SUBSÍDIO DISCUSSÃO
“Os morfemas identificam-se com radicais, vogais temáticas, prefixos, sufixos e desinências e constituem a menor unidade significativa da estrutura gramatical de uma língua.”
Texto para o fórum (turma F): OS ANIMAIS E A LÍNGUA (núcleo “duro” da linguagem)
Os animais mais desenvolvidos, dotados de órgãos especializados para a emissão de sons, emitem fonemas (a fonologia poderia estudá-los), mas estes não se articulam em diferentes níveis de complexidade (maioria dos animais possui um fonema ou poucos fonemas característicos fáceis de representar em onomatopéias por ligeiras combinações de vogais ou consoantes – “au au”, “sss” – sibilo da cobra –, o “bem-te-vi”, etc.), ainda que muitas dessas formas expressivas despertem o interesse humano e sejam até catalogadas como Arte (o canto mavioso dos pássaros, a “ópera” das cigarras na sua estação). Animais especialmente dotados vocalicamente podem inclusive oferecer morfemas, sempre inconscientemente, reproduzindo a fala humana (exemplo conhecido de algumas aves, capazes de memorizar um grande número de frases ou vocábulos emitidos pelos seus donos, sem por isso terem a capacidade da abstração ou de utilizar-se de conceitos). O interesse humano na “fala dos animais” é tão grande que nós cunhamos fábulas, de Esopo aos irmãos Grimm, em que diversos bichos são antropomorfizados, sendo capazes dos mais filosóficos diálogos. Mas o interesse é sempre humano, parte de nós; e, mediante a idealização das capacidades do reino animal, nosso objetivo é apenas autorreferente.
Sobre as abelhas, que já foram citadas pelos colegas, e constitui tema do segundo capítulo do livro de Espírito Santo Saraiva, me permito, à guisa de introdução, um célebre exemplo de Marx, que certamente leu Plínio, quando diz que “o pior dos arquitetos ainda se distingue da mais habilidosa das abelhas” se se levar em conta o processo mental: bem ou mal, ele prefigura o que está fazendo, tem em mente um resultado final (conceito de uma casa). Em termos lingüísticos, realmente não podemos comparar homem e abelha se por Linguagem entendermos processo cognitivo não-herdado. O código genético pode ser considerado como uma “central de comunicação e de uso da linguagem”, nas visões mais hiperbólicas, mas meu parecer é o de evitar conceder ao conceito de Linguagem um escopo tão amplo como o de Bühler.
Exercício de morfema ou morfologia:
a) maldade
mal/-dade
caráter da ação que é má
ma/l
mau – sujeito que possui o mal (adj.)
mal – substantivo consagrado
malévolo
maligno
etc.
O bom pode fazer o mal.
O bom pode ser mau em dadas circunstâncias.
O bom pode fazer maldades.
O mal pode fazer o bem.
O mal pode ser bom em dadas circunstâncias.
O mal pode fazer bondades.
b) escuridão
escur/idão
caráter do que é escuro, dominância da falta de luz
vastidão
caráter do que é vasto
c) anormalidade
a/norm/al/idade
caráter do que não é normal
a-histórico
iletrado
desarticulado
(exemplos de privações)
normal
norm/al
carn/al
atributo da norma, da carne, etc. (adjetivado)
d) desestruturássemos
des/estrutur/á/sse/m/os
inversão de estruturar (construir//desconstruir, etc.)
estrutura
estruturação
desestruturação
(quando nós) estruturara(mos)
(ele) estruturará (ainda não estruturou)
(ele) estruturara (pretérito mais-que-perfeito)
(se) (ele) estruturasse
(se) (eles) estruturassem
(se nós) estruturássemos
Na hipótese de que nós revertêssemos a condição de uma estrutura.
e) desarmarás
des-a-r-m-a-r-á-s
desarmar
tirar a arma
desamar
deixar de amar
desarmo, desarmas, desarma (atribuição do sujeito que conjuga o verbo)
futuro na terceira pessoa ou na segunda
f) explicar
ex/plic/a/r
explicar
eu explico
implicar
aplicar
explicar, explica, explicação, explicará
Dar uma explicação.
g) incomum
in-comu-m
negação do comum (pouco comum, bastante incomum, singular, inacreditável)
Poderia ser comu-nal, daí o -m- não integrar o morfema principal. Ou plural: comuns
h) deslealdade
des-leal-dade
caráter da ação de quem não é leal
i) imoralidade
i/moral/al/i/dade
imoralizar
moraliza
imoral
imoralista
moralista
moral
moralizar
estado do que carece de atributo moral, ou vai deliberadamente contra tais atributos
j) recontávamos
re-cont-á-va-m-os
Nós contávamos (ação interrompida no passado), fazíamos o relato, depois da primeira vez, de algo
k) descosturariam
des-co-s-tur-a-r-ia-m
alternativas:
desconstruiriam
descoseria
costurariam
Eles fariam (futuro do pretérito, condicional) a inversão da costura
l) exportar
ex-po-r-t-a-r
excomungo
exponho
expor
exporíamos
exporta
exportar
exportaríamos
etc.
Portar ao exterior.
Exercício de fonema ou fonologia:
a) fala
fala
sala
bala
gala
jaula
mala
etc.
fala
fila
fula
freela
folia
etc.
fala
fada
faca
Fafá
farra
fama
fana (fanar, verbo polissêmico)
farpa
fará
farsa
fartar(-se)
falta
fava
faixa
falha
fastia
fala
fale…
falo
falação
falatório
falar
falávamos
fali
b) cana
gana, Jana, Lana, mana, (à) zana;
cena, sina, con(o)a (tabuísmo), cone;
caca, cada, caga, cajá, cala, cama, capa, cara, casa, cassa, cata, cava;
cano
c) calo
galo, colo, caso, cale
d) onda
‘inda (agora), anda, (h)orda, (h)onra, onça, onde
e) passo
baço, maço, peço, posso, poço, pulso, pasto, passe
f) carro
jarro, corro, caro, cabo, caco, Cairo, capro (antigo), carpo, cardo, carco, carbo-, cargo, Carlo, Carmo, carra
ESPECULAÇÃO
“O vocábulo <deslealmente> é composto dos elementos da primeira articulação des-, -leal- e -mente. É importante observar, entretanto, que esses elementos se ligam segundo uma determinada ordem, já que algo como <mentelealdes> ou <lealdesmente> não faz sentido em português.”
Existe sentido, em determinados anagramas de sílabas e palavras, por mais que haja uma troca da função sintática da partícula. Exemplo: -mente, que adverbia os termos, também é verbo conjugado.
Deste modo, apesar de não enxergarmos significado coerente na primeira inversão, vemos uma clara conotação na segunda: “Leal desmente…” e o que quer que possa a isso ser contextualizado. Ex: Ser leal desmente aquele famoso aforismo de que “não existe a Verdade”. Ou simplesmente: Leal desmente. Ou seja, um leal não mente, conserta o que era engodo.
