoffed at, that people are jeering at him, are spitting in front of him, the clergyman makes allusions to him in the sermon.” “Jews, anarchists, spiritualists, persecute him, poison the atmosphere with poisonous powder, the beer with prussic acid, generate magic vapours and foul air” “He has been taken for a telephone post”

The patient has committed sin with his stepdaughter, with his sister, has had intercourse with cows so that hybrids have been produced; he has committed a crime against decency, has ruined himself by sexual excess, is homo-sexual, is a sadist.”

Female patients notice that men wish to seduce them, policemen and soldiers wish to have them all. A dog with a muzzle [focinheira] on seemed to a patient to indicate his sexual restraint; when his landlady brought him an egg for breakfast he regarded that as an invitation to sexual intercourse and prepared to accept it.”

In connection with these insane ideas an irritable aversion to the other sex is not infrequently developed. A patient spat at the girls he met.”

The singular indifference of the patients towards their former emotional relations, the extinction of affection for relatives and friends, or satisfaction in their work and vocation, in recreation and pleasures, is not seldom the first and most striking symptom of the onset of disease.” “Everything is frightfully indifferent to me, even if I should become quite insane” “he lives one day at a time in a state of apathy.”

One of the most characteristic features of the disease is a frequent, causeless, sudden outburst of laughter, that often is strikingly in evidence already at the very commencement.”

I am inclined to assume that this confusion in the emotional life is caused essentially by the weakening of the higher permanent feelings, whose task it is on the one hand to check sudden oscillations of feeling, on the other hand to give to our inward states permanently equable tension and temperature, and so to become security for the agreement of our emotional relations with the outer world.”

Many patients constantly exhibit a silly cheerfulness, others always a lachrymose dull depression or an ill-humoured strained behaviour.”

Another asserted that his sister had an apparatus for speaking at a distance, 150 to 300 miles; by the current one could be made to fall in love, to grieve, to have bad thoughts.”

the nerve of laughing is irritated; it is an electrical laughing.”

They experience no tediousness, have no need to pass the time, ‘no more joy in work’, but can lie in bed unoccupied for days and weeks, stand about in corners, ‘stare into a hole’, watch the toes of their boots or wander aimlessly about.” No que se assemelham aos viciados em uso das drogas que não do tipo alucinógeno.

a third asked ‘for an easy job, perhaps as a clergyman.’HAHAHA

The patients therefore are usually docile, let themselves be driven as a herd, so that they form the necessary nucleus of those crowds which conform willingly to the monotonous daily round in large institutions.”

It is seen in waxy flexibility, in the preservation of whatever positions the patient may be put in, even although they may be very uncomfortable.”

 

 

The patients sitting are fairly demented, while the three patients still are in the initial stages of the disease.”

Usually it is possible only with the most extreme force to bring them out of such a position, which they usually take up again as soon as the hindrance has ceased.”

The patients suddenly break a mirror in pieces, knock over tables and chairs, take down pictures, throw objects out at the window, climb on to a cupboard, set fire to their hair, run naked into the street, ring bells, put their heads in the basin of the water-closet, set the chamber on their head, creep under the table, smash a lamp. Usually such senseless actions are carried out with great violence, suddenly, and with lightning rapidity, so that it is impossible to prevent them; the patients also oppose themselves in the most insolent way to every attempt to keep them from doing these things.”

A patient who always rocked himself rhythmically from side to side, simply explained, ‘It happens so in me,’ ‘I must shake my head or else I am in terror,’ ‘I must constantly say things,’ ‘I must scream without wanting to, there is that impulse in me,’ ‘I must throw myself about at night in bed as if a strange power threw me,’ ‘I must turn round, as when a magnet draws a needle,’ ‘I could not have rested till I had done that,’ are similar expressions.”

OS SUB-TIPOS DE ESQUIZOFRENIA TAL QUAL KRAEPELIN OS ENCONTROU EM SUA ÉPOCA

A) DEMENTIA SIMPLEX

The disease begins usually in the years of sexual development, but often the first slight beginnings can be traced back into childhood.”

Hand in hand with this decline of mental activity there is a change of temperament, which often forms the first conspicuous sign of the developing malady. The patients become depressed, timid, lachrymose, or impertinent, irritable, malicious; sometimes a certain obstinate stubbornness is developed. The circle of their interests becomes narrower; their relations to their companions become cold; they show neither attachment nor sympathy. Not infrequently a growing estrangement towards parents and brothers and sisters becomes noticeable.”

The frequency of the malady is probably fairly large, even if only a small number of the cases are considered as morbid at all or even fall into the hands of the alienist. Who cannot call to mind companions of his youth who at first gave just ground for certain, perhaps brilliant, hopes, but then from some point of their development onwards failed in an incomprehensible way?”

A really profound dementia, without fairly acute exacerbations, with a continuous development of the malady, only slowly progressive, does not seem to occur. On the contrary, a dementia simplex which lasts for many years, even for decades, forms often enough the introduction to one of the forms of dementia praecox which goes on to profound dementia, and which will be discussed later on.”

B) SILLY DEMENTIA

GLOSSÁRIO

estereotipia: repetição verbal ou motora

evasion or paralogia consists in this, that the idea which is next in the chain of thought is suppressed and replaced by another which is related to it.”

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DEMENTIA PRAECOX .26

AS AVENTURAS DE TOM SAWYER

PRIMEIRO CAPÍTULO

old fools is the biggest fools there is. Can’t learn an old dog new tricks, as the saying is.”

tolo velho é os mais tolos que tem. Não pode cachorro velho aprender truque novo, como diz o ditado.”

Spare the rod and spile the child, as the Good Book says.”

Deixa pra lá’ vara e’straga’ criança, como diz na Bíblia.”

ele é o garoto da minha falecida irmã, tadinho, não tenho coragem de surrá-lo. Toda vez que deixo barato, minha consciência dói, e toda vez que o castigo meu coração só falta espedaçar. Seja como for, homem que nasceu de mulher vive pouco e cheio de problema e aflição, como diz o Livro Sagrado, e assim creio.”

É mui difícil fazer ele trabalhar sábado, quando todo outro garoto dá de descanso.”

Em 2 minutos, ou talvez menos, ele esqueceu todos os seus problemas. Não porque seus problemas fossem agora um iota a menos em carga e amargura, como são os problemas para os homens, mas porque outro interesse, forte e novo, obnubilou-os de sua mente por ora – como as desgraças dos homens são olvidadas na excitação de novas empreitadas.”

Ele se sentiu como um astrônomo se sente quando descobre um planeta novo – sem dúvida, tanto quanto prazeres podem ser puros, profundos e poderosos, a vantagem estava com o garoto agora, não com o astrônomo!”

Alguém novo de qualquer idade e qualquer sexo era a curiosidade mais incrível na pobre e arruinada cidadezinha de St. Petersburg.”

– Posso te bater!

– Vamos ver se tem coragem!

– Posso fazer sim.

– Não, não tem coragem.

– Posso!

– Não pode!

– Posso.

– Não!

Uma pausa desconfortável. Então Tom abriu o bico:

– Qual seu nome?

– Não é da sua conta, talvez.

– Hmm… Tá bom, mas vou fazer ser.

– Então por que não faz?

– Se é o que você quer, tá feito.

– Ó, muito, muito, muito. Como despertou meu interesse.

– Ah, se acha muito esperto, né? Podia te derrubar com uma mão amarrada nas costas, se eu quiser.

– Então por que não derruba, você diz que pode.

– E eu vou, se você vacilar.

– Ah, não é o primeiro nem o último que canta de galo.

– Espertinho! Se acha, né, né não? Vai pa’ casa do chapéu, fi’.

– Chapéu. Tenta amassar esse ‘chapéu’ se você é o cara. Eu te desafio. Eu te desafio a amassar o meu chapéu. Nem é tocar em mim. O primeiro que tentar vai bancar o trouxa.

– Você é um mentiroso!

– E você outro.

– Você chama pra briga mas na hora amarela.

– Vai ver se tô na esquina.

– Vem cá – se você me dá mais uma dessas respostas vou tacar uma pedra na tua cabeça!

– Ah, sim, claro.

– Eu vou.

– Então… Taca, fazendo favor. Pra que você fica dizendo tudo que quer fazer? Por que não faz em vez? É porque é menino medroso.

– Não sou medroso.

– É.

– Não.

– Você é.”

– Dá o fora!

– Vai você primeiro!

– Não.

– Eu também não.”

– Você é um covarde e um pirralho. Vou dar o recado pro meu irmão mais velho. Ele pode te arrebentar com o mindinho. E eu vou falar pra ele fazer isso.

– E eu com teu irmão mais velho, cria? Meu irmão é maior que o teu. Ele pode atirar o teu por cima daquela cerca ali. (Ambos os irmãos eram imaginários.)

– Tá mentindo.

– Só porque você diz que tô mentindo não quer dizer que tô mentindo.

Tom riscou uma linha na poeira com seu dedão, e disse:

– Eu te desafio a pisar nessa linha. Se pisar vou te moer de pancada até ficar no chão. É a mesma coisa que tentar roubar uma ovelha dum rebanho. Vai pagar.

O novo menino logo pisou a linha, e retrucou:

– Agora que você disse que ia fazer, mas ver você fazer.

– Não chega perto, truta, tô avisando.

– Você já avisou mil vezes. Por que não pára de avisar?

– Desafiou! Faço até por 2 centavos, fi’.

O novo menino pegou dois moedões do bolso e os segurou em provocação. Tom deu um tapa e os derrubou no chão. Num instante os dois garotos rolavam agarrados na terra, impossíveis de desembolar, como dois gatos. E por bons 60 segundos cada um puxou e torceu o cabelo do outro, as roupas do outro, socou, arranhou o nariz, e cada um se sujou com glória o mais que pôde. A confusão estava armada, já não se via mais nada na poeira. Depois, a silhueta de Tom surgiu primeiro do bololô, triunfante, montado no novo garoto. Tom é quem socava.

– Grita ‘desisto’!

O menino se limitava a tentar se livrar de Tom. Já chorava – principalmente de raiva.

– Grita ‘desisto’! – e continuava com seus socos.

Finalmente o estranho cedeu e gritou seu DESISTO. Tom deixou ele se soltar e se erguer e disse:

– Aprendeu a lição. Melhor prestar atenção com quem vacila na próxima, fi’.

O novo menino saiu sacudindo e batendo a roupa tentando deixá-las o mais brancas, gemendo, convulsivo, seu fim de choro, fungando e olhando para trás de vez em quando e balançando a cabeça para ameaçar Tom: dá próxima, você tá ferrado! Tom respondeu com risadas, e se pavoneou todo. Assim que Tom virou as costas levou uma pedrada do garoto, acertando-o entre os ombros. O menino recuou num átimo e correu feito um antílope. Tom o perseguiu até em casa, e descobriu onde morava. Espreitou perto dos portões um tempo, como que desafiando o outro a sair, se ousasse. Mas o menino só estava interessado em fazer-lhe caretas pela janela. Já havia desistido. Por fim apareceu a mãe do rival, chamando Tom de mau, vicioso, criança vulgar, e ordenou que desse no pé. Assim Tom fez, mas dizendo que estava ansioso para agarrar de novo seu algoz.

Ele chegou em casa bem tarde aquela noite, e quando escalou com cuidado até a janela descobriu uma embocada, isto é, sua tia, esperando-o. E quando ela notou o estado de suas roupas se decidiu a tornar o sábado festivo do garoto em cativeiro e trabalho duro, sem falta.

SEGUNDO CAPÍTULO

Ela! Ela nunca trisca em ninguém – nem dar um cascudo na cabeça com aquele dedal – e quem é que liga, tô curioso pra saber. Ela fala feio, mas fala não ofende – pelo menos se ela não fala chorando. Jim, você vai ver uma maravilha. As melhores bolinhas de gude!

Jim começou a ceder.”

Existem gentlemen ricos na Inglaterra que dirigem carros de 4 cavalos de 20 a 30 milhas diariamente, no verão, em estradas reservadas para a elite. Ricos, porque o privilégio lhes custa um bom dinheiro! Mas pense: se lhes fosse oferecido ordenado pelo serviço, isso se tornaria um trabalho, coisa de lacaio, e dele abdicariam.”

TERCEIRO CAPÍTULO

ele se sentou num tronco à beira do rio e contemplou a monótona vastidão da corrente, desejando, quase inconscientemente, na verdade, se possível, se afogar e ali ficar, assim sem mais nem menos, para não necessitar passar pelas rotinas incessantes programadas pela natureza.”

QUARTO CAPÍTULO

Tom gastou todas as suas energias para decorar 5 versos, e escolheu parte do Sermão da Montanha, porque não encontrou versos mais curtos. Depois de meia hora Tom tinha uma vaga idéia geral de sua lição, mas nada mais; sua mente atravessava todo o campo do pensamento humano, e suas mãos se encontravam ocupadas em distrações recreativas. Mary pegou seu livro para ouvir-lhe a recitação, e Tom tentou percorrer o caminho de volta em meio à neblina:

– Abençados são os-ã-ã—

– Pobres-

– Isso – pobres; abençoados são os pobres em espírito, pois eles-eles—

– É deles…

– Pois é deles. Abençoados são os pobres em espírito, pois é deles o reino dos céus. Abençados são aqueles que lamentam, porque eles-eles—

– De-

– Porque eles-ã-ã—

– D, E, V,…

– Porque eles D, E – Ai, eu não sei o que é!

– Devem!

– Ah, devem! Porque eles devem – porque eles devem-ã-ã-devem… lamentar-ãã-ãã-abençoados são aqueles que devem—aqueles que—ãã—aqueles que devem lamentar, porque eles devem—ãã—devem o quê?! Por que você não me diz, Mary? – pra que tanta crueldade?

– Ah, Tom, pobre Tom cabeça-de-vento… Não faço por mal. Não é do meu feitio. Você deve se concentrar e tentar aprender outra vez. Não se desencoraje, Tom, você vai conseguir! – e se conseguir, vou dar-lhe um presente. Um presente que você irá gostar. Tudo bem, Tom, Tom, bom menino.

– Tá bom, Mary, mas o que é então, me fala o que é.

– Nada de mais, Tom. Só que quando digo que você irá gostar, saiba que é a verdade.

– Aposto que sim, Mary, eu acredito. Eu vou tentar de novo!

E Tom “tentou de novo” – e sob a dupla pressão da curiosidade e da esperança do ganho ele tentou com tanto espírito que obteve um grande sucesso. Mary deu-lhe uma Barlow¹ novinha em folha, vendida a 12 centavos e meio. As convulsões de alegria de Tom sacudiram seu sistema até seus fundamentos. (…) É claro que essa faca não tinha fio nenhum, mas “com certeza era” uma Barlow, e havia uma grandeza inconcebível nisso – embora fosse um mistério essa noção dos meninos ocidentais de que esta faca pudesse ser falsificada só para seu descontentamento ao arranjar uma Barlow que não fosse uma Barlow… Foi e deverá continuar sendo eternamente um mistério.”

¹ Uma faca negra famosa à época, uma das primeiras de seu tipo: uma faca de bolso, que hoje chamaríamos de canivete, pois a lâmina era retrátil em relação ao cabo de madeira.

ele achava que cachos eram algo afeminado, e seus próprios cachos enchiam-no de amargura”

Ele se encontrava tão desconfortável quanto aparentava estar. Havia qualquer coisa que tornava rapazes rígidos em trajes completos e tão asseados. Ele desejava que Mary esquecesse seus sapatos, mas sabia que era um desejo destinado ao fracasso; pois ela os ensebou bem-ensebados, como era o costume, e os retirou do guarda-roupa. Ele perdeu as estribeiras e gritou que sempre era forçado a fazer o que não queria.”

e as três crianças partiram para a missa de domingo – uma cerimônia que Tom odiava com todo o coração; já Sid e Mary adoravam a ocasião.

As horas do Sabá iam de 9 às 10:30. E depois o serviço da igreja. Duas das crianças sempre permaneciam para o sermão voluntariamente, e os outros também permaneciam – por razões de força maior.”

Todas as classes de Tom tinham o mesmo padrão – agitadas, barulhentas, problemáticas. Quando a turma recitava as lições, nenhum aluno sabia seus versos direito, tinha que recebê-los soprados.”

Quantos de meus leitores teriam a indústria e a aplicação para memorizar 2 mil versos, ainda que fosse por um exemplar da Bíblia de Doré?¹ E não obstante assim foi que Mary ganhou duas Bíblias de Doré – um paciente trabalho de 2 anos – sem falar no garoto de ascendência alemã que ganhou quatro ou cinco delas! Uma vez ele recitou 3 mil versos sem parar; mas o esforço custou a suas faculdades mentais, e ele era pouco mais que um rapaz idiota desse dia em diante – uma calamidade para a escola, uma vez que, em ocasiões especiais, diante de grandes públicos, o superintendente (como Tom mesmo falava) invariavelmente chamava o mesmo rapaz para ‘exercitar-se’.”

¹ Gustave Doré (1833-1883) não só ilustrou várias passagens da Bíblia como famosamente passagens da Divina Comédia de Dante.

Quando um superintendente de missa de domingo faz sua costumeira pregação, um livro de salmos à mão é uma necessidade incontornável, igual escrituras musicais para um cantor que desempenhará um concerto-solo. Se bem que por que isto é assim é que não sabemos: nem o solista nem o superintendente fazem uso, realmente, dos papéis a sua frente.”

O homem de meia-idade revelou-se um personagem prodigioso – nada menos que o juiz do condado – a mais augusta autoridade que essas crianças já haviam contemplado na vida – e as crianças se perguntavam de que ele era feito – simultaneamente queriam que ele esbravejasse e discursasse, mas temiam-no também ao máximo. Ele era de Constantinopla, a 12 milhas dali – é o quanto ele tinha viajado – uma enormidade, percorrendo o mundo – esses mesmos olhos já se tinham posto sobre a côrte do condado – que, diziam, tinha um telhado de metal.”

O bibliotecário ‘se exibia a todos’ – correndo de lá pra cá com vários livros em punho, aproveitando-se de cada burburinho e algazarra, que autoridades-insetos sempre acolhiam como bom sinal. As jovens professorinhas ‘se exibiam a todos’, inclinando-se com meiguice sobre alunos atrasados para compor as filas, erguendo dedinhos deliciosamente advertidores aos menininhos mais malvadinhos e acarinhando os menininhos mais bonzinhos na mesma medida, afetuosamente. Os jovens professorzinhos ‘se exibiam a todos’, com pequenas broncas e outras exibições de autoridade, manifestações de atenção em disciplinar qualquer polegada em seu entorno. E, sobretudo, professorzinhos de ambos os sexos sempre achavam que fazer à biblioteca, ou então perto do púlpito. Eram sempre emergências e que necessitavam ser refeitas uma, duas vezes até. Havia muito apuro nessas providências candentes. As menininhas ‘se exibiam a todos’ de várias formas, e os menininhos ‘se exibiam a todos’ com tamanha diligência que o ar parecia mais carregado do que nunca de papéis e brochuras importantes e dos sons de disputas controladas, limitadas a murmúrios. E acima de tudo o mais o grande homem sentado e a emanar um majestoso e judicial sorriso para a contemplação dos presentes, aquecendo-se no sol de sua própria importância – porque sem dúvida ele também estava ‘se exibindo a todos’.”

E agora, quando não havia mais esperanças, Tom Sawyer se pôs à frente com nove bilhetes amarelos, novo vermelhos e dez azuis, e requereu sua bíblia. Foi um trovão em pleno céu aberto. Walters jamais esperava uma aplicação dessa proveniência pelos próximos dez anos. Mas não havia nem como duvidar – ali estavam todos os bilhetes certificados, e Walters os inspecionou e não encontrou nada de errado. Tom foi elevado, perfilado com o juiz e os demais vencedores, e as grandes notícias logo tomaram a vila. Foi a maior surpresa da década, tão profunda sensação causou nos moradores o novo herói, investido agora da proteção até da autoridade judicial. A escola tinha não só uma maravilha, a autoridade, mas duas para contemplar aquele domingo. Todos os meninos se mordiam de inveja – mas quem mais se angustiou foram os que se aperceberam tarde demais que contribuíram diretamente para esse esplendor odioso, trocando seus próprios cartões pela riqueza que Tom acumulara vendendo sua cal. Esses agora menosprezavam a si mesmos, como os tolos do mais capcioso ardil, da cobra no jardim que seduziu-os todos.

O prêmio foi entregue a Tom com tanta efusão quanto o superintendente era capaz de demonstrar; só faltou talvez aquela reverência ou bajulação devida a um legítimo ganhador, porque os instintos do pobre senhor adivinhavam a existência de circunstâncias misteriosas rondando a ocasião, impossíveis de resolver em tão pouco tempo. Era ilógico imaginar que esse garoto tinha registrado na cabeça duas mil linhas da sabedoria das Escrituras – uma dúzia só já parecia exceder seus limites, disso o superintendente não tinha dúvida.

Amy Lawrence era só orgulho e contentamento, e ela tentou chamar a atenção de Tom como pôde para demonstrar-lhe – Tom, todavia, nem a olhava. Ela se pôs pensativa, espantada mas introspectiva. Com os minutos foi-se pondo desconfiada. A seguir, tentava se prender a alguma hipótese pouco nobre. Observava furtivamente como quem devia entender o inexplicável focando o olhar em qualquer coisa no salão. Foi então que seu coração partiu, sentiu ciúmes, revolta, lágrimas jorraram e passou a odiar todos em volta. Tom principalmente (ela assim pensava no momento).

Tom foi apresentado ao juiz. Sua língua se encontrava travada. Seu fôlego era escasso, o ar vinha com dificuldade. Seu coração chacoalhava – parte pela grandeza do homem, parte porque ele era o pai da menina. Ele teria adorado se prostrar e adorar este homem, se fosse no escuro e ninguém pudesse ver. O juiz colocou a mão na cabeça de Tom e disse que ele era um belo dum rapazinho, perguntando em seguida seu nome. O rapazinho balbuciou, engasgou, mas conseguiu emitir:

– Tom.

– Ah, Tom não, deve ser—

– Thomas.

– Isso! Foi o que pensei, que era um nome mais longo. Mas eu ouso dizer que ele é ainda mais longo, não? Não quer dizê-lo por completo?

– Diga ao senhor seu outro nome, Thomas – disse Walters, – e diga ‘senhor’. Não esqueça das maneiras!

– Thomas Sawyer – senhor!”

– Creio que você não se importe em contar a mim e a esta dama algumas das coisas que aprendeu. Não, tenho certeza que não se importaria! Pois temos muito orgulho de jovens que aprendem bem. É evidente que você sabe o nome dos doze discípulos, não é assim? Por que não diz, por exemplo, o nome dos dois primeiros que foram nomeados pelo Senhor?

(…) As tripas do senhor Walters deram um nó. Ele disse a si mesmo: é impossível que o garoto responda a mais simples das questões! Por que o juiz foi perguntá-lo? Assim mesmo ele se sentiu na obrigação de falar algo, e interveio:

– Responda o juiz, Thomas – nada receie!

A garganta de Tom ainda parecia arder em chamas.

– Ah, eu sei que você sabe – atalhou a dama. Que os nomes dos dois primeiros discípulos eram…

Davi e Golias!…

Baixemos as cortinas da cortesia e da caridade sobre a continuação desta cena.”

QUINTO CAPÍTULO

Tom não tinha cachecol. E achava que os meninos que tinham era uns esnobes.”

Havia, há certo tempo, um coro de igreja que não era nada mal, mas esqueci onde ele ficava. Isso foi há muito tempo. Lembro apenas de soslaio, mas devia ser num país estrangeiro.”

Nas reuniões sociais da igreja ele sempre era chamado para declamar poesia; e assim que ele terminava as madames erguiam suas mãos só para deixá-las recair sobre seus colos, depois tapavam a vista, de repente úmida, vibravam as cabecinhas, como que querendo dizer que palavras não podiam expressar o que sentiam. Tão belo, belo DEMAIS para este mundo mortal.

Depois de cantado o hino, o Reverendo Senhor Sprague se dirigia a um quadro de avisos e lia lembretes de encontros e cerimônias da comunidade e mais este e aquele jantar beneficente, até que a lista parecia que iria até o juízo final e… um costume estranho, talvez ainda corrente na América, mesmo nas cidades, subsistente nessa idade dos jornais… Muitas vezes quanto menos razões há para preservar um costume, mais difícil é se livrar dele!

O ministro então passava a rezar. Uma oração boa e generosa. Muito específica: pedia o bem da própria igreja, o bem das criancinhas da igreja, o bem das outras igrejinhas do vilarejo, o bem do vilarejo em si, o bem da prefeitura, o bem do estado, o bem dos funcionários do estado, o bem Estados Unidos da América, o bem das igrejas de todos os Estados Unidos da América, o bem do Congresso, o bem do Presidente, o bem dos funcionários do governo norte-americano, o bem dos pobres marinheiros, à mercê de tempestades marítimas, o bem de milhões oprimidos e gemendo sob a tirania dos monarcas europeus, e também dos déspotas do Oriente, o bem a todos os que têm em si a luz da razão e uma boa alma, mas que ainda não têm olhos para ver nem ouvidos para ouvir, por assim dizer; o bem dos pagãos nas ilhas mais remotas; e fechava, esta oração bem-feitinha, com uma súplica para que as palavras que ele acabava e que ainda ia acabar de dizer fossem agraciadas com o favor divino, como sementes num solo fértil, fortalecendo, devagar e com o tempo, o bem, frutificando as coisas boas deste mundo maravilhoso. Amém.”

ele considerava acréscimos injustos e torpes. No meio da pregação uma mosca pousou na parte de trás do banco justo diante de si. Uma mosca que parecia torturar seu próprio espírito como um crente em penitência. Esfregava calmamente as patas, depois esfregando-as na cabeça, tão vigorosamente que a cabeça parecia se descolar do corpo – o fio que era o pescoço da criatura se pôs à mostra. Raspando as asas com suas patas traseiras, aplainando-as com o resto de seu corpo, parecia agora que a mosca vestia um fraque. E seguia nessa espécie de higiene individual com a tranqüilidade de quem se sabe segura. De fato a mosca estava plenamente segura. Não importa quão intenso fosse o ímpeto das mãos de Tom, se coçando para esmagar ou espantar aquela mosca, Tom acreditava que sua alma seria sumariamente destruída no caso de cometer tal ato durante o sermão.”

O ministro não só leu toda sua exortação costumeira como seguiu, no tom monocórdio possível, auto-resolvendo um argumento tão prosaico, na continuação da leitura, que não foram poucas as cabeças que começaram a pescar – e não deixava pela mundanidade de ser um argumento envolto em fogo imorredouro e enxofre e parecia reduzir a casta dos predestinados a uma companhia tão pequena que, no fim das contas, não valia o esforço da redenção. Tom contou as páginas do sermão. Depois da igreja ele sempre sabia quantas páginas haviam no discurso, porque ele se concentrava em contá-las; mas nada do conteúdo lhe era familiar.”

Tom olhou, e esperou. Mas estava fora de alcance. É de confessar que outros fiéis desinteressados do sermão encontraram alívio no besouro, e passaram a fitá-lo também. De repente um cachorro de rua entrou, parecendo tristonho, lerdo devido à calidez do verão, muito comportado, cansado, talvez, do repouso e preguiça do estar parado o dia todo, arfando por uma mudança de ares. Ele mesmo observou o besouro. O rabo se ergueu começou a abanar. Ele começou a avaliar o prêmio. Circundou-o. Cheirou-o de distância segura, voltou a rodeá-lo com cautela. Avalentonou-se, cheirou de mais perto. Elevou seu focinho e tentou uma captura escrupulosa do inseto, mas errou de mira. Mais uma vez, e outra, e o besouro se desviava. O cão começava a gostar do esporte. Mera presa de seu estômago a roncar com o besouro já em suas patas, continuou seus experimentos. Uma hora fatigou-se e, indiferente, parecia não ligar para o alvo, nem para os objetos em torno. Dispersou-se. Balançou a cabeça, de pouco em pouco o queixo foi caindo e encostou mesmo no besouro, que não recusou a interação. O cão ganiu, chacoalhou a cabeça e o besouro caiu várias jardas para lá. E caiu mais uma vez de costas, inofensivo. Os vizinhos humanos, espectadores do espetáculo, deram risotas de uma alegria terna e interna, muitos dos rostos, consternados em ser assim flagrados, esconderam-se atrás de leques e lenços, e Tom, Tom também ficou contente! O cão parecia um tolo, e na verdade parecia ter alguma consciência disso. Não pensem que cães são incapazes de rancor, porque ele foi para se vingar. Aproximando-se do besouro iniciou um ataque mais desconfiado que todas as investidas anteriores, pululando em derredor cobrindo todos os pontos de um círculo imaginário, ameaçando com suas grandes patas a uma polegada da criatura, tentando a captura bucal com seus dentes rangidos, balouçando a cabeça até suas orelhas se porem eretas novamente. Mas esse cão não podia persistir por muito tempo, e se distraiu outra vez. Tentou se divertir com uma mosca próxima, mas isso era demasiado pouco. Seguiu os passos duma formiga, o nariz colado no chão da igreja, bocejou, suspirou, já havia esquecido do besouro inteiramente, a ponto de simplesmente sentar nele sem querer. Agora o uivo foi mais estridente que da outra vez, pareceu denotar muita dor. O cachorro foi em direção à nave da igreja, querendo distância dali. Ganiu ainda por um tempo. Ele cruzou a passagem entre os fiéis e o altar. Depois já estava na outra nave, saiu pelas portas. Já estava bom de se espreguiçar por hoje! Sua angústia aumentava a cada passo, era essa a impressão pelo menos, e no fim ele parecia um ponto de lã no horizonte em trajetória errática, cedendo talvez à força da gravidade, cometa que se aproximava em elipse a algum corpo celeste pesado. Mas o sofredor se recompôs e se dirigiu então… para aquele que era seu dono, então ele tinha uma casa um dono! Alguns latidos tristes ainda foram ouvidos, mas logo foram abafados pela janela recém-fechada…

Nesse ponto, a audiência da igreja já está sufocando, de cara vermelha, prendendo o riso, e o sermão chegou no fundo do poço, como se o tempo tivesse parado. O sermonista notou-o e interrompeu-se por um hiato, depois dos barulhos da aventura anterior; o retorno à lide foi célere, no entanto, e não pareceu a nenhum ouvinte, por isso, mais instigante nem ao menos ter sido afetado por qualquer traço emocional, o que era desabonador. Nada o alteraria até o fim. Mesmo risotas que escapassem eram recebidas com a mesma gravidade inalterável, tanto faz se sensível às risotas ou não. Só o que se ouvia além da voz e de alguns sons da platéia, para ser franco, era o ranger dos bancaços de madeira.

(…) Tom Sawyer caminhou aquele dia para casa um pouco alegre, pensando consigo que havia no fim de contas alguma satisfação a ser retirada dos serviços divinos quando as circunstâncias fossem favoráveis.”

SEXTO CAPÍTULO

A segunda-feira de manhã encontrou Tom Sawyer no estado mais lamentável. Segundas de manhã sempre encontravam Tom deste jeito – porque eram o vagaroso reinício dos sofrimentos escolares semanais. Geralmente ele começava o dia desejando que o sabá nunca tivesse existido – ser liberado só fazia voltar à prisão algo mais dorido e odioso.”

De repente ele se deu conta de algo. Um de seus dentes da frente e de cima estava frouxo. Isso significava sorte. Ele começava instintivamente a gemer, o <gatilho>, como ele mesmo costumava dizer, de, quando se lhe ocorresse propício, ganhar uma causa no tribunal – até que Tom lembrou de que talvez tudo terminasse com sua tia realmente arrancando seu dente – e decerto doeria.”

Em pouco tempo Tom estava diante do pária juvenil do vilarejo, Huckleberry Finn,¹ filho do alcóolatra local.”

¹ Novela que é a seqüência direta desta.

Huckleberry ia e vinha de acordo com sua própria vontade. Dormia no batente das portas no tempo bom e em barris vazios quando estava úmido. Ele não tinha de ir à escola ou à igreja, nem tinha qualquer adulto por mestre ou amo; não obedecia a ninguém. Ele podia ir pescar ou nadar quando e onde escolhesse, e demorar o quanto quisesse. Ninguém o proibia de brigar tampouco. E nem o mandava ir para a cama. (…) também não tinha de tomar banho, nem vestir roupas limpas. Podia xingar e praguejar que era uma beleza. Em resumo, tudo o que fazia a vida de um menino a mais preciosa, ‘Huck’ tinha.”

Tom cumprimentou o romântico pária:

– Olá, Huckleberry!

– Olá você, sinta-se servido.

– O que é isso que você tem aí?

– Gato morto.

– Deixa eu ver, Huck. Ó, ele tá bem duro. Onde você achou?

– Comprei dum garoto.

– Com o quê?

– Dei um bilhete azul e uma bexiga que consegui no açougue.

– Onde você achou o bilhete azul?

– Comprei do Ben Rogers faz duas semanas por um bastão de arco de ginástica.

– Fala… o que dá pra fazer com gatos mortos, Huck?

– O que dá pra fazer? Espremer verruga.

– Não! Sério? Eu sei uma coisa melhor.

– Duvido. O que é?

– Ora, água de gambá!

– Água de gambá! Eu não dava um vintém por água de gambá.

– Tem certeza que não? Já tentou tirar verruga com água de gambá alguma vez?

– Não, nunca, mas o Bob Tanner já.

– Quem disse?!

– Ué, ele disse pro Jeff Thatcher, e o Jeff contou pro Johnny Baker, e o Johnny contou pro Jim Hollis, e o Jim contou pro Ben Rogers, e o Ben contou prum negro, e o negro me contou. Aí tem!

– Sim, mas e então? Todos eles mentem. Todos isto é, menos o negro. Eu não conheço ele. Mas eu nunca vi um negro que não mentiria. Porra! Agora me diz como o Bob Tanner fez, Huck.

– Ué, ele afundou a mão numa poça depois da chuva.

– Durante o dia?

– Acho que sim.

– Com a cara pra poça?

– Sim. Pelo menos eu diria.

– Ele falou alguma coisa?

– Eu não diria que falou. Eu não sei.

– Arrá! Curar verruga com água de gambá desse jeito não dá! Não, isso não ia dar em nada. Você tem que ir sozinho, até o meio do bosque, onde você sabe que tem uma poça velha lá, e assim que der meia-noite você fica de costas pra água podre, enfia sua mão nela e então diz: Grão de cevada, grão de cevada, comida de índio, água de gambá, água de gambá, engole essas verrugas;

e depois ir embora correndo, 11 passos, com seus olhos fechados, e depois se virar umas 3 vezes e ir direto pra casa sem falar com ninguém. Porque se você falar, o charme quebra.

– Ué, parece legal. Mas não foi o jeito que o Bob Tanner fez.

– Não senhor, com certeza absoluta não, porque ele é o moleque mais verruguento da cidade! Se ele tivesse feito ele não ia ter verruga! Eu tirei umas mil verrugas da minha mão desse jeito, Huck. Eu brinco tanto com sapo que sempre me dá verruga! Eu tiro com vagem.

– Feijão é muito bom, já fiz isso.

– Já? Como você faz?

– Você pega e divide a vagem, e corta a verruga até sair um pouco de sangue, aí você põe o sangue num pedaço do feijão e pega e cava um buraco e enterra o feijão mais ou menos meia-noite na encruzilhada na sombra da lua, e depois você queima o resto do feijão. O pedaço com sangue vai virar um ímã e vai puxar a outra metade que você cortou, aí é só você usar isso pra ressecar a verruga, e puxar ela da sua pele.

– É, é isso aí, Huck, é isso aí! Mas quando você tá enterrando o feijão, se você diz ‘Desce feijão, cai verruga, não vem mais me perturbar!’, é melhor! É assim que o Joe Harper faz, e ele já foi em Coonville, e um bando de lugar. Mas me diz – como é pra sarar com gato morto?

– Ué, você pega seu gato e vai e chega no cemitério perto de meia-noite, ou na hora do enterro de alguém mau. E meia-noite um diabo vai aparecer, ou talvez dois, três… Mas o negócio é que você não pode ver eles, você só ouve uma coisa que parece co’ vento, ou uns burburinhos. E quando eles tão levando o cadáver do homem mau, você lança o gato pra eles e grita: ‘Diabo segue corpo, gato segue diabo, verruga segue gato, sai de mim verruga!’. Isso vai curar qualquer verruga.

– É, faz sentido. Você já tentou, Huck?

– Não, mas a velha madre Hopkins que me disse.

– Hm, eu acho que é verdade então. Porque falam que ela é uma bruxa.

– Falam! Ué, Tom, eu sei que ela é. Ela enbruxou meu pai. Meu pai sabe. Ele vinha vindo um dia, aí ele viu que ela tava embruxando ele, então ele pegou uma pedra, e se ela não tivesse desviado tinha peg’em chei’! A mesma noite ele caiu rolando dum barracão em que ele tava bebendo, e quebrou o braço, cê ‘credita?!

– Cara, que horrível! Como ele sabia que ela tava embruxando ele?

– Deus, meu pai jura de mão junta. Ele diz que se elas tão olhando fixo pra você, tão embruxando você. Se elas tão murmurando é certeza, certeza! Quando elas tão murmurando elas tão falando o pai-nosso de trás pra frente!

– Hucky, me diz… Quando você vai fazer a parada com o gato?

– Essa noite. Eu acho que vão vir pro velho Hoss Williams.

– Mas o enterro foi sábado. Não pegaram o corpo dele sábado de noite?

– Ué, sabe-tudo! Com’é que o charme funciona até meia-noite então? E aí meia-noite de sábado já é domingo. Os demônios não vadiam domingo, eu diria.

– Nunca pensei nisso. Deve ser assim. Deixa eu ir contigo?

– Claro! Se você não tiver com medo…

– Com medo!! Duvido muito. Você vai miar?

– Sim. E você mia de volta, se escutar. A última vez, você me fez ficar miando um tempão até o velho Hays me tacar pedra! E ele falou: ‘Maldito seja esse gato!’. E pra me vingar eu atirei um tijolo na janela dele. Mas você não me ouviu.

– Não ouvi. Eu não pude miar aquela noite, porque minha tia tava me vigiando. Mas dessa vez eu vou miar. Ei, o que é aquilo?

– Só um carrapato.

– Onde conseguiu?

– Na floresta.

– Quer vender pelo quê?

– Não sei. Não quero vender, eu acho.

– Tá bom. É um carrapatinhozinho pequenininho mesmo.

– Qualquer um pode pegar um carrapato que não tem dono. Tô satisfeito com esse. É um carrapato bom pra mim.

– Lógico, tem carrapato pra caraca! Eu podia ter mil se eu quisesse.

– Por que você não arranja uns? Ah, você não consegue! É um carrapato recém-nascido. É o primeiro que espio esse ano!

– Ei, Huck… Eu te dou meu dente pelo carrapato.

– Hm, deixa ver.

Tom tirou um pedaço de papel do bolso e com cuidado desenrolou-o. Huckleberry estudou o dente com certa nostalgia. Era uma bagatela. Então ele disse:

– É genhuíno?

Tom levantou o beiço e mostrou a banguela.

– Ué, muito bom! – disse Huckleberry, satisfeito – Negócio fechado.

Tom encerrou o carrapato numa lata velha daquelas de armazenar balas de armas, a mesma caixa em que ultimamente Tom vinha confinando um besouro-veado. E então os garotos se separaram, cada um achando que saiu no lucro.

– Thomas Sawyer!

Tom sabia que quando seu nome era pronunciado inteiro significa problema.

– Senhor!

– Venha aqui. Agora, senhor, por que está atrasado, como aliás quase sempre?

Tom estava para se refugiar em uma de suas mentiras cultivadas, quando viu duas longas tranças de cabelo amarelas repousando ao fundo, que ele imediatamente reconheceu pelo processo elétrico chamado simpatia do amor. E ao lado da portadora dessas tranças, eis o único lugar vago restante. Ele então preparou novo discurso direto das entranhas:

– Eu parei para conversar com Huckleberry Finn!

O pulso do professor até parou, dir-se-ia. Ficou sem reação. O barulho da sala também virou silêncio. Sem dúvida todos começaram a se perguntar mentalmente se aquele toleimas tinha virado o fio de vez.

– Você—você o quê?!

– Parei para conversar com Huckleberry Finn.

Não havia confusão na audição de qualquer palavra.

– Thomas Sawyer, essa é a mais espantosa confissão que jamais ouvi. Não é qualquer palmatória que limpará tamanha ofensa! Tire sua jaqueta.

O braço do mestre executou os golpes até se cansar, de modo que as estaladas foram aumentando de intervalo entre uma e outra até pararem por completo. Em seguida veio a ordem:

– Agora, senhor, vá, e se sente com as meninas! Que isso lhe sirva de máxima lição.

O tititi que percorreu a sala pareceu desconcertar o garoto. Mas o resultado externo, essa feição de abatimento, fôra em verdade causado por sua adoração infinita ao novo ídolo e aquele medo ou frio na barriga decorrente do ambíguo prazer de receber a honra de sentar-se ao seu lado. Ele sentou na extremidade do grande banco de pinheiro e a garota retraiu-se a sua passagem, jogando a cabeça para o lado. Cotoveladas e piscadinhas e sussurros atravessaram o cômodo, mas Tom sentou quieto, em postura tranqüila, de braços estendidos sobre a longa e baixa carteira diante de si, pelo menos afetando ler seu livro.”

Então o garoto começou a olhar às furtadelas para a garota. Ela não deixou de notar, franziu os lábios em sentido de repulsa e virou o rosto em relação a ele por completo por um minuto inteiro. Quando ela cautelosamente volveu à posição antiga, viu um pêssego sobre sua carteira. Ela o jogou longe. Tom, com ternura, devolveu-o ao mesmo lugar. Ela o jogou longe de novo, mas com menos animosidade. Tom pacientemente retornou a fruta ao mesmo sítio. Então ela deixou o pêssego ficar lá. Tom garatujou em sua ardósia: ‘Por favor, fique com ele. – Eu tenho mais’. A garota mirou as palavras, mas pareceu não saber interpretá-las. Agora o garoto começou a desenhar alguma coisa, escondendo ao mesmo tempo o conteúdo com a mão esquerda. Por um tempo a garota simplesmente se negou a reparar; mas sua curiosidade humana começou a se manifestar por sinais orgânicos bastante finos e bem-disfarçados. O garoto continuava em seu trabalho, aparentemente inconsciente desses sinais. A garota entrou numa postura como que de uma tentativa passiva de enxergar algo do desenho, mas o garoto não demonstrou nenhuma perturbação diante dessa nova tática. Por fim ela cedeu e cochichou, hesitante:

– Deixa eu ver.

Tom descobriu parcialmente uma horrível caricatura duma casa de duas cumeeiras e uma chaminé com fumaça em espiral. Isso fez com que o interesse da garota pela parte ainda oculta da figura se intensificasse. Ela esqueceu de afetar qualquer discrição. Quando o desenho terminou, e Tom deixou-o a descoberto, ela olhou um instante, depois cochichou:

– É bonito. Desenha um homem.

O artista então compôs um homem no jardim frontal. O homem parecia um guindaste. Pelo seu tamanho ele podia pisar na casa e usá-la como degrau. Mas a garota não era hipercrítica. Satisfez-se com o monstro, e cochichou:

– É um homem bonito. Agora me põe do lado dele.

Tom desenhou uma ampulheta com uma lua cheia no topo, com riscos por membros, sem dizer que armou os dedos protuberantes com um portentoso leque. A garota disse:

– É muito, muito bonita. Eu gostaria de saber desenhar.

– É fácil – cochichou Tom. Eu vou te ensinar.

– Sério? Quando?

– Meio-dia. Você vai pra casa almoçar?

– Eu fico se você ficar.

– Bom – negócio fechado. Qual seu nome?

– Becky Thatcher. Qual o seu? Ah, eu já sei: é Thomas Sawyer.

– Esse é o nome por que me chamam aqui. Eu sou Tom para os íntimos. Você vai me chamar de Tom, não vai?

– Vou.

(…)

– Se eu mostrar, você vai contar.

– Não, eu não vou. Juro, juro, beijo, beijo, que não vou contar.

– Não vai contar pra ninguém? Nunca, enquanto viver?

– Não, nunca vou contar pra ninguém. Agora deixa eu ver.

– Ah, você não quer ver isso!

– Já que você me trata assim, eu vou ver. – E ela pôs sua mãozinha sobre a dele e uma ligeira luta decorreu, Tom fingindo que resistia sinceramente, mas deixando-se vencer aos milímetros até revelar as palavras EU TE AMO.

– Ai, seu malvado! – e deu uma palmada na mão trigueira de Tom, mas corou e pareceu feliz com a situação.

Exatamente nesta conjuntura o garoto sentiu um lento, fatídico agarrão que envolveu sua orelha, e um empuxo firme. Foi dessa maneira, agarrado pela aba, que ele foi conduzido através de toda a sala para seu assento de origem, debaixo de gargalhadas ardentes de toda a classe. Então o professor continuou de pé olhando para baixo, ao seu lado, por agoniantes segundos; até decidir deslocar-se a seu trono, sem mais palavras. Muito embora a orelha de Tom ardesse como o inferno, seu coração rejubilava.”

na aula de leitura Tom estava de dar pena; na aula de geografia, trocou lagos por montanhas, montanhas por rios, e rios por continentes; na aula de pronúncia e ortografia as palavras mais básicas davam nós em sua língua e em sua pena. Era como esmigalhar com um pisão a medalha platinada que ganhara com tanto esforço no fim de semana.”

SÉTIMO CAPÍTULO

Enquanto um menino importunasse o carrapato com interesse absorvente, o outro se interessaria na mesma medida. Ambos inclinavam a cabeça sobre a ardósia em sincronia, e ambos estavam tão entretidos que excluíam a existência do mundo exterior.”

– Não vou deixar ele quieto!

– Você deve – ele tá do meu lado da linha.

– Ei, Joe Harper, de quem é esse carrapato?

– Eu não tô nem aí de quem é o carrapato – ele tá do meu lado da linha, e você não deve tocar nele.

– Então, só vou apostar que vou, e ponto. Ele é meu carrapato e eu vou fazer a merda que eu quiser com ele ou morrer!”

– Não, não ligo muito pra ratos. Eu gosto é de chiclete.

– Bem lembrado – queria ter um agora.

– Mesmo? Eu tenho alguns. Eu vou deixar você mascar um bocado, mas você tem que me devolver depois!

Isso era vantajoso, então ambos passaram a mascar em turnos, e balançavam as pernas contra o banco, de tanta satisfação.

– Já ‘teve no circo? – perguntou Tom.

– Já, e meu pai vai me levar de novo já, já, se eu me comportar.”

– Como é? Não tem comparação com nada. Você só fala pra um garoto que não vai ter nenhum outro garoto, a vida toda, só ele! Nenhum outro garoto, nunca, nunca, nunca, e depois vocês se beijam e isso é tudo. Todo mundo pode fazer isso!

– Beijar? Mas pra que beijar?

– Hm, beijar é, você sabe, é—ué, todo mundo beija.

– Todo mundo?!

– É, todo mundo que se ama! Você lembra o que eu escrevi na ardósia?

– Si-im.

– O que foi?

– Não posso te contar.

– Eu posso te contar?

– Si-im… Mas… não agora.

– Não, agora.

– Não, agora não. Ama-anhã…

– Nana nina! Agora. Por favor, Becky. – eu vou cochichar, eu vou cochichar bem baixinho.

Becky hesitava. Tom interpretou o silêncio como consentimento, passou o braço pela sua cintura e sussurrou a frase batida no tom mais brando que encontrou, com seus lábios o mais próximo possível da orelha de Becky. E ainda acrescentou:

– Agora você cochicha pra mim – igualzinho.

Ela resistiu, pelo menos por um hiato, então falou:

– Você olha pra lá pra não me ver, então eu cochicho. Mas você nunca vai contar pra ninguém, tá entendendo, Tom?! Você NÃO vai, Tom, tá bom?!

– Não, deixa. Pode deixar que eu não vou. Vamo’, Becky.

Ele virou o rosto. Ela se inclinou com timidez se aproximando até seu hálito fazer os cachinhos de Tom se moverem, e sussurrou:

– Eu… amo… você!

Então ela o repeliu e correu para longe, circulando as carteiras e bancos, Tom seguindo-a de perto. Becky se refugiou numa das quinas, com seu lencinho cobrindo o rosto. Tom amaciou seu pescoço e implorou:

– Vem, Becky, tá tudo bem. Quase acabando. Falta só o beijo! Não tem por que ter medo – é uma bobagem! Por favor, Becky! – E ele a puxou pelo lenço e as mãos.

Ela foi cedendo aos poucos, deixando as mãozinhas caírem. Seu rosto, fulgurante de tanta resistência, se aproximou do de Tom e se submeteu. Tom encostou sua boca na boca vermelha de Becky e disse:

– Agora terminou, Becky! Está feito! E depois disso, pra sempre, você nunca vai amar ninguém, só eu, e você vai poder casar com ninguém, só comigo, pra todo o sempre e a eternidade. Né?

– Não, nunca vou amar ninguém sem ser você, Tom, e eu nunca vou casar com ninguém, só com você, Tom… E você também não pode casar, só se for comigo, Tom.

– É claro! É óbvio! É parte do ritual. E sempre, indo pra escola, ou quando a gente ‘tiver indo pra casa, você tem que andar comigo… quando ninguém ‘tiver olhando… E você me escolhe e eu te escolho nas duplas, você é sempre meu par, eu sou sempre seu par, porque é assim que se faz quando um casal se compromete.

– É tão legal! Nunca tinha ouvido falar…

– É sempre tudo de bom! Sabe, eu e a Amy Lawrence

Os olhos arregalados contaram a Tom que ele tinha pisado em ovos – e ele parou, aturdido.

– Ai, Tom! Então eu não sou a primeira que você jurou que ia…!!!

A criança desatou a chorar. Tom disse:

– Não chora, Becky, eu não ligo pra ela mais!!

– Sim, você liga, Tom – você sabe que liga.

Tom tentou circunvolver Becky pelo pescoço, mas ela o empurrou e virou a cara para a parede, sem que as lágrimas parassem de deslizar pelo seu rosto. Tom tentou de novo, cheio de consolações em suas palavras, mas foi repelido outra vez. Era o cume para seu orgulho. Ele escapuliu e se viu a céu aberto. Parou um tempo, em frenesi e aflito, fincando o olhar na porta pelo lado de fora, desejando mil vezes que ela se arrependeria e viria atrás dele. Mas ela não o fez.”

Ela ouvia com atenção, mas não houve resposta. Ela não tinha como companheiros senão o silêncio e a solidão. Então ela se sentou novamente com o intuito de chorar e infligir um castigo a si mesma. Nesse meio-tempo os alunos começaram a se reagrupar, e ela teve de esconder toda sua tristeza, embora seu coração partido não fosse se emendar. Viver aquela tarde seria um longo calvário, sem ninguém dentre pessoas estranhas que lhe dirigisse um olhar terno ou com quem pudesse desabafar.”

OITAVO CAPÍTULO

Dava-lhe a impressão que a vida não passava de uma grande peça pregada, na melhor das hipóteses, e ele muito invejava Jimmy Hodges, morto recentemente. Deve ser muito tranqüilo, ele pensava, parar e descansar e sonhar pra sempre, acompanhado do uivar do vento nas folhas e sentindo o contato com a relva e as flores, ali em cima do túmulo. Nada para encher nem lamentar, nunca, nunca mais! (…) Ele quis o melhor, e até ali fôra tratado como um cão – como o mais rueiro dos cães. Ela se arrependeria um dia – talvez quando fosse tarde demais. Se ele pudesse morrer, nem que temporariamente!

E se ele virasse as costas agora e desaparecesse misteriosamente? E se ele fosse para longe – tão longe, para países desconhecidos além dos mares – e não voltasse jamais! Como ela se sentiria então? A idéia de se tornar um palhaço voltava recorrentemente, só para terminar enchendo-lhe de desgosto no presente. A frivolidade, as piadas e suspensórios de bolinhas soavam-lhe ofensivos, pelo menos quando bancavam os intrusos num espírito desassossegado nos augustos reinos do romance como o seu. Não, melhor seria se converter em soldado, e retornar após longos, longos anos, coroado de medalhas, famoso em todo o país. Não – melhor ainda: ele se aliaria aos índios e caçaria búfalos e seguiria as trilhas montanhosas e as planícies ainda não-documentadas do Extremo Oeste, e no futuro distante se sagraria o pajé de seu povo, todo adornado de penas, temível em pintura de guerra, pavoneando-se à entrada da igreja num domingo qualquer, como se nada, com um grito de desafio que anunciava a derramada de sangue – arrancaria os olhos de seus antigos companheiros de maneira implacável. Não, não, havia algo ainda mais satisfatório que isso! Ele seria um pirata! É isso! agora sim o futuro corria nítido diante de seus olhos, brilhando em esplendor inimaginável. Seu nome encheria as páginas dos jornais do mundo, todos estremeceriam ao ouvi-lo! Com que glória ele iria de porto em porto sacando riquezas, e como sey navio de casco negro dançaria sobre as ondas – ele já tinha um nome, o Espírito da Tempestade, com sua apavorante bandeira à frente!”

Quem vem é Tom Saywer, o Pirata! – o Vingador Negro da Esquadra Espanhola!”

A verdade é que uma superstição sua tinha falhado, aqui, uma que ele e tdos os seus camaradas tinham considerado como infalível. Se você enterrasse a bola de gude com certos encantamentos e deixasse-a intocada por 2 semanas, reabrindo o lugar com os mesmos encantamentos na hora indicada, com sílabas perfeitamente espelhadas, você constataria que todas as bolinhas de gude que perdera em toda sua vida estariam agora reunidas num só lugar, não importa quão longe estivessem antes de tudo. Mas agora tudo tinha ido água abaixo, sem lugar a dúvidas. Toda a fé de Tom chacoalhou até as fundações. Ele ouvira muitas vezes de sucessos semelhantes, mas nunca de fracassos. E ele nem sequer lembrava que já havia tentado muitas vezes antes… mas no fim ele esquecia onde havia enterrado a bola de gude, então deixava a questão de lado.”

Ele sabia que era inútil discutir com bruxas, então deu de ombros. Mas de repente se lembrou da bola de gude que perdera, dando-se ao trabalho de procurá-la com a maior paciência. Nada feito. Voltando a sua casa dos tesouros, postou-se igual se havia postado quando jogou a bola de gude fora. Depois pegou outra bola do bolso e atirou-a de maneira análoga, dizendo:

– Irmão, vá procurar seu irmão!

Ele assistiu o trajeto da bola e depois correu para o lugar. Mas ou o impulso foi fraco ou forte demais. Ele ainda tentou seu plano mais duas vezes. A última repetição, quem diria, deu resultado. As duas bolas de gude estavam a cerca de 30 centímetros uma da outra.”

– Quem és tu que ousas falar em tal linguagem?

– Eu, tu perguntas! Eu sou Robin Hood, como tua carcaça verminosa logo há de atestar!

– Ó, então és aquele famoso fora-da-lei? Com muita satisfação disputarei contigo quem manda nesses bosques! Em guarda!

Ambos sacaram suas espadas de ripa, largaram seus trapos no chão e começaram uma disputa de esgrima ferrenha, pé ante pé, com cautela e seriedade, em uma melhor de três. Tom disse:

  • Vamos ver do que és feito! Mais ímpeto!

Eles realmente injetaram mais ímpeto, pintando o sete e transpirando muito. De quando em vez Tom gritava coisas como:

  • Cai! Cai! Por que não cais?

  • Não devo, não posso! Por que não cais tu?! Irás te arrepender!

  • Ora, isso nada é! Não sou homem de cair. Não é o que está escrito no livro. O livro diz, ‘Então, com uma só estocada por trás, ele matou o infeliz Guy de Guisborne.’ Você agora tem que girar e me deixar acertar suas costas!

Não tinha como disputar a autoridade. Joe se virou, recebeu a pancada e simulou a queda.

  • Agora – disse Joe, se levantando – você tem que deixar eu matar você. Mais que justo!

  • Ué, não posso, não tá no livro!

  • Isso é muita sacanagem! Pra mim chega.”

Os garotos se vestiram, esconderam seus equipamentos e foram embora, lamentando-se de não haver mais bandidos, se perguntando o que a civilização poderia oferecer em troca por tamanha perda. E cada um dizia que preferia mil vezes ser um fora-da-lei por um ano Na Floresta Sherwood que ser Presidente dos Estados Unidos para sempre.”

NONO CAPÍTULO

Ele ficou feliz, porque o tempo cessou e a eternidade começou. Ele foi caindo no sono a despeito do esforço. O relógio bateu onze vezes, mas Tom não escutou.”

Huckleberry Finn estava ali, acompanhado de seu gato morto. Os dois se moveram e desapareceram no imenso breu. Depois de meia hora já avançavam pela grama alta do cemitério.”

– Eu não sabia o que fazia. Eu quero morrer nesse minuto se eu sabia. Era culpa do uísque e da empolgação, eu acho. Nunca usei uma arma na vida, Joe. Sempre briguei, é claro, mas nunca armado. Todos sabem disso. Joe, não abre o bico! Por favor, Joe – você é um bom sujeito! Sempre gostei de você joe, sempre ‘tive do seu lado, e você do meu, é claro. Não lembra? Você não vai contar, vai, Joe?

E a pobre criatura se pôs de joelhos diante do apático assassino, e juntou suas bonitas mãos.

– Não, você sempre foi honesto e direito comigo, Muff Potter, nunca vou dedurar você. É isso o mais justo que um homem pode ser, concorda?

– Joe, você é um anjo. Eu vou sempre lembrar até o fim da vida que você é o cara e me salvou.

E Potter começou a chorar.

– Vamos, vamos, não precisa disso. E nem é hora dessas coisas. Nada de abrir o berreiro aqui. Você sai por um lado, eu por outro – vai logo, e não deixa nenhuma pegada.

Potter foi num trote que logo se converteu numa corrida desabalada. O mestiço ficou olhando ele se distanciar.

DÉCIMO CAPÍTULO

Huck Finn e Tom Sawyer juram que não vão contar nada pra mãe sobre

Isso e

Eles desejam que

Eles vão

Cair mortos

De cara no chão

Na hora

Se

Eles

Contarem

E vão apodrecer pra sempre.

Huckleberry estava repleto de admiração diante da facilidade de Tom para escrever, e da sublimidade de sua linguagem.”

– Eu conheço essa voz, é Bull Harbison.(*)

(*) Nota do Autor: Se o Senhor Harbison tivesse um escravo chamado Bull, ele diria simplesmente dele como Bull do Harbison, mas um filho ou cachorro era um nome próprio e completo, nada mais, nada menos que Bull Harbison.

– Ué, isso é bom. Tom, eu estava morrendo de medo. Eu podia apostar que era um cachorro vadio!

O cachorro voltou a uivar. Os corações dos garotos pareciam querer parar novamente.

– Não, esse não é Bull Harbinson! – sussurrou Huckleberry. – …Tom?!

Tom, tremendo de pavor, sucumbium e fitou a rachadura. Seu sussuro ira quase inaudível:

– Ai, Huck, é um cachorro vadio!

– Rápido, Tom, rápido! Quem ele quer?

– Huck, acho que ele quer nós dois. A gente tá junto!

– Ué, Tom, acho que agora tamos fudidos. Eu acho que eu sei muito bem pr’onde tô indo! Eu fui muito malvado.

– Merda! Tudo isso é por ficar matando aula e fazer tudo que as pessoas boas falavam não faz isso, não faz!. Eu podia ser bom, como o Sid, se eu tivesse tentado. Mas não, eu não ia tentar ser, é óbvio. Mas se por um milagre eu escapar… Eu juro, eu juro que vou virar uma pedra na missa de domingo!”

Tom não chegou a chorar, mas fungou.

Você mau!! – Huckleberry começou a fungar também. – Vamo’ entrar de acordo, Tom Sawyer, você é fichinha, um nabo do que eu sou! Não passa nem raspando! Seu pior lado é melhor que meu lado mais bom! Ai, Jesus, Jesus, Jesusinho… Se eu tivesse metade das suas chances…

Tom engasgou e disse:

– Olha, Hucky, olha! Ele ficou des costas pra gente!

Hucky de fato olhou, e não sem estar prenho de alegria!

– Pelo pajé! Ele tá des costas! Ele ‘tav’assim?

– ‘Tava, mas eu ‘tava tão tonto que não pensei. Isso é uma peça… o tinhoso faz enigma… Agora quem você acha que ele tá atrás?

O uivo parou. Tom tapou as orelhas.”

– Fala, Tom… Dizem que um cachorro vadio veio uivando perto da casa do Johnny Miller, lá pra meia-noite, umas duas semanas atrás! E um noitibó pousou no corrimão e começou a cantar, nessa mesma noite! E ninguém morreu por lá até hoje!

– Ora, eu sabia dessa. E suponho que não morreu. Gracie Miller não caiu na cozinha e se queimou feio no fogo, logo no próximo sábado?

– Sim, sim, mas ela não morreu. E pior, ela tá melhorando da queimadura.

– ‘Tá tudo bem, mas você espera e verá. Ela tá marcada pra ir, tão finada quanto o Muff Potter! É o que os pretos dizem, e eles sabem mais dessas coisas, Huck!

Então eles se separaram, sem deixar, cada qual, de cogitar.”

Ele chorou, pediu perdão, prometeu se endireitar de novo e de novo, depois disse que podia ir embora, sentindo que vencera na argumentação, mas não de modo perfeito: estava com um mínimo de confiança.

A verdade é que ele saiu de lá tão miserável que nem teve vontade de se vingar de Sid. Era debalde, portanto, que Sid tinha empreendido a fuga pelo portão traseiro. Ele se arrastou absolutamente arrasado até a escola, e recebeu o costumeiro açoite, com Joe Harper, por matar aula no dia anterior. Mas sua mente não estava no castigo em momento algum. Na verdade, seu coração: ele tinha coisas mais pesadas que suportar. Nenhuma dessas bagatelas lhe suscetibilizava as veias.”

DÉCIMO PRIMEIRO CAPÍTULO

Não era nem meio-dia e a vila inteira já estava eletrizada com as péssimas notícias. Ninguém precisava de nenhum telegrama doutra parte. Não, não havia telegramas ainda na vila! Mas a estória foi de pé de ouvido em pé de ouvido, de bípede para bípede, como costumava ser. De grupo em grupo, de casa em casa, com pouco menos do que a velocidade miraculosa dos cabos e feixes elétricos. O diretor declarou que após as doze seria feriado. Seria muito estranho que o não fizesse.

Uma faca suja foi encontrada perto do cadáver, e testemunhas declararam reconhecê-la como pertencendo a Muff Potter (…) também foi espalhado por aí que a cidade foi saqueada por esse ‘assassino’ (o povo nunca é devagar quando o assunto é eleger evidências e chegar a vereditos definitivos), porém ele não pôde ser encontrado.”

Toda a cidade estava em procissão ao cemitério. Tom não sentia mais seu coração pesado, e se juntou à procissão, e não porque ele preferiria mil vezes estar em qualquer outro lugar, mas porque uma fascinação indescritível e assustadora o puxava.”

Sid disse:

– Tom, você se mexe e fala tanto no seu sono que não consigo dormir metade do tempo.

Tom ficou pálido e baixou os olhos.

– É um mau sinal – atalhou tia Polly, com severidade. – O que é que você tem na cabeça, Tom?

– Nada. Nada qu’eu saiba. – E no entanto a mão do garoto tremeu a ponto de derramar o café.

– E você fala cada coisa! – Sid continuou. – De madrugada você disse: É sangue, é sangue, é o que é!… Você não parou de repetir isso. E você disse também: Pára de me atormentar, eu vou contar! Contar o quê? O que é que você vai contar?

Tudo dançava diante de Tom. Não tinha como adivinhar o que iria acontecer mas, por sorte, tia Polly deixou de ligar muito para o estado de Tom e sem saber ela foi um tranqüilizante para ele. Indagou:

– Xi! É esse maldito assassinato… Eu mesma sonho com isso toda noite. Às vezes até sonho que sou eu a assassina.

Mary disse que ela se sentia do mesmo jeito, ficou muito afetada. Sid pareceu satisfeito. O fato é que Tom se afastou de todas as testemunhas de sua sofreguidão o mais rápido que pôde. Depois disso ele ainda reclamaria de dor de dente uma semana inteira. Toda noite ele amarraria um lenço em sua mandíbula. Vai saber se Sid não estava à espreita do corpo adormecido de Tom! E é o que ele fazia, e ele ainda removia a bandagem e ficava a escutar os murmúrios de Tom, captando cada sílaba discernível. Ele fazia de modo que quando Tom acordava não podia suspeitar de que a bandagem fôra desamarrada e amarrada de novo. Mas o pesar e a intranqüilidade notívaga de Tom foram reduzindo a cada dia e a estória da dor de dente já não convencia mais ninguém, nem fazia sentido para ele, e foi deixada de lado.”

DÉCIMO SEGUNDO CAPÍTULO

Ele não queria mais saber de guerra, nem de ser pirata.”

Ela acreditava em tudo que se publicava nesses jornais sobre “medicina”, e comprava qualquer teoria frenológica. A ignorância solene daquelas páginas era seu oxigênio. Toda esse besteirol sobre ventilação, e como dever-se-ia ir para a cama, e como acordar melhor, o que comer, o que beber, quanto se exercitar, qual postura mental conservar durante o dia, que roupa vestir, tudo era palavra sagrada para ela. Ainda assim, ela era incapaz de observar que todas as recomendações do número atual não faziam senão contradizer todas as indicações do número anterior. Ela era tão simples de coração e confiada como o dia era longo; a vítima perfeita. Ela reunia seus periódicos medicinais de charlatania e seus remédios-engodo e, armada para a guerra, cavalgava seu cavalo de batalha espectral, com ‘o inferno atrás’. Mas o que ela não podia suspeitar é que estava longe de ser um anjo que curava e o bálsamo de Gileade reencarnado, verdadeira bênção da vizinhança.”

Tom, de forma anti-natural, foi ficando mais e mais melancólico, lívido, deprimido, enfim. Ela acrescentava banhos quentes, banhos sentado, banhos de ducha, e até imersões. O garoto continuava tão lúgubre quanto um ataúde. Ela começou a receitar, junto com tudo que continha água na higiene, farinha de aveia fina à dieta do garoto, sem falar em bandagens em pontos ‘vitais’ das articulações. Para ela, era como calcular quantos miligramas ou mililitros de algo iam para a panela – o garoto era sua cobaia de placebos que ninguém sabia placebos.”

– Eu nunca vi nada igual. O que pode ter feito esse gato ficar assim?

– Eu sei lá, tia Polly. Gatos gostam de pregar peças em humanos.”

– Pois então, senhor, por que raios você faria uma coisa dessas com uma pobre criatura incapaz de se defender, pode-se saber?

– Foi por pena – porque ele não tem nenhuma tia.

– Não tem nenhuma tia! – seu paspalho. O que é que tem a ver isso?

– Pra caramba! Porque se ele tivesse uma ela é que queimaria ele! Ela ia fritar as tripas dele com a mesma maldade dm homem!”

Tom chegou à escola com tempo de sobra. Aliás, foi logo notado que esse acontecimento extraordinário vinha se repetindo todos os dias. E agora ele ficava ali perto do portão do parquinho em vez de jogando com seus camaradas. Ele estava doente, ele dizia, e parecia estar.”

DÉCIMO TERCEIRO CAPÍTULO

Joe opinava que podia-se viver como ermitão, nos recessos profundos da caverna mais remota; e daí que se morresse em poucos anos de frio, fome, solidão? Depois de ouvir Tom, porém, ele percebeu que havia vantagens conspícuas numa vida dedicada ao crime, então consentiu em se tornar pirata.”

Quem seriam as vítimas de suas piratarias ainda não era um problema na cabeça dos garotos. Foram atrás de Huckleberry Finn, que aderiu de pronto, porque para ele tudo era indiferente. Eles se separaram, combinando de se reencontrar na margem do rio duas milhas acima da vila, na melhor hora – meia-noite.”

– Quem é?

– Tom Sawyer, o Sombrio Vingador da Marinha Espanhola. Digam seus nomes.

– Huck Finn, o Mão-Rubra, e Joe Harper, o Terror dos Mares.

Tom é que havia concebido esses títulos, das estórias de pirata que conhecia.

– Tá bom. Hey! Dêem a contrasenha.

Dois ásperos sussurros entregaram as mesmas sílabas malditas simultaneamente, ecoando na noite escura:

San-gue!

O Sombrio Vingador seguia imóvel, de braços cruzados, “pensando pela última vez” nas cenas de sua felicidade pregressa, e também seus sofrimentos recentes, e desejando que “ela” pudesse vê-lo agora, longe, em alto-mar, encarando o perigo e a morte de coração aberto, dirigindo-se à destruição com um sorriso cruel nos lábios.”

Aproximadamente às duas da madrugada a jangada ancorou na barreira 200 metros acima da cabeça da ilha, e ela ficou a balançar de um lado pro outro até a toda a carga fosse desembarcada.”

– A verdade é que um pirata não faz nada, Joe, quando ele está em terra. Mas um ermitão fica rezando toda hora, e nunca se diverte, é um solitário.

– É, é assim mesmo – disse Joe. – mas eu nunca pensei a sério sobre isso, sabe? Eu preferia mesmo é ser pirata, agora que sei como é.

– A verdade é que as pessoas não falam dos ermitões, hoje, igual falavam. Mas um pirata… um pirata é sempre respeitado! E um ermitão tem que dormir nos lugares mais duros, e pôr andrajos e cinzas na cabeça, e ficar parado na chuva e—

– Mas pra que colocar andrajos e cinzas na cabeça? – perguntou de repente Huck.

– Eu sei-lá! Mas eles têm que fazer isso! Ermitões têm que fazer essas coisas. Não dá pra ser ermitão e não fazer essas coisas.

– A merda que eu ia fazer! – respondeu Huck.

– Ué, o que você ia fazer?

– Eu sei-lá! Mas eu não ia fazer essa porra!

– Mas Huck, você ia ter que fazer. Como você ia se safar?

– Uai, só não ia agüentar. Sairia pro mundo, fugiria.

– Fugir! Ora, você ia ser um bom dum ermitão de araque! Uma desgraça dos ermitões!”

Mas os outros garotos lhe disseram que as roupas boas viriam logo, assim que começassem a saquear. Fizeram-no entender que sua roupa de maltrapilho já eram o bastante pra começar, se bem que piratas mais ricos já se lançavam aos mares com o vestuário adequado.”

Eles começaram a pressentir que fizeram mal em fugir assim. Logo pensaram na carne roubada, e a tortura de verdade começou. Eles começaram a lembrar de quantas maçãs e guloseimas já não tinham roubado antes. Mas veja, a consciência e a memória não se alimentam sem a comida real.”

Eles então concordaram que enquanto continuassem no ramo o negócio da pirataria não seria manchado pelo do roubo. Aí sim a consciência deu uma trégua, e esses curiosamente inconsistentes piratas conseguiram cair no sono dos justos.”

DÉCIMO QUARTO CAPÍTULO

“‘Besourinha, besourinha, voe logo para casa, sua casa está em chamas, seus filhos sozinhos’, e então a besouro-fêmea estendeu as asas e saiu voando, o que em nada não surpreendeu o garoto”

Eles não sabiam que quão mais rápido um peixe de água fresca é assado após a pesca melhor fica. E também não pensaram muito sobre como dormir ao relento, passar o dia em atividades silvícolas, banhos de rio e tudo o mais agiam como excelentes temperos para qualquer comida.”

Mesmo Finn, o Mão-Rubra, já sonhava com o alpendre de sua casa e sua coleção de tambores vazios. Mas cada qual se envergonhava de sua fraqueza, e ninguém era valente o bastante para emitir o que pensava.”

Subitamente uma aura de heroísmo os revestia. Um tremendo triunfo. Estavam perdidos. Estavam sendo lamentados no vilarejo. Corações se rompiam por causa deles, ou da ausência deles. Lágrimas jorravam, denunciando culpas reprimidas perante esses pobres garotos finalmente aparecendo à luz do dia, desvelando arrependimentos e remorso. E o melhor de tudo: não podia haver outro assunto na cidade inteira, e os outros garotos sentiriam inveja, tanto quanto uma notoriedade tão macabra pudesse ser invejada. Tudo isso estava ótimo. Valia a pena ser pirata, afinal.”

DÉCIMO QUINTO CAPÍTULO

Sid! – Tom sentiu o olhar da velha sobre si, mesmo que não pudesse vê-la. – Nenhuma palavra contra o meu Tom, agora que ele se foi! Deus vai tomar conta dele – jamais se preocupe com essas coisas, senhor! Ah, senhora Harper, eu não sei como fazer isso passar! Eu não consigo fazer passar! Ele era tão querido pra mim, mesmo atormentando meu coração e quase botando meus bofes pra fora!

– O Senhor dá e o Senhor tira – Abençoado seja o nome do Senhor! Mas é muito duro – Ah, como é duro! No último sábado meu Joe estourou uma bombinha bem debaixo do meu nariz e eu dei-lhe um bofetão que deixou ele no chão. Se eu soubesse que logo mais… Ah, se eu pudesse voltar no tempo eu teria dado um abraço no meu Joe e dado as bênçãos pelo que ele fez!”

DÉCIMO SEXTO CAPÍTULO

Uma dificuldade se apresentava: índios hostis não podiam entrar em guerra sem primeiro fazer as pazes, e isso não era concebível sem fumar um cachimbo da paz. Não havia nenhum outro processo do qual eles tivessem ouvido falar. Dois dos selvagens quase desejaram em voz alta naquele momento não ter deixado de ser piratas. Mas, as coisas como eram, não havia outro jeito. Fingindo estar à vontade como melhor podiam, providenciaram o cachimbo e passaram de mão em mão, cada qual dando sua baforada, na forma estabelecida.

E finalmente os garotos estavam gratos de terem se tornado selvagens, porque tinham ganho algo: podiam dar umas baforadas sem ter de passar o tempo procurando uma faca perdida. Não estavam fora de si o bastante para se sentirem aporrinhados de verdade. Não queriam jogar essa oportunidade única fora por falta de esforço. Não, eles praticaram cautelosamente, depois da refeição, com êxito razoável, e passaram uma tarde esplêndida. Sentiam-se mais orgulhosos e contentes em suas novas posições do que se estivessem de fato no escalpo e na pele das Seis Nações.¹”

¹ As tribos nativas norte-americanas Mohawks, Oneidas, Onandagas, Cayugas, Senecas (todos somados eram os iroqueses) e os Tuscaroras, inimigos daqueles.

DÉCIMO SÉTIMO CAPÍTULO

Houve então uma disputa para determinar quem vira os meninos mortos por último, e cada um puxava a lúgubre façanha para si, e fornecia até provas, mais ou menos adulterada pela testemunha. E quando finalmente ficou estabelecido quem afinal viu os meninos mortos por último, e quem foi o último a trocar palavras com eles, os partidos eleitos ganharam uma espécie de aura, e foram objeto da estupefação e inveja de todo o resto. Um pobre rapaz, sem muito de que se gabar, disse com orgulho se lembrar de que ‘Tom Sawyer me deu uma sova certa vez’.

Mas essa tentativa de ter uma recordação venerável foi por água abaixo. Maioria dos garotos da vila podia dizer o mesmo, o que nivelava a distinção.”

Um hino enternecedor foi cantado, e assim dizia a letra: ‘Eu sou a Ressurreição e a Vida’.

À medida que o serviço funerário prosseguiu, o pároco, pintando uma tal figura e uma tal imagem dos garotas perdidos, dessas promessas abortadas, da rareza de cada alma do bando, passou a acreditar na própria imagem que construía e foi abatido pelo remorso de, durante suas vidas, não ter-lhes dado o devido crédito, tendo olhos apenas para seus pecados e falhas. O ministro relatou ainda uma anedota para quase cada garoto da comitiva, que demonstrava suas naturezas doces e generosas, e para as pessoas se tornou mais fácil enxergar quão nobres e edificantes eram genuinamente tais episódios, mas a memória de que no passado tais momentos tivessem se assemelhado a velhacarias e torpezas das grandes só tornava o presente mais amargo e difícil de conciliar. A congregação se sensibilizava mais e mais pela vida das pobres criaturas, que antes só recebiam desconfiança e o jugo do chicote. As carpideiras não foram portanto as únicas a chorar no enterro. Mesmo o pastor não se conteve e se desmanchou sobre o púlpito.

Houve um farfalhar na galeria, não notado por ninguém. Um momento depois a porta da igreja rangeu, o ministro ergueu seus olhos úmidos para enxergar por sobre o lenço e pôs-se transfixo! Primeiro um par de olhos, depois dois, depois mais, seguiram o gesto do ministro. Como que fundida num só organismo, a congregação ergueu-se e fitou três garotos mortos caminhando pela nave, Tom na frente, Joe a seguir, Huck por último, todos em absolutos farrapos, mas Huck pior que os outros dois! Eles tinham se escondido na galeria abandonada durante todo o sermão!

Tia Polly, Mary e os Harpers se jogaram para abraçar seus restaurados ao reino dos vivos, cobriram-nos de beijos e deram as graças aos céus, enquanto o pobre Huck seguia cabisbaixo e pouco à vontade, sem saber o que fazer ou onde se esconder de tantos olhares perscrutantes.”

– Tia Polly, não é justo. Alguém tem de estar feliz por ver o Huck.

– E tem mesmo. Eu estou feliz por ver ele, pobre coisa órfã!

E a atenção amorosa que a tia Polly prestou a Huck foi justamente a única coisa capaz de deixar o menino ainda mais embaraçado do que já estava.

De repente o ministro gritou com todo o ímpeto de sua voz:

– Louvai a Deus por todas as bênçãos que Ele derrama – cantai! – e ponde todos os vossos corações nisto!”

Tom Sawyer o Pirata olhou ao redor entre todos os garotos cheios de inveja e confessou diante de seu coração que esse era o momento de sua vida que lhe dava mais orgulho.”

Tom recebeu mais abraços e beijos aquele dia – baseado nos humores de tia Polly – do que em todo o ano anterior. E ele tinha dificuldade em saber se o que eles mais expressavam era agradecimento ao bom Deus ou afeição pelo pequeno.”

DÉCIMO OITAVO CAPÍTULO

Esse era o grande segredo de Tom – o plano para regressar ao lar com seus irmãos-piratas e assistir seus próprios funerais.”

Tia Polly e Mary foram muito amáveis com Tom, e muito atentas a suas necessidades. Havia uma quantidade infreqüente de conversa. No decurso de uma delas tia Polly disse:

– Sabe, não digo que não tenha sido uma ótima piada, Tom, deixar todo mundo sofrendo bas’camente uma semana pra vocês garotos ficarem no bem-bom. Mas é uma pena que você pudesse ter o coração tão duro a ponto de fazer essa piada justo comigo. Se você podia vir num tronco para ver seu funeral, creio que podia ter vindo me ver só para me dar uma pista de que não estava morto de verdade.

– É, você podia, Tom – disse Mary – e eu acho que você teria se tivesse pensado nisso.

– Teria, Tom? – perguntou tia Polly, sua face reluzindo melancolicamente – Teria, se tivesse pensado nisso?

– Eu… não sei. Teria estragado tudo.

– Tom, eu esperava que você me amasse desse tanto. – respondeu tia Polly num tom enlutado que desconcertou o garoto – Já seria algo se você se importasse o bastante para pensar a respeito, mesmo que não fizesse.”

– Sid teria pensado. E aliás Sid teria pensado e vindo fazer. Tom, você vai olhar pra trás um dia, quando for muito tarde, e vai querer ter se importado um pouquinho mais comigo, quando não custava absolutamente nada!

– Não é nada de mais. Um gato seria capaz de sonhar com alguém. Mas é melhor que nada, eu acho. Com o que você sonhou?

– Quarta-feira à noite sonhei que você estava sentada ali do lado da cama, e Sid sentado perto da caixa de lenha, e Mary perto dele.

– Aconteceu isso mesmo. Acontece sempre. Fico feliz que seu sonho tenha se preocupado em nos mostrar como somos de verdade.

– Sonhei também que a mãe do Joe Harper estava aqui.

– Ué, ela tava aqui! Você sonhou algo mais?

– Ah, muita coisa. Mas já esqueci quase tudo agora.

– Tente se lembrar; não consegue?

– De algum jeito acho que o vento – o vento soprou a – a

– Tente com mais ímpeto, Tom! O vento realmente soprou alguma coisa. Vamos!

Tom apertou os dedos em sua testa por um ansioso minuto e então pronunciou:

– Lembrei! Lembrei! O vento apagou a vela!

– Misericórdia de nós! Continue, Tom, continue!

– E se não me engano nesse momento você falou: “Ué, eu acho que aquela porta—”

– Prossiga, Tom!

– Deixa eu pensar um pouco. Só um momento. Ah sim, você disse que acreditava que a porta estava aberta.

– Assim como estava sentada aqui, eu fiz isso! Não fiz, Mary? Continue!

– E depois… e depois… Não tem como ter certeza, mas era como se você mandasse o Sid conferir e… e…

– E então, e então?!? O que eu fiz o Sid fazer, Tom? O quê, o quê?

– Você fez ele… você… Ah, você mandou ele fechar a porta!

– Pela nossa terra santa! Eu nunca ouvi uma coisa assim em toda a minha vida! Não me diga que não existe nada nos sonhos… Sereny Harper tem que saber disso antes que eu seja uma hora mais velha. Quero só ver ela desmerecer esse sonho com aquele papinho anti-superstição. Que mais, Tom?

– Ah, tudo tá mais claro como o dia agora. Depois você disse que eu não era ruim, só muito malcriado e bicho-do-mato, e de modo algum mais responsável que… que… eu acho que você disse que um potro ou coisa assim.

– E foi isso mesmo! Deus é o maior! Continue, Tom!

– E depois você começou a chorar.

– E foi isso mesmo. Foi isso mesmo que eu fiz. Não a primeira vez. E depois…

– Depois a senhora Harper também começou a chorar e disse que o Joe era igual, e desejou que ela não tivesse chicoteado ele por pegar o creme que ela mesma tinha vomitado…

– Tom! O períspirito estava sobre você! Você estava profetizando – é o que você estava fazendo! Ó terra bendita do Senhor, continue, continue, Tom!

– Então o Sid disse… disse…

– Eu acho que eu não falei nada, não – interpolou Sid.

– Sim, você disse, Sid – atalhou Mary.

– Aquietem suas cabeças e deixem o Tom falar. O que foi que ele disse, Tom?

– Ele disse – eu acho que ele disse que esperava que eu ‘tivesse melhor pr’onde eu tinha ido, mas que se eu tivesse sido melhor algumas vezes…

É isso, você escutou isso?!? Foram essas mesmas as suas palavras!

– E você calou a boca dele de modo ríspido.

– Eu calei sim! Acho que foi um anjo que me auxiliou. Tinha um anjo lá, nalgum lugar!

– E a senhora Harper contou do Joe assustando ela com uma bombinha, e você falou de Pedro e do calmante…

– Tão genuíno quanto eu estar viva!

– E acho que depois falaram sobre drenar o rio pra procurar a gente, e sobre o funeral ser domingo, e depois você e irmã Harper mais velha se abraçaram e choraram, e elas foram embora.

– Aconteceu assim mesmo! Assim tintim por tintim, tão certo como eu estar sentada aqui com essas pernas! Tom, você não podia contar com mais precisura nem que ‘tivesse aqui na hora! E depois o quê? Desembucha, Tom!

– Acho que você rezou pra mim – e eu podia ver você e ouvir cada palavra que você disse. Você foi pra cama, e eu fiquei com tanta pena que escrevi num pedaço de casca de sicômoro “Não morremos… A gente só deu um tempo sendo piratas”. E deixei na mesa do lado da vela. E depois você parecia tão em paz dormindo… acho que eu fui e me inclinei e te dei um beijo nos lábios.

– Você fez isso, Tom? Fez isso? Eu te desculpo por tudo por esse gesto! E ela prendeu o garoto num abraço tão apertado que fê-lo se sentir o pior dos vilões.

– Muito bonito, Tom, mesmo sendo só um sonho – Sid, soliloquando, deixou-se ouvir.

Que herói não tinha se tornado Tom! E ele não andava mais saltitando e empinando o nariz, como antes, mas numa postura digna, não sem molejo, como a de um pirata que sabe que é alvo das atenções. Ele tentava não transparecer que reparava nos olhares ou escutava os comentários que despertava ao passar, mas eles eram como manjares para Tom. Os garotos mais novos que ele se apinhavam em seus tornozelos, orgulhosos por estarem por perto e por serem tolerados por Tom tanto quanto alguém se junta à bateria à cabeça duma procissão ou sobe ao elefante que capitaneia a caravana à cidade. Garotos da sua idade tentavam fingir que ele nunca esteve ausente da vila, mas a verdade é que estavam corroídos de inveja. Dariam tudo pela mesma pele bronzeada de Tom, ou sua reluzente notoriedade súbita. E Tom agradecia o fato de ter tantos puxa-sacos, não desejando o fim do espetáculo, que ele achava inclusive mais divertido que a chegada de um circo.

Nessas circunstâncias, seria estranho que o silêncio de Joe e Tom perdurasse por mais tempo. E então eles cederam e começaram a desabafar e aumentar suas histórias. Foi o acme da glória.

Tom decidiu que estava oficialmente em condições de declarar a independência em relação a Becky Thatcher agora. Bastava-lhe a glória não-amorosa. Agora tão distinguido por suas façanhas, quem sabe ela é que não se arrastasse atrás dele desejando ‘fazer as pazes’. Que ela tentasse, pois ele bancaria o perfeito indiferente. E chegou o dia em que ela apareceu em seu campo de visão. Tom fingiu que não a viu. Ele se moveu e se juntou a um grupo de garotas e garotos, puxando conversa. E ele percebeu que ela tentava capturar sua atenção, com o rosto vermelho e se movendo com graça e alegria para trás e para diante, o olhar nunca parado. Mas ela queria dar a impressão que na verdade estava atrás de outros garotos, ou sempre ocupada com alguém, para despertar-lhe ciúmes. E constantemente ela gargalhava alto para demonstrar que não estava carente de nada. Tom não era tolo e percebeu que ela sempre agia do modo mais eufórico bem perto dele, o que era suspeito. Toda a vaidade viciada de Tom se alimentava dessa atitude de Becky. Portanto, a tática da garota ia mal, e Tom só aumentava seu distanciamento e presunção. Becky se deu conta eventualmente e acabou desistindo. Ela notou que Tom se aproximara de Amy Lawrence mais que de qualquer outra pessoa em particular. Ela não conseguiu conter o desconforto. Mesmo tentando sair de cena, o fato era que seus pés tinham-na fincado no chão, e ela se sentia imobilizada. Ela disse a uma garota, praticamente às costas de Tom, com vivacidade simulada:

– Ora, Mary Austin! Marota, por que não apareceu no domingo?

– Mas eu vim; você não me viu?

– Ora, de modo algum. Você veio mesmo? Onde você sentou?

– Na sala da senhora Peters, como sempre. Inclusive, eu te vi.

– Você me viu? Ora, que engraçado, porque não te notei. Eu queria te falar do piquenique.

– Ah, que legal! Quem vai dar?

– Minha mãe vai dar um piquenique.”

– Ai, maravilha, espero que ela deixe eu participar!

– Vai sim! O piquenique é pra mim mesmo. Ela vai deixar qualquer um que eu queira, e quero que você apareça.

– Muito obrigada pela gentileza. E quando vai ser?

– Hm, acho que perto do período de férias.

– Vai ser muito divertido! Você vai chamar todos os garotos e garotas?

– Sim, todo mundo que é meu amigo – ou que queira ser. – Então ela olhou em direção de Tom, furtivamente, mas continuou falando com Amy Laurence sobre a terrível tempestade na ilha e como um relâmpago deixou o grande sicômoro em pedaços, caindo a um metro dele.

– Ei, posso ir? – disse Grace Miller.

– Sim.

– E eu? – essa foi Sally Rogers.

– Sim.

– Eu também? – Susy Harper dessa vez. – Com o Joe?

– Podem.

E essa cena continuou, cheio de bater de palmas, até que todo o grupo tinha, indivíduo após indivíduo pedido sua permissão, exceto Tom e Amy. Tom se virou e afastou com cálculo, ainda conversando, puxando Amy consigo. Os lábios de Becky tremeram e seus olhos umedeceram.”

Os ciúmes borbulharam no sangue de Tom. Ele começou a se odiar por jogar fora a chance de reconciliação que Becky lhe oferecera.”

ela sabia que estava ganhando a guerra, e estava contente por vê-lo sofrer enquanto ela mesma sofria.”

– Qualquer outro garoto! – Tom pensou, rangendo os dentes. – Qualquer outro da cidade, menos aquele espertinho de Saint Louis que acha que se veste como um dândi e que é aristocracia! Muito bem, eu te dei uma sova a primeira vez que você pisou nessa cidade, senhor, e vou te dar outra sova! Espere pelo seu! Só espere! Eu só vou—

E ele acompanhou a ameaça mental pelos gestos físicos de espancar um garoto invisível.

Becky continuou seu teatro com Alfred, mas como os minutos fossem passando e um Tom amargurado e mordido pelos ciúmes não apareceu sua vitória parecia agora um céu feio e cinzento, e ela foi perdendo o interesse. Ela foi ficando sisuda e distraída, logo depois melancólica. Duas ou três vezes ela focou a audição ao ouvir passos, mas eram falsos alarmes. Tom não veio. Ela por fim se arrependeu de levar sua provocação tão longe.”

DÉCIMO NONO CAPÍTULO

– Auntie, I know now it was mean, but I didn’t mean to be mean. I didn’t, honest. And besides, I didn’t come over here to laugh at you that night.

– What did you come for, then?

– It was to tell you not to be uneasy about us, because we hadn’t got drowned.”

VIGÉSIMO CAPÍTULO

– What a curious kind of a fool a girl is! Never been licked in school! Shucks! What’s a licking! That’s just like a girl – they’re so thin-skinned and chicken-hearted. Well, of course I ain’t going to tell old Dobbins on this little fool, because there’s other ways of getting even on her, that ain’t so mean; but what of it? Old Dobbins will ask who it was tore his book. (…) Girls’ faces always tell on them. They ain’t got any backbone. She’ll get licked. Well, it’s a kind of a tight place for Becky Thatcher, because there ain’t any way out of it.”

VIGÉSIMO PRIMEIRO CAPÍTULO

There is no school in all our land where the young ladies do not feel obliged to close their compositions with a sermon; and you will find that the sermon of the most frivolous and the least religious girl in the school is always the longest and the most relentlessly pious. But enough of this. Homely truth is unpalatable.”

VIGÉSIMO SEGUNDO CAPÍTULO

to promise not to do a thing is the surest way in the world to make a body want to go and do that very thing. Tom soon found himself tormented with a desire to drink and swear”

The dreadful secret of the murder was a chronic misery. It was a very cancer for permanency and pain.

Then came the measles. [catapora ou sarampo?]

During 2 long weeks Tom lay a prisoner, dead to the world and its happenings. He was very ill, he was interested in nothing. When he got upon his feet at last and moved feebly downtown, a melancholy change had come over everything and every creature. There had been a ‘revival’, and everybody had ‘got religion’, not only the adults, but even the boys and girls. Tom went about, hoping against hope for the sight of one blessed sinful face, but disappointment crossed him everywhere. He found Joe Harper studying a Testament, and turned sadly away from the depressing spectacle. He sought Ben Rogers, and found him visiting the poor with a basket of tracts. He hunted up Jim Hollis, who called his attention to the precious blessing of his late measles as a warning. Every boy he encountered added another ton to his depression; and when, in desperation, he flew for refuge at last to the bosom of Huckleberry Finn and was received with a Scriptural quotation, his heart broke and he crept home and to bed realizing that he alone of all the town was lost, forever and forever.

And that night there came on a terrific storm, with driving rain, awful claps of thunder and blinding sheets of lightning. He covered his head with the bedclothes and waited in a horror of suspense for his doom; for he had not the shadow of a doubt that all this hubbub was about him. He believed he had taxed the forbearance of the powers above to the extremity of endurance and that this was the result. It might have seemed to him a waste of pomp and ammunition to kill a bug with a battery of artillery, but there seemed nothing incongruous about the getting up such an expensive thunderstorm as this to knock the turf from under an insect like himself.

By and by the tempest spent itself and died without accomplishing its object. The boy’s first impulse was to be grateful, and reform. His second was to wait – for there might not be any more storms.”

When he got abroad at last he was hardly grateful that he had been spared, remembering how lonely was his estate, how companionless and forlorn he was. He drifted listlessly down the street and found Jim Hollis acting as judge in a juvenile court that was trying a cat for murder, in the presence of her victim, a bird.”

VIGÉSIMO TERCEIRO CAPÍTULO

he did not see how he could be suspected of knowing anything about the murder, but still he could not be comfortable in the midst of this gossip. It kept him in a cold shiver all the time. He took Huck to a lonely place to have a talk with him. It would be some relief to unseal his tongue for a little while; to divide his burden of distress with another sufferer.”

– Why, Tom Sawyer, we wouldn’t be alive 2 days if that got found out. You know that.

(…) After a pause:

– Huck, they couldn’t anybody get you to tell, could they?

– Get me to tell? Why, if I wanted that halfbreed [mestiço] devil to drownd me they could get me to tell. They ain’t no different way.”

– You’ve been mighty good to me, boys – better’n anybody else in this town. And I don’t forget it, I don’t. Often I says to myself, says I, ‘I used to mend all the boys’ kites and things, and show ‘em where the good fishin’ places was, and befriend ‘em what I could, and now they’ve all forgot old Muff when he’s in trouble; but Tom don’t, and Huck don’t – they don’t forget him, says I, ‘and I don’t forget them.’ Well, boys, I done an awful thing – drunk and crazy at the time – that’s the only way I account for it – and now I got to swing for it, and it’s right. Right, and best, too, I reckon – hope so, anyway. Well, we won’t talk about that. I don’t want to make you feel bad; you’ve befriended me. But what I want to say, is, don’t you ever get drunk – then you won’t ever get here. Stand a litter furder west – so – that’s it; it’s a prime comfort to see faces that’s friendly when a body’s in such a muck of trouble, and there don’t none come here but yourn.”

Tom went home miserable, and his dreams that night were full of horrors. The next day and the day after, he hung about the courtroom, drawn by an almost irresistible impulse to go in, but forcing himself to stay out. Huck was having the same experience.”

Counsel for Potter declined to question him. The faces of the audience began to betray annoyance. Did this attorney mean to throw away his client’s life without an effort?”

The perplexity and dissatisfaction of the house expressed itself in murmurs and provoked a reproof from the bench. Counsel for the prosecution now said:

– By the oaths of citizens whose simple word is above suspicion, we have fastened this awful crime, beyond all possibility of question, upon the unhappy prisoner at the bar. We rest our case here.”

-Your honor, in our remarks at the opening of this trial, we foreshadowed our purpose to prove that our client did this fearful deed while under the influence of a blind and irresponsible delirium produced by drink. We have changed our mind. We shall not offer that plea. [Then to the clerk:] Call Thomas Sawyer!

A puzzled amazement awoke in every face in the house, not even excepting Potter’s. Every eye fastened itself with wondering interest upon Tom as he rose and took his place upon the stand. The boy looked wild enough, for he was badly scared. The oath was administered.

– Thomas Sawyer, where were you on the 17th of June, about the hour of midnight?

– Tom glanced at Injun Joe’s [Joe o Mameluco] iron face and his tongue failed him. The audience listened breathless, but the words refused to come. After a few moments, however, the boy got a little of his strength back, and managed to put enough of it into his voice to make part of the house hear:

– In the graveyard!

– A little bit louder, please. Don’t be afraid. You were—

– In the graveyard.

A contemptuous smile flitted across Injun Joe’s face.

– Were you anywhere near Horse Williams’ grave?

– Yes, sir.

– Speak up – just a trifle louder. How near were you?

– Near as I am to you.

– Were you hidden, or not?

– I was hid.

– Where?

– Behind the elms that’s on the edge of the grave.

Injue Joe gave a barely perceptible start.

– Any one with you?

– Yes, sir. I went there with—

– Wait – wait a moment. Never mind mentioning your companion’s name. We will produce him at the proper time. Did you carry anything there with you?

Tom hesitated and looked confused.

– Speak out, my boy – don’t be diffident. The truth is always respectable. What did you take there?

– Only a—a—dead cat.

There was a ripple of mirth, which the court checked.

– We will produce the skeleton of that cat. Now, my boy, tell us everything that occurred – tell it in your own way – don’t skip anything, and don’t be afraid.

The strain upon pent emotion reached its climax when the boy said:

– …and as the doctor fetched the board around and Muff Potter fell, Injun Joe jumped with the knife and—

Crash! Quick as lightning the halfbreed sprang for a window, tore his way through all opposers, and was gone!

VIGÉSIMO QUARTO CAPÍTULO

SIDESHOW BOB’S PRECEDENT!

Tom was a glittering hero once more – the pet of the old, the envy of the young. His name even went into immortal print, for the village paper magnified him. There were some that believed he would be President, yet, if he escaped hanging.

As usual, the fickle, unreasoning world took Muff Potter to its bosom and fondled him as lavishly as it had abused him before. But that sort of conduct is to the world’s credit; therefore it is not well to find fault with it.

Tom’s days were days of splendor and exultation to him, but his nights were seasons of horror. Injun Joe infested all his dreams, and always with doom in his eye.”

Huck’s confidence in the human race was wellnigh obliterated.”

He felt sure he never could draw a safe breath again until that man was dead and he had seen the corpse.

Rewards had been offered, the country had been scoured, but no Injun Joe was found. One of those omniscient and awe-inspiring marvels, a detective, came up from St. Louis, moused around, shook his head, looked wise, and made that sort of astounding success which members of that craft usually achieve. That is to say, he ‘found a clew’. But you can’t hang a ‘clew’ for murder, and so after that detective had got through and gone home, Tom felt just as insecure as he was before.”

VIGÉSIMO QUINTO CAPÍTULO

There comes a time in every rightly-constructed boy’s life when he has a raging desire to go somewhere and dig for hidden treasures.”

Huck was always willing to take a hand in any enterprise that offered entertainment and required no capital, for he had a troublesome superabundance of that sort of time which is not money. ‘Where’ll we dig?” said Huck:

– Oh, most anywhere.

– Why, is it hid all around?

– No, indeed it ain’t. It’s hid in mighty particular places, Huck – sometimes on islands, sometimes in rotten chests under the end of a limb of an old dead tree, just where the shadow falls at midnight; but mostly under the floor in ha’nted houses.

– Who hides it?

– Why, robbers, of course – who’d you reckon? Sunday-school sup’rintendents?

– (…) I wouldn’t hide it; I’d spend it and have a good time.

– So would I. But robbers don’t do that way. They always hide it and leave it there.

– Don’t they come after it any more?

– No, they think they will, but they generally forget the marks, or else they die. Anyway, it lays there a long time and gets rusty; and by and by somebody finds an old yellow paper that tells how to find the marks – a paper that’s got to be ciphered over about a week because it’s mostly signs and hy’roglyphics.

– Hyro–which?

– Hy’rogryplhics – pictures and things, you know, that don’t seem to mean anything.

– Have you got one of them papers, Tom?

– No.

– Well then, how you going to find the marks?

– I don’t want any marks. They always bury it under a ha’nted house or on an island, or under a dead tree that’s got one limb sticking out. Well, we’ve tried Jackson’s Island a little, and we can try it again some time; and there’s the old ha’nted house up the Still-House branch, and there’s lots of dead-limb trees – dead loads of ‘em.

– Is it under all of them?

– How you talk! No!

– Then how you going to know which one to go for?

– Go for all of ‘em!

– Why, Tom, it’ll take all summer.

– Well, what of that? Suppose you find a brass pot with 100 dollars in it, all rusty and gray, or rotten chest full of di’monds. How’s that?

Huck’s eyes glowed.

– That’s bully. Plenty bully enough for me. Just you gimme the hundred dollars and I don’t want no di’monds.”

– Richard? What’s his other name?

– He didn’t have any other name. Kings don’t have any but a given name.

– No?

– But they don’t.

– Well, if they like it, Tom, all right; but I don’t want to be a king and have only just a given name, like a nigger. But say—where you going to dig first?”

– Well, I’ll have pie and a glass of soda every day, and I’ll go to every circus that comes along. I bet I’ll have a gay time.

– Well, ain’t you going to save any of it?

– Save it? What for?

– Why, so as to have something to live on, by and by.

– Oh, that ain’t any use. Pap would come back to thish-yer town some day and get his claws on it if I didn’t hurry up, and I tell you he’d clean it out pretty quick. What you going to do with yourn, Tom?

– I’m going to buy a new drum, and a sure’nough sword, and a red necktie and a bull pup, and get married.

– Married!

– That’s it.

– Tom, you – why, you ain’t in your right mind.

– Wait – you’ll see.

– Well, that’s the foolishest thing you could do. Look at pap and my mother. Fight! Why, they used to fight all the time. I remember, mighty well.

– That ain’t anything. The girl I’m going to marry won’t fight.

– Tom, I reckon they’re all alike. They’ll all comb a body. Now you better think ‘bout this awhile. I tell you you better. What’s the name of the gal?

– It ain’t a gal at all – it’s a girl. [Não é uma garota – é uma moça.]

– It’s all the same, I reckon; some says gal, some says girl – both’s right, like enough. Anyway, what’s her name, Tom?

– I’ll tell you some time – not now.

– All right – that’ll do. Only if you get married I’ll be more lonesomer than ever.

– No you won’t. You’ll come and live with me. Now stir out of this and we’ll go to digging.

They worked and sweated for half an hour. No result. They tolled another half-hour. Still no result. Huck said:

– Do they Always bury it as deep as this?

– Sometimes – not always. Not generally. I reckon we haven’t got the right place.”

– It is mighty curious, Huck. I don’t understand it. Sometimes witches interfere. I reckon maybe that’s what’s the trouble now.

– Shucks! [Putz?] Witches ain’t got no power in the daytime.

– Well, that’s so. I didn’t think of that. Oh, I know what the matter is! What a blamed lot of fools we are! You got to find out where the shadow of the limb falls at midnight, and that’s where you dig!

– Then consound it, we’ve fooled away all this work for nothing. Now hang it all, we got to come back in the night. It’s an awful long way. Can you get out?

– I bet I will. We’ve got to do it tonight, too, because if somebody sees these holes they’ll know in a minute what’s here and they’ll go for it.

– Well, I’ll come around and maow tonight.

– All right. Let’s hide the tools in the bushes.

The boys were there that night, about the appointed time. They sat in the shadow waiting. It was a lonely place, and an hour made solemn by old traditions. Spirits whispered in the rustling leaves, ghosts lurked in the murky nooks, the deep baying of a hound floated up out of the distance, an owl answered with his sepulchral note. The boys were subdued by these solemnities, and talked little. By and by they judged that 12 had come (…) Their interest grew stronger, and their industry kept pace with it. The hole deepened and still deepened, but every time their hearts jumped to hear the pick strike upon something, they only suffered a new disappointment. It was only a stone or a chunk.”

– (…) I feel as if something’s behind me all the time; and I’m afeard to turn around, becuz maybe there’s others in front a-waiting a chance. I been creeping all over, ever since I got here.

– Well, I’ve been pretty much so, too, Huck. They most always put in a dead man when they bury a treasure under a tree, to look out for it.

– Lordy!

– Yes, they do. I’ve always heard that.

– Tom, I don’t like to fool around much where there’s dead people. A body’s bound to get into trouble with ‘em, sure.

– (…) S’pose this one here was to stick his skull out and say something!

– Don’t Tom! It’s awful.;

– Well, it jus tis. Huck, I don’t feel comfortable a bit.

– Say, Tom, let’s give this place up, and try somewhere else.

– All right, I reckon we better.”

– Well, all right. We’ll tackle the ha’nted house if you say so – but I reckon it’s talking chances.”

VIGÉSIMO SEXTO CAPÍTULO

– Lookyhere, Tom, do you know what day it is?

Tom mentally ran over the days of the week, and then quickly lifted his eyes with a startled look in them—

– My! I never once thought of it, Huck!

– Well, I didn’t neither, but all at once it popped onto me that it was Friday.

– Blame it, a body can’t be too careful, Huck. We might ‘a’ got into an awful scrape, tackling such a thing on a Friday.

Might! Better say we would! There’s some lucky days, maybe, but Friday ain’t.

– Any fool knows that. I don’t reckon you was the first that found it out, Huck.

– Well, I never said I was, did I? And Friday ain’t all, neither. I hada rotten bad dream last night – dreamt about rats.

– No! Sure sign of trouble. Did they fight?

– No.

– Well, that’s good, Huck. When they don’t fight it’s only a sign that there’s trouble around, you know. All we got to do is to look mighty sharp and keep out of it. We’ll drop this thing for today, and play. Do you know Robin Hood, Huck?

– No. Who’s Robin Hood?

– Why, he was one of the greatest men that was ever in England – and the best. He was a robber.

– Cracky, I wisht I was. Who did he rob?

– Only sheriffs and bishops and rich people and kings, and such like. But he never bothered the poor. He loved ‘em. He Always divided up with ‘em perfectly square.

– Well, he must ‘a’ been a brick.

– I bet you he was, Huck. Oh, he was the noblest man that ever was. They ain’t any such men now, I can tell you. He could lick any man in England, with one hand tied behind him”

On Saturday, shortly after noon, the boys were at the dead tree again. They had a smoke and a chat in the shade, and then dug a little in their last hole, not with great hope, but merely because Tom said there were so many cases where people had given up a treasure after getting down within 6 inches of it, and then somebody else had come along and turned it up with a single thrust of a shovel. The thing failed this time, however, so the boys shouldered their tools and went away feeling that they had not trifled with fortune, but had fulfilled all the requirements that belong to the business of treasure-hunting.”

– They’ve stopped… No – coming… Here they are. Don’t whisper another word, Huck. My goodness, I wish I was out of this!

Two men entered. Each boy said to himself: ‘There’s the old deaf and dumb Spaniard that’s been about town once or twice lately – never saw t’other man before.’”

– Dangerous!, grunted the ‘deaf and dumb’ Spaniard – to the vast surprise of the boys. ‘Milksop!’

This voice made the boys gasp and quake. It was Injun Joe’s! There was silence for some time. Then Joe said:

– What’s any more dangerous than that job up yonder – but nothing’s come of it.”

– Look here, lad – you go back up the river where you belong. Wait there till you hear from me. I’ll take the chances on dropping into this town just once more, for a look. We’ll do that ‘dangerous’ job after I’ve spied around a little and think things look well for it. Then for Texas! We’ll leg it together!

This was satisfactory. Both men presently fell to yawning, and Injun Joe said:

– I’m dead for sleep! It’s your turn to watch.”

The boys drew a long, grateful breath. Tom whispered:

– Now’s our chance – come!

Huck said:

– I can’t – I’d die if they was to wake.

Tom urged – Huck held back. At last Tom rose slowly and softly, and started alone. But the first step he made wrung such a hideous creak from the crazy floor that he sank down almost dead with fright. He never made a second attempt. The boys lay there counting the dragging moments till it seemed to them that time must be done and eternity growing gray; and then they were grateful to note that at last the sun was setting.

Now one snore ceased. Injun Joe sat up, stared around – smiled grimly upon his comrade, whose head was drooping upon his knees – stirred him up with his foot and said:

– Here! You’re a watchman, ain’t you! All right, though – nothing’s happened.”

– I don’t know – leave it here as we’ve always done, I reckon. No use to take it away till we start south. 650 silver’s something to carry.”

accidents might happen; ‘tain’t in such a very good place; we’ll just regularly bury it deep.”

The boys forgot all their fears, all their miseries in an instant. With gloating eyes they watched every movement. Luck! – the splendor of it was beyond all imagination! 600 dollars was Money enough to make half a dozen boys rich! Here was treasure-hunting under the happiest auspices – there would not be any bothersome uncertainty as to where to dig. They nudged each other every moment – eloquent nudges and easily understood, for they simply meant – ‘Oh, but ain’t you glad now we’re here!’

Joe’s knife struck upon something.

– Hello!, said he.

– What is it?, said his comrade.

– Half-rotten plank – no, it’s a box, I believe. Here – bear a hand and we’ll see what it’s here for. Never mind, I’ve broken a hole.

He reached his hand in and drew it out—

– Man, it’s money!

The two men examined the handful of coins. They were gold. The boys above were as excited as themselves, and as delighted.

Joe’s comrade said:

– We’ll make quick work of this. There’s an old rusty pick over amongst the weeds in the corner the other side of the fireplace – I saw it a minute ago.

He ran and brought the boys’ pick and shovel. Injun Joe took the pick, looked it over critically, shook his head, muttered something to himself, and then began to use it.”

– Pard, there’s thousands of dollars here, said Injun Joe.”

– Now you won’t need to do that job.”

-You don’t know me. Least you don’t know all about that thing. ‘Tain’t robbery altogether – it’s revenge! – And a wicked light flamed in his eyes. – I’ll need your help in it. When it’s finished, then Texas. Go home to your Nance and your kids, and stand by till you hear from me.

– Well – if you say so; what’ll we do with this – bury it again?

– Yes. [Ravishing delight overhead.] No! by the great Sachem, no! [Profound distress overhead.] I’d nearly forgot. That pick had fresh earth on it! [The boys were sick with terror in a moment.] What business has a pick and a shovel here? What business with fresh earth on them? Who brought them here – and where are they gone? Have you heard anybody? – seen anybody? What! bury it again and leave them to come and see the ground disturbed? Not exactly – not exactly. We’ll take it to my den.

– Why, of course! Might have thought of that before. You mean Number One?

– No – Number Two – under the cross. The other place is bad – too common.

– All right. It’s nearly dark enough to start.

Injue Joe got up and went about from window to window cautiously peeping out. Presently he said:

– Who could have brought those tools here? Do you reckon they can be upstairs?

The boys’ breath forsook them. Injue Joe put his hand on his knife, halted a moment, undecided, and then turned toward the stairway. The boys thought of the closet, but their strength was gone. The steps came creaking up the stairs – the intolerable distress of the situation woke the stricken resolution of the lads – they were about to spring for the closet, when there was a crash of rotten timbers and Injun Joe landed on the ground amid the debris of the ruined stairway. He gathered himself up cursing, and his comrade said:

– Now what’s the use of all that? If it’s anybody, and they’re up there, let them stay there – who cares? If they want to jump down, now, and get into trouble, who objects? It will be dark in 15 minutes – and then let them follow us if they want to. I’m willing. In my opinion, whoever hove those things in here caught a sight of us and took us for ghosts or devils or something. I’ll bet they’re running yet.

Joe grumbled awhile, then he agreed with his friend that what daylight was left ought to be economized in getting things ready for leaving. Shortly afterward they slipped out of the house in the deepening twilight, and moved toward the river with their precious box.”

Follow? Not they. They were contente to reach ground again without broken necks (…) They did not talk much. They were too much absorbed in hating themselves – hating the ill luck that made them take the spade and the pick there. But for that, Injun Joe never would have suspected. He would have hidden the silver with the gold to wait there till his ‘revenge’ was satisfied, and then he would have had the misfortune to find that money turn up missing. Bitter, bitter luck that the tools were ever brought there!”

Very, very small comfort it was to Tom to be alone in danger! Company would be a palpable improvement, he thought.”

VIGÉSIMO SÉTIMO CAPÍTULO

the quantity of coin he had seen was too vast to be real.” “he was like all boys of his age and station in life, in that he imagined that all references to ‘hundreds’ and ‘thousands’ were mere fanciful forms of speech, and that no such sums really existed in the world.”

VIGÉSIMO OITAVO CAPÍTULO

– Yes! He was lying there, sound asleep on the floor, with his old patch on his eye and his arms spread out.

– Lordy, what did you do? Did he wake up?

– No, never budged. Drunk, I reckon. I just grabbed that towel and started!

– I’d never ‘a’ thought of the towel, I bet!

– Well, I would. My aunt would make me mighty sick if I lost it.

– Say, Tom, did you see that box?

– … U didn’t see the cross. I didn’t see anything but a bottle and a tin cup on the floor by Injun Joe (…) Don’t you see, now, what’s the matter with that ha’nted room?

– How?

– Why, it’s ha’nted with whiskey! Maybe all the Temperance Taverns have got a ha’nted room, hey, Huck?”

– I said I would, Tom, and I will. I’ll ha’ntt that tavern every night for a year! I’ll sleep all day and I’ll stand watch all night.”

That’s a mighty good nigger, Tom. He

TOM SAWYER .76

GLOSSÁRIO INGLÊS

andiron: cão-de-lareira (móvel antigo onde se deixavam as toras de madeira ainda não usadas)

brass: latão

clodding: tolo (arc.)

knob: maçaneta

marble: bola de gude (de vidro), por extensão white marble, já que o mármore é branco.

STUDIES IN THE PSYCHOLOGY OF SEX – Vol. I – Havelock Ellis [estudo interrompido]

The pioneering stage is over. No longer is it a risky and dangerous enterprise to approach this field, with pitfalls on every side. Now the legitimacy of the field is generally accepted”

London, 1935

PART ONE

THE EVOLUTION OF MODESTY

THE PHENOMENA OF SEXUAL PERIODICITY

AUTO-EROTISM

THE EVOLUTION OF MODESTY

The woman who is lacking in this kind of fear is lacking, also, in sexual attractiveness to the normal and average man.”

AUTO-EROTISM: A STUDY OF THE SPONTANEOUS MANIFESTATIONS OF THE SEXUAL IMPULSE

The typical form of auto-erotism is the occurrence of the sexual orgasm during sleep.”

We are familiar with ‘masturbation’, but that, strictly speaking, only covers a special and arbitrary subdivision of the field, although, it is true, the subdivision with which physicians and alienists have chiefly occupied themselves, ‘Self-abuse’ is somewhat wider, but by no means covers the whole ground, while for various reasons it is an unsatisfactory term. ‘Onanism’ is largely used, especially in France, and some writers even include all forms of homosexual connection under this name; it may be convenient to do so from a physiological point of view, but it is a confusing and antiquated mode of procedure, and from the psychological standpoint altogether illegitimate; ‘onanism’ ought never to be used in this connection, if only on the ground that Onan’s device was not auto-erotic, but was an early example of withdrawal before emission, or coitus interruptus.”

As our marriage-rate declines, and as illicit sexual relationships continue to be openly discouraged, it is absolutely inevitable that auto-erotic phenomena of one kind or another, not only among women but also among men, should increase among us both in amount and intensity.”

I am informed by a gentleman who is a recognized authority on goats, that they sometimes take the penis into the mouth and produce actual orgasm, thus practicing auto-fellatio.”

When the Spaniards first arrived at Viscaya, in the Philippines, they found that masturbation was universal, and that it was customary for the women to use an artificial penis and other abnormal methods of sexual gratification.”

More than 9/10 of the foreign bodies found in the female bladder or urethra are due to masturbation.”

In 1862, a German surgeon found the accident so common that he invented a special instrument for extracting hair-pins from the female bladder, as, indeed, Italian and French surgeons have also done.”

Sexual irritation may also be produced by the bicycle in women. Thus, Moll remarks that he knows many married women, and some unmarried, who experience sexual excitement when cycling; in several cases he has ascertained that the excitement is carried as far as complete orgasm.”

The aggravation of haemorrhoids sometimes produced by cycling indicates also the tendency to local congestion.”

These 4 writers – the author of Onania, Tissot, Voltaire, Lallemand – are certainly responsible for much. The mistaken notions of many medical authorities, carried on by tradition, even down to our own time; the powerful lever which has been put into the hand of unscrupulous quacks; the suffering, dread and remorse experienced in silence by many thousands of ignorant and often innocent young people may all be traced in large measure back to these 4 well-meaning, but on this question misguided, authors.”

The great Scandinavian philosopher, Sören Kierkegaard, suffered severely, according to Rasmussen, from excessive masturbation. That, at the present day, eminence in art, literature, and other fields may be combined with the excessive practice of masturbation is a fact of which I have unquestionable evidence.”

PART TWO

ANALYSIS OF THE SEXUAL IMPULSE

LOVE AND PAIN

THE SEXUAL IMPULSE IN WOMEN

ANALYSIS OF THE SEXUAL IMPULSE

The first definition of the sexual impulse we meet with is that which regards it as an impulse of evacuation. The psychological element is thus reduced to a minimum.”

#GrandesCitações ALMOÇO NU: Ópio x soma

“Não existe nenhum culto ao ópio. O ópio é profano e quantificável como o dinheiro. Ouvi dizer que já houve um tipo de droga benéfica na Índia, que não viciava. Chamava-se soma e costumava ser descrita como uma bela onda azul. Se o soma existiu alguma vez, o traficante estava lá para engarrafá-lo, monopolizá-lo e vendê-lo – e ele acabou se transformandou na mesma e velha DROGA.”

#GrandesCitações LARANJA MECÂNICA: Encontro com Bog

“Ó, meus irmãos. Você fica ali jogado depois de tomar o bom e velho moloko e aí fica com a messel de que tudo ao seu redor meio que já aconteceu antes. Você até consegue videar tudo direitinho, tudo mesmo, com muita clareza – as mesas, o estéreo, as luzes, as esticas e os maltchiks – mas era como se fosse uma veshka que antes estava lá mas agora não está mais. E você fica assim meio que tipo hipnotizado pela sua bota ou pelo seu sapato ou pela unha, tanto faz, e ao mesmo tempo você ficava meio como se te pegassem pelo cangote e sacudissem que nem um gato. Você é sacudido sem parar até não sobrar mais nada. Você perde seu nome, seu corpo, seu eu e não está nem aí, e espera até sua bota ou sua unha ficarem amarelas, e ficarem cada vez mais amarelas. Então as luzes começam a piscar como explosões atômicas e a bota ou a unha ou, também pode acontecer, uma sujeirinha no fundo das suas calças se transforma num mesto grande grande grande, maior que o mundo inteiro, e aí você vai justamente ser apresentado ao bom e velho Bog ou Deus quando tudo acaba. Você volta pro lado de cá e aí fica meio que gemendo baixinho, com a rot toda buábuá. Agora, isso é muito bacana, mas também é muito covarde. Você não foi posto neste mundo só para entrar em contato com Deus. Esse tipo de coisa pode sugar toda a força e a virtude de um tchelovek.”

[ARQUIVO] JAMAIS SE REPETE

Originalmente publicado em 9 de janeiro de 2011

Esboço de complemento ao MEU PENSAMENTO-MOR (09/07/09)

 

Mistérios do tempo. Grécia. Um grego hoje que diz sentir fluir em si o sangue dos antepassados. Moderno tresloucado, boca-grande, infame; ou apenas conseqüente? Chame do que quiser, mas nos tornamos herdeiros demais e patriarcas de menos. Tempo bom, não vai voltar. Musa enganadora. Aurora há de brilhar. Reencantamento do mundo, isso não pode ser, porque pressuporia um (re)-en(canto), uma volta ao encanto, mas essa repetição é impossível. O encanto é ser uno. É um novo inaudito canto, no máximo. Des-encantar, como esfriar, gelar, depois aquecer, esquentar, são apenas etapas de um jogo mudo e infinito. Uma roda não gira mais de uma vez neste jogo. Não estamos, pasme, convergindo ao grego. L., G., B. e H.: adeus? (Sempre há gêmeos nessas histórias)

Há-Deus: nem mesmo isso poderá ser repetido, que agonia incisiva essa da morte da criatura mais poderosa já desenhada, e que caricatura pervertida, o máximo do poder – bem como os gregos, ele também vai desaparecer! Quem sabe que novos arranjos de potência e impotência advirão? “A Era dos Extremos”…

Espírito trágico, espírito trágico…

Falta de nostalgia até da falta de nostalgia

Você não vai subir pelos flancos?

Mas se a oportunidade é pouca, e você ainda leva um tranco

Ruminou tanto, deitado, que quando foi andar viu que estava manco

Se a rima parar, aí então eu desanco!

Porque comigo é preto no branco

Não sou como esses homens que mais se parecem com orango-tangos

Mundo do pior-melhor-diferente

Bem abrangente

E quem sabe do futuro? Grande brincadeira é escrever um livro sobre isso!

Enfim, o sonho e o pesadelo, descartes, cantorias, happy schopenhauers, marx-ua-vida-com-boas-marcas, caminhe com pêlo de camurça poraí… tomás uma vida de alegria…

O sonho e o pesadelo… Consumo-Ressaca-Consumo-CONSUNI-ressarce-consumo-ressaca-consumo-ressaca-coturno-na-marra-com-uma-paulada-eu-sumo-ou-pelo-menos-me-aprumo-,saca?

esse é o próprio sonho e as idéias que destroem o sonho

comilão o monstro!

sonso… até meio troncho

poço de desgosto que gera a maravilhosa Vênus redentora… happy end, the wind tearing away the sand

sim eu posso

dane-se

Código de Manu. O Rei está nu. O homem está nu e o take 1 desse filme excitante vai começar quando a claque bater. Palmas!

CAPITALISMO, MODERNISMO E PÓS-MODERNISMO – Terry Eagleton

O pós-modernismo é, portanto, uma terrível paródia da utopia socialista, tendo abolido, de um só golpe, toda alienação. Ao considerar a alienação como potência secundária, alienando-nos mesmo de nossa própria alienação, ele nos persuade a reconhecer essa utopia não como algum telos remoto mas, surpreendentemente, como nada mais que o presente em si mesmo, repleto como é em sua própria positividade bruta e sem o mais leve traço de ausência.”

O dilema de David Hume é suplantado por uma simples fusão: fato é valor. A utopia não pode pertencer ao futuro porque o futuro, sob a forma de tecnologia, já está aqui, em exata sincronia com o presente.”

O eschaton, aparentemente, já está aqui sob nossos narizes, mas tão penetrante e imediato a ponto de ser invisível àqueles que ainda têm os olhos teimosamente voltados para o passado ou para o futuro.”

Não é difícil enxergar uma relação entre a filosofia de J.L. Austin e a IBM, ou entre os vários neo-nietzschianismos de uma era pós-estruturalista e a Standard Oil.”

nem sempre é fácil distinguir assaltos politicamente radicais à epistemologia clássica (entre os quais o próprio jovem Lukács pode ser citado, ao lado da vanguarda soviética) de ataques flagrantemente reacionários.”

Lyotard não tem dúvidas de que ‘as lutas socialistas e seus instrumentos foram transformados em reguladores do sistema’ em todas as sociedades avançadas, uma certeza olímpica que, no momento em que escrevo, a sra. Thatcher poderia, a um só tempo, invejar e questionar. (Lyotard sabiamente silencia sobre a luta de classes fora das nações capitalistas avançadas.)”

as sutilíssimas meditações de Benjamin sobre a história desarranjam qualquer esquema binário pós-estruturalista dessa espécie”

Um sentido nietzschiano do ‘moderno’ também informa a obra do mais influente dos desconstrucionistas americanos, Paul De Man, embora com uma pitada adicional de ironia. Pois o ‘esquecimento ativo’, argumenta Paul De Man, nunca pode ser completamente bem-sucedido: o ato caracteristicamente moderno, que procura eliminar ou suspender a história, vê-se submetido nesse exato momento à linhagem que procura suprimir, perpetuando-a ao invés de aboli-la. Com efeito, a literatura para De Man nada mais é que essa tentativa constantemente predestinada e ironicamente autodissolvente de fazer o novo, essa incapacidade incessante de enfim despertar do pesadelo da história”

Somos todos, simultânea e inextricavelmente, modernos e tradicionais, termos que para De Man não designam nem movimentos culturais, nem ideologias estéticas, mas a própria estrutura desse fenômeno duplo, sempre simultaneamente dentro e fora do tempo, chamado literatura, em que esse dilema comum representa a si mesmo com retórica autoconsciência.”

O desafiante recurso ‘radical’ a Nietzsche, por assim dizer, acaba por plantar-nos em uma posição maduramente democrata avançada (liberal democrat), obliquamente cética mas genialmente tolerante com as relíquias radicais da juventude.”

O marxismo de Louis Althusser aproxima-se desse nietzschianismo: a prática é um assunto ‘imaginário’ que se alimenta da repressão do entendimento verdadeiramente teórico, a teoria uma reflexão sobre a ficcionalidade necessária de tal ação. As duas, tal como em Nietzsche e De Man, são ontologicamente distintas, necessariamente não-sincrônicas.”

Todas as eras históricas são modernas para si mesmas, mas nem todas vivem sua experiência desse modo ideológico.”

e são Deleuze e Guattari, com toda sua insistência sobre as manifestações difusas e perversas do desejo, os verdadeiros metafísicos, ao aderir a tal essencialismo velado. Ainda uma vez, teoria e prática estão ontologicamente em disputa, uma vez que o herói esquizóide do drama revolucionário é, por definição, incapaz de refletir sobre sua própria condição, necessitando de intelectuais parisienses para fazê-lo em seu lugar. A única ‘revolução’ concebível, dado tal protagonista, é a desordem; e Deleuze e Guattari, significativamente, usam os dois termos como sinônimos, na mais banal retórica anarquista.”

o místico positivismo do primeiro Wittgenstein, para o qual o mundo – caso se acredite nele – é apenas o que é e não outra coisa qualquer.”

O pós-modernismo persuade-nos a renunciar a nossa paranóia epistemológica para abraçar a rude objetividade da subjetividade aleatória; o modernismo, de forma mais produtiva, está dilacerado pela contradição entre um humanismo ainda inelutavelmente burguês e as pressões de uma racionalidade bastante diferente, a qual, ainda emergente, não é sequer capaz de dar um nome a si própria.”

A realidade fenomenológica do sujeito coloca em questão a ideologia humanista formal, enquanto a persistência dessa ideologia é precisamente o que habilita a realidade fenomenológica a ser caracterizada como negativa.”

Mas o sujeito humanista burguês não é, na verdade, simplesmente parte de uma história esgotada que podemos, prazerosa ou relutantemente, deixar para trás: se ele constitui um modelo crescentemente inapropriado a certos níveis de subjetividade, permanece potencialmente relevante em outros.”

“‘O ecletismo’, escreve Lyotard, ‘é o grau zero da cultura geral contemporânea: as pessoas escutam reggae, assistem a um western, almoçam McDonald’s e jantam cozinha local, usam perfume de Paris em Tóquio e roupas retro em Hong Kong; o conhecimento é um assunto de jogos de TV’.”

[ARQUIVO] A INSUSTENTÁVEL LEVEZA DO SER – Milan Kundera

Originalmente publicado em 8 de janeiro de 2011 (digressões abreviadas)

Se a revolução Francesa devesse repetir-se eternamente, a historiografia francesa se mostraria menos orgulhosa de Robespierre.”

Não se dava conta de que aquilo que julgava irreal (seu trabalho no isolamento das bibliotecas) era sua vida real, enquanto as passeatas que ele julgava reais eram apenas um espetáculo de teatro, uma dança, uma festa, em outras palavras: um sonho.”

As pessoas nunca perdem a ocasião de falar mal dos amigos.”

[kitsch] Esta é uma palavra alemã que apareceu em meados do sentimental século XIX e que, em seguida, se espalhou por todas as línguas. O uso repetido da palavra fez com que se apagasse seu sentido metafísico original: em essência, o kitsch é a negação absoluta da merda; tanto no sentido literal quanto no sentido figurado: o kitsch exclui de seu campo visual tudo que a existência humana tem de essencialmente inaceitável.”

É preciso evidentemente que os sentimentos suscitados pelo kitsch possam ser compartilhados pelo maior número possível de pessoas (…) a lembrança do primeiro amor [por exemplo].” “como é bonito ficar emocionado, junto com toda a humanidade, diante de crianças correndo no gramado! Somente isso faz com que o kitsch seja o kitsch.” “Paz, amor e a fraternidade entre todos os homens não poderá nunca ter outra base senão o kitsch.” “O kitsch é o ideal estético de todos os homens políticos, de todos os partidos e movimentos políticos.”

O gulag pode ser considerado como uma fossa sanitária em que o kitsch totalitário joga seus detritos.”

DOS QUATRO TIPOS DE OLHARES-SOBRE-SI (TRÊS NÃO IMPORTAM MUITO): “Por fim, existe a 4ª categoria, a mais rara, a daqueles que vivem sob o olhar imaginário dos ausentes. São os sonhadores. P.ex., Franz. Se chegou até a fronteira do Camboja, foi unicamente por causa de Sabina. O ônibus sacoleja na estrada da Tailândia e ele sente que Sabina tem os olhos pousados nele.”

Odeia-se mais aqueles de cuja opinião já nos livramos com muito custo”

Antes de sermos esquecidos, seremos transformados em kitsch. O kitsch é a estação intermediária entre o ser e o esquecimento.”

O amor que se tem por um cachorro escandaliza.”

O homem dominou a natureza – isto é, enrolou cordões de marionete no próprio pescoço.”

Karenin cometeu o erro de sempre: largou seu pedaço de croissant para tentar pegar o pedaço que seu dono segurava na boca. Como sempre, esquecera que Tomas não era cachorro e que tinha mãos. Tomas não largou o pedaço que tinha na boca, e apanhou o pedaço que caíra no chão.”

A nostalgia do Paraíso é o desejo do homem de não ser homem.”

O amor entre o homem e o cão é idílico. É um amor sem conflitos, sem cenas dramáticas, sem evolução.”

Por isso o homem não pode ser feliz, pois a felicidade é o desejo da repetição.”

Como determinar o instante em que não vale mais a pena viver.”

Missão é uma palavra idiota.”

HIDEOUS GNOSIS: Black Metal Theory Symposium 1 (blackmetaltheory.blogspot.com) [best quotes] – Edited by Nicola Masciandaro

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Questions may be directed to: hideous.gnosis@gmail.com

Black metal, whose shriek of birth occurred in the 1980s and achieved full articulation in the early 1990s, represents a return to orthodoxy after an interlude of laxness. The enemy was not only to be found outside of the metal community, but also within.”

The lexicon of black metal is comprised, to an extent unmet by other forms of music, of references to the enduring, the abiding, and the transcendent: the arctic tundra, the unyielding night of the northern winter, virgin woods and wastelands, stone, mountains, the moon, and the stars.”

The heaviest metal found on Earth is uranium; enriched uranium is plutonium, a substance that conjures up the Lord of the Dead. Heavier elements occur only in space, where Pluto mournfully orbits the Sun at a distance of 3,666 million miles. Somewhere still farther off in the void floats the philosopher’s stone, black metal.”

The black metal that was born in Scandinavia in the mode of Fortification¹ can be termed Hyperborean Black Metal. Hyperborean Black Metal is lunar, atrophic, depraved, infinite and pure. The symbol of its birth is the Death of Dead. Its tone is Nihilism and its key technique is the Blast Beat.

[¹ Banda praticamente impossível de encontrar. Checar Eternal Fortification no M-A, porém!]

Today USBM stands in the shadow of Hyperborean Black Metal. The time has come for a decisive break with the European tradition and the establishment of a truly American black metal. And we should say ‘American’ rather than ‘US’: the US is a declining empire; America is an eternal ideal representing human dignity, hybridization and creative evolution.”

Hyperborean Black Metal is the culmination of the history of extreme metal (which is itself the culmination of the history of the Death of God). The subject of this history may be compared to a mountaineer, maneuvering over and across the various terrains of thrash, grindcore and death metal – or rather, carving these terrains into the mountainside – and striving to reach the Haptic Void, dimly understood but strongly felt, glimmering brightly at the summit.”

Transcendental Black Metal is in fact nihilism, however it is a double nihilism and a final nihilism, a once and for all negation of the entire series of negations. With this final ‘No’ we arrive [in] a sort of vertiginous Affirmation, an Affirmation that is white-knuckled, terrified, unsentimental, and courageous.”

The infinite is everywhere and cheap. It is the finite that is rare. It is the finite that is peculiar to humankind. Finitude means confronting what is present at hand authentically and doing what is honest with the means one has at one’s disposal. The solar nourishes the finite. The finite is born, strives, and dies.”

Transcendental black metal sacralizes the penultimate moment, the ‘almost‘ or the ‘not yet’, because it has been found that there is nothing after the penultimate moment. The penultimate moment is the final moment, and it takes place at every moment. The fabric of existence is open. There is nothing that is complete; there is nothing that is pure.”

Depravity is dissimulation; courage is authenticity. Courage has no image of itself. It is trailblazing. It has no path before it. Its only trace is the wake it leaves behind.”

After the dust settles, and the work of modernity and postmodernity is done, and the divisions between high culture, mass culture and counterculture have been obliterated, what is left? A single, shining Culture which is True, Good, and Beautiful.”

Teutoburg Forest

The primary level of decay conveyed in black metal concerns the predisposition toward matters of the human body’s decomposition. A recurring scenario involves the ritualistic debasement of the decomposing corpse at the hands of the living, in what can often be understood as a de-sanctifying ritual that rids the rotting corpse of its illusory spiritual wholeness.”

Second, it can certainly be said that black metal, in its varying and perpetually evolving states, employs a literal decomposition and decay of its own presence” “Beyond merely producing a record that sounds grimy, faraway, muddled, etc., these artists create a presence that is wholly separate from the music.”

It is only after disfigurement and debasement of the corpse take place that necrophilic urges can emerge, in which the corpse is wallowed in, raped, or sodomized in a ritual of great satisfaction, as in Decay’s song, Copulation With the Gutted Corpse

a great deal of anti-Christian black metal maintains a knowledge of such objects that are lost to the now predominant rabble of evangelical Christians, whose masses often take place in fluorescent-lit recreation centers and whose priests often wear sweatsuits.”

(*) “For a beautiful simultaneous satire/homage of the life of the suburban black metaller, see the gorgeous black metal montage of Harmony Korine’s 1999 film Gummo.”

If we were to define a degree zero of Black Metal politics then it would be an unstable amalgam of Stirnerite egoism and Nietzschean aristocratism: a radical anti-humanist individualism implacably hostile to all the ideological ‘spooks’ of the present social order, committed to creating an ‘aristocracy of the future’, and auto-engendering a ‘creative nothing’.” “Of course these are often ‘spooks’ associated with the extreme right, Nazism, fascism, and ultra-nationalism. Whereas Stirnerite individualism might be regarded as anarchist, or at best indifferent to politics, this racial-national metaphysics is often, although not always of course, deployed to re-territorialise and establish a ‘grand politics’.” “the critic from the left can safely handle and enjoy Black Metal and proclaim their sophistication by condescending to the naiveté of such adolescent political posturing which ‘unfortunately’ marks an otherwise admirably radical aesthetic.”

It should be noted that a Gramscian politics of hegemony has been invoked by the far right, in particular in France by Alain de Benoist, ideologue of the ‘new right’. His culturalist racism and anti-Americanism bear many similarities to the views of Sale Famine, however Famine’s elitism and anti-popular stance incarnate a peculiarly constrained vision of hegemony – one occult and elitist.”

(*) “Famine states that the next Peste Noire album will be ‘pure reggae’ (Travis Interview), inhabiting his usual mode of deliberate provocation, but also implying his own ability to define a true Black Metal, in quasi-Duchampian mode, as whatever he nominates.”

Carl Schmitt, Theory of the Partisan, 1963.

The apocalypse leads to the post-apocalypse. Contrary to this, Armageddon is the site of the terminal end.”

What does this have to do with black metal, or with Mayhem’s demo title as a founding gesture?”

Hence the absence of the usual dialectical suspects: not void, not synthesis, not the not-not of the negation of the negation.”

It is the war fought between two totalities, between black metal’s endless antagonism and liberal capitalism’s eternal present.”

it predicts and describes a final battle, yet it grasps that final battle as one which has been there all along.”

Therein the desperation of black metal vocals: it’s just the howl of the thought that this is at once the worst of all possible worlds and the only possible world.” “In this way, despite its moronic and frequent attempts to be Fascist and despite the fact that we should wage total war against all such attempts, it never can be.” “all non-Nazi black metal is still NSNSBM (not so National Socialist black metal).” “Black metal dreams a sovereign, and, in the next breath, severs his head to spatter the blood across all. What remains are the headless horsemen of the apocalypse, the acephalic leaders of a chiefless crowd marching off to permanent war.”

the act of becoming headless opens the way for the second gesture, that of the cephalophore,¹ the head-bearer, the one defined not by the condition of being without head but by the act of picking the head back up.”

¹ Botânica: que tem flor em forma de cabeça.

Black metal makes appear as decision what is in truth a general state of affairs, not just of its imagined post-apocalypse but of the systemic chaos and non-direction of the contemporary world. Hence the performative theatricality: the head already removed, the axe’s swing is a magician’s trick, tracing the negative space there all along between the body and the head.”

But despite its recurrent anti-intellectualism and penchant for uncritical reenactment of stale dark vitalist tropes, black metal is smarter than it thinks. Appropriately for its Satanic grounding, it shares much with the integral atheism of de Sade: to take on abstraction and the generic, you have to do so on its own terms.”

I like some bands from the U.S. but never would have conceived of hording them altogether under some catchy, marketable little moniker like USBM. It implies a sense of unity, which I cannot see manifesting in the States on any comprehensible scale.”

He Who Crushes Teeth, Bone Awl: I think the first band to make a uniquely American statement in Black Metal was Grand Belial’s Key. They use the same method as the Europeans in not just bending Death Metal a little bit but really making that leap, playing music that is rooted in the history of the country. Even though their music falls nicely into Black Metal as category, when I listen to Mocking the Philanthropist I hear American folk music, I hear the racial tension of the south, I hear hot American climates and landscapes. I hear the civil war. They did a fitting job including the surrounding culture into the sound, which most American bands completely fail to do.”

Blaash, Bahimron: (…) We become soulless to a point – a hollow meandering consumer

who thinks they are xtian until theyre rapin’ their daughter one day . . . School shootings, mass murder, serial killers, suicide – all of the ‘real subjects’ – not Viking heritage or killing the ‘Christians’ in lyrics”

Jordan, Wrath Of The Weak: In some respects, it seems like USBM has taken the destructive side of black metal and turned it against itself, so instead of church burnings and murders it manifests itself in the hatred and self-loathing that’s present in a lot of the acts which get labeled as suicidal/depressive/etc. I suppose you could take that as a reaction of sorts against our current habit of ignoring and/or medicating away any mood that isn’t neutral or somewhat positive.”

Andee, Aquarius Records/tUMULt: Most black metal musicians did not grow up listening to black metal. Many might not have listened to metal at all. And you can hear that in the music: Elements of doom, psych, stoner rock, post rock. Black metal guys who are my age, which is a lot of them, were into Slint¹ way before they were into black metal, and were listening to Drive Like Jehu¹ and Unwound¹ before they had ever heard Mayhem or Immortal. That stuff informs everything they do. Even when they’re playing some part that is total Darkthrone worship, often those years of listening to other music seeps in and turns it into something new.”

¹ Math rock/indie/emo precursores norte-americanos.

Blaash, Bahimiron: USBM incorporates more ‘brutality’, I think, then some European acts—ignoring the obvious stalwart murderers like Immortal, Marduk, or after them Dark Funeral…”

Imperial, Krieg: What I do see as something typically American (to which much outside of the US and unfortunately only a small portion within the country would agree) is the pseudo idea of American superiority to outside art, culture and music. This is why you see so many bands doing the paint by numbers sort of thing, regurgitating what’s already been done yet thinking it’s their own. As Americans we have a strong artistic and literary heritage, especially post WW2 from the Beat movement, Warhol’s idea of Popism, La Monte Young‘s musical experiences,¹ etc. but we don’t draw on it, we just keep pushing out McBlackmetal.”

¹ Artista nascido em 1935 citado como ‘minimalista’, ‘vanguardista’ e mesmo drone!

I don’t see our music as aggressive; I see it as a contemplation of your own heartbeat. The heart never stops; it never stops until you’re dead. It is never not drenched in blood. It is the most violent rhythm you can think of. When a body becomes so big it needs a heart, this is when music becomes real.”

Josh, Velvet Cacoon: (…) The east coast stuff was really incoherent and unconvincing, it offered nothing and went nowhere. There was no direction and it seemed like they were playing black metal because it was the alternative to being just a fan. Have you ever heard Kult ov Azazel¹ or any of those types of east coast groups? Everything from the music to the lyrics, song titles and artwork screams ‘generic’. I don’t know how these guys get out of bed each morning.”

¹ Extrato da last.fm

He Who Crushes Teeth, Bone Awl: Anything good in American black metal is happening on the West Coast…. There is more culture in California. More global influence. More computers. Less McDonald’s. More Starbucks. More Mexicans. More People. More numbers. Less women. More gay people. More cars. More traffic. More violence. More romance. More life in general. An abundance of living things.”

UMESH, Brown Jenkins:¹ All it would take would be half a dozen ambitious writers in America and the U.S. black metal scene would have its own sordid narrative to struggle with. These are creations of the press, of course. If you think about it, the heart of the Norwegian narrative, for example, is a story with a black hole at the middle of it—no one really knows what happened the night Euronymous was murdered except Varg Vikernes. The other person involved is dead. Varg has told different stories about what happened over the years—does he even really remember? So even at the very center of an attempt to apply meaning and a grand, overarching story to the history of the Norwegian black metal scene, there is a wall beyond which no one can penetrate. It’s meaningless. People can make whatever they want of it.”

¹ Parece interessante: doom metalgaze!

In A Thousand Plateaus Gilles Deleuze and Félix Guattari introduce the concept of ‘becoming-animal’ which refers to the subject’s movement from a stable position, from identity to a nomadic, anarchic existence. (…) Other Black Metal musicians have adopted new names to describe their becomings-wolf. Burzum’s Kristian Vikernes has changed his name into Varg which means wolf. Darkthrone’s Leif Nagell is known as Fenriz. Fenrir or Fenris is the name of the Nordic monstrous wolf, the son of the god Loki and Angerboda. Ulver is the name of a BM band from Norway whose lyrical themes are those of lycanthropy and fairy tales among others. Ulv means wolf in Norwegian and ulver is the plural form of the word.”

A living incarnation of Satan has taken the place of a dead God. But the original father needs to be brought back and recomposed repeatedly for the transgressive act to have meaning. Logos demands to be there first, in order that Chaos may later renounce it, for the wolf to commit its prohibited crimes. Without a paternal figure transgression becomes a fruitless act, an empty simulation of repetition. And this is where black metal’s contradictions take place. The thirst for annihilation, the violent transgression of limits, the disruption and the illicit crossing of boundaries are only manifested and secured with the presence of the phallus. The Christian father haunts black metal, the way King Hamlet’s ghost haunts Denmark.”

The annihilation of melody and the repetition of raw sounds of the same fast tempo reflect the condition of modernity’s mechanical reproductive experience, the simulation of simulations, the emptiness of the sign, the disenfranchised being’s uniform activities.”

In Kadenzza’s¹ album The Second Renaissance (2005) songs based on the story of little red riding hood manifest the wolf’s masculine authority over the maternal and feminine. In the Woods red riding hood creeps through a hole in the door only to find the wolf offering her the flesh of her dead mother as food. It seems that both the wolf and red riding hood have transgressed into the mother’s house, the womb in the forest. In The Wolfoid the wolf incarnated as man unleashes his violent instincts through aggressive vocals and fast, repetitive, symphonic parts that deliver his nightmarish visions of devouring the mother and red riding hood. It is the ‘sinful nectar’ dripping from red riding hood’s ‘nasty lips’ that arouses the beast. Unable to make any choices red riding hood will have to drink the blood and eat the flesh of her mother, until finally the wolf will consume her body. Here Kadenzza play with the oral tradition of this fairy tale before Perault’s version which included the cannibalistic act of eating the grandmother and presented red riding hood as a slut who would eat the flesh and drink the blood of her grandmother. Wolves are the evil seducers whose ferocious instincts drive them in the consummation of their female victims.”

¹ “You Oshima

~ all vocals ( harsh vocal, natural vocal, voice )

~ all guitars ( electric and accoustic )

~ synthesizers ( …and theremin )

~ programming

~ sampling”

Satanic Corpse, banda feminina.

If wolves howl, then red riding hoods can scream non-linguistic forms attacking the symbolic order.”

From Keat’s ‘Ode on Melancholy’ to the ecstasies of metallic desiring machines, Melencolia Estatica, the project of the mysterious Climaxia, gives free rein to both aggression and romantic intensity. The sexual difference that these female black metal bands try to incorporate into black metal’s structures, a rewriting of female desire into the codes of music is a challenging creative power that destroys the ‘silence’ assigned to them by the phallus.”

Astarte

If female black metal bands manipulate the qualities that patriarchy has endowed them with through the use of sexuality in their performances, the language of nihilism or the repetition of black metal’s masculine discourses, then the perpetuation of the similar will persist and their presence will forever be silenced. Black metal is a strange place to be.”

“‘Freezing’ atmospheres of, say, Judas Iscariot or Old Wainds easily give way to the ‘blazing’, ‘burning’, hell-fire clamor of bands like the German Katharsis, 1349, or Averse Sefira without any drastic alteration of formal principles, and the force that mediates between these thermal intensities is a sort of conductive violence, a constant and potent accident of atmosphere that has the quality of a heat-transference which works upon something and draws it toward a limit, one of either over-excitation or exhaustion.”

METIMANENTE

i(ll)mmanent metal

m(l) a e t

the writings of Madame Blavatsky and Rudolph Steiner are exemplary in their trans-cultural and trans-historical breadth. In books such as Isis Unveiled (1877) or The Secret Doctrine (1888), Blavatsky covers everything from archaic mystery cults to modern paranormal research, giving one the sort of global perspective found in anthropology classics such as James Frazer’s The Golden Bough (1890).”

We could be even more specific and refer to this perspective not just as cosmic, but as a form of ‘Cosmic Pessimism’. The view of Cosmic Pessimism is a strange mysticism of the world-without-us, a hermeticism of the abyss, a noumenal occultism. It is the difficult thought of the world as absolutely unhuman, and indifferent to the hopes, desires, and struggles of human individuals and groups. Its limit-thought is the idea of absolute nothingness, unconsciously represented in the many popular media images of nuclear war, natural disasters, global pandemics, and the cataclysmic effects of climate change.” Ao contrário! É justamente o oposto! Metal demasiado humano, apenas humano.

Cosmic Pessimism has a genealogy that is more philosophical than theological. Its greatest – and most curmudgeonly [rabugentamente] – proponent was Arthur Schopenhauer, the misanthrope who rallied as much against philosophy itself as he did against doctrinal religion and the nationalist politics of his time.”

NOUSTALGIA

A vontade à vontade a-vontade.

To find an equal to Schopenhauer, one would have to look not to philosophy but to writers of supernatural horror such as H.P. Lovecraft, whose stories evoke a sense of what he termed ‘cosmic outsideness’ – the black tentacular voids that surround us and that stretch into the furthest ‘black seas of infinity.’” Não é à toa que eu gosto mais de Poe que de Lovecraft.

One could even suggest that some of the formal experiments in black metal, from the minimalism of Sunn O)))’s Grimmrobe Demos to the wall-of-noise in Wold’s Stratification might offer musical equivalents of the Cosmic Pessimism meaning of the word black.”

The most striking example of Cosmic Pessimism comes from outside of the metal genre altogether. It is by the Japanese multi-instrumentalist, poet, and mystic Keiji Haino. Haino’s album So, Black is Myself takes the subtractive minimalism of Sunn O))) further, while borrowing techniques from everything from Butoh to Troubadour singing. Clocking in at just under 70 minutes, So, Black is Myself uses only a tone generator and voice. Its sole lyric is the title of the piece itself: ‘Wisdom that will bless I, who live in the spiral joy born at the utter end of a black prayer.’ The piece is brooding, rumbling, deeply sonorous, and meditative. Sometimes the tone generator and Haino’s voice merge into one, while at other times they diverge. Haino’s voice itself spans the tonal spectrum, from nearly subharmonic chant to an uncanny falsetto perhaps produced only by starving banshees.”

To the role of medicine in Weyer, and the role of law in Bodin, we have the role of skepticism in Scot. While Weyer and Bodin are on opposite sides of the fence politically, theologically they both remain committed to the existence of supernatural forces and the conflict paradigm of good vs. evil. Scot, who had the advantage of relative financial independence, was neither beholden to the Church nor to science in his opinions – though the Discoverie of Witchcraft was printed at his own expense, was unregistered, and did not contain the publisher’s name. Most likely spurred on by a series of controversial witch trails in England in the early 1580s, Scot’s treatise is much more sarcastic, even humorous, in its criticisms.”

Science fiction works such as Fritz Leiber’s Gather, Darkness! and James Blish’s Faust Aleph-Null, written in the shadow of world war and mass extinction, suggest a ominous affinity between technology and the supernatural. In Leiber’s novel a futuristic Papacy utilizes a whole panoply of special-effects technologies to both ensure the fidelity of the masses to the hegemony of the Church. Against them a demonic underworld of witches, warlocks, and familiars carry out their revolutionary cause. By contrast, Blish’s novel suggests that with weapons of mass destruction, a renewed Faustian pact has been made, with quantum physics as a form of necromancy.”

see Abgott’s recent foray into mafia politics with Godfather in Black and God Dethroned’s WW1 story of Paschendale.”

[ARQUIVO] DESVANECER-SE (Tradução de Fade to Black)

Originalmente publicado em 11 de dezembro de 2010

A vida, parece, vai desmanchar

Afundando mais a cada dia

Me perdendo de mim mesmo

Nada importa, ninguém mais

Perdi a vontade de viver

Simplesmente nada mais pra dar

Não tem nada mais pra mim

Preciso do fim para me libertar

 

As coisas não são como costumavam ser

Falta Um dentro de mim

Mortalmente perdido, isso não pode ser real

Não posso suportar esse Inferno que eu sinto

O vazio vai me consumindo

Até o ponto da agonia

Escuridão crescente crepusculando

Eu era eu, mas agora… Ele se foi

Ninguém a não ser eu pode me salvar, mas já é tarde

Agora não consigo pensar, pensar por que eu deveria sequer tentar

Ontem parece como se nunca tivesse existido

A morte me aquece, agora vou apenas dizer adeus

[ARQUIVO] POEMA DO EX-LOUCO

Originalmente publicado em 7 de outubro de 2010

 

Eu já fui mais louco…

No passado eu era mais alegre, e descompromissado

Eu não precisava desabafar sobre o que acontecia. Eu gargalhava do meu dia!

Fato é que, se já fui mais pinel e insano,

meu temperamento no mundo da escrita ‘inda não mudou tanto!

Já tive amigos mais loucos

Já tive amigos, ainda que poucos

Já falei mais sozinho

Já briguei com o meu vizinho

(de dar soco na cara e unhada, aos sete!)

Já fui ladrão sem motivo

Já fui incontinente urinário,

Já fiz cocô nas calças

Minha vida não passava de um corrimão sem alças!

Sim, uma vez eu gozei invisível!

Risada de vilão! Postura de Tropeço! Porre noventa. Corre dos 90. Dois mil milhões de confusões depois… Maconha sonha com seu estrelato mais que mato. Não comia feijão. Era bêbado sem cair no chão. Decrepitude é: ter saudade de tal idade. Tinha medo de garota que prometia tirar a roupa. Daria aula como o Carlos! Está ágil! Ágio nas operações… Sempre tive um elevado senso de ironia. Mas minha metralhadora machucou muitos que eu não queria!

Estourar bolhas daquele plástico! Sonhar com videogame. Chegou ao consciente o meu geme-geme… solene?! Previsão de morte de alguém toca o sino de…

Loucura é uma filha que parimos tal qual Zeus a sua Athena.

[ARQUIVO] HISTÓRIA DOS JUDEUS – Paul Johnson

Originalmente publicado em 5 de outubro de 2010

GLOSSÁRIO

beduíno: habitante do deserto

falange: infantaria; ossos dos dedos.

filisteu: inimigo dos israelitas. O vocábulo acabou se tornando usual para detratar o sujeito venal na época moderna.

hecatombe: unidade de medida (100 bestas para o sacrifício)

judeca: introdução do tempo linear

mesmerismo: capacidade de atração, carisma. Atributo óbvio do líder religioso.

Mohel: circunsidador

Nickelodeon: local de distração barata

prolegômenos: longo prefácio de uma obra

púlpito: altar

Sabá: pôr-do-sol da sexta até o pôr-do-sol de sábado

zigurate: templo piramidal

PRÓLOGO

“Nenhum povo insistiu com mais firmeza do que os judeus em que a história tem um propósito e a humanidade um destino”

PARTE I – OS ISRAELITAS

“O valor da Bíblia como um registro histórico foi tema de uma argumentação intensa durante 200 anos” “Nas primeiras décadas do século XIX (…) eruditos alemães descartaram o Velho Testamento como um registro histórico e classificaram grandes partes dele como mito religioso. Os 5 primeiros livros da Bíblia, o Pentateuco, agora eram apresentados como uma lenda transmitida oralmente de várias tribos hebréias que alcançaram uma forma escrita somente depois do Exílio, na 2ª metade do 1º milênio a.C. Essas lendas, assim se argumentava, eram cuidadosamente editadas, fundidas e adaptadas para suprir uma justificação histórica e sanção divina às crenças, práticas e rituais religiosos do estabelecimento israelita pós-exílio. Os indivíduos descritos nos livros primitivos não eram pessoas reais, mas heróis míticos ou figuras complexas que denotavam tribos inteiras.”

“O Livro do Deuteronômio, p.ex., se vê em dificuldade para fazer uma distinção entre os povos pagãos desprezados, que adoram a natureza e deuses-natureza, e os judeus que adoram Deus – a pessoa, advertindo-os de ‘que não levantem seus olhos para o céu, e quando virem o sol, e a lua, e as estrelas, mesmo toda a hoste do céu, devessem ser conduzidos a adorá-los’”

O potlatch pode até ser resquício do pretendido, mas é pedaço incompleto. Talvez não por culpa deles? O que é ritual, em todas as culturas? Ruído na comunicação… Ou são estágios intermediários de ascensão (degenerescência) da responsabilidade…

“Abraão pode, talvez, merecer uma descrição mais exata como um henoteísta: um crente em um Deus único, ligado a um povo em particular, que, não obstante, reconhecia a ligação de outras raças com seus próprios deuses.”

“Sempre existiu um problema quanto a com que nome designar os ancestrais dos judeus”

“Contudo, é importante observar que Moisés, embora uma figura desproporcionada, em nenhum sentido era uma figura de super-homem.”

“De uma forma sinistra, a escravidão faraônica foi um prenúncio remoto do programa de trabalho escravo de Hitler e até mesmo de seu Holocausto; os paralelos são perturbadores.”

PARTE II – O JUDAÍSMO

Jeremias e o paradoxo judeu por excelência: Estado, o inimigo da religião. O poder temporal corrompe o espiritual.

“constituindo os judeus cerca de 10% do império romano (…) Essa nação em expansão e uma prolífica diáspora eram as fontes da riqueza e influência de Herodes.”

PAN-JUDAÍSMO: “ele, por sua própria conta, salvou os Jogos Olímpicos do declínio e garantiu que seriam regularmente realizados, e com pompa de dignidade.”

“A morte de Herodes, o Grande, assim efetivamente encerrou a última fase do estável governo judaico na Palestina até meados do séc. XX.”

Coexistência virtualmente pacífica entre judeus e romanos durante o Alto Império, salvo por rebeliões pontuais.

No fim, os escritos de toda a humanidade não passam de xenofobia condensada.

“O rigorismo de Jesus em levar o ensinamento de Hillel a sua conclusão lógica fê-lo deixar de ser um sábio ortodoxo em qualquer sentido que tivesse significado e, de fato, deixar de ser um judeu.”

“É fora do normal falar de anti-semitismo na antiguidade pois o próprio termo não fôra cunhado até 1879.”

“Nada existe na igreja primitiva, a não ser a sua cristologia, que não tenha sido pressagiado no judaísmo.”

“Tinham o único sistema de bem-estar que existia.”

“Como o Cristianismo, o Islamismo foi originalmente um movimento heterodoxo dentro do Judaísmo, que se desviou para o ponto em que se tornou uma religião em separado, e, assim, rapidamente desenvolveu sua própria dinâmica e características.”

PARTE III – A CATEDOCRACIA

O “círculo vicioso” judio: quão mais oprimidos, mais recorriam à usura para com as outras raças; quanto mais faziam isso, mais eram odiados, criando um panorama insuportável.

Aqueles obrigados à conversão cristã que mantinham os ritos secretamente eram chamados de marranos.

Averróis: em outra coisa eu e os judeus somos Um só: estudamos e nos apegamos aos livros como forma de nos protegermos do “nonsense do mundo”.

Maimônides, considerado o maior catedocrata, comparado a Spinoza, devido a sua serenidade racional e ao mesmo tempo religiosa sui generis.

“Os judeus praticavam tanto a magia branca como a negra”

Os gnósticos como descendentes dos gregos místicos que infectavam o Talmude com fantasias e imagens, o que ofendia os judeus puristas.

Os franciscanos da Itália eram notórios anti-semitas.

PARTE IV – O GUETO

“a lenda do Judeu Errante assumiu forma já desenvolvida por volta dessa época.”

“a ascensão do protestantismo trouxe enorme benefício para os judeus (…) Erasmo considerava a erudição judaica mais destrutiva da fé que o obscurantismo dos escolásticos medievais. (…) Lutero, em particular, se voltou para os judeus pedindo apoio para sua nova interpretação da Bíblia e sua rejeição das reivindicações papais. (…) depois em 1543 voltou-se contra eles furioso. (…) Seu panfleto Von den Juden und ihren Lügen (‘Dos Judeus e suas Mentiras’), publicado em Wittenberg, pode ser designado como a 1ª obra do atual antissemitismo, e um gigantesco passo em direção à via para o Holocausto.”

“Judeus e marranos eram particularmente ativos em colonizar o Brasil; o 1º governador-geral, Tomé de Souza, enviado em 1549, era certamente de origem judaica. Eles possuíam a maioria das plantações de cana-de-açúcar. Controlavam o comércio de pedras preciosas e semipreciosas. Judeus expulsos do Brasil em 1654 ajudaram a criar a indústria do açúcar em Barbados e Jamaica.”

Bodin, Bacon

“A vida de um financista de guerra judeu era vulnerável. Porém, quando a vida de qualquer judeu não fôra vulnerável?” “durante a Guerra dos Trinta Anos, pela 1ª vez em sua história, os judeus foram mais bem-tratados do que a população como um todo. Enquanto a Alemanha passava pela pior angústia de sua história, os judeus sobreviveram e até mesmo prosperaram.”

“Um Eleitor da Saxônia, que empregava umas 20 famílias judias em torno de sua corte, ofereceu 5 mil táleres a um patriarca para fazer a sua barba. Porém o homem se recusou e o eleitor, em sua fúria, pediu tesouras e a cortou ele mesmo.”

Quando alguns rabinos calcularam que a vinda do messias ocorreria na ou por causa da Ilha pela diáspora, é impossível não traçar um paralelo com o marxismo e seu anti-capitalismo global que, não obstante, apresentava a Grã-Bretanha como o centro difusor da força operária.

“em 1697, de cem corretores na Bolsa de Londres, 20 eram judeus ou estrangeiros”

“A obra de Sombart foi posteriormente desacreditada porque foi usada pelos nazistas para justificar sua distinção entre o cosmopolitismo comercial judeu e a cultura nacional alemã.”

“[Spinoza] Não comia praticamente nada exceto mingau de aveia com um pouco de manteiga e sopa de cereal com passas” “Morreu, com 40 anos, de tuberculose e seu patrimônio era tão pequeno que sua irmã Rebecca recusou-se a administrá-lo” “Não é difícil ver que Spinoza apela para um tipo cerebral porém insensível de filósofo, como Bertrand Russell.”

“O Iluminismo francês era brilhante mas fundamentalmente frívolo, o alemão era sério, sincero e criativo. Daí era à versão alemã que os judeus iluminados se sentiam atraídos.”

“Em meados do século XVIII os resultados eram desprezivelmente manifestos para todos (…) os judeus pareciam aos cristãos (…) figuras de desdém e escárnio, vestidos com roupas engraçadas, presas de ridículas superstições antigas, tão distantes e isoladas da sociedade moderna como uma de suas tribos perdidas.”

Mendelssohn

PARTE V – A EMANCIPAÇÃO

“O exercício inteiro, dizia Heine com desprezo, era transformar ‘uma pequena Cristandade protestante em uma companhia judia. Eles fabricam um manto com a lã do Cordeiro de Deus, uma camisola com as penas do Espírito Santo e ceroulas com o amor cristão, e entrarão em falência e seus sucessores serão chamados: Deus, Cristo & Cia.’” “Na década de 1820 substituiu a Byron como o poeta mais grandemente aclamado da Europa.”

Burke

“1881 [grande êxodo russo] foi o ano mais importante na história judaica desde 1648, na verdade desde a expulsão dos judeus da Espanha em 1492.”

Waldo Emerson

Daniel Deronda, de George Eliot, “pouco lido”, mas “provavelmente o romance de maior influência do século XIX”.

Gide

“Em 1886, a Alemanha elegeu seu 1º deputado antissemita oficial: por volta de 1890 havia quatro; e 16 em 1893. Em 1895, os antissemitas eram praticamente a maioria na pequena assembléia legislativa.”

“Nas duas primeiras décadas dos Jogos Olímpicos ressuscitados, os judeus alemães ganharam 13 medalhas de ouro e 3 de prata em esgrima com florete e sabre. (…) Homens cujos avós falavam iídiche, que não possuía palavras para a guerra, chegaram, em 1914-18, a acumular mais de 31.500 Cruzes de Ferro como condecoração.”

Mahler, Schönber, Alban Berg

PARTE VI – HOLOCAUSTO

“Lenin, em particular, tornou-se um oponente feroz dos direitos especificamente judeus, ‘A idéia de uma <nacionalidade> judaica é definitivamente reacionária’, ele escreveu em 1903.”

Isaac Babel (1894-1940), talvez o único grande escritor judeu que a Revolução Russa produziu.” “Ele apareceu no Congresso de Escritores de 1934, para fazer um discurso misterioso, irônico, pedindo que o partido, em sua infinita benevolência, privasse os escritores de apenas uma liberdade – a liberdade de escrever mal. Ele mesmo, disse ele, estava praticando um novo gênero literário e estava se tornando ‘um mestre do silêncio’. ‘Eu tenho tanto respeito pelo leitor’, ele acrescentou, ‘que eu estou mudo’. A seu devido tempo ele foi preso, e desapareceu para sempre, provavelmente sendo morto no início de 1940. A culpa alegada foi tomar parte em uma ‘conspiração literária’, mas a verdadeira foi simplesmente que ele uma vez conhecera a esposa de Nicholai Yezhov, o desfavorecido chefe político do NKVD. Na Rússia de Stalin isso era o bastante – especialmente para um judeu.”

ANOS DE KU KLUX KLAN: “os judeus consideravam um triunfo que, nos 9 anos difíceis, 1933-41, eles conseguiram fazer entrar 157 mil judeus alemães nos EUA, cerca do mesmo número que entrara no único ano de 1906.”

“O aspecto médico-sexual do antissemitismo de Hitler era provavelmente o mais importante (…) Um judeu que detinha uma cátedra universitária, que escrevesse um alemão impecável, que havia servido durante toda a guerra e recebido a Cruz de Ferro, era apenas tão perigoso como poluidor da raça como um comissário judeu bolchevista.”

“A partir de setembro de 1941 todos os judeus de 6 anos de idade ou mais tiveram de usar uma estrela de Davi, preta sobre um fundo amarelo, do tamanho da palma da mão, com a palavra Jude em seu centro.” “Os SS praticavam orgias de surras e açoitamentos: em Nasielsky, já em 1940, 1600 judeus foram açoitados a noite inteira. O exército alemão, que se antipatizava com os SS, mantinha arquivos desses incidentes, e alguns sobreviveram.” “Sem as ferrovias, o Holocausto não teria sido possível” “Os austríacos eram piores que os alemães. Desempenharam um papel no Holocausto em completa desproporção com o número deles.” “Os romenos não eram melhores que os austríacos. De um e de outro modo até piores.” “as notícias sobre o Holocausto tinham reportagem deficiente e tendiam a desaparecer no aturdimento geral da guerra de histórias de horror.” “Nenhum judeu era velho demais para não ser assassinado.” “Nenhuma igreja teve bom comportamento durante a guerra.”

PARTE VII – SIÃO

Três correntes sionistas: bengurionistas, weizmannistas e sternistas, cada uma mais radical que a outra; até entrar em campo uma quarta, ainda mais radical, capitaneada pelo sobrevivente do Holocausto Menachem Begin.

“Os países árabes podiam se permitir perder muitas guerras. Israel não podia se permitir perder nenhuma. Uma vitória israelense não podia conseguir a paz. Porém uma derrota israelense significava catástrofe. Israel sempre vira o Egito como seu inimigo mais perigoso, aquele mais provável de desfechar o golpe de nocaute. Porém o Egito também era o mais sintético dos opositores de Israel. Seu povo não era constituído de árabes autênticos.”