SER E TEMPO – Heidegger (trad. Marcia Sá Cavalcante Schuback, Ed. Universitária São Francisco)

15ª edição, 2005, Vozes.

APRESENTAÇÃO – Emmnauel Carneiro Leão

Não tanto o rigor sistemático como, sobretudo, o caráter provocador do questionamento fizeram da questão de Ser e Tempo o maior desafio para o pensar do séc. XX. Em ritmo revolucionário, Ser e Tempo se pôs à altura da Fenomenologia do Espírito (…) e do Zaratustra (…)”

tudo é pensável a não ser a condição de possibilidade da própria representação.” Emulação simples de Schopenhauer

Para o pensamento não há lugar preenchido num tempo ocupado.”

Esta imersão nos proporciona, a cada passo, a experiência de sentir a impossibilidade de falar e dizer o que é o ser.”

ainda não chegamos ao <coração intrépido do des-velamento da circularidade perfeita>”

viagem de retraimento de um horizonte que, longe de nos repelir, nos atrai e arrasta.”

atravessar o esquematismo” atravessar o pântano hegeliano!

As peculiaridades e estranhezas da linguagem de Ser e Tempo não provêm de idiossincrasias do autor. São exigências e imposições da própria viagem da questão, pelas vias das línguas.” “A tradução brasileira de Márcia Sá Cavalcanti se sobrecarrega das dificuldades inerentes ao estágio atual da língua portuguesa.” “Sem um mínimo de respeito, sem o menor esforço de naturalização, transplantam-se as palavras técnicas, os termos científicos, as siglas publicitárias das línguas exportadoras de bens, serviços e invenções para as línguas importadoras. … e em conseqüência se esvai a vitalidade no falar e dizer” “O português ainda não explorou nem desenvolveu o suficiente os recursos de seu espírito criador com tentativas renovadas de pensamento filosófico, poético ou inventivo. Por isso não tem [sequer] muita tradição de fracasso na vida do pensamento. E, sem fracasso em tentativas de dizer e escutar o gênio da linguagem nas aventuras do discurso, não se aprende nem a pensar o não-dito da fala e do silêncio, nem a esperar o inesperado nas esperas e esperanças de um povo empenhado pela identidade” Bela prosa cacofônico-poética!

o silêncio do sentido (…) nada criativo” Na verdade o prefaciador perdeu uma excepcional oportunidade: calar-se.

OBSERVAÇÃO PRELIMINAR À 7ª EDIÇÃO, 1953 (25 anos depois…)

O que pode querer dizer um livro inacabado que foi desistido de ser acabado? Heidegger desacredita de sua própria obra ou tinha forçosamente de ser assim, desde o momento mais originário?

remete-se à [He.] Introdução à metafísica

* * *

Será que hoje temos uma resposta para a pergunta sobre o que queremos dizer com a palavra <ente> [coisa]? De forma alguma.”

Será que hoje estamos em aporia por não compreendermos a expressão <ser>? De forma alguma.”

A elaboração concreta da questão sobre o sentido do <ser> é o propósito do presente tratado. A interpretação do tempo como horizonte possível de toda e qualquer compreensão do ser em geral é sua meta provisória.” O leitor está avisado: propor-se-á a questão, sem qualquer rudimento seguro de resposta. Num longo e denso tratado. Ao menos eu o “encolhi” nesta seleção dos trechos fundamentais (explicados e criticados)!

EXPOSIÇÃO DA QUESTÃO SOBRE O SENTIDO DO SER [INTRODUÇÃO]

1. NECESSIDADE, ESTRUTURA E PRIMADO DA QUESTÃO DO SER

O que Aristóteles e Platão conquistaram manteve-se, em muitas distorções e <recauchutagens>, até a Lógica de Hegel. E o que se arrancou aos fenômenos encontra-se trivializado.”

evidência meridiana”

Illud, quod primo cadit sub apprehensione, est ens, cuius intellectus includitur in omnibus, quaecumque quis apprehendit.” Tomás de Aquino

Uma compreensão do ser já está sempre incluída em tudo que se apreende na coisa.”

Unidade da analogia: com essa descoberta, Aristóteles colocou numa base nova o problema do ser, apesar de toda dependência da questão ontológica de Platão. No entanto, ele também não esclareceu a obscuridade desses nexos categoriais. A ontologia medieval discutiu variadamente o problema, sobretudo nas escolas tomista e escotista, sem, no entanto, chegar a uma clareza de princípio. E quando, por fim, Hegel determina o <ser> como o <imediato indeterminado> e coloca essa determinação à base de todas as ulteriores explicações categoriais de sua Lógica, ele ainda permanece na mesma direção da antiga ontologia com a diferença de que abandona o problema já colocado por Aristóteles da unidade do ser face à variedade multiforme das <categorias> reais. Quando se diz, portanto, que o <ser> é o conceito mais universal, isso não pode significar que o conceito de ser seja o mais claro

de fato, o <ser> não pode ser concebido como ente; enti non additur aliqua natura: o <ser> não pode ser determinado acrescentando-lhe um ente. [alternativamente: o ente não acrescenta à compreensão da natureza]Aqui, ente = essência, em si, já dado. Por isso a construção heideggeriana famosa é ser-do-ente, sujeito-implícito-inerente-ao-objeto, e não um absurdo ente-do-ser, posto que o sujeito é uma irredutível.

A impossibilidade de se definir o ser [afirmada por Pascal] não dispensa a questão de seu sentido, ao contrário, justamente por isso a exige.” Questionável.

essa compreensão comum demonstra apenas a incompreensão.”

um enigma já está sempre inserido a priori em todo ater-se e ser para o ente enquanto ente.”

O <evidente> deve ser e permanecer o tema explícito da analítica (<o ofício dos filósofos>).”

Repetir a questão do ser significa, pois, elaborar primeiro, de maneira suficiente, a colocação da questão.”

Questionar é procurar cientemente o ente naquilo que ele é e como ele é. A procura ciente pode transformar-se em <investigação> se o que se questiona for determinado de maneira libertadora.”

Todo questionamento de… é, de algum modo, um interrogatório acerca de…”

tornar transparente” “orientação prévia”

nós nos mantemos numa compreensão do <é>, sem que possamos fixar conceitualmente o que significa esse <é>.”

mero conhecimento verbal”

O que é o inessencial da essência?

O ser-dos-entes não <é> em si mesmo um outro ente.

modo próprio de demonstração”

Na medida em que o ser constitui o questionado e ser diz sempre ser-de-um-ente, o que resulta como interrogado na questão do ser é o próprio ente. Este é como que interrogado em seu ser. (…) o ente já deve se ter feito acessível antes, tal como é em si mesmo.”

Em qual dos entes deve-se ler o sentido do ser? De que ente deve partir a saída para o ser? O ponto de partida é arbitrário ou será que um determinado ente possui primazia na elaboração da questão do ser? Qual é este ente exemplar e em que sentido possui ele uma primazia?”

E qual é o ser-do-sentido? De que adianta portanto apurar o sentido de algo obscuro sempiterno?

Esse ente que cada um de nós somos [se o ser fosse uma mera coisa…] e que, entre outras, possui em seu ser a possibilidade de questionar, nós o designamos com o termo pre-sença. [Dasein ou ser-aí]” Todos são pre-senças, mas cada pre-sença é singular (cada ser tem seu aí).

(*) “Pre-sença não é sinônimo de existência e nem de homem. A palavra Dasein é comumente traduzida por existência [mas quer sim dizer existência particular, e só um tolo interpretaria Existenz e Dasein trocando-os um pelo outro quando se apercebesse do contexto]. Em Ser e Tempo, traduz-se, em geral, para as línguas neolatinas pela expressão <ser-aí>, être-là, esser-ci, etc. Optamos pela tradução de pre-sença pelos seguintes motivos: 1) para que não se fique aprisionado às implicações do binômio metafísico essência-existência; 2) para superar o imobilismo de uma localização estática que o <ser-aí> poderia sugerir. O <pre>¹ remete ao movimento da aproximação, constitutivo da dinâmica do ser, através das localizações; 3) para evitar um desvio de interpretação que o <ex> de <existência>² suscitaria caso permaneça no sentido metafísico de exteriorização, atualização, realização, objetivação e operacionalização de uma essência. O <ex> firma uma exterioridade, mas interior e exterior fundam-se na estruturação da pre-sença e não o contrário³”

Referencia nesta nota de rodapé entrevista de Heidegger ao Der Spiegel, Rev. Tempo Brasileiro, n. 50, jul/set 1977.

¹ Implementação das mais absurdas de um tradutor já vistas: nada significa isolado, tem lugar indefinido e intuitivamente transitório e deveria ter sido privilegiado na transposição ao português.

² No máximo poderíamos dizer: desistência – de ler Heidegger!

³ PRECAUÇÕES DESNECESSÁRIAS! Quem há de entender, entenderia mesmo assim; quem não há de entender, não há de entender mesmo assim…

é sempre estéril recorrer a objeções formais como a acusação de um <círculo vicioso>, facilmente aduzível, no âmbito de uma reflexão sobre os princípios. Essas objeções formais não contribuem em nada para a compreensão do problema”

O ser é pressuposto, mas não como um conceito disponível, não como o que é procurado.”

visualização preliminar do ser”

Não pode haver <círculo vicioso> na colocação da questão sobre o sentido do ser porque não está em jogo, na resposta, uma fundamentação dedutiva, mas uma exposição de-monstrativa das fundações.” O círculo é sempre feliz e completo, virtuoso.

O que se insinuou foi apenas um primado da pre-sença.”

A elaboração do setor em suas estruturas fundamentais já foi, de certo modo, efetuada pela experiência e interpretação pré-científicas da região do ser que delimita o próprio setor de objetos. Os <conceitos fundamentais> assim produzidos constituem, de início, o fio condutor da primeira abertura concreta do setor.”

O <movimento> próprio das ciências se desenrola através da revisão mais ou menos radical e invisível para elas próprias dos conceitos fundamentais. O nível de uma ciência determina-se pela sua capacidade de sofrer uma crise em seus conceitos fundamentais. Nessas crises imanentes da ciência, vacila e se vê abalado o relacionamento das investigações positivas com as próprias coisas em si mesmas.”

BECOS SEM-SAÍDA NÃO IMPORTA O CÁLCULO: “A ciência mais rigorosa e de estrutura mais consistente, a matemática, parece sofrer uma <crise de fundamentos>.” “A teoria da relatividade na física nasceu da tendência de apresentar o nexo próprio da natureza tal como ele <em si> mesmo se constitui. Como teoria das condições de acesso à própria natureza, a teoria da relatividade procura preservar a imutabilidade das leis do movimento através de uma determinação de toda a relatividade [novo absoluto fenomenológico, nova variável empírica de eleição], com isso, coloca-se diante da questão da estrutura do setor de objetos por ela pressuposto, i.e., do problema da matéria.”

a história literária se torna história dos problemas.”

Pouco a pouco a teologia começa a entender de novo a visão de Lutero para quem a sistematização dogmática repousa sobre um questionamento que, em sua origem, não advém de um questionamento da fé, e cuja conceituação, mais do que insuficiente para a problemática teológica, a encobre e até mesmo deturpa.”

Essas investigações devem anteceder às ciências positivas. E isso é possível. O trabalho de Platão e Aristóteles são uma prova.” “A <lógica> é um esforço subseqüente e claudicante que analisa o estado momentâneo de uma ciência em seu <método>.” Ora, nossa lógica é aristotélica.

Assim, o que é primeiro filosoficamente não é uma teoria da conceituação da história, nem a teoria do conhecimento histórico e nem a epistemologia do acontecer histórico enquanto objeto da ciência histórica, mas sim a interpretação daquele ente propriamente histórico em sua historicidade.”

A lógica transcendental [Kant] é uma lógica do objeto a priori, a natureza, enquanto setor ontológico. § O questionamento,¹ porém – a ontologia no sentido mais amplo – independente de correntes e tendências ontológicas –, necessita de um fio condutor. [vocês ainda enjoarão desse binômio!] Sem dúvida, o questionamento ontológico é mais originário do que as pesquisas ônticas das ciências positivas. No entanto, permanecerá ingênuo e opaco, se as suas investigações sobre o ser-dos-entes deixarem sem discussão o sentido do ser em geral.”

¹ Depreende-se que em contraposição à lógica transcendental do Iluminismo He. propõe uma lógica do questionamento como metodologia para a filosofia? Nome um tanto estranho!

A questão do ser visa às condições de possibilidade das próprias ontologias que antecedem e fundam as ciências ônticas.”

Chamamos existência [Existenz] ao próprio ser com o qual a pre-sença pode se comportar dessa ou daquela maneira e com o qual ela sempre se comporta de alguma maneira [simplificando, o universo, a matéria]. Como a determinação essencial desse ente [o próprio universo! obviamente ele só pode ser um ser, um modo, nunca um objeto para nós…] não pode ser efetuada mediante a indicação de um conteúdo qüididativo [o quê? quem?], já que sua essência reside, ao contrário, no fato de dever sempre assumir o próprio ser como seu, escolheu-se o termo pre-sença [SER-AÍ] para designá-lo enquanto pura expressão de ser.”

(*) “A palavra existência resulta da aglutinação da preposição ek e do verbo sistere. (…) Nessa acepção, só o homem existe [tem presença]. Deus é mas não existe. O carro é mas não existe. [ambos só existem em nossa consciência, i.e., somente são em…]Ref. Carta sobre o Humanismo – cheira a uma refutação de Sartre.

Questionamento existenciário [existenziell] como algo banal (mera constatação: toda era tem seu Zeitgeist; por que eu sou isso ou aquilo? por condições históricas determinadas, condições de possibilidade de sê-lo tal qual – basicamente existencialismo 101 mal-aplicado, e muito aplicado, por-aí…), inferior ao questionamento existencial [Existenzialität]. nível ôntico x nível ontológico

(*) “co-pertinência originária de existência, existencial, existenciário nas épocas da pre-sença.”

Assim, a compreensão do ser, própria da pre-sença, inclui, de maneira igualmente originária, a compreensão de <mundo> e a compreensão do ser-dos-entes que se tornam acessíveis dentro do mundo.”

primado ôntico: a pre-sença é um ente determinado em seu ser pela existência.” “primado ontológico: com base em sua determinação da existência, a pre-sença é em si mesma <ontológica>.” “terceiro primado que é a condição ôntico-ontológica da possibilidade de todas as ontologias [missão: determinar a ontologia ou o ente de todos os entes que não têm ser, i.e., que não são (n)o próprio (modo do) ser-aí].”

raízes existenciárias, i.e., ônticas” “Só existe a possibilidade de uma abertura da existencialidade da existência, e com isso a possibilidade de se captar qualquer problemática ontológica suficientemente fundamentada, caso se assuma existenciariamente o próprio questionamento da investigação filosófica como uma possibilidade de ser da pre-sença, sempre existente. Assim esclarece-se também o primado ôntico da questão do ser.” Resumindo: tem-se de começar de algum lugar, e esse lugar é sempre pouco ambicioso…

Já cedo se percebeu o primado ôntico-ontológico da pre-sença, embora não se tenha apreendido a pre-sença em sua estrutura ontológica genuína nem se tenha problematizado a pre-sença nesse sentido.”

A comprovação do privilégio ôntico-ontológico da questão do ser se funda na indicação provisória do primado ôntico-ontológico da pre-sença.”

2. AS DUAS TAREFAS DE UMA ELABORAÇÃO DA QUESTÃO DO SER: O método e o sumário da investigação

Na verdade, a pre-sença não somente está onticamente próxima ou é o mais próximo. Nós mesmos a somos cada vez. Apesar disso, ou justamente por isso, é o que está mais distante do ponto de vista ontológico.” O modo normal do ser-aí em todos os tempos é uma compreensão pré-ontológica de si mesmo. Acontece que agora o Ocidente pede o acabamento de uma metafísica… Momento privilegiado. Entender agora na acepção de vários séculos…

São dificuldades que estão enraizadas no modo de ser do próprio tema e da própria atitude temática e não numa possível insuficiência do aparelhamento de nossa capacidade cognoscitiva ou numa deficiência de conceituação adequada”, o que aliás seria muito conveniente para nós se assim o fosse.

a psicologia filosófica, a antropologia, a ética, a <política>, a poesia, a biografia e historiografia já pesquisaram as atitudes, potências, forças, possibilidades e envios da pre-sença.” “Será que essas interpretações se fizeram de maneira tão originariamente existencial como talvez tenham sido originariamente existenciárias? [Ele faz perguntas para as quais é evidente que responde NÃO.] Ambas as maneiras não precisam coincidir necessariamente, embora também não se excluam.”

Somente depois de se elaborar, de modo suficiente, as estruturas da pre-sença, seguindo uma orientação explícita do problema do ser, é que os resultados obtidos até aqui poderão receber uma justificativa existencial.” E isso apenas no segundo volume.

Da cotidianidade, não se devem extrair estruturas ocasionais e acidentais, mas sim estruturas essenciais. Essenciais são as estruturas que se mantêm ontologicamente determinantes em todo modo de ser de fato da pre-semça.”

Trata-se, sem dúvida, de uma ontologia que se deverá edificar caso uma antropologia <filosófica> se deva apoiar em bases filosóficas suficientes.” “A análise da pre-sença, porém, não é somente incompleta mas também provisória. (…) O que lhe compete é liberar o horizonte para a mais originária das interpretações do ser. Uma vez alcançado esse horizonte, a análise preparatória da pre-sença exige uma repetição em bases ontológicas mais elevadas e autênticas.Estaria de antemão se referindo à parte jamais escrita?

A temporalidade (Zeitlichkeit) será de-monstrada como o sentido da pre-sença.” Mas nada verdadeiro se ganhará com isso, como havemos de ver. Ou ainda melhor: sentido da pre-sença é uma coisa, do ser é outra coisa…

deve-se agora mostrar que o tempo é o ponto de partida do qual a pre-sença sempre compreende e interpreta implicitamente o ser.” O tempo é o horizonte ou norte. O tempo é o próprio espaço subsumido, afinal. Isso é o que Hegel diz. Mas Heidegger refutará esse conceito de tempo mais à frente. Ou dirá: esse é o tempo; o tempo é mero modo ôntico; o modo ontológico do tempo é o(a) temporal/temporalidade.

tempo como ser-do-ser-aí”

o conceito vulgar de tempo (…) consolidad[o] (…) desde Aristóteles até depois de Bergson. Nessa tarefa, deve-se esclarecer que e como esse conceito e sua respectiva compreensão do tempo brotam e derivam da temporalidade. Com isso, restitui-se ao conceito vulgar de tempo sua razão própria em oposição à tese de Bergson para quem o tempo nele indicado é espaço. [praticamente a antítese de Hegel]

<Temporal> diz aqui sendo e estando a cada vez <no tempo>, determinação esta que, sem dúvida, é ainda bastante obscura.”

BORRASCA DO SER: “Também o <não-temporal>, o <atemporal> e o <supratemporal> são, em seu ser, <temporais>.” “Como a expressão <temporal> é usada tanto na linguagem pré-filosófica como na linguagem filosófica no sentido indicado, e como, por outro lado, essa expressão é tomada na presente investigação em outro sentido, denominaremos a determinação originária do sentido do ser e de seus modos e caracteres a partir do tempo de determinação temporária.” É mesmo um dândi. Temporalidade temporariedade

A determinação de historicidade se oferece antes [mais originariamente] daquilo a que se chama de história (acontecimento pertencente à história universal). Historicidade indica a constituição ontológica do <acontecer> próprio da pre-sença como tal. É com base na historicidade que a <história universal>, e tudo que pertence historicamente à história do mundo, se torna possível.” “a pre-sença é sempre como e <o que> ela já foi. Explicitamente ou não, a pre-sença é sempre o seu passado e não apenas no sentido do passado que sempre arrasta <atrás> de si e, desse modo, possui, como propriedades simplesmente dadas, as experiências passadas que, às vezes, agem e influem sobre a pre-sença. Não. A presença <é> o seu passado no modo de seu ser, o que significa, a grosso modo, que ela sempre <acontece> a partir de seu futuro.” “a pre-sença sempre já nasceu e cresceu dentro de uma interpretação de si mesma, herdada da tradição.” “Essa historicidade elementar da pre-sença pode permanecer escondida para ela mesma, mas pode também ser descoberta e se tornar objeto de um cuidado especial.” “A história factual (Historie) ou, mais precisamente, a factualidade historiográfica (Historizität) só é possível como modo de ser da pre-sença que questiona porque, no fundamento de seu ser, a pre-sença se determina e constitui pela historicidade.” “somente apropriando-se positivamente do passado é que ela pode entrar na posse integral das possibilidades mais próprias de seu questionamento.” “a pre-sença também de-cai em sua tradição [além de cair, sempre tendo um já dado para si própria]

TRADIÇÃO vs. SER-AÍ

A tradição até faz esquecer essa proveniência. Cria a convicção de que é inútil compreender simplesmente a necessidade do retorno às origens.” Tradição historiográfica é uma contradição em termos. Historiógrafos: aqueles sem-tradição. Mas existem historiógrafos e historiógrafos: falo do ideal, no sentido oposto ao descrito abaixo por Heidegger (historiografia da má-fé, século XIX, etc.).

A conseqüência é que, com todo o seu interesse pelos fatos historiográficos e em todo o seu empenho por uma interpretação filologicamente <objetiva>, a pre-sença já não é capaz de compreender as condições mais elementares que possibilitam um retorno positivo ao passado, no sentido de sua apropriação produtiva.”

A ontologia grega e sua história, que ainda hoje determina o aparato conceitual da filosofia, através de muitas filiações e distorções, é uma prova de que a pre-sença se compreende a si mesma e o ser em geral a partir do <mundo>.”

transformada em simples material de reelaboração (Hegel).” “Em sua cunhagem escolástica, o essencial da ontologia grega se transpôs, através das Disputationes Metaphysicae de Suárez, para a metafísica e filosofia transcendental da Idade Moderna, chegando ainda a determinar os fundamentos e objetivos da Lógica de Hegel.”

destruição do acervo da antiga ontologia” “A destruição também não tem o sentido negativo de arrasar a tradição ontológica. Ao contrário, ela deve definir e circunscrever a tradição em suas possibilidades positivas e isso quer sempre dizer em seus limites, tais como de fato se dão na colocação do campo de investigação possível. Negativamente, a destruição não se refere ao passado; a sua crítica volta-se para o <hoje> e os modos vigentes de se tratar a história da ontologia, quer esses modos tenham sido impostos pela doxografia, quer pela história da cultura ou pela história dos problemas.” Todo esse raciocínio de He. é plagiado descaradamente de Nietzsche em seus escritos sobre a História, sem citação da fonte.

Kant foi o primeiro e o único a dar um passo no caminho de investigação para a dimensão da temporariedade. Ou melhor, Kant foi o primeiro que se deixou encaminhar, nesse caminho, pela pressão dos próprios fenômenos.”

Ele próprio sabia que estava se aventurando numa região obscura: <Esse esquematismo de nosso entendimento, no tocante aos fenômenos e a sua forma, é uma arte escondida nas profundezas da alma humana, cujos mecanismos verdadeiros dificilmente poderíamos arrancar à natureza para colocá-los a descoberto diante de nossos olhos> [Crítica da razão pura]”

Também se haverá de mostrar por que Kant fracassou na tentativa de penetrar na problemática da temporariedade.” 1) a falta da questão do ser; 2) a falta da ontologia do ser-aí. “Devido a essa dupla influência da tradição, a conexão decisiva entre o <tempo> e o <eu penso> permaneceu envolta na mais completa escuridão, não chegando sequer uma vez a ser problematizada.” “Com o <cogito sum>, Descartes pretende dar à filosofia um fundamento novo e sólido. O que, porém, deixa indeterminado nesse princípio <radical> é o modo de ser da res cogitans ou, mais precisamente, o sentido do ser do <sum>. A elaboração dos fundamentos ontológicos implícitos no <cogito sum> constitui o ponto de parada na segunda estação a caminho de um retorno destrutivo à história da ontologia.”

ens creatum”

Ser criado, no sentido amplo de ser produzido, constitui um momento essencial na estrutura do antigo conceito de ser.” “Com base neste preconceito, a posteridade moderna omitiu uma análise ontológica do <ânimo>, que deveria ser conduzida pela questão do ser e, ao mesmo tempo, como uma discussão crítica da antiga ontologia legada pela tradição.”

Todo conhecedor da Idade Média percebe que Descartes <depende> da escolástica medieval. Essa descoberta, porém, não diz nada, do ponto de vista filosófico, enquanto a influência fundamental exercida pela ontologia medieval na determinação ou na não-determinação posterior da res cogitans permanecer obscura.”

O ente [em Platão] é entendido em seu ser como <vigência>, isto é, a partir de determinado modo do tempo, do <presente>.” “a pre-sença, i.e., o ser-do-homem” “É por isso que a ontologia antiga, elaborada por Platão, torna-se uma <dialética>.” Homem, o animal-que-dialoga-e-desperta-idéias-já-tidas.

Essa interpretação grega do ser foi desenvolvida sem nenhuma consciência explícita do seu fio condutor, sem saber e, sobretudo, sem compreender a função ontológica do tempo e sem penetrar no fundamento de possibilidade dessa função. Ao contrário: o próprio tempo é considerado como um ente entre outros, buscando-se apreender a estrutura do seu ser no horizonte de uma compreensão do ser orientada, implícita e ingenuamente, pelo próprio tempo.”

fundamentos da antiga ontologia – sobretudo em seu grau mais puro e elevado, alcançado por Aristóteles.” “tornar-se-á claro, retrospectivamente, que a concepção kantiana do tempo se move dentro das estruturas apresentadas por Aristóteles. Isso significa que a orientação ontológica fundamental de Kant é grega, não obstante todas as diferenças que uma nova investigação comporta.”

O método fenomenológico permanecerá altamente questionável caso se queira recorrer às ontologias historicamente dadas ou a tentativas congêneres. (…) não se pode seguir o caminho da história das ontologias para se esclarecer o método.” “O uso do termo ontologia não visa a designar uma determinada disciplina filosófica entre outras. Não se pretende, de forma alguma, cumprir a tarefa de uma dada disciplina, previamente dada. Ao contrário, é a partir da necessidade real de determinadas questões e do modo de tratar imposto pelas <coisas em si mesmas> que, em todo caso, uma disciplina pode ser elaborada.” “enquanto se compreender a si mesma, a fenomenologia não é e não pode ser nem um ponto de vista nem uma corrente. [superestima suas possibilidades] A expressão fenomenologia diz, antes de tudo, um conceito de método. Não caracteriza a qüididade [conteúdo, o que são] real dos objetos da investigação filosófica mas o seu modo, como eles o são. Quanto maior a autenticidade de um conceito de método e quanto mais abrangente determinar o movimento dos princípios de uma ciência, tanto maior a originariedade em que ele se radica numa discussão com as coisas em si mesmas e tanto mais se afastará do que chamamos de artifício técnico, tão numerosos em disciplinas teóricas.” “Exteriormente, o termo fenomenologia corresponde, no que respeita a sua formação, à teo-logia, bio-logia, sócio-logia, termos que se traduzem por ciência de Deus, da vida, da sociedade.” “A história da palavra em si, que apareceu, segundo se presume, na Escola de Wolff, não tem aqui importância.”

fenômeno = o que se mostra em si mesmo

estudo das coisas que são tais quais elas são ou parecem ser (raiz grega que combina ilusão e verdade)

aparecer, parecer, aparência

revelar, revelação, auto-revelação, automanifestação

amostra, anunciar-se de… (intermediário, imagem de algo)

Manifestação e aparência se fundam, de maneira diferente, no fenômeno. Essa multiplicidade confusa dos <fenômenos> que se apresenta nas palavras fenômeno, aparência, aparecer, parecer, manifestação, mera manifestação, só pode deixar de nos confundir quando se tiver compreendido, desde o princípio, o conceito de fenômeno: o que se mostra em si mesmo.

Quando dizemos que o significado básico de logos é discurso, essa tradução literal só terá valor completo quando se determinar o que é um discurso.” A voz da razão como perfeito pleonasmo!

Malversações ao longo do tempo: razão, juízo, conceito, definição, fundamento, relação, proporção!

Em Aristóteles: discurso transparente

discurso – deixar ver – diz-curso – dizer o curso das coisas – verbo, voz, imagens

Parece uma etimologia contrária à de fenômeno no sentido da elisão ou encobrimento de algo.

E, novamente, porque o LOGOS é um deixar e fazer ver, por isso é que ele pode ser verdadeiro ou falso.”

Fenomenologia, a seguir esta carreira, poderia até querer dizer explicitação do implícito, etc., dialética de mentira-verdade das coisas, etc.

Quando, hoje em dia, se determina a verdade como o que pertence <propriamente> ao juízo e se faz remontar essa tese a Aristóteles, comete-se um duplo equívoco, pois essa atribuição a Arist. não é correta e, principalmente, deturpa-se o conceito grego de verdade. Em sentido grego, o que é <verdadeiro> (…) é a simples percepção sensível de alguma coisa.” Uma cor é sempre uma cor. “Isto significa: a visão sempre descobre cores, a audição descobre sempre sons.” “o máximo que pode acontecer [em termos de falseamento] é não haver percepção

A ARTE DO DISCURSO: “O que já não possui a forma de exercício de um puro deixar e fazer ver mas que, para de-monstrar, recorre sempre a uma outra coisa e assim deixa e faz ver cada vez algo como algo, assume, junto com esta estrutura sintética, a possibilidade de en-cobrir. A <verdade do juízo>, [falsificação moderna] porém, é somente a contrapartida deste encobrir, i.e., um fenômeno de verdade derivado em muitos aspectos. Tanto o realismo quanto o idealismo se equivocam no que respeita ao sentido grego de verdade. Somente nesse conceito é que se poderá compreender a possibilidade de uma <teoria das idéias>.”

Examinando-se concretamente os resultados da interpretação de <fenômeno> e <logos>, salta aos olhos a íntima conexão que os liga.” “deixar e fazer ver por si mesmo aquilo que se mostra, tal como se mostra a partir de si mesmo.” “O termo fenomenologia tem, portanto, um sentido diferente das designações como teologia, etc. Estas evocam os objetos de suas respectivas ciências, em seu conteúdo qüididativo. O termo <fenomenologia> nem evoca o objeto de suas pesquisas nem caracteriza o seu conteúdo qü..”

Modo do demonstrar

Estudo o mais direto possível

Descrição de essências (fenômenos em si mesmos)

A ontologia só é possível como fenomenologia.” “<Atrás> dos fenômenos da fenomenologia não há absolutamente nada” “O conceito oposto de <fenômeno> é o conceito de encobrimento.” “Este encobrimento na forma de <desfiguração> é o mais freqüente e o mais perigoso, pois as possibilidades de engano e desorientação são particularmente severas e persistentes.” “Quer no sentido de velamento [ignorância de um fenômeno] ou entulhamento [seu ocultamento posterior à descoberta], quer ainda como desfiguração [troca de imagem para uma falsa aparência], o próprio encobrimento dispõe, por sua vez, de duplas possibilidades.” “A possibilidade de uma petrificação, endurecimento e inapreensão do que se apreendeu originariamente se acha no próprio trabalho concreto da fenomenologia.”

apreender, sentir-se apreensivo, apreensão

Fenomenologia da pre-sença é hermenêutica no sentido originário da palavra em que se designa o ofício de interpretar.” “a hermenêutica da pre-sença como interpretação ontológica de si mesma adquire um terceiro sentido específico [1) interpretação ontológica do ser; 2) interpretação ontológica dos entes ou essências, dos fenômenos destituídos de ser, i.e., ser-aí;] – sentido primário do ponto de vista filosófico – a saber, o sentido de uma analítica da existencialidade da existência. Trata-se de uma hermenêutica que elabora ontologicamente a historicidade da pre-sença como condição ôntica [sine qua non] de possibilidade da história factual.”

O ser é o transcendens pura e simplesmente. A transcendência do ser do ser-aí é privilegiada porque nela reside a possibilidade e a necessidade da individuação mais radical.” “A verdade fenomenológica (abertura do ser) é veritas transcendentalis.”

A filosofia é uma ontologia fenomenológica e universal que parte da hermenêutica do ser-aí, a qual, enquanto analítica da existência, amarra o fio de todo questionamento filosófico no lugar de onde ele brota e para onde retorna.”

As investigações que se seguem são apenas possíveis na base estabelecida por E. Husserl, cujas Investigações Lógicas fizeram nascer a fenomenologia.” “A compreensão da fenomenologia depende unicamente de se apreendê-la como possibilidade.” Rasga elogios à página 70.

<DESCULPEM-ME O LINGUAJAR PESADO>: “Caso seja lícita uma referência a investigações ontológicas anteriores, embora incomparáveis em seu nível, confrontem-se os trechos ontológicos do Parmênides de Platão ou o 4º capítulo do VII livro da Metafísica de Arist. com uma passagem narrativa de Tucídides. Ver-se-á, nas formulações, o inaudito que os filósofos exigiam dos gregos. Quando as forças são essencialmente menores e o setor do ser que se deve abrir é ontologicamente muito mais difícil do que o que foi dado aos gregos, crescerá a dificuldade de formação de conceitos e a dureza das expressões.”

Em si mesma a pre-sença é <histórica>, de maneira que o esclarecimento ontológico próprio deste ente [modo] torna-se sempre e necessariamente uma interpretação <referida a fatos históricos>.”

PRIMEIRA PARTE:

A INTERPRETAÇÃO DA PRE-SENÇA [SER-AÍ] PELA TEMPORALIDADE E A EXPLICAÇÃO DO TEMPO COMO HORIZONTE TRANSCENDENTAL DA QUESTÃO DO SER

A rigor esta é também a última parte desenvolvida por Heidegger. De certo modo, poder-se-ia parar de ler este resumo e seleção aqui, após 16 páginas, sem prejuízo algum, caso já se tenha entendido o autor…

PRIMEIRA SEÇÃO:

ANÁLISE PREPARATÓRIA DOS FUNDAMENTOS DA PRE-SENÇA

O ser-no-mundo é um a priori constituinte do ser-aí.

1. EXPOSIÇÃO DA TAREFA DE UMA ANÁLISE PREPARATÓRIA DA PRE-SENÇA

O ente que temos a tarefa de analisar somos nós mesmos (…) O ser é o que neste ente está sempre em jogo.” Não podemos encarar ser, haja vista esta frase, como outra coisa senão vida, o que já foi realizado na filosofia do XIX.

1. A <essência> deste ente está em ter de ser.”

O conteúdo deste ente depende da existência.

é tarefa ontológica mostrar que, se escolhemos a palavra existência para designar o ser-deste-ente, esta não tem nem pode ter o significado ontológico do termo tradicional existentia. Para a ontologia tradicional, existentia designa o mesmo que ser simplesmente dadoDoravante, existência será atributo exclusivo do ser-aí. (objetos ‘não existem’, segundo essa fenomenologia, existir e ser não se confundem, como já visto mais acima)

Nada está dado, a não ser pela minha consciência, e consciência histórica. Abole-se a coisa-em-si.

As características constitutivas da pre-sença são sempre modos possíveis de ser e somente isso. Toda modalidade-de-ser-deste-ente é primordialmente ser.”

Resgate da idéia (pun!) de que a imagem ou idéia platônica não se aplica, p.ex., às mesas.

o termo <pre-sença> não exprime a sua qüididade como mesa, casa, árvore, mas sim o ser.”

2. O ser é sempre meu. Neste sentido, a pre-sença nunca poderá ser apreendida ontologicamente como caso ou exemplar de um gênero [acepção aristotélica] de entes simplesmente dados. Pois, para os entes simplesmente dados, o seu <ser> é indiferente ou, mais precisamente, eles são de tal maneira que o seu ser não se lhes pode tornar nem indiferente nem não-indiferente.” Vinculação que Heidegger encontrou em Descartes num momento privilegiado da metafísica ocidental.

A pre-sença só pode perder-se ou ainda não se ter ganho porque, segundo seu modo de ser, ela é uma possibilidade própria, ou seja, é chamada a apropriar-se de si mesma.”

A im-propriedade da pre-sença não diz <ser> menos nem em grau <inferior> de ser.”

Denominamos esta indiferença cotidiana da pre-sença de medianidade. § Porque a cotidianidade mediana perfaz o que, em 1º lugar, constitui o ôntico deste ente, sempre se passou por cima dela e sempre se passará, nas explicações da pre-sença.”

Então, que há de mais próximo de mim do que eu mesmo? Decerto, eu trabalho aqui, trabalho em mim mesmo, transformei-me numa terra de dificuldades e de suor copioso”

Sto. Agostinho

no modo impróprio do ser-aí está igualmente em jogo o ser-do-ser-aí – o ser-aí se comporta e se relaciona para com este ser via a cotidianidade mediana, mesmo que seja apenas fugindo e se esquecendo dele.”

(*) “SER SIMPLESMENTE DADO = VORHANDENHEIT

Vor (antes de, no tempo) + Hand (mão). Aprioridade no sentido objetivo do materialismo mecanicista: o tipo de aprioridade externa não afetada pelo indivíduo. Na verdade é uma contradição em termos, já que o que é simplesmente dado nunca é ser.

Existenciais e categorias são as 2 possibilidades fundamentais de caracteres ontológicos. (…) o ente é um quem (existência) ou um que (dado).”

A analítica existencial da pre-sença está antes de toda psicologia, antropologia e, sobretudo, biologia.” “<Do ponto de vista epistemológico>, essas investigações são necessariamente insuficientes já pelo simples fato da estrutura de ciência destas disciplinas – o que nada tem a ver com a <cientificidade> daqueles que trabalham para o seu desenvolvimento – ter-se tornado cada vez mais questionável.”

Uma das primeiras tarefas da analítica será mostrar que o princípio de um eu e sujeito, dados como ponto de partida, deturpa, de modo fundamental, o fenômeno da pre-sença.” “Para que se possa perguntar o que deve ser entendido positivamente ao se falar de um ser não-coisificado do sujeito, da alma, da consciência, do espírito, da pessoa, é preciso já se ter verificado a proveniência ontológica da coisificação.” “Não é, portanto, por capricho terminológico que evitamos o uso desses termos bem como das expressões <vida> e <homem> para designar o ente que nós mesmos somos.” “O que chama atenção é o fato de não se questionar ontologicamente a própria <vida> como um modo de ser.”

Junto com Dilthey e Bergson, participam dessas limitações todas as correntes do <personalismo> por eles determinadas, e todas as tendências para uma antropologia filosófica. Mesmo a interpretação fenomenológica da personalidade, em princípio mais radical e lúcida, não alcança a dimensão da questão do ser da pre-sença.”

o ser-da-pessoa não pode exaurir-se em ser um sujeito de atos racionais, regidos por determinadas leis. (Scheler)” “Desde essa 1ª elaboração, Husserl desenvolveu esse problema de modo ainda mais penetrante e profundo, tendo transmitido partes essenciais desse trabalho em suas preleções de Freiburg.”

Um nível de discussão bem bobinho e trivial, como se a fenomenologia tivesse iniciado a filosofia: “A pessoa não é uma coisa, uma substância, um objeto. Com isso se ressalta e acentua a mesma coisa indicada por Husserl, ao exigir para a unidade da pessoa uma constituição essencialmente diferente das coisas da natureza.”

Atos são sempre algo não-psíquico. Pertence à essência da pessoa apenas existir no exercício de atos intencionais e, portanto, a pessoa em sua essência não é objeto algum.”

ANTI-PSICANÁLISE: “Toda objetivação psíquica, por conseguinte toda apreensão de um ato como algo psíquico, equivale a uma despersonalização [desautenticação, para não confundir com o termo psiquiátrico].”

O que, no entanto, constitui um obstáculo e desvia a questão fundamental do ser da pre-sença é a orientação corrente pela antropologia cristã da Antiguidade.” Citação de Gên 1:26

É PLATÃO IMANENTE? “Mas a idéia de <transcendência>, [a ‘má’ transcendência] segundo a qual o homem é algo que se lança para além de si mesmo, tem suas raízes na dogmática cristã, da qual não se pode querer dizer que tenha chegado sequer uma única vez a questionar ontologicamente o ser do homem.”

Na medida em que as cogitationes permanecem ontologicamente indeterminadas, sendo tomadas implicitamente como algo <evidente> e <dado>, cujo <ser> não suscita nenhuma questão, a problemática antropológica fica indeterminada quanto a seus fundamentos ontológicos decisivos.”

Biologia, a ciência do novo século, o século do ser-aí… Iron-ia de ferro.

O fato de as pesquisas positivas não verem os fundamentos e considerá-los evidentes não constitui uma prova de que eles não se achem à base e que não sejam problemáticos, num sentido mais radical do que poderá ser uma tese das ciências positivas. Abertura do a priori não é construção <apriorística>. Com Husserl, não somente voltamos a compreender o sentido de toda <empiria> filosófica autêntica, como aprendemos a manusear os instrumentos aqui necessários. (…) a pesquisa a priori exige a preparação adequada do solo fenomenal.”

BLUES/REDS: “A interpretação da pre-sença em sua cotidianidade não deve, porém, ser identificada como descrição de uma fase primitiva da pre-sença, cujo conhecimento pudesse ser transmitido empiricamente pela antropologia.” “Ainda não ficou estabelecido que a psicologia do cotidiano ou até a psicologia científica e a sociologia, de que faz uso a etnologia, dêem a garantia científica para uma possibilidade adequada de acesso, interpretação e transmissão dos fenômenos a serem investigados. (…) Mas como as ciências positivas não <podem> nem devem esperar pelo trabalho ontológico da filosofia, o desenvolvimento das pesquisas não há de assumir a forma de um <progresso>, mas sim de uma re-petição e purificação ontológica, mais transparente do que tudo que se descobriu onticamente.”

Cassirer, 1925 (do clube de amiguinhos do Husserl)

A comparação sincrética de tudo com tudo e a redução de tudo a tipos ainda não garante de per si um conhecimento autêntico da essência.”

2. O SER-NO-MUNDO EM GERAL COMO CONSTITUIÇÃO FUNDAMENTAL DA PRE-SENÇA

o que indagamos com a interrogação <quem?>”

o banco <dentro do espaço cósmico>.”

Ser simplesmente dado <dentro> de um dado, o ser simplesmente dado junto com algo dotado do mesmo modo de ser, no sentido de uma determinada relação de lugar, são caracteres ontológicos que chamamos de categorias.”

<eu sou> diz: eu moro, me detenho junto…” “O ser-em é, pois, a expressão formal e existencial do ser da pre-sença que possui a constituição essencial de ser-no-mundo.”

A pobre preposição tem de ser-vir (he-he!) ao ente e ao ser, com o perdão da cacofonia, ó, sujeito!

em princípio, a cadeira não pode tocar a parede mesmo que o espaço entre ambas fosse igual a zero.”

o que está feito, está feito, e não se pode fazer mais nada

até meu filho negar isso, no caso

DE FATO

Em H.: relativo ao ser facticidade

relativo ao ente outros sufixos de fa(c)t–…

ontologicamente a pre-sença é cura.” “o ser da pre-sença para com o mundo é, essencialmente, ocupação. [descurado de si]”

(*) Besorgen é ocupação, Sorge é cura. Fürsorge é preocupação.

A tradução decidiu utilizar o radical latino cura para Sorge, ocupação para Besorgen e preocupação para Fürsorge. Os motivos dessa decisão atêm-se ao fato de o próprio Ser e Tempo ter remetido à fábula latina de Higino sobre a Cura e à inexistência em português de derivados de cura na acepção de um relacionamento específico da pre-sença com os seres simplesmente dados e com os seres existentes.” Cura é o modo ontológico do ser-aí; o modo ôntico (imediato, mais baixo) é cuidado.

Não há solipsismo nem puro relativismo porque todo ser está no mundo. No mesmo mundo.

A formulação <ter um mundo circundante>, tão trivial do ponto de vista ôntico, é, do ponto de vista ontológico, um problema.”

Embora experimentado e conhecido pré-fenomenologicamente, o ser-no-mundo se torna invisível por via de uma interpretação ontologicamente inadequada. (…) Desse modo, esta interpretação torna-se o ponto de partida <evidente> para os problemas da epistemologia ou <metafísica do conhecimento>.” “Esta correlação do sujeito-objeto é um pressuposto necessário.”

a presença é obs-cura

Sujeito e objeto, porém, não coincidem com pre-sença e mundo.” “Mas reina um grande silêncio sobre o que significa positivamente o <interior> da imanência em que o conhecimento está, de início, trancado” “Em seu modo de ser originário, a pre-sença já está sempre <fora>, junto a um ente que lhe vem ao encontro no mundo já descoberto.” “E, mais uma vez, a percepção do que é conhecido não é um retorno para a <cápsula> da consciência com uma presa na mão, após se ter saído em busca de apreender alguma coisa.”

3. A MUNDANIDADE DO MUNDO

A descrição fica presa aos entes. É ôntica.”

A substancialidade é o caráter ontológico das coisas naturais, das substâncias. Esse caráter é o fundamento de tudo.”

Será o <mundo> um caráter do ser da pre-sença? Toda pre-sença não terá sempre seu mundo? Mas com isso <mundo> não seria algo <subjetivo>? Como, então, seria possível um mundo <comum> <em> que nós, sem dúvida, estamos?”

<Mundanidade> é um conceito ontológico e significa a estrutura de um momento constitutivo do ser-no-mundo.”

A tarefa de <descrição> fenomenológica do mundo é tão pouco clara que já a sua determinação suficiente exige esclarecimentos ontológicos essenciais. § A polissemia da palavra <mundo> salta aos olhos em seu uso freqüente, bem como nas considerações tecidas até aqui.”

1. Mundo é usado como um conceito ôntico [direto, empírico], significando, assim, a totalidade dos entes que se podem simplesmente dar dentro do mundo.

2. Mundo funciona como termo ontológico [invisível, essencial] e significa o ser dos entes mencionados no item 1.” Em H., “mundo” (<mundo> na minha transcrição do livro). E justo quando eu imaginava que as aspas em H. eram sempre depreciativas ou relativas ao alheio

3. … [irrelevante]

4. (…) A própria mundanidade pode modificar-se e transformar-se, cada vez, no conjunto de estruturas de <mundos> particulares, embora inclua em si o a priori da mundanidade em geral.” Talvez H. considere este seu “mundo definitivo”, daí excluir o 2 de sua fenomenologia, i.e., colocá-lo entre aspas (conceito incompleto).

você é inmundo, pois está no mundo

O ente simplesmente dado <no> mundo, designamos de intramundano ou pertencente ao mundo.”

Entendida em sentido ontológico-categorial, a natureza é um caso limite do ser de um possível ente intramundano. (…) Esse conhecimento tem o caráter de uma determinada desmundanização do mundo.”

(*) Mundo circundante = Umwelt (literalmente: mundo abrangente)

A CARTILHA DAS COORDENADAS BERGSONIANAS: “Ora, a ontologia tentou justamente interpretar o ser do <mundo> como res extensa, partindo da espacialidade. É em Descartes que se mostra a tendência mais extremada para uma ontologia do <mundo> desta espécie, ontologia edificada em contraposição à res cogitans que, porém, não coincide, nem do ponto de vista ôntico nem do ontológico, com a pre-sença.” Descartes apresenta dois eixos-entes que não se tocam. Sintomático.

A. ANÁLISE DA MUNDANIDADE CIRCUNDANTE E DA MUNDANIDADE EM GERAL

Que ente há de ser pré-tematizado e estabelecido como base pré-fenomenal?”

ao se interpelar o ente como <coisa> já se recorre implicitamente a uma caracterização ontológica prévia.”

Será possível alcançar o caráter ontológico daquilo que vem ao encontro no modo de lidar próprio da ocupação, abstraindo-se da obscuridade da estrutura – ser dotado de valor?”

Designamos o ente que vem ao encontro na ocupação com o termo instrumento [Zeug, o alemão para coisa; raiz latina: instrumentum].”

Em sua essência [seu ser], todo instrumento é <algo para…>.”

(*) SER-PARA: quando ser é o substantivo, Sein-zu (nível ontológico); quando ser é o verbo, no sentido de é-para do mero instrumento, no sentido pragmático e funcional, o termo heideggeriano é Um-zu.

se[r]-para[r]-uma-briga

(*) “MANUALIDADE = ZUHANDENHEIT

No exercício histórico da pre-sença, a mão ocupa um lugar central de concretização e desdobramento. O limite para frente desse exercício é imposto pelos seres simplesmente dados (Vor-handenheit). A doação dos desempenhos e das possibilidades de desempenho proporciona os seres à mão, os seres constituídos pela manualidade (Zu-handen): os instrumentos, os utensílios, os equipamentos, os dispositivos, etc.”

(*) “CIRCUNVISÃO = UMSICHT

[a visão do olho de cima, não-semita, não ‘o olho que tudo vê’, a-Argos]

A construção do mundo cotidiano das ocupações não é cega mas guiada por uma visão de conjunto, a circunVisão, que abarca o material, o usuário, o uso, a obra, em todas as suas ordens.”

quanto menos se olhar de fora a coisa martelo, mais se sabe usá-lo, mais originário se torna o relacionamento com ele e mais desentranhado é o modo em que se dá ao encontro naquilo que ele é” “A visualização puramente <teórica> das coisas carece de uma compreensão da manualidade.” “originariamente, contemplar é ocupação [e] agir possui sua visão. A atitude teórica visualiza meramente, sem circunvisão.”

O que está imediatamente à mão se caracteriza por recolher-se em sua manualidade para, justamente assim, ficar à mão. O modo de lidar cotidiano não se detém diretamente nas ferramentas em si mesmas. Aquilo com que primeiro se ocupa e, conseqüentemente, o que primeiro está à mão é a obra a ser produzida.” A casa nasce antes da pá, do muro, do cimento, do martelo…

A mata é reserva florestal” – fico dividido em dois ditos igualmente verdadeiros: 1) …e cada vez mais; 2) …e cada vez menos.

Manualidade é a determinação categorial dos entes tal como são <em si>.” “está a Manualidade fundada ontologicamente no ser simplesmente dado?”

o haver não se dá, pois não tem nada para dar

deixe-me com meus haveres, dê-me um des-canso

abrir o mundo é totalmente diferente de descobrir o mundo

quando o ser-aí se abre ele volta ao conhecimento inato de si

quando ele descobre o mundo, apenas desvela mais um de seus modos-no-mundo e ocupa algo aparentemente inédito, que ainda não é uma verdadeira abertura

o Brasil foi descoberto, mas não aberto

abrir é tarefa de macaco-velho (quem já conhece muito a terra)

gato ex-cal-dado

O conjunto instrumental não se evidencia como algo nunca visto, mas como um todo já sempre visto antecipadamente na circunvisão. Nesse todo, anuncia-se o mundo.”

O não-anunciar-se do mundo é a condição de possibilidade para que o manual não cause surpresa.”

Uma orientação exclusiva ou primordial pelo que é simplesmente dado não pode esclarecer ontologicamente o <em-si>.”

Tradução: Fiar-se somente ou principalmente no dado (empírico e a priori, no imediato da coisa) não ajuda a responder sobre a essência do em-si, isto é, não ajuda a responder essencialmente sobre a própria essência desses objetos ou coisas. Como se poderia chegar a conhecer ‘x’ (term. kantiana) apenas via observação dos fenômenos?

Ora, nem quando até essencialmente algo aparece como dado a simples descrição das aparências pode dar uma resposta metafísica à altura… Pois – ó! – as aparências enganam…

A possibilidade do conhecimento implica uma onipotência primigênia. [metempsicose]

O ser-do-ente é eterno, ou pelo menos infinitamente recorrível em seus antepassados…

O mundo é algo em que o ser-aí enquanto ente já sempre esteve, para o qual o ser-aí pode apenas retornar em qualquer advento [futuro] de algum modo explícito.” O que aconteceu (e aconteceu) acontecerá de novo.

A ocupação já é o que é, com base numa familiaridade com o mundo.” “O que é isso com que a pre-sença se familiariza e pelo que a [mundanidade das coisas] pode aparecer [alienando toda familiaridade à pre-sença]?”

preocupação – estranhamento – ansiedade (logo H. chegará a essa análise oposta).

hoje, temos a tendência de submeter todos os entes a uma <interpretação> na chave de <relação>. Trata-se de uma interpretação que sempre <dá certo> porque, no fundo, não diz nada, como o esquema de forma e conteúdo, tão facilmente utilizado.”

Recentemente, instalou-se nos veículos uma seta vermelha e móvel, cujo posicionamento mostra, cada vez, p.ex. num cruzamento, qual o caminho que o carro vai seguir. O posicionamento da seta é acionado pelo motorista. Esse sinal é um instrumento que está à mão, não apenas na ocupação (dirigir) do motorista. Também os que não estão no veículo e justamente eles fazem uso desse instrumento, esquivando-se para o lado indicado ou ficando parados. Esse sinal está à mão dentro do mundo na totalidade do conjunto instrumental dos meios de transporte e regras de trânsito. (…) essa <referência> enquanto sinal não é a estrutura ontológica do sinal enquanto instrumento.” Hahahaha. “A <referência> mostrar é a concreção ôntica [fenomênica] do para quê específico. [virar a porra do carro sem bater noutros carros nem atropelar ninguém]” “O uso de sinais permanece inteiramente no âmbito de um ser-no-mundo <imediato> [excluindo assim a sinalética dos sistemas mágicos, não-intramundanos, desta análise de sinais contemporâneos ou funcionais].”

para o homem primitivo, o sinal e o assinalado coincidem.”

Esta interpretação do sinal tinha apenas a finalidade de oferecer um apoio fenomenal para se caracterizar a referência.” Para de encher lingüiça, cara!

O caráter ontológico do manual é a conjuntura.” Marquei em verde pela fealdade da expressão, hoje inutilizável, apropriada pelos “administradores”.

Um plano cartesiano é de longe ou de perto a única coisa que não existe.

O mapa quem faz é o ser-aí, sempre ao centro, com circunvisões de novas periferias o tempo (pun) todo!

(*) “PARA QUÊ = WOZU

Porque o português só conhece onde como advérbio e não como relativo, a tradução construiu uma constelação de expressões e modos de dizer que recebeu ao longo do texto as seguintes correspondências:

Wozu = para quê [literalmente teria de ser para onde]

Woraufhin = perspectiva em que [na direção onde]

Worumwillen = em função de [pertinente aonde]

Wobei = estar-junto [onde é familiar, onde é vizinho]

Womit = estar-com [onde em conjunto]

Worin = no contexto em que [no contexto aonde]

Wohin = destino [lançando-se aonde]

Woher = proveniência [vindo donde]”

(*) CONJUNTURA = BEWANDTNIS

A tradução literal impossível seria deixar-se fazer a volta, i.e., completar um giro ou ciclo, abrir-se para a essência.

Conjuntura é o ser dos entes intramundanos em que cada um deles já, desde sempre, liberou-se.” “um perfeito a priori

O fato de se dar uma conjuntura constitui a determinação ontológica do ser deste ente e não uma afirmação ôntica sobre ele. (…) Com o para quê [sentido] da serventia, pode-se dar, novamente, uma conjuntura própria” Como tornar o martelo aquilo que ele é: construtor de moradias.

Tal familiaridade [originária] com o mundo não exige, necessariamente, uma transparência teórica das remissões que constituem o mundo como mundo.”

A significância é o que constitui a estrutura do mundo em que a pre-sença já é sempre como é.”

Essas <relações> e <relatos> do ser-para, da função, do estar-com de uma conjuntura, em seu conteúdo fenomenal [ôntico], resistem a toda funcionalização matemática” “Conceitos de função dessa espécie só se tornam ontologicamente possíveis remetendo-se a um ente cujo ser possui o caráter de pura substancialidade. Conceitos de função não são outra coisa do que conceitos formalizados de substância.” Matemática calcula (n)o reino da essência.

B. CONTRAPOSIÇÃO DA ANÁLISE DA MUNDANIDADE À INTERPRETAÇÃO DO MUNDO DE DESCARTES

O porquê da escolha do título “Ser e TEMPO”: como antítese ao espaço e às coordenadas cartesianas. ESPAÇO é essencialmente e por excelência aquilo que é incapaz de denotar e conotar o Ser. Ou apenas conotar, se assumirmos que Heidegger empregaria denotar para falar do nível ôntico do ser e conotar para se referir ao nível ontológico.

res cogitans X res corporea espírito X natureza

a falta de clareza de seus fundamentos ontológicos e dos próprios membros da oposição radica-se diretamente nessa distinção efetivada por Descartes.”

O termo para o ser de um ente em si mesmo é substantia. Essa expressão ora designa o ser de um ente como substância, substancialidade, ora o próprio ente, uma substância. Essa ambigüidade de substantia, que já trazia em si o antigo conceito de OUSIA, não é casual.”

O que constitui propriamente o ser em si mesmo da res corporea? Como se pode apreender uma substância como tal? (…) As substâncias são acessíveis em seus <atributos> e cada substância possui uma propriedade principal a partir da qual a essência da substancialidade de uma substância pode ser recolhida. Qual é esta propriedade na res corporea? (…) a extensão em comprimento, altura e largura constitui o ser propriamente dito da substância corpórea que nós chamamos <mundo>. (…) A extensão é a constituição ontológica do ente em causa que deve <ser> antes de quaisquer outras determinações ontológicas a fim de que estas possam <ser> o que são.” “Se os corpos duros, i.e., os que não cedem à pressão, trocassem de lugar com a mesma velocidade com que a mão <corre> em direção aos corpos, então nunca se chegaria a tocá-los, e a dureza nunca seria percebida, e com isso, portanto, nunca seria dureza.”

a extensão, isto é, aquilo que se pode alterar em qualquer modo de divisibilidade, figuração e movimento, o capax mutationum, o que se mantém, remanet, em todas essas alterações.”

permanência constante”

Por substância só podemos entender um ente que é de tal modo que para ser não necessite de nenhum outro ente. O ser de uma <substância> caracteriza-se por uma não-necessidade.”

Ao ser entendido como ens perfectissimum, <Deus> é aqui um título puramente ontológico.” “Todo ente que não for Deus necessita de produção em sentido amplo e de conservação. A produção de algo simplesmente dado, ou também a necessidade de se produzir, constituem o horizonte em que se compreende o <ser>.” “Entre ambos os entes, subsiste uma diferença <infinita> de ser e, apesar disso, chamamos de ente tanto o criado como o criador. Por conseguinte, usamos a palavra ser numa extensão tal, que o seu sentido abrange uma diferença <infinita>. Por isso e com certo direito, podemos chamar também o ente criado de substância. (…) dentro da região dos entes criados, do <mundo> no sentido de ens creatum, existe algo que <não necessita de um outro ente>, no tocante à produção e conservação das criaturas, p.ex. o homem.” O problema está em que, de novo, o homem é res cogitans e res corporea.

Nas afirmações <Deus é> e <o mundo é> predicamos o ser. Essa palavra <é> não pode indicar o ente cada vez referido no mesmo sentido (univoce), já que entre ambos existe uma diferença infinita de ser”

A escolástica apreende o sentido positivo da significação de <ser> como significação <analógica> para distingui-la da significação unívoca ou meramente sinônima. Apoiando-se em Aristóteles, em quem o problema já se delineou no ponto de partida da ontologia grega, fixaram-se vários modos de analogia, segundo os quais também as <Escolas> se distinguiam quanto à apreensão da função significativa de ser. No tocante à elaboração ontológica do problema, Descartes fica muito aquém da escolástica, chegando mesmo a recuar diante da questão.” “Sem dúvida, a ontologia medieval, do mesmo modo que a antiga, questionou muito pouco o que o próprio ser designa. (…) O sentido permaneceu não-esclarecido porque foi tomado por <evidente>.” “Descartes não apenas recua inteiramente diante da questão ontológica da substancialidade, como acentua explicitamente que a substância como tal, i.e., a substancialidade, já é em si mesma, de antemão, inacessível para si mesma. [Diz:] O <ser> ele mesmo não nos <afeta>, não podendo por isso ser percebido. Segundo a sentença de Kant, que apenas repete a frase de Descartes, <o ser não é um predicado real>. Com isso, renuncia-se em princípio à possibilidade de uma problemática pura do ser e busca-se uma saída pela qual se possam obter as determinações acima caracterizadas das substâncias. Porque <ser> de fato não é acessível como os entes, ele passa a ser expresso por determinações ônticas dos entes em questão, isto é, pelos atributos [fenomenológicos]. (…) pressupostos sem discussão.”

É a substância divisível? Então é real e veraz (está no espaço)”, argumenta D. de si para si.

Porque o ôntico é colocado abaixo do ontológico, a expressão substância exerce um significado ora ontológico ora ôntico, funcionando, porém, na maioria das vezes, como significado misturado.”

ENUMERO LOGO ERRO: “Que modo de ser da pre-sença é estabelecido como a via de acesso adequada ao que, enquanto extensio, Descartes identifica com o ser do <mundo>? A única via de acesso autêntica para esse ente é o conhecimento, a intellectio, no sentido do conhecimento físico-matemático. O conhecimento matemático vale como o modo de apreensão dos entes, capaz de propiciar sempre uma posse mais segura do ser dos entes nele apreendidos. (…) Propriamente só é o que sempre permanece. E é isso o que a matemática conhece. (…) Descartes não retira o modo de ser dos entes intramundanos deles mesmos. Com base numa idéia de ser[-constância] (…) prescreve ao mundo o seu ser <próprio>. Não é, portanto, principalmente o apoiar-se numa ciência particular e, por acaso, especialmente estimada, a matemática, o que determina a ontologia do mundo, mas uma orientação fundamentalmente ontológica pelo ser enquanto constância do ser simplesmente dado” “Descartes cumpre, assim, de maneira filosoficamente explícita, a virada das influências da ontologia tradicional sobre a física matemática moderna e os seus fundamentos transcendentais.”

modo de acesso ao ente ainda possível de uma percepção intuitiva”

É duro dizê-lo, mas Descartes não entendeu o conceito de rigidez! Ou melhor: não entendeu a rigidez. O conceito de rigidez nada tem que ver com a rigidez.

Coordenadas não se tocam, como entes poderiam [r]esistir mutuamente?

Divisão e descontinuidade

Com isso veda-se completamente o caminho para se ver o caráter fundado de toda percepção sensível e intelectual e para compreendê-las como uma possibilidade do ser-no-mundo.”

Será que com essas discussões críticas não se estará exigindo de Descartes uma tarefa que se encontra totalmente fora de seu horizonte?” “A discussão deve-se orientar pela tendência real da problemática mesmo que esta não ultrapasse uma compreensão vulgar.” Palavras, palavras, palavras

A análise cartesiana do <mundo> possibilita, pela 1ª vez, uma construção segura da estrutura da manualidade; necessita apenas de uma complementação, facilmente exeqüível, da coisa natural para transformá-la numa perfeita coisa de uso.”

O acréscimo de predicados de valor [não-matemáticos, i.e., qualidades] não é capaz de propiciar em nada uma nova perspectiva sobre o ser dos bens mas apenas pressupõe para estes o modo de ser de puras coisas simplesmente dadas.” “Em última instância, os valores têm sua origem ontológica unicamente no ponto de partida prévio da realidade das coisas como nível fundamental. Já a experiência pré-fenomenológica, no entanto, mostra nos entes entendidos como coisa algo que não pode ser inteiramente compreendido por meio desse caráter.”

Do ponto de vista ontológico, o que significa o ser dos valores, ou seja, <a sua valência>?” Não faz pergunta difícil, H.!

E essa reconstrução de uma coisa de uso inicialmente <descascada> não necessitaria sempre de uma visão prévia e positiva do fenômeno cuja totalidade deve ser reproduzida na reconstrução? Se, porém, a sua própria constituição ontológica não tiver sido explicitada previamente de modo adequado, a reconstrução procederá sem qualquer projeto.” Hic salta Nietzsche.

Perguntas capitais:

1. Por que (…) desde Parmênides (…) passou-se por cima do fenômeno do mundo? De onde provém a repetição contínua desse passar por cima?

2. Por que o ente intramundano se torna tema ontológico para esse fenômeno?

3. Por que este ente encontra-se, de início, na <natureza>?

4. Por que a complementação desta ontologia do mundo, que se sente necessária, cumpre-se em se recorrendo ao fenômeno dos valores?

Somente nas respostas a estas questões é que a problemática do mundo poderá alcançar uma compreensão positiva”

O método cartesiano não é ontologicamente metódico.

Heidegger é bom para perguntar, ruim para responder.

C. O CIRCUNDANTE DO MUNDO CIRCUNDANTE E A ESPACIALIDADE DA PRE-SENÇA

REVIRANDO CARTÉSIO: “O instrumento tem seu local ou então <está-por-aí>, o que se deve distinguir fundamentalmente de uma simples ocorrência numa posição arbitrária do espaço [x, y].” “O lugar é sempre o <aqui> e <lá> determinados a que pertence um instrumento.” “Chamamos de região este para-onde da possível pertinência instrumental”

Esta orientação regional da multiplicidade de locais do que está à mão constitui o circundante” “Nunca nos é dado, de início, uma multiplicidade tridimensional de possíveis posições preenchidas por coisas simplesmente dadas.” “O que continuamente está à mão não tem um local, pois é previamente levado em conta pelo ser-no-mundo da circunvisão.”

o sol cuja luz e calor são usados cotidianamente possui seus locais marcados e descobertos pela circunvisão (…): o nascente, o meio-dia, o poente, a meia-noite.” “indicações privilegiadas” “A casa tem o seu lado do sol e o seu lado da ventilação; por ele se orienta a distribuição dos <cômodos> [ou não, na periferia] e nestes, novamente, a <instalação> de acordo com o seu caráter instrumental.” “Igrejas e sepulturas, p.ex., são dispostas segundo o nascente e o poente, regiões da vida e da morte”

Distanciar diz fazer desaparecer o distante, isto é, a distância de alguma coisa diz proximidade. Em sua essência, a pre-sença é essa possibilidade de dis-tanciar.” “Assim como o intervalo, a distância é uma determinação categorial dos entes destituídos do modo de ser da pre-sença. (…) quaisquer 2 coisas, 2 pontos não estão distantes um do outro, porque nenhum deles é capaz de distanciar em seu modo próprio de ser.”

Será que o sentido da afirmação disseminada que li sobre Heidegger no tocante à Técnica é nessa possibilidade catastrófica iminente da aldeia global comprimir todo o horizonte, achatar as distâncias e tornar tudo circunvizinhança do ser-aí? “Todos os modos de aumentar a velocidade que nós, hoje, de forma mais ou menos forçada, exercemos impõem a superação da distância. Assim, p.ex., com a <radiodifusão>, a pre-sença cumpre hoje o dis-tanciamento do <mundo>, através de uma ampliação e destruição do mundo circundante cotidiano, cujo sentido para a pre-sença ainda não pode ser totalmente aniquilado.”

Mesmo quando nos servimos de medidas precisas e dizemos: <até em casa é meia hora>, essa medição deve ser tomada como uma avaliação, pois aqui <meia hora> não são 30 minutos mas uma duração que não possui <tamanho>, no sentido de extensão quantitativa.”

todo dia os caminhos corriqueiros que levam ao ente dis-tante são diferentemente longos.” “Os intervalos objetivos de coisas simplesmente dadas não coincidem com a distância e o estar próximo do manual intramundano.” “Trata-se de uma <subjetividade> que talvez descubra o mais real da <realidade> do mundo, a qual nada tem a ver com uma arbitrariedade <subjetiva> nem com <apreensões> subjetivistas de um ente <em si> diverso.”

ANTOLHOS (Da sabedoria hindu à Rei de Evangelion): “Para quem usa óculos, p.ex., que, do ponto de vista do intervalo, estão tão próximos que os <trazemos no nariz>, esse instrumento de uso, do ponto de vista do mundo circundante, acha-se mais distante do que o quadro pendurado na parede em frente.” Hoje somos míopes surdos do ventre inchado, sempre com fone e fome.

[Mas] Em seu ser-em, que instala dis-tanciamento, a pre-sença também possui o caráter de direcionamento.” “Sendo, a pre-sença, na qualidade de um ser que distancia e se direciona, possui uma região já desde sempre descoberta.” “A espacialização da pre-sença em sua <corporeidade>, a qual abriga em si uma problemática especial que não será tratada aqui, acha-se também marcada por essas direções.”

manobra”

ma[n-o]b-ra

mão inimiga no peito amigo

b-ra So fort v-in-gador

Pelo puro sentimento da diferença de meus 2 lados nunca poderia localizar-me corretamente no mundo. (Kant)” “O fato de eu já estar sempre num mundo não é menos constitutivo da possibilidade de orientação do que o sentimento de direita e esquerda.”

O CARÁTER DO ASSUNTO TEM LICENÇA POÉTICA PARA A REDUNDÂNCIA MAIS VULGAR: “A interpretação psicológica de que o eu possui algo <na memória>, no fundo, tem em mente a constituição existencial do ser-no-mundo.”

(*) “Todo ser é sempre ser-com mesmo na solidão e isolamento, a pre-sença é sempre co-presença (Mitdasein), o mundo é sempre mundo compartilhado (Mitwelt), o viver é sempre com-vivência (Miteinandersein).”

(*) “Para indicar a ação impessoal de um verbo, a língua alemã dispõe de 2 pronomes: es e man. <Es> indica uma impessoalidade indiferenciada. O sujeito da ação pode ser uma coisa, uma pessoa, uma situação [Es regnet – chove]. O <man> exprime, por sua vez, uma impessoalidade diferenciada, pois diz que ocorreu uma despersonalização de pessoas. [Man frölich ist – É-se feliz ou A gente é feliz].”

(*) “PRÓPRIO = SELBST

O termo <Selbst> e seus derivados, Selbst-sein, Selbstheit, das Selbst, Selbigkeit não designam nem a consciência, nem o inconsciente nem a personalidade, em qualquer sentido ou acepção psicológica e antropológica.”

(*) DE-MONSTRAÇÃO = AUFZEIGUNG; AUFWEISUNG

A palavra portuguesa de-monstração, tomada em sua formação etimológica, corresponde bem aos 2 termos alemães Auf-zeigung e Auf-weisung, pois ambos exprimem o movimento de mostrar, indicar, apontar, sem a conotação de seu uso lógico e matemático.”

(*) “CURIOSIDADE = NEUGIER

A voracidade insaciável de novidades pelo simples fato de ser diferente e diverso integra o mecanismo da despersonalização e descaracterização de toda autonomia e respeito da propriedade. O curioso não se interessa por transformar-se e diferenciar-se.”

CU-RIOSO

NEW-GEAR AUTO-PILOT nóiáguia

A REALLY SAD LOT

ANTI-KANT (ou SCHOPENHAUER, para todos os efeitos): “O espaço n[ão] está no sujeito (…) Ao contrário, o espaço está no mundo na medida em que o ser-no-mundo constitutivo da pre-sença já descobriu sempre um espaço. (…) É o <sujeito>, entendido ontologicamente, a pre-sença, que é espacial em sentido originário. Porque a pre-sença é nesse sentido espacial, o espaço se apresenta como a priori. Este termo não indica a pertinência prévia a um sujeito que de saída seria destituído de mundo e projetaria de si um espaço. Aprioridade significa aqui precedência do encontro com o espaço (como região) em cada encontro do manual no mundo circundante.”

A intuição formal do espaço descobre possibilidades puras de relações espaciais. Estas consistem numa seqüência hierárquica na liberação de um espaço puro e homogêneo, desde a pura morfologia das figuras espaciais, visando a uma análise da posição (situs), até às ciências puramente métricas do espaço.” “O mundo perde a especificidade de suas circundâncias, o mundo circundante transforma-se em mundo da natureza. (…) contexto de coisas extensas simplesmente dadas.” Eis a desmundanização, com seu aspecto de neutro e homogêneo do espaço.

4. O SER-NO-MUNDO COMO SER-COM E SER-PRÓPRIO. O “IMPESSOAL”

O pronome quem é aquilo que, nas mudanças de atitude e vivência, se mantém idêntico e, assim, refere-se a esta multiplicidade. Do ponto de vista ontológico, nós o entendemos como algo simplesmente dado, já sempre constantemente vigente para e numa região fechada e que, num sentido privilegiado, oferece uma base enquanto o subjectum. (…) Por mais que se rejeite a substância da alma ou o caráter de coisa da consciência e da objetividade da pessoa, ontologicamente, já no ponto de partida, fica-se atrelado a algo cujo ser guarda, explícita ou implicitamente, o sentido de ser simplesmente dado. A substancialidade é o guia ontológico da determinação dos entes a partir do qual se responde à pergunta quem.” “Ora, o ser simplesmente dado é o modo de ser de um ente que não possui o caráter da pre-sença.” “Pode ser que o quem da pre-sença cotidiana não seja sempre justamente eu mesmo.” “E se, partindo do dado do eu, a analítica existencial caísse, por assim dizer, nas tramas da própria pre-sença e de sua auto-interpretação mais corriqueira?” “O <eu> só pode ser entendido no sentido de uma indicação formal não-contingente de algo que, em cada contexto ontológico-fenomenal, pode talvez se revelar o <seu contrário>. Nesse caso, o <não-eu> não diz, de forma alguma, um ente em sua essência desprovido de <eu>, mas indica um determinado modo de ser do próprio <eu> como, p.ex., a perda de si próprio.” “a <substância> do homem é a existência e não o espírito enquanto síntese de corpo e alma.”

SER-TU: “Humboldt observou várias línguas que exprimem o <eu> pelo <aqui>, o <tu> pelo <aí>, o <ele> pelo <lá>, portanto, línguas que, numa formulação gramatical, exprimem os pronomes pessoais pelos advérbios locativos. É discutível qual o significado originário das expressões locativas, quer adverbiais, quer pronominais.” “O aqui, lá, aí, não são primariamente mera determinação de lugar dos entes intramundanos, simplesmente dados em posições espaciais, e sim caracteres da espacialidade originária da pre-sença.”

ser-aí-com (= co-pre-sença nesta tradução)

O estar-só é um modo deficiente de ser-com e [justamente] sua possibilidade é a prova disso.” “Esse fenômeno que, de maneira não muito feliz, designa-se de <simpatia> deve, por assim dizer, construir ontologicamente uma ponte entre o próprio sujeito isolado e o outro sujeito, de início, inteiramente fechado.” “<O outro é um duplo de próprio.> É fácil ver que essa reflexão aparentemente evidente apóia-se em bases pouco sólidas. A pressuposição dessa argumentação de que o ser da pre-sença é para si mesmo o ser-para-um-outro não é justa. Enquanto essa pressuposição não se comprovar evidente em sua justa determinação, permanece enigmático de que maneira ela haverá de esclarecer a relação da pre-sença-para-consigo-mesma com referência ao outro-como-outro.”

O quem não é este ou aquele, nem o próprio do impessoal, nem alguns e muito menos a soma de todos. O <quem> é o neutro, o impessoal.” “O impessoal desenvolve sua própria ditadura nesta falta de surpresa e de possibilidade de constatação. Assim, nos divertimos e entretemos como impessoalmente se faz; lemos, vemos e julgamos sobre a literatura e a arte como impessoalmente se vê e julga; também nos retiramos das <grandes multidões> como impessoalmente se retira; achamos <revoltante> o que impessoalmente se considera revoltante. O impessoal, que não é nada determinado mas que todos são, embora não como soma, prescreve o modo de ser da cotidianidade.”

Em seu ser, o impessoal coloca essencialmente em jogo a medianidade. (…) Essa medianidade, designando previamente o que se pode e deve ousar, vigia e controla toda e qualquer exceção que venha impor-se. Toda primazia é silenciosamente esmagada. Tudo que é originário se vê, da noite para o dia, nivelado como algo de há muito conhecido. O que se conquista com muita luta, torna-se banal. Todo segredo perde sua força. O cuidado [ver acima o ‘passivo’ da Cura] da medianidade desentranha também uma tendência essencial da pre-sença, que chamaremos de nivelamento de todas as possibilidades de ser.”

public-idade” limit-ações da trad-ução!

O impessoal encontra-se em toda parte, mas no modo de sempre ter escapulido quando a pre-sença exige uma decisão.” “o impessoal retira a responsabilidade de cada pre-sença.” “Pode assumir tudo com a maior facilidade e responder por tudo, já que não há ninguém que precise responsabilizar-se por alguma coisa. O impessoal sempre <foi> quem… e, no entanto, pode-se dizer que não foi <ninguém>.” “o impessoal conserva e solidifica seu domínio caturro. [grosseiro, superficial]” “o impessoal, enquanto ninguém, não é um nada. Ao contrário, neste modo de ser, a pre-sença é um ens realissimum, caso se entenda <realidade> como um ser dotado do caráter de pre-sença.” “O impessoal também não é uma espécie de <sujeito universal> que paira sobre vários outros. Essa concepção só é possível caso o ser dos <sujeitos> seja compreendido como o que não possui o caráter de pre-sença, e caso se parta da suposição de que os sujeitos são casos factuais simplesmente dados de um gênero.” “Não é de admirar que a lógica tradicional fracasse diante destes fenômenos quando se pensa que a lógica tem seu fundamento numa ontologia-das-coisas-simplesmente-dadas que, além de tudo, é precária. Por mais que se aperfeiçoe e amplie, a lógica não pode, em princípio, tornar-se mais flexível. As reformas da lógica, orientadas pelas <ciências do espírito>, só fazem aumentar a confusão ontológica.” “O próprio da pre-sença cotidiana é o próprio-impessoal que distinguimos do si mesmo em sua propriedade

O EU PRÉ-FILOSÓFICO:De início, <eu> não <sou> no sentido do propriamente si mesmo e sim os outros nos moldes do impessoal. É a partir deste e como este que, de início, eu <sou dado> a mim mesmo. De início, a pre-sença é impessoal e, na maior parte das vezes, assim permanece.”

O ser-no-mundo [finalmente] tornou-se visível em sua cotidianidade e em sua medianidade.”

A interpretação ontológica segue inicialmente esta tendência e entende a pre-sença a partir do mundo, onde a encontra como ente intramundano.”

O ser do que é próprio não repousa num estado excepcional do sujeito que se separou do impessoal. Ele é uma modificação existenciária do impessoal como existencial constitutivo.”

5. O SER-EM COMO TAL

Até aqui, a caracterização fenomenal do ser-no-mundo voltou-se para o momento estrutural mundo e para responder à questão quem deste ente em sua cotidianidade. Entretanto, já nas primeiras caracterizações das tarefas de uma análise preparatória dos fundamentos da pre-sença, antecipou-se uma orientação sobre o ser-em como tal, que se demonstrou concretamente no modo de conhecer o mundo.”

Em busca do ser-da-cura (devidamente ocupado, em termos heideggerianos).

O fenômeno da igualdade originária dos momentos constitutivos foi, muitas vezes, desconsiderado na ontologia, na medida em que ela pretende, por métodos desabridos, comprovar a proveniência de tudo e de todos a partir de uma <base primordial> única e simples.”

Ser <esclarecido> [dotado de luz] significa: estar em si mesmo iluminado como ser-no-mundo, não através de um outro ente, mas de tal maneira que ele mesmo seja a claridade.”

A. A CONSTITUIÇÃO EXISTENCIAL DO PRE [-AÍ DO SER-AÍ]

Os estados de humor.

O fato de os humores poderem se deteriorar e transformar diz somente que a pre-sença já está sempre de humor.”

naquilo de que o humor faz pouco caso, a pre-sença se descobre entregue à responsabilidade do aí. É no próprio esquivar-se que o aí se abre em seu ser.”

O humor não realiza uma abertura no sentido de observar o estar-lançado [estar-aí] e sim de enviar-se e desviar-se. Na maior parte das vezes, ele faz pouco caso do caráter pesado da pre-sença que nele se revela, e muito menos ainda quando se alivia de um humor. Esse desvio é o que é, no modo da disposição.”

Mesmo que a pre-sença estivesse <segura> na fé de seu <destino> ou pretendesse saber a sua proveniência mediante um esclarecimento racional, nada disso diminuiria o seguinte fenômeno: o humor coloca a pre-sença diante do fato de seu aí que, como tal, se lhe impõe como enigma inexorável.”

O irracionalismo – enquanto o outro lado do racionalismo – fala apenas estrabicamente daquilo para o que o racionalismo é cego.” “Que um ser-aí de fato possa, deva e tenha de assenhorear-se do humor através do saber e da vontade pode, em certas possibilidades da existência, significar uma primazia da vontade e do conhecimento. (…) nunca nos assenhoreamos do humor sem humor, mas sempre a partir de um humor contrário.”

O <mero humor> abre o aí de modo mais originário, embora também o feche de modo ainda mais obstinado do que qualquer não-percepção. Isso é o que mostra o mau-humor. Nele (…) a circunvisão da ocupação se desencaminha.”

O humor se pre-cipita. Ele não vem de <fora> nem de <dentro>.”

Do ponto de vista ontológico-fundamental, devemos em princípio deixar a descoberta primária do mundo ao <simples humor>. Uma intuição pura, mesmo introduzida nas artérias mais interiores de alguma coisa simplesmente dada, jamais chegaria a descobrir algo como ameaça. [sem medo, não se sabe nem o que é destemor; ou, falando de forma mais poética, é impossível agir de modo temerário!]

A primeira investigação metafísica sobre o humor provém da Retórica de Aristóteles. Por que a Retórica e não a Psicologia (Da alma)? Segundo H., porque é a Retórica essencialmente o campo da hermenêutica sistemática do ser-com. O que seria um orador sem humor?! Não um homem…

A partir dos estóicos, o humor se limita e se conforma a ser assunto subsidiário da Filosofia.

É um mérito da pesquisa fenomenológica ter re-criado uma visão mais livre desses fenômenos.” É porque falta a Hegel qualquer consideração nesse sentido e nessa instância (uma pascalização de sua filosofia, p.ex.) que sua filosofia é tão estanque.

O que se teme, o <temível>, é sempre um ente que vem ao encontro dentro do mundo e que possui o modo de ser do manual, ou do ser simplesmente dado ou ainda da co-pre-sença.”

o que é temível em sua temeridade?”

1. dano

2. região de dano

3. o familiar na estranheza dessa região

4. o danoso ainda é ‘meio-distante’, ou já seria outra coisa que temor. Angst

5. é terrível aquilo que até o último instante, por assim dizer, não nos revela se poderá ou não chegar

Nesse aproximar-se, o dano se irradia e seus raios apresentam o caráter de ameaça.” “Não se constata 1º um mal futuro (malum futurum) para a seguir temer. O temer também não constata 1º o que se aproxima mas, em sua temeridade, já o descobriu previamente.” “A circunvisão vê o temível por já estar na disposição do temor. Como possibilidade adormecida no ser-no-mundo disposto, o temer é <temerosidade> e, como tal, já abriu o mundo para que o temível dele possa se aproximar.”

Apenas o ente em que, sendo, está em jogo seu próprio ser, pode temer.” Cães não temem.

Ora, como se poderia temer pelo mundo? Justamente o que não estará nunca dado nem passível de se dar!

Pode-se temer em lugar de, sem sentir temor. (…) O temer em lugar de… de certa forma sabe que não é atingido, embora, na verdade, seja atingido pela co-pre-sença, pela qual se teme. (…) o temer-em-lugar-de não perde sua autenticidade específica quando <propriamente> não teme.”

Na medida em que uma ameaça, em seu <na verdade ainda não, mas a qualquer momento sim>, subitamente se abate sobre o ser-no-mundo da ocupação, o temor se transforma em pavor.” “O referente do pavor é, de início, algo conhecido e familiar. Se, ao contrário, o que ameaça possuir o caráter de algo totalmente não-familiar, o temor transforma-se em horror. E somente quando o que ameaça vem ao encontro com o caráter de horror, possuindo ao mesmo tempo o caráter de pavor, a saber, o súbito, o temor torna-se então, terror. Outras variações do temor nos são conhecidas como timidez, acanhamento, receio e estupor.”

Temeroso na essência.

Toda disposição sempre possui a sua compreensão, mesmo quando a reprime.”

Dizer que a pre-sença existindo é o seu significa, por um lado, que o mundo está <pre-sente>, a sua pre-sença é o ser-em. Este é e está igualmente <presente> como aquilo em função de que a pre-sença é.”

A compreensão é a abertura.

Significância é a perspectiva em função da qual o mundo se abre como tal. Dizer que função e significância se abrem na pre-sença significa que a pre-sença é um ente em que, como ser-no-mundo, ele próprio está em jogo.”

Eu compreendo toda a história do grunge: compreensão no sentido de encapsulamento, abrangência físicos, espácio-temporais de um fenômeno; nasci antes do grunge começar, e até hoje estou vivo conforme antigas bandas grunge e novas bandas post-grunge surgem, o que quer dizer que eu formo um conjunto em que grunge é só um subconjunto completamente contido em mim mesmo. Compreensão em sentido ôntico.

Compreensão como poder-ser. nível ontológico: “A pre-sença é a possibilidade de ser livre para o poder-ser mais próprio.” “A pre-sença é de tal maneira que ela sempre compreendeu ou não compreendeu ser dessa ou daquela maneira. (…) ela <sabe> a quantas ela mesma anda” “Esse <saber> não nasce 1º de uma percepção imanente de si mesma, mas pertence ao ser do aí/pre- do ser-aí/pre-sença que, em sua essência, é compreensão.” “E somente porque o ser-aí é na compreensão de seu aí é que ele pode-se perder e desconhecer. E na medida em que a compreensão está na disposição [humor] e, nessa condição, está lançada existencialmente, o ser-aí já sempre se perdeu e desconheceu. Em seu poder-ser, portanto, o ser-aí já se entregou à possibilidade de se reencontrar em suas possibilidades.”

possibilidade de ser-ventia” maluco genial!

Será por acaso que a questão do ser da natureza visa às <condições de sua possibilidade>?” “por que o ente, destituído do caráter de ser-aí, é compreendido em seu ser quando se abre nas condições de sua possibilidade? Kant pressupõe algo assim, talvez com razão. Mas essa pressuposição não pode mais permanecer sem verificar seu direito.”

compreensão projeto

O projeto é a constituição ontológico-existencial do espaço de articulação do poder-ser de fato.”

a pre-sença se lança no modo de ser do projeto. O projetar-se nada tem que ver com um possível relacionamento frente a um plano previamente concebido, segundo o qual o ser-aí instalaria o seu ser. Como ser-aí, ele já sempre se projetou e só é na medida em que se projeta.”

Enquanto projeto, a compreensão é o modo de ser do ser-aí em que o ser-aí é as suas possibilidades enquanto possibilidades.”

somente porque o ser do aí é tanto o que será quanto o que não será é que o ser-aí pode, ao se compreender, dizer: sé o que tu és!Torna-te aquilo que tu tens a possibilidade aberta de ser.

Sócrates Nietzsche

<Im>-própria não significa que a pre-sença rompa consigo mesma e <só> compreenda o mundo. Mundo pertence ao seu próprio ser como ser-no-mundo.”

Em seu caráter existencial de projeto, a compreensão constitui o que chamamos de visão da pre-sença. (…) Chamamos de transparência a visão que se refere primeira e totalmente à existência.” Ver é converter o simplesmente dado (existenciário) em originário ou existencial, essencial. “A tradição da filosofia, porém, orienta-se desde o princípio, primariamente pelo <ver> [entre aspas, ou seja: ocular, ôntico, vulgar] enquanto modo de acesso para o ente e para o ser.”

O olho que tudo vê na verdade é cego. Aquele que tudo pode não pode-ser. (Ver acima sobre não-ser-judeu no aspecto teleológico do deus todo-poderoso.)

retira-se [assim] da intuição pura a sua primazia que, noeticamente, corresponde à primazia ontológica tradicional do ser simplesmente dado. Intuição e pensamento já são ambos derivados distantes da compreensão. Também a intuição da essência fenomenológica está fundada na compreensão existencial.”

Mas não será que, com a explicação da constituição existencial do ser-do-aí, no sentido do projeto projetado, o ser do ser-aí não se torna ainda mais enigmático?”

fracassar com autenticidade”

Na interpretação, a compreensão se torna ela mesma e não outra coisa. (…) Interpretar não é tomar conhecimento de que se compreendeu, mas elaborar as possibilidades projetadas na compreensão.” “O mundo já compreendido se interpreta.”

Ter simplesmente diante de si uma coisa [abrangê-la situacionalmente] é somente fixá-la como uma não-compreensão.” “O fato de o <como> [modo da interpretação] não ser pronunciado onticamente não deve levar a desconsiderá-lo enquanto constituição existencial a priori da compreensão.”

Tudo o que está à mão sempre já se compreende a partir da totalidade conjuntural.” “A interpretação sempre se funda numa visão préviaO que H. quer dizer com essa linguagem tão espúria é simplesmente: não existe uma situação de zero valor, não-valor, ou que antedate o valor – o valor sempre está-aí, sempre esteve aí para o homem… Desnudar valores é valorar.

Devemos supor tais fenômenos [a supremacia e ubiqüidade do valor, enquanto valor dos valores] como <realidades últimas>?” R: Sim, mas existe mais de um valor-dos-valores, embora sempre deva haver um para uma época.

CRIATÓRIO DE PALAVRAS PARA O QUE JÁ ESTAVA-AÍ (CONCRETAMENTE, NA FILOSOFIA DO XIX!): “Sentido é a perspectiva em função da qual se estrutura o projeto pela posição prévia, visão prévia e concepção prévia.”

O VELHO VÉU DE MAIA: “O ser-aí só <tem> sentido na medida em que a abertura do ser-no-mundo pode ser <preenchida> por um ente que nela se pode descobrir.” E depois: a única fuga do valor é “falsa”, é a incompreensão do valor vigente. Este é o contra-senso ou nonsense. “o <fundamento> só é acessível como sentido mesmo que, em si mesmo, seja o abismo de uma falta de sentido.”

Toda interpretação que se coloca no movimento de compreender já deve ter compreendido o que se quer interpretar. Esse fato foi sempre observado na interpretação filológica, embora apenas nos setores dos modos derivados de compreensão e interpretação.” Filologia: 2nd hand knowledge

Segundo as regras mais elementares da lógica, no entanto, o círculo é um circulus vitiosus.” “Enquanto não se abolir da compreensão esse círculo, a historiografia deve-se satisfazer com possibilidades de conhecimentos menos rigorosas.” “Mas ver nesse círculo um vício, buscar caminhos para evitá-lo e também <senti-lo> apenas como imperfeição inevitável significa um mal-entendido de princípio acerca do que é compreensão.” “O decisivo não é sair do círculo mas entrar no círculo de modo adequado.” A matemática não é mais rigorosa do que a história. É apenas mais restrita

Mesmo o ouvir-dizer é um ser-no-mundo e um ser-para-o-que se ouviu.”

Validade indica, por um lado, a <forma> da realidade, atribuída ao conteúdo do juízo enquanto o que permanece inalterado frente ao processo <psíquico> de julgamento, esse em contínua transformação.” “Por outro lado, validade também significa que o sentido do juízo de valor vale para o seu <objeto>, assumindo assim o significado de <validade objetiva> e objetividade em geral.” validade universal

Se ainda se defende uma epistemologia <crítica>, para a qual o sujeito propriamente <não sai de si> para alcançar o objeto, então, nesse caso, a validade como objetividade, a validade do objeto, funda-se na existência válida do sentido verdadeiro (!). As 3 acepções explicitadas de <valer>, ser ideal, objetividade, constringência [universalidade – o termo conota contração, achatamento, espécie de castração de possibilidades], não são apenas confusas em si mas se confundem entre si.”

Nós não restringimos previamente o conceito de sentido à acepção de <conteúdo de juízo>, entendendo-o como fenômeno existencial, já caracterizado, [aberto] onde o aparelhamento formal do que se pode abrir na compreensão e articular na interpretação se faz visível.”

o martelo é pesado, o peso é do martelo, o martelo tem a propriedade de ser pesado. A concepção prévia sempre presente em toda proposição permanece, na maior parte das vezes, sem surpresas, pois toda língua já guarda em si uma conceituação elaborada.” “A falta de palavra não pode ser entendida como falta de interpretação.” “Quais são as modificações ontológico-existenciais que fazem com que a interpretação da circunvisão dê origem à proposição [algo dela derivado]?” Nascimento da proposição: quando “o como é forçado a nivelar-se com o ser simplesmente dado.” O martelo do exemplo não mais em relação com o ser-aí, ser-no-mundo, mas como ente a priori martelo objetificado.

como hermenêutico-existencial X como apofântico (ver glossário ao final – limite da lógica formal aristotélica)

A demonstração é, ao mesmo tempo, uma conjunção e uma disjunção. Sem dúvida Aristóteles não levou a questão analítica até o seguinte problema: na estrutura do logos, que fenômeno permite e exige que se caracterize toda proposição como síntese e diairese [separação]?” “O fenômeno da cópula mostra até que ponto esta problemática ontológica influi na interpretação do logos e, inversamente, até que ponto o conceito de <juízo> repercute, numa reação curiosa, na problemática ontológica.” “já de saída se pressupõe [em Aristóteles, i.e., na Lógica] evidentemente a estrutura sintética, mantendo-a, então, numa função decisiva da intepretação do logos.” “O esclarecimento da 3ª acepção de proposição como comunicação (declaração) levou ao conceito de falar e dizer, até aqui propositadamente desconsiderado. O fato de somente agora se tematizar a linguagem deve indicar que este fenômeno se radica na constituição existencial da abertura do ser-aí.”

Eu falo, mas não com palavras.

Aqui vê-se a fragilidade de Deleuze: seu desejo não tem um para ou de

partilha da disposição comum”

No discurso, o ser-aí se pro[jeta]nuncia.” Só se projeta o que já está/é fora.

Escutar é o estar aberto existencial da pre-sença enquanto ser-com os outros.” “É com base nessa possibilidade de escutar, existencialmente primordial, que se torna possível ouvir [‘escuta compreensiva’].” Não se ouve ruído (som sem significado). Esses trechos confirmam o ‘surdo schopenhaueriano’ como o retardado clássico. Cf. https://seclusao.art.blog/2021/11/14/o-mundo-como-vontade-e-como-representacao-a-musica-ouvida-so-uma-vez-nunca-foi-ouvida/.

Somente quem já compreendeu é que poderá escutar.”

Quem silencia no discurso da convivência pode <dar a entender> com maior propriedade [mormente como oposição].”

a incompreensão da trivialidade”

o mudo é a tendência <para falar>.”

Quem nunca diz nada não pode silenciar

Silenciar em sentido próprio só é possível num discurso autêntico.”

Terá [a ágora grega] sido mero acaso?” “Os gregos não dispunham de uma palavra própria para linguagem porque entendiam esse fenômeno <sobretudo> como discurso.”

A tarefa de libertar a gramática da lógica necessita de uma compreensão preliminar e positiva da estrutura a priori do discurso como existencial.” “Também não basta assumir o horizonte filosófico em que Humboldt problematizou a linguagem.”

De que modo é o ser-da-linguagem para que ela possa estar <morta>? (…) Dispomos de uma ciência da linguagem, a lingüística, e, no entanto, o ser daquele ente por ela tematizado é obscuro” “A investigação filosófica deve renunciar a uma <filosofia da linguagem> a fim de poder questionar e investigar <as coisas elas mesmas> e dever colocar-se em condições de trazer uma problemática clara, do ponto de vista dos conceitos.”

B. O SER COTIDIANO DO AÍ E A DE-CADÊNCIA DO SER-AÍ

Quais são os caracteres existenciais da abertura do ser-no-mundo quando o ser-no-mundo cotidiano se detém no modo de ser do impessoal?” “Como ser-lançado-no-mundo, não será que o ser-aí foi jogado de saída na public-idade do pessoal?”

deve-se evidenciar a abertura do impessoal, quer seja, o modo de ser cotidiano do discurso, da visão e da interpretação em determinados fenômenos. Com relação a esses fenômenos, não será supérfluo observar que a interpretação tem um propósito puramente ontológico e se mantém muito distante de qualquer crítica moralizante do ser-aí cotidiano e de qualquer aspiração a uma <filosofia da cultura>.”

APOLOGIA DA FOFOCA: “A expressão <falatório> não deve ser tomada aqui em sentido pejorativo. Terminologicamente, significa um fenômeno positivo que constitui o modo de ser da compreensão e interpretação do ser-aí cotidiano.”

possibilidades da compreensão mediana”

Qual é o ser-da-fofoca? Ela que não é algo dado, pois é linguagem.

…Todos nós pegamos o bonde andando.

O empenho da comunicação é que se fale. O que se diz, o dito e a dicção se empenham agora pela autenticidade e objetividade do discurso e de sua compreensão.”

O falado no falatório arrasta consigo círculos cada vez mais amplos, assumindo um caráter autoritário. As coisas são assim como são porque delas se fala assim. Repetindo e passando adiante a fala, potencia-se a falta de solidez.” Imprensa: a fofoca ultimada.

A FECHADURA DO DISCURSO: “O falatório que qualquer um pode sorver sofregamente [ex: LULA LADRÃO] não apenas dispensa a tarefa de uma compreensão autêntica como também elabora uma compreensibilidade indiferente, da qual nada é excluído.”

Este fechamento [do discurso] é, de novo, potenciado pelo fato de o falatório pretender ter compreendido o referencial com base nessa pretensão de reprimir, postergar e retardar toda e qualquer questão e discussão.” “O predomínio da interpretação pública já decidiu até mesmo sobre as possibilidades de sintonização com o humor, i.e., sobre o modo fundamental em que o ser-aí é tocado pelo mundo.” “O falatório é (…) um contínuo desenraizamento. Do ponto de vista ontológico, isso significa: como ser-no-mundo, a pre-sença que se mantém no falatório rasgou suas remissões ontológicas primordiais, originárias e legítimas com o mundo, com a co-pre-sença e com o próprio ser-em. (…) Mais do que um não-ser, esse desenraizamento perfaz sua <realidade> mais cotidiana e mais persistente.

A estranheza da oscilação em que o ser-aí tende para uma crescente falta de solidez permanece encoberta sob a proteção de auto-evidência e autocerteza que caracterizam a interpretação mediana.”

Aquilo que se pressignou na sentença de Parmênides chega, nessa interpretação, a uma compreensão temática e explícita. O ser é tudo que se mostra numa percepção puramente intuitiva, e somente esse tipo de ver descobre o ser.” O que é esse tipo de ver? A curiosidade heideggeriana. Raiz da ontologia na Grécia.

Da intuição pura a dialética de Hegel retirou o seu moto [por mais que pense superar Kant] e somente à sua base é que se tornou possível.”

OTIUM: “A curiosidade liberada ocupa-se em ver, não para compreender o que vê, para chegar a ele num ser, mas apenas para ver. Ela busca apenas o novo” “abandonar-se ao mundo”

impermanência” (antítese da pre-sença)

não busca o ócio de uma permanência contemplativa e sim a excitação e inquietação mediante o sempre novo e as mudanças do que vem ao encontro.”

possibilidade continua de dispersão.”

A curiosidade não é o espanto inicial do filósofo na Metafísica de Aristóteles.

O falatório também rege os caminhos da curiosidade. É ele que diz o que se deve ter lido e visto.” “responsabilidade do falatório” Se pudéssemos resumir: o falatório é a burrice personificada, a curiosidade inútil, a tolerância em excesso.

Se, na convivência cotidiana, tanto o que é acessível a todo mundo quanto aquilo de que todo mundo pode dizer qualquer coisa vêm igualmente ao encontro, então já não mais se poderá distinguir, na compreensão autêntica, o que se abre do que não se abre.” “Tudo parece ter sido compreendido, captado e discutido autenticamente quando, no fundo, não foi. Ou então parece que não o foi quando, no fundo, foi.” “Não somente todo mundo conhece e discute o que se dá e ocorre, como também todo mundo já sabe discorrer sobre o que vai acontecer, o que ainda não se dá e ocorre, mas que <propriamente> deve ser feito.” “quem autenticamente <está na pista> não fala sobre isso”

DO ‘NÃO FOI GOLPE’: “Supondo que aquilo que impessoalmente se pressentiu e farejou seja, algum dia, transformado em fato, será justamente a ambigüidade quem terá cuidado para que morra imediatamente o interesse pela coisa realizada. Esse <interesse> só subsiste no modo da curiosidade e do falatório, na medida em que se dá como a possibilidade de mero pressentimento em comum, sem nenhum compromisso. Quando e enquanto se está na pista de alguma coisa, o mero estar-junto recua o compromisso do acompanhamento do momento em que se dá início à realização do que se pressentiu.” “isso qualquer um poderia ter feito” O Barão de Coubertin diria: o importante é pressentir. “Em sua ambigüidade, o falatório e a curiosidade cuidam para que aquilo que se criou de autenticamente novo já chegue envelhecido quando se torna público.”

no impessoal a compreensão da pre-sença não a si mesma em seus projetos”

onde cotidianamente tudo e, no fundo, nada acontece.”

De início, o outro <está presente> pelo que se ouviu impessoalmente dele, pelo que se sabe e se fala a seu respeito. O falatório logo se insinua dentre as formas de convivência originária. Todo mundo presta primeiro atenção em como o outro se comporta, no que ele irá dizer. A convivência no impessoal não é, de forma alguma, uma justaposição acabada e indiferente, mas um prestar-atenção-uns-aos-outros, ambíguo e tenso.”

a ambigüidade não nasce primordialmente de uma má-fé e nem é detonada primeiro por um ser-aí singular [determinado].” “o impessoal haverá sempre de objetar que essa interpretação não corresponde ao modo de ser da interpretação do impessoal.”

Por si mesma, em seu próprio poder-ser ela própria mais autêntico, a pre-sença já sempre caiu de si mesma e de-caiu no <mundo>. De-cair no <mundo> indica o empenho na convivência, na medida em que esta é conduzida pelo falatório, curiosidade e ambigüidade.” “Não ser ele mesmo é uma possibilidade positiva dos entes que se empenham essencialmente nas ocupações do mundo. Deve-se conceber esse não-ser como o modo mais próximo de ser da pre-sença em que, na maioria das vezes, ela se mantém.

Assim, a de-cadência da pre-sença também não pode ser apreendida como <queda> de um <estado original>, mais puro e superior. Disso nós não dispomos onticamente [fenomenal, diretamente] de nenhuma experiência e, ontologicamente [essencialmente], de nenhuma possibilidade e guia ontológicos para uma interpretação.” Fare thee well, Christianity!

Seria igualmente um equívoco compreender a estrutura ontológico-existencial da de-cadência, atribuindo-lhe o sentido de uma propriedade ôntica negativa que talvez pudesse vir a ser superada em estágios mais desenvolvidos da cultura humana.” Ou é uma espetada em Nietzsche (que não acerta em cheio e sequer tem nexo, pois Nietzsche não foi citado hora nenhuma até esse ponto do livro), ou de toda forma demonstra uma escolha inapropriada do termo “de-cadência” para ilustrar seu conceito de devir do ser-aí-no-mundo, já que não tem qualquer conotação de queda ou definhamento.

a própria pre-sença prepara para si mesma a tentação constante de de-cair. É que o ser-no-mundo já é em si mesmo tentador.”

A pretensão do impessoal, de nutrir e dirigir toda <vida> autêntica, tranqüiliza a pre-sença, assegurando que tudo <está em ordem> e que todas as portas estão abertas.”

pode nascer a convicção de que a compreensão das culturas mais estranhas e a sua <síntese> com a própria cultura levaria a um esclarecimento verdadeiro e total da pre-sença a seu próprio respeito. A curiosidade multidirecionada e a inquietação de tudo saber dá a ilusão de uma compreensão universal da pre-sença.”

ela busca a mais exagerada <fragmentação de si mesma>.” “A pre-sença se precipita de si mesma para si mesma na falta de solidez e na nulidade de uma cotidianidade imprópria. Mediante a interpretação pública, essa precipitação fica velada para a pre-sença, sendo interpretada como <ascensão> e <vida concreta>.” Quando ele recebeu a crítica de sua suposta magnum opus deve ter tido vontade de reescrevê-la toda para desmentir o desmentido que levou: ora, gostas de flertar com todos esses conceitos metafísicos de seus antecessores a cada página, H.!

Empilhamento de palavras exóticas, sem que se ganhe nada com isso: “turbilhão”

Debatesse com Adorno! Acho que ambos se divertiriam muitíssimo em meio ao tédio chamado séc. XX! “Será que a pre-sença pode ser compreendida como um ente em cujo ser está em jogo o poder-ser, se justamente em sua cotidianidade a pre-sença se perdeu a si mesma e, na de-cadência, <vive> fora de si mesma?”

sistematização do ser-rebanho

Mas nada de corujas e goticismo!”, teria dito Hegel II.

Dizer que a II Guerra não representa uma viragem (em qualquer sentido que se escolher) de uma autenticidade completa para uma inautenticidade completa ou vice-versa (após a guerra) seria duma má-fé excruciante. Seria, porque o livro tem a sorte de ser anterior ao evento histriônico-histórico.

A interpretação ontológico-existencial não se refere, portanto, a um discurso ôntico sobre a <corrupção da natureza humana>, não apenas porque lhe faltam os recursos necessários, mas também porque a sua problemática antecede qualquer proposição a respeito da corrupção ou da incorruptibilidade.” “Minha interpretação não se refere a um discurso parcial ou imediatista sobre a <corrupção da natureza humana>, não apenas porque minha interpretação é absolutamente nua e neutra, e cética na medida ideal, como também porque a História não tem qualquer importância para mim, estou acima dessas miudezas.”

6. A CURA COMO SER DA PRE-SENÇA

A visualização preliminar dada no início a respeito do fenômeno perdeu agora o vazio da 1ª caracterização genérica.” “a questão a que aspirava a análise preparatória dos fundamentos da pre-sença, qual seja: Como se haverá de determinar, do ponto de vista ontológico-existencial, a totalidade do todo estrutural indicado?” = Qual a relação do ser-aí com a unidade existencial-factual (totalidade do real)? Qual é a relação do presente com o eterno vir-a-ser? = Afinal, o que é a Cura?

Faz-se necessária uma confirmação pré-ontológica da interpretação existencial da pre-sença como cura.”

cura mundanidade manualidade realidade

Na problemática ontológica, ser e verdade foram, desde a Antiguidade, correlacionados, embora suas razões originárias permaneçam talvez encobertas.” “Do ponto de vista existenciário, sem dúvida, a propriedade do ser-próprio se acha, na de-cadência, obstruído e fechado. (sic)”

Aquilo com que a angústia se angustia é o ser-no-mundo como tal. (…) Nada do que é simplesmente dado (…) serve para (…) angustiar-se.” “O mundo possui o caráter de total insignificância.”

Está tão próximo que sufoca a respiração, e, no entanto, em lugar algum.”

Mesmo esse nada-ter-a-ver, o único que o discurso cotidiano da circunvisão é capaz de compreender, não é um nada completo.”

é a angústia que pela 1ª vez abre o mundo como mundo.”

Essa estranheza persegue cotidianamente a pre-sença e ameaça, mesmo que implicitamente, com a perda cotidiana no impessoal.” “O ser-no-mundo tranqüilizado e familiarizado é um modo da estranheza da pre-sença e não o contrário. O não sentir-se em casa deve ser compreendido, existencial e ontologicamente, como o fenômeno mais originário.”

A angústia é condicionada fisiologicamente [, mas o] (…) disparo psicológico da angústia só é possível porque a pre-sença, no fundo de seu ser, se angustia.”

A pre-sença já está sempre <além de si mesma>, não como atitude frente aos outros entes que ela mesma não é, mas como ser-para-o-poder-ser que ela mesma é. Designamos a estrutura ontológica do <estar em jogo> como o preceder a si mesma da pre-sença.

Pertence a esse ser-no-mundo o fato de, entregando-se à responsabilidade de si mesmo, já se ter lançado em um mundo.” “Em outras palavras: existir é sempre um fato. Existencialidade determina-se essencialmente pela facticidade.”

CURA ENQUANTO ESSA PRECEDÊNCIA INERENTE: “Fica excluída dessa significação toda tendência ôntica [imediatista] como cuidado ou descuido.” “A expressão <cura de si mesmo>, de acordo com a analogia da ocupação e preocupação, seria uma tautologia.”

no preceder-a-si-mesma, o <si> indica sempre o próprio, no sentido do próprio-impessoal. Mesmo na impropriedade, a pre-sença permanece essencialmente um preceder-a-si-mesma, da mesma forma que a fuga-de-si-mesma-na-de-cadência ainda apresenta a constituição ontológica na qual está em jogo o seu ser.

Enquanto totalidade originária de sua estrutura, a cura se acha, do ponto de vista existencial-a priori, <antes> de toda <atitude> e <situação> da pre-sença, o que sempre significa dizer que ela se acha em toda atitude e situação de fato.”

Sendo em sua totalidade essencialmente indivisível, toda tentativa de reconstrução ou recondução do fenômeno da cura a atos ou impulsos particulares tais como querer ou desejar, propensão ou tendência, converte-se em fracasso.

Tanto o querer como o desejar estão enraizados, com necessidade ontológica, na pre-sença enquanto cura e, do ponto de vista ontológico, não são vivências indiferentes que ocorrem numa <corrente> inteiramente indeterminada quanto ao sentido de seu ser.”

Do ponto de vista ontológico, [sempre bom ressaltar, para os imbecis do big bang] a cura é <anterior> aos fenômenos mencionados [surgimento da vida da perspectiva da física ou da biologia] que, sem dúvida, só podem ser adequadamente <descritos> dentro de certos limites, sem que seja necessário evidenciar ou tornar conhecido o horizonte ontológico em seu todo.” “Para a presente investigação de uma ontologia fundamental, que não aspira a uma ontologia tematicamente completa da pre-sença e muito menos a uma antropologia concreta, basta que se indique como estes fenômenos se fundam existencialmente na cura.”

No querer, só se apreende um ente já compreendido, i.e., um ente já projetado em suas possibilidades como ente a ser tratado na ocupação ou a ser cuidado em seu ser na preocupação.” “Para a possibilidade ontológica do querer são constitutivos: a abertura prévia do em-função-de-que (o preceder a si mesma), a abertura do que se pode ocupar (o mundo como algo em que já se é) e o projeto de compreensão da pre-sença num poder-ser para a possibilidade de um ente <que se quis>.”

Esse nivelamento das possibilidades da pre-sença ao que se oferece, de imediato, no cotidiano realiza, ao mesmo tempo, uma obliteração do possível como tal. A cotidianidade mediana da ocupação se torna cega para as possibilidades e se tranqüiliza com o que é apenas <real>.”

…de maneira a dar a impressão de que algo está acontecendo.”

A MEGA SENA DA MECA DO FUNCIONALISMO: “No desejo, a pre-sença projeta o seu ser para possibilidades as quais não somente não são captadas na ocupação como não se pensa ou se espera, sequer uma vez, a sua realização. Ao contrário, a predominância do preceder-a-si-mesma, no modo do simples desejar, comporta uma incompreensão das possibilidades factuais. O ser-no-mundo, cujo mundo se projeta primariamente como mundo do desejo, perde-se, de modo insustentável, no que se acha disponível, e isso de tal modo que o que está disponível como o único manual jamais é suficiente à luz do que se deseja. Desejar é uma modificação existencial do projetar-se da compreensão que, na de-cadência do estar-lançado, ainda adere pura e simplesmente às possibilidades. Essa adesão fecha as possibilidades; aquilo que está ‘presente’ na adesão do desejo torna-se ‘mundo real’. Ontologicamente, desejar pressupõe a cura.”

É verdade que o desejo — cegueira e antolhos — é sempre a decadência e mundanização de uma pretensa onisciência, possível de ser concebida apenas a posteriori após a ‘decadência’ e ‘mundanização’. Isso é o que torna as pessoas tão pasmadas. O homem é aquele que nunca sacia seu desejo? Falso. Este não é o homem-no-homem! Já está saciado. O homem é aquele que estabelece sua própria prisão em vez de liberdades.

A adesão de-cadente revela a tendência da pre-sença de se <deixar viver> pelo mundo em que ela sempre está.” “[A cura] cega coloca todas as possibilidades a serviço da tendência.”

Enquanto modificação de todo ser-no-mundo, a pre-sença já é sempre cura.” Pois sua fuga redunda em achar-se e com-frontar-se consigo mesma. O ser-aí en-cara de igual para igual no mundo jamais-aplanado.

a idéia de ser é tão pouco <simples> como o ser da pre-sença.”

do ponto de vista ontológico, a <novidade> dessa interpretação é, do ponto de vista ôntico, bastante antiga.” Quer dizer que nada do que H. explica é novo ou inédito, mesmo em face da filosofia clássica dos gregos.

o ser da pre-sença se caracteriza pela historicidade que, de todo modo, só deve ser comprovada ontologicamente. Se, com base em seu ser, a pre-sença é ‘histórica’, então uma proposição oriunda de sua história e que a ela remete, sendo anterior a toda ciência, possui um peso particular, embora, sem dúvida, não seja um peso puramente ontológico.”

A auto-interpretação da pre-sença como <cura> foi apresentada numa antiga fábula.”

Como bom alemão, recorre a Fausto: (*) “Burdach mostra que Goethe extraiu de Herder a fábula que consta como a 220 das Fábulas de Higino, tendo-a trabalhado para a segunda parte de seu Fausto.”

Certa vez, atravessando um rio, Cura viu um pedaço de terra argilosa: tomou um pedaço e começou a lhe dar forma. Enquanto refletia sobre o que criara, interveio Júpiter. Cura pediu-lhe que desse espírito à forma de argila, o que ele fez de bom grado. Como Cura quis então dar seu nome ao que tinha dado forma, Júpiter a proibiu e exigiu que fosse dado o[utro] nome. Enquanto Cura e Júpiter disputavam sobre o nome, surgiu também TELLUS [Terra]¹ querendo dar o seu nome, uma vez que havia fornecido um pedaço de seu corpo. Os disputantes tomaram SATURNO como árbitro. Saturno pronunciou a seguinte decisão, aparentemente eqüitativa: <Tu, Júpiter, por teres dado o espírito, deves receber na morte o espírito e tu, Tellus, por teres dado o corpo, deves receber o corpo. Como, porém, foi Cura quem primeiro o formou, ele deve pertencer à Cura enquanto viver. Como, no entanto, sobre o nome há disputa, ele deve se chamar HOMO, pois foi feito de húmus.>²

¹ Anatomy is destiny! Júpiter ou Zeus é Mefistófeles.

² “Substância orgânica e negra, resultante da decomposição parcial de vegetais ou de animais, que se acumula sobre o solo ou a ele se mistura. Etimologia (origem da palavra húmus). Do latim humus.i, terra.” Está decidido: o homem é originariamente preto.

Carl Sagan, Shakespeare. Começa e termina com-poeira. Ca’poeira luta metafísica… Alergia à vida.

essa primazia da cura emerge no contexto da concepção conhecida em que o homem é apreendido como o composto de corpo e espírito.”

O homem é o que está vivo. O homem é originariamente irreligioso, eis sua essência mais recôndita. O animal para a vida do barro e da terra e moral. Zeus nunca é nosso responsável, i.e., nunca pagamos o preço pela venda da alma na fábula (nun-ca-veiramos, hamletianamente). Cristo como o não-homem (uma curiosidade).

Se uma moeda fôssemos, a Cura seria o valor ou o trabalho de oficialização estatal sobre o metal responsável por inseri-la em circulação (em qualquer ponto do ciclo).

origem na margem do rio – veja explicações mais completas deste raciocínio em https://www.recantodasletras.com.br/pensamentos/7485396.

esse ente não é abandonado por essa origem, mas, ao contrário, por ela mantido e dominado enquanto for e estiver no mundo.” Esse o verdadeiro sentido da frase platônica deus é a medida de todas as coisas (do homem). Mas não significa que não foi o homem que atribuiu a medida, só quer dizê-lo objetivamente. Porque o homem não existe. Seria Prometeu acorrentado, mas nós somos livres. Não haverá punição pela transgressão. Tudo menos isso. Temos a chave da própria prisão e devemos usá-la enquanto é tempo. Ou enquanto o tempo é. A chave abre e roda a cunha. E também sela (o destino).

Desde os primórdios já era uma vez.

A menos que um dia a Hindo-China nos negasse, essa seria a interpretação final final e formal.

Questões preliminares:

1. É a coisa real (transcende a consciência do ser)? Resposta condensada: Esse modo de raciocínio é uma tautologia.

2. Se real o mundo externo (inanimado, fora da consciência), essa realidade é passível de prova? Resp.cndsd: Não. Mas é absurdo cobrar a prova.

3. A coisa, no Realismo, possui um ser-em-si (diferente de coisa-em-si ou noumeno, porém igualmente impossível, conforme verificaremos)? Resp.cndsd: Só o que existe é a coisa-para-o-ser, não um ser-para-a-coisa, apesar da nomenclatura enganosa de todas as traduções!

4. O que é a coisa chamada ‘realidade’? Resp.cndsd: A filosofia tradicional (antiga + moderna), que deve ser superada!

Elaboração das respostas condensadas acima (elas se fecham num círculo, e com isso se abrem para o Ser):

1., 2.

Instrumento tradicional de estudo do real: INTUIÇÃO

Instrumento fenomenológico (ontológico originário) de estudo do “real”: “A questão se o mundo é real e se o seu ser pode ser provado, questão que a pre-sença enquanto ser-no-mundo haveria de levantar – e quem mais poderia fazê-lo? – mostra-se destituída de sentido.”

O que é o mundo? A totalidade ou apenas a circunvisão do ser-aí? Não faz sentido falar num mundo da totalidade, pois sem a circunvisão do ser-aí, ele existindo ou não, ficaria fechado ao ser, e não nos interessa em nível ontológico a discussão ou investigação de um mundo tal (ôntico). Ou seja, devemos abandonar a analítica da empiricidade das coisas e da intuição (entidade dos sentidos do fenômeno), o que Heidegger chama por várias vezes de entes já dados ou a priori. (FILOSOFIA ATÉ KANT, incluindo Hegel, pois originariamente falando Hegel vem antes de Kant, retroage em relação à precedência cronológica do primeiro. Além disso, do prisma heideggeriano, a intuição e o espaço-tempo kantianos são ainda empirismo, i.e., realismo, investigação tradicional.)

Essa confusão das questões, o confundir-se do que se quer comprovar com o que se comprova e com a comprovação, mostra-se na <refutação do idealismo> de Kant. Kant chamou de <escândalo da filosofia e da razão humana em geral> o fato de ainda não se dispor de uma prova definitiva, capaz de eliminar todo ceticismo a respeito da <presença (Dasein) das coisas fora de nós>Ou seja, ceticismo a respeito do real, nada a ver com o ser-aí. Schopenhauer sabia, ainda que pelas razões erradas, que o Idealismo era o vencedor na velha contenda Idealismo x Realismo, que pendeu para o lado do realismo durante a proeminência dos filósofos franceses e britânicos e que havia estagnado na época do criticismo kantiano, chegando a seu suposto termo metafísico dada sua solução negativa. Hegel podia até ser idealista, mas sua fé transcendental em algo completamente não-observável (a teleologia) compromete posicioná-lo ao lado de Schopenhauer em alguma coisa, ainda que coincidam em nomenclatura por poucas linhas!

De início, deve-se observar explicitamente que Kant usou o termo <presença> (Dasein) para designar o modo de ser que, na investigação precedente, nós chamamos de <ser simplesmente dado>. <Consciência de minha presença> significa para Kant: consciência de meu ser enquanto ser simplesmente dado no sentido de Descartes.” K. funde ser e ente, ou mais exatamente consciência e objeto (eis o espírito do criticismo).

A PROVA A PRIORI DOS 9: “A prova da <presença das coisas fora de mim> sustenta-se no fato de que transformação e permanência pertencem, de modo igualmente originário, à essência do tempo.”

alguma coisa permanente simplesmente dada” em Kant são espaço, tempo e causa.

Na verdade, a prova não consiste numa conclusão causal e por isso não guarda as suas inconveniências.” “Num primeiro momento, tem-se a impressão de que Kant abandonou o princípio cartesiano da preexistência de um sujeito isolado. (…) O fato de Kant fornecer uma prova da <presença das coisas fora de mim> já mostra que, nessa problemática, ele toma o sujeito, o <em mim>, como ponto de apoio. (…) a experiência do <tempo> que a prova inclui só se faz <em mim>.” Quando eu é/sou o solo, morre-se/morro no abismo, pois o eu é sempre a instância mais fraca na metafísica ocidental.

O que Kant prova é o ser simplesmente dado necessariamente em conjunto de um ente que se transforma e um que permanece. Essa equiparação de 2 seres simplesmente dados ainda não diz o simplesmente-dar-se-em-conjunto-de-sujeito-e-objeto.”

Kant pressupõe a diferença e o nexo entre <em mim> e <fora de mim> – o que é correto do ponto de vista do fato, mas incorreto no sentido a que tende a sua prova. (…) Mas mesmo que se visse o todo da diferença e o nexo entre <dentro> e <fora>, pressuposto na prova, e se concebesse ontologicamente o que nessa pressuposição é pressuposto, ainda ruiria a possibilidade de se considerar como necessária e ainda ausente a prova da <presença das coisas fora de mim>.

O <escândalo da filosofia> não reside no fato dessa prova ainda inexistir e sim no fato de sempre ainda se esperar e buscar essa prova. (…) O modo de ser desse ente que prova e exige provas é que é subdeterminado.” Chega de fora, dentro, exterior e interior! Só o que há é a unidade do ser-aí-no-mundo.

A pre-sença, entendida corretamente, resiste a tais provas porque ela já sempre é, em seu ser, aquilo que as provas posteriores supõem como o que se deve necessariamente demonstrar.”

sujeito desmundanizado ou inseguro acerca de seu mundo.”

3., 4.

O <problema da realidade>, no sentido da questão se um mundo exterior é simplesmente dado e se é passível de comprovação, apresenta-se como um problema impossível. Não porque tenha por conseqüências aporias intransponíveis, mas porque o próprio ente que é tematizado recusa esse modo de colocar a questão. O que se deve não é provar o fato e como um <mundo exterior> é simplesmente dado, e sim de-monstrar por que a pre-sença,¹ enquanto ser-no-mundo, possui a tendência de 1º sepultar epistemologicamente o <mundo exterior> em um nada negativo para então permitir que ele ressuscite mediante provas.” “Se, nessa orientação ontológica, o modo de colocar a questão for <crítico>, encontra então um mero <interior> enquanto o único ser simplesmente dado certo e seguro.”

¹ A presença ainda muito sentida de Kant!

Na medida em que, na proposição existencial, não se nega o ser simplesmente dado dos entes intramundanos, ela concorda – por assim dizer doxograficamente [como que por analogia, pois a ‘opinião’ ou o método dá no mesmo desfecho] – com a tese do realismo. (…) O que a separa do realismo é a incompreensão ontológica de que sofre o realismo. Ele tenta esclarecer a realidade onticamente mediante o contexto efetivo e real entre as coisas reais.

Com relação ao realismo, o idealismo possui uma primazia fundamental, por mais oposto e insustentável que seja no que respeita aos resultados, desde que ele próprio não se compreenda equivocadamente como idealismo <psicológico>. Quando o idealismo acentua que ser e realidade apenas se dão <na consciência>, exprime, com isso, a compreensão de que o ser não deve ser esclarecido pelo ente [mundo, neste contexto]. Na medida, porém, em que não se esclarece o fato de aqui se dar uma compreensão do ser e o que diz ontologicamente essa compreensão, i.e., como lógica da pre-sença, o idealismo constrói no vazio a interpretação da realidade.”

Se o título idealismo significar o mesmo que compreender a impossibilidade de se esclarecer o ser pelo ente mas que, para todo ente, o ser já é o <transcendental>, então é no idealismo que reside a única possibilidade adequada de uma problemática filosófica.” Como já ressaltado, de uma forma um tanto estrambótica é que Kant e Schopenhauer adquiriram este saber. Kant é uma espécie de “mago da filosofia moderna” ao reunir os epítetos de campeão dos céticos (‘o’ criticista) e ao mesmo tempo o de formador da filosofia transcendental (sintética).

Se, porém, idealismo significar a recondução de todo ente a um sujeito ou a uma consciência que, por sua vez, se caracteriza como o que permanece indeterminado em seu ser, sendo, no máximo, caracterizado negativamente como uma <não-coisa>, [PRIVILEGIADO de forma inexplicável – o limite dos idealismos ‘fajutos’ de Fichte e Hegel – apesar da clivagem notável de qualidade e profundidade entre os 2, é precisamente aqui que um é tão raso quanto o outro…] então, do ponto de vista do método, esse idealismo se mostra tão ingênuo quanto o realismo mais grosseiro.” Sch. como que evita ou faz uma administração de danos nesse tocante ao tirar da “cartola ontológica” sua Vontade. Pois não é o indivíduo que rege seu sistema: a Vontade É a coisa-em-si. Nietzsche chega ainda mais longe: descarta a coisa-em-si, ‘aperfeiçoa’ a vontade, ao imanentizá-la ao máximo (limite da metafísica pré-fenomenológica no sentido husserliano?). Heidegger vai com asserção batizar esse método na continuidade deste parágrafo, sem citar o autor: “orientação ‘perspectivista’”.

Scheler como um elo entre o kantismo e o ‘ontologismo’ husserl-heideggeriano: fracassou porque apesar dos pequenos avanços fenomenológicos insistiu em que o problema estava no refino do aparato epistemológico, o que no entanto não é verdade, pois do ponto de vista epistemológico o kantismo já havia de certo modo chegado ao limite da questão nas bases ‘clássicas’.

[Em Dilthey] Realidade é resistência ou, mais precisamente, o conjunto das resistências. A elaboração analítica do fenômeno de resistência constitui o ponto positivo do referido tratado e a melhor confirmação concreta da idéia de uma <psicologia descritiva e classificatória>.” “[Porém] O <princípio da fenomenalidade> impediu Dilthey de chegar a uma interpretação ontológica da consciência.” “…a remissão ontológica da consciência ao próprio real, tudo isso necessita de uma determinação ontológica. [de onde vêm as vontades e seus freios à consciência?]” “Interpretar ontologicamente a pre-sença, porém, não significa uma recondução ôntica a um outro ente.”

A análise ontológica dos fundamentos da <vida> não pode ser acrescentada posteriormente como uma infra-estrutura. É ela que carrega e condiciona a análise da realidade, bem como toda explicação do conjunto das resistências e de suas pressuposições fenomenais.”

abre-se algo pelo que impulso e vontade se empenham.” “O próprio empenho… que se depara com resistência, e é o único que pode se deparar, já se acha junto a uma totalidade con-juntural.” “o <ser-contra> e o <ser oposto> são sustentados pelo ser-no-mundo que já se abriu. § Resistência também não é experimentada num impulso ou vontade que <emergem> por si mesmos. Impulso e vontade mostram-se como modificações da cura.”

Resistência caracteriza o <mundo externo>, no sentido dos entes intramundanos mas nunca no sentido de mundo. <Consciência da realidade> é ela mesma um modo de ser-no-mundo.

Caso o <cogito sum> deva servir como ponto de partida da analítica existencial da pre-sença, então é preciso não apenas revertê-lo mas reconfirmar, de modo ontológico-fenomenal, o seu conteúdo. A 1ª proposição seria: <sum> no sentido de eu-sou-em-um-mundo.” “Descartes diz, ao invés: cogitationes são simplesmente dadas”

* * *

A <natureza> que nos <envolve> é, na verdade, um ente intramundano [coisa] que, no entanto, não apresenta o modo de ser do que está à mão nem de algo simplesmente dado no modo de <coisidade da natureza>.”

realidade não possui primazia no âmbito dos modos de ser dos entes intramundanos, assim como esse modo de ser não pode ser caracterizado adequadamente, do ponto de vista ontológico, como mundo ou pre-sença.”

O fato de a realidade se fundar ontologicamente no ser da pre-sença não pode significar que o real só poderá ser em si mesmo aquilo que é se e enquanto existir a pre-sença.

De fato, apenas enquanto a pre-sença é, ou seja, a possibilidade ôntica de compreensão do ser, <dá-se> ser. Se a pre-sença não existe, também nem <independência> nem <em si> podem <ser>.” Sem o sujeito observador, o real não seria real.

Agora pode-se realmente dizer que, enquanto houver compreensão do ser e com isso compreensão do ser simplesmente dado, então o ente prosseguirá a ser.

A dependência caracterizada, não dos entes, mas do ser em relação à compreensão do ser, i.e., a dependência da realidade [de um modo do real] e não do real em relação à cura, assegura o prosseguimento da analítica da pre-sença de não resvalar numa interpretação não-crítica que, guiada pela idéia de realidade, sempre de novo tenta se impor.” Não existe um sentido indiferente para realidade.

O SER-DO-ENTE É SÓ O INÍCIO: “a compreensão do ser como ente [em si] só é possível se o ente possui o modo de ser da pre-sença.” “A primeira descoberta do ser-dos-entes com Parmênides <identifica> o ser com a compreensão que percebe o ser.” Descrever aquilo que é, como ele é, implica que a coisa tenha um ser. Logo, a preocupação sempiterna dos filósofos com o ser e a verdade eram, precipuamente, a preocupação com a relação ser e coisa.

A investigação toma agora um novo princípio.” “A investigação evidenciará que a questão sobre o modo de ser da verdade pertence necessariamente à questão sobre a <essência> da verdade. Daí se segue o esclarecimento do sentido ontológico da afirmação de que <verdade se dá> e do modo em que necessariamente <se deve pressupor> que <se dá> verdade.”

A VERDADE CLÁSSICA NA ERA TRÁGICA DOS GREGOS: “1. O <lugar> da verdade é a proposição (o juízo). 2. A essência da verdade reside na <concordância> entre o juízo e seu objeto. 3. Aristóteles, o pai da lógica, não só indicou o juízo como o lugar originário da verdade, como também colocou em voga a definição da verdade como <concordância>.”

O mundo é bom. Nós só temos de achar onde.

Isaak Israelis > Avicenna > Tomás de Aquino

A antiga e famosa questão, com a qual se supunha colocar os lógicos em apuros, é a seguinte: O que é verdade? Brentano

Verdade ou aparência não se encontram no objeto na medida em que ele se dá na intuição e sim no juízo a seu respeito, na medida em que é pensado.” Ainda uma questão da justa opinião de Parmênides…

Que caráter ontológico possuem essa opinião e essa coisa?

O que significa o termo <concordância>?”

Assinalar é uma relação entre o sinal e o assinalado mas não uma concordância. Decerto, nem toda concordância significa uma espécie de convenientia, tal como se fixou na definição da verdade. [Aristóteles e escolásticos] O número 6 concorda com 16 – 10. Os números concordam e são iguais, no tocante à quantidade. Igualdade é um modo de concordância. A ela pertence estruturalmente uma espécie de <perspectiva>.”

Em que perspectiva intellectus e res concordam?”

A <concordância> tem o caráter da relação <assim como>.”

APORIA: “Segundo a opinião geral, só o conhecimento é verdadeiro. Conhecer, porém, é julgar. Em todo julgamento, deve-se distinguir a ação de julgar enquanto processo psíquico real e o conteúdo julgado enquanto conteúdo ideal. Deste último, diz-se que é <verdadeiro>. Em contrapartida, o processo psíquico real é simplesmente dado ou não.” “Será um acaso o fato desse problema há mais de 2 milênios não sair do lugar? Ou será que o descaminho da questão consiste em seu ponto de partida, ou seja, na separação ontologicamente não-esclarecida entre real e ideal?” “Não será que a realidade do conhecimento e do juízo se rompe em 2 modos de ser ou <camadas>, cuja sutura jamais chegará a alcançar o modo de ser do conhecimento?” “A definição aparentemente arbitrária, [feita por nós, os fenomenólogos] contudo, apenas traz uma interpretação necessária daquilo que a tradição mais antiga da filosofia pressentiu de maneira originária, e chegou a compreender pré-fenomenologicamente.”

A tradução pela palavra verdade e, sobretudo, as determinações teóricas de seu conceito encobrem o sentido daquilo que os gregos, numa compreensão pré-filosófica, estabeleceram como fundamento <evidente> do uso terminológico de ALETHEIA.

A adução desses testemunhos deve resguardar-se de uma mística desenfreada das palavras; entretanto, o ofício da filosofia é, em última instância, preservar a força das palavras mais elementares, em que a pre-sença se pronuncia a fim de que elas não sejam niveladas à incompreensão do entendimento comum, fonte de pseudoproblemas.”

A <definição> proposta da verdade não é um repúdio da tradição mas uma apropriação originária” “A <definição> da verdade como descoberta e ser-descobridor também não é uma mera explicação de palavras. (…) Ser-verdadeiro enquanto ser-descobridor é um modo de ser da pre-sença. O que possibilita esse descobrir em si mesmo deve ser necessariamente considerado <verdadeiro>, num sentido ainda mais originário.” “A presença [enquanto em modo de ser mais próprio, e não da impropriedade mundana e cotidiana] é e está <na verdade>.” “A verdade da existência é a abertura mais originária e mais própria que o poder-ser da pre-sença pode alcançar.” “Em sua constituição ontológica, a pre-sença é e está na <não-verdade> porque é, em sua essência, de-cadente.” “É por isso que, em sua essência, a pre-sença tem de explicitamente tomar posse do que se descobriu contra a aparência e a distorção e sempre se reassegurar da descoberta.” “A descoberta em seu fato é, ao mesmo tempo, um roubo.” “O fato da deusa-verdade de Parmênides colocá-lo diante de 2 caminhos, um do descobrimento, e outro do velamento, significa simplesmente que a pre-sença já está sempre na verdade e na não-verdade. O caminho do descobrimento só é conquistado na cisão compreensiva entre ambos e no decidir-se por um deles.”

O que se pronuncia [proposições epistemológicas] torna-se, por assim dizer, um manual intramundano que pode ser retomado e propagado.” “A proposição pronunciada é um manual de tal modo que traz em si mesma uma remissão ao ente descoberto, na medida em que preserva a descoberta.” “A própria remissão se dá como algo simplesmente dado.”

O juízo contém algo que vale para os objetos” Kant

Modo impróprio: descoberta conformidade (ouvir-dizer – a pre-sença se fecha no falatório), i.e., concordância

Com isso fica demonstrado o caráter ontologicamente derivado do conceito tradicional de verdade.” Refutação da lógica aristotélica ou não-lógica da pre-sença.

A tese de que o <lugar> genuíno da verdade é o juízo não apenas é erroneamente atribuída a Aristóteles como constitui, no que respeita a seu conteúdo, um desconhecimento da estrutura da verdade.” “A <verdade> mais originária é o <lugar> da proposição e a condição ontológica de possibilidade para que a proposição possa ser verdadeira ou falsa [juízo apofântico].”

As leis de Newton, o princípio de contradição, toda verdade em geral só é verdade enquanto a pre-sença é. Antes da pre-sença e depois da pre-sença não havia verdade e não haverá verdade porque, nesse caso, a verdade não pode ser enquanto abertura, descoberta e descobrimento.” “As leis de Newton, antes dele, não eram nem verdadeiras nem falsas. Isso não pode significar que o ente que elas, descobrindo, demonstram não existisse antes delas. As leis se tornam verdadeiras com Newton.” A mesma bastardização evidentecopiada por Latour no fim do mesmo século. “Veja que os micróbios já existiam, só não para a ciência pré-microbiológica!”

O fato de se darem <verdades absolutas> só pode ser comprovado de modo suficiente caso se logre demonstrar que, em toda a eternidade, a pre-sença foi e será. Enquanto não houver essa prova, a sentença será apenas uma afirmação fantástica que não recebe nenhuma legitimidade apenas porque os filósofos geralmente nela <acreditaram>.” Enquanto o homem existir, haverá verdade. Somos o novo absoluto. O homem e o deus-do-homem são a medida inexorável de todas as coisas.

Será que a verdade, compreendida de modo adequado, se vê lesada pelo fato de, onticamente, só ser possível no <sujeito>, e de depender do ser-do-sujeito?”

Não somos nós que pressupomos a <verdade>, mas é ela que torna ontologicamente possível que nós sejamos de modo a <pressupor> alguma coisa. A verdade possibilita pressuposições.

O que diz <pressupor>? Compreender alguma coisa como a base e o fundamento do ser de um outro ente.” “Devemos <fazer> a pressuposição de verdade porque ela já se <fez> com o ser do <nós>.”

<Em si> não se pode perceber por que o ente deve ser descoberto, por que deve haver verdade e pre-sença. A objeção corriqueira do ceticismo, a negação do ser ou da possibilidade de se conhecer a <verdade> estão a meio caminho.” O ceticismo demonstra que “a verdade pertence à[o modo de ser da] proposição”. “Ademais, desconsidera-se o fato de que, mesmo quando ninguém emite um juízo, já se pressupõe a verdade na medida em que a pre-sença é.”

O cético, quando o é de fato, no modo da negação da verdade, não precisa ser refutado. Na medida em que é e se compreendeu nesse ser, ele dissolve a pre-sença e, com isso, a verdade, no desprezo do suicídio.” “a pre-sença não pode ser colocada para si mesma à prova.”

CONTRA O SUJEITO IDEAL: “Não pertence ao a priori do sujeito de fato [empírico], ou seja, à facticidade da pre-sença, a determinação de que ela é e está, de modo igualmente originário, na verdade e na não-verdade?” A partir de qualquer instante, a partir de qualquer local. “A recusa de uma <consciência em geral> não significa a negação do a priori assim como a suposição de um sujeito idealizado não garante a aprioridade da pre-sença fundada no real. § Afirmar <verdades eternas> e confundir a <idealidade> da pre-sença, fundada nos fenômenos, com um sujeito absoluto e idealizado, pertencem aos restos da teologia cristã no seio da problemática filosófica, que de há muito não foram radicalmente expurgados.” [DV]

Mas será que com o fenômeno da Cura se abriu a constituição ontológico-existencial mais originária da pre-sença? Será que a multiplicidade estrutural, que se encontra no fenômeno da Cura, oferece a totalidade mais originária do ser de fato da pre-sença? Será que a investigação feita até aqui já permitiu ver o todo da pre-sença?” Só o tempo nos dirá, mas não no âmbito de Heidegger…

DIC:

apofântico: “[Lógica] Na lógica aristotélica, relativo aos enunciados verbais possíveis de serem falsos ou verdadeiros.” Ao dizer isso, Aristóteles diz que a palavra, isto é, o logos, conhecimento, pode ser verdadeiro ou falso, dependendo do contexto em que o discurso é enunciado ou proposto.

originário (em Heidegger): aquilo que é próprio e autêntico, pertencente ao ser-aí no seu sentido mais profundo e existencial, além de já contemplar a própria existencialidade, i.e., um projeto totalizante da vida. O mal-entendido com a função de “mais antigo” que poderia adquirir para um leitor incauto se deve à noção de “preceder-se a si mesmo” do ser-aí.

FIM DO PRIMEIRO VOLUME

SEGUNDA SEÇÃO:

Pre-sença e temporalidade [de certo modo decepcionante, pálido reflexo da 1ª]

Mas o que significa originariedade de uma interpretação ontológica?”

Toda interpretação possui sua posição prévia, visão prévia e concepção prévia. No momento em que, enquanto interpretação, se torna tarefa explícita de uma pesquisa, então o conjunto dessas <pressuposições>, que denominamos de situação hermenêutica, necessita de um esclarecimento prévio que, numa experiência fundamental, assegure para si o <objeto> a ser explicitado. Uma interpretação ontológica deve liberar o ente na constituição de seu próprio ser.”

Uma interpretação ontológica originária, no entanto, não exige somente uma situação hermenêutica segura e ajustada aos fenômenos, mas deve assegurar-se, explicitamente, de ter levado todo o ente tematizado a sua posição prévia. Também não é suficiente uma descrição preliminar do ser-desse-ente, mesmo que fundada em bases fenomenais. A visão prévia do ser deve respeitar-lhe, sobretudo, a unidade dos momentos estruturais possíveis e pertinentes. Só então é que se pode colocar e responder com segurança fenomenal a questão do sentido da unidade da totalidade ontológica de todo o ente.

Será que a análise existencial da pre-sença, anteriormente realizada, nasceu de uma tal situação hermenêutica, de modo a se ter conquistado uma garantia de originariedade, exigida pela ontologia fundamental?”

a caracterização ontológica da constituição existencial ainda guardou uma falta essencial.” “[Já que investigamos a pre-sença em sua medianidade a fundo apenas,] Enquanto não se incorporar a estrutura existencial do poder-ser próprio à idéia de existência, a visão prévia, orientadora de uma interpretação existencial, ressentir-se-á de originariedade.”

A cotidianidade é justamente o ser <entre> nascimento e morte.” “O ente cuja essência é constituída pela existência resiste, de modo essencial, à sua possível apreensão como ente total. A situação hermenêutica não apenas não assegurou a <posição> de todo o ente como é até questionável se isso, por fim, se pode alcançar e se uma interpretação ontológica originária da pre-sença não estará fadada ao fracasso, considerando-se o modo de ser do próprio ente tematizado.” Confissões, do ex-seminarista Martin Heidegger

O <fim> do ser-no-mundo é a morte.”

conceito existencial da morte”

a morte é um ser-para-a-morte existenciário [ôntico]”

Mas será que a pre-sença pode existir toda ela de modo próprio?”

um poder-ser próprio da pre-sença reside no querer-ter-consciência.” Já sempre quis e já sempre teve (o homem).

Provavelmente um terceiro volume teria de se embrenhar na questão: CURA & TÉCNICA.

A cotidianidade desentranha-se como modo da TEMPORALIDADE.”

a cura deve precisar de <tempo> e, assim, contar com <o tempo>.”

conceito tradicional de tempo”

temporalidade e intratemporalidade “temporalização da temporalidade”;

temporalização ainda mais originária da temporalidade”

O projeto de um sentido do ser em geral pode-se realizar no horizonte do tempo.”

(*) “No séc. XIX, Kierkegaard concebeu, explicitamente, o problema da existência como existenciário, refletindo a seu respeito com profundidade. (…) ele, contudo (…) encontra-se inteiramente sob o domínio de Hegel e da filosofia antiga vista por este último.” Como que de propósito, parece que não haverá uma singular referência ao filósofo que tem a chave potencial da hermenêutica metafísica de Heidegger…

Para aprofundamento em Kierkegaard neste blog: https://seclusao.art.blog/2017/06/14/a-dialetica-da-fe-em-kierkegaard-marieta-pinho-tese-de-mestrado/ ; https://seclusao.art.blog/2017/11/30/diario-de-um-sedutor/ .

1. A POSSIBILIDADE DA PRE-SENÇA SER-TODA E O SER-PARA-A-MORTE

A possibilidade da pre-sença ser-toda contradiz, manifestamente, a cura que, de acordo com seu sentido ontológico, constitui a totalidade do todo estrutural da pre-sença.” Tradução para nosso idioma: A possibilidade do instante em primeira pessoa (o momento presente) ser um todo universal e completo, autônomo, contradiz de forma óbvia a existência do início ao fim do ser, i.e., sua vida em si mesma, que abarca o próprio instante, aliás, milhões de instantes, sendo ela realmente a última instância.

O especial do instante é que no momento primordial da vida, ele já estava lá.

A falta de esperança, p.ex., não retira a pre-sença de suas possibilidades, sendo apenas um modo próprio de ser para essas possibilidades.” “Contudo, esse momento estrutural da cura diz, sem ambigüidades, que, na pre-sença, há sempre algo pendente, que ainda não se tornou <real>, como um poder-ser de si mesma.” E nem irá.

(*) “Reservou-se findar para exprimir o fim próprio da pre-sença [senciência] e finar para o fim dos demais seres vivos.”

(*) “A palavra portuguesa impendente exprime a experiência do que é iminente. [de forma bem ruim, eu diria!] Por conservar a mesma derivação de pendente [e no alemão –stand] traduziu-se Bevorstand por impendente.” Na verdade a tradução se escurou no Inglês, em que impending = iminente.

(*) “SELBST = SI-MESMO

Cf. N34 da 1ª parte, o termo alemão selbst exprime tanto próprio como si-mesmo. Considerando-se que na 2ª parte o que está em questão é o poder-ser todo em sentido próprio da pre-sença, a tradução deixou predominar o termo si-mesmo para diferenciar, no horizonte da identidade, de próprio (eigen).”

(*) “Ruf e todos os seus derivados provêm do verbo rufen cujo sentido é chamar. Os desdobramentos e as nuanças dessa experiência se explicitam através das derivações oriundas do acréscimo de prefixos cujas correspondências em português se procurou construir com as derivações por prefixo do étimo latino clamor.”

(*) “ENTSCHLOSSENHEIT = DE-CISÃO [DESTRANCABILIDADE, retorno à unidade]

A palavra alemã é um derivado do verbo schliessen que significa fechar, trancar. O prefixo ent acrescenta a idéia de um movimento em sentido contrário e daí o significado de destrancar, abrir. Uma das modalidades de exercício da pre-sença é o destrancar-se e abrir-se para… que, no tocante à dinâmica de si-mesma, designa a experiência de determinação, resolução. [de-terminação, re-solução, acabamento] Para exprimir toda essa envergadura de sentido, a tradução se valeu do processo semelhante designado pela palavra de-cidir, de-cisão cujo sentido primordial se constrói em torno do movimento de arrancar, separar (scindere).”

(*) DE VOLTA À ANTROPOLOGIA NIETZSCHE-MAUSSIANA (Ver O desejo de Deleuze):¹ “O sentido originário de Schuld usado por H. explica claramente no texto em que medida é justificada a tradução desse termo por débito.”

¹ https://clubedeautores.com.br/livro/o-desejo-de-deleuze – Livro autoral, cerca de R$40,00 na versão ebook. Ver especialmente pp. 49-50.

(*) “Porque Zukunft [futuro] é uma derivação de zukommen (ad-vir), a tradução guardou o termo porvir.”

(*) “GEWESENHEIT = VIGOR DE TER SIDO [era melhor simplesmente VIGORADO, que já contém a essência da explicação que segue, mantém a brevidade e a terminação de PASSADO!]

A palavra alemã é uma derivação do verbo wesen que significa vigir, vigorar, estar em vigor. Como substantivo, Gewesenheit e seus derivados conotam a dupla experiência de uma força que já se instalou e que continua atuante. Por isso a tradução optou pela expressão vigor de ter sido.”

(*) “GEGENWART = ATUALIDADE

GEGENWÄRTIGEN = ATUALIZAÇÃO

VERGEGENWÄRTIGEN = TORNAR ATUAL

A palavra Gegen-wart se compõe do verbo warten = esperar e da preposição gegen = contra e diante de. A palavra portuguesa presente não exprime, de modo algum, a conotação de adversidade e resistência ativas à espera. Uma vez que o horizonte ontológico de Gegenwart remete primordialmente à ação, a tradução reservou o termo atualidade para exprimir Gegenw.. Atualidade deriva-se do verbo agere = agir e conota a força de impor-se-a-…, guardando pois a dimensão de oposição e resistência.”

(*) “GEWÄRTIGEN = ATENDER

(…) ad-tendere = tender para, empenhar-se por.”

No momento, porém, em que a pre-sença <existe>, de tal modo que nela nada mais esteja de forma alguma pendente, ela também não-mais-está-presente. Retirar-lhe o que há de pendente significa aniquilar o seu ser. [nada de poder-ser nem responsabilidade nem pôr-se em jogo]

E não se estaria, no fundo, supondo, sem nem se dar conta, a pre-sença como ser simplesmente dado, da qual sempre escaparia algo que simplesmente ainda não se deu?” Malandro nietzschiano! “Terá a argumentação apreendido o ainda-não-ser e o <preceder> em sentido genuinamente existencial?” R: Não!

Teria a expressão <morte> um sentido biológico ou ontológico-existencial ou ainda um sentido delimitado de modo seguro e suficiente?” A despeito de que haja cem por cento de certeza que ela irá acontecer, não conte com o fenômeno da sua morte (enquanto em seu ser-aí próprio, para usar a nomenclatura de H.).

HOMEM: O animal que: pode experimentar a morte alheia.

Levando-se ao extremo, o não-mais-ser-no-mundo do morto ainda é também um ser, na acepção do ser simplesmente dado de uma coisa corpórea. (…) O fim de um ente, enquanto pre-sença, é o seu princípio como mero ser simplesmente dado.”

preocupação reverencial”

É a partir do mundo que os que ficam ainda podem ser e estar com ele.”

Esse encaminhamento me surpreendeu: “A indicação da morte dos outros como tema sucedâneo para a análise ontológica da conclusão e totalidade da pre-sença repousa ainda sobre uma pressuposição, que mostra um inteiro desconhecimento do modo de ser da pre-sença.”

Porém… “Mas será, na realidade, essa pressuposição tão desprovida de fundamento?”

O conceito médio de exitus não se identifica com o conceito de finar.” Semelhança acústica desconcertante com êxito. Exeunt.

Estar pendente e faltar são co-pertinentes.”

Estar pendente significa, portanto: o que é co-pertinente ainda não está a-juntado.”

suce-SÃO

Na coisa (ente), faltas ou pendências são determinadas por somas de outras coisas que, na terminologia heideggeriana, “estão à mão”, i.e., simplesmente dadas.

A quarta dimensão do problema do ser é, portanto, o tempo, aquilo que liga o que somos ao que falta sermos, ao que seremos.

Pode-se dizer, p.ex., da lua que o último quarto ainda está pendente até chegar à lua cheia. O ainda-não míngua com o desaparecimento da sombra que oculta.” “Esse ainda-não refere-se unicamente à apreensão perceptiva.” Porque, na lua nova, é impendente o surgimento da lua cheia. (ciclo natural)

O fruto imaturo, p.ex., encaminha-se para o seu amadurecimento.” E lá vai Hegel…

O que alcançou a maturidade quer morrer (desaparecer, regredir, etc. – aquilo que for possível segundo o objeto tratado!).

a pre-sença tem tão pouco necessidade da morte para chegar à maturidade que ela pode ultrapassá-la antes do fim.” Ex: o humano mantido em animação artificial sem sinais vitais no cérebro.

Em que sentido a morte deve ser concebida como findar da pre-sença?”

MORTE QUÂNTICA: “Na morte, a pre-sença nem se completa, nem simplesmente desaparece nem acaba e nem pode estar disponível à mão.”

A morte é um modo de ser que a pre-sença assume no momento em que é. <Para morrer basta estar vivo>.”

A tentativa de se alcançar uma compreensão da totalidade, dotado do caráter de pre-sença, tomando-se como ponto de partida um esclarecimento do ainda-não e passando-se pela caracterização do fim, não logrou sua meta. Ela só mostrou negativamente que o ainda-não, que cada pre-sença é, recusa sua interpretação como o pendente.”

Essa pesquisa ôntico-biológica da morte tem por base uma problemática ontológica. Permanece em questão como a essência da morte se determina a partir da essência ontológica da vida. De certo modo, a investigação ôntica da morte sempre-já se decidiu sobre essa questão.” O século XX seria o século-mor dessa “representação ôntica esclarecida”.

a pre-sença nunca fina.”

a presença nunca afina

agora ela não afina, nem ontem, nem amanhã,

porque ela é grossa e ríspida,

invencível insuperável!

pode te deitar por terra

num instante…

Uma <tipologia> do <morrer>, entendida como caracterização dos estados e dos modos em que se <vivencia> esse deixar de viver, já pressupõe o conceito de morte. Ademais, uma psicologia do <morrer> acaba fornecendo mais soluções sobre a <vida> <dos que morrem> do que propriamente sobre o morrer.”

Mas que bosta pára-normal se tornou esse tratado? “Caso se determine a morte como <fim> da pre-sença, i.e., do ser-no-mundo, ainda não se poderá decidir onticamente¹ se, <depois da morte>, um outro modo de ser, seja superior ou inferior, é ainda possível, se a pre-sença <continua vivendo> ou ainda se ela é <imortal>, sobrevivendo a si mesma.” Embora devamos conceder que quando H. põe entre aspas significa que não sai da “boca dele”. Ainda assim, sinto saudade da assertividade do século XIX, que FIN(D)OU no subseqüente.

¹ Verdade que – ontologicamente – a história é outra…

Por fim, tudo o que se possa discutir sob a rubrica de uma <metafísica da morte> extrapola o âmbito de uma análise existencial da morte.” Existencial, ontológico e metafísico deveriam querer dizer a mesma coisa. Esse embrulho todo não enriquece a Primeira filosofia…

Desde S. Paulo à Meditatio futurae vitae de Calvino, a antropologia elaborada na teologia cristã sempre viu a morte no seio da interpretação da <vida>. W. Dilthey, cujas tendências propriamente filosóficas se encaminham para uma ontologia da <vida>, não podia deixar de reconhecer o seu nexo com a morte.”

Unger, Herder, Novalis und Kleist. Studien über die Entwicklung des Todesproblems im Denken und Dichten von Sturm und Drand zur Romantik, 1922.

Para a pre-sença, enquanto ser-no-mundo, muitas coisas podem ser impendentes.” “o impendente privilegiadoMas impendente é tão feio que usarei sempre iminente destarte.

A iminência dos im-postos e não-postos e expostos e outpostos e sobrepostos e depostos.

A angústia com a morte é angústia <com> o poder-ser mais próprio, irremissível e insuperável. O próprio ser-no-mundo é aquilo com que a angústia se angustia.”

Quem está lançado atinge um alvo.

Vampiros ou deuses ainda são humanos na fenomenologia.

O discurso pronunciado ou, no mais das vezes, <difuso> sobre a morte diz o seguinte: algum dia, por fim, também se morre mas, de imediato, não se é atingido pela morte.” “mas eu não; pois esse impessoal é o ninguém.” “Escapar da morte encobrindo-a domina, com tamanha teimosia, a cotidianidade que, na convivência, os <mais próximos> freqüentemente ainda convencem o <moribundo> que ele haverá de escapar da morte e, assim, retornar à cotidianidade tranqüila de seu mundo de ocupações.”

Em seu conto A Morte de Ivan Illich, Tolstoi expôs o fenômeno do abalo e do colapso desse <morre-se impessoal>.”

No domínio público, <pensar na morte> já é considerado um temor covarde, uma insegurança da pre-sença e uma fuga sinistra do mundo.” É o estóico um covarde? “A cotidianidade pára no momento em que admite ambiguamente a <certeza> da morte a fim de enfraquecê-la e de aliviar o estar-lançado na morte, encobrindo ainda mais o morrer.”

Estar-certo de um ente significa: ter por verdadeiro enquanto verdadeiro.”

Assim como o termo <verdade>, a expressão <certeza> possui um duplo significado.”

O ter-por-verdadeiro, enquanto manter-se-na-verdade, só se torna suficiente quando está fundado no próprio ente descoberto e se faz transparente como um ser-para-o-ente-assim-descoberto” “A suficiência do ter-por-verdadeiro se mede pela pretensão de verdade a que pertence.” “A certeza inadequada mantém encoberto aquilo de que está certa.”

é certo que <a> morte vem.” A morte é o inferno, porque é temática para-os-outros.

Ela permanece necessariamente aquém do maior grau de certeza, da certeza apodítica, alcançada em certas esferas do conhecimento teórico.”

pensar-na-morte cansado e ineficaz”

A indeterminação da morte certa determina as ocupações cotidianas, colocando-lhes à frente as urgências e possibilidades previsíveis do cotidiano mais próximo.”

O escape de-cadante e cotidiano da morte é um ser-para-a-morte impróprio.” “Enquanto não se elaborar e determinar ontologicamente esse ser-para-a-morte em sentido próprio, a interpretação existencial do ser-para-o-fim perpetuará uma falta essencial.”

se, como, quando

É a partir do real e com vistas a ele que o possível é absorvido no real pela espera.”

Como possibilidade a proximidade mais próxima do ser-para-a-morte se acha, face ao real, tão distante quanto possível.”

rei-vindicação

a pre-sença só pode ser propriamente ela mesma quando ela mesma dá a si essa possibilidade.” Quando o instante reflete em si mesmo, i.e., no único, no singular que é estar neste irremissível.

Antecipando, a pre-sença evita recuar para trás de si mesma e da compreensão de seu poder-ser, evitando <tornar-se velha demais para as suas vitórias> (Nietzsche).” Finalmente cita sua inspiração-mor!

Porque a antecipação da possibilidade insuperável inclui em si todas as possibilidades a sua frente, nela reside a possibilidade de se tomar previamente de modo existenciário toda a pre-sença, ou seja, a possibilidade de existir como todo o poder-ser.” Modo complicado de dizer: apreender a finitude da existência. Aprender a ocupar-se se preocupando ao mesmo tempo.

Manter-se nessa verdade, ou seja, estar certo do que se abriu, exige justamente a antecipação.” Ninguém (nenhum “jovem”) tem qualquer abertura cotidiana para o fato de que é possível que morra antes dos 50. Eu sou o único que conheço a seguir esse “prazo”. Obviamente tenho planos para além do prazo, que no caso é a extensão-prorrogação do meu atual projeto. Se isso não se cumprir, não há prejuízo (como se houvesse prejuízos para um morto)… Se isso se cumprir, não há prejuízo, porque me preparo! Digo, minha biografia não será “manchada” ou “diminuída” na 1ª hipótese. Preciso agora cuidar com “pressa não-apressada” do que eu julgo mais importante. O deadline convertido em death-line. #NowPlaying Tribulation – Lady Death

Para se alcançar a coisalidade, ou seja, a indiferença da evidência apodítica, a pre-sença precisa, primeiramente, perder-se na conjuntura das coisas – o que pode até constituir uma tarefa e uma possibilidade da cura.”

O ser ou não ser de Hamlet é uma antecipação exitosa ou falhada?

Talvez que ele só quisesse, como bom esgrimista, saber se iria ven-ser ou não ven-ser (pun intended).

Como a compreensão antecipadora se projeta para um certo poder-ser continuamente possível, de maneira que sempre fique indeterminado quando a absoluta impossibilidade da existência tornar-se-á enfim possível?” Temos que ter um plano B para cada dia após o limite auto-estipulado em que sobrevivermos.

O ser-para-a-morte-próprio é essencialmente angústia.”

SOBRE O SER-PARA-A-MORTE-IMPRÓPRIO: angústia infundada perigo real de morte temor covardia (o “não é possível que isso está acontecendo! agora não! o que farei?”, tão amado pelos filmes de terror hollywoodianos… – A PRÉ-ERA DA ANGÚSTIA)

Com isso, surge também a possibilidade de a pre-sença poder-ser toda em sentido próprio, mas somente como uma possibilidade ontológica.” “Apesar disso, esse ser-para-a-morte existencialmente <possível> permaneceu, do ponto de vista existenciário, uma suposição fantástica.” Um fenômeno fantástico.

(s)urge do nada

A questão sobre um ser todo da pre-sença em sentido próprio e sua constituição existencial só poderá ser colocada em bases fenomenais consistentes quando se conseguir atá-la a uma possível propriedade de seu ser, testemunhada pela própria pre-sença.” No fundo, o livro responde (ou se digna a tentar responder) apenas uma pergunta: quem tem a hegemonia, o impróprio ou o próprio do ser-aí?

2. O TESTEMUNHO SEGUNDO O MODO DE SER DA PRE-SENÇA, DE UM PODER-SER EM SENTIDO PRÓPRIO E A DE-CISÃO

Recuperar a escolha significa escolher essa escolha, decidir-se por um poder-ser a partir de seu próprio si-mesmo.” “A auto-interpretação cotidiana da pre-sença conhece como voz da consciência aquilo que a seguir apresentaremos como testemunho.”

A exigência de uma <prova empírico-indutiva> para o <fato> da consciência e para a legitimidade de sua <voz> significa uma deturpação ontológica desse fenômeno.” O modo de ser da consciência não é empírico.

A análise mais profunda da consciência a desentranha como clamor. O clamor é um modo de discurso.

Você (eu!) me deve uma satisfação!

A interpretação da consciência haverá não apenas de ampliar a análise anterior da abertura do mas, sobretudo, de apreendê-la de forma mais originária com vistas ao ser da pre-sença em sentido próprio.” “a pre-sença <sabe> a quantas ela mesma anda na medida em que se projetou em possibilidades de si mesma ou, afundando-se no impessoal, recebeu da interpretação pública do impessoal as suas possibilidades.”

o próprio do impessoal” X “o próprio de si-mesma”

O meu clamor se deu aos 19-21 anos. Quando eu me tornei eu mesmo.

Devemos lembrar que a verbalização não é essencial nem para o discurso e nem para o clamor.”

sobressalto brusco” “Só é atingido pelo clamor quem se quer recuperar.”

Face a um fenômeno como a consciência, salta logo aos olhos a insuficiência ontológico-antropológica da classificação das faculdades da alma ou dos atos pessoais.”

Além das interpretações da consciência empreendidas por Kant, Hegel, Schopenhauer e Nietzsche deve-se atentar para: M. Kähler, Das Gewissen, erster geschichtlicher Teil, 1878, e o artigo do mesmo autor na Realenzyklopädie f. prot. Theologie und Kirche. Além disso: A. Ritschl, Über Gewissen, 1876, reeditado nos Gesammelte Aufsätzen, 1896, p. 177s. E, por fim, a monografia há pouco publicada de H.G. Stoker, Das Gewissen (Schriften zur Philosophie und Soziologie, ed. por Max Scheler, tomo II, 1925). (…) [apesar de seus inúmeros defeitos,] A monografia de Stoker significa um avanço considerável frente à interpretação da consciência feita até hoje, mais pelo tratamento abrangente dos fenômenos da consciência e de suas ramificações do que pela de-monstração das raízes ontológicas do fenômeno.”

Para que perspectiva se aclama? Para si-mesmo em sentido próprio. E não para aquilo que vale na convivência pública, não para o que ela pode ou de que se ocupa e, sobretudo, não para aquilo que a toma ou pelo que se engajou e se deixou arrastar.” “o impessoal sucumbe em si mesmo.” “Justamente no ultrapassar, o clamor empurra o impessoal para a insignificância.”

O si-mesmo não é um cientista investigador nem o comum dos mortais movido pela curiosidade (ocupações banais, ônticas).

O que a consciência de-clama para o aclamado? Em sentido rigoroso, nada.”

nada tem para contar”

Não se trata de dialética

É um chamamento. Com toda a incompreensão associada às religiões que isso pode desencadear. Afinal, é uma re-ligação.

O discurso da consciência sempre e apenas se dá em silêncio.”

Ao sair de casa, abandone todas as esperanças (contato com-os-outros), lia-se no pórtico acima da portaria do próprio prédio, mas virado não para os pedestres ou eventuais visitas, e sim para o morador que sai para o trabalho…

O que o clamor abre é, não obstante, unívoco e preciso, mesmo que possa sofrer interpretações diversas, segundo as possibilidades de compreensão de cada pre-sença singular. [umas mais, outras menos burras]”

intramundane divine intervention

o clamor é infalível: o sabor amargo da água é mera culpa do recipiente

Heidegger pensa que está inovando e abrindo novos horizontes filosóficos, mas tudo a que chega é a uma reescritura de Platão, ou seja, esta é uma obra sobre “o que é ser filósofo, afinal?”: “Embora jamais se descaracterize, quem clama também não oferece a menor possibilidade de tornar o clamor familiar para uma compreensão da pre-sença orientada <mundanamente>.”

ele [o indeterminado] não aceita tagarelices a seu respeito.” O falatório, quem diria, é ensimesmado.

DANADINHO: “Na condição de aclamada, a pre-sença não se a-pre-senta diferentemente do que como clamante? Não será o seu poder-ser si-mesmo mais próprio o clamante?”

E a ironia do destino é que o clamor é impessoal! Outro “impessoal” que o heideggeriano…

(em azul, porque essa é minha própria história:) “O clamor <se faz> contra toda espera e mesmo contra toda vontade. Por outro lado, [ou pelo mesmo lado] o clamor, sem dúvida, não provém de um outro que é e está no mundo junto comigo. O clamor provém de mim e, no entanto, por-sobre-mim.” É o demônio de Sócrates, ingênuo Heidegger!

atribui-se [na pre-sença dos burros] essa força instalada a alguém que dela tem posse ou ainda se a toma como uma pessoa que anuncia (Deus).” O erro fatal dos escravos do ser como simplesmente dado.

Embora possa ficar velado para a pre-sença o seu porquê, o fato de ela ser de fato (sic) implica que o próprio <fato> já se tenha aberto para a pre-sença.”

Na maior parte das vezes, porém, o humor fecha o estar-lançado.”

a facilidade da liberdade pretendida pelo próprio-impessoal.” A questão é que para o filósofo o clamor é muito mais fácil do que “a liberdade lá fora”!

o fato <cru> no nada do mundo.”

O que poderia ser mais estranho para o impessoal, perdido no <mundo> das múltiplas ocupações, do que o si-mesmo singularizado na estranheza de si e lançado no nada?”

O que mais retira tão radicalmente da pre-sença a possibilidade de deturpar a compreensão e o conhecimento de si do que a entrega e o abandono de si mesma?”

Estranheza é, na verdade, o modo fundamental mas encoberto de ser-no-mundo.”

A sentença: a pre-sença é, ao mesmo tempo, quem clama e o aclamado, perde agora o seu vazio formal e a sua evidência. A consciência revela-se como clamor da cura

Conclama-se a pre-sença, aclamando-a para sair da de-cadência no impessoal”

Ei, você se precede a si mesmo, escute isso!”

Conhece-te o que és!

Torna-te aquilo que é a ti mesmo!

a mescla de me

voz universalmente obrigatória”

Essa aclamação afirmada nasce da <boa> ou da <má> consciência? Será que a consciência propicia algo positivo ou só funciona criticamente?”

O que a consciência testemunha só poderá adquirir plena determinação caso se delimite, com clareza e suficiência, o caráter que deve ter o ouvir que genuinamente corresponde ao clamor.”

Todas as experiências e interpretações da consciência convêm, de alguma maneira, que a <voz> da consciência fala de <débito>.” Ulisses, tu precisas fechar teu círculo! – demônio Atena

Quem diz que nós somos e estamos em débito e o que significa débito?” Somos Adãos (Adões?) melhorados. Porque nascemos já adultos, mas com um verdadeiro passado infantil, ao contrário do protótipo de homúnculo cristão. Aprendemos a duras penas sobre a responsabilidade, não é comendo maçãs (malus) que lá chegamos… Não há cobra nesse conto. E é uma ascensão. Homem-foguete incircunciso.

eu sou, logo devo (uma vida e uma morte)

MUNDO PRÉ-NIETZSCHIANO: “De imediato, a compreensão cotidiana toma o <ser e estar em débito> no sentido de uma <dívida>, de <ter o rabo preso com alguém>.” Da alma com o corpo. Ou antes o inverso.

ser a causa de alguma coisa”

Jesus é incompleto porque ele ainda se relaciona com o conceito de cura e débito dessa forma: pago pelos outros, sinto-culpa-com-os-outros. Porém, o clamor é apenas de si para si mesmo. A culpa verdadeira é autógena. Aquele que morreu por nós não importa mais: eu sou aquele que morrerá por mim mesmo.

EXISTIR É PESADO E SÓLIDO:

O fundamento não precisa retirar o seu nada do que é por ele fundamentado.”

Existindo, a pre-sença é o fundamento de seu poder-ser porque só pode existir como o ente que está entregue à responsabilidade de ser o ente que ela é. Embora não tendo ela mesma colocado o fundamento, a pre-sença repousa em sua gravidade que, no humor, se revela como carga.”

Ser-fundamento diz, portanto, nunca poder se apoderar do ser mais próprio em seu fundamento. [a existência]”

a própria pre-sença é um nada de si mesma.”

Sem dúvida, a ontologia e a lógica atribuíram coisas demais ao não, tornando extensamente visível a sua possibilidade sem, no entanto, o ter desentranhado ontologicamente.”

Porque toda dialética foge para a negação, sem fundamentar, dialeticamente, a própria negação mesmo que só para fixá-la como problema? Já se problematizou alguma vez a origem ontológica do nada ou, antes disso, já se buscaram as condições desse nada sobre as quais se funda o problema do não, de seu nada e de sua possibilidade?” Sim. Nie..

o bonum e a privatio possuem a mesma proveniência ontológica que a ontologia do ser simplesmente dado, que se aplica igualmente à idéia de <valor> dela <haurida>.”

Não se pode determinar o ser e estar em débito originário pela moralidade porque ela já o pressupõe.”

Conclamação do ser e estar em débito não significaria, portanto, conclamação do mal?” Por que retroagir tanto, pulando o – ou dando as costas ao – século XIX, H.?

Essa interpretação[, a] mais violenta de todas”

Algumas vezes na leitura, Heidegger parece me dizer: Só é necessário provar e comprovar aquilo que é necessário comprovar (em minha pesquisa e investigação). Mas não! Segundo seus próprios pressupostos, nem isso seria “necessário” “comprovar”!

A consciência não tem ouvidos. Ainda bem. Ou melhor: o ouvido não tem consciência.

A cotidianidade toma a pre-sença como um manual de ocupação, ou seja, como gerência e cálculo. A <vida> é um <negócio>, independentemente se ela paga ou não o seu preço.” Já ontologicamente, não há manual algum e <sempre se paga o preço>, sendo filósofo entende-se e estende-se isso para o próprio ser-aí.

METAPHYSICAL DISPLAY OF POWER

com-dicção humana

No fundo, a má consciência é tão pouco uma mera censura retroativa que ela reclama, sobretudo, numa referência antecipadora ao estar-lançado.” “Se já a caracterização da <má> consciência não alcança o fenômeno originário, isso vale ainda mais no que diz respeito à <boa> consciência, mesmo que esta seja considerada uma forma autônoma ou fundada essencialmente sobre a <má>.” “Na medida em que o discurso sobre a <boa> consciência nasce da experiência da consciência feita pela pre-sença cotidiana, isto apenas mostra que ela, mesmo quando se fala de <má> consciência, no fundo, não atinge o fenômeno.” Heidegger é desonesto em sua metodologia: devia simplesmente dizer, nessa seção do livro: eu li o livro Além do bem e do mal e remeto todos os verdadeiramente interessados pela questão do ser a ele.

A teoria do valor, seja fundamentada formal ou materialmente, também abriga uma <metafísica dos costumes>, i.e., uma ontologia da pre-sença e da existência como pressuposto ontológico implícito.” “Recorrer ao âmbito de tudo o que a experiência cotidiana da consciência conhece como única instância para a sua interpretação só pode se legitimar caso reflita, primeiramente, se, neste nível, a própria consciência pode-se fazer acessível.”

A interpretação comum pode pretender [pré-tender, hohoho!] sustentar-se nos <fatos>, limitando, nessa sua compreensão, a abrangência de abertura do clamor.” Eu, estudante universitário, deprimido, cada vez mais desimpessoalizado (na horrível nomenclatura heideggeriana), acumulando saber filosófico, à entrada da casa dos 20 anos, “transmuto-me”, muito influenciado por Nietzsche e Sartre, p.ex.. É claro que historiograficamente, i.e., onticamente, de forma rasa, tenderiam, numa biografia minha, a ver no ISOLAMENTO a causa-mor dessa “iluminação extra-moral”. Como todo incauto intérprete de Nietzsche e associados, me chamariam de louco ou pelo menos diriam “período conturbado”, “neurose criativa”, como o tal Ellenberger! Ora, é óbvio que o tal clamor tem de ter circunstâncias fenomênicas – com que tipo de exegetas infantilizados estamos lidando aqui?! Ocorre que foi indiscutivelmente a instância da abertura do meu ser-aí ao meu ser-no-mundo e ser-para-a-morte. Uma transformação absolutamente interna, tirando esse olhar crítico a posteriori, já que ninguém se deu conta, [meus colegas, professores, família] se estamos falando da compreensão platônica das coisas e não de sintomas vulgares de depressão.

É a partir da expectativa de uma indicação útil das possibilidades de <ação> seguras, disponíveis e calculáveis que se sente a falta de um conteúdo <positivo> no que se clama.” E agora, o que eu vou fazer?! Passeio na calçada entre a UnB e minha casa, tangendo o colégio CEAN. Apenas seguir descascando, ou simplesmente parar e <viver>, se me der na telha, porque a indiferença é minha para quando <eu quiser>. Me aprofundar nessas leituras, como interesse máximo. Me formar e dar aula, como interesses comezinhos, ônticos. O que isso me diz? Errei na carreira, tive uma graduação turbulenta – mas e daí? Isso não fere o projeto ontológico, obviamente. Aqui estou, dando a ele a continuidade pressentida desde sempre. E o fato de eu ter me assegurado <no mundo>, financeiramente, i.e., praticamente, também nada diz sobre <obter um êxito dissimulado> (farisaísmo da boa consciência, como Heidegger coloca). Todas essas externalidades são o realmente indiferente da minha vida. O dispor de mais ou menos tempo para seguir em meu projeto seguem como preocupação secundária “de fundo”, o que mais me importa em relação a minha existência pública ou material! E ainda assim converto algo tão obtuso em escrita, i.e., criação artística.

Com as máximas esperadas e precisamente calculadas, a consciência negaria à existência nada menos do que a possibilidade de agir.” Isso fica para o Rafael imediato, o mais profundo apenas assiste de camarote nessas horas, mas intervém se for o caso. Exemplo: Antecipe sua leitura de Ser e Tempo, está demorando demais!

O querer-ter-consciência [todo esse processo do clamor] transforma-se em presteza para a angústia. [um saber (se) ouvir sabiamente]” “A consciência só clama em silêncio, ou seja, o clamor provém da mudez da estranheza e reclama a pre-sença conclamada para aquietar-se na quietude de si mesma.” O Rafael que desde pequeno era “tagarela demais” teve de se fechar para o outro se abrir: mas o primeiro Rafael ainda existe, com-os-outros, no mundo da impessoalidade.

Chamamos de de-cisão essa abertura privilegiada e própria, testemunhada pela consciência na própria pre-sença, ou seja, o projetar-se silencioso e prestes a angustiar-se para o ser e estar em débito mais próprio.” “Quanto a seu <conteúdo>, o <mundo> à mão não se torna um outro mundo, o círculo dos outros não se modifica, embora, agora, o ser-para o que está à mão, em sua compreensão e ocupação, e o ser-com da preocupação com os outros sejam determinados a partir de seu poder-ser mais próprio.” É o além-homem apenas um filósofo na verdadeira acepção da palavra? Aquele que se desescravizou o homo oeconomicus, a instrumentalidade ultimada?

PRIMEIRA SOCIEDADE (OU COMO SE TORNAR ÉTICO): “A pre-sença de-cidida pode se tornar <consciência>-dos-outros. Somente a partir do ser si-mesma mais próprio da de-cisão é que brota a convivência em sentido próprio.” Ou seja, um querer-compor-um-humanismo.

O decisivo é justamente o projeto e a determinação que, cada vez, abrem as possibilidades de fato. A indeterminação que caracteriza cada poder-ser de fato lançado da pre-sença pertence necessariamente à de-cisão.” “A de-cisão se apropria propriamente da não-verdade. A pre-sença já está e, talvez sempre esteja, na in-de-cisão. Esse termo designa apenas o fenômeno já interpretado como abandono à interpretação predominante do impessoal.” // Parmênides.

Enquanto conceito inverso à de-cisão em sua compreensão existencial, a in-de-cisão não significa uma qualidade ôntica e psíquica, no sentido de sobrecarga de repressões.”

Somente para-a-de-cisão é que pode ocorrer aquilo que chamamos de acaso, ou seja, o que lhe cai a partir do mundo circundante e do mundo compartilhado.” “Em contrapartida, a situação permanece essencialmente fechada, para o impessoal. Ele conhece apenas os <casos gerais> que se perdem nas <ocasiões> mais imediatas e contesta a pre-sença, calculando os <acasos>, os quais, por desconhecê-los, sustenta e professa como sua realização.” Kairos é ainda excessivamente pragmático e utilitarista enquanto conceito, pelo menos para a horda de idiotas que dele poderia querer se apropriar…

Expor os traços fundamentais e as correlações das possibilidades de fato existenciárias bem como interpretá-las em sua estrutura existencial pertencem ao âmbito das tarefas da antropologia existencial.” Cf. Psicologia da Comovisão (tenho certeza que a tradução está diferente) de Jaspers.”¹ H. alerta: esta obra não deve ser usada como um manual tipológico das cosmovisões possíveis.

¹ Psychologie der Weltanschauungen; bem que pode ser esse também: Filosofia da existência: conferências pronunciadas na Academia Alemã de Frankfurt. Rio de Janeiro, RJ: Imago, 1973.

Propriedade da pre-sença agora não é mais uma expressão vazia (…) Todavia, o sentido próprio do ser-para-a-morte enquanto poder-ser todo em sentido próprio, existencialmente deduzido, permanece um projeto puramente existencial, que ainda necessita de um testemunho da pre-sença.” Ou seja, H. procura a de-cisão geral desse ser-para-a-morte (do homem em geral). Digamos que a de-cisão em âmbito individual só diz respeito a nós, os superiores, nós os eleitos, etc. Mas me parece muita pretensão chegar a essa nova re-solução! Além disso, ele não sabe explicar como nós, os privilegiados, chegamos a ser privilegiados. Mas isso é inexplicável.

3. O PODER-SER TODO EM SENTIDO PRÓPRIO DA PRE-SENÇA E A TEMPORALIDADE COMO SENTIDO ONTOLÓGICO DA CURA

Demorou muito para incluir o tempo na problemática do ser, após a promessa na introdução!

Não será que a tentativa de forçar a união entre de-cisão e antecipação não leva a uma construção insuportável, de todo não-fenomenológica, que nem é capaz de reivindicar o caráter de um projeto ontológico com base fenomenal?”

Até aqui as discussões a respeito do método mantiveram-se em segundo plano.”

A determinação do sentido ontológico da cura consiste na liberação da temporalidade.”

A certeza da de-cisão significa: manter-se livre para uma retomada possível e de fato necessária.” “de-cidir com propriedade pela re-petição de si mesmo.” “A de-cisão antecipadora não é, de modo algum, um subterfúgio inventado para <superar> a morte.” “O querer-ter-consciência, determinado como ser-para-a-morte, também não significa um desprendimento do mundo, mas conduz, sem ilusões, à de-cisão do <agir>.” Quem se afasta da curiosidade mesquinha, se afasta também do mau idealismo. Não vive mais cinicamente, tampouco como um idealista sonhador caricato. O herói decidido e conclamado. Espírito-livre nietzschiano.

A filosofia nunca haverá de querer contestar as suas <pressuposições> mas também não quererá admiti-las sem discussão. A filosofia concebe as pressuposições junto com os seus referentes e os submete a um desdobramento mais penetrante.”

do ponto de vista ontológico, o ente que nós mesmos somos é o mais distante.” (DV) Vivemos no aí, sendo necessário um processo complexo de auto-reconhecimento inerente a nossa condição para vislumbrarmo-nos como ser total do nascimento à morte (como entes). É como se nos afastássemos o máximo de nós mesmos e de nossa circunvizinhança para podermos concluí-lo, impessoal, objetivamente. Concluir o quê? Essa simples verdade factual, que independe de qualquer instante, desde que já tenha sido assegurada a primeira vez.

Conquistar o infinito (perder-se indistintamente nele, a única coisa que se pode fazer perante o infinito) é fácil. O difícil é conquistar o próprio finito, sem o quê não existe destino.

tudo que vai volta” tudo que abre, fecha.

Sou, logo irei morrer e não ser.

Já vivi com tanto tato e contato!

…será que esse pre-supor possui o caráter de um projeto que compreende?”

ser-em-círculo-da-pre-sença

O DIZER-EU

O <eu> é uma mera conseqüência que acompanha todos os conceitos. Com ele, <nada se representa a não ser um sujeito transcendental dos pensamentos>.”

O eu-penso é a forma da apercepção [pré-percepção ou percepção ágrafa – o sine qua non kantiano] que precede e adere a toda experiência.” K.

Denominar este eu de <sujeito lógico> não significa que o eu em geral seja, meramente, um conceito obtido por via lógica.” Até porque, como vimos acima, o eu-penso é um não-conceito ou percepção ilógica, pré-lógica.

O <eu penso> significa <eu combino>.” Tem de haver um eu para que os conceitos se liguem, e o mundo exista.

Isso significa que [para K.] o eu penso não é algo representado e sim a estrutura formal do representar como tal, através do que, só então, se torna possível todo e qualquer representado.”

eu = eidos = base dos conceitos + conceitos

Determinar ontologicamente o eu como sujeito significa já sempre supor o eu como algo simplesmente dado. O ser-do-eu é compreendido como realidade da res cogitans.” Por isso em H. o ser-do-eu tem de se tornar ser-do-ente. (A síntese que K. pensara ter realizado se realiza.)

OBRA DE KANT: Um sistema em que a ética é um módulo do sistema, e não um componente orgânico impossível de isolar desse mesmo sistema é um sistema, falho e não-ético ou anti-ético.

CRÍTICA ULTIMADA AO CRITICISMO: “Não é preciso pensar <materialistamente> nem <racionalistamente> para se ficar, de todo, prisioneiro da ontologia da <substância> [o eu cartesiano, o simplesmente dado] de maneira ainda mais perniciosa por ser, aparentemente, evidente.”

Scheler, Der Formalismus in der Ethik und die materiale Wertethik

Kant não viu o fenômeno do mundo e foi suficientemente conseqüente ao afastar as <representações> do conteúdo a priori do <eu penso>.”

De ser-no-MUNDO a SER-NO-mundo.

Heidegger chama, desnecessariamente, o discurso mediano ao se referir a si de eu-eu ou dizer-eu-eu.

No silêncio, o ser-si-mesmo em sentido próprio justamente não diz <eu-eu> porque, na silenciosidade, ele <é> o ente-lançado que, como tal, ele propriamente pode-ser.”

Não deve ser coincidência que solidão, sozinho e solo, chão, sejam semelhantes desde o latim. Sustentáculo da alma e da ação.

O que significa sentido?” Hahaha.

sentido é o contexto no qual se mantém a possibilidade de compreensão de alguma coisa, sem que ele mesmo seja explicitado ou, tematicamente, visualizado. Sentido significa a perspectiva do projeto primordial a partir do qual alguma coisa pode ser concebida em sua possibilidade como aquilo que ela é. O projetar abre possibilidades, i.e., o que possibilita.” “Expor o sentido da cura significa portanto: perseguir o projeto orientador e fundamental da interpretação existencial originária da pre-sença para que se torne visível a perspectiva do projetado.”

Toda experiência ôntica de um ente, tanto a avaliação do que está à mão numa circunvisão como o conhecimento científico de algo simplesmente dado, está sempre fundada em projetos mais ou menos transparentes do ser do respectivo ente.”

Ex1: Rafael-escritor como ente: ter uma carreira de escritor.

Ex2: A lingüística como ente: entender diacrônica e sincronicamente o objeto de estudo, i.e., a língua (as línguas).

Este deixar-se-vir-a-si, que na possibilidade privilegiada a sustém, é o fenômeno originário do porvir.”

Somente enquanto a pre-sença é no vigor de ter sido [vigorado, passado irrevogável e pertencente ao ser do ser-aí, passado vigente, para mim] é que ela, enquanto porvir, pode vir-a-si de maneira a vir de volta.” Sempre se lembrar do projeto, da decisão e do clamor.

A de-cisão só pode ser o que é como a atualidade [presente do ser-aí, gerúndio].”

a de-cisão se atualiza na situação.”

Chamamos de temporalidade este fenômeno unificador do porvir que atualiza o vigorado.” “Temporalidade [é] (…) o sentido da cura“O uso terminológico dessa expressão deve, de início, manter distantes todos os significados impostos pelo conceito vulgar de tempo como futuro, passado e presente.”

temporalidade imprópria”

Nesse campo de investigação, violência não é arbitrariedade mas uma necessidade fundada nas coisas elas mesmas.”

JÁ & AÍ

Quando decaímos no mundo é que passa a existir o tempo.

A temporalidade possibilita a unidade de existência, facticidade e de-cadência, constituindo, assim, originariamente, a totalidade da estrutura de cura.”

A temporalidade não <é>, de forma alguma, um ente.”

A temporalidade temporaliza”

São os modos possíveis da temporalidade que possibilitam a pluralidade dos modos de ser da pre-sença, sobretudo os modos do próprio e impróprio.”

Temporalidade é o <fora de si> em si e para si mesmo originário. Chamaremos, pois, os fenômenos caracterizados de porvir, vigorado e atualidade, de ekstases¹ da temporalidade.”

¹ estase e êxtase – estase conforme o dicionário português: “parada, paralisação” – neste caso: do tempo no tempo. êxtase cf. o dic. port.: ‘fora de si’ (mesmo estando em si, modo privilegiado), dotado de vários humores, talvez todos em concatenação, incluindo a ânsia. pasmo (momento da de-cisão – a partir dele, pode-se revivê-lo sempre). Do grego “mover-se para fora”.

Sou eu, a despeito das aparências, porque se olho com des-cuido, agora não sou o que fui e o que serei, embora realmente o seja.

O característico do <tempo> acessível à compreensão vulgar consiste, entre outras coisas, justamente no fato de que, no tempo, o caráter ekstático da temporalidade originária é nivelado a uma pura seqüência de agoras, sem começo nem fim.”

4: O tempo original se desdobra em 3.

eterno-vir-a-ser (única realidade): passado-instante ou nada-futuro (inautenticidade)

autenticidade própria (limite da possibilidade do meu eu): inautenticidade do mundo que me precede e me sucede ou está invisível a mim enquanto vijo no sentido newtoniano de tempo.

Finitude não diz primordialmente término. (…) O porvir originário e próprio é o para-si, um para-si que existe como a possibilidade insuperável do nada.”

A tentação de se passar por cima da finitude do porvir originário e próprio e, com isso, da temporalidade, considerando-a <a priori> impossível, nasce da contínua imposição da compreensão vulgar do tempo.” “Somente porque o tempo originário é finito é que o tempo <derivado> pode se temporalizar como in-finito.”

autoconsistência da existência”

consistência x inconsistência

historicidade da pre-sença” (a partir da inautenticidade do mundo podemos chegar à autenticidade unitária do ser)

A civilização que matou o tempo.

Mentira, recuperou-o.

Devolveu-o ao trono.

No jogo, sempre se olha o cronômetro com muita atenção. Dele é que tudo depende. O campo é uma outra coisa…

Desgastando-se a pre-sença gasta a si mesma, ou seja, gasta o seu tempo. Gastando tempo ela conta com ele.” Quem conta, conta-com, ouvi alguém dizer. “Contar com o tempo é constitutivo do ser-no-mundo.” Duplo sentido: ser-dependente-do-tempo, não poder viver sem o tempo, e ao mesmo tempo mensurar o, criar uma unidade de, tempo.

TEMPO ÔNTICO, BE BORN! “Chamamos de intratemporalidade a determinação temporal dos entes intramundanos.” Segundo H., o limite da fenomenologia bergsoniana.

4. TEMPORALIDADE E COTIDIANIDADE

A origem ontológica do ser da pre-sença não é <inferior> ao que dela surge. A origem ontológica já o sobrepuja em poder e, no âmbito ontológico, tudo o que <surge> é degeneração. Para o senso comum, a tendência ontológica para a <origem> nunca se transforma em evidência ôntica.”

Enquanto descoberta que compreende o incompreensível, toda explicação tem suas raízes na compreensão primordial da pre-sença.”

A existência pode tornar-se digna de questionamento. Para que este <questionamento> seja possível, é necessária uma abertura.”

Sem dúvida, de início e na maior parte das vezes, a pre-sença fica in-de-cisa, ou seja, fica fechada em seu poder-ser mais próprio no qual ela só se empenha singularizando-se.” “Essa inconstância não significa, porém, que a temporalidade careça, por vezes, de porvir, mas sim que a temporalização do porvir está sujeita a mutações.”

O termo, do ponto de vista formal indiferente, para o porvir encontra-se na designação do 1º momento estrutural da cura, i.e., no preceder-se. De fato, a pre-sença continuamente se precede, mas nem sempre se antecipa

O atender [espécie de compreender ôntico] sempre já deve ter aberto o horizonte e o âmbito a partir do que algo pode ser esperado. Esperar é o modo do porvir fundado no atender que, em sentido próprio, se temporaliza como antecipação.”

Chamamos de in-stante a atualidade própria, i.e., a atualidade mantida na temporalidade própria.” “Em princípio, o fenômeno do in-stante não pode ser esclarecido pelo agora. O agora é um fenômeno temporal que pertence ao tempo da intratemporalidade (…) <No in-stante>, nada pode ocorrer. Ao contrário, enquanto atualidade em sentido próprio, é o in-stante que deixa vir ao encontro o que, estando à mão ou sendo simplesmente dado, pode ser e estar <em um tempo>.”

Foi, sem dúvida, Kierkegaard quem viu com a maior profundidade o fenômeno existenciário do in-stante, o que não significa que ele tenha logrado uma correspondente interpretação existencial.” “Quando Ki. fala de <temporalidade>, ele quer referir-se ao <ser-e-estar-no-tempo> do homem. O tempo como intratemporalidade conhece apenas o agora e nunca o in-stante.”

Por oposição ao in-stante, no sentido de atualidade própria, chamamos de atualização a atualidade imprópria. (…) in-de-cisa”

A compreensão imprópria se temporaliza como um atender atualizante a cuja unidade ekstática pertence necessariamente um vigorado, que lhe corresponde.” Chega de tecnicismos!

Chamamos de re-petição o ser o vigorado em sentido próprio.”

A ekstase (retração) do esquecimento tem o caráter de uma extração, fechada para si mesma, do vigorado em sentido mais próprio, de tal maneira que esse extrair-se de… fecha, ekstaticamente, aquilo de que se extrai e, com isso, a si mesmo.” “o esquecimento é o sentido temporal (…) que (…) na maior parte das vezes (…) eu (…) sou.”

atender esperar

esquecer recordar

Mas o que pode haver de comum entre os humores e o <tempo>?”

A recolocação não produz o vigorado, mas a disposição sempre revela, para a análise existencial, um modo do vigorado.” “A interpretação temporal limitar-se-á aos fenômenos já analisados do temor e da angústia.” “Só no atendimento é que o que ameaça pode estar de volta para o ente que eu sou e, dessa forma, a pre-sença só pode ser ameaçada caso já se tenha aberto, ekstaticamente, o endereço da volta.” “voltar para um estar-lançado mas de tal maneira que ele se fecha”

quem teme não-mais-se-reconhece no mundo circundante.”

atualização conturbada”

esquecimento de si inerente ao temor”

É sabido que o habitante de uma casa em chamas, p.ex., freqüentemente, quer <salvar> as coisas mais indiferentes por estarem mais imediatamente à mão.”

Tudo o que, além disso, pertence ao fenômeno fica sendo um <sentimento de prazer e desprazer>.”

o mundo não está me atendendo neste momento, pois está ocupado

Ela recoloca o fato puro do estar-lançado mais próprio e singular.” “Mas a angústia também não implica em uma retomada re-petitiva da existência na de-cisão.”

a angústia não pode se perder em ocupações. Quando algo assim parece ocorrer numa disposição, então se trata do temor que o entendimento cotidiano confunde com a angústia.”

A angústia só conduz para o humor de uma de-cisão possível.”

Como se pode encontrar um sentido temporal na morna ausência de humores que domina o <cotidiano cinzento>?”

e os afetos como esperança, alegria, encantamento e jovialidade?”

tédio, tristeza, melancolia e desespero”

ter esperança = ter-esperança-para-si

ter-se-conquistado”

indiferença x equanimidade (humor privilegiado da pre-sença)

Permanece um problema independente o modo em que se deve delimitar, ontologicamente, estímulo e contato dos sentidos em algo apenas-vivo, [?] e o modo, p.ex., como e onde o ser dos animais é constituído por um <tempo>.” Bem-lembrado.

má curiosidade (curiosidade sem método) dispersão desamparo: “Este modo da atualidade é o fenômeno que mais explicitamente se opõe ao in-stante.”

O desamparado está aí sem estar aí.

tentação, tranqüilização, alienação, auto-aprisionamento

O retrair-se da existência na atualização [atender, nível ôntico] não significa que a pre-sença se desligue de seu eu e de seu si-mesmo.”

A curiosidade não é <provocada> pela visibilidade sem fim do que ainda não se viu, mas pelo modo de-cadente de temporalização da atualidade que surge. Mesmo que tenha visto tudo, a curiosidade sempre inventa algo novo.”

abrir a situação-limite originária do ser-para-a-morte.”

Os tempos não surgem porque o discurso <também> se pronuncia a respeito de processos <temporais>, i.e., que vêm ao encontro <no tempo>. Seu fundamento também não é o fato de que a fala transcorre <num tempo psíquico>.”

Com a ajuda do conceito vulgar e tradicional do tempo, de que se vale forçosamente a ciência lingüística, nunca se pode colocar o problema da estrutura existencial e temporal dos tipos de ação.” Cf. Wackernagel, Vorlesungen über Syntax, vol. I, 1920.

[Só através da minha analítica] se poderá delimitar o sentido ontológico do <é>, que uma teoria artificial da sentença e do juízo desfigurou, reduzindo-o à <cópula>. O <aparecimento> do <significado> e a possibilidade de uma elaboração conceitual só podem se esclarecer e compreender, ontologicamente, com base na temporalidade do discurso, da pre-sença em geral.”

a compreensão é sempre atualidade [nível ontológico do presente] do vigorado.”

[já] a disposição se temporaliza num porvir <atualizante>. Não obstante, a atualidade <surge> ou se sustenta num porvir do vigorado.” Repete-se à exaustão.

Temporalização não significa <sucessão> de ekstases. O porvir não vem depois do vigorado e este não vem antes da atualidade.”

A unidade ekstática da temporalidade, i.e., a unidade do <fora de si> nas retrações de porvir, vigorado e atualidade é a condição de possibilidade para que um ente possa existir como o seu <aí>. O ente que carrega o título de pre-sença se <iluminou>. A luz que constitui a luminosidade da pre-sença não é uma força ou fonte ôntica simplesmente dada de uma clareza cintilante que, por vezes, ocorre neste ente. Antes de toda interpretação <temporal>, determinou-se como cura o que ilumina essencialmente esse ente, i.e., aquilo que o torna <aberto> e também <claro> para si mesmo.”

Na intenção de proteger o fenômeno das tendências de fragmentação mais evidentes e, por isso, mais fatais, interpretou-se, com maior detalhamento, o modo mais imediato e cotidiano do ser-no-mundo, a saber, o ser que se ocupa junto ao que está à mão dentro do mundo. Agora que a própria cura foi, ontologicamente, delimitada e reconduzida ao seu fundamento existencial, à temporalidade, a ocupação pode, por sua vez, ser explicitamente concebida a partir da cura e da temporalidade.”

De que modo algo como mundo é possível? Em que sentido mundo é? [DV] O que o mundo transcende e como transcende?” “A exposição ontológica destas questões ainda não é a sua resposta.”

A falta da estrutura fenomenal daquilo com que se lida tem como conseqüência um desconhecimento da constituição existencial do modo de lidar.”

nexo instrumental”

Todo <trabalhar> e pôr mãos à obra não significa vir de um nada e deparar-se com um instrumento isolado, preliminarmente dado.”

deve-se buscar a condição de possibilidade do deixar e fazer em conjunto num modo de temporalização da temporalidade.” H. quase apertando a mão de Marx.

surpresa, importunidade, impertinência

É preciso que o próprio afazer se veja perturbado para que possa vir ao encontro algo que não pode ser manuseado.”

o teste e o afastamento”

Mas como é possível <constatar> o que falta, ou seja, o que não está à mão e não apenas o que está à mão mas não é manuseável?”

o dar pela falta”

É o não-atender da atualização perdida que abre o espaço <horizontal> de jogo em que o espantoso pode sobrevir à pre-sença.”

não contar com…”

levar em conta outra coisa

Somente porque se descobre o que opõe resistência com base na temporalidade ekstática da ocupação é que a pre-sença pode, de fato, se compreender em seu abandono a um <mundo>, que ela nunca domina.”

Quais as condições de possibilidade, inerentes à constituição ontológica da pre-sença e existencialmente necessárias, para que a pre-sença possa existir no modo da pesquisa científica?” Duvido que algo mais elaborado que “desenvolvimento do capitalismo” possa ser apontado… Em outros termos, busca-se o ser-da-ciência.

Fenomenologia versus semiótica

O decisivo para o <aparecimento> do comportamento teórico residiria no desaparecimento da práxis. É justamente quando se toma a ocupação <prática> como o modo primário e predominante de ser da pre-sença que a <teoria> deve sua possibilidade ontológica à falta da práxis, ou seja, a uma privação.” “Pelo contrário (…) Abster-se do uso instrumental significa tão pouco <teoria> que, na <observação> demorada, a circunvisão permanece inteiramente atada ao instrumento ocupado e à mão. O lidar <prático> possui seus modos próprios de demorar-se.”

A observação no microscópio depende da produção de <preparados>. A escavação arqueológica, que precede à interpretação do <achado>, exige as mais intensas manipulações. E mesmo a elaboração mais <abstrata> de problemas e a fixação do que foi obtido manipulam instrumentos de escrever, p.ex..” “Para poder se tornar <objeto> de uma ciência, o que está à mão não precisa perder o seu caráter instrumental. A modificação da compreensão ontológica não parece ser um constitutivo necessário da gênese do comportamento teórico <frente às coisas>.”

Na proposição <física>, <o martelo é pesado>, não apenas se deixa ver o caráter de ferramenta deste ente que vem ao encontro, mas também o que pertence a todo instrumento à mão, a saber, o seu local. Este se torna indiferente. (…) O local se transforma em posição no espaço e no tempo, em um <ponto do mundo>, que não se distingue de nenhum outro. Isto implica que a multiplicidade de locais delimitados no mundo circundante, própria do instrumento à mão, não se transforma apenas em puro sistema de posições, mas sim que se aboliram os limites do próprio ente do mundo circundante.”

in-tegração

O exemplo clássico do desenvolvimento histórico de uma ciência, e também da gênese ontológica, é o aparecimento da física-matemática.” “projeto matemático da própria natureza”

matéria (base não-numérica) movimento, força, lugar, tempo (enumerar a matéria em suas regiões)

A fundamentação das ciências dos fatos só foi, portanto, possível na medida em que o pesquisador compreendeu que, em princípio, não existem meros fatos.” “E assim, o caráter exemplar da ciência matemática da natureza também não reside em sua exatidão específica e na obrigatoriedade para <todos>, mas no fato de que, nela, o ente temático é descoberto da única maneira em que pode ser descoberto, a saber, no projeto prévio de sua constituição ontológica.”

Chamamos de tematização a totalidade desse projeto ao qual pertencem as articulações da compreensão ontológica, a delimitação dela derivada do setor de objetos e o prelineamento da conceitualização adequada ao ente. A tematização visa liberar os entes que vêm ao encontro dentro do mundo de modo a que eles possam ser <projetados para> uma pura descoberta, i.e., que eles possam se tornar objetos. A tematização [portanto] cria objetos”

atualização privilegiada”

Agora começo a vislumbrar como e por que “ouvi dizer por aí” que Heidegger fala que o objetivo da humanidade, através da Técnica, é o “domínio do planeta”. E creio que essas vozes de falatório compreenderam mal: ele descreve o atual panorama do desenvolvimento tecnológico-histórico, mas não está abençoando este sentido.

A compreensão de ser pode permanecer neutra. Manualidade e ser simplesmente dado ainda não se diferenciam e, sobretudo, ainda não são concebidos ontologicamente.”

Como é, ontologicamente, possível a unidade de mundo e ser-aí? De que modo o mundo deve ser, para que o ser-aí possa existir enquanto ser-no-mundo?”

A condição existencial e temporal da possibilidade do mundo reside no fato de a temporalidade, enquanto unidade ekstática, possuir um horizonte.” Eu-sou-meu-mundo

Chamamos de esquema horizontal esse para-onde da ekstase.”

O fato destes entes [simplesmente dados] se descobrirem junto com o próprio aí da existência não está à mercê do ser-aí. Somente o quê, cada vez, se descobre e se abre, em que direção se faz, até onde e como se faz é que são tarefas de sua liberdade, embora sempre nos limites de seu estar-lançado.”

O mundo já está, por assim dizer, <muito mais fora> [de-cidido, ontologizado] do que qualquer objeto pode estar. Por isto, o <problema da transcendência> não pode ser reduzido à questão de como um sujeito sai de dentro de si e chega a um objeto fora de si [sem o enquadramento material e histórico no mundo]

Concebendo o <sujeito> como ser-aí que existe e cujo ser está fundado na temporalidade, deve-se então dizer: mundo é <subjetivo>. Mas do ponto de vista transcendente e temporal, este mundo <subjetivo> é mais <objetivo> do que qualquer <objeto> possível.” Porque assim interessa ao ser-no-mundo.

Contudo, a comprovação de que a espacialidade só é existencialmente possível através da temporalidade não pode pretender reduzir o espaço do tempo ou dissolvê-lo em puro tempo.”

A pre-sença introjeta – em sentido literal – o espaço.” Não seria projeta?

Existindo, ela já-sempre arrumou para si um espaço.”

a introjeção do espaço é tão pouco idêntica a uma <representação> do espacial que é esta que pressupõe aquela.”

É até mesmo questionável se a explicação até agora desenvolvida da temporalidade é suficiente para delimitar o sentido existencial da cotidianidade.”

RESUMO DA VIDA DO FILÓSOFO: “<De início> significa o modo em que a pre-sença <se revela> na convivência da public-idade, mesmo que, existenciariamente, ela tenha <no fundo> superado a cotidianidade. <Na maior parte das vezes> significa o modo em que a pre-sença nem sempre, mas <via de regra>, se mostra para todo mundo.”

A monotonia da cotidianidade considera como mudança justamente aquilo que o dia traz. A cotidianidade determina a pre-sença mesmo quando ela não escolheu para <herói> o impessoal.”

Na cotidianidade, a pre-sença pode <sofrer> de estupidez, pode mergulhar na sua estupidez ou dela escapar, buscando uma nova dispersão para fazer frente à dispersão dos negócios e tarefas.”

Mas, no fundo, o termo cotidianidade nada mais pretende indicar do que a temporalidade que possibilita o ser da pre-sença.” A totalidade orgânica do ser-aí.

5. TEMPORALIDADE E HISTORICIDADE

A pre-sença só se fez tema existindo, por assim dizer, <para frente>, deixando, com isso, <para trás> de si todo o vigorado. (…) se desconsiderou (…) a ex-tensão da pre-sença entre nascimento e morte.” “Haverá algo mais <simples> do que caracterizar o <contexto da vida> entre nascimento e morte?”

vivência e permanência

No fundo, a concepção vulgar do <contexto da vida> também não pensa numa moldura que, estando <fora> da pre-sença, a abrangesse, mas procura, com razão, esta moldura na própria pre-sença.” Torna-se patente o quanto Sartre não entendeu este livro.

De forma alguma a pre-sença só <é> real num ponto do tempo, de maneira que, além disso, estaria <cercada> pela não-realidade de seu nascimento e de sua morte.”

O SIGNIFICADO DE CURA: “De fato, a pre-sença só existe nascendo e é nascendo que ela já morre, no sentido do ser-para-a-morte.”

O ENTRE: “Chamamos de acontecer da pre-sença a movimentação específica deste estender-se na ex-tensão. A questão sobre o contexto da pre-sença é o problema ontológico de seu acontecer. Liberar a estrutura do acontecer e suas condições existenciais e temporais de possibilidade significa conquistar uma compreensão ontológica da historicidade.”

quem? consistência

Não é na ciência historiográfica que se deve buscar a história. Mesmo que o modo científico e teórico de tratar o problema da <história> não vise apenas a um esclarecimento <epistemológico> (Simmel) da apreensão histórica, nem a uma lógica da construção conceitual da exposição histórica (Rickert), mas também se oriente pelo <lado do objeto>, mesmo assim, nesse tipo de questionamento, a história só se faz acessível, em princípio, como objeto de uma ciência.” “A tematização, a abertura historiográfica da história é a pressuposição de uma possível <construção do mundo histórico pelas ciências do espírito>.”

temporalidade história, e não história temporalidade

a origem do tempo da intratemporalidade a partir da temporalidade. [sua base]” “Quanto mais o problema da história se aproximar de seu enraizamento originário, mais agudamente aparecerá a indigência dos meios <categoriais> disponíveis e a insegurança dos horizontes ontológicos primários.”

No fundo, a presente análise trata unicamente da preparação de um caminho para que a atual geração possa apropriar-se das pesquisas de Dilthey, com as quais ela ainda deve se confrontar.”

A ambigüidade do termo <história> mais imediata e freqüentemente observada, embora não seja de forma alguma <fortuita>, anuncia-se no fato de que esse termo significa tanto a <realidade histórica> como a sua possível ciência.” Primeiro passo: história =/= historiografia

o passado das coisas

passado que ‘morreu’ (definição negativa)

passado que ‘segue em nós’ (pré-vigorado) (definição positiva)

passente

ascensão-queda

autoria

passividade

marcar época

con-junto de influências

inimiga da Natureza

Darwin e o ticket de entrada do natural na própria história, revivendo com nova pujança o termo “História natural”

Será que a pre-sença de fato é primeiro <algo simplesmente dado> para depois, oportunamente, entrar <numa história>?” “uma caracterização mais precisa do curioso primado do <passado> no conceito de história é que deve preparar a exposição da constituição fundamental da historicidade.”

O que foram as coisas que hoje não são mais?”

O que passou?” “mundo”

O mundo começa com a mão.

Será a pre-sença o vigorado apenas no sentido do que vigora por ter sido pre-sente [por ter-estado-aí] ou será ela o vigorado enquanto algo atualizante e por vir [presente e futuro], ou seja, na temporalização de sua temporalidade?”

O ente não fica <mais histórico> mediante uma recondução regressiva a um passado sempre mais distante, no sentido de que o mais antigo fosse o que é mais propriamente histórico.”

A compreensão existenciária própria escapa tão pouco da interpretação legada que, no de-cisivo, ela sempre retira a possibilidade escolhida dessa interpretação, contra ela mas sempre a seu favor.” O que Heidegger quer dizer nesse trecho é que meu ser-aí, e meu ser-no-mundo, apesar de ser este mundo, sempre chega à de-cisão e vive cotidianamente, sem percebê-lo, no 2º caso, influenciado por coisas históricas que ainda não feneceram, i.e., pelo legado dos antepassados, dos mortos, de toda a cultura prévia a minha própria existência. Todos esses dados estão de tal forma embrenhados e mesclados com a ‘minha realidade contemporânea’ que se tornam indissociáveis – então, por mais que eu seja para o presente, sempre me alimento do passado, não só na minha vida mais instrumentalizada mas também no momento da ascensão filosófica. Prova disso é que fui ajudado principalmente por figuras como Nietzsche e Marx para chegar ao meu clamor. Sou um devorador de livros antigos, cujo conteúdo perpetuamente se atualiza em minha existência e realidade próprias.

Se todo bem é uma herança e se o caráter dos bens reside em possibilitar uma existência própria, então é na de-cisão que se constitui a transmissão de uma herança.” Escolho aquilo que não me serve mais e o que ainda me serve, mesmo tendo saído do seio dos meus pais.

meta incondicional”

simplificar, se apropriar e se esquivar

A pre-sença só pode sofrer golpes do destino porque, no fundo, ela é destino.” Já o in-de-ciso não tem destino.

O envio comum [nível ontológico da convivência] não se compõe de destinos singulares da mesma forma que a convivência não pode ser concebida como a ocorrência conjunta de vários sujeitos.”

SEMI-SOLIPSISMO/REPUBLICANISMO PLATÔNICO: Só alguns são homens, só alguns têm alma, só alguns vivem, os outros são matéria bruta dada para seus destinos e aconteceres.

O envio comum dos destinos da pre-sença em e com a sua <geração> constitui o acontecer pleno e próprio da pre-sença.” Para este conceito de geração, cf. Dilthey, Über das Studium der Geschichte der Wissenschaften von Menschen, der Gesselschaft und dem Staat (1875).

Não obstante impotente, o destino é a potência maior sempre pronta a enfrentar as contrariedades do projetar-se silencioso e prestes a angustiar-se para o ser e estar em débito, em sentido próprio”

Não é necessário que a de-cisão saiba explicitamente a proveniência das possibilidades para as quais ela se projeta.”

A re-petição é a transmissão explícita, ou seja, o retorno às possibilidades da pre-sença, que vigora por ter sido pre-sente.”

o fato de a existência escolher seus heróis funda-se na de-cisão antecipadora”

MANDANDO A ÁRVORE GENEALÓGICA ÀS FAVAS: “Surgindo de um projeto de-cidido, a re-petição não se deixa persuadir pelo <passado> a fim de deixá-lo apenas retornar como o que alguma vez foi real.”

A re-petição nem se abandona ao passado nem almeja um progresso.” (isso seria retirar toda a autenticidade do ser-aí)

No in-stante, o ser-aí sai de si e do tempo vulgar para ser agora sim si-mesmo, i.e., a responsabilidade implica que não fui causado e nem perpetuo, mas inovo, ao mesmo tempo que também não carrego uma carga ou débito para todas as gerações futuras, que terão a sua própria cura para com que lidar.

Hamlet é toda a História.

Havia filósofos mesmo antes das obras da ciência histórica. A constituição do saber historiográfico é um fator apenas secundário. Embora eu saiba de onde advém o eterno-retorno, lá sei eu e Nietzsche lá sabia se isso não adviria, p.ex., de qualquer conto contado ou inclinação de algum de seus amigos ou familiares, ou dos pais deles?! Portanto a transmissão do saber foi indireta, tendo sido ele o primeiro a assumi-lo (até onde sabemos), mas sem que para isso ele houvesse de se deter e investigar o passado (hipótese assaz provável).

Segundo o que entendi até o momento, o envio comum seria por exemplo: a Alemanha escolheu o nazismo como seu destino (aplicado a nações).

HISTORICIDADE IMPRÓPRIA DA PRE-SENÇA

O mundo é ao mesmo tempo, solo e palco” Shakespeare o sabia.

DELEUZE EJACULA: “Será então o acontecer da história apenas o transcurso isolado de <fluxos vivenciais> em sujeitos singulares?”

História da compreensão humana da natureza enquanto ente histórico: sugestão de pesquisa.

O que <acontece> com o instrumento e a obra como tais [seres destituídos de pre-sença] possui um caráter próprio de movimentação que permanece, até agora, inteiramente obscuro.” Que nos importa que seja exato que erupções vulcânicas nos preservaram os fósseis de criaturas chamadas dinossauros? Este não é um passado ou vigorado, pois não importa ao homem ontologicamente, no sentido de que sempre-esteve-aí. Como o apagar do sol não é. Poderíamos dizer ser-para-o-apagar-do-sol, exagerando. Se há de existir um envio comum próprio e autêntico, teríamos a formulação: humanidade-para-o-apagar-do-sol. A cura do mundo, ele vive apenas como Gaia. O que acontece no sistema solar ou ainda mais perifericamente “não interessa ao mundo”. Cf. Gotti, Die Grenzen der Geschichte, 1904.

O único terremoto de interesse para a historicidade é o terremoto humano, Nietzsche, por exemplo.

CONTRA OS AMANTES DA HISTÓRIA À LA MARCOS (O homem vulgar é altamente imagético, precisa “aprender” “história” através de filmes de Hollywood – e por que não Bollywood? Hipocrisia.): “E, por fim, porque o sentido de ser vale como o absolutamente evidente, a questão do modo de ser da história e do mundo e da movimentação do acontecer em geral, <propriamente>, não passa de superstição verbal, infrutífera e prolixa.”

O QUE VIGORA AGORA? SÓ COISAS INVISÍVEIS QUE O PROJETO TEM DE SER SENSÍVEL A FIM DE APURAR. DISTORCER O INAPREENSÍVEL A NOSSO FAVOR (saber mentir): compreender o Império Romano no meu projeto, não como <tal qual fôra>, o que seria de todo modo uma falsificação, e sem relevância ontológica.

Um exemplo máximo de envio comum impróprio é o Brasil. A efervescência cotidiana deste país não pode nublar a consciência do filósofo.

Podemos ficar sem chão? O que é chão? Montanha é chão? Raízes de uma árvore do mundo são chão?

O ser histórico ideal é aquele que foge-da-morte, o ser-curioso-para-ninharias, como advento do comunismo sobre a Terra num futuro ultradistante (exemplo).

A historicidade própria compreende a história como o <retorno> do possível”

Pode-se, não obstante, ousar um projeto da gênese ontológica da ciência historiográfica, partindo-se da historicidade da pre-sença. Este projeto serve de preparação para o esclarecimento da tarefa de uma destruição historiográfica da filosofia, a ser posteriormente realizada.”

GENEALOGIA DA HISTORIOGRAFIA A PARTIR DA HISTORICIDADE DA PRE-SENÇA

O tema da historiografia não é nem o que aconteceu singularmente e nem um universal que paira sobre a singularidade, mas a possibilidade que de fato vigorou na existência.” E quanto mais exata é a História, mais improvável ela é.

Esta não se repete como tal [como simplesmente dada], ou seja, não é compreendida de modo propriamente historiográfico, mesmo quando distorcida pela palidez de um padrão supratemporal.”

A seleção do que deve se tornar objeto possível da historiografia já foi feita na escolha existenciária e factual da historicidade da pre-sença, onde somente a historiografia surge e unicamente é.”

Em nenhuma ciência, a <validade universal> dos parâmetros e as exigências de <universalidade>, imposta pelo impessoal e por sua compreensibilidade, são menos critérios possíveis de <verdade> do que na historiografia própria.” “Comprometendo-se previamente com a concepção de mundo de uma época, o historiógrafo ainda não comprova ter compreendido o seu objeto num modo propriamente histórico e não apenas estético.”

a historicidade própria de um <tempo> também não se comprova pelo interesse historiográfico altamente diferenciado, que abrange até mesmo as culturas mais primitivas e distantes. Ter aparecido o problema do historicismo é o sinal mais claro de que a historiografia pretende alienar o ser-aí da sua historicidade própria. (…) Épocas sem historiografia não são, em si mesmas, sem história.”

UHU, DE QUEM TERÁ PUXADO A INSPIRAÇÃO?!… “A possibilidade de a historiografia em geral poder ser tanto uma <utilidade> como uma <desvantagem> <para a vida> funda-se no fato de esta ser, em sua raiz, histórica e, portanto, enquanto existindo de fato, sempre já se ter decidido por uma historicidade própria ou imprópria. Na Segunda Consideração Intempestiva (1874), Nietzsche reconheceu o essencial a respeito da <utilidade e desvantagem da historiografia para a vida>, tendo-se pronunciado de maneira precisa e penetrante. Ele distingue 3 espécies de historiografia: a monumental, a antiquária e a crítica, sem, no entanto, de-monstrar, explicitamente, a necessidade dessa tríade e o fundamento de sua unidade. A tríade da historiografia está prelineada na historicidade do ser-aí. É ela também que permite compreender em que medida a historiografia própria deve ser a unidade concreta e factual dessas 3 possibilidades. A divisão feita por Nietzsche não é acidental. O início de sua <consideração> deixa entrever que ele compreendeu bem mais do que chegou a exprimir.” Substrato da alegoria tríplice da criança, do leão e do camelo do Zaratustra. Neste meio poético pode-se dizer que N. efetuou ou explicitou a necessidade da tríade e fundamentou sua unidade.

1. monumental

exaltar fatos isolados e grandiosos do passado, de forma a dar indicações de uma possibilidade de transvaloração do sujeito ‘histórico’. dizer-sim com dizer-não feitos corretamente, com cinismo e inocência, da criança no seu jogo.

2. antiquária

também não está contente com o mundo contemporâneo, mas se afasta dele por se afastar, não para se projetar numa reação ao niilismo. o dizer-sim de algo que já passou (a selva), burro, instintivo, do leão.

3. crítica

tragicamente a maior apologista do atual, o tipo moderno por excelência, que tentará se afastar dum passado inafastável. sem poder criador. é verdade que, sendo ‘realista’, não podemos achar um amanhã realmente novo sem atravessar esse hoje sórdido, [o dizer-não do camelo no deserto, que não sabe dizer-sim quando seria a hora] e por isso precisamos ser diplomáticos com este hoje, por mais cinza que seja.

* * *

Conde Yorck von Wartenburg (o continuador-contemporâneo de Dilthey), Briefwechsel zwischen Wilhelm Dilthey und dem Grafen Paul Yorck von Wartenburg, 1887-1897, 1923. Realmente a melhor época para se trocar cartas na Europa… São efetivamente esses 20 anos de correspondência a única forma de checar o pensamento deste quase-personagem shakespeariano (cof, cof, York)…

O trabalho de pesquisa de Dilthey [<O PRIMEIRO HERMENEUTA>] pode ser dividido, esquematicamente, em 3 campos: estudos sobre a teoria das ciências do espírito e sua delimitação frente às ciências da natureza; pesquisas sobre a história das ciências do homem, da sociedade e do Estado; investigação sobre uma psicologia que deve expor <todo o fato homem>.” “Yorck acha que as investigações de Dilthey <salientam pouco a diferença genérica entre o ôntico e o histórico (p. 191, grifo do autor).”

GOLPE DE PUNHAL NO VENTRE DA ANTROPOLOGIA: “Toda comparação é estética, está sempre presa à figura.” “para Windelband, história é uma série de imagens, de figuras singulares, uma exigência estética.”

Com seu agudo instinto, Yorck quis dizer que a história tradicional ainda se atém muito às <determinações puramente oculares>, que visam ao que é corporal e figurável.” Em suma, chega de ôntico!

Ranke é um grande ocular, para quem não pode se tornar realidade o que desapareceu. De maneira bem própria a R., também se esclarece a restrição da matéria histórica ao que é exclusivamente político. Somente este constitui o dramático.”

P. 208: Primeira ocorrência, talvez, de “inessencial”, em sentido próprio (tum dum!) no livro.

NIETZSCHE CONTRA A FILOLOGIA, PELO PORTA-VOZ YORCK: “O autêntico filólogo tem um conceito de história como de um baú de antiguidades. Eles não chegam ao que não se pode apalpar – aonde só se chega através de uma transposição psíquica viva. No fundo, eles são cientistas da natureza, que se tornam ainda mais céticos quando lhes falta o experimento. Devemos nos afastar inteiramente de todas essas tralhas, como, por exemplo, de quantas vezes Platão esteve na Magna Grécia ou em Siracusa. Pois aí não há vida alguma. Tais maneirismo exteriores, que só posso ver criticamente, tornam-se por fim, um grande ponto de interrogação, reduzindo-se a uma vergonha quando comparados com as grandes realidades que são Homero, Platão e o Novo Testamento. Tudo o que é verdadeiramente real se transforma em esquemas quando não-vivenciado e apenas considerado como <coisa em si>.”

Os cientistas se comportam face às forças do tempo à semelhança da sociedade francesa mais erudita e refinada frente ao movimento revolucionário. Tanto aqui como lá, trata-se apenas de formalismo, do culto da forma. Determinar relações é a última palavra da sabedoria.”

o conhecimento progrediu no sentido da superação dele próprio, o homem retraiu-se para tão longe de si mesmo que não é mais capaz de ver a si.”

Toda história viva é uma crítica”

O esforço se assemelha à luta de Jacó, a vitória é certa para quem luta.”

É pelo conhecimento do caráter ontológico da própria presença humana e não por uma epistemologia ligada ao objeto da consideração histórica que Yorck alcança a compreensão penetrante e clara do caráter fundamental da história enquanto <virtualidade>.”

O ponto nevrálgico dos dados psicofísicos não é (é = ser simplesmente dado na natureza. Observação do autor), mas vive. E uma reflexão sobre si mesmo, que não se dirige a um eu abstrato mas à plenitude do meu si-mesmo, é que haverá de me encontrar historicamente determinado tal como a física me reconhece cosmologicamente determinado. Tanto quanto natureza, eu sou história…” Por esse trecho, vemos o quanto Heidegger está informado – até no vocabulário! – por Yorck!

E Yorck, que via com profundidade toda a inautenticidade da <determinação de relações> e toda a <falta de solidez> dos relativismos, não hesita em tirar as últimas conseqüências desta visão profunda da historicidade da pre-sença: <Mas, por outro lado, para a historicidade interior da autoconsciência é, metodologicamente, inadequada uma sistemática separada da história. Assim como a psicologia não pode abstrair da física, também a filosofia – e justamente quando é crítica – não pode abstrair da historicidade…A atitude consigo mesmo e a historicidade são como a respiração e a pressão do ar e – por mais paradoxal que possa parecer – no aspecto metodológico, a não-historização me parece um resto metafísico>

Em minha opinião, existe uma filosofia da história – não se assuste – porque filosofar é viver – quem poderia escrevê-la! Decerto, não no sentido em que até agora se concebeu e buscou, contra o que o senhor irrefutavelmente se pronunciou. Falso, até impossível, embora não seja o único, tem sido o questionamento até hoje existente. Por isso já não há nenhum filosofar real que não seja histórico. A separação entre filosofia sistemática e exposição histórica é, essencialmente, incorreta” Vejamos o que devia querer dizer com filosofia sistemática, hoje impossível. Claro que a filosofia sincrônica, da qual até rimos…

Off-topic, mas caberia perfeitamente como prefácio da República ou em Jaeger: “O poder tornar-se prática é, sem dúvida, o fundamento próprio e justo de toda ciência. Mas a práxis matemática não é a única. A finalidade prática de nosso ponto de vista [humanidades] é a pedagógica, no sentido mais amplo e profundo do termo. Ela é a alma de toda verdadeira filosofia e a verdade de Platão e Aristóteles.”

O senhor sabe o que eu acho a respeito da possibilidade de uma ciência da ética. Apesar disso, sempre se pode fazer algo melhor. Para quem são propriamente esses livros? Arquivos e arquivos! O único valor digno de nota é o élan de passar da física para a ética.”

O que penetra até o fundo da vida furta-se a uma exposição exotérica e, por isso, a terminologia não é compreendida pelo senso comum, sendo, inevitavelmente, simbólica. É da especificidade do pensamento filosófico que decorre a especificidade de sua expressão verbal.”

A tarefa pedagógica do Estado seria desfazer a opinião pública elementar e possibilitar, tanto quanto possível, a formação da individualidade no ver e no perceber. Ao invés do que se chama de consciência moral – essa alienação radical – voltamos a consciências singulares, que paradoxalmente fortaleceriam a consciência moral”

A curiosa dualidade utilizada pelo autor, ôntico x histórico, precisaria de uma fundamentação mais originária, pois H. diz: como se entenderia esse ‘histórico’, sem defini-lo pelo ôntico, e na verdade pressupondo que uma unidade serve de base a essa distinção mesma? I.e.: não é uma falsa dicotomia entre aparência-espírito, o que já havia sido tentado na história da filosofia, mas a remissão, neste caso, justamente à historicidade da pre-sença (somente meio século depois de Yorck, evidentemente, chegou-se a essas palavras).

Não é por acaso que Yorck chama o ente não-histórico de ôntico simplesmente. Isso apenas reflete o predomínio ininterrupto da ontologia tradicional que, provindo do antigo questionamento do ser, mantém a problemática ontológica numa estreiteza de princípio. [corpo e alma, blábláblá…]”

Chegou a hora de consumar Dilthey-Yorck, é o que está nos dizendo H..

6. TEMPORALIDADE E INTRATEMPORALIDADE COMO ORIGEM DO CONCEITO VULGAR DE TEMPO

RECUO? “O tempo <em que> os entes intramundanos vêm ao encontro deve, ainda mais necessariamente, receber uma análise de princípio, porque, além da história, também os processos naturais se determinam <no tempo>.”

De onde a pre-sença toma o tempo? Como esse tempo se comporta frente à temporalidade?”

Na interpretação hegeliana do tempo, tanto a possibilidade de interpretar o tempo de forma subjetiva quanto objetiva são, de certa forma, superadas.” “Em seu resultado, a presente interpretação da temporalidade da pre-sença e da pertença do tempo do mundo à temporalidade parece concordar com Hegel. (…) porém (…) faz-se necessária uma breve exposição da concepção hegeliana da relação entre tempo e espírito”

Tempo como ser e ente

agora-agora”

Chamamos de <tempo> a atualização que interpreta a si mesma, ou seja, o que é interpretado e interpelado no <agora>.”

lapso de tempo”

A temporalidade é o fundamento do relógio. Enquanto condição de possibilidade da necessidade factual do relógio, a temporalidade condiciona, igualmente, a possibilidade de sua descoberta. Pois somente a atualização, que atende e retém o transcurso do sol, que vem ao encontro junto com a descoberta dos entes intramundanos, é que possibilita e exige a datação que interpreta a si mesma, a partir do que está publicamente à mão, no mundo circundante.” Destaquei em verde dada a banalidade desse meio-parágrafo já às portas do fim do volume, exasperando o leitor.

O TEMPO-NO-TEMPO E O MUNDO-NO-MUNDO: “o mundo das ocupações é datável, se dá num lapso de tempo, é público e, por ser assim estruturado, pertence ao próprio mundo.”

ENTRE O MEIO-DIA E A MEIA-NOITE

quando as sombras alcançarem tantos pés, nos encontraremos lá”

O que significa ler o tempo?”

Não caberia aqui aprofundar o problema da medição do tempo característica da teoria da relatividade.” Seguido de uma explicação do completo encerramento da física, quântica, especial ou qualquer outra, no mero nível ôntico de vivência.

As relações entre os números históricos, o tempo calculado astronomicamente e a temporalidade e historicidade da pre-sença necessitam de uma ampla investigação.” “As duas obras fundamentais sobre a formação da cronologia histórica são: Josephus Justus Scaliger, De emendatione temporum, 1583, e Dionysius Petavius, SJ, Opus de doctrina temporum, 1627. Sobre a antiga medição do tempo, vide G. Bilfinger, Die antiken Stundenangaben, 1888; Der Bürgerliche Tag. Untersuchungen über den Beginn des Kalendertages im klassischen Altertum und im christlichen Mittelalter, 1888; H. Diels, Antike Technik, 2ed., 1920 (capítulo Die antike Uhr).”

Resposta a Hegel: “O tempo do mundo [ôntico] é <mais objetivo> do que qualquer objeto possível porque, enquanto condição de possibilidade dos entes intramundanos, ele já se <objetivou> junto com a abertura de mundo, ekstática e horizontalmente. Apesar da opinião de Kant (…) De início, o <tempo> se mostra justamente no céu, lá onde, impessoalmente se encontra quando se é orientado por ele de forma natural [e não apenas psiquicamente]

Mas o tempo do mundo também é <mais subjetivo> do que qualquer sujeito possível porque, no sentido entendido de cura como ser do si-mesmo que de fato existe, ele também possibilita esse ser.”

Assim como todos os entes não-dotados de caráter de pre-sença, ele [o temporal, ontológico] é atemporal, quer ocorra, se origine e decorra <realmente>, quer subsista <idealmente>.”

Nunca se superestima o Estagirita o suficiente, pelo visto: “Esta nada mais é do que a interpretação ontológico-existencial da definição do tempo dada por Aristóteles.” Tudo por causa dessa reles frasezinha: “O tempo é isso, a saber, o que é contado no movimento que se dá ao encontro no horizonte do anterior e do posterior”.

Sua interpretação do tempo movimenta-se, sobretudo, na direção da compreensão ontológica <natural>. Mas como esta compreensão e o ser nela compreendido tornam-se um problema de princípio para a presente investigação, a análise aristotélica do tempo só poderá ser tematicamente interpretada após resolver-se a questão do ser.” “Toda a discussão seguinte a respeito do conceito de tempo atém-se fundamentalmente à definição aristotélica, ou seja, tematiza o tempo tal como ele se mostra na ocupação, guiada por uma circunvisão.”

Embora não se diga explicitamente que os agora são, como as coisas, simplesmente dados, do ponto de vista ontológico, eles são <vistos> no horizonte da idéia do ser simplesmente dado.” “Enquanto tempo-agora, a interpretação vulgar do tempo do mundo não dispõe de horizonte para, assim, poder tornar acessíveis para si mundo, significância e possibilidade de datação.”

já Platão teve de chamar o tempo de imagem derivada da eternidade” Na parte do Timeu em que Deus criou o céu: ou seja, Heidegger não disse, até agora, nada de novo… Dois mil e tantos anos de falsa jactância…

Não é a partir da ex-tensão horizontal da unidade ekstática da temporalidade, publicada na ocupação do tempo, que se compreende o esticar-se num lapso de tempo.”

A principal tese da interpretação vulgar do tempo – de que ele é <infinito> – revela, ainda mais profundamente, o nivelamento e o encobrimento do tempo do mundo, inseridos nessa interpretação, e, com isso, da temporalidade em geral.” “Como esse pensar o tempo até o fim ainda deve sempre pensar o tempo, costuma-se concluir que o tempo é infinito.” (demonstrado com suficiência por Kant e Hegel) “o impessoal nunca pode morrer. Nunca morrendo e compreendendo equivocadamente o ser-para-o-fim, o impessoal dá uma interpretação característica à fuga da morte. Até o fim, ele <sempre ainda tem tempo>.”

Por que dizemos: o tempo passa, e não acentuamos igualmente: ele aparece (vem)?” “No discurso do passar do tempo, a pre-sença acaba compreendendo mais do tempo do que gostaria, ou seja, apesar de todo encobrimento, a temporalidade, em que o tempo do mundo se temporaliza, não está inteiramente fechada.”

vontade de deter o tempo”

No discurso acentuado do passar do tempo reside o reflexo público do porvir finito da temporalidade da pre-sença.”

Não necessita de uma discussão ampla o fato de o conceito tradicional de eternidade ter haurido o seu significado de <agora permanente> (nunc stans) da compreensão vulgar do tempo e de ter sido definido pela idéia do ser simplesmente dado <contínuo>.”

Desse modo, em princípio, a interpretação da pre-sença como temporalidade não se acha fora do horizonte do conceito vulgar de tempo. Hegel já fez a tentativa explícita de elaborar o nexo entre tempo, vulgarmente compreendido, e o espírito. Em contraste, para Kant, o tempo, não obstante <subjetivo>, está desligado, colocando-se <ao lado> do <eu penso>.”

Hegel, todavia, não se contenta em expor a intratemporalidade do espírito como um fato, mas ele busca a possibilidade de compreender que o espírito cai no tempo, o qual é <o sensível, o totalmente abstrato>.”

1. Como Hegel delimita a essência do tempo? 2. O que pertence à essência do espírito para que ele possa <cair no tempo>?” Como instância máxima e seu Absoluto, é inexplicável tal necessidade subordinativa, por assim dizer.

o conceito hegeliano de tempo expõe a elaboração conceitual mais radical e bem pouco considerada da compreensão vulgar do tempo.”

Fiel à tradição [aristotélica], a análise hegeliana do tempo tem seu lugar na 2ª parte da Enciclopédia das ciências filosóficas, intitulada: Filosofia da Natureza.”

<O espaço é tempo, ou seja, o tempo é a verdade do espaço.>

Na negação da negação (i.e., na pontualidade), o ponto se coloca para-si, emergindo, portanto, da indiferença em que subsiste.” A sucessão de pontos se torna análoga à sucessão de agoras.

Tempo é o devir <intuicionado>, ou seja, a passagem que não é pensada” Ainda o tempo kantiano em H.

A caracterização hegeliana do tempo a partir do agora pressupõe que o agora permaneça encoberto e nivelado em toda a sua estrutura, a fim de poder ser intuicionado como algo simplesmente dado, embora ideal.”

Mas, por vezes, ele também caracteriza o tempo como a <abstração do desgaste>, fornecendo, assim, a fórmula mais radical [ainda demasiado humana e cristã] da experiência e interpretação vulgares do tempo.” “na caracterização do tempo como devir, Hegel também compreende o devir em sentido <abstrato>, que ultrapassa a representação de <fluxo> do tempo.” “É somente partindo deste conceito dialético-formal do tempo que Hegel pode expor o nexo entre tempo e espírito.”

Na passagem de Kant para o sistema elaborado de Hegel, cumpre-se ainda uma vez a irrupção decisiva da ontologia e da lógica aristotélicas. Isso é um fato de há muito conhecido. Mas ainda permanecem obscuros o caminho, o tipo e os limites da influência. Uma interpretação filosófica e concretamente comparativa da Lógica de Jena de H. [não é a Lógica que conhecemos, mas um tratado de juventude] e da Física e Metafísica de Ar. trará uma nova luz.” “a concepção de Bergson concorda, em seus resultados, com a tese de Hegel de que espaço é tempo.” E no entanto eu observei o outro lado da moeda, bem mais acima: ora, Hegel subsume o espaço NO tempo; Bergson o oposto.

[Em Hegel] <Progredir> é sempre um saber-que-se-sabe-em-sua-meta, sendo, por isso, sabido.” “Porque a inquietação do desenvolvimento do espírito, que se leva para seu conceito, é a negação da negação, resta-lhe como próprio, em se realizando, cair <no tempo>, no sentido de negação imediata da negação. Pois <o tempo é o próprio conceito que existe e se representa para a consciência como intuição vazia; por isso, o espírito se manifesta necessariamente no tempo e tanto mais quanto menos ele apreende seu conceito puro, ou seja, tanto menos ele elimina o tempo.>”

<A história universal é, por conseguinte, a interpretação do espírito no tempo assim como a idéia se interpreta no espaço como natureza>

Enquanto simplesmente dado e, com isso, exterior ao espírito, o tempo não possui poder algum sobre o conceito, mas, ao contrário, o conceito <é o poder do tempo>.”

Não se poderá discutir aqui se a interpretação hegeliana de tempo e espírito e de seu nexo é legítima e se ela se baseia em fundamentos ontologicamente originários.” Covarde!

O <espírito> não cai 1º no tempo, mas ele existe como temporalização originária da temporalidade.”

O <espírito> não cai no tempo, mas a existência de fato <cai> da temporalidade própria e originária na de-cadente.”

Se faz de humilde no final para despistar que sua obra é incompleta e está aquém da ontologia nietzschiana de quase 100 anos antes, que já propunha um escape do Ocidente, enquanto que a proposição heideggeriana é exatamente como seu clamor (que no entanto é filosoficamente autêntico, mesmo se inteiramente baseado em Nietzsche): vazia, silenciosa. “A elaboração da constituição ontológica da pre-sença é, porém, apenas um caminho. A meta é elaborar a questão do ser em geral.” “[A conclusão de minha presente pesquisa] Não é algo com que a filosofia possa se tranquilizar.” Ó!

Por nem sequer ter sido desencadeado, o combate em torno da interpretação do ser não se pode dar por terminado.”

Final patético: “Como se há de interpretar esse modo de temporalização da temporalidade? Haverá um caminho que conduza do tempo originário para o sentido do ser? Será que o próprio tempo se revela como horizonte do ser?”

ON MY PHILOSOPHY: From (…) Dostoyevsky to Sartre – Karl Jaspers (ed. W. Kaufman)

My path was not the normal one of professors of philosophy. I did not intend to become a doctor of philosophy by studying philosophy (I am in fact a doctor of medicine) nor did I, by any means, intend originally to qualify for a professorship by a dissertation on philosophy. To decide to become a philosopher seemed as foolish to me as to decide to become a poet. Since my schooldays, however, I was guided by philosophical questions. Philosophy seemed to me the supreme, even the sole, concern of man. Yet a certain awe kept me from making it my profession.”

After some years (since 1909) I published my psycho-pathological researches. In 1913 I qualified as university lecturer in psychology.”

Then in 1914 the World War caused the great breach in our European existence. The paradisiacal life before the World War, naive despite all its sublime spirituality, could never return: philosophy, with its seriousness, became more important than ever.” “Only then, approaching my 40th birthday, I made philosophy my life’s work.”

In what way the history of philosophy exists for us is a fundamental problem of our philosophising which demands a concrete solution in each age. Philosophy is tested and characterised by the way in which it appropriates its history. It might seem to us that the truth of present-day philosophy manifests itself less in the formation of new fundamental concepts (as ‘borderline situation’, ‘the Encompassing’) than in the new sound it makes audible for us in old thoughts.” “What was once life becomes a pile of dead husks of concepts and these in turn become the subject of an objective history of philosophy.”

Philosophy can only be approached with the most concrete comprehension. A great philosopher demands unrelenting penetration into his texts. This necessitates both the realisation of a whole philosophy in its entirety, and taking pains with every single sentence in order to become conscious of its every nuance.”

This solitary, but vast, moment of a few millennia, emerging from three different sources (China, India, Occident), is real by virtue of a single internal connection. Though too immense to be envisaged as a pattern, it encompasses us nevertheless as a world.”

The philosopher lives, as it were, in a hidden, non-objective community to which every philosophising person secretly longs to be admitted. Philosophy has no institutional reality and is not in competition with the church, the state, the real communities of the world. Any objectification, whether it be the formation of schools or sects, is the ruin of philosophy.”

He must not have the folly to wish to be recognised as a philosopher. Professorships in philosophy are instituted for free mediation of ideas by teaching, which does not preclude their being held by philosophers (Kant, Hegel, Schelling).” “In the realm of the spirit, men become companions-in-thought through the millennia, become occasions for each other to find the way to truth from their own source, although they cannot present each other with readymade truth. It is a self-development of individual in communication with individual. It is a development of the individual into community and from there to the plane of history, without breaking with contemporary life. It is the effort to live from and on behalf of the fundamental, though these become audible to him who philosophises, without objective certainty (as in religion), and only through indirect hints as possibilities in the totality of philosophy.”

Nietzsche gained importance for me only late as the magnificent revelation of nihilism and the task of overcoming it (in my youth I had avoided him, repelled by the extremes, the rapture, and the diversity).” “Hegel for a long time remained a well-nigh inexhaustible material for study, particularly for my teaching activity in seminars. The Greeks were always there; after the discipline of their coolness, I liked to turn to Augustine; however, despite the depth of his existential clarification, displeasure with his rhetoric and with his lack of all scientific objectivity and with his ugly and violent emotions drove me back again to the Greeks. Only finally I occupied myself more thoroughly with Plato, who now seemed to me perhaps the greatest of all.”

Among my deceased contemporaries I owe what I am able to think – those closest to me excepted – above all to the one and only Max Weber.”

We are so exposed that we constantly find ourselves facing nothingness. Our wounds are so deep that in our weak moments we wonder if we are not, in fact, dying from them.”

At the present moment, the security of coherent philosophy, which existed from Parmenides to Hegel, is lost.” “Instead of slipping into nothingness at the disintegration of millennia we should like to feel unshakeable ground beneath us. We should like to comprehend in one historical whole the only general phenomenon which may permit posterity to probe its substance more deeply than has ever been done. The alternative ‘nothing or everything’ stands before our age as the question of man’s spiritual destiny.”

This activity originates from life in the depths where it touches Eternity inside Time, not at the surface where it moves in finite purposes, even though the depths appear to us only at the surface. It is for this reason that philosophical activity is fully real only at the summits of personal philosophising, while objectivised philosophical thought is a preparation for, and a recollection of, it.”

The questions put earlier in history are still ours; in part identical with present ones, word for word, after thousands of years, in part more distant and strange, so that we make them our own only by translation. The basic questions were formulated by Kant with, I felt, moving simplicity: 1. What can I know? 2. What shall I do? 3. What may I hope? 4. What is man? Today these questions have been reborn for us in changed form and thus become comprehensible to us anew also in their origin.”

Seen from our point of view Kant still knew too much (in wrongly taking his own transcendental philosophy for conclusive scientific knowledge instead of philosophical insight to be accomplished in transcending) and too little (because the extraordinary mathematical, scientific and historical discoveries and possibilities of knowledge with their consequences were in great part still outside his horizon).”

TECHNOLOGY: “The emptiness caused by dissatisfaction with mere achievement and the helplessness that results when the channels of relation break down have brought forth a loneliness of soul such as never existed before, a loneliness that hides itself, that seeks relief in vain in the erotic or the irrational until it leads eventually to a deep comprehension of the importance of establishing communication between man and man.”

Even when regulating his existence man feels as if the waves of events had drawn him beyond his depth in the turbulent ocean of history and as if he now had to find a foothold in the drifting whirlpool. What was firm and certain has nowhere remained the ultimate. Morality is no longer adequately founded on generally valid laws. The laws themselves are in need of a deeper foundation.”

something is lacking even when it succeeds.”

Only through his absorption in the world of Being, in the immeasurable space of objects, in ideas, in Transcendence, does he become real to himself. If he makes himself the immediate object of his efforts he is on his last and perilous path; for it is possible that in doing so he will lose the Being of the other and then no longer find anything in himself. If man wants to grasp himself directly, he ceases to understand himself, to know who he is and what he should do. This confusion was intensified as a result of the process of education in the nineteenth century.”

Man is not worth considering. In the Deity alone there is reality, truth, and the immutability of being itself.” “But time and again it is seen: for us the Deity, if it exists, is only as it appears to us in the world, as it speaks to us in the language of man and the world. It exists for us only in the way in which it assumes concrete shape, which by human measure and thought always serves to hide it at the same time.”

As a physician and psychiatrist I saw the precarious foundation of so many statements and actions, and beheld the reign of imagined insights, e.g. the causation of all mental illnesses by brain processes (I called all this talk about the brain, as it was fashionable then, brain mythology; it was succeeded later by the mythology of psychoanalysis), and realised with horror how, in our expert opinions, we based ourselves on positions which were far from certain, because we had always to come to a conclusion even when we did not know, in order that science might provide a cover, however unproved, for decisions the state found necessary. I was surprised that so much of medical advice and the majority of prescriptions were based, not on rational knowledge, but merely on the patient’s wish for treatment.”

Steadily the consciousness of loneliness grew upon me in my youth, yet nothing seemed more pernicious to me than loneliness, especially the loneliness in the midst of social intercourse that deceives itself in a multitude of friendships. No urge seemed stronger to me than that for communication with others. If the never-completed movement of communication succeeds with but a single human being, everything is achieved.”

How man achieves unity is a problem, infinite in time and insoluble; but it is nevertheless the path to his search. Man is less certain of himself than ever.”

First, man is autonomous in the face of all the authorities of the world: the individual, reared by authority, at the end of the process of his maturation decides in his immediacy and responsibility before Transcendence what is unconditionally true. Second, man is a datum of Transcendence: to obey Transcendence in that unconditional decision leads man to his own Being.”

A DIALÉTICA DO ESCLARECIMENTO: Fragmentos filosóficos (ou: DAS VOLTAS QUE O MUNDO DÁ) – Adorno & Horkheimer

SOBRE A NOVA EDIÇÃO ALEMÃ

É difícil para alguém de fora fazer ideia da medida em que somos ambos responsáveis por cada frase.”

O livro foi redigido num momento em que já se podia enxergar o fim do terror nacional-socialista. Mas não são poucas as passagens em que a formulação não é mais adequada à realidade atual. E, no entanto, não se pode dizer que, mesmo naquela época, tenhamos avaliado de maneira excessivamente inócua o processo de transição para o mundo administrado.”

O pensamento crítico, que não se detém nem mesmo diante do progresso, [o esclarecimento] exige hoje que se tome partido pelos últimos resíduos de liberdade, pelas tendências ainda existentes a uma humanidade real, ainda que pareçam impotentes em face da grande marcha da história. O desenvolvimento que diagnosticamos neste livro em direção à integração total está suspenso, mas não interrompido

Retornamos dos Estados Unidos, [a nação da imbecilidade consumada nos anos 60/70, agora mais amarga que a Alemanha Ocidental reconstruída] onde o livro foi escrito, para a Alemanha, na convicção de que aqui poderemos fazer mais do que em outro lugar, tanto teórica quanto praticamente. Juntamente com Friedrich Pollock, a quem o livro é agora dedicado por seus 75 anos, como já o era por seus 50 anos, reconstruímos o Instituto para Pesquisa Social com o pensamento de prosseguir a concepção formulada na Dialética.”

Abril de 1969

PREFÁCIO

Ao que nos propuséramos era, de fato, nada menos do que descobrir por que a humanidade, em vez de entrar em um estado verdadeiramente humano, está se afundando em uma nova espécie de barbárie.” “Embora tivéssemos observado há muitos anos que, na atividade científica moderna, o preço das grandes invenções é a ruína progressiva da cultura teórica, acreditávamos de qualquer modo que podíamos nos dedicar a ela na medida em que fosse possível limitar nosso desempenho à crítica ou ao desenvolvimento de temáticas especializadas. Nosso desempenho devia restringir-se, pelo menos tematicamente, às disciplinas tradicionais: à sociologia, à psicologia e à teoria do conhecimento.

Os fragmentos que aqui reunimos mostram, contudo, que tivemos de abandonar aquela confiança. Se uma parte do conhecimento consiste no cultivo e no exame atentos da tradição científica (especialmente onde ela se vê entregue ao esquecimento como um lastro inútil pelos expurgadores positivistas), em compensação, no colapso atual da civilização burguesa, o que se torna problemático é não apenas a atividade, mas o sentido da ciência. O que os fascistas ferrenhos elogiam hipocritamente e os dóceis especialistas da humanidade ingenuamente levam a cabo, a infatigável autodestruição do esclarecimento, força o pensamento a recusar o último vestígio de inocência em face dos costumes e das tendências do espírito da época.”

Se se tratasse apenas dos obstáculos resultantes da instrumentação desmemoriada da ciência, o pensamento sobre questões sociais poderia, pelo menos, tomar como ponto de partida as tendências opostas à ciência oficial. Mas também estas são presas do processo global de produção. Elas não se modificaram menos do que a ideologia à qual se referiam.”

A filosofia que, no século XVIII, apesar das fogueiras levantadas para os livros e as pessoas, infundia um medo mortal na infâmia,(*) sob Bonaparte já passava para o lado desta. Finalmente, a escola apologética de Comte usurpou a sucessão dos enciclopedistas intransigentes e estendeu a mão a tudo aquilo contra o qual estes se haviam colocado.

(*) Voltaire, Lettres philosophiques XII”

Ao tomar consciência da sua própria culpa, o pensamento vê-se por isso privado não só do uso afirmativo da linguagem conceitual científica e cotidiana, mas igualmente da linguagem da oposição. Não há mais nenhuma expressão que não tenda a concordar com as direções dominantes do pensamento, e o que a linguagem desgastada não faz espontaneamente é suprido com precisão pelos mecanismos sociais. Aos censores, que as fábricas de filmes mantêm voluntariamente por medo de acarretar no final um aumento dos custos, correspondem instâncias análogas em todas as áreas. O processo a que se submete um texto literário, se não na previsão automática do seu produtor, pelo menos pelo corpo de leitores, editores, redatores e ghost-writers dentro e fora do escritório da editora, é muito mais minucioso que qualquer censura. Tornar inteiramente supérfluas suas funções parece ser, apesar de todas as reformas benéficas, a ambição do sistema educacional. Na crença de que ficaria excessivamente suscetível à charlatanice e à superstição, se não se restringisse à constatação de fatos e ao cálculo de probabilidades, o espírito conhecedor prepara um chão suficientemente ressequido para acolher com avidez a charlatanice e a superstição. Assim como a proibição sempre abriu as portas para um produto mais tóxico ainda, assim também o cerceamento da imaginação teórica preparou o caminho para o desvario político.”

A aporia com que defrontamos em nosso trabalho revela-se assim como o primeiro objeto a investigar: a autodestruição do esclarecimento.” “Se o esclarecimento não acolhe dentro de si a reflexão sobre esse elemento regressivo, ele está selando seu próprio destino. Abandonando a seus inimigos a reflexão sobre o elemento destrutivo do progresso, o pensamento cegamente pragmatizado perde seu carácter superador e, por isso, também sua relação com a verdade. A disposição enigmática das massas educadas tecnologicamente a deixar dominar-se pelo fascínio de um despotismo qualquer, sua afinidade autodestrutiva com a paranóia racista, todo esse absurdo incompreendido manifesta a fraqueza do poder de compreensão do pensamento teórico atual.

Acreditamos contribuir com estes fragmentos para essa compreensão, mostrando que a causa da recaída do esclarecimento na mitologia não deve ser buscada tanto nas mitologias nacionalistas, pagãs e em outras mitologias modernas especificamente idealizadas em vista dessa recaída, mas no próprio esclarecimento paralisado pelo temor da verdade.”

O DELINQÜENTE: “O medo que o bom filho da civilização moderna tem de afastar-se dos fatos – fatos esses que, no entanto, já estão pré-moldados como clichés na própria percepção pelas usanças dominantes na ciência, nos negócios e na política – é exatamente o mesmo medo do desvio social. Essas usanças também definem o conceito de clareza na linguagem e no pensamento a que a arte, a literatura e a filosofia devem conformar-se hoje. Ao tachar de complicação obscura e, de preferência, de alienígena o pensamento que se aplica negativamente aos fatos, bem como às formas de pensar dominantes, e ao colocar assim um tabu sobre ele, esse conceito mantém o espírito sob o domínio da mais profunda cegueira. É característico de uma situação sem-saída que até mesmo o mais honesto dos reformadores, ao usar uma linguagem desgastada para recomendar a inovação, adota também o aparelho categorial inculcado e a má filosofia que se esconde por trás dele, e assim reforça o poder da ordem existente que ele gostaria de romper.”

a difusão hipócrita do espírito: sua verdadeira aspiração é a negação da reificação. Mas ele necessariamente se esvai quando se vê concretizado em um bem cultural e distribuído para fins de consumo. A enxurrada de informações precisas e diversões assépticas desperta e idiotiza as pessoas ao mesmo tempo.” Dialética da distensão para estressados e sobrecarregados.

O que está em questão não é a cultura como valor, como pensam os críticos da civilização Huxley, Jaspers, Ortega y Gasset e outros. A questão é que o esclarecimento tem que tomar consciência de si mesmo, se os homens não devem ser completamente traídos. [Será? Será que o obscurecimento já não é sua própria reação diante da autoconsciência do esclarecimento?] Não é da conservação do passado, mas de resgatar a esperança passada que se trata. Hoje, porém, o passado prolonga-se como destruição do passado. Se a cultura respeitável constituiu até o século XIX um privilégio, cujo preço era o aumento do sofrimento dos incultos, no século XX o espaço higiênico da fábrica teve por preço a fusão de todos os elementos da cultura num cadinho [caldeirão, forno, crisol] gigantesco. Talvez isso não fosse um preço tão alto, como acreditam aqueles defensores da cultura, se a venda em liquidação da cultura não contribuísse para a conversão das conquistas econômicas em seu contrário.” Toda sopa é produzida pensando em comensais banguelas.

O fato de que o espaço higiênico da fábrica e tudo o que acompanha isso, o Volkswagen e o Palácio dos Desportos, levem a uma liquidação estúpida da metafísica, ainda seria indiferente, mas que eles próprios se tornem, no interior do todo social, a metafísica, a cortina ideológica atrás da qual se concentra a desgraça real, não é indiferente. Eis aí o ponto de partida dos nossos fragmentos.”

duas teses: o mito já é esclarecimento e o esclarecimento acaba por reverter à mitologia.” “O segundo excurso ocupa-se de Kant, Sade e Nietzsche, os implacáveis realizadores do esclarecimento.”

O segmento sobre a ‘indústria cultural’ mostra a regressão do esclarecimento à ideologia, que encontra no cinema e no rádio sua expressão mais influente. (…) [este] segmento (…) é ainda mais fragmentário¹ do que os outros.”

¹ Ler: difícil de ler; anti-estético.

A tendência não apenas ideal, mas também prática, à autodestruição, caracteriza a racionalidade desde o início e de modo nenhum apenas a fase em que essa tendência se evidencia sem disfarces. Neste sentido, esboçamos uma pré-história filosófica do anti-semitismo. Seu ‘irracionalismo’ é derivado da essência da própria razão dominante e do mundo correspondente a sua imagem.”

As primeiras 3 teses [da penúltima parte do livro] foram escritas juntamente com Leo Löwenthal, com quem desde os primeiros anos de Frankfurt trabalhamos em muitas questões científicas.”

Maio de 1944; junho de 1947.

1. O CONCEITO DE ESCLARECIMENTO [Sobre uma ascensão da tecnocracia]

o rádio, que é a imprensa sublimada;¹ o avião de caça, que é uma artilharia mais eficaz; o controle remoto, que é uma bússola mais confiável.”

¹ No sentido hegeliano: a dimensão espacial sublimada no puro tempo de propagação da onda. Adeus superfícies.

Só o pensamento que se faz violência a si mesmo é suficientemente duro para destruir os mitos. Diante do atual triunfo da mentalidade factual, até mesmo o credo nominalista de Bacon seria suspeito de metafísica e incorreria no veredito de vacuidade que proferiu contra a escolástica. Poder e conhecimento são sinônimos. Para Bacon, como para Lutero, o estéril prazer que o conhecimento proporciona não passa de uma espécie de lascívia. O que importa não é aquela satisfação que, para os homens, se chama ‘verdade’, mas a ‘operation’, o procedimento eficaz.”

Nenhuma distinção deve haver entre o animal totêmico, os sonhos do visionário e a Idéia absoluta. No trajeto para a ciência moderna, os homens renunciaram ao sentido e substituíram o conceito pela fórmula, a causa pela regra e pela probabilidade. A causa foi apenas o último conceito filosófico que serviu de padrão para a crítica científica, porque ela era, por assim dizer, dentre todas as idéias antigas, o único conceito que a ela ainda se apresentava, derradeira secularização do princípio criador. A filosofia buscou sempre, desde Bacon, uma definição moderna de substância e qualidade, de ação e paixão, do ser e da existência, mas a ciência já podia passar sem semelhantes categorias. Essas categorias tinham ficado para trás como idola theatri da antiga metafísica e já eram, em sua época, monumentos de entidades e potências de um passado pré-histórico.”

As cosmologias pré-socráticas fixam o instante da transição. O úmido, [água] o indiviso, [terra] o ar, o fogo, aí citados como a matéria primordial da natureza, são apenas sedimentos racionalizados da intuição mítica.” “assim também toda a luxuriante plurivocidade dos demônios míticos espiritualizou-se na forma pura das entidades ontológicas. Com as Idéias de Platão, finalmente, também os deuses patriarcais do Olimpo foram capturados pelo logos filosófico.”

O ESPÍRITO DO MUNDO ERA A TÉCNICA: Um fantasma que queria um corpo

Na autoridade dos conceitos universais, [o esclarecimento][e não tenha dúvida de que este esclarecimento é o Espírito hegeliano, finalmente tornado ambíguo, ambivalente] crê enxergar ainda o medo pelos demônios, cujas imagens eram o meio, de que se serviam os homens, no ritual mágico, para tentar influenciar a natureza.” “O que não se submete ao critério da calculabilidade e da utilidade torna-se suspeito para o esclarecimento. A partir do momento em que ele pode se desenvolver sem a interferência da coerção externa, nada mais pode segurá-lo.” “Cada resistência espiritual que ele encontra serve apenas para aumentar sua força. Isso se deve ao fato de que o esclarecimento ainda se reconhece a si mesmo nos próprios mitos. Quaisquer que sejam os mitos de que possa se valer a resistência, o simples fato de que eles se tornam argumentos por uma tal oposição significa que eles adotam o princípio da racionalidade corrosiva da qual acusam o esclarecimento. O esclarecimento é totalitário.”

O sobrenatural, o espírito e os demônios seriam as imagens especulares dos homens que se deixam amedrontar pelo natural.”

E se o especulativo pudesse usar um espéculo para especular com mais realidade, explorar, arrancar mais-valia de cada célula do corpo invadido intrometido?

De antemão, o esclarecimento só reconhece como ser e acontecer o que se deixa captar pela unidade. Seu ideal é o sistema, do qual se pode deduzir toda e cada coisa.” “Embora as diferentes escolas interpretassem de maneira diferente os axiomas, a estrutura da ciência unitária era sempre a mesma.”

A multiplicidade das figuras se reduz à posição e à ordem, a história ao fato, as coisas à matéria.”

O equacionamento mitologizante das Idéias com os números nos últimos escritos de Platão exprime o anseio de toda desmitologização: o número tomou-se o cânon do esclarecimento. As mesmas equações dominam a justiça burguesa e a troca mercantil.”

A sociedade burguesa está dominada pelo equivalente. Ela torna o heterogêneo comparável, reduzindo-o a grandezas abstratas.”

Unidade continua a ser a divisa, de Parmênides a Russell.”

Com o registo e a coleção dos mitos, essa tendência reforçou-se.” Mitógrafos, deixai o mito em paz!

Os mitos, como os encontraram os poetas trágicos, já se encontram sob o signo daquela disciplina e poder que Bacon enaltece como o objetivo a se alcançar. O lugar dos espíritos e demônios locais foi tomado pelo céu e sua hierarquia; o lugar das práticas de conjuração do feiticeiro e da tribo, pelo sacrifício bem-dosado e pelo trabalho servil mediado pelo comando. As deidades olímpicas não se identificam mais diretamente aos elementos, mas passam a significá-los. Em Homero, Zeus preside o céu diurno, [eu não sou o céu, eu governo o céu!] Apolo guia o sol, Hélio e Éo já tendem para o alegórico.” Do logo à mónadas

Nisso estão de acordo a história judia da criação e a religião olímpica. ‘…e dominarão os peixes do mar e as aves do céu e o gado e a terra inteira e todos os répteis que se arrastam sobre a terra.’espia de milho, expiga de deus

O PERFEITO ÊMULO HUMILDE: “Em face da unidade de tal razão, a separação de Deus e do homem reduz-se àquela irrelevância que, inabalável, a razão assinalava desde a mais antiga crítica de Homero. (…) A imagem e semelhança divinas do homem consistem na soberania sobre a existência, no olhar do senhor, no comando.”

em vez do deus, é o animal sacrificial que é massacrado.” “Embora a cerva oferecida em lugar da filha e o cordeiro em lugar do primogênito ainda devessem ter qualidades próprias, eles já representavam o gênero e exibiam a indiferença do exemplar.” Poder-se-ia dizer que sacrificar um gorila ou chimpanzé é dar 99% do Filho do Homem à origem. Pagar quase todo o tributo.

A substitutividade converte-se na fungibilidade universal. Um átomo é desintegrado, não em substituição, mas como um espécime da matéria, e a cobaia atravessa, não em substituição, mas desconhecida como um simples exemplar, a paixão do laboratório.” “O mundo da magia ainda continha distinções, cujos vestígios desapareceram até mesmo da forma linguística.” “Como a ciência, a magia visa fins, mas ela os persegue pela mimese, não pelo distanciamento progressivo em relação ao objeto. Ela não se baseia de modo algum na ‘onipotência dos pensamentos’, que o primitivo se atribuiria, segundo se diz, assim como o neurótico.” “A ‘confiança inabalável na possibilidade de dominar o mundo’, que Freud anacronicamente atribui à magia, só vem corresponder a uma dominação realista do mundo graças a uma ciência mais astuciosa do que a magia.” “a religião popular, o mito patriarcal solar é ele próprio esclarecimento, com o qual o esclarecimento filosófico pode-se medir no mesmo plano.” “…até que os próprios conceitos de espírito, de verdade, e até mesmo de esclarecimento tenham-se convertido em magia animista.”

O INCONSCIENTE DE NEWTON: “A doutrina da igualdade entre a ação e a reação afirmava o poder da repetição sobre o que existe muito tempo após os homens terem renunciado à ilusão de que pela repetição poderiam se identificar com a realidade repetida e, assim, escapar a seu poder.” “O princípio da imanência, a explicação de todo acontecimento como repetição, que o esclarecimento defende contra a imaginação mítica, é o princípio do próprio mito. A insossa sabedoria para a qual não há nada de novo sob o sol, porque todas as cartas do jogo sem-sentido já teriam sido jogadas, porque todos os grandes pensamentos já teriam sido pensados, porque as descobertas possíveis poderiam ser projetadas de antemão, e os homens estariam forçados a assegurar a autoconservação pela adaptação – essa insossa sabedoria reproduz tão-somente a sabedoria fantástica que ela rejeita: a ratificação do destino que, pela retribuição, reproduz sem cessar o que já era.” Não sei o que me fez ler esse trecho com tanto entusiasmo no ano de 2009: se a palavra ‘destino’ aliada ao termo ‘sabedoria fantástica’ numa certa conotação que desviei para o nietzscheanismo, ou se o clima geral do texto, se a cosmovisão de alguém jovem inevitavelmente o conduz a essa espécie de otimismo ou euforia libertina, como caracterizaria esse dia e essa semana… Mais ou menos a sensação de andar pelas ruas da W3 Norte ouvindo Symbolic (Death) no fone num dia ensolarado… Mas o fato é que eu ignorava o deboche ou as péssimas conotações, a despeito da reiteração do termo ‘insossa sabedoria’… Em 2021 estou num pólo oposto. O texto não é nenhuma revelação, embora também não seja nenhum encobrimento – evadi o pêndulo quente e me enfiei num gêiser inativo. Impossível elevar-se no puro fenômeno e na resignação seculovintista…

Os homens receberam o seu eu como algo pertencente a cada um, diferente de todos os outros, para que ele possa com tanto maior segurança se tornar igual.” “seria digna de escárnio a sociedade que conseguisse transformar os homens em indivíduos. A horda, cujo nome sem dúvida está presente na organização da Juventude Hitleriana, não é nenhuma recaída na antiga barbárie, mas o triunfo da igualdade repressiva, a realização pelos iguais da igualdade do direito à injustiça.” É inconsciente aos próprios fascistas (máquinas, automáticos) o quão bem eles trabalham (em seu propósito uniformizador). “Toda tentativa de romper as imposições da natureza rompendo a natureza, resulta numa submissão ainda mais profunda às imposições da natureza.” Imolar judeus sem saber por quê.

Sob o domínio nivelador do abstrato, que transforma todas as coisas na natureza em algo de reproduzível, e da indústria, para a qual esse domínio do abstrato prepara o reproduzível, os próprios liberados acabaram por se transformar naquele ‘destacamento’ que Hegel designou como o resultado do esclarecimento.”

Os cantos de Homero e os hinos do Rigveda datam da época da dominação territorial e dos lugares fortificados, quando uma belicosa nação de senhores se estabeleceu sobre a massa dos autóctones vencidos. O deus supremo entre os deuses surgiu com esse mundo civil, onde o rei, como chefe da nobreza armada, mantém os subjugados presos à terra, enquanto os médicos, adivinhos, artesãos e comerciantes se ocupam do intercâmbio social. Com o fim do nomadismo, a ordem social foi instaurada sobre a base da propriedade fixa.”

Assim como, em cultos que não se excluíam, o nome de Zeus era dado tanto a um deus subterrâneo quanto a um deus da luz, e os deuses olímpicos cultivavam toda espécie de relações com os ctônicos, assim também as potências do bem e do mal, a graça e a desgraça, não eram claramente separadas. Elas estavam ligadas como o vir-a-ser e o parecer, a vida e a morte, o verão e o inverno. No mundo luminoso da religião grega perdura a obscura indivisão do princípio religioso venerado sob o nome de ‘mana’ nos mais antigos estágios que se conhecem da humanidade.”

O GRITO E O PORQUÊ: “A duplicação da natureza como aparência e essência, ação e força, que torna possível tanto o mito quanto a ciência, provém do medo do homem, cuja expressão se converte na explicação. Não é a alma que é transposta para a natureza, como o psicologismo faz crer. O mana, o espírito que move, não é nenhuma projeção, mas o eco da real supremacia da natureza nas almas fracas dos selvagens.”

Quando uma árvore é considerada não mais simplesmente como árvore, mas como testemunho de uma outra coisa, como sede do mana, a linguagem exprime a contradição de que uma coisa seria ao mesmo tempo ela mesma e outra coisa diferente dela, idêntica e não-idêntica. Através da divindade, a linguagem passa da tautologia à linguagem. O conceito, que se costuma definir como a unidade característica do que está nele subsumido, já era desde o início o produto do pensamento dialético, no qual cada coisa só é o que ela é tornando-se aquilo que ela não é.” “Os deuses não podem livrar os homens do medo, pois são as vozes petrificadas do medo que eles trazem como nome. Do medo o homem presume estar livre quando não há nada mais de desconhecido. É isso que determina o trajeto da desmitologização e do esclarecimento, que identifica o animado ao inanimado, assim como o mito identifica o inanimado ao animado. O esclarecimento é a radicalização da angústia mítica. A pura imanência do positivismo, seu derradeiro produto, nada mais é do que um tabu, por assim dizer, universal.” O positivismo absoluto como as verdadeiras trevas. Ó, Hegel, que foi que fizeste?

O dualismo mítico não ultrapassa o âmbito da existência. O mundo totalmente dominado pelo mana, bem como o mundo do mito indiano e grego, são, ao mesmo tempo, sem-saída e eternamente iguais.” Não há o nada. Há bem e mal balanceados. Há trocas equivalentes entre ambos. Se eu cedo, eu conquisto; se eu conquisto, devo ceder. Como quer que seja, estou na lei e participo. “Todo nascimento se paga com a morte, toda ventura com a desventura. Homens e deuses podem tentar, no prazo que lhes cabe, distribuir a sorte de cada um segundo critérios diferentes do curso cego do destino; ao fim e ao cabo, a realidade triunfa sobre eles.” A realidade sou eu. Eu não fujo, porque se eu fugisse eu me apanharia.

Por isso, tanto a justiça mítica como a esclarecida consideram a culpa e a expiação, a ventura e a desventura como os 2 lados de uma única equação. A justiça se absorve no direito.”

Antes, os fetiches estavam sob a lei da igualdade. Agora, a própria igualdade torna-se fetiche. A venda sobre os olhos da Justiça não significa apenas que não se deve interferir no direito, mas que ele não nasceu da liberdade.”

Inexauribilidade, renovação infinita, permanência do significado não são apenas atributos de todos os símbolos, mas seu verdadeiro conteúdo. As representações da criação nas quais o mundo surge da Mãe primordial, da Vaca ou do Ovo, são, ao contrário do Gênesis judeu (1:26), simbólicas. A zombaria com que os antigos ridicularizaram os deuses demasiadamente humanos deixou incólume seu âmago. A individualidade não esgota a essência dos deuses. Eles tinham ainda algo do mana dentro de si; eles personificavam a natureza como um poder universal. Com seus traços pré-animistas, eles se destacam no esclarecimento. Sob o véu pudico da chronique scandaleuse olímpica já se havia formado a doutrina da mistura, da pressão e do choque dos elementos, que logo se estabeleceu como ciência e transformou os mitos em obras da fantasia.” Platão não devera se indignar contra Homero, mas contra aqueles que lhe antecederam e desfiguraram o real Zeus, que não poderia ser nunca mau exemplo e perversão para nenhuma conduta humana… Ou os reais Zeuses, celeste-ctônico, telúrico-paradisíaco…

A antítese corrente da arte e da ciência, que as separa como domínios culturais, a fim de torná-las administráveis conjuntamente como domínios culturais, faz com que elas acabem por se confundirem como opostos exatos graças às suas próprias tendências.”

A ciência estética, como a ciência da performance também em suas trincheiras, já se tornou há muito tempo um clube seleto como o dos matemáticos, que não exigem e aliás proíbem a intervenção de não-entendidos. Jogo auto-suficiente. Esteticismo, performatismo, matematicismo. “A arte da copiabilidade integral, porém, entregou-se até mesmo em suas técnicas à ciência positivista.” “A separação do signo e da imagem é inevitável. Contudo, se ela é, uma vez mais, hipostasiada numa atitude ao mesmo tempo inconsciente e autocomplacente, então cada um dos 2 princípios isolados tende para a destruição da verdade. O abismo que se abriu com a separação, a filosofia enxergou-o na relação entre a intuição e o conceito e tentou sempre em vão fechá-lo de novo” “Platão baniu a poesia com o mesmo gesto com que o positivismo baniu a doutrina das Idéias.” “A imitação está proscrita tanto em Homero como entre os judeus.” “A razão e a religião declaram anátema o princípio da magia. Mesmo na distância renunciadora da vida, enquanto arte, ele permanece desonroso; as pessoas que o praticam tornam-se vagabundos, nômades sobreviventes que não encontram pátria entre os que se tornaram sedentários.”

A obra de arte ainda tem em comum com a magia o facto de estabelecer um domínio próprio, fechado em si mesmo e arrebatado ao contexto da vida profana. Neste domínio imperam leis particulares.” “É exatamente a renúncia a agir, pela qual a arte se separa da simpatia mágica, que fixa ainda mais profundamente a herança mágica.” “Pertence ao sentido da obra de arte, da aparência estética, ser aquilo em que se converteu, na magia do primitivo, o novo e terrível: a manifestação do todo no particular. Na obra de arte volta sempre a realizar-se a duplicação pela qual a coisa se manifestava como algo de espiritual, como exteriorização do mana. É isto que constitui sua aura. Enquanto expressão da totalidade, a arte reclama a dignidade do absoluto. Isso, às vezes, levou a filosofia a atribuir-lhe prioridade em face do conhecimento conceitual. Segundo Schelling, a arte entra em ação quando o saber desampara os homens.” “Só muito raramente o mundo burguês esteve aberto a semelhante confiança na arte.”

É através da fé que a religiosidade militante dos novos temposTorquemada, Lutero, Maomé – pretendia reconciliar o espírito e a vida. Mas a fé é um conceito privativo: ela se anula com[o] fé se não ressalta continuamente sua oposição ao saber ou sua concordância com ele.”

A tentativa da fé, empreendida no protestantismo, de encontrar, como outrora, o princípio da verdade que a transcende, e sem a qual não pode existir diretamente, na própria palavra e de restituir a esta a força simbólica – essa tentativa teve como preço a obediência à palavra, aliás a uma palavra que não era a sagrada.” “seu fanatismo é a marca de sua inverdade, a confissão objetiva de que quem apenas crê por isso mesmo não mais crê. A má consciência é sua segunda natureza.” “Não foi como exagero mas como realização do próprio princípio da fé que se cometeram os horrores do fogo e da espada, da contra-reforma e da reforma. A fé não cessa de mostrar que é do mesmo jaez que a história universal, sobre a qual gostaria de imperar; nos tempos modernos, ela até mesmo se converte em seu instrumento preferido, sua astúcia particular. Não é apenas o esclarecimento do século XVIII que é irresistível, como atestou Hegel, mas (e ninguém sabia melhor do que ele) o movimento do próprio pensamento.”

O paradoxo da fé acaba por degenerar no embuste, no mito do século XX, enquanto sua irracionalidade degenera na cerimônia organizada racionalmente sob o controle dos integralmente esclarecidos e que, no entanto, dirigem a sociedade em direção à barbárie.”

Quando a linguagem penetra na história, seus mestres já são sacerdotes e feiticeiros. Quem viola os símbolos fica sujeito, em nome das potências supraterrenas, às potências terrenas, cujos representantes são esses órgãos comissionados da sociedade. O que precedeu a isso está envolto em sombras. Onde quer que a etnologia o encontre, o sentimento de horror de que se origina o mana já tinha recebido a sanção pelo menos dos mais velhos da tribo.” “Só que, é verdade, esse carácter social das formas do pensamento não é, como ensina Durkheim, expressão da solidariedade social, mas testemunho da unidade impenetrável da sociedade e da dominação.”

A dominação defronta o indivíduo como o universal, como a razão na realidade efetiva. O poder de todos os membros da sociedade, que enquanto tais não têm outra saída, acaba sempre, pela divisão do trabalho a eles imposta, por se agregar no sentido justamente da realização do todo, cuja racionalidade é assim mais uma vez multiplicada. Aquilo que acontece a todos por obra e graça de poucos realiza-se sempre como a subjugação dos indivíduos por muitos: a opressão da sociedade tem sempre o caráter da opressão por uma coletividade.”

Na medida em que constituíam semelhante reforço do poder social da linguagem, as idéias se tornavam tanto mais supérfluas quanto mais crescia esse poder, e a linguagem da ciência preparou-lhes o fim. Não era à justificação consciente que se ligava a sugestão que ainda conserva algo do terror do fetiche. A unidade de coletividade e dominação mostra-se antes de tudo na universalidade que o mau conteúdo necessariamente assume na linguagem, tanto metafísica quanto científica. A apologia metafísica deixava entrever a injustiça da ordem existente pelo menos através da incongruência do conceito e da realidade. Na imparcialidade da linguagem científica, o impotente perdeu inteiramente a força para se exprimir, e só o existente encontra aí seu signo neutro. Tal neutralidade é mais metafísica do que a metafísica. O esclarecimento acabou por consumir não apenas os símbolos mas também seus sucessores, os conceitos universais, e da metafísica não deixou nada senão o medo abstrato frente à coletividade da qual surgira.”

Se o positivismo lógico ainda deu uma chance à probabilidade, o positivismo etnológico equipara-a já à essência.”

A religião judaica não tolera nenhuma palavra que proporcione consolo ao desespero de qualquer mortal.”

A contestação indiferenciada de tudo o que é positivo, a fórmula estereotipada da nulidade, como a emprega o budismo, passa por cima da proibição de dar nomes ao absoluto, do mesmo modo que seu contrário, o panteísmo, ou sua caricatura, o ceticismo burguês. As explicações do mundo como o nada ou o todo são mitologias, e os caminhos garantidos para a redenção, práticas mágicas sublimadas.”

Semelhante execução, ‘negação determinada’,¹ não está imunizada pela soberania do conceito abstrato contra a intuição sedutora, como o está o ceticismo para o qual são nulos tanto o falso quanto o verdadeiro.² A negação determinada rejeita as representações imperfeitas do absoluto, os ídolos, mas não como o rigorismo, opondo-lhes a Idéia que elas não podem satisfazer.³ A dialética revela, ao contrário, toda imagem como uma forma de escrita. Ela ensina a ler em seus traços a confissão de sua falsidade, [para-si] confissão essa que a priva de seu poder e o transfere para a verdade. [em-si] Desse modo, a linguagem torna-se mais que um simples sistema de signos. [sempre remetendo um resíduo para mais-além] Com o conceito da negação determinada, Hegel destacou um elemento que distingue o esclarecimento da desagregação positivista4 à qual ele o atribui. É verdade, porém, que ele acabou por fazer um absoluto do resultado sabido do processo total da negação: a totalidade no sistema e na história, e que, ao fazer isso, infringiu a proibição e sucumbiu ele próprio à mitologia. Isso não ocorreu apenas à sua filosofia enquanto apoteose do pensamento em progresso, mas ao próprio esclarecimento, entendido como a sobriedade pela qual este acredita distinguir-se de Hegel e da metafísica em geral. Pois o esclarecimento é totalitário como qualquer outro sistema. Sua inverdade não está naquilo que seus inimigos românticos sempre lhe censuraram: o método analítico, [não seria sintético?] o retorno aos elementos, a decomposição pela reflexão, mas sim no fato de que para ele o processo está decidido de antemão.”

¹ O conceito do nada ou nada relativo, ocupando um lugar apenas provisório (portanto positivo) no Sistema do Absoluto.

² Niilismo consumado e, por isso, o nada absoluto. Pode-se dizer que Hegel enxerga-o nos céticos pós-neoplatônicos que encerram a idade antiga da filosofia, negando qualquer transcendência e estatuindo a grande indiferença em relação às aparências (vida concreta).

³ Seria o Sim Absoluto inalcançável, uma essência perdida (para os niilistas consumados).

4 Em Hegel, desagregação positivista é: o espírito anti-filosófico, o empirismo puro. Em outras palavras: onde os outros param, porque apenas refutam algo dado e não encontram mais nenhuma prova em seu favor, Hegel continua, dizendo: isto apenas foi negado para ser reafirmado na seqüência no processo inerente à Razão.

Resumindo: à pergunta – e ao progresso, o que acontece quando ele cessa de se consumar? Pois não seria absurdo que ele se consumasse ao infinito, sendo que aparece no fenômeno (finito)?! Ele começa a recuar em regressão espiral… Depois de se realizar ele se irrealiza da mesma forma.

Através da identificação antecipatória do mundo totalmente matematizado com a verdade, o esclarecimento acredita estar a salvo do retorno do mítico.”

O esclarecimento pôs de lado a exigência clássica de pensar o pensamento – a filosofia de Fichte é o seu desdobramento radical – porque ela desviaria do imperativo de comandar a práxis, que o próprio Fichte no entanto queria obedecer.”

TODO MESTRE POSITIVISTA ERA CAROLA: “Mas, com essa mimese, na qual o pensamento se iguala ao mundo, o factual tornou-se agora a tal ponto a única referência que até mesmo a negação de Deus sucumbe ao juízo sobre a metafísica. Para o positivismo que assumiu a magistratura da razão esclarecida, extravagar em mundos inteligíveis é não apenas proibido, mas é tido como um palavreado sem sentido. Ele não precisa – para sorte sua – ser ateu, porque o pensamento coisificado não pode sequer colocar a questão.”

A dominação da natureza traça o círculo dentro do qual a Crítica da Razão Pura baniu o pensamento.”

Não há nenhum ser no mundo que a ciência não possa penetrar, mas o que pode ser penetrado pela ciência não é o ser.”

A equação do espírito e do mundo acaba por se resolver, mas apenas com a mútua redução de seus 2 lados.”

O mundo como um gigantesco juízo analítico, o único sonho que restou de todos os sonhos da ciência, é da mesma espécie que o mito cósmico que associava a mudança da primavera e do outono ao rapto da Perséfone. A singularidade do evento mítico, que deve legitimar o evento factual, é ilusão. Originariamente, o rapto da deusa identificava-se imediatamente à morte da natureza. Ele se repetia em cada outono, e mesmo a repetição não era uma seqüência de ocorrências separadas, mas a mesma cada vez. Com o enrijecimento da consciência do tempo, o evento foi fixado como tendo ocorrido uma única vez no passado, e tentou-se apaziguar ritualmente o medo da morte em cada novo ciclo das estações com o recurso a algo ocorrido há muito tempo.” “Quem fica privado da esperança não é a existência, mas o saber que no símbolo figurativo ou matemático se apropria da existência enquanto esquema e a perpetua como tal.”

O pânico meridiano com que os homens de repente se deram conta da natureza como totalidade encontrou sua correspondência no pânico que hoje está pronto a irromper a qualquer instante: os homens aguardam que este mundo sem-saída seja incendiado por uma totalidade que eles próprios constituem e sobre a qual nada podem.”

A frase de Spinoza: ‘Conatus sese conservandi primum et unicum virtutis est fundamentum’¹ contém a verdadeira máxima de toda a civilização ocidental, onde vêm se aquietar as diferenças religiosas e filosóficas da burguesia.”

¹ O primeiro e único fundamento da virtude é o esforço de se autoconservar.

Segundo o juízo do esclarecimento, bem como o do protestantismo, quem se abandona imediatamente à vida sem relação racional com a autoconservação regride à pré-história.”

O progresso reservou a mesma sorte tanto para a adoração quanto para a queda no ser natural imediato: ele amaldiçoou do mesmo modo aquele que, esquecido de si, se abandona tanto ao pensamento quanto ao prazer.” Hedonista ou asceta. Embora ao acadêmico de hoje sobrem delícias mundanas e ele e seu ofício já não representam qualquer sacrifício, então poder-se-ia dizer: hedonista ou hedonista.

aparentemente, o próprio sujeito transcendental do conhecimento acaba por ser suprimido como a última reminiscência da subjetividade e é substituído pelo trabalho tanto mais suave dos mecanismos automáticos de controle.” ??

O positivismo (…) eliminou a última instância intermediária entre a ação individual e a norma social. O processo técnico, no qual o sujeito se coisificou após sua eliminação da consciência, está livre da plurivocidade do pensamento mítico bem como de toda significação em geral, porque a própria razão se tornou um mero adminículo da aparelhagem econômica que a tudo engloba.” “Cumpriu-se afinal sua velha ambição de ser um órgão puro dos fins.” Deleuze…

Assim, o tabu estende-se ao próprio poder de impor tabus, o esclarecimento ao espírito em que ele próprio consiste. Mas, desse modo, a natureza enquanto verdadeira autoconservação é atiçada pelo processo que prometia exorcizá-la, tanto no indivíduo quanto no destino coletivo da crise e da guerra. Se a única norma que resta para a teoria é o ideal da ciência unificada, então a práxis tem que sucumbir ao processo irreprimível da história universal.”

Concretiza-se assim o mais antigo medo, o medo da perda do próprio nome.”

Um após o outro, os comportamentos mimético, mítico e metafísico foram considerados como eras superadas, de tal sorte que a idéia de recair neles estava associada ao pavor de que o eu revertesse à mera natureza, da qual havia se alienado com esforço indizível e que por isso mesmo infundia nele indizível terror. A lembrança viva dos tempos pretéritos – do nomadismo e, com muito mais razão, dos estágios propriamente pré-patriarcais – fôra extirpada da consciência dos homens ao longo dos milênios com as penas mais terríveis. O espírito esclarecido substituiu a roda e o fogo pelo estigma que imprimiu em toda irracionalidade, já que esta leva à ruína.”

O ideal burguês da naturalidade não visa à natureza amorfa, mas à virtude do meio. A promiscuidade e a ascese, a abundância e a fome são, apesar de opostas, imediatamente idênticas enquanto potências da dissolução.”

De Homero aos tempos modernos, o espírito dominante quer navegar entre a Cila da regressão à simples reprodução e a Caribde da satisfação desenfreada; ele sempre desconfiou de qualquer outra estrela-guia que não fosse a do mal menor. Os neo-pagãos e belicistas alemães querem liberar de novo o prazer. Mas como o prazer, sob a pressão milenar do trabalho, aprendeu a se odiar, ele permanece, na emancipação totalitária, vulgar e mutilado, em virtude de seu autodesprezo. Ele permanece preso à autoconservação, para a qual o educara a razão entrementes deposta.”

Quando afinal a autoconservação se automatiza, a razão é abandonada por aqueles que assumiram sua herança a título de organizadores da produção e agora a temem nos deserdados. A essência do esclarecimento é a alternativa que torna inevitável a dominação.”

Esse entrelaçamento de mito, dominação e trabalho está conservado em uma das narrativas de Homero. O duodécimo canto da Odisseia relata o encontro com as Sereias.”

O que Ulisses deixou para trás entra no mundo das sombras: o eu ainda está tão próximo do mito de outrora, de cujo seio se arrancou, que o próprio passado por ele vivido se transforma para ele num outrora mítico.”

Estou começando a cansar das figuras de linguagem… Embora admita a genialidade da analogia! Sem remédio – teremos um capítulo inteiro de paralelos homéricos!

A ânsia de salvar o passado como algo de vivo, em vez de utilizá-lo como material para o progresso, só se acalmava na arte, à qual pertence a própria História como descrição da vida passada.” O canto da sereia, e blábláblá…

Ulisses foi alertado por Circe, a divindade da reconversão ao estado animal, à qual resistira e que, em troca disso, fortaleceu-o para resistir a outras potências da dissolução. Mas a sedução das Sereias permanece mais poderosa. Ninguém que ouve sua canção pode escapar a ela.”

A embriaguez narcótica, que expia com um sono parecido à morte a euforia na qual o eu está suspenso, é uma das mais antigas cerimônias sociais mediadoras entre a autoconservação e a autodestruição, uma tentativa do eu de sobreviver a si mesmo.” “O pensamento de Ulisses, igualmente hostil à sua própria morte e à sua própria felicidade, sabe disso.” “Alertas e concentrados, os trabalhadores têm que olhar para frente e esquecer o que foi posto de lado.” “A outra possibilidade é a escolhida pelo próprio Ulisses, o senhor de terras que faz os outros trabalharem para ele.” Beber até cair, porém sem danos. Puritano.

mas é tarde demais, os companheiros – que nada escutam – só sabem do perigo da canção, não de sua beleza – e o deixam no mastro para salvar a ele e a si mesmos. Eles reproduzem a vida do opressor juntamente com a própria vida, e aquele não consegue mais escapar a seu papel social.” “Amarrado, Ulisses assiste a um concerto, a escutar imóvel como os futuros freqüentadores de concertos, e seu brado de libertação cheio de entusiasmo já ecoa como um aplauso.” “A epopeia já contém a teoria correta. O patrimônio cultural está em exata correlação com o trabalho comandado, e ambos se baseiam na inescapável compulsão à dominação social da natureza.” “As medidas tomadas por Ulisses quando seu navio se aproxima das Sereias pressagiam alegoricamente a dialética do esclarecimento.” “Assim como não pode ceder à tentação de se abandonar, assim também acaba por renunciar enquanto proprietário a participar do trabalho e, por fim, até mesmo a dirigi-lo, enquanto os companheiros, apesar de toda proximidade às coisas, não podem desfrutar do trabalho porque este se efetua sob coação, desesperadamente, com os sentidos fechados à força.”

A humanidade, cujas habilidades e conhecimentos se diferenciam com a divisão do trabalho, é ao mesmo tempo forçada a regredir a estágios antropologicamente mais primitivos, pois a persistência da dominação determina, com a facilitação técnica da existência, a fixação do instinto através de uma repressão mais forte.” “não é o malogro do progresso, mas exatamente o progresso bem-sucedido que é culpado de seu próprio oposto. A maldição do progresso irrefreável é a irrefreável regressão.”

A limitação do pensamento à organização e à administração, praticada pelos governantes desde o astucioso Ulisses até os ingênuos diretores-gerais, inclui também a limitação que acomete os grandes tão logo não se trate mais apenas da manipulação dos pequenos.” “Os ouvidos moucos, que é o que sobrou aos dóceis proletários desde os tempos míticos, não superam em nada a imobilidade do senhor. É da imaturidade dos dominados que se nutre a hipermaturidade da sociedade.”

O pensamento (…) é o servo que o senhor não pode deter a seu bel-prazer.”

Os próprios dominadores não acreditam em nenhuma necessidade objetiva, mesmo que às vezes dêem esse nome a suas maquinações.” “Agora que uma parte mínima do tempo de trabalho à disposição dos donos da sociedade é suficiente para assegurar a subsistência daqueles que ainda se fazem necessários para o manejo das máquinas, o resto supérfluo, a massa imensa da população, é adestrado como uma guarda suplementar do sistema, a serviço de seus planos grandiosos para o presente e o futuro.”

Na medida em que cresce a capacidade de eliminar duradouramente toda miséria, cresce também desmesuradamente a miséria enquanto antítese da potência e da impotência.” Quanto mais miséria num país, p.ex., mais impotência do Estado e, por outro lado, maiores as chances de uma revolução proletária (índice de potência, de que a História se move). Quanto mais pujantes os índices econômicos, menos poder de barganha tem o proletário, portanto há uma impotência do proletariado para avançar – e alia-se a isso o enorme exército de reserva, que garante sumamente a potência e estabilidade do Capital.

Perante um líder sindical, para não falar do diretor da fábrica, o proletário que por acaso se faça notar não passará de um número a mais, enquanto que o líder deve por sua vez tremer diante da possibilidade de sua própria liquidação.”

Essa aparência, na qual se perde a humanidade inteiramente esclarecida, não pode ser dissipada pelo pensamento que tem de escolher, enquanto órgão da dominação, entre o comando e a obediência.”

o pensamento se torna ilusório sempre que tenta renegar sua função separadora, de distanciamento e objetivação. Toda união mística permanece um logro, o vestígio impotentemente introvertido da revolução malbaratada.”

A condenação da superstição significa sempre, ao mesmo tempo, o progresso da dominação e o seu desnudamento.” Para que a técnica vença em absoluto, é necessário desencantar o mundo. Do desencanto do mundo faz parte liquidar as crenças supersticiosas. Objetivar e imanentizar todas as relações, impossibilitar escapismos perigosos. Mas quando se condena unilateralmente esta coisa do passado, estranha à técnica – o signo do futuro –, desnuda-se para todos quão mesquinho é esse mecanismo, porque pelo próprio estudo das condições objetivas é possível compreender o modus operandi da dominação. -Impasse.- Quanto menos técnica pura, menos eficácia; quanto mais hermetismo mundano e religião da técnica, mais hereges, e a eficácia não está garante. A dominação, destrinchada e nua, poderá ser livremente denunciada, e seu caráter profano e seu papel simultâneo de esteio do progresso para poucos e esteio da miséria para muitos jamais poderão ser defendidos do próprio ponto de vista da técnica. Essa assepsia, da técnica se embrulhando sobre si mesma, nunca faz bem para a própria técnica. Quanto mais se domina, menos se pode dominar.

A dominação da natureza, sem o que o espírito não existe, consiste em sucumbir à natureza. Graças à resignação com que se confessa como dominação e se retrata na natureza, o espírito perde a pretensão senhorial que justamente o escraviza à natureza.”

Todo progresso da civilização tem renovado, ao mesmo tempo, a dominação e a perspectiva de seu abrandamento.”

Graças a essa consciência da natureza no sujeito, que encerra a verdade ignorada de toda cultura, o esclarecimento se opõe à dominação em geral, e o apelo a pôr fim ao esclarecimento também ressoou nos tempos de Vanini, menos por medo da ciência exata do que por ódio ao pensamento indisciplinado, que escapa à órbita da natureza confessando-se como o próprio tremor da natureza diante de si mesma.”

Muito antes de Turgot e d’Alembert, a forma burguesa do esclarecimento já se perdera em seu aspecto positivista.”

SOBRE O FRACASSO DO SOCIALISMO REAL: “Mas uma verdadeira práxis revolucionária depende da intransigência da teoria em face da inconsciência com que a sociedade deixa que o pensamento se enrijeça. Não são as condições materiais da satisfação nem a técnica deixada à solta enquanto tal, que a colocam em questão.¹ Isso é o que afirmam os sociólogos, que estão de novo a meditar sobre um antídoto, ainda que de natureza coletivista, a fim de dominar o antídoto.”

¹ O PARADOXO DE TROSTSKY-STALIN: Não é o atraso técnico-econômico da URSS em face dos Estados Unidos que a condenam a perder a Guerra Fria. Esse atraso não é inerente ao socialismo como modo de produção; em si, não há modo de produção burguês ou modo de produção socialista – tudo o que havia era modo de produção moderno, indústria e comércio à la século XX. O que torna o equilíbrio tão frágil e a batalha tão mais difícil do lado de lá (o revolucionário) é que quem dirige a revolução – um grupo sempre muito pequeno –, os únicos que têm consciência das contradições que vivem e devem superar, devem escolher, enfim: 1) entre desistir; 2) ou entre seguir ferrenhamente o propósito inicial, por mais que as circunstâncias mudem o tempo todo, em face da seguinte característica: a massa populacional do regime comunista não compreende o que está em jogo, e pensa apenas da mesma forma que os cidadãos do mundo livre, sem qualquer ideologia revolucionária per se. Como estarão sujeitos à intransigência da camada revolucionária dirigente, será sempre mais difícil para eles. Isso é uma bola de neve, porque só faz aumentar o tempo necessário para a cúpula considerar sua meta realizada. O intelectual só tenderá a pensar na abertura do regime e no Estado do bem-estar social, reunindo os “dois dos melhores mundos”, como se isso representasse um céu de brigadeiro que desmantelasse as contradições capitalistas, que sempre baterão de novo à porta, e como se esse céu não desmantelasse todas as exíguas chances de um sistema socialista puro ainda se manter, em franca resistência (intransigência do líder, que opta pelo número 2, enquanto o intelectual de vocação opta pelo número 1, desistir, conscientemente ou não).

Enquanto órgão de semelhante adaptação, enquanto mera construção de meios, o esclarecimento é tão destrutivo como o acusam seus inimigos românticos.”

O espírito dessa teoria intransigente [vide acima TROTSKY-STALIN] seria capaz de inverter a direção do espírito do progresso impiedoso, ainda que este estivesse em vias de atingir sua meta.” Ressalva: o ESPÍRITO DO PROGRESSO IMPIEDOSO, neste caso adorniano, me parece mais o fascismo em estado bruto (se é que me entendem) do que o capitalismo ianque.

Hoje, quando a utopia baconiana de ‘imperar na prática sobre a natureza’ se realizou numa escala telúrica, [universal, ARQUImediana!] tornou-se manifesta a essência da coação que ele atribuía à natureza não-dominada.” “o esclarecimento se converte, a serviço do presente, na total mistificação das massas.”

2. ULISSES OU MITO E ESCLARECIMENTO (EXCURSO 1)

A assimilação habitual da epopéia ao mito – que a moderna filologia clássica, aliás, desfez – mostra-se à crítica filosófica como uma perfeita ilusão.”

Cantar a ira de Aquiles e as aventuras de Ulisses já é uma estilização nostálgica daquilo que não se deixa mais cantar, e o herói das aventuras revela-se precisamente como um protótipo do indivíduo burguês, cujo conceito tem origem naquela auto-afirmação unitária que encontra seu modelo mais antigo no herói errante.” Robinson Crusoé pagão. Imaginar toda a literatura mais clássica como mera paródia dos relatos orais de outrora…

Na epopéia, que é o oposto histórico-filosófico do romance, acabam por surgir traços que a assemelham ao romance, e o cosmo venerável do mundo homérico pleno de sentido revela-se como obra da razão ordenadora, que destrói o mito graças precisamente à ordem racional na qual ela o reflete.

O discernimento do elemento esclarecedor burguês em Homero foi enfatizado pelos intérpretes da antiguidade ligados ao romantismo alemão tardio e que seguiam os primeiros escritos de Nietzsche. Nietzsche conhecia como poucos, desde Hegel, a dialética do esclarecimento. Foi ele que formulou sua relação contraditória com a dominação.”

[É preciso] levar o esclarecimento ao povo, para que os padres se tornem todos padres cheios de má consciência – é preciso fazer a mesma coisa com o Estado. Eis a tarefa do esclarecimento: tornar, para os príncipes e estadistas, todo seu procedimento uma mentira deliberada…” Ainda padecemos o grave defeito de, quando descremos na religião, corrermos para a política (e vice-versa). Então: Nietzsche iniciou o dito ACELERACIONISMO?

A maneira pela qual as massas se enganam acerca desse ponto, por exemplo em toda democracia, é extremamente valiosa: o apequenamento e a governabilidade dos homens são buscados como ‘progresso’!”

O PÊNDULO: “Todavia, a relação de Nietzsche com o esclarecimento, e portanto com Homero, permanecia ela própria contraditória. Assim ele enxergava no esclarecimento tanto o movimento universal do espírito soberano, do qual se sentia o realizador último, quanto a potência hostil à vida, ‘niilista’. Em seus seguidores pré-fascistas, porém, apenas o segundo aspecto se conservou e se perverteu em ideologia.”

Eles [os intelectuais fascistas] farejam na descrição homérica das relações feudais um elemento democrático, classificam o poema como uma obra de marinheiros e negociantes e rejeitam a epopéia jônica como um discurso demasiado racional e uma comunicação demasiado corrente.” “De fato, as linhas da razão, da liberalidade, da civilidade burguesa se estendem incomparavelmente mais longe do que supõem os historiadores que datam o conceito do burguês a partir tão-somente do fim do feudalismo medieval.”

É justamente o vestígio mais antigo desse pensamento que representa para a má consciência dos espíritos arcaicos de hoje a ameaça de desfechar mais uma vez todo o processo que intentaram sufocar e que, no entanto, ao mesmo tempo levam a cabo de maneira inconsciente.” Ora, se o esclarecimento já soçobrou em seu contrário no solo europeu (agora que sabemos que ele não nasceu apenas depois), por que não aconteceria de novo? É o que se quer dizer.

Ao serviço da ideologia repressiva, Rudolf Borchardt, por exemplo o mais importante e por isso o mais impotente entre os pensadores esotéricos [elitistas] da indústria pesada alemã, interrompe cedo demais a análise.” “O elemento ignóbil que ele condena na epopéia – a mediação e a circulação – é apenas o desdobramento desse duvidoso elemento de nobreza que ele diviniza no mito: a violência nua e crua. A pretensa autenticidade, o princípio arcaico do sangue e do sacrifício, já está marcado por algo da má consciência e da astúcia da dominação, que são características da renovação nacional que se serve hoje dos tempos primitivos como recurso propagandístico.”

Em Homero, epopéia e mito, forma e conteúdo, não se separam simplesmente, mas se confrontam e se elucidam mutuamente. O dualismo estético atesta a tendência histórico-filosófica.”

A viagem errante de Tróia a Ítaca é o caminho percorrido através dos mitos por um eu fisicamente muito fraco em face das forças da natureza e que só vem a se formar na consciência de si. O mundo pré-histórico está secularizado no espaço que ele atravessa; os antigos demônios povoam a margem distante e as ilhas do Mediterrâneo civilizado, forçados a retroceder à forma do rochedo e da caverna, [DEUSES CTÔNICOS] de onde outrora emergiram no pavor dos tempos primitivos. Mas as aventuras contemplam cada lugar com seu nome, e é a partir delas que se pode ter uma visão de conjunto e racional do espaço.”

Ele cede sempre a cada nova sedução, experimenta-a como um aprendiz incorrigível e até mesmo, às vezes, impelido por uma tola curiosidade, assim como um ator experimenta insaciavelmente os seus papéis.”

Como os heróis de todos [os] romances posteriores, Ulisses por assim dizer se perde a fim de se ganhar. Para alienar-se da natureza ele se abandona à natureza, com a qual se mede em toda aventura, e, ironicamente, essa natureza inexorável que ele comanda triunfa quando ele volta – inexorável – para casa, como juiz e vingador do legado dos poderes de que escapou.”

Todas as vezes que o eu voltou a experimentar historicamente semelhante enfraquecimento, ou que o modo de expor pressupôs semelhante fraqueza no leitor, a narrativa da vida resvalou novamente para a sucessão de aventuras. Na imagem da viagem, o tempo histórico se desprende laboriosa e revogavelmente do espaço, o esquema irrevogável de todo tempo mítico.”Até clássico beatniks não escapam dessa lei.

O navegador Ulisses logra as divindades da natureza, como depois o viajante civilizado logrará os selvagens oferecendo-lhes contas de vidro coloridas em troca de marfim.”

O presente de hospitalidade homérico está a meio caminho entre a troca e o sacrifício.”

O próprio Posseidon, o inimigo elementar de Ulisses, pensa em termos de equivalência, queixando-se de que aquele receba em todas as etapas de sua errática viagem mais presentes do que teria sido sua parte nos despojos de Tróia, caso Posseidon não lhe houvesse impedido transportá-la.” “Pode-se contar com a benevolência das divindades conforme a magnitude das hecatombes. Se a troca é a secularização do sacrifício, o próprio sacrifício já aparece como o esquema mágico da troca racional, uma cerimônia organizada pelos homens com o fim de dominar os deuses, que são derrubados exatamente pelo sistema de veneração de que são objeto.”

Assim os amigos olímpicos de Ulisses valem-se da estada de Posseidon entre os etíopes – selvagens que ainda o veneram e lhe oferecem enormes sacrifícios – para escoltar a salvo seu protegido. O logro já está envolvido no próprio sacrifício que Posseidon aceita prazerosamente: a limitação do amorfo deus do mar a uma localidade determinada, a área sagrada, limita ao mesmo tempo sua potência, e, para saciar-se nos bois etíopes, ele deve em troca renunciar a dar vazão à sua cólera em Ulisses.” “A astúcia tem origem no culto. O próprio Ulisses atua ao mesmo tempo como vítima e sacerdote.”

O que Ulisses faz é tão-somente elevar à consciência de si a parte de logro inerente ao sacrifício, que é talvez a razão mais profunda para o carácter ilusório do mito. A experiência de que a comunicação simbólica com a divindade através do sacrifício nada tem de real só pode ser uma experiência antiquíssima. A substituição que ocorre no sacrifício, exaltada pelos defensores de um irracionalismo em moda, não deve ser separada da divinização do sacrificado, ou seja, do embuste que é a racionalização sacerdotal do assassínio pela apoteose do escolhido. Algo desse embuste – que erige justamente a pessoa inerme em portador da substância divina – sempre se pôde perceber no eu, que deve sua própria existência ao sacrifício do momento presente ao futuro.”

o eu é exatamente o indivíduo humano ao qual não se credita mais a força mágica da substituição. A constituição do eu corta exatamente aquela conexão flutuante com a natureza que o sacrifício do eu pretende estabelecer. Todo sacrifício é uma restauração desmentida pela realidade histórica na qual ela é empreendida. A fé venerável no sacrifício, porém, já é provavelmente um esquema inculcado, segundo o qual os indivíduos subjugados infligem mais uma vez a si próprios a injustiça que lhes foi infligida, a fim de poder suportá-la.”

Pode ser que, em determinada época dos tempos primitivos, os sacrifícios tenham possuído uma espécie de racionalidade crua, que no entanto já então mal se podia separar da sede de privilégios.”

É um estado de carência arcaica, onde é difícil distinguir os sacrifícios humanos do canibalismo. Em certos momentos, com seu aumento numérico, a coletividade só consegue sobreviver provando a carne humana.(*) (…) Costumes de épocas posteriores como o do ver sacrum, onde em tempos de fome uma geração inteira de adolescentes era forçada a emigrar em meio a cerimônias rituais, conservam de uma maneira bastante clara os traços dessa racionalidade bárbara e transfigurada.(**) (…) assim, quando a caça sistemática começou a prover a tribo de um número suficiente de animais para tornar supérflua a antropofagia, os caçadores e colocadores de armadilhas sensatos devem ter ficado desconcertados com a ordem dos feiticeiros de que os membros da tribo se deixassem devorar.

(*) ‘O costume do sacrifício humano … é muito mais difundido entre bárbaros e povos semi-civilazados do que entre os verdadeiros selvagens, e é praticamente desconhecido nos estágios inferiores da cultura. Em vários povos observou-se que ele foi se difundindo ao longo do tempo, como, por exemplo, nas Ilhas da Sociedade, [Saciedade?] na Polinésia, na Índia, entre os Astecas. <Relativamente aos africanos>, diz Winwood Read: <Quanto mais poderosa a nação, tanto mais importante o sacrifício.>’ Eduard Westermarck, Ursprung und Entwicklung der Moralbegriffe. Leipzig, 1913, vol. I, p. 363.

(**) Entre os povos antropófagos, como os da África Ocidental, não podiam ‘provar dessa iguaria nem as mulheres nem os adolescentes’ (Westermarck).”

Eis aí a verdade da célebre narrativa da mitologia nórdica, segundo a qual Odin se pendurou numa árvore em sacrifício por si mesmo, e da tese de Klages que todo sacrifício é o sacrifício do deus ao deus, tal como ainda se apresenta nesse disfarce monoteísta do mito que é a cristologia.(*)

(*) Essa concepção do cristianismo como religião sacrificial pagã é essencialmente a base do livro de Werner Hegemann: Der Gerettete Christus [Cristo Redimido]. Potsdam, 1928.”

No instante em que o homem elide a consciência de si mesmo como natureza, todos os fins para os quais ele se mantém vivo – o progresso social, o aumento de suas forças materiais e espirituais, até mesmo a própria consciência – tornam-se nulos, e a entronização do meio como fim, que assume no capitalismo tardio o carácter de um manifesto desvario, já é perceptível na proto-história da subjetividade.

A anti-razão do capitalismo totalitário, cuja técnica de satisfazer necessidades, em sua forma objetualizada, determinada pela dominação, torna impossível a satisfação de necessidades e impele ao extermínio dos homens – essa anti-razão está desenvolvida de maneira prototípica no herói que se furta ao sacrifício sacrificando-se. A história da civilização é a história da introversão do sacrifício.”

Quem pratica a renúncia dá mais de sua vida do que lhe é restituído” “Mas é por uma necessidade social que quem quer que se furte à troca universal, desigual e injusta, que não renuncie, mas agarre imediatamente o todo inteiro, por isso mesmo há de perder tudo, até mesmo o resto miserável que a autoconservação lhe concede.”

Os episódios celebrando a pura força física do aventureiro, o pugilato patrocinado pelos pretendentes com o mendigo Iros e o retesamento do arco, são de natureza desportiva. A autoconservação e a força física separaram-se: as habilidades atléticas de Ulisses são as do gentleman, que, livre dos cuidados práticos, pode treinar de uma maneira ao mesmo tempo senhoril e controlada.”

Quando, porém, encontra potências do mundo primitivo, que não se domesticaram nem se afrouxaram, suas dificuldades são maiores. Ele não pode jamais travar luta física com os poderes míticos que continuam a existir à margem da civilização. Ele tem que reconhecer como um fato os cerimoniais sacrificiais com os quais acaba sempre por se envolver, pois não tem força para infringi-los.” Ulisses não é Hércules nem Aquiles.

e quando guia sua nau por entre os rochedos, tem de incluir em seu cálculo a perda dos companheiros que Cila arranca ao navio.”

Quem quer voltar para casa deve, no mais íntimo, já ter renunciado ao êxito. Ulisses voltou porque na verdade já tinha desistido, não queria mais voltar. Ele havia enganado a si mesmo.

A impossibilidade, por exemplo, de escolher uma rota diversa da que passa por entre Cila e Caríbdis pode ser compreendida de maneira racionalista como a transformação mítica da superioridade das correntes marítimas sobre as pequenas embarcações da antiguidade.”

Cada uma das figuras míticas está obrigada a fazer sempre a mesma coisa. Todas consistem na repetição: o malogro desta seria seu fim. Todas têm os traços daquilo que, nos mitos punitivos do inferno – os mitos de Tântalo, de Sísifo, das Danaides –, se fundamenta no veredito do Olimpo. (…) A justiça traz até hoje a marca desse esquema.”

BRECHAS JURÍDICAS: “O contrato antiquíssimo não prevê se o navegante que passa ao largo deve escutar a canção amarrado ou desamarrado.”

A epopéia cala-se acerca do que acontece às cantoras depois que o navio desapareceu. Mas, na tragédia, deveria ter sido sua última hora, como foi a da Esfinge quando Édipo resolveu o enigma, cumprindo sua ordem e assim precipitando sua queda. Pois o direito das figuras míticas, que é o direito do mais forte, vive tão-somente da impossibilidade de cumprir seu estatuto. Se este é satisfeito, então tudo acabou para os mitos até sua mais remota posteridade. Desde o feliz e malogrado encontro de Ulisses com as Sereias, todas as canções ficaram afetadas, e a música ocidental inteira labora no contra-senso que representa o canto na civilização, mas que, ao mesmo tempo, constitui de novo a força motora de toda arte musical.”

A palavra deve ter um poderio imediato sobre a coisa, expressão e intenção confluem. A astúcia, contudo, consiste em explorar a distinção, agarrando-se à palavra, para modificar a coisa.” “Como o nome Oudeis pode ser atribuído tanto ao herói quanto a ninguém, Ulisses consegue romper o encanto do nome.” Ninguenséia

É do formalismo dos nomes e estatutos míticos, que querem reger com a mesma indiferença da natureza os homens e a história, que surge o nominalismo, o protótipo do pensamento burguês.” “O solitário astucioso já é o homo oeconomicus, ao qual se assemelham todos os seres racionais: por isso, a Odisséia já é uma robinsonada. Os dois náufragos prototípicos fazem de sua fraqueza – a fraqueza do indivíduo que se separa da coletividade – sua força social.” “mas os bens que salvam do naufrágio para empregar em um novo empreendimento transfiguram a verdade segundo a qual o empresário jamais enfrentou a competição unicamente com o labor de suas mãos.” “Foi isso que a teoria econômica burguesa fixou posteriormente no conceito do risco: a possibilidade da ruína é a justificação moral do lucro.” “Por isso a socialização universal, esboçada na história de Ulisses, o navegante do mundo, e na de Robinson, o fabricante solitário, já implica desde a origem a solidão absoluta, que se torna manifesta ao fim da era burguesa.”

ora, quem saboreava a planta do lótus, mais doce do que o mel, não pensava mais em trazer notícias nem em voltar, mas só queria ficar aí, na companhia dos lotófagos, colhendo o lótus, e esquecido da pátria” “mas eu os trouxe de novo à força, debulhados em lágrimas, para as naus; arrastei-os para os navios espaçosos e amarrei-os debaixo dos bancos.” “O hábito de comer flores – que ainda se pratica à sobremesa no Próximo Oriente e que as crianças européias conhecem das massas assadas com leite de rosas e das violetas cristalizadas – é a promessa de um estado em que a reprodução da vida se tornou independente da autoconservação consciente e o prazer de se fartar se tornou independente da utilidade de uma alimentação planejada.”

esse olho único lembra o nariz e a boca, mais primitivos do que a simetria dos olhos e dos ouvidos” “quando Homero chama o ciclope de ‘monstro que pensa sem lei’, isso não significa meramente que ele não respeite em seu pensamento as leis da civilidade. Isso significa também que o seu próprio pensamento é sem lei, assistemático, rapsódico, quando por exemplo não consegue resolver o singelo problema de raciocínio, que consiste em saber de que maneira seus hóspedes não-indesejáveis conseguem escapar da caverna (a saber, agarrando-se ao ventre dos carneiros, ao invés de cavalgá-los) e também quando não se dá conta do sofístico duplo sentido do nome falso de Ulisses.”

tu que me exortas a temer os deuses e sua vingança! Pois de nada valem para os ciclopes o trovejador Zeus Crônion, nem os deuses bem-aventurados, pois somos muito superiores!” “Posseidon, o deus marinho próximo, pai de Polifemo e inimigo de Ulisses, é mais velho do que Zeus, o deus celeste universal e distante, e é por assim dizer sobre o dorso do sujeito que é decidido o conflito entre a religião popular elementarista e a religião logocêntrica da lei. Mas o Polifemo sem-lei não é o simples vilão em que o transformam os tabus da civilização, quando o apresentam no mundo fabuloso da infância esclarecida como o monstro Golias.”

E o famoso discurso que o gigante faz, depois de ficar cego, ao carneiro-mestre (que chama de seu amigo e de quem indaga por que agora abandona por último a caverna e se por acaso lhe faz pena o infortúnio de seu senhor) atinge uma intensidade de emoção que só é atingida de novo na passagem que representa o ponto culminante da Odisséia, quando Ulisses, retornando a casa, é reconhecido pelo velho cão Argos, em que pese a abominável crueza com que termina o discurso.” “Polifemo e os outros monstros ludibriados por Ulisses já são os modelos para os diabos estúpidos da era cristã até Shylock e Mefistófeles.”

Toma, ciclope, e bebe; o vinho vai bem com a carne humana; vê que delícia é a bebida guardada, no navio que nos trouxe, recomenda o representante da cultura.”

Em grego trata-se de um jogo de palavras; na única palavra que se conserva separam-se o nome – Odysseus (Ulisses) – e a intenção – Ninguém. Para ouvidos modernos, Odysseus e Oudeis ainda têm um som semelhante, e é fácil imaginar que, em um dos dialetos em que se transmitiu a história do retorno a Ítaca, o nome do rei desta ilha era de fato um homófono do nome de Ninguém.”

Mas sua auto-afirmação é, como na epopéia inteira, como em toda civilização, uma autodenegação. Desse modo o eu cai precisamente no círculo compulsivo da necessidade natural ao qual tentava escapar pela assimilação. Quem, para se salvar, se denomina Ninguém e manipula os processos de assimilação ao estado natural como um meio de dominar a natureza sucumbe à hybris.” “A astúcia, que para o inteligente consiste em assumir a aparência da estupidez, converte-se em estupidez tão pronto ele renuncie a essa aparência. Eis aí a dialética da eloqüência. Da antiguidade ao fascismo, tem-se censurado a Homero o palavrório de seus heróis e do próprio narrador.”

O PARADOXO DO ASTUCIOSO (QUERER SER SEMPRE ASTUCIOSO): “Essa distância, porém, é ao mesmo tempo sofrimento. Por isso, o inteligente – contrariamente ao provérbio – está sempre tentado a falar demais. Ele está objetivamente condicionado pelo medo de que a frágil vantagem da palavra sobre a força poderá lhe ser de novo tomada pela força se não se agarrar o tempo todo a ela. Pois a palavra sabe-se mais fraca do que a natureza que ela enganou. Quem fala demais deixa transparecer a força e a injustiça como seu próprio princípio e assim excita sempre aquele que deve ser temido a cometer exatamente a ação temida. A mítica compulsão da palavra nos tempos pré-históricos perpetua-se na desgraça que a palavra esclarecida atrai para si própria.”

a forma animal dos seduzidos foi sempre relacionada com isso e Circe transformou-se no protótipo da hetaira, imagem essa motivada provavelmente pelos versos de Hermes que lhe atribuíam como um fato óbvio a iniciativa erótica: ‘Assustada, ela instará contigo a que partilhes de teu leito. Não resistas diante do leito da deusa.’ A marca distintiva de Circe é a ambigüidade, ao aparecer na ação, sucessivamente, como corruptora e benfeitora: ela é a filha de Hélio e a neta de Oceano. Nela estão inseparavelmente mesclados os elementos do fogo e da água, e é essa indivisibilidade, no sentido de uma oposição ao primado de um aspecto determinado da natureza – seja o matriarcal, seja o patriarcal –, que constitui a essência da promiscuidade, o hetáirico, que ainda brilha no olhar da prostituta, o úmido reflexo do astro. [o sol visto na superfície de uma fonte ou lago]”

Como os lotófagos, Circe não fere mortalmente seus hóspedes, e até mesmo aqueles que ela transformou em animais selvagens são pacíficos: ‘Em volta viam-se também lobos monteses e leões de grandes jubas que ela própria enfeitiçara com suas drogas nocivas. Todavia, não investiam contra os homens, mas festejavam-nos, erguendo-se sobre as patas e abanando as caudas. Do mesmo modo que os cães cercam o dono, quando este volta de um banquete, porque sempre lhes traz bons petiscos, assim lobos e leões de fortes garras cercavam os homens abanando as caudas.’

Ser cão é bom, mas ser homem depois de cão é melhor. Quem foi homem não aceita ser-o-cão: “Os companheiros de Ulisses não se transformam como os hóspedes anteriores nas criaturas sagradas das regiões selvagens, mas em animais domésticos impuros, porcos.” A cota de reis-da-selva já tinha sido preenchida. “como se entre os jônios houvesse o mesmo tabu que há entre os judeus acerca da mistura com os semelhantes.” É por isso que os judeus não comem porcos?

em Juvenal, o sabor da carne humana é sempre descrito como semelhante ao da carne de porco. Em todo caso, todas as civilizações posteriores preferiram qualificar de porcos aqueles cujo instinto buscava um prazer diverso daquele que a sociedade sanciona para seus fins.”

Mas, na imagem do porco, o prazer do olfato já está desfigurado no fungar compulsivo de quem arrasta o nariz pelo chão e renunciou ao andar ereto. É como se a hetaira encantadora repetisse no ritual a que submete os homens o ritual ao qual ela própria é o tempo todo submetida pela sociedade patriarcal.”

O casamento é a via média que a sociedade segue para se acomodar a isso: a mulher continua a ser impotente na medida em que o poder só lhe é concedido pela mediação do homem. Isso já está, até certo ponto, delineado na Odisséia com a derrota da deusa hetaira, enquanto o casamento plenamente configurado com Penélope, literariamente mais recente, representa um estágio posterior da objetividade da instituição patriarcal.”

Ulisses resiste à magia de Circe e assim consegue aquilo que a magia só ilusoriamente promete aos que não resistem a ela. Ulisses dorme com ela. Antes porém faz com que profira o grande juramento dos bem-aventurados, o juramento olímpico.” Unidos de corpo, mas sem alma.

Aquele que resistiu a ela, o senhor, o eu, e a quem Circe por causa de sua imutabilidade censura por trazer ‘no peito um coração insensível e obstinado’ é aquele a quem Circe se dispõe a fazer as vontades: ‘Pois bem! Guarda a espada e vamos logo para o nosso leito a fim de que, unidos no leito e no amor, aprendamos a confiar um no outro’.”

No mundo da troca, quem está errado é quem dá mais; o amante, porém, é sempre o que ama mais. Ao mesmo tempo que seu sacrifício é glorificado, zela-se ciumentamente para que o amante não seja poupado do sacrifício. É exatamente no amor que o amante fica sem razão e é punido. A incapacidade de dominar a si mesmo e aos outros, de que dá provas seu amor, é motivo suficiente para lhe recusar satisfação.” “Tudo isso sobrevive na caricatura da prudência feminina. As profecias da feiticeira destituída de seus poderes sobre as Sereias, Cila e Caríbdis só aproveitam, afinal, à autoconservação masculina.”

Logo se transformaram de novo em homens, mais jovens do que haviam sido e também de aparência muito mais bela e aspecto muito mais nobre.” “Todos estavam tomados de uma melancolia agridoce e o palácio ressoava com suas queixas.” !

Circe como Calipso, as cortesãs, são apresentadas como diligentes teceloas, exatamente como as potências míticas do Destino e as donas-de-casa, ao passo que Penélope, desconfiada como uma prostituta, examina o retornado, perguntando-se se não é realmente apenas um mendigo velho ou quem sabe um Deus em busca de aventuras.” “O jovem Telêmaco, que ainda não se adaptou direito à sua futura posição, irrita-se com isso, mas já se sente homem o bastante para repreender a mãe. A censura de teimosia e dureza que dirige a ela é exatamente a mesma que Circe fizera antes a Ulisses. Se a hetaira se apropria da ordem de valores patriarcal, a esposa monogâmica não se contenta ela própria com isso e não descansa enquanto não houver se igualado ao carácter masculino. É assim que se entendem os casados. O teste a que submete o retornado tem por conteúdo a posição irremovível do leito nupcial, que o esposo em sua juventude havia construído em torno de uma oliveira, símbolo da unidade do sexo e da propriedade.”

Os imortais nos cumularam de desgraças, achando demais que desfrutássemos juntos e em paz de nossa juventude e que suavemente nos aproximássemos da velhice” Por isso hoje os barões da indústria são paus-moles que preferem ficar até tarde no escritório…

Se o contrato entre os esposos não faz senão redimir penosamente uma hostilidade antiquíssima, os que envelhecem pacificamente se esvaem na imagem de Filémon e Baucis, assim como a fumaça do altar sacrificial se transforma na fumaça salutar da lareira.” Exatamente o casal de velhos da mitologia que opta por recusar grandes presentes de Zeus, e no lugar apenas pede: que quando um morrer, instantaneamente o outro também morra. Que morram juntos, portanto, como dois galhos de uma árvore.

SIMULACRO NA VIAGEM AO INFERNO: “depois da própria mãe, diante de quem Ulisses se força a assumir a atitude patriarcal de uma conveniente dureza, vêm as heroínas antiquíssimas.” “Todas as imagens, enquanto sombras no mundo dos mortos, acabam por lhe revelar sua verdadeira essência, a aparência.” “O reino dos mortos, onde se reúnem os mitos destituídos de seu poder, é o ponto mais distante da terra natal, e é só na mais extrema distância que ele se comunica com ela.” Por isso Aquiles é só duplamente sombra…

Vejo aí a alma de minha defunta mãe, mas ela se mantém muda junto à poça de sangue e não se atreve a olhar para o próprio filho nem a proferir qualquer palavra. Diz, senhor, o que fazer, para que ela me reconheça como filho”

NADA MAIS BURGUÊS E MODERNO QUE O INFERNO: “Se seguirmos Kirchhoff na hipótese de que a visita de Ulisses ao inferno pertence à camada mais antiga, propriamente lendária da epopéia, é aí também que encontramos o traço que – assim como na tradição das descidas de Orfeu e Hércules ao inferno – mais nitidamente se destaca do mito, pois o motivo do arrombamento das portas do inferno, da supressão da morte, constitui o núcleo de todo pensamento antimitológico.”

O fato de que o conceito de pátria se opõe ao mito (que a mentira fascista quer transformar na pátria) constitui o paradoxo mais profundo da epopéia.” “A definição de Novalis segundo a qual toda filosofia é nostalgia só é correta se a nostalgia não se resolve no fantasma de um antiquíssimo estado perdido, mas representa a pátria, a própria natureza, como algo de extraído ao mito.” “A transposição dos mitos para o romance, tal como ocorre na narrativa das aventuras, é menos uma falsificação dos mitos do que um meio de arrastar o mito para dentro do tempo, descobrindo o abismo que o separa da pátria e da reconciliação. Terrível é a vingança que a civilização praticou contra o mundo pré-histórico, e nisso ela se assemelha à pré-história, como se pode ver em seu mais atroz documento em Homero: o relato da mutilação do pastor de cabras Melântio.”

a possibilidade de fixar na memória a desgraça ocorrida, é a lei da fuga em Homero. Não é à toa que o herói que escapa é sempre reintroduzido como narrador. É a fria distância da narrativa que, ao apresentar as atrocidades como algo destinado ao entretenimento, [romance burguês, império da razão até mesmo na arte] permite ao mesmo tempo destacar a atrocidade que, na canção, [rapsódia pré-homérica] se confunde solenemente como destino. [o irracional]”

TÂNTALOS AS HETAIRAS NÃO SÃO: “No canto XXII da Odisséia, descreve-se a punição infligida pelo filho de Ulisses nas servas infiéis que haviam recaído na condição de hetairas. Com frieza e serenidade, com uma impassibilidade inumana e só igualada pelos grandes narradores do séc. XIX,(*) Homero descreve a sorte das enforcadas e compara-a sem comentários à morte dos pássaros no laço, calando-se num silêncio que é o verdadeiro resto de toda fala. A passagem termina com o verso que descreve como as mulheres enforcadas em fileira ‘debateram-se um pouco com os pés, mas não por muito tempo’. A precisão com que o autor descreve o fato e que já tem alguma coisa da frieza da anatomia e da vivissecção faz do relato uma ata romanceada dos espasmos das mulheres submetidas que, sob o signo do direito e da lei, são arrastadas para o reino de onde escapou o juiz Ulisses.

(*) Wilamowitz é de opinião que a punição ‘foi narrada prazerosamente pelo poeta’ (Die Heimkehr des Odysseus, p. 67). Mas, como o autoritário filólogo [!] se entusiasma com a metáfora da armadilha de pássaros porque ‘descreve de maneira precisa e … muito moderna como ficam a balouçar os cadáveres das escravas enforcadas’ (loc. cit., p. 76), o prazer em grande parte parece ser dele próprio. [haha!] Os escritos de Wilamowitz se incluem entre os documentos mais enfáticos da mescla bem alemã de barbárie e cultura, que está na base do moderno filo-helenismo.”

O único eco desse ‘não por muito tempo’ que subsiste é aquele ‘quo usque tandem’(*) que os reitores das épocas posteriores inadvertidamente profanaram ao se atribuírem a si mesmos a paciência. [Penélopes eles não são!] Mas, no relato do crime, resta uma esperança, que se prende ao fato de ter ocorrido há muito tempo. Homero ergue sua voz consoladora sobre essa mistura inextricável da pré-história, da barbárie e da cultura recorrendo ao ‘era uma vez’. É só como romance que a epopéia se transforma em conto de fadas.

(*) Até quando enfim.”

Notas

“‘O mito é, antes de mais nada, o discurso falado; a palavra não concerne jamais a seu conteúdo’ (Wilamowitz). Ao hipostasiar esse conceito tardio do mito, que já pressupõe a razão como sua contrapartida explícita [nous x logos], e polemizando implicitamente com Bachofen – que é para ele um modismo de que zomba sem, no entanto, pronunciar seu nome –, Wil. chega a uma nítida separação da mitologia e da religião, na qual o mito aparece, não como a fase mais antiga, mas justamente como a mais recente (…) A obstinada arrogância departamental do helenista [de novo!] impede-lhe o discernimento da dialética do mito, da religião e do esclarecimento. ‘Não compreendo as línguas às quais se tomaram as palavras tabu e totem, mana e prenda, mas considero um caminho viável ater-me aos gregos e pensar grego sobre coisas gregas’. Como compatibilizar isso, a saber, a opinião expressa sem maiores justificativas e segundo a qual ‘o germe da divindade platônica já se encontrava no mais antigo helenismo’, com a concepção histórica defendida por Kirchhoff e adotada por Wilamowitz, que vê nos encontros míticos do nostos (retorno, volta à casa, viagem) o núcleo mais antigo do livro da Odisséia? Isso não é esclarecido e o próprio conceito do mito, que é um conceito central, não encontra em Wilamowitz uma articulação filosófica suficiente. Entretanto, sua resistência ao irracionalismo que enaltece o mito e sua insistência na inverdade dos mitos contém um profundo discernimento, que não devemos ignorar. (…) 0 que Wilamowitz censura aos mitos posteriores, o arbítrio da invenção, já devia estar presente nos mais antigos em virtude do pseudos [hipocrisia, logro, fraude] dos sacrifícios. Esse pseudos tem justamente um parentesco com a divindade platônica que Wilamowitz faz remontar à fase arcaica do espírito helênico.” Não sei do que esse W. está falando – me ajude, Jaeger!

Já na paciência de Ulisses, e de maneira muito nítida após a matança dos pretendentes, a vingança se transforma num procedimento jurídico: é justamente a satisfação finita da ânsia mítica que se torna o instrumento objetivo da dominação. O direito é a vingança abdicante. Mas, ao se formar com base em algo que está fora dela, a nostalgia da pátria, essa paciência judicial adquire traços humanos e até mesmo, quase, os da confiança, que transcendem a vingança diferida. Depois, na sociedade burguesa plenamente desenvolvida, as 2 coisas são cobradas: com a idéia da vingança, a nostalgia também sucumbe ao tabu, o que significa justamente a entronização da vingança, mediada como vingança do eu contra si mesmo. [os bárbaros arianos contra os civilizados semitas]”

UM SUJEITO ARROJADO É ATIVO OU PASSIVO? E UM ABUSADO? “Os autores jogam com o duplo sentido da palavra alemã verschlagen, que significa: 1) astuto. ardiloso, manhoso; 2) arremessado, arrojado (à praia, à costa) pelo mar ou pelo acaso; bem como com seu parentesco com Schlag (golpe) e schlagen (bater, golpear). (N. do T.)

Gilbert Murray trata das ‘sexual expurgations’ a que foram submetidos os poemas homéricos no curso da redação.”

3. JULIETTE OU ESCLARECIMENTO E MORAL (EXCURSO 2)

O pensamento, no sentido do esclarecimento, é a produção de uma ordem científica unitária e a derivação do conhecimento factual a partir de princípios, não importa se estes são interpretados como axiomas arbitrariamente escolhidos, idéias inatas ou abstrações supremas.” “O princípio da contradição é o sistema in nuce.” “Um pensamento que não se oriente para o sistema é sem direção ou autoritário. A razão fornece apenas a idéia da unidade sistemática, os elementos formais de uma sólida conexão conceitual.”

A razão é ‘um poder … de derivar o particular do universal’. A homogeneidade do universal e do particular é garantida, segundo Kant, pelo ‘esquematismo do entendimento puro’. Assim se chama o funcionamento inconsciente do mecanismo intelectual que já estrutura a percepção em correspondência com o entendimento.”

Do mesmo modo que os fatos são previstos a partir do sistema, assim também os fatos devem por sua vez confirmá-lo. Os fatos, porém, pertencem à práxis.” “É verdade que, na física, a percepção pela qual a teoria se deixa testar se reduz em geral à centelha elétrica que relampeja na aparelhagem experimental.” “O pensamento que não consegue harmonizar o sistema e a intuição desrespeita algo mais do que simples impressões visuais isoladas: ele entra em conflito com a prática real.”

A centelha que assinala da maneira mais pregnante a falha no pensamento sistemático, o desrespeito da lógica, não é nenhuma percepção fugidia, mas a morte súbita. O sistema visado pelo esclarecimento é a forma de conhecimento que lida melhor com os fatos e mais eficazmente apóia o sujeito na dominação da natureza. Seus princípios são o da autoconservação. A menoridade revela-se como a incapacidade de conservar a si mesmo. O burguês nas figuras sucessivas do senhor de escravos, do empresário livre e do administrador é o sujeito lógico do esclarecimento.”

O ser é intuído sob o aspecto da manipulação e da administração. Tudo, inclusive o indivíduo humano, para não falar do animal, converte-se num processo reiterável e substituível, mero exemplo para os modelos conceituais do sistema.”

Os sentidos já estão condicionados pelo aparelho conceitual antes que a percepção ocorra, o cidadão vê a priori o mundo como a matéria com a qual ele o produz para si próprio. Kant antecipou intuitivamente o que só Hollywood realizou conscientemente: as imagens já são pré-censuradas por ocasião de sua própria produção, segundo os padrões do entendimento, que decidirá depois como devem ser vistas.”

A lógica é democrática, nela os grandes não têm nenhuma vantagem sobre os pequenos.” “A ciência em geral não se comporta com relação à natureza e aos homens diferentemente da ciência atuarial, em particular, com relação à vida e à morte. Quem morre é indiferente, o que importa é a proporção das ocorrências relativamente às obrigações da companhia.”

A ciência ela própria não tem consciência de si, ela é um instrumento, enquanto o esclarecimento é a filosofia que identifica a verdade ao sistema científico.” “A idéia de uma autocompreensão da ciência contradiz a idéia da própria ciência. A obra de Kant transcende a experiência como simples operação, razão por que ela é hoje – em virtude de seus próprios princípios – renegada pelo esclarecimento como dogmática.” “A raiz do otimismo kantiano, segundo o qual o agir moral é racional mesmo quando a infâmia tem boas perspectivas, é o horror que inspira a regressão à barbárie.”

ac si quaestio de lineis, planis aut de corporibus esset”: “Como se fosse uma questão de linhas, planos ou volumes”. “A ordem totalitária levou isso [o imperativo categórico] muito a sério. Liberado do controle de sua própria classe, que ligava o negociante do século XIX ao respeito e amor recíproco kantianos, o fascismo, que através de uma disciplina férrea poupa o povo dos sentimentos morais, não precisa mais observar disciplina alguma.”

Os dirigentes estavam dispostos a proteger o mundo burguês contra o oceano da violência aberta que realmente assolou a Europa apenas enquanto a concentração econômica ainda não havia progredido suficientemente. Antes, só os pobres e os selvagens estavam expostos à fúria dos elementos desencadeados pelo capitalismo. Mas a ordem totalitária instala o pensamento calculador em todos os seus direitos e atém-se à ciência enquanto tal.”

A obra do marquês de Sade mostra o ‘entendimento sem a direção de outrem’, isto é, o sujeito burguês liberto de toda tutela.”

Aquilo que Kant fundamentou transcendentalmente, a afinidade entre o conhecimento e o plano, que imprime o carácter de uma inescapável funcionalidade à vida burguesa integralmente racionalizada, inclusive em suas pausas para respiração, Sade realizou empiricamente um século antes do advento do desporto. As equipes desportivas modernas, cuja cooperação está regulada de tal sorte que nenhum membro tenha dúvidas sobre seu papel e para cada um haja um suplente a postos, encontram seu modelo exato nos teams sexuais de Juliette, onde nenhum instante fica ocioso, nenhuma abertura do corpo é desdenhada, nenhuma função permanece inativa.”

A estrutura arquitetônica [arquitecônica no original – teria sido realmente um trocadilho e não um typo? arctônica] própria do sistema kantiano, como as pirâmides de ginastas das orgias de Sade e os princípios das primeiras lojas maçônicas burguesas (a imagem cínica que a espelha é o rigoroso regulamento da sociedade de libertinos das 120 journées) anuncia[m] uma forma de organização integral da vida desprovida de todo fim tendo um conteúdo determinado.”

Depois que a utopia que instilara a esperança na Revolução Francesa penetrou – potente e impotente [cheio dos trocadilhos o safadinho!] – ao mesmo tempo na música e na filosofia alemãs, [duas gostosas!!] a ordem burguesa estabelecida funcionalizou completamente a razão.”

A mitologia particular de que o esclarecimento ocidental (até mesmo sob a forma do calvinismo) teve de se desembaraçar era a doutrina católica da ordo e a religião popular pagã que continuava a viajar à sua sombra.” “A crítica da contra-revolução católica provou que tinha razão contra o esclarecimento, assim como este tinha razão contra o catolicismo.”

Os escritores sombrios dos primórdios da burguesia, como Maquiavel, Hobbes, Mandeville, que foram os porta-vozes do egoísmo do eu, reconheceram por isso mesmo a sociedade como o princípio destruidor e denunciaram a harmonia, antes que ela fosse erigida em doutrina oficial pelos autores luminosos, os clássicos.”

Se a grande filosofia, representada por Leibniz e Hegel, descobrira também uma pretensão de verdade nas manifestações subjetivas e objetivas que ainda não são pensamentos (ou seja, em sentimentos, instituições, obras de arte), o irracionalismo, de seu lado, isola o sentimento, assim como a religião e a arte, de tudo o que merece o nome de conhecimento, e nisso como em outras coisas revela seu parentesco com o positivismo moderno, a escória do esclarecimento.”

Do nojo dos excrementos e da carne humana até o desprezo do fanatismo, da preguiça, da pobreza material e espiritual, vemos desenrolar-se uma linha de comportamentos que, de adequados e necessários, se converteram em condutas execráveis. Essa linha é ao mesmo tempo a da destruição e a da civilização. Cada passo foi um progresso, uma etapa do esclarecimento. Mas, enquanto todas as mudanças anteriores (do pré-animismo à magia, da cultura matriarcal à patriarcal, do politeísmo dos escravocratas à hierarquia católica) colocavam novas mitologias, ainda que esclarecidas, no lugar das antigas (o deus dos exércitos no lugar da Grande Mãe, a adoração do cordeiro no lugar do totem), toda forma de devotamento que se considerava objetiva, fundamentada na coisa, dissipava-se à luz da razão esclarecida. Todos os vínculos dados previamente sucumbiam assim ao veredito que impunha o tabu, sem excluir aqueles que eram necessários para a existência da própria ordem burguesa. O instrumento com o qual a burguesia chegou ao poder – o desencadeamento das forças, a liberdade universal, a autodeterminação, em suma, o esclarecimento – voltava-se contra a burguesia tão logo era forçado, enquanto sistema da dominação, a recorrer à opressão. Obedecendo a seu próprio princípio, o esclarecimento não se detém nem mesmo diante do mínimo de fé sem o qual o mundo burguês não pode subsistir. Ele não presta à dominação os serviços confiáveis que as antigas ideologias sempre lhe prestaram.” “O princípio anti-autoritário acaba tendo que se converter em seu próprio contrário, numa instância hostil à própria razão”

Depois de proclamar a virtude burguesa e a filantropia, para as quais já não tinha boas razões, a filosofia também proclamou como virtudes a autoridade e a hierarquia, quando estas há muito já haviam se convertido em mentiras graças ao esclarecimento. Mas o esclarecimento não possuía argumentos nem mesmo contra

semelhante perversão de si mesmo, pois a pura verdade não goza de nenhum privilégio em face da distorção, a racionalização em face da ratio, se não tem nenhum privilégio prático a exibir em seu favor.” “Isso ficou manifesto já nos primeiros ataques que o esclarecimento corrente empreendeu contra Kant, o ‘triturador universal’.” “A obra de Sade, como a de Nietzsche, forma ao contrário a crítica intransigente da razão prática, comparada à qual a obra do ‘triturador universal’ aparece como uma revogação de seu próprio pensamento. Ela eleva o princípio cientificista a um grau aniquilador. Kant, todavia, já expurgara a lei moral em mim de toda fé heteronômica, [transcendente] e isso há tanto tempo que o respeito por suas asseverações se tornou um mero fato natural psicológico, como é um fato natural físico o céu estrelado sobre mim.”

Justine, a boa dentre as duas irmãs, é uma mártir da lei moral. Juliette, porém, tira as conseqüências que a burguesia queria evitar: ela amaldiçoa o catolicismo, no qual vê a mitologia mais recente e, com ele, a civilização em geral. As energias ligadas ao sacramento são redirecionadas para o sacrilégio. Essa inversão, porém, é transferida pura e simplesmente à comunidade. Em tudo isso, Juliette não procede de modo algum com o fanatismo dos católicos em face dos incas. Ela apenas se dedica esclarecida, diligentemente, à faina do sacrilégio, que os católicos também têm no sangue desde tempos arcaicos. Os comportamentos proto-históricos que a civilização declarara tabu e que haviam se transformado sob o estigma da bestialidade em comportamentos destrutivos continuaram a levar uma vida subterrânea. Juliette não os pratica mais como comportamentos naturais, mas proibidos por um tabu. Ela compensa o juízo de valor contrário, sem fundamento na medida em que nenhum juízo de valor tem fundamento, pelo seu oposto. Assim, quando repete as reações primitivas, já não são mais as primitivas, mas as bestiais. Juliette, e nisso ela não é diferente do Merteuil de Liaisons Dangereuses, [sexo como jogo entre terceiros] não encarna, em termos psicológicos, nem a libido não-sublimada nem a libido regredida, [palavrório inútil] mas o gosto intelectual pela regressão, amor intellectualis diaboli, o prazer de derrotar a civilização com suas próprias armas. Ela ama o sistema e a coerência, e maneja excelentemente o órgão do pensamento racional. No que concerne ao autodomínio, suas instruções estão para as de Kant, às vezes, assim como a aplicação especial está para o princípio.”

O arrependimento apresenta como existente o passado que a burguesia, ao contrário da ideologia popular, sempre considerou como um nada”

« poenitentia virtus non est, sive ex ratione non oritur, sed is, quem pacti poenitet, bis miser seu impotens est”

O arrependimento não é uma virtude, ou não se origina da razão, mas quem se arrepende do que fez é duas vezes miserável ou impotente” Spinoza

« terret vulgus, nisi metuat »

o povo amedronta, a não ser que seja medroso”

Nietzsche proclama a quintessência de sua doutrina. ‘Os fracos e os malformados devem perecer: primeira proposição de nossa filantropia. E convém ainda ajudá-los a isso. O que é mais prejudicial do que qualquer vício – a compaixão ativa por todos os malformados e fracos – o cristianismo…’

Coube a um misantropo como Rousseau formular semelhante paradoxo, pois, extremamente fraco como era, queria rebaixar à sua altura aqueles à altura dos quais não conseguia se elevar. Mas que imprudência, pergunto eu, podia autorizar esse pigmeu de 4 pés e 2 polegadas a se comparar à estatura que a natureza dotou da força e do aspecto de um Hércules? Não é como se a mosca tentasse se assemelhar aos elefantes? Força, beleza, estatura, eloqüência: nos primórdios da sociedade, essas virtudes eram determinantes quando a autoridade passou para as mãos dos dominantes.” Sade

Ele não precisa se revestir, como o fraco, de um caráter diferente do seu: ele só coloca em ação os efeitos do caráter que recebeu da natureza. Por isso, tudo o que daí resulta é natural: sua opressão, suas violências, suas crueldades, suas tiranias, suas injustiças … são, pois, puras como a mão que as gravou; e quando ele usa de todos os seus direitos para oprimir o fraco, para despojá-lo, não faz senão a coisa mais natural do mundo … Não tenhamos, pois, escrúpulos quanto ao que podemos tomar do fraco, pois não somos nós que cometemos o crime, é a defesa ou a vingança do fraco que caracteriza o crime”

Mas enquanto grande potência e religião do Estado, a moral dos senhores entrega-se definitivamente aos civilizatórios powers that be, à maioria compacta, ao ressentimento e a tudo aquilo a que antes se opunha.”

a piedade, longe de ser uma virtude, não é senão uma fraqueza nascida do temor e do infortúnio, fraqueza que é preciso absorver, sobretudo quando nos empenhamos em embotar uma excessiva sensibilidade incompatível com as máximas da filosofia”

Segundo Aristóteles os gregos sofriam freqüentemente de um excesso de compaixão: daí a necessidade da descarga através da tragédia. Vemos assim como essa inclinação lhes parecia suspeita. Ela é perigosa para o Estado, tira a necessária dureza e rigor, faz com que os heróis se comportem como mulheres em prantos, etc.” N.

As deformações narcísicas da compaixão, como os sentimentos sublimes do filantropo e a arrogância moral do assistente social, são a confirmação interiorizada da diferença entre ricos e pobres.”

NIETZSCHE VS. SCHOPENHAUER: “Os fascistas que dominaram o mundo traduziram o horror pela compaixão no horror pela indulgência política e no recurso à lei marcial, no que se uniram a Schopenhauer, o metafísico da compaixão. Este considerava a esperança de instituir a humanidade como a loucura temerária daqueles cuja única esperança é a infelicidade. Os inimigos da compaixão não queriam identificar o homem com a infelicidade, cuja existência era, para eles, uma vergonha.”

A dominação sobrevive como fim em si mesmo, sob a forma do poder econômico. O gozo já parece algo de antiquado, irrealista, como a metafísica que o proibia.”

Quanto mais se acentua a complexidade do organismo social, menos ela tolera a interrupção do curso ordinário da vida. É preciso que tudo continue hoje como ontem e amanhã como hoje. A efervescência geral não é mais possível. O período de turbulência individualizou-se. As férias sucedem à festa.”

No regime fascista, elas [as festas?] são complementadas pela falsa euforia coletiva produzida pelo rádio, pelos slogans e pela benzedrina [descongestionante nasal à base de anfetamina – patético!].”

Adorno soa muito pouco convincente quando fala de sexo: “A mão acariciando os cabelos e o beijo na fronte, que exprimem o desvario do amor espiritual, são formas apaziguadas de golpes e mordidas que acompanham, por exemplo, o ato sexual dos selvagens australianos.”

…é certo que nosso espírito de galanteria cavalheiresca, que ridiculamente presta homenagem a um objeto feito tão-somente para nossas necessidades, é certo, repito, que esse espírito nasce do antigo respeito que nossos ancestrais tinham outrora pelas mulheres, em razão do ofício de profetisas que exerciam nas cidades e nos campos: por medo, passamos do respeito ao culto, e a galanteria nasceu no seio da superstição. Mas esse respeito não esteve jamais na natureza, seria perda de tempo buscá-lo aí. A inferioridade desse sexo relativamente ao nosso está suficientemente bem-estabelecida para que jamais possa excitar em nós um motivo sólido para respeitá-lo, e o amor que nasce desse respeito cego não passa de um preconceito como ele próprio.”

Não duvidemos de que haja uma diferença tão certa e tão importante entre um homem e uma mulher como entre o homem e o macaco da floresta. As razões que teríamos para recusar que as mulheres façam parte de nossa espécie são tão boas como as razões que temos para recusar que esses macacos sejam nossos irmãos. Examinemos atentamente uma mulher nua ao lado de um homem de sua idade e nu como ela e nos convenceremos facilmente da diferença sensível que existe (sexo à parte) na composição desses 2 seres; veremos bem claramente que a mulher não passa de uma degradação do homem; as diferenças existem igualmente no interior, e a anatomia de ambas as espécies, feita ao mesmo tempo e com a mais escrupulosa atenção, descobre essas verdades” Strindberg

Ela pagou o culto da madona com a caça às bruxas, que não foi senão uma vingança exercida sobre a imagem da profetisa da era pré-cristã, que punha secretamente em questão a ordem sagrada da dominação patriarcal.”

A explicação do ódio contra a mulher, enquanto criatura mais fraca em termos de poder físico e espiritual e marcada na testa pelo estigma da dominação, é a mesma do ódio aos judeus. Nas mulheres e nos judeus é fácil ver que há milénios não exercem nenhuma dominação. Eles vivem, embora fosse possível eliminá-los, e seu medo e fraqueza, sua maior afinidade com a natureza em razão da pressão incessante a que estão submetidos, é seu elemento vital.”

O provérbio romano, segundo o qual a severidade é o verdadeiro prazer, está em vigor, não é uma simples incitação ao trabalho.”

Moisés e Kant não pregaram o sentimento, sua lei fria não conhece nem o amor nem a fogueira.”

A luta de Nietzsche contra o monoteísmo atinge a doutrina cristã mais profundamente do que a judaica. É verdade que ele nega a lei, mas ele quer pertencer ao ‘eu superior’, não ao natural mas ao mais-que-natural. Ele quer substituir Deus pelo super-homem porque o monoteísmo, sobretudo em sua forma corrompida, o cristianismo, se tornou transparente como mitologia. Mas do mesmo modo que os velhos ideais ascéticos a serviço desse eu superior são enaltecidos por Nietzsche a título de auto-superação ‘em vista do desenvolvimento da força dominadora’, assim também o eu superior revela-se como uma tentativa desesperada de salvar Deus,¹ que morreu, e como a renovação do empreendimento de Kant no sentido de transformar a lei divina em autonomia, a fim de salvar a civilização européia que, no ceticismo inglês, já havia entregue o espírito. O princípio kantiano de ‘fazer tudo com base na máxima de sua vontade enquanto tal, de tal modo que essa vontade possa ao mesmo tempo ter por objeto a si mesma como uma vontade legisladora universal’ é também o segredo do super-homem. Sua vontade não é menos despótica do que o imperativo categórico.² Ambos os princípios visam à independência em face de potências exteriores, a emancipação incondicional determinada como a essência do esclarecimento.³ Todavia, quando o temor da mentira (que o próprio Nietzsche nos momentos mais luminosos [sentido pejorativo, haja vista a referência aos ‘autores luminosos’, i.e., do Iluminismo, protopositivistas] tachou de ‘quixotismo’) substitui a lei pela autolegislação e tudo se torna transparente como uma única grande superstição desnudada, [faltou elaboração] o próprio esclarecimento e até mesmo a verdade em todas as suas formas tornam-se um ídolo, e nós percebemos ‘que também nós, os conhecedores de hoje, nós ateus e anti-metafísicos, também tomamos nosso fogo do incêndio ateado por uma fé milenar, aquela fé dos cristãos que também foi a de Platão, para a qual Deus é a verdade e a verdade, divina’. Portanto, mesmo a ciência sucumbe à crítica à metafísica. A negação de Deus contém em si a contradição insolúvel, ela nega o próprio saber. Sade não aprofundou a idéia do esclarecimento até esse ponto de inversão. A reflexão da ciência sobre si mesma, a consciência moral do esclarecimento, estava reservada à filosofia, isto é, aos alemães. Para Sade, o esclarecimento não é tanto um fenômeno espiritual quanto social. Ele aprofundou a dissolução dos laços (que Nietzsche presumia superar idealisticamente pelo eu superior), isto é, a crítica à solidariedade com a sociedade, as funções e a família, até o ponto de proclamar a anarquia. Sua obra desvenda o caráter mitológico dos princípios nos quais, segundo a religião, se funda a civilização: do decálogo, da autoridade paterna, da propriedade. É a inversão exata da teoria social que Le Play desenvolveu cem anos depois. [?] Cada um dos dez mandamentos vê comprovada sua nulidade perante a instância da razão formal. Seu caráter ideológico fica inteiramente comprovado. O arrazoado em defesa do assassínio, é o próprio papa que o pronuncia a pedido de Juliette. Para ele, racionalizar os atos não-cristãos é uma tarefa mais fácil do que a tentativa feita outrora de racionalizar pela luz natural os princípios cristãos segundo os quais esses atos provêm do diabo. O ‘philosophe mitré’ precisa recorrer a menos sofismas para justificar o assassinato do que Maimônides e Santo Tomás para condená-lo.”

[?] « Le Play, Les Ouvriers Européens. Paris, 1879. Vol. I, especialmente pp. 133 sgg.”

¹ Será? Não vejo Adorno em posição de julgar um projeto que sabidamente é milenar, e não de 50 anos. Deus já está morto; seria questão de salvá-lo, ou de entender o quanto a humanidade mergulhará e ficará submergida em niilismo ainda diante dessa ‘simples questão’? O importante é: Nie. não deu uma resposta metafísica à sua destruição metafísica: o que é o supra-homem, senão o limite da imanência, uma pedagogia mundana sobre o valor dos valores?

² Kant atua no campo ético cristão. Se há uma ‘raça de homens’ que possa agüentar essa autonomia, a única e verdadeira responsabilidade sobre a Terra, acho prematuro para nós do século XX-XXI decidir de uma vez.

³ Se o esclarecimento ou Espírito do Mundo hegeliano será usado como avatar do fascismo, que é absolutamente essa ordem externa, não há o menor sentido em incluí-la no projeto kant-nietzschiano, já que essa busca nada tem a ver com a degenerescência dos Estados-nações burgueses…

Sade levou às últimas conseqüências o conceito do socialismo de Estado, em cujos primeiros passos Saint-Just e Robespierre haviam fracassado. Se a burguesia os enviou à guilhotina, a eles, seus políticos mais fiéis, ela também baniu seu mais franco escritor para o inferno da Bibliothèque Nationale. Pois a chronique scandaleuse de Justine e Juliette – que, produzida em série, prefigurou no estilo do século XVIII o folhetim do século XIX e a literatura de massas do século XX – é a epopéia homérica liberada do último invólucro mitológico: a história do pensamento como órgão da dominação.”

Sade não deixou a cargo dos adversários a tarefa de levar o esclarecimento a se horrorizar consigo mesmo, que faz de sua obra uma alavanca para salvar o esclarecimento.

Ao contrário de seus apologetas, [os clássicos posteriores, luminosos] os escritores sombrios da burguesia não tentaram distorcer as conseqüências do esclarecimento recorrendo a doutrinas harmonizadoras. Não pretenderam que a razão formalista tivesse uma ligação mais íntima com a moral do que com a imoralidade.”

É nas mãos sujas pelo assassinato das esposas e dos filhos, pela sodomia, pelos homicídios, pela prostituição e pelas infâmias que o céu coloca essas riquezas; e para me recompensar por essas abominações, ele as põe à minha disposição” Sade

Por trás do cômputo estatístico das vítimas do pogrom, que inclui os fuzilados por misericórdia, oculta-se a essência que somente surge à luz na descrição exata da exceção, ou seja, da mais terrível tortura. Uma vida feliz num mundo de horror é refutada como algo de infame pela mera existência desse mundo.”

Certamente, o assassinato dos próprios filhos e esposas, a prostituição e a sodomia, são muito mais raros entre os governantes durante a era burguesa do que entre os governados, que adotaram os costumes dos senhores de épocas anteriores. Em compensação, quando estava em jogo o poder, estes ergueram montanhas de cadáveres mesmo nos séculos mais recentes.” “Os vícios privados são em Sade, como já eram em Mandeville, a historiografia antecipada das virtudes públicas da era totalitária. O fato de ter, não encoberto, mas bradado ao mundo inteiro a impossibilidade de apresentar um argumento de princípio contra o assassinato ateou o ódio com que os progressistas ainda hoje perseguem Sade e Nietzsche. Diferentemente do positivismo lógico, [que é um culto] ambos tomaram a ciência ao pé da letra.

Proclamando a identidade da dominação e da razão, as doutrinas sem compaixão são mais misericordiosas do que as doutrinas dos lacaios morais da burguesia. Onde estão os piores perigos para ti?, indagou um dia [na Gaia Ciência] Nietzsche: Na compaixão. Negando-a, ele salvou a confiança inabalável no homem, traída cada vez que se faz uma afirmação consoladora.” A dialética da consolação!

Notas

Sade, Histoire de Juliette

____, Histoire de Justine

____, La Philosophie dans le Boudoir

FEMINISM AND POST-MODERNISM: An uneasy alliance. (Ou como não jogar o bebê com a água da bacia), in: BENHABIB, BUTLER, CORNELL & FRASER “Feminist Contentions. A Philosophical Exchange”.

A decade ago a question haunted feminist theorists who had participated in the experiences of the New Left and who had come to feminism after an initial engagement with varieties of 20th-century, Marxist theory: whether Marxism and feminism were reconcilable, or whether their alliance could end only in an ‘unhappy marriage’? Today with Marxist theory world-wide on the retreat, feminists are no longer preoccupied with saving their unhappy union. Instead it is a new alliance, or misalliance – depending on one’s perspective – that has proved more seductive.”

feminism and postmodernism have emerged as two leading currents Of our time. They, have discovered their affinities in the struggle against the grand narratives of Western Enlightenment and modernity. Feminism and postmodernism are thus often mentioned as if their current union was a foregone conclusion; yet certain characterizations of postmodernism should make us rather ask ‘feminism or postmodernism?’”

In her recent book, Thinking Fragments: Psychoanalysis, Feminism and Postmodernism in the Contemporary West, Jane Flax characterizes the postmodern position as subscription to the theses of the death of Man, of History and of Metaphysics.”

Postmodernists wish to destroy,” she writes,” all essentialist conceptions of human being or nature…. In fact Man is a social, historical, or linguistic artifact, not a noumenal or transcendental Being…. Man is forever caught in the web of fictive meaning, in chains of signification, in which the subject is merely another position in language.”

The idea that History exists for or is his Being is more than just another precondition and justification for the fiction of Man. This idea also supports and underlies the concept of Progress, which is itself such an important part of Man’s story…. Such an idea of Man and History privileges and presupposes the value of units’, homogeneity, totality, closure, and identity.”

Western metaphysics has been under the spell of the ‘metaphysics of presence’ at least since Plato…. For postmodernists this quest for the Real conceals most Western philosophers’ desire, which is to master the world once and for all by enclosing it within an illusory, but absolute, system they believe represents or corresponds to a unitary Being beyond history, particularity and change…. just as the Real is the ground of Truth, so too philosophy, as the privileged representative of the Real and interrogator of truth claims must play a ‘foundational’ role in all ‘positive knowledge’.”

Feminist versions of the three theses concerning the Death of Man, History, and Metaphysics can be articulated.”

From Plato over Descartes to Kant and Hegel western philosophy thematizes the story of the male subject of reason.”

Furthermore, the various philosophies of history which have dominated since the Enlightenment have forced historical narrative into unity, homogeneity, and linearity, with the consequence that fragmentation, heterogeneity, and above all the varying pace of different temporalities as experienced by different groups have been obliterated. We need only remember Hegel’s quip that Africa has no history.”

For feminist theory, the most important ‘knowledge-guiding interest’ in Habermas’s terms, or disciplinary, matrix of truth and power in Foucault’s terms, is gender relations and the Social, economic, political and symbolic constitution of gender differences among human beings.”

As Linda Alcoff has recently observed, feminist theory is undergoing a profound identity crisis at the moment. The postmodernist position(s) thought through to their conclusions may eliminate not only the specificity of feminist theory but place in question the very emancipatory ideals of the women’s movements altogether.”

CORRENTE PESSIMISTA: “The subject that is but another position in language can no longer master and create that distance between itself and the chain of significations in which it is immersed such that it can reflect upon them and creatively alter them.”

Feminist appropriations of Nietzsche on this question, therefore, can only lead to self-incoherence. Judith Butler, for example, wants to extend the limits of reflexivity in thinking about the self beyond the dichotomy of ‘sex’ and ‘gender’. ‘Gender’, she writes ‘is not to culture as sex is to nature; gender is also the discursive/cultural means by which <sexed nature> or a <natural sex> is produced and established as <prediscursive>, prior to culture, a politically neutral surface on which culture acts.’ For Butler, we might say, the myth of the already sexed body is the epistemological equivalent of the myth of the given: just as the given can be identified only within a discursive framework, so too it is the culturally available codes of gender that ‘sexualize’ a body and that construct the directionality of that body’s desire.”

If we are no more than the sum total of the gendered expressions we perform, is there ever any chance to stop the performance for a while, to pull the curtain down, and let it rise only if one can have a say in the production of the play, itself? Isn’t this what the struggle over gender is all about? Surely we can criticize the supremacy of presuppositions of identity politics and challenge the supremacy of heterosexist and dualist positions in the women’s movement. Yet is such a challenge only thinkable via a complete debunking of any concepts of selfhood, agency, and autonomy? What follows from this Nietzschean position is a vision of the self as a masquerading performer, except of course we are now asked to believe that there is no self behind the mask. Given how fragile and tenuous women’s sense of selfhood is in many cases, how much of a hit and miss affair their struggles for autonomy are, this reduction of female agency to a ‘doing without the doer’ at best appears to me to be making a virtue out of necessity.” A mulher – ou muitas indivíduas – não está emancipada o suficiente para ter a própria voz ‘elevada ao absoluto’, e ser levada em consideração com a mesma literalidade do ‘homem acadêmico’, i.e., sem ser submetida a uma acurada crítica para que não prejudique a luta pela emancipação feminina?

Intellectuals and philosophers in the 20th century are to be distinguished from one another less as being friends and opponents of the belief in progress but more in terms of the following: whether the farewell from the ‘metanarratives of the Enlightenment’ can be exercised in terms of a continuing belief in the power of rational reflection [Habermas, etc.] or whether this farewell is itself seen as but a prelude to a departure from such reflection.”

O FIM DA METANARRATIVA É O FIM DO MARXISMO: “Politically the end of such grand narratives would mean rejecting the hegemonial claims of any group or organization to “represent” the forces of history, to be moving with such forces, or to be acting in their name. The critique of the various totalitarian and totalizing movements of our century from national socialism and fascism to orthodox Marxism and other forms of nationalisms is certainly one of the most formative political experiences of postmodernist intellectuals like Lyotard, Foucault, and Derrida.”

. . . the practice of feminist politics in the 1980s has generated a new set of pressures which have worked against metanarratives. In recent years, poor and working-class women, women of color, and lesbians have finally won a wider hearing for their objections to feminist theories which fail to illuminate their lives and address their problems. They have exposed the earlier quasi-metanarratives, with their assumptions of universal female dependence and confinement to the domestic sphere, as false extrapolations from the experience of the white, middle-class, heterosexual women who dominated the beginnings of the second wave … Thus, as the class, sexual, racial, and ethnic awareness of the movement has altered, so has the preferred conception of theory. It has become clear that quasi-metanarratives hamper rather than promote sisterhood, since they elide differences among women and among the forms of sexism to which different women are differentially subject.”

The strong version of the thesis of the ‘Death of History’ would imply, however, a prima facie rejection of any historical narrative that concerns itself with the longue durée and that focuses on macro- rather than on micro-social practices. Nicholson and Fraser also warn against this ‘nominalist’ tendency in Lyotard’s work. I agree with them that it would be a mistake to interpret the death of ‘grand narratives’ as sanctioning in the future local stories as opposed to global history. The more difficult question suggested by the strong thesis of the ‘death of history’ appears to me to be different: even while we dispense with grand narratives, how can we rethink the relationship between politics and historical memory? Is it possible for struggling groups not to interpret history in light of a moral-political imperative, namely, the imperative of the future interest in emancipation? Think for a moment of the way in which feminist historians in the last 2 decades have not only discovered women and their hitherto invisible lives and work, but of the manner in which they have also revalorized and taught us to see with different eyes such traditionally female and previously denigrated activities like gossip, quilt-making, and even forms of typically female sickness like headaches, hysteria, and taking to bed during menstruation. In this process of the ‘feminist transvaluation of values’ our present interest in women’s strategies of survival and historical resistance has led us to imbue these activities, which were wholly uninteresting from the standpoint of the traditional historian, with new meaning and significance.

While it is no longer possible or desirable to produce ‘grand narratives of history’, the ‘death of history’ thesis occludes the epistemological interest in history and in historical narrative which accompany the aspirations of all struggling historical actors. Once this ‘interest’ in recovering the lives and struggles of those ‘losers’ and ‘victims’ of history is lost, can we produce engaged feminist theory? I remain skeptical that the call to a ‘postmodern-feminist theory’, that would be pragmatic and fallibilistic, that would take its method and categories to the specific task at hand, using multiple categories when appropriate and foreswearing the metaphysical comfort of a single feminist method or feminist epistemology, would also be a call toward an emancipatory appropriation of past narratives. What would distinguish this type of fallibilistic pragmatics of feminist theory from the usual self-understanding of empirical and value-free social science? Can feminist theory be postmodernist and still retain an interest in emancipation?”

much of the postmodernist critique of western metaphysics itself proceeds under the spell of a metanarrative, namely, the narrative first articulated by Heidegger and then developed by Derrida that ‘Western metaphysics has been under the spell of the <metaphysics of presence> at least since Plato…’ This characterization of the philosophical tradition allows postmodernists the rhetorical advantage of presenting what they are arguing against in its most simple-minded and least defensive versions.”

But is the philosophical tradition so monolithic and so essentialist as postmodernists would like to claim? Would not even Hobbes shudder at the suggestion that the ‘Real is the ground of Truth’? What would Kant say when confronted with the claim that ‘philosophy is the privileged representation of the Real’? Would not Hegel consider the view that concepts and language are one sphere and the ‘Real’ yet another merely a version of a naive correspondence theory of truth which the chapter on ‘Sense Certainty’ in the Phenomenology of Spirit eloquently dispensed with?”

In its strong version of ‘the death of metaphysics’ (…) [o]nce this history is rendered unrecognizable, then the conceptual and philosophical problems involved in this proclamation of the ‘death of metaphysics’ can be neglected.”

The version of the ‘death of metaphysics’ thesis which is today more influential than the Heidegger-Derrida tall tale about the ‘metaphysics of presence’ is Richard Rorty’s account. In Philosophy and the Mirror of Nature Rorty has shown in a subtle and convincing manner that empiricist as well as rationalist projects in the modern period presupposed that philosophy, in contradistinction from the developing natural sciences in this period, could articulate the basis of validity of right knowledge and correct action. Rorty names this the project of ‘epistemology’; this is the view that philosophy is a meta-discourse of legitimation, articulating the criteria of validity presupposed by all other discourses. Once it ceases to be a discourse of justification, philosophy loses its raison d’être.”

Does not philosophy become a form of genealogical critique of regimes of discourse and power as they succeed each other in their endless historical monotony? Or maybe philosophy becomes a form of thick cultural narration of the sort that hitherto only poets had provided us with? Or maybe all that remains of philosophy is a form of sociology of knowledge, which instead of investigating the conditions of the validity of knowledge and action, investigates the empirical conditions under which communities of interpretation generate such validity claims?

Why is this question concerning the identity, and future and maybe the possibility of philosophy of interest to feminists? Can feminist theory not flourish without getting embroiled in the arcane debates about the end or transformation of philosophy? The inclination of the majority of feminist theorists at the present is to argue that we can side-step this question, even if we do not want to ignore it, we must not be committed to answer it one way or another.”

How can we conceive a version of criticism without philosophy which is robust enough to handle the tough job of analyzing sexism in all its endless variety and monotonous similarity? My answer is that we cannot, and it is this which makes me doubt that as feminists we can adopt postmodernism as a theoretical ally. Social criticism without philosophy is not possible, and without social criticism the project of a feminist theory, which is committed at once to knowledge and to the emancipatory interests of women is inconceivable.” Fraser & Nicholson

I think we have reason to be wary, not only of the unqualified Nietzschean vision of an end of legitimation, [?] but also of the suggestion that it would somehow be ‘better’ if legitimation exercises were carried out in a self-consciously parochial spirit. For if feminism aspires to be something more than a reformist movement, then it is bound sooner or later to find itself calling the parish boundaries into question.

[…]

So postmodernism seems to face a dilemma: [1] either it can concede the necessity, in terms of the aims of feminism, of ‘turning the world upside down’ in the way just outlined – thereby opening a door once again to the Enlightenment idea of a total reconstruction of society, on rational lines; [2] or it can dogmatically reaffirm the arguments already marshalled against that idea – thereby licensing the cynical thought that, here as elsewhere, who will do what to whom under the new pluralism is depressingly predictable.” Sabina Lovibond

Me parece uma visão muito maniqueísta, não?

language games”

Complex social practices, like constitutional traditions, ethical and political views, religious beliefs, scientific institutions are not like games of chess. The social critic cannot assume that when she turns to an immanent analysis and characterization of these practices, she will find a single set of criteria on which there is such universal consensus that one can simply assume that by juxtaposing these criteria to the actual carrying out of the practice one has accomplished the task of immanent social criticism. So the first defect of situated criticism [A teoria de que o feminismo pode se constituir em separado do debate sobre o fim da filosofia ocidental, como grupo que não defende nem ataca meta-narrativas, concentrado na luta feminista exclusivamente, uma TEORIA CRÍTICA ESTILO “MÔNADA” LEIBNIZIANA.¹ – o side-step acima.] is a kind of ‘hermeneutic monism of meaning’, the assumption namely that the narratives of our culture are so univocal and uncontroversial that in appealing to them one could simply be exempt from the task of evaluative, ideal-typical reconstruction.” Não há que criticar a ideologia de que estamos partindo, pois ela é autoevidente e já de si informada (conscienciosa). Não seria a primeira nem a última vez que alguém se enganaria pronunciando estas palavras. Se a sociedade – se a academia, se a filosofia – está emperrada, o feminismo também está emperrado. Não existe ‘tática de pegar o vácuo’ nesta ‘corrida maluca’, i.e., tentar tirar vantagem em seu próprio movimento enquanto o mundo soçobra ou aguarda, petrificado…

¹ Em si uma figura muito metafísica – que ninguém dentro da mônada assinará, é óbvio.

The second defect of “situated criticism” is to assume that the constitutive norms of a given culture, society, and tradition will be sufficient to enable one to exercise criticism in the name of a desirable future. There certainly may be times when one’s own culture, society and tradition are so reified, dominated by such brutal forces, when debate and conversation are so dried up or simply made so impossible that the social critic becomes the social exile. Not only social critics in modernity, from Thoreau to the Frankfurt School, from Albert Camus to the dissidents of Eastern Europe, have exemplified this gesture. Antiquity, as well as Middle Ages have had philosophers in

exile, chiliastic sects, mystical brotherhoods and sisterhoods, and prophets who have abandoned their cities. Certainly the social critic need not be the social exile; however, insofar as criticism presupposes a necessary distantiation of oneself from one’s everyday certitudes, maybe eventually to return to them and to reaffirm them at a higher level of analysis and justification, to this extent the vocation of the social critic is more like the vocation of the social exile and the expatriate than the vocation of the one who never left home, who never had to challenge the certitude of her own way of life. And to leave home is not to end up nowhere; it is to occupy a space outside the walls of the city, in a host country, in a different social reality. Is this not in effect the quintessential postmodern condition in the 20th century? Maybe the nostalgia for situated criticism is itself a nostalgia for home, for the certitudes of one’s own culture and society in a world in which no tradition, no culture, and no society can exist any more without interaction and collaboration, confrontation and exchange.”

It may indeed be no coincidence that from Hypatia to Diotima to Olympe de Gouges and to Rosa Luxemburg, the vocation of the feminist thinker and critic has led her to leave home and the city walls.”

the utopia of a rationally planned economy leading to human emancipation, has come to an end. The end of these rationalistic visions of social engineering cannot dry up the sources of utopia in humanity.” A BUSCA PELO ‘GRANDE OUTRO’: “such utopian thinking is a practical-moral imperative. Without such a regulative principle of hope, not only morality but also radical transformation is unthinkable. What scares the opponents of utopia, like Lyotard for example, is that in the name of such future utopias the present in its multiple ambiguity, plurality, and contradiction will be reduced to a flat grand narrative. I share Lyotard’s concerns insofar as utopian thinking becomes an excuse either for the crassest instrumentalism in the present – the end justifies the means – or to the extent that the coming utopia exempts the undemocratic and authoritarian practices of the present from critique. Yet we cannot deal with these political concerns by rejecting the ethical impulse of utopia but only by articulating the normative principles of democratic action and organization in the present. Will the postmodernists join us in this task or will they be content with singing the swan song of normative thinking in general?” Se você está se perguntando se o pós-modernismo tem uma ética, não, ele não tem.

The retreat from utopia within feminist theory in the last decade has taken the form of debunking as essentialist any attempt to formulate a feminist ethic, a feminist politics, a feminist concept of autonomy, and even a feminist aesthetic. The fact that the views of Gilligan or Chodorow or Sarah Ruddick (or for that matter Kristeva) articulate only the sensitivities of white, middle-class, affluent, first-world, heterosexual women may be true (although I even have empirical doubts about this).” Kristeva é fraca.

Yet what are we ready to offer in their place?” “As a vision of feminist politics are we able to articulate a better model for the future than a radically democratic polity which also furthers the values of ecology, non-militarism, and solidarity of peoples? Postmodernism can teach us the theoretical and political traps of why utopias and foundational thinking can go wrong, but it should not lead to a retreat from utopia altogether. For we, as women, have much to lose by giving up the utopian hope in the wholly other.”

LECCIONES SOBRE LA HISTORIA DE LA FILOSOFÍA Vol. II/III – Hegel (trad. Wenceslao Roces), Fondo de Cultura Económica (1833, 1955, México)

PRIMERA PARTE:

LA FILOSOFÍA GRIEGA (cont.)

SECCIÓN PRIMERA:

PRIMER PERÍODO: DE TALES A ARISTÓTELES (cont.)

Se nos atemos exclusivamente ao fato de que o eu é aquele que estabelece, teremos o mau idealismo dos tempos modernos; nos tempos antigos os pensadores não se aferravam ao fato de se o pensado fôra ou não baseado num eu.”

O conceito é, cabalmente, esta transitoriedade fluente de Heráclito, este movimento, esta causticidade (corrosão, decomposição) a que nada pode resistir. O conceito, que se encontra a si mesmo, se encontra como o poder absoluto perante o qual tudo desaparece; com ele se fluidifica todo o existente, tudo o que se tinha por firme e sólido. O que se reputava firme – trate-se da firmeza do ser natural ou da firmeza de determinados conceitos, princípios, costumes e leis – vacila e perde sua estabilidade. Como algo geral, estes princípios, etc., são também, indubitavelmente, parte do conceito [o conceito é parte do conceito], mas sua generalidade não é mais que sua forma; seu conteúdo impõe-se como algo determinado, em movimento. Este movimento vemo-lo manifestar-se nos chamados sofistas

O nome sofista se o deram eles mesmos, como mestres de sabedoria, mestres que se propunham a tornar sábios quem quer que eles ensinassem. O sofista é o antípoda do erudito moderno (…) que se preocupa em descobrir um novo verme ou inseto (reter o conhecimento para si).” “o comum dos mortais, quando suas essências, que ele crê firmes, começam a vacilar, se indigna; e o conceito, formado nesta sua realização perante as verdades vulgares e correntes, atrai sobre si o ódio e os insultos.” “Aqui apreciaremos o lado positivo da sofistaria

Chamamos cultura, de fato, precisamente o conceito aplicado na realidade, contanto que não se manifeste puramente em sua abstração, senão em unidade com o conteúdo múltiplo de todas as representações.”

A cultura assim entendida (no sentido moderno de ilustração) se converte na finalidade geral do ensino; por isso é que surgiu, de contínuo, uma vastidão de mestres de sofística.” Novos pais da Grécia, em sucessão aos poetas e rapsodos. Pitágoras esclarecidos.

Toda nova classe de grande homem tem de começar sendo peregrina? Poetas, médicos e professores diletantes, todos itinerantes…

COMO FAZER AMIGOS E INFLUENCIAR PESSOAS: “La elocuencia, que apela a la cólera y a las pasiones de los hombres para conseguir algo, enseña la reducción de las circunstancias a estos poderes. (…) Esto presupone, naturalmente, la existencia de un régimen político democrático, en que los ciudadanos sean los llamados a decidir.”

Esto es también, en efecto, lo que se propone la Tópica¹ de Aristóteles, al señalar las categorías o criterios que es necesario tener presentes para aprender a hablar.”

¹ Retórica?

el Protágoras de Platón nos traza un cuadro bastante completo.”

Para el hombre inculto resulta incómodo tener trato con estos hombres que saben abordar y exponer fácilmente todos los aspectos de un problema. Los franceses tienen el don de saber expresarse, aunque nosotros, los alemanes, los llamemos por ello charlatanes.” “cuando se aprende francés, no es solamente para hablar este idioma, sino para adquirir a través de él la cultura francesa.”

Y, en efecto, cuando uno se propone estudiar filosofía, tampoco sabe, por el momento, lo que la filosofía es, pues si lo supiera, no necesitaría estudiarla.”

Yo siempre he creído que la virtud política no es susceptible de ser enseñada” Sócrates apud Pl. Prot.

DÉJÀ VU GENÉTICO: E Hermes (por procuração de Zeus) infundiu o pudor…

Cuando alguien se hace pasar por un maestro en el arte de la flauta sin poseer experiencia alguna acerca de ello, se le tiene, con razón, por loco. No sucede así, en cambio, en lo tocante a la justicia”

Em todo ato, por mau que seja, vai implícito um ponto de vista essencial em si: basta com destacar este ponto de vista para que o ato fique desculpado e defendido.” “desde Adão, tudo o que se fez de mau no mundo já foi justificado com boas razões.”

lo mismo que, hace unos 50 años, la enseñanza fundamental del pueblo, entre nosotros, consistía aún en la historia sagrada y una serie de sentencias y pasajes de la Biblia.”

Não confiar muito, já que detalhes biográficos procedem de Diógenes Laércio: “Protágoras siguió la misma suerte de Anaxágoras, al ser desterrado más tarde de Atenas. La causa de esta condena fue un escrito suyo, que comenzaba así: ‘Acerca de los dioses, no sabría decir si existen o no, pues hay muchas cosas que impiden este conocimiento, tanto la oscuridad del asunto mismo como la vida del hombre, que es tan breve.’ Este libro fue quemado en Atenas, por orden del Estado; fue, por lo menos en cuanto sabemos, la primera obra con la que sucedió esto.”

El principio de Protágoras, si se le da el verdadero sentido que tiene, es una gran frase, pero es, al mismo tiempo, una frase equívoca, pues la medida de las cosas puede ser el hombre indeterminado y multifacético, cada hombre según su particularidad específica, este hombre fortuito; pero puede tratarse también de que la razón consciente de sí misma que hay en el hombre, de que el hombre concebido como naturaleza racional y sustancialidad general, sea medida absoluta.” A este respeito, ver a elucidação de Hannah Arendt, procurando por Protágoras na busca: https://seclusao.art.blog/2018/04/26/a-condicao-humana/.

Dios, el Bien platónico, es, en primer lugar, un producto del pensamiento; pero, en segundo lugar, es también en y para sí. En cuanto que sólo reconozco como ente, fijo y eterno aquello que es, en cuanto a su contenido, lo general, tenemos que ese algo es, tal y como ha sido asentado por mí, al mismo tiempo, como lo objetivo en sí, algo que yo no siento.”

O ANTI-KANT: “Deus, o Bem platônico, é, em primeiro lugar, um produto do pensamento; (SUBJETIVO, SENSÍVEL) porém, em segundo lugar, é também em e para si (SUBJETIVO e OBJETIVO). Ora: 1) Eu somente reconheço (POSSO PENSAR) o ente (fixo e eterno, ESSÊNCIA OBJETIVA) enquanto aquilo que é geral em seu conteúdo. 2) Esse geral em seu conteúdo é também o objetivo em si, (ESSENCIAL) algo que eu não sinto.”

O MONÓLOGO-DIÁLOGO ILUSTRADO

Kant: O conceito é pensável porque é antes de tudo sensível…

Hegel: O conceito é sensível porque é antes de tudo pensável!!!

Kant & Hegel: O conceito só pode ser pensado porque é essência-e-aparência!

Kant: Sim, finalmente estamos de acordo em alguma coisa!…

Hegel: No que mais poderíamos concordar?

Kant: Hm, deixe-me ver… Se eu fosse você, acho que me aprazeria me exprimir assim: o não-conceito não pode ser pensado, pois ou é só essência ou é só aparência.

Hegel: Com efeito! E você, Kant, escreve frases tais quais: o não-conceito pode ser sentido quando é só aparência; o não-conceito não pode ser sentido quando é só essência (sua coisa-em-si!). Ou seja, o conceito é sentido como não-conceito (apenas como aparência)…

Kant: Ficamos bons na arte de invertermos os papéis! E assim você concluiria, Hegel: a essência pura é inacessível enquanto não integrar um conceito.

Falsa comparação entre Protágoras e Kant. Falsa porque resulta em detrimento do Kantismo.

Vemos en Protágoras una gran reflexión; concretamente, es la reflexión sobre la conciencia la que cobra conciencia en Protágoras. Pero esto no es sino la forma del fenómeno, recogida y desarrollada por los escépticos posteriores. El fenómeno, la apariencia, no es el ser sensible, sino que, al establecer esto como lo que aparece, establezco, al mismo tiempo, su no ser. Ahora bien, la tesis de que ‘lo que es es solamente para la conciencia’, o bien: ‘la verdad de todas las cosas es la manifestación de estas cosas para la conciencia y en ella’, parece contradecirse por completo a sí misma. Parece, en efecto, que en ella va implícita, al mismo tiempo, la afirmación opuesta: de una parte, la de que nada es en sí tal y como aparece y, de otra parte, la de que todo es verdaderamente tal y como aparece.”

Vemos em Protágoras uma grande reflexão; concretamente, é a reflexão sobre a consciência aquilo que cobra consciência em Protágoras (seu pensamento único). Mas isto não é senão a forma do fenômeno, retomada e desenvolvida pelos céticos posteriores. O fenômeno, a aparência, não é o ser sensível, senão que, ao estabelecer isto como aquilo que aparece, estabeleço, ao mesmo tempo, seu não-ser. A tese de que ‘o que é, é somente para a consciência’, ou esta outra: ‘a verdade de todas as coisas é a manifestação destas coisas na e para a consciência’, parece contradizer-se por completo a si mesma. Parece, de fato, que nela vai implícita, simultaneamente, a afirmação exatamente oposta: por um lado, nada é em si como aparece e, por outro, tudo é verdadeiramente assim como aparece.”

Refutação de Hegel: A aparência é o ser sensível, o ser mesmo. O que é não é de forma alguma o mesmo para o outro. Essência e aparência coincidem no sujeito. Porém, cada sujeito é um mundo fenomênico à parte. Portanto, como Protágoras não considera o absoluto, seu raciocínio é impecável.

O momento da consciência, que Protágoras põe de manifesto e segundo o qual o geral desenvolvido traz implícito o momento negativo do ser-para-outro, deve ser afirmado também como um momento necessário

El fuerte de este pensador [Górgias] era la dialéctica de la elocuencia; sin embargo, se destacaba por su dialéctica pura, que giraba en torno a las categorías absolutamente generales del ser y el no-ser y se apartaba, por tanto, de la manera de los sofistas.”

Gorgias sostiene, de una parte, una polémica certera contra el realismo absoluto, que, al representarse una cosa, cree poseer la cosa misma, cuando se trata, en realidad, de algo puramente relativo. Pero, por otra parte, se deja llevar al idealismo malo de los tiempos modernos, con arreglo al cual lo pensado es siempre simplemente subjetivo, es decir, no es el ente mismo, ya que el pensamiento convierte el ente en algo pensado.” “De este modo, la dialéctica de Gorgias se aferra a esta distinción exactamente lo mismo que, andando el tiempo, habrá de volver a manifestarse en Kant; claro está que quien se aferre a esta distinción, jamás podrá llegar al conocimiento de lo que es.”

Esta libertad [socrática], que se cifra en el postulado de que la consciencia, en todo lo que piense, debe hallarse sencillamente presente y cabe sí(*)

(*) Hemos traducido bei sich selbst como ‘cabe sí’ a fin de distinguirlo del in sich, tan usado por Hegel.” Mas não distingue um do outro. Por si mesmo e em si (mesmo) são rigorosamente a mesma coisa. Filigranas lingüísticas capazes de convulsionar um Schopenhauer! Cabe sí é só mais um sinônimo que os tradutores preciosistas usam no lugar de de suyo.

Nos tempos modernos muito se fala do saber imediato e da fé, mas não se deve crer que seu conteúdo, quer dizer, Deus,¹ o bem, a justiça, etc., tenha como fonte exclusivamente os sentimentos e a imaginação, pois é, em realidade, algo puramente espiritual, quer dizer, um conteúdo procedente do pensamento.” Hegel é o mais grosseiro dos maus leitores de Kant!

¹ Vazio; ex nihilo, regressão a antes mesmo de Tales de Mileto!

[O passo dado por Sócrates] é, de fato, o verdadeiro, a unidade do subjetivo e do objetivo na terminologia moderna; diferente do ideal kantiano, que não é senão um fenômeno, que não é objetivo em si mesmo.”

O PROBLEMA DA ÉTICA DIVINA

Partamos de duas premissas: 1) o homem é burro, isto é, vil demais para criar-se uma ética. 2) o homem é sábio, isto é, virtuoso o bastante para criar-se uma ética. Ponto de vista da religião monoteísta: o homem só pode ser burro demais, do contrário não haveria religiões nem necessidade de religiões. Deus precisa ensinar a ética ao homem, eis o fundamento e o fim último da crença. Porém, se o homem é burro demais para criar-se uma ética, ele também é vil demais para aprender uma ética, incapaz que é de entender os desígnios de deus. Não está à altura de uma ética divina para os homens.

Posto que sabemos o que é ética, ela deve ser atingível. Posto que há religiões, é seguro dizer que via de regra prescinde-se de ética. Posto que há religiões há muito tempo, porém, e sua presença milenar não demonstra a aquisição da virtude pela humanidade como um todo, conclui-se que: poucos notáveis são virtuosos, a maioria é tola. Alguns notáveis assumiram papéis de pregadores, profetas, sacerdotes religiosos. Alguns notáveis seguiram o caminho da autoformação. A grande massa se subdivide igualmente entre os dois caminhos. Muitos crêem-se éticos (sábios) sem sê-lo. Sábios autointitulados, intitulados pela comunidade laica ou sancionados por aqueles que controlam os dogmas espirituais. Se a virtude fosse passível de se ensinar, não só Deus como os sábios ensiná-la-iam.

As gerações da humanidade repetem a proporção entre sábios e tolos. Desde sempre, para sempre. De qualquer modo, apenas uma pimenta para a discussão: não é possível conhecer-se a si mesmo. O sábio não se conhece; vive sempre na berlinda entre uma pretensa sabedoria e a estultícia. O muito burro vive na vaidade, crendo-se sábio. Ao notar esse comportamento dos muito estultos, o sábio aprende que ter certeza sobre sua própria sabedoria é um indício pouco auspicioso. Ele sempre oscila entre considerar-se um hipócrita ou um tolo, não importa como conduza sua vida, e a reputação que obtém entre “os outros homens”. Sua vida é uma comédia, pois só é possível agir com ética inconscientemente. Os autointitulados tolos podem ser considerados uma multitude de coisas: sábios (e portanto suscetíveis de ser tolos debaixo do véu), hipócritas que desejariam o status da sabedoria empregando uma falsa modéstia para enganar os homens, um espírito que conhece suas limitações; mas não muda o fato de que todas essas possibilidades não são dignas de crédito. Não se confia no tolo só porque ele assume sua tolice. E o parâmetro para o sábio, por mais que sábios existam, não é deste mundo. Permanece como mistério insondável da existência. Como num jogo de pega-pega entre a cabeça e a cauda, aporia.

* * *

Esculpir bebês para parir estátuas.

Los atenienses anteriores a Sócrates eran hombres Morales, pero no éticos, pues practicaban lo que había de racional en sus relaciones sin saber que eran, en verdad, hombres buenos.” “este modo [socrático] de conducirse ha vuelto a cobrar vida, modernamente, con la filosofía kantiana, que es ética.”

Conta-se que um ateniense chamado Críton ajudou Sócrates a cobrir os seus gastos para que pudesse ser iniciado pelos mestres em todas as artes.” Nem Soc. foi um self-made man às antigas!

A ironia socrática não é o método socrático, mas o destino inelutável e externo do filósofo: jovem soldado, serviu três vezes. Três vezes regressou triunfante do Peloponeso, e ao cumprir regiamente seu dever para com sua pátria, ajudou a consumar o desfecho da cultura grega. Da própria cultura, da cultura socrático-platônica, modelo dos modelos de homem.

Os generais recompensaram a façanha de Sócrates com uma coroa, que era o prêmio dos valentes; mas ele se negou a recebê-la, negociando com êxito sua entrega a Alcibíades, de quem salvara a vida em Potidéia.”

nós propendemos a ver nas virtudes, como realmente são hoje, antes aspectos dos dotes ou do temperamento do homem, ou a revesti-las sob a forma do genérico e necessário; em Sócrates, no entanto, não apresentam a forma dos bons costumes, do temperamento do homem ou de uma necessidade qualquer, senão a forma de uma determinação independente. É sabido que a fisionomia de Sócrates indicava um temperamento dominado pelas paixões feias e baixas, que seu espírito soube refrear e governar, como ele mesmo nos diz em algum lugar.” Além de tudo que aqui afirma, tece depois que o belo é o santo e o sábio — mas que doutrina esta do Romantismo europeu!! Hegel, horroroso, não podia dominar nada e seria, de acordo consigo mesmo, um grande mandrião! Porém, Sócrates nunca afirmou que conseguiu voluntariamente contrariar sua má natureza; o fato de ele ser feio e de Alcebíades ser belo nada tem que ver com ambos os temperamentos. Lição primária, na qual sou obrigado a reprovar o aluno extravagante Hegel.

Esta classe de trato social que chamamos de ‘o ócio dos atenienses’ só era possível graças às características especiais da vida da polis, em que a maioria dos trabalhos que hoje realiza um cidadão livre de qualquer país – ainda que falemos de um burguês e não só dos empregados – era efetuada, então, por meio de escravos, já que se consideravam como indignos dos homens livres. Não era proibido ao cidadão livre ateniense ser artesão, mas mesmo os artesãos dispunham de escravos, seus ajudantes de ofício.”

Es ésta la famosa ironía socrática, que no es sino un modo especial de comportarse en el trato de persona a persona, es decir, una forma subjetiva de la dialéctica únicamente, en tanto que la verdadera dialéctica versa siempre sobre los fundamentos de la cosa misma.”

Hace 10 años, un famoso teólogo sentó 90 tesis sobre la razón, tesis que encierran problemas muy interesantes, pero que no han dado resultado alguno, a pesar de haberse discutido mucho en torno a ellas, ya que, mientras el uno se situaba en el punto de vista de la fe, el otro argumentaba desde el punto de vista de la razón, y cada cual se mantenía aferrado a su criterio propio, sin que fuese posible saber qué era lo que entendían el uno por fe y el otro por razón.”

Los personajes encargados de formular las respuestas en los diálogos de Sócrates son semejantes a títeres, ya que sólo contestan a aquellas preguntas formuladas de tal modo que facilitan notablemente la respuesta y excluyen toda arbitrariedad propia.”

Os personagens encarregados de formular as respostas nos diálogos de Sócrates são semelhantes a títeres, já que só respondem àquelas perguntas formuladas de tal modo que facilitam notavelmente a contra-resposta socrática e excluem toda arbitrariedade própria.”

Para nosotros, que estamos acostumbrados a representarnos lo abstracto y que desde la temprana juventud nos educamos en torno a principios generales, el método socrático de la llamada condescendencia, con su locuacidad, resulta a menudo cansado, aburrido y tedioso.”

Para nós, que estamos acostumados a nos representar o abstrato e que desde a tenra juventude nos educamos em torno de princípios gerais, o método socrático da chamada condescendência, com sua loquacidade, resulta o mais das vezes, cansativo, aborrecido, tedioso.”

¿Cómo puedes ponerte a indagar lo que afirmas que no sabes? ¿Cómo puedes sentir apetencia de lo que no conoces? Y si por casualidad das con ello, ¿cómo puedes saber que es realmente lo que buscas, si confiesas que no lo sabes?”

tudo se encontra já no espírito do homem, ainda que pareça que este tenha de aprender tudo de fora.”

Ahora bien, esto es solamente uno de los lados, en el que Sócrates hace caso omiso de todo lo que sea contradicción y presenta como contenido afirmativo las leyes, es decir, el derecho, tal y como cada cual se lo representa. Ahora bien, si preguntamos cuáles son estas leyes, veremos que son precisamente aquellas que rigen, tal y como se hallan presentes en el Estado y en la representación de las gentes y que, llegado el momento, son levantadas [suspensas] como algo determinado, lo que quiere decir que no son absolutas.” O que ainda é melhor que afirmar numa Filosofia do Direito que o Estado da monarquia constitucional é o non plus ultra do Espírito!

Vemos, assim, como um signo infeliz do desconcerto, como os grandes favoritos de Sócrates, os dotados de atitudes mais geniais, p.ex. um Alcibíades, este gênio da frivolidade, para quem o povo de Atenas nada era senão um brinquedo, e Crítias, o mais eficiente dos Trinta Tiranos, desempenham mais tarde, em sua pátria, um papel que os leva a ser julgados, o primeiro como inimigo e traidor de seus concidadãos, o segundo como opressor e tirano de seu povo. Ambas as figuras viveram se ajustando ao princípio do conhecimento subjetivo, e arrojaram, assim, má luz sobre Sócrates; através delas revela-se como o princípio socrático, ao assumir uma forma distinta, levou a vida grega à ruína. (Xenofonte, Memorabilia, cap. 2)”

O demônio de Sócrates é (…) a individualidade do espírito” Belo sinônimo para inconsciente!

O general, antes de dar uma batalha devia ater-se, para tomar uma decisão, ao que lhe dissessem as entranhas dos animais sacrificados, como com tanta freqüência o vemos na Anábase de Xenofonte; e Pausânias se atormenta um dia inteiro, antes de dar a ordem de lançar-se ao combate. (Heródoto)”

no fim das contas os oráculos são sempre necessários ali onde o homem não se considera ainda tão livre e independente em seu foro íntimo que se sinta capaz de adotar suas determinações a partir de si mesmo, como nós o fazemos. É a esta liberdade subjetiva, que os gregos ainda não conheciam, que queremos nos referir quando falamos, atualmente, de liberdade” “Isso de responder pelo que fazemos, de buscar nos atos do indivíduo sua própria inspiração pessoal, é algo próprio dos tempos modernos”

quem se casa com uma mulher formosa não sabe se isso consumará sua felicidade ou será, ao contrário, fonte de pena e aflição; nem quem tem parentes poderosos no Estado pode saber se não será isso precisamente o que implique, um dia, o ver-se desterrado. (…) E para Sócrates este oráculo [sacrifícios, o vôo das aves, etc.] era seu demônio interior.” Xenofonte

o demônio socrático ocupa um lugar intermediário entre o lugar externo do oráculo e o lugar puramente interior do espírito; é interior, mas distinto da vontade humana e ainda menos preponderante que a inteligência e as deliberações do indivíduo Sócrates.”

TEMPOS DE MESMERISMO: “com efeito, em Sócrates parece que se dava, já, expressamente, algo disso que chamamos estado magnético (…) o mesmo estado do êxtase epiléptico ou da catalepsia [catatonia, histeria, hipnose, etc.].”

Hegel é ainda muito primitivo no tocante ao julgamento de Sócrates.

A aparição da comédia aristofânica é, por si mesma, um ingrediente tão essencial ao povo ateniense e Aristófanes uma figura tão necessária no panorama de Atenas quanto a do augusto Péricles, a do frívolo Alcibíades, a do divino Sófocles e a do ético Sócrates, pois ele forma parte, também, das estrelas deste firmamento.”

Nossa seriedade germânica não compreende como Aristófanes podia representar personagens que representavam, por sua vez, homens de carne e osso da nação ateniense, chamando-os pelos seus nomes reais, a fim de pô-los em ridículo, e sobretudo um homem tão austero e honrado como Sócrates.”

um povo que sabe rir de si” “essa certeza diáfana de si mesmo”

devemos admirar a profundidade de Aristófanes em ver o lado negativo da dialética socrática e destacá-lo com cores tão enérgicas.”

Sócrates foi condenado à morte por se negar a reconhecer a competência e soberania do povo sobre um acusado.”

A [acusação da] perversão da juventude consistia em fazê-la vacilar com respeito ao dotado de vigência imediata.”

As duas Apologias. Falta-me ler a de Xen..

Ninguém jamais viu ou ouviu Sócrates fazer ou dizer qualquer coisa ímpia ou contrária à religião, pois jamais pôs-se ele a investigar acerca da natureza do universo, como tantos outros, dedicados a indagar como havia nascido o que os sofistas chamam de o mundo.” X.

A esta primeira parte da defesa os juízes se mostraram descontentes, ou por não darem credibilidade ao dito por Sócrates ou por inveja (o crer que Sócrates era um favorito dos deuses) (a bibliografia é Xen.). O argumento de que o piedoso aceita Jesus, mas não um segundo Jesus (qualquer um no presente que se proclame Jesus): “Por que ele e não outro?”

Además, para los griegos aquellas revelaciones tenían que revestir necesariamente un determinado modo de ser, pues existían oráculos que podríamos llamar oficiales (no subjetivos), como la pitonisa, los árboles sagrados, etc. Por eso, cuando la revelación cobra cuerpo en este algo particular y concreto que es el ciudadano corriente, se la considera como algo increíble y falso; el demonio socrático era, en realidad, una modalidad distinta de la que hasta entonces venía rigiendo en la religión griega.” “Sócrates es, de este modo, el héroe que proclama, para desplazar al dios délfico, el principio de que el hombre debe mirar dentro de sí para saber qué es lo verdadero.”

Anito le había tomado animadversión a Sócrates porque éste le había dicho que el hijo de un hombre prestigioso como él no debía consagrarse al oficio de la tenería, sino a una profesión digna de un hombre libre. Anito mismo era curtidor de oficio y, aunque estos trabajos corriesen, por regla general, a cargo de esclavos, no eran, en sí, nada denigrante; la expresión de Sócrates no era justa, por ello; aunque ya hemos visto (supra, p. 50) que este juicio encajaba perfectamente dentro del espíritu y la mentalidad de los griegos. Sócrates añade que ha trabado conocimiento con este hijo de Anito y que no ha descubierto en él ninguna cualidad mala; profetiza, sin embargo, que no se mantendrá fiel a este trabajo servil a que su padre se empeña en sujetarlo. Y como no tiene a su lado ninguna persona razonable que se ocupe de él, se dejará llevar de malas apetencias y llegará muy lejos por los caminos de la ociosidad y la disipación. Jenofonte añade por su cuenta que la predicción de Sócrates se confirmó al pie de la letra, pues el joven de referencia se entregó a la bebida y se pasaba los días y las noches emborrachándose, habiéndose convertido en un hombre completamente indigno. Cosa perfectamente comprensible, ya que un hombre que se considera (con razón o sin ella) apto para llegar a ser algo mejor de lo que es y que se siente descontento en su interior con el estado de cosas dentro del que vive, pero sin poder alcanzar otro mejor, se ve arrastrado por este disgusto consigo mismo a la mediocridad, primero, y luego a la maldad, por el camino que tantas veces arruina a los hombres. La profecía de Sócrates es, por esto, perfectamente natural.”

Anito havia tomado aversão a Sócrates porque este lhe havia dito que o filho de um homem prestigioso como ele não devia se consagrar ao ofício do curtume, mas a uma profissão digna de um homem livre. O próprio Anito era curtidor e, ainda que de uso esses trabalhos corressem a cargo de escravos, essa não era uma vocação degradante em si; a expressão de Sócrates não seria justa; em que pese termos visto também que este juízo encaixava-se perfeitamente no espírito e na mentalidade gregos. Sócrates acrescenta que travou conhecimento com este filho de Anito e que não descobriu nele nenhuma má qualidade; profetiza, entretanto, que não se manterá fiel a este trabalho servil em que seu pai se empenha tanto em sujeitá-lo. E como não tem a seu lado nenhuma pessoa razoável para dele se ocupar, deixar-se-á levar por más apetências e chegará muito longe nos caminhos do ócio e da dissipação. Xenofonte acrescenta que a predição de Sócrates se confirmou ao pé da letra, pois o jovem se entregou ao álcool e passava dia e noite embebedando-se, havendo-se convertido num homem completamente indigno. Coisa perfeitamente compreensível, já que um homem que se considera (com ou sem razão) apto a ser algo melhor do que é e que se sente descontente em seu interior com o estado de coisas no qual vive, sem poder contudo alcançar outro melhor, vê-se arrastado por este desgosto consigo mesmo à mediocridade, primeiro, e logo à maldade, pelo caminho que tantas vezes arruína os homens. A profecia de Sócrates é, portanto, perfeitamente natural.”

Los hijos deben tener la sensación de formar una unidad con sus padres, siendo ésta la primera relación moral inmediata; todo educador debe respetarla, mantenerla pura y desarrollar la sensación de esta unidad.”

Os filhos devem ter a sensação de formar uma unidade com seus pais, sendo esta a primeira relação moral imediata; todo educador deve respeitá-la, mantê-la pura e desenvolver a sensação desta unidade.”

Ahora bien, para referirnos al ejemplo de Sócrates, todo parece indicar que éste, con sus ingerencias, inducía a los jóvenes a un sentimiento de descontento con la situación en que vivían. Es posible que el hijo de Anito no se sintiera, en general, atraído por el trabajo; pero una cosa es esto y otra muy distinta que esta sensación de descontento cobre conciencia de sí misma y se vea confirmada por la autoridad de un hombre como Sócrates.”

Tudo parece indicar que Sócrates, com suas ingerências, induzia os jovens a um sentimento de descontentamento com a situação em que viviam. É possível que o filho de Anito não se sentisse, em geral, atraído pelo trabalho; mas isto é uma coisa, e outra muito distinta que esta sensação de descontentamento cobre consciência de si mesma e se veja confirmada pela autoridade de um homem como Sócrates.”

Dentro de nuestras leyes, el primer punto de la acusación, el referente a la adivinación, sería inadmisible, como se ha visto, por ejemplo, en el caso de Cagliostro; esta clase de actos eran perseguidos en otro tiempo por la Inquisición.”

Dentro de nossas leis, o primeiro ponto da acusação, o referente à adivinhação, seria inadmissível, como já se viu, p.ex., no caso de Cagliostro; esta classe de atos era perseguida em outro tempo pela Inquisição.”

A <ESCLARECIDA> EUROPA DE HEGEL: “Sin embargo, si un profesor desde la cátedra o un predicador desde el púlpito atacase, por ejemplo, a una determinada religión, no cabe duda de que el gobierno se daría por enterado y tendría perfecto derecho a intervenir, por grande que fuese el clamor que su intervención levantara.”

Se um professor de cátedra ou um predicador do púlpito atacasse, p.ex., uma determinada religião, não resta dúvida de que o governo se daria por inteirado e teria o perfeito direito de intervir, por maior que fosse o clamor que sua intervenção gerasse.”

Según las leyes atenienses, el acusado, después de ser declarado culpable por los heliastas, como hoy en Inglaterra ante el tribunal del jurado, tenía derecho a oponer a la pena propuesta por el acusador una contrapropuesta de pena, que representaba una atenuación, sin ser una apelación formal; era ésta, sin duda, una excelente institución del derecho procesal ateniense, que acredita un gran sentido de humanidad. No se trataba de la pena en general, sino de la tasación, de la clase de pena que había de imponerse; el fallo de los jueces había decidido ya que Sócrates era culpable y, por tanto, merecedor de una pena. Ahora bien, el hecho de que se dejara al culpable un margen de libertad para fijar o proponer la pena que consideraba justa, no quiere decir que su propuesta pudiera ser arbitraria, sino, por el contrario, adecuada al delito ya reconocido, bien con el carácter de multa o de pena corporal (Meier y Schönemann, Der Attische Process). El hecho de que el culpable o declarado tal se constituyese en juez de sí mismo implicaba ya de suyo que se sometía al fallo del tribunal y reconocía su culpa. Pues bien, Sócrates se negó a señalar para sí una pena, que habría podido consistir en una multa o en el destierro, lo que le permitía optar entre esta pena o la de muerte, que los acusadores proponían.”

Segundo as leis atenienses, o acusado, depois de ser declarado culpado pelos heliastas, como hoje na Inglaterra perante o tribunal do júri, tinha direito a opor à pena proposta pelo acusador uma contraproposta de pena, que representava uma atenuação, sem ser uma apelação formal; era esta, sem dúvida, uma excelente instituição do direito processual ateniense, que transmite um grande sentimento de humanidade. Não se trata da pena em geral, senão da apreciação da classe de pena que dever-se-ia impor; a sentença dos juízes já havia decidido que Sócrates era culpado e, assim, merecedor de uma pena. O fato de que se deixava ao culpado uma margem de liberdade para fixar ou propor a pena que considerasse justa não quer dizer que sua proposta pudesse ser arbitrária, mas, ao contrário, devia ser adequada ao delito já reconhecido, fosse sob o caráter de multa ou de pena corporal. O fato de que o culpado ou assim declarado se constituísse em juiz de si implicava por si só que se submetia à sentença do tribunal e reconhecia sua culpa. Pois bem: Sócrates se negou a escolher uma pena, que teria consistido ou em multa ou no desterro, o que permitia, na prática, que o réu optasse, inclusive, entre o banimento e a pena de morte, que os acusadores propuseram.”

Enfatuadas casuísticas de H….

Un verdadero Estado no puede tolerar en su seno, por ejemplo, a gentes como los cuáqueros, los anabaptistas, etc., que desconocen y rechazan determinados derechos del Estado, como es el de la defensa de la patria. Esta miserable libertad de pensar y creer lo que a cada cual le parezca mejor no puede admitirse, como tampoco el que cada cual se acoja a la conciencia de su deber.”

Um verdadeiro Estado não pode tolerar em seu seio, p.ex., gentes como os quakers, os anabatistas, etc., que desconhecem e rechaçam determinados direitos do Estado, como é o da defesa da pátria. Esta miserável liberdade de pensar e crer o que a cada qual lhe pareça melhor não se pode admitir, nem tampouco que cada qual se refugie na consciência de seu dever.”

De un hombre como Sócrates no podía esperarse otra actitud que la de marchar hacia la muerte del modo más sereno y más varonil. El relato que Platón nos hace de las bellas escenas de las últimas horas de su maestro, aunque no haya en él, por su contenido, nada de extraordinario, quedará para siempre como la imagen grandiosa y el relato ejemplar de un hecho noble.”

De um homem como Sócrates não se podia esperar outra atitude senão a de marchar em direção à morte do modo mais sereno e varonil. O relato que Platão nos faz das belas cenas das últimas horas de seu mestre, ainda que nada haja nesse conteúdo de extraordinário, ficará para sempre como a imagem grandiosa e o relato exemplar de um fato nobre.”

os heróis aparecem como a violência que infringe a lei.”

Os atenienses se arrependeram, mais tarde, da condenação de Sócrates e castigaram a seus acusadores, a uns com a morte e a outros com o desterro. Pois era uma lei ateniense que quem formulava uma acusação se submetia, se a denúncia resultasse falsa, à mesma pena que em caso contrário sofreria o delinqüente. Este é o último ato do drama.”

Sócrates foi condenado à morte porque descobriu o inconsciente. 2200 anos depois um austríaco fraudulento vai criar uma associação internacional para enganar a civilização dizendo que ele descobriu o inconsciente!

O inocente que se vê condenado é, simplesmente, um néscio; por isso são absurdas e insubstanciais essas tragédias em que se enfrentam tiranos e vítimas inocentes, pois não são senão contingências vazias.”

A consecuencia del proceso y la muerte de Sócrates, el puñado de sus amigos y discípulos huyó de Atenas a Megara; entre ellos, Platón. Euclides, que residía allí, se hizo cargo, en la medida de lo posible, de los fugitivos. (Laercio) Al levantarse el fallo dictado contra Sócrates y castigarse a sus acusadores, parte de los socráticos retornó a Atenas y las cosas recobraron su equilibrio. La influencia de Sócrates fue vastísima y determinante en el mundo del pensamiento; y no hay mérito comparable en un maestro al de lograr tan grande influjo y ejercer tal sugestión.”

Una parte de ellos se mantuvo absolutamente fiel a la manera inmediata de Sócrates, sin pasar de ahí. Tal es el caso de una serie de amigos suyos que, en la medida en que fueron escritores, se contentaron con componer diálogos a la manera socrática, bien registrando con la mayor fidelidad histórica posible los sostenidos por ellos mismos con el maestro o los escuchados a otros, bien elaborando estos diálogos a su modo, pero absteniéndose, por lo demás, de toda clase de investigaciones especulativas y manteniéndose, en lo que a su conducta práctica se refiere, firmes y fieles a los deberes de su clase y situación y llevando, así, una vida tranquila y apacible. El más famoso y destacado, entre ellos, es Jenofonte. Pero hubo muchos otros que se dedicaron a escribir diálogos socráticos. Las fuentes mencionan los nombres de Esquines, algunos de cuyos diálogos han llegado a nosotros, Fedón, Antístenes y otros, entre ellos el de un zapatero llamado Simón ‘en cuya taller solía entrar Sócrates a platicar y que más tarde se dedicó a registrar por escrito sus charlas con el maestro’. Los títulos de sus diálogos, así como los de los otros socráticos que dejaron escritas obras de esta clase, aparecen citados en Diógenes Laercio (II, 122 s., 60 s., 105; VI, 15-18). Sin embargo, estas obras no tienen más que un interés puramente literario”

A verdade e a essência não são o mesmo; a verdade é a essência pensada, enquanto que a essência é o em si simples.” “A consciência de si mesmo se manifesta nestes, [no conhecer e no saber] de uma parte, como o ser para si e, de outra parte, como o ser: uma vez consciente desta diferença, retorna dela à unidade de ambos. Esta unidade, o resultado, é o sabido, o consciente, o verdadeiro.”

Los socráticos que presentan un valor peculiar pueden agruparse, según esto, en 3 escuelas: la primera es la de los megáricos, al frente de la cual se halla Euclides de Megara; la segunda, la de los cirenaicos; la tercera, la de los cínicos. Ya el mismo hecho de que difieran considerablemente entre sí las doctrinas de estas 3 escuelas socráticas indica claramente que Sócrates, maestro e inspirador de las 3, no llegó a tener un sistema positivo.” “El principio de los cirenaicos se desarrolla más tarde, de un modo científico, en el epicureísmo y el de los cínicos es desarrollado por los estoicos.”

Este Euclides, que no debe confundirse con el matemático del mismo nombre, es aquel de quien se cuenta que, reinando una gran tirantez de relaciones entre Atenas y su patria, Megara, en los momentos de mayor hostilidad se deslizaba en la ciudad de Atenas disfrazado de mujer y exponiéndose a ser condenado a muerte, sólo por el gusto de escuchar a Sócrates y estar cerca de él. Parece que este Euclides, pese a su manera de discutir y hasta en sus disputas mismas, era el más pacífico de los hombres. Cuéntase que, en una discusión, su contrincante se excitó tanto, que exclamó, en un arrebato de indignación: ‘¡Que me caiga muerto si no me vengo de ti!’. Y que Euclides replicó, con la mayor tranquilidad del mundo: ‘!Y yo me caiga muerto si no soy capaz de aplacar tu cólera con la dulzura de mis palabras, para que sigas amándome como hasta aquí!’

Se han conservado muchas anécdotas acerca del arte de discutir de estos pensadores, por las cuales vemos que lo que a nosotros nos parecen bromas eran, para ellos, problemas muy serios.”

Algunos de los innumerables giros a que aquellos pensadores se entregaban para embrollar la conciencia en las categorías han llegado hasta nosotros con sus nombres; son, principalmente, los sofismas cuya invención se atribuye a Eubúlides de Mileto, discípulo de Euclides.”

la seriedad alemana destierra todo lo que sean juegos de vocablos como vanos entretenimientos ingeniosos.” Até os anglófonos têm um Joyce, vocês não! Mas o que dizer de quem nunca possuiu nem de longe um Shakespeare?

Para ellos, [os gregos em geral, não só os megáricos] en los casos de antagonismo entre la palabra y la cosa, debía darse preferencia a la palabra; las cosas no expresadas son, en rigor, cosas irracionales, ya que lo racional existe solamente como lenguaje.

En los Elencos sofísticos de Aristóteles encontramos muchos ejemplos de éstos, tomados de los antiguos sofistas y de los erísticos [sinónimo de megáricos], así como las soluciones correspondientes.”

También en Platón encontramos juegos de palabras y frases de doble sentido de éstas, empleados con el fin de ridiculizar a los sofistas y poner de manifiesto en qué nimiedades paraban su atención. Pero los erísticos fueron aún más allá por este camino, llegando incluso a convertirse, como Diodoro, en una especie de bufones de las cortes, por ejemplo en la de los Tolomeos”

“— ¿Quién es eso?

Es Corisco.

¿Pero Corisco no es del género masculino?

Sí.

Eso es del género neutro, de modo que eso no puede ser Corisco” Aristóteles, De soph. elench., cap. 14

En otro lugar, desarrolla Aristóteles el argumento de ‘tienes por padre un perro’, lo que vale tanto como decir que tú mismo eres un perro; argumento que Platón, como veíamos más arriba atribuye a un sofista.” A.k.a., formalmente a mãe pode chamar o filho de ‘filho da puta’, não vemos nenhum óbice a isso (ela continuará íntegra, o filho será reputado mau caráter, etc.).

En la invención de juegos sutiles de éstos fueron verdaderamente inagotables los griegos de aquel tiempo y de una época posterior. Cuando estudiemos los escépticos, veremos cómo se desarrolla en ellos y se eleva a un punto superior el lado dialéctico.”

He aquí otra anécdota que se cuenta de Estilpón, en el mismo sentido. ‘Estaba platicando con Crates, un cínico, e interrumpió la plática para comprar pescado. Crates, su interlocutor, le dijo: ¿Cómo, abandonas el discurso? (en el sentido en que, en la vida corriente, nos reímos o pensamos que es incapaz quien, al parecer, no sabe replicar a lo que se le dice, considerando el discurso como algo tan importante, que se considera mejor contestar algo, lo que sea, que guardar silencio, es decir, dejar sin respuesta una pregunta.) A lo que contestó Estilpón: Nada de eso, no abandono el discurso, sino que te abandono a tí, pues el discurso queda, pero el pescado se vende.’”

yo soy algo mentado, [já mencionado] y no puedo precisarme a mí mismo.”

Si preguntamos: ¿quién está ahí?, la respuesta rezará: yo, todos los yos.”

Tengo ahora tantos años; pero este ahora de que hablo no es solamente éste, sino que son todos los ahoras.”

Ahora tengo 35 años, y ahora vivimos en el año 1805 del nacimiento de Cristo; ambos momentos se determinan solamente entre sí, pero la totalidad aparece indeterminada. Que ahora hayan transcurrido 1805 años desde el nacimiento de Cristo es una verdad que pronto carecerá de sentido; y la determinabilidad del ahora tiene un antes y un después de determinaciones sin principio ni fin.” Tenho a idade de Cristo e vivo agora no ano 2021 de seu nascimento. Mais de 200 anos desde que Hegel dava suas aulas…

Nunca tinha ouvido falar de Estilpo.

En efecto, si hombre y bueno o caballo y carrera fuesen uno y lo mismo, no podría decirse que el pan y la medicina son buenos o que el león y el perro corren” Plutarco

“Pero, ¿acaso algún hombre ha vivido peor a causa de esto? ¿Quién que escuche estas palabras no se dará cuenta de que se trata simplemente de un culto juego de ingenio?” Eu, que me ponho a ler isso!

Los cirenaicos toman su nombre de Aristipo de Cirene, en África, que fue el fundador y jefe de esta escuela.” “Los cirenaicos expresaban con ello su especial subjetividad, y lo mismo hacían los cínicos; ambas escuelas persiguen, por tanto, en el fondo, una y la misma finalidad: la libertad y la independencia del individuo.” “Fue el primer socrático que cobró dinero por sus enseñanzas; fiel a este criterio, había enviado dinero a Sócrates para pagarle lo que había aprendido de él, pero sin que Sócrates lo aceptase.”

En Aristipo [o jovem, discípulo de Sócrates e do primeiro Aristipo], lo más importante es su carácter, su personalidad; los rasgos que de él se han conservado corresponden más bien a su tipo de vida que a sus doctrinas”

Cuando se nos dice que alguien hace del placer su principio, tenemos inmediatamente la impresión de que ese hombre es, en el disfrute del placer, un hombre dependiente y el placer, por tanto, contrario al principio de la libertad. Pero no es así como debemos representarnos ni la escuela cirenaica ni la escuela epicúrea, que mantienen, en conjunto, el mismo principio. Pues, por sí misma, bien podemos afirmar que la determinación del placer es un principio opuesto a la filosofía; pero, en cuanto que se hace de la formación del pensamiento la única condición bajo la que puede alcanzarse el placer, se mantiene a salvo la completa libertad del espíritu, ya que es inseparable de la formación de éste.”

Aristipo gozó, dice de él Diógenes [Laércio], del placer del presente, sin preocuparse de lo que no formaba parte de éste; sabía acomodarse a todas las situaciones, se encontraba bien en todas las circunstancias, lo mismo en las cortes de los reyes que en las más míseras condiciones de vida. Cuéntase que Platón le dijo una vez: sólo tú eres capaz de vestir lo mismo la púrpura que los andrajos. Pasó algún tiempo en la corte de Dionisio, donde gozaba de grandes simpatías, pero dando pruebas de una independencia cada día mayor; por eso Diógenes el Cínico le daba el nombre del ‘perro real’.” HAHAHA

Como una persona que quería confiarle la educación de su hijo encontrara demasiado elevada la suma de 50 dracmas que le pedía por sus enseñanzas y le dijera que con ese dinero podía comprar un esclavo, Aristipo le replicó: Hazlo, y así tendrás 2 esclavos, en vez de 1. Un día, le preguntó Sócrates: ¿de dónde tienes tanto dinero? A lo que replicó Aristipo: ¿y de dónde tienes tú tan poco? A una hetaira que le anunció que iba a tener un hijo de él, le contestó con estas palabras: es tan poco seguro que sea mío, como si, atravesando por un seto [uma cerca] de espinas, aseguraras saber cuál espina te ha picado.”

Habiéndole escupido Dionisio, lo soportó pacientemente y, a quienes le censuraban por ello, les dijo: si los pescadores dejan que les moje el mar para pescar unos cuantos pececillos, ¿cómo no voy a mojarme yo para pescar esta ballena? Como quiera que Dionisio lo invitara a elegir una hetaira entre 3, se quedó con las 3, diciendo que hasta Paris había arrostrado grandes riesgos por elegir de 3 una, pero al llegar al dintel de la casa, las dejó marchar a las 3.”

Se cuenta que llegó a pagar 50 dracmas (cerca de 20 florines) por una perdiz. A alguien que se burlaba de él, le preguntó: ¿no la habrías comprado tú por un óbolo? Sí, le contestó el otro, a lo que replicó Aristipo: pues bien, para mí 50 dracmas valen lo mismo. En una travesía al África, vio que a su esclavo se le hacía demasiado duro cargar con una determinada cantidad de dinero, y le dijo: arroja lo que te sobre y transporta solamente lo que puedas.”

A quienes, dedicándose al cultivo de otras ciencias, descuidaban la filosofía, los comparaba Aristipo a los pretendientes de Penélope en la Odisea, que podían llegar a poseer a Melanto y a las demás criadas, pero que jamás se adueñaron de la reina.”

Entramos con ello en un campo en el que 2 clases de determinaciones constituyen el interés fundamental en torno al cual giran las muchas escuelas socráticas que se forman, con excepción de las de Platón y Aristóteles, y principalmente las de los estoicos, los neoacadémicos, etc. (…) Y surge así la noción del sabio: lo que el sabio hace, lo que el sabio es, etc.”

SÉCULOS JOGADOS FORA: “Esta retórica acerca del sabio como ideal es muy general entre los estoicos, los epicúreos, etc., pero carece de sentido. Pues no se trata del hombre sabio, sino de la sabiduría del universo, de la razón real.” Talvez alguns homens devessem permanecer apenas nos jogos de linguagem!

Entre los cirenaicos de un período posterior hay que citar, en primer lugar, a Teodoro, quien se hizo célebre al negar la existencia de los dioses, lo que le valió el ser desterrado de Atenas. Ahora bien, este dato no tiene, en realidad, mayor interés, ni entraña tampoco ninguna significación especulativa, pues los dioses positivos cuya existencia negaba Teodoro no son tampoco, en cuanto tales, objeto de la razón especulativa.”

La rareza, la novedad o la saciedad del placer engendra en algunos placer, en otros fastidio o malestar. La pobreza y la riqueza no influyen para nada en lo agradable o lo desagradable, pues no vemos que los ricos gocen más o mejor que los pobres. También son indiferentes, en cuanto a ese resultado, la esclavitud y la libertad, la nobleza o falta de nobleza del nacimiento, la fama o la carencia de ella. Sólo al necio le importa vivir, al sabio le es indiferente” Heguesías, espécie de elo perdido entre os cirenaicos, cínicos e estóicos.

El sabio obra solamente en gracia a sí mismo; no considera igualmente digno de él a ningún otro. Por grandes que sean los beneficios que de otros reciba, nunca podrán igualarse a los que a sí mismo se debe.” (Estes trechos são paráfrases de Laércio)

Cuéntase que a Heguesías, que vivía en la ciudad de Alejandría, le fue prohibida la enseñanza por el Tolomeo que a la sazón ocupaba el trono, porque inculcaba a sus oyentes una indiferencia y un fastidio de la vida tan grandes que muchos de ellos se la quitaban.”

La amistad no debe cultivarse solamente por el provecho que pueda reportar, sino en gracia a la benevolencia a que ello conduzca; y, por amor hacia el amigo, deben aceptarse también las cargas y las molestias consiguientes” Aniceris

CÍCERO O REI DO POP: “la doctrina de los cirenaicos decae y se convierte más y más en una doctrina popular. Es éste, pues, el segundo viraje que se advierte en la trayectoria de la escuela cirenaica, ya que el primero consistió en saltar el principio mismo. Surge así un tipo de filosofía moral que más tarde predominará también en Cicerón y en los peripatéticos de su tiempo; no se conserva ya interés alguno en lo tocante a la consecuencia del pensamiento.”

Poco es lo que hay que decir acerca de los cínicos, ya que no imprimieron gran desarrollo a la filosofía ni supieron crear tampoco un sistema de las ciencias; fue más tarde cuando los estoicos se encargaron de elevar sus proposiciones a una disciplina filosófica.”

En este sentido, los cínicos se enfrentan, a primera vista, con los cirenaicos, pues mientras que éstos consideran el sentimiento como principio, aunque ampliado en términos de generalidad y de perfecta libertad en cuanto que tiene que ser determinado por el pensamiento, aquéllos arrancan de la libertad e independencia completas como determinación del hombre. Sin embargo, como esto es, en realidad, la misma indiferencia de la conciencia de sí mismo que Heguesías proclamara como la esencia, tenemos que los extremos del pensamiento cínico y del cirenaico se levantan por obra de su propia consecuencia, convirtiéndose en fases de transición del mismo pensamiento.”

La actitud negativa ante eso es, aquí, lo determinante, y este mismo antagonismo entre los cínicos y los cirenaicos lo veremos manifestarse, más tarde, entre los estoicos y los epicúreos.” “La escuela cínica no reviste importancia científica alguna; constituye solamente un momento histórico que tiene que darse necesariamente en la conciencia de lo general, a saber: el momento que consiste en que la conciencia, en su individualidad, se sepa libre de toda dependencia con respecto a las cosas y al disfrute.”

El primer cínico fue Antístenes, ateniense y amigo de Sócrates. Vivía en Atenas y enseñaba en un gimnasio llamado el Cinosargo; a este pensador se le conocía por el nombre del Simple Perro.” Os cínicos têm alguma fixação pelos cães!

La virtud se basta a sí misma y sólo necesita una cosa: la fuerza de carácter de un Sócrates. El bien es bello y el mal feo. La virtud consiste en obras y no necesita de muchas razones ni de doctrinas. El destino del hombre es llevar una vida virtuosa. El sabio se contenta consigo mismo, pues posee cuanto los demás parecen poseer. Le basta con su propia virtud; tiene por casa el mundo entero. Si no le rodea la fama, esto debe considerarse más bien como un beneficio que como un mal.” De novo a fonte é Laércio

Es, de nuevo, la aburrida retórica acerca del sabio, que más tarde recibirá nuevo incremento, hasta el fastidio, con los estoicos y los epicúreos. En este ideal, en que se trata del destino del sujeto, se considera como el camino hacia su consecución la mayor simplificación posible de sus necesidades.”

Antístenes es todavía una figura noble dentro del campo de la filosofía cínica. Pero no están ya lejos de ella la tosquedad, la vulgaridad de la conducta, el impudor que caracterizarán a los cínicos de una época posterior.”

La indumentaria del cínico era extraordinariamente sobria: un grueso garrote de olivo silvestre, un manteo agujereado y lleno de remiendos sin más ropa debajo y que, por las noches, hacía además de cama, un saco de mendigo para guardar los víveres más indispensables y un vaso para beber agua: tal era, sobre poco más o menos, el atuendo de los cínicos.” Se Laércio erra ou mente, nunca ficaremos sabendo como eram realmente os cínicos…

ya Sócrates considerara como una manifestación de vanidad la buscada pobreza de los cínicos en el vestir. ‘Como Antístenes pusiera al descubierto uno de los agujeros de su manteo, Sócrates le dijo estas palabras: <por el agujero de tu manteo veo tu vanidad.>’

El corte de mi levita se halla determinado por la moda, pero de ello se encarga el sastre; no es misión mía meterme a inventar en esta materia, pues hay, gracias a Dios, otros que lo hagan.”

Se le llamaba ‘el perro’, lo mismo que él había llamado a Aristipo ‘el perro real’, pues a Diógenes le ocurría con los muchachos de la calle lo mismo que a Aristipo con los reyes.”

Sabido es que arrojó para siempre el vaso, cuando vio a un muchacho beber en las manos.”

Este filósofo rondaba por todas partes, viviendo a la ventura: en las calles y plazas de Atenas, en un tonel; ordinariamente, pasaba el tiempo e instalábase a dormir en la Stoa de Júpiter, en Atenas, diciendo que los atenienses le habían construido una magnífica residencia.”

Antístenes y Diógenes vivieron en Atenas, y sólo podían existir allí. Pero, en general, para que haya cultura es necesario que el espíritu se oriente hacia la más grande variedad de necesidades y de modos de satisfacerlas. Las necesidades se han multiplicado mucho en los tiempos modernos, y esto hace que las necesidades generales se dividan en muchas necesidades especiales y en muchos modos especiales de satisfacerlas; esto forma parte también de las actividades del entendimiento, entre las cuales encuentra cabida el lujo.”

Lo único que de Diógenes podemos referir son anécdotas. En un viaje por mar a Egina cayó en poder de los piratas, quienes decidieron venderlo como esclavo en Creta. Preguntado acerca de lo que sabía hacer, contestó: ‘mandar sobre hombres’ y pidió al heraldo que pregonase: ¿quién quiere comprar amo? Lo compró un tal Jeníades de Corinto, cuyos hijos recibieron sus enseñanzas.”

Diógenes estaba, un día, lavando una col [couve] cuando acertó a pasar por delante de él Aristipo, y le gritó a éste: si supieses lavar tú mismo la col, como yo lo hago, no andarías corriendo detrás de los reyes.”

Cuando le daban una paliza, [surra] lo que debía ocurrir con harta frecuencia, a juzgar por las muchas anécdotas que acerca de ello circulaban, se ponía grandes parches sobre las heridas y escribía encima los nombres de los agresores, para exponerlos de este modo a la censura de todos. Cuando los muchachos de la calle le rodeaban y le decían, para irritarlo: ‘tenemos miedo a que nos muerdas’, les replicaba: ‘no tengáis cuidado, pues los perros no comen acelgas.’ En una comida, uno de los comensales se dedicó a arrojarle huesos, como a los perros; entonces, el filósofo se fue hacia él, levantó la pierna y lo meó, como un can.”

Antístenes y Diógenes eran, como hemos visto, hombres de espíritu muy cultivado. Los cínicos que vienen después producen también indignación por sus extremos de desenfado; no son, por lo demás, sino repugnantes mendigos a quienes produce indecible satisfacción irritar a los demás con sus desvergüenzas. No hay para qué tenerlos en cuenta en una historia de la filosofía, y merecen en el pleno sentido de la palabra el nombre de ‘perros’ que en tiempos se dio a esta escuela filosófica, pues el perro, esta bestia desvergonzada, caracteriza plenamente su modo de ser.” Parte talvez mais inútil, mas a mais engraçada do livro!

Era tío suyo, hermano de su madre por línea paterna, aquel famoso Critias, que había mantenido también trato con Sócrates durante largo tiempo y que era, sin duda alguna, el más inteligente, el más espiritual y, por tanto, el más peligroso y el más odiado de los Treinta Tiranos de Atenas. Los antiguos suelen citar el nombre de Critias al lado de los del cirenaico Teodoro y de Diágoras de Melos, entre los de los que negaban a los dioses (…) A un hombre como Platón, nacido en el seno de tan noble familia, no podían faltarle los medios necesarios para su educación. Recibió de los más prestigiosos sofistas de su tiempo una enseñanza que desarrolló en él todas las aptitudes que cumplían a un ateniense. El nombre de Platón lo recibió más tarde, de su maestro; su familia le había dado el de Aristocles.”

Después de ahondar en el estudio de la filosofía, perdió el interés por la poesía y los negocios públicos y los abandonó totalmente para dedicarse por entero a las ciencias. Cumplió con sus deberes militares como ateniense; al igual que Sócrates, se dice que tomó parte en 3campañas.”

La Academia era un bosquecillo o paseo consagrado al héroe Academo, en el cual se levantaba un gimnasio. Pero el verdadero héroe de la Academia acabó siendo Platón, quien desplazó el antiguo significado del nombre de este lugar y oscureció al héroe a quien estaba consagrado, haciendo que pasara a la posteridad bajo la égida y la gloria del suyo propio.”

El tirano de Siracusa era uno de esos hombres mediocres que aunque, en su medianía, aspiren a la gloria y a los honores, no llegan a ser nunca profundos ni son capaces de nada serio, sino que aparentan, simplemente, serlo y carecen de toda firmeza de carácter; un querer y no poder, como esos personajes que la ironía moderna lleva a la escena, que creen ser virtuosos y excelentes y que no son, a la verdad, más que bribones. Una relación como la que Platón se proponía era irrealizable, pues sólo las medianías se dejan guiar por otros, pero, al mismo tiempo que dan pie para la realización de tales planes, los llevan siempre al fracaso.”

Platón abandonó, pues, la corte de Siracusa; sin embargo, después de la separación ambos sintieron la necesidad de volver a verse. Dionisio llamó de nuevo a su corte al filósofo, pues no podía hacerse a la idea de no haber sabido ganarlo por entero para sí; encontraba insoportable, sobre todo, el hecho de que Platón no quisiera abandonar la amistad de Dión. Platón cedió a las instancias tanto de su propia familia y de Dión, como, principalmente, a las de Arquitas y otros pitagóricos de Tarento, a quienes había recurrido Dionisio y que se interesaban por lograr una reconciliación entre el tirano, Dión y Platón; salieron, incluso, garantes de su seguridad y libertad, decidiendo, así, al filósofo a ponerse de nuevo en viaje. § Dionisio no podía soportar ni la presencia ni la ausencia de Platón, y no cabe duda de que la primera le producía embarazo.”

En nuestro tiempo, en estos últimos 30 años, se han redactado también muchas constituciones nuevas; es ésta una tarea fácil de realizar para quien se halle habituado a esta clase de trabajos. Sin embargo, el talento teórico no basta para redactar una constitución viable, pues los que las hacen no son los individuos, sino algo espiritual, algo divino, que se realiza a través de la historia.”

Platón vivió honrado en todas partes, sobre todo en Atenas, hasta el primer año de la 108ª Olimpíada (348 a.C.). Murió el día en que cumplía años, en un banquete de bodas, a los 81 de edad.”

esta filosofía ha sido concebida en cada época de distinto modo y ha sufrido, sobre todo, las ingerencias y tergiversaciones de manos muy torpes en los tiempos modernos, que no han tenido inconveniente en introducir en estos escritos sus propias concepciones, incapaces de captar espiritualmente lo espiritual, o considerando como lo más esencial y más notable de la filosofía platónica lo que, en realidad, no pertenece al campo de la filosofía, sino al modo de pensar o de representarse las cosas; pero, en rigor, es el desconocimiento de la filosofía lo que entorpece la comprensión de la filosofía platónica.” Que ironia, já que Hegel põe Platão abaixo de Aristóteles e não reconhece sua verdadeira grandeza!

Hacer de él algo insuperable, como el punto de vista en que nosotros mismos deberíamos situarnos, es una de las debilidades propias de nuestro tiempo.” Basta substituir debilidades por forças ou qualidades e vemos o quanto H. acertaria em cheio! A roda do tempo não perdoa, e hoje gostaríamos de poder ter ao menos a força de suportar esse pensamento: usar Platão como uma estrela-guia. O pós-modernismo é fraco demais, mas tem, melhor que a época de Hegel, esse arrependimento vivo no lugar da hipocrisia etnocêntrica.

Así como en pedagogía algunos aspiran a educar al hombre para precaverlo contra el mundo, es decir, para que se encierre en un círculo aparte —por ejemplo, en un despacho, o viva idílicamente plantando y cultivando habas—, en el que no sepa nada de lo que pasa en el mundo ni tome conocimiento de él, así también en la filosofía se ha retornado a la fe religiosa y a la filosofía platónica.

Estaría justificado el tratar de retornar a Platón para volver a aprender de él (la idea de la filosofía especulativa); pero es una tontería expresarse en términos tan hermosos, a gusto y antojo del que escribe, acerca de la belleza y la excelencia de estos escritos.”

Sobre todo, las disquisiciones literarias del señor Schleiermacher, [justo as que Luisa Buarque recomendou] los sondeos críticos que se hacen para averiguar si estos o los otros diálogos secundarios son auténticos o apócrifos (pues acerca de los principales apenas dejan lugar a dudas los testimonios de los autores antiguos), son absolutamente superfluos en filosofía y nacen, en realidad, de ese espíritu hipercrítico tan característico de nuestra época.”

DESCONSTRUINDO O MITO DOS <DOIS PLATÕES>: “Para comunicar algo puramente externo no se necesita mucho, pero para transmitir a otro una idea hace falta habilidad, y ésta es siempre algo esotérico; por eso los filósofos no son ni pueden ser nunca simplemente exotéricos. Estas no pasan de ser nociones puramente superficiales.”

La filosofía no es, pues, algo individual, como una obra de arte; y tampoco de ésta puede decirse que lo sea nunca en absoluto, pues también el artista recibe de otros y desarrolla por cuenta propia, al ejercerlas, las aptitudes artísticas. La invención del artista, su inspiración, es el pensamiento de su todo y la inteligente aplicación de los medios con que se encuentra, ya preparados; los motivos directos de inspiración y las verdaderas invenciones pueden ser infinitos.”

La forma externa incluye, en primer lugar, la escenografía y el elemento dramático. Platón sitúa sus diálogos en un ambiente de realidad, en lo tocante al medio en que se desenvuelven y a los personajes que en ellos intervienen, y toma siempre como punto de partida un motivo individual, que reúne a los personajes y da un carácter de verosimilitud muy agradable y abierto a sus coloquios. El personaje principal, en estos diálogos, es Sócrates; entre los demás interlocutores aparecen muchas primeras figuras conocidas de nosotros, tales como Agatón, Zenón, Aristófanes, etc. El autor nos sitúa, además, en un lugar concreto: el Fedro (p. 229 Steph., p. 6 Bekk.) se desarrolla a la sombra de un plátano junto a las claras aguas del Iliso, que Sócrates y Fedro cruzan; otros diálogos tienen por escenario los pórticos de los gimnasios, la Academia, la sala en que se celebra un banquete. Mediante el recurso de no intervenir nunca personalmente, poniendo siempre sus pensamientos en boca de otros personajes, Platón logra suprimir totalmente en sus diálogos lo que pudiera haber en ellos de tesis, de elemento dogmático. Tampoco aparece en los diálogos platónicos un sujeto encargado de narrar, como en la historia de Tucídides o en los poemas de Homero. Jenofonte

aparece, a veces, en persona y, a veces, deja traslucir claramente su intención de justificar por medio de ejemplos la doctrina y la vida de Sócrates. En Platón, por el contrario, todo es absolutamente objetivo y plástico, y le vemos desplegar un gran arte para evitar todo lo que sea puramente expositivo, desplazándolo a veces, incluso, a la tercera o cuarta persona.”

Pero esta urbanidad no debe confundirse con el temor a herir susceptibilidades, sino que lleva consigo, por el contrario, una gran valentía y una gran franqueza, y es esto precisamente lo que constituye el encanto de los diálogos platónicos.”

Ocurre aquí como en el repaso del catecismo: las respuestas están establecidas de antemano, sin el menor margen de sorpresa, pues el autor hace que los personajes contesten como él cree que deben contestar. Y las preguntas suelen estar formuladas en un tono tan perfilado, tan tajante, que sólo pueden contestarse en términos muy simples; y en esto estriba precisamente la grandeza y la belleza de este arte literario del diálogo, que es, al mismo tiempo, lo que lo hace aparecer tan sencillo.”

A época de Hegel não tinha os pré-requisitos para entender a Idéia.

A CRÍTICA QUE VIROU ELOGIO: “Sin embargo, en los conceptos platónicos puros no aparece superada la representación como tal: o bien no se dice que estos conceptos sean su esencia, o no son, para Platón, otra cosa que una representación, y no algo esencial”

El concepto adulto no necesita ya apoyarse en el mito.”

SOBRE O ‘GOVERNO DOS FILÓSOFOS’ (OU RUDIMENTOS DE UMA CIÊNCIA POLÍTICA AINDA NÃO INICIADA EM 2021): “Y Platón pone en boca de Glaucón la siguiente réplica: ‘Has pronunciado, ¡oh Sócrates!, palabras tales y has expresado cosas, que necesariamente debes suponer que una muchedumbre de hombres, y no malos, están dispuestos a arrojar sus mantos y echar mano de la primera arma que tengan a su alcance para marchar en filas cerradas contra tí; y, como no consigas aplacarlos con razones, te aseguro que lo pagarás muy caro.’ (libro V).

Platón proclama aquí, pura y simplemente, la necesidad de unificar la filosofía y el gobierno. Puede considerarse, sin duda, como una gran arrogancia esto de postular que se confíe a los filósofos el gobierno de los Estados, pues una cosa es el terreno de la historia y otra cosa muy distinta el terreno de la filosofía. Es cierto que en la historia debe manifestarse la idea como el poder absoluto; dicho en otras palabras: Dios gobierna el universo. Pero la historia es la idea realizada por la vía natural, no con la conciencia de la idea. Es verdad que se obra con arreglo a los pensamientos generales del derecho, de la moral, de lo grato a Dios; pero no hay que olvidar tampoco que, en sus actos, el sujeto busca también, como tal, la consecución de sus particulares fines. La realización de la idea se lleva a cabo, por tanto, mediante una mezcla de pensamientos y conceptos con fines inmediatos y particulares, de tal modo que esa realización sólo se produce, de una parte, mediante el pensamiento y, de otra parte, a través de las circunstancias, de los actos humanos, en cuanto medios. Con frecuencia, estos medios parecen ser contrarios a la idea, pero esto no perjudica en nada a su realización, pues todos aquellos fines determinados y concretos no son sino los medios empleados para producir la idea, ya que ésta es el poder absoluto. Por tanto, la idea acaba realizándose en el mundo, quiérase o no; pero para ello no hace falta que los gobernantes obren movidos por una idea.

Sin embargo, para poder juzgar el postulado platónico de que los regentes de los pueblos deben ser filósofos hay que tener en cuenta, indudablemente, qué hay que entender por filosofía en sentido platónico, y en general, en el sentido de aquel tiempo. (…) la filosofía platónica es, por tanto, la conciencia de lo verdadero y justo, en y para sí, la conciencia y la vigencia de fines generales dentro del Estado.”

COMO SEMPRE, PORÉM, HEGEL TIRA 10 NOS PROLEGÔMENOS E UM 0 NOS FINALMENTES: “Ahora bien, a lo largo de toda la historia, a partir de las grandes migraciones de los pueblos, en que la religión cristiana se convirtió en la religión universal, no ha habido otra preocupación que la de implantar en la realidad el reino de lo suprasensible, el reino de lo que empezó existiendo solamente para sí, este algo general y verdadero en y para sí, y la de determinar la realidad con arreglo a ello.”

ESCRAVO DA ADMINISTRAÇÃO GERMÂNICA: “Un ejemplo de lo que, en su tiempo, podía hacer un filósofo en el trono lo tenemos en Marco Aurelio; lo único que ha quedado de él en la historia son actos de carácter privado, y no puede decirse que el imperio romano haya ganado nada con el gobierno de este emperador. Federico II, en cambio, ha sido llamado con razón el rey-filósofo.”

Y si se le sacara de la caverna, quedaría cegado por la luz del sol y, deslumbrado con tanta claridad, no podría ver las cosas que llamamos reales y odiaría a quien le hubiese arrastrado hasta la luz, como se odia a quien nos ha arrebatado la verdad, deparándonos en cambio sólo dolor y pena.” Ao invés de mero joguete de uma má consciência (como é levado a crer freqüentes vezes em seus primeiros encontros com o absurdo e o tragicômico, principalmente na infância, adolescência e juventude), o filósofo é o único que vive verdadeiramente. Quantos milhares de seres humanos eu já não conheço com alguma certidão que vivem apenas nas aparências mais foscas?

Hay hombres que gustan de mirar y escuchar, que aman las bellas voces y las formas y colores bellos y todo lo formado por ellos, pero cuyo pensamiento es incapaz de ver y amar lo que hay de bello en la naturaleza.”

¿Qué es la vida para el hombre que, aun reputando las cosas por bellas, no es capaz de captar la belleza misma ni de seguir a quien quiera iniciarle en el conocimiento de ella? ¿Una realidad o un sueño? Fíjate bien. ¿Qué es soñar? ¿No es, ya se duerma o se esté despierto, tomar la imagen de una cosa por la cosa misma?”

La obra iniciada por Sócrates fue llevada a cabo por Platón, quien sólo reconoce como esencial lo general, la idea, lo bueno. Mediante la exposición de sus ideas, Platón puso al descubierto el mundo intelectual, pero sin ver en él un mundo situado más allá de la realidad, en el cielo, en un lugar distinto, sino el mundo real, del mismo modo que Leucipo había acercado lo ideal a la realidad, sin colocarlo—metafísicamente—detrás de la naturaleza. La esencia de la teoría de las ideas ha de buscarse, por tanto, en la concepción de que lo verdadero no es lo que existe para nuestros sentidos, sino que el verdadero y único ser del mundo está en lo determinado de suyo, en lo general en y para sí: el mundo intelectual es, por tanto, lo verdadero, lo digno de ser conocido, lo eterno, lo divino en y para sí. Las diferencias no son esenciales, sino simplemente transitorias; sin embargo, lo que Platón llama absoluto es, al mismo tiempo, como algo único e idéntico consigo mismo, algo concreto de suyo, en cuanto que es un movimiento que retorna a sí mismo y que permanece eternamente cabe sí. Y el amor por las ideas es lo que Platón llama entusiasmo.” Um lugar aqui mesmo, no mundo das aparências, em que os sábios podem conferenciar entre si, sem medo de estarem falando com espectros (solipsistas em alucinação): o termo médio em que os privilegiados realmente se entendem, porque a natureza do saber é Una.

El segundo error con que nos encontramos, en lo tocante a las ideas, consiste, no en situarlas fuera de nuestra conciencia, sino en considerarlas como ideales necesarios para nuestra razón, pero cuyos productos ni tienen realidad ahora, ni pueden llegar a adquirirla nunca.” Aí já depende, meu caro Hegel: do que estamos falando? De simples ‘discussões triviais entre filósofos’ (sobre um mundo-verdade e um mundo das aparências)a – o que é relativamente simples de imaginar que se possa ter cotidianamente, pois muitos são os filósofos, embora sejam minoria, e qualquer filósofo concebe esta distinção bem, ou não seria, por definição, filósofo –; ou do Bem e da Justiça? Porque estes seriam sóis, realmente meras figuras de linguagem, inobteníveis a não ser que estejamos falando de seres muito crédulos e supersticiosos, pasme, maioria deles filósofos!

a Quem está acostumado com a refutação nietzschiana de um mundo-verdade pode ter ficado confuso com este parágrafo – mas alto lá! Um mundo-verdade cristalizado e eterno na acepção chinfrim de frades, é a isto que Nie. objetava! (‘Chega deste Bem, unilateral, estilizado! Para esta concepção ultrapassada, ofereço uma nova discussão, que vá além deste bem e deste mal, mal condicionado por esta visão de bem tão limitada, mal que está prestes a se tornar universal no meio acadêmico ocidental! Só assim é que poderemos recomeçar com coisas sérias! Os idiotas saturaram o nosso meio, o nosso mundo-verdade vivo, precisamos recolher o lixo – são 23:59, mas amanhã é um novo dia!’ – Esta é uma paráfrase bem realista de um Nie. mais direto ainda do que estamos acostumados a ler, se explicando para quem tiver olhos e ouvidos.) Mas o mundo-verdade exclusivo da mentalidade dos filósofos (dos filósofos verdadeiros, palavra tão desvalorizada com o tempo!) nada tem de ossificado e estável – simplesmente porque é orgânico e cambiante enquanto o filósofo vive individualmente e enquanto a raça dos filósofos vive coletivamente, jamais sendo igual a si mesmo – isso! –, um mundo-verdade riacho heraclítico! Uma verdadeira imagem do inferno para o ante-filósofo, um quadro expressionista, tolices e nada mais (estou falando novamente daquele que não tem acesso ao privilégio, o prisioneiro da caverna de Platão). Exemplo: Posso discutir com o Pablo (outro esclarecido) sobre o ser-do-ente e o ser-aí, mas nunca poderemos propor uma síntese da condição humana ou um propósito para a existência – essa faculdade está além de qualquer evento da existência, de qualquer conciliábulo entre os grandes filósofos da História mesmo que se pudessem reunir num auditório além do tempo. De tal encontro nada sairia além do que sói acontecer nas noitadas de bar das gentes mais simples. Mas Hegel imaginou que continha esta sementinha em suas mãos, quanta candura! O girassol escolhido pelo Espírito do Mundo – perfume dos perfumes, essência das essências! ‘Não pedi para nascer no lugar e no tempo certos, mas nasci…’, seria mais ou menos o que ele teria a dizer a respeito de tão imensa (e grata, para ele mesmo) coincidência… O primeiro falastrão europeu a poder dizê-lo, bem como o último!

Parafraseando Górgias, ainda que fosse possível combinar entre alguns entes um propósito para a existência, este acordo simplesmente não seria fechado nem posto em prática! Mas a verdade é que faltam inclusive as condições de possibilidade dessa suposta negociação – mesmo que houvesse um ente em algum ponto capaz de levantar um propósito universal (o que já seria absurdo), ele sequer saberia como formulá-lo em sua mente; e se, mais incrível ainda, houvesse dois desses seres, separados por várias gerações e milhares de quilômetros, e mesmo se eles pudessem conversar fluentemente num mesmo idioma numa representação miraculosa em que coabitariam o mesmo universo, digo, o mesmo cômodo, e poderiam até se tocar, conversar por alguns instantes –– mesmo assim, ainda assim, esses dois seres acabariam apenas gastando saliva, quem sabe brigando feio, indo às vias de fato! Supondo que se concedesse ainda o fato de ambos estarem munidos da idéia perfeita e entrarem em harmonia absoluta entre si, ainda assim eles se esfumariam de sua sala metafísica logo após este evento único da ‘pós-História universal hegeliana’ e não poderiam contar as novas para a humanidade – QUE PENA! Não estava na lista das coisas que as Parcas coseriam, definitivamente… Não, o jogo do filosofar é infinito, e Platão o sabia.

A forma ansiosa do filósofo é como ele se apresenta externamente, no mundo das aparências. O “ser” do filósofo é o anti-ansioso por excelência: ele não quer se apressar a um fim, a conclusões, ele aproveita as raquetadas do jogo! Legislador ou não (de toda forma no capitalismo é impossível), o filósofo sempre foi e sempre será pelo menos o que hoje se convenciona chamar de artista em sua arte do filosofar… É sem dúvida um jogo que se joga a sua maneira, mas essa maneira, essas regras, são idênticas para todo filósofo sério, que joga. E ainda há espaço de sobra para idiossincrasias nesses torneios e nessas justas: Roger Federer, Nadal, Sampras, Rod Laver, Borg, John McEnroe, todos eles tinham suas técnicas e estilos bem diferentes, embora compartilhassem um mesmo fim enquanto dentro da quadra… Como tenista metafísico, Hegel é um menino mimado que perde para o paredão, seu único adversário. Como poderia ele superar Platão só de boca, sem experimentar jogar contra ele? O engraçado é que os piores filósofos foram os únicos que tiveram match points. Todos perderam, entretanto…

É preciso imaginar um jogo de reflexão cansativo, mas em que a massagem poderia nos restituir à partida, sem que jamais abandonássemos o confronto… Seria este o Sísifo contente que Camus figurou?! E mesmo ele passou o jogo inteiro pensando que o principal era definir se desistia ou não…

Falando em existencialistas, esse podia muito bem ser o parágrafo que inspirou Sartre a intitular sua magnum opus: “La opinión [quando, na história da metafísica, a metafísica essencial começa a ficar chata, e o tenista prefere se desconectar do jogo, dar uma viajada, i.e., dar maior peso às aparências] es, por tanto, lo intermedio entre la ignorancia y la ciencia [o impossível] y su contenido una mezcla del ser y la nada.” Chamemos esse tênis espiritual de LIMBOBOL! Seria, para continuar nesta alegoria que acabo de inventar, como se alguém da arquibancada se levantasse e desafiasse um tenista profissional – e para calamidade de todos conseguisse fazer frente a ele, por um set inteiro! Filosofar com opiniões… Uma tarde (Zeitgeist) bem atípica, daquelas de que se poderá dizer: há tempo e lugar para tudo nesse mundo ao menos uma vez…

Pensamento único como lobby único do jogador! Você pode até ter e tentar outros, mas é aquele que o levará mais longe, e entrará para a história como sua marca registrada

el Menón, donde afirma (pp. 81, 84 Steph.; pp. 349, 355-356 Bekk.) que, en rigor, no puede aprenderse nada, sino que el aprender es siempre, simplemente, recordar lo que ya sabíamos, sin que la perplejidad en que la conciencia se ve sea otra cosa que el excitante para ello.”

HEGEL NÃO ENTENDEU QUE A REMINISCÊNCIA É OUTRA FIGURA DE LINGUAGEM PLATÔNICA (de todo modo, não seria tabula rasa, mas tabula funda, assim como a intelecção em Kant): “Esta relación puramente externa, en que el alma aparece como tabula rasa, algo así como el proceso de vida, en que se representa el crecimiento por incorporación de nuevas partículas, es algo muerto y no cuadra a la naturaleza del espíritu, que es subjetividad, unidad, ser cabe sí [Beisich-Sein] y permanencia.”

el aprender es este movimiento, en el que no se incorpora a él nada extraño sino que es su propia esencia la que cobra ser para él o se eleva a su conciencia.”

Claro está que la palabra ‘recuerdo’(*) es, en un sentido, una expresión poco afortunada:¹ concretamente, en el sentido en que alude a la reproducción de una representación que se ha tenido ya en otro tiempo

(*) “Hegel analiza aquí el término Erinnerung, que sí tiene el origen que él le atribuye, [o 2º sentido, após o 1º sentido evidenciado nesta passagem, o de mergulhar em si mesmo] implícito también en el prefijo ‘re’ del término castellano [E.].”

¹ É uma expressão muito afortunada, H.!

² Implicações ‘reminiscência – eterno retorno’. Não existe um Espírito que começou ex nihilo e ainda não se desenvolveu completamente. O mundo já é perfeito e tudo é ‘sabido’ no fenômeno, não importa se no ‘passado’ ou no ‘futuro’, já que o tempo em si não existe (apenas para o indivíduo em questão). Só que o indivíduo não é o filósofo, i.e., é só o recipiente carnal do conhecimento filosófico, objetivo, uno.

Sin embargo, no puede negarse que, en Platón, la palabra ‘recuerdo’ presenta con frecuencia el primero de los dos sentidos, o sea el sentido empírico. Ello se debe a que Platón expone, a veces, por vía de representación y de un modo mítico el verdadero concepto de que la conciencia es, en sí misma, el contenido del saber, por donde se presenta precisamente aquí la confusión entre la representación y el concepto a que nos referíamos antes.”

El esclavo hace, simplemente, que la conciencia brote de su interior, como si se limitara a recordar algo que ya sabía y que había olvidado.

Ahora bien, cuando Platón llama recuerdo a este hecho de que la ciencia brote de la conciencia, va implícito en ello el criterio de que este saber tiene que haber existido realmente, alguna vez, en esta conciencia, es decir, de que la conciencia concreta tiene por contenido este saber no solamente en sí, por su esencia, sino también en cuanto tal conciencia concreta, y no como conciencia general. Pero este momento de lo concreto forma simplemente parte de la representación, y el recuerdo no es pensamiento, pues el recuerdo se refiere al hombre como a un éste sensible, no de un modo general.” Hegel se atém a detalhes técnicos de zero importância. E é surpreendente que leve tão a sério o signo lingüístico nesta ocasião, quando constatamos o que escreveu na Enciclopédia (ver post anterior estrelando Derrida)…

Representa, por tanto, aquel ser en sí del espíritu bajo la forma de un ser antes en el tiempo, como si lo verdadero hubiese existido ya para nosotros en un tiempo anterior. Pero, al mismo tiempo, hay que advertir que Platón no presenta esto como una doctrina filosófica, sino bajo la forma de una leyenda recibida por él de algunos sacerdotes y sacerdotisas, es decir, de gentes que conocen lo que es lo divino.

Este mito se desarrolla de un modo brillante en otros diálogos. Es siempre, evidentemente, el mismo sentido usual del recuerdo, según el cual el espíritu del hombre ha visto en el pasado lo que ahora se revela a su conciencia como algo verdadero, que es en y para sí. Pero, aquí, Platón se esfuerza fundamentalmente en demostrar, mediante esta tesis de la reminiscencia, que el espíritu, el alma, el pensamiento son libres en y para sí; y esto, entre los antiguos y principalmente en la representación platónica, guarda una relación directa con lo que nosotros llamamos la inmortalidad del alma.”

En el Fedro (p. 245 Steph.; p. 38 Bekk.) habla Platón de esto, para demostrar que el eros es una divina locura que nos ha sido dada para nuestra mayor dicha. Trátase de un entusiasmo que entraña una poderosa orientación hacia la idea, tan fuerte que lo domina todo: pero no entusiasmo del pecho y de la sensación, no una intuición, sino una conciencia y un saber de lo ideal.”

Para Platón la inmortalidad del alma se halla directa e indisolublemente relacionada con el hecho de que el alma es, de suyo, [cabe sí!] lo pensante; por donde el pensamiento no es una cualidad del alma, sino su sustancia. Ocurre como con el cuerpo, en que la gravedad no es tampoco una cualidad, sino su sustancia: así como el cuerpo deja de existir si se le quita la gravedad, el alma ya no existe cuando cesa en ella el pensamiento.” “Así, la inmortalidad no tiene, en Platón, el interés que tiene para nosotros desde un punto de vista religioso (…) en él, se halla relacionada más bien con la naturaleza del pensamiento, con esta libertad interior del mismo”

Se parece el alma a una fuerza nacida en dos: en un tronco de alígeros caballos y en un cochero.”

Un alma total tiene a su cuidado todo lo inanimado, hace la ronda en todo el cielo y nace en diversas partes con diversas formas visibles. Cuando está en forma perfecta y alada, marcha por las alturas y gobierna todo el universo; mas cuando se le caen las alas, va atraída hasta que se apodere de ella algo sólido. Ahí pone casa, toma térreo cuerpo que parecerá moverse a sí mismo en virtud de la fuerza del alma; a este conjunto total de alma y cuerpo compacto se le dio el nombre de viviente y recibió el apelativo de mortal.”

HEGEL MUTILA PLATÃO PARA SEUS PROPÓSITOS (no self-service, escolhe apenas o que gosta, não o que seria nutritivo): “Es ésta una gran definición de Dios, una gran idea, que no es, por lo demás, otra cosa sino la definición de los tiempos modernos: la identidad de lo subjetivo y lo objetivo, la inseparabilidad de lo ideal y lo real, es decir, concretamente, del alma y el cuerpo.”

Ahora bien, al caer en este estado, el alma conserva un recuerdo de lo que ha visto, y cuando contempla algo bello, justo, etc., se deja arrebatar por el entusiasmo. Las alas recobran su fuerza, y el alma, sobre todo la del filósofo, se acuerda de su estado anterior, en el que no contempló simplemente algo bello, algo justo, etc., sino la belleza y la justicia misma.”

Pero cuando Platón habla de la ciencia como de un recuerdo, lo hace con la conciencia expresa de que esto no pasa de ser símiles y metáforas; no como los teólogos, quienes tomaban muy en serio la pregunta de si el alma habría tenido una existencia anterior a su nacimiento, y dónde. (…) ni se refiere tampoco a una caída de un estado perfecto, como si el hombre hubiese de considerar esta vida como una prisión, etc., sino que lo que Platón expresa como lo verdadero es que la conciencia es en él mismo, en la razón, la esencia y la vida divinas, que el hombre la contempla y conoce en el pensamiento puro y que este conocimiento es, precisamente, esta misma estancia y este mismo movimiento divinos.”

Lo que en el Fedro aparece nítidamente deslindado como mito y como verdad, no aparece del mismo modo en el Fedón, el famoso diálogo en que Platón hace hablar a Sócrates de la inmortalidad del alma. Siempre se ha considerado como algo verdaderamente admirable el hecho de que Platón anude esta investigación a la historia de la muerte de Sócrates.”

al hombre que va a morir es al que mejor que a nadie le cuadra ocuparse de sí mismo en vez de pensar acerca de lo general, de esta certeza de sí mismo, como de un éste concreto, en vez de ocuparse de la verdad. Por eso, aquí vemos cómo se separan menos que en parte alguna los caminos de la representación y del concepto; sin embargo, la representación con que aquí nos encontramos dista mucho de descender hasta ese nivel de tosquedad en que se representa el alma como una cosa y en que se pregunta, como si se tratara, en efecto, de una cosa, por su duración o su existencia.”

una armonía que escuchamos no es otra cosa que un algo general, un algo simple, formado por la unidad de elementos distintos; pero esta armonía se halla vinculada a una cosa sensible y desaparece con ella, como la música de la lira al desaparecer este instrumento. (…) La armonía sensible presenta, además, distintos grados de afinación y, en cambio, la armonía del alma no revela ninguna diferencia cuantitativa.”

Por lo que se refiere ahora a la educación y formación del alma, es éste un punto que guarda relación con lo anterior. Es necesario, sin embargo, no concebir el idealismo de Platón como un idealismo subjetivo, como aquel idealismo malo que, sin duda, se presenta en los tiempos modernos, como si el hombre no fuese capaz de aprender nada ni fuese determinado exteriormente, sino que todas las representaciones emanasen del sujeto.” H. pensa que está se referindo a Kant, mas não está.

Sobre o conteúdo do parágrafo acima referente unicamente à formação do filósofo em Platão: há um Estado em que essa formação é facilitada, mas esse Estado nunca aconteceu historicamente (e não estamos aqui repetindo Platão, afirmando que até sua Atenas isso não ocorrera – estamos dizendo que nenhum Estado-nação moderno o logrou). A República de Platão é este Estado.

Esta noción, según la cual el saber viene íntegramente de fuera, aparece sostenida en los tiempos modernos por ciertos filósofos empíricos completamente abstractos y toscos, quienes han afirmado que todo lo que el hombre sabe de lo divino lo sabe por obra de la educación y del hábito y que el espíritu no es, por tanto, sino una posibilidad totalmente indeterminada. El punto extremo de esto es la doctrina de la revelación, según la cual todo es infundido desde fuera.” Já aqui H. fala de forma tão áspera que só posso imaginar que se refira aos ingleses e escoceses, e não a Kant, sem sequer dar-se ao trabalho de citar nomes!

AUTOJUSTIFICATIVA DE H. SE DECLARAR UM CALVINISTA: “En la religión protestante, no existe esta tosca noción, por lo menos de este modo abstracto; la fe requiere aquí, esencialmente, el testimonio del espíritu, es decir, que el espíritu subjetivo individual, en y para sí, contenga y establezca de suyo esta determinación, que sólo se le inculca bajo la forma de un algo exteriormente dado.”

DE VOLTA AO VII DA REPÚBLICA: “La razón enseña que en cada cual vive la capacidad inmanente de su alma y el órgano por medio del cual aprende. En efecto, como si el ojo sólo fuese capaz de volverse de las sombras a la luz con todo el cuerpo, así debe volverse el hombre con todo el alma de lo que acaece hacia el ser, hasta que sea capaz de resistirlo y contemplar la suprema claridad del ser.”

El equívoco está en que un contenido no es el verdadero por el mero hecho de que se incorpore a nuestro sentimiento. Por eso, la gran enseñanza de Platón consiste en sostener que el contenido sólo se llena a través del pensamiento, puesto que es lo general, que sólo puede captarse mediante la actividad del pensamiento. Este contenido general es precisamente lo que Platón determina como la idea.” Feuerbach se sentiria devastado caso H. fosse vivo e o rebatesse com este parágrafo.

La otra especie, [la de lo pensado en el alma misma] es aquélla en que el alma parte de una hipótesis y recorre el camino hasta un principio libre de toda hipótesis, sin necesitar de las imágenes como en el primer caso y procediendo únicamente mediante las ideas mismas”

Aquellas figuras que los geómetras dibujan y describen y que se reproducen también ya en su sombra ya en las aguas, las emplean como otras tantas imágenes y tratan de conocer por ellas los originales, que sólo pueden ser vistos por medio de la inteligencia.”

mundo verdade, mundo-vedado.

Acima da ciência baconiana, o axioma; acima do axioma, a ontologia sábia.

Conhecimento que necessite e possa ser provado é um degrau muito inferior quando o assunto é Primeira Filosofia. Quando notamos a importância que os geômetras gregos tinham para Platão, notamos por que a matemática não pode ser considerada uma ciência moderna, embora seja o protótipo para todos os campos empíricos da atualidade. Além das formas e figuras abstratas, entretanto, jaz o que só aqueles capacitados para explorar o mundo-verdade podem acessar. É por isto que a comunicação do filósofo, do saber, não existe, a rigor, com os mortais (aprendizes); eles só podem se comunicar entre si, e quem queira se comunicar com eles deve se elevar. O legado deles é meramente para almas gêmeas, nunca para ‘o populacho’. Eles não enriquecem o mundo, quer dizer, pelo menos não diretamente.

ESCADA DO MUNDO-VERDADE À PURA REPRESENTAÇÃO: “— Comprendo algo, pero no lo bastante. Me parece que quieres afirmar que el conocimiento que de los seres inteligibles se adquiere por la dialéctica es más claro que el que se adquiere por medio de aquellas ciencias para las cuales las hipótesis son principios y están obligadas a valerse de la inteligencia y no de los sentidos, pero, como especulan a partir de supuestos y no se elevan hasta el principio absoluto, parece que no se da en ellas el pensamiento que se daría si se tratase de entes pensados según un principio. Me parece que llamas intelectivo al modo de proceder de la geometría y de las ciencias afines a ella, y de tal modo que ocupa un lugar intermedio entre la razón y la representación.

Has comprendido perfectamente mi pensamiento. Con arreglo a estas 4 distinciones, indicaré ahora cuáles son las 4 maneras de comportarse del alma: el pensamiento comprensivo tiende a lo supremo; la inteligencia a lo segundo; lo tercero se llama fe [onde estaria o método científico moderno no nosso esquema], la última es el saber figurado [la opinión]. Ordénalas según su mayor o menor evidencia, según que sus objetos participen más o menos de la verdad.”

Los antiguos daban a la lógica el nombre de dialéctica, cuya incorporación atribuyen expresamente a Platón los antiguos historiadores de la filosofía. No se trata de una dialéctica como la que vimos más arriba, al tratar de los sofistas, que sirva para embrollar todas las representaciones, sino que esta primera rama de la filosofía platónica es la dialéctica que se mueve a través de conceptos puros”

Engraçado como até agora As Leis não estão nem en passant no escopo das lições de H.! P.S.: E realmente ficaram de fora, como se fosse obra não-canônica!

El Timeo completábase con el Critias en el sentido de que mientras el primero trataba del origen especulativo del hombre y de la naturaleza, el Critias pretendía ofrecer la historia ideal de la formación del hombre, una historia filosófica del género humano, que era lo que aspiraba a ser la historia antigua de los atenienses, tal y como se conservaba entre los egipcios; pero sólo la primera parte de este diálogo ha llegado a nosotros. Si a La República y el Timeo añadimos el Parménides, tenemos en estos diálogos juntos, en realidad, todo el cuerpo de la filosofía platónica.”

PREVENÇÕES CONTRA O NIILISMO (Emergindo do reino das sombras): “Por eso Platón, en su República VII, aconseja que los ciudadanos sólo sean admitidos a la dialéctica a los 30 años cumplidos, ya que alguno podría convertir por su medio en algo ignominioso las cosas bellas escuchadas a los maestros.”

DEPOIS QUE O PUPILO JÁ SE ACOSTUMOU À CLARIDADE: “Lo general se determina, por tanto, como aquello en que se disuelven y se han disuelto ya las contradicciones y, por tanto, como lo concreto de suyo; por donde este levantamiento [suspensão] de las contradicciones es lo afirmativo.”

Esta dialéctica especulativa, que arranca de él, es, por tanto, lo más interesante, pero también lo más difícil en las obras de Platón; es, así, lo que generalmente no se llega a conocer cuando se estudian las obras de este autor.” Especulativo é um nome horrível que está manchado, para um processo tão nobre!

SAPO NO TENNEMANN: “Apenas puede concebirse mayor ausencia de espíritu en un historiador de la filosofía, que el no ver, tratándose de una figura tan gigantesca como ésta, sino lo que concuerde con el modo de ver de quien hace la historia.”

La grandeza verdaderamente especulativa de Platón, aquello por lo que hace época en la historia de la filosofía y, por tanto, en la historia universal, consiste en haber determinado y precisado lo que es la idea: este conocimiento estaba llamado, en efecto, a ser, a la vuelta de algunos siglos, el elemento fundamental en la fermentación de la historia universal y en la nueva estructuración del espíritu humano.”

CONSTRUÇÃO DO MUNDO-VERDADE NO SEIO DO MUNDO DAS APARÊNCIAS: “[Platão,] en general, concibe lo absoluto como la unidad del ser y el no-ser en el devenir, según dice Heráclito, como la unidad de lo uno y lo múltiple. Además, Platón incorpora a la dialéctica objetiva de Heráclito la dialéctica eleática, que consiste en la acción exterior del sujeto encaminada a poner de manifiesto la contradicción, de tal modo que la mutabilidad externa de las cosas es sustituida ahora por su trueque interior en sí mismas, es decir, en sus ideas, que son, aquí, sus categorías.” “Los sofistas limítanse a considerar lo fenoménico, cuya sede es la opinión: también ellos toman, pues, como base evidentemente pensamientos, pero no los pensamientos puros o lo que es en y para sí. § Es éste uno de los motivos que hacen que algunos salgan insatisfechos del estudio de las obras platónicas. Cuando comienza uno a leer uno de estos diálogos, encuentra en esta manera libre de expresarse de Platón bellas escenas naturales, una maravillosa introducción que promete guiarnos a la filosofía —a la más alta de todas, a la filosofía platónica— a través de praderas cubiertas de flores. Descubrimos aquí cosas sublimes, cosa de la que gusta siempre mucho la juventud; pero esta primera impresión no tarda en desaparecer.” Hahaha, estranha coincidência com a crítica que Platão põe na boca de Sócrates sobre o nous de Anaxágoras!

al llegar al campo de lo verdaderamente dialéctico y especulativo, el lector tiene que marchar por ásperos y empinados senderos, dejándose pinchar por las espinas de la metafísica.”

De las más profundas investigaciones dialécticas, Platón pasa de nuevo a las representaciones y las imágenes, a la pintura de escenas en que aparecen dialogando unos cuantos hombres sutiles e ingeniosos: tal, por ejemplo, en el Fedón, modernizado por Mendelssohn y convertido en metafísica wolffiana; el comienzo y el final de este diálogo son hermosísimos, sublimes, mientras que en el cuerpo central impera la dialéctica.”

AH, O AGRIDOCE! “Así, pues, para recorrer los diálogos de Platón tienen que darse estados de espíritu muy heterogéneos y quien se entregue al estudio de ellos debe dar pruebas de una gran independencia de espíritu ante los diversos intereses. Quien lea estos diálogos movido exclusivamente por el interés de la especulación, pasará por alto lo que pasa por ser lo más bello; en cambio, quien proceda tan sólo por el interés de elevarse a lo sublime, por motivos edificantes, etc., omitirá lo especulativo, como algo inadecuado a su interés. Le ocurre a uno como a aquel joven de la Biblia que había hecho esto y lo otro y que preguntaba a Cristo qué debía hacer para seguirle. Pero, cuando el Señor le ordenó: despréndete de tus cosas y entrégalas a los pobres, el joven se retiró triste y cariacontecido, pues no era aquello lo que él había creído que debía hacer. Lo mismo les ha ocurrido a muchos con la filosofía: se han dedicado a estudiar a Fries¹ y Dios sabe a quién más. Sienten el pecho rebosante de lo verdadero, lo bueno y lo bello, querrían conocerlo y poder contemplar lo que debe hacer el hombre; pero de lo que su pecho está rebosante es sólo de buena voluntad.”

¹ Figura hoje completamente desconhecida. A não ser por estudos muito detalhistas, como a crítica de Kaufmann ao desastrado Popper! Esse tal Fries era um anti-semita deplorável, como se vê em https://seclusao.art.blog/2021/08/09/the-hegel-myth-and-its-method-ataque-a-popper-kaufmann-1959/.

cuando Platón habla de la justicia, de lo bello, de lo bueno o de lo verdadero, no muestra sus orígenes; esas ideas no aparecen como una conclusión, sino como una premisa directamente establecida.” Com efeito, Platão é tão à frente de seu tempo que hoje só podemos entendê-lo usando filósofos modernos de prefácio!

los diálogos (…) más difíciles de todos: nos referimos al Sofista, al Filebo y, sobre todo, al Parménides. [e não esqueça do Timeu]” “La condensación de las contradicciones en la unidad y la proclamación de esta unidad no aparecen en el Parménides, el cual llega, por tanto, al igual que aquellos otros diálogos, a un resultado más bien negativo. En cambio, esta unidad aparece proclamada claramente en el Sofista y también en el Filebo. § No obstante, la verdadera dialéctica, tal como queda esbozada, se contiene en el Parménides, la más famosa de las obras maestras de la dialéctica platónica.”

PARMÉNIDES: Observo que tú, al igual que Aristóteles, te ejercitas, platicando, en determinar dónde reside la naturaleza de lo bello, de lo justo, de lo bueno y de cada una de estas ideas. Este intento tuyo es bello y divino. Pero procura extenderte y ejercitarte más aún en estos al parecer inútiles juegos de palabras, como las gentes los llaman, mientras seas aún joven, pues de otro modo se te escapará la verdad.

SÓCRATES: ¿En qué consiste esta clase de ejercicios?

PARMÉNIDES: Me gustó ya de ti el que dijeses antes que no se debía uno detener en el examen de lo sensible y de sus ilusiones, sino fijarse en aquello que sólo capta el pensamiento, lo único que es.”

en el devenir se contienen en inseparable unidad el ser y el no ser; y, sin embargo, aparecen aquí, al mismo tiempo, como cosas distintas, pues el devenir sólo existe cuando lo uno se trueca en lo otro.”

O UM É A LUZ (ONDA E PARTÍCULA): “no devir se contêm em inseparável unidade o ser e não-ser; e, no entanto, aparecem aqui, ao mesmo tempo, como coisas distintas, pois o devir só existe quando o um permuta com o outro.”

Hegel se embaralha metendo Deus no bagulho do Um!

O único espelho do mundo é o mundo mesmo.

Portanto, desça do púlpito e volte ao mundo-verdade verdadeiro!

Perceba o que deixaste para trás na primeira olhada abstrato-panorâmica do cenário!

Platón refuta, de este modo, de una parte lo sensible y, de otra parte, las ideas mismas.”

La primera de estas concepciones es la que más tarde se llamará materialismo, a saber: que lo sustancial no es otra cosa que lo corporal y que sólo tiene realidad lo que puede tocarse con las manos, como los árboles y las piedras.” “Lo segundo contra lo que se manifiesta Platón es la dialéctica de los eléatas y su tesis (…) sólo el ser es; el no ser no es, en absoluto.” H. o diz porque não compreendeu Parmênides.

En el Filebo investiga Platón la naturaleza del placer. El problema principal que aquí se plantea es el de la antítesis entre lo infinito y lo finito, o entre lo ilimitado y lo limitativo.” “Lo infinito es lo carente de forma; la forma libre como actividad es lo finito, que encuentra en lo infinito la materia para realizarse. De este modo, Platón determina el placer de los sentidos como lo ilimitado, que no se determina; sólo la razón es la determinación activa.”

Platón maneja, pues, 4 determinaciones: la 1ª es lo ilimitado, lo indeterminado; la 2ª lo limitado, la medida, la proporción, de que forma parte la sabiduría; la 3ª, la mezcla de las 2 anteriores, el producto; la 4ª, la causa. Ésta es, en sí misma, la unidad de lo distinto, la subjetividad, el poder sobre las contradicciones, lo que tiene la fuerza para soportar las contradicciones dentro de sí; sólo lo espiritual tiene esta fuerza para soportar dentro de sí la contradicción, la suprema antítesis: lo corporal débil perece tan pronto se ve abordado por otro factor más fuerte.” Este é realmente o diálogo mais truncado de ler, dentre os não-matemáticos!

Cuando Platón habla, en estos términos, de lo bello y lo bueno, se trata de ideas concretas; o, mejor dicho, de una idea solamente. Pero, para llegar a estas ideas concretas, hay todavía un gran trecho que recorrer, si arrancamos de abstracciones tales como el ser, el no-ser, la unidad, la pluralidad. Ahora bien, aunque Platón no desarrolle estos pensamientos abstractos, devanando la madeja [o emaranhado] más y más hasta llegar a la belleza, la verdad y la moralidad, ya en el conocimiento de aquellas determinaciones abstractas se contienen, por lo menos, el criterio y la fuente de lo concreto. § El Filebo nos ofrece, pues, esta transición a lo concreto, al exponerse aquí el principio de la sensación, el principio del placer.” Esclarecimentos paupérrimos de sua parte, H.. Aposto que encontrá-los-ei aperfeiçoados nos comentários de minha própria tradução ao Filebo de janeiro do ano passado! Cf. https://seclusao.art.blog/2020/01/07/filebo-ou-dos-prazeres-da-inteligencia-e-do-bem/

Mucho fue lo que Platón tomó de los pitagóricos, aunque no sea posible discernir hoy, exactamente, cuánto pertenece a sus predecesores y cuánto fue puesto por él de su propia cosecha. Ya hubimos de observar que el Timeo es, en rigor, la refundición de una obra compuesta por un pitagórico. Es cierto que algunos intérpretes excesivamente agudos han dicho que este diálogo es sólo un extracto hecho por un pitagórico de una obra más extensa de Platón; pero la primera hipótesis es la más probable. § El Timeo ha sido considerado siempre como el más difícil y oscuro de los diálogos platónicos. Sus dificultades y oscuridades estriban, en parte, en la mescolanza externa, ya observada, del conocer comprensivo y el representarse, y en seguida veremos cómo se mezclan en el diálogo los números pitagóricos” “lo que en seguida llama nuestra atención es que Platón interrumpa varias veces el hilo de su exposición y, a veces, parezca volver atrás y empezar de nuevo por el principio. Esto ha movido a ciertos críticos, por ejemplo al mismo Augusto Wolf y a otros que no saben abordar el problema filosóficamente, a ver en el Timeo un conglomerado y una compilación de fragmentos o de varias obras distintas, compaginadas tan sólo desde un punto de vista externo, o donde aparecen incorporados a la obra platónica muchos elementos extraños.” “Sin embargo, aunque la ilación de la obra no sea muy metódica (y el propio Platón da, de vez en cuando, disculpas al lector por estas complicaciones), hemos de ver, en su conjunto, cómo el desarrollo del tema sigue, aquí, un curso necesario y cuál es el profundo fundamento interior que impone, varias veces, el retorno al punto de partida.”

AFUNDA DO NADA NA TEOLOGIA / A FUNDA NO NADA DA TEOLOGIA (Prepare-se para imergir na floresta amazônica de citações verdes por um tempo)! “Eso de que Dios no conoce la envidia es, evidentemente, un pensamiento grande, bello, verdadero y candoroso.” “El pensamiento platónico, en este punto, raya a mayor altura que la concepción de la mayoría de los pensadores modernos, quienes, al decir que Dios es un Dios abscóndito, un Dios no revelado, del cual, por tanto, no es posible saber nada, atribuyen también a la divinidad el atributo de la envidia.” “Pero esta humildad es un crimen y un pecado contra el Espíritu Santo.”

“‘Como el universo había de ser corpóreo, visible y tangible, y sin fuego no es posible ver nada, ni sin algo sólido, sin tierra, no es posible tocar nada, Dios creó antes de nada el fuego y la tierra.’ Véase de qué modo tan simplista introduce Platón estos extremos de lo sólido y lo animado. ‘Pero dos cosas solas no pueden unirse sin una tercera, sino que tiene que existir un nexo entre ellas que las mantenga en cohesión’—es ésta una de las expresiones puras de Platón—; ‘ahora bien, el más bello de los nexos es aquel que se convierte en suprema unidad a sí mismo y, con él, a lo que mantiene unido.’ Es éste un juicio muy profundo, en el que va implícito el concepto; el nexo es lo subjetivo, lo individual, el poder que trasciende sobre lo otro y se identifica con ello.” Ok, me lembrem depois que nunca mais devo usar H. como guia de leitura novamente! De fato, H. emulará esse estilo por toda sua obra clássica que publicou em vida…

Al convertirse la del centro en la primera y en la última y la última y la primera, a su vez, ambas en centrales, tendremos que todas ellas son necesariamente la misma; ahora bien, si se convierten en la misma, todas ellas serán una.” Ok, hora de ir para o quarto!

Esta dirección de que Platón parte es una conclusión que conocemos de la lógica; se presenta bajo la forma de un silogismo corriente, pero en el que se contiene, por lo menos externamente, toda la racionalidad de la idea.”

HEGELICES & CABALAGENS, CABALICES & HEGELAGENS: “Es ilícito,¹ por tanto, hablar mal de la conclusión y no reconocerla como la forma absoluta suprema;² en cambio, hay razón para rechazar la conclusión intelectiva.³”

¹ E vai fazer o quê, me prender?

² Esse é o tipo de coisa que fazia de H. um priápico de primeira linha!

³ H. sempre refuta (simplesmente alega que é ilícito) tudo aquilo que não pode acoplar a seu sisteminha ESTATAL…

ZZZZZZZ: “Es así como los Padres de la Iglesia descubren en Platón la idea de la Trinidad, que se esfuerzan en captar por medio del pensamiento y en probarla; en realidad, la verdad responde, en Platón, a la misma determinación que la Trinidad. Pero, desde Platón, estas formas permanecieron baldías por espacio de 2 mil años, pues no se incorporaron a la religión cristiana como pensamientos; más aún, se las vio como nociones recibidas sin razón alguna, hasta que en estos últimos tiempos se ha comenzado a comprender que en estas determinaciones se encierra un concepto y que de este modo es posible llegar a conocer la naturaleza y el espíritu.” “y el número 4, que aquí aparece, es un número fundamental en la naturaleza.”

Podríamos, pues, poner de manifiesto en estas representaciones la confusión en que Platón incurre; pero no es eso lo que interesa aquí, sino simplemente hacer ver qué es lo que él reputa como lo verdadero.” Sí, pues lo que interesa acá es refrendar mi punto de vista!

Cuando nosotros decimos: ‘Dios, lo absoluto, es la identidad de lo idéntico y de lo no idéntico’, hay quien pone el grito en el cielo clamando ¡barbarie!, ¡escolasticismo! Gentes que hablan en este tono tan despectivo son capaces de poner por las nubes a Platón; y, sin embargo, éste determina del mismo modo lo verdadero.”

Dios, mezclando lo idéntico y lo otro con la esencia y haciendo de los tres uno, divide de nuevo este todo en partes, en tantas como juzga conveniente.”

Ahora bien, el modo de clasificación de esta subjetividad contiene los famosos números platónicos, cuyos orígenes han de buscarse, sin duda alguna, en los pitagóricos, en torno a los cuales han desplegado grandes esfuerzos los pensadores antiguos y los modernos e incluso el propio Keplero, en su Harmonía mundi, pero sin que nadie llegase a comprenderlos exactamente.” Convenhamos: nem os pitagóricos entendiam a si mesmos, trabalho inútil aqui!

El estudio más a fondo que acerca de él poseemos es el de Böckh, Über die Bildung der Weltseele im Timäos des Platón, que figura en el tomo tercero de las investigaciones de Daub y Creuzer (pp. 66ss ).” NÃO, OBRIGADO.

pasamos por alto, aquí, cómo determina las figuras de los elementos y las combinaciones de los triángulos” Agradecido!

Se ha querido hacer de Platón el santo patrono de los estados de entusiasmo y arrobamiento; pero ello es, como vemos, completamente falso.” Platão atribui as adivinhações e as profecias apenas à parte ‘má’ do organismo, a jocosa, a excretória, particularmente o fígado, na anatomia de seu tempo; daí a fascinação da consulta às vísceras de animais, entre os antigos, e, em todos os tempos, a fascinação pelos padrões aleatórios e gesltálticos (mais propriamente falta de qualquer padrão) das borras do café, etc.

(RE)VOLTANDO À REPÚBLICA: “y reconocía y proclamaba que la naturaleza moral (la libre voluntad en su carácter racional) sólo podía llegar a imponer sus derechos y cobrar realidad dentro de un verdadero pueblo.” O qual ainda não presenciamos na Terra.

Obviamente, aqui começa a exposição a dos erros de H. a olho nu, confundindo eternamente cultura e natureza, principalmente o estado de natureza ou direito natural, concepções arbitrárias e no entanto universais no tempo de H.. Naturalizando (fetichizando, Marx) o Estado jurídico-moderno, imaginando a natureza enquanto oposto da cultura letrada e filistéia exatamente como esse puro arbitrário e negativo pertencente aos primórdios do homem (sempre uma inferência nesses autores, sem qualquer base) que em realidade já vemos hoje como o próprio jogo de forças inútil e paralisante dos Estados-nações. H. serve no máximo como cura de um ultra-romantismo desenvolvido após a leitura descuidada de Rousseau, mas sua Teoria do Estado chega a ser tão fabulosa quanto qualquer outra meta-narrativa antitética do período.

Estamos acostumbrados a partir de la ficción de un estado natural, el cual no es, en realidad, un estado del espíritu, de la voluntad racional, sino de los animales entre sí. Por eso Hobbes observaba, con razón, que el verdadero estado de naturaleza es la guerra de todos contra todos.” Como pode demonstrar tamanha lucidez ao mesmo tempo em que diz que o que vê (um número 4 gigantesco!) é tudo menos aquilo que vê (um 5 indesmentível)?!? Pois é isso que Hegel faz nessa passagem: reconhece que o estado natural é mero folclore, mas dá razão ao folclorista Hobbes! Animais não vivem em guerra; a cadeia alimentar não pode ser comparada ao instituto-cultura humano(a) do conflito organizado. Essa analogia é desastrosa. Nada há de qualitativamente diferente entre o homem pré-histórico e nós. A estrondosa ingenuidade hegeliana se torna mais palpável quando se percebe seus 2 componentes principais: um biologismo rústico aplicado a um humanismo muito mal-concebido e distorcido (excessivamente confiante no Direito, no direito burguês, que é o mesmo que cria a ilusão do indivíduo livre, que ele tanto ataca como concepção desviante da legitimidade coletiva do Estado!), posto que estruturado à imagem e semelhança daquele primeiro, ainda que, nas piruetas sucessivamente negadoras do ‘Espírito’, pareça sua brilhante correção, i.e., o contrário.

Por eso se ha formulado acerca de La República de Platón el juicio de que su autor traza en ella el llamado ideal de una constitución política, que queda luego como un sobrenombre proverbial, en el sentido de que esta concepción no pasa de ser una quimera, que puede, sin duda, pensarse y que sería también, tal como Platón la describe, excelente y verdadera, e incluso realizable, pero sólo a condición de que los hombres fuesen excelentes, como tal vez puedan serlo en la luna, pero no como son los de la tierra, con respecto a los cuales es irrealizable.” Esse juízo de H. é correto: realmente é assim que a República é vista genericamente; e claro está que não pode ser chamado de um tratado político (empírico), muito menos ainda de uma projeção de um ESTADO IDEAL! Esse é, porém, um preconceito entranhado demais para se desfazer a essa altura. Enxergá-lo como um tratado ético do e para o filósofo, sem para isso tocar em nada que seja do Estado, é o mais raro entre nós.

HEGEL MIRAVA NOUTRO ALVO QUANDO ACERTOU COM A DESCRIÇÃO DOS ESTADOS UNIDOS DA AMÉRICA ATUAIS: “Aunque este tipo de hombre se dé en los monjes o en los cuáqueros o en otras gentes piadosas por el estilo, un puñado de hombres de éstos jamás sumará un pueblo, del mismo modo que los piojos o las plantas parasitarias no pueden existir por sí solos, sino solamente adheridos a un cuerpo orgánico. Si tales gentes constituyeran un pueblo, se acabarían esa mansedumbre de cordero, esa vanidad que no sabe ocuparse más que de la propia persona y del cuidado de ella, teniendo siempre delante la imagen y la conciencia de su propia bondad.”

Por consiguiente, La República de Platón sería una quimera, no porque la humanidad no fuese demasiado buena para ella, sino porque esta bondad de los hombres sería excesivamente mala para ese ideal.” “La superficie de lo moral, la conducta de los hombres, deja mucho que desear, mucho en ella podría ser mejor; los hombres serán siempre viciosos y corrompidos, pero eso no es la idea.” “Lo temporal, lo perecedero, existe, indudablemente, y no cabe duda de que puede ser fuente de grandes problemas y dificultades; pero, a pesar de ello, no se trata de una verdadera realidad, como no lo son tampoco la particularidad del sujeto, sus deseos y sus inclinaciones.”

Por lo que a esta observación se refiere, debe tenerse presente la diferencia que más arriba señalábamos, [incrivelmente parece que não foi uma total perda de tempo toda aquela exposição do Timeu!] al tratar de la filosofía platónica de la naturaleza: el mundo eterno, como el Dios bienaventurado en sí, es la realidad, no en el más allá, no en la otra vida, sino en el mundo presente considerado en su verdad, y no del modo que se ofrece a los sentidos de quienes lo ven, lo escuchan, etc. Si consideramos así el contenido de la idea platónica, veremos que Platón expone, en realidad, la moralidad de los griegos en su modo sustancial, pues es la vida del Estado griego¹ y no otra lo que forma el verdadero contenido de La República de Platón. Platón no es hombre que se pierda en teorías y principios abstractos; su espíritu verdadero sabe reconocer y exponer lo verdadero.”

¹ Só um ligeiro corretivo: a vida dos espartanos, no máximo.

Nadie puede saltar por encima de su tiempo; el espíritu de su tiempo es también su espíritu; pero de lo que se trata es de reconocerlo con arreglo a su contenido.”

Los hombres no permanecen tal y como son, sino que cambian, se hacen de otro modo: y lo mismo acontece con sus constituciones; se trata de saber cuál es la verdadera constitución que se debe dar a un pueblo, como se trata, en otro orden de cosas, de saber cuál es la verdadera ciencia de la matemática u otra cualquiera, y no de si los niños o los muchachos deben poseer ahora esta ciencia, ya que antes de nada es necesario educarlos para que sean capaces de asimilársela.

Así, pues, el pueblo histórico hace surgir siempre la verdadera constitución, la que cuadra a sus necesidades. Con el transcurso del tiempo todo pueblo tiene que someter su constitución vigente a los cambios necesarios para ponerla cada vez más a tono con la verdadera.”

Cuando el en sí, que la constitución le presenta como verdadero, ya no es verdad, cuando son distintos su conciencia o el concepto y su realidad, el espíritu del pueblo se convierte en una esencia desgarrada y dividida. Pueden, entonces, ocurrir 2 cosas: o que el pueblo rompa, con una explosión interior y más poderosa, este derecho que se empeña en seguir rigiendo o que vaya modificando, tranquila y lentamente, el derecho, la ley vigente, cuando dejan de corresponder a la verdadera costumbre, cuando el espíritu se sale ya de sus marcos. O bien que no tenga la inteligencia y la fuerza necesarios para ello, sino que siga ateniéndose a la ley inferior, o que otro pueblo haya alcanzado una constitución superior, haciéndose con ello un pueblo mejor, en cuyo caso aquél dejará de ser un pueblo y tendrá, necesariamente, que sucumbir ante éste.” Torçamos para que o Brasil (um não-povo) seja anexado por um povo melhor! Aqui temos que relativizar qualquer implicação de “destino manifesto” do historicismo hegeliano…

las instituciones desaparecen, se pierden, no se sabe cómo: cada cual se resigna a la suerte de ver cómo se pierden sus derechos. Y el gobierno debe saber cuándo ha llegado ese momento; si, ignorando lo que es la verdad, se aferra a las instituciones temporales, si toma bajo su protección lo que rige de un modo no esencial frente a lo esencial (y lo que esto es va implícito en la idea), llegará un momento en que caerá bajo los embates incontenibles del espíritu, y la desintegración del gobierno hace que se desintegre el propio pueblo: surge un nuevo gobierno, o bien se imponen el gobierno anterior y lo no esencial.”

La determinación que se enfrenta a esta actitud sustancial de los individuos ante la costumbre es la libre voluntad subjetiva de los individuos, la ética, es decir, el que los individuos no obren movidos del respeto y el temor a las instituciones del Estado, de la patria, sino por su propia convicción, adoptando una decisión, después de haber meditado éticamente, y obrando en consecuencia.”

Pues bien, Platón supo captar y concebir el verdadero espíritu de su mundo y desarrollarlo con arreglo al preciso criterio de hacer imposible este nuevo principio en su República. Platón abraza, pues, un punto de vista sustancial, en cuanto toma como base lo sustancial de su tiempo; sin embargo, ese punto de vista sólo es relativamente sustancial, ya que es solamente un punto de vista griego y el principio posterior es conscientemente postergado.” Indefinidamente.

Platón no predica moral; limítase a poner de relieve cómo lo moral arraigado en las costumbres vive y se mueve dentro de sí mismo; pone de manifiesto, por tanto, sus funciones, sus entrañas.”

Enumera 3 estamentos: a) el de los gobernantes, los sabios, los instruidos; b) el de los guerreros; c) el de los que se dedican a satisfacer las necesidades, o sean los agricultores y los artesanos.”

Al primer estamento da también Platón el nombre de los guardianes; son los estadistas, de formación esencialmente filosófica, los depositarios y poseedores de la verdadera ciencia; los guerreros aparecen a su lado como ejercicio [exército?], pero de tal modo que no se separen el estamento civil y el militar, sino que ambos aparezcan unidos, siendo los guardianes los más antiguos.” Raro caso em que um militar se torna algo melhor no futuro, e não o contrário, pois bate continência ao seu superior!

En seguida, Platón pasa a exponer una serie de normas de detalle, algunas de ellas bastante mezquinas y de las que habría sido mejor que hubiese prescindido: así, por ejemplo, establece incluso títulos especiales para el primer estamento, habla de cómo deben comportarse las amas, etc.” Ora, Hegel! Mas este é o espírito grego – o que você queria que ele descrevesse? Comércio exterior? Vida monacal? Também não sei sobre a Prússia dos 1700, mas até para o proto-feminista Platão as amas deveriam ser educadas como qualquer outro cidadão!

DAS QUATRO VIRTUDES

A primeira virtude da República, obviamente: a sabedoria, monopólio da minoria no píncaro da formação estratificada.

La segunda virtud es la valentía, que es, según la define Platón, la firmeza en la afirmación de las opiniones justas y conformes a la ley, sin dejarse llevar de ninguna clase de temores y sin que el fuerte ánimo vacile por las sugestiones de los apetitos o los placeres. Esta virtud es la que corresponde al estamento de los guerreros.” Fecho do Laques, que havia chegado apenas a uma conclusão negativa, no senso hegeliano.

la templenza [ou terceira virtude] (…) es, además, en rigor, la virtud propia del tercer estamento, del que tiene por cometido satisfacer las necesidades materiales y realizar el trabajo necesario para ello, si bien a primera vista no parece ser la virtud propia de este estamento.” “Pues bien, el trabajo es precisamente este momento de la actividad limitada a lo individual, pero que se retrotrae a lo general y tiende a ello. Por tanto, aunque también esta virtud sea general, tiene su campo especial de acción en el tercer estamento, en el cual sólo debe reinar, de momento, la armonía, aun cuando no se manifieste en él la armonía absoluta que los demás estamentos llevan de suyo.”

La cuarta y última virtud es la justicia, en torno a la cual gira todo desde un principio. En el Estado, esta virtud consiste (como honradez) en que cada uno se preocupe solamente de una cosa, que se refiere al Estado, para lo que le haga especialmente apto su naturaleza, de tal modo que cada cual se dedique, no a muchas cosas, sino a las que a él le competen: jóvenes y viejos, muchachos y mujeres, libres y esclavos, artesanos, autoridades y gobernados.” “es ella, la justicia, la que infunde a las otras 3, a la templanza, a la valentía y a la sabiduría la fuerza necesaria para que existan y puedan mantenerse.” Sabedoria não é nada sem valentia. Valentia não é nada sem temperança. E temperança não é nada sem justiça.

De donde se deduce, en segundo lugar, que Platón no entiende por justicia precisamente el derecho de propiedad, como suele entenderse en la jurisprudencia, sino el estado en que el espíritu, en su totalidad, impone su derecho como la existencia de su libertad.”

Donde se deduz, em 2º lugar, que Platão não entende por justiça precisamente o direito de propriedade, como sói se entender na jurisprudência, senão o estado em que o espírito, em sua totalidade, impõe seu direito como a existência de sua liberdade.”

Es cierto que también en él nos encontramos con leyes acerca de la propiedad, de la policía, etc.; ‘pero no vale la pena prescribir leyes acerca de esto a hombres bellos y nobles’. Y, en realidad, ¿cómo descubrir leyes divinas acerca de esto allí donde la materia no contiene en sí más que contingencias?”

No momento em que é preciso começar a ensinar que não se devem cometer homicídios, já não há nobreza e justiça no coração dos homens. No momento em que se codificam as horas de lazer e as vestimentas, já nada há. Nem mesmo merece-se o qualificativo de escravo nessa situação.

¿no se inflama inmediatamente su cólera y no se pone al lado de lo que cree ser justo? Y por más hambre, frío o cualquier otro mal trato que haya de padecer, todo lo padece y no cesa en sus nobles esfuerzos hasta que ha obtenido satisfacción o ha encontrado la muerte, o la razón, siempre presente en nosotros, le ha apaciguado como un pastor tranquiliza a su perro.”

La cólera corresponde al estamento de los valientes defensores del Estado: cuando éstos, para defender la razón del Estado, echan mano de las armas, la cólera asiste a la razón, siempre y cuando que no se halle corrompida por una mala educación.”

Tal es, pues, el modo como Platón presenta la disposición del conjunto; el modo como la desarrolla es, simplemente, un detalle carente de interés.”

¿cómo consigue Platón que cada cual haga su propio ser del asunto que le está destinado y que este asunto se convierta en la actividad y la voluntad morales de los individuos todos; que cada cual abrace, con arreglo a la templanza, el puesto que le corresponde?

Lo fundamental es educar a los individuos para ello. Platón aspira a producir esta costumbre directamente en los individuos y sobre todo en los guardianes, cuya formación es, por tanto, la parte más importante y la base de todo. Estando encomendado a los guardianes precisamente el cuidado de producir esta costumbre mediante la conservación de las leyes, éstas deben preocuparse también, muy especialmente, de la educación de los gobernantes, así como de la de los guerreros. En cambio, al Estado no le preocupa gran cosa lo que ocurra en el estamento de la industria, ‘pues no es ninguna desgracia para el Estado el que los zapateros remendones sean malos y corrompidos y sólo aparenten lo que debieran ser, en realidad’.”

* * *

En aquel tiempo se empezaba ya, en efecto, a tomar en serio lo relacionado con la fe en Júpiter y en las historias homéricas”

En una determinada fase de la formación del hombre son inocuas las fábulas infantiles; pero cuando se trata de hacer de ellas la base de la verdad de lo moral, de tomarlas por leyes actuales —como ocurre en los escritos de los israelitas, en el Antiguo Testamento, en la exterminación de los pueblos como pauta del derecho de gentes, en las innumerables infamias cometidas por David, el hombre de Dios, y en las crueldades que el sacerdocio perpetra y hace valer a través de Samuel contra Saúl—, entonces, ha llegado el momento de reducir esas fábulas al papel de algo pasado, de rebajarlas al nivel de algo puramente histórico.”

Em uma determinada fase da formação do homem são inócuas as fábulas infantis; mas quando se trata de fazer delas a base da verdade do moral, de tomá-las por leis atuais – como ocorre nos escritos dos israelitas, no Antigo Testamento, na exterminação dos povos como pauta do direito das gentes, nas inumeráveis infâmias cometidas por Davi, o homem de Deus, e nas crueldades que o sacerdócio perpetra e faz valer através de Samuel contra Saul –, aí então é chegado o momento de reduzir essas fábulas ao papel de algo passado, de rebaixá-las ao nível de algo puramente histórico.”

Las costumbres no deben ser independientes de las instituciones; es decir, las instituciones no deben dirigirse simplemente a las costumbres por medio de establecimientos educativos, de la religión, etc. Las instituciones deben considerarse como lo primordial, como aquello que hace nacer las costumbres, ya que éstas no son sino el modo como cobran las instituciones una existencia subjetiva. El propio Platón da a entender hasta qué punto espera encontrar contradictores. Y todavía hoy se suele encontrar como defecto suyo el de ser demasiado idealista: sin embargo, si algún defecto cabe encontrarle es, cabalmente, el de no ser lo bastante idealista.” O que Hegel quer dizer é: Platão tem consciência de que nenhum Estado subsiste historicamente desta forma pela eternidade; há um apogeu, e há uma decadência, por mais que se tente preservar os costumes mediante as instituições, e as instituições espelhadas nos costumes.

así, se limita a considerar cuál es la mejor organización del Estado, sin preocuparse en lo más mínimo de la individualidad subjetiva.”

Platón no permite al individuo elegir un estamento, cosa que para nosotros es un postulado inseparable de la libertad. No es, sin embargo, el nacimiento lo que separa entre sí los estamentos y destina a ellos a los individuos: cada cual es examinado por los regentes del Estado, como los más viejos del primer estamento, que son los encargados de educar a los individuos y, según sus dotes y aptitudes naturales, aquéllos se encargan de hacer la selección y clasificación correspondiente, asignando a cada individuo al estamento que, a su juicio, le corresponda. (Rep. III)”

Como no sirves para nada mejor, te dedicarás a la profesión de artesano.” (guardião)

Me dedicaré a estudiar.” (pensamento – e liberdade subjetiva – moderno(a))

SEMPRE ESSA PATACOADA LIBERALÓIDE: “No se nos dice, sin embargo, cómo en el desarrollo de la industria tendrán los hombres un incentivo que los mueva a desplegar sus actividades si se les priva de toda esperanza de llegar a adquirir una propiedad privada, toda vez que el hecho de ser una persona activa y laboriosa lleva ya implícita mi aptitud para adquirir propiedad.”

Por la misma razón, declara Platón abolido, por último, el matrimonio, por ser una unión en que una persona de un sexo se entrega a otra del sexo contrario en permanente vinculación, y ésta a aquélla, incluso al margen de las relaciones puramente naturales. Platón no permite que en su Estado se manifieste la vida familiar—peculiar institución en que la familia es considerada como un todo—, pues la familia no es sino la personalidad ampliada

Platón (…) hace que el Estado arrebate a las madres sus hijos inmediatamente después de nacer, los reúna en un establecimiento especial, los nutra por medio de amas salidas de entre las madres que acaban de dar a luz, y los someta a una educación común, de tal modo que ninguna madre pueda reconocer a su propio hijo.”

La mujer, cuyo destino esencial es la vida de familia, carece aquí de este terreno natural para desenvolverse. Resultado de ello, en La República platónica, es que, al ser abolida la familia y no pertenecer las mujeres a la casa, éstas dejen de ser personas privadas y se vean enteramente equiparadas al hombre como el individuo general dentro del Estado.”

SIM & NÃO: “Lo opuesto al principio platónico es el principio de la libre y consciente voluntad del individuo, principio que más tarde habría de colocarse a la cabeza con Rousseau, y según el cual la libre voluntad del individuo como tal, su afirmación, es algo necesario.”

lo que es bello en lo sensible es precisamente espiritual. Tal es, en efecto, su idea estética, como su idea en general. Así como la esencia y la verdad de lo que se manifiesta es la idea en general, así también la verdad de lo bello en sus manifestaciones es, precisamente, esta idea.”

Pero este algo general no conserva tampoco la forma de la generalidad, sino que lo general es el contenido que tiene como forma el modo sensible; y en esto precisamente estriba la determinación de lo bello. En la ciencia, lo general asume de nuevo la forma de lo general o del concepto; lo bello, en cambio, se presenta como una cosa real o como una representación en forma de lenguaje, qué es el modo en que lo real vive en el espíritu. La naturaleza, la esencia y el contenido de lo bello sólo pueden ser conocidos y enjuiciados por la razón, pues se trata del mismo contenido que tiene la filosofía. Pero, como la razón en lo bello [o a priori] se manifiesta también de un modo real, [no fenômeno] tenemos que también lo bello cae bajo el prisma del conocimiento. [sensibilidade]” Só repisa Kant e Schopenhauer com palavras do seu sistema, ou seja, está correto aqui!

Con lo dicho, queda expuesto el contenido fundamental de la filosofía platónica. El punto de vista de Platón es éste: en primer lugar, aparece la forma fortuita del diálogo, en el que aparecen hablando unos cuantos hombres nobles y libres, sin otro interés que el de la vida espiritual de la teoría; en segundo lugar, a medida que van ahondando en el contenido, descubren los más profundos conceptos y los más bellos pensamientos, como piedras preciosas con que se tropezase, no digamos en un desierto, pero sí, desde luego, en un camino seco y pedregoso; en tercer lugar, no encontraremos aquí ninguna conexión sistemática, aunque todo emane y fluya de un solo interés” Hegel ainda nos dá mais duas etapas, mas elas não nos interessam.

Nos separamos, con esto, de Platón, a quien abandona uno, en verdad, de mala gana. Al pasar a su discípulo Aristóteles nos gana aún más la preocupación de tener que ser demasiado prolijos, pues no en vano se trata de uno de los más ricos y profundos genios científicos que jamás hayan existido: un hombre que nunca ha podido ser igualado.”

Tendremos, por fuerza, que limitarnos a dar una noción general de su filosofía y señalar solamente, de un modo especial, hasta qué punto su filosofía desarrolló y llevó adelante la obra iniciada por el principio platónico, tanto en lo tocante a la profundidad de las ideas como en lo que se refiere a su extensión”

Sin embargo, aunque el sistema de Aristóteles no aparezca como desarrollado en sus partes partiendo del concepto mismo, sino que las partes se presentan las unas al lado de las otras, no cabe duda de que forman una totalidad de filosofía esencialmente especulativa.” E aí está seu maior defeito, que culmina em você.

Una razón para ser prolijo, tratándose de Aristóteles, la tenemos en que ningún otro filósofo ha sido objeto de tanta injusticia por parte de las tradiciones totalmente huérfanas de pensamiento que se mantuvieron al margen de su filosofía y que todavía se hallan a la orden del día hoy, a pesar de haber sido este pensador, durante largos siglos, el maestro de todos los filósofos.” “Y, mientras que a Platón se le lee mucho, el tesoro de la obra aristotélica permaneció poco menos que ignorado a lo largo de los siglos, hasta llegar a los tiempos más recientes, reinando en torno a él los más falsos prejuicios.” Totalmente ao revés! A Escolástica bebeu de Aristóteles; Platão era um anexo turvo para todo um milênio!

Es, por ejemplo, una opinión muy generalizada la de que la filosofía aristotélica y la platónica se enfrentan y oponen la una a la otra, concibiéndose ésta como basada en el idealismo y aquélla, por el contrario, como construida sobre el realismo, el realismo más trillado y trivial.Opinião generalizada corretíssima!

en Aristóteles, el alma es una tabula rasa, que recibe pasivamente sus determinaciones del mundo exterior: la filosofía aristotélica es, por tanto, empirismo, un lockeanismo

A los 17 años de edad, se trasladó Aristóteles a Atenas, donde permaneció por espacio de 20, en contacto con Platón. Tuvo, pues, la más propicia de las ocasiones para poder estudiar la filosofía platónica en sus propias fuentes. No importa que alguien diga que no acertó a entenderla”

Hermias, príncipe independiente, fue sojuzgado por un sátrapa persa, siguiendo la suerte de tantos otros príncipes absolutos y de tantas repúblicas griegas del Asia Menor; y no paró ahí su mala fortuna, pues fue enviado en calidad de prisionero a Jerjes, quien, sin más contemplaciones, lo mandó crucificar. Para no exponerse a una suerte semejante, Aristóteles huyó de aquellas tierras en unión de Pitias, una hija de Hermias, a la que hizo su esposa, refugiándose en Mitilene, donde vivió durante algún tiempo. Erigió a Hermias una estatua en Delfos, cuya inscripción ha llegado a nosotros; de ella se deduce que el desventurado príncipe cayó en poder de los persas por alevosía y a traición.”

Has de saber que he tenido un hijo; y doy gracias a los dioses, no tanto porque me lo hayan dado como porque lo hayan hecho nacer en esta época en que tú vives. Pues confío en que tus cuidados y tu sabiduría harán que sea digno de mí y de su futuro reino.”

en aquella corte, Aristóteles llegó a gozar del más alto de los favores y el respeto de Filipo, el monarca, y Olimpia, su consorte.”

Alejandro, cuando en medio de sus conquistas y hallándose ya muy dentro del Asia, se enteró de que Aristóteles había dado a conocer en obras especulativas (metafísicas) la parte acroamática [¿?] de su filosofía, le envió una carta reconviniéndole por dar a conocer al pueblo vulgar los frutos de los trabajos y las investigaciones de ambos; a lo que Aristóteles replicó que, a pesar de haberlos dado a conocer, esos resultados seguirían tan desconocidos como antes. (Aulo Gelio)”

[¿?] Refere-se ao mito – já comentado na seção sobre Platão – de que haja uma vertente esotérica (de elite, filosófica, propriamente dita) e outra popular ou vulgar de Aristóteles, em que a gente comum pudesse lê-lo e entendê-lo. A acromática seria esta “filosofia” vulgar (exotérica) para iniciantes. Talvez a origem do termo seja a constatação pejorativa de que esses trechos são sem cor e sem vida, inertes, desbotados? Hahaha! (acromatia: aquilo que não tem cor)

Lo que en la educación de este personaje puede ser atribuido a la enseñanza filosófica de Aristóteles es el haber sabido libertar interiormente sus talentos naturales, la peculiar grandeza de las dotes de su espíritu, elevándolas a un plano de completa independencia consciente de sí misma, como lo vemos comprobado mejor que por nada por sus propios fines y sus propios hechos. Alejandro alcanzó, en efecto, esa absoluta certeza de sí mismo que sólo da la intrepidez infinita de pensamiento y la independencia del espíritu con respecto a los planes especiales, pequeños y limitados para remontarse a la finalidad perfectamente general que lo animaba: la ambición de organizar el mundo en una vida y en un intercambio comunes y colectivos, mediante la fundación de Estados sustraídos a la individualidad contingente y fortuita.

Alejandro puso en práctica, de este modo, el plan que ya concibiera su padre sin haber podido llegar a realizarlo: el de colocarse a la cabeza de los griegos para vengar a Europa en el Asia y someter el Asia a Grecia; de tal modo que, así como al comienzo de la historia de Grecia los griegos habían marchado unidos en la guerra contra Troya, esta unión sirviese ahora de final y de remate al verdadero mundo helénico.” Tem certeza que os motivos de Filipe e Alexandre eram tão coletivos e étnicos e, o que é pior, alheios à própria dinastia? Seria único na História do Mundo, efetivamente.

Alejandro vengaba con ello, al propio tiempo, la perfidia y la crueldad cometidas por los persas contra Hermias, el amigo de Aristóteles. Pero, además, el monarca macedonio expandía la cultura griega por las tierras del Asia, en un intento para elevar al plano del mundo griego aquella trama salvaje, puramente negativa y desintegrada de la más alta tosquedad, aquel conjunto de países hundidos en la apatía, la negación y la decadencia.” É bom não FORÇAR tanto, ó tetravô da Antropologia!

Es verdad que las conquistas de Alejandro no quedaron dentro de su familia, de su propia dinastía, pero sí se incorporaron permanentemente a Grecia. Alejandro no instauró un vasto imperio asegurado para su propia familia, pero sí fundó el imperio del pueblo griego sobre el Asia, pues gracias a él la cultura y la ciencia griegas echaron raíces en aquellas tierras. Los reinos griegos del Asia Menor y principalmente Egipto, fueron durante siglos centros de ciencia, y los resultados de esto se extendieron, probablemente, hasta la India y la China.”

Fue el reino sirio, que se extendía hasta muy dentro del Asia, hasta lindar con un reino griego en la Bactriana, el que, gracias a las colonias griegas allí establecidas, hizo llegar hasta el corazón de Asia y hasta la China los pocos conocimientos científicos que se han conservado allí como una tradición, aunque sin procrear. Los chinos son, por ejemplo, tan torpes que no han sido capaces de crear un calendario y parecen ser, de suyo, reacios a todo concepto.”

En el oriente, el nombre de Alejandro tiene todavía hoy un brillo divino, como Ispandro o Dul-k-ar-nein, que quiere decir el hombre de los dos cuernos: no en vano la imagen del Júpiter Ammón es un antiguo héroe oriental. No está excluida, pues, la posibilidad de que los reyes macedonios, haciéndose descender de ciertos linajes de héroes de la antigua India, reivindicasen para sí los derechos de soberanía sobre aquellas tierras, que es lo que explica también la difusión del Dionysos tracio por los parajes de la India.” Isso é mito, H., e você tinha prometido deixar mitografia de fora de sua história espiritual da Filosofia!

SUPERESTIMA ARISTÓTELES A PONTO DE CONCEBÊ-LO COMO MASTERMIND POR TRÁS DAS AÇÕES DE ALEJANDRO: “primero visitó y consultó el oráculo de los amonitas (hoy, Siwa), procediendo luego a destruir el reino persa e incendiando Persépolis, la vieja enemiga de la teología india, para vengarse así de todas las tropelías cometidas por Darío contra los hindúes y sus hermanos de religión.”

todavía hoy adoran los hindúes al Dalai-Lama, y en la concepción de aquellos pueblos no existe tanta distancia entre Dios y el hombre.” Um tanto superficial, mas, sim, prossiga…

no en vano un Demetrio Falereo y otros habrían de ser adorados poco después, en Atenas, como dioses.”

E O QUE O ESPÍRITO DO MUNDO GANHA COM ESSA VINGANÇA GELADA DE ICEBERG ANTÁRTICO? “es lo más probable que los budistas no le interesasen a Alejandro en lo más mínimo; por lo menos, en su expedición india no hay muchos indicios de ello; por otra parte, la destrucción de Persépolis se halla suficientemente justificada como venganza griega por la destrucción de los templos llevada a cabo por Jerjes en su invasión de Grecia, sobre todo en Atenas.”

A DUPLA PERFEITA – DR. JEKYLL AND MR. HYDE? “Lo mismo que en los tiempos modernos conocemos ejemplos de guerreros que en sus campañas piensan en el arte y la ciencia, Alejandro tomó las medidas necesarias para que los nuevos animales y plantas encontrados en el Asia le fuesen enviados a Aristóteles, bien en forma de ejemplares, bien por medio de dibujos y descripciones.”

Después de haber partido Alejandro para su expedición al Asia, Aristóteles regresó a Atenas y se estableció como profesor público en el Liceo, un lugar que Pericles había mandado acondicionar para la instrucción de los reclutas. Este lugar constaba de un templo consagrado a Apolo Liceos y de paseos sombreados por árboles y adornados con fuentes y columnatas.” Tudo isso já foi muito repisado, mas é muito bom reler mesmo assim (piada enviada pelo internauta Heráclito!).

A la muerte de Alejandro, se desencadenó una tormenta que, al parecer, venía formándose contra él desde antes y que sólo el miedo a su protector había impedido que estallase: el filósofo fue acusado y perseguido por el delito de impiedad. Los detalles de esto aparecen relatados de diferente modo según las diversas versiones; entre otros datos, encontramos en las fuentes el de que le fueron imputados, como fundamentos de la acusación, su himno a Hermias y la inscripción colocada en la estatua erigida en honor de este príncipe. [estranho que a inscrição tenha sido preservada, portanto.] Al ver la tormenta que sobre él se cernía, Aristóteles huyó a la ciudad de Calcis, en Eubea, el actual Negroponto, para no dar a los atenienses, según sus propias palabras, ocasión de atentar por 2ª vez contra la filosofía. Allí murió al año siguiente, a los 63 años de edad” Moral da História: todo mecenas fervoroso é eterno enquanto dura.

Diógenes Laercio (V, 21-27) cita un número crecidísimo de obras de Aristóteles, aunque sus títulos no siempre indican las obras a que corresponden y que han llegado a nosotros, ya que los títulos de éstas son, a veces, completamente distintos. Diógenes enumera 445.270 líneas; si contamos 10 mil líneas por alfabeto, esto nos daría 44 alfabetos, pero lo que se ha conservado no pasa de 10, de modo que sólo tenemos una cuarta parte.” Já disse para não dar muito crédito a Laércio?

La suerte de los manuscritos aristotélicos aparece descrita de tal modo, que podría fácilmente llegarse a la conclusión de que es punto menos que imposible el llegar a tener uno de los escritos del Estagirita en un texto auténtico y sin corrupciones.” O Espírito não quis imortalizá-lo como quis a Platão!

Pularei o relato de que foi o dono da primeira biblioteca do mundo, pois toda essa história já está muito detalhada em meu post Hipócrates Obras Completas Vol. I nos prefácios de Littré (https://seclusao.art.blog/2021/04/07/les-oeuvres-completes-dhippocrate-tome-premier-trad-classica-de-littre/).

ARISTOTELISMOS: “Por lo que se refiere a las otras formas de la filosofía aristotélica, vemos, en segundo lugar, que en la época de Cicerón, principalmente bajo el nombre de filosofía peripatética, asume más bien la forma de una filosofía popular proyectada principalmente sobre problemas de historia natural y de moral”

Una tercera forma de la filosofía aristotélica la tenemos en la filosofía altamente especulativa de la época alejandrina, conocida también con los nombres de filosofía neopitagórica o neoplatónica, aunque debería llamarse también, con idéntica razón, filosofía neoaristotélica. Otra acepción fundamental, la cuarta, es la que la expresión filosofía aristotélica cobra en la Edad Media, cuando un conocimiento impreciso hace que sea denominada ‘filosofía aristotélica’ lo que no era, en realidad, sino la filosofía escolástica.”

Al hacerse más conocidas las obras de Aristóteles en el Occidente se formó una quinta filosofía aristotélica opuesta, en parte, a la escolástica: al final de la época del escolasticismo y con la restauración de las ciencias, pues sólo después de la Reforma se remontaron los estudiosos, en rigor, a las fuentes mismas de Aristóteles. La sexta acepción de la filosofía aristotélica la tenemos en las novísimas ideas y concepciones torcidas acerca de ella, tal y como las encontramos, por ejemplo, en Tennemann, intérprete dotado de un espíritu filosófico demasiado pobre para poder penetrar en la filosofía de Aristóteles.” Nesse ritmo, erá que já não chegamos ao nono Aristóteles?

Tiene ante sí la intuición en su integridad y plenitud, y nada pasa por alto, por muy vulgar que ello sea.” Deveríamos criar o termo endução para explicar os casos de indução e dedução (ou endo-ção, de fora) indistintos (raciocínios perfeitos que são ambos e nenhum, não são de dentro nem de fora, apenas são).

Resulta fatigoso, a veces, seguirle en estas simples enumeraciones, que se desarrollan sin ninguna necesidad y en las que la serie de las acepciones o los significados parece concebirse solamente en cuanto a su esencia, que se presenta como común, y no en cuanto a sus determinabilidades, es decir, solamente en lo externo. Sin embargo, esta manera de proceder representa, de una parte, una enumeración lo más completa posible de los momentos de una cosa y, de otra parte, incita al investigador a buscar y encontrar por cuenta propia la necesidad.”

ORA, ORA, SE NÃO É DEUS! “Al enfocar todos los momentos contenidos en la representación, como si formasen una unidad, no prescinde de ninguna determinabilidad, no se atiene primero a una determinación y luego a otra, sino que las afronta todas a un tiempo, mientras que la reflexión intelectiva, que tiene como regla la identidad, sólo puede salir adelante con ella por la sencilla razón de que, al afirmar una determinación, olvida la otra y prescinde de ella.” Infelizmente, ainda que fosse verdade, precisamos de novos deuses e novas verdades…

Y es que el empirismo de Aristóteles es un empirismo total, pues le lleva de nuevo, constantemente, a la especulación; podemos, pues, decir que, como empírico consumado, es, al mismo tiempo, un empírico pensante.” Já vimos esse movimento se consumar umas 300x na História, estou nauseado…

Conceptos como cáscaras vacías del Ser.

Y si se tomase verdaderamente en serio el estudio de la filosofía, nada habría más digno que explicar desde la cátedra las doctrinas de Aristóteles, pues no hay entre los filósofos antiguos ninguno que tanto merezca la pena de ser estudiado como éste.”

Y, así como decimos que es hombre libre aquel que es en gracia a sí mismo y no en gracia a otro, así también podemos decir que la filosofía es la única ciencia libre, ya que es la única que existe en gracia a sí misma, como el conocimiento del conocimiento.”

Su tarea cotidiana versa sobre lo que es, lo mismo que la labor de un profesor es su curso semestral; y aunque para ello recorra toda la masa del mundo de las representaciones, sólo parece buscar lo verdadero en lo particular, sólo parece reconocer una serie de verdades particulares.”

Lo que a Aristóteles le preocupa, fundamentalmente, es descubrir la determinación de lo que es esta sustancia (ousia) [essência, em-si, ser] (Metaf. VII, 1).”

Aristóteles distingue, más de cerca, dos formas fundamentales: la de la potencia y la del acto.” GROSSO MODO, podemos dizer que a fonte de toda a concepção da síntese hegeliana está aqui, conforme destaque no Vol. I: essência e aparência, racional e real, em-si e para-si. Importante frisar que o segundo, embora o fenômeno não seja o principal de Hegel, posto que seu “deus”, por assim dizer, é a Razão, é importantíssimo como esteio da essência compreendida no mundo antigo como enteléquia e hoje como teleologia ou ciência dos fins. Devemos entender o fenômeno nesse mais nobre sentido, em que participa da dialética da enteléquia, para não gerar mais dúvida, como o nível de realidade consumada ou efetiva, ou seja, em que o Espírito exerce toda sua potência, no que Hegel chama de O CONCRETO ELEVADO A CONCEITO (e Aristóteles de substantia, mas ambos são o mesmo); e no que eu chamaria de ‘fenômeno sagrado’, se posso ‘blasfemar’ o vocabulário hegeliano e neologizar à minha maneira e à minha conveniência para facilitar meu trabalho e a compreensão que o leitor deve ter de Hegel ao fim desta excursão.

Curiosamente, Hegel é o acme do Idealismo e seu centro nevrálgico é o concreto ou empírico. Na filosofia subsecutiva, que teve de reparar seus pontos de vista, temos o império da Fenomenologia, em que o centro tem de ser a própria potência ou vontade (a substância pós-moderna), que havia sido menosprezada como provocadora última da realidade. Fazendo uma última simplificação, podemos assinalar a filosofia pós-platônica e pré-marxnietzscheana como excessivamente preocupada com o começo e o fim; e as filosofias DE PLATÃO SOMENTE NA ANTIGUIDADE INTEIRA e de Marx e Nietzsche EM DIANTE como aquelas atentas ao devir. Não preciso, espero, ter de ressalvar que a genealogia e a teleologia continuam sendo tratados dentro da fenomenologia do séc. XX em diante e que o devir já era “conhecido” e tratado até mesmo pelos insofisticados pré-socráticos. O que eu quis dizer é que o eixo de preocupação de primeira plana sofreu uma inversão quase simétrica em termos do que é o objeto da filosofia. Numa sentença, regressamos a Platão e reiniciamos de onde ele havia parado, com alguns conselhos muito úteis achados no caminho do calvário que antecedeu nossa chegada ao deserto chamado fim do milênio. (!!!)

INFINITO É O FENÔMENO (A AÇÃO): “cuando decimos: la esencia, no establecemos todavía con ello la actividad, pues la esencia es solamente el en sí, la potencia, sin forma infinita.”

Por tanto, mientras que lo predominante, en Platón, es el principio afirmativo, la idea, como algo sólo idéntico consigo mismo en lo abstracto, en Aristóteles predomina el momento de la negatividad, pero no como cambio, ni tampoco como la nada, sino como distinción, como determinación, destacado por él en cuanto tal. Este principio de la individuación, no en el sentido de una subjetividad contingente, particular, sino en el sentido de la subjetividad pura, es característico de Aristóteles.” O principium individuationis como o erro do milênio ou, antes, dos últimos três milênios.

El devenir de Heráclito es una determinación certera y esencial; pero el cambio carece todavía de la determinación de la identidad consigo mismo, de la firmeza de la generalidad. El río cambia constantemente, pero se mantiene también perenne y tiene, más aún, una existencia general.¹ De donde se deduce inmediatamente que Aristóteles (Metaf. IV, 3-6) polemiza principalmente contra Heráclito y otros cuando dice que el ser y el no-ser no son uno y lo mismo, fundamentando así aquella famosa tesis de la contradicción de que un hombre no es al mismo tiempo un barco.” Hahaha?!

¹ Quando Nietzsche diz que Heráclito poderia ter enunciado o eterno retorno, o que quer dizer é: faltava-lhe a condição subjetiva para afirmar a figura de linguagem do rio (o eterno, a essência) como aquilo que também se desdobra sobre si mesmo em fenômeno, repetindo-se como aparência e transitoriedade finita (além das águas deste rio, o próprio rio, que no fim de contas é apenas um subterfúgio para se referir ao universo).

Se ve inmediatamente que Aristóteles no comprende el ser o el no-ser puro, esta abstracción que no es, esencialmente, sino la transición de lo uno a lo otro, sino que entiende por lo que es, esencialmente, la sustancia, la idea, la razón, pero al mismo tiempo como fin que mueve.”

TUDO ISSO PARA DIZER <PRESENTE>: “Pero el punto supremo es más bien aquel en que se unen la potencia, la actividad y la entelequia: la sustancia absoluta, que Aristóteles (Metaf. XII, 6-7; IX, 8) determina, en general, diciendo que es lo inmóvil en y para sí, pero que, al mismo tiempo, infunde movimiento y cuya esencia es actividad pura, sin tener materia. Pues la materia como tal es lo pasivo, aquello en que se opera el cambio y que, por tanto, no se identifica simplemente con la actividad pura de esta sustancia.”

PRESENTE ETERNO (Conceito escolástico influenciado por Arist.): “Dios es la sustancia [ponto de encontro] en cuya potencia va también implícito, como algo inseparable, el acto; en ella, la potencia no se distingue de la forma, ya que produce a partir de sí misma sus determinaciones de contenido.” Aristóteles cria que a Idéia de Platão estava situada fora do tempo, portanto do presente, do movimento e da realidade; por isso achava ter reparado Platão. Tão ingênuo quanto parece! Nível de argumentação: “Meu absoluto é melhor que o seu! Crê em Deus-Pai!”.

Debe considerarse como la verdadera esencia, prosigue Aristóteles (Metaf. XII, 7) lo que se mueve en sí mismo, lo que ‘se mueve en círculo; y esto no debe buscarse solamente en la razón pensante [principium cognoscendi], sino también en el hecho’. (…) Como lo igual a sí mismo y como algo visible, esta esencia absoluta es ‘el cielo eterno’; 2 dos modos de representación de lo absoluto son, por tanto, la razón pensante y el cielo eterno.” Formulação superingênua do eterno retorno.

CURIOSA NOTA DE RODAPÉ, DEMONSTRANDO QUE AS AULAS DE HEGEL ERAM PESADAS, INSOSSAS E CONFUSAS, E QUE O FORMATO FINAL DO LIVRO É MAIS LEVE DEVIDO À INTERFERÊNCIA DOS DISCÍPULOS: (*) “Como esta explicación hegeliana del famoso pasaje de Aristóteles tiene en su favor el testimonio de tantas autoridades, el editor no puede seguir aquí, como tantas otras veces en el transcurso de estas Lecciones, la norma establecida por la sociedad de amigos de Hegel a cuyo cargo corre la edición de sus obras, que es la de corregir tácitamente los errores e inexactitudes que hayan podido deslizarse en la exposición del autor. Es evidente, de todos modos, que Aristóteles habla de 3 sustancias: de un mundo sublunar, que mueve el firmamento; del firmamento mismo, como el centro, que es a la par el motor y lo movido, y de Dios, como el motor inmóvil.” Frase original de Hegel, para contrastar: “El cielo es algo movido y es también, al mismo tiempo, algo que mueve. Y siendo, así, lo esférico algo a la par moviente y movido, tiene que haber necesariamente un centro que mueva, pero sea de suyo inmóvil y, al mismo tiempo, eterno y una sustancia y la energíaSuas sentenças não são pontuadas, e vai elencando sinónimos após as conjunções de ligação como se enriquecesse a exposição (por si inócua) acrescentar mais nomes e sinônimos ao que já tinha nome (Deus), e aumentando a barafunda do que é, pois que estas coisas são também outras coisas: enfim, que o primum mobile ou deus aristotélico é também ETERNO (Qual a definição de eternidade? Há algum deus que seja mortal ou limitado?), é também SUBSTÂNCIA (Qual a definição de substância? Por que não é redundante ser Deus e substância ao mesmo tempo?), é também ENERGIA (Qual é a definição de energia? Por que não é redundante ser Deus, substância e energia tudo ao mesmo tempo? No que deus ficaria pior se fosse retirado algum desses sinônimos arbitrários?)!… Uma absoluta perda de tempo – e energia!

Deus como uma rodinha de skate.

Por tanto, según Aristóteles, el concepto, principium cognoscendi, es también el motor, el principium essendi; lo proclama como Dios y señala su relación con la conciencia individual.” Revolucionário – só que não!

Me parece incrível, fabuloso até, que nem Ar. nem H. tenham percebido que só estão reescrevendo Platão sem o mesmo talento literário (ou percebem-no, mas fazem disso, dessa redação tecnicista, seu cínico ganha-pão): “Este sistema dura eternamente. ‘Pero a nosotros [como individuos] sólo por un breve tiempo nos está reservada una residencia en él que es la más excelente que apetecer podamos.’E ainda mais: o “filósofo da ação” (Ar., segundo a introdução de H.) é o mais contemplativo de todos! “el pensamiento es fin último y absoluto para sí mismo.”

El momento fundamental de la filosofía aristotélica consiste, por tanto, en que la energía del pensamiento y lo pensado objetivo sean una y la misma cosa” Ironia: Aristóteles cobra o por quê do Bem, p.ex., de Platão e Leucipo, mas tampouco dá o seu por quê energético. Não que seja um defeito seu; a energia é a mera referência de uma força física, e portanto um não-conceito, filosoficamente falando; o simples infundamentado e inessencial sobre o qual não se deve falar. O que pega mal é a hipocrisia do Estagirita: o parco entendimento dos outros (hipercrítica que exerce sobre o próprio mestre) e a excessiva indulgência em relação a si mesmo (a própria filosofia não é depurada e desenvolvida como seu lado crítico da tradição nos faz pensar). Nesse sentido ele é o pai ancestral de filósofos como Deleuze!

BLÁ, BLÁ, BLÁ… “En nuestro lenguaje, designamos lo absoluto, lo verdadero, como la unidad de lo subjetivo y lo objetivo que, por tanto, no es lo uno ni lo otro, aun siendo ambas cosas a la vez; pues bien, Aristóteles se debatió con estas formas especulativas, que aún hoy siguen siendo las más profundas, y las expresó con la mayor claridad. (…) Unidad es, por tanto, una expresión mala, antifilosófica, y la verdadera filosofía no es el sistema de la identidad, sino que su principio ha de buscarse en una unidad que es actividad, movimiento, repulsión y, en la distinción, algo idéntico a: sí mismo.” Tudo isso nos mostra que, se queremos derrubar Hegel de vez, devemos levar também tudo de aristotélico a pique!

el pensamiento divino tiene necesariamente que pensarse a sí mismo (puesto que es la más excelente de las cosas)”

Último abacate que vou postar. Pularei e eximirei o leitor de qualquer outro trecho degradante desse oceano de obviedades mixurucas!

La primera obra de Aristóteles sobre la materia es la Teoría física o de los principios, en 8 libros. Versa esta obra sobre el concepto de la naturaleza en general, sobre el movimiento y sobre el espacio y el tiempo, como debe de ser.”

Entre las obras relacionadas con la anatomía figuran sus tratados Sobre los órganos motores de los animales y Sobre las partes de los animales. Se refieren a la fisiología las siguientes obras: De la generación de los animales y Sobre el movimiento común de los animales. En seguida, Aristóteles pasa a tratar de la diferencia entre la juventud, y la vejez, entre el sueño y la vigilia y habla de la respiración, de los sueños, de la brevedad y la longitud de la vida, etc., materias todas de las que trata, en parte, de un modo empírico y, en parte, en un sentido más bien especulativo. Finalmente, escribe una Historia de los animales, pero no sólo como una historia natural en general, sino también como un estudio general de los animales, una especie de anatomía anatómico-fisiológica, si se quiere. Se le atribuye, asimismo, una obra de botánica titulada Sobre las plantas.”

Este pensamiento, añade Aristóteles, fue formulado preferentemente por Empédocles, quien presenta los primeros orígenes como un mundo de las más variadas monstruosidades, por ejemplo, animales con forma de toro y cabeza humana, las cuales, sin embargo, no podían conservarse, sino que perecieron todas, porque no estaban destinadas originariamente a perpetuarse, hasta que, por último, fueron reuniéndose los elementos con arreglo a un fin: y así, sin necesidad de recurrir a los fabulosos monstruos de los antiguos, nosotros mismos conocemos una serie de especies animales que se han extinguido por la sencilla razón de que no podían perpetuarse. También la actual filosofía de la naturaleza emplea la expresión de ‘surgir’ (que implica un desarrollo ajeno a todo pensamiento). Es una idea a que puede fácilmente verse conducida la filosofía de la naturaleza la de que los primeros productos de la naturaleza son a manera de intentos, de los cuales sólo pueden prevalecer aquellos que demuestren responder a un fin.”

de una parte, por obra de una filosofía mecánica que basa todo en la presión, el impulso, las combinaciones químicas, las fuerzas, es decir, en relaciones de orden externo, inmanentes sin duda a la naturaleza, pero que no parecen emanar de la naturaleza de los cuerpos, sino que son un aditamento extraño a ella, como el color en un líquido; de otra parte, bajo el influjo de una física teológica que establece como causas los pensamientos de una inteligencia exterior al mundo. Fue la filosofía kantiana la que hizo revivir entre nosotros aquel concepto, por lo menos para lo orgánico, enjuiciando por tanto lo vivo como un fin de sí mismo.” “El hecho de que la época más reciente haya traído de nuevo al recuerdo lo racional acerca de esto no es, pues, otra cosa que la justificación de la idea aristotélica.”

Aristóteles (Física IV, 6-7) pasa a hablar del espacio vacío, antiguo problema, que todavía no ha sido resuelto satisfactoriamente por los físicos de hoy. Si estudiasen a Aristóteles, sabrían a qué atenerse; pero, al parecer, es como si para ellos no existieran en el mundo ni el pensamiento en general ni Aristóteles en particular. ‘El vacío, según la manera corriente de pensar de los hombres, es un espacio en que no existe ningún cuerpo; y, como para ellos lo corpóreo es lo existente, llaman espacio vacío a aquel en que no existe absolutamente nada. La hipótesis de un espacio vacío tiene su razón de ser principalmente de una parte en que se considera el vacío’ —lo negativo de un modo existente— ‘como necesario para el movimiento, ya que los cuerpos no pueden moverse en el espacio lleno’ y, por consiguiente, allí donde se muevan no tiene que haber nada. ‘El otro argumento en favor del vacío se encuentra en la compresión de los cuerpos, en que las partes penetran en los poros vacíos.’

INTUIÇÃO DA LEI DA INÉRCIA: “En efecto, demuestra de una parte que el vacío anula más bien el movimiento y que equivaldría, por consiguiente, a una quietud general: es la total indiferencia con respecto al sentido en que se mueve más o menos algo; en el vacío quedan suprimidas todas las diferencias. Es la pura negación: ni objetos ni diferencias; por tanto, no hay razón alguna para permanecer quietos ni para seguir adelante. Ahora bien, los cuerpos se hallan en movimiento y, además, como cuerpos distintos los unos de los otros: tienen pues una relación positiva y no simplemente una relación con la nada.”

La diferencia de velocidad guarda la misma proporción con la diversidad del peso específico del medio, aire o agua, de tal modo que cuando el medio es la mitad menos denso aumenta la velocidad al doble.”

Por lo que se refiere al otro caso, o sea a la diferencia entre lo pesado y lo ligero, que se aprecia en los cuerpos mismos, tenemos que aquello se mueve más ligeramente que esto a través del mismo espacio; ‘pero esta diferencia se da solamente en el espacio lleno, pues el cuerpo pesado separa más rápidamente lo lleno, gracias a su fuerza’. Esta concepción es absolutamente exacta y va dirigida principalmente contra una serie de representaciones que hacen estragos en nuestra física. Estas representaciones [fenômeno observável] acerca del movimiento igual de lo pesado y lo ligero, como las que se refieren a la gravedad pura, [una] al peso puro, a la materia pura, etc., son una abstracción, como si se tratase de cosas iguales en sí y diferentes solamente por la resistencia casual del aire. [múltipla]¹Aristóteles não tem ‘culpa’ alguma de não conhecer a aceleração da gravidade em uma mesma pressão atmosférica, mas Hegel não deveria ignorar Newton! Lembrando que nesta parte não se procede exatamente à história da filosofia, mas da própria física…

¹ Hegel confunde os reinos da aparência e da essência, como se a essência fosse figurada na própria representação! Mas, apesar do modo oblíquo que elegeu para se expressar, Hegel não colide aqui com o modelo da física experimental (contra o que ele mesmo pensa): o que ele quis dizer é simplesmente que não existe o vácuo perfeito, então, na prática, se um bloco compacto de uma liga metálica muito pesada, digamos, de 1 tonelada, cai retilineamente por um abismo ao lado de uma pessoa de 80kg, por mais que essa pessoa seja maior que o bloco e possua ‘mais superfície’ (sofrendo a resistência do vento oposto em uma área maior que a do bloco), não significa que ambos chegariam ao fim do abismo – que deveria ser profundo o suficiente – simultaneamente (após o fim da aceleração da gravidade e o começo da trajetória em que ambos cairiam a 10m/s, uniformemente), pois a resistência do ar ainda seria maior contra o bloco de metal, mais ‘pesada’, anulando sua massa gravitacional. Um tubo de ensaio em que o vácuo perfeito fosse possível seria contraditório com o célebre modelo das ‘quedas idênticas’ porque aí já nem haveria possibilidade de queda dos corpos, apenas repouso.

Cuando el agua se convierte en aire, gana en extensión; pero la materia sigue siendo la misma, sin que a ella se sume ninguna otra cosa distinta: lo que ocurre es que lo que antes era en potencia lo es ahora en acto.” Também é incrível como o mundo moderno levou tantos séculos para chegar ao mesmo entendimento formal. Dito isto, Arist. continua péssimo metafísico; mas exímio cientista natural!

Aristóteles, por el contrario, concibe esto en un sentido totalmente dinámico, claro está que no con el significado que hoy suele darse a la palabra ‘dinámico’, es decir, como una mayor intensidad o un grado mayor, sino que se refiere a la intensidad certeramente como una posibilidad general.”

O ponto euclidiano como patas de uma aranha em eterno debate descoordenado.

SEMPRE ESBARRAM EM KANT (TEMPO E ESPAÇO SÃO AS MODALIDADES SINE QUA NON DA REPRESENTAÇÃO): “cuando colocan el vacío antes del principio de la generación, esto no es otra cosa que lo quieto, lo igual a sí, es decir, la materia eterna, establecida ya, por tanto, antes de la generación; pues no hacen honor a su palabra cuando dicen que antes de la generación sólo existe la nada.”

Este éter parece ser la materia eterna, pero que no aparece expresado de un modo tan claro, sino que parece detenerse como el cielo en nuestras representaciones: y, en general, es aquí donde empieza a revelarse más y más la yuxtaposición.”

Acerca de esto, hay que hacer notar que, aunque estas determinaciones fundamentales sean muy poco exhaustivas, Aristóteles va, sin embargo, mucho más allá que los modernos, ya que no profesaba este concepto de los elementos que se hace valer en los tiempos actuales, según el cual el elemento, como algo simple, está llamado a permanecer. Ahora bien, semejante determinabilidad simple del ser es una abstracción y no tiene ninguna realidad, ya que entonces no sería susceptible de movimiento ni cambio alguno; el elemento mismo debe tener realidad; está, por tanto, sujeto a disolución como la unidad de lo contrapuesto.”

He ahí por qué se pasan de listos quienes nos reprochan el que incluyamos entre los elementos el agua, el aire, etc. Ni siquiera bajo el nombre de ‘neutralidad’ han llegado los físicos modernos a una generalidad concebida como unidad, como la que Aristóteles atribuye a los elementos; en realidad, el hidrógeno, cuando se combina con una base, no sigue existiendo como tal, según a veces se afirma, dentro de la nueva combinación.” É verdade que o modo descritivo moderno é pobre, mas H. se esforça além do aceitável para encimar Arist. sobre a física moderna, vendo em sua física algo mais do que é.

De hecho, en la Meteorología pasa Aristóteles a estudiar el proceso general de la naturaleza. Pero, en este punto, llegamos con él al límite. Aquí, en el proceso de la naturaleza, la determinación simple como tal —esta manera de la determinación progresiva— deja de regir y pierde todo su interés.” “El fenómeno sensible empieza a cobrar primacía aquí, pues lo empírico presenta precisamente la naturaleza del distinto modo de dispersarse. El fenómeno empírico va escapándose así del pensamiento, el cual sólo registra por doquier el cuño de la toma de posesión, pero sin poder ya penetrarlo por sí mismo, puesto que retrocede del campo de lo ideal, donde aún existían el tiempo, el espacio y el movimiento.”

En cuanto a la contraparte de la filosofía de la naturaleza, o sea la filosofía del espíritu, encontramos señalada también en Aristóteles, en una serie de obras que citaremos, la diferencia entre las diversas ciencias especiales.

En primer lugar, sus 3 libros Sobre el alma estudian la naturaleza general abstracta del alma, principalmente a modo de refutación, aunque tratan también, de un modo más difícil y especulativo, de su naturaleza en sí misma; no de su ser, sino de la determinada manera y posibilidad de su efectividad, en lo que consiste, según Aristóteles, su ser y su esencia.”

Finalmente, nos lega, con su Política, una exposición de las constituciones esenciales de los Estados y de los diversos tipos de constitución, que va examinando por el método empírico” Atingindo, por sinal, péssimos resultados.

De una parte, [hoje,] la cólera, por ejemplo, se considera como un deseo de venganza o como algo por el estilo; de otra parte, como una irritación de la sangre del corazón o del calor dentro del hombre. Aquél es el punto de vista racional, éste el punto de vista material ante la cólera. Es algo así como si, de una parte, se definiese la casa como un abrigo contra el viento, la lluvia y otros accidentes y, de otra parte, como una construcción hecha de madera y de piedras: el primer criterio busca, en efecto, la determinación y la forma, o sea el fin de la cosa; el segundo, su materia y su necesidad.”

El alma es la sustancia como forma del cuerpo orgánico físico, que tiene vida en potencia, pero su sustancia es efectividad, y concretamente, la acción de un cuerpo así [es decir, animado].”

No porque el alma sea la forma se debe preguntar si el alma y el cuerpo forman una unidad, del mismo modo que no se pregunta si forman una unidad la cera y su forma, ni si la materia y sus formas, en general, forman una unidad.”

En efecto, si consideramos el alma y el cuerpo como una unidad, al modo de una casa, formada por una multitud de partes, o como la cosa y sus cualidades, el sujeto y el predicado, etc., seguiremos la senda del materialismo, en que ambos elementos son considerados como cosas. Semejante identidad constituye una determinación completamente abstracta y, por tanto, superficial y vacía, que no puede predicarse, ya que la forma y la materia no tienen el mismo rango de dignidad en lo que al ser se refiere; la identidad verdaderamente digna solo puede concebirse como tal entelequia.

Sólo cabe, pues, preguntarse si la actividad forma una unidad con su órgano; y nuestra idea es, desde luego, que esa pregunta debe ser contestada afirmativamente.”

ROLA UMA BRIGUINHA ENTRE EDITORES, TRADUTORES E DEMAIS ENVOLVIDOS NA EXECUÇÃO DA OBRA ATRAVÉS DAS NOTAS DE RODAPÉ: “El alma es la sustancia, pero sólo en cuanto al concepto; pero esto no es sino la forma sustancial(*) de semejante cuerpo.

(*) El editor se ha creído autorizado a introducir aquí esta traducción, usual entre los escolásticos y recogida por Leibniz (Cfr. Michelet, Examen critique).” HAHAHA!

Por consiguiente, a la pregunta de ¿cuál es la sustancia del ojo?, ¿son acaso los nervios, los humores, las membranas, esa sustancia?, contesta Aristóteles: por el contrario; la visión misma es la sustancia; aquellas materias no son sino un vacuo nombre.”

la vida vegetal es el concepto de lo orgánico.”

Ó! EUREKA! “En efecto, es de todo punto indiferente el que nos encontremos determinados subjetiva u objetivamente” Mas isso Platão já o sabia!

Es cierto que la mónada leibniziana parece ser una representación opuesta a ésta, en cuanto que toda mónada, todo punto de mi dedo, como átomo o individuo, es un universo entero en el que todo se desarrolla dentro de sí mismo, sin relación con otras mónadas.”

Es un falso idealismo el que sostiene que la pasividad y la espontaneidad del espíritu dependen de que la determinabilidad dada sea interior o exterior” “…al modo como lo entiende Fichte, quien considera ya parte suya la chaqueta que viste, por el mero hecho de vestirla, o simplemente por considerarla.” Hahaha!

quien tiene la facultad de oír no siempre oye”

Existen dos palabras para expresar el oír y el resonar, pero no así para expresar el ver; el ver es la actividad del que ve, pero la actividad del color carece de nombre.” Ouvi sem escutar, escutei distintamente suas palavras sem nada ouvir.

En lo corpóreo, por tanto, se contraponen entre sí la materia, como potencia, y la forma externa, como acto; pero el alma es, por el contrario, la potencia general misma, sin materia, porque su esencia es la efectividad.”

RESERVATÓRIO: “El pensamiento se convierte en entendimiento pasivo, es decir, en algo objetivo; y así se aclara ahora hasta qué punto es el nihil est in intellectu, quod non fuerit in sensu el sentido de la filosofía de Aristóteles.” Não pode ser pensado aquilo que não foi sentido Não pode ser pensado aquilo que não foi pensado. Tudo que foi pensado foi sentido, etc., etc.. E implicações com os trechos destacados por Derrida na Enciclopédia.

Es, como se ve, una actitud altamente idealista; a pesar de lo cual hay quienes se empeñan en ver en Aristóteles un pensador empírico.” Duro é pensar que elogiam Fraud tanto tempo depois dizendo a mesma coisa (‘ele é empírico!’).

El término técnico para expresar esto es la conocida tabula rasa, con la que nos encontramos dondequiera que se habla de Aristóteles: Aristóteles quiere decir, según quienes así interpretan su pensamiento, que el espíritu es como una hoja en blanco sobre la cual se escribe acerca de los objetos exteriores, lo que vale tanto como decir que el pensamiento viene de fuera. Pues bien, eso es cabalmente lo contrario de lo que Aristóteles sostiene. La representación, en vez de atenerse al concepto, concibe estos símiles fortuitos como si expresaran la cosa misma. Sin embargo, Aristóteles no pretende, ni mucho menos, que este símil se tome en todo su alcance, al pie de la letra: el entendimiento no es, ni mucho menos, una cosa, ni tiene la pasividad de una tablilla de cera sobre la que se escriba; el entendimiento es la efectividad misma, que no está, como en el caso de la tablilla de cera para escribir, fuera de ella. El símil se limita, por tanto, a indicar que el alma sólo tiene un contenido en cuanto realmente se piense. Cuando dice que el alma es este libro en blanco quiere decir, por tanto, que lo es todo en sí, pero que no es de suyo esta totalidad; lo mismo que, en potencia, un libro lo contiene todo, pero en acto no contiene nada antes de estar escrito. La actividad real, y sólo ella, es lo verdadero”

O termo técnico para expressar isto é a conhecida tabula rasa, com que nos encontramos onde quer se fale de Aristóteles: Aristóteles quer dizer, segundo quem assim interpreta seu pensar, que o espírito é como uma folha em branco sobre a qual se escreve acerca dos objetos exteriores, o que vale tanto quanto dizer que o pensamento vem de fora. Pois bem, isso é cabalmente o contrário do que Aristóteles sustenta. A representação, em vez de se ater ao conceito, concebe estes símiles fortuitos como se expressassem a coisa mesma. Contudo, Aristóteles não pretende, na outra mão, que este símile seja tomado em todo o seu alcance, ao pé da letra: o entendimento não é tampouco uma coisa, nem tem a passividade de uma tabuleta de cera sobre a qual se escreva; o entendimento é a efetividade (realidade) mesma, não está, como no caso da tábua de cera que serve para escrever, fora do real. O símile se limita, portanto, a indicar que a alma só tem um conteúdo enquanto realmente se pensa. Quando diz que a alma é este livro em branco, Aristóteles quer dizer, por conseguinte, que ela é tudo em si, mas que não é para si mesma esta totalidade; o mesmo que, em potência, um livro contém tudo, mas em ato não contém nada antes de estar escrito. A atividade real, e somente ela, é o verdadeiro.”

El séptimo y octavo capítulo se dedican a explicar ciertas tesis de los capítulos cuarto y quinto; comienzan recapitulando las tesis en cuestión y parecen glosas de un comentador. ‘El alma —dice Aristóteles (De anima, III, 8)— es, en cierto modo, todo lo que es. Pues lo que es es una de dos cosas: lo sentido o lo pensado. La ciencia misma es, en cierto modo, lo sabido, y la sensación lo sentido. Ahora bien, estas cosas sabidas y sentidas son o bien ellas mismas o bien las formas. La ciencia y la sensación no son las cosas mismas (la piedra no se halla en el alma), sino su forma; por donde el alma es como la mano. Ésta es el instrumento de los instrumentos: el entendimiento, por su parte, es la forma de las formas, y la sensación la forma de lo sensible.’”

O 7º e o 8º capítulos se dedicam a explicar certas teses dos capítulos 4 e 5; começam recapitulando as teses em questão à guisa de glosa de um comentador. ‘A alma – diz Aristóteles em De Anima, vol. III, c. 8 – é, de certo modo, tudo o que é. Pois o que é é uma de duas coisas: o sentido ou o pensado. A ciência mesma é, de certa forma, o sabido, e a sensação o sentido. Ora, estas coisas sabidas e sentidas são ou bem elas mesmas, ou bem as formas. A ciência e a sensação não são as coisas mesmas (a pedra não se acha na alma), senão sua forma; daí que a alma é como a mão. Esta é o instrumento dos instrumentos: o entendimento, por sua vez, é a FORMA DAS FORMAS, e a sensação a forma do sensível.’

deste modo, Ar. não é realista” Às vezes H. devia apenas citar e calar o bico – assim não tinha chance de falar tanta asneira!

A PONTA DO NARIZ E ARISTÓTELES (ALMA VII): “O entendimento pensa o abstrato como se a conformação do nariz não fosse a conformação do nariz, inseparável da carne, senão algo vazio.”

“‘quem nada sente, nada aprende nem nada entende; se conhece algo, necessariamente tem que conhecê-lo também como representação, pois as representações são como as sensações, só que sem matéria. Pois bem, e em que se distinguem os pensamentos originários das representações? Ou bem não são inclusive os outros pensamentos nenhuma classe de representação, mesmo que sempre impliquem uma representação?’ Como aquilo que segue no livro não responde estas perguntas, isso parece ser mais uma indicação de que estes fragmentos têm origem apenas posterior.”

QUANTA AFETAÇÃO! “Esta identidade do subjetivo e do objetivo, que existe no entendimento ativo, enquanto que as coisas e os estados finitos do espírito são o separado de ambos, já que neles o entendimento só existe em potência, representa o cume mais alto a que pode chegar a especulação, e Aristóteles retorna assim a seus princípios metafísicos, nos quais chamava à razão que se pensa a si mesma o pensamento absoluto, o entendimento divino ou o espírito no plano do absoluto.”

Tres grandes obras éticas se han conservado de Aristóteles: la Ética Nicomaquea, en 10 libros, la Gran Ética, en 2 libros, y la Ética Eudemia, en 7 libros; la última se refiere más bien a las virtudes especiales, mientras que las 2 primeras contienen, preferentemente, investigaciones generales en torno a los principios.

Así como lo mejor que poseemos acerca de los problemas de psicología, hasta estos últimos tiempos, es lo que hemos recibido de Aristóteles, es también excelente lo que nos ha legado acerca de la voluntad real, la libertad, acerca de las determinaciones ulteriores de la imputación, la intención, etc. Lo que ocurre es que hay que imponerse el trabajo de estudiarlo y conocerlo, traduciéndolo a nuestro propio modo de hablar y de pensar, lo que naturalmente no es fácil. También aquí, como en lo físico, procede Aristóteles analizando uno tras otro, del modo más concienzudo y verdadero, los diversos momentos que se dan en la voluntad: el propósito, la resolución, el obrar voluntario o forzado, el obrar por ignorancia, la culpa, la imputabilidad, etc. No hemos de detenernos en este estudio, de carácter más bien psicológico”

Aristóteles no se da por satisfecho con la idea platónica del bien, por ser solamente lo general, sino que plantea el problema de su determinabilidad.” Problema dele.

Cuando el conocimiento es malo o incluso inexistente, pero el corazón, a pesar de ello, se comporta bien, podrá según Aristóteles existir bondad, pero no virtud, ya que falta el fundamento, o sea la razón, sin el que la virtud no puede existir.” Sempre traduzir conhecimento na Ética de Aristóteles como sabedoria no sentido schopenhaueriano, para facilitar. E coração como o verdadeiro ethos contemporâneo. O mito do burro bom (na verdade ele pode ser no máximo inofensivo). Falo em Schopenhauer, porque ambos são concordes neste aspecto. Já eu descartaria a existência de um burro bom, ou dum inteligente mau.

De ahí que Aristóteles, según veíamos, censure a Sócrates por cifrar la virtud exclusivamente en el conocimiento.” Naturalmente, pois não entendeu Sócrates. Aristóteles endeusou (literalmente!) a Razão, mas não entendeu tampouco a razão socrático-platônica: não significa usar o pensamento ou acumular informações. Significa ser sábio. Logicamente, o sábio socrático é virtuoso. Não existe inteligência, para Sócrates, dissociada de caráter! Arist. entende que aquele que possui a ciência filosófica alcançaria como por milagre noções éticas. É muito fácil estereotipar esse entendimento, dizendo que para Sócrates a virtude era uma iluminação individual. Mas esta não é a correta leitura da doutrina platônica. A ocorrência moderna que chamamos de “erudito” que na verdade não passa de velhaco não refuta ‘a ingenuidade socrática’: ele é um erudito, pois que seja, porquanto querem chamá-lo de erudito, ou permitem que se chame a si de erudito; isto não importa para nós. Ele é um hipócrita que nada tem que ver com a figura do sábio. Tampouco pode-se chegar a essa condição por esforço. Daí a força atual que conserva a metáfora da reminiscência em Platão. Outro exemplo: um político maquiavélico é tolo, pois não compreende que tudo é vaidade. No tomo I eu fui mais específico a este respeito.

Por consiguiente, en la virtud, en cuanto ésta tiende a la realización y es atributo del individuo, no puede decirse que sea la razón el principio único, sino que es la inclinación el elemento propulsor, concreto, el que precisamente en lo práctico y en el sujeto tiende a la realización.” Hegel descreve apropriadamente Arist.. O grifo verde se destina a criticar a compreensão aristotélica da moral: ele decompõe a conduta ética em teórica e prática. Sua delimitação ética é sem dúvida a que norteia a disciplina Ética moderna. Porém, isso é um mal, um retrocesso em relação a Platão. Nietzsche foi o primeiro filósofo a apontar tal erro. A virtude é um atributo inato do indivíduo. Não se pode realizar a virtude quando é-se dela carente, daí a ilusão de que alguém dotado da capacidade teórica (todo homem) de ser virtuoso falha na execução (só executa a virtude aquele que nasceu virtuoso e sábio). Ter conhecimento teórico da virtude e não aplicá-lo na prática é o mesmo que dizer que é-se meio-virtuoso, virtuoso incompleto. Ora, ou é-se virtuoso ou não se o é. É redundante falar em virtude não-realizada, por isso Aristóteles discorda de Platão – pois crê que vale a pena falar desse tipo de meia-virtude. A razão é o princípio único, porém não a razão aristotélica. Isso faz com que Aristóteles tenha de recorrer à ‘inclinação’ como elemento propulsor. Essa inclinação é inata à razão corretamente compreendida no platonismo, e não existe tal decomposição em 2 palavras ou conceitos, em que um se subordina aleatoriamente ao outro. Assim, não é que a Ética seja uma disciplina voltada à prática; ela é teórico-prática, uma unidade, desde o início. Mas o homem moderno não enxerga a validade do teórico, preferindo expulsá-lo do campo ético.

aunque se haya censurado como algo muy insuficiente e indeterminado al hecho de que Aristóteles determine la virtud más bien como una diferencia de grado, hay que reconocer que esto es algo que va implícito en la naturaleza misma de la cosa. La virtud, y más que ninguna otra la virtud determinada, entra en una órbita en que ocupa un lugar lo cuantitativo; el pensamiento aquí no permanece ya cabe sí como tal, siendo indeterminado el límite cuantitativo.” Essa definição é satisfatória no mundo dos moralistas e autores de auto-ajuda, no mundo dos comuns e plebeus. Para um filósofo, é um achado muito aquém do desejável.

Aristóteles dábase cuenta, más o menos claramente, de que la sustancia positiva, la necesaria organización y realización del espíritu práctico es el Estado, que es realizado por medio de la actividad subjetiva de tal modo que ésta encuentra en él su determinación. Por eso también Aristóteles ve en la filosofía política toda la filosofía práctica y el fin del Estado como la felicidad general.” De novo, o mesmo erro. Não existe política apenas prática. A ciência política moderna é Aristóteles desenvolvido: é o que temos, mas não é ciência nem um conhecimento sobre política, ainda.

Aunque el supremo bien es el mismo para el individuo que para el Estado en su conjunto, parece que es, desde luego, más grande y más digno el conquistar y conservar ese bien para un Estado; cierto que es ya meritorio el conquistarlo para un individuo, pero es más bello y más divino el hacerlo para todo un pueblo y para Estados enteros. Pues bien, la ciencia práctica aspira a eso y forma, por tanto, en cierto modo, parte de la política.” Ética a Nicômaco, citação que cai como uma luva para Hegel.

Pero quien es incapaz de vivir en sociedad o no necesita de ella por considerarse independiente y superior, sólo puede ser una de 2 cosas: o un animal salvaje o un dios.”

[e]l principio moderno, según el cual la voluntad particular del individuo se erige, como lo absoluto, en el punto de partida; [a revolução francesa] y así, todos contribuyen, por medio de la emisión de sus sufragios, a decidir lo que ha de regir como ley, estableciendo la comunidad sobre estas bases. En Aristóteles, por el contrario, como en Platón, el Estado¹ es el prius, lo sustancial, lo fundamental, pues su fin es el más alto de todos, desde el punto de vista de lo práctico.”²

¹ Essa generalização de H. pode custar muito caro em mal-entendidos: “Estado” significa coisas diferentes para Platão, Aristóteles e para o próprio Hegel.

² O leitor fica tentado a se perguntar: se o princípio moderno é o individual e o princípio antigo é o coletivo, qual deve prevalecer, qual é o melhor? A resposta curta e grossa é: nenhum. Não podemos mais defender uma Teoria do Estado, nem tampouco continuar com os pressupostos do Liberalismo, que institui o Homo oeconomicus atomizado, um inútil político.

Ningún país como Grecia abundaba tanto en múltiples constituciones como en cambios dentro de cada una de ellas en un solo Estado, a pesar de lo cual los griegos no llegaron a conocer en ningún momento ese derecho abstracto de los Estados modernos que aísla al individuo, lo deja hacer como tal y, sin embargo, los mantiene en cohesión a todos como un espíritu invisible, de tal modo que en ninguno se dé ya ni la conciencia ni la actividad con vistas al conjunto, sino que cada cual actúa para el todo, sin saber cómo, tan sólo en la medida en que se le reconoce esencialmente como persona y en que sólo se preocupa de la protección de su individualidad. Es una actividad dividida, de la que cada uno sólo tiene en sus manos un fragmento: del mismo modo que, en una fábrica, nadie forma un todo, sino solamente una parte y no posee las demás habilidades necesarias, ya que solamente algunos determinan la cohesión del conjunto.” Trecho fundamental para a funda(menta)ção do Marxismo.

La libertad burguesa, en este sentido, consiste precisamente en la carencia de lo general, en el principio del aislamiento; pero esta libertad constituye un momento necesario que los antiguos Estados no conocían” É como dizer que Diógenes o Cínico era uma existência necessária – quase uma confissão de mesianismo!

sólo ahora se hace posible la consistencia interior y la indestructible generalidad, real y consolidada en sus partes.” O Estado moderno é realmente muito consistente – como exemplifica muito bem a arbitrariedade racional-legal chamada Israel –; só esperamos que não seja exatamente indestrutível! Felizmente, entretanto, Hegel não perde muitas páginas comentando a Política.

Al otro lado de la filosofía del espíritu se halla la ciencia aristotélica del pensamiento abstracto, la lógica, que aún nos queda por examinar, ciencia venerada por espacio de siglos y de milenios con la misma fuerza con que hoy se la desprecia. Aristóteles está considerado como el padre de la lógica: sus obras sobre esta materia son la fuente y el tratado de los estudios lógicos de todos los tiempos, que no eran, en parte, otra cosa que desarrollos especiales de los principios sentados por el Estagirita, lo que necesariamente hacía de ellos proyecciones secas, opacas, imperfectas y puramente formales; todavía en los tiempos más recientes habría de decir Kant que la lógica era, desde Aristóteles, como la geometría pura desde Euclides, una ciencia acabada que había venido manteniéndose hasta nuestros días sin experimentar el más pequeño mejoramiento científico ni enriquecerse con ninguna aportación nueva.”

Así como en la historia natural se examinan y describen los animales, por ejemplo, el unicornio, el mamut, esta o aquella clase de escarabajos o de moluscos, etc., Aristóteles traza también, en cierto modo, la descripción natural de estas formas espirituales del pensamiento; pero, en estas deducciones de unas cosas a otras, Aristóteles se limita a exponer y precisar el pensamiento en su aplicación finita: su lógica es, por tanto, una historia natural del pensamiento finito.” “hay que reconocer que esta conciencia es verdaderamente admirable, y más admirable aún el desarrollo de esta conciencia; y esta lógica, por tanto, una obra que hace honor en el más alto grado a la profundidad de espíritu de su inventor y a su gran capacidad de abstracción.”

Las categorías, de las que trata la primera de estas 5 obras, son las determinaciones generales, lo que se predica del ser: tanto lo que hoy llamamos conceptos intelectivos como las cualidades simples de las cosas. Podríamos llamar a esto una ontología, una parte de la metafísica; estas determinaciones aparecen también, por tanto, en la metafísica aristotélica.” Diz-se, ademais, que a parte das categorias na Lógica arist. está incompleta.

Los conceptos determinados se predican con unión o sin unión: así por ejemplo, cabe decir: el hombre vence, el buey anda, o bien: el hombre, el buey, vencer, andar.”

As determinações da lógica aristotélicas já foram há muito tempo absorvidas por todos os que filosofam. Quatro noções básicas (abaixo) são o gênero, o geral, o particular e o individual.

El concepto es una realidad lógica y, por tanto, algo en sí puramente pensado, es decir, posible. En el juicio, postula el concepto A como un sujeto real y combina con él a otro algo real, como concepto B; se trata de que B sea el concepto y de que A se halle dotado de ser con respecto a él, pero B es solamente el concepto más general. En el silogismo, trata de imitarse la necesidad: ya en el juicio se contiene la síntesis de un concepto y un deber ser: en el silogismo se trata de dar a esa síntesis la forma de la necesidad, equiparando ambos términos contrapuestos dentro de un tercero como a través del término medio de la razón, por ejemplo en el justo medio de la virtud. La premisa mayor expresa un ser lógico, la menor una posibilidad lógica, pues Cayo es, para la lógica, un algo simplemente posible; la conclusión sirve de lazo de unión entre ambos términos.”

EXPLICAÇÃO CONTIDA NA DEFINIÇÃO DE GÊNERO: “O conceito é uma realidade lógica e, portanto, algo em si puramente pensado, i.e., possível. No juízo, postula-se o conceito A como um sujeito real e se o combina com outro algo real, como conceito B; trata-se de que B seja o conceito e de que A se ache dotado de ser com respeito àquele, mas B é somente o conceito mais geral. No silogismo, trata-se de imitar a necessidade: ao passo que no juízo contém-se a síntese de um conceito e um dever-ser, no silogismo dá-se a tal síntese a forma da necessidade, equiparando ambos os termos contrapostos dentre de um terceiro como através do termo-médio da razão, p.ex. no justo meio da virtude. A premissa maior expressa um ser lógico, a menor uma possibilidade lógica, uma vez que Caio é, para a lógica, um algo simplesmente possível; a conclusão serve de laço de união entre ambos os termos.” Parece muito mais difícil do que é pela explicação.

Há um problema com a Lógica aristotélica quando avaliada por Hegel, pois falta-lhe a noção do Absoluto, presente na lógica hegeliana. Por isso, o “geral” em Ar. é uma determinação “pobre”, aquém do “geral moderno”, ou geral em H. Veja abaixo:

O GERAL: Aquilo que não é nem ser em si (essência, potência, abstrato) sem ser para si (aparência, ato, concreto).

O PARTICULAR: O concreto, partícipe do geral, a aparência que o sujeito pode nomear como momento seu. O predicado determinado-com-referência-a. Poderíamos dizer que se houvesse a reflexão sobre a reflexão nesse processo, seria o Absoluto hegeliano (o ser em e para si); mas aqui não há este desdobrar e retornar a si mesmo da consciência individual, então o processo é incompleto.

O INDIVIDUAL: A aparência pura (fenômeno, representação). O predicado indeterminado. Chamado, em outro tópico do livro, de categoria da substância. Como é mera ação cega, um nível abaixo da concretude, mal é conceito.

Enfim, ‘memorizar’ essas sutilezas a nada leva, senão que o raciocínio filosófico e o pensamento lógico se formam naturalmente no filósofo. O acrescer o tempo todo homônimos só confunde a cabeça dos neófitos.

La segunda obra es la que versa sobre la interpretación

Provavelmente o que hoje ensina-se como RACIOCÍNIO LÓGICO propriamente dito. Proposições, verdade ou falsidade (inferência e juízo do contéudo que se contradiz).

Forman la tercera parte los libros analíticos, que son 2 obras, los primeros y los posteriores: [¿?] tratan con bastante detalle de la prueba y de los silogismos.”

La cuarta obra es la llamada Tópicos, que trata de los lugares (topoi)” “Esta parte de la lógica aristotélica fue desarrollada por Cicerón [¡!] y Giordano Bruno.” “Ahora bien, esto, según Aristóteles, forma parte de la dialéctica, que él llama un instrumento para descubrir proposiciones y conclusiones, partiendo de lo probable.” “Y distingue también los silogismos dialécticos y probatorios de los retóricos y de toda clase de medios de persuasión, incluyendo entre los retóricos la inducción.”

Finalmente, la quinta obra es la llamada Refutaciones sofísticas o De los giros, en la que, en el desarrollo inconsciente del pensamiento en sus categorías, por lo que se refiere a la parte material de las representaciones, cae en constantes contradicciones consigo mismo.” “los que más se distinguieron en el estudio de estas contradicciones fueron los megáricos”

Pues, por muy árida y carente de contenido que pueda parecernos la enumeración de las distintas clases de juicios y silogismos y sus múltiples entrelazamientos y camino poco adecuado para llegar a la verdad, no es posible levantar, por vía de contradicción, otra ciencia frente a ésta. Si, por ejemplo, se considera como una aspiración legítima y digna llegar a conocer, en la entomología erudita, la indecible cantidad de animales que existen, por ejemplo, las 167 especies de cuclillos, diferenciadas a veces solamente por un mechoncito de plumas en la cabeza, una miserable especie nueva de musgo dentro del miserable género musgo, un insecto, una hormiga, una chinche, etc., no cabe duda de que es mucho más importante conocer las diversas modalidades del movimiento del pensar.” Bom ponto, H.! Mas a Lógica aristotélica não deixará de ser chata por isso!

su defecto no consiste, por tanto, en que sean simplemente formas, sino por el contrario en que carecen de forma y en que hay en ellas demasiado contenido.” Em vez de o Estagirita, o Enciclopédico como epíteto!

A pesar de que esta lógica de lo finito es, por naturaleza, muy poco especulativa, no hay más remedio que conocerla, pues la encontramos por todas partes en las relaciones de lo finito. Hay muchas ciencias, conocimientos, etc., que no conocen ni aplican más formas del pensamiento que estas formas del pensar finito, que en realidad constituyen el método general de las ciencias finitas. Las matemáticas, por ejemplo, son un proceso constante de deducciones; y la jurisprudencia consiste en la subsunción de lo particular bajo lo general, en la unión de estos dos aspectos.

Dentro de estas relaciones de determinaciones finitas, el silogismo es indudablemente por la trinidad de sus términos, la totalidad de estas determinaciones, razón por la cual ha sido llamado por Kant (Crítica de la razón pura, p. 261) el silogismo racional” Os doidos entendem-se entre si. H. e K. seriam amissíssimos se contemporâneos, com toda a certeza. Acontece que quando Hegel entrava na idade para filosofar, Kant já era um octogenário.

La lógica de Aristóteles, al igual que toda su filosofía, necesita esencialmente ser sometida a esta refundición, para que la serie de sus determinaciones pueda reducirse a un todo sistemático necesario: no a un todo sistemático en que todas las partes aparecen exactamente clasificadas, sin olvidar ninguna, y colocadas por su orden debido, sino a un todo orgánico vivo, en que cada parte valga como parte y sólo el todo, como tal, tenga verdad.”

Y con lo dicho ponemos fin a nuestro resumen de la filosofía aristotélica, de la que no es fácil por cierto desprenderse, pues cuanto más entra uno en detalles de ella más interesante resulta y más cohesión encuentra uno en los temas.” “Esto hace que no podamos decir gran cosa de los discípulos de Aristóteles, ni de Teofrasto ni de muchos otros (por ejemplo, de Dicearco de Mesina), el más famoso de los cuales fue Estratón de Lampsaco, sucesor de Teofrasto.”

El triunfo celebrado al renacer las ciencias por el hecho de que la filosofía aristotélica fuese desplazada de las escuelas, de las ciencias y principalmente de la teología, como la filosofía sobre la esencia absoluta, tiene este doble aspecto: de una parte, el de que lo que se desplazaba no era tanto la filosofía aristotélica como el principio de la ciencia teológica basado en ella y con arreglo al cual la primera verdad es una verdad dada, revelada, una premisa sentada de una vez por todas, dotada de fuerza y de razón y en torno a la cual se mueven de un lado para otro, solamente de un modo superficial, la razón y el pensamiento.” “Pero otro de los aspectos de este triunfo fue el triunfo de la vulgaridad, que se emancipó del concepto y sacudió el yugo del pensamiento. Antes se hablaba mucho, como sigue hablándose aún hoy, de las sutilezas escolásticas de Aristóteles; cree haberse encontrado en este nombre un derecho para ahorrarse las molestias de la abstracción y huir del concepto, entregándose a las sensaciones de la vista y del oído y a lo que se llama sano sentido común.” “los escarabajos, las especies de aves, se distinguen hoy con la misma sutileza con que en otros tiempos los conceptos y los pensamientos. Si una especie de pájaros tiene el plumaje rojo o verde, tal o cual forma de cola, etc., son sutilezas con las que es más fácil encontrarse hoy que con las distinciones que afectan al pensamiento” Mas pensé bem: se os alemães tivessem se atido à ornitologia não teríamos tido duas guerras mundiais…

El defecto de la filosofía aristotélica estriba en que —después de haberse elevado, por medio de ella, la multiplicidad de los fenómenos al plano del concepto y de haberse descompuesto éste en una serie de conceptos determinados— no se hizo valer la unidad del concepto que la unificaba de un modo absoluto: y esto es precisamente lo que habrán de llevar a cabo los tiempos posteriores.” Tempos posteriores, leia-se: eu.

Pero la unidad como concepto, la unidad general y negativa en sí, el tiempo como tiempo, absolutamente cumplido y en su cumplimiento como unidad, es la conciencia pura de sí mismo.”

Ponemos fin, así, a la primera sección de la filosofía griega para pasar en seguida al segundo período de ella.” “La necesidad inmediata, lo inmediatamente necesario, tiene que contenerse en aquello que la filosofía había llegado a ser con Platón y Aristóteles.”

A FRANÇA COMO O ANTÍDOTO DA SISTEMOFILIA HEGELIANA: “así también, los franceses llaman a lo dogmático systématique y dan el nombre de systéme a aquel conjunto de representaciones en el que todas tienen que emanar consecuentemente de una determinación; y por eso también systématique es, para ellos, sinónimo de unilateral.”

Y si en el estudio de este primer período nos hemos detenido demasiado, podremos recobrar el espacio en el examen del segundo, en el que ya no tenemos para qué extendernos tanto.”

SECCIÓN SEGUNDA:

SEGUNDO PERÍODO: EL DOGMATISMO Y EL ESCEPTICISMO

Dentro del funesto mundo romano, se borra con mano áspera todo lo que había de bello y de noble en la individualidad espiritual. En este estado de divorcio del mundo, en que el hombre se ve empujado a su interior, esfuérzase en buscar por la vía de lo abstracto la unidad y la satisfacción que ya no acierta a encontrar en el mundo. Por eso precisamente el mundo romano es el mundo de la abstracción, en el que se extiende una fría dominación sobre el mundo culto. Las individualidades vivas de los espíritus de los pueblos se ven reprimidas y son asesinadas; un poder extraño viene a pesar, como lo general abstracto, sobre el individuo.”

No cabe duda de que el mundo romano dio vida a un patriotismo formal y a sus virtudes correspondientes, así como a un sistema de derecho muy desarrollado; pero de una muerte así no podía surgir una filosofía especulativa, sino solamente buenos abogados y la moral de un Tácito. Por eso estas filosofías, con excepción del estoicismo, se manifestaron entre los romanos en oposición con su antigua fe supersticiosa; y en general la filosofía pasa a ocupar ahora el lugar de la religión.”

la imperturbabilidad y la igualdad del espíritu consigo mismo, al que nada hace sufrir, ni la alegría ni el dolor, y que no se halla determinado por ningún otro nexo, es el punto de vista común y la meta común de todas estas filosofías”

El fundador de la escuela estoica es un Zenón que no debe confundirse con el de Elea: Zenón, de Cirio, ciudad de la isla de Chipre, que nació alrededor de la 109ª Olimpíada. Su padre era comerciante y en sus viajes comerciales le llevó de Atenas —que era y habría de seguir siendo durante mucho tiempo la sede de la filosofía y de gran número de filósofos— algunos libros, compuestos principalmente por los socráticos, lo que despertó en aquel joven el afán y el amor por la ciencia.”

Zenón visitó en Atenas a varias clases de socráticos, principalmente a Jenócrates, figura de la escuela platónica que había llegado a hacerse muy famoso por el rigor de sus costumbres y por la gran seriedad de su conducta, habiendo sido sometido a pruebas semejantes a las que se vio sometido San Francisco de Asís, saliendo también triunfante de ellas.” “La filosofía estaba considerada entonces como un asunto de la vida, y de la vida en su totalidad; no era una enseñanza que se cursase en tantas o cuantas lecciones, para pasar en seguida, corriendo, a otra materia.” “hasta que por último actuó por cuenta propia como maestro en un pórtico o stoa, decorada con la colección de pinturas de Polígnoto, y de aquí tomó su escuela el nombre de escuela estoica.”

Por su cultivo de la ciencia, hízose más célebre que Cleanto [discípulo de Zenão de Círio] su discípulo Crisipo de Cilicia, que nació en la Ol. 125,1 (280 a.C.), quien vivía también en Atenas y fue seguramente el que más hizo por el desarrollo y la difusión de la filosofía estoica en todos sus aspectos. Le hizo famoso, sobre todo, su lógica y su dialéctica, hasta el punto de que se llegara a decir: si los dioses se dedicasen a la dialéctica, no se valdrían para ello de otra que de la de Crisipo. Sus contemporáneos admiraban también su laboriosidad como escritor; el número de sus obras ascendía en efecto, como indica Diógenes Laercio, a la cifra de 750. Cuéntase de él, en relación con esto, que escribía unas 500 líneas diarias. Sin embargo, la manera de componer sus escritos neutraliza bastante todo lo que tenía de admirable esta laboriosidad como escritor y revela que la mayoría de sus obras eran simples compilaciones o repeticiones. Escribía con frecuencia acerca de los mismos temas; llevaba al papel todo lo que se le ocurría y fue acumulando así una multitud de noticias y testimonios; copiaba a veces libros casi enteros de otros, y alguien llegó a decir, juzgando su obra, que si se le quitara todo lo que en ella pertenecía a otros, apenas quedaría más que el papel en blanco. Claro está que este juicio es bastante exagerado, como lo revelan las muchas citas de los estoicos, en las que Crisipo figura siempre a la cabeza, utilizándose en ellas, de preferencia, sus definiciones y explicaciones. Pero sus obras, de las que Diógenes Laercio trae una copiosa lista, se han perdido en su totalidad para nosotros; podemos, sin embargo, asegurar que desarrolló principalmente la lógica estoica. Si es de lamentar que no se conservasen algunas de sus mejores obras, tal vez sea una suerte que no se conservaran todas; pero, puestos a elegir entre todas o ninguna, nos veríamos en duro trance.” Hahahaha!

TODOS OS DIÓGENES DO MUNDO SÃO FILÓSOFOS GREGOS: “Después de él, se destacó Diógenes de Seleucia, en Babilonia, con quien debió de aprender dialéctica Carneades, el famoso académico. Diógenes es también una figura notable por haber sido enviado como embajador ateniense a Roma en tiempo de Catón el Mayor, en la Ol. 156,2 (156 a.C.), en unión de este mismo Carneades y de Critolao, un pensador peripatético; esta embajada empezó a iniciar a los romanos, en la misma Roma, en los estudios de la filosofía, la dialéctica y la elocuencia griegas, a través de las conferencias explicadas allí por los citados embajadores-filósofos.”

Más tarde, vemos cómo la filosofía estoica pasa a manos de los propios romanos; es decir, se convierte en la filosofía de muchos romanos, pero sin que esta filosofía salga, con ello, ganando mucho como ciencia: por el contrario, con Séneca y los estoicos posteriores, Epicteto y Antonino [Marco Aurélio], pierde en realidad todo su interés especulativo para convertirse en una doctrina más bien retórica y parenética, que no hay por qué incluir en la historia de la filosofía, como no habría por qué incluir en ella tampoco los sermones de nuestros días.”

A base de sus lecciones compuso Arriano las prolijas Dissertationes Epicteteae, que aún poseemos, y el compendio del estoicismo. (Aulo Gélio, Noites Áticas)

Del emperador Marco Aurelio Antonino, que reinó primero (de 161 a 169 d.C.) junto con Lucio Aurelio Vero y luego (de 169 a 180) solo, habiendo conducido la guerra contra los marcomanos, poseemos todavía sus Pensamientos, en 12 libros, en los que se habla continuamente a sí mismo; pero estas meditaciones no tienen ningún carácter especulativo, sino que son simples exhortaciones, por ejemplo, la de que el hombre debe formarse en todas las virtudes.”

Por lo que se refiere a la filosofía de los estoicos, éstos la dividían claramente en 3 partes con las que ya nos encontrábamos anteriormente y que seguirán siendo, en general, las mismas: primero, la lógica; segundo, la física o filosofía de la naturaleza; y, tercero, la ética, la filosofía del espíritu, principalmente desde el punto de vista práctico.”

Su filosofía es panteísmo. Pero toda filosofía es, en rigor, panteísta, ya que pone de manifiesto que el concepto racional existe en el universo.”

Nada acaece en el mundo sin ti, ¡oh demonio!, ni en el polo etéreo del cielo, ni en el mar, fuera de lo que los malos hacen por su propia falta de entendimiento. Pero tú sabes también enderezar lo torcido, ordenar lo desordenado y convertir lo hostil en amistoso. Pues así has sabido armonizarlo todo en unidad, lo bueno y lo malo, de tal modo que sólo existe en todo un concepto (logos), que siempre existe y del que huyen los malos entre los mortales. ¡Desgraciados aquellos que, clamando siempre por la posesión de lo bueno, no comprenden la ley general de Dios ni dan oídos a aquel a quien si escuchasen con la razón les haría llevar una vida buena!” Cleanto apud Estobeu, Éclogas

Heráclito y el estoicismo conciben, pues, certeramente este proceso como un proceso general y eterno. La idea se adocena ya en Cicerón, quien ve falsamente, detrás de este pensamiento, la combustión del universo en el tiempo y el fin del mundo, lo cual tiene ya un sentido completamente distinto.” “para los estoicos todo es devenir.”

La simiente que hace nacer algo racional es ella misma racional. El universo hace brotar la simiente de lo racional y es, por tanto, racional de suyo”

sólo los estoicos de la primera época tenían en su filosofía una parte física; los posteriores desdeñaban totalmente la física para atenerse exclusivamente a la lógica y a la moral.” Movimento correto.

Los estoicos se atienen, pues, a la representación general según la cual todo lo individual se halla encuadrado en un concepto y éste, a su vez, en un concepto general que es el universo mismo.”

Ahora bien, el que unas veces los dioses hagan conocer a los hombres el futuro e intervengan y otras veces se abstengan de ello es una inconsecuencia, es decir, algo incomprensible; pero en esta incomprensibilidad, precisamente, en este elemento irracional, estriba el triunfo del modo religioso usual de concebir. Por eso, toda la superstición de los romanos encontraba en los estoicos sus más firmes patronos; los estoicos toman bajo su tutela y justifican toda la superstición de los romanos.”

La mera representación por sí misma era, según ellos, una figuración, a la que Crisipo daba el nombre de cambio.”

esta retórica en torno al sabio sólo tiene su fundamento en la indeterminabilidad de los criterios, que no permite avanzar hasta llegar a la determinación del contenido.”

la razón se encarga en el hombre de convertir en una obra de arte lo que en el animal sólo es un instinto.”

La virtud es predicada de un modo enérgico, estimulante, edificante; pero no se nos ofrecen las determinaciones necesarias para saber en qué consiste esta ley general de la virtud.”

Un acto bueno que no fuese útil no sería tal acto, ni tendría realidad. Lo inútil en sí de lo bueno es su abstracción, como la negación o la ausencia de la realidad. No sólo se puede, sino que se debe tener la conciencia de la utilidad, pues es verdad que lo bueno sabe siempre, además, ser útil. La utilidad quiere decir simplemente que se abriga una conciencia de los propios actos. Si esta conciencia es censurable, aún lo es en mayor medida saber mucho de la bondad de sus actos y considerarlos menos desde el punto de vista de la necesidad” Tudo derivação da perseguição da Idéia de Platão…

Por tanto, este comportarse-exclusivamente-con-arreglo-a-la-razón entraña, visto más de cerca, la concentración abstracta del hombre dentro de sí mismo, que lleva consigo la conciencia de lo verdadero, renunciando con ello a todo lo que guarde relación con los impulsos inmediatos, las sensaciones, etc.” “satisfacerse en sí mismo y no en algo exteriormente condicionado.” “Los escritos de Séneca y Marco Aurelio contienen mucho de verdad en este sentido, y pueden servir de eficaz punto de apoyo al hombre que no haya sido capaz de remontarse aún a una convicción superior.” “Quien siente apetencia de gloria para después de su muerte no se da cuenta de que cuantos a él puedan recordarle están sujetos también a morir y también los que a ellos les sigan, hasta que toda memoria se borre con estos hombres que, admirándolo, están llamados a desaparecer.” “Es en este criterio de la independencia y la libertad interiores abstractas del carácter mismo donde radica precisamente la fuerza que caracterizaba a los estoicos” “Aquella libertad que los estoicos atribuyen al hombre no carece de relación con otra cosa; se halla más bien supeditado [subordinado] a ella, y en este aspecto reside precisamente la felicidad. Mi independencia no es más que uno de los lados, al que no corresponde, por tanto, por ello sólo, el otro lado, el lado especial de mi existencia.” “el ethos contiene esencialmente mi convicción subjetiva de que lo que hago se halla a tono con las determinaciones racionales de la voluntad, con los deberes generales.” “Los estoicos dicen, en este respecto: sólo debe buscarse la virtud, pues la virtud lleva aparejada siempre, por sí misma, la felicidad. Y esta felicidad es la verdadera, la inconmovible, aunque al hombre pueda ocurrirle cualquier otra desdicha.”

Lo grande de la filosofía estoica es, por tanto, que nada puede hacer flaquear la voluntad si se mantiene firme de este modo, que todo lo que no sea esto se mantiene fuera de ella, ya que ni siquiera el alejamiento del dolor puede ser considerado como un fin. Los estoicos viéronse expuestos a las burlas de las gentes por decir que el dolor no era ningún mal. Claro está que, al decir esto, no querían referirse, ni mucho menos, a los dolores de muelas o a otros dolores físicos por el estilo. El hombre se halla necesariamente expuesto a esta clase de dolores; pero una cosa son estos dolores y otra cosa distinta la desdicha.” “Es, pues, totalmente exacto que los sufrimientos, los dolores, etc., no son ningún mal que pueda venir a perturbar la igualdad conmigo mismo, mi libertad; en cuanto me siento en consonancia conmigo mismo, me hallo por encima de todas esas cosas y, aun cuando las sienta, no abren dentro de mí ninguna separación. Esta unidad interior conmigo mismo, en cuanto sentida, es la felicidad; la cual no se ve destruida ni perturbada por causas de orden exterior.”

Otra contraposición es la que se da dentro de la virtud misma. Por cuanto que se debe tomar como pauta de la conducta la ley general de la razón certera, es como si no existiera, en rigor, ninguna determinación fija; pues todo deber es siempre un contenido particular, aunque se lo pueda concebir bajo una forma general, pero sin que esto modifique para nada el contenido.” “en cuanto que no puede establecerse un criterio último y decisivo acerca de lo que puede llamarse bueno, sino que el principio carece de determinación, la última decisión corresponde al sujeto.” “En efecto, desde Sócrates ya había dejado de ser la instancia inapelable de lo justo en Atenas la costumbre; con los estoicos desaparece, por tanto, toda determinación exterior, y lo decisivo sólo puede situarse en el sujeto como tal, que es de suyo el que en última instancia determina, en cuanto conciencia.”

En efecto, si los estoicos se remontaran sobre el simple concepto del obrar al servicio del fin que es en sí y penetraran en el conocimiento del contenido, no necesitarían expresar esto como un sujeto. La propia conservación racional del hombre es, para ellos, la virtud.” “La realidad moral consiste precisamente en esto, en ser; pues del mismo modo que la naturaleza es un sistema permanente y ente, también lo espiritual tiene que ser eso: un mundo objetivo. Pero a esta realidad no llegaron los estoicos. Y este pensamiento podría expresarse también así: su realidad moral es sólo el modo, un ideal y no una realidad” A.k.a. Platão, principalmente n’O Banquete e no Fédon. Afinal, quem nunca foi queimado dentro dum cavalo de madeira nem cortou a própria jugular a mando do imperador nem tomou de livre e espontânea vontade a cicuta após ser condenado na assembléia ateniense nada pode discorrer sobre essas três consumações: não pode dizer que morrer queimado vivo é em si pior ou melhor do que infligir-se um corte ou tomar veneno, ou mesmo que ser banido de sua polis. O sábio resigna-se ao seu fado, e é só.

debe luchar, en efecto, contra la individualidad de su existencia o ser indiferente a ella, y también contra la consonancia y la falta de consonancia con lo individual, así como ser capaz de renunciar a la felicidad o sentirse libre de ella, suponiendo que la posea; pues de lo que se trata es simplemente de la consonancia consigo mismo como con algo general.” “Ahora bien, si podemos llamar a esta felicidad la felicidad verdadera, para distinguirla de la otra, esto quiere decir solamente una cosa: que la palabra felicidad es poco acertada.” “La tendencia a la felicidad, a los goces espirituales, y las chácharas en torno a las excelencias de los goces de la ciencia y el arte, etc., son, por consiguiente, algo vacuo, pues la cosa misma de que aquí se trata no presenta ya, en efecto, la forma del disfrute o, mejor dicho, supera incluso esa representación.” “La más alta idea de Aristóteles, el pensamiento del pensamiento, se conserva también en el estoicismo, pero de tal modo que aquello no aparece aquí aislado, como parece estarlo en Aristóteles, con otras cosas al lado de ello, sino que es lo único.” “Por tanto, la descripción del ideal, por parte de los estoicos, es una retórica general y, por ello mismo, carente de interés; o solamente es notable en ella lo negativo.”

Vemos proclamada aquí la autonomía y la autocracia del sabio, quien, obligado a seguir tan sólo los dictados de la razón, se declara libre del deber de ajustarse a todas las leyes determinadas que rigen y que no puedan invocar en su apoyo un fundamento racional o parezcan descansar más bien sobre el temor natural o sobre el instinto.” “si a primera vista el incesto, la pederastia, la antropofagia, etc., sólo parecen estar vedadas por el instinto natural del hombre, es lo cierto que tampoco pueden mantenerse ante el foro de la razón.”

H. começa a especular, p.ex., se estaria vivendo estoicamente um estóico que declarasse que é irracional, em que pese de certa forma natural, respeitar a propriedade privada, para polemizar com os apologistas do ideal estóico (já que isso não parece ter importância alguma no estoicismo concreto ou histórico): “Tratar de justificar por medio de un fundamento semejante contenido es, por tanto, confundir el conocimiento de las cosas en detalle con el conocimiento de toda la realidad; es la superficialidad del conocimiento que se niega a reconocer algo por no reconocerlo desde tal o cual punto de vista o en tal o cual aspecto, y única y exclusivamente porque sólo indaga y conoce las razones inmediatas, sin que pueda saber si existen también otros aspectos y otras razones.”

O ETHOS DO ESTOICISMO MADURO OU TARDIO: “Llegan a deducciones basadas en circunstancias, en conexiones, en consecuencias, descubriendo así contradicciones o contraposiciones: así proceden Marco Aurelio y Séneca, con gran ingenio y de un modo edificante.”

soy yo, entonces, quien hago surgir estas razones sabias y buenas. No son las razones mismas la cosa, lo objetivo, sino que son obra de mi libre voluntad, de mi capricho, algo de que me valgo yo para justificar ante mí mismo mis nobles intenciones” Para o sábio, isto faz sentido e é seu mundo – para a maioria massacrante da população, não.

En el propio Séneca encontramos más lastre y hojarasca de reflexiones morales que verdadera solidez: y así, vemos que se le echan en cara, de una parte, sus riquezas y el lujo de su vida, siendo verdad que Nerón le había regalado riquezas inmensas; del mismo modo que, por otra parte, podría reprochársele su discípulo, Nerón, quien también pronunciaba discursos morales, redactados para él por Séneca.

Esta manera de razonar es a veces brillante, como en Séneca: encontramos en él muchas cosas estimulantes y fortalecedoras para el ánimo, ingeniosas antítesis, retórica; pero estos discursos morales nos producen, al mismo tiempo, frío y fastidio. Se siente uno estimulado, pero con frecuencia insatisfecho: muchos de estos razonamientos podrían ser calificados de sofísticos; y, aunque no haya más remedio que reconocer en ellos la sutileza de las distinciones y las opiniones honradas, el fondo del convencimiento resulta siempre un tanto defectuoso.”

CRÍTICA DA CRÍTICA DA RAZÃO PRÁTICA: “En segundo lugar, el punto de vista estoico lleva implícito el principio superior, aunque negativo y formal, de que lo pensado es, simplemente por serlo, un fin y algo bueno, por lo cual en esta forma del pensamiento abstracto, lo mismo que en el principio kantiano del deber, se contiene ya aquello en que el hombre basa y tiene necesariamente que basar el fundamento de su conciencia de sí mismo, de tal modo que no tiene por qué tener en cuenta ni perseguir, de suyo, nada que ofrezca otro contenido, cualquiera que él sea.”

La firmeza formal del espíritu que se abstrae de todo no plantea ante nosotros ninguna evolución de principios objetivos, sino un sujeto que se mantiene en pie en esta inmutabilidad y en esta indiferencia, no ciega, sino querida; y en esto consiste la infinitud de la conciencia de sí mismo.” “La fuerza de la repulsa a la existencia es grande y la energía de esta actitud negativa, sublime.” “Por eso, al desaparecer la existencia política y la realidad moral de Grecia y cuando más tarde tampoco el imperio romano pudo encontrar satisfacción en el presente, este mundo se replegó hacia sí mismo, buscando dentro de sí lo justo y lo moral que había desaparecido ya de la vida general exterior. § Platón proclamó el ideal de una república, es decir, de una vida racional de los hombres dentro del Estado, pues esta vigencia del derecho, la moralidad y la costumbre era, para él, lo fundamental, lo que forma el lado de la realidad de lo racional; y sólo por medio de este estado racional del mundo podía, según él, existir la armonía de lo exterior y lo interior, en este sentido concreto.” Você superestima a esperança platônica de que teríamos o Estado do sábio, que fosse um programa para seguir, ainda que não fosse uma utopia no sentido de Thomas More. Como o próprio H. determinou no lugar certo, tratava-se de uma “Esparta melhorada”, concebível, ao menos, no mundo grego, antes do ocaso completo de Atenas. Ainda assim, não há nada de histórico na República. É realmente muito mais um subterfúgio para imaginar onde e quando um autoeducado sábio poderia viver para sua máxima plenitude, ao lado de outros raros como ele.

TUDO SÃO CASOS ISOLADOS: “En lo tocante a la moral, a la fuerza de la buena voluntad, no es posible leer nada mejor que lo escrito por Marco Aurelio en sus meditaciones acerca de sí mismo. Este hombre reinaba sobre toda la tierra entonces conocida y cultivada, habiéndose comportado también noble y rectamente como particular. Sin embargo, este emperador filosófico no hizo cambiar en lo más mínimo el estado del imperio romano; y su sucesor, hombre de carácter totalmente distinto, no se sentía obligado por nada a poner trabas a un estado tan malo como el que radicaba en su propia maldad y arbitrariedad.”

En la medida en que yo puedo hablar de derecho, debo decir que no he sido capaz de encontrar en el derecho romano nada que guarde alguna relación con el pensamiento, con la filosofía, con el concepto. Podríamos, sí, llamar filósofos a los juristas romanos si entendiéramos por pensamiento lógico la consecuencia intelectiva; pero ésta la encontramos también en el señor Hugo,(*) quien, sin embargo, no creemos que tenga la pretensión de pasar por filósofo.

(*) Hegel se refiere a Gustav von Hugo (1764-1844), jurista alemán que fue el fundador de la escuela histórica del derecho, continuada y desarrollada por Savigny [E.].”

Así como los estoicos no centraban en las necesidades sino en la razón general el principio de los cínicos, según el cual el hombre debía limitarse a la simple naturaleza, Epicuro eleva también al plano del pensamiento el principio de que el placer constituye un fin, buscando lo placentero en un algo general, determinado por el pensamiento. Ahora bien, aunque con ello se asimile la doctrina de los cirenaicos, llevándola a un alto grado de cientificidad, ya de suyo se comprende, desde el momento en que el ser sentido rige como lo verdadero, que con ello se supera de un modo general la necesidad del concepto, todo se dispersa sin ningún interés especulativo y, en realidad, las cosas se degradan hasta el punto de vista del sano sentido común.”

Sus padres eran pobres; su padre, Neocles, era maestro de escuela de aldea y su madre, Querestrata, se dedicaba a las artes de la brujería, es decir, ganaba algún dinero, como muchas mujeres de Tracia y de Tesalia, con fórmulas de encantamiento y hechicería, muy usuales en aquella época. Su padre —y con él Epicuro— emigró con una colonia ateniense a Samos, pero también allí hubo de seguir dedicándose a la enseñanza de los niños, ya que el pedazo de tierra de que disponía para su cultivo no le bastaba para cubrir las necesidades de la familia.” “dedicóse principalmente al estudio de la filosofía de Demócrito. Mantuvo además trato personal con algunos de los filósofos de aquel tiempo, tales como Jenócrates, el platónico, y Teofrasto, el discípulo de Aristóteles. A los 12 años leía en unión de su maestro a Hesíodo, el que lo hace nacer todo del caos, lo cual no dejó de influir seguramente en sus propias concepciones filosóficas. Por lo demás, se llamó siempre un autodidacta, en el sentido de que había producido su filosofía por sí solo, sin ayuda de nadie; pero sin que de ello deba deducirse, en modo alguno, que no siguió las enseñanzas de otros filósofos ni estudió tampoco los escritos de otros pensadores.”

O JARDIM DAS DELÍCIAS ERUDITAS: “Epicuro empezó actuando como profesor de su propia filosofía en Lesbos (Mitilene) y más tarde en Lampsaco, en el Asia Menor, aunque sin llegar a reunir muchos oyentes. Después de haber pasado allí varios años, a los 36 de edad aproximadamente, regresó a Atenas, es decir, al verdadero centro de la filosofía y, al poco tiempo, adquirió un jardín, donde vivía entre sus discípulos, dedicado a la enseñanza.

A pesar de la debilidad de su cuerpo, que le tenía sujeto a un sillón, sin permitirle levantarse de él durante varios años, llevaba un régimen de vida absolutamente regular y de una frugalidad extraordinaria, consagrándose por entero y sin ningún otro negocio ni ocupación alguna al cultivo de la ciencia. El mismo Cicerón, a pesar de lo insulsamente que habla de él, reconoce que era, desde luego, un amigo fiel y cariñoso, y añade que nadie podría negar que era un hombre bueno y dulce, amante del prójimo.”

Probablemente no habrá habido maestro tan querido y venerado por sus discípulos como Epicuro; era tan grande la intimidad de su convivencia, que concibieron el propósito de reunir sus bienes para seguir viviendo en permanente comunidad, como en una especie de Liga pitagórica. Sin embargo, el propio Epicuro les prohibió que lo hiciesen, por entender que ya esto mismo representaba cierta desconfianza en cuanto a su mutua buena voluntad y porque entre quienes abrigaban o podían abrigar recelos de este género era difícil que reinasen la amistad, la unión y la lealtad mutua.

Después de su muerte, sus discípulos veneraron fiel y constantemente su memoria; lucían su imagen por todas partes en anillos y en copas, y era tal la fidelidad que profesaban a las doctrinas de su maestro que se tenía entre ellos por una especie de transgresión el tratar de modificarlas en lo más mínimo (a diferencia de lo que ocurría con los estoicos, que laboraban incesantemente por desarrollar las doctrinas de su fundador), por lo que su escuela era una especie de Estado amurallado en lo tocante a la doctrina.”

la ausencia de pensamiento se ve siempre trastornada por el concepto” Muito do que acontece com o Marxismo, p.ex.

la actividad filosófica de Epicuro consiste precisamente en volverse de espaldas al concepto, que es lo que trastorna y embrolla lo sensible.”

sólo un tal Metrodoro parece que llegó a desarrollar algunos aspectos de ella. Dícese también, en elogio de la filosofía de Epicuro, que este Metrodoro fue el único discípulo del maestro que se pasó al campo de Carneades; fuera de este caso, el epicureísmo sobrepuja a todas las demás filosofías por su sucesión ininterrumpida de doctrina y persistencia, ya que todas las demás desaparecieron o sufrieron interrupciones, mientras que ella se mantuvo constantemente en pie, sin sufrir cambios.”

Los hombres pueden convertirse en castrados, pero los castrados jamás vuelven a ser hombres.” Arcesilao

Epicuro escribió a lo largo de su vida una enorme cantidad de obras, pudiendo considerársele como un autor aún más fecundo que Crisipo, pues aunque éste rivalizó con él como escritor, hay que descontar de su obra lo que tomó de otros. Dícese que el número de sus obras llegó a sumar 300. Estas obras no han llegado a nosotros, y a la verdad que no hay por qué lamentarlo. Lejos de ello, debemos dar gracias a Dios de que no se hayan conservado; los filólogos, por lo menos, habrían pasado grandes fatigas con ellas.

La fuente principal para el conocimiento de Epicuro es todo el libro décimo de Diógenes Laercio; pero, a pesar de la prolijidad con que habla de este pensador, esta fuente no puede ser más vacua; [¡!] evidentemente, la doctrina de Epicuro mismo debe haber sido mejor; conocemos por fortuna lo bastante acerca de él para poder enjuiciarlo en conjunto. Es mucho lo que acerca de la filosofía de Epicuro nos dicen Cicerón, Sexto Empírico y Séneca, y tan certeras son sus exposiciones, que el fragmento de una obra del propio Epicuro descubierta hace algunos años en Herculano y que Orelli ha incluido en su edición napolitana (Epicuri Fragmenta libri II et XI, De natura, illustr. Orellius, Leipzig, 1818) no ha venido en realidad a decirnos nada nuevo”

Por lo que se refiere a la filosofía de Epicuro, no debemos ver en ella, en realidad, la afirmación de un sistema de conceptos, sino, por oposición a ello, la afirmación de un sistema de representaciones

Lo que es en rigor una lógica es lo que Epicuro llama canónica, es decir, el conjunto de cánones en que expone los criterios de la verdad, con vistas a lo teórico, así como las sensaciones en general, y en seguida como las representaciones o anticipaciones

La sensación carece de fundamento, [p]ues no es movida por sí misma, ni aunque sea movida por otro factor, puede quitar ni añadir nada” “Ni una sensación extraña puede enjuiciar a otra extraña, pues debemos tomarlas en cuenta todas. Tampoco el pensamiento puede criticar las sensaciones, pues todo pensamiento depende, a su vez, de la sensación” “Y así, todos los pensamientos han tenido como punto de partida las sensaciones, tanto con arreglo al carácter casual de su nacimiento como en cuanto a la relación, a la semejanza y a la combinación; a lo cual contribuye también algo el pensamiento” “También las figuraciones de la locura o del sueño son verdaderas, puesto que mueven al hombre, y nada que mueve es inexistente.”

lo que veo u oigo, la intuición sensible en general contiene lo que es; todo lo sensiblemente intuido es algo por sí mismo, lo uno no contradice a lo otro, sino que todas estas sensaciones rigen las unas al lado de las otras y son indiferentes entre sí. Para el pensamiento mismo, estas cosas intuidas son la materia y el contenido, en cuanto que aquél se sirve siempre, a su vez, de las imágenes de estas cosas.”

La representación es, en cierto modo, el concepto, la opinión certera, el pensamiento o el pensamiento implícito general; es, en efecto, la reminiscencia de lo que frecuentemente acaece.” “A través de esta repetición, la sensación se convierte en mí en una representación permanente que se corrobora; tal es el firme fundamento de todo lo que tenemos por verdad.”

Toda cosa recibe su evidencia por medio del nombre que primeramente recibe.”

Es aquella anuencia con que nos encontrábamos en los estoicos como el asentimiento que el pensamiento daba a un contenido; sin embargo, el pensamiento que reconoce la cosa como algo suyo y lo incorpora a sí no pasa de ser en los estoicos algo puramente formal. En Epicuro, en cambio, también la unidad de la representación del objeto consigo misma se halla presente en la conciencia como un recuerdo, pero este recuerdo tiene como punto de partida lo sensible; la imagen, la representación, es el asentimiento prestado a una sensación.” “El nombre es ciertamente algo general, pertenece al pensamiento, hace de lo múltiple una cosa simple, es incluso lo más ideal que cabe concebir: pero de tal modo que su significación y su contenido son lo sensible y no deben valer como este algo simple, sino como lo sensible. La cual nos lleva, no al saber, sino a la opinión.” “La opinión es, en efecto, una representación como aplicación de la misma en cuanto ya tenida, es decir, una aplicación del tipo a un objeto presente, que se investiga para ver si la representación de él coincide con él o no.” Opinião como representação fundamentada. Isto é: representação pura é apresentação. Opinião é que é re-presentação. Que são as estrelas, o firmamento? Uma apresentação à qual damos fé em virtude de nossas representações terrenas. Uma quase opinião.

Tales son los puntos fundamentales de la canónica de Epicuro, la pauta general para la verdad; es tan simple que no puede haber nada más simple, pero es también muy abstracta. Son representaciones psicológicas corrientes, justas en su conjunto, pero completamente superficiales; es sencillamente la mecánica de la representación desde el punto de vista de las primeras manifestaciones de la percepción.” Acontece que a filosofia voltará a essa ‘simplicidade’ depois da derrocada do Idealismo universalista.

Hoy hasta los escépticos hablan de los hechos de la conciencia; claro está que lo que ellos nos dicen no va tampoco más allá que la canónica epicúrea que acabamos de exponer.” Céticos: menos céticos que os cínicos; cínicos: mais cínicos que os céticos.

De la superficie de las cosas —dice en primer lugar Epicuro— arranca un constante fluir que la sensación no percibe y que es muy sutil; y ocurre así porque, por razón del cumplimiento opuesto, la cosa misma retiene firmemente durante largo tiempo esta misma ordenación y disposición de los átomos; y el movimiento de estas superficies que se desprenden es extraordinariamente rápido en el aire, ya que no es necesario que lo desprendido tenga una profundidad.”

Epicuro opta por el criterio más fácil y que sigue siendo hoy el criterio usual y corriente de la verdad, en tanto no se ve: el de que lo que nos representamos no se halla en contradicción con lo que vemos u oímos.”

Jamás podría corroborarse la verdad ni la semejanza de las representaciones que llegan a nosotros en imágenes o en sueños o de otro modo cualquiera, si no existiese algo sobre lo que, en cierto modo, proyectamos nuestras percepciones. (…) Por tanto, según Epicuro, el error sólo es un desplazamiento de las imágenes dentro de nosotros mismos, desplazamiento que no nace del movimiento de las sensaciones, sino más bien del hecho de que entorpecemos su acción por medio de un movimiento iniciado dentro de nosotros mismos”

A estos escasos y pobres pasajes, expuestos en parte de un modo oscuro o torpemente extractados por Diógenes Laercio,¹ se reduce la teoría epicúrea del conocimiento; difícilmente podría concebirse otra más pobre.”

¹ Quase um Karnal da época.

en cuanto que Epicuro considera las cosas, según acabamos de ver, como llenas de multitud de átomos, tenemos que el pensamiento es el otro momento además de los átomos, lo vacío, los poros, lo que permite poner un dique a esta riada [enxurrada] de los átomos.” “apartamos la vista de algo, es decir, que interrumpimos precisamente este fluir.” Princípio da individuação e coerência – ou viver tornar-se-ia impossível. Um filósofo do momento presente.

Los átomos, en cuanto tales, deben permanecer indeterminados; pero los atomistas viéronse arrastrados a la inconsecuencia de atribuirles cualidades” Surpreendentemente contemporâneo.

Toda cualidad se halla expuesta a cambio; pero los átomos no cambian. En toda disolución de lo compuesto tiene que haber necesariamente algo que permanezca firme e indisoluble, que no cambie a lo que no es ni de la nada al ser. Este algo inmutable es, por tanto, algunos cuerpos y figuraciones. Las cualidades representan cierta relación de los átomos entre sí.”

Todas las formas específicas, todos los objetos, la luz, el color, etc., e incluso el alma, no son otra cosa que una cierta ordenación de estos átomos. Así lo ha dicho también Locke; y todavía hoy afirma la física que la base de las cosas la forman las moléculas ordenadas de cierto modo dentro del espacio.” Locke só é citado por H. da forma mais detratora!

El pensamiento es en el hombre precisamente lo que los átomos y el vacío son en las cosas, a saber: su interior, es decir, el átomo y el vacío forman parte justo del movimiento del pensar o son para éste como las cosas son en sí. El movimiento del pensar corresponde, pues, a los átomos del alma, de tal modo que en ello se opera al mismo tiempo una interrupción frente a los átomos que afluyen desde el exterior. No puede, por consiguiente, verse en ello nada más que el principio general de lo positivo y lo negativo; esto quiere decir que también el pensamiento lleva consigo un principio negativo, que es el momento de la interrupción. Este fundamento del sistema epicúreo, al seguirse aplicando a las diferencias de las cosas y al desarrollarse, es lo más arbitrario y, por tanto, lo más aburrido que imaginarse pueda.” Falou o filósofo interessantíssimo de ler!

ERRADO NÃO ESTÁ! “Aparte de distintas figuras, los átomos tienen también distinto movimiento, debido concretamente a su gravedad que es su afecto fundamental; pero este movimiento difiere algo, en su dirección, de la línea recta. En efecto, Epicuro les atribuye un movimiento curvilíneo, ya que de otro modo no podrían entrechocarse. Esto hace nacer una serie innumerable de aglutinaciones y conformaciones especiales; y éstas son las cosas.”

La transición a la manifestación concreta de los cuerpos, o bien no aparece para nada en Epicuro, o bien lo que nos dice acerca de ella es de la más extrema pobreza.” Ou bem é inútil perder tempo com o inefável.

A birra-mor de H. com o epicurismo é que seu sistema não pode ser teleologizado! “consecuente con esto, Epicuro se declara inmediatamente en contra de la existencia de un fin último general del universo y de toda relación de fin en general, como, por ejemplo, de la finalidad de lo orgánico en sí mismo, así como también es contrario a las representaciones teleológicas de la sabiduría de un creador del universo, de su gobierno del mundo, etc.; y su actitud en esto no puede ser más lógica consigo misma, ya que en su concepción queda eliminada toda unidad, cualquiera que sea el modo como ésta se represente, ya como fin de la naturaleza en ella misma, ya como un fin que, aun residiendo en otra cosa, se hace valer en la naturaleza; en los estoicos, por el contrario, encontramos este punto de vista teleológico y, además, muy desarrollado.”

inconsecuencia que es la primera y la única de Epicuro y la de todos los empíricos.”

a partir de lo conocido podemos deducir lo desconocido.” Que é o homem?, teria perguntado Drácula. E ele mesmo respondeu, sem aguardar seu estupefato interlocutor, mero humano que não filosofava: É alguém incapaz de seguir Hegel! É alguém que prefere seguir pelas sendas de Epicuro e Kant para conhecer a natureza e aquilo que excede à natureza! E Drácula estava correto em seu juízo sobrenatural, i.e., de semideus que refletia nessas coisas…

Grosso modo, podemos ainda dizer: Hegel é aquele para quem o desconhecido é aquilo que podemos deduzir do conhecido – nenhum descalabro maior!

es en realidad el mismo principio que sigue rigiendo hoy en la ciencia natural común y corriente.” Só bastaria, aliás, mais tato aos físicos quânticos: se não imaginassem demais, deduziriam coisas mais fidedignas e modestas, longe de buracos de minhoca e que-tais…

Se llega, así, a la noción de representaciones, de leyes y fuerzas generales, tales como la electricidad y el magnetismo, las cuales se aplican después a los objetos y actividades no susceptibles de ser directamente percibidos por nosotros. Así, por ejemplo, sabemos de la existencia de los nervios y de su interdependencia con el cerebro; y decimos que las sensaciones, etc., se transmiten desde la punta del dedo, supongamos, hasta el cerebro mismo. (…) La anatomía puede descubrirnos los nervios, pero no su modo de actuar; pues bien, no hay sino representarse éste por analogía con otros fenómenos, por ejemplo, con las vibraciones de una cuerda tensa, equiparando a ellas las vibraciones de los nervios hasta llegar a los centros cerebrales. O como en el conocido fenómeno que se observa, sobre todo, en una serie de bolas de billar colocadas muy juntas las unas a las otras, en que la última de la fila avanza cuando se empuja la primera, mientras que las intermedias, cada una de las cuales impulsa a la que le sigue, parece que apenas se mueven; no hay, pues, sino imaginarse los nervios como formados por bolitas pequeñísimas, invisibles aun a través de la más poderosa lente de aumento, la última de las cuales salta al contacto con ella y toca el alma. Del mismo modo, la luz se concibe como una serie de hilos o rayos, como vibraciones del éter o como bolitas etéreas que chocan las unas con las otras. [¡!]” Espantosamente, H. sabia muito bem no que o epicurismo repercutia em nossa epistemologia atual – mas decidia jogar tudo no lixo, enquanto se trata de hegelianismo decantado de ‘impurezas indesejáveis’. Se soubeste descrever a luz antes do séc. XX, este é um sinal de que acertaste!

Hay que advertir que, en esta clase de explicaciones, Epicuro es expresamente muy liberal, equitativo y tolerante, puesto que dice que las diversas representaciones que se formen en nosotros con relación a los objetos sensibles —todas ellas, por muchas que sean— pueden ser aplicadas a lo que no podemos observar directamente por nosotros mismos; que no puede afirmarse un solo modo como el acertado, sino que puede llegarse al resultado que se busca por muchos caminos.”

El rayo puede explicarse por medio de toda una serie de posibles representaciones, por ejemplo1 por medio del frotamiento y la colisión de las nubes, que producen la figuración del fuego y provocan el rayo.” “Es exactamente el mismo método a que recurren nuestros físicos, todavía hoy, para explicar cómo se produce la chispa eléctrica en las nubes, al chocar entre sí. En efecto, como tanto en el rayo como en la electricidad se observa una chispa, se toma este elemento común como base para llegar a conclusiones acerca de la analogía entre ambos fenómenos, afirmándose que también el rayo es un fenómeno eléctrico. Ahora bien, las nubes no son cuerpos duros, y la humedad, lejos de producir la electricidad, lo que hace es dispersarla; por eso estas chácharas de los físicos de hoy son en realidad tan vacuas como la representación de Epicuro.” Tá bom, Hegel, doutor em física fenomenológica (física do mundo experimental)!

Podemos elegir uno de estos procedimientos y rechazar los otros, sin pararnos a pensar lo que al hombre le es posible conocer y lo que no está al alcance de su conocimiento, empeñándonos, por tanto, en conocer lo imposible.”

Se ha atacado y querido poner en ridículo este método de Epicuro; pero no es por esta razón por lo que hay que avergonzarse de él, ni los físicos modernos tienen derecho a repudiarlo, por otra parte, pues lo que Epicuro dice no desmerece en nada de lo que sostienen los modernos investigadores de la naturaleza. Además, en Epicuro se da la atenuante de que obra con la conciencia limpia, puesto que la ausencia de testimonios de los sentidos le autoriza, según cree, a atenerse a las analogías. Y tampoco, como veíamos, toma la cosa muy en serio, desde el momento en que dice que unos admiten una posibilidad y otros otra: él admira la sutileza de los demás y no trata de imponer a la fuerza la explicación propia; las cosas, nos dice, pueden ocurrir así o de otro modo.”

Ahora bien, si la física consiste o se cree que consiste en atenerse, de una parte, a la experiencia inmediata y, de otra parte, en aquello que no cae dentro de la experiencia directa, en la aplicación de lo primero a base de la analogía con lo que la experiencia no revela, no cabe duda de que Epicuro puede ser considerado, si no como el iniciador, por lo menos como el principal representante de este método, y concretamente como el pensador que sostiene que en ello consiste realmente el conocer.”

El a priori es, en Aristóteles por ejemplo, algo excelente, pero no basta, porque se echa de menos en ello el lado de su articulación y cohesión con la observación y la experiencia.”

Esta reducción de lo particular a lo general es el descubrimiento de las leyes, de las fuerzas naturales, etc. Cabe pues afirmar, sin miedo a equivocarse, que Epicuro es el inventor de la ciencia empírica de la naturaleza, de la psicología empírica. Por oposición a los fines de los estoicos y a los conceptos intelectivos, la experiencia es el presente sensible: de una parte, nos encontramos con la inteligencia abstracta limitada, sin verdad de suyo y, por tanto, sin presente ni realidad de la naturaleza; de otra parte, con este sentido de la naturaleza, más verdadero que aquellas simples hipótesis.

Los mismos efectos producidos en el mundo moderno por la aparición del conocimiento de las leyes de la naturaleza, etc., los produjo la filosofía epicúrea en su tiempo y dentro de su círculo, en tanto iba dirigida contra todo lo que fuese invención fantástica y arbitraria de causas.” “Y el método de Epicuro, sobre todo, iba enderezado, por su tendencia, contra las supersticiones absurdas de la astrología, etc., cuya manera no se apoya tampoco en nada racional”

La filosofía epicúrea dio al traste con todas aquellas creencias supersticiosas en torno al vuelo de las aves en un sentido o en otro, a la significación de la liebre que cruzaba el camino, a la inspección de las entrañas de los animales, a la alegría o la tristeza de las gallinas, etc.” Agora entendo melhor a acusação de ateísmo e heresia a E.!

la física de Epicuro es desde luego contraria a todo esto, ya que se mantiene, en lo tocante a lo finito, dentro del círculo de lo finito, admitiendo solamente causas finitas; pues las mentes ilustradas lo son precisamente por no salirse jamás del campo de lo finito. El entronque con otras cosas finitas, con condiciones que son, a su vez, algo condicionado, se busca y procura encontrarse sin salirse de ese campo”

Para que el hombre pueda librarse de la superstición, Epicuro predica también especialmente la ciencia física, por ser ésta a su juicio la que libra al hombre de todas las opiniones y creencias que más lo inquietan y perturban: de las creencias acerca de los dioses, de sus castigos y, principalmente, de la muerte.”

Sin embargo, mi juicio es, y lo digo en parte contra muchos de mis compatriotas, que los preceptos morales de Epicuro prescriben al hombre, cuando se los examina con cuidado, una conducta sagrada y justa, e incluso triste. Pues, si bien se mira, el placer de Epicuro se reduce a algo muy pequeño y muy pobre, y apenas es posible decir lo mesurado y seco que es. La misma ley que nosotros prescribimos para la virtud es la que él traza para el placer: exige que el placer se ajuste a la naturaleza, y esto reduce el placer a límites muy estrechos. ¿Qué quiere decir esto? Quien llame feliz a una vida podrida, llena de fango y licenciosa, buscará en Epicuro una buena autoridad al servicio de una cosa mala; y cuando, dejándose fascinar por brillantes nombres, se dirija hacia los sitios en que oye elogiar lo agradable, no se entregará precisamente a los placeres que Epicuro predica, sino a los que él mismo apetece. Lo que ocurre es que esos hombres entregados al vicio sólo tratan de encubrir su propia maldad con el manto de la filosofía y de dar a sus libertinajes y desenfrenos un pretexto y una salida. Y así, ni siquiera a la juventud le es lícito tomar vuelos en este sentido mediante el procedimiento de dar un honroso título a lo que no es más que un inadmisible desmadejamiento.” Sêneca, o “honrado adversario”!

No existe, pues, ninguna diferencia esencial entre el tipo de vida del estoico y el del verdadero epicúreo que se ajuste a las normas y a los preceptos de su maestro. § Sin embargo, aunque a primera vista parezca que ya los cirenaicos proclamaban el mismo principio moral que más tarde habían de preconizar los epicúreos, Diógenes Laercio (X, 139, 136-137) se encarga de señalar la diferencia en los siguientes términos:¹ los cirenaicos proponíanse como fin más bien el placer como algo concreto, mientras que Epicuro lo predica como un medio, en cuanto que afirma como placer la ausencia de dolor, sin admitir ningún estado intermedio.” Talvez Nietzsche tenha compreendido mal o epicurismo e o estoicismo. Bom, não é impossível: julgo que compreendeu mal Parmênides, ao não alçá-lo à altura de um Heráclito… Ausência de dor não é um critério nobre, supra-hominídeo.

¹ Finalmente uma contribuição conceitual de Laércio!

Además, los cirenaicos tenían los dolores del cuerpo como peores que los del alma, mientras que el punto de vista de Epicuro era el contrario.” Dor física é bom demais! No pain, no g…

Los dioses existen, y el conocimiento de ellos es evidente; no son, sin embargo, como las gentes suelen creer. El impío, por tanto, no es el que niega los dioses del vulgo, sino quien se empeña en atribuirles las opiniones del vulgo.” Epicuro, um dos fragmentos preservados

Los hombres deben tributar honores a los dioses por razón de la excelencia de su naturaleza y de su dicha, pero no para obtener de ellos nada especial, ni buscando este o el otro beneficio.” Aqui não aceitamos cegos, mancos nem leprosos!

En relación con esto se halla también la circunstancia de que Epicuro asigne a los dioses el espacio vacío, los intersticios del universo como morada, donde no se hallan expuestos, según él, a las lluvias, a los vientos, a la nieve ni a otros accidentes de esta clase”

Epicuro quiere que el hombre se forme una noción exacta de la muerte, para que ésta no turbe su tranquilidad. (…) ‘En seguida, acostúmbrate a pensar que la muerte no debe preocuparnos en lo más mínimo, pues todo lo bueno y lo malo reside en las sensaciones, y la muerte es el despojo de toda sensación. De aquí que el pensamiento certero de que la muerte no nos afecta haga del carácter mortal de la vida una fuente de goce, ya que este pensamiento nos aparta de la infinitud y del ansia de la inmortalidad. Pues nada hay de temible en la vida para quien ha llegado verdaderamente a conocer que el no vivir no tiene nada de temible.’Famoso trecho que, creio, Sartre citou n’O Ser e o Nada e eu cheguei a anotar num papelito que guardava na carteira, coisa de 10 anos atrás – até as chuvas brasilienses esfarelarem o pobre material!

La satisfacción la consideramos como un bien, no simplemente para optar por lo más pequeño, como los cínicos, sino para darnos por contentos, aunque no obtengamos lo mucho: a sabiendas de que quienes logran el mayor disfrute de lo abundante son los que no lo necesitan y que lo natural es fácil de poseer, mientras que lo vacío resulta difícil de adquirir.”

Por tanto, cuando hacemos del placer el fin del hombre, no nos referimos a los placeres orgiásticos, como a veces se entiende falsamente, sino a un estado en que el hombre no sufre padecimientos físicos ni nada que inquiete su espíritu.”

Es preferible ser desgraciado con arreglo a la razón que feliz en contra de ella, pues vale más que el hombre enjuicie certeramente sus actos a que sea favorecido por la suerte.”

Lo que ocurre es que la exposición epicúrea del sabio, en Diógenes Laercio (X, 117-121), tiene un carácter de mayor mansedumbre; el sabio aquí se atiene más a las leyes establecidas, a diferencia del sabio estoico, a quien no se le da un ardite de ellas. El sabio epicúreo es menos terco que el estoico, pues mientras que éste parte del pensamiento de la autarquía, que, negándose, se comporta activamente, los epicúreos, por el contrario, arrancan del pensamiento del ser, que deja mayor margen a la realidad y no proyecta esta actividad hacia el exterior, sino que busca más bien la quietud interior, la cual no se adquiere por el embotamiento, sino por medio de la más alta formación del espíritu.”

El escepticismo representa, en verdad, el levantamiento de las dos unilateralidades que han sido puestas de relieve más arriba; pero este algo negativo sigue siendo negativo en él, y no sabe trocarse en algo afirmativo.”

O ceticismo representa, na verdade, a suspensão das duas unilateralidades que pusemos em relevo acima; só que este algo negativo segue sendo negativo dentro desta escola, e não sabe permutar-se em positivo.”

Frente al dogmatismo estoico y epicúreo, aparece en primer lugar la Nueva Academia, continuación de la Academia platónica, ya que los sucesores de Platón suelen clasificarse en tres grupos: la Academia antigua, la media y la nueva; algunos autores admiten además una cuarta Academia e incluso una quinta.” VIROU PASSEIO!

La fundación de la Academia media se atribuye a Arcesilao, mientras que la nueva gira en torno a los pensamientos de Carneades; pero esta distinción no significa nada.” “El escepticismo incluye a aquellas 2 figuras entre los filósofos escépticos, pero llamándolos los académicos, con lo cual hacen resaltar una distinción con respecto a la pureza del escepticismo que en realidad es puramente formal y quiere decir poco” “Vemos, pues, que en lo tocante a lo positivo Arcesilao no avanza gran cosa en general, y dice lo mismo que los estoicos; lo único que cambia es la forma, en cuanto que Arcesilao llama simplemente bien razonado o verosímil lo que los estoicos expresan como verdad.”

El conocimiento, que es un momento necesario en la formación de los pueblos, aparece así como pecado original y corrupción.”

son aproximadamente las mismas fases con que nos encontramos en Wolff, cuando habla de la representación clara, distinta y adecuada.” Talvez nem valha a pena tocar nesse Wolff. Os neoacadêmicos são fraquíssimos!

Ahora bien, si llevamos este punto de vista de los académicos a sus últimas consecuencias, la conclusión a que llegamos es que sencillamente todo existe sólo para la conciencia, con lo cual desaparece la forma de un ser en general, y también el saber de lo que es, en cuanto forma; lo cual no es otra cosa que el escepticismo.” “El escepticismo corona la concepción de la subjetividad de todo saber, al sustituir en términos generales el ser del saber por la expresión de la apariencia.”

ADOLESCÊNCIA DA FILOSOFIA (OU DO ESPÍRITO EM H.) – GÓRGIAS II: “En todos los tiempos, y todavía hoy, ha sido considerado como el más temible adversario de la filosofía, teniéndolo incluso por invencible, en cuanto el arte que consiste en disolver todo lo determinado, demostrando su nulidad; tal parece, en efecto, como si se lo reputase incontrovertible y como si la diferencia entre las convicciones estribase solamente en saber si el individuo optaba por esta actitud o por una filosofía positiva y dogmática.” “No hay más remedio que reconocer, en verdad, la invencibilidad del escepticismo, aunque sólo desde el punto de vista subjetivo con respecto al individuo, que puede adoptar evidentemente la actitud del hombre que no quiere saber nada de la filosofía y que sólo afirma lo negativo. El escepticismo parece ser, de este modo, algo a lo que uno tiene que rendirse, y tiene uno la sensación de que es inútil tratar de rescatar de esta actitud a quien decide echarse en sus brazos, mientras que los otros pueden aferrarse tranquilamente a su filosofía por la sencilla razón de que se vuelven de espaldas al escepticismo sin querer saber nada de él, en la imposibilidad de hacerle frente para refutarlo.”

Claro está que quien se empeñe en ser simplemente un escéptico jamás se dará por vencido ni se verá reducido a las posiciones de la filosofía positiva,(*) del mismo modo que no es posible echar a andar a quien sufre parálisis de todos sus miembros.

(*) (…) al mismo tiempo, esta expresión, tal como Hegel la emplea, con su doble acepción, no tiene absolutamente nada que ver, por supuesto, con ese positivismo que tantos vuelos está tomando en los últimos tiempos y que, por huir de la necesidad del conocimiento pensante, cae a la postre en los brazos de la revelación y de la simple fe, aunque se adorne con el nombre de pensamiento libre [M.].” Uma nota de rodapé que hoje é supérflua – sim, já sabíamos.

Seria o niilismo apenas um subconjunto do hegelianismo? A exportação lenta e gradualíssima de um mal da intelligentsia ao “povão”? A história desse espraiamento?

BATALHA DO “MAS!” CONTRA O “MAS…”: “La filosofía positiva puede tener la conciencia de que lleva dentro de sí misma la negación del escepticismo, de que éste, por tanto, no se contrapone a ella, ni existe fuera de ella, sino que es simplemente un momento suyo; pero de tal modo que esta filosofía encierra dentro de sí lo negativo en su verdad, cosa que no hace el escepticismo.”

el escepticismo se comporta solamente como un entendimiento abstracto. Desconoce que también esta negación es de suyo un determinado contenido afirmativo, puesto que es, en cuanto negación de la negación, la negatividad referida a sí misma y, más precisamente, la afirmación infinita.”

Hay que distinguir, además, entre el escepticismo antiguo y el nuevo escepticismo; a nosotros aquí sólo nos interesa el primero: sólo él presenta una naturaleza verdadera y profunda, puesto que el nuevo es más bien epicureísmo. [¿?] Así, en estos últimos tiempos, Schulze viene predicando en Gotinga su escepticismo y ha escrito un libro titulado Enesidemo, para de este modo compararse con este escéptico, interpretando además en otras obras el escepticismo contra las doctrinas de Leibniz y Kant.” “Éste y otros autores toman como base de su concepción la creencia de que se debe tener por verdad el ser sensible, lo que la conciencia sensible nos entrega, dudando en cambio de todo lo demás. Lo que opinamos es lo último, los hechos de la conciencia.” Algo me diz que estamos todos em Schulze no momento…

El nuevo escepticismo se dirige solamente contra el pensamiento, contra el concepto y la idea y, por tanto, contra lo filosófico superior; deja, pues, que la realidad de las cosas subsista intacta e indubitada, y afirma solamente que partiendo de ella no es posible deducir nada en cuanto al pensamiento.” Quiçá minha primeira compreensão ao ler a Dialética do EsclarecimentoMuito jovem ainda!

El escepticismo moderno es la subjetividad y la vanidad de la conciencia, evidentemente insuperable, pero no para la ciencia y la verdad, sino solamente para aquélla, para la misma subjetividad.” Não sejais cético; sede ético!

Por tanto, aunque por una parte se diga que la verdad es solamente la convicción de los otros y, de otra parte, se ensalce también la propia convicción, que al igual que aquélla no pasa de ser un ‘solamente’, no hay manera de sacar a este sujeto de lo que es a la par su soberbia y su humildad. Y así, el resultado del escepticismo antiguo es simplemente la subjetividad del saber; pero este resultado descansa sobre la anulación pensante y desarrollada de todo lo que pasa por ser verdadero y válido, haciendo de este modo que todo sea inconstante.”

La duda, sin embargo, no es sino la incerteza, la indecisión, la irresolución, el pensamiento que se opone a algo válido. Dudar, dubitare, viene de duos, 2: es un ir y venir entre dos cosas o varias, ninguna de las cuales acaba de satisfacernos, aunque necesariamente tenemos que decidirnos por la una o por la otra.” “Esto presupone un profundo interés por un contenido y el anhelo espiritual de que este contenido sea consolidado en sí mismo o no lo sea, ya que el espíritu necesita encontrar la quietud de un modo o de otro. Estas dudas no tienen más remedio que ser expresadas por los pensadores finos y sagaces; son, sin embargo, simple vanidad, ganas de torturarse, o bien responden a un desmadejamiento [vertigem, decadência, neste caso] que no conduce a nada.”

CONSUMISMO E CETICISMO ABSOLUTO: Falta de ética

O consumismo é o ceticismo individual levado a modo de produção. Mero deixar-passar hesitante robótico. Hiato indefinido de cultura e humanidade. Recesso da História. Se o momento pode ser procrastinado por meio de simulações, há de haver uma pane da engrenagem de simulação, da matriz simulacional. Do motor que emite todos os simulacros, a simulação das simulações. Há de vir, porém são séculos de filme mudo enquanto isso…

NADA MAIS ANTI-HISTÓRICO DO QUE UMA HISTÓRIA BEM CONTADA! “Los escépticos tratan de demostrar históricamente su actitud y afirman que ya Homero abrazaba el escepticismo, por cuanto que habla de las mismas cosas en sentidos opuestos.”

La historia del llamado escepticismo se inicia de ordinario con Pirrón, a quien se considera como el fundador de esta tendencia, y de él proceden también los nombres de pirronismo y pirronianos.” “Por lo que se refiere a la vida de Pirrón, la contemplamos con el mismo escepticismo que su doctrina, pues lo que acerca de ella sabemos no presenta la menor cohesión y es muy poco seguro.” Hahaha! Pitágoras Segundo…

Finalmente, se cuenta de él que acompañó a Alejandro Magno en su expedición al Asia, donde al parecer se dedicó intensamente al estudio de los magos y los brahmanes. Dícese que Alejandro lo mandó ejecutar por haber exigido la muerte de un sátrapa persa y que perdió la vida de este modo a la edad de 90 años. Suponiendo que todo esto sea cierto y teniendo en cuenta que Alejandro pasó en el Asia unos 12 o 14 años, resultaría que Pirrón emprendió este viaje en el séquito del monarca macedonio cuando contaba 78 años, o incluso más.” “Como Pirrón afirmaba, entre otras cosas, que la realidad de las cosas sensibles no encerraba verdad alguna, se cuenta de él, por ejemplo, que en la calle no se retiraba para dejar pasar a los carruajes, los caballos y demás objetos que venían frente a él y que marchaba directamente contra las paredes, perfectamente convencido de la falta de realidad de las percepciones sensibles, teniendo sus amigos y las gentes que le rodeaban que retirarlo de los peligros en que de este modo se colocaba, con gran riesgo de su vida.” O verdadeiro Pirro seria apenas um ator pornô (seu estoicismo estaria em que desprezaria as dores provocadas pela sífilis!)…

Talvez o maior livro de meta-dados que se pudesse escrever fosse uma biografia de Diógenes Laércio! Fonte: Diog. Laér.

Os maiores rivais dos escépticos eram os assépticos, pois gostavam de ter uma discussão muito limpa!…

para que el escepticismo aparezca con la dignidad propia de la filosofía es necesario que él mismo se desarrolle en su aspecto filosófico; y esto fue, en efecto, lo que hizo Enesidemo.”

6º “EMPÍRICO” ERA CÉTICO, GRANDE TIRADA! “Sexto vivió y enseñó aproximadamente a mediados del siglo II d.C.. (Brucker) Sus obras se dividen en 2 partes: 1) Sus Pyrrhoniae Hypotyposes, en 3 libros, nos ofrecen, en cierto modo, una exposición general del escepticismo en su conjunto; 2) de sus libros Adversus Mathematicos —es decir, contra la ciencia en general y especialmente contra los geómetras, aritméticos, gramáticos, músicos, lógicos, físicos y éticos—, que forman 11 en total, hay 6 dirigidos realmente contra los matemáticos, pues los 5 restantes se dedican a polemizar contra los filósofos.”

Quien busca un objeto tiene o bien que encontrarlo o bien negar que pueda encontrarse, o bien seguir buscándolo. Otro tanto acontece con las investigaciones filosóficas: unos afirman haber encontrado lo verdadero; otros niegan que sea posible llegar a captarlo; los terceros, por fin, perseveran en su búsqueda. Los primeros, tales como Aristóteles, Epicuro, los estoicos y otros, son los llamados dogmáticos; quienes afirman la imposibilidad de llegar a captar la verdad son los académicos; los escépticos siguen buscando. Existen, pues, 3 filosofías: la dogmática, la académica y la escéptica.” Neste conceito Platão é o rei dos céticos, e com Razão!

El escéptico no dogmatiza, sino que se limita a asentir involuntariamente a las afecciones a que se ve forzado por las representaciones; así, por ejemplo, cuando siente calor o frío, no dirá que no parece sentir frío o calor. Si se nos pregunta si el sujeto es tal y como aparece, reconocemos la apariencia, pero no nos ponemos a investigar la cosa aparente, sino solamente el predicado que de lo aparente se dice. Por tanto, el que algo sea dulce sólo lo investigamos con respecto al concepto; pero esto no es lo que aparece, sino lo que se predica de lo aparente. Pero, cuando nos ponemos a investigar directamente sobre lo aparente, no lo hacemos para destruir lo aparente, sino para refutar la precipitación de los dogmáticos.” “Por consiguiente, en todas las tesis escépticas debemos tener presente que no afirmamos en modo alguno que esas tesis sean verdaderas, puesto que decimos que pueden destruirse a sí mismas, puesto que se hallan limitadas por aquello de que se predican.”

É essencial que saibas que a essência não existe!

El principio eficiente del escepticismo es la esperanza de la imperturbabilidad.” É como dar-se por vencedor hoje de todas as tribulações do amanhã. O amanhã já foi, mas que importa ser um perdedor?

Tens que ter um prato de comida preferido, uma banda favorita e, claro, hobbies, ou serás só um vento mau!

Contra el concepto como concepto, es decir, contra el concepto absoluto, no se dirige para nada el escepticismo; el concepto absoluto es más bien su arma, aunque el escepticismo no tenga conciencia de ello.”

Así, pues, aunque el escepticismo se expresa siempre en el sentido de que todo es pura apariencia, los escépticos van más allá que los partidarios del moderno idealismo puramente formal, pues se enfrentan con el contenido y muestran cómo todo contenido es un contenido sentido o un contenido pensado, teniendo por tanto algo contrapuesto. Así, pues, ponen de manifiesto la contradicción que se encierra en el contenido mismo, de tal modo que de todo lo que se predica cabe predicar, al mismo tiempo, lo contrario; tal es lo objetivo del escepticismo en su apariencia, lo que hace que no sea un idealismo subjetivo.”

OS 15 GIROS OU TROPOS DOS CÉTICOS (MANUAL DO MUNDO DAS APARÊNCIAS), OU OS 5 GIROS QUE REALMENTE IMPORTAM.

A) DO SUBJETIVO

1. Nada é, pois reina o múltiplo. Cada animal enxerga diferente dos demais. Protoperspectivismo e as cores para si, jamais em si. (juiz: o animal)

2. Cada indivíduo é diferente dos demais homens. Sentimos sempre singularmente. Nem mesmo o veneno é algo objetivo e universal, pois alguns podem sobreviver ou não sentir os seus efeitos. Nunca houve nem haverá uma só religião sobre a terra. Bem como filosofia(s)… A falha do ceticismo em ser hegemônico provaria a tese! (juiz: o homem)

Não que seja necessário, mas neste ponto H. joga objeções: “Por muy distintos que los sistemas filosóficos puedan ser, jamás serán tan distintos como lo blanco y lo dulce, lo verde y lo áspero”; se fossem tão díspares entre si, não seria possível reuni-los num subcampo do saber e escrever uma História da Filosofia coerente, etc.

3. Os sentidos discordam entre si. A vista engana o tato e vice-versa. (juiz: os sentidos do homem; os vários homens unilaterais na unidade chamada homem, no qual, claro os céticos não acreditam!)

4. O mesmo nunca é o mesmo para o mesmo: um homem recebe algo diferente conforme se movimenta, está em repouso, dorme, está irado, está com medo, está sereno, é jovem, é velho, etc. (juiz: os humores e estados do homem, o homem-no-tempo)

5. O grande é relativo, o pequeno é relativo. Sempre há uma posição em que o grande se torna nanico e o nanico se torna gigantesco. O mesmo para claridade e escuridão. “La contradicción más conocida es la que se refiere a la rotación del sol en torno a la tierra o de la tierra alrededor del sol.” (juiz: o homem-no-espaço)

6. (mais como 1.2) Não há pureza, apenas misturas num devir. (juiz: o ‘suposto’ Um? A própria aparência? Ou antes ‘a relação’)

7. (mais como 4.2) O mesmo não é o mesmo (excluindo a consciência ou o ‘para o mesmo’: areiavidro, etc. A verdade do vinho é ao mesmo tempo a confiança e a completa impotência, conforme se tome 2 goles ou 2 garrafas. (juiz: o objeto, ou a relação, seja de qualidade ou quantidade.)

8. A direita e a esquerda sempre variarão. Não é possível se colocar no lugar do outro. “La relatividad en general lo es en relación con lo que se supone ser absoluto, pues la relación misma es una relación consigo mismo y no con otra cosa.” Traduzindo, tudo é relativo; aliás, até o relativo é relativo. O absoluto existe sob a forma intangível da relatividade ubíqua. Tudo é para si, mas não sabemos o que é para si. (juiz: a relação ou o princípio de causalidade, fechando as 3 categorias kantianas da apercepção imediata: tempo, espaço, causa.)

9. (mais como 4.3) Mesmo que todos os pontos anteriores não existissem, um dia, uma hora, um momento tudo se modifica. O contingente é uma constante, mas a constância em si é contingente. (juiz: homem-no-tempo ou a relação)

10. (mais como 4.4 ou 4.3.2!) A ciência jurídica é diferente em cada ponto da terra e varia sempre no mesmo ponto da terra. Tudo é arbitrariedade e absurdo. Combinação com os pontos 5º, 8º e 9º, para sermos kantianos mais uma vez. (juiz: o homem-no-tempo, o homem-no-espaço, a relação e o princípio de causalidade ao mesmo tempo; grosso modo, os “costumes” enquanto objeto, i.e. a cultura panoramicamente falando.)

Por razón de su simpleza, nosotros no estamos acostumbrados a dar gran importancia a esta manera de proceder [com os 10 primeiros tropos ou giros da razão] ni a atenernos a ella, pero no cabe duda de que son absolutamente certeros en lo que tienen de reacción contra el dogmatismo del sentido común.”

PRÓ-NOME: “Por tanto, el sentido de estos tropos conserva todavía su vigencia. Si se trata de fundamentar por medio de un sentimiento la fe o el derecho, este sentimiento se da en mí, pero siempre puede haber otro que diga: ‘en mí no se da esto’.”

B) DO OBJETIVO

11. As opiniões divergem. Não as ‘opiniões’ (sensações) animais nem as opiniões do simples ‘homem’. Mas as opiniões dos sábios! O argumento poderia ser resumido da forma seguinte: “Se fosse possível um consenso filosófico e uma filosofia universal, este consenso e esta universalidade já teriam sido alcançados.” – espécie de extensão do argumento 2. Implicações, se não se refuta o ponto: Hegel tenta a Síntese Suprema; falha; Nietzsche, a Escola Crítica & os pós-modernos insistem em acusar o erro. Ainda estamos recolhendo os cacos e estilhaços em que a Filosofia Continental se partiu então. De fato só o ceticismo chega a sua meta em cada geração.

12. O axioma da queda no progresso infinito. Cada afirmação necessita um princípio ou axioma; cada princípio ou axioma necessita de uma nova fundação; que necessita de um novo dogma assentador, etc. Um sério inimigo do Idealismo Romântico; mas Kant, p.ex., parece nada sofrer com este tipo de refutação!

13. “Zagallo”: Nenhum juiz é isento para julgar o que quer que seja, pois só ocupa um lugar relativo, e portanto errado de acordo com todo outro juiz. Com efeito é um argumento muito sagaz contra patriotas de última ocasião e/ou numerólogos maníacos! Falando mais sério, significa que nem mesmo se se admitisse em geral que Platão é ‘o filósofo’ e encontrou a Verdade, por exemplo, até isto é recusado pelos céticos.

14. Este argumento é engenhoso porque parece uma refutação cética contra os próprios argumentos 11-12-13: Existe sim este Absoluto do qual derivam todas as causas. Ex: Euclides. Ou seja, é possível aceitar um princípio sem prova. Mas o hic salta é: o cético se beneficiaria da mesma regra. Significa parar de remar e aceitar que tudo é água. A opinião do sábio aplanada, nivelada à opinião vulgar. (Argumento engenhoso, porém já desesperado.)

15. Prova circular. Variante do tropo décimo segundo, mas em que em vez de derivar-se de axioma em axioma em linha reta ao infinito, deriva-se em um círculo vicioso. Situação do viajante no tempo e do destino inalterável: tudo é a causa de tudo, nada é a causa de nada. A e B se sobredeterminam. Aporia. É um infinito-no-finito.

Esses últimos 5 pontos seriam os Elementos ou a Bíblia dos Céticos. Atemporais e independentes de demonstrações no mundo fenomênico.

De modo que os adversários de Sexto Empírico se vêem forçosamente na situação do ladrão que perdeu já antes de empreender sua fuga, pois não conseguem abstrair até que ponto vai a malícia e a antecipação do daimon de seu rival, o captor:

Supondo que o ladrão antecipasse que, na única via que pode usar para fazer a travessia, o amontoado de moitas estranhamente situado sobre a grama ou a estrada na verdade ocultam um insidioso alçapão, e pule para a esquerda ou para a direita, rente ao muro, para tentar atravessar pelo estreito umbral que lhe resta, eis que descobre que o umbral era a verdadeira armadilha, pois aciona uma corrente que o prende ou então uma bigorna que cai do céu em sua cabeça; não que a moita realmente não cobrisse um buraco, mas ela servia apenas para dar confiança ao suposto astuto ladrão e forçá-lo ao xeque-mate (distração antecipada). Uma amarelinha maldosa em que o jogador já perdeu antes de começar.

Para el criticismo, que no conoce en sí alguno, nada absoluto, todo saber sobre lo que es en sí como tal es dogmatismo, cuando en realidad es él el más furioso de los dogmatismos, en cuanto que asegura que el Yo, la unidad de la conciencia de sí mismo, opuesta al ser, es en y para sí y que al margen de ella queda el en sí, como dos factores que no pueden, en absoluto, coincidir.”

O engraçado é que Hegel vê em Kant tudo que nós não vemos: uma repulsão extrema ao Absoluto. Quando o que mais se critica na epistemologia kantiana é seguir se referindo ao que não existe como se existisse! Ou seja: Hegel tacha Kant de radical; nós de carola! Ainda era possível ir além.

Honra al escepticismo el haber llegado a adquirir esta conciencia acerca de lo negativo, concibiendo las formas de lo negativo de este modo determinado.” Em si o ceticismo está correto – era uma piada!! Cof, cof… A evolução final do sofista, o SUPERSOFISTA.

Sexto Empírico, por ejemplo, va repasando de un modo concreto las distintas ciencias con una gran fuerza de abstracción y revelando en todas sus determinaciones los otros aspectos de ellas. Así, se opone a las determinaciones de las matemáticas, y no exteriormente, sino dentro de sí; ataca, por ejemplo (Adv. Math. III, 20-22), la afirmación de quienes sostienen que hay un punto, una línea, un espacio, una superficie, etc.”

SPOILER: Quem é o super-herói que salva o dia? A NEGAÇÃO DA NEGAÇÃO.

Si, no obstante, el escepticismo se atreve a enfrentarse con este algo propiamente especulativo, no podrá atentar contra él en nada; su procedimiento contra lo racional consiste, pues, en general en hacer de ello algo determinado, introduciendo en ello una determinación finita del pensamiento o un concepto de relación al que se atiene, pero que no reside, ni mucho menos, en lo infinito, argumentando luego contra él; es decir, consiste en concebirlo de un modo falso, refutándolo así. O bien arma él mismo a lo infinito con las uñas con que ha de arañarlo.” The dog that bites the hand that feeds.

Hoy hasta lo especulativo se convierte en algo tosco; puede uno atenerse a la palabra y, sin embargo, aparece invertida la cosa, al despojarse a lo especulativo de la identidad de lo determinado.” Convenhamos que não teria graça refutar Max Stirner pela lógica.

Ahora bien, el saber de lo especulativo requiere, además de la disyuntiva, un tercer término; es un tanto esto como lo otro y un ni esto ni lo otro.”

Um todo, ou o Um, não é só Um, embora não seja dois. É que o Um é a negação de si. Neste sentido é que H. prefacia sua história com a estranha terminologia “o Um se (des)dobra”, a consciência, o filosofar, se duplica sobre si mesmo(a). O todo é sempre o todo em relação consigo. A consciência é sempre a consciência de si mesma (consciência x consciência, onde ‘x’ é o terceiro termo ou a ‘relação’ – relação-com-a-consciência é uma contradição ou insuficiência, pois só pode haver relação-com-a-consciência-e-a-consciência, desdobramento ensimesmado). Toda consciência necessariamente se nega, porém necessariamente apenas para se afirmar no fim do processo. “El comprenderse a sí misma de la razón es precisamente el modo como el todo comprende todas sus partes, cuando se lo enfoca en su verdadero sentido especulativo, y sólo en este sentido puede hablarse aquí de esta relación.”

Começam a subir os créditos da segunda parte da trilogia, deixando todos os asistentes decepcionados no escurinho do cinema: “Con esto, creemos haber dicho ya bastante acerca de la esencia científica del escepticismo y con ello hemos puesto fin a la sección segunda de la historia de la filosofía griega.”

El escepticismo pertenece, por tanto, al período de decadencia de la filosofía y del mundo.” A Roma nossa de todos os dias. O Protestantismo da Filosofia procrastina a morte da Filosofia, para o mal de todos… Rola-se a dívida especulativa (duplo sentido desdobrado, arrotado e peidado em si mesmo saindo como suor pelos poros respirados em seqüência)…

FIM DO SEGUNDO VOLUME

DIC:

ajetreo: agitação

bucear: mergulhar

por doquier: por procuração, indiretamente

verbigracia: por exemplo

WHAT IS LIVING AND WHAT IS DEAD ON HEGEL TODAY? – Howard Kainz, (in: Hegel, The Philosophical System, 1996)

Croce also indulged in a psychoanalytic speculation that Hegel’s 19th-century adversaries – Schopenhauer, Janet, and others – hated him because they saw him as the symbol of philosophy itself, ‘which is without heart and without compassion for the feeble-minded and for the lazy: Philosophy, which is not to be placated with the specious offerings of sentiment and of fancy, nor with the light foods of half-science’.”

A phenomenon that would lead us to believe such a renaissance is in progress is the constant increase of books on Hegel in the last four decades. What are the reasons for this continually growing interest in Hegel? One obvious reason is pragmatic: the necessity for understanding Hegel in order to assess Kierkegaard’s reaction against him, Marx’s and Sartre’s use of Hegelian concepts in developing their own positions, Heidegger’s interpretation of Hegel, and Derrida’s attack on Hegelian ontotheology. A second reason is that in some quarters, interest in Hegel is concomitant with a reaction against analytic philosophy.” “[On the other hand,] Richard Bernstein broaches this third possibility, arguing that analytical philosophers are finding more and more that single and discrete analyses ‘spill over to other issues’ (as happens in Hegel’s analyses), that progress on epistemological issues requires confrontation with metaphysical issues (a requirement Hegel insisted on), that one can’t deal effectively with reference and denotation without getting into ontology (another Hegelian insight), and so forth. A fourth reason, also noted by Bernstein, has to do with developments in philosophy of science that seem to reflect Hegelian themes – e.g., theories about the evolution of scientific paradigms and recognition of the influence of social contexts on scientific theories (Bernstein, 39). A fifth reason has to do with Hegel’s political theory: in 1989, renewed interest in this aspect of his work was generated when Francis Fukuyama published an article in The National Interest, portraying Hegel as a prophet of the triumph of liberalism over communism.”

A few decades ago, [Mortimer] Adler looked to scholastic realism as an anchor of sanity in a philosophical world gone adrift in sectarian rivalry and undisciplined individualism.” “For those still seeking a perennial philosophy but disenchanted with the scholastic model, Hegel may seem an improvement, if not the ultimate answer. For Hegel saw all philosophical schools and systems as the unfolding of one central problematic – the relationship of being to thought – and he also managed to synthesise the ‘transcendental turn’ (Kant’s ‘Copernican revolution’) into his overall schema (something scholastic realism was constitutionally unable to accomplish). The synthesising power of the Hegelian system is of course challenged to the utmost in an intellectual world grown accustomed to evolution, relativity, the demise of monarchical political systems, the decline of the west, and multi-valued logics.”

HISTORICISMO-HISTORIOGRAFIA: “This renewed interest in history may quite conceivably have been brought about by the very pluralism and factionalism of contemporary philosophy, much as a society in times of confusion or anarchy may grope for stability by studying its own history and heritage. Those who seek in the history of philosophy some illumination about contemporary philosophical goings-on will find a kindred spirit in G.W.F. Hegel; for Hegel, perhaps more than any other modern philosopher, emphasised the history of philosophy, and in a very real sense even identified philosophy with its history.”

After all, philosophy, following the example of science, has become extremely specialised and compartmentalised, and in these days of a never-ending ‘knowledge explosion’, who would seriously lay claim to knowing ‘all things’ – the whole universe or even its infinite ‘areas of discourse’? But for one disgruntled underground species of philosophers, those who can’t quite give up that grandiose aspiration, the study of Hegel allows them to do something of this sort, with a certain degree of respectability and without having to put on airs of being geniuses.” “I should re-emphasise that Hegel himself did not claim to ‘know all things’; he claimed only to have uncovered the ‘absolute standpoint’ making possible a balanced, no longer one-sided perspective, on perennial philosophical issues.”

The most serious and most important inducement to study Hegel, in my opinion, is an interest in, and a need for, metaphilosophy.” “For those who understand ‘metaphilosophy’ in the fourth sense [I exposed] – as a study of philosophical discourse – it becomes the study of philosophical discourse about ‘philosophical discourse’.”

One salutary result of the study of Hegel has been a holistic view. One cannot read Hegel seriously and sympathetically without beginning to view the specialisation and prima facie autonomy of various branches of philosophy as unnecessary (ontologically or otherwise) and even counterproductive.”

Hegel had no patience with the idea that the formula ‘one man, one vote would guarantee political self-determination’.” “At a time when Hitler’s election on the basis of the ‘one man, one vote’ is still a fairly recent memory – and when ‘control’ over the federal government by average American working people is often reduced to perilous choices, every few years, between congressional or presidential candidates neither of whom is thought satisfactory – it would be appropriate for us to ask whether there is any more natural way to ensure constant participation by and representation of citizens in a free state. Especially with today’s revolutionary advances in communication technologies, the possibilities of full democratic participation have to be rethought.”

The existence of paradoxes puts to the test our linguistic and logical conventions regarding univocity and non-contradiction, but we should not dismiss them simply on this ground. Dismissing paradox for such a is reason would be analogous to, say, Einstein‘s dismissing the change of mass of subatomic particles at high speeds because it flouted Newtonian physics. It was by going beyond this apparent contradiction that Einstein arrived at new paradoxical insights; analogously, it may just so happen that some philosophical truths are apparent contradictions on the level of ordinary logic, but paradoxical truths nevertheless. When we think of the consensus among physicists, biologists, and chemists on many foundational issues and, by contrast, the lack of consensus – and the many contradictions – among philosophers on every issue, it may not seem unlikely that paradox, which incorporates oppositions and contradictions but also surpasses them, may be the most appropriate mode of expression in philosophy.”

Hegel’s theology is speculative and patristic, rather than biblical or ‘systematic’ in the current theological sense; but it offers intensive examination of many important theological issues. Karl Barth suggests in one place that Hegel is the Thomas Aquinas of Protestantism; and the Catholic theologian Hans Küng devotes a book to a constructive elaboration of Hegel’s Christology. But the conflict between leftist and rightist interpretations of Hegel, begun after his death, is still going strong.”

H.S. Harris suggests that Hegel’s description of his Philosophy of History as a ‘theodicy’ was a ploy to distract attention from the revolutionary social theory of the Phenomenology.”

Let me now balance this account of the positive aspects of Hegelianism with an appraisal of some of Hegel’s more salient deficiencies and errors.”

Marx tried to use Hegel’s dialectical methodology without succumbing to Hegel’s ontology; Kierkegaard in his ‘aesthetic’ works reinterprets or reapplies many ideas from Hegel’s phenomenology. Others exonerate Hegel’s system but consider his dialectic the drawback. I side with the former group. Hegel’s system is obviously patterned after Fichte’s and Schelling’s attempts to build systems and is thus ‘dated’. Although Hegel’s system provides a wealth of insights, it would not be worthwhile to follow in his footsteps by philosophising in sets of intertwining and nested triads.”

For one thing, in line with the Hellenist sentiment of his era, he idolised the Greeks, but he saw fit to characterise the Romans – of the republic and the empire – as essentially a band of robbers who got together and then required strong, practical laws and eventually tyranny to keep them from turning on each other.”

In the Philosophy of History, Hegel not only writes off China as being outside history but refuses to give any serious attention to Russia or the other Slavic countries because they contributed nothing important to (European) history.”

Hegel, like Kant, seemed to think of Negroes as a definitely inferior race. He theorised that although they were stronger and more educable than American Indians, Negroes represented the inharmonious state of ‘natural man’, before humans’ attainment of consciousness of God and their own individuality”

Hegel’s ideas of women similarly reflect ‘scientific’ attitudes that prevailed at the time but would now be considered sexist. For example, in his treatment of the family in the Philosophy of Right, he generalises that women are ruled by feeling, can be educated only by something like osmosis, and should never be put in charge of a state (PR, §166, Zusatz).

Hegel’s praise of war and overall militarism (PR, §324), even though it was tempered by his opposition to nationalism (Hösle 582n), strongly influenced 19th-and-20th-century war ideologies, up to and including Nazism (Hösle 581).”

I am sure that Hegel himself, who insisted strongly on the historical and cultural limitations of any philosophy, would not be a Hegelian now – if by ‘Hegelian’ is meant someone who champions monarchy, systems built out of triads, outdated scientific ideas, and so forth.”

INFÂNCIA – Graciliano Ramos

O outro visitante apareceu duas ou três vezes, cochichou demorado no copiar e sumiu-se levando algumas dezenas de mil-réis. Esse dinheiro significava o imposto dos proprietários rurais aos numerosos grupos de cangaceiros que percorriam o sertão, pouco exigentes comparados aos posteriores. Mediante algumas cédulas, uma novilha ou marra, obtinham-se dedicações, amizades proveitosas. Quando nos mudamos para a vila, 5 ou 6 bandoleiros que transitavam pelos arredores saíram do caminho, embrenharam-se na caatinga, para não assustar a mulher e as crianças.

Ausentes os hóspedes e os passageiros, caíamos no ramerrão fastidioso. Os mesmos trabalhos de pega, ferra, ordenha; ferrolhos rangendo pela madrugada e ao escurecer; vozes ásperas, exigências curtas, ordens incompreensíveis. Por toda a parte despojos de animais: ossos branquejando nas veredas, caveiras de bois espetadas em estacas, couros espichados, malas de couro, surrões de couro, roupas de couro suspensas em tornos, chocalhos com badalos de chifre, montes de látegos, relhos, arreios, cabrestos de cabelo.”

As meninas arrastavam-se no alpendre e na cozinha. O moleque José começava a revelar-se. Minha irmã natural se desenvolvia, recebendo com freqüência arranhões nos melindres. A aversão que inspirava traduzia-se em remoques e muxoxos; quando tomava feição agressiva, fazia ricochete e vinha atingir-nos. Se não existisse aquele pecado, estou certo de que minha mãe teria sido mais humana.”

Dificilmente pintaríamos um verão nordestino em que os ramos não estivessem pretos e as cacimbas vazias.”

Findaram as longas conversas no alpendre, as visitas, os risos sonoros, os negócios lentos; surgiram rostos sombrios e rumores abafados. Enorme calor, nuvens de poeira. E no calor e na poeira homens indo e vindo sem descanso, molhados de suor, aboiando monotonamente.”

A boca enxuta, os beiços gretados, os olhos turvos, queimaduras interiores. Sono, preguiça — e estirei-me num colchão ardente. As pálpebras se alongavam, coriáceas, o líquido obsessor corria nas vozes que me acalentavam, umedecia-me a pele, esvaía-se de súbito. E em redor os objetos se deformavam, trêmulos. Veio a imobilidade, veio o esquecimento. Não sei quanto durou o suplício.”

Eu era ainda muito novo para compreender que a fazenda lhe pertencia. Notava diferenças entre os indivíduos que se sentavam nas redes e os que se acocoravam no alpendre. O gibão de meu pai tinha diversos enfeites; no de Amaro havia numerosos buracos e remendos. As nossas roupas grosseiras pareciam-me luxuosas comparadas à chita de Sinhá Leopoldina, à camisa de José Baía, sura, de algodão cru. Os caboclos se estazavam, suavam, prendiam arame farpado nas estacas. Meu pai vigiava-os, exigia que se mexessem desta ou daquela forma, e nunca estava satisfeito, reprovava tudo, com insultos e desconchavos.”

Aperreava o devedor e afligia-se temendo calotes. Venerava o credor e, pontual no pagamento, economizava com avareza. Só não economizava pancadas e repreensões. Éramos repreendidos e batidos.”

Eu devia ter quatro ou cinco anos, por aí, e figurei na qualidade de réu. Certamente já me haviam feito representar esse papel, mas ninguém me dera a entender que se tratava de julgamento. Batiam-me porque podiam bater-me, e isto era natural.

Os golpes que recebi antes do caso do cinturão, puramente físicos, desapareciam quando findava a dor. Certa vez minha mãe surrou-me com uma corda nodosa que me pintou as costas de manchas sangrentas. Moído, virando a cabeça com dificuldade, eu distinguia nas costelas grandes lanhos vermelhos. Deitaram-me, enrolaram-me em panos molhados com água de sal — e houve uma discussão na família. Minha avó, que nos visitava, condenou o procedimento da filha e esta afligiu-se. Irritada, ferira-me à toa, sem querer. Não guardei ódio a minha mãe: o culpado era o nó. Se não fosse ele, a flagelação me haveria causado menor estrago. E estaria esquecida. A história do cinturão, que veio pouco depois, avivou-a.”

Onde estava o cinturão? Hoje não posso ouvir uma pessoa falar alto. O coração bate-me forte, desanima, como se fosse parar, a voz emperra, a vista escurece, uma cólera doida agita coisas adormecidas cá dentro. A horrível sensação de que me furam os tímpanos com pontas de ferro.”

Pareceu-me que a figura imponente minguava — e a minha desgraça diminuiu. Se meu pai se tivesse chegado a mim, eu o teria recebido sem o arrepio que a presença dele sempre me deu. Não se aproximou: conservou-se longe, rondando, inquieto. Depois se afastou.”

Foi esse o primeiro contato que tive com a justiça.”

Quem me deu o primeiro cálice de licor foi a morena vistosa, mas não sei quem deu o segundo. Bebi vários, bebi o resto da garrafa. Comportei-me indecentemente, perdi a vergonha, achei-me à vontade, falando muito, desvariando e exigindo licor. Uma das moças trouxe-me um copo de vinho com mel. Minha mãe enferrujou a cara, estirou o braço enérgico, mas naquele momento eu desafiava as oposições. Através de uma neblina, distinguia formas vagas e inconsistentes. Repeli a mão que avançava para mim, tomei o copo. Daí em diante, até que adormeci, o tempo desapareceu. Certos pormenores avultaram, com certeza se dissiparam casos apreciáveis. Ganhei coragem de supetão, os perigos se esvaíram. Fortaleci-me, percebi aliados nas criaturas que me rodeavam.”

A literatura popular e os cancioneiros matutos gastar-se-ão repisando camponeses brabos e vingativos, donzelas ingênuas, puras demais. Engano. Senhorinha, educada perto do curral, conhecia os mistérios da procriação e era simples. Filha de proprietário, submeteu-se à honestidade e aguardou casamento. Mas as dívidas se avolumaram, a fazenda se despovoou, tombaram as cercas, o coronel, sem correntão nem guarda-chuva, aderiu à canalha — e Senhorinha renunciou à virtude, infringiu a moral, curvou-se à lei do instinto.

Bonitona. Avizinhei-me dela com impudência camarada, esfreguei-me. Essa precisão de receber carícias de uma pessoa do outro sexo surgiu-me de golpe, estimulada pelo álcool.

Suponho que não foi a primeira vez que me embriagaram. As sertanejas do Nordeste entorpecem os filhos à noite com uma garrafa de vinho forte. Meus irmãos ingeriram isso e procederam bem: não choraram, não gritaram, não manifestaram nenhuma exigência. Acordavam quietinhos, moles, bestas, bons como uns santos. Umedeciam as cobertas, mais isto não os incomodava: dormiam no líquido. E, longe deles, D. Maria sossegava. Quando apurei o olfato e a vista, percebi que os lençóis de meus irmãos eram fétidos, horríveis. Os meus deviam ter sido assim.”

Estranha loquacidade inutilizava o silêncio obtuso que me haviam imposto. O animalzinho bisonho papagueava, e gargalhadas estrugiam na sala, abafando a quizília [zanga] de minha mãe. Essa potência baqueava. Não me ocorria que ela se restabelecesse, voltasse comigo à casa triste, me fustigasse e puxasse as orelhas. Parecia-me que as moças ruidosas e a senhora encanecida iriam, no futuro, trazer-me a garrafinha, os cálices e a bandeja, escutar-me os devaneios.”

E os sapatos me incomodavam os dedos, esfolavam os calcanhares. Onde estariam as minhas alpercatas? Na roupa estreita, movia-me com dificuldade. Em geral eu usava camisa, saltava e corria como um bichinho, trepava nas pernas de José Baía, que nascera de sete meses e fora criado sem mamar. José Baía era ótimo, talvez por não ter mamado e haver nascido de sete meses, o que devia ser uma exceção. Se José Baía aparecesse ali, explicar-me-ia o papa-lagartas. A calça, o paletó e os sapatos pressagiavam acontecimentos volumosos.”

De ordinário a gente da rua, excetuados os três meses de safra, descansava seis dias na semana. Em negócios raros buscava-se lucro exorbitante.”

Debatiam-se Canudos, a Revolta da Armada, a Abolição e a Guerra do Paraguai como acontecimentos simultâneos. A república, no fim do segundo quadriênio, ainda não parecia definitivamente proclamada. Realmente não houvera mudança na vila. Os mesmos jogos de gamão e solo transmitiam-se de geração a geração; as mesmas pilhérias provocavam as mesmas risadas. Certas frases decoravam-se, achavam meio de arranjar-se com outras de sentido contrário — e essas incompatibilidades firmavam-se nas mentes como artigos de fé.”

Deodoro é que havia procedido mal. No começo da vida era um pobrezinho, e D. Pedro o recolhera, educara, dera-lhe posição e dragonas. Em paga de lautos favores, uma rasteira no protetor bambo. Ingrato. Devia ter esperado que o velhinho desse o couro às varas.”

o sapo-boi, bicho terrível que morde como cachorro e, se pega um cristão, só o larga quando o sino toca.”

Cocheiro devia tratar de cochos, objetos que não se viam no livro. Tudo ali discordava da nossa linguagem familiar. ‘Um grupo estranho e por igual vistoso.’ Parecia cantiga.”

A existência ordinária, entregue a negócios terrestres e caseiros, durava duas, três semanas, até o correio trazer o fornecimento mensal de literatura religiosa. Surgiam as beatas estigmatizadas, D. Bosco, diálogos singelos, casos edificantes, delícias vagas do céu e torturas minuciosas do inferno.”

limitando a mancha vermelha da testa, uma veia engrossava. Diversas pessoas da família tinham a mancha curiosa. Em momentos de excitação ela se avivava, quase roxa, da sobrancelha à raiz do cabelo — e essas criaturas se enfureciam, avizinhavam-se da loucura.”

Ia acabar. Estava escrito nos desígnios da Providência, trazidos regularmente pelo correio. Na passagem do século um cometa brabo percorreria o céu e extinguiria a criação: homens, bichos, plantas. Riachos e açudes se converteriam em fumaça, as pedras se derreteriam. Antigamente a cólera de Deus exterminara a vida com água; determinava agora suprimi-la a fogo.”

Quem tinha contado ao sujeito do livro que Deus resolvera matar Padre João Inácio? Padre João Inácio era poderoso. Recusei o vaticínio, firme.”

Esteve alguns dias apreensiva, folheando a brochura, os olhos arregalados, séria. Enfim abandonou o cataclismo, embrenhou-se em novos temores. O cometa veio ao cabo de uns dois anos e comportou-se bem. Minha mãe foi observá-lo da porta da igreja, sem nenhum receio, esquecida inteiramente da predição.”

Às vezes minha mãe perdia as arestas e a dureza, animava-se, quase se embelezava. Catorze ou quinze anos mais moço que ela, habituei-me, nessas tréguas curtas e valiosas, a julgá-la criança, uma companheira de gênio variável, que era necessário tratar cautelosamente. Sucedia desprecatar-me e enfadá-la. Os catorze ou quinze anos surgiam entre nós, alargavam-se de chofre — e causavam-me desgosto.”

Minha mãe estranhou a curiosidade: impossível um menino de seis anos, em idade de entrar na escola, ignorar aquilo. Realmente eu possuía noções. O inferno era um nome feio, que não devíamos pronunciar.”

Com certeza Padre João Inácio havia perdido um olho no inferno e de lá trouxera aquele mau costume. A resposta de minha mãe desiludiu-me, embaralhou-me as idéias. E pratiquei um ato de rebeldia:

Não há nada disso.”

Minha mãe curvou-se, descalçou-se e aplicou-me várias chineladas. Não me convenci. Conservei-me dócil, tentando acomodar-me às esquisitices alheias. Mas algumas vezes fui sincero, idiotamente. E vieram-me chineladas e outros castigos oportunos.”

Luísa era intratável e vagabunda. Em tempo de seca e fome chegava-se aos antigos senhores, instalava-se na fazenda, resmungona, malcriada, a discutir alto, a fomentar a desordem. Ao cabo de semanas arrumava os picuás e entrava na pândega, ia gerar negrinhos, que desapareciam comidos pela verminose ou oferecidos, como crias de gato.”

Haviam obrigado o moleque a tratar-me por senhor, não admitiam que me reconhecesse indigno, me privasse voluntariamente daquele respeito miúdo.”

Se os fregueses andavam direito na loja, obtínhamos generosidades imprevistas; se não andavam, suportávamos rigor. Provavelmente é assim em toda a parte, mas ali essas viravoltas se expunham com muita clareza.”

Quando meu pai se tinha irado bastante, segurou o moleque, arrastou-o à cozinha. Segui-os, curioso, excitado por uma viva sede de justiça. Nenhuma simpatia ao companheiro desgraçado, que se agoniava no pelourinho, aguardando a tortura. Nem compreendia que uma intervenção moderada me seria proveitosa, originaria o reconhecimento de um indivíduo superior a mim. Conservei-me perto da lei, desejando a execução da sentença rigorosa. Não me afligiam receios, porque ninguém me acusava, ninguém me bulia a consciência.”

Jazia ali um ser humano. Logo recusava a proposição insensata. Nada de humano: tinha a aparência vaga de um rolo de fumo. Isto, rolo de fumo, semelhante aos que meu pai guardava no armazém, umedecidos em líquido viscoso, empacavirados em bananeira. Apenas aquele não estava úmido nem coberto: estava nu e torrado. Um rolo de fumo ordinário, dos que se vendem nas barracas de feira, pelando-se, esfarelando-se ao sol. Difícil atribuir-lhe nome de mulher, existência de mulher. Contudo as exclamações reiteradas, fragmentos de asserções contínuas, desbarataram a evidência, deram-me afinal a certeza de que se achavam no terreiro porções da negra morta. Forçava-me a não perceber nexo entre aquela espécie de barrote queimado e a sujeita valente que se mexera, defendendo os trens domésticos, a ausência de braços e de pernas. A energia mencionada e a inércia visível debatiam-se dentro de mim.”

Curvei-me num arremesso de coragem. Faltava-lhe o cabelo, faltava a pele — e não havendo seios nem sexo, perdiam-se os restos de animalidade. A superfície vestia-se de crostas, como a dos metais inúteis, carcomidos no abandono e na ferrugem. Em alguns pontos semelhava carne assada, e havia realmente um cheiro forte de carne assada; fora daí ressecava-se demais. Nesse torrão cascalhoso sobressaía a cabeça, o que fôra cabeça, com as órbitas vazias, duas fileiras de dentes alvejando na devastação, o buraco do nariz, a expelir matéria verde, amarelenta.”

Se não me houvesse rendido à tentação, aquela imundície não existiria, pelo menos não existiria no meu espírito.”

Deus era misericordioso: contentava-se com uma habitação miserável, situada longe da rua, e com o sacrifício de uma preta anônima. Não me convenci. A loja de Seu Quinca Epifânio e a igreja não tinham nada com o negócio. Eu não vira incêndio na igreja nem na loja de Seu Quinca Epifânio: vira uma choupana destruída, e a choupana crescia, igualava-se às construções de tijolo. Seu Quinca Epifânio e Padre João Inácio estavam vivos. Se tivessem morrido no fogaréu, não seriam mais nojentos que a negra.”

A lembrança infeliz me atormentava: necessário que os outros soubessem isto e me censurassem. Tinham sido sempre rigorosos em demasia, e agora me deixavam com aquele peso no interior. A argüição e o castigo me dariam talvez um pouco de calma: eu esqueceria, nos lamentos e na zanga, a visagem terrível. Não me puniram, quiseram transformar aquele horror num fato ordinário.”

Em noites comuns, para escapar aos habitantes da treva, eu envolvia a cabeça. Isto me resguardava: nenhum fantasma viria perseguir-me debaixo do lençol. Agora não conseguia preservar-me. O tição apagado avizinhava-se, puxava a coberta, ligava-se ao meu corpo, sujava-me com a salmoura que vertia de gretas profundas. As órbitas vazias espiavam-me, a lama do nariz borbulhava num estertor, os dentes se acavalavam e queriam morder-me. Encolhia-me, escondia o rosto no travesseiro, e a visão continuava a atenazar-me. Os arrepios que me agitavam mudaram-se em tremor violento. Não resisti ao suplício, gritei como um doido, alarmei a família. Vieram buscar-me, tentaram varrer-me o espectro da imaginação, acomodaram-me aos pés da cama do casal. Aí me abati, no círculo de luz da lamparina, ouvindo o canto dos galos, até que a madrugada me trouxe uma ligeira modorra cheia de sonhos ruins. Adormeci com a figura asquerosa, despertei com ela.” “A negra tivera sorte. Provavelmente já estava no céu, diante de Jesus, misturada aos serafins. Essa esquisita benevolência deixou-me perplexo. Calei-me, prudente”

C.I.U.: “Vestindo o uniforme, eram insolentes e agressivos, apagavam as humilhações antigas afligindo outros infelizes. Bebiam cachaça, malandravam, torvos, importantes, vagarosos, e o desmazelo — cinto frouxo, quepe de banda, topete ameaçador — dava-lhes consideração. Arredios, oblíquos, promoviam sambas e furdunços em casas de palha, onde as violências passavam despercebidas e ninguém se queixava.”

Em geral os militares inferiores arrastam a voz na primeira sílaba de serviço quando se referem às ocupações da caserna, que deste modo se distinguem das civis e ordinárias, sem vogal modificada.”

Não me havendo chegado notícia das viagens de Gulliver, penso que a minha gente liliputiana teve origem nas baratas e nas aranhas. Esse povo mirim falava baixinho, zumbindo como as abelhas. Nem palavras ásperas nem arranhões, cocorotes e puxões de orelhas.”

Ótimo professor. Acho, porém, que era um mau funcionário. O Estado não lhe pagava etapa e soldo para desviar-se dos colegas, sujos e ferozes, encher com lorotas as cabeças das crianças. Um anarquista.”

Isto me pareceu absurdo: os traços insignificantes não tinham feição perigosa de armas. Ouvi os louvores, incrédulo.” “Não me sentia propenso a adivinhar os sinais pretos do papel amarelo?” Outra vítima das listas telefônicas? Haha, com certeza ainda não havia telefones…

A liberdade que me ofereciam de repente, o direito de optar, insinuou-me vaga desconfiança. Que estaria para acontecer? Mas a pergunta risonha levou-me a adotar procedimento oposto à minha tendência. Receei mostrar-me descortês e obtuso, recair na sujeição habitual. Deixei-me persuadir, sem nenhum entusiasmo, esperando que os garranchos do papel me dessem as qualidades necessárias para livrar-me de pequenos deveres e pequenos castigos. Decidi-me.”

Admirei-me. Esquisito aparecerem, logo no princípio do caderno, sílabas pronunciadas em lugar distante, por pessoa estranha. Não haveria engano? Meu pai asseverou que as letras eram realmente batizadas daquele jeito.

No dia seguinte surgiram outras, depois outras — e iniciou-se a escravidão imposta ardilosamente. Condenaram-me à tarefa odiosa, e como não me era possível realizá-la convenientemente, as horas se dobravam, todo o tempo se consumia nela. Agora eu não tocava nos pacotes de ferragens e miudezas, não me absorvia nas estampas das peças de chita: ficava sentado num caixão, sem pensamento, a carta sobre os joelhos.” Como é possível que alguém se lembre de quando e como foi alfabetizado?!

Enfim consegui familiarizar-me com as letras quase todas. Aí me exibiram outras 25, diferentes das primeiras e com os mesmos nomes delas. Atordoamento, preguiça, desespero, vontade de acabar-me. Veio 3º alfabeto, veio 4º, e a confusão se estabeleceu, um horror de quiproquós. Quatro sinais com uma só denominação. Se me habituassem às maiúsculas, deixando as minúsculas para mais tarde, talvez não me embrutecesse. Jogaram-me simultaneamente maldades grandes e pequenas, impressas e manuscritas. Um inferno.”

Muitas infelicidades me haviam perseguido. Mas vinham de chofre, dissipavam-se. Às vezes se multiplicavam. Depois, longos períodos de repouso. Em momentos de otimismo supus que estivessem definitivamente acabadas. Agora não alcançava esse engano. As 3 manchas verticais, úmidas de lágrimas, estiravam-se junto à mão doída, as letras renitentes iriam afligir-me dia e noite, sempre. As réstias que passeavam no tijolo e subiam a parede marcavam a aproximação do suplício. Dentro de algumas horas, de alguns minutos, a cena terrível se reproduziria: berros, cólera imensa a envolver-me, aniquilar-me, destruir os últimos vestígios de consciência, e o pedaço de madeira a martelar a carne machucada.”

Mocinha, quem é o Terteão?

Mocinha estranhou a pergunta. Não havia pensado que Terteão fosse homem. Talvez fosse. “Fala pouco e bem: ter-te-ão por alguém.”

Mocinha, que quer dizer isso?

e as duas consoantes inimigas dançavam: d. t.

Foi por esse tempo que o negro velho apareceu, limpo, de colarinho, gravata, botinas, roupa de cassineta, óculos. Estranhei, pois não admitia tal decência em negros, e manifestei a surpresa em linguagem de cozinha. Meu pai achou a observação original, enxergou nela intenções inexistentes em mim, referiu-a na loja aos fregueses, aos parceiros do gamão e do solo. Ouvia-a recomposta por Seu Afro, completamente desfigurada, com palavras que não me aventuraria a pronunciar.”

SUPERFÍCIE TRIDIMENSIONAL

raso, tudo é raso

rasura

de pensamento

anulado

recomeçado

reiterado?

uma coisa é outra coisa, a mesma coisa, ao mesmo tempo três vezes!

va(r)i(e)dade

O culpado era meu pai. (…) negociante não tem os escrúpulos comuns das pessoas comuns. Tanto elogiara as mercadorias chinfrins expostas na prateleira que sem dificuldade esquecia as minhas falhas evidentes e me transformava numa espécie de fechadura garantida, com boas molas.” “desagradava-me ouvir meu pai alinhavar opiniões contraditórias.”

A notícia veio de supetão: iam meter-me na escola. Já me haviam falado nisso, em horas de zanga, mas nunca me convencera de que realizassem a ameaça. A escola, segundo informações dignas de crédito, era um lugar para onde se enviavam as crianças rebeldes.” “A escola era horrível — e eu não podia negá-la, como negara o inferno.” “Iria o professor mandar-me explicar Terteão e a chave? Enorme tristeza por não perceber nenhuma simpatia em redor.”

Lavaram-me, esfregaram-me, pentearam-me, cortaram-me as unhas sujas de terra. E, com a roupa nova de fustão branco, os sapatos roxos de marroquim, o gorro de palha, folhas de almaço numa caixa, penas, lápis, uma brochura de capa amarela, saí de casa, tão perturbado que não vi para onde me levavam. Nem tinha tido a curiosidade de informar-me: estava certo de que seria entregue ao sujeito barbado e severo, residente no largo, perto da igreja.” Sujo pode, conquanto que as visitas não olhem.

Não me seria possível espernear, berrar daquele jeito, exibir força, escoicear, utilizar os dentes, cuspir nas pessoas, espumante e selvagem. Tinham-me domado. Na civilização e na fraqueza, ia para onde me impeliam, muito dócil, muito leve, como os pedaços da carta de ABC”

As pessoas comuns exalavam odores fortes e excitantes, de fumo, suor, banha de porco, mofo, sangue. E bafos nauseabundos. Os dentes de Rosenda eram pretos de sarro de cachimbo; André Laerte usava um avental imundo; por detrás dos baús de couro, brilhantes de tachas amarelas, escondiam-se camisas ensangüentadas.”

A escola exigia palmatória, mas não consta que o modesto emblema de autoridade e saber haja trazido lágrimas a alguém. D. Maria nunca o manejou. Nem sequer recorria às ameaças. Quando se aperreava, erguia o dedinho, uma nota desafinava na voz carinhosa — e nós nos alarmávamos.” “A excelente criatura logo se fatigava da severidade, restabelecia a camaradagem, rascunhava palavras e algarismos, que reproduzíamos.”

Lavou as orelhas hoje?

Lavei o rosto, gaguejei atarantado.

Perguntei se lavou as orelhas.

Então? Se lavei o rosto, devo ter lavado as orelhas.

Lembro-me de ter ouvido alguém condenar certa hóspeda que, antes de ir para a cama, pretendia banhar-se:

Moça porca.”

Continuei a asseá-las rigoroso, e ao cabo de uma semana surgiram nelas esfoladuras e gretas que dificultaram as esfregações. A professora notou o exagero, segredou-me que deixasse as orelhas em paz. Desobedeci: havia contraído um hábito e receava outra admoestação, pior que insultos e gritos.”

De quem seria o defeito, do Barão de Macaúbas ou meu? Devia ser meu. Um homem coberto de responsabilidades com certeza escrevia direito. Não havia desordem na composição. Só eu me atrapalhava nela, os meninos comuns viam facilmente o fugitivo esconder-se na gruta, a aranha fabricar a teia. Humilhava-me — e na horrível cartonagem só percebia uma confusão de veredas espinhosas. Não valia a pena esforçar-me por andar nelas. Na verdade nem tentava qualquer esforço: o exercício me produzia enjôo.”

E se o catecismo tivesse para mim algum significado, pegar-me-ia a Deus, pedir-lhe-ia que me livrasse do Barão de Macaúbas. Nenhum proveito a libertação me daria: os outros organizadores de histórias infantis eram provavelmente como ele. Em todo o caso ambicionei afastar a mosca, a teia de aranha, o pássaro virtuoso.”

Desse objeto sinistro guardo a lembrança mortificadora de muitas páginas relativas à boa pontuação. Avizinhava-me dos 7 anos, não conseguia ler e os meus rascunhos eram pavorosos. Apesar disso emaranhei-me em regras complicadas, resmunguei expressões técnicas e encerrei-me num embrutecimento admirável.”

Sete vezes nove?

Sessenta, pouco mais ou menos. A exigência de D. Maria não se inquietava com unidades.

Foi por esse tempo que me infligiram Camões, no manuscrito. Sim senhor: Camões, em medonhos caracteres borrados — e manuscritos. Aos sete anos, no interior do Nordeste, ignorante da minha língua, fui compelido a adivinhar, em língua estranha, as filhas do Mondego, a linda Inês, as armas e os barões assinalados. Um desses barões era provavelmente o de Macaúbas, o dos passarinhos, da mosca, da teia de aranha, da pontuação. Deus me perdoe. Abominei Camões. E ao Barão de Macaúbas associei Vasco da Gama, Afonso de Albuquerque, o gigante Adamastor, barão também, decerto.”

AFASTOU-ME da escola, atrasou-me, enquanto os filhos de Seu José Galvão se internavam em grandes volumes coloridos, a doença de olhos que me perseguiu na meninice. Torturava-me semanas e semanas, eu vivia na treva, o rosto oculto num pano escuro, tropeçando nos móveis, guiando-me às apalpadelas, ao longo das paredes. As pálpebras inflamadas colavam-se. Para descerrá-las, eu ficava tempo sem fim mergulhando a cara na bacia de água, lavando-me vagarosamente, pois o contacto dos dedos era doloroso em excesso. Finda a operação extensa, o espelho da sala de visitas mostrava-me dois bugalhos sangrentos, que se molhavam depressa e queriam esconder-se.” “Voltava a abrigar-me sob o pano escuro, mas isto não atenuava o padecimento. Qualquer luz me deslumbrava, feria-me como pontas de agulhas. E as lágrimas corriam, engrossavam, solidificavam-se na pele vermelha e crestada. Necessário mexer-me à toa, em busca da bacia de água.”

Minha mãe tinha a franqueza de manifestar-me viva antipatia. Dava-me dois apelidos: bezerro-encourado e cabra-cega. Bezerro-encourado é um intruso. Quando uma cria morre, tiram-lhe o couro, vestem com ele um órfão, que, neste disfarce, é amamentado. A vaca sente o cheiro do filho, engana-se e adota o animal. Devo o apodo ao meu desarranjo, à feiúra, ao desengonço.” “Essa injúria revelou muito cedo a minha condição na família: comparado ao bicho infeliz, considerei-me um pupilo enfadonho, aceito a custo. Zanguei-me, permanecendo exteriormente calmo, depois serenei.”

Se a oftalmia desaparecesse, a expressão vexatória desapareceria também, eu regressaria ao catecismo, às histórias do Barão de Macaúbas.” “Na escuridão percebi o valor enorme das palavras. Em dias de claridade e movimento entretinha-me a observar a loja e o armazém, percorria alguns metros do largo e alguns metros da Rua da Palha, de casa para a escola, da escola para casa.”

Os passos revelavam as criaturas, quase se confundiam com elas: para bem dizer tinham forma, feições, e era-me possível saber de longe se estavam zangados ou satisfeitos.”

Mas, D. Maria, a velha professora quase analfabeta, aproximava-se da santidade. Os outros viventes possuíam virtudes e defeitos, com desvios e oscilações. Chico Brabo parecia-me dois seres incompatíveis. Em vão tentei harmonizá-los. As lembranças multiplicavam-se, exageravam-se. Arriado na cama de lona, as pálpebras coladas, via distintamente um deles. Os ouvidos excitados na cegueira fixavam-me na imaginação o segundo.”

Eu não supunha que existissem pessoas tão cabeludas.”

Os fazendeiros da região submetiam-se a alternativas: anos de abundância e anos de penúria. Às vezes a terra produzia em excesso, outras vezes não produzia nada. Dissipação, mesquinharia. E contra isso qualquer esforço era inútil.”

Nunca me havia ocorrido que as rapaduras fossem conseqüência de trabalho humano. Encaixadas, nas bodegas, não pareciam exigir tantos preparos. Aquilo era uma diversão curiosa. Bonitas, cor de ouro, empilhavam-se ainda quentes. E desejei permanecer ali, ao calor da fornalha, vendo a cana esmagar-se, o líquido borbulhar nas talhas, engrossar, solidificar-se.”

Mudei-me, fui viver na cidade. A pedra faiscante sumiu-se — e o meu quarto, rezadas as orações, apagado o candeeiro de querosene, escureceu.”

A pessoa que desapareceu da família foi Mocinha. Não sei bem se desapareceu da família, mas é certo que nos deixou. Talvez não a julgassem parenta: as relações dela conosco eram imprecisas. Antes de meu pai casar, Mocinha lhe fôra enviada por portas travessas, passara às mãos de tia Dona, viúva pobre que vivia com êle e tinha duas filhas novas. Viera o casamento, viera a mudança, tia e primas se haviam distanciado e Mocinha nos acompanhara ao sertão.

Era branca e forte, de olhos grandes, cabelos negros, tão bonita que duvidei ser do meu sangue. Parece que não queriam tomar conhecimento dela. Aferrolhavam-na em camarinha tenebrosa. Natural: sempre tivemos camarinhas úmidas, tristes, seguras, fechadas, para as mulheres. Sentava-se a um canto da mesa, rezava, comia de cabeça baixa. O constrangimento devia torturá-la, pois no quintal, na cozinha, no alpendre, ria, cantava, entendia-se com Rosenda lavadeira. Do corredor para a sala de visitas encolhia-se, reprimia expansões, anulava-se.”

À Mocinha não chegavam dissabores. Era como estranha, hóspeda permanente, embora se entretivesse em serviços leves: bordava palmas e florinhas lentas em pedaços de morim estendidos em grades, remendava camisas, endurecia saias brancas na goma anilada, alisava-as a ferro numa tábua vestida em lençol, suspensa nos encostos de duas cadeiras.”

Provavelmente a situação do negócio (gado a morrer, pano barato na prateleira) não lhe permitia engendrar filhos em muitas barrigas, fortalecer-se com o trabalho deles. Reprodutor mesquinho, sujeitava-se à moral comum — e naquela bênção engrolada ao amanhecer e ao cair da noite havia a confissão de que lhe faltava o direito de cobrir muitas mulheres, gerar descendência numerosa. Cobria e gerava, mas devagar e com método. Era um patriarca refletido e oblíquo, escriturava zeloso os seus escorregos sentimentais. Mocinha não representava utilidade. Valor estimativo, de origem pecaminosa. E meu pai tentava convencer os outros de que ela não existia.

Difícil. A intrusa se encorpava e embelezava, alargava a roupa, namorava-se ao espelho da sala. E do espelho saltou à janela, onde Miguel lhe foi segredar ternuras ao lusco-fusco.

Miguel, indivíduo importante, dos mais importantes do lugar, não podia ligar-se decentemente a uma filha das ervas. A gente dele, proprietária da casa de azulejos, motivo do meu assombro ao apear-me na vila, estrilou. E meu pai estrilou também, considerável e cheio de prosápias, orgulhando-se daquela preferência, mas rigoroso, intransigente. Fecharam-se e fiscalizaram-se as venezianas; estorvaram-se as relações com o exterior; a menina, elevada à categoria de pessoa, ouviu grilos, censuras ásperas, e as duas bênçãos diárias nunca mais lhe foram concedidas.

Pensei mais tarde nas razões que levaram meu pai a repelir um sujeito de boa raça, influente na política local. Talvez desejasse evitar falatórios, que lhe causavam medo. Talvez receasse assumir responsabilidade, ir até o fim do caminho. Nunca se comportava assim. Ordinariamente parava, ocupado com minúcias, e no jogo do solo, o seu divertimento no inverno, passava demais, enchia o pires de tentos, só se arriscava quando os trunfos lhe choviam nas mãos. Temia vantagens, desconfiava dos lucros rápidos e fáceis, que exigem capital e coragem — e após o desastre na fazenda, bichos famintos, morrinha, destruição, tornara-se precavido em excesso. Realmente era ambicioso, mas a sua ambição voava curto. Leve amor às aventuras e riscos, aventuras e riscos medianos, o induzia a vender fiado. Tomava todas as precauções, estudava o freguês pelo direito e pelo avesso, duplicava o preço da mercadoria, e se a fatura se elevava um pouco, suava numa angústia verdadeira. Findos os 90 dias do prazo, esfolava o devedor com juro de 2%a.m.. É possível que, nesse caso afetivo, ele haja, adotando os seus hábitos comerciais, procedido economicamente. Se acolhesse as boas intenções de Miguel, precisaria mandar fazer enxoval, comprar malas, realizar uma festa com anúncio em banhos, cerimônia de igreja, música, jantar para dezenas de convidados. Viriam Padre João Inácio, o Comendador Badega, Seu Félix Cursino, Teotoninho Sabiá, Filipe Benício. Teríamos discursos, teríamos dança. Esses desarranjos, além de caros, não estavam na índole de meu pai.”

Meu pai detestava a dança, formalidade necessária em bodas. Certamente se lembrava de culpas nascidas na valsa e na quadrilha — e daí o horror. Havia na existência dele, no escuro do passado, uma Deolinda, a que minha mãe se referia com inveja. Deolinda surgira escandalosamente na quadrilha e na valsa, traíra o marido — e, em conseqüência, meu pai reprovava com energia o exercício abominável. Minha mãe esqueceu a reprovação e cometeu uma falta: dançou com um primo barbado, em casa de meu avô. Arrependeu-se, achegou-me ao peito magro, pediu-me que não revelasse a ninguém o desgraçado sucesso. Comprometi-me. Quando nos desaviemos, ameacei-a. Não ligou importância às ameaças: puxou-me as orelhas. Senti a perfídia, mas fui generoso, guardei o segredo. E a paz do casal não se alterou.”

O nosso governo totalitário admitia Adélia e D. Rufo, mas não admitia Miguel. Não tentava suprimir a ficção contida nos volumes sujos. Consentia a leitura, reconhecendo a inutilidade dela fora do artigo político e dos lançamentos do borrador. Mas, deixando à menina o direito de pensar em tipos de histórias, decidiu conservá-la na virgindade. Obrigava-se a alimentá-la por largos anos, vesti-la, calçá-la. Isto representava uma despesa pingada, quase insensível.”

Fervia nela, porém, o sangue materno, a solidão afligia-a. E Miguel não queria ser figura de romance. Entenderam-se, apesar da proibição, inflamaram-se, cambiaram acenos e bilhetes. E tudo se resolveu.”

estabeleceu-se que moça fugida é moça avariada.”

Mocinha casou silenciosamente, sem música e sem dança, na missa das sete. E teve alguns anos de equilíbrio e felicidade.” “Miguel abandonou-a, ligou-se a outra, no civil. Se não me engano, ligou-se também a uma índia, na lei dos índios, para as bandas do Amazonas. Mocinha desapareceu e não deixou vestígio.”

Tinham-se sumido os grandes espaços alvacentos, de areia e cascalho, despovoados, o mato franzino, bancos de macambira, cercas de pedra, chiqueiros e currais, dias luminosos riscados pelo vôo das arribações. Veredas subiam, desciam, torciam-se, e à beira delas arrumavam-se casas, jardins, hortas. Os transeuntes não se vestiam de couro.”

Chegamos ao município de Viçosa, em Alagoas. Antes de estabelecer-se na cidade, meu pai se hospedou num engenho de fogo morto.”

Objetos e palavras inexistentes no sertão originavam incerteza, e a maneira de falar me chocava os ouvidos. As pessoas e as relações me desnorteavam: não podia saber se me comportava direito com a parentela confusa e respeitável.”

Matricularam-me na escola pública da professora Maria do Ó, mulata fosca, robusta em demasia, uma das criaturas mais vigorosas que já vi.”

surgiu uma novidade que me levou a desconfiar da instrução de Alagoas: no interior de Pernambuco havia 1899 depois dos nomes da terra e do mês; escrevíamos agora 1900, e isto me embrulhou o espírito. Faltou-me a explicação necessária. Como a doce mestra sertaneja, clara, de belos caracóis imaculados, superava a outra, escura, agreste, de músculos rijos, nos olhos raivosos estrias amarelas, considerei a nova data um erro.”

Uma vez, notando-me o desânimo diante da folha machucada, Dondom tomou a pena, traçou vários caracteres em caligrafia direita, emagrecendo-os, engordando-os convenientemente, e induziu-me a prosseguir daquela maneira. Conselho perdido: as garatujas de 1900 eram iguais às de 1899. E quando a professora foi julgar as escritas e viu o dolo, chamou-me, exigiu esclarecimento. Desejei mentir, responsabilizar-me. Impossível. Olhei desesperado a minha cúmplice. D. Maria do Ó envolveu a mão nos cabelos da menina, deixando livres o indicador e o polegar, com que me agarrou uma orelha. E, tendo-nos seguros, agitou o braço violentamente: rodopiamos como dois bonecos e aluímos sobre os bancos.”

permaneci obtuso, odiando as vírgulas e o catecismo, só abrindo os volumes sujos à hora da lição. Felizmente escapava entre dezenas de garotos rudes.”

Na sala, vendo a mulata ou cafuza brandir a palmatória, precisaria comportar-me bem, simular atenção, molhar de saliva as páginas detestáveis. Ali, no encolhimento e na insignificância, os livros fechados, embrutecia-me em leves cochilos, quase só. Desperto, bocejava, examinava o quintal estreito, que subia o morro do cemitério, argiloso e resvaladiço.”

Constrangida no espartilho, branqueada a pó-de-arroz, D. Maria do Ó fingia humanizar-se lá fora: a voz amansava, a carne se reprimia, doméstica, os bugalhos amarelentos se ocultavam sob as pálpebras roxas — e a fera metia as garras nos cabelos das crianças, adulando.

Entre as vítimas desse diabo, a mais infeliz era minha prima Adelaide. Os pais não queriam separar-se dela. E, ricos, podendo confiá-la a estabelecimento que ensinasse línguas difíceis, tinham resolvido instruí-la sem perdê-la de vista. Os colégios mais ou menos europeus ficavam longe. Iriam soltá-la por este mundo, sujeita a inconveniências? Não.”

Uma Adelaide letrada, não muito letrada, com as inovações e as letras necessárias. Uma Adelaide que se banhasse no riacho e falasse francês.”

E a infeliz, vergando sob a cólera despropositada, ia buscar a vassoura, limpar o tijolo, havia-se reduzido à condição de criada. Na labuta doméstica, sofria a birra das três velhas miúdas e cor de piche. Essas fúrias boçais vinham de classe muito baixa, tinham decerto adquirido em senzalas o veneno que destilavam. Da subserviência, antiga, passavam às ordens brutais, vingavam-se numa possível descendente de senhores remotos. Adelaide curvava o espinhaço, calejava na obediência, esmorecia nos trabalhos mais humildes.”

Não me parecia que Adelaide pudesse reabilitar-se, recuperar a alma de proprietária, dominar os cambembes esvaídos no eito. O engenho perdera a grandeza, era uma sombra de engenho, e a sinhá-moça arrastaria anos de vexame, até o fim da vida.”

As tias da professora haviam sido mucamas de luxo, sem dúvida, antes da maluqueira de uma princesa odiosa. Ingratas. Não me ocorria que alguém manejara a enxada, suara no cultivo do algodão e da cana: as plantas nasciam espontaneamente.”

Coitada de minha prima, tão boa, tão débil, suportando as enxaquecas das miseráveis. Lugar de negro era a cozinha. Por que haviam saído de lá, vindo para a sala, puxar as orelhas de Adelaide? Não me conformava.”

A imobilidade e a indiferença me atraíam. Tentei invocar as almas penadas, os diabos que se agitam nas chamas eternas. Essas criaturas me inspiravam piedade ou terror. Diante das carcaças nuas, era impossível comover-me. Loucura supor que mangassem de mim.

Longamente estive a contemplar as ruínas, ignoro como e quando me retirei. Decerto os colegas foram buscar-me. Não me recordo.

Entrei em casa mergulhado numa sombra espessa. À mesa, repeli a comida.”

Imundície. As pálpebras e o globo iam apodrecer, estavam apodrecendo. Só o esqueleto resistiria. Ossos. Aquela miséria segurava-se a mim, e não havia jeito de eliminá-la. Uma caveira me acompanharia por toda a parte, estaria comigo na cama, nas horas de brinquedo, nos desalentos, curvar-se-ia sobre páginas enfadonhas e agüentaria cocorotes. Ia encher-se de noções e de sonhos, esvaziar-se, descansar num ossuário, ao sol, à chuva, mostrar os dentes às crianças. Acabar-me-ia assim. Não interrompia o exame das órbitas, e as cavidades horríveis se alargavam e aprofundavam, semelhantes aos dois buracos que me haviam observado no cemitério.”

Os duendes e os gigantes eram só palavras, os inimigos indeterminados que vivem na treva se dispersaram. Intentei recordar-me deles, assustar-me. Debalde. Lá fora cantavam grilos, o vento zumbia nos ramos das laranjeiras e na cerca de pau-a-pique, vaga-lumes e baratas começavam a manifestar-se, os moleques cochichavam. Apenas. E cá dentro — um feixe de ossos. Apenas. A carne se eriçava, o sangue badalava na artéria. Isso tudo seria gasto pelos vermes. A imagem horrorosa se obstinava. As imagens também seriam gastas pelos vermes. Então para que me fatigar, rezar, ir à loja e à escola, receber castigos da mestra, escaldar os miolos na soma e na diminuição? Para quê, se os miolos iam derreter-se, abandonar a caixa inútil? O que mais me impressionava eram as órbitas: a pesquisa minuciosa prosseguia e achava-as desertas. Ocas e sombrias, como as outras. E o resto? Não havia resto. Ali não havia nada. Aqui não haveria nada. O velho Simeão habituara-se a dormir à luz dos fogos-fátuos, que já não eram amantes falecidos em incesto, perseguindo-se, repelindo-se, entre as sepulturas. Libertara-se de crenças, fugira ao sobrenatural. E resignava-se. Eu não podia resignar-me. As almas do outro mundo e os lobisomens adquiriam muito valor, faziam-me falta.

Estas letras me pareceriam naquele tempo confusas e pedantes. Mas o artifício da composição não exclui a substância do fato. Esforcei-me por destrinçar as coisas inomináveis existentes no meu espírito infantil, numa balbúrdia. É por terem sido inomináveis que agora se apresentam duvidosas. Afinal não me surgiam dificuldades. Haviam-me exposto várias lendas. Vencida a resistência inicial, pusera-me a confirmá-las. Negava-as de repente em globo, sem análises. Não me embaraçava em dúvidas. Tinha dito sim; entrava a dizer não: uma caveira motivava o desmoronamento.

Não pretendo insinuar, porém, que me haja encerrado no ateísmo, diferençando-me dos meninos vulgares. Nem sequer pensei em Deus. O que me inquietava eram as almas. E a minha não morreu de todo. Aquele enorme desengano passou. Os fantasmas voltaram, abrandaram-me a solidão. Sumiram-se pouco a pouco e foram substituídos por outros fantasmas.”

TIRARAM-ME da escola da mestiça, puseram-me na de um mestiço, não porque esta se avantajasse àquela, mas porque minha família se mudou para a Rua da Matriz, e D. Maria do Ó, no Juazeiro, ficava longe, graças a Deus.”

Um irmão dele, claro e simpático, certo dia me apareceu zangado no armazém de Seu Costa, sentou-se num fardo de algodão, abriu um jornal, fechou-o, encarou-me e rugiu:

Tenho o meu lugar definido na sociedade.

Não o contrariei. Admirava-lhe a caligrafia, os discursos na Loja Maçônica e a linguagem nas conversas. Desejaria falar tão facilmente, rir como ele. Mas naquela hora o homem não queria falar nem rir. Bêbedo, espumava, recordando alguma ofensa:

Tenho o meu lugar definido.

Provavelmente alguém o molestara, alguém que não recebera a resposta adequada e ali, na perturbação da embriaguez, se confundia comigo.

Sem dúvida.

O sujeito desdenhou a confirmação: bateu na coxa e martelou, reimoso, disposto a luta, babando-se:

Tenho o meu lugar definido.

Mas isso foi muito depois de eu entrar na escola do irmão. Este não tinha lugar definido na sociedade. Para bem dizer, não tinha lugar definido na espécie humana: era um tipo mesquinho, de voz fina, modos ambíguos, e passava os dias alisando o pixaim com uma escova de cabelos duros. Azeite e banha não domavam a carapinha — e o dono teimava, esfregava-a constantemente, mirando-se num espelho, namorando-se, mordendo a ponta da língua. Era feio, quase negro — e a feiúra e o pretume o afligiam. Porque tinha senso de beleza, mas procurava-a loucamente no seu corpo mofino. Friccionava-se, empoava-se, arrebicava-se, examinava-se no vidro, entortando os bugalhos estriados de vermelho.”

fantasiava em sossego um livro diferente, sem explicações confusas, sem lengalengas cheias de moral. Uma interjeição me puxava à realidade, esfriava-me o sangue; a falta se revelava, erguia-me o rosto alarmado. Nenhum castigo. O professor andava no mundo da lua, as pálpebras meio cerradas, mexendo-se devagar na cadeira, como sonâmbulo. Não se espantara, não se indignara: a exclamação traduzia algum sentimento nebuloso, estranho à leitura. Findo o susto, considerava-me isolado, continuava nas infrações sem nenhuma vergonha.”

Segurava a palmatória como se quisesse derrubar com ela o mundo. E nós, meia dúzia de alunos, tremíamos da cólera maciça, tentávamos esconder-nos uns por detrás dos outros. Daríamos os nossos cabelos, trocaríamos as nossas figuras por aquela miséria que se acabrunhava junto à mesa. Por que se aperreava tanto? Insignificâncias. Eu dizia comigo que o professor, como o irmão, poderia recitar discursos brilhantes e crescer. Tornar-se um homem.”

Os olhos ensangüentavam-se, os dentes rangiam. E consertava-nos furiosamente a pronúncia, obediente a vírgulas e pontos, forçava-nos a repetir uma frase dez vezes, punha notas baixas nas escritas, rasgando o papel, farejava as contas até que o erro surgia e se publicava com estridência arrepiada. Nesse policiamento súbito acuávamos — e as folhas virgens endureciam.

Desalentava-me no banco, os miolos a arder, zonzo. Quando se acabaria aquele horrível estrupício? Evidentemente não se acabaria: precisava habituar-me a ele, gostar da insipidez. Voltava à obrigação, reduzida por bocejos e cochilos.

Felizmente a exigência durava pouco. O sujeito melindroso enxergava no vidro uma cara atraente, alvoroçava-se, deixava-me em paz. As complicações do livro adelgaçavam, perdiam-se, enquanto o meu espírito vagaroso andava longe, pezunhando nos atoleiros que se espalhavam na cidade. Ia à estação da estrada de ferro, apreciava locomotivas, fumaça, apitos, vagões, passageiros e carregadores, trilhos, dormentes, rapaduras de carvão; detinha-se no mercado, que aos sábados se povoava de matutos ruidosos; visitava lojas, armazéns, a agência do correio; subia e descia ladeiras, passeava nos montes verdes, nas margens do rio largo e pedregoso. Assim divagando, sapequei o resto das histórias espessas, surdo aos conselhos que havia nelas. Nem me inteirava da existência dos conselhos.

Despedi-me enfim do Barão de Macaúbas, larguei a cartonagem, respirei. Mas a satisfação foi rápida: meteram-me noutra escola ruim e adquiri uma seleta clássica. [antologias didáticas]”

SEU Nuno quis transformar-me em ajudante de missa, e isto me atraiu, deixei-me sugestionar, embora ignorando que esforços a novidade exigiria de mim. De fato o catecismo não me inspirava simpatia, mas a aritmética e a seleta clássica eram piores — e imaginei, com a preferência, libertar-me delas. É possível que muitas vocações comecem desse jeito.”

Assim me edifiquei, a princípio moderadamente, depois excessivo e entusiasmado. Afeiçoei-me aos toques de sino, ao cheiro de incenso, decorei as frases do ritual, e, de casa para a loja, da loja para casa, ao passar diante da igreja, tirava o chapéu, rezava um padre-nosso e uma ave-maria.” “Adiantava-me, atrasava-me, escorregava no tapete, confundia a epístola com o evangelho, não segurava direito o missal, nos momentos mais sérios distraía-me olhando os vitrais. No manejo das galhetas [‘Cada um dos recipientes em que se guardam a água ou o vinho para a missa.’ // Também se usa para recipientes de restaurante ou de laboratórios químicos.] fui tão inábil que retrogradei. Cassaram-me funções, nem o turíbulo me deixaram, porque não consegui alongar ou encurtar as correntes, e nas minhas mãos o objeto, em vez de lançar fumaça, lançava cinza.” “E a minha fé pouco a pouco arrefeceu: a liturgia encrencada afastou da igreja um ministro.”

Findara o tempo dos eclesiásticos soltos, numerosos no século passado. Entravam no rigor. Padre João Inácio e Padre Loureiro viviam com feias e honestas parentas idosas. Em conseqüência, esmorecimento, deserções. Fazendeiros, senhores de engenho e negociantes metiam os filhos em colégios leigos, formavam-nos em academias liberais. Ou largavam-nos na bagaceira, se a rudeza era grande, prendiam-nos ao balcão.”

Um dia, no quintal, descobri uma de minhas irmãs vestida na batina, mascarada, fazendo carnaval. Indignei-me, depois encolhi os ombros, insensível à profanação. A batina envelhecia, desfiava-se nos bolsos e nas extremidades, cobria-se de nódoas. Esfarrapou-se nos brinquedos — e esquecia-a.”

Padre Pimentel era uma santa criatura e insinuou-me alguns conhecimentos, os primeiros que aceitei com prazer. Narrou-me a viagem de Abraão, a vida nas tendas, a chegada à Palestina. Usava linguagem simples, comparações que atualizavam os acontecimentos. Não hesitei, ouvindo a mudança de homens e gado, com certeza tangidos pela seca, em situar a Caldéia no interior de Pernambuco. E Canaã, terra de leite e mel, aproximava-se dos engenhos e da cana-de-açúcar. Mantive essa localização arbitrária, útil à verossimilhança do enredo, espalhei seixos, mandacarus e xiquexiques no deserto sírio, e isto não desapareceu inteiramente quando os mapas vieram.

Padre Pimentel admitia dúvidas e aclarava os pontos obscuros. Realmente não explicou direito o holocausto goro de Isaac e disfarçou, para evitar-me transtorno, o procedimento das filhas de Lot, mas os outros casos se desenrolaram fáceis e naturais. Jacob brigou com Esaú por causa de herança, coisa vulgar entre pessoas ricas, fugiu, foi protegido e enganado por um tio, tomou-lhe um rebanho e casou com duas mulheres. Uma delas tinha olhos de sapiranga [a mesma blefarite ciliar de capítulos atrás!]. A poligamia, o furto e as safadezas não me espantavam. Onze malvados se desembaraçaram de um irmão.

Até aí, tudo razoável. Em seguida enxerguei na história certo exagero. Moisés era um grande chefe, mas teria vencido os egípcios, atravessado o mar a pé enxuto, recebido alimento do céu, tirado água das pedras, visto Deus? Pedi confirmação. Havia prova de que o Judeu realizara tantos milagres? Padre Pimentel não se enfadava. Claro que tinha realizado.

Ia refugiar-me, zonzo, na companhia das moças. Conversavam demais. Discutiam, graves, um corte de vestido, parando em cada prega, analisando fitas e botões, discordavam, criticavam-se, enfim se combinavam. O que me surpreendia nelas era a ausência de pressa. Uma estava noiva, quase noiva. Adiava-se a resolução — e na sala de jantar havia sobre o assunto vivas cavaqueiras, em que todas pareciam ter igual interesse. Somavam as conveniências, as inconveniências, e isto às vezes favorecia o pretendente, outras vezes o desfavorecia. Enquanto buscavam decisão, iam preparando o enxoval. Fôra dada uma anuência tácita, mas os debates prosseguiam, com o arranjo das fronhas e dos lençóis. Mediam tudo, pesavam tudo, para não surgirem decepções.

Essas moças tinham o vezo de afirmar o contrário do que desejavam. Notei a singularidade quando principiaram a elogiar o meu paletó cor de macaco. Examinavam-no sérias, achavam o pano e os aviamentos de qualidade superior, o feitio admirável. Envaideci-me: nunca havia reparado em tais vantagens. Mas os gabos se prolongaram, trouxeram-me desconfiança. Percebi afinal que elas zombavam, e não me susceptibilizei. Longe disso: julguei curiosa aquela maneira de falar pelo avesso, diferente das grosserias a que me habituara. Em geral me diziam com franqueza que a roupa não me assentava no corpo, sobrava nos sovacos. Os defeitos eram evidentes, e eu considerava estupidez virem indicá-los. Dissimulavam-se agora num jogo de palavras que encerrava malícia e bondade. Essa mistura de sentimentos incompatíveis assombrava-me — e pela primeira vez ri de mim mesmo. A doçura picante não me reformava, é claro, mas exibia-me como eu poderia ter sido se a natureza e o alfaiate me houvessem dado os recursos indispensáveis. Satisfazia-me a idéia de que a minha figura não provocava inevitavelmente irritação ou desdém, e as novas amigas surgiram-me compreensivas e caridosas.

Guardei a lição, conservei longos anos esse paletó. Conformado, avaliei o forro, as dobras e os pospontos das minhas ações cor de macaco. Paciência, tinham de ser assim. Ainda hoje, se fingem tolerar-me um romance, observo-lhe cuidadoso as mangas, as costuras, e vejo-o como ele é realmente: chinfrim e cor de macaco.”

Aos 9 anos, eu era quase analfabeto. E achava-me inferior aos Mota Lima, nossos vizinhos, muito inferior, construído de maneira diversa. Esses garotos, felizes, para mim eram perfeitos: andavam limpos, riam alto, freqüentavam escola decente e possuíam máquinas que rodavam na calçada como trens. Eu vestia roupas ordinárias, usava tamancos, enlameava-me no quintal, engenhando bonecos de barro, falava pouco.”

O lugar de estudo era isso. Os alunos se imobilizavam nos bancos: 5 horas de suplício, uma crucificação. Certo dia vi moscas na cara de um, roendo o canto do olho, entrando no olho. E o olho sem se mexer, como se o menino estivesse morto. Não há prisão pior que uma escola primária do interior. A imobilidade e a insensibilidade me aterraram. Abandonei os cadernos e as auréolas, não deixei que as moscas me comessem. Assim, aos 9 anos ainda não sabia ler.”

Meu pai determinou que eu principiasse a leitura. Principiei. Mastigando as palavras, gaguejando, gemendo uma cantilena medonha, indiferente à pontuação, saltando linhas e repisando linhas, alcancei o fim da página, sem ouvir gritos. Parei surpreendido, virei a folha, continuei a arrastar-me na gemedeira, como um carro em estrada cheia de buracos.

Com certeza o negociante recebera alguma dívida perdida: no meio do capítulo pôs-se a conversar comigo, perguntou-me se eu estava compreendendo o que lia. Explicou-me que se tratava de uma história, um romance, exigiu atenção e resumiu a parte já lida. Um casal com filhos andava numa floresta, em noite de inverno, perseguido por lobos, cachorros selvagens. Depois de muito correr, essas criaturas chegavam à cabana de um lenhador. Era ou não era? Traduziu-me em linguagem de cozinha diversas expressões literárias. Animei-me a parolar. Sim, realmente havia alguma coisa no livro, mas era difícil conhecer tudo.

Alinhavei o resto do capítulo, diligenciando penetrar o sentido da prosa confusa, aventurando-me às vezes a inquirir. E uma luzinha quase imperceptível surgia longe, apagava-se, ressurgia, vacilante, nas trevas do meu espírito. Recolhi-me preocupado: os fugitivos, os lobos e o lenhador agitaram-me o sono. Dormi com eles, acordei com eles. As horas voaram. Alheio à escola, aos brinquedos de minhas irmãs, à tagarelice dos moleques, vivi com essas criaturas de sonho, incompletas e misteriosas.”

Na terceira noite fui buscar o livro espontaneamente, mas o velho estava sombrio e silencioso.

E no dia seguinte, quando me preparei para moer a narrativa, afastou-me com um gesto, carrancudo. Nunca experimentei decepção tão grande. Era como se tivesse descoberto uma coisa muito preciosa e de repente a maravilha se quebrasse. E o homem que a reduziu a cacos, depois de me haver ajudado a encontrá-la, não imaginou a minha desgraça. A princípio foi desespero, sensação de perda e ruína, em seguida uma longa covardia, a certeza de que as horas de encanto eram boas demais para mim e não podiam durar.”

Quando falei a Emília, porém, ignorava que houvesse pessoas tão rudes quanto Eusébio e admitia facilmente as aureólas da professora. Em conformidade com a opinião de minha mãe, considerava-me uma besta. Assim, era necessário que a priminha lesse comigo o romance e me auxiliasse na decifração dele. Emília respondeu com uma pergunta que me espantou. Por que não me arriscava a tentar a leitura sozinho?”

Emília combateu a minha convicção, falou-me dos astrônomos, indivíduos que liam no céu, percebiam tudo quanto há no céu. Não no céu onde moram Deus Nosso Senhor e a Virgem Maria. Esse ninguém tinha visto. Mas o outro, o que fica por baixo, o do Sol, da Lua e das estrelas, os astrônomos conheciam perfeitamente. Ora, se eles enxergavam coisas tão distantes, porque não conseguiria eu adivinhar a página aberta diante dos meus olhos? Não distinguia as letras? Não sabia reuni-las e formar palavras?”

E tomei coragem, fui esconder-me no quintal, com os lobos, o homem, a mulher, os pequenos, a tempestade na floresta, a cabana do lenhador. Reli as folhas já percorridas. E as partes que se esclareciam derramavam escassa luz sobre os pontos obscuros.” “Os astrônomos eram formidáveis. Eu, pobre de mim, não desvendaria os segredos do céu. Preso à terra, sensibilizar-me-ia com histórias tristes, em que há homens perseguidos, mulheres e crianças abandonadas, escuridão e animais ferozes.”

Em aritmética eu era um selvagem, pouco mais ou menos um selvagem, mas fui tolerado, e creio que devo isto a Samuel Smiles.

Essa professora atrasada possuía raro talento para narrar histórias de Trancoso. Visitava-nos, prendia-nos até meia-noite com lendas e romances, que estirava e coloria admiravelmente. Nada me ensinou, mas transmitiu-me afeição às mentiras impressas.”

Imaginei um engano: tinha por erro o que divergia da minha maneira habitual de falar. Realmente pronunciara Smiles de vários modos, mas supunha que alguns deles estivesse direito. Julguei o professor uma besta — e meu primo José concordou.

Finda, porém, essa manifestação de rebeldia, chegaram-me dúvidas, grande espanto em seguida, por fim mistura vaga de resistência e admiração àquele homem que alterava as letras. A firmeza séria me deu a suspeita de que me achava na presença de uma autoridade. E como não me seria possível discernir razões profundas, contentei-me com as aparências — e a suspeita se transformou em convicção.” “Procurei outras palavras em que o i se pronunciasse daquele jeito. Inutilmente. Apesar de tudo Smiles era Smailes, e ninguém me tirava daí.”

Talvez a necessidade de mistério e grandeza me tenha levado a acreditar nos santos e nos heróis, que se desenvolveram simultaneamente. Houve, porém, um desequilíbrio: os primeiros subiram muito, enquanto os segundos desciam; em seguida os que estavam embaixo começaram a levantar-se, alcançaram os outros e ganharam a dianteira. Essas coisas, lentas, quase insensíveis, passaram-se num espírito nebuloso. Para bem dizer, não havia tempo. Na sombra avultavam figuras luminosas. Mas entre elas ficavam espaços vazios, que novas imagens vieram preencher.

Por que brigaram no meu interior esses entes de sonho não sei. Julgo que foi por causa de uma proibição, terrível proibição, relativa à brochura de capa amarela. Alguém a deixou na loja. Folheei-a devagar, soletrando, consultando o dicionário, sentado num caixão de velas. Os livros do estabelecimento eram o razão, o diário, o caixa, outros que José Batista manejava. Entre as mercadorias, porém, existia meia dúzia de dicionários. Examinei com algum proveito esses gêneros, que não achavam comprador. Tinham as bandeiras de todos os países (aí comecei a minha geografia) e retratos de figurões (origem da pouca história que sei). Meu pai me permitiu as consultas, pois a encadernação vermelha, as bandeiras e os retratos não representavam nenhum valor: era até bom que se estragassem, poupassem ao comerciante a lembrança de um mau negócio. Mercadorias. A mim revelaram pedaços do folheto amarelo, que se chamava O Menino da Mata e o seu Cão Piloto.

Arranjava-me lentamente, procurando as definições de quase todas as palavras, como quem decifra uma língua desconhecida. O trabalho era penoso, mas a história me prendia, talvez por tratar de uma criança abandonada. Sempre tive inclinação para as crianças abandonadas. No princípio do romance longo achei garotos perdidos numa floresta, ouvindo gritos de lobos. As narrativas de D. Agnelina referiam-se a pequenos maltratados que se livravam de embaraços, às vezes venciam gigantes e bruxas.

Em casa mostrei o achado a Emília, descrevi o menino, a mata e o cachorro. Nenhum sinal de aprovação. Emília arregalou os olhos, atentou horrorizada no folheto, pegou-o com as pontas dos dedos, soltou-o, como se ele estivesse sujo, aconselhou-me a não o ler. Aquilo era pecado. Aventurei-me a discutir. Minha prima se enganava: no conto havia um menino e um cachorro excelentes. Recuou, muito pálida, receosa de se contaminar, e virou o rosto. Pecado.

Pecado por que, Emília?

Porque o livro era excomungado, escrito por um sujeito ruim, protestante, para enganar os tolos. Objetei que o menino e o cachorro procediam como cristãos. Respondeu que o perigo estava aí: quando o diabo queria tentar as pessoas, simulava boa aparência, escondia os pés de pato e dava conselhos razoáveis. Depois mostrava as unhas e o rabo, cheirava a enxofre, levava a gente para o inferno. Ignorante e novo, eu não sabia o que era certo ou errado, mas se o livro tinha procedência má, boa coisa não podia ser. Afirmei que ele não tinha má procedência; Emília espiou de longe as letras da capa, discordou, afastou-se cheia de repugnância.”

Proibiam-me rir, falar alto, brincar com os vizinhos, ter opiniões. Eu vivia numa grande cadeia. Não, vivia numa cadeia pequena, como papagaio amarrado na gaiola.”

Chorei, o folheto caído, inútil. O menino da mata e o cão Piloto morriam. E nada para substituí-los. Imenso desgosto, solidão imensa. Infeliz o menino da mata, eu infeliz, infelizes todos os meninos perseguidos, sujeitos aos cocorotes, aos bichos que ladram à noite.

Os caixeiros, ouvindo-me, resmungariam ou soltariam gargalhadas; Fernando me insultaria; minha mãe me trataria com indiferença ou aspereza. E eu ficaria só no mundo. Um pecado a apertar-me como prensa. Eu era um pouco de algodão comprimido na prensa.”

Se se dirigia a mim, largava alguma frase contundente. Às vezes, atentando na significação dela, eu não achava motivo para me ofender, mas o jeito como ele se expressava, a sobrancelha carregada, o ar de suficiência e impostura, o riso brusco, um erguer de ombros, um balançar de cabeça, tudo me produzia mal-estar. Era como se ele me quisesse cortar com lâminas de gelatina.

Cresci ouvindo as piores referências a Fernando. Se fosse tão mau como afirmavam, não existia patife igual. Era parente do chefe político, e um chefe político da roça naquele tempo mandava mais que um soba,¹ dispunha das pessoas e manipulava as autoridades, bonecos miseráveis. Vivíamos num grande cercado de engenho, e só tinha sossego quem adulava o senhor. Os jornais da capital noticiavam horrores, mas ninguém se atrevia a assinar uma denúncia. Qualquer indiscrição podia originar incêndios, bordoadas, prisões ou mortes.”

¹ “Chefe de tribo ou régulo africano.”

O velho Frade, influente num município vizinho, dizia que nunca matara um homem. Matava cabra ruim, muito cabra ruim. No meu município também se assassinavam homens, embora se preferissem os cabras ruins. Quando um proprietário governista queria molestar um adversário, mandava suprimir-lhe alguns moradores — e a pessoa ameaçada vendia-lhe a terra por menos do valor. Se não vendia logo, novos moradores iam desaparecendo, até que a transação se efetuava. Só raramente, em casos de ofensas pessoais, questões de família, se eliminavam membros da classe elevada.”

Regime forte. O chefe conversava direito, falava na Coréia, torcia pelo Japão contra a Rússia em 1905, discutia gramática às vezes.” “As surras em tipos indesejáveis e o aparecimento de caboclos mortos eram fatos vulgares, mal justificavam a indignação impressa. O Coronel se defendia aos gritos, espumava; os aderentes, medrosos, balbuciavam, tentavam descobrir os autores das infames acusações. Fervilhavam suspeitas. E dias depois era certo alguém ser agredido em público, a chicote ou cacete. Nunca vi regime tão forte.

Amigo pequeno, Fernando recebia as iras destinadas a outros e não reagia. Numa reviravolta política, expôs claramente a sua natureza de tabela de bilhar: agüentou sova. Mas naquele tempo só o patrão, dono dos corpos e das almas, tinha o poder de humilhá-lo. Ouvidos os insultos, Fernando se recompunha, tornava-se insolente, apavorava os infelizes das pontas de ruas. Especializara-se em desgraçar meninas pobres, que se rendiam por medo ou eram violentadas. Algumas vezes as próprias mães iam levá-las ao sacrifício.

Lembro-me da Ratinha, linda criatura. Em noites de festa vestia roupas vermelhas, mostrava duas rosas vermelhas nas bochechas, sorria com um sorriso vermelho, era toda uma vermelhidão triunfante — e isto a perdeu. A Rata velha tinha olhos de rato, dedos finos de rato, focinho de rato, modos de rato. O Rato irmão era um rapaz miúdo, narigudo, inquieto. A Ratinha se diferençava da família, não se distinguia das moças de consideração. Engelhou e envelheceu num beco escuro.”

E lendo no dicionário encarnado, onde existiam bandeiras de todos os países e retratos de personagens vultosas, que Nero tinha sido o maior dos monstros, duvidei. Maior que Fernando? A afirmação do livro me embaraçava. Como seria possível medir por dentro as pessoas? E senti pena de Nero, que nunca me havia feito mal. Fernando me atormentava e era péssimo.” “O sujeito se tornou para mim um símbolo — e pendurei nele todas as misérias.”

Foi aí que veio o grande sucesso. Uma das tábuas ficara no chão, crivada de pregos. Fernando levantou-se, apanhou-a, agarrou um martelo, pôs-se a entortar os bicos agudos, a rosnar. Desleixo. Se uma criança descalça pisasse naquilo? Eu não acreditava nos meus olhos nem acreditava nos meus ouvidos. Então Fernando não era mau? Pensei num milagre. Julguei ter sido injusto. Fernando, o monstro, semelhante a Nero, receava que as crianças ferissem os pés. Esqueci as torpezas cochichadas, condenei o dicionário vermelho que tinha bandeiras e retratos. Talvez Nero, o pior dos seres, envergasse os pregos que poderiam furar os pés das crianças.”

APARECEU uma dificuldade, insolúvel durante meses. Como adquirir livros? No fim da história do lenhador, dos fugitivos e dos lobos havia um pequeno catálogo. Cinco, seis tostões o volume. Tencionei comprar alguns, mas José Batista me afirmou que aquilo era preço de Lisboa, em moeda forte. E Lisboa ficava longe.”

Emília tentou auxiliar-me, contou pelos dedos os possuidores prováveis de bibliotecas, sisudos, inacessíveis: Dr. Mota Lima, Professor Rijo, Padre Loureiro. Não me arriscaria a chateá-los. Mais próximo, havia o tabelião Jerônimo Barreto. Diariamente, percorrendo a Ladeira da Matriz, demorava-me em frente do cartório dele, enfiava os olhos famintos pela janela, via numa estante, em fileiras densas, bonitas encadernações de cores vivas. À mesa larga, em mangas de camisa, o funcionário manejava instrumentos jurídicos. E um respeito cheio de inveja me detinha na calçada. Atribuí àquele rapaz moreno ciência poderosa, estranhei vê-lo, simples e calmo, juntar-se aos freqüentadores da loja, onde metia na conversa Robespierre e Marat, dois tipos que venerei antes de me chegar qualquer notícia de revolução e da França.”

Foi uma inexplicável desaparição da timidez, quase a desaparição de mim mesmo. Expressei-me claro, exibi os gadanhos limpos, assegurei que não dobraria as folhas, não as estragaria com saliva. Jerônimo abriu a estante, entregou-me sorrindo O Guarani, convidou-me a voltar, franqueou-me as coleções todas.” Honestamente, se eu recebesse justo O Guarani aos 11 anos, teria desistido da literatura!

Jerônimo Barreto me desviou para as obras de carregação. Viajei bastante, abeirei-me de condessas. Mas permaneci no desalinho, esgueirando-me pelos cantos, e o juízo severo da família se agravava. Apenas meu primo José, ouvindo-me descrever uma casa queimada, resmungou:

Falante como o diabo.”

Surgiu na cidade uma espécie de colégio e introduziram-me nele. Quando cheguei, o diretor, insinuante, macio, ditou meia dúzia de linhas a diversos novatos. Emendou e classificou os ditados; pegou o meu, horrorizou-se, escreveu na margem larga do almaço: incorrigível. Esta dura sentença não me abalou. Até que me envaideci um pouco vendo a minha escrita diferente das outras.” Todo escritor se lembra de ter tido professores de português os mais mesquinhos na escola…

Dias depois o sujeito me pediu a constituição do Brasil e uma gramática. Levei a gramática, mas embirrei com a constituição, mudei-a numa história do Brasil de perguntas e respostas. Assim, não analisei o estatuto do meu país e dei a Jovino Xavier uma impressão miserável. Recebendo as cartonagens, Jovino travou comigo um diálogo: espantou-se, franziu os beiços, machucou o bigode, cocou a cabeça, entalado. E deixou-me em paz, esteve semanas sem me dirigir palavra, certamente julgando-me imbecil, o que muito me serviu.”

Jerônimo Barreto me fazia percorrer diversos caminhos: revelara-me Joaquim Manuel de Macedo, Júlio Verne, afinal Ponson du Terrail, em folhetos devorados na escola, debaixo das laranjeiras do quintal, nas pedras do Paraíba, em cima do caixão de velas, junto ao dicionário que tinha bandeiras e figuras.” Todo diferenciado precisa de seu mecenas e patrono.

Os meus colegas se afastavam de mim, declamavam as capitais, os rios da Europa. E eu mascava os prolegômenos: 24 horas, 365 dias, raça branca, raça negra. Quando tomei pé na Europa, eles exploravam outras partes do mundo. Surdo às explicações do mestre, alheio aos remoques dos garotos, embrenhava-me na leitura do precioso fascículo, escondido entre as folhas de um atlas. Às vezes procurava na carta os lugares que o ladrão terrível percorrera. E o mapa crescia, povoava-se, riscava-se de estradas por onde rodavam caleças e diligências.

Conheci desse jeito várias cidades, vivi nelas, enquanto os pequenos em redor se esgoelavam, num barulho de feira. O rumor não me atingia. Em vão me falavam. Sacudido, sobressaltava-me, as idéias ausentes, como se me arrancassem do sono. Olhavam-me estupefatos, devagar me inteirava da realidade.

Governadores-gerais, holandeses e franceses começavam a importunar-me. Esquartejavam-se períodos, subdividiam-se e rotulavam-se as peças em medonha algazarra. Os meus novos amigos guardavam maquinalmente façanhas portuguesas, francesas e holandesas, regras de sintaxe — e brilhavam nas sabatinas. Segunda-feira estavam esquecidos, e no fim da semana precisavam repetir o exercício, decorar provisoriamente toda a matéria. À medida que avançavam, a tarefa se ia tornando mais penosa: ficavam apenas, algum tempo, as últimas lições.

Eu achava estupidez pretenderem obrigar-me a papaguear de oitiva. Desonestidade falar de semelhante maneira, fingindo sabedoria. Ainda que tivesse de cor um texto incompreensível, calava-me diante do professor — e a minha reputação era lastimosa.”

Napoleão se estrepara na campanha da Rússia, logo nas primeiras páginas do Rocambole. Num desconchavo, referi-me à catedral de Notre-Dame e ao Vesúvio familiarmente, como se os tivesse visto. Além disso, arrolei plantas e animais exóticos: carvalhos e pinheiros, vinhedos e trigais, lobos e javalis, melros e rouxinóis.

Finda a novidade, os meus conhecimentos originaram desconfiança e algum desdém: Versalhes, Notre-Dame e os rouxinóis tinham aparência de contrabando. E eram inúteis, com certeza. Mas serviam para a composição de narrativas — e fora daí não me inspiravam interesse.

A existência comum se distanciava e deformava; conhecidos e transeuntes ganhavam caracteres das personagens do folhetim. Descurei as obrigações da escola e os deveres que me impunham na loja. Algumas disciplinas, porém, me ajudavam a compreensão do romance e tolerei-as — bocejei e cochilei buscando penetrá-las.

Em poucos meses li a biblioteca de Jerônimo Barreto. Mudei hábitos e linguagem. Minha mãe notou as modificações com impaciência. E Jovino Xavier também se impacientou, porque às vezes eu revelava progresso considerável, outras vezes manifestava ignorância de selvagem. Os caixeiros do estabelecimento deixaram de afligir-me e, pelos modos, entraram a considerar-me um indivíduo esquisito.”

OFERECERAM a meu pai o emprego de juiz substituto e ele o aceitou sem nenhum escrúpulo. Nada percebia de lei, possuía conhecimentos gerais muito precários. Mas estava aparentado com senhores de engenho, votava na chapa do governo, merecia a confiança do chefe político — e achou-se capaz de julgar.

Naquele tempo, e depois, os cargos se davam a sequazes dóceis, perfeitamente cegos. Isto convinha à justiça. Necessário absolver amigos, condenar inimigos, sem o que a máquina eleitoral emperraria.

Os magistrados de anel e carta diligenciavam acomodar-se, encolher-se, faziam vista grossa a muita bandalheira. De repente acuavam, tinham melindres que o mandão local não entendia e lançava à conta de má vontade. E lá vinham rixas, viagens rápidas, afrontas, um libelo contestado a punhal ou cacete. Enfim os bacharéis se agüentavam mal. Dispensavam-lhes obséquios, salamaleques — e desviavam-nos. Subsistia o Juiz de Direito, que ordinariamente se ausentava da comarca.”

A fome, a seca, noites frias passadas ao relento, a vagabundagem, a solidão, todas as misérias acumuladas num horrível fim de existência haviam produzido aquela paz. Não era resignação. Nem parecia ter consciência dos padecimentos: as dores escorregavam nele sem deixar mossa.”

Restos de felicidade esvaíam-se nas feições tranqüilas. O aió sujo pesava-lhe no ombro; o chapéu de palha esburacado não lhe protegia a cabeça curva; o ceroulão de pano cru, a camisa aberta, de fralda exposta, eram andrajos e remendos.”

Uma sexta-feira Venta-Romba nos bateu à porta. Deve ter batido: não ouvimos as pancadas. Achou o ferrolho e entrou, surgiu de supetão na sala de jantar, os dedos bambeando no cajado. As moças assustaram-se, os meninos caíram em grande latomia. [ruído]”

À distância, esse tratamento de meu senhor a uma criatura em farrapos soa mal. Era assim que minha mãe se expressava dirigindo-se a qualquer desconhecido. Trouxera o hábito da fazenda, e isto às vezes não revelava polidez. Em tons vários, meu senhor traduzia respeito, desdém ou enfado. Agora, com estridência e aspereza, indicava zanga, e a frase significava, pouco mais ou menos:

Vá-se embora, vagabundo.”

Está preso, gaguejou, nervoso, porque nunca se exercitara naquela espécie de violência.

Espalhou a vista em roda: o barulho das crianças fora substituído por uma curiosidade perversa; as moças tremelicavam na costura; a face de minha mãe expunha indiferença imóvel; um sujeito passeava na sala de visitas, exibindo pedaços da farda vistosa. Claro que não era brincadeira, mas o velho, estonteado, não alcançava o desastre. Arredou-se da porta, encostou-se à parede, esboçou um movimento de defesa. Se não fosse banguelo, rangeria os dentes; se os músculos não estivessem lassos, endureceria as munhecas, levantaria o cajado. Impossível morder ou empinar-se; o gesto maquinal de bicho acuado esmoreceu; devagar, a significação da palavra rija furou, como pua, o espírito embotado. E emergia da trouxa de molambos uma pergunta flácida:

Por que, seu Major?”

Por quê? Como se prendia um vivente incapaz de ação? Venta-Romba movia-se de leve. Não podendo fazer mal, tinha de ser bom. Difícil conduzir aquela bondade trôpega ao cárcere, onde curtiam pena os malfeitores.

Por que, seu Major?”

Assombrara-se, recorrera à força pública e receava contradizer-se. Talvez sentisse compaixão e se reconhecesse injusto. Enraivecia, acusava-se, e despejava a cólera sobre o infeliz, causa do desarranjo. Em desespero, roncou injúrias. O polícia que pigarreava na sala se avizinhou, a blusa desabotoada, faca de ponta à cintura, as reiúnas [coturno] de vaqueta ringindo.

Vinte e quatro horas de cadeia, uma noite na esteira de pipiri, remoques dos companheiros de prisão, gente desunida. Perdia-se a sexta-feira, esfumava-se a beneficência mesquinha. Como havia de ser? Como havia de ser o pagamento da carceragem?”

Eu experimentava desgosto, repugnância, um vago remorso. Não arriscara uma palavra de misericórdia. Nada obteria com a intervenção certamente prejudicial, mas devia ter afrontado as conseqüências dela. Testemunhara uma iniqüidade e achava-me cúmplice. Covardia.

Mais tarde, quando os castigos cessaram, tornei-me em casa insolente e grosseiro — e julgo que a prisão de Venta-Romba influiu nisto. Deve ter contribuído também para a desconfiança que a autoridade me inspira.”

E alguém afirmou na loja que estava ali um sujeito profundo, colaborador de jornais, autor de livros, o diabo. As maneiras esquivas e torcidas exprimiam vida interior, desprezo ao senso comum, inspiração de poeta. Em geral os poetas tinham aparência maluca e usavam cabelos assim compridos, escondendo as orelhas.

Aproximei-me desse curioso indivíduo no colégio, onde nos apareceu lecionando geografia. Não era a especialidade dele: ajustou-se à matéria como se ajustaria a qualquer outra, apenas para aliviar o trabalho de Jovino Xavier. Pouco a pouco abandonou os mapas, as listas de mares e de rios. Insinuou-nos a fundação de um periódico.

A idéia, aceita com entusiasmo, ao cabo de uma semana esfriou, teria morrido se eu e meu primo Cícero não a resguardássemos. Aferramo-nos a ela e, vencendo embaraços e canseiras, tornamo-nos diretores do Dilúculo, [Aurora] folha impressa em Maceió, com 200 exemplares de tiragem quinzenal, trazidos pelo estafeta Buriti, que vendia revista e declamava pedaços do Moço Louro. O desgraçado título foi escolha do nosso mentor, fecundo em palavras raras.”

Estabeleceu-se a redação na agência do correio, logo convertida em asilo de doidos. À tarde reuniam-se lá os membros da Escola Dramática Pedro Silva, os da Instrutora Viçosense, sociedade que dormia o ano inteiro, acordava na posse da diretoria e, concluídos os discursos, tornava ao sono. Essa gente fazia um barulho que assustava os transeuntes, afligia os vizinhos, atraía caixeiros tímidos, emaranhados nos cipoais da concordância e da métrica. Sem apanhar direito o sentido das conversas, apoderava-me de alguns vocábulos, estudava-os no dicionário, empregava-os com energia.”

“— O naturalismo…

Perplexo, eu examinava as pessoas em redor, procurava distinguir nelas o efeito da arenga difícil. Estariam compreendendo? Às vezes me assustavam discussões embrulhadas: rapazes silenciosos animavam-se, discorriam com exagero e ódio, religiosamente. Isso me dava tontura e enjôo. Uma idéia clara me surgia: os romances agradáveis eram bugigangas. Em troca, exibiam-me insipidez e obscuridade. Ali é que estava a beleza, especialmente na prosa de Coelho Neto.

Não me importava a beleza: queria distrair-me com aventuras, duelos, viagens, questões em que os bons triunfavam e os malvados acabavam presos ou mortos. Incapaz de revelar a preferência, resignei-me e agüentei as Baladilhas, o Romanceiro, outros aparatos elogiados, que me revolveram o estômago. Cochilei em cima deles, devolvi-os receando que me forçassem a comentá-los. Para mim eram chinfrins, mas esta opinião contrariava a experiência alheia.”

O Pequeno Mendigo e várias artes minhas lançadas no Dilúculo saíram com tantos arrebiques e interpolações que do original pouco se salvou. Envergonhava-me lendo esses excessos do nosso professor: toda a gente compreenderia o embuste.

Mário Venâncio fabricava artigos e notícias, reduzia os diretores a simples testas-de-ferro. Ornou de contos sérios as páginas mesquinhas. Assim principiava um deles, admirado na Instrutora Viçosense e na Escola Pedro Silva: ‘Jerusalém, a deicida, dormia sossegadamente à luz pálida das estrelas. Sobre as colinas pairava uma tênue neblina, o hálito da grande cidade adormecida. Nos casais dos cabreiros, cães de vigília ululavam lugubremente.’ Os nossos ouvidos eram insensíveis a colisões. E a brisa do monte das Oliveiras, a torrente do Cédron, lugares bíblicos, valorizavam o trabalho.

Mas não ficávamos na torrente e na brisa. Descíamos o monte das Oliveiras, caíamos na planície nacional, visitávamos a Casa de Pensão e O Coruja. Da cópia saltávamos ao modelo, invadíamos torpezas dos Bougon-Macquart, publicadas em Lisboa.”

Esquecia Zola e Victor Hugo, desanuviava-me. Havia sido ingrato com os meus pobres heróis de capa e espada. Não me atrevia a exibi-los agora. Disfarçava-os cuidadoso e, fortalecido por eles, submetia-me de novo ao pesadume, ia buscar o artifício v. a substância, em geral muito artifício e pouca substância.”

O funcionário postal facilitou-me a correspondência com livrarias: obtive catálogos da Garnier e da Francisco Alves, escrevi cartas, recebi faturas e pacotes. Não possuindo recursos, habituei-me a furtar moedas na loja, guardá-las num frasco bojudo oculto sob fronhas e toalhas no compartimento superior da cômoda. Entre níqueis e pratas surgiram cédulas — e enchi as prateleiras da estante larga, presente de aniversário. Esses delitos não me causavam remorso. Cheguei a convencer-me de que meu pai, encolhido e avaro por natureza, os aprovava tacitamente. Desculpava-me censurando-lhe a sovinice, tentando agarrar esperanças absurdas.

Mário Venâncio me pressagiava bom futuro, via em mim sinais de Coelho Neto, de Aluísio Azevedo — e isto me ensoberbecia e alarmava. Acanhado, as orelhas ardendo, repeli o vaticínio: os meus exercícios eram composições tolas, não prestavam. Sem dúvida, afirmava o adivinho. Ainda não prestavam. Mas eu faria romances. Gastei meses para certificar-me de que o palpite não encerrava zombaria. Depois a vaidade esmoreceu, foi substituída por uma vaga aflição. Que teria o homem percebido nos meus escritos? Se me decidisse a confiar nele, amargaria a vida inteira o provável engano. Examinei-me por dentro e julguei-me vazio. Não me achava capaz de conceber um daqueles enredos ensangüentados, férteis em nobres valorosos e donzelas puras. E, desatento, andava na rua aos encontrões, meio cego, meio surdo. Nunca descreveria um candeeiro como o de metal amarelo que iluminava, com azeite e difíceis pavios, duas páginas das Cenas da Vida Amazônica. Os candeeiros me passavam despercebidos. E seriam necessários? Os debates na agência não tinham fim. Lembrava-me dos governistas e oposicionistas espalhados, rancorosos, nas esquinas da cidadezinha e nos jornais da capital. Assombrava-me o partidarismo exaltado, a minha colaboração no Dilúculo era terrivelmente eclética. Mário Venâncio continuava a animar-me, eu desviava pretensões arriscadas.

Esse amável profeta bebeu ácido fênico. Levantei-me da espreguiçadeira, onde me seguravam as novidades e os sofrimentos da artrite e de uma novela russa, fui encontrar o infeliz amigo estirado no sofá, junto à mesa coberta de papéis, brochuras, pedaços de lacre, almofadas e carimbos. Um emissário da administração, feita a sindicância, redigiu necrológio pomposo, enterrou o cadáver sob a folhagem de salgueiros, entre raízes de ciprestes, vegetais desconhecidos no lugar.

O Dilúculo também morreu logo. Distanciei-me da crítica. E não me entendi com o público, muito incerto. No colégio, na Escola Pedro Silva, na Instrutora Viçosense, toleravam-me. Em casa, sem exame, detestavam as minhas novas ocupações.”

Minha família não era rigorosamente cristã: fugia do confessionário, rezava pouco, ia à igreja com temperança, nas festas. Mas admirava as procissões, jejuava na semana santa e sabia perfeitamente que os pedreiros-livres dão sangue ao diabo, obtêm fortuna e condenam-se. O velho Pedro Rico, nosso parente afastado, procedera desse jeito e estava no inferno. Sem dúvida. Percorria a vizinhança dos lugares mal-assombrados, vagava pelos caminhos, galopando num cavalo negro, pedindo missas e gemendo:

Sou a alma do finado Pedro Rico.

Seu Ramiro percebia as dificuldades e foi cauteloso, não revelou de supetão os seus desígnios sinistros. Fez diversas viagens e, com persistência e manha, declarando-se religioso em demasia, iniciou uma propaganda tímida, fortaleceu-se, conseguiu prosélitos e inaugurou a loja Mensageiros da Fé, que teve como venerável o chefe político. Na estréia, pomposa, tipos sérios, de Maceió, declamaram longos discursos.”

Findas as lições, espaçou as visitas, sumiu-se afinal. Meu pai emprestou-lhe 100 mil réis e perdeu-o de vista. Desiludiu-se, conteve imenso rancor. Certamente os irmãos deviam auxiliar-se, mas aquela maneira de arrancar auxílio era safadeza. Calou-se, roendo a indignação. Foi por isso, creio, que repugnou os três pontinhos, as brochuras misteriosas, ou triângulos, os compassos e o Supremo Arquiteto do Universo.”

A palmatória figurava em nosso código. Nas sabatinas, questões difíceis percorriam as filas — e o aluno que as adivinhava punia os ignorantes. Os amigos da justiça batiam com vigor, dispostos a quebrar munhecas; outros, como eu, surdos ao conselho do mestre, encostavam de leve o instrumento às palmas. Isto não nos trazia vexame: foi costume até que se usaram cartões relativos às notas boas. Desde então pagamos os nossos enganos com essa moeda, chegamos a emprestá-la a colegas necessitados.”

Assistíamos a uma pena estranha, infligida sem processo. A acusação se desenvolvera em segredo. No decurso da tortura, o diretor rosnava, e pelo mover dos beiços percebíamos a injúria murmurada no recreio. Não havia defesa. Nenhuma interferência.”

Em casa, o pai martelava-o sem cessar, inventava suplícios: amordaçava-o, punha-lhe as costas das mãos sobre a mesa da sala de jantar, malhava nas palmas, quase lhe triturava as falanges; prendia-lhe os rejeitos, pendurava-o num caibro, deixava-o de cabeça para baixo, como carneiro em matadouro. Fatigando-se das inovações, recorria às sevícias habituais: murros e açoites. O irmão presenciava as cenas aterrado, expandia-se em descrições torvas. E durante semanas o pobre repuxava as mangas, abotoava-se, endireitava a gola, para encobrir equimoses, sinais vermelhos, cinzentos, negros.

Apesar de tudo, a escola era um refúgio. Canseiras, adulações à mulher e aos filhos do diretor, rendiam pelo menos alguma indiferença. E isto convinha. Se o rapaz, findas as obrigações, se aquietasse, facilmente escaparia, anônimo e incolor. Não podia esconder-se. Precisava convívio, estava sempre ensaiando camaradagens que se malogravam.”

Deixei-o no colégio, perdi-o de vista. E reencontrei-o modificado. Ao iniciar-se no crime, andaria talvez pelos 15 anos. Atirou num homem à traição, homiziou-se em casa do chefe político e foi absolvido pelo júri. Realizou depois numerosas façanhas; respeitaram-lhe a violência e a crueldade. Sapecou os preparatórios num liceu vagabundo. Na academia obteve aprovação ameaçando os examinadores. Bacharelou-se, fundou um jornal. Como o velho diretor, seu carrasco, fechara o estabelecimento e curtia privações, deu-lhe um emprego mesquinho e vingou-se. Caprichou no vestuário: desapareceram as nódoas, a formiga, o mofo. E teve muitas mulheres. Foi em casa de uma que o assassinaram. Deitou-se na espreguiçadeira, adormeceu. Um inimigo, no escuro da noite, crivou-o de punhaladas.”

Aos 11 anos experimentei grave desarranjo. Atravessando uma porta, choquei no batente, senti dor aguda. Examinei-me, supus que tinha no peito dois tumores. Nasceram-me pêlos, emagreci — e nos banhos coletivos do Paraíba envergonhei-me da nudez. Era como se o meu corpo se tivesse tornado impuro e feio de repente. Percebi nele vagas exigências, alarmei-me, pela primeira vez me comparei aos homens que se lavavam no rio.”

Nunca usara franqueza com meus parentes: não me consentiam expansões. Agora a timidez se exagerava, o caso me parecia inconfessável. E se me atrevesse a falar ao Dr. Mota, ele iria dizer que o mal não tinha cura.”

à noite ficava horas pensando maluqueiras, rolava no colchão, contava as pancadas do relógio da sala, buscava o sono debalde. Levantava-me, acendia a lâmpada de querosene, pegava um romance, estirava-me na rede, lia até cansar. O espírito fugia do livro: necessário reler páginas inteiras. Inquietação inexplicável, depois meio explicável. O diagnóstico pouco a pouco se revelava, baseado em pedaços de conversas, lembranças de leituras, frases ambíguas que de chofre se esclareciam e me davam tremuras.

Aquilo ia passar: os outros rapazes certamente não viviam em tal desassossego. MAS a ansiedade aumentava, as horas de insônia dobravam-se, e de manhã o espelho me exibia olheiras fundas, uma cara murcha e pálida.”

Não me animava a exigir mais de uma gravata: meu pai só me permitia, rigoroso, o suficiente. Isso bastava à minha representação — no colégio, no quinzenário, nas seções da Instrutora Viçosense, da Amor e Caridade, que me elegeu para segundo secretário.” Diria que no teu tempo as crianças não tinham infância!

Foi então que vi Laura, num exame. Jovino Xavier fez-lhe perguntas comuns; notando-lhe a fortaleza, puxou por ela e declarou a análise sem jaca. Ouviu os discursos, recebeu os agradecimentos da professora e elogiou em demasia a inteligência e o progresso de Laura. Concordei. Invadiu-me súbita admiração, que em breve se mudou numa espécie de culto.”

Laura não possuía o azul e o ouro convencionais, mas dividia períodos, classificava orações com firmeza, trabalho em que as meninas vulgares em geral se espichavam. Imaginei-a compondo histórias curtas, a folhear o dicionário, entregue a ocupações semelhantes às minhas — e aproximei-a; encareci-lhe depois o mérito — e afastei-a. Se ela estivesse próxima, não me seria possível concluir a veneração que se ia maquinando.”

um mês a arrastar-me no Sonho de Zola, sem nenhum desejo de chegar ao fim, interpretando a narrativa a meu jeito.”

Quando Mário Venâncio teimava em reputar-me um embrião de novelista, retraía-me duvidoso: não seria capaz de arranjar um diálogo.”

Laura não tinha corpo — e aí se originou o meu tormento. Eu suprimira as indecências. Embrulhara com ódio O Cortiço em muitas dobras de papel grosso, amarrara-o em muitas voltas de barbante forte, escondera-o por detrás dos outros volumes, na prateleira inferior da estante.”

O Cortiço (…) História razoável, com alguma safadeza para atrair leitores.”

e não queria supor, com Mário Venâncio, que a bordadeira de paramentos fosse degenerada.”

Laura surgia de novo, não a figurinha transparente: um ser membrudo e espesso, todo carne e osso. Os braços rijos seguravam-me, o peito largo caía sobre o meu, achatava-me, e era inútil qualquer esforço para desprender-me. Eu desejava acordar, fugir ao pesadelo, restituir à criança as qualidades anteriores: de algum modo me sentia responsável pela medonha substituição. Angústia, arrepios.”

Devia ser efeito do café, um excitante. Abstive-me dele e bebi chá de folhas de laranja, sem proveito.”

estranharam na Escola Pedro Silva a assiduidade, o esquisito amor ao teatro, que eu revelava dando as costas à cena, os cotovelos fincados no peitoril de um janela. Assustei-me. Iriam conhecer o meu segredo?”

Otília da Conceição, à beira da cama, esperava em silêncio. Arriei sobre a mala pequena e, em silêncio também, comecei a descalçar-me. A vista se turvou, os dedos tímidos tremeram, o cordão do sapato deu um nó cego. Esforcei-me por desatá-lo: molhava-se de suor, cada vez mais se complicava. E o meu desgosto era imenso.

Entrei em casa nauseado, engolindo soluços.”

A artrite amarrou-me à espreguiçadeira, o meu desgraçado corpo se cobriu de manchas.” “Embrenhava-me agora em novelas russas. Entrevado, submerso na lona da cadeira, tentava erguer um braço doído, mexer os dedos, volver as páginas.” Estragado muy temprano. À metade do caminho…

* * *

GRACILIANO RAMOS E O SENTIDO DO HUMANO (POSFÁCIO) – Octavio de Faria

Se Infância me parece ser o livro mais importante de Graciliano Ramos — não o melhor, que certamente é Angústia — é que só vejo um caminho seguro para a compreensão do fenômeno literário chamado Graciliano Ramos, a criação levando ao criador e o criador levando à criança, ao menino que existiu nele e nunca morreu inteiramente. Em Graciliano Ramos, o menino Graciliano é tudo. Seus heróis são o menino, sua timidez é a do menino, seu pessimismo é o do menino, sua revolta é a do menino.”

é sempre o mesmo quadro cinzento e triste, quase asfixiante, o que encontramos disseminado em toda a sua obra.” Se quem leu um, leu todos…

AS OPINIÕES E AS CRENÇAS – Gustave Le Bon, 1911.

APRESENTAÇÃO (Nelson Jahr Garcia)

Dificilmente se poderia estudar temas como: teoria do conhecimento, ideologia, religiões, superstições, comportamento das massas, propaganda, persuasão sem estudar e se apoiar em Le Bon.” “É uma obra de incrível atualidade; talvez tenham conseguido aprofundá-la, superar ainda não.” Digamos que seja uma mescla de preciosidades muito relevantes em assuntos como a gênese das crenças com as pérolas mais grotescas sobre movimentos sociais!

LIVRO I. OS PROBLEMAS DA CRENÇA E DO CONHECIMENTO

1. OS CICLOS DA CRENÇA E DO CONHECIMENTO

O domínio da crença sempre pareceu repleto de mistérios. É por isso que os livros sobre as origens da crença são tão pouco numerosos, ao passo que são inúmeros os que se referem ao conhecimento.”

Aceitando a velha opinião de Descartes, os autores repetem que a crença é racional e voluntária. Um dos objetivos desta obra será precisamente mostrar que ela não é voluntária nem racional.”

Por que se observam, simultaneamente, em certos espíritos, ao lado de elevadíssima inteligência, superstições muito ingênuas? Por que é tão fraca a razão para modificar as nossas convicções sentimentais? Sem uma teoria da crença, essas questões e muitas outras ficam insolúveis.”

Se o problema da crença tem sido tão mal-compreendido pelos psicólogos e pelos historiadores, é porque eles têm tentado interpretar com os recursos da lógica racional fenômenos que ela jamais regeu. Veremos que todos os elementos da crença obedecem a regras lógicas muito seguras, porém inteiramente alheias às que são empregadas pelo sábio nas suas investigações.”

Tribos nômades, perdidas no fundo da Arábia, adotam uma religião que um iluminado lhes ensina, e graças a ela fundam, em menos de 50 anos, um império tão vasto quanto o de Alexandre, ilustrado por uma esplêndida manifestação de maravilhosos monumentos.

Poucos séculos antes, povos semibárbaros se convertiam à fé pregada por apóstolos que vinham de obscuros lugares da Galiléia, e sob a luz regeneradora dessa crença, o velho mundo desabava, substituído por uma civilização inteiramente nova, de que cada elemento permanece impregnado da lembrança do Deus que o originou.

Cerca de vinte séculos mais tarde, a antiga fé é abalada, estrelas luminosas surgem no céu do pensamento, um grande povo se subleva, pretendendo romper os elos do passado. A sua fé destruidora, porém possante, confere-lhe, a despeito da anarquia em que essa grande Revolução o submerge, a força necessária para dominar a Europa armada e atravessar vitoriosamente todas as suas capitais.”

Compreende-se, por exemplo, sem dificuldade, que o Cristianismo se haja propagado facilmente entre os escravos e todos os deserdados, aos quais prometia uma felicidade eterna. Mas, que forças secretas podiam determinar um cavalheiro romano, um personagem consular, a despojar-se dos seus bens e afrontar vergonhosos suplícios, para adotar uma religião nova e vedada pelas leis?”

Facilmente concebemos que Newton, Pascal, Descartes, vivendo num meio social saturado de certas convicções, sem discussão aí tenham admitido, como admitiam as leis inelutáveis da natureza. Mas como, nos nossos dias, em meios sobre os quais a ciência projeta tanta luz, não se acham essas mesmas crenças inteiramente desagregadas? Por que as vemos nós, quando por acaso se desagregam, originar outras ficções, maravilhosas, como prova a propagação das doutrinas ocultas, espirituais etc., entre sábios eminentes?”

Tudo quanto é aceito por um simples ato de fé deve ser qualificado de crença. Se a exatidão da crença é verificada mais tarde pela observação e a experiência, cessa de ser uma crença e torna-se um conhecimento.”

Um mistério é a alma ignorada das coisas.”

Claramente se qualifica a civilização, dando-lhe o nome da fé que a inspirou. Civilização búdica, civilização muçulmana, civilização cristã são designações muito justas, porquanto, ao tornar-se um centro de atração, a crença se transforma num centro de deformação.

As únicas verdadeiras revoluções são as que despertam as crenças fundamentais de um povo. Têm sido sempre muito raras. Ordinariamente, só o nome da convicção se transforma; a fé muda de objeto, mas nunca morre.

Não poderia morrer, pois a necessidade de crer constitui um elemento psicológico tão irredutível quanto o prazer ou a dor. A alma humana tem aversão à dúvida e à incerteza. O homem atravessa, por vezes, fases de ceticismo, mas nelas não se detém longamente; sente a ânsia de ser guiado por um credo religioso, político ou moral que o domine e lhe evite o esforço de pensar. Os dogmas, que se dissipam, são sempre substituídos. A razão nada pode contra essas indestrutíveis necessidades.

A idade moderna contém tanta fé quanto tiveram os séculos precedentes. Nos novos templos pregam-se dogmas, tão despóticos quanto os do passado, e eles contam fiéis igualmente numerosos. Os velhos credos religiosos que outrora escravizavam a multidão são substituídos por credos socialistas ou anarquistas, tão imperiosos e tão pouco racionais como aqueles, mas não dominam menos as almas. A igreja é substituída muitas vezes pela taverna, mas aos sermões dos agitadores místicos que aí são ouvidos atribui-se a mesma fé.” O problema: o pós-moderno matou o socialismo e o anarquismo, restou apenas o liberalismo de mãos dadas com a velha e boa religião ecumênica – absorveram a parte religiosa (durkheimiana) do social, e agora essa neo-crença dá sinais de ser realmente indestrutível…

A fé num dogma qualquer é, sem dúvida, de um modo geral, apenas uma ilusão. Cumpre, contudo, não a desdenhar. Graças à sua mágica pujança, o irreal torna-se mais forte do que o real. Uma crença aceita dá a um povo uma comunhão de pensamentos de que se originam a sua unidade e a sua força.”

As opiniões representam geralmente pequenas crenças, mais ou menos transitórias.”

Crença e conhecimento não são opostos, como parece crer o autor. O conhecimento é apenas a crença sedimentada, e ainda não erodida. Resquício positivista, embora seja bem mais cético do que Comte, por exemplo. Tampouco deixam as opiniões de ser conhecimentos – recém-nascidos, é verdade, fetos ou bebês num mundo de alto morticínio.

2. OS MÉTODOS DE ESTUDO DA PSICOLOGIA

O mais antigo método psicológico, o único praticado durante muito tempo, foi o que se denomina de introspecção. Encerrado no seu gabinete de estudos e ignorando voluntariamente o mundo exterior, o pensador refletia em si mesmo e com os resultados das suas meditações fabricava grossos volumes. Hoje, já não acham leitores.” EXCELENTE DESCRIÇÃO DO ERUDITO! PORÉM, os primeiros “psicólogos” eram homens que viviam ao ar livre e não sabiam o que era o papel…

Lady Macbeth é uma alucinada, Otelo um histero-epilético, Hamlet um alcoólico perseguido por fobias, o rei Lear um maníaco melancólico, vítima de loucura intermitente. Cumpre, aliás, reconhecer que, se todos esses ilustres personagens tivessem sido individualidades normais, ao invés de possuírem uma patologia alterada e instável, a literatura e a arte não teriam tido necessidade de ocupar-se deles.”

A psicologia dos animais, mesmo superiores, está ainda no começo. Para compreendê-los, cumpre examiná-los de muito perto, e a essa tarefa ninguém se entrega.

Facilmente aprenderíamos a adivinhá-los, contudo, mediante um exame atento. Consagrei outrora muitos anos à observação dos animais. Os resultados que colhi foram expostos numa memória sobre a psicologia do cavalo, publicada na Revue Philosophique. Dali deduzi regras novas para a educação desse animal. Essas pesquisas foram-me úteis quando redigi o meu livro atinente à Psicologia da Educação.” [!] Tentador, objeto curioso, mas eu não leria tal livro…

A enumeração precedente permite pressentir que nenhum dos métodos psicológicos clássicos, nem os inquéritos, nem a psicofísica, nem as localizações, nem a própria psicopatologia podem revelar a gênese e a evolução das opiniões e das crenças.”

Veremos ilustres físicos afirmarem que desdobraram seres vivos e viveram com fantasmas materializados; um célebre professor de filosofia evocar os mortos e conversar com eles; outro, não menos eminente, declarar que viu um guerreiro, armado de capacete, sair do corpo de uma mulher, com os seus órgãos completos, como provava o estado da sua circulação e o exame dos produtos da sua respiração.” As Paralógicas em Psicologia: desafiando Aristóteles!

Os mais eminentes psicólogos modernos, principalmente William James, viram-se forçados a reconhecer ‘a fragilidade de uma ciência que poreja a crítica metafísica por todas as suas articulações Ainda esperamos o primeiro clarão que deve penetrar na obscuridade das realidades psicológicas fundamentais’.” “a psicologia clássica não contém ‘uma única lei, uma só fórmula de que possamos deduzir uma consequência, como se deduz um efeito da sua causa’.”

LIVRO II. O TERRENO PSICOLÓGICO DAS OPINIÕES E DAS CRENÇAS

1. OS GRANDES FATORES DA ATIVIDADE DOS SERES: O PRAZER E A DOR

Prazer e dor (…) são efeitos, como os sintomas patológicos são as conseqüências de uma moléstia.” Bom, Le Bon! Esse é o caminho…

A fome é a dor mais temida; o amor, o prazer mais procurado, e pode-se repetir o que disse o grande poeta Schiller, isto é, que a máquina do mundo se sustenta pela fome e pelo amor.”

2. CARACTERES DESCONTÍNUOS DO PRAZER E DA DOR

O único prazer um pouco durável é o (…) desejo.”

O tique-taque do relógio mais ruidoso acaba, no fim de algum tempo, por não ser mais ouvido, e o moleiro não será despertado pelo ruído das rodas do seu moinho, mas pela sua parada.”

A felicidade paradisíaca sonhada pelos crentes deixaria logo de possuir atrativos (…) [em relação ao] inferno.”

A dor de hoje torna-se o prazer de amanhã e inversamente.”

O prazer do operário que bebe e vocifera na taverna sensivelmente difere do prazer do artista, do sábio, do inventor, do poeta, ao comporem as suas obras. O prazer de Newton, ao descobrir as leis da gravitação, foi, sem dúvida, mais vivo do que se ele houvesse herdado as numerosas mulheres do rei Salomão.”

Do pólipo aos homens, todos os seres são movidos pelo desejo. Inspira a vontade, que não pode existir sem ele, e depende da sua intensidade.” Por que separar vontade e desejo? Como que antecipando minha objeção: “Cumpre, no entanto, não confundir vontade e desejo, como fizeram muitos filósofos, tais como Condillac e Schopenhauer. Tudo quanto é querido é, evidentemente, desejado; mas desejamos muitas coisas que, sabemos, não podíamos querer.” Falta CLAREZA!

A vontade traduz deliberação, determinação e execução, estados de consciência que não se observam no desejo. O desejo estabelece a escala dos nossos valores, variável, aliás, com o tempo e as raças. O ideal de cada povo é a fórmula do seu desejo.” Mera questão de semântica. Não entendeu a Vontade schopenhaueriana-nietzschiana.

Não existindo em si mesmo o valor das coisas, ele é apenas determinado pelo desejo e proporcionalmente à intensidade desse desejo. A variável apreciação dos objetos de arte fornece desse fato uma prova diária.”

Somente o grande reformador Buda compreendeu que o desejo é o verdadeiro dominador das coisas, o fator da atividade dos seres. Para libertar a humanidade das suas misérias e conduzi-la ao perpétuo repouso ele tentou suprimir esse grande móvel das nossas ações. A sua lei submeteu milhões de homens, mas não subjugou o desejo.” Perigo: o budismo europeu!

Buda vs Realpolitik

A esperança é filha do desejo, mas não é o desejo.” “Toda gente deseja a fortuna, muito poucos a esperam. Os sábios desejam descobrir a causa primitiva dos fenômenos; eles não têm nenhuma esperança de consegui-lo.”

O desejo aproxima-se algumas vezes da esperança, a ponto de confundir-se com ela. Na roleta, eu desejo e espero ganhar.

A esperança é uma forma de prazer em expectativa que, na sua atual fase de espera, constitui uma satisfação freqüentemente maior do que o contentamento produzido pela sua realização.”

Ela constitui uma espécie de vara mágica que transforma tudo. Os reformadores nunca fizeram mais do que substituir uma esperança por outra.”

O hábito é o grande regulador da sensibilidade; ele determina a continuidade dos nossos atos, embota o prazer e a dor e nos familiariza com as fadigas e com os mais penosos esforços. O mineiro habitua-se tão bem à sua dura existência que dela se recorda saudoso quando a idade o obriga a abandoná-la e o condena a viver ao sol.”

A dificuldade para um povo consiste, primeiramente, em criar hábitos sociais, depois em não permanecer muito tempo neles. Quando o jugo dos hábitos pesou muito tempo num povo, ele só se liberta desse jugo por meio de revoluções violentas. O repouso na adaptação, em que o hábito consiste, não se deve prolongar.” Por que não?

Povos envelhecidos, [Europa] civilizações adiantadas, indivíduos idosos tendem a sofrer demasiado o jugo do costume, isto é, do hábito.”

A existência de um indivíduo ou de um povo ficaria instantaneamente paralisada se, por um poder sobrenatural, ele se visse subtraído à influência do hábito. É ele que diariamente nos dita o que devemos dizer, fazer e pensar.”

Não é o pensamento, mas a sensibilidade, que nos revela o nosso ‘eu’. Se dissesse: ‘Sinto, logo existo’ ao invés de: ‘Penso, logo existo’, Descartes estaria muito perto da verdade.”

Fornecem uma resposta segura à eterna pergunta tão repetida desde o Eclesiastes: por que tanto trabalho e tantos esforços, já que a morte nos espera e o nosso planeta se resfriará um dia?

Por quê? Porque o presente ignora o futuro e no presente a Natureza nos condena a procurar o prazer e evitar a dor.” Último homem (primeiro homem).

O operário, curvado sob o peso do trabalho, a irmã de caridade, a quem não repugna nenhuma chaga, o missionário torturado pelos selvagens, o sábio que procura a solução de um problema, o obscuro micróbio que se agita no fundo de uma gota d’água, todos obedecem aos mesmos estimulantes de atividade: o atrativo do prazer, o receio da dor.” Uma meia-verdade

Não poderíamos mesmo imaginar móveis diferentes desses. Só os nomes podem variar.” Sim, e o mais correto seria vontade de no lugar de prazer.

2. AS VARIAÇÕES DA SENSIBILIDADE COMO ELEMENTOS DA VIDA INDIVIDUAL E SOCIAL

Para que a sensação aumente em progressão aritmética, cumpre que a excitação cresça em proporção geométrica. Segundo Fechner, a sensação cresce segundo o logaritmo da excitação. Assim, para dobrar a sensação produzida por uma excitação, a de um instrumento de música, por exemplo, seria necessário decuplar o número dos instrumentos; para triplicá-la, dever-se-ia centuplicar esse número.”

A placa fotográfica pode, com uma ‘pose’ suficiente, reproduzir estrelas sempre invisíveis à vista desarmada, precisamente porque a retina não possui a propriedade de acumular as pequenas impressões.”

É vantajoso que assim seja. Se o organismo se achasse constituído de modo a acumular as pequenas dores, a vida tornar-se-ia logo insuportável.” Sobre um acidente de trem com 300 vítimas chocar muito mais que uma doença, por exemplo, que leve essas mesmas 300 pessoas no decorrer de um ano ou, para deixar o exemplo simétrico, 300 pessoas que morrem em acidentes individuais de trem no mesmo período alongado. Torna-se evidente que isso se aplica à pandemia: 400 mortos diários na Itália chocaram os brasileiros; 2 mil mortes diárias em solo nacional, pela centésima vez, 1 ano depois, já não têm o poder de chocar.

Certos fatores das opiniões podem igualmente limitar as oscilações da sensibilidade. Tal é o contágio mental, criador de maneiras susceptíveis de estabilizar um pouco a nossa mobilidade. As sensibilidades coletivas, momentaneamente fixas, traduzem-se, então, em obras diversas, que são o espelho de uma época.”

Comparai, por exemplo, os pesados desenhos de Daumier com esses sóbrios esboços modernos, em que só se guardou o traço saliente dos personagens, deixando à vista o cuidado de completá-los. Do mesmo modo, em literatura, as longas descrições de paisagens são hoje substituídas por algumas linhas breves, porém evocadoras.

Apurando-se, a sensibilidade se embota também. A música simples de Lulli, que encantava nossos pais, nos enfastia. As operações de há 50 anos nos parecem, na maioria, muito envelhecidas. A harmonia tem cada vez mais dominado a melodia, e agora é necessário, para excitar sensibilidades fatigadas, o emprego de certas dissonâncias que os antigos compositores teriam considerado como erros.

Só as obras de uma época, sobretudo, artísticas e literárias, permitem conhecer a sensibilidade dessa época e as suas variações.

É precisamente porque elas são a verdadeira expressão da sensibilidade de uma época que as obras de arte são facilmente datadas. Pela mesma razão, são muito mais instrutivas do que metódicos livros de história. O historiador julga o passado com a sua sensibilidade moderna. A sua interpretação, forçosamente falsa, pouco nos ensina. O menor conto, romance, quadro, monumento da época considerada, encerra um ensinamento mais exato e interessante.”

As sensibilidades não se transportam no espaço nem no tempo. Uma obra arquitetônica formada de uma mescla de elementos de épocas afastadas ou procedentes de raças diversas nos causará, necessariamente, má impressão, porque se origina de sensibilidades dissemelhantes da nossa.

Se, em virtude da evolução da nossa espécie, a nossa sensibilidade se transformasse, todas as obras do passado, as que são mais admiradas hoje: o Partenon, as catedrais góticas, os grandes poemas, as pinturas célebres, seriam consideradas como produções indignas de atrair a atenção.”

Bastaria que a educação persistisse na sua tendência atual especialista e técnica, e continuasse a rápida ascensão ao poder das multidões. Todas as formas da arte representam para elas apenas um luxo desprezível. A Comuna, expressão bastante fiel da alma popular, não hesitou em incendiar os mais belos monumentos de Paris, como a Municipalidade e as Tuileries. Unicamente por acaso o Louvre, com as suas coleções, escapou a esse vandalismo.”

Sem esses elementos de informação, fornecidos pela literatura e pela arte, a sensibilidade de uma época permaneceria tão ignorada quanto a dos habitantes de Júpiter.”

Uma nação sem ideal desaparece rapidamente da história.”

3. AS ESFERAS DAS ATIVIDADES VITAIS E PSICOLÓGICAS: A VIDA CONSCIENTE E A VIDA INCONSCIENTE

É errôneo deixar de lado o exame dos fenômenos vitais como fazem os psicólogos, que o abandonam aos fisiologistas.”

Os sentimentos só entram na consciência após uma elaboração automática praticada nessa obscuríssima zona do inconsciente, qualificada hoje de subconsciente e cuja exploração apenas se acha iniciada.”

MAIS PARA JUNG QUE PARA FREUD: “O inconsciente é em grande parte um resíduo ancestral. A sua força é devida à circunstância de ser o inconsciente a herança de uma longa série de gerações, a que cada uma juntou alguma coisa.

O seu papel, outrora ignorado, tornou-se tão preponderante hoje que certos filósofos, principalmente W. James e Bergson, nele procuraram a explicação da maior parte dos fenômenos psicológicos.”

A prática de um ofício ou de uma arte facilmente se exerce, desde que os dirija o inconsciente, educado de um modo satisfatório. Uma moral sólida é o inconsciente bem-educado.”

Acima do inconsciente orgânico vemos o inconsciente afetivo. É de formação mais recente, é um pouco menos estável, conquanto ainda o seja muito. Por isso, quando podemos mudar o assunto no qual se exercem os nossos sentimentos, a nossa ação nele influi de maneira muito fraca. No alto dessa escala acha-se o inconsciente intelectual, que muito tarde surgiu na história do mundo e não possui profundas raízes ancestrais. Ao passo que o inconsciente orgânico e o afetivo acabaram por criar instintos transmitidos pela hereditariedade, o inconsciente intelectual só se manifesta ainda sob a forma de predisposições e de tendências, e a educação deve completá-lo em cada geração.”

ANTI-JUSSARA PR*DO: “A educação influi grandemente no inconsciente intelectual, precisamente porque ele é menos fixo do que as outras formas do inconsciente. Ela exerce, ao contrário, uma influência diminuta nos sentimentos, que são os elementos fundamentais do nosso caráter, fixos desde muito tempo. O inconsciente afetivo é, freqüentemente, um dominador imperioso, indiferente às decisões da razão. É por isso que tantos homens, muito sensatos nos seus escritos e nos seus discursos, tornam-se, na sua maneira de proceder, simples autômatos, dizendo o que não queriam dizer e fazendo o que não queriam fazer.”

A educação, já disse em outro livro, é a arte de fazer passar o consciente para o inconsciente.”

A biologia moderna baniu, há muito tempo, e com razão, a finalidade do universo; os fatos ocorrem, no entanto, como se ela dominasse o seu encadeamento. Todas as nossas explicações racionais deixam a natureza repleta de manifestações impenetráveis. A julgar pelos seus resultados, poderia parecer que o inconsciente — forma moderna da finalidade — abriga gênios sutis, desejosos de cegar-nos, fazendo-nos sacrificar, incessantemente, os nossos interesses em favor da espécie. Os gênios da finalidade inconsciente são, sem dúvida, simples necessidades selecionadas que o tempo fixou.

Qualquer que seja a razão, o inconsciente muitas vezes nos domina e sempre nos cega. Não o lamentemos demasiado, porquanto uma clara visão da sorte futura tornaria a existência muito triste. O boi não comeria tranqüilamente a erva do caminho que o conduz ao matadouro, e os entes, na sua maioria, estremeceriam de horror perante o seu destino.”

4. O EU AFETIVO E O EU INTELECTUAL

PREFIGURAÇÕES DO FASCISMO: “Legiões de políticos quiseram assentar em raciocínios o que só se pode basear em sentimentos.”

Ilustres filósofos foram vítimas da mesma confusão entre a lógica afetiva e a lógica racional. Kant pretendia edificar a moral sobre a razão. Ora, entre as duas diversas origens, a razão quase nunca figura.”

qualquer ciência seria impossível se não tivéssemos aprendido a criar uma parte descontínua no contínuo.”

O eu afetivo, evolvendo a despeito da nossa vontade e muitas vezes contra nós, torna a vida cheia de contradições.” “Assim, não temos razão quando censuramos alguém por ter mudado. Essa censura subentende a idéia muito falsa de que a inteligência pode modificar um sentimento. Erro completo. Quando o amor, por exemplo, se torna indiferença ou antipatia, a inteligência assiste a essa mudança, mas não é ela que a causa. As razões que são imaginadas para explicar tais transformações não têm relação alguma com os seus verdadeiros motivos. Nós os ignoramos.”

Freqüentemente imagina-se sentir por uma pessoa uma dedicação profunda e sólida (amor, amizade); a ausência ou a necessidade de uma ruptura demonstra a real fragilidade dessa dedicação.” Ribot

É, pois, impossível, como justamente observa o mesmo autor, julgar com o eu intelectual a maneira de agir do eu afetivo.” “Todo o nosso sistema de educação latina é uma prova dessa asserção. A persuasão de que o desenvolvimento da inteligência pela instrução desenvolve também os sentimentos, cuja associação constitui o caráter, é um dos mais perigosos preconceitos da nossa Universidade. Os educadores ingleses sabem há muito tempo que a educação do caráter não se faz por meio dos livros.

Sendo distintos o eu afetivo e o eu intelectual, não pode surpreender que uma inteligência muito elevada coexista com um caráter muito baixo.” “[Como muito bem o demonstra] o ilustre chanceler Bacon. Nenhum homem do seu tempo possuiu uma inteligência mais elevada, mas muito poucos revelaram uma alma tão baixa. Começou, na esperança de obter um emprego da rainha Isabel, por trair o seu único benfeitor, o conde d’Essex, que foi decapitado. Teve de esperar, contudo, o reino de Thiago I [James? Que tradução escrota!], para conseguir, recomendado pelo duque de Buckingham, que ele igualmente logo traiu, o lugar de solicitor geral, depois o de chanceler. Revelou-se nesse ponto cortesão humilde e ladrão impudente. As suas concussões [corrupções ao Erário] foram de tal ordem que se tornou preciso processá-lo. Em vão tentou enternecer os seus juízes por uma humílima confissão escrita, na qual confessava as suas faltas e ‘renunciava a defender-se’. Foi condenado à perda de todos os postos que ocupava e à prisão perpétua.” O que Le Bon omite é que a sentença foi revogada depois de poucos dias, e a multa a que também havia sido condenado foi paga pelo rei! “Subsequently, the disgraced viscount devoted himself to study and writing.” Parece que foi para o nosso bem. Pelo verbete do Wikipédia, não está claro que ele tivesse uma personalidade tão sórdida!

Mas, voltando: premissa irretocável. Conclusão interessante, porém é a partir dela que eu e Le Bon discordamos. Não se trata de uma inteligência muito elevada, quando é esse o caso – apenas na aparência vulgar (ou que o sujeito seja um traste, isso é um engano, se for inteligente)! Popularmente se diz que a sabedoria é individualmente rara, e que o bom caráter é-o mais ainda, ou o contrário: o bom caráter raro, a sabedoria raríssima. Porém, quem avalia a ambos está distante das condições requeridas para fazer uma avaliação correta: ambos são raros em igual medida – assim que se depara com a verdadeira sabedoria, esbarra-se também com o verdadeiro e genuíno caráter elevado. Tão raro como se apresenta, ainda há aqueles que não são reconhecidos como tais em seu próprio tempo por ninguém. Homens sábios e bons (homens sábios; homens bons – é indiferente aqui a escolha do qualificativo) que passam incógnitos pelo mundo. Pode haver a “canonização” póstuma se este homem lega obras ou tem sorte o bastante.

Mme. de Stael observava que entre os alemães o sentimento e a inteligência ‘não têm aparentemente relação alguma; uma não pode admitir limites, o outro se submete a todos os jugos’.” Cada vez mais vejo citações de De Stael. Nação de filisteus: nenhum era realmente sábio, e os estouvados foram engolfados no – quando não autores do – fascismo. É paradoxal e contra-intuitivo, mas deve ser aceita a possibilidade de uma nação burra onde floresce a filosofia. Ademais, via de regra, todo povo é burro; a sabedoria e o bom caráter devem ser procurados sempre nos indivíduos singulares.

a inteligência, variando consideravelmente de um assunto para outro e, não sendo contagiosa como os sentimentos, nunca pode revestir uma forma coletiva. Os indivíduos de uma mesma raça possuem, ao contrário, certos sentimentos comuns, que facilmente se fundem quando se acham agrupados.” A busca pelos privilegiados cosmopolitas…

O eu afetivo constitui o elemento fundamental da personalidade. Mui lentamente elaborado por aquisições ancestrais, ele evolve nos indivíduos e nos povos muito menos depressa que a inteligência.”

Um sentimento primeiramente refreado torna-se preponderante numa época e domina de maneira mais ou menos durável os outros estados afetivos. O homem em sociedade vê-se certamente forçado a submeter os seus sentimentos às sucessivas necessidades que lhe são impostas pelas circunstâncias e, sobretudo, pelo ambiente social.”

A emoção é um sentimento espontâneo, mais ou menos efêmero. Nasce de um fenômeno súbito: acidente, anúncio de uma catástrofe, ameaça, injúria, etc. A cólera, o medo, o terror são emoções.

O sentimento representa um estado afetivo durável, como a bondade, a benevolência, etc.

A paixão é constituída por sentimentos que adquirem grande intensidade e podem momentaneamente anular outros: ódio, amor, etc.”

A transformação em sentimento ou em pensamento de um processo químico-orgânico é agora completamente inexplicável.

Os sentimentos e as emoções variam conforme o estado fisiológico da pessoa ou segundo a influência de diversos excitantes: café, álcool, etc.

O sentimento mais simples é sempre muito complexo; desde, porém, que se torna irredutível a outro pela análise, devemos, para facilidade da linguagem, tratá-lo como se fosse simples. Também o químico denomina corpos simples aqueles que ele não sabe decompor.

Os psicólogos referem-se, por vezes, a sentimentos intelectuais. ‘Esse termo’, diz Ribot, ‘designa estados afetivos agradáveis ou mistos, que acompanham o exercício das operações da inteligência’.

Eu não poderia admitir essa teoria, que confunde uma causa com o seu efeito. Um sentimento pode ser produzido por influências tão diversas quanto a ação de um alimento agradável ou a de uma descoberta científica, mas resta sempre um sentimento. Quando muito poder-se-ia dizer que as nossas idéias têm um equivalente emocional.”

Os psicólogos não conseguiram ainda definir nem classificar as paixões. Spinoza admitia três: o desejo, a alegria e a tristeza, das quais deduzia todas as outras. Descartes admitia seis primitivas: a admiração, o amor, o ódio, o desejo, a alegria e a tristeza. São, evidentemente, meras formas de linguagem que nada podem explicar e que não resistem à discussão.”

As paixões que duravam muito tempo são paixões que se reavivam, como, por exemplo, os ódios políticos.”

A inteligência só influi numa paixão quando a representação mental de um sentimento é oposta a outro. A luta existe, então, não entre representações intelectuais e representações afetivas, mas unicamente entre representações afetivas postas em presença pela inteligência.”

A memória dos sentimentos [memória afetiva] existe como a da inteligência, mas num grau muito menor. O tempo muito depressa a enfraquece.” Perfumes e canções como máquinas do tempo voláteis.

Na época em que os livros eram raros e custosos, por exemplo, no século XIII, os estudantes sabiam reter os cursos que lhes eram ditados. Atkinson assegura ‘que se os clássicos chineses viessem a ser hoje destruídos, mais de 1 milhão de chineses poderiam reconstituí-los de memória’.”

Um ódio que não se entretém não subsiste. O ódio dos alemães contra os franceses teria desaparecido desde muito tempo se os jornais germânicos não o atiçassem incessantemente.” Ódio intelectual a pobre, eis tudo que a elite brasileira lega uma geração após a outra… Retórica do intelectualismo mais bárbaro, entretanto.

A aversão que os holandeses votam aos ingleses, que outrora lhes tomaram as colônias, persiste somente porque fatos numerosos, principalmente a guerra contra os colonos holandeses do Transvaál, vêm reavivá-la, e porque a Holanda se julga sempre ameaçada.

A aliança russa e o acordo franco-inglês mostram com que rapidez povos, outrora inimigos, esquecem os ódios que não são alimentados. Quando a Inglaterra se tornou a nossa amiga, nós não nos achávamos longe da terrível humilhação de Fashoda [1898, símbolo do fim da era colonialista].”

Nas associações por semelhança, a impressão atual reaviva as impressões anteriores análogas. Nas associações por contigüidade, a impressão nova faz reviver outras, ressentidas ao mesmo tempo, mas sem analogia entre elas.”

5. OS ELEMENTOS DA PERSONALIDADE: COMBINAÇÕES DE SENTIMENTOS QUE FORMAM O CARÁTER

O caráter é constituído por um agregado de elementos afetivos aos quais se sobrepõem, mesclando-se muito pouco a eles, alguns elementos intelectuais. São sempre os primeiros que dão ao indivíduo a sua verdadeira personalidade.

Sendo numerosos os elementos afetivos, a sua associação formará os elementos variados: ativos, contemplativos apáticos, sensitivos, etc.

COMO UM GATO LÍQUIDO NUM RECIPIENTE: “Aos agregados sólidos correspondem às individualidades fortes, que se mantêm não obstante as variações de meio e de circunstâncias. Aos agregados mal-cimentados correspondem às mentalidades moles, incertas e mutáveis. Elas se modificariam a cada instante sob as influências mais insignificantes se certas necessidades da vida quotidiana não as orientassem, como as margens de um rio canalizam seu curso.

Por mais estável que seja o caráter, permanece sempre ligado, no entanto, ao estado dos nossos órgãos. Uma nevralgia, um reumatismo, uma perturbação intestinal, transformam o júbilo em melancolia, a bondade em maldade, a vontade em indolência. Napoleão, doente em Warteloo, já não era Napoleão. César, dispéptico, não teria, sem dúvida, transposto o Rubicon.”

Depois de uma conversão, o amor profano se tornará amor divino. O clerical fanático e perseguidor acabará, por vezes, como livre-pensador, igualmente fanático e não menos perseguidor.”

A TSUNAMI CHINESA VEM AÍ: “Admito facilmente, com Faguet, que a Europa, ao tornar-se pacifista, será conquistada ‘pelo último povo que permaneceu militar e ficou relativamente feudal’. Esse povo reduzirá os outros à escravidão e fará trabalhar em seu proveito pacifistas muito inteligentes, mas destituídos da energia que a vontade proporciona.” Interessante também notar como os europeus, nem mesmo na segunda década do século XX, enxergavam os Estados Unidos, tão auto-suficientes se crêem.

Cada povo possui caracteres coletivos, comuns à maioria dos seus membros, o que faz das diversas nações verdadeiras espécies psicológicas.”

Consideremos os ingleses, por exemplo. Os elementos que orientam a sua história podem ser resumidos em poucas linhas: culto do esforço persistente, que impede de recuar diante do obstáculo e de considerar uma desgraça como irremediável; respeito religioso dos costumes e de tudo o que é validado pelo tempo; necessidade de ação e desdém das vãs especulações do pensamento; desprezo da fraqueza, muito intensa compreensão do dever, vigilância de si mesmo julgada como qualidade essencial e entretida cuidadosamente por especial educação.

Certos defeitos de caráter, insuportáveis nos indivíduos, tornam-se virtudes quando são coletivos; por exemplo, o orgulho.” “A inquebrantável coragem dos japoneses, na sua última guerra, provinha de um orgulho idêntico.” Quebrar o orgulho em nível subatômico…

Desde que uma nação se convence da sua superioridade, ela leva ao máximo os esforços necessários para mantê-la. [ou conquistá-la, quando ela se convence de que é superior mas não o é; no entanto, seu esforço apenas acelerará sua própria decadência]”

COMMUNISM IS THE END, WINTER IT WILL SEND: “O amor da família, depois da tribo, da cidade e, enfim, da pátria são adaptações de um sentimento idêntico a agrupamentos diferentes, e não a criação de sentimentos novos. O internacionalismo e o pacifismo representam as últimas extensões desse mesmo sentimento.”

Há apenas um século, o patriotismo alemão era desconhecido, a Alemanha se achava dividida em províncias rivais. Se o pangermanismo atual constitui uma virtude, essa virtude é unicamente a extensão de sentimentos antigos a categorias novas de indivíduos.”

Para adquirir, por exemplo, um pouco — muito pouco — essa forma de altruísmo, qualificada de tolerância, foi preciso, disse justamente o Sr. Lavisse, ‘que morressem mártires por milhares em suplícios e o sangue corresse em ondas nos campos de batalha’.

É um grande perigo para um povo querer criar, por meio da razão, sentimentos contrários aos que a natureza lhe fixou na alma. Semelhante erro pesa sobre o povo desde a Revolução. Ele provocou o desenvolvimento do socialismo, que pretende mudar o curso natural das coisas e refazer a alma das nações.” O mundo pede a criação de um SOCIALISMO IRRACIONAL.

São poderosas essas influências econômicas. A difusão da propriedade, por exemplo, tem como conseqüência a diminuição da natalidade, pois surge o egoísmo familiar do proprietário, pouco desejoso de ver divididos os seus bens. Se todos os cidadãos de um país se tornassem proprietários, a população diminuiria provavelmente em enormes proporções.”

se, atualmente, o futuro se apresenta muito sombrio, é porque os sentimentos das classes populares tendem a sofrer uma nova orientação. Sob o impulso das ilusões socialistas, cada qual, do operário ao professor, se tornou descontente da sua sorte e persuadido de que merece outro destino. Todo o trabalhador julga-se explorado [correção: é explorado] pelas classes dirigentes e ambiciona apoderar-se das suas riquezas por meio de um golpe de força. No domínio do afetivo, as ilusões têm uma força que as torna muito perigosa, porque a razão não as influencia.” Sociologia de época. Não podia ir além dessa compreensão escrevendo nos 1910s… Ou podia, mas ainda era possível ser bem-intencionado e “liberal” ao mesmo tempo, ainda que a História estivesse galgando o caminho da desolação a passos de guepardo…

6. A DESAGREGAÇÃO DO CARÁTER E AS OSCILAÇÕES DA PERSONALIDADE

TUDO QUE É SÓLIDO DESMANCHA NO AR: “A noção de equilíbrio entre o meio em que vivemos e os elementos que nos compõem é capital. Sem que seja absolutamente especial à psicologia, ela domina a química, a física e a biologia. Um ente qualquer, matéria bruta ou matéria viva, resulta de certo estado de equilíbrio entre ele e o seu meio. O primeiro não poderia mudar sem que logo se transformasse o segundo. Uma barra de aço rígida pode, sob a influência de uma modificação conveniente de meio, tornar-se um leve vapor.”

A diminuição de sensibilidade dos caracteres, no tocante à influência de certas ações exteriores por diversos processos, tem o nome, como se sabe, de imunização. O futuro estudo da patologia dos caracteres compreenderá também o da sua imunização.”

Vamos ver o que Le Bon oferece como contraponto (ou em concordância com a?) falida teoria da degenerescência. Provavelmente, ele apenas a ignora em toda a sua obra.

O verdadeiro homem de Estado possui a arte, ainda misteriosa, de saber modificar, se for necessário, o equilíbrio dos elementos do caráter nacional, fazendo predominar os elementos úteis nas necessidades do momento.”

É inútil objetar que a personalidade dos seres parece, em geral, bastante estável. Se ela nunca varia, com efeito, é porque o meio social permanece mais ou menos constante. Se subitamente esse meio se modifica, como em tempo de revolução, a personalidade de um mesmo indivíduo se poderá transformar inteiramente. Foi assim que se viram, durante o Terror, bons burgueses reputados pela sua brandura tornarem-se fanáticos sanguinários. Passada a tormenta e, por conseguinte, representando o antigo meio e o seu império, eles readquiriram sua personalidade pacífica. Desenvolvi, há muito tempo, essa teoria e mostrei que a vida dos personagens da Revolução era incompreensível sem ela.” O que limita muito o poder de análise da teoria é que vivemos numa longa revolução (de coisa de 2 ou 3 séculos), então não existe nenhum contraste com um “mundo exterior estável” em que apoiemos e testemos a validação de nossas conclusões.

Excitações emocionais violentas, certos estados patológicos observáveis nos médiuns, nos extáticos, nos indivíduos hipnotizados, etc., fazem variar essas combinações e, por conseguinte, determinam, pelo menos momentaneamente, no mesmo ente, uma personalidade diversa, inferior ou superior à superioridade ordinária. Todos possuímos possibilidades de ação que ultrapassam a nossa capacidade habitual e que certas circunstâncias virão despertar.”

PUBLIC ENEMY N. 1: “Aquele que se quer diferenciar do seu grupo tem-no inteiramente por inimigo.”

OS COROAS DO GUARÁ, AUTÔMATOS: “Se os homens não tivessem por guia as opiniões e a maneira de proceder daqueles que os cercam, onde achariam a direção mental necessária à maior parte? Graças ao grupo que os enquadra, eles possuem um modo de agir e de reagir quase constante. Graças ainda a ele, naturezas um pouco amorfas são orientadas e sustentadas na vida.”

Assim canalizados, os membros de um grupo social qualquer possuem, com uma personalidade momentânea ou durável, porém bem-definida, uma força de ação que jamais sonharia qualquer dos indivíduos que a compõem. As grandes matanças da Revolução não foram atos individuais. Os seus autores atuavam em grupos: girondinos, dantonistas, hebertistas, robespierristas, termidorianos, etc. Esses grupos, muito mais do que indivíduos, então se combatiam. Deviam, portanto, empregar nas suas lutas a ferocidade furiosa e o fanatismo estreito, característicos das manifestações coletivas violentas.”

Sendo variável o nosso eu, que é dependente das circunstâncias, um homem jamais deve supor que conhece outro. Pode somente afirmar que, não variando as circunstâncias, o procedimento do indivíduo observado não mudará. O chefe de escritório que já redige há 20 anos honestos relatórios, continuará sem dúvida a redigi-los com a mesma honestidade, mas cumpre não o afirmar em demasia. Se surgirem novas circunstâncias, se uma paixão forte lhe invadir a mente, se um perigo lhe ameaçar o lar, o insignificante burocrata poderá tornar-se um celerado ou um herói.

As grandes oscilações da personalidade observam-se quase exclusivamente na esfera dos sentimentos. Na da inteligência, elas são muito fracas. Um imbecil permanecerá sempre imbecil.

As possíveis variações da personalidade, que impedem de conhecer a fundo os nossos semelhantes, também obstam a que cada qual conheça a si próprio. O adágio Nosce te ipsum dos antigos filósofos constitui um conselho irrealizável. O eu exteriorizado representa habitualmente uma personalidade de empréstimo”

Cada qual só se conhece um pouco depois de ter observado a sua maneira de agir em circunstâncias determinadas. Pretender adivinhar como procederemos numa situação dada é muito quimérico. O marechal Ney, quando jurou a Luís XVIII que lhe traria Napoleão numa gaiola de ferro, estava de muito boa fé, mas não se conhecia; um simples olhar do Imperador bastou para mudar a sua resolução; o infortunado marechal pagou com a vida a ignorância da sua própria personalidade. Se estivesse mais familiarizado com as leis da psicologia, Luís XVIII lhe teria provavelmente perdoado.”

Quanto mais se aprofunda o assunto, tanto mais firmemente se reconhece que a educação e as instituições políticas desempenham um papel bastante fraco no destino dos indivíduos e dos povos. Essa doutrina, contrária, aliás, às nossas crenças democráticas, parece, por vezes, contrariada também pelos fatos observados em certos povos modernos, e é isso que sempre a impedirá de ser facilmente admitida.

Na introdução que escreveu para a tradução japonesa das minhas obras, um dos mais eminentes estadistas do Extremo-Oriente, o barão Motono, embaixador em São Petersburgo, me objeta com várias mudanças realizadas na mentalidade japonesa, sob a influência das idéias européias. Não creio, entretanto, que isso prove uma modificação real dessa mentalidade. As idéias européias simplesmente entram na armadura ancestral da alma japonesa, sem modificar as suas partes essenciais. A substituição do canhão pela funda mudaria completamente o destino de um povo, sem transformar por isso os seus caracteres nacionais.”

LIVRO III. AS DIVERSAS FORMAS DE LÓGICA QUE REGEM AS OPINIÕES E AS CRENÇAS

1. CLASSIFICAÇÃO DAS DIVERSAS FORMAS DE LÓGICA

A lógica tem sido considerada até aqui como a arte de raciocinar e demonstrar. Mas viver é agir e, na maior parte das vezes, não é a demonstração que faz agir.” “Constituindo a ação, no nosso modo de ver, o único critério de uma lógica, consideraremos como diversas as lógicas que conduzem a resultados dessemelhantes.”

Há ações virtuosas ou criminosas, hábeis ou inábeis, não as há ilógicas. Elas procedem, simplesmente, de lógicas distintas e nenhuma pode exclusivamente servir no julgamento das outras.”

Pode-se, julgamos, estabelecer cinco formas de lógica: 1º. lógica biológica; 2º. lógica afetiva; 3º. lógica coletiva; 4º. lógica mística; 5º. lógica racional.”

a lógica biológica (…) não traz nenhum traço de influência das nossas influências, mas produz adaptações, dirigidas em determinado sentido, por forças que não conhecemos. Essas forças parecem agir como se possuíssem uma razão superior à nossa e nada têm de mecânicas, porquanto a sua ação varia a cada instante, conforme o objetivo a satisfazer.

A adjunção às outras formas de lógica da lógica biológica, que domina grandemente a maioria das outras, preencherá uma lacuna dissimulada pelas velhas teorias metafísicas.”

as associações intelectuais podem ser conscientes, ao passo que as dos estados afetivos permanecem inconscientes.”

Mostramos, há já muitos anos, que o homem em multidão procede diferentemente do homem isolado. Ele é, pois, guiado por uma lógica especial [a terceira]”

Para as mentalidades místicas o encadeamento das coisas não oferece nenhuma regularidade, mas depende de seres ou de forças superiores, cujas vontades nos são simplesmente impostas.” A lógica que Freud converteu no seu horrendo conceito de compulsão à repetição, patologizando a nomenclatura inutilmente, doravante.

LÓGICA RACIONAL: “Desde Aristóteles, inumeráveis livros lhe têm sido consagrados.”

A lógica afetiva levava um general, invejoso dos seus rivais, a declarar-lhes a guerra. A lógica mística fazia [com] que ele consultasse os oráculos relativamente à data útil das operações a empreender. A lógica racional guiava a sua tática. Durante todos esses atos, a lógica biológica o fazia viver.” Kira do Death Note é um general que sofre de uma hipertrofia da lógica racional. Frio e calculista (risos). Diria o PSDB que faltou a Kira fazer a sua autocrítica…

A existência das diversas formas de lógica só é demonstrada pelos seus resultados. Elas representam postulados que só se verificam pelas conseqüências decorrentes. As ciências mais exatas, a física, por exemplo, são igualmente obrigadas a colocar na sua base puras hipóteses, transformadas em verdades prováveis quando se demonstra a sua necessidade.” O gato de Schrödinger é um “reconhecimento tácito” de que outras lógicas operam, também nesse nível…

Todas as explicações da luz, do calor, da eletricidade, isto é, a física quase integral, repousam na hipótese do éter. A essa substância totalmente desconhecida foi preciso atribuir propriedades incompreensíveis e mesmo inconciliáveis, como, por exemplo, uma rigidez superior à do aço, conquanto os corpos materiais nela se movam sem dificuldade. Um fenômeno novo obriga os físicos a darem ao éter propriedades novas contrárias às que já estão admitidas. Assim, depois de lhe haver atribuído uma densidade infinitamente mais fraca que a dos gases, agora se lhe concebe uma que é milhões de vezes superior à dos mais pesados metais.” Excelente insight. E Le Bon parece não ter sobrevivido até a refutação final do éter e a fragmentação da física.

O físico não afirma que o éter existe. Diz simplesmente que as coisas se passam como se o éter existisse e que todos os fenômenos ficariam incompreensíveis sem essa suposta existência.”

2. A LÓGICA BIOLÓGICA

o que escrevi sobre esse assunto no meu livro A Evolução da Matéria:

Os edifícios atômicos que células microscópicas conseguem fabricar compreendem não só as mais sábias operações dos nossos laboratórios: eterificação, oxidação, redução, polimerização, etc., como também muitas outras mais difíceis, que não poderíamos imitar. Por meios insuspeitos, as células vitais constroem esses compostos complicados e variados albuminóides, celulose, gorduras, amido, etc., necessários para a conservação da vida. Elas sabem decompor os corpos mais estáveis, como o cloreto de sódio, extrair o azoto dos sais amoniacais, o fósforo dos fosfatos, etc. Todas essas obras tão precisas, tão admiravelmente adaptadas a um objetivo, são dirigidas por forças de que não temos nenhuma idéia e que atuam exatamente como se elas possuíssem uma sagacidade muito superior à nossa razão. A obra que elas executam a cada momento da existência, paira muito acima do que pode realizar a ciência mais adiantada. O sábio capaz de resolver com a sua inteligência os problemas resolvidos a cada instante pelas humildes células de uma ínfima criatura seria de tal modo superior aos outros homens que se poderia considerá-lo como um deus.”

Se um corpo inútil ou perigoso for introduzido no organismo, será neutralizado ou rejeitado. O elemento útil é, ao contrário, expedido a órgãos diferentes e sofre transformações físicas muito sábias. Esses milhares de pequenas operações parciais se emaranham sem se contrariar, porque são orientadas com uma precisão perfeita. Desde que a rigorosa lógica diretriz dos centros nervosos se detém, é a morte.”

Quando uma célula evolve para certa forma, quando o animal regenera inteiramente um órgão amputado, com nervos, músculos e vasos, verificamos que a lógica biológica funda, para esses acidentes imprevistos, uma série de fenômenos que nenhum esforço da lógica racional poderia imitar ou mesmo compreender.” As manifestações mais cruas da Vontade.

As espécies parecem desaparecer quando, muito estabilizadas por uma pesada hereditariedade ancestral, já não se podem adaptar às variações do meio. Essa história do mundo vegetal e animal foi também a de muitos povos. § A infância de uma espécie, de um indivíduo ou de um povo caracteriza-se por uma plasticidade excessiva, que lhe permite adaptar-se a todas as variações de meio.”

Tendo os sentimentos por sustentáculo a vida, concebe-se que a lógica biológica não somente influa na lógica afetiva, como também possa parecer confundir-se, por vezes, com ela. Não permanecem ambas, por isso, menos nitidamente separadas, pois a vida biológica é simplesmente o terreno no qual a vida afetiva vem germinar. § É, portanto, inexplicável que os psicólogos ignorem a lógica biológica. Ela é a mais importante de todas as formas de lógica, por ser a mais imperiosa.”

Bergson tem razão quando separa o instinto da inteligência, mas só parcialmente tem razão nesse ponto. Uma multidão de instintos constituem hábitos intelectuais ou afetivos acumulados pela hereditariedade. Para os fenômenos biológicos, não somente os mais simples, a fome ou o amor, como também os muito complicados, que se observam nos insetos, a separação entre eles e a inteligência parece completa.”

Uma ameba, isto é, um simples glóbulo de protoplasma formado de granulações vivas, quando se quer apoderar de uma presa, executa atos adaptados ao fim que tem em mira, variando segundo as circunstâncias como se esse esboço de ser pudesse ter certos raciocínios. Observando os minuciosos cuidados de certos insetos na proteção dos ovos de que sairão larvas de uma forma muito diferente da sua e que, na maioria dos casos, eles jamais verão, Darwin declarava ‘que é infrutífero especular sobre esse assunto’.”

O seu mecanismo permanece ignorado, mas o sentido do seu esforço é acessível.”

Numerosos naturalistas, Blanchard, Fabre, etc., mostraram a perfeição dos atos dos insetos, como também o seu discernimento e a sua aptidão para mudar de proceder segundo as circunstâncias. Eles sabem, por exemplo, modificar a qualidade das matérias alimentares preparadas para as suas larvas, conforme devem ser machos ou fêmeas. Certos insetos que não são carnívoros, mas cujas larvas só se podem nutrir de presas vivas, paralisam-nas de modo que elas possam esperar, sem decomposição, o nascimento dos seres que as hão de devorar. Determinar uma paralisia semelhante seria uma operação difícil para um anatomista hábil. Ela não embaraça, entretanto, o inseto. Ele sabe atacar os únicos coleópteros cujos centros nervosos se aproximem até tocar-se, o que permite provocar a paralisia com um só golpe de aguilhão. Na considerável quantidade de coleópteros, somente dois grupos, os charanções e os buprestes, satisfazem a essas condições. Fabre reconhece que ao instinto geral do inseto que o dirige nos atos imutáveis da sua espécie se sobrepõe alguma coisa de ‘consciente e de perceptível pela experiência. Não ousando chamar inteligência a essa aptidão rudimentar, pois aquela denominação seria muito elevada para ela. Eu a denominarei’, diz ele discernimento (…) ‘o inseto nos maravilha e nos apavora pela sua alta lucidez’”

Numerosos fatos da mesma ordem, observados nas formigas e nas abelhas por um sábio acadêmico, Gaston Bonnier, conduziram-no a atribuir aos insetos uma faculdade por ele denominada raciocínio coletivo.” “Se, por exemplo, a comissão manda buscar água a uma bacia, em vão se espalhariam ao lado gotas de xarope ou de mel, o inseto não tocará nisso. Aqueles que estão prepostos à colheita do néctar não se ocuparão de recolher o pólen, etc.” “É o ideal do coletivismo realizado.”

Esses fatos, multiplicados pela observação, embaraçam cada vez mais os adeptos da velha psicologia racionalista. Tinha-se, outrora, para interpretá-los, um termo precioso, o instinto; mas é preciso reconhecer que, sob esse vocábulo gasto, se abriga uma ordem completa de fenômenos profundamente desconhecidos.” “Outrora, o instinto era considerado como uma espécie de faculdade imutável, concedida pela natureza aos animais no próprio momento da sua formação, para guiá-los através dos atos da vida, como o pastor conduz o seu rebanho.”

Tendo os animais sido mais bem-estudados, foi preciso reconhecer a variabilidade desses pretensos instintos imutáveis. A abelha, por exemplo, sabe perfeitamente transformar a sua colméia, desde que isso se torne necessário. Numa nota intitulada gradação e aperfeiçoamento do instinto nas vespas solitárias da África, inserta nas atas da Academia das Ciências, de 19 de outubro de 1908, o sr. Roubaud mostra entre as espécies do gênero sinagris ‘diferenças das mais notáveis, a tal ponto que se podem aí seguir as fases principais de uma insuspeita evolução do instinto dos solitários para o das vespas sociais’. Os ninhos, primeiramente solitários, antes de se aproximarem, representam sem dúvidas a forma primitiva das colônias de vespas sociais.”

A seguir, a exposição de que o pássaro não é “tão burro como o homem”: conheceu antes de seu próprio Newton a gravidade! Terá sempre conhecido (princípios antagônicos dos instinto estático x instinto dinâmico)? Pode ser até que não, mas então não era ainda pássaro!

Renunciar às explicações puramente mecânicas como as de Descartes é compreender, ao mesmo tempo, que existe uma esfera imensa da vida física, completamente inexplorada, e de que apenas entrevemos a existência.” “Quando analisarmos os fatores das nossas opiniões e das nossas crenças, não nos deveremos esquecer de que, sob a superfície das coisas, se oculta um mundo de forças inacessíveis à nossa razão, mais pujantes do que essa razão, e que muitas vezes a conduzem.”

Se a sua ação se interrompesse, o nosso planeta se tornaria um triste deserto, submetido às forças cegas da natureza, isto é, às forças ainda não-organizadas.” Abandono da concepção do instinto como força cega da natureza!

3. A LÓGICA AFETIVA E A LÓGICA COLETIVA

Antes de conhecer, todos sentiram.”

E se a transmutação de todos os valores a um além-homem fosse não um upgrade de qualquer forma do Homo sapiens sapiens, mas apenas aquele ponto histórico irreversível (point of no return) em que enquanto coletividade decidimos conscientemente abandonar este que é o mais central de todos os preconceitos, i.e., toda a nossa fonte de amor-próprio: “Não somos aquele que sabe que sabe! Demo-nos de uma vez por todas um outro nome que corresponda melhor a nossa essência!”? Que é o Homem, perguntou Drácula: perguntou, porque ele já não era um Homem!

As Luzes da Emoção

MUITO ALÉM DA LINGUAGEM: “As palavras, por meio das quais tentamos representar os sentimentos, muito mal os traduzem. Só o consentem um pouco por associação. O hábito de ligar os sentimentos ao som de certos vocábulos dá a estes últimos o poder de evocar representações mentais afetivas.” “A música, verdadeira linguagem dos sentimentos, evoca-os melhor do que as palavras, mas, pela falta de precisão, só permite relações muito vagas entre os seres.”

Não podendo as regras da lógica afetiva serem universais como as da lógica racional, um tratado de lógica afetiva, verdadeiro para um indivíduo ou para certa categoria de indivíduos, não o seria para os outros. Um livro de lógica racional possui, ao contrário, um valor invariável para todos.”

Percebe-se, todavia, o caminho percorrido, quando se vê, pelo estudo dos selvagens, o que foram os primitivos dominados pela sentimentalidade pura.” Aqui sou obrigado a refutar qualquer presença de sentimentalidade pura.

A lógica afetiva é um dos sustentáculos da lógica coletiva. Não estudaremos agora esta última, porquanto nos devemos ocupar dela no capítulo consagrado às opiniões e às crenças coletivas.”

4. A LÓGICA MÍSTICA

A lógica mística, de que nos vamos ocupar agora, corresponde a uma fase superior da vida mental. Os animais não a conhecem, conquanto possuam grande número dos nossos sentimentos.” “Semelhante à lógica afetiva, a lógica mística aceita as contradições; não é, porém, inconsciente como a primeira e traduz, freqüentes vezes, uma deliberação.”

Desfazendo alguns mal-entendidos do míope século XIX: “O ateu pode ser tão místico quanto um perfeito devoto; freqüentemente ele o é ainda mais.”

O misticismo muda incessantemente de forma, porém conserva como fundo imutável o papel atribuído a poderes misteriosos. O tempo, que faz variar o objeto do misticismo, mantém a intangibilidade daquele elemento.” O tempo: último misticismo, aliás.

Muitos homens que se qualificam de livres-pensadores porque rejeitam os dogmas religiosos, firmemente crêem nos pressentimentos, nos presságios, na força mágica da corda do enforcado ou do número 13.” “Não há jogador cuja convicção nesse ponto não esteja solidamente estabelecida.” Quem tem cu tem superstição, já diria o outro (Mestre Zagallo).

Os progressos da razão não hão de poder, sem dúvida, abalar o misticismo, porquanto ele terá sempre como refúgio o domínio do além-túmulo, inacessível à ciência. Os espíritos curiosos desse além-túmulo são, naturalmente, inumeráveis.”

A credulidade do verdadeiro crente é geralmente ilimitada, e nenhum milagre o poderia surpreender, porquanto é infinito o poder do Deus que ele invoca. Vê-se na catedral de Orviedo um cofre que, diz a notícia distribuída aos visitantes, foi instantaneamente transportado de Jerusalém através dos ares. Encerra: ‘o leite da mão de Jesus Cristo, os cabelos com que Maria Madalena enxugou os pés do Salvador, a vara com que Moisés separou as águas do mar Vermelho, a carteira de S. Pedro, etc.’.”

A Lógica de Pandora

A época literária chamada romântica é disso uma manifestação. Os artistas têm somente convicções místicas. Os métodos da análise racional são, geralmente, ignorados por eles.” A unio mystica entre mim e o eu-escritor.

PURO ZEITGEIST DE LE BON: “Mas é principalmente em política que se observa a influência do espírito místico. Radicais, anticlericais, maçons e todos os sectários de partidos extremos vivem em pleno misticismo. A classe operária é, igualmente, dominada por um misticismo intenso.” A mania do intelectual de até 100 anos atrás de enxergar o liberalismo como a-místico. Não leu Marx e sua análise do fetichismo econômico.

Lógica mística, lógica sentimental e lógica racional representam 3 formas da atividade mental irredutíveis uma na outra. Seria, portanto, inútil pô-las em conflito.”

5. A LÓGICA INTELECTUAL

A lógica intelectual tem sido o assunto de inúmeros escritos de uma utilidade, aliás, medíocre. Se a ela aludimos aqui, é, primeiramente, porque representa certo papel na gênese das opiniões e, em seguida, para precisar os pontos em que ela difere das outras formas de lógica”

A vontade é a faculdade de resolver-se a praticar um ato; compreende, geralmente, 3 fases: deliberação, determinação, execução. Uma determinação chama-se volição, uma resolução tem também o nome de decisão.”

A vontade é, ao mesmo tempo, de origem afetiva e racional. É de origem afetiva porque todos os móveis dos nossos atos têm um substratum afetivo.”

Descartes, imitado nisso por muitos filósofos modernos, fazia da vontade uma espécie de entidade aposta à inteligência” “Aristóteles se aproximava muito mais do que Descartes das idéias aqui expostas, quando fundava a sua psicologia na distinção entre as faculdades sensitivas e as faculdades intelectuais. Da combinação das duas resultava, no seu juízo, a vontade”

A atenção é o ato pelo qual, sob a ação de um excitante ou da vontade, o espírito se concentra num objeto, com exclusão dos outros, ou na representação mental desse objeto, ou ainda nas idéias que ele suscita.”

A criança e o selvagem possuem muito diminuta atenção voluntária. Quanto mais suscetível de atenção e, por conseguinte, de reflexão, for o homem, tanto mais considerável será a sua força intelectual. Um Newton sem grande capacidade de atenção não é concebível.”

A aptidão para refletir implica sempre a aptidão para a atenção. A capacidade de atenção fácil comporta a faculdade de reflexão medíocre.”

O seu domínio é o da matéria bruta, isto é, momentaneamente estabilizada pela morte ou pelo tempo. Sobre os fenômenos que representam um movimento constante, como a vida, ela projetou luzes muito incertas.”

Para mover, cumpre comover.”

Esse imenso poder [de tudo que não é lógico-racional] é talvez maior ainda do que a ciência o supõe. Nós estamos sujeitos à natureza, mas não se acha ela também submetida, segundo as palavras atribuídas por Ésquilo a Prometeu, acorrentada ao seu rochedo, às necessidades que regem o destino e às quais os próprios deuses devem obedecer?” Mas a necessidade é a natureza.

LIVRO IV. OS CONFLITOS DAS DIVERSAS FORMAS DE LÓGICA

1. O CONFLITO DOS ELEMENTOS AFETIVOS, MÍSTICOS E INTELECTUAIS

O equilíbrio que acabamos de indicar não é uma fusão, porém uma superposição das diversas formas de lógica, cada uma das quais mantém independente a sua ação.”

Nas suas concepções científicas, esses espíritos são guiados pela lógica racional. Nas suas crenças, obedecem às leis da lógica mística ou da lógica afetiva. § Um sábio passa da esfera do conhecimento à da crença, como mudaria de habitação. O erro de que é vítima muitas vezes consiste em querer aplicar às interpretações das lógicas místicas ou afetiva os métodos da lógica intelectual, a fim de basear cientificamente as suas crenças.

Destruído o equilíbrio entre as várias formas de lógicas, elas entram em luta. Raramente nesse conflito vence a lógica racional, que se deixa facilmente torturar, aliás, a fim de colocar-se ao serviço das concepções mais infantis. Por isso, em matéria de crença religiosa, política ou moral, toda a contestação é inútil. Discutir racionalmente com outrem uma opinião de origem afetiva ou mística só terá como resultado exaltá-lo. Discuti-la consigo mesmo também não a abala, salvo quando ela chegou a um grau de enfraquecimento tal que a sua força inteiramente se dissipou.

Os resultados de uma luta entre a lógica mística e a lógica racional não poderiam ser postas mais em evidência do que pelo exemplo de Pascal, examinado minuciosamente em outro capítulo desta obra.”

Nós nos limitaremos, portanto, no que se vai seguir, a estudar o conflito entre a lógica afetiva e a lógica racional.”

A idéia só é, geralmente, a conclusão de um sentimento, cuja evolução permanece inconsciente e, portanto, ignorada.”

Uma palavra, um gesto, quase insignificantes em determinado momento, podem, com o tempo, transformar a amizade em indiferença e, algumas vezes, mesmo em antipatia.

O verdadeiro papel da inteligência no agregado de sentimentos que formam o caráter consiste em isolar alguns, torná-los mais intensos por meio de uma contínua representação mental, dando-lhes a força necessária para dominar certas impulsões. Ela pode chegar, por esse predomínio de um estado afetivo relativamente a outro, a elevar o indivíduo acima de si mesmo, pelo menos momentaneamente.”

se os sentimentos são muito intensos, a inteligência perde todo o poder. A força de certos sentimentos pode tornar-se tal que, não só a inteligência, como também os interesses mais evidentes do indivíduo perdem a influência.”

Se os sentimentos não se transformam diretamente em idéias, são, contudo, criadores de idéias, evocadoras, por seu turno, de outros sentimentos. Mantendo assim a sua independência, essas duas esferas da atividade mental atuam constantemente uma na outra.”

Como as idéias surgem dos sentimentos, as lutas entre idéias não são, na realidade, mais do que lutas entre sentimentos. Os povos que combatem aparentemente por idéias, lutam por sentimentos dos quais essas idéias se derivam.”

Assim, as funções outrora exercidas pelas nobrezas inglesa e francesa apresentavam qualidades de caráter que desapareceram com a cessação das funções. Tendo essas classes sociais perdido as suas qualidades de ordem moral, sem adquirir a inteligência, que elas não tinham tido ensejo de exercer, tornaram-se inferiores às classes outrora dominadas. Era, pois, inevitável que a influência da nobreza, depois de haver sido destruída em França pela Revolução, ficasse hoje muito abalada na Inglaterra.

Essa lei, ignorada pelos nossos educadores, de que um sentimento não praticado se atrofia, parece ter uma aplicação geral.” “Os nossos instintos guerreiros, tão desenvolvidos na época da Revolução e do Império, acabaram por dar lugar a um pacifismo e a um antimilitarismo cada dia mais divulgados, não somente nas massas, como também entre os intelectuais. Daí resulta este estranho contraste: à medida que as nações se tornam mais pacíficas, os seus governos não cessam de aumentar os armamentos.”

Os indivíduos obedecem ao seu egoísmo pessoal, ao passo que os governantes são obrigados a preocupar-se do interesse coletivo. Mais esclarecidos do que as multidões e os retóricos, eles sabem, por experiências seculares, que toda a nação que se enfraquece é logo invadida e saqueada pelos vizinhos.

As nações modernas não escaparam mais a essa lei do que as suas predecessoras das civilizações antigas. Polacos, turcos, egípcios, sérvios, etc., só evitaram as invasões destruidoras deixando-se despojar do todo ou de parte dos seus territórios.”

Os códigos civis ou religiosos sempre tiveram por objetivo principal exercer uma ação inibidora nas manifestações de certos sentimentos.”

Aprendendo, sob a rigorosa lei das primeiras obrigações sociais, a dominar um pouco as suas impulsões, o primitivo desprendeu-se da animalidade pura e chegou à barbárie. Forçado a refrear-se mais, ele se elevou até à civilização. Esta só se mantém enquanto persiste o domínio do homem sobre si mesmo.”

Os sentimentos nos conduzirão sempre, mas nenhuma sociedade pode subsistir sem que os membros aprendessem a mantê-los nos limites abaixo dos quais começam a anarquia e a decadência.”

2. O CONFLITO DAS DIVERSAS FORMAS DE LÓGICA NA VIDA DOS POVOS

O seu primeiro sintoma é um rápido acréscimo da criminalidade, tal como o que hoje se observa em França. É favorecido, aliás, pelo desenvolvimento do humanitarismo, que paralisa a repressão e tende, por conseguinte, a destruir todos os freios.

A nossa democracia atual sofre cada vez mais as conseqüências da supressão dessas ações inibidoras, as únicas que podiam contrabalançar os sentimentos antissociais.” Grande paradoxo da democracia.

O ódio das superioridades e a inveja, que se tornaram os flagelos da democracia e ameaçam a sua existência, derivam de sentimentos muito naturais para que não tivessem subsistido sempre.

Tendo adquirido hoje livre impulso, incessantemente alentados por políticos ávidos de popularidade e universitários descontentes da sua sorte, esses sentimentos exercem constantemente a sua desastrosa tirania.” Bolsonarismo e jovem periférico reacionário (o preto que acessou a universidade e depois se tornou antipetista) in a nutshell.

Uma sociedade subsiste graças ao fator de manter a convicção hereditária de que cumpre respeitar religiosamente as leis em que se funda o organismo social. § A força que os códigos possuem para impor a obediência é, sobretudo, moral. Nenhuma potência material conseguiria tornar respeitada uma lei que toda a gente violasse.”

Se um gênio malfazejo quisesse destruir uma sociedade em poucos dias, bastar-lhe-ia sugerir a todos os seus membros a recusa de obedecer às leis. O desastre seria muito maior do que uma invasão a que se seguisse a conquista. Um conquistador limita-se geralmente, com efeito, a mudar o nome dos senhores que dispõem do poder, mas é seu interesse conservar cuidadosamente os quadros sociais cuja ação é sempre mais eficaz do que a dos exércitos.” Alexandre é o melhor exemplo disso. Portugal, um dos piores.

Os monumentos saqueados rapidamente se reconstroem, mas para refazer a alma de um povo, são necessários, em muitos casos, alguns séculos.”

Combatendo a tradição em nome do progresso e sonhando destruir a sociedade para apoderar-se das suas riquezas, como Átila sonhava saquear Roma, os sectários não vêem que a sua vida é um estreito tecido de aquisições ancestrais, sem as quais não viveriam um só dia.”

só a experiência repetida instrui.” Nem isso!

Se só tratarmos dos tempos modernos, não ouvimos repetir, por toda parte, que a Revolução teve por origem as dissertações dos filósofos e que o seu principal objetivo foi obter que triunfassem as ideias racionais?

Em nenhuma época, com efeito, a razão foi tão invocada. Chegou-se mesmo a deificá-la e a construir-lhe um templo. Na realidade, não existe período em que ela haja representado um papel menos importante. Isso se verificará seguramente quando, dissipados os atavismos que nos cegam, for possível escrever uma psicologia da Revolução Francesa.”

Os burgueses, que foram os seus primeiros instigadores, eram, sobretudo, guiados por um sentimento de intensa inveja contra uma classe que eles supunham ter igualado. O povo não pensava, a princípio, em invejar certas situações, tão longe dele que jamais esperaria alcançá-la; acolheu, todavia, com entusiasmo o movimento revolucionário. Sentimento muito natural, pois a destruição legal das peias sociais e as promessas que se fazia luzir aos seus olhos lhe desvendavam a perspectiva de ser igual aos seus antigos senhores e de apoderar-se das suas riquezas. Na divisa revolucionária, recordada nas nossas moedas e nas nossas muralhas, um único vocábulo, igualdade, apaixonou os espíritos, como ainda os apaixona. De fraternidade não se fala mais hoje, pois a luta das classes se tornou a divisa dos novos tempos. Quanto à liberdade, as multidões jamais perceberam seu sentido e sempre a recusaram.”

A guerra de 1870, por exemplo, é repleta de ensinamentos desse gênero. O imperador, doente, e o rei da Prússia, idoso, queriam, a todo o custo, evitar o conflito. Nesse intuito, o rei da Prússia tinha, finalmente, renunciado à candidatura de seu parente ao trono da Espanha, e a paz parecia firme.

Atrás, porém, desses espíritos incertos e de vontade fraca, um cérebro possante, dotado de uma vontade enérgica, tinha nas mãos os fios do destino. Suprimindo habilmente algumas palavras de um telegrama, soube exasperar até ao furor a sentimentalidade de um povo demasiado sensível e obrigou-o a declarar, sem preparo militar, a guerra a inimigos preparados desde muito tempo. Utilizando, em seguida, os sentimentos de cada nação, conseguiu manter a neutralidade que convinha aos seus desígnios. Cega pelos sentimentos que esse profundo psicólogo fizera vibrar, a Inglaterra recusou associar-se a um projeto de congresso, sem prever o que, mais tarde, lhe custaria a formação de uma potência militar preponderante, seu pesadelo atual.”

Do conflito das várias formas da lógica resulta a maior parte das oscilações da história. Quando predomina o elemento místico, são as lutas religiosas com a sua imperiosa violência. Quando sobressai o elemento afetivo, notam-se, conforme o fator sentimental mais evidente, ou os grandes empreendimentos guerreiros ou, ao contrário, a florescência do humanitarismo e do pacifismo, cujas consequências finais não são menos mortíferas.”

Nos nossos dias, as multidões e os seus agitadores mostram-se, como já dissemos, tão saturados de misticismo quanto os seus mais remotos antepassados. Palavras e fórmulas dotadas de um poder mágico herdaram a força atribuída às divindades que nossos pais adoravam.”

Sendo consideráveis os progressos que ela tem realizado nas ciências, tomou-se natural supor que métodos suscetíveis de produzir tais resultados podiam transformar as sociedades e criar a felicidade universal.”

A própria Inglaterra, tradicional, começa a assistir a esse conflito. As instituições políticas que fizeram a sua grandeza estão agora em luta com os ataques racionalistas de partidos adiantados, os quais pretendem reconstruir o edifício em nome da razão, isto é, da sua razão.”

3. A BALANÇA DOS MOTIVOS

Esses móveis de ação podem, algumas vezes, ser razões, mas aos móveis conscientes de ordem intelectual juntam-se, as mais das vezes, os móveis inconscientes já descritos, que pesam grandemente em um dos pratos. Em última análise, os motivos são energias em luta. Vencem os mais fortes. § Quando as energias contrárias têm, mais ou menos, a mesma intensidade, os pratos oscilam muito tempo antes de fixar-se numa posição definitiva. Caracteres incertos, hesitantes.”

Não é com as multidões, cegos joguetes dos seus instintos, que as civilizações progridem, mas com a pequena elite que sabe pensar por elas e orientá-las. Procurando pôr a lógica intelectual ao serviço da lógica coletiva para justificar todos os seus impulsos, a terrível legião dos políticos não fez mais do que criar uma profunda anarquia.”

Uma lógica afetiva demasiada leva a ceder sem reflexão a impulsos freqüentemente funestos. Uma lógica mística excessiva suscita as exigências religiosas, dominadas pela preocupação egoísta da sua salvação, e sem utilidade social. Uma lógica coletiva exagerada promove a predominância dos elementos inferiores de um povo e o conduz à barbárie. Uma lógica racional em demasia provoca a dúvida e a inação.”

LIVRO V. AS OPINIÕES E AS CRENÇAS INDIVIDUAIS

1. OS FATORES INTERNOS DAS OPINIÕES E DAS CRENÇAS: O caráter, o ideal, as necessidades, o interesse, as paixões, etc.

O jornal inglês Comentator escrevia recentemente, a propósito da psicologia política: ‘Nascerá, talvez, um dia, um livro maravilhoso sobre a arte de persuadir. Se supusermos que a psicologia chega a ser uma ciência tão adiantada quanto a geometria e a mecânica, será possível predizer os efeitos de um argumento sobre o espírito do homem tão seguramente quanto podemos agora predizer um eclipse de lua. Uma psicologia desenvolvida até esse ponto possuirá uma série de regras que permitem converter um indivíduo a uma opinião qualquer. O mecanismo de um espírito será, então, comparável a máquina de escrever, em que basta apoiar numa alavanca para ver sair imediatamente a letra desejada. Uma ciência tão pujante e, por conseguinte, tão perigosa, tornar-se-á necessariamente um monopólio do governo’.”

O mais refletido dos filósofos não escapa à sua influência. As suas doutrinas otimistas ou pessimistas resultam muito mais do seu caráter que da sua inteligência. W. James assegura, pois, com razão, que ‘a história da filosofia é, em grande parte, a do conflito dos temperamentos humanos. Essa diferença particular dos temperamentos’, acrescenta ele, ‘sempre entrou em linha de conta no domínio da literatura, da arte, do governo e dos costumes, tanto quanto no da filosofia.’

Compenetrados dessa influência do caráter individual nas opiniões, facilmente conceberemos por que certos homens são conservadores e outros revolucionários. Estes últimos tendem sempre a revoltar-se, unicamente por temperamento, contra o que os cerca, qualquer que seja a ordem das coisas estabelecidas. Encontram-se, geralmente, entre caracteres cuja estabilidade ancestral foi dissociada por influências diversas. Eles já não se acham, por conseguinte, adaptados ao seu meio. Muitos dentre eles pertencem à grande família dos degenerados, que estão sobretudo no domínio da patologia.” HAHAHAHAHA!

O exército dos revolucionários se recruta, principalmente hoje, nessa multidão de degenerados, com que o alcoolismo, a sífilis, o paludismo, o saturnismo, etc., povoam as grandes cidades. É um resíduo cujo número os progressos da civilização diariamente aumentam. Um dos mais temíveis problemas do futuro será subtrair as sociedades aos furiosos ataques desse exército de inadaptados.” Toma sintoma por causa. Filósofo de província.

Semi-alienados [?!] como Pedro o Ermitão [?] e Lutero subverteram o mundo.”

[?] Ou Eremita. Um dos promotores das Primeiras Cruzadas.

Se tantos homens se mostram hoje hesitantes nas suas opiniões, nas suas crenças e obedecem às impulsões mais contrárias é porque, com uma inteligência por vezes muito elevada, possuem um ideal muito fraco.” O problema hoje é o contrário…

A força dos fanáticos reside precisamente na rigorosa obediência ao seu ideal perigoso. É o que se pode observar hoje no tocante ao ideal socialista, o único que ainda seduz as multidões. Ele pesa inteiramente na nossa vida nacional e suscita numerosas leis destruidoras da sua prosperidade.

Um ideal não é, absolutamente, portanto, uma concepção teórica, cuja ação possa ser negligenciada. Quando se generaliza, exerce uma influência preponderante nas minúcias mais insignificantes da vida. Mesmo aqueles que ignoram a sua influência, a elas se submetem.”

Já disse, com razão, que o socialismo é uma questão de estômago.” Ninguém pode dizer que diz com razão: deve apenas dizer, e deixar arrazoamentos para os outros.

A evolução científica da indústria promoveu necessidades novas, que se tornaram logo, como os caminhos de ferro e o telefone, necessidades indispensáveis. Infelizmente, essas necessidades aumentaram mais depressa do que os meios de satisfazê-las. Representam uma das fontes do descontentamento que desenvolve o socialismo.”

O germano de há 50 anos, modesto comedor de ‘choucroute’, era pacífico, porque não tinha desejos. Tendo subitamente crescido as suas necessidades, tornou-se guerreiro e ameaçador. Aumentando, além disso, rapidamente, a sua população e ultrapassando logo o número de indivíduos que o país pode nutrir, aproxima-se o momento em que, sob um pretexto qualquer, e mesmo sem outro pretexto a não ser o direito do mais forte, a Alemanha invadirá, para viver, as nações vizinhas. Só essa razão podia decidi-la a fazer as esmagadoras despesas exigidas pelo aumento da sua marinha e do seu exército.”

2. OS FATORES EXTERNOS DAS OPINIÕES E DAS CRENÇAS: A sugestão, primeiras impressões, necessidade de explicações, palavras e imagens, ilusões, necessidade, etc.

Convencer não é absolutamente sugerir. Uma sugestão faz obedecer. Um raciocínio pode persuadir, mas não obriga a ceder.” Conceituação complicadinha de sugestão, já que exige muito… Uma hipnose!

repetir a afirmação com ardor é levar ao seu máximo a ação sugestiva.” E no entanto aqui está a boa e velha acepção de sugestão…

Os efeitos da sugestão são de uma intensidade muito variável. Ela se estende desde a ação diminuta do vendedor que se procura desfazer de uma mercadoria, até a que é exercida pelo hipnotizador no espírito do neuropata, o qual cegamente obedece a todas as suas vontades. Na política, o hipnotizador se chama agitador; sua influência é considerável.

Os efeitos de uma sugestão dependem do estado mental do indivíduo que a recebe. Sob uma influência pessoal intensa: ódio, amor, etc., que limita o campo da sua consciência, ele será muito sugestionável e as suas opiniões facilmente se transformarão.”

Questões escandalosas, tais como a de Mme. Humbert e de Dupray de la Mahérie, provaram que banqueiros hábeis, advogados e homens de negócios experientes podiam ser sugestionados, a ponto de abandonar a fortuna a vulgares velhacos, que só tinham ao seu favor a força fascinadora.”

O FASCISMO É FASCINANTE… “Essa fascinação é uma irresistível forma de sugestão. O homem a ela se submete como o pássaro diante da cobra.”

Muitos crimes tiveram como origem essa ação fascinadora. A formosa condessa Tarnowska sugeria sem dificuldade assassinatos aos seus adoradores. A sua força era tal que se tornou preciso mudar muitas vezes os carabineiros que a acompanhavam, assim como os guardas da sua prisão.”

Tornando-se cada vez mais preponderante o papel das multidões e sendo estas unicamente influenciadas pela sugestão, a influência dos agitadores cresce dia a dia. Um governo supostamente popular é, na realidade, uma oligarquia de agitadores, cuja influência tirânica se manifesta a cada instante. Eles ordenam as greves, obrigam os ministros a obedecer-lhes e impõem leis absurdas.”

Sendo de ordem afetiva, a sugestão só pela sugestão pode ser combatida. Ceder aos agitadores, como sem cessar se procede, é fortalecer a sua influência.” Dente por dente? Fake News por fake news?

O principal inconveniente das opiniões baseadas em explicações errôneas é que, admitindo-as como definitivas, o homem não procura outras. Supor que se conhece a razão das coisas é um meio seguro de não a descobrir. A ignorância da nossa ignorância tem retardado de longos séculos os progressos das ciências e ainda, aliás, os restringe.”

Certas palavras, como precisamente observou a propósito o sr. Barrès, são dotadas de uma sonoridade mística. Gozam dessa propriedade as expressões favoritas dos políticos: capitalismo, proletariado, etc.” E quem é este senhor Barres?

O inacessível elétron sucedeu ao não menos inacessível átomo. Essas expressões baseadas no desconhecido concedem suficiente satisfação à nossa necessidade de explicações.”

Diante da rápida diminuição dos alistamentos voluntários na cavalaria, um sensato psicólogo militar teve, há alguns anos, a idéia de mandar colar, por toda parte, cartazes ilustrados coloridos que representavam elegantes cavaleiros, fazendo várias sortes de exercícios. Na parte inferior figurava a enumeração das vantagens outorgadas aos que se alistavam pela primeira e pela segunda vez. Os resultados foram tais que, em muitos regimentos, os coronéis recusaram os candidatos por falta de lugar.”

Uma inteligência que possui o poder atribuído aos deuses de abranger, num golpe de vista, o presente e o futuro, a nada mais se interessaria e os seus móveis de ação ficariam paralisados para sempre.”

Conquanto muito breve, a enumeração dos fatores de opiniões e de crenças precedentemente exposta basta para provar como são pesadas as fatalidades de que está carregada a alma humana.” Realmente Le Bon prima pela concisão. Prima até demais.

3. POR QUE DIFEREM AS OPINIÕES E POR QUE A RAZÃO NÃO AS CONSEGUE RETIFICAR

Aperfeiçoando os homens, a civilização não os transformou, portanto, igualmente. Longe de caminharem para a igualdade, como as nossas ilusões democráticas procuram persuadir, eles tendem, ao contrário, para uma desigualdade crescente. A igualdade, que foi a lei dos primeiros tempos, não poderia ser a do presente e ainda menos a do futuro.

Assim, só pelo fato da sua ascensão progressiva, a civilização realizou a façanha de um mágico que ressuscitasse, no mesmo momento, no mesmo solo, homens das cavernas, senhores feudais, artistas da Renascença, operários e sábios modernos.”

A árdua tarefa dos governos modernos é fazer viver, sem excessivo desacordo, todos esses herdeiros de mentalidades tão desigualmente adaptadas ao seu meio. Inútil seria pensar em nivelá-las. Isso não é possível pelas instituições, pelas leis nem pela educação.

Um dos maiores erros do nosso tempo é supor que a educação iguala os homens. Ela os utiliza, mas não os nivela nunca. Numerosos políticos ou universitários, carregados de diplomas, possuem mentalidade de bárbaros e somente podem, portanto, ter por guia na vida uma alma de bárbaro.”

Uma mulher culpada de grave crime, porém cercada de filhos lacrimosos que a reclamem, está certa da indulgência do júri. A mulher formosa que, num acesso de ciúme, matou o amante, pode estar ainda certa disso. Um júri inglês a condenaria à forca; um júri francês a absolve quase sempre.”

Um pouco acima dessa categoria, dominada por mera sentimentalidade, acham-se os juízes dos tribunais de primeira instância. São ainda bastante jovens e os argumentos de ordem afetiva podem-nos comover. O prestígio de um advogado célebre sempre os impressiona. Pode-se, entretanto, exercer influência nos seus espíritos por meio de provas racionais, unicamente, porém, se elas não tiverem de lutar contra interesses pessoais. A esperança de promoção, as pressões políticas, exercem, por vezes, uma influência preponderante nas suas opiniões. Eles formulam julgamentos bastante incertos, porquanto os magistrados do Tribunal de Apelação reformam cerca de um terço desses julgamentos. Eles se iludem, portanto, mais ou menos 1 vez em 3.

Os magistrados de Tribunais de Apelação formam um grau superior ao da classificação precedente. Mais idosos e mais instruídos, são menos subordinados à lógica afetiva do que à lógica racional.

No vértice, finalmente, surgem os juízes do Tribunal Supremo. Envelhecidos, um pouco decrépitos, nada mais tendo a esperar, desprovidos de toda sentimentalidade, tão indiferentes ao interesse individual quando à compaixão, ignoram os casos particulares e permanecem confinados no direito estrito. Nenhum advogado procuraria invocar um ar sentimental diante deles. Só a prova racional os pode impressionar. As meticulosas precauções da lei inteiramente os dominam. Ela tornou-se para eles uma espécie de entidade mística, isolada dos homens. Esse excesso de racionalismo não é destituído de perigo, pois o direito, eqüitável no momento em que acaba de ser fixo, cessa logo de o ser em virtude de evolução social, que rapidamente o excede. É então que se deve interpretá-lo, a fim de preparar a sua transformação, como fazem alguns magistrados cujas sentenças formam uma jurisprudência, [ou um calhamaço de jurisprudências…] filha de novos costumes e mãe de novas leis. O duelo passou, assim, do estado de crime ao de delito não-condenável; o adultério, acarretando outrora anos de prisão para os culpados e julgado pelo código como um crime tão grave que ao marido se desculpava matar a mulher, acabou por ser incluído entre os delitos de tal modo secundários que um novo projeto de lei propôs, como única punição para o adultério, uma insignificante multa.”

Assembléias: “Os votos são unicamente sugeridos pelos interesses do partido ou pelos dos eleitores, aos quais devem agradar.” Se houver resquícios do segundo, dêem-se por satisfeitos!

Sem dúvida, a razão é constantemente invocada nas assembléias parlamentares, mas, na realidade, é o menos importante dentre os fatores suscetíveis de influenciá-la.”

As divergências de opinião não resultam, como por vezes supomos, das desigualdades de instrução daqueles que as manifestam. Elas se notam, com efeito, em indivíduos dotados de inteligência e de instrução equivalentes.” Bourdieu pesquisou temperamentos e caracteres em sua nascida-defasada-teoria social dos gostos? Tudo o que vale para esses mentes-vazias é a erudição e a classe econômica!

A história da Alemanha e a da França nestes últimos 50 anos fornece numerosas provas das vantagens inconvenientes destes dois métodos: a tirania individual e a tirania coletiva.” Infelizmente o conhecimento político de Le Bon parece se limitar ao século XIX de dois ou três países vizinhos, o que é teoricamente um nada.

4. A RETIFICAÇÃO DAS OPINIÕES PELA EXPERIÊNCIA

Todas as nações verificam, desde as origens do mundo, que a anarquia termina pela ditadura. Mas dessa eterna lição elas não tiram nenhum proveito.”

A experiência mostra, igualmente, que, por seguros motivos de ordem psicológica, todo o produto fabricado pelo Estado ultrapassa sempre os preços da indústria particular, não obstante essa prova, os socialistas obrigam o Estado a monopolizar constantemente alguma fabricação nova.” Que coisa! Israel devia terceirizar sua indústria bélica, então!

SIM, ESSE É UM DOGMA DO CAPITALISMO: “Os socialistas aprenderam, assim, experimentalmente, porém à custa dos seus administradores, que as leis econômicas desdenhadas, quando não são compreendidas, tornarão sempre impossível o estabelecimento de uma taxa qualquer numa classe única de cidadãos. Por incidência, ela se reparte logo entre todas as outras classes, e quem paga não é aquele contra o qual o imposto foi votado.”

LIVRO VI. AS OPINIÕES E AS CRENÇAS COLETIVAS

1. AS OPINIÕES FORMADAS SOB INFLUÊNCIAS COLETIVAS: A raça, o meio, o costume, os grupos sociais, etc.

Já não existem hoje raças puras, no sentido antropológico da expressão; mas, quando povos da mesma origem ou origens diversas, sem que sejam muito afastadas, estiveram submetidos durante muitos séculos às mesmas crenças, às mesmas instituições, às mesmas leis, e falam a mesma língua, constituem o que denomino uma raça histórica.” “A alma de um povo não é, portanto, uma concepção metafísica, mas uma realidade palpitante. É formada de uma estratificação atávica, de tradições, modos de pensar e mesmo preconceitos. Da sua solidez depende a força de uma nação.” “Destruir as influências do passado na alma de um povo teve sempre como invariável resultado conduzi-lo à barbárie.” “Os tchecos e os húngaros na Áustria, os irlandeses na Inglaterra, etc., confirmaram a exatidão dessa lei. A pretensão de impor os nossos códigos aos indígenas das nossas colônias prova que ela é mal-compreendida.”

Um povo de mestiços é ingovernável. A anarquia em que vivem as repúblicas latinas da América é uma prova dessa asserção.”

As violentas revoluções por meio das quais os povos procuram então, por vezes, subtrair-se ao jugo opressor de um passado demasiadamente penoso, não têm uma ação durável. Podem destruir as coisas, porém modificam muito pouco as almas. Assim, as opiniões e as crenças da velha França pesam sobre a nova de um modo irresistível. Só as fachadas mudaram.” Tanto criticam a ineficácia das revolução nos séculos XVIII e XIX e se esquecem do advento do Cristianismo: teria mudado o homem? Não, em absoluto!

Um perfeito socialista revolucionário facilmente se torna um conservador intransigente, desde que chegue ao poder. Sabe-se com que facilidade Napoleão transformou em duques, camaristas e barões, os terríveis convencionais que ainda não tinham tido tempo de matar-se uns aos outros.” Pouco se fala, no entanto, do estranho fenômeno dos comunistas na velhice ou maturidade: FhC, Mandetta, Mark Zuckerberg, se bobear até o Musk… Todos xingados de comunistas pelos “cérebros de gelatina” que ajudaram a destruir o Brasil elegendo Bolsonaro.

QUE AZEDO E ULTRAPASSADO! “Imaginando, segundo a afirmação dos seus agitadores, que eles são os criadores únicos da riqueza, não suspeitam absolutamente o papel que o capital e a inteligência representam. Considerando-se muito mais compatriotas dos operários estrangeiros do que dos burgueses franceses, eles se tornaram internacionalistas e antimilitaristas. A sua verdadeira pátria é o grupo de homens do seu ofício, a qualquer nação que pertençam.”

2. OS PROGRESSOS DA INFLUÊNCIA DAS OPINIÕES COLETIVAS E AS SUAS CONSEQÜÊNCIAS

O ponto mais essencial, talvez, da psicologia das multidões é a nula influência que a razão exerceu nelas. (…) Tais verdades deveriam ser banais desde muito tempo, mas a maneira de agir dos políticos de raça latina indica que eles não as compreendem ainda. Eles só se libertarão da anarquia depois de a terem compreendido.” Mas de que adianta compreender, se continuarão sentindo e sendo mistificados, Le Bon?

As mais revolucionárias multidões latinas mantêm um espírito muito conservador, muito tradicionalista. E isso explica por que os regimes que ela destrói são logo restaurados sob novas designações.”

A ação das opiniões populares, que hoje se tornou preponderante, igualmente se exerceu nas diversas épocas da História. Ela não é sempre percebida, porque a crônica das nações não foi, durante muito tempo, mais do que a dos soberanos. Todos os atos dos reinados pareciam resultar meramente da vontade dos reis.”

Quando, depois de haver terminado a história dos soberanos, o cronista se ocupar da história dos povos, claramente se verá que as multidões foram as verdadeiras criadoras de acontecimentos memoráveis: cruzadas, guerra de religião, matança de S. Bartolomeu,¹ revogação do edito de Nantes, restauração monárquica e napoleônica, etc. Nenhum déspota teria jamais tido a força de ordenar a matança de São Bartolomeu e, a despeito do seu poder absoluto, Luís XIV não haveria podido revogar o edito de Nantes.”

¹ wiki: “O massacre da noite de São Bartolomeu ou a noite de São Bartolomeu foi um episódio da história da França na repressão ao protestantismo, engendrado pelos reis franceses, que eram católicos. [Pelos reis, no plural, se foram somente em duas noites?] Esses assassinatos aconteceram em 23 e 24 de agosto de 1572, em Paris, no dia de São Bartolomeu. Estima-se que entre 5 e 30 mil pessoas tenham sido mortas, dependendo da fonte atribuída.”

Os acontecimentos provocados pelas multidões são, na maioria, os que têm na História o papel mais funesto. As catástrofes de origem popular foram, felizmente, pouco numerosas, graças à ação das elites que, tão fracas hoje, conseguiam, então, na maior parte das vezes, limitar os caprichos e os furores do número.” Que coisa, não? Como envelheceste mal!

Se tudo é permitido para muitos ou quase todos, nada é permitido a ninguém.

Se um povo aspira à liberdade, o que raramente lhe acontece, ou se ele se arremessa à servidão, tendência muito mais freqüente, sempre achará professores e advogados que dêem uma forma intelectual às suas impulsões, por mais perigosas que possam ser.”

As opiniões da multidão ditam sempre hoje aos legisladores leis que eles devem votar e, como essas leis correspondem a efêmeras fantasias e não a necessidades, o seu resultado final é a desorganização da vida industrial, social e econômica do país.” Se assim o é, poderia me explicar como e por que a maconha e o aborto não são ainda legais? E por que não existe um programa de renda mínima consolidado no Brasil?

Que saudades do que não vivi (as greves sendo realmente temidas!)…

Isso é apenas, cumpre notar, um começo. [!!!] Os operários, aos quais são propostas pensões de 200 ou 300 francos já não se contentarão com isso, desde que se certificarem de que, mediante violência, os seus colegas das estradas de ferro obtêm 2 ou 3 mil. Depois do voto do Senado, os pedidos de aposentadorias proporcionais principiaram a aparecer, naturalmente, em avultado número: cantoneiros, operários dos arsenais, da manufatura do fumo reclamaram energicamente. Mas tudo isso é o futuro, um temível futuro, que só as preocupações eleitorais impedem de ver. Que sinistra cegueira!”

Sem os pesquisadores solitários, jamais haveria civilização ou progresso; mas a obra individual somente adquire toda a força pela sua absorção na alma coletiva.”

3. A DISSOLUÇÃO DA ALMA INDIVIDUAL NA ALMA COLETIVA

Essa desagregação de uma sociedade em fragmentos sem elos comuns constitui o que se denominou movimento sindicalista. Longe de permanecer, como o socialismo, um produto de puros teóricos, alheios às realidades, ele representa uma criação espontânea, devida a necessidades econômicas, que por toda a parte se impuseram, como prova a sua generalização, sob formas diversas, em povos de mentalidades distintas. As únicas diferenças são que o sindicalismo, revolucionário em alguns países, é pacífico em outros.” Que distinção absurda é essa???

A evolução industrial, que provocou esse movimento, conduz as grandes pátrias modernas a se subdividirem em pequenas pátrias, que só respeitam as próprias leis e desdenham as da coletividade geral que as contém.” Intui (mas articula mal) o reacionarismo e a fragmentação pós-modernos subseqüentes à falência do socialismo…

Desde que o antigo bloco social tiver sido inteiramente dissolvido em pequenos fragmentos solidamente constituídos, as suas divergências de interesses fatalmente os conduzirão a incessantes lutas. Se cada grupo for, com efeito, composto de elementos homogêneos, dotados de interesse e opiniões semelhantes, ele se achará em conflito com outros grupos, tão pujantes, mas que encerrem interesses nitidamente opostos.

É possível pressentir desde já essas futuras lutas entre interesses contrários, pois assim nos revela a história das antigas repúblicas italianas, principalmente a de Siena e a de Florença. Governadas por sindicatos operários, estes ensangüentaram com as suas dissensões intestinas, durante séculos, todas as cidades em que se exerceu o seu domínio. § Não objetemos que se trata de tempos muito remotos. As grandes leis sociais não são numerosas e sempre se repetem. § As lutas de grupos apenas começam porque o poder central, ainda forte, refreia as suas rivalidades, mas esse poder perde cada vez mais a sua ação. Desde que ele a tiver perdido inteiramente contra ele, [ele contra ele quem?] como em Narbona, depois entre eles, como na Champagne, onde os sindicatos rivais de dois departamentos de interesses contrários encarniçadamente lutaram um contra o outro.” Alusão a fenômenos sociais hoje ininteligíveis para quem não conhece os episódios com muita especificidade!

Nos capítulos consagrados ao estudo das opiniões individuais, tivemos, muitas vezes, dificuldade em precisar, entre os fatores que podiam agir, aqueles que desempenham um papel preponderante. Nada é, porém, mais fácil quando se trata de grupos muito homogêneos, muito circunscritos, tais como aqueles cuja formação acabamos de indicar.

Eles são, efetivamente, compostos de indivíduos que possuem unicamente as opiniões do seu pequeno meio. Para conservar a sua força, o grupo é obrigado a não tolerar nenhuma dissidência. Pela opinião de um dos seus membros, conhece-se a de todos os outros.”

Caiam as sociedades futuras sob o jugo do socialismo, do sindicalismo ou dos déspotas, suscitados pelas anarquias precedentes dessas doutrinas, elas serão, de qualquer modo, mentalmente escravizadas.” HAHAHA!

A evolução moderna tende, como acabamos de ver, a desagregar as sociedades em pequenos grupos distintos, que possuem sentimentos, idéias e opiniões idênticas, isto é, uma alma comum. É inútil discutir o valor dessa evolução, porquanto a razão não altera os fatos. § Mas, sem que os julguemos, é possível, pelo menos, tentar interpretá-los. Ora, é fácil mostrar que essa fusão das almas individuais em almas coletivas constitui um retrocesso a fases extremamente remotas da história, observadas ainda no estado de sobrevivência entre os povos primitivos inferiores.” Interessante. Simplesmente enuncia o conceito de aldeia global ou “tribos urbanas”! “e é por isso que todos os membros de uma mesma tribo são considerados como responsáveis pelos atos de um só.”

Um administrador da Indochina, o Sr. Paul Giran, observa justamente que ‘o direito coletivo desse país parece incompreensível aos magistrados europeus que aí são enviados, porquanto eles consideram como indiscutível evidência que somente o autor de um delito tem a responsabilidade do ato cometido. A idéia de que uma pessoa alheia a um crime possa, pelo fato desse crime, sofrer uma pena qualquer, parece-lhes monstruosa’.

Ela não o é, entretanto, para o anamita.¹ Em numerosos casos, os parentes, que pertencem ao grupo familiar do culpado, são executados. E por quê? Pela razão psicológica acima indicada, isto é, que não estando diferenciados os elementos de cada grupo social, são considerados como tendo apenas uma alma coletiva.” Mas se está falando da individualização do crime?!?

¹ Antigo povo autóctone do território atual do Camarões (melhor resultado na pesquisa)? Ininteligível…

Os próprios europeus empregam esse direito primitivo em tempo de guerra, quando fuzilam os reféns, apoiando-se no princípio da responsabilidade coletiva,”

A não-diferenciação psicológica dos diversos membros de uma tribo, entre os primitivos, é também acompanhada de uma não-diferenciação anatômica. Provei, outrora, por investigações feitas em milhares de crânios, que a homogeneidade anatômica de um povo é tanto maior quanto mais alto se remonta às suas origens, e os crânios dos seus diversos membros se diferenciam gradualmente, à medida que esse povo progride.” Difícil provar algo em arqueologia, amigo!

A alma individual, que só em séculos conseguira desprender-se um pouco da alma coletiva, atualmente se volta para ela.” Oxalá!

LIVRO VII. A PROPAGAÇÃO DAS OPINIÕES E DAS CRENÇAS

1. A AFIRMAÇÃO, A REPETIÇÃO, O EXEMPLO E O PRESTÍGIO

O hábito de louvar a virtude teria acabado, talvez, por tornar virtuoso o próprio Tartufo.”

Mais forte que o hábito é o enjôo, a náusea. É o que vem depois de dois mil anos de “ele morreu por nós”…

Enquanto na Alemanha a mocidade universitária, a mocidade burguesa, inteligente e letrada, outrora atraídas pelo socialismo, hoje se afastam dele e voltam a sentimentos de patriotismo exclusivo e exaltado, a tal ponto que a social-democracia alemã já não obtém, por assim dizer, adeptos entre eles; em França, ao contrário, é moda alistar-se entre os estudantes coletivistas e internacionalistas. O exemplo vem de cima, dos professores de filosofia, dos normalistas. A Escola Normal se transforma numa escola do socialismo.” Que bom, Le Bon: evitastes o fascismo francês – orgueil! Estranho poder místico possuído por esses professores… Os do século XXI não conseguem mais influenciar seus alunos e pensarem por si mesmos!

A autoridade do mestre é hoje soberana, inteiramente como no tempo em que reinava Aristóteles. Ela se torna mesmo cada vez mais onipotente à medida que a ciência mais se especializa.” Defina mestre. Hoje ele é o bobo-da-côrte.

CLOROQUINERS IN A NUTSHELL: “O completo imbecil, entretanto, alcança êxito, algumas vezes, porquanto, não tendo consciência da sua imbecilidade, jamais hesita em afirmar com autoridade.” “O mais vulgar dos ‘camelos’, quando energicamente afirma a imaginária superioridade de um produto, exerce prestígio na multidão que o circunda.” Seja lá o que for camelo, está correto…

2. O CONTÁGIO MENTAL

Minha sensação é que Le Bon – logo ele! – subestima a inteligência da sua própria massa; ignaro em sua própria psicologia! Ele pressupõe que seu público não sabia das verdades imorredouras (as obviedades, melhor dizendo) que ele elenca com sua automática, sua metralhadora verbal. Tudo isso (o que é uma opinião, o que é uma crença, seu poder absoluto) o populacho sempre soube, sempre saberá.

2014- : “Na vida ordinária, o contágio pode ser limitado pela ação inibidora da vontade, mas, se uma causa qualquer — violenta mudança de meio em tempo de revolução, excitações populares, etc. — vêm paralisá-la, o contágio exercerá facilmente a sua influência e poderá transformar seres pacíficos em ousados guerreiros, plácidos burgueses ou terríveis sectários. Sob a sua influência, os mesmos indivíduos passarão de um partido para outro e empregarão tanta energia em reprimir uma revolução quanto em fomentá-la.” PARADOXO DE SININHO, a “esquerdista” que ajudou a acordar o Gigante e derrubar o Partido dos Trabalhadores…

Quanto mais se multiplicam os meios de comunicação tanto mais se penetram e se contagiam. A cada dia estamos mais ligados àqueles que nos cercam. A mentalidade individual facilmente reveste uma forma coletiva.”

UM HOMEM DE ÉPOCA (E PÕE ÉPOCA NISSO!): “Os magistrados são, com efeito, indulgentes em demasia para com todos os criminosos, e bons filantropos, um pouco imbecis, constroem para eles elegantes prisões bem-aquecidas e providas de todo o conforto moderno.”

O contágio criminal produz-se, muitas vezes, assim, graças às narrações de assassinatos profissionais, referidos pelos jornais.” Engraçado que nunca ninguém imitou Pelé! Uma teoria de contágio com partido (se for ruim, é contagiante…). Típica do reacionarismo fim-de-milênio.

O terror do último cometa, que devia, segundo se afirmava, encontrar a Terra, provocou a morte voluntária de muitas pessoas.”

O rol de exemplos eqüestres é invejável! Mas não terei saco para ler sua obra sobre equinos…

Se um dos cães ladra, os outros imediatamente o imitam.” Será mesmo uma imitação, ou apenas um ato contíguo e inédito, impossível de ser distinguido de uma reação instintiva pelo homem?

Tem-se muitas vezes repetido a história dos 15 inválidos que se enforcaram no mesmo gancho de um corredor e a dos soldados que se suicidaram na mesma guarita.” É mesmo? Diga-me o nome de 3 deles, por favor.

O Sr. Stohoukine cita um caso de uma fogueira que devorou 2500 indivíduos que se sacrificavam na esperança de uma vida melhor.”

O contágio mental pode, portanto, escravizar todas os inteligências. À semelhança do contágio pelos micróbios, ele poupa apenas naturezas muito resistentes e pouco numerosas.” Imagina quanta tolice não foi reverberada graças às passagens mais histriônicas do seu livro?

TOUCHÉ: “As opiniões propagadas por contágio só se destroem por meio de opiniões contrárias propagadas do mesmo modo. Aplicada por estadistas, essa regra de ordem psicológica lhes permitiria, graças aos meios de que dispõem, combaterem o contágio pelo contágio.” Meu país sempre será vermelho, etc.

3. A MODA

Com a vida mais rápida, a mulher teve de se masculinizar exteriormente para seguir o homem nas suas vertiginosas corridas pelas grandes estradas. O vestido tailleur, primeiramente reservado a certos esportes, generalizou-se em tudo quanto tinha de cômodo e de adequado. Quanto aos outros vestidos, as mangas largas dos corpetes tornaram-se estreitas para deslizarem facilmente nos paletós. Mas, então, a vista sentiu-se impressionada desagradavelmente pelo busto assim estreito. Para corrigir esse defeito e porque uma transformação determina outra, diminuiu-se a amplitude das saias, para que ficassem mais largas as espáduas e se afinasse a silhueta, modificação que suscitou a supressão dos bolsos e, depois, as saias inferiores. A mulher, na sua necessidade de sentir em torno de si uma atmosfera de desejo, sublinhou essa simplicidade por uma estreiteza excessiva. Ela mostrou tudo quanto era possível e deixou adivinhar o resto. Saias, rendas e roupa branca cederam o lugar às peças inferiores, chamadas combinaisons, que preservam do pó e do frio.”

A moda é tão poderosa entre as mulheres que elas suportam, em obediência aos seus ditames, os mais terríveis enfados, como as obrigações, há alguns anos, de manter constantemente erguido, por uma das mãos, um vestido de cauda, sendo a outra mão ocupada em carregar a bolsa, destinada a encerrar o conteúdo dos bolsos; é análogo o suplício no andar, determinado pelos vestidos chamados entraves e aceito há longos meses. Nesse ponto, as civilizadas rivalizam com as selvagens, que suportam a tortura de um anel espetado no nariz, em obediência à moda.”

A moda não conhece revoltadas; só a extrema pobreza lhe recusa escravas. Nenhum dos deuses do passado foi mais respeitosamente obedecido.”

4. OS JORNAIS E OS LIVROS

Alguns foram, contudo, bastante poderosos pela sua influência sugestiva para provocar a morte de milhares de homens. Tais são as obras de Rousseau, verdadeira bíblia dos chefes do Terror, ou A Cabana do Pai Tomás, que contribuiu muito para a sanguinolenta guerra de secessão na América do Norte.”

A leitura da Bíblia no tempo de Cromwel criou na Inglaterra um número avultado de fanáticos. Sabe-se que na época em que foi escrito Dom Quixote, os romances de cavalaria exerciam uma ação tão perniciosa em todos os cérebros que os soberanos espanhóis vedaram, finalmente, a venda desses livros.”

A simples repetição de uma fórmula breve só é útil para um produto já conhecido. Ela atua, então, por uma espécie de obsessão, mas, para um produto novo, será necessariamente preciso enumerar todas as suas qualidades.”

A dificuldade de lutar contra o hábito, que combate a influência psicológica do anúncio, ficou muito bem provada pela história da adaptação dos pneumáticos aos carros. Tendo os alugadores recusado a compra desse artigo, o inventor o distribuiu gratuitamente a uma pequena companhia. O êxito foi tão rápido que, não somente essa empresa fez fortuna, como, diante das reclamações dos que tomavam carro, todas as outras companhias se viram obrigadas, com grandes despesas, a munir da borracha, primeiramente desdenhada, os seus veículos.”

A batalha de Iena para os alemães, a guerra de 1870 para os franceses, foram necessárias para que criassem correntes de opiniões suscetíveis de impor o serviço militar obrigatório universal.(*) Só uma corrente de opiniões análoga, resultante de decisivos sucessos marítimos, podia permitir ao governo japonês aumentar de mais de um bilhão por ano as despesas da sua marinha de guerra.

(*) O chanceler do Império da Alemanha exprimiu muito bem essa verdade num discurso proferido em março de 1911 no Reichstag, e de que damos um resumo: ‘A questão do desarmamento é, para todo o observador sério, insolúvel enquanto os homens forem homens e os Estados forem Estados. Por mais que façam, os fracos serão sempre a presa dos fortes. O povo que não quer despender com o seu armamento, decai, e um povo mais forte toma o seu lugar’. [Carniça!] Como muito bem disse o mesmo estadista, ‘as disposições de que podem hoje surgir a guerra têm as suas raízes em sentimentos populares, que se deixam facilmente influenciar’.”

Os mais temíveis tiranos nunca foram bastante fortes para lutar muito tempo contra correntes de opiniões. Observa Juvenal que Domiciano pôde matar impunemente personagens ilustres, porém ‘pereceu quando os sapateiros começaram a ter medo dele’.”

Essas explosões de opiniões populares, muito perigosas porque a razão não exerce nelas nenhuma influência, são felizmente pouco duráveis. Resistir-lhes diretamente é excitá-las ainda mais. Entre os diversos fatores das explosões de furor provocadas pela questão Dreyfus, um dos mais ativos foi a obstinação do Estado-maior em afrontar a opinião, contestando a evidência de certos documentos. Um simples erro judiciário não teria produzido mais efeito do que tantos outros, cotidianamente cometidos, e logo se teria cessado de pensar nisso.”

LIVRO VIII. A VIDA DAS CRENÇAS

1. CARACTERES FUNDAMENTAIS DE UMA CRENÇA

Se os romanos aceitaram as divindades de todos os povos estrangeiros, foi porque elas constituíam para eles uma hierarquia de seres poderosos, que cada qual devia atrair em seu favor pela adoração.

Conquanto animado de princípios diferentes, o budismo triunfante não foi mais perseguidor. Ensinando a indiferença ao desejo e considerando os deuses e os entes como vãs ilusões sem importância, ele não tinha nenhuma razão para ser intolerante.”

Os sectários modernos da deusa Razão são tão violentos, tão intolerantes, tão sequiosos de sacrifícios quanto os seus predecessores. A regra de todo o verdadeiro crente será sempre a que foi ensinada na Suma de S. Tomás: ‘A heresia é um pecado pelo qual se merece ser excluído do mundo pela morte’.”

Todos os progressos da civilização procedem, evidentemente, desses espíritos superiores, mas não se pode desejar a sua multiplicação sucessiva. Inapta a adaptar-se imediatamente a progressos rápidos e profundos em demasia, uma sociedade se tornaria logo anárquica. A estabilidade necessária à sua existência é precisamente estabelecida graças ao grupo compacto dos espíritos lentos e medíocres, governados por influências de tradições e de meio.”

A mediocridade de espírito pode, pois, ser benéfica para um povo, sobretudo associada a certas qualidades de caráter. Instintivamente, a Inglaterra o compreendeu, e é por isso que nesse país, embora seja um dos mais liberais do universo, o livre-pensamento sempre foi bastante mal-visto.”

A mentalidade dos mártires de toda a espécie, política, religiosa ou social, é idêntica. Hipnotizados pela fixidez do seu sonho, sacrificam-se alegremente a fim de estabelecer a vitória da sua idéia, sem mesmo nenhuma esperança de recompensa neste mundo ou no outro. A história dos niilistas e dos terroristas russos é abundante em ensinamentos que demonstram este último ponto. Não é sempre a esperança do céu que faz os mártires.” “O estudo dos mártires pertence, sobretudo, ao domínio da patologia mental. Os alucinados das crenças mais variadas apresentam tal analogia que, depois de examinados dois ou três, todos os outros ficam conhecidos.” HAHAHAHAHAAHA!

Eles podem ter como tipo o exemplo de Vivia Perpétua, venerada pelos cristãos sob o nome de santa Perpétua, e que vivia no reinado de Sétimo Severo. Filha de um senador três vezes cônsul, presidente do Senado de Cartago, a bela e rica patrícia, [afinal ela era cartaginesa ou romana?] secretamente convertida ao Cristianismo, preferiu ser exposta nua diante do povo e devorada viva pelos animais ferozes a fazer o simulacro de queimar um pouco de incenso no altar do gênio do Imperador. Os crentes consideraram tais atos como provas do poder dos seus Deuses. É, evidentemente, uma pura ilusão, porquanto os mártires foram igualmente numerosos em todas as religiões e em todas as seitas políticas.”

Os povos jamais sobreviveram muito tempo à morte dos seus deuses.”

2. AS CERTEZAS DERIVADAS DAS CRENÇAS: A natureza das provas com que se contentam os crentes

Lutero tinha certeza de que o papa era o Anti-Cristo, que não existia purgatório e, em nome de verdades dessa ordem, a Europa foi posta a fogo e sangue, durante muitos séculos. Os padres da Inquisição tinham certeza de que Deus queria ver queimados os hereges, e eles despovoaram a Espanha com as suas fogueiras.”

A leitura das obras relativas aos meios de descobrir os feiticeiros, descritos por doutos magistrados outrora qualificados de eminentes, é, nesse ponto de vista, extremamente instrutiva. Os documentos dessa natureza, tanto quanto os livros dos teólogos, mostram o abismo que separa a prova exigida pelo sábio da que satisfaz o espírito encerrado no ciclo da crença.

É inútil dar aqui exemplos. Todos seriam análogos aos que foram revelados no processo que se intentou contra o escritor italiano d’Albano. Provou-se claramente que havia aprendido ‘as 7 artes liberais’ com o auxílio de 7 demônios, por se ter descoberto em sua casa uma garrafa que continha 7 drogas diferentes, cada uma das quais representava um demônio. A despeito dos seus 80 anos, ia ser queimado vivo, quando, protegido sem dúvida pelos 7 demônios captados, morreu subitamente. Os juízes tiveram de limitar-se a desenterrá-lo e a queimar o cadáver numa praça pública.

No reinado de Luís XIV, só excepcionalmente os feiticeiros foram queimados, mas ninguém duvidava do poder que eles possuíam. O processo da feiticeira Voisin revelou que as maiores personalidades da época, o marechal de Luxembourg, o bispo de Langres, primeiro capelão da rainha e outros, tinham recorrido à força mágica que lhe atribuíam. O bispo Simiane de Gorges se dirigira a ela, a fim de obter, por influência do diabo, a fita azul do Espírito Santo!

Se as cartomantes e as pitonisas modernas referissem as visitas que recebem, ver-se-ia que a credulidade humana não tem diminuído. Eu poderia citar um ex-ministro, conhecido pelo seu rígido anticlericalismo, que nunca sai sem ter no bolso o pedaço de uma corda de enforcado. Um dos nossos mais eminentes embaixadores imediatamente se levanta de uma mesa em que se acham 13 convivas. É o fetichismo desses ilustres homens de Estado verdadeiramente superior às crenças religiosas que eles proscrevem com tanto vigor?”

Uma doutrina deve ser julgada verdadeira, dizia ele, desde que todos os homens assim pensam. No juízo de Bossuet, um único ente não poderia ter razão contra a totalidade dos outros. Foram necessários os progressos das ciências modernas para provar que muitas descobertas se realizaram, precisamente porque um único homem teve razão contra todos os outros.”

Uma mentalidade religiosa indestrutível nos fará voltar sempre os olhos para o sobrenatural, mas o estudo atento dos fatos milagrosos sempre mostrará também que eles são apenas alucinações criadas pelo nosso espírito.”

3. PAPEL ATRIBUÍDO À RAZÃO E À VONTADE NA GÊNESE DE UMA CRENÇA

O exemplo de Pascal mostra o que podem ser os resultados dessa luta entre a lógica afetiva e mística de um lado e a lógica racional do outro. O ilustre pensador escrevia numa época em que as verdades religiosas eram aceitas sem contestação, e só um gênio como o seu podia ousar submeter as suas certezas a uma discussão racional. O completo insucesso da sua tentativa demonstra, ainda uma vez, a fraqueza da razão perante a crença.

Pascal era dotado de muita sagacidade para não perceber o ilogismo racional de uma lenda que supõe um Deus a vingar em seu filho uma injúria cometida na origem do mundo por uma das suas criaturas, e não hesita em qualificá-la de ‘tolice’.” “Impressionado pelo receio do inferno (…) ele chega a considerar a vida futura como o objeto de uma temível aposta.” O e se… ético da vida aqui e agora, só que mal-aplicado…

Todo o homem pode fazer o que fez Maomé, porquanto este não fez milagres e não foi predito. Nenhum homem pode fazer o que fez Jesus Cristo.”

4. COMO AS CRENÇAS SE MANTÊM E SE TRANSFORMAM

uma crença que não é continuamente defendida logo se desagrega. A história está repleta de destroços de crenças que, por essa razão, tiveram apenas uma existência efêmera.” Mas pode-se reavivar crenças há séculos perdidas.

Confinado num deserto, privado de qualquer símbolo, o crente mais convicto veria rapidamente declinar a sua fé. Se, entretanto, anacoretas e missionários a conservam, é porque incessantemente relêem os seus livros religiosos e, sobretudo, se sujeitam a uma multidão de ritos e de preces. A obrigação para o padre de recitar diariamente o seu breviário foi imaginada pelos psicólogos que conheciam bem a virtude sugestiva da repetição.”

Os iconoclastas eram guiados por um instinto seguro, quando quebravam as estátuas e os templos das divindades que eles queriam destruir.”

O bramanismo, por exemplo, só tem muito vaga relação com os livros védicos que o inspiraram. O mesmo se diria do budismo.” Não existem dois brâmanes iguais, diria Heráclito.

Uma crença triunfante acaba sempre por fragmentar-se em seitas, cada uma das quais mantém apenas os elementos fundamentais da crença primitiva.”

Considerar a Reforma, como freqüentemente se faz, como uma vitória da liberdade do pensamento é não compreender absolutamente a natureza de uma crença. O protestantismo foi, primeiramente, mais rígido do que o catolicismo, e se ele evolveu, em seguida, para formas por vezes um pouco liberais, não ficou, por isso, menos intolerante. Lutero e os seus sucessores professavam doutrinas muito decisivas, destituídas de todo o espírito filosófico e impregnadas de uma intransigência absoluta. Tendo dividido os homens em eleitos e réprobos, Calvino julgava que os primeiros não devem ter nenhuma consideração para os segundos. Tendo-se tornado senhor de Genebra, impôs à cidade a mais terrível tirania e organizou um tribunal tão sanguinário quanto o Santo Ofício. O seu contraditor, Michel Servet, foi queimado a fogo lento.

Na época da matança de S. Bartolomeu, resultado de todas essas querelas em França, os protestantes foram os massacrados; mas, em todos os países em que eles eram os mais fortes, tornaram-se massacradores. A intolerância era a mesma dos dois lados.

A perpétua subdivisão das crenças é devida à circunstância de que cada qual adota os elementos que o impressionam com mais força e não é influenciado pelos outros. Certos fiéis que possuem o temperamento de apóstolos procuram logo formar uma pequena igreja. Se o conseguem, funda-se um cisma ou uma heresia e o contágio mental logo intervém para propagá-la. A divisão de uma crença em seitas foi sempre favorecida pela extrema imprecisão dos livros sacros. Cada teólogo pode, desde então, interpretá-los ao seu modo.

É útil percorrer obras como as que foram consagradas às discussões sobre a graça, entre tomistas e congruístas, jansenistas e jesuítas, etc., a fim de ver a que grau de aberração podem descer mentalidades influenciadas pela fé.

Os próprios espíritos mais eminentes parecem estar tomados de vertigem, desde que penetram no domínio da crença. Como exemplo, citaríamos as Meditações do célebre Malebranche. O êxito desse livro foi tal que, ao ser publicado em 1684, 4 mil exemplares foram vendidos em uma semana.”

Se há mal no mundo, é porque Deus negligenciou um pouco a sua obra; assim era, aliás, preciso, porquanto o mundo é a morada dos pecadores.”

Os crentes de todos os tempos têm procurado racionalizar a sua fé, sem compreender que a sua força era devida justamente à circunstância de não ser influenciada pelo raciocínio.”

A desagregação de uma crença em seitas rivais perpetuamente em luta não se poderia produzir nas religiões politeístas. Elas também evolveram, mas por simples anexação, depois por fusão de deuses novos, todos considerados como muito poderosos e, conseguintemente, muito respeitados. Eis por que as guerras de religião que devastaram a Europa ficaram mais ou menos ignoradas na antiguidade pagã.

Foi, pois, um grande benefício para os povos terem começado pelo politeísmo. Considero, contrariamente a uma opinião muito generalizada, que eles lucrariam muito se permanecessem nesse terreno. Longe de favorecer o progresso, o monoteísmo os atrasou, pelas lutas sanguinolentas com que encheu o mundo. Moderou durante séculos a evolução das artes, da filosofia e das letras, desenvolvidas pelos gregos politeístas a um ponto tal que eles são tidos como nossos mestres.” “O culto da pátria tinha bastado para dotar os romanos politeístas, na época da sua grandeza, de uma identidade de sentimentos que nunca foi ultrapassada.”

Se, conforme o juízo de tantos historiadores e de meios-filósofos como Renan, o monoteísmo houvesse constituído uma superioridade, seria preciso colocar acima de todas as outras religiões o islamismo, a única mais ou menos monoteísta.

Digo ‘mais ou menos’ porquanto as religiões realmente monoteístas só existiram nos livros. O cristianismo, por exemplo, logo anexou legiões de anjos, santos e demônios, que correspondem exatamente às divindades secundárias do mundo antigo e são venerados ou temidos como aquelas.

Essa multiplicidade de deuses secundários nas crenças monoteístas e a divisão rápida destas últimas em seitas mostram claramente que o monoteísmo é um conceito teórico, que não satisfaz às nossas necessidades afetivas e místicas.”

5. COMO MORREM AS CRENÇAS

Exato no sentido histórico, o título deste capítulo é muito menos preciso no sentido filosófico. Semelhantes à energia física moderna, as crenças se transformam algumas vezes, mas nunca perecem. Mudam, contudo, de nome, e é esse fenômeno que pode ser considerado como a sua morte.”

Essa fase, na qual o ceticismo e a fé se aproximam, produz-se quando o tempo ou outros motivos abalaram as crenças antes que estejam ainda nitidamente formuladas aquelas que as devem substituir. Os últimos defensores dos dogmas desfeitos a eles se prendem desesperadamente, sem que neles acreditem muito. Parece recearem ‘esse incurável tédio’, segundo Bossuet, ‘que constitui o fundo da vida dos homens, desde que perderam o gosto de Deus’.”

Atravessamos precisamente um desses períodos de instabilidade em que os povos se sentem vacilantes entre as influências das divindades antigas e as que se acham em via de formação. A nossa época constitui um dos pontos críticos da história das crenças. Enquanto se espera a adoção de uma grande fé nova, a alma popular flutua entre pequenos dogmas momentâneos, sem duração, mas não sem força. Defendidos por grupos, comissões ou partidos, eles exercem, muitas vezes, um poder considerável.” “Os imperativos categóricos gerais de outrora tornaram-se pequenos imperativos de seitas, tendo de comum apenas um ódio intenso contra a ordem de coisas estabelecidas.”

Robespierre, encarnação típica da estreita mentalidade religiosa do seu tempo, julgava-se um apóstolo que recebera do céu a missão de estabelecer o reino da virtude. Muito deísta, muito conservador e grão-sacerdote infalível de uma nova teocracia, supunha um dever sagrado imolar implacavelmente ‘os inimigos da virtude’ e, como outrora os pontífices da Inquisição, não excluía ninguém. Os seus discursos faziam incessantemente apelo ao Ente Supremo. O seu agente Couthon invocava também a cada instante o Altíssimo.”

O DEUS DO SOCIALISMO É O TRABALHO RESTITUÍDO AO HOMEM: “Se o socialismo possuísse alguma divindade precisa que cumprisse adorar, o seu êxito seria muito mais rápido. Os seus apóstolos reconhecem instintivamente essa necessidade, mas, não ousando oferecer à adoração popular a cabeça do principal teórico da doutrina, o judeu Karl Marx, eles se voltaram para a deusa Razão.” Qual é a necessidade de designá-lo como judeu neste contexto? Eu mesmo respondo: anti-semitismo.

Infelizmente, as divindades abstratas nunca seduziram as multidões, e é por isso que a religião socialista possui dogmas, mas ainda espera o seu deus. Ele não se fará esperar muito tempo. Os deuses surgem quando se tornam necessários.” Erro crasso ou acertou por tabela ao chutar o vento, acertando na Mãe-Rússia?

É inútil recriminar.” Dessa perspectiva, seu livro inteiro foi inútil.

Pilatos, hoje, já não formularia sem dúvida a pergunta, à qual nenhum filósofo jamais respondeu definitivamente. Ele diria que, sendo a verdade o que se crê, toda a crença estabelecida constitui uma verdade.”

LIVRO IX. PESQUISAS EXPERIMENTAIS SOBRE A FORMAÇÃO DAS CRENÇAS E SOBRE FENÔMENOS INCONSCIENTES DE QUE ELAS DERIVAM

1. INTERVENÇÃO DA CRENÇA NO CICLO DO CONHECIMENTO. GÊNESE DAS ILUSÕES CIENTÍFICAS.

Um dos mais flagrantes é a aventura de que foram vítimas, há mais ou menos 40 anos, a quase totalidade dos membros da Academia das Ciências, e que inspirou a Daudet o seu célebre romance O imortal. Acreditando num eminente geômetra, aureolado de grande prestígio, a ilustre assembléia inseriu, como autênticas, nas suas atas, uma centena de cartas atribuídas a Newton, Pascal, Galileu, Cassini, etc. Fabricadas, inteiramente, por um falsário pouco letrado, encerravam numerosos erros e vulgaridades, mas os nomes dos supostos autores e do sábio que as apresentava fizeram aceitar tudo. Os acadêmicos, na sua maioria, e principalmente o secretário perpétuo, não conceberam nenhuma dúvida no tocante à autenticidade desses documentos, até ao dia em que o falsário confessou a fraude. Dissipado o prestígio, declarou-se que era miserável o estilo das cartas, que, ao princípio, se afirmara ser maravilhoso e digno dos escritores de gênio considerados como os seus autores.

RAIOS N: “Durante 2 anos, as atas da Academia de Ciências publicaram inúmeras notas de vários físicos profissionais: Broca, J. Becquerel, Bichot, etc., sobre as propriedades, cada dia mais maravilhosas, desses raios. O Sr. Jean Becquerel anunciava mesmo tê-los cloroformizado. Sábios distintos, notavelmente o sr. D’Arsonval, faziam a respeito deles entusiásticas conferências. A Academia de Ciências, julgando necessário recompensar tão importante descoberta, encarregou vários dos seus membros, entre os quais o físico Marcart, de verificarem na residência do autor a exatidão das suas pesquisas. De lá voltaram maravilhados, e um prêmio de 50 mil francos foi concedido ao inventor.(*)

(*) Esse prêmio devia, primeiramente, ser conferido exclusivamente pelos raios N, mas, no último momento, por um excesso de prudência, que se afigurou excessivo a alguns membros da comissão, no relatório se declarou que o prêmio seria atribuído ao sr. Becquerel pelo conjunto dos seus trabalhos, sem especificação.

Durante esse tempo, sábios estrangeiros, para os quais os físicos franceses são destituídos de prestígio, repetiam em vão as experiências, sem o menor resultado. Muitos se decidiram, então, a ir observá-las na residência do inventor, e rapidamente se certificaram de que este era vítima das mais completas ilusões e continuaram a medir, por exemplo, os desvios dos raios N sob a influência de um prisma, conquanto se houvesse retirado sorrateiramente esse prisma na escuridão, etc.

A Revue Scientifique encetou, então, um vasto inquérito junto a todos os físicos do universo. Os seus resultados foram desastrosos para os raios N. Foi preciso reconhecer que eles constituíam um mero produto da sugestão mental e do contágio, e nunca tinham tido existência.

Dissipada a sugestão, nenhum dos físicos franceses persuadidos de terem visto os raios N conseguiu uma só vez vê-los de novo. As comunicações sobre esse assunto, outrora tão abundantes nas atas da Academia de Ciências, subitamente e totalmente cessaram.”

Nas ciências em via de formação, como é a medicina, [!] na qual são extremamente difíceis as verificações — porquanto jamais se sabe que resultados cumpre atribuir à sugestão e ao remédio —, os erros se perpetuam muito mais. Enumerá-los seria relatar a história da medicina e mostrar que teorias, remédios e raciocínios mudam todos os quartos de século.”

Há 50 anos, mais ou menos, o tratamento da pneumonia pela sangria era considerado como uma das belas conquistas da arte médica. O seu valor parecia fartamente provado por estatísticas, as quais indicavam que, graças a esse tratamento, só morriam 30 doentes em 100. (…) Os médicos matavam, pois, pela sangria, 25 por 100 dos seus doentes.”

2. A FORMAÇÃO MODERNA DE UMA CRENÇA: O ocultismo

Queimados por milhares, os feiticeiros reapareciam sempre. Essa potência rival da Igreja foi vencida pelo tempo muito mais do que pelos suplícios.”

Se inúmeros testemunhos, afirmações obstinadamente repetidas, mesmo à custa da vida, bastassem para estabelecer a existência de um fato, nada seria mais incontestavelmente provado do que a existência do sabbat. Incalculável é, com efeito, o número de indivíduos que confessaram tê-lo visitado através dos ares, montados numa vassoura, e haver tido aí relações sexuais com os demônios.”

O papel da sugestão e do contágio mental aí se manifesta em grande escala. Os testemunhos ouvidos no decurso dos processos de feitiçaria em vários países são concordes, as descrições de satã idênticas, o modo de ir ao sabbat é o mesmo em toda parte. Nenhum interesse pessoal parece ter influenciado a alma desses alucinados. O diabo lhes dava, verdadeiramente, muito pouco em troca da sua salvação eterna”

Raramente havia, aliás, necessidade de recorrer às torturas para obter a confissão dos seus supostos crimes. Os inculpados descreviam, sem resistência alguma, as cenas do sabbat. O diabo aí os esperava sob formas variadas: sapo, gato, cão preto, bode, etc. Oferecia aos seus fiéis refeições geralmente compostas de fragmentos de cadáveres e distrações mui pouco numerosas. Afora as danças e as relações sexuais com feios demônios ou velhas feiticeiras, as mais freqüentes ocupações consistiam em fustigar vigorosamente grandes sapos para que segregassem um líquido esverdeado e pegajoso, destinado a fabricar unguentos e pós mágicos.”

A magia antiga devia, ainda uma vez, reaparecer, mudando de nome sem sofrer notável modificação. Chama-se hoje ocultismo de espiritismo, os áugures se denominam médiuns, os deuses inspiradores de oráculos se intitulam espíritos, as evocações dos mortos têm o nome de materialização. Durante muito tempo a nova crença foi desdenhada pelos sábios; mas, há uns 20 anos que assistimos a este fenômeno muito imprevisto: eminentes professores tornam-se convencidos adeptos de todas as formas de magia.

Assim, reputados antropologistas, como Lombroso, [só um racista de merda] afirmam que evocaram as sombras dos mortos e com elas conversaram; ilustres químicos, tais como Crookes, dizem ter vivido meses com um espírito que diariamente se materializava e desmaterializava, professores de filosofia célebres, como Richet, [enxame de perfeitos anônimos] declaram ter visto um guerreiro de capacete surgir espontaneamente do corpo de uma menina, físicos distintos, como d’Arsonval, referem que um ‘médium pode fazer variar, à vontade e de um modo considerável, o peso de um objeto’. Vemos, enfim, ilustres filósofos, como o sr. Boutroux, dissertarem em brilhantes conferências sobre os espíritos, as comunicações sobrenaturais, e afirmarem que ‘a porta subliminal é a abertura pela qual o divino pode penetrar na alma humana’.”

A palavra materialização significa que um espírito, o de um morto ou mesmo o de uma pessoa viva, pode subtrair ao organismo do médium, o ‘fluido’, isto é, uma substância imponderável, suscetível, entretanto, de condensar-se e tornar-se matéria. Essa substância se agrega em matéria e se apresenta sob formas diversas, conforme a vontade da inteligência que a manipula. Ordinariamente é um corpo análogo a um corpo vivo que essa inteligência fabrica; lembra a forma que tinha, quando vivo, o defunto, se se trata de um morto. Tais corpos têm a denominação de materializados.” “Dr.” Maxwell

Além do nosso corpo material, possuímos em duplicata, um corpo astral, por vezes separável do primeiro depois da morte. Ele se pode materializar, servindo-se dos elementos materiais de um corpo vivo, o do médium, por exemplo.

Naturalmente, as explicações dos espíritas sobre tal assunto são bastante confusas e variam com a imaginação de cada autor. Cumpre unicamente reter que do corpo de um ente vivo poderia instantaneamente surgir outro ser, possuindo os mesmos órgãos e não o seu simples aspecto.

A famosa Katy King, de Williams Crookes, tinha, com efeito, um coração muito regular, e os pulmões do fantasma de capacete, materializado em presença do professor Richet, segregavam ácido carbônico como os de um ente ordinário, como se pode verificar, mediante a insuflação de ar num tubo banhado em água de barita.” HAHAHA?!

O sr. Bottazi e os seus auxiliares estavam persuadidos de que do corpo de Eusápia podiam sair um braço e uma mão invisíveis, que lhe permitiam levantar uma mesa de 22 quilos e deslocar numerosos objetos.”

Outros sábios conhecidos, o Dr. Venzano, o professor Morselli, etc., anunciam ter observado com o mesmo médium fenômenos análogos, principalmente ‘um vulto de mulher que tinha nos braços uma criança de cabelos muito curtos’.”

Os povos de todas as raças adoraram, sob nomes diversos, uma única divindade: a Esperança.” Menos os gregos.

3. MÉTODOS DE EXAME APLICÁVEIS AO ESTUDO EXPERIMENTAL DE CERTAS CRENÇAS E DE DIVERSOS FENÔMENOS SUPOSTAMENTE MARAVILHOSOS

As pessoas um pouco familiarizadas com a psicologia das multidões sabem como é diminuta a utilidade dos inquéritos coletivos. Os observadores transmitem sugestão uns aos outros e perdem inteiramente o espírito crítico; o nível de sua credulidade aumenta e eles chegam apenas a conclusões incertas. Não creio que uma só grande descoberta haja sido feita por uma coletividade.”

Todos os inquéritos relativos ao ocultismo empreendidos na Inglaterra, na França e na Itália, nada adiantaram e amplamente justificaram as reflexões precedentes. Conforme a mentalidade dos assistentes e o seu grau de sugestibilidade, o mesmo médium foi considerado como um vulgar embusteiro ou, ao contrário, como possuidor de poderes tão maravilhosos quanto os que foram outrora atribuídos ao diabo pela feitiçaria.

O mais importante desses inquéritos, tanto pelo tempo e pelo dinheiro despendido quanto pela qualidade dos observadores, foi o que organizou o Instituto Psicológico de Paris. Os resultados não foram brilhantes, apesar dos 25 mil francos sacrificados e das 43 sessões consagradas às experiências.”

Seria preciso imaginar um Mulder que não consegue provar a farsa ou embuste de nenhum autor de fenômenos paranormais!

Não se podia objetar às condições precedentes que os fenômenos de levitação somente se produzem na obscuridade, [os médiuns] tinham renunciado a essa exigência. O sr. Maxwell não cessa de insistir, no seu livro, na possibilidade de obter os fenômenos de levitação em plena luz. O sr. Boirac, reitor da Academia de Dijon, afirma também ter, por várias vezes, à luz, atraído uma mesa, sem tocar. Por que, gozando de tão curiosa propriedade, não quis obter o prêmio de 2 mil francos?

O anúncio desse prêmio valeu-me, naturalmente, a recepção de muitas centenas de cartas, porém somente 5 médiuns se apresentaram para ganhá-lo. Referi-lhes as condições acima indicadas prometendo, aliás, o número de sessões que quisessem. Disseram-me que voltariam. Não os tornei a ver.”

O fenômeno da levitação das mesas representa o ABC do espiritismo. Nesse particular, já não há dúvida possível! A mesa se levanta inteiramente só, sem estratagemas nem embustes, e fica suspensa até 78 segundos… Aqui em Gênova um jovem poeta, excelente médium, imprimiu movimento a uma caixa que pesava 180 quilos.” Prof. Morseff

por que os médiuns, capazes, há 40 anos, de erguer 75 quilogramas, já não podem levantar hoje alguns gramas?”

Um erro muito generalizado é o que consiste em imaginar que um sábio, distinto na sua especialidade, possui por essa única razão uma aptidão particular na observação dos fatos alheios a essa especialidade, principalmente aqueles em que a ilusão e a fraude desempenham um papel preponderante. Vivendo na sinceridade, habituados a crer no testemunho dos seus sentidos, completados pela precisão dos instrumentos, os sábios são, na realidade, os homens mais facilmente iludíveis.”

Os fenômenos do espiritismo não poderiam, portanto, ser eficazmente observados por sábios. Os únicos observadores competentes são os homens habituados a criar ilusões e, por conseguinte, a desvendá-las, isto é, os prestidigitadores. É muito lamentável que o Instituto Psicológico não o tenha compreendido.”

Não sendo os verdadeiros crentes influenciáveis por um raciocínio, seria inútil discutir com eles. Mas, ao lado desses agita-se a imensa legião dos simples curiosos, dos meio-convencidos.” Cético pero no mucho.

4. ESTUDO EXPERIMENTAL DE ALGUNS FENÔMENOS INCONSCIENTES GERADORES DE CRENÇAS

Está hoje mais ou menos demonstrado que as peregrinações, levando milhares de crentes tanto a Meca quanto a Lourdes, ou às margens do Ganges, não lhes foram sempre inúteis. As forças misteriosas do inconsciente, postas em jogo por uma fé ardente, muitas vezes se revelam mais pujantes que os meios de que dispõe a terapêutica.

Julgo que é do mais elevado interesse, porquanto pode desvendar imprevistos horizontes à fisiologia, pôr nitidamente em evidência os limites das influências que consegue determinar no organismo a sugestão produzida pelas preces, pelas relíquias, pelos amuletos, etc.

Sem dúvida, durante muito tempo ainda, esse estudo capital não poderá ser seriamente iniciado. As curas, qualificadas de milagrosas, só foram até aqui examinadas por céticos intransigentes ou crentes irredutíveis. Ora, essas duas formas de mentalidade paralisam, igualmente, a faculdade de observar. E como o cético nesses assuntos se torna facilmente um crente, por vezes sem consciência disso, vê-se que não é fácil chegar a conclusões muito nítidas.”

O QUERIDINHO DE FRAUD, O PRESTIDIGITADOR: “A cura pela fé foi numerosas vezes utilizada nos nossos dias pelo célebre médico Charcot.”

Eusápia, diz o relator, pede ao sr. D’Arsonval que tente erguer uma pequena mesa, o que ele facilmente faz; veda-lhe, em seguida, que o faça o sr. D’Arsonval não consegue deslocar o objeto. ‘Parecia pregado ao solo.’ Eusápia coloca de novo o cotovelo sobre a mesa, e o Sr. D’Arsonval ergue a mesa sem dificuldade. Alguns instantes, após, Eusápia diz ao objeto: ‘Sê leve’ e o Sr. D’Arsonval mais facilmente ainda o levanta. Essa experiência, que os magnetizadores profissionais facilmente conseguem nas feiras, escolhendo os seus ‘motivos’ entre os neuropatas da assistência, demonstra simplesmente o poder sugestionante de certos médiuns.”

É infinitamente provável que o sr. d’Arsonval, supondo, sob a influência da vontade de Eusápia, observar as variações de peso de um corpo, teve uma ilusão análoga à que se deu com os raios N, à qual lhe inspirou uma conferência entusiástica, e à qual afirmou a realidade de todos os fenômenos anunciados.”

OUIJA? “Está desde muito tempo provado que os movimentos dessas mesas são devidos às impulsões inconscientes dos operadores. Mas por que gira a mesa sempre num sentido determinado, sem ser contrariada por impulsões diferentes? Por que, tocando no solo, de um modo que corresponda a certas letras do alfabeto, e colocada sob as mãos dos diversos indivíduos que a cercam, pára a mesa no momento necessário, como se obedecesse a uma vontade única?” A hipótese da “alma coletiva” transitória.

É inútil insistir nesse esboço de explicação. O fenômeno constituído pelo nascimento, pela evolução e pela dissolução de uma alma coletiva é um dos enigmas da psicologia. Ela pode apenas afirmar que essa alma coletiva sempre desempenhou um papel essencial na vida dos povos.”

5. COMO O ESPÍRITO SE FIXA NO CICLO DA CRENÇA: Tem limites a credulidade?

É por essas fases diversas, começando por uma incredulidade total para chegar a uma credulidade completa, que têm passado muitos sábios modernos, tais como o célebre Lombroso. Muito cético no começo das suas investigações, adquiriu, finalmente, uma fé ingênua, de que fornece triste testemunho o seu último livro.”

A ciência se nega a discutir o que ela denomina o incognoscível, e é precisamente nesse incognoscível que a alma humana coloca o seu ideal e as suas esperanças. Com uma paciência que seculares insucessos não puderam fatigar, ela encontra, incessantemente, um obstáculo no mundo sempre inviolado do mistério, a fim de descobrir aí a origem das coisas e o segredo do seu destino. Não tendo aí podido penetrar, acabou por povoá-lo dos seus sonhos.”

o ocultismo, último ramo da fé religiosa, que nunca morre.” O cadáver fétido de Deus.

INVESTIGATING THE RELATION BETWEEN THE SUBTITLING OF SENSITIVE AUDIOVISUAL MATERIAL AND SUBTITLERS’ PERFORMANCE: An empirical study – Katerina Perdikaki and Nadia Georgiou

This fast-paced consumption, which characterises today’s media culture, is enabled, among others, by the expansion of video streaming services and video-on-demand platforms. In turn, the abundance of audiovisual products and the necessity to make them accessible to all audiences increases the demand for audiovisual translation (AVT) which needs to be prompt, while maintaining all other quality requirements.

In this environment, AVT professionals need to develop a skill-set which goes beyond the acquisition of technological literacy and linguistic aptitude to embrace adaptability, which may be hard to achieve when the audiovisual programme deals with sensitive and/or controversial topics because of the emotional impact inflicted upon the translator.”

To look into this issue, we designed an online questionnaire which was completed by 170 professional and amateur subtitlers.”

Schäffner (1997) examines sensitive texts from the perspective of the reaction they prompt in a reader (or viewer, in the case of audiovisual texts) and argues that any text causing irritation or confusion can be considered sensitive.” Exemplos recentes meus: Infância (Graciliano Ramos), Rayuela (Cortázar)…

It should be noted that the study focuses on negative emotions, as these are assumed to have the most drastic impact on subtitling performance.”

In areas such as public service interpreting (PSI), healthcare interpreting and, more specifically, mental health interpreting, professionals often face emotionally demanding situations and are affected when relaying traumatic experiences (Hsieh and Nicodemus 2015; Doherty et al. 2010). Similar observations can be made when it comes to emotionally-loaded cases involving interpreting, as in the Nuremberg trials, where simultaneous interpreting first appeared, and in the interpreting conducted in Nazi concentration camps during World War II (Tryuk 2016). The fact that interpreters experience distress and anxiety at some point in their careers has been affirmed in related studies (Loutan et al. 1999; Valero-Garcés 2005; Doherty et al. 2010).”

meaning that individuals with higher EI tend to be more creative.” Jussara’s EI or QE: 0.

the emotional potential of audiovisual texts is relatively greater than that of a literary text because of the different layers of information involved.”

In addition, given the tight deadlines governing the subtitling industry (Georgakopoulou 2009), rarely is there the luxury of time to first watch the programme and then translate it. Therefore, subtitlers often need to switch between the different hats of viewer and translator while experiencing the text for the first time, which arguably allows them less time to crystallise the viewing experience and to follow a more clinical approach in subtitling.”

Out of the 16 amateur subtitlers in the sample, only three answered that their performance is affected by their emotions.” Típico.

It is possible that the participants misunderstood the option of humour as referring to a linguistic challenge in subtitling, and not to a potentially emotion-eliciting aspect of the audiovisual text. Taking this into account, the fact that humour was the option with the most responses (80 – 47%) can be interpreted in two ways: either humour is one of the most challenging elements to relay in subtitling, as has been confirmed in the relevant literature (Díaz Cintas and Remael 2007; Chiaro 2010), or humour embedded in sensitive material, e.g. jokes that can be considered obscene, profane, racist or sexist, elicits a more intense emotional reaction.”

This sentiment of desensitisation may also be evident in the fact that 36 participants (21%) chose not to answer this question, making it the question with the lowest response rate in the questionnaire. Another interpretation for the low response rate would be that the participants, as language professionals, are comfortable with such aspects of language and their non-responsiveness to sensitive language is a meditated stance they adopt to demonstrate their professionalism.”

Out of these 133 participants, 24 of them proceeded to report an example where their performance was shown to be affected in one way or another. More specifically, they acknowledged that they sometimes have physical reactions to the material (e.g. crying, feeling nauseated) and, thus, have to take frequent breaks while subtitling, or they avoid looking at the screen, focus solely on the audio, and work quickly through the material. Others defer part of the project to other subtitlers and refuse to take on similar projects in the future. In fact, these participants’ narratives are similar to those that answered that their performance was affected by their emotions.”

The fact that some participants answered that their performance is not affected by their emotions and yet showed evidence of such effect in their free-text responses suggests that some may initially misperceive the extent of the emotional impact experienced when subtitling sensitive material. Alternatively, as it was noted above, a reluctance to admit the impact of emotions on subtitling performance may be connected to the subtitlers’ sense of professionalism and the attitude it entails. Notably, 10 out of the 133 participants that gave a negative response highlighted the subtitler’s responsibility to remain impartial and persevere with the translation, thus demonstrating how norms of the field of translation are often internalised by its agents.”

I don’t linger much on the translation. I don’t think how to render it best. I just want […] to get it over with” !!!

Overall, 16 participants (9%) remark that they tend to take frequent breaks in order to cope with the emotional impact, which results in their being less productive and needing more time to complete the job. This may also cause them to ask for an extension to the deadline, if circumstances allow it, or resort to a last-minute translation, as happens with the subtitlers that delay working on the sensitive material. Six participants (3%), all professional subtitlers, note that they refuse work that they know will have such a strong emotional impact on them. Admittedly, this presupposes an established presence in the subtitling industry and a good rapport with one’s clients, so that there is the professional, and financial, flexibility to turn down work. Indeed, the participants that made this point have more than 10 years of subtitling experience.”

Given that the subtitles co-exist with, and heavily depend on, the visual channel, it is obvious that an obscured image may negatively impact the translation. Furthermore, templates usually contain an abbreviated version of the dialogue, and thus do not correspond to the full onscreen content. As a participant attests, when working through torture scenes, they ‘avoid watching, which makes [their] work prone to error’” Não entendo: como pode trabalhar com isso?

Twelve of these participants reported that they may consciously tone down language that they find too offensive, particularly in regard to racial discrimination and swearing. The participants’ responses indicate that this also occurs when the depicted images are especially emotive (e.g. images of slaughterhouses or active war zones). Therefore, although language in isolation seems to leave many participants emotionally unaffected, perhaps because translators are trained and expected to be able to handle abusive, offensive, and colourful language, coping with images is arguably more challenging.”

Eleven participants (6%) highlighted that their performance improved because they felt an even greater responsibility to convey the intended message to the target viewers. As the participants noted, despite the intense emotional impact they experienced, they persevered in order to do justice to the ST, either to match its high cinematographic quality, in the case of fictional films/TV series, or to raise awareness of the issues involved, in the case of documentaries. One participant points out that they took extra care ‘to convey the speakers’ message to the target audience’ when subtitling a documentary about Ugandan child soldiers, in order to communicate their life stories as accurately as possible. Similarly, another participant notes that the emotions of sadness and helplessness they experienced when working on a documentary about cancer patients helped them produce more natural subtitles because they felt that they were the patients’ voice for the target audience. The same participant highlights that in cases where they are overwhelmed with emotion, their empathy with the depicted characters is strengthened, which, in their opinion, ultimately has a positive effect on their subtitling performance.”

The emotions that the subtitlers in our study experience most commonly are sadness, anger, and disgust, and the topic that emotionally affects them the most is abuse. In terms of imagery, scenes of rape, torture, and animal abuse appear to be particularly sensitive for most participants. In contrast, language usage (e.g. swearing) does not seem to have a significant emotional impact on the majority of the participants.”

Given that an emotional impact can either hinder or enhance subtitling performance, as discussed above, it seems necessary that subtitlers learn how to process and cope with the elicited emotions first so that they can reap the potential benefits of emotional impact.”

Further research can also examine relevant training practices that could benefit subtitlers, either in an institutionalised academic context or in the professional environment.”

FILM LANGUAGE, FILM EMOTIONS AND THE EXPERIENCE OF BLIND AND PARTIALLY SIGHTED VIEWERS: A RECEPTION STUDY – Floriane Bardini

blind and partially sighted (BPS)”

To many, expressions like in close-up, pan across, mid-shot, crane-shot etc., may not mean anything but it is important to try to understand why a director has chosen to film a sequence in a particular way and to describe it in terms which will be understood by the majority, if there is room to do so.”

The length of the three ADs is comparable and the final word counts are 388 words for the conventional AD (100%), 427 words for the cinematic AD (110%), and 400 words for the narrative AD (103%). The cinematic version is inevitably longer because cinematic terms are added to the iconic content being described.

The conventional AD is denotative, while the cinematic and narrative ADs are interpretative. The latter ones offer an interpretation of film language to render its meaning and feeling into words, instead of omitting or describing denotatively how cinematic techniques are used onscreen. Interpretative AD styles imply that the describer uses her subjectivity to describe what is shown and how it is shown, so it is a delicate approach that requires ethics and professionalism to ensure that an informed interpretation is provided, and not a personal vision of things.”

Cinematic terminology comes into play most particularly to describe elements that are specific to film, such as camera movements and editing techniques (Casetti and di Chio 1991).”

Narrative AD style (AD3) concentrates on interpreting film language and integrating the visual information into a coherent and flowing narration, which incorporates film dialogue and can be read as a single piece of text. It is an interpretative AD style, which does not always depict the images in full detail or in the exact moment they are shown but instead offers a narrative recreation of the feelings raised and of the meaning channelled through film language. Here too, the aim is to offer an immersive experience that is as similar as possible to that of sighted viewers.” Acho que eu iria preferir o 3.

[AD1 – CONVENTIONAL] Handwritten and slanted: ‘Nuit Blanche’. In black and white. At night, it’s full moon. The zinc roofs of a big city, with smoking chimneys. A three-storey building with large windows and light inside. Over the main door, made of glass, a company name.

[AD2 – CINEMATIC] ‘Nuit Blanche’ appears onscreen in film noir style. In black and white on a full moon night, chimneys smoke on the zinc roofs of a big city. The frame goes down the front face of a three-storey office building, with large windows and light inside.

[AD3 – NARRATIVE] ‘Nuit Blanche’. The city spreads out in black and white under the full moon. Chimneys smoke on zinc roofs. Men and women walk in the street, wrapped up in coats, passing by a three-storey office building with large windows and light inside.”

there are so many shades of grey between black and white that you can create extremely rich images. Because black and white photography is inherently pure, it’s a great way to tell a visual story and express emotion”

Forty-five blind and partially sighted participants were recruited with the help of two user organisations to listen to the ADs, answer the questionnaire and participate in focus group interviews. We contacted thirty-nine through the Department of Culture and Sport of the Territorial Delegation of ONCE (National Organization of the Spanish Blind) in Catalonia and five local ONCE offices located in Girona, Lleida, Manresa, Reus and Vic. Six further participants were recruited through ACIC, the Catalan Association for the Integration of the Blind, based in Barcelona. There were 28 men and 17 women, aged between 24 and 86 (M=54), of whom 11 were blind from birth. Six participants held a university degree, 14 had A-Levels and/or vocational training, 15 had no degree and 10 did not specify.”

[AD1 – CONVENTIONAL] Surrounded by pieces of glass that reflect light, they walk towards each other. She slightly reaches out her arms; he has no hat and briefcase. When they get closer, they shut their eyes and their lips come closer.

[AD2 – CINEMATIC] Surrounded by pieces of glass that shine like sparks, they walk towards each other decidedly. She slightly reaches out her arms. When they are getting closer, they look at each other’s lips and close their eyes as they are about to kiss. The frame closes in on their lips.

[AD3 – NARRATIVE] Surrounded by pieces of glass that shine like sparks, they walk towards each other decidedly, like two wax dolls set apart from reality. Getting closer, they look at each other’s lips and close their eyes as they are about to kiss.”

Our results are in line with those of Fryer and Freeman (2013), Szarkowska (2013), and Walczak (2017a) insofar as the consumers of an alternative AD, which goes beyond the mere denotative description of images, report a better film experience. Whether it is the naming and/or interpretation of the film techniques (cinematic AD), the interpretative and narrative approach (narrative AD), the extensive use of cinematic terminology (Fryer and Freeman 2013), the adoption of the director’s view (Szarkowska 2013), or the integration of the camera work and colloquial language into the AD (Walczak 2017a), studies seem to point to the need to approach AD from a filmic point of view and integrate film language into AD so as to offer blind and partially sighted viewers a better film experience.”

DOES THE DUBBING EFFECT APPLY TO VOICE-OVER? A CONCEPTUAL REPLICATION STUDY ON VISUAL ATTENTION AND IMMERSION – Gabriela Flis, Adam Sikorski and Agnieszka Szarkowska

The original study by Romero-Fresco (2016) was replicated by Di Giovanni and Romero-Fresco (2019) on a group of Italian and English viewers watching a fragment of Grand Budapest Hotel (Wes Anderson 2014). While the original study focused on close-ups, Di Giovanni and Romero-Fresco (2019) examined a different language combination (English to Italian dubbing) and different types of shots in the film.”

As opposed to Spain, where the predominant audiovisual translation (AVT) mode is dubbing, and the UK, where the vast majority of audiovisual content is available in the original English version, Poland is generally considered a stronghold of voice-over (VO) (Gottlieb 1998). Casablanca has never been dubbed into Polish and only the voiced-over and subtitled versions exist.” [!!]

Voice-over translation is an audiovisual translation technique in which, unlike in dubbing, actor voices are recorded over the original audio track which can be heard in the background.”

In contrast to dubbing, where every attempt is made to synchronise the translation with the lip movements of the original actors (Chaume 2014), in voice-over there is no requirement for lip synchrony (Sepielak and Matamala 1999). Neither does the translation need to be of the same duration as the original – a requirement known as isochrony (Chaume 2014). In VO, the original soundtrack remains audible but its volume is lowered, and the translation tends to be shorter than the original, typically allowing viewers to hear the beginning and end of the original utterances. The translation is read by one voice talent, usually male.”

Assuming that a lack of synchrony between the characters’ lip movements and the translation may lead to viewers avoiding looking at the mouth, we wondered whether a similar effect may take place when watching Polish VO, where the lack of synchrony between the original utterance and its translation is part and parcel of this AVT mode. Have Polish viewers also developed similar strategies in their process of habituation to VO? Given the fact that all the translated utterances, whether pronounced by female or male actors, are read out by a single male voice talent, we thought that the viewers’ potential avoidance of looking at characters’ mouths may be particularly discernible in scenes with female characters speaking.”

Although film viewing may seem like a passive activity, when watching films viewers are, in fact, busy processing the sequences of images and sounds, understanding the action, and construing the narrative. From previous research we know that viewer gaze behaviour shows certain commonalities (Smith 2013).” “Attentional synchrony, or “the tendency for observers to be looking in the same place at the same time” (Foulsham and Sanderson 2013: 926), is greater when sound is present than during moments of silence (ibid.: 939).”

One might think that perceptual quality would be extremely low in cases of, for example, science-fiction movies or animated short stories; however, this is not the case. In Hall’s experiment, participants who watched Jurassic Park (Steven Spielberg 1993) still perceived dinosaurs as real, even though they had become extinct millions of years ago, because they felt real in the context of the film.”

Even though it might sound similar to transportation, character identification is limited to particular characters depicted in a movie, whereas transportation ‘is a more general experience created by the narrative as a whole’ (Tal-Or and Cohen 2010: 404).”

Experiment 1 reports on the results of the eye-tracking study conducted on VO with Polish viewers, using the same 6-minute excerpt from Casablanca as Romero-Fresco (2016, 2020). We used a mixed study design with the area of the face (eyes/mouth) as an independent within-subject variable, and participants’ immersive tendency and English proficiency as factors. The dependent variables were the percentage of gaze distribution, immersion levels, comprehension and enjoyment. In Experiment 2, we compared our results with those obtained by Romero-Fresco (2016, 2020).”

To the best of our knowledge, no work on the dubbing effect in voiced-over films, and especially Polish VO, has been done before.”

In general, our sample consisted of young adults whose proficiency in English was relatively high, which may be important as they could understand the original English audio in the background of the Polish voiced-over version.”

Our percentages on eyes and mouth did not add up to 100%, as was the case in the original study, because we also took into account other areas on the screen where people looked, including the nose, hat, hair, background, etc.”

when the actors were speaking, participants looked at the eyes twice as much as at the mouth but, when the characters were not speaking, participants looked at the eyes four times more than at the mouth.”

We therefore compared the percentage of gaze distribution on Ilsa’s mouth with that on Rick’s mouth. Indeed, a statistically significant main effect of actors’ gender was found on gaze distribution on the mouth in dialogue scenes, F(1, 17) = 4.516, p = .049, partial eta2 = .21. Contrary to our predictions, [sabia!] however, viewers looked more at Ilsa’s mouth (M = 24.94, SD = 12.36) than Rick’s (M = 17.94, SD = 13.34).

We were also interested in finding out whether gaze distribution was in any way related to the participant’s immersive tendency and English proficiency, but neither of these factors was found to be significant.”

The largest discrepancy between the declarative and the actual time spent was found in the case of Spanish participants looking at the mouth, which may show that the dubbing effect is largely unconscious.

It needs to be noted that asking people to report on a 1-5 scale the time they think they spent on eyes and mouth is problematic for a number of reasons, including the fact that while watching they were unaware of the nature of the experiment and were not focussed on their gaze behaviour and its distribution.”

In answer to our main research question, we found that when watching the voiced-over fragment of Casablanca, Polish viewers did not avoid looking at the characters’ mouths. Our participants spent – proportionally – about 60% of the time looking at the eyes and about 40% at the mouth in scenes with dialogue, while for the English this proportion was about 75% and 25% and for the Spanish 95% and 5%. This means that we did not find what could be potentially called ‘the voice-over effect’.”

Interestingly, the percentage gaze distribution of Polish viewers was closer to that of the English viewers watching the original clip than to the Spanish group watching the dubbed version. Statistically, there were no differences in gaze distribution between Polish and English people in the sense that more time was spent looking at eyes in scenes with no dialogue than in dialogue scenes and, analogically, at mouth in dialogue scenes in comparison with those where the character remained silent. For Spanish, the trend was reversed. Such results make us wonder whether voice-over may in fact provide an experience more similar to the one we may have while watching a film originally recorded in our native language, an aspect that could be investigated in further studies.” A questão não é essa, mas que o áudio original estava presente!

In the presence of noise, where speech is less intelligible, the significance of visual speech information increases. If we consider VO as a sort of ‘noise’, making the perception of the original more difficult by the co-presence of the VO translation, then it may explain why Polish viewers focused so much on the mouth compared to the other two groups.”

Indeed, when directing films starring Ingrid Bergman, Alfred Hitchcock increased the use of close-ups ‘to concentrate expression in the micromovements’ of Bergman’s face. In the scene used in the study, Bergman is also framed in a close-up, placing her face and full mouth in a particularly prominent position, which may explain the larger focus on Ilsa’s face and mouth than on Rick’s.

It has been suggested that the reasons for the scarcity of replication in modern science include the negative perception of replication as research that is unoriginal and lacking in novelty; the unfavourable attitude of some editors and the consequent difficulty in publishing such studies; the potential hostility towards the original researchers and the fact that replications may be associated with controversy (Koole and Lakens 2012; Nosek et al. 2012; Coyne et al. 2016).”

In our study, direct replication was not possible since dubbing is rare in Poland and the clip used in the original study has never been dubbed into Polish. Furthermore, as we were operating with the institutional confines of our university lab, we had to work with a different eye tracker (SMI) than that used in the original study (Tobii).”

Given the departures from the original study, conceptual replications ‘do not constitute an unequivocal test of the validity of prior findings’ (Coyne et al. 2016: 245) and can be used ‘only to confirm […] the original result, not to disconfirm it’ (Nosek et al. 2012: 619). Therefore, the fact that the dubbing effect has not been found in the Polish context does not necessarily disconfirm its existence in a typical dubbing country such as Spain. Last but not least, as stated by Earp and Trafimow (2015: 9), ‘even carefully-designed replications, carried out in good faith by expert investigators, will never be conclusive on their own.’ What is needed is a series of replications, conducted independently of one another by different research teams and labs.

Replicating a study may be in some ways more challenging than conducting an original study from scratch. The replication team needs to make sure that they follow exactly the same protocol as the original team did. Yet, current reporting practices are sometimes insufficient for the replicating team to be able to follow the experimental protocol to the letter. This relates to, for instance, using identical areas of interest, identical pre-processing of eye-tracking data in terms of minimum and maximum fixation duration as cut-off points, or using exactly the same eye-tracking measures, such as fixation time or dwell time.”

Our study has shown that the visual attention distribution of Polish participants was similar to that of English people watching the film in the original, which suggests that for viewers accustomed to VO, watching a voiced-over film may be an experience comparable with watching the original, at least in terms of visual attention distribution. This may come as a surprise, since VO is often considered ‘the worst possible method (which can) in no sense maintain or do justice to the quality of the original version’ (Dries 1995: 6).”

SITUAÇÃO SÓCIO-HISTÓRICA DA MÚSICA NO SÉC. XIX – Capítulo 38 de “História da música ocidental”, de Brigitte, Massin & al.

Os patronos e os mecenas nobres foram abandonando aos poucos seu tradicional papel, afastados pelos empresários e pelos diversos grupos de músicos, profissionais e amadores, que cada vez mais organizavam eles próprios concertos públicos.”

os historiadores da música empreendiam um trabalho sistemático de pesquisa (…) que permitiu a constituição da musicologia histórica e a reconstituição da vida e da criação de vários grandes compositores, tais como Bach, Palestrina e Schütz.”

Na Áustria, a ópera, sob o regime de Metternich, passava pelo controle da censura e era vigiada de perto pelas autoridades. Mas a democratização irresistível (…) acabou por tornar necessária a abertura de grandes salas de concerto, capazes de receber milhares de ouvintes, bem como a criação de grandes organizações especializadas na programação de concertos.” “Nenhuma arte, nesse tempo, conheceu expansão igual à da música.”

só por volta da metade do séc. teve início a moda dos grandes ‘clássicos’ vienenses – Mozart, Haydn e Beethoven.”

Em Londres, a criação, em 1813, da Philarmonic Society, que se propunha a oferecer música moderna executada da melhor maneira possível, era uma iniciativa normal para uma grande cidade, onde o público de concertos já estava bem-constituído e era numeroso. Graças a ela, a música de Mendelssohn foi introduzida na Inglaterra e a Nona Sinfonia de Beethoven encomendada; para esta mesma sociedade, também Spohr e Dvorák compuseram algumas obras.”

François Habeneck (1781-1849) promoveu, entre 1828 e 1831, a 1ª audição integral (em Paris) das 9 sinfonias de Beethoven e converteu-se em profeta e apóstolo da glória de B. na França.”

Já os ‘clássicos vienenses’ haviam começado a criar obras que não estavam destinadas a uma função imediata e particular, que não foram escritas para um dado conjunto musical ou para serem executadas num determinado lugar.”

A música tencionava ser expressiva, exprimir o sentimento pessoal do música e estabelecer um contato novo com a platéia” Pela 1ª vez o músico deixava de ser cliente.

DA CONTRADITÓRIA DOUTRINA FORMALISTA

Eduardo Hanslick (1825-1904), Von Musikalisch-Schönen (Do belo na música), 1854. Espécie de manifesto.

Hanslick foi o primeiro a ocupar uma cadeira de musicologia numa universidade, a de Viena. Era um antiwagneriano extremado e crítico temido, além de oráculo da opinião musical reinante em Viena no terceiro quartel do século. A partir dele, o ‘formalismo’ musical foi adotado não só por toda uma corrente de músicos, mas também por amplas camadas de ouvintes que se recusavam a procurar ou encontrar, na obra musical, qualquer coisa que fosse extra-música e a considera-la ou escutá-la como uma expressão dos sentimentos ou da psique do compositor.

Hegel seria wagneriano: pregava a unidade de todas as artes. Os formalistas clamavam: a música é especial entre as artes, não pode se misturar.

função x forma (desfuncionalização social, “ato contemplativo”, “ideal da pura contemplação”)

Paradoxo: o concerto, forma de exibição finalmente estabelecida e estabilizada, era ao mesmo tempo a liberdade do novo e um engessamento, posto que funcionando sob rígidas e quase inalteráveis regras, a ponto de hoje olharmos para este formato e esse ambiente achando graça dos inúmeros clichês. Ares de ritual, em que ouvintes e músicos deviam “cumprir seu papel sem fugir do script”.

ERAM OS GREGOS MÚSICOS BÁRBAROS OU BÁRBAROS MÚSICOS? “Os musicólogos e historiadores de música, estudando o passado musical à luz do romantismo e, sob a influência do positivismo, o fenômeno da música em si próprio, tomaram consciência não só do valor da música antiga, considerada pelo Século das Luzes como bárbara, mas também do valor próprio da música enquanto tal.”

A TECNOLOGIA & A SUPREMACIA DO PIANO

À diferença da orquestra barroca, baseada na primazia sonora dos instrumentos de cordas, a orquestra clássica e romântica, graças às novas invenções mecânicas, pôde modificar a qualidade de sua sonoridade. Aos poucos, todos os instrumentos foram se tornando cientificamente calibrados. Ficou possível determinar a produção do som, que se mostraria cada vez mais padronizada Com o aumento do número de instrumentos, a divisão do trabalho na orquestra se refinou. O aprimoramento das técnicas de produção em geral e o conseqüente e gradual processo de industrialização de muitos instrumentos – piano, órgão, os sopros e, particularmente, os metais – tiveram várias conseqüências, entre as quais as primeiras foram o aperfeiçoamento dos instrumentos que já existiam e a criação de outros. Graças às novas técnicas de fabricação, os instrumentos musicais tiveram suas possibilidades aumentadas e sua execução facilitada.”

O séc. XIX foi o séc. de ouro da música instrumental”

A evolução do virtuosismo é contemporânea ao aperfeiçoamento dos instrumentos.” Instrumento de destaque na matéria: o piano.

Foi no início do séc., contudo, antes que esse processo houvesse avançado, que o mais brilhante dos virtuoses – o violinista (e violista) Niccolo Paganini (1782-1840) – fez sua fulgurante carreira. O fascínio que Paganini exercia era de tal ordem que se chegou a suspeitar que tivesse algum pacto com o demônio.”

Aquilo que se pôde chamar de orquestração do piano já aparecia nas últimas sonatas de Beethoven (principalmente na Sonata opus 106, Hammerklavier) e, posteriormente, nas composições de Liszt”

o piano se tornou, no XIX, o preferido da burguesia e por muito tempo manteve a supremacia sobre os outros instrumentos solistas. Nas casas burguesas, o piano passou a ter um lugar de honra, como peça principal de um belo mobiliário.”

COMPOSITORES, ESTRELAS MULTINACIONAIS

Começaram a surgir grandes compositores na “Rússia, Polônia, Boêmia, Morávia, Croácia, Dinamarca, Suécia, Noruega, Espanha e Hungria”. Se há um lado bom no nacionalismo, é que cada uma das nações gerou talentos sui generis, ao contrário de épocas passadas em que o país pioneiro num novo gênero musical alastrava sua estética como uma onda ou epidemia, contaminando o restante da Europa com alguma defasagem temporal, mas havendo em conseqüência uma muito menor variação regional.

Consolidação do próprio “criador musical” em estado bruto, i.e., não necessariamente quem compõe precisa tocar suas obras. Beethoven (mais uma vez) e Schubert foram quase casos isolados, de uma geração passada, a antecipar a tendência.

AS CRÍTICAS

No XVIII, a pena do crítico musical era empunhada por especialistas, músicos competentes ou teóricos. Com o aumento do público e a nova situação geral em que se encontravam a música e os músicos no XIX, quase todo mundo começou a sentir-se com direito de dar palpite nessa área, o que contribuiu para o desenvolvimento de um certo diletantismo e ‘impressionismo crítico. A crítica profissional e a amadora passaram a coexistir. Músicos notáveis, como Schumann e Berlioz, foram críticos. Escritores ‘metidos’ e sem competência específica, como Stendhal e Balzac, formavam um numeroso grupo que também escreveu sobre música.”

o folhetim parisiense, inicialmente consagrado à literatura, logo iria entrar no campo da música, com críticas, observações lúcidas e detalhes de crônicas, tudo num estilo acessível e leve que logo o fez transformar-se num gênero predileto do público.”

Com o aumento da crítica e a divisão do trabalho e complexificação do meio, nasceu também a crítica da crítica, ou seja: não era uma só voz, mas muitas vezes vozes em guerra enaltecendo e difamando cada uma os seus próprios heróis. Uma grande parte da crítica também era desonesta, i.e., não resenhava pela arte, mas visando a outros fins, que não eram expostos na matéria ao leitor.

A POLIFONIA, DESDE SEUS PRIMÓRDIOS ATÉ O FIM DO SÉC. XIII – Capítulo 6 de “História da música ocidental”, de Brigitte, Massin & al.

Tanto do ponto de vista do etnólogo como do musicólogo, a superposição de duas ou várias linhas melódicas simultâneas que se desenrolam de maneira homogênea – guardando, cada uma delas, seu caráter particular – é vista como uma tendência espontânea a procurar a consonância de duas ou mais vozes. De acordo com as pesquisas e as conclusões de Marius Schneider, a heterofonia por intervalos de quinta – tal como se define nossa 1ª polifonia – é localizável em 3 regiões muito afastadas umas das outras: na Europa oriental, desde o sul do Cáucaso até a Sicília, na África meridional e em certas partes da Ásia.”

Não estamos, portanto, interessados em fechar um círculo em torno do nascimento da polifonia na música ocidental”

Será preciso esperar a Summa musicae do XIV para encontrar o termo polifonia usado como designação da escrita vertical, uso que só se deverá impor no séc. XVIII. Aparentemente, o princípio da consonância harmônica já era conhecido desde muito. Santo Agostinho faz-lhe alusão em seu Contra academicos; Boécio menciona-o em diversos dos seus escritos.”

Não resta dúvida de que a polifonia só conseguiu se desenvolver verdadeiramente na música erudita ocidental depois de bem-assimilado, pelos cantores, o canto gregoriano imposto por Carlos Magno e uma vez criadas as escolas necessárias à aprendizagem do canto a muitas vozes, ou seja, na época de Carlos, o Calvo. Os primeiros testemunhos de utilização da polifonia figuram nos escritos teóricos do século IX: p.ex., no De institutione musica de Hucbald de Saint-Amand, no manuscrito de Reginon de Prüm (?-915), no De divisione naturae naturae, de Johannes Scotus Erígena (ca. 876-?), e sobretudo na Musica enchiriadis, atribuída a Ogier de Laon

organum: esta palavra designa inicialmente qualquer instrumento de música, para, mais tarde, restringir-se ao instrumento natural que é a voz humana, por ocasião aos outros, ditos ‘artificiais’; e terminar designando o órgão, instrumento de teclado.” “no grego e no latim, uma única e mesma palavra (phone em grego e vox em latim) é usada para designar tanto a voz humana quanto o instrumento que a acompanha.”

a quarta aumentada, o trítono fá-si, o famoso diabolus in musica.”

não chegou até nós nenhuma música polifônica anterior aos raros volumes de tropos que datam do séc. XI, como a coleção de Winchester, estabelecida, sem dúvida, sobre um modelo de Fleury, que contém 50 organa, ou ainda a dos Aleluias de Chartres, onde se observa o emprego de intervalos de terças, na época considerados dissonantes.”

Com o nome de tenor (do latim tenere, sustentar), passa a caber à voz principal o registro grave do canto. (…) voz litúrgica” O início do fim do canto gregoriano.

A Escola de Saint-Martial de Limoges abriu caminho para o amplo movimento musical da Escola de Notre-Dame (…) seus reflexos atingiram fortemente a Inglaterra e sobretudo a Espanha.

O que se vê na Espanha é a flexibilidade e a liberdade de invenção prevalecerem sobre a estreiteza dos quadros teóricos, em Santiago de Compostela, cidade que, juntamente com Roma e Jerusalém, constituía um dos 3 grandes locais de peregrinação da Cristandade.”

a Igreja, outrora tão ardorosa na imposição do canto gregoriano, deixou que se passasse um século antes de se deixar mobilizar por essas formas de escrita que o relegavam ao segundo plano.”

A bela e inteligente cidade de Paris, como também os centros urbanos em seu redor num raio de 150km, estavam destinados a viver conjuntamente 3 grandes surtos de criação: o desenvolvimento do pensamento escolástico (…); a construção das catedrais pelos arquitetos góticos; e a floração das magníficas polifonias dos 2 grandes mestres da Escola de Notre-Dame, Léonin e Pérotin.”

Coussemaker, Anonymus IV (que porra é essa, uma espécie de Vol. 4 cristão?)

Tudo está pronto, a essa altura, para o advento do moteto, o mais complexo, o mais bem-resolvido e o mais surpreendente, também, de todos os gêneros polifônicos.” “Voltou-se a prestigiar o procedimento adotado nos tropos: encaixar palavras (mot petit mot motet) nas melodias preexistentes. Foi assim que nasceu o moteto.”

Todo o esforço consistirá em organizar com clareza a escrita do conjunto das vozes. Resolver-se-á a questão diferenciando-se o ritmo de cada uma delas: lento para a voz tenor, mais rápido para o duplum, acelerado para o triplum. A ‘letra’ do triplum é em geral um terço mais longa que a do duplum. (…) Pode-se acrescentar-lhe ainda um quadruplum [terceira voz de apoio ao tenor].”

Em 1260 começa-se a espalhar uma notação para maior coordenação (nota a nota) das vozes entre si: a franconiana.

Franco de Colônia, Ars cantus mensurabilis

O sistema é ternário: a unidade é constituída pela breve, a que corresponde um tempo. A longa perfeita vale 3 tempos; a imperfeita, 2 – e assim por diante.”

canto de amor” “Jean de Grouchy observa que, enquanto os rondós podem chegar às camadas populares, o mesmo não acontece com os motetos”

As 2 ou 3 vozes acima da voz tenor têm, a essa altura, ‘letras’ em francês, e a voz tenor ora é latina e litúrgica, ora latina e não-litúrgica, ou pode mesmo ter texto francês, como é o caso da famosa voz tenor de um moteto do manuscrito de Montpellier: ‘Fraise nouvelle!’ (São os primeiros morangos!), que é um pregão de Paris.”

yeratica” em latim é “verdadeira”, bem diferente do falso cognato!

Erwin Panofsky, o eminente historiador da imaginação criadora da Id. Média e do Renascimento, demonstrou claramente como a organização tripartida, às vezes quadripartida, torna-se um princípio de edificação tanto do pensamento como da arquitetura.”

a organização do gótico clássico prevê ‘uma nave tripartida, um transepto igualmente tripartido que se funde no antecoro quinquepartido…’”

Por outro lado, um dos grandes aspectos do pensamentos escolástico, que haveria de constituir uma aquisição duradoura na organização do saber, consiste em reunir todos os elementos do conhecimento sobre um mesmo assunto em sumas e, em seguida, distribuí-los, classificando-os por ordem de importância decrescente em capítulos, subcapítulos, seções, subseções, etc.”

Na arquitetura, o princípio da divisão dos elementos é identificável, p.ex., na divisão dos suportes em pilares principais, colunetas maiores, colunetas menores – subdivisíveis, por sua vez – ou ainda na divisão dos mainés em perfis primários, secundários, terciários. Ora, na esfera da notação do ritmo musical, a divisão dos valores de duração em longas, breves, semibreves, mínimas, que surge na mesma época, corresponde a uma preocupação semelhante, manifesta um mesmo hábito mental.”

Substituir a duração indeterminada dos melismas do cantochão por polifonias com tempo contado é introduzir, no templo de Deus, o tempo do mercador. Essa a razão pela qual os cirtercienses e os dominicanos rechaçaram energicamente de seus ofícios as polifonias compassadas.”

Os monges, em seu anonimato desinteressado, deixam de ter o monopólio da arte sacra, e os cavaleiros já não compõem, eles próprios, as obras que idealizam seu modo de viver.” “é o preciso momento em que a música, de ciência, passa a ser uma arte.”

MONOGRAFÍAS MUSICALES: Ensayo sobre Wagner / Mahler (…) (Obra completa vol. 13) – Adorno, 1971 (2008).

ENSAYO SOBRE WAGNER, 1939, 1952 (primera traducción de 1964).

Tras el fracaso de su estreno en provincias, La prohibición de amar, primera ópera de Wagner, cayó inmediatamente en el más profundo olvido, del que ni siquiera consiguió rescatarla el celo filológico en la época del apogeo de Wagner.”

Como primer servidor del gran todo, el dictador Rienzi renuncia al título de rey, como más tarde Lohengrin a la dignidad de duque. A cambio, acepta de antemano los laureles tan gustosamente como que es él mismo quien los dispensa.” “En esta espectacular pieza histórica casi se vislumbra ya una consciencia crítica del verdadero tipo del héroe como autocontemplación. El elogio de sí mismo y la pompa – rasgos de toda la producción wagneriana y existenciales del fascismo – nacen del presentimiento de la precariedad del terror burgués, de la condena a muerte que pesa sobre el heroísmo que se autoproclama. Quien duda de que lo por él creado le sobreviva busca en vida su gloria póstuma y celebra con desfiles festivos sus propias exequias. La muerte y la aniquilación acechan entre los bastidores wagnerianos de la libertad: las ruinas históricas del Capitolio bajo las que yace sepultado el héroe disfrazado de libertad son los modelos de las metafísicas que se desmoronan sobre los dioses despojados de su poder y el mundo culpable del Anillo.” “lo mismo que al final del tercer ato de Sigfrido Brunilda se entrega al amado por <una muerte risueña> en el momento en que cree despertar a la vida, así Isolda siente su muerte física como <supremo deleite>.”

Tal difamación del burgués que, sin embargo, en Los maestros cantores celebra rápidamente el gozoso renacimiento, sirve al mismo fin que en la era totalitaria.” “Wotan parece, sin duda, abogar por la rebelión, pero lo hace en aras de sus planes de imperialismo mundial y dentro de las categorías de libertad de acción – <no me ligan a ti, infame, los términos de un pacto> – y ruptura de pacto – <cuando se agitan las fuerzas de la osadía, yo aconsejo abiertamente la guerra> –.”

no en vano el periodo de su ascenso fue aquel de economía precaria en que la producción de óperas no gozaba ya de la seguridad de la corte ni tampoco todavía de la protección de la ley burguesa que reglamentaba las percepciones por derechos de autor. En un mundo profesional en el que un autor de éxito como Lortzing(*) murió de hambre, Wagner tuvo que ejercitar con virtuosismo la capacidad de alcanzar metas burguesas al precio de su propia dignidad burguesa. Ya pocas semanas después de huir de Dresde debido a su ostensible participación en el levantamiento de Bakunin, [¡] pidió por carta a Liszt que le consiguiese un salario de la gran duquesa de Weimar, el duque de Coburg y la princesa de Prusia.

(*) Gustav Albert L. (1801-51): compositor alemán, autor de 20 óperas mayoritariamente cómicas y sentimentales, ajenas a la tradición romántica y estructuradas en torno a la sucesión de números musicales separados por diálogos hablados.”

Su delito no es que engañe a los burgueses, sino que al apelar a la compasión reconoce a los dominantes y se identifica con ellos. El desenfreno en el mendigar podría sugerir una especial independencia de las normas burguesas. Pero tiene el sentido contrario. El poder del orden sobre el contestatorio es ya tan grande para éste que ni siquiera se produce ya un verdadero aislamiento, ni siquiera resistencias contra el todo” “Es la actitud del zalamero hijo de papá que trata de persuadirse a sí mismo y a los demás de que sus buenos padres no podrían negarle nada precisamente porque no lo hacen.”

¡Pese a todo mi coraje, muchas veces soy el más vil de los cobardes! No obstante tus generosos ofrecimientos, a menudo veo con verdadera angustia de muerte la mengua de mi peculio”

W. a Liszt

El mendicante W. contraviene los tabús de la moral burguesa del trabajo, pero su bendición es provechosa para la salvación del statu quo.” “El pedigüeño impotente se convierte en panegirista trágico. En una fase histórica posterior, estos rasgos cobraron la máxima significación cuando en situaciones difíciles los dictadores amenazaban con el suicidio, sufrían crisis de llanto en público y conferían a su voz un tono lloriqueante. Precisamente los puntos de descomposición del carácter burgués, en el sentido de la propia moral de éste, son preformas de su transformación en la era totalitaria. El Wagner posterior aún muestra la configuración de envidia, sentimentalismo e instinto destructor.”

Aún otro rasgo se nos reveló que, a decir verdad, no sólo valía para este último periodo de su vida. No se le podía ocultar nada; él lo sabía siempre todo. Si la señora Wagner quería sorprenderle con algo, él lo soñaba por la noche y se lo decía a ella por la mañana. (…) Con los extraños esta intuición se producía a menudo de un modo completamente demoníaco: él conocía los flancos débiles de su interlocutor con penetrante agudeza de mirada y así sucedía que, sin con ello querer herir a nadie, tocaba precisamente sus puntos débiles.”

Glasenapp

Los escritores entusiastas liberales gustan de aducir la amistad con Hermann Levi para demostrar lo inocuo del antisemitismo wagneriano. La crónica de Glasenapp, escrita con la intención de resaltar la filantropía y magnanimidad de Wagner, nos informa involuntariamente a este respecto.”

Un impulso sádico a la humillación, un humor conciliador y sentimental y, sobre todo, la voluntad de comprometer afectivamente consigo al maltratado se reúnen en la casuística del comportamiento de Wagner (…) Cada palabra conciliadora se acompaña de un nuevo aguijón hiriente. Es una especie de demonismo del que el mismo W. se acuerda cuando en su autobiografía cuenta cómo él mismo, por lo demás no teniendo totalmente regularizada su matrícula, participó junto a una horda de estudiantes en el saqueo de dos burdeles de Leipzig, sin ni en la narración tardía desprenderse del todo del envoltorio moralista que había cubierto aquel acto de limpieza”

Cuando W. pide compasión como víctima y para ello molesta a los poderosos, está dispuesto a insultar a las demás víctimas. Su juego del gato y el ratón con Levi tiene equivalente en su obra: Wotan apuesta la cabeza de Mime sin que éste lo acepte y contra su voluntad; el enano está a merced del dios como el invitado a la del anfitrión de Wahnfried.”

A quien tiene el dãno qué se le da un baño”

En Nibelheim, Wotan y Loge se ríen de los dolores de Mime. Sigfrido tortura al enano porque <no lo puede sufrir>, sin que el aura de augusto y noble le impida ensañarse con el impotente.”

La música de Wagner se comporta como el buen criado con sus malvados, y la comicidad de su tormento da placer no meramente a quien lo inflige, sino que también ahoga la pregunta por el porqué y proclama la ejecución sumaria como instancia suprema. Este carácter del humor wagneriano escandalizó a Liszt y Nietzsche en el trato personal. De ello da testimonio él mismo: <Wagner le dijo a la hermana de Nie.: ‘Su hermano es como Liszt, al que tampoco le gustan mis chanzas’> (Hildebrandt, Wagner und Nietzsche, 1924). Cuando en una famosa escena W. monta en cólera contra N. y éste se calla, W. le espeta que tiene tan buenos modales que aún llegaría muy lejos en la vida; él, W., toda su vida ha carecido de ellos.” “Hildebrandt, que debe a la escuela de George(*) el recelo hacia el humor, vio en el cinismo wagneriano de la autodenuncia la verdadera causa del conflicto con N.: <Pero hubo entonces una frase de W. que hirió profundamente a N.. Cuando un día – durante la última época de W. y N. juntos, en Sorrento – la conversación versó sobre la tibia acogida de las representaciones en Bayreuth, W., según cuenta la hermana de N., había señalado malhumorado: ahora los alemanes no quieren oír nada de dioses y héroes paganos, quieren ver algo cristiano>.

(*) Referencia a Stefan George (1868-1933), poeta simbolista alemán, opuesto al naturalismo y a la literatura social.” ¡Que se joda ese hombrecito!

todos los repudiados en la obra de W. son caricaturas de judíos.”

W. comparte las ideas antisemitas con otros representantes de lo que Marx llamaba el socialismo alemán en torno a 1848. Pero su antisemitismo se reconoce como idiosincrasia individual que se niega obstinadamente a toda discusión.”

Nuestro oído se ve ante todo afectado de manera sumamente extraña y desagradable por el sonido agudo, chillón, seseante y arrastrado de la pronunciación judía: un empleo de nuestra lengua nacional completamente impropio y una alteración arbitraria de las palabras y de las construcciones de las frases dan más aún a esta pronunciación el carácter de una farfulla confusa e insoportable por la que involuntariamente prestamos más atención a ese cómo desagradable que al qué del discurso judío”

W.

Su propia apariencia física, desproporcionadamente pequeña en relación con la enorme cabeza y el prominente mentón, rayaba en lo anormal y sólo la fama lo protegía del ridículo.”

Pero el hecho de que todos los rumores sobre la propia ascendencia judía de W. se remonten, según la argumentación de Newman [biógrafo de W.], al mismo Nietzsche, que salió al paso del antisemitismo wagneriano, se explica precisamente por lo siguiente. N. conocía el misterio de la idiosincrasia wagneriana y al enunciarlo rompió el sortilegio.”

A quien se une a los verdaderos culpables las relaciones sociales se le aparecen como obra de conspiraciones secretas. Del asco por el judío forma parte imaginarlo como poder mundial. En el artículo sobre el judaísmo en la música W. achacó todas las resistencias a su obra a imaginarias conspiraciones judías, mientras el presunto culpable principal de esas intrigas, Meyerbeer, lo había apoyado activamente hasta que él lo atacó públicamente.”

(*) “J.A. Gobineau (1816-82): diplomático y escritor francés, autor de Ensayo sobre la desigualdad de las razas humanas (1853-5), donde pretende aportar una base física y realista a la teoría de la superioridad de la raza germánica. Su doctrina fue aprovechada por los pangermanistas y el nacionalsocialismo hitleriano.”

Pero cuando luchábamos por la emancipación de los judíos, propiamente hablando, éramos más combatientes por un principio abstracto que por el caso concreto: del mismo modo que todo nuestro liberalismo no era más que un juego intelectual no muy clarividente, pues promovíamos la libertad del pueblo sin conocer a este pueblo y aun evitando todo contacto efectivo con él, nuestro empeño en la igualdad de derechos para los judíos era más el resultado de una excitación producida por una idea general que de una auténtica simpatía; pues, a pesar de todos los discursos y escritos a favor de la emancipación de los judíos, en nuestro contacto efectivo y práctico con judíos siempre sentíamos una repulsión involuntaria hacia ellos.”

El antisemitismo wagneriano reúne en sí todos los ingredientes del posterior. El odio llega tan lejos que, según Glasenapp, la noticia de la muerte de 400 judíos en el incendio del Ringtheater de Viena le inspiró una chanza.”

para un judío convertirse en hombre al mismo tiempo que nosotros significa, ante todo, dejar de ser judío. (…) ¡Participad sin prevención en esta obra de redención regeneradora mediante el autoexterminio y entonces estaremos unidos y seremos indistintos!”

A lenda do judeu errante tem origem provável na Constantinopla do IV d.C.. Seria um Ahasvero, sapateiro da idade de Cristo, que se negou a apoiar a cruz deste no caminho para o Gólgota.

– Anda!

– Também tu andarás até o fim dos tempos!

Nessa bravata panfletária de Wagner confunde0m-se a idéia marxista da emancipação social dos judeus como a emancipação da sociedade com respeito ao benefício que os próprios judeus simbolizam, e a idéia do extermínio judeu.”

Se nossa cultura vai a pique, isso não supõe dano algum em absoluto; mas se vai a pique por causa dos judeus, será uma desonra!”

W.

No sinistro círculo mágico da reação de W. estão gravados os sinais tipográficos que sua obra tomou emprestados de seu caráter.”

Schubert pertenece a los músicos de café-concierto, Chopin al tipo difícil de definir de los <de salón>, Schumann al de la oleografía, Brahms al del profesor de música: es avecindándose al máximo a la parodia como se ha afirmado su fuerza de producción, y su grandeza reside en la escasa distancia que los separa de esos modelos, de los cuales al mismo tiempo extraen sus energías colectivas. No es tan fácil encontrar un modelo de este género para W.. Pero el coro de indignación que respondió a Thomas Mann cuando en relación con el nombre de W. mencionó el del diletante indica que tocó un punto neurálgico. Merece reflexión su relación con las diversas artes con las que creó su <obra de arte total>

a arte de W. é um diletantismo monumentalizado e levado ao genial com uma força de vontade e uma inteligência extremas. A idéia mesma de uma fusão das artes tem algo de diletante e seu autor teria permanecido no estreito campo do diletantismo não fosse o extremo vigor com que submeteu cada campo a um extraordinário gênio expressivo.”

ainda na fase tardia dos Mestres cantores podem-se observar falhas na modulação e no equilíbrio harmônico.”

Não só abraçou a profissão burguesa de diretor de orquestra como escreveu a primeira música de grande estilo para diretor de orquestra.”

Nele, desde o princípio, a alienação do público alia-se ao cálculo do efeito sobre o público”

escrevia para pessoas pouco musicais”

Na Sinfonia fantástica, a idée fixe de Berlioz, modelo imediato para o Leitmotiv, simboliza uma obsessão que mais tarde, com o nome de spleen, aparece no centro da obra de Baudelaire. Aí já não se pode mais abdicar desta idéia. Ante sua hegemonia irracional, o selo do incomparável, o sujeito deixa-se levar. Segundo o programa de Berlioz, a idéia fixa se parece com o intoxicado pelo ópio. É a projeção para fora de um elemento ele mesmo secretamente subjetivo e ao mesmo tempo alheio ao eu, projeção na qual o eu se perde como numa quimera. O Leitmotiv wagneriano segue atado a este origem. Mesmo que não haja um motivo, há uma espécie de livre associação. É que o procedimento wagneriano conta já com aquilo que cem anos mais tarde a psicologia batizou como debilidade do eu.”

Ouvir à maior distância significa o mesmo que ouvir menos atentamente. Tendo como parâmetro a lassidão burguesa em período ocioso, o público de espetáculos monstruosos de várias horas de duração é imaginado distraído e vagante na corrente da música, logo esta música, cujo próprio autor e diretor vai impondo ao público a marteladas, com estrépito e incontáveis repetições.”

No séc. XVII os diretores ainda marcavam o compasso com bastões”

a idéia de orquestra sem diretor não carece de base empírico-crítica. Em W., a primazia do diretor na composição é absoluta.”

Wagner não lia a partitura, tinha de saber toda a composição de cor.

Todo Lohengrin, con excepción de una ínfima parte, está escrito en un tipo de compás binario, como si la igualdad de los tiempos permitiera dominar de un solo vistazo escenas enteras, de manera parecida a como por <reducción> se simplifican quebrados aritméticos.”

Quando se domina completamente de memória uma obra em todos os seus detalhes, se produzem não poucos momentos em que a consciência do tempo desaparece de repente e toda a obra se apresenta simultaneamente na consciência, eu diria que <espacialmente>, tudo com a máxima exatidão.”

Alfred Lorenz, pianista

Não que Wagner vá nisto tão longe quanto Beethoven em suas sinfonias: “De modo que la espacialización de la extensión del tiempo sospechada por Lorenz en Wagner es mera ilusión: solamente por contenidos parciales dependientes, sin relieve, puede la representación de la marcación del compás mantener sin fisuras el dominio total, y la tan censurada debilidad melódica de W. no se basa en una simple falta de <inspiración>, sino en el gesto de marcar el compás que domina su obra.”

A consciência musical de W. se submete a uma curiosa involução: é como se o temor à mímica – que foi fazendo-se cada vez mais forte no decorrer da história da racionalização ocidental e contribuiu não pouco à cristalização de uma lógica da música autônoma, análoga à lógica da linguagem – não tivesse pleno poder sobre Wagner. Seu modo de compor se retrai a um elemento pré-lingüístico” “É nessa regressão que se fundamenta o <histrionismo> wagneriano, o chocante de seu proceder, que com razão Paul Bekker considerou sem ressalvas como o núcleo da obra de arte wagneriana.”

à maneira, por exemplo, como os agitadores substituem com gestos verbais a evolução discursiva do pensamento.”

Decerto que no fundo a música sempre traz esse elemento gestual. Mas no Ocidente isso foi espiritualizado e internalizado como expressão, ao passo que todo o discurso musical se submete à síntese lógica pela construção; a grande música se esforçou pelo nivelamento de ambos os elementos [espírito e aparência; vontade e representação]. Wagner se opõe; sua música, nisso análoga à filosofia de Schopenhauer, não consuma nenhuma história em sua autossuficiência. O momento expressivo potenciado ao máximo mal se contém no espaço interior, na ‘consciência do tempo’, desprendendo-se como gesto. Isto produz essa sensação de desagradável, que não cessa de ferir o ouvinte. Eis a insipidez da morte de uma cultura.”

O diretor wagneriano (que compõe) representa e reprime a exigência do indivíduo burguês de ser ouvido. É o porta-voz da nação e a obriga à obediência. Como a música é a imagem da coisa (da alienação), os gestos são a alma que restou. Mas esses dois elementos não são conciliáveis, eis a íntima contradição – técnica e social – da música de Wagner.”

La secuencia de W. es diametralmente opuesta a la del Beethoven sinfónico. Por principio excluye el trabajo <fragmentario> del clasicismo vienés. (…) La antifonía vienesa había refundido todo lo gestual en principio espiritual del desarrollo, y sólo con violencia pudo W. reinterpretarla como la danza o la <apoteosis> de ésta, del mismo modo que la obertura de la antigua suite, de la que nació la forma sonata, se distinguía de las subsiguientes danzas de la suite precisamente por el hecho de que no se presentaba a sí misma como forma estilizada de danza.”

se no sinfonismo o curso temporal se converte em instante, o gesto de W. é imutável, alheio ao tempo. Em sua repetição impotente, a música se submete ao tempo, que no sinfonismo dominava.”

Talvez o aborrecimento do ouvinte não-iniciado ante uma obra de W. do período maduro não seja somente signo de uma consciência pedestre que capitula ante a pretensão do sublime, senão também de uma incompreensão diante da descontinuidade da experiência temporal no mesmo drama musical.” “Integrada no todo e reificada, a emoção mimética degenera em mera imitação e finalmente em mentira.” “O comportamento compositivo se converte em agente de ideologia já antes de que esta se introduza literariamente nos dramas musicais.” “a emoção expressiva, ao aparecer pela segunda vez, se converte em comentário enfático de si mesma.”

Lorenz llega a comprender la totalidad de Los maestros cantores como un único <gigantesco Bar>.”

Com a lei formal da onda W. tentou superar musicalmente a contradição entre expressão e gesto muito antes de que o racionalizara por meio da filosofia schopenhaueriana. Ele visa a conciliar a falta de desenvolvimento no gesto com a irrepetibilidade da expressão fazendo com que o gesto se retraia a si mesmo. A si mesmo, i.e., ao tempo. Este, se não o domina como Beethoven, tampouco o preenche como Schubert. Revoga-o. A eternidade da música wagneriana, paralela à do poema do Anel, é a do <nada aconteceu>; a de uma invariância que desmente toda a história com a natureza sem linguagem. As filhas do Rin, que no princípio brincam com o ouro e no desfecho recuperam-no para brincar, são a conclusão última da sabedoria e da música de W.. (…) Isto tudo a concepção wagneriana da forma o representa mais penetrantemente que qualquer de suas opiniões filosóficas. Mas o princípio estético da forma, ao contrário de Schopenhauer, é transfigurado e convertido em equilíbrio reconfortante, que é intolerável no mundo social real que a obra de Wagner repele.”

Nota mental: ler Gaia-Ciência ouvindo Wagner.

A compreensão da função do Bar implica a crítica da forma wagneriana. Lorenz, que ataca com veemência a frase reacionariamente formulada de maneira maquinal desde Nietzsche sobre a falta de forma em W., está, todavia, mais interessado na organização das macroformas que no <trabalho temático>. (…) Mas a verdade é que em Wagner não há realmente nada que analisar na microforma. Para dizer melhor, W. só sabe de motivos e macroformas, nada de temas. A repetição faz as vezes de desenvolvimento, a transposição de trabalho temático, e, ao revés, o liricamente irrepetível, a canção, é tratado como se fôra dança.”

(*) “Hans Paul Freiherr von Wolzogen (1848-1938): dramaturgo, crítico musical e redator das Bayreuther Blätter, fiel servidor de W. e provável inventor do conceito de Leitmotiv.”

Enquanto que a música de W. suscita incessantemente aparência, expectativa e exigência do novo, no sentido mais estrito nela nada de novo sucede. É isso que Nietzsche e sucedâneos querem dizer. Esta ausência não provém do caótico, mas da falsa identidade. O idêntico se apresenta como se fosse novo e substitui em conseqüência, pela sucessão temporal abstrata dos compassos, o processo dialético do conteúdo em sua música, sua historicidade interna. O miolo da construção wagneriana da forma está oco: o desdobramento no tempo, a que apesar de tudo aspira, é inautêntico. (…) Não é por acaso que as análises de Lorenz possam-se registrar em tábuas, suporte tão alheio ao tempo como a própria organização wagneriana da forma. Em que pese toda sua meticulosidade, resulta disso um jogo gráfico que não é capaz de descrever a música real.”

Toda música cíclica era decepcionante até o tempo de Adorno? Hoje é sinônimo de puro prazer e deleite!

Sou incapaz de lembrá-lo, mas também não o esqueço” Sachs

O Leitmotiv remonta, muito além de Berlioz, à música programática do séc. XVII, quando ainda não imperava uma lógica da linguagem musical obrigatória, e seria melhor compreender esta origem somente sob o aspecto alegórico do que sob o jogo pueril de efeitos de eco e análogos.”

A necessidade de que a música de W. fosse comentada e resenhada foi desde sempre a declaração da bancarrota da própria estética wagneriana do imediatamente uno. A decadência do Leitmotiv é imanente a este: leva diretamente, passando pela elástica técnica de ilustração de Richard Strauss, à música de cinema, onde o Leitmotiv unicamente anuncia heróis ou situações a fim de que o espectador se oriente mais rapidamente.”

Só mesmo num contexto harmônico articulado pode o motivo responder, pode a mesma técnica da seqüência progressiva produzir este sentido alegórico que exige o leitmotivismo e que em grande medida possui seu esquema na triplicidade do Bar.”

Ao contrário, do amor, a música de cinema já não é assim um elogio…

Diante da décadence wagneriana se anuncia hoje em dia uma decadência, a de que precisamente esta sensibilidade abandonara os músicos e estes inclusive suspiram pelas cadeias em que Wagner tratava de se sacudir.”

O fato de que Wagner desenvolvera este análogo do procedimento impressionista na pintura sem consciência disso assinala a unidade das forças de produção da época não menos que o isolamento dos domínios particulares produzidos pela divisão do trabalho entre si.”

Na atmosfera wagneriana já está latente algo daquela do filisteu furioso que logo lançou o anátema contra todos os <ismos>. Quanto mais progridem a tecnificação da obra de arte, a planificação racional do procedimento e, portanto, o efeito, tanto mais ansiosamente a música medita como deverá parecer espontânea, imediata, natural, e como dissimular-se-á a vontade de estruturação do seu autor. Em contradição com sua práxis, sua ideologia nega o dissolvente, desagregador, analogamente a como logo, logo isto se expressará brutal e primitivamente na recusa sumária de toda nova arte por parte de Cósima na correspondência com o nacional-socialista Chamberlain.

(*) Houston Stewart Chamberlain (1855-1927): escritor germanófilo de origem britânica. Admirador, biógrafo e genro de Wagner, suas teorias racistas, em grande parte devedoras de Gobineau, foram uma importante fonte de inspiração para o nazismo.”

Wagner foi um impressionista apesar de si mesmo, conforme o estado atrasado das forças produtivas humanas e técnicas e portanto também da doutrina estética na Alemanha de meados do séc. XIX.” “Nenhuma comparação de W. com o impressionismo seria pertinente se não se recordara ao mesmo tempo que o credo do simbolismo universal, ao qual estão sujeitas todas as suas conquistas técnicas, pertence a Puvis de Chavannes, e não a Monet.

(*) Pierre Cécil Puvis de Chavannes (1824-98): pintor e desenhista simbolista francês.”

O que leva a totalidade wagneriana ao desastre não é tanto a nulidade do individual como o fato de que o átomo, o motivo caracterizador, deve, precisamente em virtude da característica, sempre aparecer como se fôra algo, exigência esta às vezes não satisfeita. Os temas e motivos se unem para formar uma espécie de pseudo-história.” “Em Beethoven, o individual, a <inspiração>, é ao mesmo tempo sublime e nulo cada vez que a idéia de totalidade tem a preeminência; o motivo se introduz como algo em si totalmente abstrato, exclusivamente como princípio do puro devir, e, posto que o todo se desdobra a partir daí, o individual, que desaparece no todo, é ao mesmo tempo concretado e afirmado também por aquele. Em W., o individual cheio nega a nulidade que não obstante possui enquanto gesto pré-lingüístico.”

Quanto mais triunfalmente se executa a música de W., tanto menos ela vê em si um inimigo a subjugar; o triunfo burguês sempre silenciou, com sua gritaria, a mentira do ato heróico. Precisamente a ausência de um material dialético sobre o qual a arte poderia ratificar o próprio triunfo condena as totalidades wagnerianas à mera duração. O fato de que motivos como o da espada ou da chamada do berrante de Sigfrido não são domináveis por arte da forma alguma é evidente: a censura de carência de inspiração melódica concerne menos a uma falta de capacidade subjetiva que objetiva. (…) De modo que o respeito constante pela eficácia e a inteligibilidade que permite a W. recorrer a motivos semelhantes a sinais produz uma falta de plasticidade e uma inconseqüência técnica no discurso. Isso fica patente logo no prelúdio do Lohengrin. (…) Sua melodia inicial carece de inteligibilidade, pois se obstina em duas notas, mi e fá sustenido, sem que sua repetição se planteie como temática, unívoca.” “Paradoxalmente, nem na teoria nem em seu próprio procedimento, salvo no Tristão, o cromático W. se livrara totalmente de certa apreensão diante da modulação. Sem o contrapeso das partes diatônicas do gênero do antecedente, a riqueza de graus e a condução cromática das vozes criaria aquele esoterismo que W. temia como a própria morte.” “Os passos de semitom <à parte>, sentidos como estímulo, de Tristão, não se distinguem entre si mais que, ao revés, podem-se reter apropriadamente como melos as fanfarras arcaizantes.”

A inspiração é uma categoria musical recente. Durante o XVII e princípios do XVIII se a reconhecia tão pouco quanto os direitos de propriedade sobre canções. A inspiração nada mais é do que pegadas que o compositor, monadologicamente isolado, optava por deixar no material musical como caracteres, i.e., indícios de estilo. Mas eis que a obra de Wagner aspira a destruir, a fazer desaparecer o ‘estilo’ incrustado no material natural. A força do protesto, que equivale à da inspiração, se encontra, nele, anulada, e o ser-em-si alienado de um material, com o qual o compositor acaba por se defrontar tanto mais impotentemente quanto mais aprende a dominá-lo, é elevado à essência como orientação desesperada. A técnica compositiva de Wagner, tanto como seus textos, têm a tendência de dissolver todo o determinado, tudo aquilo que tem um nome no um e no todo, seja na ‘proto’-tríada ou na gama cromática. A hostilidade de W. aos tipos termina absurdamente no anônimo, inespecífico, abstrato; de modo que, p.ex., em Max Reger poder-se-ia acabar transpondo qualquer tema e qualquer compasso de sua obra a qualquer outro, ao passo que já nos seus sucessores neo-alemães Strauss e Pfitzner a fragilidade interna do material motívico se faz manifesta nos extremos de banalidade fanfarrona e de vacuidade sem remédio.”

as seções, comparadas com o fragmento mais simples de Mozart, são em si de uma assombrosa pobreza figurativa. (…) As únicas passagens estritamente contrapontísticas são combinações de temas.”

Os cabos da melodia infinita se mostram com assaz clareza.” “Tanto mais intenso e perdurável, no entanto, foi, em W., o efeito de um meio estilístico estreitamente ligado à melodia infinita: o Sprechgesang (a fala cantada). Este pressupõe que já não se reconheça o desmembramento tradicional da melodia, que o discurso horizontal fique eximido dos controles duma construção regular dos versos e estrofes, e que esta dispensa seja aplicada ao tratamento musical do texto mesmo. (…) Como se sabe, o Sprechgesang wagneriano deriva em geral do recitativo accompagnato, por mais que desde o início W. protestasse contra sua confusão com o recitativo.” “Com gosto, dir-se-ia que compositores de óperas como Rossini e Auber devem precisamente a tais peculiaridades a reputação de engenhosos.”

Na ópera cômica, é mais fácil distinguir as palavras do cantor que “declama”; na ópera clássica pré-romântica, quase impossível: “W. se esforça por fundir a opera buffa e a opera seria como antes o classicismo fez com os estilos <galante> e <douto>.” Dessa perspectiva, a ópera de W. pode ser entendida como uma continuação, e não ruptura, com os cânones já presentes em A flauta mágica, Don Juan e Fidelio.

A opera seria vem da aristocracia feudal; a bufa, da burguesia. “W. conciliou ambas sob o primado da burguesia.”

O W. progressista modificou a forma sujeita da linguagem de tal modo que a entonação musical não se visse perturbada e se dobrasse como a prosa ao pensamento tanto quanto à música; o reacionário agregou-lhe um elemento mágico, realizando um gesto idiomático que finge um estado existente antes da separação em verso e prosa.” “nisso W. se aproxima ao máximo de Mussorgski, a quem não conhecia em absoluto.”

O mesmo W., cujo ponto fraco era a formação de caracteres puramente musicais, se mostra inigualável na tradução em música de caracteres expressivos.”

Para o drama, parece demasiado ideológico: é incapaz de relegar ao espírito com respeito à coisa mesma, de fazê-lo falar unicamente a partir desta, senão que como artista sente-se sempre simultaneamente no papel de apologeta que deve tomar a palavra ele mesmo.”

Esta função das personagens serve para retração do tempo musical. Os grandes relatos de Wotan no segundo ato d’A valquíria, de Sigfrido antes de sua morte, carecem de fundamento dramatúrgico. (…) Mas, em passagens decisivas, como a da negação da vontade por parte de Wotan e o da destruição da única esperança, põem a ação mesma no passado, de igual modo que segundo seu sentido formal o gesto do Bar se retrai a si mesmo sobre o corpo. (…) [Para que o efeito de fusão entre espectador, música, cantor e herói seja satisfatório,] É preciso que o poeta que fala afirme, vestido como <maestro>, a identidade mítica com suas próprias criaturas, que remedeia musicalmente suas figuras como o ator destas. Isso explica a ambigüidade de seu proceder musical, que confunde entre si a reflexão lírica do personagem do drama e a imediatez gestual-afetiva do diretor.”

As contradições que sustentam a estrutura formal e melódica de W. – condição necessária do tecnicamente frágil – se determinam em geral pelo fato de que o regressivamente sempre igual se apresenta como sempre novo, o estático como dinâmico, ou de que, ao revés, segundo o próprio sentido, categorias dinâmicas se identificam com caracteres anti-históricos, pré-subjetivos. O compor de W. só não é inconsistente porque imediatamente se pressente como estático num grau ultimado, o que já ultrapassa o Ser no sentido da ideologia ontológica de meados do séc. XX, como p.ex. em Stravinski. Stravinski, sendo conscientemente ‘pré-histórico’, é um dos antípodas absolutos da estética wagneriana. Stravinski libera a regressão em figuras sempre novas; como na [regressão] fascista, em sua ideologia estética se abjura do conceito de ‘progresso’. Nos cem anos que lhe foram anteriores, que se enraízam no liberalismo, mas nos quais já se manifesta a própria regressão antecipatória dessa raiz, inclusive, quisera-se afirmar o elemento regressivo em si como progressista, a estática como dinâmica, expoente de uma classe que está já objetivamente ameaçada pela tendência histórica sem, não obstante, segundo a própria consciência, experimentar-se, por isso, como historicamente condenada, e que em lugar disso projeta o previsível final da própria dinâmica como catástrofe metafísica sobre o princípio do Ser.”

é o elemento, propriamente falando, produtivo de W. aquele em que o sujeito renuncia à soberania, se entrega passivamente ao arcaico – o fundo instintivo –; ao elemento que, justamente graças a sua emancipação, abandona a pretensão, tornada incumprível, de configurar o decurso temporal como pleno de sentido. Mas este elemento é, em suas duas dimensões, a harmônica e a colorista, o som. Este é quem parece fixar no tempo e no espaço e, assim como enquanto harmonia <preenche> o espaço, o mesmo número de cores, para o qual a teoria da música não conhece outro, se toma emprestado da esfera ótico-espacial.”

se em W. a música regressa ao meio, estranho ao tempo, do som, em troca é precisamente sua própria distância em relação com o tempo o que permite desenvolvê-lo ulteriormente sem nenhuma trava por parte das tendências que uma e outra vez paralisam suas obras na dimensão temporal.”

figuras como o motivo do sonho no Anel parecem fórmulas mágicas, capazes de extrair todos os achados harmônicos posteriores do contínuo das 12 notas. Mais ainda que na tendência à atomização, W. antecipa o impressionismo na harmonia.”

Sigfrido contém uma passagem segundo o efeito, se não segundo a letra harmônica, politonal, oscilante entre dó maior e fá menor, antes das palavras de Mime <tua mãe me deu isto>”

Em todas as coisas alheias a sua mais estrita competência profissional é inquestionável a propensão de W. a adotar o partido dos clássicos autoritários contra os <modernos>: o postulado nietzscheano do extemporâneo foi distorcido no autor do Tristão, ídolo dos simbolistas parisienses até Mallarmé, até se converter em enfatuação maliciosa.”

Ao mesmo tempo, seus achados harmônicos levam mais além do impressionismo, ao menos do impressionismo dos sucessores alemães de W..”

No momento do grande arrebatamento de Wotan, antes das palavras <Oh, sagrada infâmia!>, n’A valquíria, aparece um acorde que contém 6 notas diferentes (dó, fá, lá bemol, ré bemol, dó bemol, mi duplo bemol) e que, por assim dizer, não se resolve”

Na sua origem, a tendência à evolução cromática do período romântico era progressista. Esta adquiriu em W., pela 1ª vez, no emprego total de sensíveis a barulho e sem resistência, algo de nivelador e estacionário. (…) Precisamente quando finalmente total, o cromatismo produz por si mesmo resistências, fortes graus secundários, que de nenhum modo substituem já meramente a tônica e a dominante. Kurth em particular não fez justiça ao fato.”

gratuitos rabiscos de dissonâncias”

(*) “Hugo Riemann (1849-1919): musicólogo e pedagogo alemão, autor de um Dicionário de música e vários livros sobre teoria e história da música.”

no período estilístico de W. as dissonâncias adotaram o caráter de subjetividade autárquica: protestam contra a instância social reguladora. Toda a energia está do lado da dissonância”

(*) “Simon Sechter (1788-1867): compositor, musicólogo e pedagogo austríaco, que teve como alunos em sua cátedra de contraponto em Viena Bruckner e, rapidamente, pouco antes de que esse morrera, em 1828, a Schubert.”

CONTRA A VISÃO “FUNCIONALISTA” NA MÚSICA: “A funcionalidade, a mediação entre tensão e solução, que não admite nenhum excedente, nada que fique de fora, este procedimento não deve se entender demasiado primitivamente, nem literalmente nem a curto prazo. A práxis harmônica de W. de maneira alguma se esgota no conceito de transição.”

No Parsifal, que submete todos os componentes da música meramente decorativos a uma incipiente crítica, em ocasiões as dissonâncias vencem abertamente pela primeira vez na música clássica, e explodem a convenção da solução, erigindo em seu lugar a árida monodia. [ver glossário]” “pôs no centro de sua obra 8 compassos que por toda sua fatura alcançam o umbral da atonalidade.”

Em Beethoven e até no alto-romantismo os valores expressivos harmônicos estão rigidamente fixados: a dissonância representa o negativo e o sofrimento, a consonância a positividade e o cumprimento [ver glossário, em BAR]. Isso em W. muda no sentido da diferenciação subjetiva dos valeurs sentimentais harmônicos. P.ex., o acorde característico cujo subtítulo reza <o mandato da primavera, a doce necessidade>, e que n’Os mestres cantores representa o momento da pulsão erótica e portanto o agens, patentiza sem remendos o sofrimento e a incompletude tanto como o prazer que se dá na tensão, na falta de consunção mesma: é doce e pura necessidade ao mesmo tempo. O fato de que o sofrimento pode ser doce (…) os ouvintes aprenderam dele” Quão nietzscheano!

Poucas coisas seduziram tanto na música de Wagner quanto o gozo do tormento.”

Certamente há por toda parte funções riemannianas, mas não <harmonia funcional> no sentido da teoria de Schönberg” “A aversão natural de W. pela modulação, esse resíduo particularmente conservador que tão facilmente se associa de novo ao procedimento de mera translação mediante sensíveis, priva a harmonia wagneriana de sua melhor possibilidade, a da organização formal em profundidade, tal como, p.ex., concebeu-a tão torpe e superficialmente um aluno de Sechter (Bruckner). Se nalguma ocasião W. se decide pela modulação, como para, no prelúdio d’Os mestres cantores, escapar da vizinhança do demasiadamente obstinado dó maior, então a modulação, que nunca se desprende totalmente da translação, reveste um aspecto peculiarmente arbitrário, e em seu caráter abrupto perde facilmente a compensação formal com as partes compridas que a precedem com suas escalas próprias; mas disso volta a extrair, como pressuposto, estimulantes do efeito. Os limites da configuração formal de W. são também os de sua harmonia.”

Las notas tenidas del bajo pulen la escritura armónica: siempre hay menos notas del bajo que acontecimientos armónicos. De ahí resulta una cierta pesadez, la característica viscosidad del discurso. Ésa es sin duda la herencia de la diletante pobreza de grados del joven W. (…) El W. maduro supo hacer de tal necesidad la virtud de la ambigüedad armónica.”

O Lohengrin o demonstra na visão de Elsa plenamente elaborada com esses 8 compassos citados como paradigma wagneriano, os quais modulam de lá bemol maior a dó bemol maior, si menor, ré maior, ré menor, fá maior-menor até voltar a lá bemol maior. A argúcia consiste na reinterpretação do dó bemol como si. O intercâmbio enarmônico tem aí o efeito do inesperado, do imprévu no sentido berlioziano. Esse efeito de surpresa, p.ex. o do sol bemol por trás da frase <te considero nobre, livre e grande!>, faz ainda saltar, crassamente e sem mediação, a estrutura no Rienzi. (…) Porém, na madurez wagneriana, i.e., no Lohengrin, a enarmonia volta a integrá-lo no conjunto da composição. O novo é ao mesmo tempo o antigo: isto se reconhece e se torna facilmente compreensível no novo. <Soava tão antigo e era, ao contrário, tão novo>: isso poderia constituir a regra da enarmonia wagneriana e, na verdade, a de toda a harmonia wagneriana.”

Escreve-se formulaicamente o que nunca foi.

Estas associações só se fazem completamente inteligíveis a partir do material mais avançado da música contemporânea, a qual já aboliu a continuidade da transição wagneriana.”

Richard Strauss assinala que cada obra de W. tem seu próprio estilo de instrumentação e inclusive sua própria orquestra, e a capacidade de W. para a estilização instrumental está tão desenvolvida que inclusive no interior da unidade estilística do Anel as 4 óperas se distinguem entre si por seu caráter sonoro específico.”

O tratamento distinto dos oboés é, em sentido negativo, uma das inovações mais importantes de W. com respeito aos procedimentos tradicionais. No esquema tradicional da partitura, os oboés se situam sobre os clarinetes e no classicismo vienense a maior parte das vezes se os coloca na mesma sobreposição. (…) já W. só os utilizou de modo solo ou em tutti forte, mas essa sobreposição alternativa já era indiscutivelmente uma fuga do papel de segundo soprano natural da seção de ventos para o oboé.”

Entre flauta e clarinete em uníssono [duplicação criada por W.] se produz uma espécie de som de interferência, flutuante, vibrante. Desaparecem, neste, os caracteres específicos de ambos os instrumentos; se tornam indistinguíveis; um músico desprevenido não poderia relatar a origem do som. Nisso, este novo som emula o órgão [em que, pode-se dizer, há, no movimento forte, o amálgama já da corda acionada pela tecla e da madeira, em que ela bate].” “Se os clarinetes nivelam a arcaica irracionalidade das flautas, o clarinete baixo reforça o baixo, já passado de moda, das madeiras, o fagot.”

Com a introdução de válvulas ganhou-se indiscutivelmente tanto para este instrumento [a trompa] que resulta difícil passar por alto este aperfeiçoamento, ainda que com ele a trompa tenha perdido, inegavelmente, em beleza tímbrica, como também, e em especial, na capacidade para ligar os sons com suavidade. Devido a essa grande perda, sem dúvida o compositor interessado na conservação do autêntico caráter da trompa deveria ter-se abstido do emprego da trompa de válvulas, isso imaginando que esse mesmo compositor não houvera feito a constatação de que, mediante um treinamento particularmente atento, artistas excelentes podem superar as desvantagens indicadas até a quase imperceptibilidade, de modo que, no que se refere ao som e à ligação, mal se pode advertir a diferença.”

W. sobre o Tristão

Quien jamás ha oído una trompa natural junto a una trompa de válvulas no puede preguntarse dónde se ha de buscar el <auténtico carácter> de la trompa cuya pérdida él lloraba. (…) un sonido <suena como trompa> en cuanto se percibe que es tocado por la trompa” “igualmente incuestionable es que el sonido pedalizado del piano se distingue del sonido no pedalizado por el hecho de que de aquél la huella de la producción queda borrada en el instante en que el macillo golpea la cuerda.”

según una expresión de Alban Berg, el instrumentador tiene que comportarse como un carpintero, el cual controla que en su mesa los clavos no asoman y que el olor de la cola no sigue siendo perceptible, así en el jazz las trompetas con sordina pueden sonar como saxofones y viceversa, e incluso la parte vocal susurrante o transmitida por el pabellón se les asemeja. La idea de un continuo eléctrico de todos los colores sonoros posibles llevó esta tendencia a la fórmula radical: la mecánica.”

la famosa <simplicidad> de la instrumentación de Parsifal es, por comparación con Tristán, Los maestros cantores y el Anillo, no meramente reaccionaria, no meramente falsamente sacra, sino que también ejerce una crítica legítima de las componentes ornamentales en el estilo de instrumentación característico de W.. En Parsifal no hay meramente santurrones pasajes para los metales, sino al mismo tiempo un lúgubre amortiguamiento del sonido como el que en las últimas obras de Mahler y luego en la Escuela de Viena se hizo dominante.”

Schreker, discípulo de W., mais wagneriano que o próprio, apologista do tutti e abominador do solo: “Nada soa mais perturbador que, p.ex., uma celesta que se ouve sozinha… Nego… o som demasiado nítido, diferenciável e em favor da ópera não quero reconhecer mais do que um instrumento: a orquestra mesma!”

O direito crítico dessa exigência se tornou bastante rapidamente farisaísmo prosaico, em tempos de perda da arte da instrumentação, que aliás foram apressados sucessores do próprio triunfo da arte da instrumentação, que pouco sobreviveu a W..”

o estilo compositivo mozartiano de nenhuma maneira busca a continuidade: antes justapõe unidades monádicas, equilibra-as, contrasta as seções de cordas e ventos segundo uma maneira concertante mais antiga.”

o insípido som do violino conta-se entre as grandes inovações da época cartesiana.”

Na música, que enquanto arte burguesa era ainda jovem, brotam, com a instrumentação, seus últimos galhos.” “Quem compreendesse por que Haydn dobra em piano [movimento suave] os violinos com uma flauta poderia entrever desde então por que há milhares de anos a humanidade renunciara a comer trigo cru e começara a assar o pão, ou por que alisara e polira seus utensílios.”

Quanto mais obra de arte, menos obra, pois mais metafísica, já-feita desde a eternidade, já dada. Obra de arte dada não é criada. A criada e o mestre. Quanto mais mundana, mais sagrada. Quanto mais sacra, mais anti-arte. Quanto mais arte, menos arte, quanto menos arte, mais mundo.

Isto é um charuto; e se não fôra o homem faria com que fôra! A transparência da cal.

UM BENJAMIN SOPROU EM MEU OUVIDO: “A conversão da obra de arte em mágica conduz a que os homens venerem como sagrado seu próprio trabalho, pois não podem reconhecê-lo como tal.”

Muitos filhos ele tem

Muitos quadros ele compra

Muitos livros ele escreve

Muitos álbuns ele caga

Muitos filmes ele co-leciona

Un arte dañada para un hombre dañado!

As óperas de W. tendem ao espelhismo, tal como Schopenhauer chama o <lado exterior da mercadoria ruim>: à fantasmagoria.” “Até sua autodissolução em Schreker, a escola neo-alemã se ateve à idéia do <som distante> como a do espelhismo acústico; a da sonoridade na qual a música, espacializada, se detém numa imbricação do próximo e do distante tão enganosa como a consoladora Fata Morgana,¹ aproxima-nos as cidades e caravanas desde sua distância como espetáculo natural e de forma mágica transforma plasticamente os modelos sociais na natureza mesma.”

¹ Fenômeno físico: miragem ou ilusão ótica no horizonte que eleva a altura de objetos distantes em decorrência de inversões térmicas.

Entre os instrumentos de madeira da ópera Tannhäuser, predomina a flauta piccolo, de todos eles o mais arcaico, do qual a evolução da técnica instrumental quase não deixou vestígio. É um reino musical de elfos bastante parecido com o esboçado pelo jovem Mendelssohn, a quem o Wagner tardio tinha em alta conta.” “Isso recorda os dispositivos com espelhos daquele teatro de Tanagra que ainda hoje se encontram nos parques de diversão e nos cabarés fronteiriços [?].”

Quando, na parte do Venusberg na obertura os violoncelos e os contrabaixos entram na letra B com o ritardando, assinalam o instante em que o sonhador toma consciência de seu próprio corpo e se distende no sonho. A técnica da redução do som sem baixos confere também uma expressão fantasmagórica a uma passagem do Lohengrin que, de uma maneira menos evidente que no Tannhäuser, determina a obra inteira. É a visão de Elsa, na qual seu sonho arrasta o cavaleiro e por assim dizer toda a ação. (…) As notas graves que aparecem voltam a se confiar a instrumentos sem peso, o clarinete-baixo e a harpa. O som do clarinete-baixo, de uma singular transparência, não decai abaixo do mi bemol 2.”

Quando o último W. brincava com a idéia da metempsicose, para isso quase não necessitava do estímulo das simpatias budistas de Schopenhauer. Na fantasmagoria já estava a dama Vênus, a deusa pagã, simbolicamente integrada à era cristã, cabalmente reencarnada como Kundry, a quem Klingsor conjura enquanto ela dorme à luz azulada: <Tu foste Herodias, e agora? Gundrigia ali, Kundry aqui!>.”

 

A princesa judia Herodias.

O sonhador se encontra impotente com a imagem de si mesmo como um milagre e permanece no inevitável círculo de seu próprio trabalho, como se este círculo fosse eterno; a coisa, de que se esqueceu que ele é o autor, aparece diante dele como fenômeno absoluto.”

O Zaratustra parece ter sido uma resposta satírica ao Tannhäuser: “Pero debo volver al mundo de la tierra, contigo sólo puedo ser un esclavo; anhelo la libertad, tengo sed de libertad” “su despedida de Venus es uno de los auténticos momentos políticos en la obra de W..”

Su traición no consiste en que se entregue a los caballeros, sino en que, ajeno al mundo y presa del sueño, les cante la loa a Venus, la misma loa que por 2ª vez lo inmola precisamente al mundo del que en la fantasmagoría ya una vez huyó. Su misma evasión es ilusoria: lo lleva del Venusberg al torneo de canto, del sueño a la canción, y la huella de lo que le empujó a la rebelión sólo subsiste en el genial canto del pastor que, más allá del sueño y la cautividad, evoca la productividad de la naturaleza misma como obra del mismo poder que al cautivo le parecía mera ausencia de libertad. Lo que salva a Venus son las palabras <Lam dama Holda salió de la montaña> y no el traicionero elogio de Tannhäuser. Para la experiencia socialmente determinada del placer como ausencia de libertad el mismo poder de los instintos se transforma en enfermedad, tal como con el grito <!Ya basta!> ya Tannhäuser percibe en el reino de Venus su propio goce como una debilidad. Toda la obra de W. está impregnada de la experiencia del placer como enfermedad.” “La enfermedad y el deseo se confunden en la opinión de figurarse que a un ser vivo sólo se le mantiene vivo mediante la opresión de su vida.” “En una regresión bien conocida por la educación burguesa y desde hace mucho tiempo interpretada por el psicoanálisis como <sifilofobia>, sexo y enfermedad venérea se asimilan, y no por casualidad en su lucha contra la vivisección a W. le indignaba que sus resultados favorecerían la curación de enfermedades contraídas por <vicio>.”

Assinalou-se que em W. as flautas que ressonam no Venusberg em solo rara vez aparecem como instrumentos desacompanhados. São vítimas da difamação por parte da fantasmagoria do prazer que elas representam na fantasmagoria mesma. Bem o notou Nietzsche: <Por que sofro eu quando sofro pelo destino da música? Pelo fato de que a música se despojou de seu caráter transfigurador do mundo, afirmativo, pelo fato de que é uma música da decadência e já não é a flauta de Dionísio>. A flauta wagneriana é a do caçador de ratos de Hamelín; mas, como tal, logo se converte em tabu.”

A ilusão entranha a desilusão. Na obra de W. ela tem seu modelo muito bem-ocultado: o de D. Quixote, que W. tinha em muito alta conta. A fantasmagoria d’Os Mestres cantores, seu segundo ato, impõe aos heróis o papel de quem luta contra moinhos de vento.”

Enquanto esboço de uma pré-história burguesa, Os Mestes Cantores são a obra central de W.”

quando a Santa Lança [Longinus?] se detém fantasmagoricamente sobre a cabeça de Percival, este se serve dela para maldizer: <Que em ruínas e pó converta o falso esplendor!>. É a maldição daquele rebelde que quando jovem assaltava bordéis não olvidados.”

A fantasmagoria, bem como o ritmo de seu declive, deve desdobrar-se na obra de arte épica extensa (a obra de arte total ou o <drama do futuro>, na boca de W.).”

Ao desembocar em um quid pro quo dos meios estéticos que mediante a perfeição artificial deve ocultar todos os pontos de sutura do artefato, a diferença entre este e a natureza pressupõe precisamente a alienação radical de toda naturalidade que, instaurando-se como segunda natureza, a obra total queria fazer sepultar.”

A ocultação do processo de produção poética em prol de sua intencionalidade, por conseguinte de sua racionalidade, assim como a relação constitutiva da obra de arte com a <vida ordinária> que Ópera e drama não se cansa de recordar, W. as introduz na configuração que define a fantasmagoria.” Um compositor de ópera que precisou explicar sua obra via livros… O contrário do filósofo que faz música transcendental com seus escritos. Vê-se que a obra de arte total não era tão total assim!

Com a <ocultação da intenção> do poema por meio da música, a obra de arte total aspira ao ideal do fenômeno absoluto com o qual a fantasmagoria ilude: <É assim que a forma artística unitária mais completa é definida por mim como aquele em que um vastíssimo conjunto de fenômenos da vida humana – ‘conteúdos’ – é comunicável ao sentimento numa expressão tão perfeitamente inteligível que este conteúdo se manifesta em todos os seus momentos como um conteúdo que estimula perfeitamente, e satisfaz perfeitamente ao sentimento. O conteúdo tem de ser, destarte, um conteúdo constantemente presente na expressão; e esta expressão, uma expressão que constantemente faça presente o conteúdo em toda sua extensão; pois o que não está presente só pode ser captado pelo pensamento, enquanto o [que está] presente [só pode ser captado] pelo sentimento>.” Conteúdo, conteúdo, conteúdo… Você é um vestibulando por acaso, VVaguinho?

eu cap[o]to as sensações

(*) “Hermann Cohen (1842-1918): filósofo alemão neo-kantiano que rechaça a oposição kantiana [?!] entre sensibilidade e entendimento em prol de uma intuição puramente intelectual como único meio de conhecimento.”

O DR. FRANKENSTEIN: “A atualização permanente que a música deve consumar no poema às custas do tempo musical persegue o fim de, dissolvendo-o e vivificando-o, transferir à aparência de uma pura atualidade subjetiva todo o rigidamente objetual do poema e com isso o reflexo do mundo das mercadorias na obra de arte: <A ciência nos mostrou o organismo da linguagem; mas o que nos mostrou era um organismo morto, que só a extrema necessidade do poeta pode devolver à vida, e isso certamente tapando as feridas infligidas pelo escalpelo anatômico ao corpo da linguagem e insuflando-lhe o hálito que o anime ao automovimento. Mas esse hálito é… a música…>

Texto recente sobre a estética do cinema: <tal como a adaptação realizada pelo olho ao acostumar-se a captar a realidade de antemão como uma realidade das coisas, no fundo como uma realidade de mercadorias, o ouvido ainda não realizou nada parecido. O ouvido é, em contraste com a visão, <arcaico>, não acompanhou o desenvolvimento da técnica. Poder-se-ia mesmo dizer que reagir essencialmente pondo o ouvido ‘olvidado’ de si mesmo, em lugar de abrindo olhos vivazes e calculadores, contradiz, de certo modo, a era tardo-industrial… O olho é sempre um órgão DE ESFORÇO, de trabalho, de concentração, que apreende univocamente algo DETERMINADO. Já o ouvido carece de concentração, é PASSIVO. Não há como fazê-lo se acostumar, i.e., ‘se arregalar’ diante de ‘uma tela’, gradativamente… Comparado ao olho, o ouvido é sonolento e apático. Mas sobre esta sonolência paira o tabu que a sociedade fizera pesar sobre a ‘preguiça’ de maneira geral. Desde sempre a música fôra uma tentativa de burlar esse tabu.>(*)

(*) Embora faça parecer que se trate de uma citação acadêmica qualquer do séc. XX, quem sabe até apócrifa, na verdade é uma AUTOCITAÇÃO de Adorno. Cf. Adorno & Eisler, Komposition für der Film, Munique, 1969.” Não pesa tabu algum. Falou, falou, falou, e NADA DISSE. Órgão de CONCENTRAÇÃO é o próprio ouvido.

O inconsciente, cujo conceito W. devia à metafísica de Schopenhauer, é, nele, já ideologia: a música deve dar calor e fazer somar as relações alienadas e reificadas dos homens, como se ainda foram humanas. Tal ressentimento tecnológico é o a priori do drama musical. Reúne as artes a fim de mesclá-las delirantemente. A linguagem voluptuoso-idealista de W. o apresenta sob a metáfora da união sexual: <O que necessariamente se há de dar de si, a semente que a partir de suas forças mais nobres só se condensa na mais ardente excitação amorosa – semente que não procede senão do impulso a se dar, i.e., de se comunicar para fecundar; mais ainda: que em si é a encarnação deste mesmo impulso –, esta semente fecundante é a intenção poética, que aporta na música, mulher esplendorosamente amante, aquilo a que se há de dar a luz.>

Não somente os dramas musicais culminam em fragmentos de delírio, como no canto final de Isolda, a cena de Sigfried e Brunilda ao fim de Sigfrido ou o lamento fúnebre de Brunilda n’O Crepúsculo dos deuses; na promiscuidade de seus elementos, a mesma forma dramático-musical está, a cada instante, aberta ao delírio enquanto <regressão talassal>.¹”

¹ Tálassa, divindade grega, pré-olímpica. Fecundada por Urano, é avó das ninfas ou ainda mãe de Afrodite ou do Amor. Como aquela que habita pela primeira vez todos os oceanos, prefigura-se aqui um ‘sentimento oceânico’ junguiano?!

Figuras e símbolos se fundem mutuamente, até que Sachs se converte em Marke e o Graal no tesouro dos nibelungos, os nibelungos nos wibelungos. [?] Só do extremo de uma espécie de fuga do pensamento, da renúncia a todo o unívoco, da negação de tudo o que leve a marca do individual, de nenhum modo meramente na música, deduz-se a idéia de drama musical.”

Assim como o conceito de obra de arte técnica, também o de <vontade de estilo> teve de vir ao mundo (abortado, mais cedo) com a obra de W..” “a totalidade wagneriana está sempre condenada a quebrar em pedaços.”

Música-cena-palavra unicamente se integram porque o autor – a palavra compositor-poeta não designa mal o monstruoso de sua posição – as trata como se todas convergissem no mesmo. Mas com isso ele violenta e desfigura o todo. Este se converte em tautologia e repetição, sobredeterminação permanente. A música só diz uma vez mais o que as palavras não cessam de dizer, e quanto mais se põe em primeiro plano, tanto mais supérflua se torna com respeito ao sentido que deve expressar. (…) Wagner queria exatamente o contrário quando idealizou o seu Sprechgesang (palavra cantada) como recurso estilístico. Acontece, porém, que na prática a palavra cantada empobrece a música. (…) a própria gesticulação dos atores no palco aparece como caricatura, como se todos não fossem mais que personalizações do próprio diretor de orquestra, o que de fato são, aliás. (…) A ópera anterior, à qual W. reprovava a ausência de unidade estética do ponto de vista da integração dos meios sensíveis, era superior a sua ópera, ao menos no sentido em que não buscava a unidade pela assimilação, senão pela obediência às demandas de cada um dos âmbitos do material. A unidade mozartiana era a da configuração, não da identificação. (…) Enquanto coisa aleatória que de modo usurpador se atribui a si mesma necessidade, a filosofia da história vê tal obra de arte total como algo que deve inevitavelmente naufragar. (…) um só instante de reflexão em meio a todo esse delírio bastaria para destruir a aparência de unidade ideal.”

Dioses, héroes y acción planetaria prometen al anhelo estético la salvación basada en la huida de lo banal; el romanticismo temprano no había tenido necesidad de imágenes de la grandeza porque todavía no se encontraba a cada paso con la amenaza del carácter de mercancía del que luego acaban por adolecer también en W. los modelos heroicos.”

el mundo de las imágenes musicales, al cual se recurre en cuanto reverso metafísico de la mónada solitaria, proviene de la sociedad que éste mundo niega.”

Nadie imparcial que oiga por vez primera el vehemente <motivo de la decisión de morir> de Tristán podrá sustraerse a la impresión de jovialidad trivial.” “También pagó, por tanto, la metafísica wagneriana de la muerte su tributo a la inaccesibilidad del goce vigente desde Beethoven en toda gran música.”

La concepción de la totalidad cerrada en sí y que se despliega a sí misma, de la idea presente en la intuición sensible, es un fruto tardío de los grandes sistemas metafísicos, cuyo impulso, filosóficamente roto desde el Feuerbach conocido por W., se refugió en la forma estética. Se puede creer a W. que cuando finalmente leyó a Schopanhauer se sintió meramente confirmado por éste, que no <influido> en el sentido habitual; el desplazamiento del acento metafísico al arte se prepara en el tercer libro de El mundo como voluntad y representación. Pero así como este desplazamiento está condicionado por el positivismo que tan claramente se anuncia en la determinación de Schopenhauer a negar el <sentido> a toda existencia natural y concedérselo a la ciega voluntad, así también la metafísica inmanente al procedimiento wagneriano va a la par con el desencantamiento del mundo.” “La obra de arte ya no obedece a su definición hegeliana como la apariencia sensible de la idea, sino que lo sensible se dispone para parecer como si dominase a la idea: ésta es la verdadera razón del rasgo alegórico en W., de la invocación de una esencialidad irrecuperable. El delirio tecnológico se prepara por miedo a la harto próxima sobriedad.”

El entusiasmo del joven Nietzsche se equivocaba sobre la obra de arte del porvenir: en ésta se produce el nacimiento del cine a partir del espíritu de la música.” “El 23 de marzo de 1890, mucho antes de la invención del cinematógrafo, Chamberlain escribió a Cósima sobre la Sinfonía Dante de Liszt, representativa de toda esta esfera: <Ejecutad esta sinfonía con una orquestra oculta y en una sala oscura, y haced que por el fondo se pasen imágenes, y veréis entrar en éxtasis a todos los Levi y a todos mis fríos vecinos de hoy, cuya insensibilidad atormentaba el pobre corazón>. Pocas cosas podrían probar más drásticamente hasta qué punto es falso que la cultura de masas le sobreviniera meramente desde el exterior al arte: éste se transformó en su contrario en virtud de su propia emancipación.”

En ninguna parte se muestra lo frágil de la concepción del drama musical más acentuadamente que allí donde más se aproxima a su propia razón de ser, la ocultación del proceso de producción: en la actitud antagonista de W. con respecto a la división del trabajo, la cual luego se convierte en base confesada de la industria cultural.”

El marcador gremial no puede ni entender la canción de concurso ni, atiborrado de reglas de tablatura, realizar tampoco él mismo algo coherente; y Mime, el herrero, es <demasiado hábil> para forjar la única espada que necesita. En ambas figuras insulta W. al entendimiento reflexivo.” “El <cantante> Walther acaba por inclinarse ante el <maestro> Sachs y aprende a no <menospreciar> los <gremios> de especialistas; en lo cual, por supuesto, la reconciliación de lo feudal con el orden burgués desemboca en la colusión con precisamente el mundo reificado al que el hidalgo, con toda razón, teme.”

No pocos de los contrarios a Wagner creyentes en la cultura y hostiles a la civilización, entre ellos Hildebrandt, le reprochan que, a pesar de toda la supuesta <lucha contra el siglo XIX>, adoptara sin escrúpulos sus adelantos técnicos.”

El esbozo de instrumentación – hoy a lo mismo se le llama particella – se fija paralelamente al esbozo de composición: lo sigue siempre a distancia de pocos días. Con ello los dos métodos de trabajo de separan claramente entre sí y se evita que el sonido en sentido berlioziano se autonomice. (…) El efecto mágico es inseparable precisamente del proceso racional de producción que él mismo destierra lejos de sí.”

W. planteaba una exigencia de humanismo real. Esta exigencia se transformó en él en delirio y enceguecimiento, en lugar de apoyar a la libertad con la conducción racional del proceso de trabajo.”

Atualmente não é possível que duas pessoas pensem em fazer possível o drama integral em comum, pois ao discutir esta idéia teriam que confessar perante o público com a necessária franqueza a impossibilidade de sua realização, e este reconhecimento estrangularia, portanto, sua empresa em germe. Só o solitário pode com seu impulso transformar em si a amargura deste reconhecimento em um deleite embriagador que o empurre com coração de bêbado à empresa de fazer possível o impossível; porque só ele recebe o impulso de duas forças artísticas às quais não se pode resistir e pelas quais se deixa voluntariamente levar em auto-sacrifício.”

Por muita verdade que contenham essas frases, sua conseqüência não desemboca na obra de arte total, senão em sua proibição crítica. (…) O que o indivíduo sacrifica no drama musical não é a si mesmo, senão à consistência da obra (…) Para chegar a uma obra de arte total depurada de falsa identidade seria mister um coletivo de especialistas submetidos a um plano.”

Quem ignora que o final d’O crepúsculo dos deuses contém o motivo da Redenção não compreende nem a consumação musical nem a poética. Esse é o preço que o drama musical tem de pagar por ter renunciado à lógica puramente musical da construção na imanência do tempo.”

O mesmo que o homem não se nos representa com certeza mais plena, mais satisfatória, salvo se se manifesta ao mesmo tempo a nossos olhos e ouvidos, assim tampouco o órgão de comunicação do homem interior convence nosso ouvido com a mais completa certeza salvo se se comunica de maneira igualmente satisfatória aos <olhos e ouvidos> deste ouvido.”

Melhor do que eu, ninguém pode saber que a realização do drama que pretendo depende de condições que não se encontram na vontade, nem sequer na capacidade do indivíduo, ainda que esta fosse infinitamente maior que a minha, senão somente numa situação geral e numa colaboração coletiva possibilitada por esta, das quais agora não existe senão precisamente todo o contrário.”

El delirio fantasmagórico expulsa toda política de la ópera; por lo demás, ya en Meyerbeer los temas políticos se neutralizaban como meros objetos de curiosidad, tal como p.ej. sucede en las películas en color o las biografías de personas célebres que hoy en día pone en el mercado la industria cultural.”

Al Anillo se le podría anteponer aquella sentencia de Anaximandro recientemente interpretada por Heidegger, que en cuanto mitólogo del lenguaje guarda semejanzas con W.. En traducción de Nie., dice así: <Allí donde las cosas tienen su nacimiento debe también producirse por necesidad su destrucción, pues deben pagar su culpa y reparar su injusticia conforme al orden del tiempo>. La justicia, que se define como expiación de la injusticia, equivale a ésta y se convierte por tanto ella misma en injusticia, el orden en destrucción (…) La música de W. se pliega al axioma jurídico de que tensión y solución han de corresponderse totalmente, de que nada debe quedar desnivelado, nudo, aislado”

Every tone which is added to a beginning tone makes the meaning of that tone doubtful. If, for instance, G follows after C, the ear may not be sure whether this expresses C major or G major, or even F major or E minor; and the addition of other tones may or may not clarify this problem. In this manner there is produced a state of unrest, of imbalance which grows throughout most of the piece, and is enforced further by similar functions of rhythm. The method by which this balance is restored seems to me the real idea of the composition.

Schönberg, Style and Idea

O DURKHEIM DO TEATRO: “Por verdadeira que seja a censura estética a W. por haver posto a mão, ele, o moderno, sobre o mais antigo, ele, o profano, sobre o mito, a regressão do procedimento estético não depende do arbítrio individual ou do azar psicológico. Ele pertence a uma geração que, pela primeira vez em um mundo completamente socializado, compreendeu a impossibilidade de mudar individualmente o que se consumava por sobre a cabeça dos homens.”

Los maestros cantores coquetean con aquella costumbre de la pintura antigua de poblar espacios y tiempos remotos con figuras de generaciones posteriores y autóctonas.”

A cada cual le parece que es su propiedad exclusiva, mensaje de su infancia olvidada, y a partir del déjà vu de todos cristaliza la fantasmagoría del colectivo.”

Anticipó estéticamente tensiones que teóricamente sólo aparecieron con el conflicto entre Freud y Jung.” “En los instantes de toma de consciencia la forma literaria de W. anticipa la de Nietzsche 30 años antes de Zaratustra: ¡Temor de la madre primordial! ¡Miedo primordial! ¡Abajo! ¡Abajo, al sueño eterno!

La dramaturgia del W. maduro opera siempre con una especie de <teatro épico>. Con la renuncia a la oposición de la música a los mitos se sacrifica de antemano toda idea trágica.”

o temerário é aquele sobre o qual não têm nenhum poder nem a autoridade do pai nem a ordem natural das gerações”

melodía del mediodía

melodia

do

meiodia

Se ao drama musical falta a palavra redentora, em compensação seus personagens não deixam de se declarar redimidos”

Trata-se aqui da astúcia da razão. Qualquer coisa que ocorra em oposição ao <total>, à vontade universal de Wotan, ocorre ao mesmo tempo no sentido deste, ainda que seja meramente porque o espírito absoluto de Wotan não pensa nada além de sua própria destruição.”

Nem terra nem gente ofereço, nem casa nem pátio paternos: unicamente herdei o próprio corpo; vivendo o consumo.”

O crepúsculo dos deuses não é meramente a consunção do veredito metafísico de Schop., senão o abandono de uma filosofia da história em que o antagonismo entre o universal e o particular se destelha sempre enganosamente; privado da articulação dialética pela qual Hegel o domina, mas privado também da esperança de uma situação alterada, na qual o mesmo perene antagonismo se desvaneceria. À produção da resistência pelo todo social corresponde o fim, a identificação da resistência com o domínio: o poder do Anel de interpretar a história tem aí seu limite e se perde na noite da indiferença.” “o todo nada mais é que a má-eternidade da rebelião enquanto anarquia e incansável autodestruição. Entre o deus pai Wotan e Sigfried, seu adversário salvador e seu funesto salvador, a verdade é que não há nenhuma fronteira, e em sua união o Anel celebra o abandono da revolução que não o era.”

A ambigüidade da construção se torna patente nas oscilações da concepção da Tetralogia. Enquanto que na primeira versão Sigfried, ao perecer, salva o Valhalla, na última conduz ao desenlace desesperado em que – para ser mais que só uma vítima e servidor passivo do existente, sem que com isso mudasse nada do próprio existente, do qual é apenas um fruto afinal, como o reconhece a resignação wagneriana –, destruindo-se a si mesmo e à individuação em geral, produz não menos do que a destruição do todo. A resignação do incondicionado, o fracasso da revolução burguesa e a representação do processo universal como destruição universal casam muito mal entre si. Sua relação, ao menos a entre a insurreição fracassada e a metafísica niilista, não deixou de assinalar-se desde Nietzsche.

Finalmente, a franqueza na qual o burguês e o mítico se mascaram mutuamente é desde o Iago de Shakespeare o verdadeiro clima da traição.”

Para W., o anarquismo significa que o único necessário é colocar em movimento uma insurreição mundial para convencer o camponês russo – em quem a bondade natural do homem oprimido foi mantida pela natureza, a despeito de tudo, e na forma mais infantil – de que incendiar os castelos dos senhores, com tudo o que está dentro e nos arredores, é completamente justo em si e mesmo aprazível aos olhos de Deus; e disso deve resultar a destruição de tudo o que, pensando-se detidamente, deve parecer, até mesmo para os mais filosóficos pensadores da Europa civilizada, a real fonte de toda a miséria do mundo moderno.”

Para Lukács, o nivelamento com o universalmente humano e sua <nulidade> passa por alto a verdadeira <essência>, a mesma lei do movimento histórico da sociedade, e reduz a princípio universal a miséria de um período histórico.”

Como um autêntico chefe de polícia secreta, em sua grande biografia Glasenapp redigiu autênticos registros judiciais de todas as pessoas e cachorros que tiveram contato com W., e chega ao ponto de tachar Nietzsche de <rábula> por ocasião de este ter considerado W. seu amigo unicamente por ter W. dito que N. era <seu amigo>.”

Por si mesmo só se cumpre o cumprimento do destino.”

O princípio metafísico da falta de sentido é hipostasiado como sentido da existência empírica sem sentido, de modo não diferente a como mais tarde sucederia nos inícios da filosofia existencial alemã.”

Se Schopenhauer condena a vida como jogo cego da vontade, W. se curva obedientemente a este jogo e o adora como natureza inconcebivelmente sublime.” “Em Sch. a conversão da própria vontade de viver é sinônima da tomada de consciência de si mesma da representação. Esta desiste de sua própria vontade de viver ao se dar conta da injustiça que inevitavelmente comporta a vontade e abre uma brecha no circuito do destino cego – Sch. fala de um círculo de carvões ardentes do qual tem-se de sair – com a esperança de que, imitando tal conduta, o mundo do pecado original mesmo se apazigüe. Para ele o primeiro requisito da renúncia é o ascetismo sexual. Certamente, no Parsifal W. fez deste seu postulado, mas só para comprometê-lo de maneira mais grave segundo os conceitos schopenh. por meio do brilho mundano da comunidade do Graal e a cavalaria do Graal. No Anel, no entanto, e no Tristão, o ideal ascético se confunde com o mesmo instinto sexual. A satisfação do instinto e a negação da vontade de viver se mesclam no delírio, naquela <morte risonha> de Sigfried e Brunilda, na noite de amor que deve produzir o esquecimento da vida: <Recebe-me em teu seio, libera-me do mundo!>. Quando finalmente Tristão maldiz o amor, a maldição se dirige ao insaciável anelo da individuação, que unicamente se pode <saciar> na paz da morte como no prazer.” “Em todas as partes, o mundo tal como é tira proveito da doutrina segundo a qual o mundo é mau em si.”

Schopenhauer erra quando “em lugar da penetrante autoconsciência da vontade em sua suprema objetivação se instala de novo o inconsciente, o delírio e aquela espécie de unio mystica que na obra de W. se oferece em abundância. Em Sch. já se anunciam o mascaramento da morte como redenção e o ribombante conceito da <redenção universal> que em W. constitui a suma ideológica de toda sua obra”. Curiosamente, isso aproxima ambos de Hegel.

W. leva às últimas conseqüências o pessimismo. A negação do mundo burguês, toda a negatividade e toda a positividade se imbricam numa coisa só ou, antes, a negação e a negatividade passam por valor positivo. A destruição do mundo ao final do Anel é ao mesmo tempo um happy end.” “a própria impensabilidade da morte se converte em meio de dourar a vida má.”

(*) “Halvard Solness: protagonista do drama de Ibsen estreado em 1893 Solness o construtor (também encontrado, em espanhol, como El maestro Solness). Na apresentação da montagem do Teatre Nacional de Catalunya, em outubro de 2000, a diretora Carme Portaceli declarou: <Solness é um construtor, um grande arquiteto, que pode se entender como metáfora de Deus. Este homem chegou ao cume de sua trajetória, porém ao preço de sua felicidade e da de todos que o rodeiam.> O ator Lluís Homar: <É uma obra imensa, tão grande como o buraco que esconde o construtor. O texto se debate com a soberba absoluta do artista que, às vezes, converte-o numa espécie de déspota>.”

A velha controvérsia sobre o nihil negativum, o absoluto, e o nihil privativum, o relativo, Sch. a decidiu em favor do último. Para ele, como para seu antípoda Hegel, o nada é só um momento no movimento do ser, que é o todo.”

Não há nada sem despertar.

o cavalo de Brunilda parece conduzir o agora do despertar enquanto sobrevivente da pré-história; da pré-história que, segundo Sch., é cabalmente o nada. Se W. recorda niilisticamente a história na natureza, a natureza é, sem embargo, por sua vez, esse todo ao que o nada pertence como momento dialético parcial e que põe limites ao nada. Em W. não se representa nenhum nada que não prometa a sobrevivência da natureza. Símbolo disso são as filhas do Rin que levam, jubilosas, o anel recuperado às profundezas. Se bem que essas profundezas são o abismo do nada wagneriano.”

Se na má-infinitude de uma sociedade que se reproduz sem meta a imagem da natureza está distorcida e impressa na imagem do nada como única fissura na servidão total, este nada se converte em algo em nome do inferno que se mobiliza contra o enganoso hermetismo do sistema da obra de arte e da sociedade.”

Sigfrígido

o inferno, o reino de Alberish, que projeta tomar por assalto o Walhalla.”

Morrer de amor: isso significa também perceber a fronteira que a ordem da sociedade impõe ao homem mesmo: experimentar que a aspiração ao prazer, se se pensara sempre até o final, faria estalar precisamente aquela pessoa autônoma, que se pertence a si e degrada sua própria vida à coisa, a pessoa que crê cegamente encontrar prazer na posse de si mesma e para quem justamente essa posse é privação do prazer.”

Sem dúvida cabe a pergunta de se o desideratum nietzscheano de saúde vale mais que a consciência crítica que obtém a grandiosa debilidade de W. no trato com as potências inconscientes do próprio desmoronamento.”

O imperialista sonha com a catástrofe do imperialismo; o niilista burguês adivinha o niilismo da época imediatamente posterior.”

Estes encouraçados de grande porte, contra os quais o orgulhoso e magnífico barco à vela não pode mais se enfrentar, oferecem o horrível aspecto e o gosto dos fantasmas. [!]”

W. o pacifista

As partes febris do terceiro ato de Tristão contêm aquela música negra, áspera, dentada, que não tanto dá cor de fundo à visão como a desmascara. A música, a arte mais mágica de todas, aprende a romper a magia com que ela mesma rodeia todas as suas figuras. A maldição do amor por Tristão é mais que o impotente sacrifício do delírio à ascese; é a sublevação, por mais que completamente vã, da música contra a própria imposição do destino, e somente com vistas a sua total determinação por este recupera ela a autorreflexão. (…) Ao expressar a angústia do homem desamparado, poderia, ainda que débil e desfiguradamente, significar uma ajuda para os desamparados e prometer de novo o que o protesto ancestral da música já prometera: viver sem angústia.”

MAHLER. UNA FISONOMÍA MUSICAL

a picante, imaterial agudeza do pianissimo se ouve com precisão, como 70 anos mais tarde nas partituras de velhice de Stravinski, quando o mestre da instrumentação se fartara da instrumentação magistral. Por trás de uma segunda entrada das madeiras, o motivo de quartas descendentes se seqüencia até ficar suspenso num si bemol que roça com o das cordas.”

Se com sua primeira nota toda música promete o que seria diferente, o desgarramento do velo, suas sinfonias quereriam por fim não voltar a fracassar, pô-lo literalmente diante dos olhos; quereriam recuperar musicalmente a fanfarra teatral que soa na cena da masmorra do Fidelio, imitar aquilo que, 4 compassos antes do trio, põe a cesura no Scherzo da Sétima de Beethoven. Assim quiçá desperta a um adolescente às 5 da manhã a audição de um som que se aproxima imponente, cujo retorno nunca deixa já de esperar quem por um segundo o tenha percebido em repouso.”

Isso é o que hoje em dia atrai o ódio sobre Mahler. Se disfarça de probidade contra o enfático: contra a pretensão da obra de arte de encarnar algo que o pensamento meramente acrescenta, sem se realizar. Detrás dessa probidade assoma o rancor contra aquilo mesmo que fica por realizar. O <Não deve ser> de que a música de Mahler se lamenta desesperada é astuciosamente sancionado como mandamento. A insistência em que em música não deva haver nada mais que o que está aqui e agora encobre por igual uma amarga resignação e a comodidade de um ouvinte que se dispensa do trabalho e do esforço do conceito musical enquanto aquilo que devém e aponta para além de si mesmo.” “Mahler enfurece aos coniventes com o mundo porque recorda o que eles devem expulsar de si mesmos.”

Enquanto arte, a música está presa no laço que ela mesma quer cortar, e o reforça mediante sua participação na aparência. Enquanto arte, a música se faz culpável de sua verdade; o mesmo, no entanto, que, faltando à arte, se nega seu próprio conceito. As sinfonias de Mahler tratam progressivamente de se subtrair a este destino.” “Isso é o que a Quarta sinfonia chama de <ruído mundanal>, e que Hegel chamaria de <curso do mundo> invertido, o qual de entrada se enfrenta com a consciência como algo <oposto e vazio>. Mahler é um membro tardio da tradição do wertherismo(*) europeu pelo mundo.

(*) Wertherismo: Weltschmerz; literalmente <dor do mundo>. Em francês, o mal do século.”

A inútil hiperatividade sem autodeterminação é o sempre igual. É o inferno, num primeiro momento ainda não demasiado tórrido musicalmente, há um tabu sobre o novo. É o espaço absoluto. Assim foi sentido já o Scherzo da Segunda sinfonia; de maneira extrema, logo o da Sexta.”

Outrora a atividade do sujeito ativo, engrenagem do trabalho socialmente útil, inspirou o sinfonismo clássico, ao que, por suposto, já em Haydn e ainda mais em Beethoven o humor conferiu um duplo sentido. Atividade não é meramente, como ensina a ideologia, a vida repleta de sentido de seres que se determinam a si mesmos, senão também a fútil agitação da falta de liberdade destes.” “a esperança que ainda em Beethoven dá seu pulso à vida ativa e permitiu ao Hegel da Fenomenologia acabar, não obstante, atribuindo ao curso do mundo a prioridade sobre a individualidade que só no indivíduo se faz real se perdeu para o sujeito retroprojetado sobre si mesmo e ao mesmo tempo impotente. Por isso o sinfonismo de Mahler advoga outra vez contra o curso do mundo. Imita-o para acusá-lo. (…) Em nenhum instante ata a fratura entre sujeito e objeto; prefere quebrar-se a si mesmo que simular como lograda a reconciliação impossível. Num começo, Mahler esboça em música programática a exterioridade do curso do mundo. Mas já de então Mahler não se contentou com o contraste poético demasiado seguro de si mesmo entre a transcendência e o curso do mundo. No curso do incessante movimento a música se faz a si mesma vulgar com toscos conjuntos dos instrumentos de sopro. A justiça hegeliana, porém, puramente pela lógica do discurso compositivo, guia a pluma do compositor de tal modo que comunica ao curso do mundo algo da força que se reproduz, persiste, se resiste à morte, como corretivo do sujeito que protesta imutável (…) o ordinário é desafiado quando o tema chega aos primeiros violinos com seu som e caráter melódicos”

como viu Hegel, o curso do mundo não é tão mau quanto a virtude se imagina.”

Sobre Frederico II não ter confiscado o terreno do moinho barulhento que interrompia suas tardes de trabalho a despeito de não tê-lo conseguido comprar, disse Mahler: “É bom que moinheiro e moinho estejam protegidos e garantidos em seu terreno – se não fosse porque as rodas batucavam de tal forma que sobrepassavam os limites da maneira mais desavergonhada e produziam nos terrenos vizinhos uma quantidade de perturbação e dano que não é de modo algum possível medir.” Só mesmo um artista para entender a suscetibilidade ao som desagradável…

Na quarta sinfonia (…) o estridente violino rústico, afinado um tom inteiro mais alto que os normais, toca desagradavelmente, com um som estranhamente desacostumado, sem que o ouvido compreenda a razão disto e portanto de maneira duplamente irritante. Acidentes cromáticos azedam a harmonia e a melodia; o colorido é solístico, como se faltasse algo: como se a música de câmara se houvesse aninhado de forma parasita na orquestra.”

mesclando a emoção triste com a fuga das imagens que velozmente a atravessam.”

Quinta sinfonia (…) Varreu-se o humor, que se jacta de rir do curso do mundo desde uma distância que este não o permite a ninguém; se desencadeia irresistivelmente com todos os acentos da dor, sem paliativos. Suas proporções, a relação das tempestuosas partes allegro com as proliferantes interpolações lentas da marcha fúnebre, dificultam sobremaneira a execução. Essas proporções não devem se entregar ao acaso do estar-composto-assim de uma vez para sempre, senão que desde o princípio toda a peça há de organizar-se tão claramente até o contraste que não fique emperrada nas partes andante; a alternância é o que configura a forma. É importante também que as partes presto, sem concessão no tempo, se toquem distinta, tematicamente, e não se percam no torvelinho; elas são o contrapeso das melodias da marcha fúnebre.” “Em que pese todo o dinamismo, toda a plasticidade no detalhe, o movimento não conhece nenhuma história, nenhuma meta, propriamente falando nenhum tempo enfático. Sua carência de história o remete à reminiscência.”

Paul Bekker, Gustav Mahlers Sinfonien, 1921

A coda obedece ao que ocorrera: a antiga tempestade se converte em seu eco impotente.“

As palavras da cena final do Fausto, que Mahler pôs mais tarde em música de maneira incomparável, fracassam. A utópica identidade entre arte e realidade fica malograda. (…) Quão mais lograda a obra, tanto mais pobre a esperança, pois esta sobrepujaria a finitude da obra em si congruente.”

Para dotar de violência o coral, se o encomenda aos metais, cuja aparatosidade, desde Wagner até Bruckner, os havia desprovido de dignidade. Mahler foi o último a não se dar conta disto.”

todos os temas fragorosamente lançados pelos metais se assemelham fatalmente e põem em perigo o sinfonicamente mais importante, o ser ele mesmo do individual, e portanto a plasticidade do discurso. Nas obras mais tardias a violência dos metais devém momentânea, angustiosa ou agoniante; já não são o registro fundamental da sonoridade conjunta. Mas a sublimação da irrupção, tal como o exige a técnica, está já implantada teleologicamente na própria irrupção.”

Para a poderosa lógica beethoveniana da conseqüência a música se resumia em identidade hermética, como juízo analítico. A filosofia a que assim se acomodava detectou em seu cume hegeliano o aguilhão de tal idéia.”

Se a música em geral tem mais em comum com a lógica dialética que com a discursiva, então em Mahler ela quer precisamente aquilo que a filosofia, com esforços de Sísifo, incita ao pensamento tradicional, os conceitos petrificados em identidade rígida [a lógica discursiva]. Sua utopia é esse mover-se do lugar do já-tendo-sido e do ainda-não-tendo-sido no devir.” Cita Ciência da Lógica de H., o que também nada tem a ver…

a grande música foi, até Mahler, tautológica. Esta era sua congruência, a do sistema carente de contradições. Mahler derroga este sistema, a ruptura se converte em lei formal.”

Desde que a estética descuida do belo natural, que Kant ainda reservava à categoria do sublime, enquanto que Hegel o despreza já, na arte o conceito de natureza se aceita sem o menor reparo. Até tal ponto se estreitou a rede da socialização que a mera antítese desta última se considera um arcano do qual nem se deve falar. Pois a mesma natureza, contrafigura da tirania humana, está deformada enquanto se a espolia e violenta.”

A natureza, espargida na arte, produz todas as vezes o efeito de não ser natural”

Ao compositor reduzido aos meses de férias, a vida musical oficial, que ele não deixou de menosprezar nem sequer como diretor de Ópera de Viena e diretor estrela de orquestra, nele martelou até à aniquilação física.” “Repugnava-lhe sua própria posição, mas não queria renunciar a ela, pois conhecia demasiado bem o curso do mundo para para não ignorar que a pobreza podia privá-lo daquela margem de liberdade infinitesimal de que seu destino humano necessitava.”

Del mismo modo que ponen en duda la lógica inmanente de la identidad musical, sus sinfonías se oponen también a aquel veredicto histórico que desde el Tristán seguía impulsando unidimensionalmente a la música: la cromatización como descalificación del material. No como reaccionario, pero sí como si temiera el precio del progreso, Mahler persiste en el diatonismo como en un soporte obvio, cuando ya la exigencia de una composición autónoma lo ha llevado a la ruina. (…) El odio contra él, con resonancias antisemitas, no fue muy distinto de aquel contra la nueva música. El shock que produjo se descargó en la risa, en un malicioso no-tomarlo-en-serio”

el gusto siempre depurado de los académicos del arte musical puede probar, sacudiendo la cabeza, lo pueril de las irrupciones mahlerianas.”

Cuando Debussy abandonó protestando el estreno parisino de la Segunda sinfonía, el antidiletante jurado se comportó como un verdadero especialista; es muy posible que la Segunda produjera a sus oídos el mismo efecto que a los ojos los cuadros de Henri Rousseau(*) en medio de los impresionistas del Jeu de Paume.

(*) Henri Rousseau, El aduanero (1844-1910): pintor francés. De formación autodidacta, carecía tanto de conocimiento de las convenciones académicas como de cualquier ambición vanguardista, pero su innato instinto para la composición y el colorido convirtieron su obra en precedente de la pintura naïve y, parcialmente, de la de un Léger, un Picasso o los surrealistas. (N.T.)”

En cuanto a la riqueza de los grados, al menos las primeras sinfonías son menos osadas que Brahms, en cuanto al cromatismo y la enarmonía menos que el W. maduro.”

la partitura califica de ‘estridente’ un pasaje de las maderas en el Scherzo de la Séptima sinfonía, también un timbre del oboe en Rewelge. Pero lo forzado mismo se convierte en expresión. (…) En la Quinta sinfonía, el primer trío de la marcha fúnebre, que ya comienza muy grandiosamente, no responde ya con un lamento líricamente subjetivo a la tristeza objetiva de la fanfarria y la marcha. Gesticula, eleva un grito de espanto ante algo peor que la muerte.” “música de pogrom, del mismo modo que los poetas expresionistas profetizaron la guerra. Tras las partes de marcha retenidas por la forma, tras el enfático do sostenido menor, la extrema intensidad expresiva del pasaje, que se niega a la segunda zona media de la forma, empuja a la obra de arte a convertirse en protocolo, como 50 años más tarde El superviviente de Varsovia de Schönberg.”

Afrontarlo exige una meditación sobre la expresión en música. Ésta no es expresión de algo determinado: no por azar se convirtió espressivo en una indicación universal de ejecución. Persigue una intensidad marcada. (…) En cuanto llena de expresión, la música se comporta mimética, imitativamente, a la manera de gestos que reaccionan a un estímulo al que se igualan en el reflejo. En la música este elemento mimético va poco a poco enfrentándose al racional, al dominio sobre el material; la manera en que se liman uno al otro constituye su historia. No se reconcilian: también en música el principio racional, el de la construcción, tiraniza al mimético. Éste tiene que afirmarse polémicamente, instaurarse a sí mismo; espressivo es la protesta consentida, recibida, de la expresión contra la proscripción que sobre ella cayó.” Tomar um expresso.

cuanto más petrificado el sistema musical de la racionalidad, tanto menor el lugar que reserva a la expresión. Para seguir en general sonando con medios tonales, tiene que resaltar algunos, elevarlos a idea hipertrofiada, endurecerlos como vehículos de expresión tanto como se endureció el sistema circundante. El manierismo es la cicatriz que la expresión deja en un lenguaje que propiamente hablando ya no satisface a la expresión.”

La extrema similitud con el lenguaje es una de las raíces de la simbiosis mahleriana de canción y sinfonía”

En Mahler todas las categorías empiezan a quedar corroídas, ninguna se establece en límites no-problemáticos. Su difuminación no se debe a falta de articulación, sino que revisa ésta.”

incluso allí donde el discurso musical parece decir ‘yo’, su punto de referencia, análogo al latente yo objetivo de la narración literaria, es separado de la persona que escribió la obra por el abismo de lo estético. La herida Mahler no la configuró como contenido expresivo, según hizo W. en el tercer acto del Tristán. (…) Pero (…) el carácter neurótico era al mismo tiempo una herida histórica en la medida en que su obra quería realizar con medios estéticos lo estéticamente ya imposible.”

Uma orquestra toca na consciência musical mais do que esta se projeta sobre uma orquestra. Quiçá essa exterioridade do musicalmente interior capacite a música para aquele logro pelo que a psicanálise gostaria muito bem de explicá-la, para a defesa contra a paranóia, para a mitigação do narcisismo libertino.” “A música de Mahler não expressa a subjetividade, senão que esta toma, nela, posição ante a objetividade.”

Los acordes menores mahlerianos, que desautorizan a las tríadas mayores, son máscaras de disonancias venideras.”

El Mahler temprano desprecia la elemental exigencia escolástica de una vigorosa progresión de los grados.” “Al igual que algo más tarde en Puccini y Debussy, el bajo continuo ya no ejerce sobre él ninguna verdadera autoridad.”

El hecho de que en Mahler la modulatoria, por lo demás con notables excepciones especialmente en las sinfonías Sexta, Séptima y Novena, se mantuviera relativamente subordinada cobra un sentido compositivo.”

Em Mahler o consolo é o reflexo da tristeza. Nisto a música de Mahler conserva ansiosa ese algo mitigador, curativo, que desde tempos imemoriais a tradição atribuíra à música como força para expulsar os demônios, e isto, contudo, empalidece como quimera segundo a medida do desencantamento do mundo. À pergunta de o quê queria chegar a ser um dia, Mahler, desda infância, já havia respondido: mártir. Posto que o que mais lhe aprazeria é sua própria música ser o Paráclito, ela se excede e se torna, aí, inauténtica.”

Sua Nona é sobretudo estranha. Nela, o autor mal se expressa enquanto indivíduo. É como se essa composição devera ter um autor oculto que usara Mahler meramente como porta-voz, como bocal.”Arnold Schönberg, Estilo e Idéia (El estilo y la idea [1963]), NY, 1950.

Logo depois da wagneriana, a mahleriana é a música de diretor de máximo ranking; uma música que se executa a si mesma.” “A situação é análoga à da narrativa literária formal do discurso indireto. Inimiga de toda ilusão, a música de Mahler acentua sua inautenticidade, sublinha a ficção, a fim de se curar da falsidade em que a arte está começando a mergulhar. Nasce assim no campo de forças da forma o que em Mahler se percebe como o caráter da ironia. Qualquer asno ouve em Mahler marcas da música de diretor de orquestra, as marcas do conhecido no novamente produzido.” “O diretor de orquestra metido a compositor não tem no ouvido meramente a sonoridade orquestral, mas também a praxis orquestral, o como da maneira de tocar instrumental, junto com aquelas tensões, debilidades, exagerações e fraquezas que sua intenção vence. (…) ajuda a música a se produzir espontaneamente” “A praxis com a orquestra, na esfera comercial algo funestamente positivo, que ata, desencadeia em Mahler a fantasia compositiva. (…) O fato de Mahler pertencer à cultura musical como maestro empapado de sua linguagem e no entanto estar separado dela ao mesmo tempo se converte no éter de sua linguagem, polida se bem que estranha, estrangeira. (…) Em Mahler o fluido e o reificado formam uma constelação parecida com o alemão de Heine [cujo idioma natal não é o alemão]. Não é lícito criticá-lo pelas fraturas na forma, porque ele tem sua idéia na fracionaridade mesma.”

A reflexão sobre a injustiça social que a linguagem artística inevitavelmente comete com quem não participa do privilégio da cultura se opõe energicamente à lógica musical.”

Seria o caso de confrontá-lo a Bruckner, com quem tão irrefletidamente se o associa nos países ocidentais, como se a mera duração fosse uma categoria qualitativa.”

A música de Mahler sabe e configura objetivamente o fato de que a unidade não se dá a despeito das fraturas, senão unicamente em virtude da fratura.”

A música de Mahler é o sonho do indivíduo num coletivo irresistível. Mas ao mesmo tempo expressa objetivamente que a identificação com este é impossível. Aquele que sabe a nulidade do eu isolado, e que tem erroneamente a si mesmo por absoluto, sabe que este eu não pode presumir ser imediatamente um sujeito coletivo. Não há em tal música nenhum rastro de atitudes objetivistas como as do neoclassicismo; no neoclássico, Mahler é odiado.”

O fato de que o judio Mahler, como Kafka em seu conto sobre a sinagoga, conseguisse sentir o cheiro do fascismo com décadas de antecedência é sem dúvida o que deveras motiva a desesperação do camarada errante, a quem um par de olhos azuis envia para a diáspora.”

Karl Kraus dizia que mais vale um barranco bem pintado que um palácio mal pintado.”

Ainda em vida, Mahler recebeu a crítica, de um famoso resenhista, segundo testemunho de Schönberg, de que suas sinfonias não passavam de ‘pot-pourris gigantescos’.”

Desde Berlioz, o processo de integração sinfônica marchou acompanhado como que por uma sombra, pela irracionalidade do procedimento compositivo.” “Comparada com o procedimento não-esquemático de Mahler, toda a música de seu tempo, a do jovem Schönberg inclusa, era tradicionalista na medida em que era música de especialista.” Resumindo: Mahler grita “foda-se o gosto!”.

Beethoven ainda reconciliava o momento plebeu com o classicista na relação com algo múltiplo que é certamente elaborado como ‘material’, mas que nunca destaca autonomamente, em bruto. Mas a época de Mahler já não conhecia um povo que pudesse perceber-se como brotado da natureza e a que o jogo musical houvera podido com decoro emprestar sua vestimenta. Ao mesmo tempo, tampouco o nível de domínio musical do material alcançado permite absorver o plebeu.”

o que faz aqui a música que tem seu caminho de volta bloqueado é antes tomar alento do que simular um caminho que não existe. (…) O inferior em Mahler é na verdade o negativo da cultura que fracassou.”

O espírito, celebrado na grande música tanto mais tiranicamente quanto maior é essa música, despreza o vil trabalho físico dos outros. A música de Mahler não quer participar no jogo segundo essas mesmas regras.”

cada compasso abre os braços em cruz. Mas o que a norma da cultura rechaçara, o detrito freudiano do mundo fenomênico, não se esgota de todo, segundo a idéia de tal sinfonismo, na cumplicidade com a cultura: a doutrina de Freud da cumplicidade entre o isso e o supereu contra o eu está escrita como a medida em Mahler. O detrito deve empurrar a obra para mais além da aparência em que se convertera sob a cultura e reestabelecer algo desta corporeidade por que a música se diferencia de outros meios artísticos.”

O primeiro esboço do tema ‘Todo o morredouro é uma cópia’ da Oitava sinfonia, há décadas na casa de Alban Berg, está anotado em um pedaço de papel higiênico.”

Não seduzido pelo romantismo do autêntico e essencial, Mahler em nenhum caso pretende pôr ante os olhos essa nudez de maneira não-metafórica, como algo que é em si. Daí a fracionaridade.”

Mahler leva a sério seus modelos infantis, à diferença de Stravinski. (…) Ele não se zanga com o velho desvigorado nem com o sujeito impotente. Nos seus tão citados momentos irônicos, o sujeito se acusa da vaidade de seu próprio esforço, ao invés de se rir do mundo de imagens perdido e conjurado. Mahler não sabe conservar a serenidade e a pachorra nesses momentos.”

Se, correndo-se o risco de ser mal-interpretado, se comparasse Mahler e Stravinski a correntes da psicologia, então Stravinski se alinharia com os arquétipos junguianos, enquanto que a consciência ilustrada da música de Mahler recorda o método catártico daquele Freud que, numa fase crítica de sua vida, renunciou à cura da doente por causa da causa [sexual] da histeria, no que por sinal se mostrara muito superior àqueles diáconos que despacharam Baudelaire com o diagnóstico de seu ‘complexo materno’.” Diácono é como o ajudante-do-padre, um zé-ninguém.

A história da música do século XX, na medida em que se orientava pela sensibilidade e pelo cromatismo, havia multiplicado enormemente as tensões e desvalorizado as distensões.”

Ali onde o composto são dois pontos ou uns sinais de interrogação, não cabe respondê-los com um mero sinal de pontuação, mas sempre somente com uma frase. (…) a música diz, de certo modo, voilà. Este momento o herdou logo a seguir Schönberg, cuja frase, a de que a teoria da música sempre trata somente do começo e da conclusão e nunca do que aparece no meio, alude a esse estado de coisas.”

A irrupção é sempre suspensão (…) mas nem toda suspensão é irrupção.” “da dialética não se pode saltar ao incondicionado sem perigo de recaída no inteiramente condicionado: ele evita pronunciar compositivamente o nome de Deus a fim de não entregá-lo a seu adversário.” “as suspensões dizem adeus à imanência da forma sem afirmar positivamente a presença do outro; auto-reflexões do preso em si, e não mais alegorias do absoluto.”

Para sua desconfiança da paz da era imperialista a guerra é o estado normal, e os homens soldados alistados contra a vontade.”

Se a ditadura não houvesse depravado a tal ponto a expressão ‘realismo socialista’, Mahler seria o único a quem ela conviria. Os compositores russos dos anos 60 soam como um Mahler contrafeito. Berg é o legítimo herdeiro desse espírito”

A humanidade de M. é uma massa de deserdados.”

Os relógios se chamam ao darem a hora e vê-se o fundo do tempo” Rilke

Mahler de Arquivo

PUXANDO SACO DO MESTRE: “Sobre sua metamorfose vela uma extrema precisão compositiva. Cada fenômeno, desde o movimento sinfônico inteiro até a frase ilhada, até o motivo e sua transformação, logra exata, univocamente, o que tem de lograr: isto a nova música, Berg sobretudo, copiou de Mahler. Neste as evoluções parecem dizer: isto é uma evolução; as interrupções se produzem de maneira indiscutivelmente brusca; se a música se abre, ouvimos os dois pontos; se se fecha [cumpre], a linha sobrepassa perceptivelmente em intensidade ao precedente e não abandona o nível alcançado. As resoluções claramente fulminam os contornos e a sonoridade. O marcato marca”

A norma de clareza a que ele submeteu rigorosamente sobretudo a instrumentação era resultado da autorreflexão compositiva” “quanto menos a música articula, mais deve se preocupar com essa articulação”

O todo, outrora o fundamento apriorístico da composição, se converte na tarefa de cada um dos movimentos mahlerianos.”

O impulso, o ímpeto sinfônico, era a capacidade da música para adquirir momentum, como sobretudo nos desenvolvimentos de Beethoven.”

Os movimentos de Mahler são rios em que afunda qualquer coisa que neles cai, sem que por isso absorvam jamais o determinado.”

Sua música, tonal, preponderantemente consonante, tem não poucas vezes o clima da dissonância absoluta, a negrura da nova música.”

BLACK METAL? “Tais instantes evocam a doutrina da mística judia que interpreta o mal e o destrutivo como manifestações dispersas da potência divina fragmentada; em conjunto, os rasgos mahlerianos nos quais se dependuraram os clichês de mente panteísta, caberia derivá-los antes de um estrato subterrâneo-místico do que da ominosa crença monista na natureza.”

O material sonoro mahleriano é caracterizado até na fisionomia dos instrumentos que saltam insubmissos do tutti: os emancipados trombones que perturbam o equilíbrio no primeiro movimento da Terceira; retumbantes, fragorosos motivos dos tímpanos na Primeira música noturna e no Scherzo da Sétima

Mahler trata a forma de maneira assistemática não por mera mentalidade do inovador, mas por conhecimento de que, diferente da arquitetura, o tempo musical não permite simples relações de simetria.”

assim tinham de ser os instrumentos infantis que ninguém nunca ouviu.”

Todas as obras de Mahler se comunicam subterraneamente, o mesmo que as de Kafka pelos passadiços intermináveis de seu famoso edifício. Nenhuma obra sua chega a ser uma mônada comparada às outras.”

Na Quarta escreve o contraponto a sério pela primeira vez”

es el intento solitario de comunicación musical con lo déjà vu, de color resistente como la imago del carromato de gitanos o del camarote del buque.”

Resgata a marcha, depreciada então pelos eruditos, ou seja, pela então ‘cultura’.

Como mais tarde ocorreu com o jazz, é provável que durante o séc. XIX um certo tipo de músicos sem pretensões artísticas conquanto qualificados como artesãos passou para a música militar e ali encontrou fórmulas compositivas exatamente apropriadas para uma corrente coletiva subjacente”

Como Eurídice, a música de Mahler foi raptada do reino dos mortos.”

Crianças que dificilmente entenderam corretamente (sic!) a completa e multidimensional música mahleriana, quiçá no terror tenham podido compreender melhor que os adultos a venturosa dor de canções como Andava alegre eu por um verde bosque.”

Pinta o paraíso com traços campesinos e antropomorfos, para anunciar que não existe.”

La increencia que subyace al cristianismo en todos los países convertidos a los que sometió, u en la cual se mezclan inextricablemente restos de una religión natural mítica con inicios de la Ilustración, entra en imágenes musicales de la fe.”

O tema principal, que ao não-inteirado soa como um regresso a Mozart ou a Haydn e que na verdade procede do conseqüente do tema cantável do Allegro moderato da Sonata para piano em si bemol maior, ópera 122 de Schubert, é o mais inautêntico de todos os mahlerianos.”

O chifre maravilhoso do rapaz – que nome!

El poema culmina en una cristología estrambótica, que sirve al Salvador como alimento para la famélica alma e involuntariamente acusa al cristianismo de ser una religión sacrificial mítica”

A teologia de M. é, uma vez mais como a de Kafka, gnóstica; sua sinfonia de conto de fadas é tão triste como as obras tardias.”

Em Strauss a caracterização fracassa porque ele define os significados puramente a partir do sujeito, autonomamente.”

para bem compreender Mahler nunca é necessário nenhum saber abstrato para além da manifestação fenomênica da própria música, nem é preciso recorrer a qualquer engrenagem de associações”

O momento reacionário da música de M. é sua ingenuidade.”

Duma espécie de mero ser-aí musical, aquele folclórico, hão de extrair-se mediações, o único que justificaria e dotaria de sentido. Do ponto de vista da filosofia da história a forma de M. se aproxima da novela. O material musical é pedestre, a execução, sublime. Essa foi a configuração conteúdo-estilo da novela-das-novelas, Madame Bovary.”

Na base da forma musical novelística há uma aversão que devia ser sentida já muito antes de Mahler, mas que ele foi o primeiro a não reprimir. Odeia saber de antemão como continua a música.”

O clássico desconjuntado

Ele podia reivindicar o subtítulo de Assim falou Zaratustra: ‘Música para todos e para ninguém’.”

Desde Kant e Beethoven, a filosofia e a música alemãs foram sistema. O que se lhe escapou, seu corretivo, se refugiou na literatura, na novela e numa tradição semi-apócrifa do drama, até que mais ou menos na virada para o XX a categoria da vida, lixiviada como cultura e já reacionária na maioria dos casos, se fez também acessível à filosofia. Diante disso, a música de Mahler assumiu originalmente o reconhecimento nietzschiano de que o sistema e sua unidade sem fissuras, a aparência de reconciliação, não era sincera. (…) O potencial para isso adveio-lhe da atmosfera austríaca inatacada pelo idealismo alemão, em parte até pré-burguesa, feudal, por outra parte cética à maneira de José II, enquanto M. tinha – ao mesmo tempo – a essência integral da sinfonia bastante presente como para protegê-lo de uma mentalidade formal que faria concessões demasiadas a uma audição atomista no sentido débil do termo.”

El trabajo temático de cuño beethoveniano, ese reflejo lúgubremente grandioso de una agudísima compresión del pensamiento y de una impertérrita consciencia de las metas, no encontró ya ninguna fundamentación interna en el nuevo estilo sinfónico (…) Así es como cayó la rígida temáticamente orgánica técnica de Beethoven, o más bien se convirtió en medio auxiliar de segundo orden.” Bekker

En Beethoven mismo la confianza en la plenitud extensiva y en la posibilidad de descubrir pasivamente una unidad en la multiplicidad contrapesó la idea estilística trágico-clasicista de una música del sujeto activo. Schubert, a quien esta última idea comienza ya a desvanecérsele, se ve tanto más atraído por el tipo épico de Beethoven. (…) De todas las preformas del modo mahleriano de configuración, quizá la más importante sea el primer movimiento de la Sinfonía en si menor de Schubert; Webern lo veneraba como una concepción totalmente fresca de lo sinfónico en general.”

Se não é verdadeiro o pronunciamento de Mahler sobre Bruckner, de que seu amigo seria ‘metade Deus, metade imbecil’, esta anedota foi, pelo menos, muito bem-inventada.”

Por mucho que los oscuros bosques vírgenes de Bruckner parezcan aventajar a la fraccionariedad de Mahler, ésta es superior a la leñosidad de Bruckner, a ese estatismo un poco empedernido que no tiene fundamento más firme que el hecho de que en San Florián Nietzsche todavía no era tema de conversación. Bruckner fue para Mahler lo mismo que Robert Walser fue para Kafka.”

empirismo musical”

O DOGMA VS. A FALTA DE SENTIDO: “La fraccionariedad del tono mahleriano es el eco de aquella aporía objetiva, de la escisión entre dios e imbécil.”

A sustentável gravidade de Mahler

Las obras de Mahler director de orquesta no están contagiadas por el gesto del hombre práctico que al componer en cierto modo chasquea los dedos y se cuida de que todo vaya rodado y, sobre todo, de que ningún oyente se distraiga.” “Tal desconsideración tiránica hacia el contexto de eficacia apoya a la intención épica; la indicación agógica ‘dejar tiempo’ que en ocasiones aparece describe todo su modo de reacción.”

Um tempo em que “la música ya no puede ni ‘narrar’ ni invitar a la danza.”

Es conocida la apasionada relación de Mahler con Dostoyevski, que hacia 1890 todavía representaba algo distinto que en la época de Möller van den Bruck.(*)

(*) Arthur Möller van den Bruck (1876-1930): escritor y politólogo alemán, traductor de Dostoyevski. En 1923 publicó El tercer imperio (Der dritte Reich), cuyo título adoptará como lema el nacionalsocliamo.”

Conta-se que, durante uma excursão com Schönberg e os discípulos deste, Mahler recomendou-lhes estudar menos contraponto e ler mais Dostoyevski, depois do quê ouviu-se a heroicamente tímida resposta de Webern: ‘Vai me perdoar, senhor diretor, mas nós temos Strindberg’. A anedota anônima lança luz sobre a diferença entre a concepção novelística [D.] da música e a expressionista [S.] da geração seguinte, já plenamente emancipada, de compositores.”

o elevar-se a grandes situações, o desmoronar-se em si (Quinta Sinfonia, 2º movimento)”

Realizam-se gestos como o da Natacha de O Idiota, que lança ao fogo os bilhetes de banco; ou como aquele em Balzac, quando o criminoso Jacques Collin, disfarçado de bispo espanhol, dissuade o jovem Lucien Rubempré do suicídio e promove-o a um splendeur em prestações; quiçá também como o de Ester, que se sacrificava pelo amado sem suspeitar de que, àquela altura, a roleta da vida já havia salvado a ambos de qualquer miséria. Como nas novelas, em Mahler a felicidade floresce à margem da catástrofe.”

O mesmo que a filosofia, que a Fenomenologia hegeliana, a música em Mahler é a vida objetal que volta uma vez mais através do sujeito, e a volta dessa vida no espaço interior a transfigura num absoluto espumante. A concreção da leitura de novelas está em outra dimensão que a percepção distinta dos acontecimentos.”

À música épica segue vedado o descrever o mundo a que ela se refere: é tão transparente quanto críptica.” “distanciar-se-ia do mundo se quisera simbolizá-lo ou, sobretudo, reproduzi-lo. Schopenhauer e a estética romântica experimentaram isto ali onde meditaram sobre o que há de imaginário e onírico na música.” “Enquanto realidade sui generis a música se torna essencial mediante a desrealização. Não é como se ela representasse um grau intermediário entre o real e o sonho ou a fantasia.”

M., por duas vezes, escreve ‘imaginário’ como indicação de execução: no Scherzo da Sétima e no primeiro movimento da Nona.” “No espaço musical floresce uma empiria de segundo grau, já não, como a outra, heterônoma à obra de arte. A interioridade da música assimila o exterior no lugar de apresentar, exteriorizar, o interior.” Não há nada oculto: é assim a realidade, quando se pára para ouvi-la.

Se o mundo se equiparasse imediatamente à essência – e, segundo viu Schopenhauer, a música é imediatamente essência –, a música seria a loucura. Toda grande música é um furto de loucura; em cada qual há uma identificação do interior com o externo, mas a loucura não tem nenhum poder sobre ela.”

O fato de que Mahler, que passou a vida toda na ópera e cujo movimento sinfônico corre em muitos aspectos paralelo ao da ópera, não escreveu nenhuma ópera pode explicar-se pela transfiguração do objetal no reino interior das imagens. Sua sinfonia é opera assoluta. Como a ópera, o sinfonismo novelístico de Mahler brota da paixão e flui detrás; a ópera e a novela conhecem, mais que a música absoluta, fragmentos de desfecho como os seus.”

Proust chamou a atenção sobre o fato de que na música às vezes novos temas conquistam o centro como faziam nas novelas figuras secundárias que até então haviam passado inadvertidas.”

A idéia classicista da sinfonia conta com uma multiplicidade definida, cerrada em si, como a Poética aristotélica com as 3 unidades.” “Os componentes temáticos imprevistos destroem a ficção de que a música é um puro contexto dedutivo em que tudo o que sucede se deduz com unívoca necessidade.”

Lamentar as longitudes mahlerianas não é mais digno que aquela mentalidade que vende mais barato versões abreviadas de Fielding, Balzac ou Dostoyevski.”

M. não faz concessão à comodidade do easy listening sem memória nem expectativa.”

Se aos contemporâneos de Beethoven o tempo acelerado de suas sinfonias estremecia-lhes os nervos como se dizia dos primeiros trens, quem sobreviveu 50 anos a Mahler estremece-se com ele igual os habitués de viagens de avião quando viajam de navio. A duração mahleriana recorda-os que eles mesmos perderam duração; talvez temam não viver, em absoluto. Isso eles reprimem com aquela superioridade do homem importante que certifica não ter tempo, e com isso divulga sua própria verdade ignominiosa. É absurdo fazer Mahler e Bruckner consumíveis mediante cortes que, como disse Otto Klemperer, aumentam, em vez de encurtar, seus movimentos.”

A irracionalidade dos textos do Corno maravilhoso, tendente ao absurdo, produzida pela montagem de poemas divergentes, assinalada por Goethe em sua recensão, é reivindicada pelo modo de compor de Mahler”

Enquanto estróficas, as canções mahlerianas têm a objetividade das baladas, ao passo que a lírica subjetiva sacrifica a estrutura estrófica à poética, e à forma musical.”

Que a música disserta sobre si mesma, que se tem a si mesma por conteúdo, que narra sem nada narrar, não é tautologia, tampouco uma metáfora do porte de narrador que inquestionavelmente é muitas vezes o de Mahler.” “Assim como o narrador, a música de Mahler nunca diz duas vezes o mesmo do mesmo modo: assim intervém a subjetividade.”

Rewelge, com a indicação de execução ‘De contínuo’ confirma a exceção à regra total mahleriana, por tratar-se de uma marcha, que nem sequer a morte interrompe.”

Mahler se oponía al piano en cuanto el instrumento ya en su época reificadamente tableteante de la lírica subjetiva, mientras que la orquesta era capaz de dos cosas: registrar exactamente la representación compositiva en un color concreto y, gracias al volumen coral que conserva incluso en pianissimo, producir una especie de grandeza interior.”

Da intemporalidade do sempre igual Mahler faz surgir o tempo histórico. Com isso assume a originária tendência anti-mitológica do epos e portanto, e acima de tudo, da novela. (…) O que esses estilos têm de resolver é a recapitulação. Ou bem a resumem tanto que ela mal é considerada, em contraste, diante da prepotência do desenvolvimento, ou bem modificam-na radicalmente.”

No primeiro movimento da Terceira é chocante a renúncia a todas as categorias de mediação tradicionais. Analogamente ao Schönberg expressionista, não se põe muito cuidado a fim de erigir pontes entre os complexos. Com bárbara insolência, Mahler une-os precisamente com o mero ritmo de percussão, uma palpitação abstrata do tempo.” “M. serve migalhas, não caldo.”

O movimento se estira e estende em todas as dimensões como o corpo de um gigante. A polifonia não lhe interessa. O modelo principal do desenvolvimento, a entrada em si bemol menor, é certamente apresentado durante um par de compassos, como se estivesse prestes a ser fugado, porém, contra todas as regras da fuga, se aferra então a uma nota, e quem esperava a bem-educada resposta fica estalado em seu assento.”

Com grande esforço, por exemplo mediante o estudo ulterior de Bach, tem M. de adquirir o que compositores como Debussy, que estão impregnados de sua cultura, já trazem consigo. Os meios existentes não se adaptam à intenção mahleriana, que tende ao que não existe. Não só tem de aprender, como evitar de incorporar, como o saturado som de Wagner ou o ímpeto do, ainda em seus excessos, amável Strauss, que corre com desenfreio ao total.”

A partir da oposição à maestria dos outros, que havia degenerado em destreza; a partir das torpezas sem afetação e provocativas da Primeira e da Terceira, se restitui uma maestria que acaba por deixar debaixo de si, à mercê da identidade entre o composto e a manifestação fenomênica, o nível técnico da época”

O fato de que cada obra de Mahler critica a precedente faz dele o compositor evolutivo por excelência (…) o que ele melhora sempre se converte em algo distinto; daí a muito pouco bruckneriana policromia da sucessão de suas sinfonias.” “A Bekker não escapara que as últimas peças de quem mal chegou aos 50 são obras tardias no sentido mais explícito: exteriorizam o insensivelmente interior. Mas até que ponto contribuiu a vontade crítica de M. para sua evolução já se pode provar na época intermediária, muito antes disso.” “O salto qualitativo a partir da Quarta é indiscutível. (…) O que antes foi esboçado agora é desenvolvido.”

Analogamente a Wagner, sua obra sonha com um compor sem aparências, sóbria, não-transfiguradora.”

Mahler reagiu violentamente contra a estupidez musical, que no séc. XX se expandiu não menos que no XVIII e no XVII; a repetição infantil repugnava-lhe. E, paradoxalmente, era consciente de que o elemento tectônico, tal como primitivamente o representa a repetição, não pode ser extirpado.”

Qualquer série beethoveniana de variações se poderia comparar a uma canção qualquer de Mahler, como a Canção noturna da sentinela. O que em Beethoven se mantém fixo é (…) a condução das harmonias sobre um baixo contínuo; outros momentos, como as unidades do movimento ou a situação dos componentes motívicos principais, se alteram conseqüentemente de variação em variação. (…) Em Mahler, ao contrário, por todas as partes a estrutura geral se conserva de maneira inconfundível, porém por todas as partes também se introduziram fintas; proporções harmônicas como as de sonoridades em maior e em menor se inverteram com respeito a sua primeira aparição e, portanto, revogou-se a posteriori a formulação inicial do tema, como se esta se houvesse entregue ao capricho improvisatório.”

Se pintor fosse, Mahler seria aquele que pinta primeiro os contornos para depois preenchê-los. Beethoven faz tudo de imediato, de dentro para fora.

Tal largesse no tratamento do material, por sua vez contrária ao princípio de economia beethoveniano-brahmsiano, legitima tecnicamente a grande escala do sinfonismo épico de Mahler.”

O princípio da variante surge na canção estrófica variada na medida em que suas estrofes nunca podem ser profundamente variadas. Tão antipsicológicas como as baladas, retornam formulaicamente como refrões e são, não obstante, tão pouco rígidas como as fórmulas homéricas. O que aconteceu antes e o que virá a acontecer as afeta.”

O núcleo idêntico fixo, embora exista, dificilmente se deixa assinalar com o dedo: como se se subtraíra à escritura mensural.” “Paul Bekker constatou que o tema andante da Sexta Sinfonia, uma melodia perfeitamente fechada, tende, por assim dizer, a ser olvidado durante a peça.” “A propósito de temas que são conservados mas não firmemente coagulados e que emergem de um mundo de imagens coletivo, caberia pensar em Stravinski. Mas Mahler não são ‘cubos irregulares’, ‘montados obliquamente’, ‘desvinculados entre si’. (…) Seu princípio não é a violência.”

O tema minore do primeiro movimento da Nona sinfonia, p.ex., contém um sol sustenido impróprio à escala, o qual determina o caráter dissonante de todo o complexo em si; mas precisamente este sol sustenido ou seu equivalente é logo substituído muitas vezes por um lá, isto é, a quinta justa da tônica de ré menor. Em sua análise Werwin Ratz mostrou detalhadamente a função conformadora justamente da troca de ambas as notas críticas.”

O movimento, que recorre [percorre de novo] imensos lapsos temporais, logra a quadratura do círculo: é de uma só vez dinâmico e tectônico, sem que um princípio anule o outro.”

A recapitulação era a cruz da forma sonata. Revogava o que a partir de Beethoven era o decisivo, o dinamismo do desenvolvimento, de maneira comparável ao efeito de um filme no espectador que, depois do final, permanece sentado e vê uma vez mais o começo. Beethoven solucionou-o mediante um tour de force que para ele se converteu em regra: no frutífero momento do começo da recapitulação, apresenta o resultado do dinamismo do devir, como a confirmação e justificação do já-sido, do que em qualquer caso foi. Esta é sua cumplicidade com a culpa dos grandes sistemas idealistas, com o dialético Hegel, no qual ao fim a quintessência das negações, e portanto do mesmo devir, desemboca na teodicéia do que é. Na recapitulação a música, enquanto ritual da liberdade burguesa, seguia, o mesmo que a sociedade na qual é e que é nela, submetida à servidão mítica. Manipula o contexto natural que gira em si, como se o que retorna fôra, em virtude de seu mero retorno, mais do que é, o sentido metafísico mesmo, a <idéia>. Mas, pelo contrário, uma música sem recapitulação conserva algo de (não meramente desde o ponto de vista culinário) insatisfatório, desproporcionado, abrupto: como se lhe faltasse algo, como se não tivera um final. Com efeito, toda a nova música está atormentada pela questão de como poderia concluir, não só cessar, depois de que o deixaram de conseguir as formações conclusivas cadenciais, as quais têm elas mesmos algo da essência da recapitulação, que, se se quer, transporta em grande escala a fórmula cadencial. Mas a chegada de Mahler à alternativa converge com a das maiores novelas de sua geração. Ali onde, por razões formais, repete algo passado, não canta o elogio disto ou da caducidade mesma. Mediante a variante, sua música recorda desde longe o passado, o semi-esquecido, eleva um protesto contra sua superfluidade absoluta e o determina, todavia, como algo efêmero, irrecuperável. Sua idéia tem essa fidelidade redentora.”

Quando na Nona sinfonia Mahler abandonou a sonata, revelou meramente aquilo a que subcutaneamente se presta toda sua obra.” “Na Primeira a breve exposição allegro era já monotemática; falta o ortodoxo tema cantável.” “Na Terceira a sonata é derrotada, pois segundo os critérios desta a introdução, o tema principal da exposição e o desenvolvimento resultam desproporcionais. Por suposto, o primeiro movimento da Quarta é sonata, mas arcaica, como antes já o primeiro movimento da Oitava de Beethoven; para uma sonata propriamente dita o segundo tema seria uma canção instrumental demasiado independente (…) é só retrospectivamente que os pensamentos contrastantes se convertem numa unidade bastante ramificada no desenvolvimento, o primeiro mahleriano que desdobra didaticamente os componentes da exposição: com ele, arranca verdadeiramente o movimento como história. A coda completa o que a recapitulação ortodoxa omitira no começo. Em que pese tudo isso, este movimento renega também a essência sonatística não só porque tudo está composto ‘entre aspas’, porque a música parece dizer: ‘Era uma vez uma sonata’, como também porque tecnicamente os complexos da exposição se diferem tanto, estão tão energicamente separados, que de antemão se negam a aceitar um veredito.”

De todo modo, a composição épica nunca foi a mera antítese do dramático, mas, como na novela literária, vizinha dele nos impulsos, nas tensões, nas explosões.” “A tragédia rechaça a forma nominalista. A tonalidade, que para sua própria glória sanciona o afundamento do individual, ao qual não resta nenhuma opção ademais de afundar-se, domina indiscutível. A emancipação mahleriana em relação à sonata havia sido mediada pela própria sonata. Ele absorveu sua idéia nas sinfonias intermediárias para no final configurar de tal maneira que cada compasso esteja à mesma distância do centro.”

O tema principal não segue imediatamente, como manda a tradição, a introdução: chega-se a ele através de um breve allegro moderato que modula da tonalidade inicial de dó menor à tonalidade principal de lá menor; dessa versão intermediária do primeiro tema Mahler se recorda mais tarde num dos modelos mais importantes de desenvolvimento.”

Mediante o drástico dualismo de tema principal e secundário, renuncia-se a um grupo conclusivo prolixo ou a um terceiro tema.”

grandes novelistas como Jacobsen puderam omitir períodos inteiros da vida de seus heróis e com súbita resolução iluminar fases críticas de sua vida; o que Jacobsen abraçou expressamente como princípio da ‘má composição’, no grande experimento formal de Mahler se converte também no princípio de uma boa composição.”

Na Sétima, notas acrescidas fazem com que o maior resplandeça como uma espécie de supermaior, como o famoso acorde do Adagio da Nona de Bruckner.”

O nominalismo mahleriano, a crítica das formas por meio do impulso específico, afeta também o tipo de movimento que, herança da suite, se havia mantido desde Haydn com a máxima tenacidade, o minueto e o scherzo; só em Mendelssohn se havia pensado doutro modo.” “Com um esforço que ele mesmo teve de sentir como extraordinário, na Quinta M. concebe o novum do scherzo como desenvolvimento.”

la mayor parte de las veces el concepto de banalidad en Mahler aísla ergotistamente dimensiones individuales, ciego al hecho de que en él sólo la relación entre ellas, y no ninguna singular, define el carácter, la ‘originalidad’.”

A preocupação com uma reprodução correta se converteu em cânon da composição. Compor de tal modo que a execução não possa destruir a música, i.e., eliminá-la já virtualmente, significa, ao mesmo tempo, compor de maneira inteiramente clara, unívoca.”

A integração crescente do procedimento compositivo mahleriano não reduz, como muitas vezes depois dele, a substancialidade das dimensões individuais, senão que é ela somente a que lhes confere autenticamente relevo; o todo robustece retroativamente os momentos que o produziram. No Mahler jovem a harmonia tinha certamente suas peculiaridades, mas não era ainda um meio autônomo.”

Alban Berg chamou a atenção sobre o exemplo mais belo da interdependência entre o melodicismo e a harmonia no jovem Mahler, aquela frase intermediária da donzela na Canção noturna da sentinela, onde uma curva com amplos intervalos e a rítmica alternante entre compassos binários e ternários se reflete em progressões acórdicas e sonoridades de profunda corporeidade, como aquela em que as notas dó-si-ré sustenido-fá sustenido-ré chocam sem que ela, deduzida da condução das vozes, se converta numa mancha na textura harmônica”

De forma análoga à harmonia, o contraponto de Mahler se robustece com a maior densidade da textura sinfônica. A primeira vez em que Mahler dedicou-lhe atenção foi na Quarta, para, então, na Quinta e posteriormente, integrá-lo à forma total como dimensão compositiva.”

Algo bastante excepcional, no Conservatório de Viena se o dispensou do estudo do contraponto com base em suas próprias composições da época escolar. Segundo conta Natalie Bauer-Lechner, Mahler não demoraria a se lamentar por isso: ‘Porque, curiosamente, eu, desde sempre, nunca pude pensar mais que polifonicamente! Mas aqui, hoje, segue-me faltando, provavelmente, o contraponto, a escritura pura, que a qualquer estudante que nele se tenha exercitado pareceria mero jogo. (…) Agora compreendo que Schubert, segundo consta, até pouco antes de morrer quis estudar contraponto! Ele sentia até que ponto lhe fazia falta… E eu posso sentir o mesmo, posto que eu mesmo, desde os tempos de estudante, careço igualmente dessa capacidade e de uma prática correta, 100%, em contraponto. Em mim, de qualquer forma, o intelecto ocupa seu lugar, mas o gasto de forças que isso exige é desproporcionalmente grande.’” “Com ‘polifonia’, Mahler queria dizer, evidentemente, aquela propensão ao que soa caótico-desorganizado, à simultaneidade sem regras, contingente, do ‘mundo’ em cujo eco sua música quer se converter mediante sua organização artística.”

Como seu material estava antiquado, como o novo ainda não estava liberado, em Mahler o antiquado, o que ficara pelo meio do caminho, se converteu no criptograma das sonoridades ainda não ouvidas que chegariam mais tarde. O que lhe falta de imediatez do fenômeno musical é o que, graças a tal negatividade, o vestígio do sofrimento passado em sua linguagem, o faz superior a Bruckner.

Até que ponto a negatividade musicalmente imanente de Mahler se opõe ao entusiasta programa berlioz-lisztiano mostra-o o fato de que as novelas não têm nem veneram heróis como proclamam dois dos títulos de Strauss e incontáveis de Liszt. Inclusive no Finale da Sexta, apesar dos golpes de martelo, que por certo ainda hoje não se ouviram adequadamente e sem dúvida aguardam a realização eletrônica, alguém esperará em vão ao supostamente tocado pelo destino. [?]” Peçamos ao Ministry ou ao Nine Inch Nails esse inusitado ‘cover’!…

Erwin Ratz, Sobre el problema de la forma en Gustav Mahler. Un análisis del Finale de la Sexta sinfonía

em Reger o melodicismo se atomiza até se converter em pequenos intervalos de segundo plano desprovidos de qualquer qualidade, os quais vão colando uma harmonia com a outra. A técnica strauss-berlioziana do imprévu, da interrupção como efeito, da surpresa permanente, trata de paliar esta carência fazendo dela um principium stilisationis. Mahler extraiu a conseqüência inversa, impôs a melodia ali onde esta já não quer estar e com isso conferiu seu cachet às melodias mesmas, de modo remotamente análogo à maneira beethoveniana de represar o fluxo tonal mediante a implantação de sforzati e deixando ali, por assim dizer, as digitais da subjetividade. ‘Como fustigado’, reza em uma ocasião o Scherzo da Sexta. Desde a longa melodia do Finale da Primeira, M. tem com seus temas tão pouca contemplação como com seus cavalos esgotados tem um cocheiro obcecado com a meta.” “Rir-se dessas passagens heréticas de Mahler é sempre também solidário para com este mesmo; o ouvinte põe-se, assim, de seu lado.”

A obra com que sem dúvida a maioria aprendeu a amar Mahler, a Segunda sinfonia, é a que provavelmente se desvanecerá mais depressa em razão da loquacidade do 1º movimento e do Scherzo, de certo primitivismo no Finale da ressurreição.”

sua incapacidade subjetiva para o happy end denuncia este mesmo happy end

DICAS DE INICIAÇÃO

WAGNER

Ouvir primeiro OS MESTRES CANTORES.

MAHLER

A Primeira Sinfonia é experimental. É o antiformalismo encarnado, evade a monumentalidade, que se tornou quase sinônima de “sinfonia” desde a Nona de Beethoven. A Quarta é a primeira do “Mahler maduro”.

DICIONÁRIO POLIGLOTA MUSICAL (E ÀS VEZES ALGO MAIS)

BAR (ALEMÃO): “É o nome que recebe a forma tripartida das canções dos menestréis e mestres cantores alemães. Compõe-se de duas estrofes ascendentes chamadas Stollen e de uma terceira contrastante, o Abgesang, de melodia descendente.” “Que, até o seu renascimento em Wagner, durante toda a era do baixo contínuo mal se escrevessem Abgesänge, isso se explica sem dúvida pelo fato de que, enquanto cumprimento [encerramento] de um contexto musical mediante algo essencialmente novo, colidiam os Abgesänge com a idéia do hermetismo imanente à música moderna, cujo princípio econômico permitia obter tudo como rendimentos de um bem original.” Em outros termos, a música não “necessitava” dos Abgesänge em sua fase clássica final (pré-Mahler).

CANTABILE (ITALIANO): Música instrumental com o intuito de imitar a voz humana.

CROMATISMO: “É uma frase musical formada com notas da escala cromática (formada por 12 semitons). É o uso das notas cromáticas em uma composição tonal, com a intenção de gerar tensão (melódica ou harmônica), prolongando a música (desenvolvimento tonal) e adiando a resolução melódica. À medida que os compositores da segunda metade do XIX expandiram os conceitos da música tonal, com novas combinações de acordes, tonalidades e recursos harmônicos, a escala cromática e os cromatismos se tornaram mais freqüentes. Como elemento expressivo, esta técnica encontrou seu auge no final do período romântico, com Liszt, M. e W..”

ENARMÔNICO: “Diz-se de notas de nomes distintos, mas que, por efeito dos sustenidos e dos bemóis, têm a mesma entonação.”

IMPASTO (ITALIANO, Pintura): “Impasto é uma técnica em que a tinta (em particular a de óleo) é espalhada numa área da tela, ou mesmo na tela inteira, de forma tão espessa que as marcas dos objetos utilizados para pintar (p.ex. pincel, espátula) são visíveis na pintura. A tinta também pode ser misturada diretamente na tela. Quando fica seco, o impasto dá textura e relevo à representação. O termo impasto tem origem italiana e quer dizer <mistura>. O impasto ganhou notoriedade nas pinturas de artistas venezianos, como  Titian e Tintoretto, além de ser possível observá-lo nas paisagens naturalista e romântica do séc. XIX. A técnica foi imposta como uma maneira de ressignificar a superfície das obras, que deveria ter sua própria realidade e profundidade, ao invés de ser apenas uma janela para um mundo imaginativo e ilusionista. Este método também pode ser definido pelo termo pictórico, no qual a aplicação de tinta é feita de forma <solta> ou menos controlada, causando efeitos sensoriais e visuais.” A razão da inclusão deste verbete é que Strauss chama alguns trechos do Lohengrin de impastos das madeiras, associando som, cor e textura à obra de W.. Mas não sei se a expressão tem sentido apenas sinestésico se referindo a um amálgama sensorial ou também ao entalhe dos instrumentos de madeira, uma vez que a palavra impasto também é usada para obturação e preenchimento em português! Cf. p. 71: “As madeiras hão de constituir, por assim dizer, o contrapeso objetivo ao espressivo subjetivo das cordas.” & “Na frase antecedente, as vozes das madeiras, e certamente também em piano (ver abaixo), aparecem totalmente dobradas. A razão imediata é a obrigação de corrigir uma certa heterogeneidade. As flautas são, por um lado, menos resistentes; por outro, mais difíceis de emplastrar/revestir que os clarinetes; são demasiado débeis e, sem embargo, se apartam da cor total.”

MONODIA: “Canção, ordinariamente triste, entoada por uma única voz, sem acompanhamento.”

PIANO (ITALIANO): Uma dentre diversas notações utilizadas na escala musical: p (piano) para indicar um trecho de calmaria ou quietude, ou seja, altura do som baixo (em termos de volume da música mesmo); pp (pianissimo) para indicar o superlativo; além de outras expressões como forte, fortissimo (altura do som alto ou altíssimo), etc. Essas notações integram a parte da Música Clássica chamada de Dinâmica. Um interessante resquício da “música analógica” para se ver e ouvir hoje em dia! Outras indicações:

mp – mezzo-piano

mf – mezzo-forte

ppp – pianississimo

fff – fortississimo

pppppp (!) – usado por Tchaikovski

SCHERZO (ITALIANO): Seção de uma sinfonia ou sonata.

DICIONÁRIO LINGÜÍSTICO PROSAICO

atañer: dizer respeito

campechanía: franqueza, cinismo

Helle: claridade

Hölle: inferno

pintarrajo: rabisco, esboço (desenho)

soltar los gallos: mentir, falhar a voz, sair do tom, embargar o discurso.

HEIDEGGER AND CARNAP ON THE OVERCOMING OF METAPHYSICS

In his ‘Überwindung der Metaphysik durch logische Analyse der Sprache’ (1931), Carnap chooses, as examples of metaphysical nonsense, certain sentences from Heidegger’s Was ist Metaphysik? (Heidegger, 1969). This has not normally been taken as a serious encounter with Heidegger’s thought. I wish to argue, on the contrary, that Carnap indeed has a serious understanding and criticism of Heidegger. To this end I will show, first, that both Heidegger and Carnap are reacting against Husserl’s philosophical system, in similar ways and for similar reasons. And I will claim, furthermore, that Carnap understands this, and that he therefore criticizes Heidegger for carrying out their common project incorrectly.”

Husserl solves certain problems in Kant’s theoretical philosophy by in effect reconstituting pre-Kantian metaphysics within the framework of Kantian epistemology. This horrified them, and for exactly the reason it would have horrified Kant: because, namely, it meant shoring up the theoretical philosophy’s demonstration of the possibility of science at the expense of the practical philosophy’s demonstration of the possibility of freedom. Each, in response, put forward a new and improved version of the original Kantian strategy: a new explanation of how science is possible which would once and for all rule out the return of traditional metaphysics, and thereby once and for all protect the possibility of ethics.”

Metaphysics is, in a sense, simply the special science of the most prior sphere—i.e., ‘first philosophy’.” “Metaphysical knowledge, finally, because it is transcendental knowledge, is also knowledge of the possibility of science: of each special science individually, and of science in general as a unified whole.”

Kant, as is well known, comes to this traditional system as an all-destroyer. The objects of our knowledge, he says, must be given to us in intuition. But we human beings have only sensible, not intellectual, intuition. Hence the objects of theoretical knowledge may be physical (objects of outer sense) or psychological (objects of inner sense), but they cannot be noumenal (purely intelligible).”

Phenomenal beings, in other words, are transcendentally ideal: the form of our cognitive faculties is for them the principle and cause of being as such. Thus we can have the part of metaphysics which concerns itself with nature (with the metaphysical principles and causes—Anfangsgründe— of natural science). But this metaphysics is based, ultimately, on showing the possibility of an objective consciousness (of an object for us), rather than the possibility of an object per se (an sich), and it therefore is not based on and does not form a part of a more general discipline which could claim the proud name of an ontology—a discipline which would know the first principles and causes of all beings in general.”

human freedom (…) is at least thinkable without contradiction.”

We can take Kant’s procedure as paradigmatic of what it means to ‘overcome’ metaphysics.”

Kant’s successors, however, mostly agreed that his solution leaves something to be desired, in two respects. First, the idea of an in-principle unknowable realm of Dinge an sich seemed to them absurd. Second, metaphysics of nature is allegedly possible for us because it is concerned merely with the form of our own cognitive faculties. But what are these ‘faculties’, and why doesn’t our knowledge of them itself require justification?

Husserl is one of many philosophers who face this post-Kantian problem situation. Like many of them, he tries to solve both the above problems at once by in some way identifying our knowledge about our own faculties with our understanding of the way appearances depend on Dinge an sich. His strategy is distinctive, however, in that he literally restores a sphere of necessary, supersensible being as the subject matter of first philosophy.” “It follows that the principles and causes of all beings as such are the states of pure consciousness (Erlebnisse) in which such intentional interpretations take place. Phenomenology, the science of essence in the region of pure consciousness, is therefore the one science by which all special sciences are unified and by which their possibility is absolutely demonstrated, i.e. by which they are ‘absolutely grounded’.”

Husserl, 1956 (Erste Philosophie) is based on the manuscript of Husserl’s lectures in Freiburg during the Winter semester of 1923/24 (see the editor’s introduction, p. xii). It was published only posthumously, but it is very likely that Carnap was exposed to some of it, since he was living near Freiburg at the time and attended Husserl’s advanced seminars on phenomenology there during 1924 and 1925 (Schuhmann, 1977, 281). Heidegger at this time was already in Marburg, but was still in close contact with Husserl and presumably also familiar with his ongoing projects.”

As Kant himself would have predicted, however, this solution to the problems in his theoretical philosophy plays havoc with the basis of the practical philosophy. Husserl does allow for an objective science of ethics: just as mere things (bloße Sachen) gain objective existence by being rationally posited on the basis of an interpretation of sense data, so too can things be objectively valuable, or actions objectively desirable, insofar as they are rationally so posited on the basis of emotional and volitional data (§85, p. 173; §117, p. 244). By this very analogy, however, it is clear that ethics so understood is just another special science, albeit of spirit (Geist), rather than of nature. By means of this science I can understand human beings (including my own self when I regard myself as a human being) as subject to duties which possibly go against their inclinations. But human beings are not thereby free in the strict Kantian sense of being autonomous.”

NÃO DIFERE MUITO DE FICHTE: “the pure ego occupies the place reserved for God in traditional metaphysics, its freedom is divine, rather than human; its motives (if any) cannot be on a par with human inclinations or ethical principles.”

Husserl’s system, in other words, saves the theoretical philosophy (and thus heads off the threat of theoretical skepticism) only by giving up on what Kant thought of as its primary purpose: namely, to show that the possibility of science does not contradict the possibility of freedom. From a Kantian point of view, then, the emergence of Husserl’s system is a sign that metaphysics must still be overcome.”

what constitutes a responsible and therefore clear and significant use of language?” “Their obscurity, in other words, is largely essential to their positions.”

At this point we may feel a tendency to giggle. The transition either from ‘Nothing grounds and unifies the sciences’ or from ‘Science studies beings, and beyond that nothing’ to ‘How stands it with this nothing?’ sounds suspiciously like a joke. It sounds, in fact, like a particular kind of joke—a pun, or a related type of wordplay.”

Heidegger’s method, even if it succeeds, doesn’t lead to a relaxed sense of being once again at home with our own language, but rather produces (as, in a way, does a pun) a sense of our alienation from it (of our distance from its true meaning).”

What threatens, in Angst, to sink into insignificance, is not any particular being or region of beings, but all beings as a whole. And it is this general threat of insignificance which makes science possible: without it, there could not be the ‘beyond that, nothing’ of the theoretical attitude, by which a being is encountered merely as itself, rather than as valuable or significant for us”

Whereas for Kant, in other words, the limitation of metaphysics was at the same time a limitation of science, for Heidegger, metaphysics is limited, but science is not. Science will answer every question we have about beings. It follows that we were wrong to think of metaphysics as a kind of science or theoretical discipline which is ‘about’ nothing in the sense of having nothing as its subject matter. Since the nothing is not a being, metaphysics, which is about nothing, is not a science.”

In Sein und Zeit, Heidegger seems so clearly, and at such length, to treat of practical issues, that that book has often been mistaken for a moralizing book of (‘existentialist’) ethics. Here in Was ist Metaphysik? he is much briefer, but the nature and standpoint of the ethical concern is clearer. The overcoming of metaphysics is necessary to establish the very possibility of freedom, thus of morality, for a being like us”

Sichhineinhalten is a (very unusual) verb which means literally ‘to hold oneself out into’.”

(com-)portar-se (dentro do = no) exterior

alienar-se é ser

That metaphysics is about nothing means: that the possibility and unity of science is demonstrated only in Dasein’s encounter with its own un-faculty [inessencialidade], with its own possible inability to take up a Haltung [o ser-aí não pode jogar-se para for a de si] (in which, as Heidegger puts it, it finds that it sich an nichts halten kann): that is, with its own possible insignificance to itself. But to know oneself as possibly insignificant to oneself is at the same time to know oneself as ultimately responsible for one’s own significance. Knowing ourselves as finite, as beings among beings, we also know ourselves as having a finite interest, in pursuit of which we have already spoken carelessly (have taken no responsibility for our word).” “What metaphysics offers is not a theory, but a demand, and the demand itself is the demonstration of our freedom” “our own language, our own self-legislation as rational (i.e., speaking) beings; to abide by ourselves out into the nothing; to comply with our own finite nature.”

I’m o(w)n my (o)w(n).

I am an owl.

I, a man, oh!

Se Nietzsche é metafísico, Husserl parece um escritor de fábulas (o estereótipo do filósofo sistemático elevado à última potência).

Is our knowledge of space analytic, synthetic a priori, or empirical? Carnap answers, in effect: it depends on what you mean by ‘space’.”

Our knowledge of ‘formal space’, Carnap says, is analytic, i.e. derives from ‘formal ontology in Husserl’s sense’, but our knowledge of the ‘intuitive space’ in which sensible objects are necessarily found is synthetic a priori, i.e. material-essential (and here again he mentions Husserl explicitly)”

Carnap’s initial realm of the ‘autopsychological’ clearly corresponds (as he explicitly points out, 1974, §64, p. 86) to Husserl’s region of pure consciousness” Então pra que se dar ao trabalho? ‘O conceito não é meu, mas estou dando um novo nome…’ Tsc.

the objectification of thi(n)g(h)s

Theoretically speaking, although every level of the constitutional system defines a new type of object (in Russell’s sense), these types are equivalent to Husserl’s formal (syntactic) categories” Russell é o homônimo mais idiota de todos os tempos – ou o idiota mais homônimo de todos os tempos (e ESPAÇOS)?

Logic is therefore a dangerous ally for Carnap, as it is for Heidegger. Unless he is careful, an appeal to logic may end up being an appeal to Husserlian phenomenology, after all—or rather: constitution theory, which is supposed to use logic to demonstrate the unity of the sciences, may itself end up being (a branch of) phenomenology.”

Logical analysis, according to him, can only be a project of translating one language into another one: into a logically correct language, which, though stricter, is not deeper (or more ‘primordial’: cf. Der Raum, 65). Thus logical analysis can purify our language of (practical) error, but it can never reveal more about its structure than does ordinary (‘surface’) grammar. This will be important to keep in mind in what follows (and may also help throw light on the differences between Carnap and Wittgenstein).”

Dörpfeld [avô de Carnap], a follower of Herbart (i.e., a certain kind of quasi-Kantian), claimed that both orthodox and liberal theology had made the same mistake, thanks to lingering Scholasticism and ‘Spinozan-Schellingian-Hegelian metaphysics’: the mistake of subordinating ethics to dogmatics (see his 1895).” Uau. Finalmente algo de valia.

Carnap’s statement that ‘the future belongs to our attitude’, similarly, is ‘outside the borders of theory’: it is no theoretical prediction, but a choice of fundamental deportment, or, to say it carefully, a statement of Kantian rational faith. Even more carefully: of Nietzschean rational faith. For the point is that we, we scientific philosophers, are philosophers of the future. That Nietzsche’s ambiguous talk about ‘philosophers of the future’ is aimed at securing our (untimely) autonomy in the present is most explicit in its earliest form (see Nietzsche, 1981, 226–7), but it is clear enough in later versions, as well. (The general idea is: we give ourselves a law by assigning to ourselves the task of producing our own masters.)”

Whatever else one may say about Quine’s understanding, or lack thereof, of Carnap, he seems to have understood very well what was, for Carnap, the most important point: that language is both an ordinary empirical object and the object of autonomous choice.”

Language is indeed flexible; linguistic innovation is indeed possible. If we knew nothing about Heidegger’s linguistic methods, it would certainly be hard to rule out that that is what he intends here, and if we supposed that Carnap knows nothing about those methods, then it would be hard to defend him against the charge that he is reading Heidegger ‘uncharitably’. In reality, however, nothing could be more uncharitable than to defend Heidegger’s use of ‘nothing’ here as a linguistic innovation. [Ora, o nada só pode significar nada neste contexto, não existe sinônimo ou substituto.] As we have seen, Heidegger’s method rests precisely on showing us what our language already says. So, whatever role there might be for linguistic innovation in philosophy generally, Carnap and Heidegger are (rightly or wrongly) in agreement that it does not crop up here.”

[Heidegger] implicit point is that Husserl goes astray by using the term [phenomenology] without accountability to those original Greek meanings—i.e., by using it in a linguistically innovative manner; by taking advantage of the fact that language, in the mouth of das Man, so easily accommodates new terms and definitions.”

like it or not, Heidegger has in fact placed a limit on the reach of science: he has himself ‘come to the determination that his questions and answers are not unitable with the mode of thinking of science’ (Carnap, 1931, 232). And it is due to that mistake that he remains, as Carnap says, merely one of ‘the numerous metaphysicians of the present or the past’ (229 n. 1)—rather, that is, than becoming, as he might have, a rare philosopher of the future.”

First, it is a criticism to which, as I understand it, Heidegger seriously and repeatedly responded. Second, it is a criticism which finds echoes in later members of Heidegger’s own, Continental, philosophical tradition (e.g. in Levinas). This, I think, is enough to establish what I set out to here: not an attack on or defense of either Carnap or Heidegger, but simply a case for taking the one as a serious reader of the other.”

PRINCÍPIOS DA FILOSOFIA DO FUTURO – Feuerbach (trad. Artur Morão)

#2 “O modo religioso ou prático desta humanização [progressiva da religião] foi o Protestantismo. O Deus que é o homem, portanto o Deus humano, isto é, Cristo — é apenas o Deus do Protestantismo. O Protestantismo já não se preocupa, como o Catolicismo, com o que Deus é em si mesmo, mas apenas com o que Ele é para o homem; por isso, já não tem como aquele nenhuma tendência especulativa ou contemplativa; já não é teologia — é essencialmente só cristologia, isto é, antropologia religiosa.”

#3 “Mas o além da religião é o lado de cá da filosofia”

#5 “A filosofia especulativa é a teologia verdadeira

#6

a necessidade do Ser divino na antiga metafísica ou ontoteologia só tem sentido e intelecto, verdade e realidade, na determinação psicológica ou antropológica de Deus como ser inteligente. (…) no ser necessário, a razão prova e ostenta apenas a sua própria necessidade e realidade.”

o ser pensante (…) é o seu próprio objeto, tem a sua essência em si mesmo, é o que é, graças a si próprio.”

#7

O que no teísmo é objeto é, na filosofia especulativa, sujeito

A necessidade interna de que Deus, de um objeto do homem, se transforme em sujeito, em eu pensante do homem, deriva d[e] (…): Deus é objeto do homem e só do homem, não do animal.”

Aquele para quem o Ser supremo é objeto é ele próprio o ser supremo.”

#8 “na teologia ordinária, Deus é uma contradição consigo mesmo; deve ser um ser não-humano, um ser supra-humano; mas, efetivamente, é um ser humano segundo todas as suas determinações.” “A contradição violenta com que a filosofia especulativa deparou deve-se apenas ao fato de ela ter feito do Deus que no teísmo é apenas um ser da fantasia, um ser longínquo, indeterminado e nebuloso, um ser presente e determinado, e ter assim destruído o encantamento ilusório que um ser longínquo possui na bruma azulada da representação.”

#10

O começo da filosofia cartesiana, a abstração da sensibilidade e da matéria, é o começo da filosofia especulativa moderna.”

Leibniz e Descartes são idealistas só no universal, mas na ordem do particular são materialistas.”

Leibniz, é pois um idealista parcial, mitigado, e só Deus é um idealista integral, só Deus o ‘sábio perfeito’, como expressamente Wolf o chamou” Wolff?

segundo Leibniz, o limite do entendimento humano reside em ele estar afeto ao materialismo, isto é, a representações obscuras; por seu turno, as representações obscuras surgem apenas em virtude de o ser humano se encontrar em relação com os outros seres, com o mundo em geral.”

Mas o que em Leibniz era apenas idéia tornou-se verdade e realidade efetiva na filosofia ulterior. O idealismo absoluto nada mais é do que o entendimento divino realizado do teísmo leibniziano, o entendimento puro, sistematicamente levado a efeito, que despoja todas as coisas da sua sensibilidade, as transforma em puros seres inteligíveis, em coisas imaginárias, que não se contamina com algo de estranho e apenas se ocupa de si mesmo enquanto ser dos seres.”

#11

Assim, por exemplo, na lógica hegeliana, os objetos do pensar não são diferentes da essência do pensar.”

As coisas tal como são em Deus não são como são fora de Deus; pelo contrário, são tão diversas das coisas reais como as coisas, enquanto objeto da lógica, se distinguem das coisas enquanto objeto da intuição real. A que se reduz, pois, a diferença entre o pensar divino e o pensar metafísico? Apenas a uma diferença de imaginação, à diferença entre o pensar apenas representado e o pensar real.”

#12

A diferença (…) entre o saber ou o pensar de Deus que, como arquétipo, precede as coisas e as cria e o saber do homem que, como cópia, se segue às coisas, nada mais é do que a diferença entre saber a priori (…) e a posteriori.”

No teísmo, o mundo é um produto temporal de Deus — o mundo existe desde há alguns milhares de anos e, antes de ele ser gerado, Deus existia; pelo contrário, na teologia especulativa, o mundo ou a natureza existe depois de Deus, só segundo a ordem, segundo a importância: o acidente pressupõe a substância, a natureza pressupõe a lógica; segundo o conceito, mas não segundo a existência sensível, portanto não segundo o tempo.”

Deus é Onisciente’, diz S. Tomás de Aquino, ‘porque conhece as mínimas coisas’ — o saber que não abarca indistintamente, num tufo, os cabelos da cabeça de um homem, mas os conta e os conhece a todos um a um. Mas este saber divino que, na teologia, é apenas uma representação, uma fantasia, tornou-se um saber racional efetivo, um saber telescópico e microscópico da ciência natural. A ciência contou as estrelas do céu, os ovos nos corpos dos peixes e das borboletas, os pontos nas asas dos insetos para os distinguir uns dos outros; só na lagarta do bicho-da-seda dos salgueiros ela demonstrou anatomicamente a existência de 288 músculos na cabeça, de 1647 músculos no corpo, 2186 músculos no estômago e nos intestinos. Que mais se pretende ainda? Temos, pois, aqui um exemplo concreto da verdade de que a representação humana de Deus é a representação que um indivíduo humano para si faz do seu gênero, de que Deus, enquanto totalidade de todas as realidades ou perfeições, nada mais é do que a totalidade sinoticamente compendiada para uso do indivíduo limitado, das propriedades do gênero repartidas entre os homens e que se realizam no decurso da história mundial. O domínio das ciências naturais é, segundo o seu âmbito quantitativo, de todo inabarcável para um homem isolado. Quem pode ao mesmo tempo contar as estrelas do céu e os músculos e nervos do corpo da lagarta? Lyonet perdeu a vista à força de estudar a anatomia da lagarta do salgueiro. Quem pode ao mesmo tempo observar as diferenças que existem entre os cumes e os abismos da Lua e as diferenças que existem entre as inúmeras amonitas e terebrátulas? Mas o que o homem isolado não sabe nem pode, sabem-no e conseguem-no os homens em conjunto. Assim, o saber divino que conhece ao mesmo tempo todas as singularidades tem a sua realidade no saber da espécie.”

Tomemos como exemplo uma só ciência, a História, e decomponhamos pelo pensamento a história mundial na história dos países particulares, esta na história de cada província e, por seu turno, esta nas crônicas das cidades e as crônicas das cidades nas histórias das famílias, nas biografias. Como é que alguma vez um homem singular chegaria ao ponto em que pudesse clamar: eis-me aqui no termo do saber histórico da humanidade! Assim também o tempo da nossa vida, tanto o passado como o futuro possível, por mais que conseguíssemos prolongá-lo, nos aparece, à luz da imaginação, extraordinariamente curto e é por isso que, nos momentos de tal imaginação, nos sentimos forçados a completar esta brevidade evanescente aos olhos da nossa imaginação por uma vida imensa e sem fim após a morte. Mas como pode ser longo, na realidade, um só dia e até uma só hora! Donde provém esta diferença? Nasce do fato de o tempo da representação ser o tempo vazio, portanto, nada entre o ponto inicial e o ponto final do nosso cálculo; mas o tempo da vida real é o tempo cheio, onde montanhas de dificuldades de toda a espécie separam o agora do instante seguinte.”

#13

A absoluta ausência de pressupostos — o início da filosofia especulativa — nada mais é do que a ausência de pressupostos e de começo, a asseidade [autossuficiência na Escolástica]do ser divino.”

GENEALOGIA DA FENOMENOLOGIA: “A filosofia nada pressupõe — isto quer simplesmente dizer: abstrai de todos os objetos imediatos, isto é, fornecidos pelos sentidos, distintos do pensamento, em suma, de tudo aquilo de que se pode abstrair sem cessar de pensar, e faz deste ato de abstração de toda a objetalidade o seu próprio começo. Mas que outra coisa é, então, o Ser absoluto senão o ser a que nada se pressupõe, a que nenhuma coisa é dada e necessária fora dele, o ser abstraído de todos os objetos, de todas as coisas sensíveis dele distintas e inseparáveis, portanto o ser que o homem pode tomar como objeto só mediante a abstração destas mesmas coisas?” A rigor, só nos interessa realmente de Hegel em diante em filosofia.

Por conseguinte, que é o Eu de Fichte que diz — ‘sou simplesmente porque sou’ —, que é o pensamento puro e sem pressupostos de Hegel senão o ser divino da antiga teologia e metafísica, transformado em essência atual, ativa e pensante do homem?”

#14

O teísmo que, enquanto posição de Deus, é ao mesmo tempo a negação de Deus ou, inversamente, enquanto negação de Deus é simultaneamente a sua afirmação, é o panteísmo. O teísmo genuíno ou teológico, porém, nada mais é do que o panteísmo imaginário, e este nada mais é do que o teísmo verdadeiro e real.”

O teísmo é a contradição entre a aparência e a essência, a representação e a verdade; o panteísmo é a unidade de ambos — o panteísmo é a verdade nua do teísmo. Quando se olham de frente e se tomam a sério, quando se levam até ao fim e se realizam, todas as representações do teísmo conduzem necessariamente ao panteísmo.”

Se nenhumas coisas tivermos exteriores ao entendimento de Deus, também depressa nenhumas coisas teremos exteriores à sua essência e, por fim, também nenhumas exteriores à existência de Deus — todas as coisas existem em Deus e, claro, de fato e na realidade, não apenas na representação; pois, onde elas existem só na representação — tanto de Deus como do homem —, por conseguinte, onde existem tão-só no modo ideal ou, antes, imaginário em Deus, existem ao mesmo tempo fora da representação; fora de Deus. Se fora de Deus não tivermos mais coisas nem mundo, também não temos nenhum Deus exterior ao mundo — também não temos um ser apenas ideal, representado, mas um ser real; temos então, em suma, o espinosismo ou o panteísmo.” “A matéria é, para ele, uma existência puramente inexplicável, ou seja, ela é o limite, o fim da teologia. Contra ela embate, tanto no pensamento como na vida. Por conseguinte, como é que eu, a partir da teologia, sem a negar, posso deduzir o fim e a negação da teologia? Como obter um princípio da explicação e uma informação onde se lhe esvai o entendimento?”

Quem não se envergonha de fazer sapatos também não se envergonha de ser e de se chamar sapateiro. Hans Sachs era ao mesmo tempo sapateiro e poeta, mas os sapatos eram obra das suas mãos e as suas poesias obra da sua cabeça.” Quantos Hans Sachs famosos existiram? Ok, o psicanalista é Hanns, um tulpa.

Deus é um ser material ou, na linguagem de Espinosa, um ser extenso.”

#15

Só não se sabe mais de Deus e das coisas divinas se, a seu respeito, nada mais se quer saber. Quantas coisas se sabiam de Deus, quantas do Diabo e quantas dos Anjos, quando estes seres suprassensíveis eram ainda objeto de uma fé efetiva!”

Os místicos e os escolásticos da Idade Média não tinham nenhuma aptidão e habilidade para a ciência natural porque não tinham qualquer interesse pela natureza.”

Espinosa é o Moisés dos livres pensadores e materialistas modernos.”

#16

Se, por exemplo, a simpatia e a misericórdia não são propriedades de Deus, então estou só para mim na minha dor — Deus não está aí como meu consolador.” “Só se Deus pensa em mim — assim conclui o religioso — é que tenho também fundamento e motivo para nele pensar; apenas no seu ser-para-mim reside o fundamento do meu ser-para-ele.”

Como é, pois, ridículo querer reprimir o ‘ateísmo’ da filosofia sem, ao mesmo tempo, reprimir o empirismo da empiria!” “E, contudo, como é rica, em tais ridicularias, a História! Repetem-se em todas as épocas críticas.”

#17

O idealismo kantiano, onde as coisas se regulam pelo entendimento e não o entendimento pelas coisas, nada mais é, pois, do que a realização da representação teológica do entendimento divino, o qual não é determinado pelas coisas, mas antes as determina. Como é, pois, insensato aceitar o idealismo no céu, o idealismo da imaginação, como uma verdade divina e rejeitar o idealismo da terra, isto é, o idealismo da razão, como um erro humano! Negais o idealismo? Então negai também Deus!”

Mas o idealismo kantiano é ainda um idealismo limitado — o idealismo do ponto de vista do empirismo. (…) Deus (…) é uma coisa-em-si, mas já não é uma coisa para o empirismo“Muitas vezes, já há muito que, na prática, nos libertamos de uma coisa, de uma doutrina, de uma idéia, mas não estamos ainda livres dela na cabeça” “Quantos não são republicanos de coração, de disposição anímica, mas na cabeça não conseguem ir além da monarquia; o seu coração republicano naufraga nas objeções e dificuldades que o entendimento suscita. Assim, pois, acontece também com o teísmo de Kant.” “O Kant liberto do limite do teísmo é Fichte — o ‘Messias da razão especulativa’.” “Mas o idealismo fichteano é unicamente a negação e a realização do teísmo abstrato e formal, do monoteísmo; não do teísmo religioso, material, cheio de conteúdo, do teísmo trinitário, cuja realização é primeiramente o idealismo ‘absoluto’, o de Hegel.”

#18 “a intuição que Schelling, em oposição a Fichte, uniu ao entendimento é pura fantasia e nenhuma verdade, portanto, não se toma em consideração.”

#19 “A consumação da filosofia moderna é a filosofia de Hegel.”

#20 “A nova filosofia é a realização da filosofia hegeliana, da filosofia anterior em geral — mas uma realização que é ao mesmo tempo a sua negação e, claro está, uma negação livre de contradição.”

#21

A matéria (…) é a autoalienação do espírito.” “A matéria permanece em contradição com o ser pressuposto pela filosofia como o verdadeiro ser.” “só a negação da negação é, segundo Hegel, a verdadeira posição [de Deus, da teologia…]. Ao fim e ao cabo, eis-nos novamente no ponto de onde tínhamos partido — no seio da teologia cristã.”

A teologia é que constitui o começo e o fim; no meio, encontra-se a filosofia, enquanto negação da primeira posição; mas a negação da negação é a teologia. Primeiro, põe-se tudo ao contrário, mas em seguida restabelece-se tudo no seu antigo lugar, como em Descartes. A filosofia hegeliana é a última grandiosa tentativa para restaurar o Cristianismo, já perdido e morto, por meio da filosofia e, claro está, mediante a identificação, tal como em geral acontecia nos tempos modernos, [?] da negação do Cristianismo com o próprio Cristianismo.”

#22 “Mas que contradição [Kant] separar a verdade da realidade e a realidade da verdade!”

#23 “Sem dúvida, a filosofia não tem de se preocupar com as representações que o uso ou o abuso comum associa a um nome; mas tem de se vincular à natureza determinada das coisas, cujos signos são nomes.”

#24 “O ser permanece um além. A filosofia absoluta transformou, sem dúvida, o além da teologia num aquém, mas, em compensação, transformou para nós o aquém do mundo real num além.”

#25 “No pensar, sou um sujeito absoluto (…) sou intolerante. Pelo contrário, na atividade dos sentidos, sou liberal”

#26 “O homem entende por ser, segundo os fatos e a razão, o ser-aí, o ser-para-si, a realidade, a existência, a efetividade e a objetividade. Todas estas determinações ou nomes exprimem uma só e mesma coisa a partir de diversos pontos de vista. O ser no pensamento, o ser sem objetividade, sem efetividade, sem ser-para-si é, certamente, nada; mas neste nada, expresso apenas a nulidade da minha abstração.

#27

Se eu abstrair do conteúdo do ser e, claro está, de todo o conteúdo, pois tudo é conteúdo do ser, então nada me resta a não ser o pensamento do nada.”

A linguagem já identifica ser e essência. Só na vida humana é que o ser se separa da essência, mas também apenas em casos anormais e infelizes — acontece que não se tem a sua essência no sítio onde se tem o ser”

#28

A filosofia hegeliana não foi além da contradição do pensar e do ser. O ser com que começa a Fenomenologia não está menos radicalmente em contradição com o ser real do que o ser com que inicia a Lógica.”

A questão do ser é justamente uma questão prática, uma questão na qual o nosso ser está implicado, é uma questão de vida e de morte. E se no direito nos agarramos ao nosso ser, não queremos que também ele nos seja tirado pela lógica. É preciso que ele seja igualmente reconhecido pela lógica, se esta não quiser persistir em contradição com o ser real.”

#29

A antiga filosofia deixava subsistir algo fora do pensar — um resíduo por assim dizer supérfluo, que não entrava no pensar. (…) A razão tinha na matéria a sua fronteira. A antiga filosofia vivia ainda na distinção do pensar e do ser; não considerava ainda o pensar, o espírito, a idéia, como o que tudo engloba, isto é, a realidade única, exclusiva e absoluta.” Errado: esta descrição se identifica tanto com o Um de Parmênides quanto com o Ser de Platão.

Em contrapartida, para os neoplatônicos, a matéria, o mundo material e real em geral, já não constitui qualquer instância, qualquer realidade.” “o homem (…) põe no lugar do mundo real o mundo imaginário e inteligível” Mundo-verdade como tulpa maligno…

Quanto mais abstrato ele é, tanto mais negativo é perante o sensível real, tanto mais sensível é justamente no abstrato.”

Deus o Huno

Átila o Uno

Assim se torna concreta a razão, a idéia: isto é, o que a intuição deve dar atribui-se ao pensar; o que é função e tarefa do sentido, da sensação e da vida transforma-se em função e tarefa do pensar.”

O que nos neoplatônicos é representação e fantasia foi por Hegel transformado e racionalizado apenas em conceitos. Hegel não é o ‘Aristóteles alemão ou cristão’ — é o Proclo alemão. A ‘filosofia absoluta’ é a ressurreição da filosofia alexandrina. Segundo a determinação expressa de Hegel, não é a filosofia aristotélica, a antiga filosofia pagã em geral, mas a filosofia alexandrina, que é a filosofia absoluta — a filosofia cristã, mesclada ainda com ingredientes pagãos — que permanece ainda, porém, no elemento da abstração da autoconsciência concreta.”

a meta da sua atividade é deixar de ser (…) O êxtase e o arroubo constituem, para o neoplatônico, o supremo estado psicológico do homem.”

Deus procede apenas do homem, mas não ao invés, pelo menos originariamente“À miséria da necessidade e da dor corresponde também a representação e o sentimento da beatitude. Só em oposição à infelicidade é que a beatitude é uma realidade. Só na miséria do homem tem Deus o seu lugar de nascimento.” “Aqui reside também a diferença dos neoplatônicos relativamente aos estóicos, epicuristas e céticos. A impassibilidade, a beatitude, a ausência de necessidades, a liberdade e a autonomia eram também o objetivo destes filósofos, mas só enquanto virtudes do homem”

nos neoplatônicos, embora a virtude pagã fosse ainda para eles a verdade — daí a sua diferença quanto à teologia cristã, que punha no além a beatitude, a perfeição e a semelhança do homem com Deus — este predicado tornou-se sujeito, um adjetivo do homem tornou-se substantivo, ser real. Justamente por isso, o homem real tornou-se também um simples abstrato sem carne e sem sangue, uma figura alegórica do ser divino. Plotino envergonhava-se, pelo menos segundo o relato do seu biógrafo, de ter um corpo.”

#30 “Hegel nega o pensar, a saber, o pensar abstrato; mas nega-o precisamente no pensar abstrativo, de maneira que a negação da abstração é de novo uma abstração.”

#31

Hegel é a história da teologia transformada num processo lógico.”

Faz-se ao pensamento a exigência de se realizar e de se tornar sensível apenas porque se pressupõe inconscientemente que a realidade e a sensibilidade independentes do pensamento constituem a sua verdade.”

#32 “O conceito do objeto originariamente nada mais é do que o conceito de um outro eu — é assim que o homem na infância concebe todas as coisas como seres com ação livre e arbítrio — por conseguinte, o conceito de objeto em geral é mediatizado pelo conceito do tu, do eu objetivo. (…) Mas é só pelos sentidos que o eu é não-eu. (…) O mistério da ação recíproca resolve-se apenas na sensibilidade.”

— Se se encerrasse aqui, este livro seria avaliado por mim com 4 estrelas. O terço final é supérfluo. —

#33

A nova filosofia considera e aborda o ser, tal como é para nós, enquanto seres não só pensantes, mas também realmente existentes (…) O ser é, por conseguinte, um segredo da intuição, da sensação, do amor.”

Só no amor é que o Deus que conta os cabelos da cabeça é verdade e realidade. O próprio Deus cristão é apenas uma abstração do amor humano, apenas uma imagem do mesmo.”

Feuerb. estava avançando sofregamente, quicando de Hegel a Kant, a Espinosa e Descartes, de volta a Hegel, etc. Quando se pensa que emitirá um construto similar à dialética marxista, após a parte crítica de seu tratado, dá um salto quântico difícil de entender. O que virá a seguir a isto, o Sermão da Montanha? Reparem que estamos no aforismo 33! “Só existe o que é — real ou possível — objeto da paixão.” Se isto é a Filosofia do Futuro, voltemos ao Banquete e nada mais.

A dor do amor consiste em não existir na realidade o que existe na representação.”

Logo recai nas patavinas corriqueiras sobre dor-prazer…

#35

Terá Hitler amado?

#36 “filosofia sincera”, “com alegria”, etc.!

#38

Tenho a autêntica sensação de que o primeiro autor morreu por volta da metade do livro e seu filho pequeno tentou terminá-lo…

Agora falando um pouco mais sério: todo filósofo médio da geração posterior sabe o que falta aos filósofos precedentes, porém propor algo da mesma estatura é outra história. Feuerbach conhece muito bem os defeitos hegelianos, e só.

O gênio é o saber imediato e sensível. O que o talento tem apenas na cabeça, tem-no o gênio na carne e no sangue; isto é, o que para o talento é ainda um objeto do pensar, constitui para o gênio um objeto dos sentidos.” Isto é adequado, mas está no lugar inadequado: deveria constar dum tratado de estética!

#40

E esta intuição é não só o começo, mas também a meta — por conseguinte, a essência do Cristianismo.”

Que tem que ver o cristianismo com tua nova filosofia, ó arauto?!

#41

Claudicante. Seria a palavra com que definiria Feuer., se me pedissem para defini-lo numa só!

percepcionamos pelos ouvidos não só o murmúrio da água e o rumorejo das folhas, mas também a voz ardorosa do amor e da sabedora (sic); vemos não só superfícies refletoras e fantasmas coloridos, vemos também o olhar do homem. (…) Tudo é, pois, perceptível aos sentidos, se não imediatamente, pelo menos de um modo mediato; se não aos plebeus, aos brutos, pelo menos aos de sentidos educados; se não aos olhos do anatomista ou do químico, pelo menos aos olhos do filósofo.” Horrível!

Não é sozinho, mas apenas a dois que se chega aos conceitos, à razão em geral.” Você por um acaso reparou que Platão escreveu DIÁLOGOS?!?

#43

MAR DA GENERALIDADE PURA: “A tarefa da filosofia e da ciência em geral consiste, pois, não em se afastar das coisas sensíveis, isto é, efetivas, mas em ir até elas — não em transformar os objetos em pensamentos e em representações, mas em tornar visível, objetivo, o que é invisível para os olhos comuns.”

É grotesco inclusive como volta a falar com inocência de uma coisa-em-si, da qual tinha se afastado, enquanto criticava Kant, com tanta prudência!

Só nos tempos modernos é que a humanidade, como outrora na Grécia, após o prelúdio do mundo onírico dos orientais, é que regressou à intuição sensível,¹ isto é, não-falsificada e objetiva do sensível, do real, chegando assim ao mesmo tempo também a si mesma; com efeito, um homem que se ocupa apenas com a essência da imaginação ou do pensamento abstrato, é ele próprio unicamente um ser abstrato ou fantasmal, e não um ser real, verdadeiramente humano.”

¹ Vamos devagar: só ao voltar é que voltei! Talvez seja uma tradução pobre?! Só nos tempos modernos é que o homem voltou a ser como o homem antigo? Infeliz conjugação da tentativa de dizer que está-se diante de um pioneirismo com a conexão, na mesma frase, da consciência de que o homem grego e o homem oriental já pisaram sobre o mesmo terreno… E o resto do parágrafo é dissertação juvenil, mesmo que nada possua de abstruso!

#44

Estou aqui — eis o primeiro sinal de um ser real e vivo. O índex é o guia do nada para o ser. Aqui está o primeiro limite, a primeira separação.” “Onde estou eu? Eis a pergunta da consciência que desperta, a primeira pergunta da sabedoria mundana. A limitação no espaço e no tempo é a primeira virtude, a diferença de lugar é a primeira diferença entre o conveniente e o inconveniente, que ensinamos à criança e ao homem grosseiro.”

Não pôr no texto o que pertence à nota, não pôr no começo o que incumbe apenas ao fim, numa palavra, a distinção e a limitação espaciais fazem também parte da sabedoria do escritor.” Não escrever livros ruins também!

#47 “Se eu pudesse unir em mim, ao mesmo tempo, as determinações opostas, elas neutralizar-se-iam e esbater-se-iam como os contrários do processo químico que, nele presentes simultaneamente, perdem a sua diferença num produto neutro.”

#48 “O círculo é o símbolo e o brasão da filosofia especulativa, do pensamento que apenas se apóia em si mesmo; também a filosofia hegeliana é, como se sabe, um círculo de círculos, [???] embora ela, em relação aos planetas, mas só a tal determinada pela empiria, explique a órbita circular como ‘a trajetória de um movimento uniforme’; a elipse, pelo contrário, é o símbolo e o brasão da filosofia sensível, do pensamento que se apoia na intuição.” [?????]

#52 “a nova filosofia já não pode ser relapsa: o que ao mesmo tempo morreu no corpo e na alma já nem sequer pode regressar como fantasma.” Booooohh… Desce do picadeiro, ô palhaço!

#53

O homem não é um ser particular como o animal, mas um ser universal, por conseguinte, não é um ser limitado e cativo, mas um ser ilimitado e livre; com efeito, a universalidade, a ilimitação e a liberdade são inseparáveis.”

O homem não tem o faro de um cão de caça, de um corvo; mas apenas porque o seu olfato pode abranger todas as espécies de odores, pelo que é um sentido livre e indiferente a respeito de odores particulares.” O homem com covid é um nada!

O olfato e o gosto das coisas são objetos da ciência da natureza. Até mesmo o estômago do homem, por mais desdenhosamente que o olhemos, não é um ser animal, mas humano, porque é universal, não confinado a espécies determinadas de alimentos. (…) Quem faz terminar a humanidade no estômago, rejeita o estômago para a classe dos animais, autoriza o homem a comer como uma besta.” Que porra é essa?

#58 “A verdade é unicamente a totalidade da vida e da essência humanas.”

#60 “o homem com o homem — a unidade do eu e do tu — é Deus.”

#63 “A Trindade era o mistério supremo, o ponto central da filosofia e da religião absolutas. Mas o seu segredo, como se provou histórica e filosoficamente em A Essência do Cristianismo,¹ é o segredo da vida comum e social — o segredo da necessidade do tu para o eu a verdade de que nenhum ser, quer seja ou se chame homem ou Deus, espírito ou eu, é apenas por si mesmo um ser verdadeiro, perfeito e absoluto, e que só a ligação, a unidade de seres de idêntica essência constitui a verdade e a perfeição.”

¹ É mesmo? Se provou mesmo? Que coincidência casual ser o SEU livro!!

TWIN PEAKS: The Final Dossier – Mark Frost

Entonces, para empezar: no fueron las arañas las que lo mataron. Quien sea el genio malvado—te estoy mirando a ti, Windom Earle—que haya decidido colgar una bolsa de tarántulas sobre su cabeza como una amenaza a la salud de Leo obviamente malgastó demasiado tiempo mirando películas cliché de Vincent Price, y no el suficiente estudiando los arácnidos. Las tarántulas no son fatalmente venenosas, idiota; solamente lucen aterradoras.”

Un compañero recuerda vívidamente esto: cuando Shelly se dio cuenta de que Bobby estaba jugando a dos puntas con ella y Laura lo confrontó en público en una escena de enojo que interrumpió el baile de graduación. Salió furiosa en su vestido y, casi como si el destino la hubiese llamado, terminó en un local para adultos conocido por su cartel de Bang Bang Bar, coloquialmente llamado ‘el Roadhouse’.”

Un año después de la muerte de Leo, casi hasta ahora—quizás Shelly había aprendido algo del dictamen cásate demasiado pronto y te arrepentirás demasiado tarde—Bobby y Shelly se casaron formalmente durante una escapada de fin de semana a Reno. La familia no estuvo presente.

En sus primeros siete meses, su ahora unión legal produjo una hija, Rebecca McCauley Briggs. Su distanciada madre falleció ese mismo año, a los 47 años—cirrosis de hígado—pero la madre de Bobby, Betty, dolida por la reciente pérdida de su marido, asumió la responsabilidad dedicándole a proveer a su hijo y a su nueva esposa la estabilidad que tanto necesitaban para su nueva familia.

Y como hizo desde el día que Shelly empezó a trabajar en el Doble R, la propietaria Norma Jennings—pronta a perder a su propio esposo criminal, Hank, con mucho menos arrepentimiento—jugó el papel de la madre sustituta que Shelly tanto necesitó.”

De todas las historias personales con las que me he topado en Twin Peaks, la de Shelly parece una de las más afortunadas. Pero, como ya sabrá, Jefe, la mayoría de las historias tienen más de un acto. Volveré a esta—y a Briggs—enseguida.”

El evento en cuestión parece haber sucedido el mismo día de la explosión de la bóveda del banco de Twin Peaks, el cual tal recordarán del dossier anterior, derivó en las muertes de Pete Martell, Andrew Packard y el asistente del banco, Dell Mibbler. Esa tarde la única sobreviviente, la hija de 18 años de Ben Horne, Audrey, gravemente herida estaba siendo tratada en terapia intensiva en el Hospital Calhoun. Una examinación más cercana ha dado las siguientes nueve curiosidades, mencionadas aquí abajo.

Primer curiosidad: también siendo tratado por una herida importante en la cabeza, esa noche en la misma guardia estaba el padre de Audrey, Ben Horne. Horne pasó la mayor parte del día en el hospital al lado de la cama de Audrey pero aparentemente se fue en algún momento al anochecer, sólo para volver—ahora como paciente—un poco más de una hora después.

Segunda curiosidad: el médico de admisión—quien, curiosamente, también fue quien mandó a Ben Horne al hospital por su lesión—fue el doctor Will Hayward. La herida, según el reporte de Hayward, ocurrió en la casa de la familia Hayward resultado de una caída sufrida cuando Horne—citando la hoja de ingreso al hospital—‘se resbaló en el medio del living, golpeando su cabeza en la chimenea de granito concreto.’”

Tercera curiosidad: el único archivo médico que pude obtener del hospital es corto, casi superficial, y también fue escrito por el Dr. Hayward. Hay una referencia a unos rayos-x que se tomaron, presumiblemente para verificar fracturas de cráneo—negativo—pero me fue imposible encontrarlos. No hay mención de otros síntomas específicos para apoyar el diagnóstico del Doctor Hayward y asegurar que Ben Horne sufrió una contusión de segundo grado y que su recomendación sea ser mantenido en el hospital toda la noche para observación. Horne fue admitido en una habitación justo derecho al pasillo que daba a la habitación de su hija.”

Cuarta curiosidad: sabemos ahora que esa próxima mañana, el Doc Hayward acompañó al Sheriff Truman a examinar al agente Cooper en su habitación en el Hotel Great Northern, luego de volver de una misteriosa travesía nocturna—paradero exacto desconocido— en el bosque nacional de Ghostwood. Mientras estaban en la habitación—de nuevo, según el reporte del Doctor Hayward—el Agente Cooper fue a la habitación a limpiarse los dientes, resbaló sobre el suelo del baño y se golpeó la cabeza en el espejo sobre el fregadero, cayendo inconsciente. De nuevo, el Doc Hayward acompañó a su paciente al hospital—esta vez llevado por el Sheriff Truman—y lo ingresó con el mismo diagnóstico: contusión de grado 2.”

Quinta curiosidad: El Agente Cooper, según los registros disponibles, pasó ese día en el hospital antes de darse de alta—sin recibir la confirmación médica—esa misma mañana. En esos dos días desaparecería de Twin Peaks y de nuestra vista por el próximo cuarto de siglo. También sabemos—por un reporte escrito por el Sheriff Frank Truman más de 25 años después—que en algún momento en ese día, mientras hacía su ronda, el Doc Hayward vio a Cooper en el pasillo del hospital totalmente vestido en su traje negro habitual, yéndose de la habitación de terapia intensiva ocupada por Audrey Horne.

Sexta curiosidad: nueve meses después, casi exactamente, Audrey Horne dio a luz a su hijo Richard Horne. El acta de nacimiento afirma que la identidad del padre es ‘desconocida’.

Séptima curiosidad: en dos días, el Agente Cooper había desaparecido y el Major Garland Briggs—reportado como la última persona en el pueblo a la que Cooper visitó antes de su desaparición—había sido declarado muerto luego de un incendio en el puesto de observación Alpha en las montañas del bosque de Ghostwood. Aunque el carbonizado cuerpo encontrado en la escena estaba muy dañado para identificar a través de la recientemente incipiente tecnología ADN, el descubrimiento de un par de dientes perdidos, que coincidían con la placa dental de Briggs, llevaron a la conclusión que había sin duda muerto en ese fuego, la subsecuente investigación del FBI concluyó en motivos ‘desconocidos’.”

Luego de haber pasado una vida entera en el estado de Washington, sin aviso, el Doc Hayward abruptamente terminó su próspera práctica médica y se movió a través del país al pueblo de Middlebury, Vermont. Un poco después, Hayward y su esposa, Eileen, luego de 26 años de matrimonio, llenaron el papeleo de un indiscutible y de mutuo acuerdo divorcio. En ese mismo mes, su hija más grande, Donna—justo después de graduarse con honores en la secundaria de Twin Peaks—también dejó el pueblo definitivamente, asentándose en Nueva York. Su madre, todavía confinada a una silla de ruedas luego de un accidente casi dos décadas antes, se quedó en la casa de la familia Hayward en Twin Peaks, donde crío a sus dos hijas menores, Harriet y Gersten, sola.

Novena curiosidad: He identificado un caudal de ingreso—$7500 por mes—en la cuenta bancaria de Eileen Hayward. Esos pagos comenzaron el mes que el Doc Hayward dejó el pueblo y se mantuvieron incluso hasta el día de la muerte de Eileen, por neumonía, en 2009. Estos parecen ser depósitos directos desde una cuenta offshore en las Islas Caimán. Seguí esa cuenta y me llevó a una corporación registrada a la fundación Horne.

Al momento de redactar esto, el director de la fundación, Benjamin Horne—a través de su abogado—rechazó mis repetidos pedidos para una entrevista sobre este tema. Ya que todo el papeleo se hizo de acuerdo a la ley existente, y no hay apariencia de un posible crimen o asociación ilícita, el departamento de justicia se negó a abrir una causa por este tema.” “Harriet pareció ser quien sufrió los menores efectos; luego de la escuela estudió en la Universidad de Washington, convirtiéndose eventualmente en una pediatra en la zona de Bellevue, en los suburbios de Seattle. Gersten… volveré a ella en un momento.”

Llegada a Nueva York en 1992, Donna Hayward comenzó a tomar clases de pregrado en la Hunter College. Recién había cumplidos los 18 años. Se mantuvo a sí misma trabajando como modelo, eventualmente firmando con la exclusiva agencia Ford. Todos los reportes indican que durante ese tiempo cortó comunicación con ambos padre y madre, intercambiando cartas y ocasionalmente llamando solo con sus hermanas menores. De la misma manera cortó contacto con todos sus antiguos amigos de Twin Peaks, haciendo una sola excepción: unos años más tarde, intercambió cartas con Audrey Horne.”

Mientras su carrera de modelo avanzó, Donna dejó la universidad luego de su primer año. El trabajo la llevó a varios países del extranjero y trabajó en París, Milán, Mónaco y otras mecas de la moda. Dentro de la industria fue considerada como una de las ‘caras nuevas’ de los noventas—luego de la decadente década previa—una vuelta al look ‘americano’, quizás mejor resumido en Kathy Ireland.

Para ser franca, Donna tomó el camino más rápido. Durante este tiempo, frecuentemente apareció en varias columnas de prensa rosa y de periódicos de Nueva York, donde fue vinculada románticamente con una amplia variedad de hombres de alto perfil: una estrella de telenovelas, un jugador de tenis profesional, un magnate de la vida nocturna y un descendiente menor de la familia real europea.”

Justo antes del cambio de siglo, en algún evento de caridad sin especificar en un fin de semana, Donna aparentemente se cruzó con Lanna Budding Milford, la viuda del editor del Twin Peaks Post, Douglas Milford. Con ambas vestidas de alta costura y amplias sonrisas, su foto estuvo en la página de sociedad en el New York Post. Mientras Lana parece brillar, en un examen más cercano, algo alrededor de la expresión de Donna parece tenso, con tensión y consternación.”

luego de cuatro años de matrimonio, Donna discretamente, y al comienzo de manera voluntaria, entró a rehabilitación por adicción a las drogas y el alcohol. Esto demostró ser solo la primera de las cuatro temporadas de Donna en rehabilitación—la última en la cual luego de una estadía involuntaria en el hospital psiquiátrico McLean, en Massachusetts, fue el resultado de una intervención. Este episodio final—en el cual fue reportada como desaparecida por su esposo, luego encontrada dos días después en una casa de crack en el Lower East—parece haber disparado la muerte por una falla en el corazón de su madre, Eileen, con quien Donna nunca se reconcilió ni, hasta donde puedo determinar, habló en 17 años desde su súbita desaparición de Twin Peaks. Donna no fue al funeral.

Poco después de su liberación de McLean, ahora sobria pero temblorosa, el marido de Donna comenzó los trámites de divorcio. Ya que había firmado un acuerdo prenupcial, a Donna solo le fue otorgada una pequeña suma de seis cifras y un modesto estipendio. Pronto se mudó a un apartamento en las afueras de New Haven, Connecticut, lejos de las luces en las que vivía donde rigurosamente asistió a los encuentros locales de 12-pasos y consiguió estar en sobriedad.

Llegando a los cuarenta y frente a un futuro incierto, en este punto Donna se acercó a su padre, Will Hayward, por primera vez en más de 20 años. Este contacto pareció llevar a su reconciliación. En ese año, Donna se movió al pequeño pueblo universitario de MIddlebury, Vermont, donde Will — ahora en sus setentas — todavía practicaba la medicina familiar. Donna se movió con su padre y comenzó a trabajar de asistente suyo. El último año el Doc Hayward lentamente bajó sus horas de trabajo aunque dice que no pretende retirarse totalmente. Donna continua a su lado día a día, viviendo una vida tranquila y muy activa como sponsor de la comunidad de alcohólicos anónimos.”

Debo mencionar que su hermana pequeña, Gersten, sufrió en primera plana los efectos de lo que sea que ha dividido a esta familia. Gersten era una chica excepcional en muchos ámbitos; un prodigio musical, tocó el piano como solista en eventos musicales por todo el noroeste en su adolescencia. Fue también una matemática talentosa, tomando cursos de nivel universitario cuando aún estaba en primer año de la secundaria; se graduó de la secundaria a los 16 con muchos ofrecimientos de becas de prestigiosas universidades. Con conocimientos fluidos en más de cuatro idiomas, Gersten mantuvo un IQ por sobre los niveles de genio. A través de su infancia y adolescencia, su excepcionalismo en tantas disciplinas funcionó como una coraza de la tristeza y turbulencias que rodearon a su familia. Parece que una vez que entró a la universidad Stanford, a los 16, toda esa energía que puso en esas habilidades de alto-stress no la protegieron del trauma que sufrió de niña ni la prepararon emocionalmente por las demandas internas que este mundo adulto ahora le estaba exigiendo. A la mitad del segundo semestre, luego de mostrar síntomas alarmantes de mala adaptación a sus nuevas circunstancias, Gersten sufrió lo que se diagnosticó como un colapso nervioso y crisis emocional.”

Aunque varios doctores le prescribieron una serie de antidepresivos, Gersten comenzó a tomar drogas callejeras mucho más fuertes para calmarse, en simultáneo con la tendencia nacional en consumo de opioides y drogas de diseño. La muerte de su madre, Eileen, en 2009, le quitó su influencia protectora y seguridad social lo que aparentemente terminó por trastornarla mucho más. Esto llevó a una serie de imprudentes y caóticas relaciones con una numerosa cantidad de hombres y mujeres. La más dañina de todas esas ha demostrado ser la que tuvo con Steven Burnett, un inestable sinvergüenza vendedor de droga de baja calaña en la zona de Twin Peaks, quien también se convirtió en su recurso primario para conseguir sus narcóticos.

Esta relación fue precedida y aparentemente también se superpuso con el matrimonio de Steven con Rebecca Briggs, la hija de Shelly y Bobby Briggs. Ya en sus veintes, Becky trabajó en una panadería propiedad de Norma Jennings en Twin Peaks. Una orden de arresto fue expedida recientemente para Steven Burnett como cómplice sospechoso de una operación internacional de narcotráfico —el cual, por cierto, desapareció—que vinculaba de manera prominente al hijo de Audrey, Richard Horne—también desaparecido y entre otras cosas, con una orden de arresto por atropello y fuga—y un deshonesto oficial del departamento del sheriff, Chad Broxford, quien actualmente se encuentra a la espera de su juicio por múltiples causas. La intervención a tiempo de su madre, Shelly, y su padre, el Oficial Briggs, parece haberle ahorrado a Becky cualquier problema legal permanente, pero Gersten no se ha visto desde entonces y se cree que abandonó la zona.”

Los desconocidos movimientos sísmicos que llevaron a la disolución del matrimonio Hayward parecieron causar una especie de daño colateral en la unión marital de más de 30 años del matrimonio Horne. Habiendo vivido separados por más de una década, Ben y Sylvia Horne se divorciaron casi dos años después de la disolución de los Hayward. Ambos se quedaron en el área de Twin Peaks: Ben mantuvo la vieja casa familiar y Sylvia se mudó a una mansión en una zona exclusiva y recientemente urbanizada donde desde hace tiempo asumió el rol de la custodia y cuidado de su hijo con necesidades especiales, Johnny—con un profundo caso de autismo—quien ahora está en sus cuarentas.

Audrey se despertó del coma en el que estuvo luego de tres semanas y media. Aparentemente no tiene memoria alguna del evento en sí y en un principio parecía en camino a una recuperación total. Dos eventos alteraron su trayectoria. La primera, la decisión de su padre de vender la parcela de 350 acres perteneciente a la familia Horne en el bosque de Ghostwood—la venta que Audrey estaba protestando al momento de la explosión en el banco—a un grupo financiero que inmediatamente comenzó la construcción de una prisión estatal privada en el sitio. Luego Audrey descubrió, dos meses después de su salida en el hospital, que estaba embarazada.

Audrey rechazó todas las ofertas de ayuda financiera de parte de su padre y madre, se mudó de la casa familiar a un pequeño apartamento y preparó, tal puso en una carta a su madre escrita por esa época, para el rol más importante de su vida: criar a su hijo como madre soltera. Audrey acababa de cumplir diecinueve cuando su hijo, Richard, nació. Nunca volvió al colegio, terminando sus estudios de manera independiente en el transcurso de esos próximos dos años.

Posteriormente se matriculó en la universidad local, estudiando economía y administración de empresas. Luego de obtener su título, abrió una peluquería y salón de belleza en el pueblo, la cual exitosamente administró desde entonces.” “Nunca comentó públicamente—ni se la oyó especular con nadie—acerca de quién podría ser el padre de su hijo y nunca estuvo interesada en discutir eso con nadie. Si Audrey misma tuvo alguna curiosidad acerca de la identidad del padre, nunca hizo uso de algún test de paternidad que yo haya podido descubrir. Uno puede concluir que nunca le importó o que siempre supo quién era todo este tiempo. (La única pista posible que he podido encontrar a través de esas líneas es la foto enmarcada del Agente Cooper que cuelga en la pared de su oficina en la peluquería)”

Aparentemente nunca dejó que su hijo conozca a su abuelo Ben. Las circunstancias cambiaron luego del décimo cumpleaños de Richard, cuando, sin aviso, en una ceremonia privada, Audrey se casó con su viejo contador. Testigos cercanos a esta situación sugieren que fue más una unión por conveniencia financiera que afectuosa y durante mi investigación me he topado con numerosas escenas públicas, consumo excesivo de alcohol, abuso verbal e infidelidades sexuales—todas presuntamente del lado de la esposa.

La pareja brevemente consultó un consejero marital y Audrey aparentemente también consultó a su propio profesional psiquiátrico durante este tiempo pero esos archivos están sellados y me son inaccesibles. Hace cuatro años, Audrey cerró la peluquería. No mucho después parece haber desaparecido de la vida pública hacia, o aislamiento agorafóbico, o—según sugiere un rumor—una clínica de atención privada. El titular de la familia Horne se negó a responder todas las consultas al respecto de su paradero.”

Ben continúa activo en sus variados negocios como siempre, pero desde la venta de su porción del bosque de Ghostwood—y el impacto que tuvo en la vida de su hija—parece más que claro que ha conducido sus inversiones y compras hacia un plano mucho más ético.”

La prisión privada puesta y llevada en producción allí en 2001, un controversial proyecto no solo en el pueblo, sino a nivel regional. Poseída por una empresa fantasma de un turbio consorcio de inversores conservadores en el medio oeste, probó ser un propietario ausente en todos los sentidos. Una brutal y fea estructura—construida por contratistas de baja calaña para ahorrar dinero— el centro penitenciario de Ghostwood es ampliamente considerado lo más feo de este inmaculado valle.”

(Nota al pie interesante: el jefe administrativo de la prisión Ghostwood en este tiempo, el Alcalde Dwight Murphy, cruzó nuestro radar durante la reciente investigación Blue Rose. Valdría la pena ver si su ulterior asesinato estuvo relacionado de alguna manera con sus años en

Ghostwood)”

A través de los últimos diez años, Jerry comenzó y siguió un nueva aventura comercial que es, sin ninguna duda, resultado de su propia iniciativa. Esta operación también pareciera estar preparada, como el resultado de un reciente cambio de las convenciones legales y sociales, para convertirse oficialmente en el emprendimiento más masivamente exitoso de la historia de la Horne Corporation. Uno puede darle el crédito a Jerry pero realmente precisamente anticipó la legalización de la marihuana en el estado de Washington. Más que eso, de hecho, fue uno de los donantes y organizadores más grandes mucho antes de la legislación oficial en 2012.”

según múltiples fuentes Jerry está perpetuamente volado como los satélites de altas comunicaciones desde casi 1969. (Por ejemplo, solo una pequeña muestra de la evidencia que confirma: como un estudiante universitario—confirma Gonzaga, clase del 68—Jerry manejó a través de todo el país para asistir a Woodstock en su propio tráiler. Aparece brevemente en la película ganadora al Oscar al mejor documental de aquel icónico concierto, literalmente emergiendo de su tráiler con un grupo de atractivas chicas en una nube de humo. Fue por años un conocido socio del ahora renombrado autor Ken Kesey‘Alguien Voló Sobre El Nido del Cuco’—un libertino y ‘sesentoso’ avocado a la apertura de la conciencia, como miembro de su séquito de seguidores, conocido como los ‘Merry Pranksters’. Título del cual, ahora que lo pienso, es conciso como la esencia del propio Jerry Horne podría ser. Por ejemplo: Jerry una vez intentó obtener la licencia para el uso de marihuana medicinal—años antes de que se convirtiese legal—para tratar su ‘adicción a la marihuana’)”

Jerry ha incursionado privadamente por décadas como un botanista amateur—‘plantando lo suyo’, como decían en la ‘comunidad medicinal’—y desde la legalización ha desarrollado personalmente una docena de cepas ‘Frankenstein’ e híbridos de alarmante potencia.”

Los efectos de estos han hecho sus productos entre los más codiciados en el mercado y en un anuncio reciente, informó que tiene planes de abrir una cadena de tiendas al por menor (nombre a definirse, pero entre los dominios que ya reservó están: AHigherCalling.com, EightMilesHigh.com y UpUpandAway.com) indica que está, posicionando la operación para moverse al mercado regional y, esperan, nacional mientras las leyes de cannabis sigan siendo cada vez menos prohibitivas.”

Jerry indudablemente se suavizó con el tiempo, un efecto que no debería sorprender ya que a este punto ha almacenado niveles de THC en su sistema que podría preservar a un mamut lanudo.”

su único amigo fuera de la familia Horne parece ser el Dr. Lawrence Jacoby (indagaré más acerca de esto).”

El certificado de nacimiento de Annie lleva el apellido de su madre, Smith, y creció en y alrededor del hotel aparentemente sin nunca saber que su padre era realmente Marty. Testigos me informan que Vivian le dijo a Annie a través de los años que Marty Lindstrom era su tío. Norma no sabía nada de eso, hasta que parece que su madre, Ilsa, le hizo una confesión en el lecho de su muerte en 1984. En ese punto Norma decidió llegar hasta Marty, con quién apenas hablaba—y solo había visto una vez—en los seis años desde que se fue de Twin Peaks y del Double R. No fue una reunión feliz, en donde descubrió que su padre había perdido severamente su salud mental y física en El Viajero Cansado. También descubrió que con Ilsa ahora muerta, Vivian había finalmente, y de manera precipitada, persuadido a su disminuido mentalmente padre a casarse.”

Durante su visita, Norma también quedó atónita al enterarse que tenía una media hermana de 12 años que había crecido en duras circunstancias, llena de cicatrices psicológicas y una gran fragilidad emocional que mostraba. El shock de este descubrimiento cambió la bondad de la persona de Norma en un fuerte instinto protector hacia la chica. Annie respondió inmediatamente hacia el único cariño real que le habían ofrecido y se formó un lazo de amor entre ella. Por muchos años, Norma se negó a compartir este secreto con su marido, Hank, o con el amor secreto de toda su vida, Big Ed, Hurley. Por el bien de la chica, Norma mantuvo su conexión con Annie viva y para ayudarse a hacer frente, hizo esfuerzos extraordinarios para mantener una relación cortés con Vivian, la mujer que tuvo ese cruel e insensible papel en la destrucción de su propia familia. Menos de seis semanas después de la muerte de Marty, Vivian Smythe Lindstrom se casó con el dueño de una exitosa compañía distribuidora de cerveza del área de Yakima llamado Roland Blackburn, un apuesto sinvergüenza con problemas de bebida y

temperamento violento. (Hay más que suficientes razones para sospechar que Roland ya había entrado abiertamente en una relación con ella mientras Marty seguía vivo.).”

Un par de semanas después de eso, los Blackburn oficialmente adoptaron a Annie y apenas unos días después la enviaron a una casi medieval y aislada escuela pupilo en Kennewick, Washington, casi mil millas al este. Según los registros escolares, la única familiar que alguna vez visitó a Annie durante su primer año en la escuela fue Norma. Durante el tiempo que estuvo allí, fuera de su madre y su padrastro, Annie pareció estabilizarse; sus notas estuvieron cerca de ser las mejores de la clase y los registros escolares la describen invariablemente como una brillante y entusiasta alumna.”

Annie Blackburn intentó suicidarse la noche posterior luego de la muerte de Roland engullendo una botella llena de tranquilizantes y cortándose las muñecas con un cutter. Descubierta por su madre, fue llevada rápidamente al hospital local donde le hicieron un lavaje de estómago, cesaron el sangrado y salvaron su vida. Annie se mantuvo inconsciente—y casi catatónica—luego del incidente y los doctores rápidamente le diagnosticaron una crisis nerviosa. Actuando según las recomendaciones de los médicos, Vivian arregló para que Annie fuera tratada y confinada en un hospital psiquiátrico en el oeste de Washington—casualmente el mismo en donde Nadine Hurley y su madre habían sido tratadas años antes. Annie estuvo seis meses en el lugar bajo cuidado psiquiátrico constante y consejería psicológica. Luego que Vivian la ingresó y la dejó allí, nuevamente la única familia que la visitó regularmente fue su media hermana, Norma. Durante esos meses, Vivian se enamoró de un encantador y sospechoso forastero llamado Ernie Niles, que un día apareció en la puerta del Viajero Cansado. Un informal, aimable estafador. Ernie rápidamente arrasó con la aparente vulnerabilidad de Vivian. Dejándola tan solo como una afligida viuda abrumada por la situación e intentando mantener su propio negocio, se vendió a sí mismo como el tipo que la iba a ayudar a salir. Empezando como una mano útil en el motel, pronto proveyó más que una mano, en pocas semanas Ernie se había instalado en la habitación de Vivian en la mansión Blackburn. Pero quién era exactamente la víctima en este sórdido pas de deux sigue siendo una cuestión sin resolver. Cuando Annie finalmente salió del hospital, volvió a casa para encontrar que Ernie Niles había ocupado el lugar de Roland en cada ámbito.”

Poco después, Vivian se casó con Ernie, siendo el tercer esposo en menos de cinco años. Aunque villano por naturaleza, el irresponsable Niles no era para nada como el depredador Blackburn había sido y trató a Annie mucho más amablemente incluso que su madre. La semana luego de su casamiento, Annie volvió apresuradamente a su escuela católica en Kennewick y la siguiente primavera se graduò con honores. Reacia a volver a casa y todavía muy frágil para lidiar con el rigor de la vida independiente en la universidad, Annie tomó la decisión de algún modo impulsiva de tomar los votos y entrar al convento adyacente a su escuela para postularse en la orden espiritual. Mientras su madre pareció darle la bienvenida a su decisión—mantenía a Annie fuera de su vista—Norma no la aprobó en un comienzo. Se negó a intervenir, sin embargo, pensándolo bien lo mejor podría ser dejar a Annie tomar sus propias decisiones. Un par de años luego, tal Norma sospechó que podría pasar, las dudas de Annie acerca de comprometer el resto de su vida a la iglesia le llevó dejar el convento antes de formalmente tomar los votos. Ahora en sus primeros veinte, y mucho más fuerte emocional y mentalmente de lo que estuvo en la última década, Annie, por invitación de Norma, se movió temporalmente a Twin Peaks para estar cerca de su hermana mientras navegaba la dura transición a la vida civil. Norma la puso a trabajar como camarera en el Double R, donde Annie pareció encajar bien, y con Vivian y Ernie fuera de su vista y de su mente, su vida finalmente pareció tomar el camino saludable. Poco después de la mudanza,¹ otro acontecimiento importante ocurrió: Vivian Smythe Niles y su esposo Ernie llegaron a Twin Peaks, sin avisar, para visitar, aparentemente así Vivian podía presentarle su nuevo esposo a Norma. La siempre amable y reservada Norma presentó a Vivian a todos sus amigos como su madre, negándose a explicar las retorcidas circunstancias que habían hecho aparecer a esa mujer a su vida.”

¹ Erro de continuidade: segundo a cronologia da 2ª temporada audiovisual de Twin Peaks, isso foi antes da chegada de Annie, e não depois.

La actitud de Viv[i]an hacia el Doble R fue snob y condescendiente en el mejor de los casos. (Fue también, en primera instancia, un recordatorio vívido para Vivian acerca de los orígenes de clase trabajadora suyo y de Marty que, más que motivo de orgullo, ella solo veía como vergonzoso). “Vivian procedió a apuñalar por la espalda a Norma, con una vuelta del cuchillo que hacía a sus viejas ofensas como un cuento de hadas de madrastra. Antes de su visita, publicó una pista anónima en el periódico local que un destacado y reservado crítico de comida—con el nombre de M.T. Wentz—estaría visitando pronto el Double R. Norma, anticipándose a esta visita anónima, acondicionó el restaurante—manteles, arreglos florales, velas, etc.—y agregó algunos ítems especiales al menú. Mientras Vivian todavía seguía en el pueblo, la reseña de M. T. Wentz apareció impresa—una mordaz y condescendiente desestimación de toda la empresa Doble R. Sin lugar a dudas, Norma quedó devastada emocionalmente. Vivian procedió entonces a tomarse el gusto especial de revelarle a Norma que ella fue la autora del artículo.” “Nunca hablaron una a la otra de nuevo. Por más despiadado que haya parecido el asalto de Vivian contra Norma, parece que esto no era más que una perspectiva secundaria de su visita a Twin Peaks. Ernie Niles siempre se imaginó como un inteligente y tenaz estafador, pero una vez que se casó con Vivian Smythe Lindstrom Blackburn, quedó bien lejos de su nivel. Le podría haber tomado muy poco esfuerzo a Vivian descubrir que su querido Ernie había, en un pasado no muy lejano, cumplido una condena por fraude en la Penitenciaría de Washington que justo coincidió con el tiempo en el que estaba Hank Jennings—quien estaba por homicidio involuntario, un crimen cometido como cómplice de Josie Packard en su fallido intento de asesinar a Andrew Packard—, también conocido como el marido de Norma.”

En pocos días, Hank había envuelto a Ernie en un esquema de dinero fácil traficando drogas a

través de la frontera canadiense para sus viejos socios criminales, la familia Renault—un dinero fácil que se le ofreció a Ernie y que, predeciblemente, no podía rechazar. Luego de volver de su viaje inicial para preparar el acuerdo, Ernie se encontró de repente como un peón en un juego ajeno, tomado por la agente de la DEA Denise Bryson—la posesión de fotos de reconocimiento de Ernie con conocidos criminales en clara violación de sus términos de la libertad condicional, ayudaron. En cambio de su inmunidad de enjuiciamiento, Ernie aceptó ser un infiltrado en una operación hecha por Bryson y el Agente Especial Dale Cooper para desmantelar a la familia Renault. Niles llevó un micrófono escondido al otro día para “comprar mercancía” en un destartalado lugar rural llamado Dead Dog Farm, resultando en un desastre. La transpiración intensa de Ernie por tanta presión desactivó el micrófono y el humo que empezó a salir de su camisa arruinó el trato. Solo el pensamiento frío y la rápida reacción de Cooper y Bryson previeron esta trampa de salir mal; una red lanzada sobre los cabecillas y todas las operaciones de los Renault quedaron permanentemente deshabilitadas.”

Hank Jennings, arrastrado en el alboroto como cómplice, había pasado sus últimos días como hombre libre y fue pronto devuelto a la penitenciaría por una condena de 25 años. Como se informa previamente en el dossier de Briggs, solo dos años después moriría en manos de un convicto con conexiones familiares con los Renaults. No hay mal que por bien.. etc., y el resultado fue que Norma Jennings fue finalmente liberada de su lamentable esposo.”

Mientras pienso en lo que le pasó posteriormente, una idea sube a mi mente de alguna manera pensando que quizás el Agente Cooper tuvo responsabilidad en el hecho. Hay una larga cadena de circunstancias aquí que lleva al peor—admitido por él—error de su vida. Estoy haciendo alusión, estoy más que segura que sabrás, a su coqueteo con la mujer de su ex compañero y antiguo mentor, Windom Earle. Sabemos que Caroline Earle sufrió tal angustia mental durante su matrimonio que su acercamiento a Cooper pareció ser más un llamado de ayuda que un intento de seducción. Cooper nunca pudo resistirse a un pájaro con las alas rotas—sabrás también cómo sé yo ahora que es una parte central de su maquillaje: el síndrome del caballero blanco, la imperiosa necesidad de rescatar cada damisela en problemas que se cruzó.”

(En su solicitud, Earle cita haber visto, a la edad de 10 años, el popular film I was a communist for the FBI como la inspiración pivotal a su carrera en el orden público).”

Estuvieron casados por diez años y no tuvieron niños—Caroline estuvo ferozmente comprometida a su carrera, aparentemente un punto de tensión entre ambos—cuando Earle comenzó a trabajar junto a uno de tus protegidos y unirse en su oficina de Filadelfia, Dale Cooper.”

También sabemos que Earle sospechó una atracción mutua entre Cooper y Caroline casi desde el momento en el que fueron presentados en la fiesta de navidad del Bureau en Filadelfia, el año anterior. Cooper mismo admitió dicha atracción en sus cintas, pero es poco probable que cualquier cosa se haya salido de ello ya que Cooper había estado varios meses en Pittsburgh trabajando en este caso. Aunque su encanto nativo logró disimularlo del resto de su vida, por declaraciones que ha hecho después sabemos que a esta altura ya Windom Earle estaba en camino a perder la cabeza.”

El nivel de sufrimiento y culpa de Cooper en la secuela de estos trágicos eventos no puede ser desestimado. Se comprometió encarnizadamente a sí mismo a la consejería y a su autorreflexión durante su recuperación física de un modo que fue 100% sincero. Está registrado—bueno, grabado en cintas, como sea—confirmando que esta experiencia resultó ser la lección más importante en su vida y, admirablemente, se la tomó a pecho.”

(¿estoy siendo muy dura con el Agente Cooper aquí? Estoy abierta a sugerencias, así que por favor déjeme saber si siente que es el caso. No obstante, creo que la obsesión de Cooper con el caso de Laura Palmer hace algo de eco con esta tendencia).”

Déjame traer esto a colación: ¿tiene que ver esta característica establecida como un factor en la atracción de Cooper hacia Annie Blackburn? Es posible que lo que le llevó hacia Annie sea algo mucho más puro y simple: el hecho de que ambos soportaron—y sobrevivieron— asaltos viciosos de peligrosos criminales hacia el núcleo de su existencia, lo cual casi les costó sus vidas. Esa poderosa narrativa personal que los conectó no debe ser minimizada. Por lo que sabemos, habiéndole dado una chance a su relación de crecer, podría haberse convertido en el lazo más curativo que ambos hubieran tenido, posiblemente incluso (un pensamiento que rompe el corazón) el amor de sus vidas. No está fuera de cuestión, y sé que debe ser lo mínimo que le hubiera deseado a su amigo. Lamentablemente, nunca lo sabremos. Sabemos que luego de diez años en confinamiento solitario en una prisión de alta seguridad, Earle diseñó un atrevido plan de escape y se esfumó sin dejar rastro. También sabemos que, siendo el tipo de desafíos que siempre disfrutó, se escapó a un escondite que previamente había establecido en una penitenciaría abandonada de Filadelfia, la prisión para los locos criminales más viejas del país. Desde ahí lanzó el plan de venganza que aparentemente había estado planeando todo este tiempo.”

Con su típica vehemente sinceridad, Annie escribió un discurso, el cual dio en la “competición de talentos”, que empleó los sermones habituales acerca de la paz mundial, cautivó a los jueces—poco ambiciosos, sin duda—y ganó la corona. En este punto el infierno se desató. Bajo la cobertura de distracciones pirotécnicas, Windom Earle secuestró a Annie y se escapó con ella sin ser detectado. El rastro es confuso desde este punto en adelante.

Earle la llevó a una ubicación—aún en este día—sin descubrir, algún lugar en el Bosque Nacional de Ghostwood. (se deslizan pistas de algún enfoque ‘sobrenatural’ aquí, de lo cual no estoy inclinada a acreditar, pero el Archivista y nuestras propias experiencias con Cooper pueden llegar a ameritar una reconsideración)

El objetivo de Earle parece bien claro. Con Annie en su mano, esperaba atraer a Cooper a él y finalizar el trabajo que había comenzado en Pittsburgh años atrás. Más tarde esa noche, Cooper, acompañado de dos miembros del Departamento del Sheriff, viajó a un lugar del bosque donde aparentemente tenía razones de creer que Earle podría estar reteniéndola. Cooper ‘fue solo’—esto según el testimonio del Sheriff Truman—y ‘desapareció’ esa noche. Lo difícil es: no sé a qué se refiere con eso. ¿‘fue’ adónde? ¿‘desapareció’ cómo? No está elaborado y Truman desde entonces ha mantenido sus labios cerrados al respecto, por, supongo, inquebrantable lealtad a su amigo.”

La mañana siguiente, casi al amanecer, el Sheriff Truman y uno de sus oficiales encontraron a Cooper y a Annie en un claro cercano. Los oficiales llevaron a Annie rápidamente al hospital, llevaron a Cooper a su habitación en el Great Northern, donde el Doc Hayward lo revisó y declaró saludable pero necesitando descanso y Cooper pasó el resto del día recuperándose en el hotel.”

Windom Earle nunca fue visto de nuevo. Ningún rastro de él, vivo o muerto, apareció en esos bosques o en ningún otro lado. Como Sabrás, algunos días después Cooper no solo desapareció de Twin Peaks sino de cada mapa o red del Bureau por los próximos 25 años. Annie Blackburn pasó un día en el hospital, durante el cual pareció relativamente sin afectación de lo que sea que vivió allí y alegó no tener memorias de ello. La mañana siguiente, el personal del hospital la encontró en un estado catatónico. Ojos abiertos, cabeza mirando al techo, pupilas dilatadas y perdidas, totalmente inconsciente y sin respuesta a ningún estímulo visual o aural. Mistificada, no pudieron encontrar ninguna explicación física subyacente; sus signos vitales eran robustos. Se mantuvo de esa manera por los siguientes diez días, durante los cuales la trataron con fluidos intravenosos nutritivos y sus signos vitales se mantuvieron fuertes. En todo momento Norma o uno de sus amigos del restaurante estuvieron al lado de su cama. La condición de Annie lentamente mejoró, al punto que, con asistencia, eventualmente logró sentarse y caminar. Su impresión se mantuvo inerte y sumisa—serena, dócil—todo el tiempo. Permitió al personal de enfermería a vestirla, alimentarla y bañarla siempre que fue necesario. Pero nunca volvió a hablar, nunca reconoció la presencia de nadie más, nunca incluso pareció ver o escuchar a nadie ni nada enfrente de ella. Dos meses después, Norma mudó a Annie en casa, donde empezó a cuidar personalmente. (Conociendo a Norma, esto no es para nada sorprendente, considerando que su madre, Vivian, nunca devolvió ningún llamado acerca de la condición de Annie—ella ya se había mudado con su nuevo esposo donde ninguna mención de su pasado era bienvenida). Un año después de haber sido encontrada en el bosque, Norma llegó a su casa y la encontró desplomada en su cama, en un charco de su propia sangre; había cortado sus muñecas de nuevo con los pedazos de un vidrio cortado. Norma la descubrió justo a tiempo y la llevó rápidamente al hospital. Nuevamente, Annie nunca dio la mínima indicación que sabía lo que se estaba haciendo, dónde estaba o con quién. Se mantuvo despierta y alerta, y completamente distante de sus alrededores. Sí, sin embargo, habló una oración la siguiente mañana en el hospital. Hasta donde cualquiera podía recordar, era la única cosa que había dicho desde que fue encontrada en el bosque. Aunque había gente en la habitación, incluyendo a Norma, nadie le había hablado a ella—sabían bien—así que no estaba respondiendo ninguna pregunta de nadie presente. ‘Estoy bien’, dijo. Se tomó nota de esto en su registro: 8:38 A.M. Después de lo cual, según sus registros, Annie volvió a su aislamiento impenetrable y no profirió otra palabra.”

Por recomendación de cada doctor que consultó, Norma finalmente reconoció que, si ella deseaba tener alguna esperanza de mantener el resto de su vida laboral, no podría cargar con la responsabilidad completa del cuidado de su hermana. Luego de su segundo intento de suicidio, Annie requirió la supervisión y observación a tiempo completo. Nuevamente, de manera fiable, la madre de Annie, Vivian, rechazó todos los ruegos de ayudarle en cualquier aspecto. En esas pocas semanas, luego de una colecta comunitaria que ayudó a Norma a llevar la carga del compromiso financiero—siendo Ben Horne, de algún modo sorprendente, el contribuyente mayor—Annie fue transferida a un hospital psiquiátrico cerca de Spokane.”

Ha estado allí desde entonces. Visité el hospital recientemente y estuve dos horas sentada con ella. Todavía es muy hermosa, su cara sin arrugas y joven en apariencia, pacífica en temperamento y dichosamente distante de todo y todos alrededor de ella. Parece que difícilmente haya envejecido un día. Se sienta sola y todavía cada día, todos los días, sin necesidad o interés de cualquier tipo de estímulo externo o actividad. Obediente y cooperativa, no muestra interés en alimentarse a sí mismo pero nunca objeta ser alimentada. Sus ojos, lejos de parecer aburridos o lejanos —como su condición y diagnóstico le llevaría uno a pensar—parecen vivos, llenos con una misteriosa y vívida vida interna. Pero una última anomalía apareció frente a mí mientras examinaba sus registros y archivos de video y puede también interesarle a usted, Jefe. Cada año, una vez por año, en el aniversario del día que fue encontrada en el bosque, sin responder a ninguna consulta hecha a ella, precisamente a 8:38 de la mañana, le dice la misma oración a nadie en particular: ‘Estoy bien’, dice.”

El consejo del pueblo votó que, en la trágica ausencia de Annie, la otra finalista de Miss Twin Peaks debería asumir el título y llenar esa posición. Esa fue, según los puntajes, Lana Budding Milford. El hecho de que en las semanas posteriores a la muerte de su esposo Lana había sido visto—varias veces por varios testigos en varios lugares—besuqueándose con el hermano sobreviviente de Doug, el alcalde de hace años Dwayne Milford, no debió haber sido visto como un factor perjudicial o persuasivo en su decisión, o al menos eso he sido llevada a pensar. Reconfortar a su cuñado en tiempos de necesidad, de manera más caritativa, como una expresión natural de madurez de Lana y abundante compasión por su compañero. Ahem.”

Accesorios personales recuperados: en la mesa de luz del difunto, un reloj Rolex, un anillo verde jade.” “La esposa y el marido habían sido vistos, como la tradición dicta, cambiando anillos durante el recitado de sus votos en una habitación llena de testigos. Verifiqué esto. Sin embargo a pesar que la ceremonia pasó hace más de 25 años, ninguno de los aproximadamente quince participantes de la ceremonia que entrevisté recuerda que el anillo que Lana le dió a Doug fuese ‘verde jade’, sin embargo fue identificado como un anillo dorado sin adornos. También confirmé esto con el joyero del pueblo, aún en el negocio, que me pudo proveer de un recibo mostrando que Doug Milford mismo compró tanto ese como el anillo de su mujer un par de días antes de la ceremonia nupcial. Cuando consulté acerca de la disposición del ‘anillo verde jade’ post-mortem, me dijeron que, por protocolo del departamento, debió haber sido devuelto a la viuda Milford.

(Para refrescar su memoria, hay una amenaza constante en el dossier acerca de un anillo verde que, aparentemente, aparece y desaparece constantemente. Es mencionado muchas veces, desde que comienza con los papeles de Meriwether Lewis hasta el final en la Casa Blanca con Nixon, donde el mismo Doug Milford lo pudo haber observado en la mano izquierda del presidente. El portador ha sido descrito varias veces como “preocupándose” por el anillo, girándolo en su dedo y, bastante usualmente, su aparición presagia peligro inminente, infortunio o prematura muerte. Debo confesar que no sé qué pensar al respecto y me pregunto qué piensa usted.)

Lana, como se mencionó anteriormente, se quedó en Twin Peaks solo lo suficiente luego de la muerte de Doug para realizar la sucesión y probar las condiciones de la herencia, punto en el que rápidamente se largó en las alas de su inesperada ganancia multimillonaria. Luego de eso apareció en la zona de Hamptons, en los brazos de una ascendiente línea de acompañantes masculinos hasta enganchar un administrador de su fondo de cobertura en el camino para llegar a su primer billón. (Recuerde, esto era mitad de los noventas, cuando los billonarios de New York City todavía era una raza genuinamente extraña.)

En su camino ascendente en la cadena alimenticia plutocrática, Lana brevemente salió con un célebre residente de cierta torre homónima en La Quinta Avenida, quien estaba o bien entre esposas, separándose o simplemente ‘de compras’. Pude localizar la fotografía de ambos en una

página de la sección de sociedad en una gala benéfica, en donde el hombre parece estar portando un inusual anillo verde en su dedo izquierdo, pero la resolución de la toma parece ser insuficiente para una observación más detallada.

En cualquier caso, su relación duró poco. Ya que esto fue en el punto más bajo de las geniales explotaciones financiera—plagada de quiebras, litigios nocivos y otras proezas—uno sospecha que la siempre ingeniosa Lana pudo habérselas arreglado para robar un poco del hombre y decidirse para tirar el cebo en aguas vecinas para atrapar peces más grandes. Caray, me pregunto qué habrá pasado con ese tipo. El hombre con el que eventualmente se casó, por cierto, mejoró la resistencia de Doug Milford por un margen sustancial, ya que la pareja vivió en felicidad conyugal hasta 2008, donde el magnate murió de un ataque al corazón en Antigua—la ubicación de su ‘palacio de invierno’—durante su caminata mañanera en la playa. Una vez más, la viuda Lana hizo como un bandido. Escuché decir que derivó hacia el sur de Francia, pero a ese punto perdí el rastro de la mujer—o, más bien debo decir, interés. Como una prima espiritual de Vivian Smith, su historia carece de la fibra moral edificante que me gusta tener en mis historias. Lana ciertamente amasó suficiente fortuna a este punto para dejarlo por hoy, y, para decirlo amablemente, con respecto a su ‘línea de trabajo’, el motor siguió trabajando, pero el chasis necesita algunas renovaciones.”

Se acordará que cuando el dossier se ocupó por última vez del Dr. Jacoby—el psicólogo New Age freestyle del pueblo—había sido recién informado por la junta médica de Washington que, por su menú 24hs de violaciones al código de ética, su licencia para practicar la medicina había sido revocada.” “pasó los próximos dos años en la bahía de Hanalei, desaparecido, lamiendo sus heridas y buscando una manera de reinventarse a sí mismo.

Aunque legalmente no podía levantar un consultorio, el buen doctor no mostró inclinaciones en abandonar su transitado camino alrededor en los márgenes más lejanos de las posibilidades más radicales de la realidad.”

Jacoby se lanzó a los estudios de campo con chamanes hawaianos y medicinas alternativas, las cuales reflejó en un blog online. Un pedazo sustancial de este contenido se enfocó en las maneras del ‘menehune’, la ‘pequeña gente’ del folklore nativo de la cultura de esa isla. Parecida a mitologías similares en otras tradiciones aborígenes—leprechauns, duendes, elfos, etc.—el menehune es usualmente representado como traviesos espíritus naturales y maestros constructores de varios inexplicables proyectos de ingeniería, usualmente involucrando agua y piedras.”

Mientras la internet proliferaba, el blog de Jacoby gradualmente lo llevó a tener una parte de la notoriedad que tuvo en los 60s, y la atención de varias figuras célebres de la contracultura quienes a través de los años se mantuvieron, como les gusta decir, ‘en marcha’. Por una invitación personal de un miembro sin determinar de la banda, Jacoby pasó gran parte de 1994 y 95 de gira con Grateful Dead, o como alguna vez escuché decirle a Albert, ‘la mala banda de garage más grande del mundo’. (¿sabía usted que Albert es un coleccionista de vinilos entusiasta con una colección de jazz que supera los miles de ejemplares? Sí, seguramente sabe.).” “el tiempo de Jacoby en el autobús terminó abruptamente con la prematura muerte del guitarrista y cantante Jerry García. Creo que el cariño de Jacoby por las llamativas y coloridas corbatas es muy probablemente un tributo a su viejo amigo.”

Predijo, correctamente y sin evidente alegría, que el gobierno exageraría, arremetería contra los objetivos incorrectos y daría comienzo a un ciclo más destructivo de causa y efecto que solo haría la crisis global emergente peor y peor. Cuando la búsqueda de armas de destrucción masiva se terminó, derribando la teoría racional del gobierno para invadir Irak, Jacoby se dio cuenta que tenía razón. Interpretó esto como la confirmación de que Estados Unidos, y quizás el mundo, estaría entrando en lo que él vio como ‘Kali Yuga’—un viejo término Hindú para ‘época oscura’. En 2003, en términos de esa visión, decidió volver a Twin Peaks.”

Dedicó el siguiente año a educarse a sí mismo en todas las ventajas que internet ahora ofrecía como medio de distribución a su mesiánica e idiosincrática visión. Durante este período, cuidadosamente creó una nueva persona para sí mismo para servir de mensajero de su mensaje, un personaje que llamó Dr. Amp. En 2006, justo luego de cumplir setenta, Jacoby lanzó los primeros episodios en vivo de lo que predijo se convertiría ‘su imperio mediático de la internet’, y el Doctor Amp hizo su debut, transmitiendo en vivo, una hora diaria, cinco días a la semana. Aunque las primeras ediciones varían en calidad—las puso a disposición online luego de cada transmisión en vivo, como también alguno de los primeros ‘podcasts’— su mensaje y tono se mantuvo considerablemente consistente: el Doctor Amp ofreció una feroz crítica en contra de un mundo volviéndose loco, un profeta del sentido común ofreciendo una cruzada nocturna que protestaba en contra de los privilegiados, los ignorantes y los falsos. Se mantuvo como un verdadero creyente en la medicina y el método científico predicando la verdad en contra de lo que él describía como las fuerzas crecientes del corporativismo, la corrupción de la riqueza desigual y los efectos corrosivos de lo que él llamaba ‘canibalismo capital’ en la mente humana, cuerpo y espíritu.”

El misterio de la identidad del Dr. Amp se convirtió en una parte indeleble de su mística y para 2012, su reputación comenzó a extenderse más allá de lo regional hacia lo nacional. Rechazó algunos intentos de medios corporativos nacionales de cooptar su mensaje o seducirlo con la idea de llegar a una audiencia más amplia mostrándole cubetas de dinero en su cara. Había ahorrado más que suficiente dinero a través de los años para mantener su modesto estilo de vida indefinidamente, y como dejó claro en su primera transmisión, ‘que la gente piense que estoy loco, a mi edad, no hay un carajo que me importe’.”

En 2015, el Dr. Amp comenzó una operación de correo luego de que un número de sus seguidores respondieran a sus frecuentes admoniciones de ‘cava tu mismo fuera de la mierda’—un tema central en su llamado de auto-empoderamiento, instando a la gente a pelear y coartar el control de sus propias vidas y destinos. Pronto, sumó la herramienta ideal que podrías usar para el trabajo: una (en principio) metafórica ‘pala dorada’ que sus seguidores podían visualizar para ayudarlos a completar dicha tarea.

La transformación deseada durante la asignación de esta empresa él la describió como un proceso de ‘alquimia intrapersonal’, volviendo la aburrida vida diaria en el oro del alma humana evolucionada, el objetivo que describe como una ‘santificada tradición’ en filosofía esotérica que se remonta hasta la edad media. Esto llevó a Jacoby a ofrecer palas de oro literal a la venta—simple palas de jardín que él personalmente pintaba de dorado—en una serie de comerciales caseros y antes que se dé cuenta estaba vendiendo cientos a la semana. Apropiadamente, parece no tener interés en usar esto para su vida personal. Una observación de sus impuestos recientes muestran que su ingreso corporativo aumentó 2.5 veces y el 90% de eso fue donado a varias causas de caridad.”

Cuando pienso en el Dr. Jacoby/Dr. Amp, un personaje como Próspero se me viene a la mente, un hombre en último acto de su vida que ha sobrevivido a la ‘tempestad’ del caos y haciéndolo ganó la habilidad de ver más allá. (El Rey Lear sería la versión trágica, un hombre privilegiado que llega al mismo lugar a través de la pérdida y orgullo que eventualmente le costaría la vida)

Que el terreno personal de Jacoby se pose sobre una montaña en una remota zona del este de Washington, la cual, según el dossier ha establecido, está empapada de misterio parece muy apropiado.”

¿cómo salimos nosotros mismos de esa mierda en particular? Sospecho que esto es parte del por qué me pidió encargarme de esto: instigar el proceso de adivinarme dentro mismo. ¿es ese el secreto en el corazón del Blue Rose y el trabajo que hacemos? Para identificar las causas raíces de la maldad y miseria humana, ¿debemos primero encontrarlas en nosotros mismos?”

el desafortunado romance entre Ed Hurley y Norma Jennings tuvo más impedimentos en el transcurso de los años que una ley de presupuestos. Cada vez que un atisbo de luz aparecía ofreciendo una posibilidad para que estén juntos, el destino golpeaba a su ventana cerrada con un continuo afluente de asesinatos, encarcelamientos, crisis nerviosas—lo que sea. La vuelta al confinamiento de Hank Jennings pareció ser la señal de fin de este ciclo, sólo para ser reemplazado no mucho después por la tragedia que cayó sobre Annie Blackburn, con norma entregándose totalmente a su cuidado a tiempo completo. Luego, no mucho después que la condición de Annie empeoró exigiendo una hospitalización a tiempo completo una seria recaída en el delicado estado mental de Nadine Hurley echó hacia atrás a Ed en su rol de cuidador, llevado por la culpa. Un año después, luego que Nadine finalmente pareciese estar recuperándose, y que Ed juntó el coraje para romper con su problemática esposa de una vez por

todas, su sobrino James llevó su vida a una zanja, requiriendo la ayuda de Ed.”

Cuando Leland Palmer murió en custodia policial luego de confesar la muerte de su hija, Laura, el más inocente de sus novios locales, un dolido y desilusionado James, tomó la ruta con su Harley sin planes de volver. No mucho después, luego de ser tomado por una predadora mujer fuera de Portland, Oregon, James tomó el rol de un desafortunado chivo expiatorio en un esquema de asesinatos que pareció ser sacado del novelista noir James M. Cain (No los voy a aburrir con los detalles).

Aunque James evitó estrictamente ser acusado de cualquier crimen, más tarde apareció como testigo en el juicio—trayendo serias dudas en el personaje de James y en la versión de sus eventos—sintiéndose lo suficiente amenazado para de manera impetuosa y muy poco sabía, escaparse del pueblo antes de completar su testimonio. Una orden de arresto fue emitida para asegurar su vuelta. No lo hizo. Sabemos ahora que James continuó manejando todo el camino hacia México, donde se escondió en Baja, trabajando como un mecánico mediante un nombre falso. El joven seguro no tenía hueso criminal pero los problemas seguro tenían facilidad para encontrarlo—Major Briggs se refirió a él en el dossier como algo que la familia siempre llamó sarcásticamente, ‘la suerte Hurley’.

James logró mantenerse perfil bajo en México por casi un año, hasta que volvió a ser ‘suertudo’ de nuevo, luego de reparar un arruinado motor de un Lamborghini Diablo perteneciente a un capo del cártel de Sinaloa. (en la jerga del mencionado anteriormente Cain, el motor estaba sufriendo un caso grave de envenenamiento: alguien abrió fuego en él con una Schmeisser AR-15 de punta hueca). Este vaquero narco le tomó tanto cariño a James y a su trabajo que le ofreció un trabajo a tiempo completo en propiedad en la colina de Jalisco, manteniendo su flota de diecisiete vehículos exóticos de lujo, otra bandera roja flameante que James parece no haber visto. Casi seis meses después, una banda rival apareció una mañana para ejecutar al capo en una violenta toma de poder—esto involucró una operación encubierta, policías corruptos y un agente rebelde de la DEA que fue convertido por el cartel. James fue uno de los sobrevivientes del tiroteo, habiéndose escondido en el baúl de un Rolls Royce, pero como consecuencia fue atrapado por los federales. La noticia de su ‘detención indefinida’ en México eventualmente se hizo camino hacia el Departamento de Sheriff de Twin Peaks.”

un par de meses después un juez mexicano absolvió a James de cualquier participación, fue escoltado hasta la frontera e instruido de dejar el país y nunca volver. Pero un regreso inmediatamente a Twin Peaks no estaba en las tarjetas; esa corte de Oregon todavía quería un pedazo de carne fresca de James por escaparse de su orden de arresto.

Abogados y jueces se juntaron y decidieron que por sus pecados James le debía a Oregon seis meses de su vida en una cárcel de mínima seguridad seguido de una probation de 2 años, tiempo durante el cual no tenía permitido salir del estado.”

Para el tiempo que este drama terminó y Ed volvió a casa, Nadine había recién abierto su tienda de cortinas en Twin Peaks. Fue un inmediato éxito y Ed se sintió obligado a ser apoyo mientras Nadine trabajaba a tiempo completo, lo cual puso otra piedra en el camino enfrente de Ed para finalmente estar junto a Norma.”

Una década pasó. James volvió eventualmente a Twin Peaks, en 2006—esta vuelta, en bus. Destrozó su Harley en un accidente que implicó un camión en fuga en West Virginia algunos meses antes. Suerte Hurley, aparentemente. Sufrió una fractura abierta de su pierna y terminó en la ruina en una clínica de rehabilitación del condado.

James bordeaba los treinta, y a este punto el esplendor ya se desvanecía permanentemente de su romance à la Kerouac con el camino. Una vez que su pierna se sanó, volvió a trabajar para Ed en su gasolinera y un par de años más tarde tomó un segundo trabajo trabajando como seguridad

nocturna en el Great Northern. Vive solo, modestamente, maneja un Ford Focus usado, todavía toca la guitarra, escribe melancólicas, simples y encantadoras canciones—amores no correspondidos, corazones rotos y esas cosas—que a veces toca localmente y hasta donde puedo saber, nunca lastimó a otro ser humano.”

El entusiasmo de Nadine rápidamente se tornó en una especie de devoción religiosa que pareció hacer en ella lo que treinta y pico de años de terapia tradicional falló en lograr: le dio de nuevo una vida feliz, funcional y balanceada. Durante una de sus noches semanales de abastecimiento, el Dr. Jacoby notó una de sus palas doradas colgando en la ventana de Nadine. Paró, golpeó a la puerta y posó los ojos sobre su anterior paciente por primera vez en más de dos décadas. No puedo decirte exactamente lo que hablaron—aunque los rumores ahora sugieren que están saliendo—pero menos de dos semanas después, Nadine caminó hacia la gasolinera y directamente le dio a Ed los papeles de divorcio, su liberación de los lazos matrimoniales obligatorios que hace rato él había resignado que alguna vez recibiría.”

Parafraseando a Vince Lombardi; el tiempo no lo es todo, es la única cosa.”

Andy Brennan lloró más o menos toda la ceremonia e incluso me dijeron que el Comisario Hawk tuvo alguna lágrima en sus ojos.”

La vida es lo que es, un regalo que nos es dado por un tiempo—como un libro en una biblioteca— y que eventualmente debe ser devuelto. ¿cómo debemos tratar este libro? Si pudiésemos recordar que no es nuestro para empezar—sino algo que se nos es confiado, para cuidar, estudiar y aprender—quizás podríamos cambiar la manera en que lo tratamos mientras está en nuestro poder. ¿cómo tratarías un precioso regalo de un querido amigo? Es una buena pregunta para hacerse y hoy es un buen momento para hacerla.

(…) Mi leño tiene esto para decir: las respuestas a todas nuestras preguntas están en el viento, en los árboles, en las rocas y en el agua.

(…)

Por ejemplo, no hay luz sin oscuridad—y esto preocupa a muchos de nosotros—pero sin ella, ¿de qué otra manera podríamos diferenciar una de la otra? Pasamos la mitad de cada día en la oscuridad; sin duda debemos hacer las paces con ella. Puedes decidir ver esto como una metáfora. Mucha gente lo hace. Yo lo veo como un hecho. Las metáforas son bellas maneras de hablar acerca de la verdad. También los hechos. Ambos nos dicen que el tiempo—y la luz, y la oscuridad—se mueve en círculos.

(…)

Hay fuerzas oscuras—y seres oscuros—y son reales y siempre estuvieron alrededor nuestro. Son parte del baile, como tú y yo somos; simplemente están escuchando música diferente. Esta debe ser la verdad más problemática que jamás conoceremos. Muchos de nosotros viven la mayoría de nuestras vidas y se enfrentan a esta realidad sólo raramente.”

Dejo su log a Hawk. Él lo mantiene en la repisa de su chimenea. Dice que no le ha dicho nada a él aún, pero que ‘deja un oído abierto, por las dudas’.”

De todo lo que he aprendido acerca de Twin Peaks, jefe, y todo lo que usted me ha contado, mi único lamento es no haber conocido a Margaret.”

Me pidió específicamente que averigüe por qué el Sheriff Harry Truman dejó su puesto, tal como usted lo descubrió luego de su regreso a Twin Peaks. El cariño especial del Agente Cooper hacia su amigo y antiguo colega está bien establecido, y las razones abundan. Truman era todo lo que un agente de la ley local debería ser: sensible a las necesidades de la comunidad, protector y servil de igual manera, modesto en palabra y hechos y tan sólido y confiable como el amanecer.

Posterior al caso Palmer, sin embargo, Truman estaba casi terminando de definir un trauma propio: su destructiva relación con la peligrosa sociópata Josie Packard. Creo que el incondicional apoyo que el Agente Cooper le ofreció a su amigo después de su muerte le ayudó a preservar su salud mental y quizás hasta de salvarlo de la violencia autodestructiva.”

Había vivido su vida entera en Twin Peaks, hijo del anterior sheriff, como sabrá. He estudiado su carrera completa. Aunque Harry pudo haber corrido la línea entre la vigilancia parapolicial y los límites estrictos de la ley—específicamente a través de las oficinas del “club social” local, el cual eventualmente dirigió, conocido como los Bookhouse Boys—una observación más detallada de su historia me convenció que los Boys siempre actuaron en concordancia con el espíritu del patriótico padre de Truman, fundado durante la segunda guerra mundial. En mi opinión, los Bookhouse Boys representan un contrapeso moral hacia tantos recientes y negativos ejemplos de milicias rurales.”

Harry descubrió que está severamente enfermo (Pude confirmar que es cáncer, y que todavía está viviendo y bajo tratamiento en una clínica cerca de Seattle, luchando cuesta arriba). Normalmente reservado, sin querer cargar a nadie con sus problemas, Harry mantuvo las noticias lejos de todos en la estación y en el pueblo. Su hermano mayor, Frank—quien recientemente se retiró luego de su propia larga y distinguida carrera en las fuerzas de la ley en el oeste de Washington—parece haber sido el único al que le contó acerca de su enfermedad, aunque Hawk, quien conocía a Harry mejor que nadie, se dio cuenta. Frank aceptó mudarse a Twin Peaks y tomar el trabajo por dos años para ayudar a estabilizar el departamento, entendiendo que tendría que dar un paso adelante y darle la rienda a Hawk.”

Tanto Briggs como el doble desaparecieron de la vista por los próximos veinticinco años. Aquí es cuando nuestra historia se pone dudosa y me refiero a “las leyes del espacio tiempo como las conocemos pueden no aplicar” (como sabrá, lo siguiente está basado principalmente en el testimonio recolectado de nuestros testigos principales en Buckhorn, South Dakota, del ahora fallecido director de escuela William Hastings, a quién personalmente entrevisté).”

Según el testimonio de Hastings, en algún punto durante su último año juntos, alegaron haber hecho contacto con una persona o entidad que se identificó solamente como ‘El Major’. Les dijeron eventualmente que podrían hacer contacto con este individuo entrando en alguna clase de dimensión metafísica. El Major les dijo que este encuentro ocurriría en un lugar y hora específica en cerca de una entrada no especificada a esta ‘zona’. La ubicación que les dio parece ser un abandonado terreno al lado de las vías en Buckhorn.”

¿dudamos si algo de esto sucedió? es difícil discutir cuando de una larga parte de las cosas sucedidas fuimos testigos oculares. Entonces: ¿dónde exactamente estuvo el Major Briggs ‘escondiéndose’ o ‘hibernándose’ por 25 años? Luego de fingir su propia muerte, ¿logró el escape definitivo? ¿se metió adentro de alguna clase de ‘portal’ cerca de Twin Peaks—su ubicación revelada por las ya mencionadas coordenadas—donde el tiempo pareció mantenerse quieto por 25 años mientras evadió al doble? Dado nuestro entrenamiento del Bureau—¿o debo decir sesgo [viés]?—acerca de nuestra existencia humana como ‘una realidad con base científica’, cómo es esta idea algo que podemos considerar remotamente posible? Y aún así tenemos frente a nosotros una cantidad substancial de lo que uno está obligado a conceder como evidencia—Muestra A, el cuerpo de 45 años del Major Briggs—la cual parece imposible de refutar.”

Mi pregunta para usted es: ¿éramos nosotros? ¿tenía la fuerza Blue Rose esta información? ¿eran nuestros servidores los que Hastings y Davenport hackearon? ¿un director y una biblioteca? Por el amor de dios, ¿quién era esa gente? ¿agentes encubiertos rusos? (Es un chiste, Jefe, pero la idea de que esos amateurs penetre nuestros servidores no.). Sin querer darle a ellos tanto crédito, ofreceré otro escenario: Briggs sabía acerca de la fuerza Blue Rose, así que es posible—cerca del final, cuando se dió cuenta que el doble iba a por él—¿que escondiera la información dentro de algún recorte digital donde sabría que nadie buscaría? Hemos aprendido de las fuerzas de Twin Peaks que el Major escondió una pista similar, un set local de coordenadas, para su hijo, Bobby, a plena vista de todos—oculto en su silla favorita. Creo que esto ofrece la segunda opción como la más probable: Briggs escondió la información en un lugar que no tuviese barreras inquebrantables para amateurs como esos dos pueblerinos de Buckhorn, en un lugar donde ningún profesional nunca pensaría en buscar. Distracción. (apuesto por esta interpretación, por cierto, por razones obvias.)”

Cooper encontró el camino hacia alguna especie de lugar fuera-del-tiempo o portal similar a La Zona descrita por el Major Briggs. (Por ejemplo: las antiguas pictografías en las paredes de la Owl Cave suponen representar como el acceso a dicho lugar es obtenido) El Oficial Hawk ha sido grabado citando una antigua leyenda nativoamericana para describir a este lugar particular. Su gente lo llama la Black Lodge. Voy a sugerir, por razones de conveniencia, que lo llamemos así también. (O si este término no funciona para usted tampoco, sugiero nos refiramos a esto algo como ‘el Hotel California’, en donde ‘puede hacer check-in pero nunca puede irse’, al menos no en 25 años.)

Una vez que el doble desapareció de Twin Peaks luego de su encuentro con Briggs, se desvaneció totalmente. Cada punto de alerta máxima alrededor del mundo por el Bureau falló en conseguir ningún rastro de él por el siguiente cuarto del siglo, con dos excepciones. Hubo una foto de vigilancia del doble de una operación encubierta sudamericana, la cual ciertamente parece él, aunque análisis revelan toques de manipulación digital, así que en la era del Photoshop es imposible autenticar. La segunda: Cooper aparece, más claramente, en otra foto de vigilancia de la extraña ‘operación caja de cristal’ que usted y Albert investigaron en Manhattan. Conectar esos puntos distantes arrojan la siguiente conclusión, la cual, gracias a un cargamento de investigaciones y esfuerzos forenses a través de una multitud de disciplinas, ahora puedo fundamentar: basado en esas conclusiones, durante sus veinticinco años en la fuga, el doble parece haber establecido y administrado un grupo criminal internacional comparable con cualquier cartel o familia criminal en la memoria reciente. Esta organización parece haber insertado sus tentáculos en cada vehículo conocido para el vicio: juego, drogas, cibercrimen, tráfico de personas, prostitución, sicarios, operaciones bancarias ilegales, manipulación de mercado, extorsión, chantaje, fraude de seguro.”

Aunque el doble pareció de alguna manera viajar libremente a través del mundo—estableciendo residencias y negocios en una docena de lugares, entre ellos Las Vegas, Berlín, Amsterdam, Buenos Aires, la isla de Chipre e Estambul—no parece haber acumulado todos estos recursos para las usuales, más o menos banales salidas criminales que estamos acostumbrados a ver: codicia, lujuria, materialismo, poder, etc. En cambio parece haber empleado su creciente fortuna en lo que yo sugeriría llamar ‘investigación’. El doble estaba atrás de algo. Cazando algo, y quizás más de una cosa. Esto es lo que sabemos: Desesperadamente quería esas coordenadas de Briggs. Lo persiguió durante un cuarto de siglo, incluso luego del descubrimiento público oficial que el Major murió en un choque de auto, nunca cedió. Si Briggs alguna vez salió de su escondite—de la manera que sea ‘el espacio’ en el que estaba escondiéndose—antes de su aparición en Buckhorn, no sabemos. Pero es claro que la segunda vez que el Major salió para encontrarse con Hastings y Davenport, el doble estaba esperando por él. Mató a Briggs, Davenport, Hastings y cualquiera que se haya puesto en su camino, se apoderó de las coordenadas y se dirigió a su ubicación, más o menos directamente, mediante la prisión de South Dakota y nuestro informante confidencial FBI/Blue Rose, Ray Monroe. (A falta de más información de Monroe—también asesinado por el doble—es claro que el doble se tomó toda la molestia de caer en prisión para luego salir con Monroe porque el susodicho tenía cierta información que el doble quería. Volveré a esto pronto.).”

Alguna clase de entidad que se movía, así como Briggs, libre de las limitaciones del tiempo y del espacio como solíamos entenderlo. Algo monstruoso y asesino apareció en esa caja y mató a esos dos chicos que tuvieron la horrible mala suerte de estar allí cuando apareció.”

¿era este portal único en su clase? ¿o era una de las tantas entradas, como una estación de subte hacia alguna clase de misteriosa red que podía ser accedida desde varios lugares? Parece probable. Pienso esto: ¿qué tal si el doble estaba buscando la ubicación más importante en este supuesto sistema, una estación central, si le quiere decir, del otro lado?

Pregunta final, y es una a la que todas las otras llevan: ¿qué quería el doble, si alguna vez lograba ir a ese lugar? ¿detrás de qué estaba? ¿alguna clase de poder incluso superior que el que ya parecía poseer? (¿qué podía ser eso? ¿inmortalidad?) Digo, no creo que esté tratando de llegar hasta ahí para presentar una queja o un caso con quien sea que esté a cargo, ¿no?”

La leyenda del morador dice que cuando una persona en el camino espiritual conscientemente se aproxima a un lugar o estado de iluminación del alma, en el exacto momento en el que están por sumirse completamente—como si estuviesen ‘en el umbral’—este morador supuestamente aparece y debe ser enfrentado y vencido para que esa persona pueda pasar. Como con la mayoría de la mitología, mi presunción había sido que esta figura es alegórica, una metáfora para la lucha que tiene lugar en el ámbito del o intrapersonal y psicológico. No un concepto literal.

Pero ahora debo preguntar: es esto, literalmente, ¿lo que el doble de Cooper era? Albert y yo hemos hablado de esto antes como un tulpa. Un tulpa—como la Diane falsa—es un concepto originalmente tibetano, que resulta, no significa ‘doble’ o ‘doppelgänger’ sino más una entidad

creada o invocada por un mago oscuro o brujo, a través de la práctica de antiguas y corruptas formas de magia esotérica: necromancia, demonios, adoración al diablo.”

mientras estaba en custodia, poco antes de su muerte, Leland Palmer aseguró estar poseído por una entidad demoníaca llamada BOB, y atribuyó sus acciones a la maligna influencia de toda la vida sobre él. He repasado toda la evidencia y los testimonios contemporáneos. Son espeluznantes, al punto que —habiendo Leland sobrevivido— uno se pregunta si un exorcismo hubiese sido más eficaz que un juicio criminal. Lo que me lleva a esta posibilidad: ¿podía haber estado el doble poseído de manera similar? Me doy cuenta que no podemos arreglar este debate con certeza absoluta, incluso ni una fracción de ello, pero también creo que vale la pena preguntarnos si todos estos conceptos caben juntos—sean condenadas la lógica y el método—y apuntar a algo más tan lejos de nuestra percepción que nunca comenzaremos a comprender si no

agrandamos tremendamente nuestro cuadro de referencia.”


“Vimos lo que pasó en la estación de sheriff. Había cerca de 20 testigos, incluyéndonos a usted, a mí y a Albert. Todos coincidimos que vimos la misma cosa. Al momento de su muerte, algo pareció salir por encima del doble y desaparecer: algo que no era Cooper. Y ahora sabemos que tan pronto como Cooper apareció para ‘vencer’ esto… lo que sea que fuese… inmediatamente apareció en la ubicación de las coordenadas que su doble estaba buscando desde el principio y después de eso no ha sido visto. Y su antigua asistente, la Diane verdadera—que apareció de la nada en una celda un piso abajo no mucho antes que esto suceda—desapareció junto a él.”

¿están haciendo como si nada estas criaturas duplicadas en una Kinko’s de la realidad alternativa como si los hiciesen con una impresora 3D lovecraftiana? Perdone mi francés un segundo, jefe, pero ¿qué carajos?

Usted me describió lo que pasó cuando usted se fue con Cooper: las luces se fueron en la estación de sheriff (estaba ahí hasta esa parte). Se encontró, de algún modo, en el sótano del Great Northern Hotel con Cooper. Algo entonces ‘se abrió’ en el cuarto de calderas en el sótano del Great Northern, lo cual usted describió como un ‘pasillo infinito’. Intercambiaron palabras de despedida. Cooper entró allí. Este pasillo, poco después, fue cerrado. Cooper desapareció. Y usted volvió a, hasta donde pudo determinar, una sala de calderas común.”

Estoy hablando, centralmente, de un hombre que nunca conocí, un célebre veterano del Bureau, su antiguo compañero de clases y colega, el hombre que usted llamó la ‘inspiración conductora’ de la fuerza especial Blue Rose.”

La diferencia: el 16 de febrero, luego de pasar seis meses completamente fuera del radar del Bureau, Phillip Jeffries apareció, sin aviso, en nuestras oficinas de Filadelfia. Estaba usando un traje de lino blanco más apropiado para un clima tropical—estábamos en la mitad de un invierno particularmente cruel en Filadelfia, pero era verano en Argentina. Cooper describió a Jeffries como ‘perturbado y desorientado’.”

¿cómo hizo Phillip Jeffries para lograr estar, o así parece, en dos lugares miles de millas y un continente de distancia el mismo día a la misma hora? ¿por qué estaba tan consternado al saber qué año era? ¿por qué haría una pregunta como esa en el primer lugar?”

Este mundo no era suficiente para él. Usted mismo lo escribió. Conocía al hombre mejor que nadie y usted y él fundaron la fuerza Blue Rose juntos. Usted me confirmó que Jeffries estaba profunda y abiertamente interesado en una variedad de temas esotéricos incluyendo cosas que uno podría haber sacado de las páginas más locas de ciencia ficción.”

Lo que fuí a buscar fue el momento en el que Phillip Jeffries dejó de investigar esas cosas para comenzar a vivirlas. La conclusión que saqué es la siguiente: sucedió en Buenos Aires. Localicé los pocos restos de información que dejó allí y algo en particular se destaca. Aunque fue a Argentina en 1986 para investigar lo que parecía ser una organización criminal internacional, rápidamente se centró en un aspecto del caso que creo hemos malentendido todos estos años. En su primer mes, Jeffries identificó a un sombrío sospechoso, alguien quien creyó podía ser la persona central a cargo de esta operación entera. Todo lo que tenía, en principio, era un nombre que mencionó ese mismo día en su oficina: JUDY.”

Al lado del teléfono. Como si hubiese escuchado algo en una llamada y necesitase escribirlo ahí mismo en la pared. No con una lapicera o lápiz, sino con un cuchillo. ¿por qué alguien haría eso? ¿por qué esta información lo molestaba? ¿por qué lo afectó de tal manera que solo un arma podía expresar la profundidad e intensidad de lo que sea que estaba sintiendo en ese momento? Joudy. Entonces, ¿quién era esta persona y por qué solo un nombre tendría ese tipo de impacto en Phillip Jeffries? Sabemos que, previamente, pensó que el nombre de la sombría figura que estaba persiguiendo era Judy. Aparentemente ahora tenía nueva información. Una vocal extra. Una pronunciación ligeramente alterada. Pero, ¿qué más le dijo a él este cambio?”

Joudy, resulta, es también el nombre de una antigua entidad en la mitología Sumeria. (esto se remonta a, al menos, 3000 A.C.) El nombre fue usado para describir a una especie de demonio errante—también conocido genéricamente como utukku—que había ‘escapado del inframundo’ y merodeaba libremente por la tierra, donde se alimentaba de carne humana y, supuestamente, arrancaba las almas de sus víctimas, lo que proveía un alimento incluso mucho más significante. Particularmente crecían mientras se alimentaban—y cito—‘de sufrimiento humano’. Esas criaturas se decía aparecían en formas masculinas y femeninas—Joudy indicaba el femenino, y el masculino era conocido como Ba’al—y, mientras eran considerados menos que peligrosos individualmente, si un hombre y una mujer alguna vez se unían en la tierra, afirmaban los textos antiguos, su ‘unión’ resultante crearía algo más que arriesgado. Algo como: el fin del mundo como lo conocemos. Algunos siglos después, Ba’al se hace más conocido, tanto en fuentes Cristianos e Islámicos, como Belcebú, un dios falso, o como es más conocido genéricamente hoy por hoy, el diablo.”

En un confuso mensaje a la agencia, Monroe alegaba que él reportaba directamente a alguien dentro de la fuerza Blue Rose, pero nunca especificó con quién. (Si fue usted, Jefe, creo que nos habría contado, ¿no?). Luego que el doble lograse entrar y salir en esa prisión de South Dakota—llevándose a Monroe con él—sabemos que en algún punto antes de morir, Monroe hizo una llamada en un teléfono descartable encontrado en Montana, donde también encontramos el cuerpo de Monroe. Basado en datos recuperados de ese teléfono, parece que Ray

Monroe creyó que había sido originalmente, y había trabajado todo este tiempo para… Phillip Jeffries.” “Llevaré esto un paso más: creo que no solo es posible, sino probable, que el doble se haya tomado todo el trabajo de reclutar a Ray Monroe porque tenía razones para creer que Monroe podía decirle dónde encontrar a Phillip Jeffries.” “¿por qué el doble quería encontrar a Jeffries? ¿qué confiaba aprender de él?”

Por donde se lo mire, el comportamiento de Jeffries en 1989 era jodidamente particular. Estaba shockeado de saber qué año era. Dijo lo que dijo acerca de ‘Joudy’. También supuestamente levantaba un dedo acusatorio hacia Cooper y, en pánico y asustado, gritaba algo como: ‘¿quién creen que es este aquí?’. Luego desapareció—aunque nuevamente, el término esotérico apropiado sería algo como ‘des-apparate’, siendo apparate la raíz latina para ‘aparición’—no solo enfrente de sus ojos, sino también en la cinta de seguridad.”

¿qué tal si Jeffries, no como el Major Briggs un par de años después, consiguió acceso al mismo sistema de ‘portales’, hoyos en el espacio dimensional que le permitían desaparecer y reaparecer, en lugares lejos geográficamente, más o menos a gusto? Lo llevaré un paso más allá,

Jefe: ¿qué tal si esos mismos portales le permitían mantenerse sin las ataduras del tiempo? ¿no explicaría eso por qué Briggs no envejeció ni un día en sus veinticinco años? ¿podría explicar también como Ray Monroe creyó que estaba recibiendo instrucciones de Jeffries?”

Luego que Monroe muriese, nuestros investigadores encontraron una caja de cerilla en su bolsillo, de un motel de carretera llamado The Dutchman’s Lodge, en la zona rural del oeste de Montana.”

es un lugar vacío al costado de una vieja autopista estatal. Fuí hacia atrás y chequé registros históricos del área y descubrí que había un motel en esa ubicación a principio de los años 30. Fue construido, poseído y operado por un nombre llamado Horace ‘the Dutchman’ Vandersant y es conocido no solo como ‘una puerta hacia el paraíso de los deportistas’ sino un rumor de la mafia decía que John Dillinger una vez estuvo ahí una semana .”

Hay un vacío de dos días de lo que sabemos de los movimientos del doble entre que mató a Monroe y que apareció en Twin Peaks: es posible que, luego de matar a Monroe, ¿el doble haya ido a este Dutchman’s buscando a Phillip Jeffries? (que quede constancia que la ubicación del lugar quedaba entre Missoula y Twin Peaks) ¿qué podría haber aprendido el doble allí? ¿fue Jeffries el que le dijo algo de las coordenadas que le dieron que lo hicieron ir a Twin Peaks? Déjeme explicar por qué creo que esto es posible.”

Aquí es donde todo se pone más que raro, Jefe. Tan pronto como el humo se esfumó luego del tiroteo en la oficina del Sheriff Truman, con el doble desapareciendo y algo negro y espectral flotando de su cuerpo al techo—ni me haga empezar con esa pelota y el chico británico con el guante verde—las luces se fueron y usted y Cooper, aparentemente, ‘aparecieron’ en el sótano del Great Northern. Luego de un breve intercambio, Cooper desaparece en la oscuridad en un largo pasillo que realmente no está ahí, las luces vuelven y usted queda parado con los hermanos Horne en una sala de calderas.

Y, por segunda vez en veinticinco años, el agente especial Dale Cooper desaparece de la vista y también el mundo como pensábamos que lo conocíamos.

Para cuando que usted volvió a la estación de sheriff, Diane Evans (…) que había sido por más de veinte testigos saliendo de una celda en el sótano sólo dos minutos antes que estallara el caos en la oficina de Truman, había ahora también, sin nadie que se dé cuenta en la habitación—incluyendo una servidora—desaparecido sin dejar rastro.

Entonces, cuando usted voló a Filadelfia más tarde ese día y me dejó para cubrir el caos de lo que pasó en Twin Peaks—mi primera visita; un lugar encantador, como siempre me dijo, pero para ser honesta, Jefe, soy una chica de ciudad grande y siempre lo seré—y para fregar, cito a Albert, este ‘gigantesco caos multidimensional’, decidí husmear un poco.

Esto pasó hoy, Jefe, un par de horas atrás. Recién sucedido. Más temprano esta mañana, mientras hojeaba las ediciones pasadas del Twin Peaks Post—excelente periódico de pueblo pequeño, convenientemente preservado en microficha—para más diversión, fuí a buscar la ocasión de la primer desaparición de Cooper de Twin Peaks.”

El Agente Cooper había venido al pueblo un par de meses antes, para ayudar en la investigación de la desaparición, todavía sin resolver, de la adolescente local reina de la belleza, Laura Palmer.”

Déjeme repetirle esa frase: ‘todavía sin resolver’. Sin mención de ‘asesinato’, ‘envuelta en plástico’, o ‘padre arrestado por impactante crimen eventualmente muere en custodia policial por heridas autoinflingidas’.”

Laura Palmer no murió. Entonces, para ciertamente saber que no he perdido mi propia mente, fuí y chequee los registros policiales correspondientes. Me dicen esto: Laura Palmer desapareció de Twin Peaks sin rastro—en la misma noche cuando, en el mundo que creíamos conocer, se solía decir que había muerto—pero la policía nunca encontró a la chica o, si fue asesinada en cualquier otro lado, su cuerpo, o hizo un algún arresto.”

Y cuando hablé con nuestros buenos amigos en la oficina del sheriff, todos quedaron algo confundidos y con expresiones confusas en sus caras cuando saqué el tema, como si se hubieran perdido en la niebla, teniendo problemas para recordar y siéndoles imposible traer a sus mentes algo que pasó hace tanto tiempo.”

La desaparición de su hija dominó las noticias locales por semanas. La misma serie de sospechosos fueron identificados e interrogados—Jacques Renault, Leo Johnson, Bobby Briggs, James Hurley—así como ellos entre los que se encontraban los últimos que la vieron. El día siguiente, Ronette Pulaski—la chica que fue raptada y casi asesinada junto a Laura—escapó y terminó en el hospital luego de ser encontrada dando vueltas junto al puente del tren, igual que ‘antes’.

Pero también declaró que Laura había estado dando vueltas en el bosque antes que Leo y Jacques entren al vagón.

Laura nunca estuvo allí.”

(Ni bien regrese a la oficina, intentaré mirar en cualquiera de los archivos o cintas de Cooper que todavía tenemos en nuestra posesión para apoyar esta versión alterna de los eventos.)”

El año siguiente, el 24 de febrero de 1990—el primer aniversario de su ‘desaparición’—Leland Palmer se suicidó. Solo, con un arma registrada, en su auto, estacionado cerca de la cascada del gran hotel. La efusión usual de shock, dolor e historias de ‘nunca lo vimos venir’ aparecieron en la prensa local.”

Decidí mirar la historia de la madre, siendo ella la única familiar de Laura viva ahora, apenas había otro lugar adonde mirar.

Sarah Judith Novack Palmer.

Busqué todo hasta su infancia en New Mexico, donde la familia se mudó—meses luego de su nacimiento en Bellevue, Washington—en el verano de 1943. Su padre era un empleado del Departamento de Defensa que había sido transferido para trabajar en un subcontratista pequeño en el Proyecto Manhattan. La familia vivió fuera de Los Álamos, en un nuevo suburbio construido en el límite del desierto específicamente para trabadores involucrados en el programa. Nada acerca de su familia durante ese tiempo se destaca, excepto que cuente la primera prueba nuclear exitosa—código ‘Trinity’—la cual tuvo lugar en White Sands, New Mexico, el 16 de julio de 1945. Sabe el resto de esa historia: Menos de un mes después, bombas atómicas fueron lanzadas en Hiroshima y Nagasaki y la guerra con Japón finalizó.”

Dos empleados—una recepcionista y un DJ nocturno—fueron encontrados muertos dentro del edificio, sus cráneos destrozados de una manera particularmente espantosa lo que los forenses llamaron ‘traumatismo contundente extremo’.”

O ovo de Judy demorou 13 anos para chocar.

Los detalles son escasos—estaba oscuro, en una noche sin luna—pero suenan como indigentes o, como un testigo los llamó, ‘vagabundos’.”

En ese punto más de una persona reportó escuchar ‘sonidos de palabras eléctricas o mecánicas’ provenientes de sus radios los próximos seis minutos. Durante este período, muchos residentes locales reportaron disturbios con sus mascotas o ganado. Otro número de personas—aunque solo algunos nombres fueron señalados en el reporte—alegaron que miembros de su familia se desmayaron cuando escucharon estas transmisiones.”

La vida de Sarah continuó en paz. Fue a la universidad en el estado de Washington, donde conoció el hombre que sería su esposo y más tarde dio a luz a su única hija, Laura. Luego de la desaparición de Laura, Sarah experimentó ataques de severa depresión y fue tratada por eso, como se reportó previamente. Desde entonces—al menos en la versión donde su esposo comete suicidio—según registros médicos peleó al alcoholismo, adicción a las drogas prescriptas y aislamiento social.

Oh, y el año pasado, justo por la época que Cooper desapareció de nuevo, fue mencionada e interrogada como testigo en una misteriosa y horrible muerte en un bar de mala muerte en Twin Peaks, donde un hombre en la barra cerca de ella murió con la mayoría de su cuello faltante.”

Jefe, me alegro haber escrito todo esto rápidamente, porque mis propios pensamientos acerca de cada uno de estos eventos se vuelven borrosos y más indistintos cuanto más me quedo aquí, metiéndose en mi mente como una niebla. Puedo sentir una especie de lasitud mental avanzado físicamente hacia mí. Algo está mal; no sé si soy yo o el lugar, no sé y no me importa más. Necesito poner el freno de mano, ahora mismo, y salir de aquí.”

E incluso mientras nos ‘maravillamos’ de lo que hacemos aquí, también sentimos miedo—tan profundamente debajo de la superficie de nuestras vidas que pocos pueden soportar mirar a él—que la vida es una broma sin sentido, un extravagante ejercicio de morbosidad, una historia de pena y sufrimiento encendida por destellos y hecha soportable solo por momentos de compañerismo y alegría insostenible.”

Mire todo lo que pasó aquí. Un pueblo. El lugar común, familiar, ordinario—todo lo que creemos conocemos, hasta que sentimos la profunda e incómoda extrañez informándonos todo. Qué fácil es retirarnos, abandonar, bajar nuestros ojos. Mire lo que pasa con cualquiera aquí que pierde la pelea, muchas de estas historias que ambos conocemos bien. De qué manera imprudente y estúpida tiramos esta única chance que tenemos, simplemente la desperdiciamos, tiramos esta moneda al desagüe, de miles de maneras diferentes. Tenemos la moneda en nuestras manos todo este tiempo y ni siquiera la podemos ver.

Lo que he aprendido de este lugar y de esta gente me aterroriza, debo admitir. Cuánto de lo que sé, de lo que me he adaptado culturalmente a creer, siento como el papel en una extraña obra hacia la que deambulo sin saber por qué estoy aquí. No conozco mis líneas, no conozco qué parte estoy representando, ni siquiera sé de qué trata la obra o cómo se llama. Simplemente estoy aquí, en el escenario, atrapada en un sueño, con las luces brillando en mis ojos. ¿hay alguien más allá mirando?”

Jefe, esto me cambió. Usted predijo esto y debería haber sabido que tenía razón, pero no uno no puede saber hasta que sucede. Es porque usted ya pasó por esto, creo. ¿alguna vez se termina este sentimiento? ¿puede decirme que usted pasó al otro lado con alguna clase de conocimiento?”

A MÚSICA PROFANA NOS SÉCULOS XII E XIII – Capítulo 5 de “História da música ocidental”, de Brigitte, Massin & al.

Até por volta de 1250, a música profana é, toda ela, canto. Por outro lado, não há poesia que não esteja associada a uma melodia (…) tal como na liturgia” “Música instrumental que independa do canto é inexistente. Só os poderes da palavra contam. Instrumento natural criado por Deus, a voz é considerada superior aos instrumentos feitos pela mão do homem”

Daí se conclui que o canto profano não resultou de um vago sonho de retorno à Antiguidade, análogo ao que alimentarão os autores do Renascimento, mas de uma extensão, de uma expansão, à língua vulgar, da ética e da função do canto no interior da Igreja.”

Os verbos trobar (troubadour, trovador) e trouver (trouvère, troveiro) vêm de Tropare e significam inventar, compor tropos.” “O amor, o louvor à mulher constituem, de fato, a substância essencial do canto, a motivação mais freqüente da escrita.”

Os trovadores (troubadours) são originários do sul do Loire, das regiões de Langue d’oc: Auvergne, Limousin, Périgord, Bordeaux, Toulouse e, do outro lado do Ródano, Marselha e a Provença. Começam a compor por volta dos anos 1100, antecipando os troveiros (trouvères) em mais de meio século. Em sua maioria, são cavaleiros oriundos da alta, da média e da pequena nobreza.

O mais antigo dos trovadores é Guillaume, sétimo conde Poitiers, nono duque da Aquitânia, amante da dama Maubergeonne, de cuja filha nascerá Eleonora de Aquitânia. [ver abaixo]”

« Ferai un vers de dreyt rien  »

Farei um verso sobre nada

Sem falar no número mais reduzido de trobairitz (em francês troubadouresses, ‘trovadoras’) com seus nomes por vezes esplendorosos, como, p.ex.: a condessa de Dié, a mais famosa, mas também Tibor, irmã de Raimbaut d’Orange, Azalais de Porcairages, Maria de Ventadour, Alamanda, Garsenda de Forcalquier, Clara d’Anduze, etc.”

Mas é preciso entender que são os próprios senhores que fundam a arte destinada a tornar-se o espelho de sua classe: ainda não confiam às penas alheias o encargo de cantar por eles.” Ou ainda conseguem criar, pois não chegamos à decadência burguesa, que já é pedir demais se sabe meramente consumir…

Esses poucos decênios são sem dúvida os únicos momentos da história ocidental em que a elite no poder confunde-se com a elite artística.”

Mais de uma vez afirmou-se que o amor era uma invenção do séc. XII. Essa fórmula expeditiva, criada pelo historiador Seignobos, significa, na verdade, que, com os trovadores, nasceu uma nova relação para com a mulher amada, o fin’amor.” A primeira ética de corno.

mística profana paralela ao amor sagrado”

Como se fosse uma divindade, a mulher torna-se objeto de adoração, de preces, nesse lugar de culto que é o espaço do poema, da cantiga.”

« Semblable à Perceval

Qui au temps où il vivait

Subit une telle fascination

Qu’il ne sut demander

A quoi servaient

la lance, le Graal,

je demeure interdit,

Mieux-que-Dame, à la vue de votre beauté. »

Rigaut de Barbezieux

Com efeito, a soberana do coração do trovador era também, na realidade, superior a ele em termos hierárquicos, já que frequentemente ele celebrava em seus versos a mulher de seu senhor”

« Lanquem li jorn son lonc em mai

M’es bèlhs dous chans d’auzèlhs de lonh,

E quan me sui partitiz de lai

Remembra’m d’un’amor de lonh.

Vau de talen embroncs e clis

Si que chans ni flors d’albespis

No’m platz plus que l’iverns gelatz. »

Quando os dias são longos em maio / É doce ouvir o canto dos pássaros ao longe / E quando de lá parti / Ficou-me na lembrança o amor à distância. / Sigo pensativo, triste, de cabeça baixa / E nem cantos nem flores de espinheiro / Me agradam mais que o inverno gelado.”

A Vida – biografia romanceada de Jaufré Rudel – pretende que ele se tenha apaixonado pela princesa de Trípoli simplesmente à vista de um retrato dela: teria feito a viagem para ir ao seu encontro, morrendo nos braços dela ao chegar.”

a Cansó ou cantiga de amor, a mais utilizada pelos trovadores”

Essa teoria da adequação, que encontramos já exposta em Cícero e que será desenvolvida pelas retóricas medievais, Dante a retomará no De vulgari eloquentia a propósito da Cansó, que ele considera a forma perfeita”

Das coisas feitas pela arte, a mais nobre é aquela que envolve a arte por inteiro; ora, uma vez que o que se canta em versos é sem dúvida obra de arte, e a arte só está envolvida por inteiro na canção, a canção é o mais nobre dos poemas, e sua figura é assim mais nobre do que qualquer outra.” D.

A canção popular era a arte total do período.

Do ponto de vista da forma, a Cansó não se desenrola de maneira linear: compõe-se, o mais das vezes, de uma sequência de 5 a 7 estrofes, de 8 a 10 versos cada, que, nos manuscritos, inscrevem-se nas dimensões do quadrado ou do retângulo ideal. A notação da melodia faz-se acima das palavras da 1ª estrofe e deve ser retomada para cada uma das estrofes seguintes. É a estrofe que constitui, portanto, a unidade.”

Languam lo dous temps s’esclaire

Et la novéla flora s’espan,

Et aug als auzèls retrain

Per los brondels lo dousset chan.”

Bernard Marti

O Sirventès, da mesma forma que a Cansó, trata de maneira satírica a atualidade política (Bertrand de Born), a moral (sátira do clero, do papado), a crítica literária (Pierre Rogier, o monge de Montaudon), ou lança invectivas de caráter pessoal, às vezes de grande baixeza, a senhoras rivais. O Planh (pranto), que segue a forma da Cansó, é um canto de deploração, de melodia grave e queixosa, sobre a morte de um amigo ou da dama amada, inspirado tanto na deploração dos antigos como no Planctus em língua latina. A Salut d’amour (Saudação de amor) é uma epístola amorosa em versos octossilábicos, de rimas emparelhadas, em forma de saudação.”

No que concerne às melodias, é de se lamentar que subsistam apenas 350, ao passo que 3500 poemas chegaram até nós. Muitas dessas melodias precisariam ainda ser transcritas em notação moderna”

A música gregoriana dá o substrato das composições dos trovadores, que utilizam os modos eclesiásticos, com preferência pelos modos de e de sol, revelando porém uma tendência para a polimodalidade que torna delicada a busca do modo principal. O ambitus é mais extenso do que no canto gregoriano, chegando por vezes a intervalos de 12ª.”

Nos anos 1180 apareceram na França setentrional e na língua d’oil, ancestral do moderno francês, as cantigas dos primeiros troveiros. Não há como conceber essas peças líricas fora do contexto das cantigas dos trovadores.” “É preciso levar em conta, sem dúvida, o mecenato, o mais brilhante dos quais foi o de Alienor (ou Eleonora) de Aquitânia, a neta do primeiro trovador, Guillaume IX. O mecenato dessa princesa aquinhoou, de início, a côrte de Poitiers, mas se exerceu ainda com mais largueza depois do casamento de Alienor, em 1152, com Henrique, duque da Normandia e futuro rei Henrique II da Inglaterra. As filhas que ela teve de seu 1º casamento com Luís VII, rei de França, Aelis de Blois e Marie de Champagne, tomaram a seu cargo a proteção dos trouvères em suas respectivas côrtes.”

é forçoso incluir, para a 1ª geração, os nomes de: Blondel de Nesle, nascido por volta de 1155, de origem picarda e que, se for verdade a lenda, teria cantado uma canção de Ricardo Coração de Leão, filho de Alienor, diante da prisão onde Ricardo era mantido cativo; Guillaume de Ferrières, vidama de Chartres, [?] cuja carreira se situa nos anos 1180; Gauthier de Dargies, cujo canto, amplo e grave, é de grande perfeição formal [como sabem?], e seu amigo Gace Brulé (ca. 1160-1213), cavaleiro da Champagne, originário de Nanteuil-les-Meaux, perfeito amante cortês, no dizer de seus contemporâneos, e cujas composições atingiram um tal refinamento, uma tal harmonia, que dele fazem não somente o maior dos troveiros – os compiladores da época não se enganaram a respeito, nem o próprio Dante, que o celebra –, mas um dos melhores poetas líricos da língua francesa. Não esqueçamos o irônico e divertido Conon de Béthume que, como cruzado, esteve presente ao cerco de Constantinopla em 1204.” Guerreiros na acepção da palavra.

Em fins do séc. XII e princípios do XIII surgem Richard de Semilli, de versos variados e, sobretudo, Regnault Coucy, mais conhecido como Châtelain de Coucy (‘Castelão de Coucy’), que, antes de partir para a cruzada de que não deveria retornar, escreveu uma bela cantiga de despedida à sua dama e é o autor de versos sempre marcados por uma doce melancolia.

Finalmente (…) Thibaut de Champagne, conde de Champagne e de Brie, depois rei de Navarra, neto de Marie de Champagne, o qual alguns pesquisadores precipitados quiseram fazer passar como apaixonado por Branca de Castela, mãe do rei São Luís.”

Chanter m’estuet, preciso cantar; é assim que muitas vezes começa a cantiga dos troveiros.”

diferentemente daquele que se apodera de Tristão e Isolda, como o escreveu Chrétien de Troyes numa de suas canções, pretende [o ethos do fin’amor] ser um amor de escolha. Em seu De amore, André le Chapelain, clérigo ligado à côrte de Marie de Champagne, fixa os seus 20 preceitos e evoca os julgamentos de amor que teriam ocorrido nas diferentes côrtes. Fictícios, provavelmente, tais julgamentos, ou cours d’amour, eles revelam o aspecto social e codificado do amor cortês. Mas isso não exclui a paixão, a violência dos sentimentos. Na França setentrional, a joie (júbilo) dos trovadores do sul, o êxtase luminoso para o qual estes tendem, cede, por vezes, à expressão de um sofrimento intenso que, como doença, arrasta o amante para uma morte lenta e voluntária.” Máquina de tortura eclesiástica.

A tomada de consciência do paradoxo dessa escolha é muito mais viva entre os troveiros do que entre seus predecessores meridionais, com o pensamento dos clérigos a fazer sentir todo o seu peso sobre uma sociedade laica que pretende disciplinar e dominar. Assim se explica o aparecimento de atitudes frequentemente masoquistas, expressão do desejo de uma morte sacrificial”

Com esses poetas-músicos, a Cansó toma o nome de Grant Chant. Cantiga de amor absoluto (…) Incapaz de sequer enfrentar o olhar da amada, de lhe falar [N-Naruto-kun…], sem escapatória entre uma lembrança obsessiva e um futuro em que não há esperança, o troveiro, para libertar-se, só acredita nos poderes da escrita e do canto.” “a tal ponto que cantar e amar tornam-se sinônimos” “as curvas do canto, a desenvoltura dos melismas permitindo às vozes trocar as carícias a que os corpos se recusam.” Não havia duplas homem-mulher performáticas? A Bela e a Fera antes do brega e sertanojo…

Mais próximos da herança celta que os trovadores, os troveiros praticaram antes deles, e com maior frequência, um outro gênero erudito que tinha por tema o amor cortês: o lai. Não se deve confundir esses lais líricos com os lais narrativos, tais como os de Marie de France – que são novelas curtas versificadas sem qualquer ligação com a música.

A palavra lai vem, sem dúvida, do celta loid, que significa o canto do pássaro. (…) Umas 30 peças chegaram até nós vindas da França setentrional (do sul, há perto de uma dezena). (…) as estrofes, em número indeterminado, são sempre heterométricas, cada uma diferindo das outras não só por sua estrutura métrica como por sua melodia. Será preciso aguardar o surgimento de Guillaume de Machaut para ver fixar-se o lai como uma forma de 12 estrofes, com a última repetindo as rimas e a melodia da primeira. A alternância frequente de versos longos e de versos muito curtos dá às estrofes dos lais um aspecto serpentino, um desenho em arabescos que as aproxima das estampies poéticas e mostra certo parentesco com as curvas da escultura gótica.”

Existem também lais que, por comodidade, são ditos lais arturianos: sequência de quadras monorrimas inseridas nos romances em prosa do séc. XIII, em especial no Roman de Tristan (Romance de Tristão). Essas cantigas são postas na boca das personagens como se elas mesmas as houvessem composto. Lai de plour [choro], Lai mortel d’Yseut (Lai da morte de Isolda), um dos mais belos (le soleil luit et clair et beau…) »

« cantigas para a Virgem » O auge da pau-molência!

Afirmam os troveiros com vigor, nessas cantigas, sua disposição de arrancar-se à dama para partir em alto-mar, rumo aos lugares santos, com o fito de libertá-los dos pagãos e de não servir mais que a Jesus Cristo, seu único Senhor, prontos a morrer por Ele, abandonando – como havia pedido São Bernardo e como fazem os cavaleiros do Santo Graal – a cavalaria terrestre pela cavalaria celestial, que põe as armas a serviço de Deus. (…) Não se pode negar que a invenção melódica funciona como um suporte muito apagado para essa grande poesia.

Paralelamente a esses cantos de estilo elevado, que pertencem ao que hoje chamamos – e isso, depois dos trabalhos de Pierre Bec – de registro ‘aristocratizante’, os troveiros, bem mais que os trovadores, compõem peças mais leves, mais variadas, mais fáceis de escrever, executar e ouvir, e que, para fins de maior clareza, designam-se como pertences ao registro dito ‘popularizante’.” Os SELL-OUT da música pré-clássica!

mas o difícil é apreciar a amplitude dessa contribuição e como se deu a passagem de uma tradição puramente oral a uma tradição erudita, das duas a única que foi transmitida por escrito.”

O gênero lírico-narrativo que inaugurou a tradição mais duradoura é certamente o da pastorela [daqui em diante vou digitar pastoral por questões estéticas, urgh!]. (…) refrão frequentemente onomatopaico: Chiberala, chibele… Dorenlot… L’autre jour, je chevauchoie…, diz o cavaleiro que encontra uma pastora e decide seduzi-la.” E podia?????!?

Todas as variantes são possíveis, desde o estupro até o abandono enternecido da pastora, que então parte para ir ao encontro de seu Robin. Gênero sem exigências, de fácil retenção” “Trata-se de uma pastoral dramática com personagens, em que um cavaleiro tenta em vão seduzir a pastora Marion, defendida por seu namorado Robin e por outros pastores, que, após o incidente, comem e se divertem.”

pastorais dentro de pastorais, como se fazem filmes dentro do filme, romance dentro do romance”

Se, no domínio literário, a pastorela [tive que voltar…] evolui para a tradição das pastorais dos sécs. XVII e XVII” [Agora sim a evidência de que se tratam de duas coisas distintas e não de português enfatuado!]

chansons de mal mariées (cantigas de mal-casadas)”

Também conhecidas como chansons d’histoire (cantigas de história), as chansons de toile pertencem, igualmente, ao gênero lírico-narrativo e a um conjunto denominado chansons de femmes (cantigas de mulheres), que inclui as chansons d’amis, as chansons de mal mariées, etc., cuja tipologia reproduz-se tanto nos refrões da época românica como nos muwashshahas hispano-árabes do séc. XI. Um certo aroma de arcaísmo paira em torno delas, e é bem difícil datá-las. Subsistiram até hoje cerca de 20, mas dessas apenas 4 têm uma melodia. 7 figuram inseridas em romances – no Roman de la rose, de Jean Renart, no Roman de la violette, de Gerbert de Montreuil –, as outras (inclusive as assinadas por Audefroi le Bastard) constam de coletâneas do séc. XIII.

Compõe-se tais cantigas de uma sequência de estrofes em que os versos se ligam por assonância ou são rimados, cada estrofe seguida de um refrão. Abre-se o 1º verso com a alusão a alguma mulher Belle Aiglantine, Belle Aye, Belle Doette, Belle Erembourg – de cujos padecimentos trata a canção. Suportando o mais das vezes uma mãe autoritária, essa mulher chora o abandono por um amigo, uma gravidez mal-disfarçada, a morte do bem-amado.”

Não se sabe, porém suspeita-se que essas cantigas “sejam cantadas por mulheres ocupadas em trabalhos de costura, donde esse nome de chansons de toile (canções de tela). As melodias, de difícil execução, ornamentadas com numerosos melismas, revestem-se de um caráter litânico que acentua o seu arcaísmo”.

as albas ou alvoradas são cantigas dialogadas, com muitos personagens. Têm como tema a separação dos amantes que, após uma noite de amor ilícito, são alertados para o amanhecer por um amigo ou pelo vigia noturno.”

o legado musical dos troveiros é muito mais rico: 4 mil textos melódicos (se incluirmos variantes)”

as antologias de suas canções – os manuscritos por isso mesmo denominados cancioneiros – não contêm mais que a linha melódica da cantiga, sem nenhuma outra indicação sobre o acompanhamento instrumental.” “Os trovadores se acompanhavam com a viela, com a pequena harpa ou ainda com um alaúde. (…) Admite-se em geral que o papel do instrumento era interpretar a linha melódica em uníssono com a voz, e que o executante, antes e depois do canto, incluía um prelúdio e um poslúdio instrumentais improvisados, de que não ficou vestígio algum (…) Mas pode-se aceitar a teoria do musicólogo Hendrick Van der Werf, segundo a qual o instrumento não era tocado durante o canto. Como se vê, os conhecimentos a respeito são de tal modo flutuantes que bem demonstram quanto se deve proceder com circunspecção ao reconstituírem essas melodias.”

Com efeito, a maior parte dos manuscritos que consignaram as melodias data da 2ª metade do séc. XIII, momento de completa mutação do signo musical; são manuscritos que, inclusive, apresentam uma defasagem de várias décadas, e até mesmo de um século, em relação ao manuscrito original que se perdeu. As melodias revelam grandes divergências entre si, e, sobretudo no tocante à transcrição do ritmo, as incertezas que subsistem são consideráveis. Apenas 2 manuscritos do conjunto do repertório existente propõem uma notação mensurada, ou seja, dão indicações dos valores de tempo segundo o sistema adotado para a música polifônica (o que não impede que uma mesma peça possa ser medida diferentemente de uma cópia para outra). Em todos os demais manuscritos, as melodias estão escritas na notação quadrada, que determina tão-somente a altura das notas na pauta musical. Por muito tempo os musicólogos empenharam-se em fazer entrar as melodias de trovadores e troveiros no sistema mensurado dito sistema modal. Pierre Aubry, Jean Beck e seus êmulos procuraram dar a essas melodias valores de tempo correspondentes aos 6 modos rítmicos utilizados pela música polifônica muito depois dessas peças terem sido compostas.” O que era um segundo para um camponês ou (tanto faz!) um aristocrata feudal, afinal? Mera quimera utópica!

Cogitação dos modos de canto (em ordem provável de utilização do mais importante para o menos):

1º: 1 (sílaba) longa + 1 breve, em notação moderna ¾.

2º: 1 breve + 1 longa, ou seja, ¾.

3º: 1 longa + 1 breve + 1 breve valendo duas unidades (brevis altera), ou seja, ¾ que pode ser lido como 6/8.

4º: 2 breves + 1 longa, ou seja, ¾ ou 6/8.

5º: 3 longas perfeitas, ou seja, ¾.

6º: 3 breves, ou seja, ¾.

Do ponto de vista leigo o acima dito não faz qualquer sentido, mas como não sei ler notações musicais, não acho necessário incluir imagens dos símbolos que acompanham cada linha – o músico saberá do que estou falando!

No espírito desses musicólogos, estabeleceu-se uma confusão entre os acentos da língua vulgar e os valores longos e breves da escansão latina. As contrafacta que volta e meia se faziam, e que consistiam em adaptar novas letras a melodias já existentes, bem demonstram que o ritmo não era pensado de acordo com esses critérios. Por outro lado, encerrar as frases musicais em compasso rigoroso significava quebrar-lhes o ritmo, falsificar-lhes o desenho”

Sinto-me constrangido: o que é um sarau de poetinhas e declamações em salões e grupos literatos perto de toda essa perfeição e redondeza lírica? Nunca saberia cantar ou mesmo entoar meus poemas à altura de sua apresentação gráfica!

Que fique por conta do restaurador executante da melodia inventar o ritmo que melhor se adapte a ela. Há alguns que captam esse ritmo muito bem, sobretudo aqueles impregnados tanto das melodias gregorianas como das músicas da bacia mediterrânea. O que é preciso é reencontrar a sutileza da invenção num tempo musical perpetuamente aberto.”

A dança é designada em latim pela palavra Chorea, em francês pelo termo Carole (verossimilmente de choraula, flautista de coro, donde chorolare, em francês caroler). As carolas são danças coletivas em que os dançarinos, de mãos dadas, formam correntes que se fecham em círculos.”

Em que circunstâncias é dançada a carola? Antes de mais nada, deve-se mencionar o lugar das danças religiosas, que é o interior das abadias e das igrejas, por ocasião de certas festas. Ela é então manifestação de louvor pelo movimento.” “os movimentos dos dançarinos imitam as danças dos serafins em volta do trono de Deus. Havia ocasiões (…) em que se dançava no interior das igrejas, mas somente aos clérigos, em princípio, admitia-se que executassem os movimentos (como ainda em nossos dias, na Etiópia, os diáconos dançam no fundo da igreja).”

Entretanto, do concílio de Vannes (465) ao concílio de Trento (1562), passando pelo de Toledo (599) e o de Avignon (1209), a Igreja não cessa de condenar as danças em geral e as que se realizavam dentro das igrejas em particular, por temor à lascívia”

Chorea, corona diaboli!”

Até 2019 sua tradução seria “Dança, coroa do diabo!”. A partir do ano passado se tornou: “Vade retro, Coronga do diabo!”

A dança inscreve-se no prolongamento dos divertimentos da vida cavalheiresca, quais sejam a caça e os torneios. É comum serem as carolas formadas exclusivamente por mulheres, objeto do olhar dos homens enquanto estes travam suas justas.”

Das carolas nasceriam 3 formas: o rondó (roundeau), a balada e o virelai.

A estampie, que tira seu nome de stampare, ‘bater no chão com os pés’ (e que não se deve confundir com a estampie literária), é formada por seções curtas que se repetem, AA, BB,…, chamadas puncta. A mais antiga de que se tem registro é aquela para a qual o trovador Raimbaud de Vaqueiras, segundo se conta, escreveu, espontaneamente, assim que acabou de ouvi-las, as palavras Kalenda Maya, Ni fuelles de faya. 8 delas figuram num cancioneiro da Bibliothèque Nationale. São os 1os exemplos de música instrumental.”

A influência dos trovadores [fenômeno francês] revelou-se marcante, em 1º lugar, na Itália. Infelizmente não ficou vestígio algum da música de um Cigada, de um Malaspina, de um Sordel, nem de todas aquelas cantigas corteses que se davam o prazer de compor os nobres toscanos e úmbrios, entre os quais aquele jovem patrício que não tardaria a renunciar a tais práticas, ardente de um outro amor, o futuro São Francisco de Assis, autor, mais tarde, do Hino ao sol. Graças a ele a cantiga italiana iria tomar uma orientação nova [e chata].”

Por meio dos Minnesanger, a influência de trovadores e troveiros estender-se-ia até a Áustria. (…) em 1156, Béatrice de Bourgogne, protetora do troveiro Guillot de Provins, casa-se com o imperador Frederico I, o Barba Roxa.”

O famoso manuscrito de Heidelberg inclui nada menos que 7 mil canções, obras de 140 poetas-compositores, entre os quais o célebre Walther von der Vogelweide (ca. 1170-1230), além de Friedrich von Hause, Reinmar der Alte, Heinrich von Mohrungen, etc.

A Barform – com sua estrutura constituída por um Aufgesang composto de um Stollen-Stollen, seguido de um Abgesang, ou seja, uma primeira parte de estrofe formada de 2 elementos idênticos, a que seguia-se uma 2ª parte, tal como a descreve com precisão Hans Sachs [!] em Die Meistersinger von Nürnberg (Os mestres-cantores de Nurenberg) de Wagner¹ – retoma o modelo de um bom número de canções de trovadores e de troveiros.”

¹ Ver também, sobre o assunto, em breve, as MONOGRAFÍAS MUSICALES de Theodor Adorno, a ser incluídas no Seclusão.

Outra menção a Wagner (Nibelungos). Até parece que ele foi a única coisa que a Alemanha produziu em Música Clássica…

A Espanha é o lugar de encontro das músicas ocidentais e daquelas que pertencem à tradição islâmica. (…) Um dos manuscritos das Cantigas de Santa Maria mostra, lado a lado, um músico mouro e um músico cristão tocando alaúdes.

Os estudos nesse domínio são muito raros e não dá para entender por que misteriosas razões os pesquisadores ocidentais afastam-se de uma literatura e de uma música que não foram ignoradas pelo Ocidente, ao passo que os trabalhos dos epistemólogos e dos filósofos sobre a contribuição considerável dada pelas ciências e pelo pensamento árabe ao mundo ocidental avançaram muito mais.”

a lírica profana em língua latina não deve ser esquecida.” “desde Venantius Fortunatus (530-609) (…) passando pelas canções de amor da época carolíngia, que foram condenadas no século IX por serem diabolica, amatoria e turpia (diabólicas, dissolutas e torpes), e prosseguindo para as transposições para a música dos poemas da obra De consolatione philosophiae de Boécio, das Odes de Horácio e da Eneida de Virgílio, hoje indecifráveis, [?] até, no séc. XII, as cantigas de Abelardo, sobre cuja autoria, no tocante a 6 planctus pelo menos, não pairam dúvidas.

Mas, de todas as coleções de lírica latina profana, a mais importante e a mais vasta é a dos Carmina Burana (Cantos de Beuron), manuscrito compilado e conservado até 1803 na abadia de Benediktbeuren (mosteiro beneditino de Beuron), na Baviera.”

Primeiros entre os poetas malditos, os monges errantes celebram a embriaguez, propícia à inspiração poética, o amor brutal, venal, carnal: são violentos na sátira, chegando por vezes à revolta.”

PSICANÁLISE E NAZISMO – Samuel Katz (Org.)

1. OBSERVAÇÕES SOBRE A CONJUNTURA E O DESTINO DA PSICANÁLISE E DA PSICOTERAPIA NA ALEMANHA ENTRE 1933-49 – Käthe Dräger (trad. Helena Lins e Barros)

Chega a ser paradoxal o mero surgimento, sob o nazismo, de um instituto psicoterapêutico que incluía psicoterapia analítica, pois o reconhecimento da neurose como doença e o interesse pela psique individual, pela vida interior das pessoas, opunha-se à ideologia nazista. A existência do instituto viabilizou-se pelo fato de M.H. Göring ser parente afastado de Göring, ministro do Reich, e por intermédio desse parentesco obter o apoio das autoridades.”

na DPG, ressurgida em 1946, dominava o grupo forte de Schultz-Hencke. O pequeno grupo reunido em torno de Müller-Braunschweig sentiu-se enfraquecido com a partida de Kemper, que viajou para o Brasil em 1948 e lá trabalhou por 20 anos como analista didata.”

2. PSICANÁLISE E NAZISMO – Elisabeth Brainin & Isidor J. Kaminer (trad. Angela Wittich)

Em 1932, alguns meses antes que Hitler se tornasse Chanceler, realizou-se o 12º Congresso Internacional de Psicanálise, em Wiesbaden, sob a direção de Max Eitingon. Foi o último congresso realizado em solo alemão. De acordo com o discurso inaugural de Eitingon, o congresso se realizava ali como prova do crescente estabelecimento e reconhecimento da psicanálise alemã. O perigo representado pelo ascendente poder nazista não foi, então, bem-avaliado, pois naquela época muitos analistas já deixavam a Alemanha.”

A mulher [do psicanalista não-judeu] Böhm estava muito identificada com as idéias do Partido Nazista. Jeckels, um judeu, era conhecido por seu posicionamento comunista e Paul Federn era um social-democrata engajado.”

F. parece colocar o Nazismo na continuidade da centenária perseguição aos judeus na Europa, e parece também expressar a esperança de que este pesadelo do séc. XX fosse passageiro.”

Böhm, após um relato de 3h, foi interrompido por F., com as seguintes palavras: Chega! Os judeus já sofreram centenas de anos por suas convicções. Chegou a hora dos nossos colegas cristãos sofrerem pelas suas.”

Em 1935 (…) Jones mantinha sua posição anterior, de apoio aos procedimentos da DPG, sempre disposta a firmar compromissos.”

vários oficiais de altas patentes participavam dos seminários e prática sobre terapia breve. Muitos oficiais de campanha recebiam instruções de como melhor lidar com os comandados. (…) O Instituto estava a serviço da ideologia nazista: faziam-se trabalhos sobre a infertilidade, o crescimento demográfico e a homossexualidade. Foi publicado, nessa época, o livro de Kemper: A perturbação da capacidade amorosa da mulher.”

Nas fontes a que tivemos acesso, não há nenhum caso de exclusão da WPB por atividade política [como se se pudesse confiar nas atas da Associação de Viena!]. Inclusive alguns conhecidos analistas, como Bernfeld, Nunberg, Deutsch, Friedjung, Buxbaum, tinham relacionamento íntimo com organizações de esquerda. Dentre os candidatos à formação, Marie Langer não era a única que seguia uma atividade política proibida; R. Eckstein, M. Gardiner, T. Erdheim-Genner podem ser citados como exemplo, e alguns tiveram que cumprir penas de detenção por isso.”

O químico nazista Sauerwald foi nomeado para dirigir a WPV, a Clínica Social e a Editora. A WPV foi dissolvida e a DPG, que ainda existia na época, assumiu a tutela de todos os seus direitos, deveres e bens. Bandos da SA e da Gestapo invadiram várias vezes a residência de F.. A situação estava de tal modo desesperadora que, 2º Schur, Anna chegou a pensar em suicídio. [Schur para mim não tem nenhuma credibilidade]; ao que F. teria replicado: ‘Por quê? Só porque eles gostariam disto?’.”

O índice de suicídios na Áustria duplicou e em seguida triplicou após a Anexação.”

O último ano de edição de Imago foi 1941.”

Na Itália, a Associação Psicanalítica também foi dissolvida, apesar do bom relacionamento de Edoardo Weiss com Mussolini, o que havia ajudado a salvar F. na Áustria.”

Karl Landauer, que já havia fugido dos nazistas da Alemanha para a Holanda, fundou, depois do Instituto de Frankfurt, a Associação Psicanalítica Holandesa. Foi mais tarde preso pelos nazistas, deportado para Theresienstadt e morreu no campo de Bergen-Belsen.”

O grupo de Praga também foi extinto. (…) O grupo húngaro pôde dar continuidade aos seus trabalhos, mesmo sob intensa repressão até a invasão das tropas alemãs, em 1944. Cada reunião tinha que ser comunicada com antecedência à polícia e era observada.”

O NEGACIONISMO

Lamenta-se apenas o próprio sofrimento e a perda de capacidades intelectuais ocorrida por terem ‘ido embora’ os judeus” “Por parte da Internacional mesma, nunca houve um esclarecimento sobre suas relações com os analistas alemães naquele período.”

Ainda em 1977, num congresso internacional em Jerusalém, houve uma forte discussão e protesto quando Berlim foi indicada para o próximo congresso.”

A cisão da DPV, desde a DPG, em 1950, devia dar a impressão da sua independência para com o período nazista. Os membros da DPV, no entanto, atuaram no Instituto Göring, da mesma forma que os membros da DPG. A denegação, em alguns depoimentos, vai tão longe que se considera a psicanálise ‘morta’ no período nazista, para não fazer menção de como esteve a serviço da ideologia dominante. No Instituto Göring a foto de F. ficava de frente à de Adolf Hitler, e foi retirada definitivamente em 1938.”

Todos os partidos políticos, em seus programas de atuação, estavam preocupados em deixar o passado no esquecimento. Mitscherlich fala de uma ‘defesa maníaca, pelo milagre econômico do pós-guerra, que transforma o ocorrido em não-ocorrido’

Se não for possível trabalhar tudo isto na análise didática, porque os sentimentos de contra-transferência do didata não o permitem, estes medos persistirão, como também a dificuldade de se estabelecer uma verdadeira relação com a realidade.” Não é possível. A psicanálise é uma terapia fraca, a-social.

(N.Org.) “Isto deve nos fazer voltar à tese de que as sociedades oficiais estão bem mais próximas dos fascismos do que nos atrevemos a confessar.” Finalmente!

3. PSICANÁLISE NA ALEMANHA HITLERISTA. COMO FOI REALMENTE? – Hans-Martin Lohmann & Lutz Rosenkötter (trad. A. Wittich)

Onde estavam a energia e o ímpeto quando ainda não existia o nacional-socialismo? Encontravam-se profundamente ocultos na alma germânica, muito diferente de uma lata de lixo cheia de desejos infantis familiares insatisfeitos, ressentidos e não-resolvidos.” Jung, 1934

Geoffrey Cocks (1975) demonstra-nos de forma clara essa negação da realidade, citando o caso de Georg Groddeck que, até o momento da sua morte (1934), acreditava precisar apenas de uma oportunidade de contato com o Führer para conduzi-lo à direção correta.”

Böhm que, junto com Müller-Braunschweig, era representante dos psicanalistas ‘arianos’ não-emigrados, refere-se em suas memórias a que, em todas as situações importantes para a psicanálise, quando se encontrava em apuros, sempre agia em concordância total com F.. O mesmo escreve Baumeyer (1971), que exalta a ‘aprovação’ de todos os passos, seguidos por F., Anna e Jones. (…) tudo que aconteceu à psicanálise após 1933 tinha a ‘bênção’ da autoridade vienense.”

Langer segue dizendo: Em 1936, eu e um grupo de médicos fomos presos sob a acusação de estarmos trabalhando pela paz . . . Na ausência de bases jurídicas, fomos libertados 3 dias depois.”

psiquiatras isolados, como, p.ex., Ernst Kretschmer, pertenciam à AÄGP, apesar da Psiquiatria acadêmica ser em geral contra a Psicoterapia.” “Em 06/04/33, Krestschmer, que não aceitava o NS, retirou-se da presidência da entidade. Seu sucessor foi Jung, que desde ‘30 ocupava o cargo de vice-presidente. Seguindo o plano de Jung, a Sociedade obteve status internacional”

Mathias Heinrich Göring, primo de Hermann Göring, nasceu em 1879, formou-se em Direito em 1900 e em Medicina em 1907. Em ‘09-‘10, foi assistente de Kraepelin, em Munique. A partir de ‘13, pertenceu à Clínica Universitária de Giessen. Foi lá que descobriu seu interesse pela psicoterapia e hipnose. Em ‘23, estabeleceu-se como neurologista em Wuppertal-Elberfeld. Após o término da formação e análise didática, com os discípulos de Adler, Seif e Kuenkel, em Munique, fundou uma entidade de orientação educacional e a Comunidade de Trabalho Psicoterápica de Wuppertal. Desde ‘28, pertencia à AÄGP.”

FELIZMENTE, HÁ “VIRA-CASACAS” OU “COLABORACIONISTAS” PARA O LADO CERTO DA HISTÓRIA: “A mulher de Göring, que inicialmente era tida como nazista ‘ferrenha’, submeteu-se a uma análise didática com Kemper, e se aproximou consideravelmente da forma de pensar freudiana. A Sra. Göring, por várias vezes, assinalou a Kemper algum colega que chamava atenção de forma desagradável no Partido.”

Os casos de ‘sobrecarga psíquica’, com queixas orgânicas e alterações psicossomáticas, como cefaléias e úlceras gástricas, eram muito mais freqüentes do que os tremores da 1ª Grande Guerra. É muito interessante que o termo neurose não pudesse ser utilizado, pois era contrário aos conceitos da época. Só se podia falar de reações vivenciais anormais. Foi possível realizar um trabalho íntimo com a Luftwaffe, por intermédio de J.H. Schultz, que era também oficial sanitário.”

O episódio a seguir é uma estranha mistura de prestação de serviço à organização nazista e um comportamento profissional correto: em 1942, M.H. Göring examinou, a pedido de Himmler, a filha de 17 anos de um oficial da SS, morto na guerra, para indicar quem deveria tomá-la sob seus cuidados, já que a moça apresentava perturbações psíquicas. A freudiana Kalau von Hofe deu um parecer psicanalítico baseado nos sintomas e indicou a internação numa clínica em que houvesse possibilidade de um tratamento psicoterápico. Iniciou-se o tratamento em Munique e, mais tarde, na Clínica Infantil de Tübingen, sob a supervisão da Sra. Marzinowski. Himmler aceitou todas as sugestões e o tratamento foi custeado pela SS.”

No final de abril de ‘45, o Instituto foi totalmente destruído durante um ataque aéreo. M.H. Göring ainda lutava nas últimas semanas de guerra, segundo um relato pessoal, e foi preso em Berlim, pelos russos, morrendo de tifo no mesmo ano, num campo de prisão russo.”

4. PSICANÁLISE, PSICOTERAPIA E NACIONAL-SOCIALISMO – Geoffrey Cocks (trad. Lya Luft [!])

Rittmeister morreu nas mãos da SS, por participar de um grupo de resistência que pertencia à rede de espionagem da Rote Kapelle (Orquestra Vermelha). Embora o pensamento e ação de Rittmeister mereçam admiração, relatos hagiográficos sobre sua vida correm o perigo de desviar a atenção das questões complexas e eticamente duvidosas, em matéria de serviços psicanalíticos em favor do Estado nacional-socialista.”

A ascensão da psicanálise na década seguinte [1920] fundamentava-se em boa parte nos sucessos psicanalíticos no tratamento das neuroses da I Guerra, que os psiquiatras militares de formação tradicional tinham abandonado como enigmas.”

Em 1926 os psiquiatras Robert Sommer e Wladimir Eliasberg fundaram a Sociedade Médica Geral de Psicoterapia. Essa organização internacional deveria ser uma reunião de todos os médicos que na sua prática usassem uma ou outra espécie de psicoterapia. (…) Entre os membros notáveis da sociedade estavam Alfred Adler, Carl Jung, Frieda Fromm-Reichmann, Hans von Hattingberg, Gustav Richard Heyer, Karen Horney, Ernst Kretschmer, Erwin Liek, Felix Deutsch, Georg Groddeck, Fritz Künkel, Kurt Lewin, Ernst Simmel, Johannes Heinrich Schultz, Leonhard Seif, Viktor von Weizäcker e Harald Schultz-Hencke. A DPG negou-lhe reconhecimento.”

De modo algum, pois, o nacional-socialismo destruiu a psicoterapia, ao oprimi-la inescrupulosamente, ou tornando-a escrava muda de sua própria confusa ideologia. Muito ao contrário, a história da evolução da psicologia médica na Alemanha, modificada pela dinâmica estrutural da ditadura marrom, produziu um campo de força que ofereceu à psicoterapia depois de ‘33 uma oportunidade sem igual de sobrevivência e desenvolvimento profissional.”

Junto com uma preocupação maciça pela ‘saúde do povo’, os nacional-socialistas consideravam uma psicoterapia e psicologia arianizadas um meio importante para assegurar a lealdade e produtividade do povo alemão. A fascinante jovem disciplina parecia-lhes uma encantadora síntese de uma herança romântica com uma (segundo eles) tarefa fundamental da psicologia médica: lidar com as qualidades internas dos seres humanos.” “O fato de que psicoterapeutas tenham gozado na Alemanha, durante 9 anos, de sucesso e status profissional, jamais superado antes ou depois, deve-se a sua base institucional singular, que se originava principalmente da influência e proteção do nome Göring.” “Por que essa singular história nunca foi revelada? A maior parte das análises precedentes do III Reich veio de setores diretamente atingidos pela tirania e agressividade de Hitler.”

As exigências falsas de reforma dos nacional-socialistas logo se revelaram vazias, de modo que ascensão e declínio, triunfos e fracasso dos mais diversos órgãos da administração e governo do III Reich continuaram sendo determinados por problemas e tentativas de solução pré-nacional-socialistas.”

Essa lógica impiedosa também é responsável pelo fato de que os nacional-socialistas – ao contrário do comunismo soviético – jamais usassem a clínica psiquiátrica como local de se guardar o inimigo político. Essa espécie de ‘psiquiatrização’ dos dissidentes, apesar de tanto ferir a dignidade humana, e de todos os maus tratos que geralmente lhe aplica, ainda parte da possibilidade e desejo de uma melhoria. (…) Por mais que a Alemanha nazista e a Rússia soviética se assemelhem como sistemas totalitários, suas ideologias são basicamente diferentes. O marxismo, com seu materialismo, é essencialmente racional, e apela para a construção e asseguramento de sua sociedade igualitária, para estratégias científicas – nesse caso, para uma psiquiatria que originalmente vem da psicologia de Pavlov, e hoje se distingue por uma decisiva orientação orgânica e química (Segal, 1975).” Que marxismo? Na Rússia pós-leninista? O modelo organo-químico prosperou mesmo com o capitalismo, e as grandes empresas alemãs que se inseriram no mercado no pós-guerra – dá-lhe Pfizer!

O Instituto Göring não apenas tratava grande número de lesados de guerra; oferecia ajuda psicoterapêutica a uma série de homossexuais, entre eles muitos membros das organizações de juventude nacional-socialista, e executava pelo menos 2 projetos ordenados oficialmente: sobre homossexualismo (sic) e sobre esterilidade psicogênica.”

O período do idealismo alemão, entre 1770 e 1830, forneceu o fundamento espiritual do nacionalismo alemão que tomou forma na luta contra Napoleão – um encontro histórico que conferiu ao pensamento alemão uma mudança de orientação militante anti-ocidental, especialmente em relação aos ideais políticos da Revolução Francesa. Esse fato, junto com a continuação do particularismo dos pequenos Estados, roubou à burguesia ascendente as chances de estender seu liberalismo da esfera econômica para a política. O fracasso da revolução de 1848, e a consequente unificação da Alemanha pela Prússia, selaram essa evolução. Sob a impressão do sucesso da política real de Bismarck dentro e fora da Alemanha, os liberais alemães se acomodaram de modo geral com uma posição subordinada no autoritário II Império. (…) Não apenas as camadas de classe média recebiam de boa-vontade o lucro econômico de sua derrota política, mas apossavam-se do luxo ‘feudal’ de uma Alemanha prussificada.

A solução era dupla: de um lado, o cidadão culto podia ascender desdenhosamente sobre a política, como um terreno de gente inculta, deixando-a nas mãos do governo; ao mesmo tempo podia louvar o poder de seu Estado como um triunfo da profunda cultura alemã sobre a civilização ocidental, materialista e mole. Essas tendências chegaram ao auge em 1914, quando sólidos cidadãos alemães foram para a guerra com a firme sensação de estarem lutando por valores mais altos.”

Seu conteúdo romântico misturava-se também com traços do luteranismo conservador e crédulo na autoridade, e com o embotado movimento pietista, voltado para dentro. Essa combinação não apenas provocou o que Fritz Stern (1960) chamou de ‘o alemão apolítico’, mas produziu também na elite culta de funcionários do governo, juristas, médicos, pedagogos, etc., uma arrogância cultural e social singular, parecida com o que Fritz Ringer descreveu (1969) como ‘mandarins alemães’.”

As noções de inconsciente e da unidade de corpo e alma podem ser seguidas na história da medicina até Heráclito no séc. 6 (sic) antes de Cristo. Como Rosseau (sic – porra, Lya Luft!) mais de 2 mil anos depois, H. acreditava que a razão era comum a todos os seres humanos, mas não constituía sozinha a peculiaridade do ser humano.”

Nos meios nazistas Paracelso passava por uma figura legendária, e por sua luta em favor de uma saúde mental, e seu emprego do alemão em vez do latim como língua escrita, foi estilizado como predecessor cultural e científico da ideologia nacional-socialista. Em 1943, o diretor Friedrich Wilhelm Pabst criou uma bombástica versão de sua vida.” Tudo no Reich era BOMBAstico.

Carl Gustav Carus determinava a psicologia como ciência da evolução da alma, do inconsciente para o consciente. Seguia-se que no tratamento de doentes mentais devia-se dar importância à cura do indivíduo total, não às partes isoladas, ou órgãos. A esse princípio – e sua posterior glorificação no meio nacional e cultural alemão – pertenceu também a singular dignidade filosófica e religiosa que ele conferia à psique; foi, entre outros, esse elemento que no séc. XX tornou tão sedutora para os psicoterapeutas alemães de tendência romântica a doutrina de Jung. Carus e seu livro de maior influência, Psique, para uma história da evolução da alma (1846), tornaram-se fonte de inspiração importante para Göring e outros psicoterapeutas do III Reich.”

Para M.H. Göring, Feuchtersleben, além de Leibniz, Carus e outros, foi testemunha histórica da riqueza de uma tradição psicoterapêutica genuinamente alemã, e da conseqüente inaptidão relativa do engano mecanicista de F. quanto ao inconsciente humano.

A tradição romântica chegou ao ápice com a Filosofia do Inconsciente de Eduard von Hartmann (1869). Depois tornou-se subterrânea, limitada a alusões das obras literárias de Goethe e Dostoiévski, e da filosofia de Nietzsche, enquanto na superfície imperava o período do positivismo científico e da nosologia psiquiátrica na medicina. Assim, também Nie. tornou-se importante desbravador da moderna psicoterapia na Alemanha.”

A neurologia, ciência do sistema nervoso humano, aparecera pela 1ª vez na Inglaterra e França no séc. XVII, adornando-se do lema hipocrático de que ‘o cérebro é o centro da loucura’.”

Espírito significava o pensamento ocidental materialista do Renascimento, que vencera a plenitude e profundidade da cosmovisão medieval (alma). Pode-se supor com alguma razão que os membros da Sociedade Médica Geral de Psicoterapia – apesar da abrangência de interesses, orientações e disciplinas médicas nela representadas – mantinham uma postura básica conservadora, nacionalista (na sua maioria protestante), ao contrário dos membros antes liberais, cosmopolitas (na sua maioria judeus) da DPG.” “entre todos os grupos profissionais acadêmicos na Alemanha, os médicos tinham a mais alta porcentagem (45%) de membros do Partido Nazi em suas fileiras (Kater, 1979).”

Além disso, o entusiasmo geral de 1933 teve um efeito especial sobre os alemães ‘apolíticos’. Entusiasmo – ou mero patriotismo – especialmente depois de 1939 e da catástrofe de Stalingrado em 1943, que conseguia sufocar em germe qualquer crítica.” “Ao mesmo tempo, a imagem notada e divulgada de um Führer que pairava acima das zonas inferiores da política vinha ao encontro da repugnada má-vontade com que a maioria dos alemães de formação tinha seguido a experiência democrática materialista e ineficaz da República de Weimar.” “Mesmo a política judaica nacional-socialista corria em surtos sempre interrompidos por tréguas de calmaria.” Deve ter querido dizer política nacional-socialista anti-semita!

Talvez muitas coisas tivessem sido diferentes se os psicoterapeutas e acadêmicos alemães tivessem (sic) pronunciado todos juntos um decidido ‘Não’, ou ao menos ‘Sem mim’. Mas o que na verdade fizeram jogou uma luz esclarecedora sobre a evolução profissional e a estrutura organizacional da Alemanha nazista.”

Enquanto os habitantes dos Países Baixos enfrentavam um regime de ocupação de tempo de guerra, os alemães lidavam com seu próprio governo; e a chance (…) de progresso profissional sob a proteção do nome Göring fazia a auto-dissolução parecer uma alternativa nobre mas pouco atraente.”

Embora os nacional-socialistas anunciassem de alto e bom som¹ a uniformização da sociedade alemã, a sua forma de dominação permitia, até animava, junto com a nebulosidade de seu programa, uma postura que se podia chamar ‘auto-uniformização’. (…) Do ponto de vista ético, isso trouxe maior responsabilidade nos atos individuais, pois ainda havia certa liberdade de opção.”

¹ Lya Luft, como previsto, tradutora horrorosa…

Além dos incontáveis pacientes que procuravam psicoterapeutas no III Reich, recebendo ajuda deles, havia na guerra alguns casos de homens que, sem intervenção daqueles, seriam declarados ‘simuladores’ e fuzilados.”

Comparados a outros grupos acadêmicos, p.ex. os estudiosos da Antiguidade clássica, praticamente intocados pelo nacional-socialismo (Losemann, 1977), ou os historiadores dirigidos por Walter Frank, que instalaram um grande ‘Instituto para História da Nova Alemanha’, de cunho nazi (Heiber, 1966), os psicoterapeutas seguiram, no III Reich, um caminho intermediário.”

os físicos (como estabelecer uma ‘física ariana’?) sofreram grandes males no III Reich (Beyerchen, 1977).”

Segundo Blanck, a psicoterapia até aqui não se separou suficientemente da medicina nem da psicologia para poder valer como ramo independente, e essa é a dificuldade essencial para a sua profissionalização.”

O protesto do movimento psicodinâmico contra os establishments nosológico e neurológico da psiquiatria alemã ampliou-se, aliás, na década de 1920, com um forte desconforto diante da ‘crise da medicina’. Houve preocupação com uma profissão médica que não conseguia mais encarar pacientes como pessoas, que era demasiadamente dada à ciência natural, demasiadamente burocrática e, na sua continuação em receitas e honorários, materialista demais. A esse protesto também se ligou forçadamente a Sociedade Médica Geral de Psicoterapia. A Sociedade declarou ser seu objetivo o estímulo da psicoterapia na luta contra a ‘peste popular’ da neurose. Sublinhando a necessidade de uma campanha para profilaxia social e tratamento da neurose, ela parecia ignorar a tradicional classificação psiquiátrica, academicamente rejeitada, das doenças do cérebro e do sistema nervoso, ou até torná-las desprezíveis.”

IMPOSSÍVEL RETORNAR A HIPÓCRATES: “A formação para essa tarefa não podia se limitar às ciências médicas, mas tinha de incluir as ciências sociais e espirituais.”

um estudo de medicina, mesmo na forma abreviada do governo nacional-socialista, ainda era um processo mais complexo que o diploma universitário em psicologia com formação clínica anexa.”

Partindo do juvenil temperamento artístico do Führer, e seu faro político na tática de partilhar e governar, as intenções contraditórias e interesse de senhores feudais grandes e pequenos, que formavam a corporação liderante do nacional-socialismo, desfizeram totalmente o já tênue verniz ideológico do movimento.”

(*) “O Nazismo não terá uma linha única de pensamento. Por relação (sic) às questões do psiquismo, p.ex., em ‘33 se querem eliminar os ‘doentes mentais’, enquanto em ‘45 se querem preservá-los, pois há enorme falta de força de trabalho.”

(*) “A psicoterapia alemã será unitária, enquanto a psicanálise judaica é múltipla e diferencial (teses de Jung).” Acontece que Jung foi EXPURGADO do “Partido Fraudiano” por manifestar as suas “teses”. Hitler e Freud são simétricos nesse tocante: dois Führers centralizadores, pusilânimes e tresloucados.

5. JOHN F. RITTMEISTER E C.G. JUNG – Ludger M. Hermanns (trad. Angela Wittich)

O texto [póstumo, não-publicado, de Rittmeister], no seu conjunto, mostra-se estranhamente inconsistente. É alimentado por uma crítica intensa e atual a Jung, frente ao fascismo alemão, complementada por frutos dos seus estudos, realizados em Zurique, dos clássicos marxistas-leninistas, completando-se afinal com fatos da sua própria experiência e socialização política (…) A publicação da versão original pareceu-me válida como documento histórico: assim pensou, falou e escreveu um psicanalista alemão nos meados dos anos 30. [próximo capítulo do livro]”

Num texto humanístico publicado por uma revista científica holandesa Rittmeister viu-se obrigado a substituir o termo Materialismo histórico por Métodos históricos da crítica social moderna, sobre uma antropologia estática (1936, p. 952).”

Após uma atividade inicial como voluntário no Hospital de Burghölzli, seguiram-se 3 anos como assistente na Policlínica para doentes nervosos, da Universidade de Zurique, concluídos e seguidos por novo período como médico voluntário em Münsingen, até o outono de 1937.”

Sendo notório o seu posicionamento político, foi muitas vezes prevenido, por seus amigos, contra sua volta à Alemanha. Regressou, porém, no outono de 1937, após lhe terem sido marcadas várias datas de saída, pelos órgãos suíços de controle de estrangeiros, em conseqüência às queixas por ‘atividades comunistas’. Sua decisão de retornar teve provavelmente motivo pessoal. No diário de cárcere, escreveu: ‘retornei à Alemanha em 1937, para buscar na pátria mulher e trabalho’ (p. 71). Possivelmente, no entanto, o fato dele só mencionar fatores pessoais se explique pelas circunstâncias em que foi escrito o diário, que a qualquer momento podia ser confiscado pela Gestapo.”

Casou-se em julho de ‘39, e a partir do mês de setembro começou a trabalhar na Policlínica do Instituto Göring, cuja direção passou a ocupar mais tarde, em cargo de confiança.” “uma palestra realizada para o ‘Grupo de Trabalho A’ [psicanalistas disfarçados], muito discutida, A crise mística do jovem Descartes, foi publicada postumamente, em 1961, por um amigo de Münsingen, Alfred Storch, numa revista científica suíça (Rittmeister, 1961).”

(*) “A Resistência era considerada a maior e mais efetiva organização de resistência antifascista alemã e era conhecida pelo nome, dado pela Gestapo, de Orquestra Vermelha. Na época da guerra fria, dada sua considerável atividade de espionagem pró-União Soviética, deixou de ser vista como grupo de resistência, sendo chamada de ‘traidora da pátria’, e condenada assim pela 2ª vez.”

Neste grupo discutiam-se principalmente temas políticos, lia-se literatura em conjunto e organizavam-se campanhas de ajuda a judeus e trabalhadores estrangeiros. Por volta do natal de 1941 travou conhecimento com Harro Schulze-Boyse, obtendo assim acesso à [outras figuras mais militantes da] Resistência”

Preso em 26/9/1942, foi condenado à morte pelo Tribunal de Guerra do Reich, tendo sido aplicada a mesma pena aos seus companheiros. Com alguns deles, foi executado em 13/5/1943, em Plötzensee, pelos nazistas. Ver Gilles Perrault, A orquestra vermelha, trad. Nova Época Editorial, SP.”

passei a me interessar cada vez mais por Jung e lia com avidez e entusiasmo Transformações e símbolos da libido

Após um rompimento afetivo, lançou-se ‘ainda mais nos desdobramentos dos assuntos russo e revolucionário (Bakunin) e na teoria junguiana, seguindo-se um estudo mais aprofundado, de julho a agosto, em Londres, de O Capital’ (R., 1942-3)”

não me agradava neste Círculo o clima nebuloso, místico e saturado. Por outro lado, eu não me sentia ali muito à vontade e cada vez mais era levado à indiferença, ligado não ao devir ou à contemplação de cultos passados e culturas orientais, mas à realidade: aqui, o mundo estava pegando fogo”

seu 1º trabalho científico publicado, com o título Energética da alma em C.G. Jung, é um relatório elogioso e muito detalhado da obra de J. (1930). Apesar deste entusiasmo, isto nunca invalidou sua posição por relação a F. [?? – não é possível ser anti-junguiano e anti-freudiano ao mesmo tempo? Negar um é afirmar o outro?]”

R. começa a desenvolver uma crítica à teoria junguiana, como reflexo às simpatias iniciais de J. pelo nacional-socialismo. Esta crítica à teoria dos arquétipos, somada a um estudo humanístico de ‘36, formam uma unidade e expressam o seu afastamento de J.”

Jung relata o caso de uma paciente que, nascida na Índia, foi para a Europa aos 6 anos de idade, apresentando mais tarde uma grave neurose. Ela adquirira, segundo o autor, através do leite de sua ama, fantasias e sonhos que se pode interpretar apenas pela ioga tântrica e regras indianas dos Chakras.”

Jung era realmente nacional-socialista?”

Hitler é o megafone que amplia os murmúrios inaudíveis da alma alemã, até que possam ser captados pelo ouvido inconsciente dos alemães citado através de Balmer, 1972.

Gustav Bally, psicanalista em Zurique, que realizou sua formação em Berlim, no antigo Instituto Psicanalítico, foi o 1º a erguer a voz contra o fato de um suíço, como J., vir a ser o editor da Zentralblatt für Psychotherapie. [antifascismo ou xenofobia? Não ficou claro!]”

O que J. quer dizer com isso? Deseja que nos perguntemos cientificamente se a origem da psicologia é germânica ou judaica? Como diferenciar 2 psicologias? Qual valor teria, nas ciências humanas, considerar as obras do judeu Husserl ‘diferentes’ das de Meinong ou Dilthey? Usando-se o critério racial nos trabalhos sobre psicologia gestáltica, seriam ‘germânicos’ Ehrenfels e Wolfgang Köhler, enquanto que Koffka e Wertheimer seriam ‘judeus’? O que espera J. de uma avaliação racial das inteligentes concepções do etnólogo Lévy-Bruhl em comparação com o diligente Frazer? Por que estas diferenciações seriam tão importantes, a ponto da sua omissão, segundo ele, levar a uma falsificação dos resultados na prática e na teoria?”

É a ressurreição da demonologia, com suas luas e crepúsculos determinados, o triunfo do talismã e a mágica dos curandeiros. Este curandeiro, porém, é um professor de Psiquiatria. Seu poder e sua doutrina não são compatíveis com a sua função. Exorcismo, não, ele traz consigo 7 demônios ainda piores. Interessa-se pela doença, a cura é secundária. Os vários pacientes de Jung não sofrem de deficiências específicas como, p.ex., um amor não-correspondido ou um desemprego [a bem da verdade, nem os de F.: tudo neles é amor frustrado pelo papai ou mamãe ou recalque homossexual]: sofrem de uma deficiência de demônios; segundo Jung, porque não são suficientemente inconscientes, arcaicos, primitivos e ‘profundos’. Ele proporciona-lhes então um contato, perdido em 5 mil anos de civilização, com os poderes e mitos do inconsciente coletivo!” Schumacher, Mitologistas modernos, Vencedores do progresso pela via retrógrada, Geômetras do espaço irracional, pp. 103-4.

O filósofo Ernst Bloch, em seu ensaio Imago, um clarão do inconsciente, já antes de 1933, chamava Prinzhorn, Jung e Klages de ‘criptofascistas da psicologia’” (Bloch, 1935)

O irônico dos críticos socialistas de Jung dos anos 30 ou 40 é que eles justificavam a cegueira do suíço apelando para sua ‘falta de visão do conjunto social’, quando esta deveria ser a mesma crítica a disparar contra Freud, o ‘queridinho das ciências sociais’ por algum tempo, não sabemos hoje, direito, baseados no quê! Brincadeira, sabemos: na falsificação da história da psicanálise. Mas ainda assim é espantoso: embora não pudessem saber, nem os intelectuais mais vanguardistas, então, que o inconsciente de Freud era uma charlatanice, podia-se facilmente constatar sua opinião sobre o comunismo em qualquer de seus escritos; mas não se fazia essa análise – ou diremos exame, para não parecer uma sessão pseudanalítica?

Incomoda também muito pouco a Jung que nem todos os filósofos que refletem sobre o sentido da vida sejam neuróticos.” Bloch

6. HIPÓTESE E CONSEQÜÊNCIAS DA TEORIA DOS ARQUÉTIPOS DE JUNG – Rittmeister (trad. Angela Wittich)

Jung, durante algum tempo, seguiu o mesmo caminho que F., como Marx em relação a Hegel. Os sinais de separação foram semelhantes, porém, nos últimos anos, se deram de forma mais decente e menos ruidosa.”

Não fossem 2 pontos, diria até que se trata de um paralelo bastante interessante!

  1. Hegel não era contemporâneo de Marx;

  2. A tese é tão forçada quanto um trabalho de graduação de um ardoroso estudante do 2º semestre de sociologia: ao mesmo tempo em que o autor é freudomarxista (uma bizarrice por si), segundo ele Marx ao romper com Hegel triunfou; por isso o paralelo não funciona: ele quer que F. seja o “Marx da psicanálise”. Retificação: F. É o Marx da psicanálise. O problema todo aqui é o seguinte: a psicanálise é uma cosmovisão reacionária! Jung está errado porque é um racista ou pelo menos um simulacro de racista enquanto perdurou o III Reich, que se vendeu para sobreviver, não porque tenha “abandonado a psicanálise”!

R. já tinha consciência da ciclotimia das idéias: alternância entre racionalismo-irracionalismo, realismo-idealismo, etc. Prefigurou, de alguma forma, a condição pós-moderna. Entendeu até que o tempo entre as alternâncias estava acelerando cada vez mais… Nisto, foi sagaz.

Concede, também, que F. traiu o próprio legado (ademais hipervalorizado) ao publicar Para além do princípio do prazer. E seu fel não se limita aos anos 20 do “papa”:

F. não via nada além de pulsões e hipostasiava conceitos um tanto obscuros sobre a sexualidade. Também não via nada mais além do indivíduo isolado, numa realidade estática de Viena [uma espécie de Inferno do século XIX, a Viena freudiana], no período pré-guerra, à qual o neurótico tinha que se adaptar. No terreno sociológico, F. fantasiava, e seus discípulos ainda mais.” Agora sim estou vendo um Hegel II!

Jung deu à teoria da libido um aspecto mais abrangente e transcendeu o princípio estático e entediante da ambivalência, preconizado por F.. (…) Apontou incansavelmente para a literatura e religião chinesa, hindu e da Idade Média, acrescentando ao termo já conhecido Inconsciente dos antepassados, outro, Inconsciente coletivo” Mas: “J. não conseguiu estabelecer a ligação da filosofia clássica com a moderna, de modo que seu ponto de vista não se encaixa com o dos filósofos antigos, e o seu termo ‘coletivo’ não estabelece nenhuma relação com certos grupamentos raciais e culturais, muito bem-descritos em termos sociológicos.”

Hegel aceita a contradição de uma forma objetiva, mas essa objetividade é o espírito objetivo.” “Num enfoque geral, J. ficou estacionário numa etapa correspondente ao Idealismo romântico. Para ele, o absoluto é o Makranthropos, o homem gigante contido na alma, o ultrapassado homem coletivo, que acumula arquétipos hiper-individuais sobre… mas sobre o quê? (…) o Inconsciente coletivo é a coisa-em-si”

Para Berkeley [o cara vai fundo mesmo!] esse = percipi e as sensações que temos são dadas por Deus. Então só existem o Eu e Deus” “Para J., não só o mundo exterior, mas também Deus, foi incluído na subjetividade. O mundo dos arquétipos, os complexos autônomos recebem o atributo de serem ‘divinos’, e um deles (Self) é o ‘Deus em nós’.

Parece até um dos meus escritos de 2008 sobre o capitalismo tardio:

Este ser vampiresco, esta subjetividade divina, absorveu todo o mundo em si, o fez desaparecer, e se inflou em conseqüência disto, até alcançar uma universalidade coletiva em que Eu, de acordo com a demanda, sou uma vivência da criação do mundo, conforme Prometeu, ou diante da qual tenho que me subjugar, fazendo assim submergir minha própria consciência pessoal efêmera.

Minha alma é o continente desta divindade criadora de mil facetas, soberana, plena de Mana, que cria o mundo externo e o não-eu, que domina, que impulsiona, e com deuses e demônios no corpo, se eleva ao céu num inesperado agradecimento. Com toda minha atividade, eu me identifico com todas as possibilidades criativas coletivas de todos os tempos e povos, sou um Napoleão do armazenamento de todo possível inventário de conhecimentos arqueológicos.

Mas, ao mesmo tempo, eu sou pequeno, uma gota no mar do Inconsciente coletivo, ao qual tenho que sacrificar minha consciência egoísta e minha inteligência híbrida, e ao qual tenho que me submeter e adaptar pela intuição e pelos sentimentos.” [!!!]

O outro, a natureza, as leis do passado e do futuro, tudo isto é ou passa a ser fantasma desta teoria umbilicada.”

Lenin, Individualismo filosófico

hoje em dia o mundo é essencialmente interpretado como sonho, complexos e imagens interpessoais, de acordo com a teoria ‘pastoral’ da moderna psicanálise. Mesmo para F., todo o sentido da vida é a morte.” De fato! Como puderam canonizar este homem entre os maiores pensadores de um séc. inteiro? O maior enigma!

Cansado da crescente ambigüidade do mundo, que foge à vontade e à determinação do burguês, passa este a lançar mão da análise, do budismo, da ‘ciência cristã’, da teosofia e da psicologia, como se fossem um enquadramento do que é interno, de forma ainda cambaleante, em busca a todo momento de um denominador comum palpável, uma tábua de salvação.”

O homem permanece retraído apesar deste interior grandioso e multicolorido.” “Mas espere um momento! será que vemos o verdadeiro sol, as verdadeiras pradarias, nas quais nos enlevamos para fugir da solidão e da frieza dos escritórios e das fábricas?”

…as leis destes anos malditos em que vivemos.” Ah, Rittmeister, como 2020-21 está sendo um pandemônio junguiano, você mal imagina!

Será que posso considerar como importante a minha pessoa e buscar salvação em uma ilha de tranqüilidade aparente, mantendo escondido de mim mesmo o ruído e as lutas desta época, os possíveis privilégios materiais de minha classe, que gozo, apesar dos conflitos psíquicos?”

Vamos permitir que nossos brilhantes contemporâneos manipulem estas psicologias reluzentes de fogo fátuo, em pompa e honra? [E também em bomba!]

Vamos simplesmente observar a parede nebulosa que se ergue entre homens, classes, raças e povos, cada vez mais às expensas destas psicologias da moda, ao invés de fazê-las em união com a ciência e a sociologia?”

É trágico mas verdadeiro que mesmo o mais sublime e teórico idealismo leve sempre ao sofismo, ao endeusamento do Eu de uma elite, de uma raça, e termina finalmente no mais sangrento imperialismo.”

7. A NEO-PSICANÁLISE DE SCHULTZ-HENCKE (1892-1953): UMA VISÃO HISTÓRICA E CRÍTICA – Helmut Thomä (trad. Helena Lins e Barros)

Desde que Fenichel (1929) publicou um comentário crítico sobre o livro Einführung in die Psychoanalyse (Introdução à Psicanálise) de Schultz-Hencke, há mais de 30 anos, nada de importância substancial voltou a aparecer nas páginas psicanalíticas sobre a teoria das neuroses que S-H chamou de Desmologia a partir de 1934 e que após o término da 2ª guerra recebeu o nome de neo-psicanálise. (…) A partir de 1937, o desenvolvimento da psicanálise se deu no lugar onde a maior parte dos analistas que buscavam refúgio encontrou melhores possibilidades de trabalho: nos países anglo-americanos.”

Quando, após a guerra, S-H mudou o nome da Desmólise para neo-psicanálise, surgiram diferenças científicas que passaram a ser discutidas por psicanalistas e neo-psicanalistas. Entretanto, pouca coisa veio a público. Müller-Braunschweig, como expoente de um grupo, expôs rapidamente em uma brochura intitulada Streizüge durch die Psychoanalyse (Incursões em psicanálise) sua posição em relação à neo-psi.. Por ocasião do 1º Congresso Internacional do pós-guerra, realizado em Zurique em 1949, ele pronunciou uma conferência sobre a neo-psi. de S-H. A súmula inglesa dessa palestra ficou um tanto desconhecida. O próprio S-H foi bem mais produtivo e publicou várias apresentações sistemáticas, como Der gehemmte Mensch (O homem inibido) (1940), Lehrbuch der Traumanalyse (Compêndio da análise dos sonhos) (1949) e Lehrbuch der analytischen Psychotherapie (Compêndio de psicoterapia analítica) (1931). Além disso, empreendeu uma interpretação psicanalítica da esquizofrenia em seu livro Das Problem der Schizophrenie (O problema da esquizofrenia) (1952). No estado em que as coisas se encontravam, uma crítica à neo-psi. proveniente da psi. só poderia vir de dentro da Alemanha. (…) No livro de Munroe, Schools of Psychoanalytic Thought, p.ex., não consta o nome de Schultz-Hencke.”

A posição de S-H no III Reich era bastante cômoda, pois com as mudanças terminológicas por ele implementadas desde antes de 1933 não teve sua liberdade didática molestada.”

Naquela época, os congressos médicos de psicoterapia eram de alto nível” HAHAHAHA

A Psicologia Individual pressupõe a existência de sintomas e acaba a análise naquele fenômeno que seria descrito pela psi. como benefício secundário da doença.”

S-H retirou seus conceitos mais importantes (impulsão e inibição) de F. e Klages.”

A vontade não pode jamais produzir movimento, mas apenas dar subsídio a um movimento de fuga” Kl.

Ele faz parte daqueles autores que raramente fazem citações ou fundamentam com maior precisão as mudanças terminológicas. Não tenho conhecimento de que exista em alguma parte qualquer explicação de qual seria a vantagem de falar-se em inibição no lugar de recalcamento.”

Fenichel via com certa simpatia o esforço de Schultz-Hencke que, numa Introdução à psicanálise, procurava atrair o leitor com a descrição dos fatos, e não com artifícios de nomenclatura.”

Em S-H os 3 estágios (oral-anal-fálico) se tornam 7.

S-H não considera as fases pré-genitais do desenvolvimento como sub-espécies do conflito edípico, mas as toma em sua significação específica.” No que está correto.

A CRÍTICA SENTIU: “As imagens e equações de S-H, incomparavelmente mais pobres que as de F., favorecem especialmente a mistura da teoria com a experiência cotidiana”

A censura oficial do III Reich parece ter agido diferentemente em épocas distintas. Pois embora não haja teoricamente diferença substancial entre O homem inibido e os livros Lições sobre sonhos e Técnicas da Desmólise cujos esboços datavam de 1933, Schultz-Hencke foi proibido de publicá-los, como ele próprios nos informa.”

A psicanálise, excetuando-se seu método especulativo e teórico, é o estudo do homem inibido. Nem mais, nem menos. Na verdade, é uma desmologia e seu método o da desmólise. Se seus seguidores ortodoxos teimaram em proteger sob qualquer circunstância sua teoria especulativa de uma justa decadência e em chamar de ‘psicanálise’ apenas a este todo de verdade empírica, definições e especulação, então seus elementos básicos verificáveis deverão receber um novo nome . . . Não se pode imaginar que a ciência se adaptará a seu mundo conceitual insuficiente. A psi. não é uma ‘nova psicologia’ e sim um setor desta. E a este setor diz respeito a inibitoriedade de todos os seres humanos, com suas conseqüência. Investiga e tira conclusões sobre o homem inibido, e não sobre o homem em geral. (…) Este mal-entendido, como se se tratasse do restabelecimento da desinibição, pôde se manter porque mesclaram-se muitas especulações, definições e erros teóricas à teoria freudiana, cometidos pelo próprio F. e seus alunos. Especialmente a teoria da libido, o pan-sexualismo. Apenas o observador mais atento pôde perceber que dos fatos psíquicos descritos (e não da especulação sobre eles!), uma parte considerável nada tinha a ver com a sexualidade, que, surpreendentemente, no máximo a ela se acoplavam. (…) A própria literatura psicanalítica é em grande parte culpada, se o mundo não se preocupa com os fatos expansivos mencionados, e a psicologia comum dos homens sensatos fêz muito bem quando recusou a teoria sexual. ” S-H

S-H sabia que a agressividade já tinha há longo tempo um papel independente na teoria psicanalítica. Melanie Klein já publicara 2 obras importantes (1928 a 30), postulando a hipótese da destrutividade primária como uma das pedras angulares de sua técnica. (…) A maioria dos psicanalistas percebeu a ameaça de aniquilamento e conseguiu pôr-se a salvo.”

S-H é o bode expiatório: ele não citava o Édipo! Herético!

Resumindo, podemos dizer que todos os princípios característicos da neo-psi. estão contidos no livro representativo dessa fase, O homem inibido, de ‘40.”

O antigo Instituto Psicanalítico de Berlim, o 1º de seu tipo no mundo, não fôra restabelecido ao mesmo tempo que a Sociedade. Isto deve, antes de tudo, ser imputado ao fato de que nos 1os anos do pós-guerra a idéia de um trabalho comum abrangendo diversas correntes, como o extinto Instituto alemão, ainda não perdera seus atrativos.”

A idéia de representação de todos os psicoterapeutas por uma única instituição, a comissão docente, foi interrompida pelo desligamento de um grupo de junguianos (Bügler, Lemke). Mas, como outros psicoterapeutas igualmente junguianos ou simpatizantes (Kranefeldt, Schirren) permaneceram na ‘comissão’, esta abrangia representantes de todas as correntes, assim como também seu sucessor, o Instituto de Psicoterapia, fundado em 09/05/49.”

Se no mundo todo a todo-poderosa psicanálise fosse obrigada a submeter seus formandos a centros policlínicos, muitos dos absurdos e abusos dessa ‘escola’ jamais viriam à tona.

S-H (…) Acreditava ter separado o ouro da psi. de todas as impurezas, e criado uma síntese com os metais nobres das outras correntes.” Verdade ou não, isso nem Klein, nem Lacan tampouco estiveram perto de conseguir!

Segundo consta, ao amalgamar Adler, F. e Jung, foi este último quem “se deu pior” na neo-psicanálise, porque seus conceitos esotéricos eram realmente inassimiláveis por uma psicoterapia séria!

Consta da ata não-publicada da assembléia geral da DPG de 17 de abril de ‘48 que S-H achava que as variações de teoria freudiana ocorridas na América caminhavam na mesma direção que sua neo-psi.. E como na América não havia um Hitler, deve-se deduzir que este foi menos responsável pelo desenvolvimento científico na Alemanha do que uma tendência geral e independente da própria ciência.”

Um leitor pouco familiarizado com a história poderia deduzir do programa deste Congresso Internacional de Düsseldorf (1961) que a atual DPG é a herdeira espiritual daquela sociedade fundada em 1910. Na realidade, a continuidade organizacional e científica da psicanálise alemã foi destruída pelo nazismo. (…) De fato, era tão grande o predomínio do grupo neo-psicanalítico, que os psicanalistas que cercavam Müller-Braunschweig e que não queriam a Sociedade nova fundada sobre os pilares da teoria de S-H se viram forçados, em 1950, a fundar a DPV (que neste ínterim obtivera o reconhecimento internacional).”

A galera que o Manual de Psiquiatría designa como neo-psicanalistas: “Há trabalhos de outros autores, como, p.ex., Nunberg, Anna F., H. Hartmann, Rapaport (sic), Abraham, Rado, Fenichel e M. Klein.”

Este povo, outrora glorioso, não dá mais conta de ‘carregar’ seu passado histórico. Por quê? Pela decadência e degenerescência dos arianos, desde sua mistura com o povo ralé (Pöbelvolk), que torna a raça mais forte impura e enfraquecida.” Theodor Fritsch, Handbuch der Judenfrage (Manual de Questões Judaicas), 1919.

Säuberung é a palavra utilizada na língua alemã para designar os processos de Moscou, [?] é a palavra que Heidegger utiliza (na Introdução à Metafísica) para significar os expurgos nazistas de 1933-35 nas universidades, i.e., exatamente, a exclusão dos professores de origem judaica e de ideologia marxista ou democrática.”

O próprio Abraão, patriarca do povo judeu, teria sido um desses expulsos (de Ur na Caldéia). São Tschandala, i.e., os excluídos, criminosos, leprosos, vergonhosos, sem-raça, doentes contagiosos, etc.”

8. NAZISMO E PSICANÁLISE: OUTRAS RELAÇÕES – Chaim Samuel Katz

Por vezes, quando se lêem certos estudos acerca da psic. em suas relações com o nazismo, fica a impressão de que cada uma destas ‘entidades’ (a psicanálise, o nazismo) seguia um destino essencialmente marcado e distinto, e que seu encontro se deu unicamente por exercício e inscrição violento da parte do nazismo. Ou seja, nada haveria na psic. que a aproximasse do nazismo, a não ser sua coerção. Esta é a concepção que se funda, p.ex., no livro de Jones, obra histórica oficial da psicanálise erigida em torno de F..”

Como, então, explicar, p.ex., que as 2 sociedades psicanalíticas alemãs contemporâneas – a ‘nazista’ DPG e a ‘não-nazista’ DPV (ligada à IPA) se reuniram para formar uma sociedade mais ampla?”

a psicanálise jamais se preocupou diretamente com o nazismo, a não ser quando o nazismo começou a se preocupar diretamente com a psicanálise.”

se os psiquismos se fazem sempre iguais, não haveria ao menos que perguntar sobre quantos psicanalistas negros existem no Brasil? E quantos analisandos negros temos? Mas não se devem procurar elaborações sobre o assunto nas publicações da IPA, uma vez que o assunto é rapidamente eliminado, desde sua não-pertinência (atitude semelhante à da Direita estruturalista, da escola de Lacan [!]).”

FREUD IN A NUTSHELL: “Escolhi trabalhar com uma linha de investigação do que se poderia denominar de ‘saber impotente’, i.e., um conhecimento que, não propondo uma linha do vir-a-ser ou de dever-ser mas examinando o que é, perde as características do saber que idealiza, projeta, recomenda, modifica.”

Observe-se que depois da guerra só se diz IPA, enquanto que até 1936 mais ou menos esta se conhecia como IPV [seu equivalente germanófilo].”

Em 1932 o IZP publicou 2 ensaios, um de Reich criticando as concepções freudianas sobre a pulsão de morte, e outro de Bernfeld, criticando o ensaio de Reich. [Rs!] Deve-se levar em conta a importância de Reich para o movimento psicanalítico (o leitor conhece geralmente as críticas e análises políticas de Reich, mas ignora que ele fez a mais importante pesquisa sobre as técnicas psicanalíticas, especialmente de suas facetas não-verbais), e também o fato de que Bernfeld foi vice-diretor do Instituto de Formação psic. de Viena, em 1926.” “Os participantes da Sexpol podem elaborar teorias diferenciadas sobre aspectos teóricos e técnicos, o que não se admite é que o político apareça com características factuais (e foi exatamente esta faceta que marcou a Sexpol).”

Podem-se procurar todos os volumes posteriores das revistas oficiais, e jamais se encontrará nenhuma referência à similitude de certas concepções da psic. com a escola de Frankfurt. (…) [Mas] quando há proximidade entre as teorias psicanalíticas e a política oficial soviética (ambas anti-religiosas), certas notícias podem se manifestar.”

Fenichel, seguramente o mais proficiente resenhista de todos os que escreveram em órgãos oficiais da IPA, produz amplamente. Só no caderno 3 do IZP-IMAGO de ‘39 há 58 resenhas de Fenichel de livros e ensaios! Mas, para se entender suas posições ‘micro-políticas’, há que lê-lo em outras publicações.”

Ainda no caderno 3 deste ano, Fenichel, ao resenhar um ensaio de Reich (‘As necessidades sexuais das massas trabalhadoras e as dificuldades do tratamento sexual’), chegará a afirmar que ‘as neuroses das massas não podem ser tratadas nas grandes massas através de terapia individual, mas só combatidas profilaticamente’. Ora, esta ‘técnica ativa’ é uma modalidade política, e suas conseqüências (bem como o instrumento teórico que as funda) serão inteiramente distintas daquelas da psicanálise ‘normal’.”

No Boletim, editado por Anna F., nos avisos da Executiva Central, lê-se: ‘II – O Congresso – Em virtude da situação interna séria na Alemanha, cuja duração e extensão ainda não pode ser prevista, a Executiva Central resolve adiar para o próximo ano o 12º congresso internacional (…), que se deveria ter reunido em Interlaken (Suíça)’. O que é ‘situação interna séria’ na Alemanha? Se o leitor consultar todos os volumes citados, jamais saberá.”

Por que a assimetria URSS-Alemanha? “É que a Alemanha é uma Sorgenkind, mas aliada, passível de recuperação; enquanto a ‘Rússia’ [os malditos da IPA nem sequer se prestavam a escrever UNIÃO SOVIÉTICA!] é inimiga, irrecuperável.”

Para Jones, exclua-se, mate-se, inclua-se, salve-se: a psicanálise como essência será sempre igual a si mesma! A Sociedade de Viena passou de 112 psicanalistas e candidatos para 6 membros. Mas isto pouco importa, pois os fenômenos históricos, políticos e sociais não destruirão jamais o noumeno psicanalítico!!”

no informe da Sociedade francesa sobre o que aconteceu durante a Ocupação diz-se que ela se reduziu a DOIS membros, alguns morreram (de quê? como?), outros se juntaram ao exército (de Pétain ou de De Gaulle?), os judeus caíram na clandestinidade. Mas nunca se sabe se alguém colaborou com os nazistas; parece que isto é inteiramente indiferente à feitura da psic.”

Lagache faz um relatório explícito: foi impossível estudar, pois os alemães levaram os livros e proibiram até a citação do nome de F.. Mas durante a Guerra, segundo o psicanalista francês, ‘houve um movimento psicanalítico de resistência’, o que permitirá a retomada da psic.”

Esparsamente pode aparecer alguma notícia sobre campos de concentração: ‘O dr. Ernst Paul Hoffmann (antigo membro da Sociedade de Viena) morreu na Basiléia, em 23/12/44, depois de ter vivido 3 anos num campo francês de internamento (sob o governo de Vichy, controlado pelos alemães).”

INSTITUTO CHACRINHA: “este é o modo tradicional de produzir história à la IPA: primeiro, nada informa; segundo, se informa, não explica.”

Nem o exílio do próprio Freud é lembrado! Quanto à Índia, colônia inglesa, bem, esta vive nirvanicamente!”

O IJP se publicava na Inglaterra. Contudo, manteve uma distância acrítica do nazismo tão grande que jamais se suspeitaria que nesta época os 2 países [nazismo é um país?] estivessem em guerra.”

Quem leu as publicações oficiais da IPA antes e depois da guerra aprendeu, com surpresa, que um psicanalista como Wilhelm Reich é considerado mais inimigo da psicanálise oficial que um Matthias Heinrich Göring.” Nada a acrescentar!

Wälder resenhara um número do Zeitschrift für politische Psychologie und Sexualoekonomie (IMAGO, 1934, vol. XX, caderno 4, p. 504) para afirmar que ou se é marxista ou psicanalista.” “Wälder separa a psicanálise do ‘social’ (e, é claro, do político) e resolve as questões do ‘social’ desde uma certa leitura psicanalítica redutora. Contudo, e sempre, o ‘social’ estará apresentado convertido à psicanálise, e só aí merecerá ser considerado.”

9. A PSICANÁLISE EM BERLIM DE 1950 A 1970 – Gerhard Maetze (trad. Helena Lins e Barros)

A base financeira dos candidatos à formação naquele tempo era muito precária, pois os salários dos jovens médicos não passavam de uma[s] poucas centenas de marcos. Após os exames finais, alguns trabalhavam de graça nas clínicas buscando fazer jus a uma futura colocação remunerada. Após duras reivindicações, o Departamento de Saúde recém-começara a remunerar os serviços profissionais nas clínicas, pagando 50 marcos mensais em dinheiro em lugar do almoço gratuito na estação, à guisa de remuneração.”

APÊNDICE I

(…)

APÊNDICE II

A grande maioria dos teóricos procura pensar os fascismos como uma teoria da totalidade. Num determinado momento algo acontece e – plim, plim – surge o regime fascista. A melhor saída é atribuir tudo ao Estado (quer como fenômeno social novo, quer como manifestação fenomênica de outros fenômenos que não se evidenciam imediatamente), como seu centro organizador exclusivo.

(…)

É o que faz um psicanalista lacaniano. Comparando o fascismo com o despotismo, Mladen Dolar¹ diz que temos inicialmente a história de um nome, o nome do déspota (Mladen Dolar, Prolégomènes à une théorie du discours fasciste in: Analytica, vol. 33, Navarin, Paris, 1983): ‘E que este nome seja capital, pode-se prová-lo pelo absurdo: o acontecimento indiscutivelmente mais decisivo na vida de Hitler aconteceu 13 anos antes do seu nascimento, quando o seu pai trocou o sobrenome familiar, Schichklgruber, por Hitler. Imaginai as massas gritar: Heil Schichklgruber!’ ‘A presença do déspota se faz sentir por um escrito, um sinete – letra volante, significante despido de sentido. Pois o Führer não escreve, e é isto que o caracteriza: dita seu livro na prisão, jamais escreve uma linha.’ E os aspectos econômicos do Nazismo? Dolar diz: ‘É certo que o Führer não quer saber nada dos assuntos econômicos (e, de fato, nada sabe deles). Mas não se dá ao gozo enquanto os outros governam, ao contrário, vive uma vida de ascese para o único emprego digno de um mestre: o de guerreiro’.”

¹ Ele deve encher o cu de dinheiro… Quase que nos sai um BIN LADEN DOLLAR, aliás… Seria o NOME DO SÉCULO…

tais teses pertinentes e cêntricas têm interesse teórico, pois tornam inteiramente desnecessário perguntar sobre o fascismo psicanalítico.”

Bergman (O ovo da serpente) nos ensina mais sobre o assunto dos microaparelhos de poder que um grande número de teorias. Toda teoria ampla tem ainda capacidade de nos ensinar, quando apela para análises concretas (ver, p.ex., Nicos Poulantzas, O Estado, o Poder, o Socialismo, Graal, Rio, 1981, especialmente a ‘Primeira parte’, ‘A materialidade institucional do Estado’).”

Fascismo é um termo lançado pelos próprios fascistas – mais especificamente por Mussolini – consagrado pelos estudiosos e utilizado por políticos, religiosos, etc., e pelo povo em geral. Esta utilização suprimiu – como não poderia deixar de ser – um certo caráter científico da palavra.”

A esquerda muitas vezes, serve-se dele como ‘epíteto injurioso’ contra as forças de direita.” Pois esse termo já estava quase esquecido, quando o fascismo voltou, literalmente, e se tornou de uso banal 40 anos ou 45 anos depois deste texto…

ORIGEM DO “FASCISMO É DE ESQUERDA”: “A direita, por sua vez, aproveitando-se justamente do uso que do termo se faz na linguagem corrente, de se o estender a todos os regimes de inspiração semelhante aos da Itália fascista e da Alemanha hitlerista, sugerem aproximações entre o regime soviético por um lado e as ‘ditaduras fascistas’ por outro.”

Propondo uma interpretação do fascismo com a clara finalidade de inocentar o capitalismo, ou melhor, o capital financeiro de sua formação, William Ebenstein compara-o com o comunismo, usando para isso o conceito de Totalitarismo desenvolvido a partir da reativação dos sentimentos anticomunistas no Ocidente com a ‘guerra fria’.”

Segundo Leandro Konder, é Hannah Arendt que dá o apoio teórico mais consistente para uma crítica ao fascismo baseada no conceito de Totalitarismo: As Origens do Totalitarismo (1951).”

enquanto o comunismo é a forma de totalitarismo tipicamente ligada a povos pobres e subdesenvolvidos, o fascismo é a forma de totalitarismo que aparece em nações mais ricas e tecnicamente mais avançadas” Ebenstein

No caso do (…) fascismo (…) se apóia não somente em uma classe social mas sim ‘em todos os grupos sociais’: os industriais ricos e os latifundiários apoiam o fascismo na esperança de se livrarem dos sindicatos; a classe média o faz ante o temor de unir-se ao proletariado; os trabalhadores juntam-se a estes na busca de melhores condições” “há todavia que contar os nacionalistas que cada país tem, que são vulneráveis a toda promessa de conquista e império”

Esta fundamentação do fascismo em ‘todos os grupos sociais’ é uma de suas grandes debilidades (…) ela implica fazer promessas as mais contraditórias para satisfazer todos que a ele aderiram.”

el fascismo no tiene una declaración de princípios autoritária como la que tiene el comunismo Ebenstein – que tal “metralhar a petralhada”??? fascismo 2.0

Il nostro programa è símplice: vogliamo governare l’Italia” Mussolini

As relações familiares esclarecem este princípio de autoridade: as mulheres, por serem incapazes de usar armas, são ‘automaticamente cidadãs de 2ª categoria e devem ser excluídas das posições de chefatura no governo ou no partido’. A Alemanha nazi demonstrou o seu total desprezo pelas mulheres no ‘ridículo oficial a que se submeteu o matrimônio como um falso preconceito judaico-cristão e ao incitamento às mulheres alemãs para que dessem filhos à pátria fora do casamento.’

O emprego da palavra totalitarismo tem como efeito – e talvez para alguns represente uma finalidade – mascarar as diferenças que se encontram na própria essência dos regimes (comunista e fascista) e de sugerir certas aproximações nem sempre convincentes.” Jean Touchard

Segundo Leandro Konder (…) [o demérito de autores que delimitaram o fascismo ao período entreguerras, como Ernst Nolte, Franz Gress e Renzo De Felice, é que] eles ‘expulsaram o conceito da história que está sendo feita em nossos dias, obrigando-o a exilar-se no passado; acabaram contribuindo para confundir e desarmar as forças antifascistas, levando-as a não poderem identificar claramente as dimensões mundiais com que o fenômeno fascista pode reaparecer, modificado, em nossa época, no interior do capitalismo monopolista do Estado’.”

Não faz o menor sentido criar um conceito que só se aplicaria à Alemanha e à Itália das décadas de 20 a 40! Em vez de restringir o termo fascismo a estas duas instâncias, esses autores datados deviam é ter abolido o termo e se recusado a usar qualquer um para descrever o que houve nos dois países… Hitlerismo e mussolinismo seriam já o bastante enquanto nomenclaturas ‘exaustivas’.

A direita é o gênero de que o fascismo é uma espécie.” Franz Gress

É preciso não considerar o fascismo como qualquer coisa de definitivamente caracterizado, é preciso considerá-lo no seu desenvolvimento. Nunca como algo fixo, nunca como um esquema ou como um modelo.” Togliatti

O fascismo é uma tendência que surge na fase imperialista do capitalismo que procura se fortalecer nas condições de implantação do capitalismo monopolista de Estado, exprimindo-se através de uma política favorável à crescente concentração do capital; é um movimento político de conteúdo social conservador, que se disfarça sob uma máscara ‘modernizadora’, guiado pela ideologia de um dogmatismo radical, servindo-se de mitos irracionalistas e conciliando-os com procedimentos racionalistas formais do tipo manipulatório. O fascismo é um movimento chauvinista, antiliberal, antidemocrático, antissocialista, anti-operário. Seu crescimento num país pressupõe uma preparação reacionária que tenha sido capaz de minar as bases das forças potencialmente antifascistas (enfraquecendo-lhes a influência junto às massas); e pressupõe também as condições da chamada sociedade de massas de consumo dirigido, bem como a existência nele de um certo nível de fusão do capital bancário com o capital industrial, i.e., a existência do capital financeiro.” Leandro Konder, Introdução ao Fascismo, 1979

Nolte, El fascismo en su época, 1967

APÊNDICE III

Outra boa parte dos saberes, diante da impossibilidade de inscrever a realidade dos fatos, apela para o desespero. Se o real é impossível, nada há a fazer (menos, é claro, ganhar muito poder e dinheiro com tais teorias; mas afinal, dinheiro e poder são sempre ‘alguma coisa’ contra o desespero, não?).”

APÊNDICE IV

F. dizia que aquele que não recorda (e perlabora) está fadado a repetir. A colaboração da psicanálise com o nazismo não se fez unicamente na Europa, e se repetirá, ao menos enquanto ‘casos’ como o de Amilcar Lobo estiverem destinados ao esquecimento. Os fascismos são uma virtualidade ao exercício psicanalítico, e não mero acidente de seu ‘percurso libertário’.”

* * *

O torturador precisa do torturado vivo, para exercer sua condição de torturador. Assim como o senhor não existe sem o escravo, assim também o torturador não vive sem o torturado. Os defuntos têm um soberano desprezo pela tortura e, nesta medida, representam a morte do torturador. Um médico que cuida do torturado, como membro da equipe torturadora, serve ao torturador e à tortura, desonra o juramento hipocrático, o código de ética, e avilta o exercício da profissão.”

Em 1973, foi o dr. Lobo acusado de torturador pela revista argentina CUESTIONAMOS, em artigo assinado por Marie Langer e Armando Bauleo.” “O dr. Lobo, na ocasião, foi rigorosamente poupado, ao passo que a dra. Helena Viana, sua presumível acusadora, por pouco não se viu obrigada a mudar de país.”

Helio Pelegrino, A crise na psicanálise (pp. 44-6)

De quando a ISTOÉ valia pelo menos o papel em que era impressa (11 de fevereiro de 1981):

Inês. Dr. Lobo, eu acho que conheço o senhor. Meu nome é Inês Etienne Romeu, e eu estive com um médico chamado dr. Lobo na casa de Petrópolis. Outros presos políticos também o conheceram na PE [Polícia do Exército] da Barão de Mesquita.

(…)

Lobo. Eu fui convocado. Eu não fiz o serviço militar e, após terminar o curso de medicina, fui convocado pelo Exército. O que se está levantando é um assunto muito sério: que eu teria participado de tortura. Minha função lá foi exclusivamente de atendimento médico.

(…)

Lobo. Naquela casa não. Lá só estive com ela. Ajudei muita gente, posso chamar várias pessoas. Eu nem sei onde é esta casa, eu era levado lá encapuzado. (…)

Inês. (…) O dr. Lobo nunca conversou comigo. Ele só se dirigia ou ao dr. Pepe, ou ao dr. Teixeira, ou ao dr. Bruno.

Lobo. Eu não sei quem eram.

(…)

Inês. (…) O seu nome de guerra lá era dr. Carneiro.

(…)

Lobo. Minha posição é uma posição de esquerda, [?] podiam até me chamar de dr. Satanás… Eu não me lembro de ter feito essas transfusões de sangue. Só atendi o ferimento.

(…)

Lúcia. Gostaria que Inês rememorasse a cena em que o dr. Lobo lhe aplicou o Pentotal, já que ele não se lembra…

Lobo. Não é que eu não me lembre, eu nego isso.

(…)

Lobo. Posso ter aplicado nela um soro. Glicose. Nunca Pentotal.

(…)

Lobo. Três vezes tentei desligar-me do Exército, numa das vezes me responderam que o requerimento tinha ido parar na 6ª Seção. E o Exército só tem 5 seções.

(…)

Lobo. Esse é o tipo de ajuda que eu posso dar… eu ainda sou oficial da reserva…

Modesto. O senhor é R-1?

Lobo. R-2.”

Nessa casa, entre 8 de maio e 11 de agosto de 1971, Inês Etienne, militante da organização clandestina Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), acusada de participar do seqüestro do embaixador suíço Giovanni Enrico Bucher, em 1970, presa pelo delegado Sérgio Fernando Paranhos Fleury na avenida Santo Amaro, em São Paulo, em 1971, e condenada à prisão perpétua, depois reduzida para 8 anos, que cumpriu integralmente, passou 96 dos piores dias de sua vida.” “Pentotal Sódico, o chamado ‘soro da verdade’” “foi torturada, estuprada (…) e, depois de cada uma de suas 2 tentativas de suicídio, medicada para recuperar as forças e ser de novo supliciada. Dez anos depois, graças ao telefone 40-90, número que ouviu em uma conversa de seus carcereiros e memorizou, Inês Etienne conseguiu localizar a casa de seus pesadelos.” “Explicou que emprestou a casa, entre 71 e 78, ao ex-comandante da Panair e ex-interventor na prefeitura de Petrópolis Fernando Aires da Mota, ligado segundo Lodders a um grupo paramilitar. ‘Ele é um prócer da Revolução de 64 (SIC), um homem de muito prestígio político’, conta Lodders, ‘eu não tinha como negar’. Ele nega, porém, que tivesse conhecimento de que na sua casa se praticavam torturas.” “Fernando Eduardo Aires da Mota, presidente da seccional da OAB de Petrópolis e filho do ex-interventor, chegou a tentar matar o dono da casa.” “O coronel Homem de Carvalho [Pinóquio], comandante da Polícia do Exér. entre 1971 e 72, e hoje na reserva e próspero empresário, proprietário da Homem de Carvalho Incorporações, também nega qualquer envolvimento”

Apesar de profundamente anticomunista e de ser considerado um dos oficiais mais ‘duros’ do Exér., o general Sylvio Frota nunca tolerou o uso de torturas contra prisioneiros políticos. Por isso suas relações com os homens do COD-DOI (sic) do Rio de Janeiro nunca foram muito cordiais. Elas se deterioraram ainda mais, entretanto, com a prisão por agentes (…) de um parente de um dos oficiais de seu gabinete.”

A casa da rua Arthur Barbosa, n. 668, passou a ser conhecida entre agentes dos órgãos de segurança e prisioneiros políticos como ‘Codão’, e ali foram torturados – e desapareceram – prisioneiros não apenas do RJ mas também de BH, Goiás, Espírito Santo e até do RS, do Nordeste e de SP.”

* * *

Citado por Amilcar Lobo como o outro médico que assistia os presos políticos na PE, em 71, o major Ricardo Falal disse ontem à ‘Folha’, por telefone, que nada tem a declarar sobre a questão, pois está sujeito ao Regulamento Disciplinar do Exército.”

Folha de SP, 7 de fevereiro de 1981.

Nas várias entrevistas que já deu depois das denúncias e reconhecimento por ex-presos políticos, Amilcar Lobo diz muitas vezes que ‘não quer se complicar’, que quer ‘ficar em paz’. Fala tão baixo que quase não se ouve, resiste muitíssimo a tomadas para a televisão, enfim, aparentemente, está com medo. Mas afirma que atualmente não teme nenhuma represália porque seu caso ‘tornou-se público demais’. Ou seja, qualquer ato contra ele seria imediatamente detectado.” “Depois de um estágio de 3 meses no Forte Copacabana, foi para a PE em função de seu aproveitamento, segundo ele, ‘péssimo’.” “Na PE, ele conta que (…) teve seu filho de 8 anos sequestrado ‘apenas como aviso’ durante algumas horas”

Na entrevista coletiva que deu na noite de sexta-feira, minutos antes de receber 6 ex-presos políticos torturados, disse não enxergar, do ponto de vista psicológico, grande diferença entre os terroristas de esquerda e seus torturadores, já que ‘não há distinção entre o sádico e o masoquista, porque todos são sádicos. (…)’”

O psicanalista se diz ‘bode expiatório’. ‘De quem, dr. Amilcar?’ Ele responde: ‘De todos.’ Ou seja, da esquerda terrorista que foi torturada – e que ele considera tão ‘mentalmente desequilibrada’ quanto os torturadores, duas faces da mesma moeda; dos médicos e psicanalistas que, na abertura, cobram das entidades a que pertence o dr. Amilcar Lobo. Ele se declara admirador da Social Democracia, como a praticada na Escandinávia, e aos 6 ex-presos políticos que o identificaram na noite de sexta-feira (…) ele se disse ‘socialista.’”

Amilcar Lobo afirma que seu trabalho na PE era conhecido de seu analista, já que representava enorme fonte de conflito. E que a conclusão chegada em análise era a de que ele deveria deixar o Exército, o que no entanto não foi possível.”

Para ‘dar liberdade à instituição de investigar livremente seu caso’, Amilcar Lobo voluntariamente se afastou da SRPJ (sic) em 1974 e 75, sendo reintegrado em 1976, o que supõe ter a Sociedade concluído por sua inocência.” “De acordo com o próprio Amilcar Lobo, o dr. Leão Cabernite [fascistóide-mor!] apurou ser da psicanalista Helena Beserman a caligrafia na margem da folha da ‘Voz Operária’, enviada à dra. Langer.”

Não se pode, diz Lobo, querer fazer política dentro de uma instituição científica.”

Folha, 8/2/81.

THE DUBBING EFFECT: AN EYE-TRACKING STUDY ON HOW VIEWERS MAKE DUBBING WORK – Pablo Romero-Fresco

Despite being, perhaps along with voiceover, the most criticised (and even vilified) audiovisual translation (AVT) mode, there is little doubt that, generally speaking and from different viewpoints, dubbing works. It is still the preferred form of access to foreign-language audiovisual content for millions of viewers in countries such as Spain, Italy, France and Germany and the preferred choice to translate cartoons and children’s films in subtitling countries (Chaume 2013). Its success is not only commercial, as recent research shows that dubbing is also a very effective translation mode from a cognitive point of view (Wissmath et al. 2009; Perego et al. 2016). Despite the artifice involved in replacing the original actors’ voices for other voices in another language, it seems that (habituated) dubbing viewers still manage to suspend disbelief and become immersed in the fiction of film (Palencia 2002).”

How do we watch a dubbed film? How do we manage to suspend disbelief without being distracted by its artificial nature and by the mismatch between audio and visual elements? In short, what cognitive mechanisms do we activate to make dubbing work?

The aim of this paper is to answer these questions by analysing, with the help of eye-tracking technology, the viewing patterns of spectators watching dubbed and original films. This analysis is complemented by a discussion of other aspects that may be relevant to the perception and overall reception of dubbing, including cultural arguments concerning habituation, psychological and cognitive notions of suspension of disbelief and perceptual phenomena such as the McGurk effect (McGurk and MacDonald 1976).”

When they are first exposed to film, children normally have no knowledge of the artifice involved in cinematic fiction, which means that they go straight from wonder into habituation and automatism. By the time they learn about the prefabricated nature of cinema, film viewing has already settled as an unconscious experience whose enjoyment requires not questioning the reality of what they are seeing, that is, suspending disbelief. Crucially, dubbing audiences are exposed to both original and dubbed films from an early age. They are astounded by the magic of cinema (wonder), regardless of whether or not it is dubbed. The artifice of dubbing (the mismatch between audio and visuals, the almost inevitable lack of total synchrony, even in high-quality dubbing, etc.) is overlooked along with the artifice of cinematic fiction, as they go from wonder to habituation and unconscious automatism. By the time dubbing audiences learn about dubbing (just as when they learn about film), they have already internalised how to watch it without questioning it. In other words, getting used to dubbing, when it happens at an early age, is simply part of the (unconscious) process of getting used to film.”

Even if a particular audience is used to dubbing, there is a tolerance threshold that must be respected with regard to at least two of the key dubbing constraints: synchrony and the naturalness of the dialogue. According to Rowe (1960: 117), this tolerance threshold may vary across countries:

American and English audiences are the least tolerant, followed closely by the Germans. […] The French, staunch defenders of their belle langue and accustomed to the dubbing process since those early days when rudimentary techniques made synchronization a somewhat haphazard achievement, are far more annoyed by slipshod dialogue than imperfect labial illusions. To the Italians, the play’s the thing and techniques take the hindmost, as artistically they should.”

The notion of suspension of disbelief was originally coined in 1817 by the poet and philosopher Samuel Taylor Coleridge (in Parrish 1985: 106), who suggested that if a writer could provide a fantastic tale with a ‘human interest and a semblance of truth’, the reader would suspend judgement concerning the plausibility of the narrative. This term has since been used for film (Allison et al. 2013) and AVT (Bucaria 2008). Pedersen (2011: 22) applies it to subtitling, calling it a ‘contract of illusion’ or tacit agreement between the subtitler and the viewers where the latter agree to believe ‘that the subtitles are the dialogue, that what you read is actually what people say.’”

The McGurk effect (1976) is generally regarded as one of the most powerful perceptual phenomena demonstrating the interaction between hearing and vision in speech perception. It is described by Smith et al. (2013) as ‘an auditory illusion that occurs when the perception of a phoneme’s auditory identity is changed by a concurrently played video of a mouth articulating a different phoneme.’ A typical example would involve the audio of a given phoneme (such as /ba/) dubbed over a speaker whose mouth is visually articulating another phoneme (such as /ga/). Most subjects will report hearing /da/ even though the only sound that is heard is /ba/. Discovered by Harry McGurk and John MacDonald in 1976, this phenomenon shows that speech perception is multimodal and that vision can often be more important than audio in the perception of sounds. From a neurological standpoint, the McGurk effect shows that information from the visual cortex instructs the auditory cortex which phoneme to ‘hear’ before an auditory stimulus is received (Smith et al. 2013). This is generally regarded as a robust effect, i.e. knowledge about it does not seem to eliminate its illusion. The effect has been shown to apply under very different conditions, including different viewers’ profiles (Rouger et al. 2008), audiovisual cross-dressing (combination of female faces and male voices) (Green et al. 1991), cross-cultural comparisons (Rosenblum 2010) and even speakers standing on their heads (Green 1994).”

Could it be that dubbing viewers are amongst the few individuals who have managed to switch off the McGurk effect so as not to be distracted by the asynchronous combination of sound and image? Have they found a way to avoid being put off by the mismatch between lips and audio or do they simply not look at the lips? Should the latter be true, is this an unconscious mechanism and can the above-mentioned early-acquired habit of viewing dubbed films and the ability to suspend disbelief account for this?”

Early studies (Buswell 1935; Yarbus 1965/1967) and also more recent research on face processing and the perception of gaze (Langton et al. 2000; Birmingham and Kingstone 2009) have shown that we tend to focus on faces and, more specifically, on eyes, when looking at other human beings. This may be partly explained by the visual saliency and social importance of eyes (Senju and Hasegawa 2005; Senju et al. 2005). However, most of this research has focused on static images, rather than dynamic viewing. Recent research performed on dynamic face viewing suggests that this attention bias may be task-dependent and not exclusive to the eyes (Gosselin and Schyns 2001). Buchan et al. (2007) found that their participants’ gaze was directed to the eyes when asked to perform emotion judgements and to the mouth when asked to recognise speech. In a recent study aiming to identify what controls gaze allocation during face perception, Võ et al. (2012: 12) concluded that there is no such thing as a general bias to look at someone’s eyes and that, at least during dynamic face viewing, ‘gaze follows function’. In other words, we seem to adjust our gaze allocation dynamically ‘for the purpose of seeking information on an event-to-event basis’ (ibid.: 11). In their study, conducted with 88 participants watching videos with close-ups of different people speaking, the mouth attracted as much as 34% of the gaze allocation. This is in line with the findings obtained by Foulsham and Sanderson (2013), who found a distribution of 71% on the eyes and 29% on the mouth in dynamic face viewing with speaking faces. The percentage of time fixating the mouth has been shown to increase when there is background noise (Buchan et al. 2012), low linguistic competence (Robinson et al. 2015) or poorly synched lips (Smith et al. 2013), which is not too dissimilar to what happens in dubbing.

In contrast with the intense scholarly activity devoted to the analysis of static and dynamic face viewing, the application of eye tracking to dubbing is still in its infancy. Vilaró and Smith (2011) compared the gaze behaviour of viewers watching an animated film in the original English audio condition, a Spanish language version with English subtitles, an English language version with Spanish subtitles and a final version dubbed into Spanish without subtitles. The participants were English speakers who did not know Spanish. The results of the study show evidence of subtitle reading in all conditions (even when they were in Spanish and therefore unhelpful for the participants) and a great deal of similarity in the exploration of peripheral objects.”

Their results confirm the cognitive efficiency and positive reception of both AVT modalities but also that complex audiovisual material may require extra effort from the viewers so as to accelerate their reading process. To our knowledge, no research has yet analysed and compared how viewers watch faces in original and dubbed films. This is the aim of the experiment presented in this article, whose findings, along with the above-included discussions on habituation, suspension of disbelief and engagement, intend to provide a picture of how viewers make dubbing work.”

However, excessive focus on the characters’ mouths may also put off dubbing viewers, making it difficult for them to suspend disbelief and engage with the film. As a result, the hypothesis for this experiment is that given our tendency to (a) lip read and be confused by asynchrony as per the McGurk effect and (b) look at both eyes and mouth in moving faces, we have adopted an unconscious strategy not to look at mouths in dubbing (because there is no useful information to obtained from there) in an attempt, aided by an early acquired and subconsciously internalised dubbing viewing habit, to suspend disbelief and be engaged with the dubbed fiction.”

The first stimulus video was the 6-minute final scene (from 1:36:00 to 1:42:29) of Casablanca (Michael Curtiz, 1942) dubbed into Spanish, of which 2 minutes (from 1:36:12 to 1:38:12) were closely analysed to detect eye movements in close-ups. A second stimulus video consisted of the original English version of the same excerpt, which was used with the control group of native English participants. Finally, the third stimulus video, used to analyse native Spanish viewers’ eye movements when watching an original film in Spanish, was a 6-minute scene (from 0:29:15 to 0:35:23) from Todo sobre mi madre (Pedro Almodóvar, 1999), of which 2 minutes (from 0:30:01 to 0:32:01) were closely analysed to detect eye movements in close-ups. Drawing on Perego et al. (2016), the videos were compared regarding their audiovisual complexity. Despite the significant difference in production year (1942 and 1999) and format (black and white vs. colour), the videos proved to be remarkably comparable regarding duration, speech rate (measured in words per minute), type-token ratio (degree of lexical variation), lexical density, syntactical complexity and number of close-ups”

Participant’s eye movements were recorded using the standalone Tobii T120 eye tracker (Tobii Technology AB, Stockholm, Sweden) integrated in a 17-inch monitor with a 1024×768 resolution that allowed the maximisation of the stimulus display to cover the entire screen. Both the eye-tracking server and the client display application ran on Windows PCs connected via 1GB Ethernet. This eye tracker, which operates at a sampling rate of 60Hz with an accuracy of 0.5°, is unobtrusive, as it allows for a large degree of head movement and ensures natural behaviour, which is important in order to obtain ecologically valid results. During the recording time, the Tobii T120 eye tracker collects raw gaze movement data every 16.6 ms, using a filter to parse the coordinates of the movements into fixations and saccades. For the analysis, two areas of interest were drawn on those shots of the videos that featured close-ups, one covering the characters’ eyes and the other covering their mouths. When using the eye-tracking data to test the above-mentioned hypotheses, the focus was placed on 3 types of measurements that are relevant to gain knowledge of visual attention distribution: number of fixations, mean fixation duration and percentage amount of time spent on the defined areas of interest. A distinction was made between close-ups with dialogue and silent close-ups in order to ascertain whether the presence of dialogue has any impact on the viewers’ eye movements.”

This study involved 42 participants (31 female and 11 male), mostly postgraduate students and young professionals. None of them received course credits or payment for participation. Of those 42 participants, 18 were native English and 24 were native Spanish. All of them had normal or corrected-to-normal vision. A total of 31 participants reported that they did not wear corrective lenses of any sort, seven reported that they wore contacts, and four reported that they wore glasses. Due to poor calibration and other data collection issues, the data from seven participants were discarded from the final analysis, bringing the total down to 35 (15 native English and 20 native Spanish) and dropping the number of males and females to 8 and 27, respectively. The ages of participants ranged from 25 to 60 (M = 28.00; SD = 8.55).”

Participants sat in front of the eye tracker at a distance of 60-70 cm, the eye tracker camera’s focal length. Calibration was performed once for each participant before viewing the first video and required following nine dot targets displayed sequentially on the screen, each shrinking in diameter from 30 to 2 pixels.”

Spanish participants watching Casablanca spent a significantly greater percentage of time looking at eyes than English participants watching Casablanca and that the same group of Spanish participants watching Todo sobre mi madre.”

No effects were observed regarding gender or age. Comprehension was on average very high (5/5 for Casablanca in English, 4.9/5 for Casablanca in Spanish and 4.6/5 for Todo sobre mi madre) and the sense of presence may be regarded medium-high (3.6/5 for Casablanca in English, 3.7/5 for Casablanca in Spanish and 3.8/5 for Todo sobre mi madre).”

the viewing patterns of the Spanish participants watching Casablanca dubbed into Spanish are significantly different: 95% on eyes and 5% on mouths. This extreme focus on the eyes/negative mouth bias is unlike anything found so far in the literature and very different to the way in which the Spanish participants view faces in the original Spanish film used in the experiment, where, after watching the dubbed clip, they show the same distribution (76% vs 24%) found in the literature and in the English group watching the original version of Casablanca.”

these results, which have subsequently been supported by those obtained in Di Giovanni and Romero (2018) with Italian participants, point to the potential existence of a dubbing effect, an unconscious eye movement strategy performed by dubbing viewers to avoid looking at mouths in dubbing, which prevails over the natural way in which they watch original films and real-life scenes, and which arguably allows them to suspend disbelief and be transported into the fictional world. Although not conscious, this mechanism seems to be activated only with dubbed films and is then turned off when watching an original film, where the viewing pattern is aligned with eye movements in real life.”

NOTAS

It is worth noting that eye tracking can only detect the central vision obtained by the fovea (Slaghuis and Thompson 2003). Foveal vision allows us to obtain detailed information typically within six degrees of our field vision, that is, spanning five words in a row when reading printed text at ordinary size at about 50 centimeters from the eyes. Parafoveal or peripheral vision, which can span up to 120 degrees, is thus not detected by eye trackers.” Ora, amigo, isso muda toda a conclusão do estudo! É óbvio que as pessoas simplesmente olham para a face inteira das pessoas na tela!

However, even though peripheral vision can be used to differentiate movement from stillness and even certain types of rhythms and contrast, it cannot help to distinguish colours, shapes or details (Wästlund et al. 2017).” HMM… O que você está dizendo é que NÃO existe visão periférica? Como conseguimos assistir em 16:9 gigantes?